O Projeto Comprova reúne jornalistas de 28 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
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Pandemia

Investigado por:2020-12-15

É impossível que vacina cause alterações genéticas, dizem especialistas

  • Falso
Falso
Não há nenhuma comprovação que vacinas contra a covid-19 possam modificar a composição genética das pessoas como alega um vídeo publicado no Instagram e no YouTube.
  • Conteúdo verificado: Postagem no Instagram que afirma que “pessoas podem sofrer mutações após serem vacinadas” e que as vacinas são consideradas “organismos geneticamente modificados”.

Não há nenhuma comprovação que vacinas contra a covid-19 possam modificar a composição genética das pessoas. Um vídeo publicado no Instagram e no YouTube afirma que “muitas vacinas são derivadas de células fetais” e que “o DNA do feto entra no corpo do receptor”, causando alterações genéticas. Essas alegações são completamente rechaçadas por especialistas ouvidos pelo Comprova em diferentes ocasiões e pela evidência científica disponível até o momento.

Dois dos imunizantes contra o novo coronavírus — produzidos por Pfizer/BioNTech e Moderna — utilizam uma técnica nova, chamada de mRNA, que usa informação genética do vírus para ensinar nosso corpo a produzir uma proteína específica e criar anticorpos. Nenhuma vacina contém DNA de fetos.

Alguns imunizantes usam culturas celulares para produzir um vírus atenuado, incapaz de causar doenças — vacinas contra febre amarela e sarampo usam essa técnica. Essas células podem ser cultivadas a partir de animais ou de material embrionário. Mas, como o Comprova explicou anteriormente, as células embrionárias não entram na composição da vacina e são desenvolvidas a partir de uma linhagem celular antiga. 

Como verificamos?

Consultamos o pediatra, infectologista e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM) Renato Kfouri sobre as alegações ditas no vídeo analisado. Também utilizamos outras verificações anteriores publicadas pelo Comprova sobre o mesmo assunto. Acessamos documentos oficiais da Food and Drug Administration (FDA) sobre possíveis riscos da vacina produzida pela Pfizer/BioNTech. Pesquisamos estudos sobre associação entre narcolepsia e a vacinação contra H1N1 na Suécia e na Finlândia. Os links das fontes consultadas estão ao longo do texto.

O vídeo foi publicado no perfil de Karina Michelin no Instagram e também em seu canal de YouTube. O Comprova entrou em contato com Karina por e-mail, mas não recebeu resposta.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 15 de dezembro de 2020.

Verificação

Vacinas podem modificar nossa composição genética?

Não há nenhuma possibilidade de que as vacinas contra covid-19 possam alterar nosso código genético — como já mostraram várias verificações publicadas pelo Comprova. O diretor da SBIm, Renato Kfouri confirma que a incorporação de um DNA estranho por meio de um imunizante é impossível. “Imagina, se fosse possível incorporar o DNA, seria uma guerra biológica”, diz ele. “Isso é uma bobagem enorme.”

Duas das vacinas contra o novo coronavírus utilizam uma técnica nova, de mRNA (RNA mensageiro) — a da Pfizer/BioNTech e a da Moderna. O RNA mensageiro é uma molécula que todos temos no corpo. Ela leva informações até o núcleo das nossas células para produção de proteínas. Os laboratórios responsáveis pelos imunizantes produziram mRNAs sintéticos, que contêm uma parte da informação genética do novo coronavírus. No nosso corpo, esse RNA vai fazer com que produzamos uma proteína que alerta o sistema imunológico para criar anticorpos. 

“Por isso que essas vacinas são de rápida produção, não têm vírus vivo, não têm material vivo”, explica Kfouri. “Todo esse material genético se degrada muito rapidamente. Não há nenhuma incorporação, nenhuma possibilidade de esse material genético ser incorporado [pelo nosso corpo]”.

Em agosto, Cristina Bonorino, professora titular da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e membro do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), explicou que as vacinas mRNA são desenvolvidas de modo a não interferir com o DNA humano. 

“No caso das vacinas de mRNA, tudo é transparente, tudo é publicado”, disse ela. “Os dados estão aí para serem analisados. E um cara que faz uma alegação dessas basicamente não leu a literatura. É muito importante explicar para as pessoas que isso é impossível.”

No início deste mês, o virologista da Universidade Federal de Minas Gerais e do Centro de Tecnologia em Vacinas da UFMG Flávio Fonseca disse que “não existe nenhuma vacina capaz de alterar o nosso material genético, nosso DNA”. 

Ele acrescentou que, apesar de estarmos constantemente expostos a material genético estranho (como vírus e bactérias), nosso DNA fica muito bem protegido dentro das células: “Ele fica dentro do núcleo, não fica exposto no citoplasma. E dentro do núcleo há uma série de enzimas que fazem, entre aspas, o patrulhamento da qualidade do nosso DNA para evitar exatamente que aconteçam mutações indesejadas”.

Vacinas são derivadas de células fetais?

No vídeo, Karina afirma que “muitas vacinas são derivadas de células fetais para as quais o DNA do feto entra no corpo do receptor”. Isso é falso. Como explicado anteriormente, os imunizantes usados atualmente contra a covid-19 usam a técnica de RNA mensageiro — e não DNA. 

Renato Kfouri explica que não há DNA de fetos nas vacinas. Alguns imunizantes usam o vírus atenuado ou inativado. Nesse caso, o laboratório usa culturas celulares, que são infectadas repetidamente até que a virulência seja reduzida. As células usadas nesse processo podem ter origem animal ou embrionária. Muitas vacinas amplamente utilizadas foram desenvolvidas por meio dessa metodologia: contra sarampo, rubéola e febre amarela. 

Em julho, o Comprova mostrou que a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford não usa células de fetos. Na realidade, as células foram retiradas de um feto abortado legalmente na Holanda nos anos de 1970 e desenvolvidas em laboratório a partir da imortalização — ou seja, a capacidade perene de divisão. Elas deram origem à linhagem de células HEK-293 (a sigla vem do inglês “human embryonic kidney”, ou seja, rim de embrião humano), que desde então é usada na indústria farmacêutica em todo o mundo.

A tecnologia utilizada no imunizante de Oxford é de “vetor viral recombinante”, diferente da de vírus atenuado.

A narradora do vídeo cita como fonte o Instituto Charlotte Lozier. Trata-se de uma insituição conservadora cujo presidente é ativista anti-aborto

FDA admitiu ‘riscos oncogênicos’ da vacina?

A narradora do vídeo também afirma que a Food and Drug Administration (FDA), agência equivalente à Anvisa nos EUA, alertou para “riscos oncogênicos”, relacionados a câncer, das vacinas contra covid-19. Até o momento, o órgão sanitário aprovou apenas uma vacina para uso emergencial, produzida pela Pfizer e BioNTech. Os riscos potenciais associados a esse imunizante, segundo a FDA, incluem dor no local da aplicação, febre e cansaço.

Na quinta-feira, 17, está marcada a próxima reunião do comitê avaliador da agência para analisar dados da vacina produzida pela farmacêutica Moderna.

O Comprova não encontrou nenhum registro de que a FDA tenha alertado sobre “riscos oncogênicos” da vacina contra covid-19. Entramos em contato com a agência por e-mail, mas não recebemos resposta.

Em outubro, o comitê avaliador de vacinas da FDA divulgou uma apresentação em que listava possíveis eventos adversos que seriam monitorados durante testes com imunizantes contra o novo coronavírus. A lista (página 16) não inclui câncer. Importante ressaltar que, embora a agência sanitária monitore a possível ocorrência de eventos adversos, isso não quer dizer que eles tenham ocorrido. Até o momento, não foram registradas reações negativas graves ligadas ao imunizante aplicado nos EUA.

No início deste mês, a microbiologista Jordana Coelho dos Reis, que atua no Laboratório de Virologia Básica e Aplicada do Departamento de Microbiologia, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), disse ao Comprova que não há nenhuma possibilidade de que as vacinas que usam mRNA causem câncer. 

“A gente pode confirmar com segurança, com pé no chão, tranquilamente que essas vacinas não representam um risco para câncer nesse sentido de alterar genoma, não tem a menor chance disso acontecer”, disse ela.

Vacinas são organismos geneticamente modificados?

Karina afirma que muitas das vacinas testadas contra a covid-19 são de nova geração e foram consideradas “organismos geneticamente modificados” pelo Parlamento Europeu. A narradora do vídeo insinua que, por terem sido desenvolvidas em tempo recorde, as vacinas não seriam seguras. Mas não há nenhuma evidência de que isso seja verdade. 

O imunizante desenvolvido pelas empresas Pfizer e BioNTech, que utiliza a nova tecnologia de mRNA, teve o uso emergencial aprovado pela agência reguladora dos EUA, a FDA, que tem o “padrão ouro” do processo de autorização. Os testes clínicos da vacina evidenciam sua segurança e sua eficácia, de 95%.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) garante que, apesar da rapidez com que as vacinas têm sido desenvolvidas, as pesquisas continuam a seguir os mais altos padrões de segurança. “Dada a necessidade urgente de vacinas contra a covid, investimentos financeiros sem precedentes e colaborações científicas estão mudando a forma como as vacinas são desenvolvidas”, diz a entidade. 

“Isto significa que algumas das etapas do processo de pesquisa e desenvolvimento têm acontecido em paralelo, mantendo, ao mesmo tempo, padrões clínicos e de segurança rigorosos”, informa a OMS. 

Em julho, o Parlamento Europeu aprovou uma medida para acelerar a produção de vacinas contra a covid-19, diante da emergência sanitária mundial. A normativa dispensou a exigência de alguns procedimentos para ensaios clínicos com imunizantes que usam organismos geneticamente modificados (GMO, na sigla em inglês).

Os integrantes do Comitê de Meio Ambiente, Saúde Pública e Segurança Alimentar do Parlamento Europeu concordaram que havia a necessidade de adaptar as regras, mas enfatizaram que os padrões de qualidade, segurança e eficácia da vacina devem ser mantidos.

GMOs são produtos de engenharia genética, uma tecnologia aplicada desde os anos 1970 para modificar aspectos de plantas, animais e microorganismos. Os tipos mais comuns de GMO são plantas modificadas, como milho, soja e algodão. 

Renato Kfouri explica que algumas pesquisas de vacinas contra a covid-19 utilizam uma tecnologia chamada de vetor viral, como a desenvolvida pela Universidade de Oxford, ou a produzida pela farmacêutica Janssen. “São vacinas que usam outro vírus, um adenovírus modificado geneticamente para carregar um pedaço do coronavírus”, diz o diretor da SBIm. “Não tem nenhum perigo. É a filosofia das vacinas: enfraquecer o vírus para proteger da doença”.

Quem é o doutor Michael Yeadon?

Karina cita ainda Michael Yeadon, ex-funcionário da farmacêutica Pfizer. Ela repete uma alegação de Yeadon já desmentida pelo Estadão Verifica e pela Agência Lupa — a de que não há necessidade de vacinação. A informação é falsa porque as vacinas foram fundamentais na erradicação ou controle de várias doenças no Brasil e no mundo. De acordo com o Ministério da Saúde, sarampo, poliomielite e tétano neonatal foram eliminadas; e outras doenças como difteria, coqueluche e tétano acidental, hepatite B, meningites, febre amarela, formas graves da tuberculose, rubéola e caxumba, foram controladas.

Yeadon também espalhou a alegação falsa de que a vacina desenvolvida pela Pfizer e BioNTech contra a covid-19 poderia causar infertilidade em mulheres. Estadão Verifica e Agência Lupa desmentiram novamente o cientista — a substância que ele diz que poderia interferir no sistema reprodutor de mulheres não está presente na composição do imunizante distribuído no Reino Unido e nos EUA.

O ex-consultor científico da Pfizer foi desmentido ainda pela agência de checagem americana Health Feedback. A verificação mostrou que, em entrevista a uma rádio, Yeadon fez várias alegações sem evidências de que a pandemia teria acabado no Reino Unido.

Yeadon é co-fundador de uma pequena empresa farmacêutica chamada Ziarco e não trabalha na Pfizer pelo menos desde 2011.

Qual a relação entre vacinação e narcolepsia?

No vídeo, Karina também menciona que centenas de crianças e adolescentes vacinadas contra H1N1 na Suécia desenvolveram narcolepsia, um distúrbio que causa sonolência excessiva durante o dia. De fato, foi observada uma associação entre essa condição médica e a aplicação do imunizante Pandemrix em 2009, mas os casos foram raros. 

A Folha de S. Paulo mostrou em 2011 que a Europa restringiu o uso dessa vacina por causa do risco de narcolepsia. Mais de 31 milhões de doses foram aplicadas em 47 países. A GSK, farmacêutica responsável pelo imunizante, disse ter sido notificada de 335 casos do distúrbio, dois terços na Finlândia e na Suécia.

De acordo com essa revisão das evidências disponíveis publicada na revista científica Vaccine em 2019, o mecanismo que levou a um risco aumentado de narcolepsia ainda não foi totalmente compreendido. Como a maior parte dos casos observados ocorreu na Finlândia e na Suécia, é possível que haja um risco maior nessas populações. “Parece haver uma suscetibilidade genética naquele grupo. E no restante do mundo não houve problema”, afirma Renato Kfouri.

O Centro Europeu de Controle e Prevenção de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) investigou em 2012 os dados de vacinação com a Pandemrix em vários países. Na Suécia e na Finlândia, foi encontrado um risco maior de narcolepsia na população de 5 a 19 anos, mas não em adultos. Nas outras nações analisadas (Dinamarca, Itália, França, Holanda, França, Noruega e Reino Unido), o mesmo risco não foi encontrado.

O diretor da SBIm explica que, inicialmente, pesquisadores atribuíram a causa da narcolepsia ao adjuvante usado na vacina, o ASO3, uma substância nova. Adjuvantes são compostos adicionados aos imunizantes para potencializar a resposta imunológica do corpo. Estudos posteriores, no entanto, mostraram que o ASO3 é seguro e a substância continua a ser utilizada. Em 2018, pesquisadores do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) analisaram dados da Pandemrix e de outras vacinas que usaram o ASO3 e não encontraram associação com narcolepsia.

Kfouri observa que é por isso que as vacinas continuam a ser monitoradas mesmo após a aprovação pelos órgãos de vigilância sanitária. É a chamada fase quatro dos estudos, de farmacovigilância. “Por isso há a importância de ter a vigilância desses eventos adversos, antes e depois do licenciamento”, disse ele. “Não só para vacina, mas para todos os remédios. Assim vamos construindo conhecimento”.

Quem é Karina Michelin?

Dona de um perfil no Instagram com 68,5 mil seguidores, Karina Michelin se apresenta como jornalista, atriz, apresentadora e poeta. O Comprova já checou um vídeo anterior de Karina em que ela comparava, erroneamente, o índice-H de pesquisadores ligados ao combate ao novo coronavírus. Esse índice é uma métrica que avalia a quantidade de citações de artigos científicos de um determinado pesquisador, e é equivocado comparar pesquisadores de áreas distintas e idades diferentes.

Tentamos contato com Karina por meio de um e-mail disponível em sua página do Facebook, mas ela não respondeu. Após o início da apuração para esta verificação, o vídeo da jornalista foi marcado pela Agência Lupa como falso. A reprodução da mesma gravação no YouTube foi retirada do ar. 

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus.

Com a covid-19, as informações relacionadas à pandemia precisam orientar a população sobre as doenças, como uma forma de minimizar os riscos de contrair o vírus. Ao fazer alegações falsas sobre os efeitos colaterais ou mesmo a segurança das vacinas, a postagem que chegou a 89, 5 mil visualizações no instagram, além de prestar um desserviço, apenas atrapalha em conter a disseminação da doença.

O Comprova já verificou outros conteúdos que traziam informações falsas sobre a covid-19 como a que checou ser falso que vacina contra covid-19 cause danos irreversíveis ao DNA, assim como as vacinas contra a covid-19 não serão capazes de provocar danos genéticos nem vão monitorar a população e que o vírus não foi feito na França e vacinas não são uma iniciativa globalista para reduzir a população.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por:2020-12-14

Vacina que teve estudos suspensos no Peru não é a mesma testada no Brasil

  • Enganoso
Enganoso
Site publica nota sem mencionar que não se trata da vacina testada no Brasil e que será produzida pelo Instituto Butantan, o que levou muitos leitores a se manifestarem contra a Coronavac nos comentários. Dois dias depois, o site editou o texto para incluir a referência ao laboratório Sinopharm.
  • Conteúdo verificado: Texto publicado em site sobre suspensão de testes de vacina chinesa no Peru, que não menciona qual a empresa responsável pelo imunizante.

É enganoso um artigo publicado pelo site Jornal da Cidade Online sobre a suspensão dos testes de uma vacina chinesa no Peru. O texto, publicado no sábado, 12, não mencionava em nenhum momento qual a empresa responsável pelo imunizante. Apenas nesta segunda-feira, 14, o link foi atualizado para incluir a informação de que a vacina suspensa é da Sinopharm, que não realiza ensaios clínicos no Brasil. É outra farmacêutica chinesa, a Sinovac, que produz uma pesquisa em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo.

A Sinopharm tem duas candidatas a vacina contra covid-19 na fase três de testes — uma em parceria com o Instituto Biológico de Wuhan e outra com o Instituto Biológico de Pequim. O imunizante que teve o estudo suspenso no Peru é testado nos seguintes países: Emirados Árabes Unidos, Barein, Egito, Jordânia e Argentina. O governo do Paraná chegou a firmar um acordo com a farmacêutica chinesa para testagem no estado, mas a parceria não vingou.

Os testes da Sinopharm foram suspensos no Peru após um voluntário ter sentido fraqueza nas pernas. O Ministério da Saúde do país informou que ainda investiga se esse sintoma foi causado pela vacinação. No sábado, 12, o responsável pela pesquisa no Peru, Germán Málaga, da Universidad Peruana Cayetano Heredia (UPCH), disse à imprensa local que “há muito pouca probabilidade” de relação com o imunizante. Segundo o médico, o resultado da investigação sobre o evento adverso ficaria pronto em três dias.

Os comentários da postagem do Jornal da Cidade Online no Facebook evidenciam que muitas pessoas entenderam que a vacina suspensa no Peru é a mesma produzida em São Paulo em parceria com o Butantan. “O (governador do Estado, João) Doria calça justa tem que tomar primeiro com a família dele e esquecer a população porque ninguém quer tomar essa droga de vacina da China”, escreveu um usuário.

Procurado pelo Comprova, o site respondeu por email que fez uma atualização da matéria, informando que a vacina foi desenvolvida pelo laboratório Sinopharm.

Como verificamos?

Pesquisamos sobre a suspensão de testes da vacina chinesa na imprensa brasileira e peruana. Também procuramos posicionamentos oficiais do Ministério da Saúde do Peru e da Sinopharm, mas não conseguimos contato com a farmacêutica chinesa.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de dezembro de 2020.

Verificação

Qual é a vacina chinesa testada no Peru?

A vacina da Sinopharm testada no Peru usa a tecnologia de vírus inativado e é produzida em parceria com o Instituto Biológico de Wuhan. Os estudos tiveram início em julho de 2020. Segundo divulgação do Ministério da Saúde do Peru, a Sinopharm iniciou os testes no país em setembro, com 6 mil voluntários e, em outubro, pôde duplicar a quantidade de pessoas submetidas ao teste.

O mesmo texto afirma que, além da Sinopharm, a Johnson e Johnson também iniciou testes da fase 3 no país em novembro, com 3,5 mil voluntários. O governo do Peru até o momento informa ter acordo para aquisição de 9,9 milhões de doses da vacina da Pfizer, com uso já autorizado nos Estados Unidos, e mais 13,2 milhões de doses por meio da iniciativa de colaboração Covax Facility.

A mesma vacina já foi aprovada pelo Ministério da Saúde dos Emirados Árabes Unidos. Lá, os estudos de fase três atestaram 86% de eficácia, de acordo com o órgão de saúde. A fabricante chinesa não divulgou dados sobre os testes.

De acordo o plano de imunização do governo brasileiro, que lista todas as vacinas em fase três de testes no mundo, o imunizante da Sinopharm teve eventos adversos “leves e de curta duração, caracterizados principalmente por dor no local da aplicação e febre, sem registro de eventos adversos sérios”.

Quais foram os sintomas do voluntário peruano?

O pesquisador Germán Málaga, da UPCH, explicou ao jornal El Comercio, do Peru, que um voluntário de 64 anos teve fraqueza nas pernas depois de receber a vacina produzida pela Sinopharm. “Parece mais uma neuropatia diabética; no entanto, há uma possibilidade mínima de que tenha sido Guillain-Barré e por motivos de segurança o estudo foi suspenso”, esclareceu.

A Síndrome de Guillain-Barré é uma doença autoimune rara, que acomete de 1 a 4 pessoas a cada 100 mil habitantes. Um dos sintomas é justamente a fraqueza nos membros inferiores.

Málaga acrescentou que a probabilidade de que haja relação com a vacina é “muito pequena”, porque o paciente tem diabetes mal-controlada há muitas décadas. “O paciente está bem, felizmente é um evento leve, o paciente está se recuperando, ele está em bom estado e todo o apoio está sendo dado a ele para recuperar sua saúde”, disse o médico.

Segundo Málaga, as investigações sobre uma possível relação com o imunizante levariam 72 horas. Depois disso, os testes poderiam ser retomados. No Peru, 11,7 mil voluntários receberam doses da vacina chinesa.

A decisão de suspender os estudos foi divulgada pelo Instituto Nacional de Saúde do Peru no dia 11 de dezembro. O Ministério da Saúde peruano apoiou a decisão em um comunicado no dia seguinte, em que informou que o evento adverso estava sob investigação. Segundo o órgão de saúde, a suspensão temporária é uma medida de segurança prevista pelo Regimento de Ensaios Clínicos.

Qual a vacina chinesa testada no Brasil?

No Brasil, a vacina é produzida por outra fabricante chinesa, a Sinovac Biotech, e é testada em parceria com o Instituto Butantan em 17 centros de pesquisa (página 65). Esse imunizante também usa a tecnologia de vírus inativado. Os testes chegaram a ser suspensos em novembro após a morte de um voluntário, mas foram retomados depois que a causa do óbito foi apontada como suicídio.

A suspensão de estudos já ocorreu inclusive em testes de outros imunizantes, como a vacina da Universidade de Oxford com a farmacêutica AstraZeneca, que teve estudos interrompidos após uma reação adversa relatada por um voluntário no Reino Unido, em setembro. Quatro dias depois, com a análise do caso, os desenvolvedores anunciaram a retomada dos testes.

Os resultados de eficácia da fase três seriam divulgados até esta terça-feira, 15. No entanto, a divulgação foi adiada para incluir novos dados de voluntários infectados pelo novo coronavírus. É a terceira vez que o governo de São Paulo adia o anúncio desses dados.

No sábado, o governador João Doria (PSDB) voltou a dizer que a previsão de início da campanha de vacinação no Estado é no dia 25 de janeiro.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus.

Os conteúdos enganosos relacionados às vacinas em desenvolvimento contra a covid-19 podem interferir na confiança da população em relação aos imunizantes e reduzir a adesão à vacinação quando o país tiver um plano de proteção implantado. A imunização das pessoas por meio de vacina é vista como a principal estratégia capaz de promover uma ampla proteção e encerrar a pandemia.

Até a tarde desta segunda-feira (14), a publicação do Jornal da Cidade Online que não indicava qual vacina chinesa fora alvo de suspensão dos testes no Peru já havia sido postada mais de 500 vezes no Facebook, com mais de 88 mil reações, 53 mil compartilhamentos e 23 mil comentários, segundo dados da ferramenta CrowdTangle. A desinformação associando a CoronaVac à vacina que teve os testes suspensos no Peru também vem circulando em montagens de páginas no Facebook. Na tarde desta segunda (14), a plataforma já sinalizou o conteúdo como falso.

O Comprova já verificou outros conteúdos que traziam informações incorretas sobre a covid-19 e a vacina chinesa desenvolvida pelo laboratório Sinovac, como a publicação que sugeria que um laudo descartaria suicídio como causa da morte de um voluntário da CoronaVac, outra que sugeria que o Instituto Butantan não teria informado a morte de um voluntário da vacina chinesa e outra que afirmava que a CoronaVac teria matado voluntários e causado danos neurológicos ou de DNA. Verificações também mostraram que é enganosa uma publicação que sugeria que a China não usaria a própria vacina contra covid-19.

A publicação sobre a suspensão dos testes da vacina da Sinopharm no Peru também já foi alvo de verificações de outras agências de checagem, como a Aos Fatos e a Boatos.org.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações.

Pandemia

Investigado por:2020-12-14

Jornal americano não acusou Doria de receber propina da Sinovac

  • Falso
Falso
A reportagem do Washington Post destacada por um youtuber apenas cita pagamentos ilegais feitos pela farmacêutica na China entre 2002 e 2011
  • Conteúdo verificado: Vídeo publicado por youtuber cita reportagem do The Washington Post e afirma que Doria teria recebido propina da farmacêutica chinesa Sinovac

É falso que reportagem do jornal norte-americano The Washington Post tenha afirmado que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), recebeu propina do laboratório chinês Sinovac, como aponta um vídeo publicado no YouTube.

O autor da gravação cita a publicação como fonte, mas a matéria jornalística aborda apenas pagamentos ilegais admitidos por um dirigente da farmacêutica a um ex-oficial da agência regulatória de medicamentos da China, entre 2002 e 2011. Não há menção a valores indevidos pagos em outros países, tampouco ao governador Doria.

O autor também sugere que a China seria “dona” de 32 partidos políticos no Brasil, mas a legislação brasileira atual impede as legendas partidárias de receber recursos de organizações ou governos estrangeiros.

O autor do vídeo é o youtuber Enzo Leonardo Suzin Momenti, que publica conteúdos favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O Comprova tentou contato com ele por e-mail. O autor respondeu com um link para um tuíte publicado por ele em que reafirma sem provas a acusação contra o governador João Doria e diz que essa seria sua “opinião como eleitor”.

Como verificamos?

Para verificar as afirmações feitas no vídeo, consultamos inicialmente a reportagem do The Washington Post que é citada pelo autor como fonte das informações, além de fazer buscas na internet para outros possíveis conteúdos relacionados a propina envolvendo Sinovac e João Doria.

Pesquisamos também a legislação eleitoral sobre formas de financiamento dos partidos e ouvimos o presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB de Santa Catarina (OAB-SC), Paulo Fretta Moreira, sobre a possibilidade de doações estrangeiras às agremiações partidárias do Brasil. Por fim, consultamos reportagens que citavam o nome do autor do vídeo, como matérias sobre a operação da Polícia Federal no âmbito do inquérito das fake news, do Supremo Tribunal Federal (STF), a lista de filiação partidária no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e processos judiciais relacionados ao autor.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de dezembro de 2020.

Verificação

Reportagem do The Washington Post

A reportagem que o youtuber faz menção foi um furo do jornal americano publicado em 4 de dezembro com o título (numa tradução livre): “Enquanto a China se aproxima de uma vacina contra o coronavírus, nuvem de suborno paira sobre a farmacêutica Sinovac”. (A leitura da reportagem pode exigir uma assinatura do jornal.)

A reportagem sobre o laboratório chinês não menciona nem sugere envolvimento do governo de São Paulo, da figura de João Doria, o Instituto Butantan ou qualquer processo relativo ao desenvolvimento da Coronavac.

O que o texto relata, com base em documentos de tribunais da China, é que o presidente da Sinovac, Weidong Yin, admitiu ter pago propina a um ex-oficial da agência regulatória de medicamentos chinesa entre 2002 e 2011 para acelerar a aprovação de vacinas no órgão governamental. Os eventos, portanto, são bem anteriores à pandemia de covid-19.

O caso levou à abertura de uma investigação na Securities and Exchange Commission (SEC) – órgão que regula o mercado de capitais americano e é equivalente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) brasileira – e no Departamento de Justiça dos EUA. Ao final da apuração, o caso foi encerrado sem que nenhuma responsabilidade ou sanção fosse atribuída à Sinovac.

Enzo ainda afirma que “segundo o Washington Post, [a Sinovac] compra países emergentes e aplica a vacina naquela população antes mesmo de testar na população chinesa, como cobaias humanas”.

Não há, em nenhum momento da reportagem, acusação semelhante. As propinas relatadas foram oferecidas a oficiais chineses.

No vídeo também é alegado que João Doria é bilionário, o que não tem base factual. Nas eleições de 2018, o então candidato a governador declarou um patrimônio de R$180 milhões ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Sinovac

A companhia biofarmacêutica é a parceira do Instituto Butantan no desenvolvimento da vacina Coronavac. As duas instituições tiveram seu primeiro contato por meio da Rede de Fabricantes de Vacinas dos Países em Desenvolvimento, entidade que apoia o aprimoramento dos processos de produção de empresas de nações emergentes.

Butantan e Sinovac são membros da entidade e eventualmente se encontravam nos eventos e reuniões anuais da aliança, que possui 41 fabricantes associados. A relação ficou mais próxima a partir de agosto do ano passado, quando técnicos do Butantan conheceram uma das fábricas da Sinovac em Pequim, durante missão do governo de São Paulo à China.

A Sinovac teve faturamento em 2019 de 246 milhões de dólares e possui cerca de 900 funcionários. Vende, em média, 20 milhões de doses de seus imunizantes por ano, com 15% a 20% de market share na China.

China e partidos políticos brasileiros

Em um trecho do vídeo verificado, o youtuber afirma que “a China é dona dos 32 partidos que existem hoje [no Brasil], e se você tem alguma dúvida disso, você vive na La La Land”. Não fica claro na fala qual influência a China exerceria para ser “dona” de praticamente todos os partidos no Brasil (segundo o TSE, atualmente há 33 partidos com registro no país), se financeira ou de outra ordem. No entanto, a reportagem do The Washington Post citada como base para o vídeo não fala de doações ou propinas pagas no Brasil ou em outros países pela Sinovac – aborda apenas casos ocorridos na China.

Além disso, partidos políticos no Brasil são proibidos de receber dinheiro de instituições ou governos de outros países. O Art. 17, inciso II da Constituição Federal estabelece a “proibição de recebimento de recursos financeiros de entidade ou governo estrangeiros ou de subordinação a estes”. A Lei dos Partidos Políticos (Lei nº 9.096/95) também veda o recebimento de recursos de origem estrangeira.

O presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB de Santa Catarina (OAB-SC), Paulo Fretta Moreira, confirma que a legislação brasileira proíbe o recebimento de valores de organizações estrangeiras.

“Esse tipo de recurso internacional, estrangeiro, não pode financiar partido político. Hoje em dia, o financiamento de partidos é exclusivo dos fundos públicos, o partidário e o fundo eleitoral para as eleições, e doações de pessoas físicas. Então nem pessoas jurídicas, nem organismos internacionais, ONGs, todas essas são fontes vedadas tanto para partidos políticos quanto para candidatos em eleições”, explica.

O autor

Enzo Leonardo Suzin Momenti é um youtuber apoiador do presidente Jair Bolsonaro. Em seu canal no YouTube, que tinha 194 mil inscritos até 10 de dezembro, ele costuma compartilhar conteúdos a favor do governo Bolsonaro e ataques à imprensa, a governadores e a ministros do STF.

Em maio de 2020, ele foi um dos alvos de buscas na operação da Polícia Federal que fez parte do inquérito das fake news. A investigação do STF apura notícias falsas, ameaças e ataques a ministros da corte e envolveu outros apoiadores de Bolsonaro. O inquérito está sob sigilo e não permite consulta aos despachos e manifestações. Apenas a decisão que autorizou as buscas está disponível até o momento.

Um vídeo em que o âncora do Jornal Nacional, da TV Globo, William Bonner, cita o nome do youtuber em uma das reportagens sobre a investigação do STF viralizou nos dias seguintes à operação da PF. Na ocasião, o apresentador se referiu a Enzo como “um defensor da tese de que a Terra, o planeta Terra, é… plano”, fazendo gestos circulares e retos com as mãos. Enzo já publicou vídeos em seu canal defendendo o terraplanismo.

Enzo é filiado ao PSL de São Paulo (SP), conforme o sistema de filiação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Apesar disso, em 2018 ele tentou concorrer a deputado estadual em São Paulo com uma candidatura avulsa, sem filiação partidária. O pedido foi negado pela Justiça Eleitoral, porque a Constituição Federal prevê o vínculo com partido político como uma das condições de elegibilidade.

Em um vídeo do próprio canal publicado em dezembro de 2019, Enzo disse que tinha “intenções de ser candidato à prefeitura” de Campinas, cidade em que estava vivendo na ocasião. No entanto, ele não disputou as eleições municipais de 2020.

Outros processos

Enzo e João Doria já estiveram em lados opostos antes do vídeo divulgado pelo youtuber. O governador de São Paulo moveu um processo judicial de indenização por danos morais contra Enzo em 2018. O político alegou que o youtuber teria o relacionado a atos ilícitos que nunca cometeu, “utilizando-se de narrativa com tom de clandestinidade e sensacionalismo”, segundo um trecho da decisão que consta na ação. Ainda segundo a manifestação da defesa, no vídeo ele usava termos como “mafioso” e “safado” ao se referir ao governador. Em novembro de 2018, o youtuber foi condenado em primeira instância a pagar R$ 50 mil como indenização a Doria.

A defesa de Enzo chegou a recorrer ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), mas conseguiu apenas reduzir a indenização para R$ 15 mil. O processo atualmente está em fase de execução da sentença. Segundo a consulta processual do site do TJ-SP, já houve penhora de R$ 1,8 mil localizados pelo sistema bancário da Justiça, transferidos para uma conta vinculada ao processo.

Enzo também foi alvo de uma ação do deputado estadual de São Paulo, Gil Diniz (sem partido), também conhecido como ‘Carteiro Reaça’. Nesse processo, Enzo não apresentou defesa e foi condenado a indenização de R$ 5 mil por danos morais, por ter chamado o parlamentar de “mafioso” e “corrupto” em um vídeo do seu canal do Youtube. No início de dezembro deste ano, o processo também entrou na fase de execução da sentença.

Gil Diniz também apresentou uma queixa de calúnia, injúria e difamação, mas a solicitação foi convertida em um inquérito policial para melhor apuração dos fatos, que ainda segue em andamento.

Além dessas duas ações, Enzo também é alvo de outro processo por danos morais no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ). Este é movido por Fernando Pinto (Patriota), que foi candidato a vereador em Resende (RJ) nas eleições municipais de 2020. Ele é irmão de outro youtuber de direita, Diego Rox.

O Comprova tentou fazer contato com Enzo pelo e-mail indicado no canal dele no Youtube. Ele respondeu com um link para um tuíte publicado em 12 de dezembro. Na postagem, ele afirma novamente sem provas que Doria teria mentido sobre a eficácia da vacina da Sinovac e que, por isso, lhe caberia concluir que “é também por ter recebido proprina [sic]”. “Esse [sic] minha opinião como eleitor, não gostou? Me processe.”, diz o trecho final da mensagem.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus.

Ao afirmar sem provas que uma das empresas que desenvolve uma das vacinas contra a covid-19 teria pago propina a um governante brasileiro e que isso poderia ter relação com a autorização para utilização do imunizante no território nacional, o vídeo, que teve 15,6 mil visualizações até o dia 11 de dezembro, pode aumentar a desconfiança da população com a segurança ou eficácia da proteção em desenvolvimento contra o novo coronavírus. Assim, poderia prejudicar a estratégia de imunização após a conclusão das vacinas, que é encarada como a principal forma de pôr fim à pandemia.

Além do vídeo, diversas publicações, a maioria imagens com textos, que circulam desde 7 de dezembro no Facebook, também confundem o conteúdo da reportagem do The Washington Post e sugerem que a denúncia de propina relatada na reportagem tem relação com a CoronaVac, o que é falso.

O mesmo vídeo com as acusações de Enzo contra João Doria foi verificado também pela Aos Fatos e pela Boatos.org.

O Comprova já verificou outros conteúdos que traziam informações falsas sobre a vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, como a publicação que sugeria que um laudo descartaria suicídio como causa da morte de um voluntário da CoronaVac, outra que sugeria que o Instituto Butantan não teria informado a morte de um voluntário da vacina chinesa e outra que afirmava que a CoronaVac teria matado voluntários e causado danos neurológicos ou de DNA. Verificações também confirmaram que é falso que Doria tomou vacina chinesa contra a covid-19 e que a parceria para a vacina não foi firmada pelo governador de São Paulo no ano passado.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por:2020-12-09

Pacientes com lúpus não são imunes ao novo coronavírus

  • Falso
Falso
O Comprova teve acesso a um estudo que mostra que pacientes com doenças autoimunes contraíram a covid-19. E especialistas dizem que, apesar da hidroxicloroquina ser eficaz no controle do lúpus, ela não interfere nos riscos dos pacientes de contrair ou não a covid-19.
  • Conteúdo verificado: Post na rede social Twitter insinuando que pessoas com lúpus não “desenvolvem” covid-19.

É falso que pessoas com lúpus não contraem a covid-19, como insinua uma publicação no Twitter. O post questiona por que os cientistas e a mídia não estão falando sobre isso, possivelmente relacionando ao fato de que o tratamento para lúpus envolve a hidroxicloroquina, medicamento que, mesmo sem comprovação científica de eficácia contra a covid-19, ainda é utilizado e defendido por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

O Comprova conversou com especialistas que disseram não ser correta a relação de lúpus com a covid-19 e que, apesar da hidroxicloroquina ser eficaz no controle do lúpus, ela não interfere nos riscos dos pacientes de contrair ou não o novo coronavírus. Um estudo, coordenado por uma força-tarefa da Sociedade Brasileira de Reumatologia, e que está em processo de avaliação pelos pares, para ser publicado, aponta que os casos de covid-19 entre pacientes reumáticos, que usam o medicamento, ocorreram na mesma frequência que em pessoas que não fazem uso da hidroxicloroquina.

Lúpus é uma doença autoimune rara que causa um desequilíbrio do sistema imunológico. A defesa imunológica se vira contra os tecidos do próprio organismo como pele, articulações, fígado, coração, pulmão, rins e cérebro. A hidroxicloroquina, um dos principais medicamentos utilizados no tratamento da doença, chegou a ter sua eficácia contra os sintomas graves da covid-19 estudada, mas as pesquisas realizadas em várias partes do mundo sugerem que a droga não tem efeito contra o novo coronavírus. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e diversas entidades médicas do Brasil não recomendam o uso para os pacientes com coronavírus, visto que não há resultados científicos que comprovem a funcionalidade do tratamento.

Como verificamos?

Tentamos contato com a autora da postagem no Twitter, @ValeriaBNews, para conferir as suas fontes a respeito da possível ligação entre os pacientes com lúpus e uma suposta “imunidade” ao novo coronavírus. O perfil não possibilita o envio de mensagens diretas, então enviamos as perguntas pelo perfil da mesma pessoa no Facebook e pelo contato de uma livraria da qual ela é proprietária.

Como não tivemos retorno até o fechamento dessa verificação, analisamos as respostas ao tuíte original e vimos que a suposta conexão entre as duas doenças seria o uso contínuo de hidroxicloroquina – medicamento usado há décadas no tratamento do lúpus.

Buscamos, então, informações de verificações anteriores do Comprova sobre a eficácia do fármaco no tratamento da covid-19, bem como reportagens sobre o tema. Além disso, entrevistamos, por telefone, o reumatologista, professor da Escola Paulista de Medicina, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), e coordenador da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia, que nos deu explicações sobre a doença.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 9 de dezembro de 2020.

Verificação

No tuíte verificado, a usuária da rede social insinua que a mídia e os cientistas estariam ocultando a informação de que pacientes com lúpus não desenvolvem a covid-19 ao contraírem o novo coronavírus. Essa relação não é verdadeira.

Lúpus

O lúpus, segundo o coordenador da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia, Edgard Reis, “é uma doença autoimune, em que o organismo começa a produzir anticorpos e substâncias inflamatórias que vão atacar órgãos e tecidos do próprio corpo”. Geralmente, os “alvos” desses ataques são as articulações, algumas estruturas do sangue, do sistema nervoso central e dos rins, e eles podem ser desencadeados por diversos fatores, como infecções ou desequilíbrios hormonais.

Como a hidroxicloroquina é usada em pacientes com lúpus?

De acordo com o reumatologista Edgard Reis, a hidroxicloroquina é um medicamento utilizado há mais de 50 anos no tratamento de pacientes com lúpus para auxiliar no controle da doença e no controle do sistema imune do paciente.

“Ela atua como um imunomodulador, ela vai ajudar a equilibrar o sistema imune do paciente. A hidroxicloroquina atua em estruturas da célula, que vão alterar o ph da célula e interferir em mecanismos inflamatórios da doença também”, explica o médico. O medicamento bloqueia os receptores de algumas células e diminui a resposta inflamatória.

Que benefícios a hidroxicloroquina traz a esses pacientes?

Há muita segurança dos especialistas em relação aos benefícios que a hidroxicloroquina confere aos pacientes com lúpus. De acordo com Edgard Reis, a medicação diminui a chance de a doença entrar em atividade e a frequência dos sintomas, além de melhorar lesões de pele e sistemas articulares. Também minimiza a evolução de sequelas da doença e o risco de morte do paciente.

“Ou seja, aquele paciente com lúpus que usa a hidroxicloroquina vive por mais tempo do que aquele que não usa”, afirma Reis. A hidroxicloroquina também melhora o perfil de colesterol, propicia uma melhora na glicemia, diminui o risco de trombose e melhora a ação de outros medicamentos. “Ela age com sinergismo com outras medicações. A hidroxicloroquina, junto com outras medicações, ajuda a controlar melhor a doença também. Então, é uma droga muito importante, é uma medicação âncora, uma medicação base no tratamento da doença, a menos que o paciente tenha contraindicações para o seu uso”, completa.

De acordo com o professor da Unifesp, essas contraindicações são poucas e não são absolutas, e estão mais ligadas a problemas cardíacos e oculares bastante específicos. Segundo ele, porém, é preciso fazer acompanhamento com um reumatologista, e realizar avaliações periódicas sobre o uso de qualquer medicamento ligado ao tratamento do lúpus.

Pacientes com lúpus têm menos chance de contrair a covid-19?

Não. Apesar de todos os benefícios da hidroxicloroquina no controle do lúpus, ela não interfere nos riscos de que esses pacientes contraiam ou não a covid-19. Os próprios especialistas na área de reumatologia tiveram a curiosidade, no início da pandemia, de saber se a hidroxicloroquina protegeria, de alguma forma, os pacientes que usavam a medicação.

“Lá no começo da covid, a gente tinha essa curiosidade também: será que aqueles pacientes com lúpus, que já usam a hidroxicloroquina, teriam menos risco de contrair a covid-19? E, contraindo, será que eles teriam uma doença menos grave? Os estudos mostraram que não. Eles têm a mesma chance de contrair a covid e eles não têm uma doença menos grave pelo uso da hidroxicloroquina. Então, isso está bem claro pra gente na literatura”, afirma Edgard Reis.

O estudo que apontou estes resultados chama-se Mario Pinotti 2 e foi elaborado por uma força-tarefa da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) com mais de 10 mil brasileiros com doenças reumáticas autoimunes – como lúpus, artrite reumatoide e Síndrome de Sjögren – e seus contactantes. O estudo foi feito em nove estados brasileiros e no Distrito Federal, incluindo 97 cidades e com a participação de quase 400 alunos estudantes de medicina voluntários.

Das 10 mil pessoas avaliadas, 5.166 eram pacientes com doenças reumáticas em uso de hidroxicloroquina há mais de 5 anos e 4.423 contactantes domiciliares, ou seja, pessoas que não usam o medicamento, e moram junto com os pacientes reumáticos. Dos participantes, 169 pacientes reumáticos tiveram covid-19, o equivalente a 4,03% do universo pesquisado. Já entre os contactantes, que serviram de comparação, a proporção de infectados foi de 3,25%, o que representou 124 pessoas. Os resultados apontam, portanto, que o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina não protegeu e nem evitou formas graves da covid-19 entre aqueles que usavam a medicação. Os dados sobre a pesquisa foram passados ao Comprova pelo coordenador da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia, que nos explicou que ela ainda não foi publicada, e está em processo de revisão pelos pares.

“A gente conhece ao longo desses anos muito do perfil de segurança da hidroxicloroquina para o lúpus, que é muitas vezes conflitante ou que não é semelhante àquele perfil de segurança dos pacientes de covid-19, onde a hidroxicloroquina foi testada e não se mostrou eficaz”, afirma Reis.

O que o especialista afirma é que os cenários são diferentes para o uso do medicamento e que até mesmo a dose testada para a covid-19 é diferente daquela utilizada em pacientes com doenças reumáticas. “A covid-19 tem um status inflamatório agudo, que é único da própria doença, que é singular, ou seja, é diferente do status inflamatório crônico que a gente tem em algumas doenças autoimunes. E, muitas vezes, na covid-19 você tem um uso concomitante com várias outras medicações que podem levar a uma interação medicamentosa que pode propiciar o aparecimento de eventos adversos. A gente sabe dos benefícios da hidroxicloroquina no lúpus, mas sabe que ela não é protetora para covid-19”, finaliza.

Em uma publicação oficial na internet, assinada por Edgar Reis, a Sociedade Brasileira de Reumatologia orienta os pacientes com doenças reumáticas sobre o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina e alerta que o quadro da covid-19 é bastante diferente.

O uso da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19 vem sendo apontado como ineficaz há alguns meses. A OPAS, braço da Organização Mundial da Saúde na América, não recomenda o uso do medicamento para os pacientes com o novo coronavírus, diante da ausência de resultados científicos que comprovem a eficácia e segurança do tratamento. O Comprova também já demonstrou que não há tratamento prévio para a covid-19 e que o uso da hidroxicloroquina não é capaz de diminuir a gravidade da doença.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus.

No caso da covid-19, é imprescindível que as informações sejam claras e possam orientar a população sobre a doença e as formas de minimizar os riscos de contágio. Ao relacionar o uso de um medicamento sem eficácia comprovada a uma suposta “imunidade” à doença, a autora da postagem – que teve quase 5 mil interações no Twitter – desinforma sobre os riscos ligados à infecção e à ausência de tratamento. Com isso, a postagem pode atrapalhar os esforços das autoridades em conter a disseminação da doença.

O Comprova já verificou outros conteúdos que traziam informações falsas sobre a covid-19 e as formas de prevenção à doença, como a postagem que sugeria que o uso de máscaras poderia provocar o acúmulo de líquido nos pulmões e o vídeo que afirma que as vacinas contra o novo coronavírus são uma tentativa de diminuir a população.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Políticas públicas

Investigado por:2020-12-08

É enganoso que trecho de ferrovia em GO seja obra do governo Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
Trecho mostrado em vídeo que viralizou no Facebook foi concluído em 2014 e não no governo Bolsonaro como afirma a publicação. Ele foi concedido à iniciativa privada em março de 2019, em um leilão realizado no início do governo Bolsonaro, mas anunciado ainda no mandato de Michel Temer, no final de 2018.
  • Conteúdo verificado: Post no Facebook sugere que os trens da Ferrovia Norte-Sul em Mara Rosa começaram a circular neste ano e atribui o feito ao presidente Jair Messias Bolsonaro (sem partido).

É enganoso que um trecho da ferrovia Norte-Sul tenha sido liberado recentemente, durante a gestão de Jair Bolsonaro (sem partido), como induz uma publicação feita no Facebook e acompanhada de um vídeo. A legenda diz que “começam os trens a circular pela ferrovia Norte-Sul” e diversos dos comentários que aparecem no post celebram o fato como uma conquista do governo atual. As imagens do vídeo foram de fato registradas no local citado no post verificado e a estrada de ferro está em fase final de obras, mas a operação naquele trecho só começará oficialmente em 2021.

A ferrovia Norte-Sul, que quando estiver totalmente pronta ligará Barcarena (PA) a Rio Grande (RS), teve sua construção iniciada em 1987. A parte da via mostrada no vídeo está concluída desde 2014. Ele fica em Mara Rosa, no norte de Goiás, e integra o trecho da ferrovia que vai de Porto Nacional (TO) a Estrela d’Oeste (SP). Este trecho foi concedido à iniciativa privada em março de 2019, em um leilão realizado no início do governo Bolsonaro, mas anunciado ainda no mandato de Michel Temer, no final de 2018.

A empresa Rumo venceu a disputa, mas só deve começar a operação neste trecho no primeiro semestre de 2021, segundo informou a própria companhia ao Comprova. Até lá, somente trens de outra concessionária, a VLI, que opera outro trecho da Norte-Sul, transitam no trajeto ferroviário já concluído entre Anápolis (GO) e Porto Nacional, onde está inserida Mara Rosa, local da gravação do vídeo verificado. As obras que ainda faltam se concentram no trecho sul, entre São Paulo, Goiás e Minas Gerais, segundo a Rumo. A VLI informou ao Comprova usar “de forma pontual” o trecho de Anápolis a Porto Nacional, que passa por Mara Rosa. A empresa não informou desde quando faz uso desta parte da ferrovia.

Ao Comprova, a Rumo confirmou que o trem que aparece no vídeo é de outra concessionária, mas que o registro se deu na Ferrovia Norte-Sul e que a viagem ocorreu entre 16 e 17 de outubro deste ano. A VLI também confirmou que o registro é de uma composição da companhia, que circulou nessas datas. A primeira divulgação do vídeo nas redes sociais foi em 21 de outubro. Fontes de Mara Rosa (GO) também confirmaram que o registro foi feito na cidade.

A postagem, divulgada em vários grupos de Facebook e perfis do Twitter desde o final de novembro, também traz na legenda mensagens de que “é um sonho de mais de 30 anos” que começa a virar realidade e a mensagem “É um novo Brasil!”, tendo sido postada em diversos grupos de apoio a Bolsonaro.

Como verificamos?

Para checar as informações e o conteúdo do vídeo, fizemos buscas reversas em ferramentas como InVID e Google, com o objetivo de localizar outras publicações em que o vídeo pudesse ter sido utilizado. Também consultamos o Ministério da Infraestrutura, a empresa pública Valec, que executou a maior parte da obra da ferrovia, a Rumo, que é a atual concessionária do trecho onde foi feito o vídeo investigado, e a empresa VLI, que detém a concessão de outro trecho da Ferrovia Norte-Sul e foi apontada como dona do trem que aparece nas imagens.

Recorremos ainda a um profissional da imprensa local. Consultamos também o Google Earth para tentar localizar o ponto da filmagem, a prefeitura de Mara Rosa e reportagens sobre a concessão e as obras da ferrovia.

Verificação

O vídeo da passagem do trem foi gravado no trecho da Ferrovia Norte-Sul que passa entre Mara Rosa e a cidade de Amaralina, no norte de Goiás. A cidade faz parte de um trecho da ferrovia que já teve obras concluídas em 2014, mas que deve ter o início de uma nova operação somente em 2021.

A cidade de Mara Rosa tem 9.363 habitantes, segundo o último dado do IBGE e faz parte da trama central do Ferrovia Norte Sul, concluída em 2014, ainda no governo de Dilma Rousseff (PT).

Por telefone, o diretor da Rádio Alternativa da cidade, Marcelo Matias, confirmou que a passagem entre Mara Rosa e Amaralina está pronta. Ele assistiu ao vídeo e confirmou que se trata do viaduto da Ferrovia Norte-Sul.

Em contato com a prefeitura de Mara Rosa, a assessoria disse que não tem informações sobre as rotas e cargas transportadas na rodovia, mas confirmou que o percurso de Mara Rosa está pronto há “uns quatro ou cinco anos”.

O Comprova procurou o Ministério da Infraestrutura para pedir informações sobre o trem registrado no vídeo. A assessoria de imprensa do órgão respondeu confirmando que o trecho da ferrovia que passa em Mara Rosa ficou pronto em 2014 e que foi concedido em março de 2019. Sobre o vídeo verificado, no entanto, o ministério solicitou que fosse feito contato com a concessionária desta área da ferrovia, a empresa Rumo.

Em nota ao Comprova, a companhia Rumo confirmou que o trem que aparece no vídeo pertence a outra concessionária que exerce o direito de passagem para circular no trajeto administrado pela Rumo na Ferrovia Norte-Sul. “A composição partiu de Anápolis (GO) em 16/10 com destino a Porto Nacional (TO), chegando no dia seguinte (17). A cidade de Mara Rosa (GO) está entre essas duas cidades”.

A empresa também explicou que, por ter vencido o leilão no ano passado, coordena e autoriza todas as circulações de trens no trecho entre Anápolis (GO) e Porto Nacional (TO) desde 1º de agosto de 2019 – mesmo trajeto em que Mara Rosa está inserida. Apesar de ter vencido a concessão, a Rumo ainda não iniciou a operação neste trecho da Ferrovia Norte-Sul. A previsão é de que isso ocorra no início do primeiro semestre de 2021, segundo a companhia.

Por enquanto, quem utiliza este trecho da ferrovia entre Anápolis (GO) e Porto Nacional (TO) são apenas trens de outra empresa, a VLI, que tem a Vale como acionista e é concessionária do trecho em direção ao Norte, entre Porto Nacional (TO) e Açailândia (MA). Procurada pelo Comprova, a VLI confirmou por e-mail que o vídeo verificado mostra a passagem de uma composição da companhia pelo tramo central da Ferrovia Norte-Sul (FNS), entre os dias 16 e 17 de outubro.

A empresa também afirmou que “utiliza de forma pontual o trecho que aparece no vídeo para enviar trilhos de sua unidade de manutenção, em Minas Gerais, para a operação do tramo norte da FNS, entre Porto Nacional (TO) e Açailândia (MA)”. O Comprova também questionou desde qual período a empresa utiliza o trecho e com qual frequência, no entanto, esses pontos não foram esclarecidos até o fechamento desta publicação.

Histórico conturbado

Segundo informações no site da Valec, a construção da Ferrovia Norte-Sul teve início em 1987. O traçado original era de 1.550 quilômetros, de Açailândia (MA) a Anápolis (GO), passando pelos Estados do Maranhão, Tocantins e Goiás. Esse trajeto está concluído e em operação, segundo o site da Valec. No entanto, os trens da nova concessionária deste trecho só devem circular a partir de 2021. O trecho de Anápolis (GO) a Porto Nacional (TO) é usado “de forma pontual” por outra empresa, a VLI, que administra outro trecho da ferrovia.

Ao longo dos anos, a ferrovia foi recebendo projetos para ampliação. Em 2006, uma lei incluiu um trecho mais ao norte, de Açailândia (MA) a Barcarena (PA) – este trecho ainda está apenas em projeto. Em 2008, uma nova lei ampliou o traçado em direção ao Sul, até Panorama (SP). As informações também estão disponíveis no site da Valec.

As obras da ferrovia ficaram paradas por longos períodos nos mais de 30 anos desde seu início. Também houve polêmicas sobre sua execução. A obra é envolvida em denúncias de irregularidades desde a primeira licitação, em 1987, e chegou a ser alvo de operações da Polícia Federal e de outras investigações sobre corrupção, como mostra reportagem do jornal O Globo. A primeira viagem comercial só ocorreu um ano e meio após a inauguração do trecho entre Anápolis (GO) e Porto Nacional (TO), em 2014, de acordo com reportagem do portal G1.

Em 2015, foram concluídos os estudos de viabilidade para mais dois trechos, de Panorama (SP) a Chapecó (SC) e de Chapecó (SC) a Rio Grande (RS) – esses trechos da ferrovia também estão apenas no papel. Caso esses trajetos sejam totalmente executados, a via permitirá o transporte de cargas cruzando o país do Pará ao Rio Grande do Sul, com interligação com estradas férreas que acessam portos, o que faz com que a ferrovia seja chamada de “espinha dorsal” do transporte ferroviário no Brasil.

Em 2019, um trecho da Ferrovia Norte-Sul foi concedido à iniciativa privada. Segundo reportagem do portal G1, a empresa Rumo arrematou o trecho de 1,5 mil km com um lance de R$ 2,7 bilhões, o dobro do lance mínimo previsto. O contrato tem duração de 30 anos. A empresa já possui outras concessões de ferrovias do país.

O leilão foi anunciado no fim do governo Michel Temer (MDB), mas foi realizado já na gestão de Jair Bolsonaro (sem partido), em março de 2019. O contrato foi assinado em 31 de julho de 2019. O trecho entre Porto Nacional (TO) e Estrela d’Oeste (SP) estava previsto para ser entregue com a execução concluída à concessionária vencedora do leilão, mas foi repassado com 93% das obras terminadas, segundo informou ao Comprova o Ministério da Infraestrutura.

O trajeto de Anápolis (GO) a Porto Nacional (TO) já estava concluído e chegou a ser inaugurado em 2014 pela presidente Dilma Rousseff (PT). As obras que ainda faltam se concentram no trecho sul, entre São Paulo, Goiás e Minas Gerais, segundo nota da empresa.

Antes disso, em 2007, durante o governo Lula, o trecho entre Porto Nacional (TO) e Açailândia (MA) já havia sido concedido, com vitória da empresa Vale.

A Ferrovia nos dias atuais e sua divisão

Projetada para se tornar a espinha dorsal do transporte ferroviário no Brasil, quando concluída a Ferrovia Norte-Sul vai interligar terminais portuários das regiões Norte e Sudeste, passando pelo Centro-Oeste do país.

Atualmente ela está dividida em três partes:

> Tramo Norte: Entre Açailândia (MA) e Porto Nacional (TO), com 720 quilômetros de extensão.

> Tramo Central: com 855 quilômetros de extensão, entre Porto Nacional (TO) e Anápolis (GO). Esse trecho da ferrovia passa por 14 municípios de Tocantins e 19 de Goiás.

> Tramo Sul: entre os municípios de Ouro Verde de Goiás (GO) e Estrela d´Oeste (SP), com 682 km de extensão. Seu traçado passa por 16 municípios de Goiás, 3 de Minas Gerais e 3 de São Paulo.

O caminho das publicações

O Comprova não conseguiu localizar o autor do vídeo. As imagens circulam desde novembro deste ano. De acordo com a ferramenta CrowdTangle, o primeiro registro ocorreu no dia 26 por um perfil pessoal em um grupo chamado “PT Nunca Mais”. No dia seguinte, o mesmo perfil publicou o vídeo com legenda idêntica elogiando a conclusão das obras da ferrovia em outro grupo, de nome “A gente não tem cara de babaca”. Nesse mesmo dia, a primeira publicação, do dia anterior, foi compartilhada por outro usuário em um grupo diferente, o “Debates do Movimento Avança Brasil”.

A partir do dia 28 a postagem começou a ser republicada por diversos perfis, com o mesmo texto de legenda. Segundo a plataforma CrowdTangle, foram 268 publicações e 6,6 mil interações até o dia 7 de dezembro.

O vídeo com a legenda enaltecendo o avanço da Ferrovia Norte-Sul também circulou no Twitter. Nesta rede, foram 36 postagens até 7 de dezembro, segundo a plataforma Tweetdeck.

Buscas reversas por meio da ferramenta InVID mostraram que o vídeo já havia sido publicado no Facebook mais de um mês antes, em 21 de outubro, em uma página que divulga vídeos de entretenimento. Na ocasião, no entanto, não havia nenhuma menção à Ferrovia Norte-Sul na publicação. A página publicou a gravação do trem apenas com a legenda “Oi o trem”, seguida de três emojis. Apenas a narração do vídeo é que fazia referência à Ferrovia Norte-Sul.

O Comprova tentou contato com alguns perfis que divulgaram o vídeo nas redes sociais, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos duvidosos sobre as eleições municipais de 2020, a pandemia de covid-19 e as políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. A checagem de conteúdo é importante pois ajuda as pessoas a formarem suas próprias conclusões com base em fatos verdadeiros.

O vídeo publicado na página “Aliança pelo Brasil” teve mais de 2 mil interações no Facebook desde sua publicação no dia 29 de Novembro. Pelo Twitter, publicado no dia 30 de Novembro por um perfil pessoal, teve mais de 1.700 interações.

Em agosto deste ano o Comprova checou outro conteúdo que também atribuía a conclusão de uma obra à gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Na ocasião, o foco era um viaduto na BR-277 em Foz do Iguaçu e foi confirmado pelo próprio Ministério da Infraestrutura que a obra não tinha nenhuma relação com o governo federal. Já em outubro, o Comprova também identificou como engano um tuíte que afirmava que a “Ferrovia do Sol” estava em vias de ser implementada e também comprovou que trecho na BR-163 foi asfaltado no governo do presidente Bolsonaro.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações.

Pandemia

Investigado por:2020-12-07

Máscara não causa acúmulo de líquido nos pulmões nem intoxicação

  • Falso
Falso
Postagem usa suposto caso de mulher que caiu enquanto corria usando uma máscara para dizer que equipamento é prejudicial à saúde, mas autoridades negam que proteção cause danos graves. Além disso, uso de máscara não é recomendado durante prática de exercícios físicos ao ar livre
  • Conteúdo verificado: Postagem em um site que diz que, de acordo com médicos, o uso de máscara pode baixar a imunidade e congestionar pulmões.

É falso que o uso de máscaras não reduza o risco de contrair o coronavírus e que o equipamento seja prejudicial à saúde, como consta num texto publicado pelo site Estudos Nacionais. A postagem recorre a um vídeo gravado por um otorrinolaringologista sobre uma paciente que teria sofrido uma queda enquanto corria usando máscara. Segundo a publicação, ele afirma que o equipamento de proteção pode causar intoxicação por CO2 e acúmulo de líquido nos pulmões. Isso não é verdade.

O uso de máscaras impede a disseminação de gotículas no ambiente, por isso é indicado para a proteção contra o coronavírus. Mesmo a máscara caseira, quando produzida da maneira correta, não oferece riscos à saúde.

Embora o uso da máscara reduza a capacidade respiratória – e, justamente por essa razão, não seja recomendada durante atividades físicas -, especialistas ouvidos pelo Comprova reafirmaram que elas são eficazes na proteção contra o coronavírus e negaram a possibilidade de as máscaras causarem danos graves como intoxicação por acúmulo de CO2 ou acúmulo de umidade e líquido nos pulmões.

O post afirma ainda que as autoridades ao redor do mundo ignoraram o risco do uso de máscaras mesmo após a morte de dois estudantes na China que se exercitavam usando o equipamento. As duas informações também são falsas. Além de a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomendar que as pessoas usem máscaras ao praticar exercícios intensos ao ar livre, a agência de checagem portuguesa Polígrafo já mostrou que é falsa a informação de que os estudantes chineses morreram por conta do uso do equipamento, em maio deste ano.

Como verificamos?

Iniciamos procurando o vídeo citado no início da publicação verificada e chegamos a uma postagem da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), feita no Twitter em 20 de novembro. Em seguida, o Comprova analisou os compartilhamentos do vídeo, não apenas no Twitter como também no Instagram e no Facebook, onde foi possível identificar o nome do médico responsável pela gravação.

Feita a consulta no Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), foi possível confirmar que Leandro Tavares Flaiban, médico otorrinolaringologista que trabalha no Hospital Paulo Sacramento, em Jundiaí (SP), foi o responsável pela gravação.

Consultamos as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) a respeito do uso de máscaras, inclusive durante a realização de atividades físicas, e entrevistamos os infectologistas Fábio Amorim, do Hospital São Rafael e do Instituto Couto Maia, unidade de referência para doenças infectocontagiosas na Bahia; e Clarissa Cerqueira, do Hospital Cardiopulmonar e da Estratégia Med, em Salvador.

Buscamos informações sobre o uso de máscaras em verificações anteriores do Comprova e de outras agências de checagem.

Por fim, entramos em contato com o Hospital Paulo Sacramento, em Jundiaí (SP), que confirmou ter em seu quadro de profissionais o otorrino Leandro Tavares Flaiban. Porém, não foi possível falar com o médico pelos telefones do hospital. Não conseguimos encontrar os contatos pessoais dele.

Também procuramos o site Estudos Nacionais, mas não recebemos resposta até o fechamento desta verificação.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 7 de dezembro de 2020.

Verificação

Máscaras e CO2

O uso de máscaras realmente reduz a capacidade de respirar, segundo especialistas ouvidos pelo Comprova. No entanto, isso não significa que haja um aumento de concentração de CO2 capaz de causar intoxicação. “O gás carbônico que se concentra numa máscara não é suficiente para causar intoxicação nem dano cerebral. A gente trabalha com máscara N95 o tempo inteiro e eu desconheço caso de profissional de saúde que tenha desmaiado”, afirma o médico infectologista Fábio Amorim, que trabalha no Hospital São Rafael, em Salvador, e no Instituto Couto Maia, unidade de referência na Bahia para doenças infectocontagiosas. A máscara N95 consegue filtrar 95% de partículas e é indicada para proteção contra doenças por transmissão aérea.

A também infectologista Clarissa Cerqueira, do Hospital Cardiopulmonar, em Salvador, corrobora, citando inclusive casos de profissionais de saúde que usam máscara com frequência sem que sofram intoxicação. “A máscara é extremamente eficaz. E ela tem a capacidade de fazer a troca de ar. Então, não existe a pessoa falar que está retendo CO2 por uso de máscara. Nós, profissionais em saúde, usamos máscaras há anos no ambiente hospitalar, tem cirurgiões que operam durante 12 horas, infectologistas que precisam usar máscara para atender pacientes com tuberculose, catapora, e nunca houve nada assim”, explica.

No início do mês de abril, diante da falta de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) no mercado mundial, o Ministério da Saúde recomendou que a população produzisse máscaras de tecido, deixando as máscaras profissionais (cirúrgica e N95 ou similares) para os profissionais da saúde.

Entretanto, para garantir a efetividade da proteção, a confecção das máscaras deve seguir algumas especificações técnicas, especialmente com relação ao tipo de matéria prima a ser utilizada. Os tecidos recomendados são, em ordem decrescente de capacidade de filtragem de partículas virais:

a) Tecido de saco de aspirador;

b) Cotton (composto de poliéster 55% e algodão 45%);

c) Tecido de algodão (como camisetas 100% algodão);

d) Fronhas de tecido antimicrobiano.

Outras informações e especificações podem ser encontradas no site do Ministério da Saúde.

“Uma coisa que pode acontecer é alguém fazer uma máscara com um tecido que não tem capacidade de troca de ar, mas isso não leva a esse tipo de alteração [intoxicação]. O tecido que a gente recomenda é algodão e algum tecido sintético. Você tem que usar um tecido de algodão na camada interna. Na intermediária, um tecido sintético como um TNT e na de fora também, porque o tecido tem poros. Agora, realmente, se a pessoa colocar um plástico no rosto, a pessoa vai morrer de falta de ar”, afirma Clarissa Cerqueira.

Máscaras não provocam acúmulo de líquido nos pulmões

Os dois especialistas também negaram a possibilidade de que a máscara, por conta da umidade, provoque acúmulo de líquido nos pulmões, como afirma o post. “Isso acontece quando a pessoa se afoga ou quando acontece uma falência múltipla por edema de pulmão, mas isso é incompatível com o uso de máscaras”, explica o infectologista Fábio Amorim. O equipamento não impede a passagem do ar, mas sim dificulta a passagem de partículas presentes no ar.

Clarissa Cerqueira explica que a umidade na máscara é comum já que, durante a respiração, a pessoa libera partículas de ar. É por isso que a máscara precisa ser trocada a cada duas horas para que seja de fato eficaz. Mas, mesmo assim, não há possibilidade de acúmulo de líquido nos pulmões. “Não tem nada que justifique uma retenção de líquido nos pulmões. Quando você respira, você libera partículas de ar e, com o tempo, você troca a máscara. Se ela tá úmida, você precisa trocar. Mas não faz nenhum sentido acumular líquido no pulmão, eu não consigo nem explicar. Como entraria água ali?”, questiona.

Não se deve usar máscara durante exercícios físicos

A OMS não recomenda o uso de máscara em atividades físicas mais vigorosas, por conta do risco de redução da capacidade respiratória. No entanto, a Organização orienta que, não importa o quão intensas sejam as atividades físicas, é necessário manter no mínimo um metro de distância de outras pessoas e, no caso de atividades em casa, é necessário escolher um local com ventilação adequada.

Não é verdade que estudantes chineses morreram ao usar máscara

A agência portuguesa de fact-checking Polígrafo noticiou que um dos jovens que faleceu na China enquanto faziam exercícios físicos foi vítima de um ataque cardíaco, como foi declarado no atestado de óbito. Segundo a professora da Universidade de Medicina Chinesa de Shaanxi, Cao Lanxiu, “não foi a máscara que causou a morte súbita”.

Na segunda morte registrada, o estudante faleceu durante uma corrida, segundo apuração realizada pela agência tendo como base uma reportagem realizada pela emissora de TV australiana 7 News. Não houve nenhuma evidência de que a máscara tenha sufocado o aluno.

Quem são os médicos citados no post

A postagem verificada cita dois médicos brasileiros. Um deles é Leandro Tavares Flaiban. De acordo com dados do Conselho Federal de Medicina (CFM), Flaiban é otorrinolaringologista e possui registros em dois estados: São Paulo e Amazonas, ambos em situação regular. No registro principal, no Amazonas, consta a especialidade de otorrinolaringologia. Já o registro secundário, de São Paulo, não possui especialidades cadastradas.

O Comprova conseguiu confirmar que Leandro trabalha no Hospital Paulo Sacramento, em Jundiaí, mas não pudemos conversar com o médico – o hospital, primeiro, disse que não poderia passar o contato dele; em seguida, nos forneceu um telefone, mas ninguém atendeu no número discado. Também não localizamos uma conta sua no Twitter. No Facebook, os posts são fechados.

O segundo médico mencionado no texto é o também otorrinolaringologista Carlos Nigro, que trabalha em uma clínica em Taubaté (SP). Em seu perfil no Facebook, ele afirma ter estudado Medicina na Universidade de São Paulo (USP) e ter doutorado na mesma instituição. As informações constam em seu currículo Lattes, em texto informado pelo próprio autor. Também afirma ser aluno do Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho.

O CFM tem um registro em nome de Carlos Eduardo Nazareth Nigro, feito em janeiro de 1996 em São Paulo, com especialidade para otorrinolaringologia. No Facebook, o médico faz postagens contrárias ao uso de máscara, ao lockdown e à vacina.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre a pandemia e as políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. A matéria publicada no site “Estudos Nacionais” teve 12 mil interações no Facebook, de acordo com a plataforma de monitoramento CrowdTangle. Tratando-se de temas relacionados à pandemia da covid-19, os riscos da desinformação são maiores, visto que afetam diretamente a saúde das pessoas e que as medidas de proteção como as máscaras são de extrema necessidade para impedir a disseminação da doença.

O Comprova já verificou outros conteúdos que disseminam informações sem fundamentos, desde o início da pandemia, como um vídeo que afirmava que as máscaras não são eficientes no combate à covid-19; um áudio no qual um engenheiro falsamente alegava que as vacinas causam câncer e danos genéticos; e um vídeo no qual um pastor diz que o vírus foi feito na França e vacinas seriam uma iniciativa globalista para reduzir a população.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2020-12-04

É enganoso vídeo que denuncia suposta fraude nas urnas em João Pessoa

  • Enganoso
Enganoso
Um candidato a vereador pelo MDB disse não ter tido nenhum voto na seção onde ele próprio votou, mas documentos oficiais da Justiça Eleitoral mostram que ele teve dois votos no local
  • Conteúdo verificado: Vídeo no YouTube em que candidato a vereador em João Pessoa afirma que voto que ele deu em si mesmo não foi contado

É enganoso o vídeo em que um candidato a vereador em João Pessoa, na Paraíba, afirma que não foi contabilizado o voto que ele deu em si mesmo. Na realidade, foram contados dois votos para Edmilson Gomes de Melo (MDB) na seção onde ele votou. Ao todo, o candidato recebeu 119 votos e ganhou uma vaga de suplente na Câmara Municipal.

Gomes de Melo está inscrito no Título de Eleitor na zona 001, seção 004. Porém, algumas seções eleitorais foram agregadas este ano, por isso Edmilson foi orientado a votar na seção 001. Ao Comprova, o Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) apresentou documentos que provam a votação de Edmilson na seção 001.

No vídeo, o candidato afirma ainda que um funcionário do TRE-PB “adicionou” dois votos para ele na seção eleitoral. O TRE-PB esclareceu que o banco de dados de votação jamais pode ser “editado”. O órgão comunicou em nota que o vídeo é uma “tentativa de macular a Justiça Eleitoral, forjando fatos”.

Como verificamos?

O Comprova entrou em contato com o Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) e solicitou informações sobre as seções e zonas eleitorais existentes em João Pessoa. Também buscamos o resultado das eleições 2020 no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para confirmar a candidatura do homem que aparece no vídeo e a quantidade de votos obtida por ele. Foram procurados ainda o candidato Edmilson Duroger e o responsável pelo canal Seu Mizuka, que divulgou o vídeo.

Verificação

Qual a explicação do TRE-PB?

No vídeo, o candidato a vereador Edmilson Gomes de Melo está em frente à sede do TRE-PB. De acordo com o órgão eleitoral, ele foi atendido na Seção de Orientação e Apoio às Zonas Eleitorais (SOAZE) no dia 18 de novembro, três dias depois do primeiro turno do pleito. Na gravação, Edmilson afirma que o voto que ele depositou em si mesmo não foi contado, assim como a votação de seus familiares.

Isso não é verdade. De acordo com os resultados oficiais divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Edmilson recebeu 119 votos. O TRE-PB detalhou que foram dois votos na seção onde o candidato votou, a 001 da 1ª Zona Eleitoral. A mesma votação consta no boletim de urna divulgado pelo TSE.

Os votos a favor de Gomes de Melo foram distribuídos da seguinte maneira: 49 votos na 1ª Zona Eleitoral; 24 votos na 64ª Zona; 19 votos na 70ª; 12 votos na 76ª; e 15 votos na 77ª.

Edmilson está cadastrado no Título de Eleitor na seção 004 da 1ª Zona Eleitoral, mas o TRE-PB esclareceu que algumas das seções foram agregadas este ano. O órgão apresentou ao Comprova um documento que mostra que o local de votação do candidato foi transferido.

Como mostra consulta ao site oficial do TSE, Gomes de Melo votou na Faculdade de Ciências Médicas (antigo Colégio Pio XII), na Praça São Francisco, 116, no centro de João Pessoa.

No vídeo, Edmilson diz que, depois de reclamar que nenhum voto a seu favor foi contado na seção onde votou, um funcionário do TRE-PB “adicionou” dois votos para o candidato. Em resposta, o TRE-PB disse que não é possível “editar” o banco de dados de votação. Neste ano, a totalização dos votos foi centralizada na sede do TSE, em Brasília.

O TRE-PB informou que vai encaminhar o caso ao Ministério Público Eleitoral.

Quem é o autor do vídeo original?

Edmilson Gomes de Melo tem 57 anos e foi candidato pelo MDB, usando o número 15.777 e o nome de urna “Edmilson Duroger” — referência ao Roger, um dos bairros mais carentes da capital paraibana. No local ficava, até 2003, o antigo lixão da cidade, e ainda hoje funciona a Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega, o mais antigo presídio da Paraíba, inaugurado há 80 anos.

Conversamos com Edmilson por telefone. Ele disse que “estranhou não ter tido votos em sua seção, a 4ª da 1ª zona eleitoral, mas que um funcionário do TRE disse que poderia corrigir e imprimiu um relatório com dois votos naquela seção (na verdade, a 1ª)”.

Durante o telefonema, ele admitiu que o funcionário que o atendeu “pode ter sido irônico”. Após a gravação do vídeo, Edmilson disse que retornou ao TRE e recebeu a explicação que sua seção original, a 4ª, foi agregada à 1ª seção por conta das alterações realizadas para reduzir o número de mesários por causa da pandemia.

O candidato explicou que, no vídeo, se referiu aos oito votos que teve no bairro do Roger, pois sabia que, no total, obteve 119 votos. “Sem arrogância, pela campanha que fiz e pelo trabalho que faço no Roger, há muitos anos, era pra ter tido 5 mil votos”. De acordo com os dados do último censo do IBGE, em 2010, a população do bairro era de 10.381 pessoas aptas a votar.

O trabalho ao qual ele se refere seria “as denúncias de corrupção na Câmara Municipal” que costuma fazer. Edmilson informou ao TRE ser “jornalista e redator”. Na documentação de registro de candidatura consta apenas um diploma de conclusão do Ensino Médio.

No dia 24 de novembro, ele foi à sede da superintendência da Polícia Federal no estado e protocolou um pedido para “pegar todas as urnas do município de João Pessoa, e que se disponibilize uma equipe de especialistas na segurança da informação que seja neutra para periciá-las”.

Edmilson contou que foi à PF acompanhado de dois outros candidatos, citados no vídeo analisado: Nininho Mangabeira e Dr. Nosman (Antônio Nosman Barreiro Paulo), ambos do MDB. Um terceiro candidato que, segundo ele, também estaria “revoltado”, Dr. Aníbal Marcolino (José Aníbal Costa Marcolino Gomes), não o acompanhou por ter desistido de fazer a denúncia.

O Comprova entrou em contato com a PF para saber mais informações sobre a denúncia de Edmilson, mas não recebeu resposta.

O canal do Youtube

O vídeo de Edmilson foi reproduzido pelo canal Seu Mizuka, que existe no YouTube desde 9 de dezembro de 2017 e tem 71,9 milhões de visualizações. É conhecido por publicar conteúdos favoráveis ao governo federal e é um dos canais que veicularam anúncios da Secretaria Especial de Comunicação Social do Governo Federal sobre a Previdência, sendo o sexto canal do YouTube com mais interações nos anúncios do governo por visualização. Em junho deste ano, o Comprova já desmentiu um vídeo publicado no mesmo canal e que tentava desacreditar a pandemia da covid-19, apoiado em imagens da cidade de Genebra, na Suíça.

O Comprova tentou contato com o responsável pelo canal Seu Mizuka, mas não obteve resposta.

Por que investigamos?

Atualmente em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre as eleições municipais de 2020, a pandemia de covid-19 e as políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. A verificação de conteúdos que tratam de apuração é importante porque conteúdos inverídicos podem atingir a confiança das pessoas nas eleições.

O vídeo publicado no canal “Seu Mizuka” teve mais de 157 mil visualizações desde o dia 25 de novembro. No Facebook, o link de YouTube teve 32.355 interações, de acordo com a ferramenta CrowdTangle.

O Comprova tem checado uma série de conteúdos que atacam a lisura do processo eleitoral. Por exemplo, desmentimos que o software das urnas eletrônicas brasileiras tenha sido usado em fraudes nos Estados Unidos e que o TSE tenha atualizado os resultados das eleições de acordo com o portal de notícias G1. Veja todas as verificações do Comprova sobre eleições.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações.

Pandemia

Investigado por:2020-12-02

Vírus não foi feito na França e vacinas não são uma iniciativa globalista para reduzir a população

  • Falso
Falso
O Instituto Pasteur nega as acusações feitas no vídeo verificado, especialistas dizem que são teorias conspiratórias sem fundamento e, procurados pelo Comprova, os homens que aparecem na gravação não ofereceram provas do que dizem.
  • Conteúdo verificado: Trecho de uma live publicada no Instagram em que os participantes discutem sobre vídeo que supostamente mostraria documentos comprovando que o novo coronavírus foi fabricado no Instituto Pasteur, na França. Além disso, o conteúdo afirma que vacinas “modificam o DNA para sempre”, “estabelecem um novo sistema genético”, contém “material genético do HIV”, e que são “uma iniciativa dos globalistas para reduzir a população em 90%”.

É falso que vacinas são uma iniciativa globalista para reduzir a população e que modificam o DNA, como afirma um pastor em uma live publicada no Instagram e no YouTube. Ele diz que assistiu a um vídeo que supostamente mostrava provas de que o novo coronavírus tinha sido criado no Instituto Pasteur, na França, e que as vacinas contam com “o material genético do HIV” e “estabelecem um novo sistema genético”. No entanto, o homem não mostra e nem divulga o link para o vídeo no qual baseou suas falas, mesmo sendo solicitado a fazê-lo por alguns seguidores nas áreas de comentários.

Segundo o virologista Flávio Fonseca, da Universidade Federal de Minas Gerais e do Centro de Tecnologia em Vacinas da UFMG, não existem vacinas que tenham a capacidade de alterar o nosso material genético, DNA. Sobre as afirmações realizadas no vídeo de que vacinas são “uma iniciativa dos globalistas para reduzir a população em 90%”, o professor da faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), Jorge Kalil, falou que não existem provas de que esse tipo de medicamento tenha o objetivo de eliminar parte da população, que são teorias da conspiração. E acrescenta “Como vai ter uma coalizão de interesses tão comuns para eliminar a população do mundo? Nunca houve nenhum tipo de vacina responsável pela morte de muitas pessoas. Isso nunca existiu”.

O Comprova acionou o instituto francês para verificar a afirmação feita pelo pastor sobre a origem do vírus, que negou o boato. O instituto já tinha sido acionado por versões em outros idiomas do mesmo boato e emitido posicionamento.

Também buscamos contato com Lamartine Posella Sobrinho, que faz as afirmações durante a live, assim como o responsável pela entrevista Wagner Malagues, para solicitar as provas que são citadas no vídeo. Até o momento desta publicação não houve resposta do Pastor e Wagner deu respostas inconclusivas.

Como verificamos?

Recorremos a pesquisas em diversas reportagens sobre vacinas, bem como em checagens anteriores do Comprova sobre o tema. Esses materiais nos ajudaram a esclarecer questões como a possibilidade de um imunizante contra o novo coronavírus alterar o DNA humano ou conter material genético do HIV. Acionamos, ainda, o instituto francês Pasteur para solicitar um posicionamento sobre a alegação de que o Sars-CoV-2 teria sido criado na instituição.

Além disso, buscamos especialistas para avaliar as afirmações do vídeo aqui analisado. Colaboraram o professor da faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), Jorge Kalil; o professor da Escola de Relações Internacionais da FGV, Pedro Brites; o virologista da Universidade Federal de Minas Gerais e do Centro de Tecnologia em Vacinas da UFMG, Flávio Fonseca e a microbiologista Jordana Coelho dos Reis, que atua no Laboratório de Virologia Básica e Aplicada do Departamento de Microbiologia, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Também entramos em contato com os autores do vídeo. O entrevistado, Lamartine Posella Sobrinho, não retornou até o fechamento desta publicação. Já o apresentador Wagner Malagues respondeu nosso contato, mas não deu nenhuma fonte que sustente as afirmações no seu canal.

O Comprova fez esta verificação baseada em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 1 de dezembro de 2020.

Verificação

Vacinas podem causar alterações no DNA humano e câncer?

No conteúdo verificado, o pastor Lamartine Posella diz que assistiu a um vídeo, sem indicar qual, em que um cientista, sem citar o nome, afirma que “das seis vacinas que estão sendo desenvolvidas para Covid, três delas modificam o DNA para sempre”. Porém, não foram apresentadas provas sobre tal afirmação e, de acordo com Flávio Fonseca, virologista da Universidade Federal de Minas Gerais e do Centro de Tecnologia em Vacinas da UFMG, “não existe nenhuma vacina capaz de alterar o nosso material genético, nosso DNA”.

O virologista explicou que nosso material genético é muito bem protegido dentro de nossas células. “Ele fica dentro do núcleo, não fica exposto no citoplasma. E dentro do núcleo há uma série de enzimas que fazem, entre aspas, o patrulhamento da qualidade do nosso DNA para evitar exatamente que aconteçam mutações indesejadas”.

Fonseca reforçou que estamos expostos diariamente a material genético estranho ao nosso DNA, como infecções por vírus, bactérias e por processo de absorção (fagocitoses) de outras células que, por ventura, entram em contato com nosso organismo. “Então tudo isso chega dentro de nossas células. E, na verdade, são poucos os materiais genéticos que conseguem integrar, entrar no nosso genoma e alterá-lo. Alguns vírus muito especializados conseguem fazer isso, entre eles, por exemplo, os retrovírus, do qual fazem parte o HIV. E pra conseguir fazer isso, o HIV tem todo um aparelhamento molecular que permite que ele altere o nosso DNA”.

Ele também enfatizou que nenhuma das vacinas que temos atualmente consegue fazer isso. “Nenhuma delas, seja para covid-19 ou qualquer outra vacina que a gente conheça, têm a capacidade de fazer esse tipo de coisa, ou seja, de alterar nosso material genético através de sua integração dentro de nosso DNA”.

No início deste mês, o Comprova fez uma verificação que apontou que vacinas não causaram danos neurológicos ou de DNA. O alvo do conteúdo verificado era a CoronaVac, vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac com apoio do Instituto Butantan.

Ainda no vídeo desta verificação, o pastor Posella também fala, sem apresentar provas, que é a primeira vez que uma vacina está sendo feita com um DNA estranho, um elemento diferente que vai modificar o RNA mensageiro, que por sua vez, estabelecerá um novo sistema genético e que isso pode gerar graves consequências no futuro para quem se vacinar, podendo até provocar mortes por câncer.

Sobre isso a microbiologista Jordana Coelho dos Reis, que atua no Laboratório de Virologia Básica e Aplicada do Departamento de Microbiologia, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explicou que algumas das vacinas que estão sendo desenvolvidas contém RNA mensageiro – molécula que todos têm nas células e que leva a informação até o citoplasma para a produção de proteínas que constituem nosso organismo. Cada proteína precisa de um RNA mensageiro diferente para ser produzida, inclusive as de vírus. “Então para produzirmos proteínas no nosso organismo precisamos de RNAs mensageiros e eles são naturais do nosso organismo. As vacinas que são constituídas de RNAs mensageiros codificam proteínas dos SARS-CoV-2 que vão ser importantes para nos imunizar, para avisar o nosso sistema imune de que existe essa proteína e que ela precisa ser reconhecida por anticorpos, por células e , assim, realmente quando nós entrarmos em contato com o vírus [da covid-19] estaremos imunizados”.

Jordana reforçou que os RNAs que estão sendo utilizados nos testes para algumas vacinas não têm a capacidade de alterar nosso DNA e que, portanto, são seguros. “A gente pode confirmar com segurança, com pé no chão, tranquilamente que essas vacinas não representam um risco para câncer nesse sentido de alterar genoma, não tem a menor chance disso acontecer”.

Ainda sobre essa hipótese levantada pelo instituto, o Comprova já checou e identificou como falso outro conteúdo que também difundia um argumento de que a vacina poderia ocasionar câncer. À época, o Comprova conversou com Cristina Bonorino, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e membro da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), que comentou essa questão, dentre tantos pontos. Cristina disse que não há estudo que possa amparar esse argumento e se fosse verdade, haveria muito mais gente com câncer. Ela também explicou que os efeitos das vacinas, inclusive as que estão há décadas no calendário, na população são constantemente acompanhados por cientistas. “A gente faz estudos, busca efeitos, ajusta imunizações a partir do que é detectado. É muito perigoso uma pessoa sair por aí fazendo esse tipo de declaração.”

Material genético do HIV nas vacinas

De acordo com o virologista Flávio Fonseca, “não existe nenhuma vacina para SARS-CoV-2, para covid-19, que contenha porções oriundas do vírus HIV”.

Fonseca acredita que esse boato possa ter origem em uma situação passada com uma vacina para HIV que passou por três fases de testes com adenovírus, mas não obteve sucesso. “Há uma grande confusão porque no passado houve a geração de uma vacina utilizando adenovírus, vetor viral, que é a estratégia, por exemplo, usada pela vacina de Oxford, pela vacina Russa, pela vacina da Johnson e Johnson, todas elas usam adenovírus como vetor viral”.

No caso dessa vacina para HIV, ela não teve a eficácia pretendida e desencadeou até alguns problemas graves onde pessoas vacinadas acabaram tendo mais infecções com HIV, do que as pessoas que receberam placebo.

Em outubro, a Revista Exame publicou uma reportagem falando sobre as preocupações de médicos em relação às vacinas em desenvolvimento que utilizam o adenovírus de número 5 (Ad5), e que segundo estudo publicado no jornal científico The Lancet apontava que a infecção por HIV poderia ser facilitada caso o paciente vacinado recebesse uma dose contendo o Ad5. Neste estudo, os cientistas se basearam em análises de 2007, referentes à vacina para HIV mencionada pelo o virologista da UFMG. Ainda no texto foi pontuado que até então, “nenhum teste realizado com as vacinas em desenvolvimento contra a covid-19 mostraram resultados semelhantes”.

A microbiologista Jordana também enfatizou que as vacinas em teste são completamente distintas do vírus HIV. “Vamos esclarecer então em relação às vacinas que estão sendo produzidas conter material genético do HIV, isso é uma inverdade. Nós não temos evidências de que existe material genético do HIV, inclusive em nenhuma das vacinas que estão sendo desenvolvidas. Algumas delas contém RNA mensageiro, mas em nenhum momento esse RNA mensageiro pertence ao HIV, ele não é de origem retroviral, então não tem retrovírus ali”.

Vacina x Globalismo

Ao fim do vídeo, o pastor Lamartine Posella Sobrinho, o entrevistado, alerta que vacina é “uma iniciativa dos globalistas para reduzir a população em 90%”. Contudo, não há provas de que esse tipo de medicamento tenha o objetivo de eliminar alguma parcela da população. Tampouco existe registro histórico de que já tenha causado muitos óbitos, conforme o professor da faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), Jorge Kalil. “Essas teorias da conspiração que colocam a ciência, as empresas e os governantes como se todos quisessem eliminar 90% da população, me parece absolutamente ridículo. Como vai ter uma coalizão de interesses tão comuns para eliminar a população do mundo? Nunca houve nenhum tipo de vacina responsável pela morte de muitas pessoas. Isso nunca existiu”, afirma.

Kallil ainda aponta que a imunização é a alternativa mais adequada para frear o contágio do novo coronavírus. “A gente sabe que vacina é a solução para uma pandemia porque ela vai deixar as pessoas imunizadas, que vão deixar de ficar doentes, vão deixar de transmitir o vírus e, com isso, o vírus não transmitindo, a pandemia acaba. Tivemos milhares de ganhos pela utilização de vacinas. E na situação atual é o que pode nos ajudar.“

Ao mencionar em tom crítico que vacinas são “uma iniciativa globalista”, o pastor usa um conceito difuso, adotado nos dias de hoje, principalmente, pela nova direita populista no mundo.

O professor da Escola de Relações Internacionais da FGV, Pedro Brites, reforça a ideia de que o termo ‘globalistas’ é uma expressão sem significado estrito, que se opõe de maneira não clara a acontecimentos do cenário social, político, econômico e cultural de caráter internacional. ”É um conceito vago, mas que serve muito a propósitos políticos. Efetivamente é um termo que começou a ser utilizado por todos aqueles que são críticos a uma série de fatores que caracterizam esse cenário internacional, especialmente desde o final da guerra fria. Aí podemos mencionar, dentre esses fatores críticos, o avanço das instituições internacionais, aumento dos processos migratórios. Tudo o que diz respeito ou parece ameaçar uma identidade nacional, de valores patrióticos. E a crítica à esquerda, que também é responsabilizada por esse avanço – e aqui esquerda no sentido mais amplo do termo, desde o Obama ao PT no Brasil. Todos esses atores são considerados parte desse processo de você estar vendo cada vez mais o estado-nação perdendo força, perdendo sentido. O fato de ele não ter uma definição bem específica é o que permite que seja usado em diferentes contextos.”

Instituto Pasteur

O Comprova entrou em contato por e-mail com o diretor da unidade de Virologia e Imunidade do Instituto Pasteur, Olivier Schwartz e obteve como resposta uma nota já publicada no site do instituto, desde março deste ano, na seção destinada ao combate à desinformação da instituição.

Na última atualização desta área do site, o instituto reitera que o SARS-CoV-2 não foi criado pelo Instituto, muito menos o liberou na cidade de Wuhan, na China. “O Instituto Pasteur não é um laboratório pertencente ao grupo farmacêutico Sanofi ou à sua subsidiária Sanofi-Pasteur; é uma fundação independente sem fins lucrativos. Afirmar que o Instituto Pasteur está planejando escravizar e controlar a população global é totalmente falso e desprovido de qualquer fundamento.”, diz trecho do texto.

O Pasteur é uma fundação sem fins lucrativos, criada em 1887, que por meio de pesquisas contribui para a prevenção e o tratamento de doenças, principalmente infecciosas. É um dos principais centros internacionais de pesquisas biomédicas, estando presente em 25 países. No Brasil, o Instituto é representado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), situada no Rio de Janeiro.

O Instituto é dedicado ao estudo de microorganismos, doenças e vacinas. Seu nome é uma homenagem a Louis Pasteur, seu fundador e primeiro diretor, que, em 1885, produziu a primeira vacina contra a raiva.

Quem é o pastor

Lamartine Posella Sobrinho, de acordo com seu site oficial, é fundador da YAH Church, igreja criada ao lado da esposa Lylian Posella. Trata-se de uma espécie de atualização da Igreja Batista Palavra Viva em São Paulo, da qual Lamartine foi presidente. Ele também atua como pregador, músico, pianista, violonista, compositor e escritor — publicou nove livros. Tem um canal no youtube que segundo descrição aborda “ vídeos com uma mensagem de fé, estudos sobre hebraico bíblico, escatologia, hermenêutica e tudo que envolve a Bíblia”.

Além disso, tem uma carreira política com passagens pelo PP (outrora PPB, quando o PP uniu-se ao PPR e ao PRP). Pelo Partido Progressista, foi deputado federal por São Paulo entre 1997 e 1999, quando assumiu após ficar como suplente. Exerceu a mesma função como integrante do Partido Progressista Brasileiro, entre 1999 e 2003. Ainda candidatou-se a como vice-prefeito (2000) e como governador (2002) em São Paulo, mas não foi eleito. Atualmente, faz parte do MDB.

Foi denunciado pelo Ministério Público Federal, em Brasília, por desvio de recursos públicos, conforme matéria do Estadão de fevereiro de 2017.

Tentamos contato pelo e-mail informado no site oficial de Lamartine, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem.

Wagner Malagues

No perfil do Facebook, Wagner Malagues se apresenta como evangelista. Ele mantém um canal no YouTube intitulado “Wagnão”, cuja descrição diz “minha missão é informá-lo, e trazer o valor aquilo que estava perdido”. O canal contém conteúdos relacionados à religião e também vídeos sobre a vacina e temas políticos.

Procurado pelo Comprova, sobre qual é a fonte para o conteúdo aqui verificado – referenciada na sua transmissão como um “vídeo em francês” -, não retornou. Perguntado se havia fontes adicionais que subsidiaram o conteúdo no seu perfil, nos enviou apenas o link da reportagem da Revista Exame mencionada acima. Também nos enviou um vídeo em português que não respondia às questões.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos relacionados a políticas públicas do governo federal e à pandemia, incluindo, publicações que veiculam informações falsas ou enganosas relacionadas à vacina contra a covid-19. Neste caso, a divulgação desses conteúdos é ainda mais grave, porque pode colocar a saúde das pessoas em risco, uma vez que desencorajam a população a se imunizar por meio da vacinação – que é apontado por especialistas como o meio mais efetivo para conter o novo coronavírus.

Nesta verificação, o vídeo com informações falsas, publicado no Instagram, teve mais de 63 mil visualizações, até 23 de novembro. No YouTube o vídeo foi retirado de circulação antes da contagem de visualizações. O conteúdo contribui para o descrédito das vacinas contra a covid-19, doença que já tirou a vida de mais de 173 mil brasileiros, de acordo com os dados do Ministério da Saúde atualizados em 30 de novembro. A credibilidade dos imunizantes é colocada em dúvida por meio de afirmações sem comprovação que espalham medo, inclusive, a longo prazo, já que é mencionada a possibilidade de graves doenças futuras, como o câncer. Por isso, entender o que diz a ciência, sobretudo os estudos sobre vacinas, pode contribuir para sanar dúvidas da população e aumentar a confiança das pessoas sobre as informações catalogadas nas pesquisas científicas.

O Comprova já checou outros conteúdos falsos que distorciam fatos e colocavam em xeque a credibilidade dos imunizantes, como o áudio que fazia alegações de que as vacinas poderiam causar câncer, danos genéticos ou homossexualismo, a live disponibilizada no Youtube com afirmações de que médico teria morrido por conta de efeitos da vacina de Oxford e o post no facebook que induzia internautas a acreditar que a CoronaVac, vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac com apoio do Instituto Butantan, teria matado mais de 2 mil voluntários e alterava o DNA das pessoas. Já mostrou também que é enganoso dizer que expor a população ao vírus é melhor para acabar com a pandemia do que a vacinação, que todas as vacinas em teste no Brasil passaram por fase pré-clínica, ao contrário do que diz médico e que tuíte engana ao sugerir que vacina contra a covid-19 é desnecessária.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Políticas públicas

Investigado por:2020-12-02

É falso que MST tenha destruído estação de energia no Amapá

  • Falso
Falso
As imagens de um vídeo que viralizou são de 2017, quando um grupo de agricultores invadiu uma fazenda em Correntina, na Bahia, para protestar contra obras de irrigação que reduziram o nível de um rio da região – eles não são ligados ao MST.
  • Conteúdo verificado: Vídeo postado em diversas páginas do Facebook e do Twitter afirma que o MST destruiu estação de transmissão de energia no Amapá, insinuando que a organização teria responsabilidade pelo apagão recente no estado.

É falso o vídeo que circula em diversos grupos no Facebook e no Twitter afirmando que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é responsável pelo apagão que ocorreu no Amapá, no mês passado. A gravação mostra um grupo de pessoas destruindo postes de energia em um lugar indefinido e traz como legenda: “Militantes do MST destruindo uma estação de transmissão no Amapá. Isso a mídia podre não mostra”. Não é verdade. Como mostrou reportagem da Globo, essas imagens são de 2017, quando um grupo de agricultores invadiu uma fazenda em Correntina, na Bahia, para protestar contra obras de irrigação que reduziram o nível de um rio da região – eles não são ligados ao MST.

As causas do apagão, que se iniciou com um incêndio durante uma tempestade, ainda estão sendo investigadas, mas segundo o que o Governo do Amapá explicou ao Comprova, o vídeo não foi feito no estado e “não se tem nenhuma evidência de envolvimento do MST no apagão; trata-se de uma fake news”.

Também contatado pela reportagem, o MST disse que as acusações são infundadas e que “essas pessoas e esse tipo de ataque não têm nenhuma relação com o movimento”.

Como verificamos?

Por meio da ferramenta InVID, que faz busca reversa de imagens em fotos e vídeos, conseguimos encontrar links de reportagens da Globo de 2017 que exibiam o mesmo conteúdo e explicava o contexto em que a gravação foi feita. Também nos apoiamos em checagens feitas por outras agências de fact-checking e pesquisamos em sites de veículos de comunicação as causas do recente apagão.

Também pesquisamos os perfis que associaram o vídeo ao MST no Facebook e no Twitter e tentamos entrar em contato com algumas páginas, sem retorno. Por e-mail, contatamos a Secretaria de Estado da Comunicação do Amapá e, por WhatsApp, conversamos com a assessoria de imprensa do MST.

Verificação

Vídeo antigo

A gravação da postagem verificada é do início de novembro de 2017, conforme mostrou uma busca na ferramenta InVID, que trouxe uma reportagem do G1 sobre um protesto de agricultores em uma fazenda da empresa Lavoura e Pecuária Igarashi Ltda., em Correntina, na Bahia.

Os agricultores invadiram a propriedade em um ato contra obras de irrigação que reduziram o nível da água do rio Arrojado e, de acordo com o delegado ouvido na época pelo G1, eram ligados a “pequenas associações existentes nos povoados ao longo do Arrojado”. Ou seja, a derrubada dos postes de energia mostrada no vídeo não contou com a participação do MST e nada tem a ver com o recente apagão no Amapá.

O Comprova consultou o governo do Amapá por e-mail para questionar as informações do vídeo e das postagens feitas nas redes sociais. A assessoria do governo do estado respondeu em nota confirmando que o vídeo não foi feito no Amapá e tratou a publicação como uma notícia falsa: “O vídeo não é no Amapá. Também não se tem nenhuma evidência de envolvimento do MST no apagão. Trata-se de uma fake news”.

Em contato feito por Whatsapp, a assessoria de imprensa do MST também negou qualquer relação com o vídeo e com o apagão do Amapá. “Mais uma vez são acusações infundadas, essas pessoas e esse tipo de ataque não tem nenhuma relação com o Movimento”, diz um trecho da resposta ao Comprova.

O apagão no Amapá

No início de novembro, um incêndio atingiu uma subestação de energia em Macapá, capital do estado. Desde então, treze municípios da região ficaram sem luz. O racionamento de energia foi uma realidade vivida pelos moradores locais e a nova realidade gerou impacto na qualidade de vida dos amapaenses: também houve dificuldade em realizar compras que suprissem as necessidades básicas, já que, sem luz, os bancos não estavam disponíveis para sacar dinheiro e a maioria dos lugares não possuía sinal para compras no cartão. Além das atividades comuns, outro ponto de preocupação foi com a necessidade de manter os cuidados essenciais durante a pandemia.

Na primeira semana após o incêndio, um dos transformadores danificados foi recuperado, o que resultou no restabelecimento parcial da energia.

As investigações sobre o que de fato causou o incêndio ainda não foram finalizadas. Inicialmente, as informações apontavam que uma tempestade de raios teria sido a principal responsável pelo incêndio na unidade. No entanto, em um laudo recente, a Polícia Civil detalhou que o incêndio começou de forma interna, em uma bucha. A Isolux, empresa privada responsável pela unidade, vem enfrentando intimações da justiça federal para que o apagão no Amapá seja solucionado efetivamente.

Revoltados com a situação, os moradores do Amapá compartilharam em suas redes sociais os valores que costumam pagar em suas contas de luz. Os altos valores geraram indignação nos internautas e levantaram questionamentos sobre o preço abusivo.

Os autores

O vídeo da derrubada de postes na Bahia voltou a circular nas redes sociais no dia 26 de novembro de 2020, desta vez com o texto sugerindo que se tratava de um ato de vandalismo de membros do MST no Amapá. Segundo a plataforma de monitoramento CrowdTangle, houve 110 postagens do vídeo em páginas e grupos do Facebook até o fim da tarde de 30 de novembro, com um total de 1,7 mil reações.

As postagens aparecem em grupos de apoio ao presidente Jair Bolsonaro e a figuras ligadas ao governo federal como o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Das 110 postagens identificadas na plataforma, 45 foram em grupos que tinham no nome menções a Bolsonaro ou ao grupo político Aliança pelo Brasil.

Em pesquisa no próprio Facebook, aparecem ainda 80 publicações do vídeo feitas em perfis pessoais. As duas postagens com maior alcance apresentam no campo de busca um total de 3 mil e 2,7 mil visualizações, respectivamente.

Os vídeos foram publicados também no Twitter, onde houve 47 publicações nos últimos sete dias de novembro, segundo o CrowdTangle.

O Comprova tentou contato com alguns dos perfis que compartilharam esses vídeos com a afirmação de que se trataria de um ato do MST, mas não obteve retorno até a publicação desta verificação.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica postagens suspeitas que tenham viralizado nas redes sociais que tenham ligação com políticas públicas do governo federal, com a pandemia e com as eleições municipais.

É o caso das várias publicações deste vídeo nas redes sociais, que registrava 110 postagens e 1,7 mil reações no Facebook até o dia 30 de novembro. A falsa relação feita entre o vídeo filmado na Bahia em 2017 e uma suposta participação do MST no apagão do Amapá pode confundir a opinião pública sobre as causas do blecaute que deixou o Estado por mais de 20 dias com comprometimento no serviço de energia elétrica. Também pode reduzir a atenção à identificação de fragilidades no sistema de abastecimento do estado a fim de evitar repetições do mesmo problema.

O vídeo investigado também já foi verificado por outros veículos de checagem como a Agência Lupa, Estadão Verifica, Fato ou Fake e E-Farsas.

O Comprova já verificou outros conteúdos relacionados ao MST, como o que relacionava, sem provas, o movimento a queimadas na Amazônia e no Pantanal e o que afirmava que o Exército havia apreendido madeira ilegal ligada à organização – ambas as verificações foram classificadas como falsas.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2020-12-01

Boulos não prometeu deixar o país depois da derrota nas eleições

  • Falso
Falso
Guilherme Boulos nega ter feito a promessa, o Comprova não encontrou nenhum registro de uma manifestação do político nesse sentido e o site responsável pela publicação não respondeu ao nosso contato para que apresentasse alguma prova.
  • Conteúdo verificado: Link de um site compartilhado nas redes sociais afirma que, após serem derrotados nas eleições municipais em Porto Alegre e São Paulo, respectivamente, Manuela D’Ávila (PCdoB) teria chorado, e Guilherme Boulos (PSOL) anunciado que deixará o país.

Não há indícios de que o ex-candidato à Prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL) tenha anunciado que deixaria o país após perder para o atual prefeito Bruno Covas (PSDB) nas eleições do último domingo (29), como diz uma publicação que circula pelas redes sociais.

Procurada, a assessoria de comunicação de Boulos negou o conteúdo. Em seu pronunciamento pós-eleições publicado no Youtube, Boulos não fez nenhuma menção a sair do país. Pelo contrário, disse ser “o começo de uma caminhada” e motivou as pessoas a continuarem lutando, quando reconheceu a derrota na noite de domingo (29). Além disso, o Comprova não encontrou qualquer entrevista em que o psolista afirme isso.

O “Jornal 21 Brasil”, portal responsável pela publicação, afirma que “uma imprensa livre é a condição fundamental para que as sociedades resolvam seus conflitos, promovam o bem-estar e protejam sua liberdade.” O site foi listado pela “CPI das fake news” do Congresso Nacional como um dos sites de “conteúdo inadequado” que recebeu anúncios do governo. Para a CPI, o site publica notícias falsas” e veiculou material de publicidade da campanha Nova Previdência. A CPI analisou o conteúdo publicado pelo site entre junho e julho de 2019. Outras publicações realizadas pelo portal já foram verificadas, como a afirmação de que o TSE teria mudado a empresa responsável pela divulgação da apuração.

Entramos em contato com o Jornal 21 Brasil, mas, até o momento em que essa checagem foi publicada, não tivemos retorno.

Como verificamos?

Procuramos, por WhatsApp, a assessoria de comunicação de Boulos.

Também verificamos os conteúdos publicados pelo candidato em suas redes sociais oficiais após o fim da apuração no domingo e matérias com entrevistas para verificar se ele havia feito alguma afirmação do tipo. Pesquisamos, ainda, checagens relacionadas a Boulos realizadas anteriormente.

Verificação

Não há indícios de que Boulos pretenda deixar o país

Ao Comprova, a assessoria de Guilherme Boulos negou o conteúdo da corrente. A equipe disse que “a informação, evidentemente, não procede”. Ainda segundo a assessoria, a equipe do candidato já tinha conhecimento de que esse conteúdo estava circulando.

Em seu pronunciamento pós-eleição, o candidato derrotado do PSOL também não disse nada sobre deixar o país. Pelo contrário. Em vídeo publicado em suas redes sociais na noite de domingo (29), ele falou em “começo de uma caminhada”.

“Nós não vencemos essa eleição, mas ninguém perdeu a vontade de lutar por esse caminho, para a gente seguir nos próximos anos. Hoje não é o fim de uma caminhada, é o começo. Começo da vitória da solidariedade sobre a indiferença”, declarou Boulos, em publicação após o fim da apuração.

Por que investigamos?

Atualmente em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre as eleições municipais de 2020, a pandemia e as políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. A verificação de conteúdos que tratam de apuração é importante porque conteúdos inverídicos podem atingir a confiança das pessoas nas eleições.

Neste caso, o post no Facebook que compartilha o link com a notícia falsa teve mais de 3,3 mil curtidas, 2,2 mil comentários e cerca de 500 compartilhamentos desde a noite de domingo.

Esta já é a terceira corrente que o Comprova checa sobre Boulos. Durante as eleições de 2020, o Comprova desmentiu que ele havia cobrado aluguel de sem-tetos e que iria obrigar paulistanos a receber moradores de rua durante a pandemia.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.