O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a golpes e fraudes virtuais.
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Política

Investigado por: 11/09/2026

Animes e mangás não foram proibidos no Brasil

Política
Vídeos e postagens nas redes sociais relacionam erroneamente artigos de lei aprovada em agosto à proibição de produções com crianças e adolescentes.

Não é verdade que os animes serão proibidos no Brasil com base nos artigos 241-B e 241-E da Lei 15.487/2026, que institui medidas de enfrentamento e repressão à violência sexual contra crianças e adolescentes, inclusive no ambiente digital e com uso de inteligência artificial (IA), modificando, por exemplo, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

André Luiz de Carvalho Matheus, advogado atuante na área de mídia e liberdade de expressão, explicou ao Comprova que não há na lei uma autorização para banir indiscriminadamente animes, mangás, ou outras produções que retratem personagens crianças ou adolescentes. 

A Lei 15.487/2026 “institui medidas de enfrentamento e repressão ao crime de violência sexual contra criança ou adolescente, inclusive no ambiente digital e com uso de inteligência artificial”. O artigo 241-B pune quem adquire, possui, armazena ou solicita registros que contenham violência sexual contra criança ou adolescente. Já o artigo 241-E detalha quais materiais se enquadram na lei: registros que envolvam crianças ou adolescentes, reais ou fictícios, em atos sexuais ou obscenos. 

Para os críticos, o texto da lei abre margem para uma interpretação tão ampla que poderia incluir os animes com algum nível de “ecchi”, termo japonês que se refere às produções animadas com relação sexual ou amostra de muita sensualidade.

Segundo André Matheus, as obras ficcionais devem ser verificadas caso a caso, considerando-se, entre alguns pontos: o contexto, o modo de produção e a finalidade.

“Uma obra ficcional não pode ser proibida simplesmente porque contém personagens menores de idade, aborda sexualidade, mostra nudez ou retrata situações de assédio, abuso ou violência. Uma série que trate de violência sexual para denunciá-la, por exemplo, não se confunde automaticamente com conteúdo destinado à sexualização ou à exploração sexual da personagem”, explicou o advogado.

Os fãs das produções não serão automaticamente punidos por verem cenas com crianças e adolescentes sexualizados, segundo Carvalho Matheus. “A existência de uma cena incômoda, de nudez ou de violência não equivale, por si, a material de violência sexual na definição legal, nem permite concluir que o espectador agiu para buscar excitação sexual”.

Mangás não foram censurados

A Yppy Productions, produtora brasileira responsável pelas revistas Yppy-ê, Yppy-ecchi e Yppy-ê Sketch, foi citada em postagens que abordam a Lei 15.487/2026 como exemplo de produtora censurada. A Yppy Productions removeu temporariamente de seu site a revista “A Pervertida e o Virtuoso”, história que acompanha o relacionamento entre dois adolescentes colegas de turma. 

Na trama, Augusto é um jovem cristão e Anahí uma colega que “propõe jogos ousados envolvendo suas roupas, deixando o rapaz constantemente dividido entre a tentação e suas convicções espirituais”. Uma das cenas da revista mostra, por exemplo, a adolescente enviando uma foto em que aparece levantando a blusa e mostrando os peitos para o rapaz. Há postagens de divulgação de “A Pervertida e o Virtuoso” no Instagram da produtora que sexualizam a personagem.

A produtora afirmou em postagem no Instagram que a remoção havia sido feita em conformidade com as alterações do ECA Digital. Ao Comprova, Alessandra Leite, CEO da Yppy Productions, afirmou que houve “confusão” da produção em relação à interpretação da lei, mas que haverá modificação no design e na história para que os personagens sejam readequados para o público adulto.

“Queríamos fazer essa adequação desde que o autor foi chamado para publicar com a gente. Então aproveitamos a oportunidade [das dúvidas com a lei] para fazer as edições antes de prosseguir com os próximos projetos”, afirmou.

Crianças e adolescentes ‘fictícios’

Yuri Lannes, advogado atuante nas áreas de Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), tecnologia e tributário, apontou  que a expressão “fictício” é “provavelmente a mais problemática do ponto de vista interpretativo”. Isso porque ela alcança crianças ou adolescentes inteiramente gerados por IA ou criados graficamente. 

Porém, o advogado afirma que a intenção legislativa está relacionada ao desenvolvimento da inteligência artificial generativa, ainda que, por interpretação literal, haja espaço para discutir a incidência também sobre desenhos, animações e outras formas de criação artística.

“É justamente aí que surge uma questão jurídica importante: o objetivo legislativo parece ter sido, em grande medida, enfrentar conteúdo sintético produzido por novas tecnologias, mas a linguagem normativa escolhida potencialmente alcança um universo muito mais amplo de ficção”, diz Lannes.

André Luiz de Carvalho Matheus destaca que os artigos buscam alcançar quem acessa propositalmente conteúdo sexualmente exploratório envolvendo crianças e adolescentes, inclusive conteúdo sintético criado por inteligência artificial. 

“Ela não autoriza a criminalização automática de espectadores de filmes, séries, animes ou jogos, nem transforma toda obra que represente adolescentes em contexto de nudez, assédio ou sexualidade em conteúdo criminoso”, fala o advogado.

O Comprova entrou em contato com o deputado federal Osmar Terra (PL-RS), autor do Projeto de Lei 3066/2025 que originou a Lei nº 15.487/2026, pedindo um posicionamento sobre o caso. Até a última atualização desta reportagem, ele não havia respondido. O espaço segue aberto.

Fontes consultadas: O Comprova entrou em contato com a Yppy e buscou mais informações sobre animes e mangás tirados de circulação no Brasil. Também procurou o deputado Osmar Terra e advogados para analisar os artigos citados.

Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Aos Fatos fez uma publicação sobre o que é fato e o que é falso sobre as novas regras do ECA Digital.

Comunicados

Rede LatamChequea pede à Meta que não substitua a checagem independente pelas Notas da Comunidade

LatamChequea
A rede, que reúne 47 organizações de checagem da região, incluindo o Comprova, alerta que as Notas da Comunidade não são suficientes em contextos de alta desinformação e pede que elas complementem a verificação independente, sem substituí-la.

A Meta anunciou que lançará seu sistema de Notas da Comunidade em países da América Latina que falam espanhol. A iniciativa, segundo a empresa, poderá substituir gradualmente seu programa de checagem independente, do qual atualmente participam 14 organizações na região.

O programa de checagem de fatos independente foi lançado pela Meta em 2016 para combater a desinformação em suas plataformas. Como parte dessa iniciativa, as organizações certificadas pela Rede Internacional de Checagem de Fatos (IFCN, na sigla em inglês) analisam as publicações potencialmente falsas ou enganosas e as classificam de acordo com as evidências disponíveis. A plataforma decide, então, quais medidas aplicar aos conteúdos. As ações, de acordo com suas políticas, podem incluir reduzir a visibilidade do conteúdo, adicionar contexto às publicações e avisar quem as compartilhou de que há novas informações disponíveis. Segundo a empresa, a classificação não implica que o conteúdo seja removido nem que deixe de estar acessível.

Em janeiro de 2025, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, anunciou o fim desse programa nos Estados Unidos, onde foi substituído pelo sistema de Notas da Comunidade, inspirado em ferramenta semelhante da rede social X. Ambos os sistemas baseiam-se em contribuições voluntárias dos usuários, que acrescentam contexto às publicações. As notas são publicadas somente se alcançarem consenso entre usuários, que, normalmente, divergem em suas avaliações.

As evidências disponíveis mostram que esse sistema tem limitações — o que também foi apontado pelo Conselho Consultivo da Meta em um parecer emitido em março de 2026 a pedido da empresa. Em suas advertências, o Conselho Consultivo da Meta destacou a demora que costuma ocorrer na publicação de notas, o número reduzido de notas que efetivamente são publicadas e sua dependência na confiabilidade do ecossistema informativo mais amplo. Também reafirmou o papel fundamental da checagem  independente, observando que esses profissionais “estão entre as fontes mais citadas como contexto de apoio, o que evidencia a dependência das Notas da Comunidade em relação ao trabalho dos checadores”. E acrescentou: “Reduzir o apoio aos checadores de fatos provavelmente afetará as Notas da Comunidade, já que os colaboradores terão menos fontes confiáveis para citar”.

As evidências sobre o funcionamento do sistema de Notas da Comunidade provêm principalmente da rede social X, que oferece dados para a realização de análises independentes. A Meta, por outro lado, não apresentou evidências da eficácia do sistema nos Estados Unidos, embora, em seu anúncio, mencione números gerais sobre a quantidade de notas e seu alcance, sem dar mais detalhes.

A rede LatamChequea dá as boas-vindas a novas ferramentas que permitam combater a desinformação. As Notas da Comunidade, que serão testadas nos países de língua espanhola da região, podem ser uma contribuição valiosa se forem implementadas como um complemento à checagem independente, ampliando o alcance do trabalho dos checadores e aproveitando o conhecimento coletivo. A preocupação reside na possibilidade, levantada pela plataforma, de que a verificação independente seja substituída por esse sistema.

Se o apoio às organizações que verificam as informações for reduzido, com que fontes confiáveis contarão aqueles que escrevem as notas da comunidade? Substituir a verificação independente enfraquecerá as fontes das quais o próprio sistema se alimenta.

Em um momento crítico, em que os problemas gerados pela desinformação na região foram agravados pelo aumento de conteúdos gerados e manipulados por inteligência artificial, reduzir as ferramentas para combater a desinformação é especialmente preocupante.

LatamChequea é a rede de verificadores latino-americanos composta por 47 organizações, incluindo o Projeto Comprova.

Confira aqui a publicação original deste comunicado.

Eleições

Investigado por: 09/09/2026

Vídeo não mostra Lula sendo hostilizado no interior de SP; imagens são de protesto na Albânia

Eleições
Perfil desinforma ao usar gravação da Revolução dos Flamingos, realizada por albaneses no primeiro semestre deste ano; petista esteve no interior de São Paulo em 5 de setembro para participar de ato político com aliados.

O veículo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não foi hostilizado com uma chuva de ovos em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, em 5 de setembro, ao contrário do que aponta um vídeo compartilhado no X. Em 9 de setembro a publicação já havia alcançado mais de 2,3 milhões de visualizações. Na verdade, o registro se refere a uma onda de protestos na Albânia, conhecida como Revolução dos Flamingos, e não à chegada de Lula ao interior paulista.

A partir de uma busca reversa feita pela ferramenta InVID, foi possível identificar publicações de julho de 2026 com uma gravação similar à do vídeo descontextualizado. O movimento na Albânia levou milhares de pessoas às ruas para contestar a construção de um empreendimento turístico de luxo associado à família de Donald Trump, numa zona ambientalmente protegida. 

Ao observar as sinalizações de trânsito que aparecem na publicação, também é possível concluir que o vídeo não foi gravado em território brasileiro, uma vez que as placas não correspondem ao padrão de sinalização vertical de regulamentação definido pelo Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN).  

O petista esteve no interior de São Paulo em um ato político que reuniu aliados, como o candidato a governador Fernando Haddad (PT) e as candidatas ao Senado Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB). O comício levou cerca de 8 mil pessoas, de acordo com o levantamento da Polícia Militar. Além do evento, Lula também visitou o futuro campus da Universidade de São Carlos (UFSCar), onde conversou com professores e estudantes. 

Ao Comprova, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) afirmou que não houve, em nenhuma das agendas cumpridas pelo presidente, qualquer ato semelhante ao do post no X. 

Quem criou a postagem e qual é o seu interesse na disseminação do conteúdo? 

A postagem foi criada por um perfil que se identifica como conservador e possui 1.103 seguidores na plataforma X. A conta já publicou outros conteúdos desinformativos e/ou com tom sarcástico sobre o cenário político no Brasil, alinhados a pautas e posicionamentos associados à direita. 

O Comprova fez o uso de ferramentas de busca reversa além de pesquisar pelo nome do perfil e também pelo nome completo em outras plataformas como Instagram, TikTok e Facebook para comparar resultados e identificar perfis que provavelmente pertençam à mesma pessoa, mas não encontrou mais informações.

Quais táticas de persuasão foram utilizadas pela publicação? 

O post possui como tática principal a alteração no enquadramento (framing) da cena, pois o vídeo é apresentado dentro de uma narrativa específica (a de que Lula teria sido alvo de hostilidade em São José do Rio Preto), direcionando a interpretação do público antes que ele conheça a verdadeira origem das imagens. 

Além disso, também é possível identificar o apelo emocional e polarização política, pois ao vincular o vídeo a Lula a publicação explora as divisões políticas atuais e incentiva reações de apoio ou rejeição ao presidente por parte do público. Como a narrativa sugere uma demonstração de rejeição popular ao presidente, apela para a indignação ou celebração do usuário que está vendo o conteúdo. 

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova  já checou diversos posts com vídeos falsos ou tirados de contexto para desinformar a respeito de Lula. Recentemente, verificou conteúdo que descontextualiza fala dele em relação a garis. Aos Fatos e AFP também verificaram conteúdos semelhantes.

Notas da comunidade: Usuários sinalizaram no X que o vídeo está descontextualizado e a inteligência artificial da plataforma escreveu: “O vídeo compartilhado não foi gravado no Brasil e não mostra o presidente Lula em São José do Rio Preto. A gravação contém sinalizações viárias típicas da Europa. A visita de campanha de Lula à cidade ocorreu normalmente”, escreve a nota, seguida do link para a matéria de O Globo sobre o ato de Lula em São José do Rio Preto. 

Política

Investigado por: 04/09/2026

Documento atribuído à PF sobre conversas entre Nikolas e Vorcaro é falso e foi gerado por IA

Política
Narrativa sobre o relatório, de que não haveria indícios de crime nas conversas entre ambos, foi publicada por sites e por perfis nas redes, inclusive o do deputado.

Depois do áudio do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) para Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, ter sido divulgado na quinta-feira (3), circularam nas redes sociais conteúdos dizendo que a Polícia Federal (PF) havia concluído em relatório não haver crime, acusação formal ou indiciamento no caso das mensagens. O próprio deputado chegou a compartilhar a publicação com a informação em seu story do Instagram, mas o documento atribuído à PF é falso. 

Sites como o Diário360 e Pleno News (que foi verificado pelo Comprova em outras ocasiões) também publicaram textos sobre o suposto o relatório. O documento tem o logo da Polícia Federal e cita a operação Compliance Zero. Esse suposto relatório preliminar apresenta mensagens e áudios envolvendo Ferreira e Daniel Vorcaro. O deputado tratou com Vorcaro de uma negociação envolvendo um ex-assessor e um ativo minerário.

A Polícia Federal confirmou ao Comprova que o documento citado não foi produzido pela corporação.

Além disso, consulta feita com o SynthID, ferramenta que permite verificar conteúdos gerados por inteligência artificial, encontrou marca d’água proveniente da OpenAI, dona do ChatGPT.

Ainda na quinta-feira (3), o Aos Fatos publicou uma checagem com a informação de que o relatório era falso, mostrando que a ferramenta apontou ser conteúdo gerado por IA. Análise de manipulação de imagem feita pelo Comprova também aponta fortes indícios visuais e estruturais de falsificação digital devido a fatores como padrões gráficos inconsistentes, desalinhamento de blocos de texto, vestígios de edição no fundo da folha – como granulação irregular no padrão do papel – e inconsistências formais nos termos e logotipos institucionais.

Há também erros institucionais na imagem. O cabeçalho cita a “Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado”, mas o nome oficial de departamento equivalente na Polícia Federal é DICOR – Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção.

Qual a alegação do post investigado e quais são as suas fontes?

O texto do Diario360 afirma que “O relatório da PF, até o momento, não aponta que os contatos registrados tenham configurado crime ou prática irregular por parte do deputado”.

O conteúdo trata a informação como “exclusiva”. Não há links ou citações de outros jornais, de modo que o leitor não pode fazer a própria apuração. O texto atribui algumas das declarações a “aliados do deputado”, além da PF, e não é assinado por um jornalista.

Quem criou a postagem e qual é o seu interesse na disseminação do conteúdo? 

O conteúdo foi publicado pelo site Diário360, que tem cerca de 600 mil seguidores no Instagram. A publicação no Instagram acumulava 58 mil curtidas até a publicação deste texto.

O domínio do site foi registrado há menos de um ano, em 15 de outubro de 2025, e a última alteração cadastral foi feita em 20 de maio de 2026. 

Não há informações públicas no site de quem são os integrantes do Diário360, mas é possível ter acesso a elas a partir de publicações no Instagram. 

Em 19 de novembro de 2024, Fabiano Braga, então candidato a vereador de Fortaleza (CE) pelo Partido Liberal (PL), compartilhou em seu perfil do Instagram a criação do Diário360. Desde então, ele aparece como um dos principais porta-vozes do Diário360, celebrando marcos do site e participando de cortes de vídeos no YouTube.

O Comprova procurou Nikolas Ferreira. O deputado afirmou, via assessoria, que repostou o conteúdo do portal de notícias que havia publicado o relatório. Mas, depois que descobriu que o conteúdo era falso, deletou o story. 

A reportagem também tentou contato com o Diário360, mas não houve retorno até a publicação deste texto.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O texto do Diário360 usa o selo “exclusivo” no título para construir uma manchete que induza o leitor a acreditar que a informação “PF não aponta irregularidade contra Nikolas Ferreira” é verdadeira. O site aproveita um assunto que está em alta  para captar engajamento sem citar fontes, links ou documentos para que o leitor possa fazer sua própria verificação. O layout do veículo também é similar ao de outros meios  de imprensa, o que confere credibilidade aos conteúdos publicados. 

O uso da imagem de um documento atribuído à PF em uma publicação no X também pode levar pessoas a acreditarem no conteúdo. Essa é uma tática de imitação de fontes confiáveis, combinada com o uso de conteúdo manipulado.

A estratégia visa induzir o público a aceitar o material como uma prova oficial e autêntica de um procedimento investigativo.

Fontes que consultamos: O Comprova entrou em contato com a Polícia Federal, que garantiu  que o documento compartilhado nas redes sociais é falso. Também analisou publicações no Instagram, eventualmente chegando a nomes ligados ao Diário360, que não estão citados de maneira clara no site. 

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Aos Fatos, Estadão Verifica e Agência Lupa foram algumas das agências que também verificaram o laudo atribuído à PF. 

Contextualizando

Investigado por: 04/09/2026

Lula não menosprezou garis durante evento em BH; discurso foi tirado de contexto

Contextualizando
Além de omitir contexto em que presidente ressaltou relevância da limpeza urbana, postagens enganosas inventam suposta recusa de coletores em trabalhar.

Fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre garis é tirada de contexto em publicações no X e no Instagram. Juntas, as postagens somam quase 2 milhões de visualizações. Os perfis citam trechos de uma declaração de Lula durante um evento em Belo Horizonte (MG), e insinuam que, na ocasião, ele teria menosprezado ou ofendido a categoria.

Apesar das postagens verificadas alegarem que houve um movimento nacional liderado pela categoria dos garis para deixar de recolher lixo de residências com bandeiras ou fotos do presidente Lula, o Comprova não identificou registros ou menções que confirmem a existência da suposta mobilização. 

O que Lula declarou de fato a respeito dos garis

Durante o Ato Nacional Mulheres com Lula, realizado no dia 29 de agosto, em BH, Lula discursou sobre a importância de buscar oportunidades de estudos para entrar no mercado de trabalho e afirmou: ‘Tudo na vida é uma questão da gente descobrir o potencial da gente. Quando eu passo na rua e eu vejo aquelas pessoas que trabalham colhendo lixo, é uma profissão muito pobre, porque não é uma profissão que dá orgulho. ‘Eu sou lixeiro’. O cara tem orgulho de falar ‘Eu sou engenheiro, eu sou médico’, mas lixeiro é uma coisa pobre de quem não pode estudar”. 

No entanto, a gravação que circula nas redes sociais destaca apenas o trecho em que ele afirma que a coleta de lixo é uma profissão muito pobre e que não traz orgulho, omitindo a continuação da fala. Na sequência, o presidente afirmou que os trabalhadores de limpeza urbana exercem uma função essencial para a sociedade.

“Eu fico pensando se aquelas pessoas, que fazem a limpeza na rua, soubessem a importância do trabalho deles, se eles soubessem que se eles não tirarem lixo durante uma semana, as pessoas que não enxergam ele durante o dia inteiro vão passar a enxergar, a gente começa a mudar”, disse Lula. 

Procurada pelo Comprova, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República orientou que a demanda fosse direcionada à assessoria da campanha de Lula. Em nota, o PT repudiou o uso de declarações do presidente “de forma distorcida e fora de contexto para desinformar” e informou que avalia medidas jurídicas cabíveis. A sigla sustentou que o conteúdo divulgado omitiu propositalmente o trecho em que o candidato elogia a categoria dos garis, qualificando a distorção como “desonesta e manipuladora”.

Na checagem, a reportagem não localizou registros ou indícios que confirmem a existência de mobilização organizada de trabalhadores da limpeza urbana para suspender o recolhimento de lixo em imóveis com bandeiras ou imagens de Lula.

Veja as táticas de persuasão usadas nos posts

  • Apelo emocional: as publicações usam termos com forte carga emocional, como “fala preconceituosa”, para provocar indignação e estimular uma reação imediata do público.
  • Enquadramento (framing): os títulos apresentam o episódio a partir de uma interpretação específica sobre uma reação dos garis, “prometem não recolher mais lixo”, e na associação com Lula e o PT, direcionando a leitura do acontecimento antes mesmo de o leitor conhecer o contexto.
  • Ênfase visual: em uma das postagens, a palavra “não” aparece destacada em amarelo, assim como “recolher mais lixo em casas com bandeira de Lula ou do PT”. Isso faz com que a mensagem principal seja percebida rapidamente, mesmo por quem não leia o restante.
  • Polarização política: as publicações associam diretamente a situação a “Lula” e “PT” e um suposto preconceito com a profissão de coletor de lixo, o que estimula uma reação de grupos favoráveis ou contrários ao presidente.
  • Generalização/representatividade: a imagem e o texto apresentam a reação atribuída aos garis como elemento central da narrativa. Isso pode levar o leitor a interpretar a situação como uma reação coletiva, dependendo de como a informação original é apresentada.
  • Apelo à indignação: a combinação entre trabalhadores da limpeza, uma suposta fala preconceituosa e símbolos partidários cria uma narrativa de conflito social e político, o que aumenta o potencial de compartilhamento.

Fontes consultadas: O Comprova fez uso de ferramentas de busca reversa para encontrar registros sobre movimentos da categoria dos garis, assim como o vídeo original do Ato Nacional Mulheres com Lula, em Belo Horizonte, em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou na ocasião.

Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Estadão Verifica já havia feito uma checagem semelhante sobre o assunto e concluído que estava fora de contexto. O UOL também fez a verificação dos posts enganosos que circulavam em redes sociais reproduzindo o discurso de Lula.

Golpes virtuais

Investigado por: 04/09/2026

Golpistas enviam e-mail com logo da Netflix para roubar dados de assinantes

Golpes virtuais
Eles reproduzem elementos visuais da plataforma de streaming ao aplicar o golpe; tática é conhecida como phishing.

Golpe da Netflix

Criminosos têm utilizado e-mails para tentar roubar números de contas ou obter outros dados de usuários da plataforma de streaming Netflix, que, somente no Brasil, possui mais de 25 milhões de assinantes. Esse tipo de fraude é conhecida como phishing, assunto já abordado pelo Comprova, e seu objetivo não é invadir a conta da Netflix do usuário, mas fazer a pessoa clicar em um link e roubar dados.

Como os golpistas abordam as pessoas: Eles reproduzem elementos visuais da Netflix, como logotipos, identidade visual e linguagem institucional, para dar aparência de legitimidade às mensagens que são encaminhadas via e-mail ou outros canais para a vítima. 

No texto, a vítima pode ler uma mensagem que informa falhas no pagamento, necessidade de atualização cadastral, atividade suspeita na conta ou risco de cancelamento do serviço, o que cria um senso de urgência e faz com que o indivíduo aja sem verificar a autenticidade do contato.

Assim, ela acaba clicando no link enviado pelos criminosos, uma página muito parecida com a da plataforma. Ali, digita login, senha e, na etapa seguinte, os dados completos do cartão, sob o pretexto de “confirmar a identidade” ou “atualizar a cobrança”.

Como se proteger: A principal recomendação é desconfiar de mensagens que solicitem atualização de dados pessoais ou financeiros, especialmente quando acompanhadas de alertas sobre cancelamento da assinatura ou bloqueio da conta. Antes de qualquer ação, o usuário deve acessar sua conta diretamente pelo aplicativo ou pelo site oficial da Netflix, sem utilizar links enviados por e-mail ou SMS.

Também é importante verificar o endereço do remetente, evitar compartilhar senhas, ativar autenticação em dois fatores nos serviços que oferecem o recurso e utilizar cartões virtuais para pagamentos online. Caso receba uma mensagem suspeita, não clique em links nem faça downloads de arquivos anexos.

O Comprova entrou em contato com a Netflix, e obteve como resposta as orientações que constam em seu site em relação a suspeitas de phishing.

Conforme consta nesta página, a Netflix informa que nunca solicita dados pessoais ou financeiros por e-mail ou mensagem de texto, como números de cartão de crédito, informações bancárias ou senhas. A empresa alerta que mensagens suspeitas com links desconhecidos não devem ser abertas nem respondidas, pois golpistas só conseguem acesso às informações compartilhadas pelo usuário. A recomendação é ignorar e excluir esses contatos para manter a conta segura e evitar cair em golpes de phishing.

Outros serviços de streaming como HBO Max e Amazon Prime Video também orientam o usuário a como manter sua conta segura e identificar contatos falsos se passando pelas empresas. 

Onde denunciar: Quem receber um e-mail ou qualquer outra mensagem suspeita em nome da Netflix deve evitar clicar em links, responder ao contato ou fornecer qualquer informação pessoal. A plataforma de streaming reforça que nunca solicita dados como senhas, números de cartão de crédito, informações bancárias ou pagamentos por meio de sites de terceiros enviados por e-mail ou SMS.

Além de excluir a mensagem, a recomendação é encaminhar o conteúdo do e-mail suspeito para o endereço [email protected], canal utilizado pela empresa para identificar tentativas de fraude. Caso o golpe tenha ocorrido por meio de redes sociais, também é importante denunciar o perfil ou publicação diretamente à plataforma utilizada.

Se a vítima já tiver clicado no link ou compartilhado dados pessoais, a orientação é alterar imediatamente a senha da Netflix e de outros serviços que utilizem a mesma combinação de e-mail e senha. Caso informações financeiras tenham sido informadas, é necessário entrar em contato com a instituição bancária para adotar medidas de proteção da conta e dos cartões.

Em situações em que houve prejuízo financeiro ou vazamento de dados, a vítima deve registrar um Boletim de Ocorrência (BO) junto à Polícia Civil do seu estado. O registro formaliza o caso e pode contribuir para investigações sobre esquemas semelhantes, além de servir como documento para eventuais providências junto a bancos e demais instituições envolvidas.

Percival Henriques de Souza, coordenador da Câmara de Segurança do CGI.br, membro do Comitê Nacional de Segurança Cibernética da PR e autor do livro “Direito à Realidade por um Constitucionalismo Digital para o Brasil”, aponta que, juridicamente, a conduta se enquadra no crime de fraude eletrônica, previsto no artigo 171, parágrafo 2º-A do Código Penal, incluído pela Lei 14.155 de 2021 que pune com mais rigor quem usa meios eletrônicos e engenharia social. “Quando há acesso indevido a contas, soma-se o artigo 154-A, de invasão de dispositivo informático”, informa. 

Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já fez uma verificação semelhante, mas de criminosos que utilizavam boletos falsos com logo de empresas, que eram enviados por e-mail, WhatsApp ou outros canais. O Estadão mostrou existir um golpe relacionado  a solicitação de Pix aos assinantes, com a promessa de reativação da assinatura e os direcionando a um site falso.

Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.

Política

Investigado por: 04/09/2026

Jornal Nacional não anunciou pedido de prisão preventiva contra Moraes; vídeo usa deepfake

Política
Conteúdo manipula imagem e voz de Renata Vasconcellos e distorce relatos sobre o desentendimento entre ministros do STF.

O Jornal Nacional não anunciou que um pedido de prisão preventiva contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), havia sido protocolado na terça-feira (1°/9), diferentemente do que afirma um vídeo viral no TikTok. O conteúdo manipula a imagem e a voz da apresentadora Renata Vasconcellos usando técnicas de deepfake.

Além disso, a publicação afirma que o ministro André Mendonça teria solicitado investigações sobre supostas ligações financeiras entre Moraes, sua esposa e o banqueiro Daniel Vorcaro. A publicação também diz que a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) estariam sendo utilizadas para proteger interesses privados, e que Moraes e Mendonça teriam se agredido.

Na terça-feira, Mendonça derrubou o sigilo do relatório da PF que reúne mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes. As mensagens sugerem que o ministro discutia com Vorcaro sobre a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, além de estratégias para o banqueiro evitar a prisão preventiva. O caso ganhou novos contornos quando o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação do relatório da PF. 

Porém, a edição do Jornal Nacional exibida em 1º de setembro noticiou as mensagens entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigadas pela PF, sem apresentar a declaração atribuída à jornalista. Renata também usava uma roupa diferente da exibida no conteúdo investigado.

Na mesma data, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) anunciou que pretendia apresentar ao STF pedidos de abertura de investigação, afastamento cautelar e prisão preventiva de Moraes. Em um vídeo publicado em suas redes sociais na quarta-feira (2), Nikolas afirma que já pediu ao Supremo o afastamento de Moraes e, com outros deputados, assinou um pedido de impeachment para o magistrado. 

Também não há, diferentemente do que afirma o post viral, registro de agressão física entre Moraes e Mendonça. Fontes ouvidas pela CNN Brasil relataram que houve uma conversa “direta, dura e ríspida” entre os magistrados, após Mendonça afirmar que pediria a manifestação da PGR sobre a relação de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro. 

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

A publicação investigada pelo Comprova foi realizada por um perfil no TikTok com 205,5 mil seguidores, e que ao todo, acumula 1,5 milhão de curtidas entre seus conteúdos. A conta possui vídeos relacionados principalmente à política e assuntos jurídicos.

O conteúdo analisado alcançou 420,3 mil visualizações, com cerca de 34,6 mil curtidas, 2.452 comentários e 7.950 compartilhamentos até o dia 2 de setembro, antes de ser retirado do ar. A postagem recorre a uma linguagem sensacionalista e sugere uma disputa entre autoridades do STF, estratégia que pode contribuir para ampliar o alcance e o engajamento da conta.

O Comprova tentou contato com o responsável pelo perfil, mas não obteve resposta. Pouco depois, o vídeo foi removido das redes sociais.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O vídeo utiliza conteúdo manipulado por inteligência artificial para atribuir a Renata Vasconcellos uma declaração que ela não fez. Segundo Alessandra Oliveira de Jesus, programadora especialista em segurança da informação que atua com segurança ofensiva, há distorções nos movimentos da boca da apresentadora que indicam o uso de sincronização labial artificial, conhecida como lip sync.

“É uma técnica que utiliza um vídeo ou foto digital para modificar os movimentos da boca, geralmente através de um texto pré-definido que será sintetizado em áudio ou através de um áudio já definido”, explica.

A especialista também identificou indícios de clonagem de voz, recurso que usa amostras de áudio verdadeiro para reproduzir artificialmente o timbre e outras características da fala de alguém.

Ao inserir a declaração fabricada na imagem da apresentadora, o vídeo se apropria da credibilidade de um veículo jornalístico para dar aparência de notícia ao conteúdo. O áudio foi submetido ao detector de IA Al Voice Detector, que apontou 75% de probabilidade de ter sido gerado por inteligência artificial.

O vídeo também mistura fatos reais com afirmações que não correspondem ao que foi apurado. Houve discussões sobre o afastamento de Moraes, o anúncio de Nikolas Ferreira e relatos de uma conversa ríspida entre os dois ministros. Esses episódios, porém, são apresentados como se comprovassem duas alegações que não se sustentam: a de que o Jornal Nacional anunciou um pedido já protocolado e a de que houve uma agressão física.

Contexto para a publicação 

No dia 27 de agosto, a PF entregou ao STF um relatório final sobre o caso Banco Master, que incluía mensagens nas quais o nome de  Moraes era mencionado. Em 31 de agosto, Mendonça retirou o sigilo das mensagens e encaminhou as informações à PGR, medida que gerou repercussão, e entrou em questionamento sobre a relação de Moraes com Vorcaro.  

Na terça-feira, o ministro do Supremo André Mendonça derrubou o sigilo do relatório da PF que reúne mensagens enviadas por Daniel Vorcaro ao também ministro do STF Alexandre de Moraes. 

Segundo o relatório da PF, Vorcaro redigia as mensagens diretamente no bloco de notas do celular, tirava capturas de tela (prints) e as enviava como mensagens de visualização única pelo WhatsApp. Os investigadores da PF, no entanto, conseguiram restaurar os arquivos e identificaram mais de 40 textos enviados sob esse mesmo padrão.

As mensagens sugerem que Moraes discutia com Vorcaro sobre a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, além de estratégias para o banqueiro evitar a prisão preventiva. O caso teve uma forte repercussão política e jurídica no Brasil e ganhou novos contornos quando o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação do relatório da PF. 

Fontes que consultamos: Foram consultadas publicações de veículos como CNN Brasil, Agência Senado e Congresso em Foco, além do registro da edição do dia 1º de setembro do Jornal Nacional disponível no Globoplay. Também foi ouvida Alessandra Oliveira de Jesus, especialista em segurança da informação. 

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Conteúdos que usam deepfakes para simular declarações de apresentadores do Jornal Nacional já foram desmentidos pelo Comprova e pelo Aos Fatos. Recentemente, o Comprova checou vídeos com manipulação por inteligência artificial das imagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Comprova Explica

Investigado por: 03/09/2026

Rejeição de 68% a Lula no Paraná é real, mas não indica ‘derrota iminente’; entenda

Comprova Explica
Pesquisa retrata a opinião de eleitores paranaenses no período da coleta e não permite prever o resultado da eleição; saiba como ler um levantamento eleitoral.

Conteúdo analisado: Uma postagem no Facebook viralizou com a afirmação de que uma pesquisa eleitoral no Paraná apontou um “índice de rejeição próximo de 70%” ao presidente Lula (PT), candidato à reeleição, o que acende um alerta para uma “derrota iminente” nas eleições presidenciais. O post foi feito em 24 de agosto e teve mais de 6,3 mil compartilhamentos e 15,3 mil comentários no Facebook.

Comprova Explica: Sem indicar a origem ou a data da pesquisa, a postagem compartilha um card com a imagem de Lula e o texto: “Rejeição de Lula chega a quase 70% no Paraná e equipe de campanha acende alerta para derrota iminente”.

O Comprova identificou que uma pesquisa realizada pela Quaest, em parceria com a plataforma de investimentos Genial, em julho, entre eleitores do Paraná, apontou que Lula era o candidato à Presidência mais rejeitado no estado (68% disseram que não votariam nele). Porém, ao contrário do que a postagem dá a entender, a rejeição no Paraná não significa que o candidato irá sofrer uma “derrota iminente”.

“Dizer que 68% de rejeição significa ‘derrota iminente’ é ir além do que a pesquisa permite afirmar”, afirmou a Quaest em nota ao Comprova. “O dado sustenta a conclusão de que Lula enfrenta uma situação eleitoral muito difícil no Paraná naquele momento. Não sustenta, sozinho, a conclusão de que ele está derrotado, porque pesquisa não prevê o futuro: ela mede o eleitorado no momento da coleta.”

Cientista político e CEO da Quaest, Felipe Nunes acrescenta que o colégio eleitoral do Paraná tem baixa representatividade no cenário nacional, e que nenhum dado de pesquisa feita em um estado pode ser extrapolado nacionalmente. “Ele representa exclusivamente a opinião daquela fração do eleitorado brasileiro”, afirma.

Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), José Paulo Martins Júnior reforça que o Paraná responde por cerca de 5% do eleitorado brasileiro e que, por isso, mesmo que a rejeição a Lula seja alta no estado, o dado não é capaz de significar uma derrota do candidato nas eleições neste momento. 

“Ter uma alta taxa de rejeição no Paraná não significa absolutamente nada em termos de resultado geral”, explica o professor. “Se o dado fosse do estado de São Paulo ou de Minas Gerais, eu diria que, aí sim, ele poderia influenciar o resultado final.”

Segundo dados atualizados do TSE, São Paulo e Minas Gerais são os maiores colégios eleitorais do país, sendo seguidos por Rio de Janeiro e Bahia. Paraná aparece em quinto. A representatividade do eleitorado brasileiro em termos estaduais está dividida da seguinte forma: 

  • São Paulo: 34.104.226 eleitores – 21,48% do total
  • Minas Gerais: 16.377.659 – 10,32%
  • Rio de Janeiro: 12.857.000 – 8,10%
  • Bahia – 11.321.005 – 7,13%
  • Paraná – 8.609.026 – 5,42%

Martins ainda avalia que Lula está, no momento, com mais intenções de voto nos principais colégios eleitorais do país do que em 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro. 

Situação pode mudar às vésperas das eleições

Segundo o professor da UFF, outro aspecto que aponta para o inexpressivo impacto da rejeição de 68% no Paraná é o fato de o dado ser de julho. Martins explica que há uma tendência histórica de queda de rejeição de candidatos à reeleição à medida em que a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão avançam: “Isso porque o candidato tem a oportunidade de mostrar suas realizações. Mesmo que diminua pouco, a tendência é de queda”.

Felipe Nunes e José Paulo Martins fazem uma ressalva: em uma eleição acirrada, qualquer variação pode ser significativa, mesmo no Paraná. “Mas isso só pode se tornar uma realidade lá na frente, às vésperas da votação. Não em julho”, destaca o professor da UFF. 

Como ler uma pesquisa eleitoral? 

Uma pesquisa eleitoral é uma fotografia do período em que as entrevistas foram realizadas, não uma previsão do resultado das urnas. Para interpretar os números, é preciso observar informações como a data da coleta, a área abrangida, a pergunta feita, a margem de erro e o nível de confiança. 

No caso da pesquisa Genial/Quaest, foram sorteados 59 municípios e feitas 1.104 entrevistas com eleitores do Paraná com 16 anos ou mais entre os dias 21 e 25 de julho. As amostras tentam reproduzir a composição da população, escolhendo pessoas de diferentes idades, sexos, rendas e escolaridades.

Para medir a rejeição, a pesquisa perguntou se o entrevistado conhecia cada candidato e votaria ou não nele. No caso de Lula, 68% responderam que o conheciam e não votariam nele, 30% disseram que o conheciam e votariam e 2% afirmaram que não o conheciam. Portanto, os 68% representam a parcela dos eleitores paranaenses entrevistados que rejeitavam Lula naquele período, e não o cenário nacional ou o resultado da eleição. 

Considerando a margem de erro máxima de 3 pontos percentuais da pesquisa, o índice de rejeição pode variar entre 65% e 71%. Já o nível de confiança de 95% indica que, se a pesquisa for repetida 100 vezes, em 95 delas os resultados estarão dentro da margem de erro para mais ou para menos.

Sabendo o número de identificação do levantamento, é possível acessar o site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para conferir mais informações sobre determinada pesquisa eleitoral. As entidades que realizam esses levantamentos são obrigadas a registrar informações como custo, quais pessoas foram ouvidas e de que forma os questionamentos foram feitos. 

Quem publicou o conteúdo?

No Instagram e no Facebook, a página publica notícias de variedades, segurança e política de alguns estados do país, além de classificados de negócios e eventos de Goiás. Algumas das publicações distorcem e exageram fatos que circulam na imprensa, aparentemente buscando aumentar o potencial de engajamento nas redes sociais.

Antes e depois da postagem sobre a rejeição de Lula, a Mundo Novo Mil Grau fez publicações com os resultados de pesquisas eleitorais de outros estados (MA, BA, MT) e citando as fontes. O Comprova entrou em contato com o administrador para questionar a motivação da postagem, mas não obteve retorno.

Quais táticas de persuasão foram utilizadas pela publicação?

A publicação utiliza três principais táticas de persuasão para se comunicar com o público. A começar pela linguagem emocional, com expressões adjetivadas como “cenário desfavorável” e principalmente “derrota iminente”. Essa última, mesmo que a publicação deixe claro, na legenda, que se trata de uma “interpretação política”, o que sobressai é a imagem do card, com a chamada que vincula o dado de rejeição no Paraná diretamente a um sinal de fracasso nas eleições. 

Além disso, também é possível perceber a estratégia de cherry-picking, quando a publicação seleciona informações e destaca exclusivamente um dado negativo. No entanto, o post não apresenta o instituto responsável pela pesquisa, o período de coleta, o número de entrevistados, a margem de erro ou outros resultados do levantamento que permitiriam contextualizar o percentual próximo a 70%.

Também é possível identificar uma tática de falácia lógica, pois há um salto entre o dado apresentado e a conclusão sugerida. Uma taxa de rejeição, isoladamente, não permite concluir que um candidato sofrerá uma “derrota iminente” na eleição, já que o resultado eleitoral depende de diversos fatores, incluindo intenção de voto, outros candidatos, evolução da campanha e comportamento do eleitorado até a votação.

Fontes consultadas: O Comprova analisou o relatório da pesquisa Genial/Quaest, os registros do levantamento na Justiça Eleitoral, a explicação da Quaest sobre sua metodologia em 2026 e as regras do TSE para pesquisas eleitorais, além das postagens da página “Mundo Novo Mil Grau”. O projeto também entrou em contato com a Quaest, o CEO da empresa, Felipe Nunes, e com o professor do Departamento de Ciência Política da UFF José Paulo Martins Junior. O Comprova ainda fez contato com o administrador da página, mas não houve resposta. 

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta, nesse monitoramento, um tema que gera muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: Consulte a explicação da Quaest sobre as mudanças na metodologia das pesquisas para 2026 e o sistema do TSE para consultar pesquisas eleitorais registradas.

Golpes virtuais

Investigado por: 02/09/2026

Falsa prova de vida: como funciona o golpe que usa o nome do INSS

Golpes virtuais
Golpistas se passam por funcionários do INSS para aplicar o golpe da falsa prova de vida e roubar dados pessoais de beneficiários. As abordagens podem ocorrer por ligações ou mensagens de texto, sob a ameaça de suspensão do benefício. O INSS reforça que não solicita dados pessoais, senhas ou pagamentos por telefone para realizar o procedimento.

Golpe da falsa prova de vida do INSS

É uma fraude de engenharia social e roubo de dados que usa a comprovação de vida, um procedimento real do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), como pretexto para obter informações pessoais ou induzir a vítima a realizar ações que podem levar a outras fraudes.

Como os golpistas abordam as pessoas: Eles podem entrar em contato por telefone ou mensagem de texto e se apresentar como funcionários do INSS ou da Central 135, serviço telefônico do órgão. Eles afirmam que o beneficiário precisa realizar ou regularizar a ´prova de vida para evitar a suspensão ou o corte do benefício.

Durante a ligação, o criminoso pode conduzir a vítima por uma sequência de instruções. Uma delas é pedir que a pessoa digite uma determinada opção no telefone, como 1 ou 2, para supostamente confirmar a situação do benefício ou dar continuidade ao atendimento. A partir dessa interação, o golpista tenta obter informações pessoais ou induzir a vítima a realizar outras ações.

Em outras modalidades, os criminosos enviam SMS ou mensagens via WhatsApp com links que direcionam a vítima para páginas falsas. A mensagem pode informar que o benefício será suspenso por falta de prova de vida e orientar o segurado a acessar o link para atualizar o cadastro ou regularizar a situação. Ao clicar e preencher os dados solicitados, a vítima entrega suas informações aos criminosos.

Que táticas eles usam para chamar a atenção: Os criminosos utilizam principalmente a imitação de uma fonte confiável, apresentando-se como servidores do INSS ou da Central 135. Também usam informações verdadeiras, como a existência da prova de vida, para construir uma situação falsa e mais convincente.

Outra estratégia é criar um senso de urgência. Ao afirmar que o benefício pode ser suspenso ou cortado, o golpista tenta provocar medo e fazer com que a vítima tome uma decisão rápida, sem verificar se o contato é realmente do INSS.

O golpe também utiliza engenharia social. Em vez de necessariamente pedir os dados diretamente no primeiro contato, o criminoso conduz a vítima por pequenas ações, como digitar uma opção durante a ligação ou acessar um link, até chegar ao momento em que consegue obter informações pessoais ou induzir a realização de outras ações.

Como se proteger: Desconfie de ligações ou mensagens que peçam dados pessoais, senhas, informações bancárias, códigos, transferências ou pagamentos para tratar da prova de vida. O INSS afirma que não liga para os beneficiários nem vai à residência deles para tratar desse procedimento e solicitar essas informações.

Se receber uma ligação desse tipo, não forneça dados nem siga as instruções. Desligue e confirme a situação pelos canais oficiais do INSS, como o Meu INSS e a Central 135. A situação da prova de vida também pode ser consultada no serviço de mesmo nome no portal Meu INSS.

Quando necessário, o procedimento pode ser informado pelo banco pagador ou pelo WhatsApp oficial do governo federal, identificado pelo selo azul de verificação. A mensagem apenas comunica a necessidade da comprovação e não solicita dados pessoais nem envia links para regularização.

A prova de vida pode ser feita na agência bancária onde o benefício é recebido, com documento oficial com foto, ou pelo Meu INSS, por biometria facial. Não é necessário comparecer a uma agência do INSS.

Procurado pelo Comprova, o órgão informou que mantém “ações permanentes de educação previdenciária” para orientar a população sobre como evitar notícias falsas e golpes, utilizar os serviços digitais com segurança, “realizar a prova de vida, contratar empréstimos consignados, proteger dados pessoais e cuidar da vida financeira”.

Entre as iniciativas está o Programa de Educação Previdenciária (PEP), que orienta os cidadãos sobre seus direitos e incentiva o uso dos canais oficiais de atendimento e informação, evitando a necessidade de intermediários. O programa também promove palestras, cursos a distância, produção de materiais educativos e formação de pessoas para disseminar informações sobre a Previdência.

A quem denunciar: Golpes envolvendo a falsa prova de vida podem ser denunciados à Ouvidoria do INSS, por meio da plataforma Fala.BR, que permite denúncias identificadas ou anônimas. A Central 135 também recebe denúncias. O advogado Júlio Leone destaca ainda que quando há prejuízo financeiro, uso indevido de documentos ou invasão de conta, a vítima deve registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil. 

Por conta disso, manter os registros é importante para solicitar bloqueios, estornos e, eventualmente, buscar indenização. “O ponto mais importante é: não apague as provas antes de registrar tudo. Prints e comprovantes podem ser fundamentais para pedir bloqueio, estorno e eventual indenização”, completa. .

Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O INSS alertou em agosto que não envia SMS para informar sobre corte de benefício por falta de prova de vida. O G1 checou que o INSS não envia mensagens avisando sobre prova de vida com link para reconhecimento facial.

Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.

Eleições

Investigado por: 02/09/2026

Flávio Bolsonaro não prometeu salário mínimo de R$ 3 mil; informação circula em vídeos com IA

Eleições
Vídeos de Flávio Bolsonaro manipulados por IA desinformam sobre promessa de aumento do salário mínimo em um eventual mandato de governo.

Vídeos virais e manipulados por inteligência artificial (IA), divulgados por diferentes perfis no TikTok, exibem o senador e candidato à presidência da República pelo Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro, segurando uma peça de picanha e supostamente defendendo que o salário mínimo seja R$ 3 mil para que “o povo possa comprar o que quiser”.

Em uma primeira análise, o Comprova já constatou pequenos detalhes e imperfeições visuais que evidenciam o uso de IA, como por exemplo, o rosto de Flávio Bolsonaro com aspecto excessivamente liso, sem poros ou rugas. Além disso, alguns dos vídeos contém a etiqueta “mídia gerada por IA” apontada pelas próprias plataformas. 

O projeto também analisou a proposta de governo de Flávio Bolsonaro e não encontrou nenhuma informação ou citação sobre aumento de salário mínimo até R$ 3 mil. Conforme apurado pelo Comprova, há outros vídeos sintéticos de Flávio ao lado do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, com o mesmo discurso, mudando apenas o cenário.

Ademais, o Comprova fez uso de ferramentas de verificação dos conteúdos, como a Backstory, e identificou os padrões consistentes com a geração de imagens por IA. A busca reversa realizada pelo Google Lens identificou diferentes contas nas plataformas TikTok e Instagram, que divulgaram conteúdos semelhantes, e em distintos cenários. 

Em entrevista ao Jornal Nacional, no dia 28 de agosto, Flávio Bolsonaro foi questionado sobre o salário mínimo, mas não respondeu se pretende alterar ou manter a atual fórmula de reajuste salarial.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O perfil analisado pelo Comprova reúne características suspeitas sobre a origem e a forma de produção de conteúdos. A conta apresenta poucas informações pessoais. Como nome de usuário, utiliza um endereço de e-mail e possui 36,8 mil seguidores. O perfil publicou outros quatro vídeos de Flávio Bolsonaro segurando a picanha, com o mesmo discurso. 

No perfil, os cinco vídeos sintéticos de Flávio atingiram 696,4 mil visualizações e 62 mil curtidas. O Comprova tentou entrar em contato com o responsável pelo perfil, mas não recebeu resposta até a publicação desta checagem.

Táticas orquestradas nas redes sociais

Entre as estratégias usadas para chamar a atenção dos usuários estão o uso de conteúdo sintético, a divisão entre grupos políticos e o apelo à emoção. A combinação desses elementos cria uma situação que não corresponde à realidade e busca aumentar o conflito político. Para isso, os vídeos recorrem a temas de forte impacto social, como o preço dos alimentos básicos, e transformam uma questão econômica complexa em um ataque simples contra adversários políticos.

Os vídeos também incentivam os usuários a interagir com as publicações por meio de frases como “se você concorda, comenta e segue”, “clique em todos os botões ao lado” e “comenta Brasil 22”. A estratégia  busca manipular o engajamento orgânico das redes sociais, aumentando o número de comentários, curtidas e compartilhamentos. Com mais interações, a publicação pode ser considerada relevante pelos sistemas de recomendação das redes sociais e alcançar um número maior de pessoas.

Como identificar se um vídeo foi gerado por IA ou não

Para detectar conteúdos em vídeo que tenham sido manipulados por inteligência artificial é preciso olhar com atenção e de maneira crítica. Como não há um “selo único” de falsificação, a análise deve combinar a observação de detalhes visuais, a checagem do contexto e o uso de dados técnicos.

O material explicativo do Aos Fatos cita alguns sinais de manipulação para ter atenção: sinais visuais e de áudio, área focal, contexto da cena e marcas d’água.  

O guia da Global Investigative Journalism Network (GIJN) para detectar conteúdo gerado por IA, elaborado pelo especialista em buscas on-line e inteligência artificial Henk van Ess, recomenda alguns pontos de atenção: observar possíveis falhas anatômicas; desconfiar de uma aparência perfeita demais para a situação; conferir se roupas, vegetação, iluminação, arquitetura e veículos são compatíveis com a data e o local atribuídos ao vídeo; verificar quem publicou o conteúdo e procurar outros registros do mesmo acontecimento. 

É importante também ficar atento aos rostos e expressões. Repare na textura da pele: se parecer de plástico ou perfeita demais para o contexto, desconfie. Áudio e sincronia também escondem alterações. Fique atento ao movimento dos lábios, se acompanham perfeitamente a fala, sobretudo em consoantes que exigem o fechar da boca (como P, B e M). Avalie se o áudio possui respiração natural, pausas de hesitação e a acústica adequada para o ambiente mostrado.

Um caminho também é verificar outras publicações do mesmo criador, para analisar o histórico, consistência do conteúdo e padrões de edição.

Esses tipos de conteúdos integram o que os pesquisadores do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) chamam de campanha “Firehose”, que é a distribuição massiva e multiplataforma da desinformação, que se caracteriza pelo grande volume, rapidez, continuidade e repetição. 

Na série, a Trilha sobre desinformação, uma parceria da Politize! com o *desinformante, há também a citação sobre ações articuladas e coordenadas para criar narrativas desinformativas, principalmente em eleições com o uso de contas falsas, perfis de pessoas fictícias, e de canais de conteúdo.

Fontes que consultamos: O Comprova utilizou ferramentas para verificar a autenticidade dos vídeos, incluindo o Backstory e o Google Lens. Também pesquisou e analisou o plano de governo de Flávio Bolsonaro, além de uma entrevista recente do candidato à TV Globo. Assim como utilizou orientações do  guia da Global Investigative Journalism Network (GIJN) sobre conteúdos gerados por IA.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova checou um vídeo em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com cinco dedos na mão esquerda, contendo manipulação por inteligência artificial (IA) e que alimentava teorias conspiratórias sobre o uso de um sósia. A Agência Lupa checou e identificou deepfakes de Lula, Bolsonaro e outras figuras públicas em plataformas como o TikTok, que visam monetização.