O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Pandemia

Investigado por: 2022-05-09

Post tira documentos da Pfizer de contexto e engana ao sugerir que imunidade natural é suficiente para combater a covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Documentos da Pfizer liberados pela agência americana FDA não afirmam que imunidade natural dispensa vacina; também não é verdade que vacinados correm mais risco de contraírem a covid, serem hospitalizados e morrerem da doença, ou que 26 mil americanos morreram por causa dos imunizantes contra a covid-19.

Conteúdo investigado: Sequência de tuítes que interpreta dados de vacina da Pfizer de forma equivocada e sugere, entre outras coisas, que imunizante é desnecessário diante da imunidade natural fornecida pelo coronavírus.

Onde foi publicado: Twitter e sites conhecidos por espalhar desinformação sobre vacinas – The Epoch Times e Mercola.com.

Conclusão do Comprova: É enganoso o conteúdo de uma sequência de postagens publicada no Twitter que tenta atacar as vacinas contra a covid-19 ao fazer referência, supostamente, a documentos da Pfizer que começaram a ser divulgados pela agência reguladora dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), a pedido de um grupo de médicos. Algumas das alegações contidas nos tuítes são verdadeiras, como o fato de que a imunidade natural funciona, mas o conteúdo mente ao sugerir que, por conta disso, a vacina é desnecessária. Especialistas ouvidos pelo Comprova listam razões pelas quais a vacina protege mais do que a infecção. Uma delas é o fato de que as vacinas têm uma quantidade fixa de antígenos, enquanto a infecção pode ter uma carga viral leve e com uma quantidade de antígenos pequena, o que reduz a resposta imune.

Além disso, os autores do conteúdo distorcem informações presentes nos documentos para tentar justificar uma narrativa mentirosa. É o que acontece quando utilizam os números absolutos – e não os relativos – de pessoas vacinadas e que se infectaram com a covid-19 para afirmar que elas têm três vezes mais chances de contraírem a doença. Isso acontece porque o número de pessoas vacinadas é cada vez maior e é natural que elas passem a ser mais numerosas do que as não vacinadas. Mas, mesmo que se infectem, as chances de morrerem pela doença são muito menores.

Os posts também erram ao utilizar números de reações adversas coletados pelo sistema norte-americano Vaccine Adverse Event Reporting System (VAERS), como se houvesse uma relação de causalidade já confirmada entre reações e a aplicação das vacinas, o que não é verdade. As pessoas são estimuladas a informar qualquer evento adverso após a aplicação de vacinas ao sistema do governo dos Estados Unidos, mas isso não significa que realmente houve uma relação de causalidade entre os episódios, conforme explicam especialistas ouvidos pelo Comprova.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. O post compartilhado no Twitter teve mais de 25,2 mil interações até a manhã de 9 de maio de 2022.

O que diz o autor da publicação: A autora do post no Twitter foi procurada, mas não respondeu até a publicação desta checagem.

Como verificamos: O conteúdo aqui verificado se baseia em um post feito pelo The Epoch Times, site antes ligado a um movimento religioso chinês, mas que se transformou em uma potência pró-Donald Trump e no qual frequentemente são publicados textos recheados de desinformação.

O texto publicado no The Epoch Times no dia 14 de abril de 2022 foi retirado de outra postagem, feita no mesmo dia pelo site Mercola.com, mantido pelo médico Joseph Mercola, conhecido propagador de desinformação sobre a covid-19 na internet. O material original faz referência a uma nova leva, do dia 1º de abril, de 11 mil páginas de documentos relacionados à vacina da Pfizer contra a covid-19, liberados pela FDA após a agência perder uma ação na justiça contra um grupo de médicos.

Primeiro, o Comprova buscou referências entre os documentos liberados no dia 1º de abril que tratassem dos mesmos assuntos citados no post viral. Pelo menos dois documentos falam sobre dados de efeitos adversos e imunidade. A reportagem, então, pediu que especialistas na área analisassem tanto os documentos originais quanto os posts virais.

Foram ouvidos o epidemiologista Pedro Hallal, professor titular do curso de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o médico geneticista Salmo Raskin, presidente do Departamento Científico de Genética da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), e a biomédica, neurocientista e divulgadora científica Mellanie Fontes-Dutra, que coordena a Rede Análise Covid-19.

Também foram procuradas a Pfizer, a FDA e a autora do conteúdo viral aqui verificado. Nenhuma respondeu até o fechamento desta checagem.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 09 de maio de 2022.

Imunidade natural

O texto publicado pelos dois sites e compartilhado por uma usuária do Twitter diz que a imunidade natural funciona e que a Pfizer sempre soube disso. Isso é verdade e está longe de ser uma exclusividade da covid-19. Contudo, não significa, como sugerem os conteúdos aqui verificados, que a vacina não seja necessária e que a imunidade natural seja suficiente.

“Não só a Pfizer, mas todos na área médica sabem há décadas que ocorre imunidade parcial por infecção natural. Mas, para que isto ocorra, a pessoa corre risco de morte pela covid, enquanto as vacinas conferem maior imunidade sem risco de morte. Se a imunidade natural fosse tão eficiente para proteger da covid-19 não ocorreriam reinfecções. Neste momento, pessoas infectadas pela Ômicron BA.1 estão se infectando pela Ômicron BA.2”, exemplifica o médico geneticista Salmo Raskin.

Ele cita dados do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC), os quais apontam que pessoas que se curaram da covid-19 e não se vacinaram tiveram cinco vezes mais chances de se reinfectarem do que outras, nunca infectadas, mas duplamente imunizadas.

“Neste momento, ao menos 35% dos brasileiros ainda não estão plenamente vacinados. Oficialmente, um em cada dez já tiveram covid-19, mas o número real é ainda maior. Existe um tabu de que quem se infecta pelo coronavírus já adquiriu imunidade. Portanto, é importante neste momento esclarecer que nem toda infecção protege mais do que as vacinas”, diz o médico.

Raskin lista pelo menos dez motivos pelos quais mesmo as pessoas que já tiveram covid-19 devem se vacinar. Um deles é que a proteção adquirida pela infecção é menos previsível do que a gerada pela vacina e mais de um terço das infecções por coronavírus não resultam em anticorpos protetores. “A vacina tem quantidade fixa de antígenos. Na infecção, principalmente em jovens, a carga viral pode ser muito leve, com pouca apresentação de antígenos, e consequente menor resposta imune de memória”, diz.

A biomédica Mellanie Fontes-Dutra reforça: “A grande questão da imunidade natural é que ela é muito variada. Tem gente que faz uma resposta boa, tem gente que não faz uma resposta potente o suficiente para gerar memória imunológica. No cenário atual, cada vez mais vemos que o reforço é importante, especialmente em quem se recuperou, considerando as variantes. A resposta vacinal é muito abrangente, inclusive para as sub-linhagens da Ômicron que estão surgindo (BA.4, BA.5…). No entanto, recuperados sem vacinação têm risco de reinfecção justamente pela pouca abrangência que se observa na resposta que alguns podem elaborar”, diz.

Uma pesquisa recente conduzida pela matemática Christina Pagel, diretora da Unidade de Pesquisa Operacional Clínica da University College London, mostra como apenas uma infecção prévia pelo coronavírus, sem vacinação, pode não ser suficiente para evitar infecção pelas novas linhagens da variante Ômicron.

Outra razão para tomar a vacina mesmo para quem já teve covid, segundo Raskin, é que a imunidade natural desaparece mais rápido do que a imunidade da vacina. Ele ainda cita que o coronavírus tem mecanismos para escapar das nossas defesas e até atrapalha a resposta imune em alguns casos. A proteção da vacina contra variantes, especialmente a Delta, é melhor do que a proteção natural.

“Justamente em pessoas previamente infectadas pelo coronavírus, a vacina atua ainda melhor, pois aumenta o número de linfócitos B maduros, células de vida longa e treinadas para responder rapidamente a uma segunda exposição ao mesmo antígeno”, diz Raskin. Ele também destaca que a ampla cobertura vacinal em um lugar tende a dificultar o acúmulo de mutações e o surgimento de novas variantes. Além disso, o risco de covid longa parece ser menor em pessoas vacinadas e aqueles que se infectam e têm um esquema completo de vacinação correm menos risco do que os que tomaram apenas uma dose.

“Hoje, sabemos que há uma ordem crescente de proteção para covid-19”, afirma Raskin. Os não vacinados são os provavelmente desprotegidos. Entre os protegidos, aqueles que tiveram uma infecção assintomática ou leve têm o menor nível de proteção. Um pouco mais protegidos do que estes estão os que foram infectados com covid moderada ou grave, e acima deles, os vacinados plenamente com curto intervalo entre doses. Quem se vacinou plenamente com intervalo estendido entre doses tem um pouco mais de proteção, mas está abaixo dos que se infectaram com a covid e em seguida se vacinaram. Os mais protegidos seriam os plenamente vacinados e que depois se infectaram com a covid. “Mas, para atingir a ‘imunidade híbrida’ (infecção seguida de vacinação), a pessoa se arriscou a morrer de covid-19! Claro que ninguém quer arriscar, principalmente quem já passou por esta doença terrível”, explica o médico.

Enfraquecimento temporário do sistema imunológico?

O conteúdo verificado faz parecer que uma diminuição transitória dos linfócitos, chamada no texto de forma equivocada de “enfraquecimento temporário do sistema imune”, seria um problema detectado na vacina da Pfizer e que foi ignorado pelo FDA e pela grande mídia. Na verdade, esse comportamento do sistema imune é esperado e até desejado.

“Este fato é conhecido em todas as vacinas e não tem nenhuma repercussão clínica. Assim que uma vacina (antígeno/corpo estranho) é aplicada, é natural, esperado e desejado que parte da defesa imunológica do corpo seja focada na defesa deste antígeno, sem qualquer consequência para nosso sistema imunológico como um todo”, explica Salmo Raskin.

A tese de que a vacina da Pfizer enfraquecia o sistema imunológico, e até poderia fazer com que as pessoas vacinadas morressem por conta de outras doenças, se espalhou em setembro do ano passado e foi desmentida já naquela época pela equipe do Deutsche Welle (DW). O médico e pesquisador holandês Mihai Netea, um dos autores do estudo que mostrou justamente o mecanismo citado aqui por Salmo Raskin, disse que a alegação de que a vacina enfraquecia o sistema imunológico era falsa. “Em nosso estudo não obtivemos nenhum dado clínico que nos permita dizer que a vacina enfraqueça o sistema imunológico e que os inoculados sejam mais suscetíveis a infecções e outras doenças”, disse.

Vacinados têm mais chance de ter covid-19 e morrer da doença?

Com o avanço da vacinação, os números totais de vacinados, casos e mortes pela doença não podem ser comparados sem a sua proporcionalidade. O professor em epidemiologia, Pedro Hallal, explica que como existem muito mais pessoas vacinadas do que não vacinadas também existem muito mais pessoas vacinadas contaminadas com covid.

“Quando você pega o número absoluto de contaminados você verá que existem três vezes mais pessoas vacinadas contaminadas do que as não vacinadas. Mas se você analisar os números proporcionais é exatamente o contrário. Não faz o menor sentido fazer essa comparação pelos números absolutos. Existem mais pessoas vacinadas e essas pessoas têm menos chance de se contaminar e de sofrer as consequências disso e é isso que os estudos mostram”.

Para Salmo Raskin, a alegação do post aqui verificado não faz qualquer sentido. “Esta é a mais bizarra das afirmações porque não existe a mínima dúvida que as vacinas salvaram milhões de vidas. Claro que se você tem 100% de uma população vacinada e mesmo assim algumas pessoas podem morrer de covid, você pode confundir as pessoas dizendo que ‘os mais vacinados estão mais propensos a morrer de covid’”, aponta.

Eventos adversos mostram que a vacinação em massa é irresponsável?

A Pfizer enviou 126.212.580 doses de sua vacina contra a covid-19 para todo o mundo entre 1º de dezembro de 2020 e 28 fevereiro de 2021, segundo os documentos divulgados pela FDA. A maior parte dos casos de efeitos adversos aconteceu nos Estados Unidos, onde eles devem ser notificados ao VAERS.

Um documento de abril de 2021 que consta do rol daqueles que foram disponibilizados em 1º de abril pela FDA mostra uma série de dados sobre efeitos adversos à vacina da Pfizer, inclusive os citados no tuíte, mas faz um alerta: os relatos de acontecimentos adversos não indicam, necessariamente, que a vacina foi a causa do evento. Ele pode estar relacionado a algum outro fator, como histórico médico ou medicação concomitante.

“A base de dados de segurança da Pfizer contém casos de efeitos adversos reportados espontaneamente à Pfizer, casos relatados pelas autoridades de saúde, casos publicados na literatura médica, casos de programas de marketing patrocinados pela Pfizer, estudos não-intervencionais, e casos de efeitos adversos sérios relatados de estudos clínicos, independentemente da avaliação da causalidade”, diz o documento. A conclusão do relatório foi de que “os dados não revelam quaisquer preocupações ou riscos de segurança novos que exijam alterações de rótulos e apoiam um perfil de risco-benefício favorável para a vacina BNT162b2”.

Os dados de efeitos adversos relatados não devem ser contabilizados necessariamente como reações às vacinas porque as pessoas são estimuladas a relatar qualquer evento pós-vacinação, e isso não significa que haja uma relação de causalidade. Pode ser apenas uma associação temporal, como explica Mellanie Fontes-Dutra.

“O VAERS foi estabelecido em 1990, é um sistema nacional de alerta precoce para detectar possíveis problemas de segurança em vacinas licenciadas nos EUA. Ele não foi projetado para determinar se uma vacina causou um problema de saúde, mas é especialmente útil para monitoramento e ajuda muito em assegurar que as vacinas seguem cumprindo seu papel na segurança”, afirma.

Ela aponta, ainda, que a maior parte dos eventos adversos pós-vacina são decorrentes de erros na hora de aplicar, e não da vacinação em si, e por isso o treinamento das equipes é tão importante. Esses erros são relatados pela própria Pfizer no documento sobre reações adversas e listados como envenenamento acidental, erro de utilização do produto, uso de dispositivo contra-indicado, erro de cálculo da dose, exposição via contato direto com a pele, mucosa ou ocular, técnica asséptica inadequada, utilização múltipla do produto que deveria ser de utilização única, etc. Estados Unidos, França e Reino Unido foram os países com maior incidência de reações por erro na hora de aplicar.

Outra informação enganosa sobre as reações adversas é que elas são graves em pessoas de 18 a 55 anos. “Coincidentemente, é a população que não é idosa. Os idosos sofrem de imunosenescência, há uma queda na performance do sistema imunológico. Então, o relato de eventos adversos, de qualquer natureza, é mais frequente em quem tem um sistema imunológico bem responsivo. A questão é: esses eventos são leves, graves? Mesmo nessa população, os eventos mais graves são raríssimos. E em geral, a vasta maioria dos eventos adversos (que são leves-moderados) são autolimitados e se resolvem em poucos dias”, diz a pesquisadora.

Mortes por vacina nos Estados Unidos?

O post aqui verificado ainda afirma que até 25 de março de 2022 foram reportadas 26.396 mortes relacionadas às vacinas contra a covid-19 nos Estados Unidos. Os dados do CDC e do próprio VAERS, contudo, desmentem o post. De acordo com o CDC, foram reportados preliminarmente ao sistema VAERS 14.468 óbitos de pessoas que receberam vacinas contra a covid-19 nos Estados Unidos entre 14 de dezembro de 2020 e 2 de maio de 2022.

Assim, como as demais reações adversas, os dados relatados ao VAERS não podem, por si só, provar que a vacina causou o problema. “O VAERS aceita e analisa relatórios de possíveis problemas de saúde – também chamados de ‘eventos adversos’ – após a vacinação. Como um sistema de alerta precoce, o VAERS não pode provar que uma vacina causou um problema. Especificamente, um relatório ao VAERS não significa que uma vacina causou um evento adverso”, diz o próprio sistema.

Entre as limitações dos relatórios está o fato de que as reações podem ser relatadas por qualquer pessoa e muitas vezes os dados são incompletos, carecem de detalhes e até contêm erros.

Os relatos feitos ao VAERS são revisados por profissionais da FDA e do CDC, incluindo análises de autópsias, registros médicos e atestados de óbito. Até o momento, o monitoramento contínuo do órgão identificou nove mortes ligadas à vacina da Janssen, nenhuma ligada ao imunizante da Pfizer.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam na internet e estão relacionados às eleições presidenciais deste ano, à realização de obras públicas e à pandemia da covid-19. Neste caso, a postagem verificada distorce dados de modo que a interpretação deles seja diferente da intenção do autor e até da realidade, o que contribui para desacreditar a população sobre a eficácia e segurança das vacinas contra a covid-19, aprovadas por agências de vigilância ao redor do mundo.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já investigou outros conteúdos cuja intenção era desacreditar as vacinas, como este, que também manipulou dados da Pfizer para dizer que a farmacêutica sabia que a vacina mataria pessoas. Também mostramos que as vacinas de mRNA não são terapia genética e não causam covid.

Pandemia

Investigado por: 2022-05-02

Post usa texto que manipula dados para atacar a segurança das vacinas

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso conteúdo de uma publicação no Twitter que traz a capa de um jornal, de abril deste ano, cuja manchete afirma que a Pfizer tinha conhecimento de que suas vacinas matariam as pessoas. Os dados utilizados no artigo do jornal foram retirados de contexto e ainda tiveram uma interpretação equivocada.

Conteúdo investigado: Postagem mostra foto da manchete “Pfizer knew their vaccine would kill”, de uma publicação impressa inglesa, e as seguintes frases: “Pfizer sabia que sua vacina poderia matar” e “Mas não era tudo teoria da conspiração nossa?”.

Onde foi publicado: Twitter

Conclusão do Comprova: É enganosa uma postagem que repercute a foto de um jornal impresso inglês – apontado como propagador de teorias da conspiração – com a seguinte manchete: “Pfizer knew their vaccine would kill”. O texto da publicação independente se baseia em documentos divulgados pela FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, a pedido de um grupo de médicos.

No entanto, texto e manchete distorcem a realidade dos fatos. Como o próprio documento da Pfizer explica, o número de mortes ressaltadas no texto não tem relação direta com a aplicação da vacina, como faz crer a manchete. Trata-se de notificações espontâneas por pessoas ou equipes médicas de eventos ocorridos após a vacinação, e que são tratados como eventos adversos suspeitos.

O recebimento de notificações espontâneas faz parte de uma estratégia de monitoramento de segurança e eficácia das vacinas. A União Europeia adota o mesmo procedimento, por meio da plataforma EudraVigilance. Na página de segurança das vacinas da EMA, a afirmação é de que as vacinas são seguras e eficazes, e que sérios problemas relacionados à aplicação das doses são extremamente raros.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. A postagem verificada, até o dia 2 de maio de 2022, alcançou mais de mil curtidas e 460 republicações, o que aumenta ainda mais o alcance. Já o jornal que publicou o artigo tem distribuição gratuita e irregular em diversas cidades do Reino Unido e Estados Unidos e seu alcance não é calculável.

O que diz o autor da publicação: Paulo Filippus é empresário, tem uma empresa que presta suporte técnico em equipamentos eletrônicos em Santa Catarina, além de atuar na negociação de criptomoedas. Foi membro do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidato a vereador na cidade de Gaspar, em Santa Catarina, em 2016 pelo DEM. Não foi eleito.

Procurado pelas suas redes sociais e pelos meios de contato dos sites de suas empresas, Paulo não se manifestou até o momento da publicação.

Como verificamos: O Comprova consultou as edições do The Light Paper na internet e reportagens sobre a publicação e seu fundador em veículos noticiosos, especialmente de cidades locais inglesas. A equipe também consultou informações sobre a empresa responsável pelo jornal no site do governo do Reino Unido, e entrou em contato com a Pfizer para esclarecer os dados da manchete aqui verificada. A Pfizer não respondeu ao contato da reportagem.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 2 de maio de 2022.

 

A manchete de abril

A matéria que gerou a manchete afirmando que a Pfizer sabia que a sua vacina causaria mortes é baseada em documento cedido pela Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos EUA, sobre o processo de aprovação da vacina. Ele faz parte de um conjunto de dados publicizados após um grupo de médicos entrar na Justiça cobrando a transparência.

O documento é uma análise de dados fornecidos de forma espontânea por pacientes ou equipes médicas sobre condições, clínicas ou não, observadas no período posterior à aplicação de uma dose da vacina da Pfizer contra a covid-19.

Foram 42.086 casos relatados entre o dia 1º de dezembro de 2020 e o dia 28 de fevereiro de 2021, que vão desde dor de cabeça, falta de ar, problemas cardíacos a até mesmo falta de apetite ou depressão. O objetivo dos dados coletados era monitorar a eficácia da vacina e sua segurança. Das 1.223 mortes apontadas no texto, 454 casos são referentes a pacientes que foram imunizados, mas foram infectados com a covid-19, desenvolveram sintomas graves da doença e posteriormente morreram. A causa da morte foi um problema decorrente da doença e não da vacina.

Segundo observações feitas pela própria Pfizer neste relatório apresentado à agência europeia, os dados não devem ser usados como análise de risco ou mesmo de eficácia, mas como possível alerta em determinadas circunstâncias. Isso porque o texto apresentado na matéria é apenas um de uma centena de outros que foram enviados às agências reguladoras como forma de acompanhamento dos efeitos da vacina. Não é possível fazer a análise definitiva do medicamento observando apenas uma parte dos dados produzidos.

Explicação semelhante, e que faz ressalva entre relação direta do efeito adverso notificado espontaneamente com a vacina, aparece na página de segurança das vacinas da EMA. Os números atualizados mostram o total dos imunizantes aplicados e de efeitos adversos suspeitos notificados espontaneamente pela população a partir da plataforma EudraVigilance.

| Reprodução de parte da página Safety of COVID-19 vaccines do European Medicines Agency capturada em 2 de maio de 2022.

O jornal e seu fundador

O jornal The Light Paper foi registrado como empresa no Reino Unido em 9 de setembro de 2020, conforme consta no site da Companies House, agência vinculada ao Departamento de Negócios, Energia e Estratégia Industrial do Reino Unido, responsável pelo registro e dissolução de empresas.

O jornal é publicado mensalmente na internet e também circula em formato impresso. A primeira edição é de setembro de 2020. Segundo documento do dia 16 de outubro de 2021, a sede fica na cidade de Manchester, na Inglaterra. A empresa, no entanto, foi dissolvida compulsoriamente pela Companies House em 15 de fevereiro de 2022.

O Comprova enviou e-mail para a assessoria de imprensa da Companies House para entender os motivos da dissolução da empresa, mas não obteve resposta. Uma reportagem do site Stroud News & Journal, no entanto, fala em falta de registro das contas da companhia e de pagamento de impostos como motivos para a dissolução compulsória de uma empresa pela Companies House.

Apesar de a empresa ter deixado de existir legalmente, como informa o Stroud News & Journal, o The Light continua a ser publicado. A última edição, de abril deste ano, é a que aparece no tuíte verificado.

O fundador e editor do jornal é Darren Smith, de 51 anos. Ele também se identifica como Darren Nesbitt, como consta em reportagem do The Guardian. O nome é o que aparece na ficha da empresa na Companies House, como sendo da pessoa que detém o controle da empresa.

Além do jornal, Smith tem uma loja de guitarras na cidade de Manchester, na Inglaterra, onde mora, e uma confecção de camisetas com frases de famosas teorias da conspiração como a negação da presença do homem na Lua e questionamentos sobre a veracidade dos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.

Conteúdo

A publicação se autointitula como “a truthpaper” (jornal da verdade, em livre tradução) ou “The Uncensored Truth” (a verdade sem censura). São publicados conteúdos contra lockdowns, o uso de máscaras e a vacinação contra a covid-19, em manchetes como “End face masks and social distancing, Top Scientists Say” (Fim do uso de máscara e do distanciamento social, dizem cientistas), “Covid shots kill and injure hundreds” (Vacinas contra covid matam e deixam centenas doentes) e “Masks do more harm than good” (Máscaras fazem mais mal do que bem). Uma outra questiona a própria existência da pandemia: “What pandemic?” (Que pandemia?).

Frequentemente, o jornal afirma que a pandemia da covid-19 é uma farsa e repercute teorias da conspiração que falam em controle de mentes por meio da vacinação e na instalação de um regime ditatorial global que estaria por trás da implementação da Agenda 21, o conjunto de normas para o desenvolvimento sustentável lançado em conferência da Organização das Nações Unidas (ONU), no Rio de Janeiro, em 1992.

Na edição de novembro de 2021, o jornal publicou um artigo em defesa do cantor e radialista Graham Hart, condenado e preso na Inglaterra, em agosto de 2021, acusado de propagar canção e ideias que questionam o Holocausto. O texto gerou protesto contra o The Light na cidade de Stroud.

Circulação

O The Light Paper sobrevive de doações, anúncios e venda, a apoiadores, de lotes de exemplares, que são distribuídos em protestos anti-lockdown, postos de gasolina, coffee-shops e outras áreas públicas de cidades inglesas. As edições também são colocadas em caixas de correio e por baixo da porta de casas de moradores.

Em uma consulta na internet, é possível verificar notícias locais que alertam sobre a distribuição do jornal. Nesta reportagem do Cambridgeshire Live, um leitor de Cambridge denuncia que sua avó recebeu o jornal na caixa postal de casa, e que suspeita que a distribuição seja direcionada às pessoas mais idosas. A matéria afirma que há relatos da distribuição do jornal em Londres, Manchester, Yorkshire, North Wales, Surrey e Leicestershire.

Nesta reportagem do Bracknell News, a denúncia parte de uma mulher que afirma ter recebido por baixo da porta de casa, na cidade de Bracknell, uma edição do jornal com afirmações de que a pandemia da covid-19 era uma farsa.

Já o Doncaster Free Press denuncia a distribuição do jornal na cidade de Doncaster e afirma que a publicação tem sido considerada “perigosa” por espalhar “informações falsas e enganosas sobre vacinas e teorias da conspiração envolvendo a covid-19”.

Nesta reportagem, o The Guardian chama a atenção para a estratégia do jornal de driblar os checadores de notícias online e as plataformas de mídias sociais ao distribuir uma versão impressa com layout que assemelha ao de veículos de credibilidade reconhecida.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam na internet e estão relacionados às eleições presidenciais deste ano, à realização de obras públicas e à pandemia da covid-19. Neste caso, a postagem verificada contribui para desacreditar a população sobre a eficácia e segurança das vacinas contra a covid-19, que foram aprovadas por agências de vigilância ao redor do mundo.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já investigou uma série de outros conteúdos que tinham o mesmo intuito de questionar a segurança das vacinas. As equipes mostraram que vacinas de mRNA não são terapia genética e não causam covid e que um deputado omitiu dados para atacar vacinas. Restou evidenciado, ainda, que agências reguladoras descartam risco de infertilidade de vacinados e que são falsas as afirmações de que a vacina contra a covid-19 cause câncer, danos genéticos e até mesmo “homossexualismo“.

Pandemia

Investigado por: 2022-04-20

Sistema de saúde francês não recomenda azitromicina para tratar covid-19

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a publicação que, usando um vídeo do youtuber Felipe Neto, afirma que o sistema de saúde da França adota o antibiótico Azitromicina no tratamento de covid-19. O comunicador critica a venda feita em uma farmácia no país europeu, mas o governo francês não recomenda o remédio para tratar coronavírus. Mesma situação do Brasil, onde a indicação é para doenças causadas por agentes bacterianos, e não virais, como a covid-19.

Conteúdo investigado: Postagem que utiliza um vídeo do youtuber Felipe Neto criticando a indicação de Azitromicina para o tratamento contra a Covid-19 na França. A autora ironiza a indignação do comunicador dizendo que no país europeu o medicamento faz parte do protocolo de atendimento (a pacientes infectados) enquanto no Brasil é criminalizado.

Onde foi publicado: Twitter

Conclusão do Comprova: É enganosa a postagem que sugere que o antibiótico Azitromicina faz parte do protocolo de tratamento de covid-19 pelo sistema de saúde francês. Para enfrentamento da doença, o país europeu concentrou esforços na ampliação da vacinação da população, bem como em medidas como distanciamento social e uso de máscaras.

A autora da postagem também alega que a Azitromicina é criminalizada no Brasil, o que não é verdade. O medicamento apenas não é recomendado para pacientes infectados pelo Sars-Cov-2, vírus que provoca a covid-19. Porém, o remédio é indicado para doenças bacterianas.

A autora usa um vídeo do youtuber Felipe Neto, que mostrou-se indignado com a venda da Azitromicina para sua colega de viagem diagnosticada com a covid-19, enquanto estavam na França.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga conteúdos suspeitos de grande alcance nas redes sociais. Até o dia 20 de abril, esta publicação teve mais de 20 mil interações no Twitter, entre curtidas, comentários e retuítes.

O que diz o autor da publicação: O perfil da autora no Twitter não permite mensagem direta. Ela foi localizada em outra rede social, mas não respondeu os questionamentos até a publicação da verificação.

Como verificamos: A equipe do Comprova entrou em contato com Felipe Neto para verificar a veracidade do vídeo publicado e em que contexto ele havia sido divulgado.

Também foram feitas pesquisas em sites, tanto jornalísticos quanto de órgãos e entidades de saúde, sobre o uso da Azitromicina para o tratamento da covid-19 no Brasil e na França.

Além disso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi questionada sobre o posicionamento oficial do governo brasileiro em relação ao medicamento citado no vídeo e outros remédios indicados para a doença.

A autora da postagem também foi procurada por mensagem em rede social.

 

Felipe Neto não fala de protocolos adotados pelo sistema de saúde da França

De férias na Europa no início deste mês, o youtuber Felipe Neto ficou doente, mas seu teste deu negativo para a covid-19. Uma companheira de viagem, no entanto, contraiu a doença e, ao buscar remédio para os sintomas, recebeu Azitromicina – antibiótico cuja indicação é para tratar doenças provocadas por bactérias. Felipe Neto mostrou-se indignado no trecho do vídeo investigado, mas ele não fala de protocolos de saúde francês, e sim critica, sem dar nomes, quem passou a medicação.

Procurada, a assessoria de imprensa do comunicador desmente que ele tenha declarado que o sistema de saúde francês utiliza medicamentos e protocolos para tratar covid-19.

“Trata-se de mais uma notícia falsa, mais uma desinformação retirada de contexto. A crítica feita por ele consiste no fato do farmacêutico em questão – mesmo com amplos estudos e pesquisas científicas feitos em todo o mundo comprovando que não existe tratamento para Covid – vender a Azitromicina para sua amiga e companheira de viagem”, diz um trecho da nota.

Ainda conforme o posicionamento oficial de Felipe Neto, a assessoria aponta que a amiga do youtuber foi à farmácia em busca de remédio para tratar os sintomas, como dor de cabeça e tosse, mas recebeu do farmacêutico apenas o antibiótico.

Em suas redes sociais, Felipe Neto também comentou o uso indevido dos stories que publicou. (print abaixo)

Durante a mesma viagem, Felipe Neto também exaltou o SUS e agradeceu o fato de estar vacinado contra a covid, pois considera que, se fosse infectado pelo vírus e não estivesse imunizado, seu quadro seria mais grave.

Medicamentos contra a covid-19 usados no Brasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária , órgão responsável pela aprovação de medicamentos para uso no Brasil, tem uma lista de remédios autorizados ou em análise no seu site.

Atualmente, segundo a assessoria da Anvisa, há cinco medicamentos autorizados contra covid-19 e nenhum deles é a Azitromicina. Em relatório da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), órgão de assessoramento do Ministério da Saúde, o remédio não é recomendado para pacientes com suspeita ou diagnóstico de infecção pelo coronavírus.

Dos autorizados pela Anvisa, o Evusheld está aprovado para profilaxia em situações específicas, ou seja, pode ser usado como medida preventiva à doença. A medicação não substitui a vacinação para pessoas em que a imunização contra a covid-19 seja recomendada. Os outros quatro medicamentos autorizados para a covid no país – Remdesivir, Sotrovimabe, Baricitinibe e Paxlovid -, são todos para tratamento de pessoas infectadas, e os três primeiros somente permitidos para uso hospitalar.

Tratamento e prevenção da covid-19 na França

Segundo o último boletim epidemiológico divulgado na França, o número de óbitos em hospitais entre 4 e 10 de abril teve uma redução de 2% em relação à semana anterior: foram 724 casos nesta última semana de dados divulgados. Em relação às internações neste período, houve 9.522 registros, uma redução de 3% em relação à semana anterior. Dos internados, 833 estavam em UTIs, queda também de 3%.

A França tem hoje 943.342 casos confirmados de covid. Segundo o governo francês, 73,5% das pessoas com mais de 18 anos estão vacinadas com três doses.

Não existe orientação dos órgãos de saúde da França para o uso de medicamentos como a Azitromicina para o combate à covid-19. Além da vacinação, os franceses recomendam o distanciamento social, o uso de máscaras e medidas de higiene como lavar as mãos com álcool gel. O governo também disponibiliza ferramentas para testagem em massa e rastreamento de pessoas com quem o infectado teve contato para evitar a proliferação por pessoas assintomáticas.

A medicação hoje disponível nas farmácias da França para o tratamento de covid é o Paxlovid, antiviral que também é autorizado pela Anvisa para uso no Brasil.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Desde o início da crise sanitária, conteúdos falsos e enganosos circulam em aplicativos e redes sociais, ora colocando em dúvida as medidas preventivas contra a doença, como vacina, isolamento e máscara, ora sugerindo medicamentos sem eficácia para combater o vírus.

A desinformação é um risco à saúde porque leva muitas pessoas a deixarem de se proteger por acreditarem nos conteúdos inventados.

Outras checagens sobre o tema: Mesmo após dois anos de pandemia, a desinformação sobre a Covid-19 persiste. Recentemente, o Comprova mostrou que as máscaras ajudam a proteger contra a transmissão e a contaminação pelo coronavírus para esclarecer uma postagem enganosa no Twitter e apontou serem falsas as declarações que o Brasil foi escolhido pela OMS como um dos três países que melhor atuaram na pandemia e que vacinas mRNA causam covid.

Pandemia

Investigado por: 2022-04-06

Máscaras ajudam a proteger contra transmissão e contaminação por covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Ao contrário do que afirma postagem no Twitter, o uso de máscaras serve tanto para que pessoas contaminadas com a covid-19 não transmitam a doença quanto para que pessoas saudáveis se protejam da contaminação.

Conteúdo investigado: Imagem publicada no Twitter mostra uma interação entre dois usuários da rede, na qual um deles afirma que máscaras não seriam eficazes para impedir a contaminação pelo novo coronavírus. “A máscara protege de não transmitir. De pegar, ela não protege”, escreveu o empresário e youtuber Peter Jordan, autor do post inicial que originou a interação.

Onde foi publicado: Twitter

Conclusão do Comprova: É enganosa postagem que circula pelo Twitter que afirma que as máscaras não protegem da infecção pelo coronavírus, e que o uso do item serviria apenas para impedir que infectados transmitam a doença. A afirmação foi feita pelo empresário e youtuber Peter Jordan. No dia 26 de março, ele fez um tuíte se queixando de que foi infectado pela covid-19 após circular com máscara por um shopping, onde poucas pessoas utilizavam o item.

Um usuário questionou como era possível ele ter pegado a doença, uma vez que as máscaras deveriam conferir proteção. “A máscara protege de não transmitir. De pegar, ela não protege”, escreveu Jordan. Uma imagem da sequência desses três tuítes foi postada por um outro usuário, no dia seguinte, 27 de março.

O post do youtuber em que ele relata a ida ao shopping foi apagado, mas a sequência do diálogo continua publicada. Na conversa, um quarto usuário pediu explicação sobre o argumento de Peter, mas o empresário apenas respondeu que não sabia como explicar e atribuiu a informação ao seu médico, mas não citou o nome do profissional. “Eu não sei explicar Rael (nome do usuário), foi meu médico que me disse. Eu geralmente confio nele”, escreveu Peter.

De acordo com autoridades sanitárias de todo o mundo, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e especialistas ouvidos pelo Comprova, o uso de máscaras é uma das principais medidas de combate à pandemia de covid-19, e serve para ambas as situações (evita que infectados transmitam a doença e que pessoas saudáveis sejam infectadas).

Ou seja, quando pessoas com covid-19 e pessoas saudáveis estão dividindo um mesmo ambiente, os riscos de contaminação podem ser muito reduzidos, desde que todos estejam usando máscaras de qualidade. O distanciamento social, a higienização das mãos e a ventilação em ambientes internos também são medidas importantes para diminuir o risco de contaminação.

A efetividade do uso das máscaras também depende do tipo de objeto utilizado e da forma que o item está colocado no rosto. Utilizar a mesma máscara por muito tempo ou de maneira incorreta contribui para a perda da efetividade. Máscaras do tipo PFF2 ou N95 asseguram um grau de filtragem das partículas externas de até 95%, que é maior do que as máscaras cirúrgicas (89%) de TNT (78%) e de algodão ou pano (40%).

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

O que diz o autor da publicação: A reportagem entrou em contato com Peter Jordan por meio de e-mail disponível em suas redes sociais. Inicialmente, não houve retorno, mas após a publicação da verificação ele se manifestou, afirmando ser defensor do uso das máscaras. Não foi possível entrar em contato com o responsável pela postagem do print com a sequência do diálogo porque o envio de mensagens diretas em seu perfil no Twitter é bloqueado.

Como verificamos: Como a postagem verificada foi feita no Twitter e traz o print de outra publicação na mesma plataforma, o primeiro passo da verificação foi buscar o post original. Neste procedimento, a equipe constatou que Jordan apagou a postagem em que relata ter ido ao shopping e, em seguida, ser diagnosticado com covid-19. No entanto, a resposta a um outro usuário – em que o youtuber afirma “A máscara protege de não transmitir. De pegar, ela não protege” – continua publicada.

Para entender se há base científica na afirmação de Jordan, o Comprova entrevistou os infectologistas Raphael Guimarães, do Observatório covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e Boaventura Braz, do Hospital Estadual de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad (HDT), de Goiânia.

Além disso, a equipe também fez pesquisa em publicações oficiais da OMS em busca do histórico de recomendações da instituição sobre o uso de máscaras. Também realizamos um levantamento sobre outras verificações realizadas pelo Comprova sobre o tema.

Por fim, buscamos informações sobre as atuais regras de uso de máscara no Brasil e entramos em contato com Peter Jordan e o usuário do Twitter que publicou o print da postagem do youtuber.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 5 de abril de 2022.

 

Máscaras são importantes para proteger contra covid-19 e evitar transmissão

Desde que passou a recomendar o uso de máscaras como forma de prevenção à covid-19, em junho de 2020, a OMS destaca que a utilização do item serve tanto para evitar que o portador infectado transmita o vírus a terceiros, quanto para oferecer proteção contra a infecção ao usuário da máscara que esteja saudável. Atualmente, a OMS mantém o uso de máscaras listado no seu site como uma das formas de prevenção à covid-19, ao lado de diversas outras medidas, e ressalta que, dependendo do tipo, as máscaras “podem ser usadas para proteção de pessoas saudáveis, prevenir a transmissão, ou ambos”.

Ao longo de toda a pandemia, foram realizados diversos estudos e experimentos apontando a eficiência do uso das máscaras, alguns deles citados em checagens recentes do Comprova (1, 2 e 3). De acordo com artigo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), de dezembro de 2021, uma pessoa não vacinada sem máscara a uma distância de até três metros de outra, infectada pela covid-19 e também sem máscara, leva menos de cinco minutos para se infectar com o novo coronavírus, o que reforça a importância do uso do item. Segundo a mesma publicação, em situação idêntica, mas com ambas as pessoas com máscaras do tipo PFF2 ou N95, as chances de infecção pela doença são de apenas 0,1% e em um tempo de exposição quatro vezes maior (cerca de 20 minutos).

A importância do uso da máscara, independentemente de a pessoa estar infectada ou não, também é corroborada por especialistas ouvidos pelo Comprova. Para o infectologista Raphael Guimarães, as máscaras são eficientes tanto para pessoas não serem contaminadas, quanto para que os infectados deixem de transmitir o vírus, mas desde que seu uso seja feito da maneira correta.

“Alguns detalhes precisam ser observados. Por exemplo, o uso de uma mesma máscara por muito tempo, inevitavelmente, leva à sua perda de efetividade. Quanto mais tempo uma máscara é utilizada, mais úmida ela fica, por conta da respiração e da fala da pessoa, e a umidade faz o material perder efetividade”, explica o pesquisador, que ainda cita outros aspectos que podem contribuir para o mau funcionamento das máscaras: “O grau de vedação é um segundo ponto importante, porque não deve haver nenhum espaço ou buracos entre a máscara e o rosto. Assim, é importante observarmos se o elástico ao redor da orelha não está muito frouxo, ou se o clipe nasal está mal ajustado”, acrescenta Guimarães. “Não se trata apenas de usar máscara, mas de utilizá-la da forma correta”, pondera.

Por fim, Guimarães comenta que em um ambiente fechado em que há circulação de pessoas infectadas pela covid-19 e sem máscara (como provavelmente era o caso do shopping mencionado na postagem), qualquer descuido com o item, por mais breve que seja, pode resultar na infecção. “Tirar a máscara, que seja por poucos segundos para comer ou beber algo, por exemplo, pode ser o suficiente para entrar em contato com partículas contaminadas”.

O infectologista Boaventura Braz também afirma que estudos científicos mostram, até o momento, que o uso de máscara é eficaz para evitar transmitir e ser contaminado com covid-19. “Quando você está usando máscara, principalmente do tipo N95, pois estou falando das melhores máscaras para proteção, você consegue se proteger, sim”, afirma o médico.

A atual flexibilização do uso de máscaras

Nas últimas semanas, estados e prefeituras têm publicado decretos liberando a população da obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes abertos e fechados, sob o argumento de que há melhora no cenário epidemiológico. Dados do consórcio de veículos de imprensa, coletados a partir de informações das secretarias estaduais de Saúde, mostram que a média móvel de mortes pela covid-19 no Brasil é de 196. Entre os estados, 20 registram queda, cinco estão com dados estáveis e um, o Amazonas, tem alta.

Em relação à vacinação, 81,95% da população recebeu a primeira dose contra a covid-19. Já a segunda dose foi aplicada em 75,12%. Os dados foram atualizados no dia 5 de abril de 2022.

Na visão de Braz, a máscara deve continuar a ser usada em situações de aglomeração, tanto em ambientes fechados quanto abertos. Além disso, ele recomenda que pessoas com imunodepressão continuem fazendo o uso regularmente. “Em ambientes hospitalares, os profissionais com certeza devem manter uso de máscara, até para proteger pessoas que já estão com a saúde debilitada”, afirmou.

No dia 1º de abril, os ministérios do Trabalho e Previdência e da Saúde publicaram portaria com flexibilização do uso de máscaras em ambientes de trabalho. De acordo com o documento, fica dispensado o uso e fornecimento do objeto em estados ou municípios que deixaram de exigir a máscara em ambientes fechados. Em caso de aumento de casos de covid-19 localmente, a medida pode ser reavaliada.

A OMS já mudou seu posicionamento sobre uso de máscaras?

Embora o uso de máscaras seja hoje defendido por especialistas e autoridades sanitárias de todo o mundo, no início da pandemia, o entendimento não era exatamente o mesmo. Foi só em junho de 2020 que a OMS, por exemplo, passou a recomendar o uso das máscaras pela população em geral como forma de prevenção ao novo coronavírus.

Em um comunicado de abril de 2020, a OMS reconheceu que as máscaras eram uma forma de conter a disseminação do novo coronavírus, mas que o uso do item deveria ser direcionado para pessoas com sintomas ou já diagnosticadas com a doença. “No momento não há evidência de que o uso de uma máscara (seja cirúrgica ou de outros tipos) por pessoas saudáveis na comunidade em geral, incluindo o uso universal de máscara na comunidade, possa prevenir uma infecção por vírus respiratórios, inclusive a covid-19”, escreveu a entidade.

Na época, a OMS frisou ainda que o uso de máscara pela população saudável poderia criar uma “falsa sensação de segurança”, fazendo com que as pessoas negligenciassem outras medidas essenciais, como as práticas de higienização das mãos e o distanciamento físico. A organização citou ainda que o uso universal de máscaras poderia acarretar na falta do item para profissionais da saúde.

Dois meses depois, após novos estudos sobre o comportamento e as características de transmissão da covid-19, a OMS apresentou novos direcionamentos em relação às máscaras, passando a recomendar a utilização do item por toda a comunidade. “Para prevenir a transmissão da covid-19 com eficácia em zonas de transmissão comunitária, os governos devem encorajar o público em geral a usar máscaras em situações e ambientes específicos, como parte de uma abordagem abrangente para suprimir a transmissão do SARS-CoV-2”, escreveu a OMS. De acordo com a entidade, a recomendação do uso de máscaras por toda a população tinha como objetivo “evitar que o portador infectado transmita o vírus a terceiros, e/ou oferecer proteção contra a infecção ao utilizador [da máscara] saudável”. Ao longo de toda a pandemia, a OMS manteve essa recomendação.

Quem é Peter Jordan?

Peter Jordan é um empresário e produtor de conteúdo digital que atua no segmento geek. Ele é o fundador do site Ei Nerd, dedicado à cobertura de cinema, TV, games e histórias em quadrinhos. O canal do Youtube do Ei Nerd, onde Jordan apresenta vídeos sobre o universo geek e cultura pop, conta com mais de 12 milhões de inscritos. De acordo com informações da descrição do próprio canal, desde 2018 o Ei Nerd é eleito pelo Youtube como um dos 50 canais da plataforma mais influentes do Brasil.

Jordan também é dono de outros dois canais no Youtube: Nerds de Negócio e Peter Aqui, e é CEO da empresa de inovação digital e desenvolvedora de sites Pentaxxon. Ele possui cerca de 2 milhões de seguidores no Instagram e pouco mais de 520 mil no Twitter, onde o post sobre as máscaras foi feito.

Atualização em 7 de abril de 2022: Após a publicação desta checagem, a assessoria de Peter Jordan procurou o Comprova na manhã de quinta-feira, 7 de abril, para prestar esclarecimentos sobre o post. A assessoria alegou que não havia recebido o e-mail enviado pela equipe do Comprova inicialmente. No esclarecimento, Jordan afirmou que no dia seguinte à postagem, constatou que estava apenas com um resfriado, e não com covid-19, e que por isso o tuíte original foi deletado. A respeito da afirmação de que “máscaras não protegem contra a contaminação”, ele disse que se baseou em reportagens publicadas pela imprensa e “conversas informais com médicos”.

“No caso do post, não foi a minha intenção causar uma discussão, apenas compartilhei o que li: que algumas máscaras protegem a saída e não a entrada do vírus. Como já havia deletado o post principal e este era somente uma resposta isolada a uma pergunta de um seguidor, que também já tinha sido excluído, não me posicionei mais sobre o assunto, exatamente por não ter sido intencional nenhum tipo de questão além do post”, explicou Jordan.

Em relação à conclusão feita pela checagem do Comprova, Jordan disse que sempre usou e continuará usando e apoiando publicamente a utilização do item. “Por fim, reforço que posso ter me expressado mal mas, este post que mencionam, iniciou-se basicamente porque respondi uma pessoa que não defendia o uso de máscaras. Tentei com a resposta defender o uso e sua importância, como sempre farei! Além disso, aproveito para reforçar também, para quem não é profissional da saúde como eu, que sempre busquem sanar dúvidas com fontes oficiais e médicas. Estudar é sempre a melhor escolha”, acrescentou.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A divulgação de conteúdo falso relacionado ao uso de máscaras por causa da covid-19 pode levar a população a deixar de usar o objeto mesmo em situações de aglomeração, o que pode provocar o aumento de casos da doença.

Alcance da publicação: Até o dia 6 de abril de 2022, a postagem teve 7,7 mil interações no Twitter.

Outras checagens sobre o tema: Em reportagens publicadas recentemente, o Comprova mostrou que é falso que o Brasil tenha sido escolhido pela OMS como um dos três países que melhor atuaram no combate à pandemia. O projeto também já verificou que um texto no Telegram espalha teoria conspiratória sobre tratado internacional da OMS e que vacinas de mRNA não são terapia genética e não causam covid-19.

 

 

Pandemia

Investigado por: 2022-03-29

É falso que o Brasil tenha sido escolhido pela OMS como um dos três países que melhor atuaram no combate à pandemia

  • Falso
Falso
Vídeo mente ao afirmar que o Brasil foi escolhido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos três países que mais se destacaram no combate à pandemia do coronavírus. A matéria citada para embasar a afirmação trata, na verdade, da participação do país em um grupo para o planejamento de ações em futuras pandemias. A seleção não teve como critério a ação dos países em relação à covid, mas sim questões diplomáticas e de representatividade regional.

Conteúdo verificado: Vídeo em que um homem afirma que o Brasil foi declarado pela OMS como melhor país das Américas no combate à pandemia do coronavírus.

Onde foi publicado: aplicativos Helo e Kwai.

Conclusão do Comprova: É falso que o Brasil tenha sido escolhido pela OMS como um dos três países que melhor atuaram no combate à pandemia. O autor do vídeo verificado pelo Comprova diz embasar a informação em uma matéria da Agência Brasil. Contudo, a publicação não menciona esse dado. O texto trata da escolha do país para integrar o Grupo de Negociação Intergovernamental (INB), que reúne outros cinco países de diferentes continentes.

O grupo tem como foco o planejamento de um instrumento — como um tratado ou acordo — para o fortalecimento global no combate a futuras pandemias. Ao Comprova, o Ministério das Relações Exteriores esclareceu que a escolha foi feita em consenso entre países-membros da OMS e que levou em consideração, entre outros fatores, a experiência brasileira em negociações diplomáticas.

Já a OMS cita a necessidade de equilíbrio entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, cada qual pertencente às regiões de atuação da organização, para a composição do INB.

Nas respostas de todos os órgãos procurados pelo Comprova, e nas notícias consultadas em seus canais oficiais e em veículos de comunicação, não há qualquer menção à escolha dos países por terem se destacado no combate à pandemia.

O Comprova classifica como falsos os conteúdos inventados ou que tenham sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgados de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

O que diz o autor da publicação: O autor foi procurado pelo Comprova, mas não respondeu até a publicação desta verificação.

Como verificamos: O primeiro passo foi procurar pela matéria citada no vídeo. Até o dia 29 de março, a notícia seguia disponível no site da Agência Brasil. Também buscamos no site da OMS informações sobre o grupo e sua criação. O site do Ministério de Relações Exteriores e o perfil do Twitter do ministro da Saúde e de outras autoridades também foram consultados.

A equipe ainda procurou a OMS e o Itamaraty via e-mail.

O Comprova também buscou pelo vídeo original publicado no Kwai. A partir do nome da conta, fizemos buscas em outras redes sociais e encontramos três perfis do Instagram associados ao homem que aparece no vídeo. A equipe entrou em contato com o autor por meio de um desses perfis.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 29 de março de 2022.

 

O que é o Grupo de Negociação Intergovernamental criado pela OMS

O Grupo de Negociação Intergovernamental (INB) foi criado em dezembro de 2021. Em matéria publicada no site da OMS na mesma data, o órgão explica que o objetivo do projeto é a elaboração de um instrumento para fortalecer a prevenção e ações de resposta a futuras pandemias.

Além do Brasil, participam do INB a África do Sul, Egito, Holanda, Japão e Tailândia. A informação consta em nota divulgada pelo Ministério de Relações Exteriores em fevereiro deste ano.

Pelo menos duas reuniões entre os integrantes foram previstas pela OMS para serem realizadas ainda este ano. O instrumento final deve ser apresentado até 2024, com o estabelecimento de medidas que auxiliem no combate a futuras emergências globais.

Em nota enviada ao Comprova, o Ministério das Relações Exteriores informou que a escolha do Brasil como membro se deu em consenso entre os países da América e envolveu questões diplomáticas. A organização também citou que o país tem um importante parque industrial farmacêutico.

“O País reúne credenciais sólidas para representar o continente no ‘bureau’. Na qualidade de país em desenvolvimento, com importante parque industrial farmacêutico, o Brasil compartilha tanto perspectiva e experiência, como necessidades e aptidões da região. Além disso, a extensa experiência brasileira em negociações na OMS e nossa reconhecida capacidade diplomática estão sendo mobilizadas em favor das Américas”, disse o Itamaraty.

Já na ata da reunião de criação do INB, em dezembro do ano passado, a OMS informa que a eleição dos dois co-presidentes do grupo deve refletir o equilíbrio entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. A ata cita, ainda, a eleição de quatro vice-presidentes, e que cada membro deve representar uma das seis regiões em que a OMS atua.

Em 24 de fevereiro, houve a eleição dos integrantes do INB durante o primeiro encontro do grupo. O Brasil está representado pelo embaixador Tovar da Silva Nunes, um dos quatro vice-presidentes eleitos.

Pandemia no Brasil

O Comprova questionou se a OMS possui algum ranking que aponta o Brasil como um dos melhores no combate à pandemia e se, por isso, teria sido escolhido para integrar o INB. Na resposta, a OMS apenas encaminhou links sobre a criação do grupo, nos quais não consta a informação. Em pesquisas na internet, também não foi localizado qualquer dado a respeito.

De acordo com o painel de dados de covid da organização, o Brasil é o terceiro país no mundo com mais casos confirmados. Até segunda-feira (28), 29 milhões de pessoas foram infectadas. Apenas Estados Unidos (79 milhões) e Índia (43 milhões) ficam à frente.

Em relação aos óbitos por covid, o Brasil é o segundo país no ranking da OMS – 658 mil pessoas morreram em decorrência da doença até março deste ano.

Dados do Our World in Data mostram que no Brasil a cada 1 milhão de habitantes, 139 mil foram infectados. O país está a frente de países como a Rússia, México e Japão.

Em janeiro de 2021, o Brasil foi considerado o pior país do mundo na gestão da pandemia. A avaliação foi feita pelo instituto australiano Lowy Institute, que faz pesquisas independentes sobre a gestão da pandemia em diferentes países, e analisou quase 100 estudos de acordo com critérios como casos confirmados, mortes e capacidade de detecção da doença.

Quem é o autor da publicação

O homem, identificado nas redes sociais como Sergio de Almeida de Farias, tem 5 mil seguidores no Kwai e suas publicações acumulam mais de 51 mil curtidas. Na maioria delas são tecidas críticas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Partido dos Trabalhadores (PT). No perfil, o autor se descreve como “pedreiro e mais 30 profissões, pára-quedista, militar, capoeirista, espiritualista universalista, patriota ao extremo e favelado.”

Apesar de se identificar como militar, o Comprova fez buscas no Portal da Transparência que não apontaram qualquer vínculo entre Sergio e as Forças Armadas. Procurado, o homem não respondeu aos nossos questionamentos.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos que viralizam na internet sobre políticas públicas, pandemia e as eleições presidenciais deste ano. O vídeo em questão compartilha informações falsas sobre a atuação do governo federal no combate à pandemia, o que pode influenciar o cidadão na escolha de candidatos, já que o atual presidente concorre à reeleição.

Alcance da publicação: O vídeo atingiu 75 mil visualizações no Kwai até as 15h20 do dia 28/3. No Helo, foram 1,2 mil curtidas e 1 mil compartilhamentos.

Outras checagens sobre o tema: Em verificação anterior, o Comprova mostrou que texto no Telegram espalha teoria conspiratória sobre tratado internacional da OMS.

Pandemia

Investigado por: 2022-03-28

Texto no Telegram espalha teoria conspiratória sobre tratado internacional da OMS

  • Falso
Falso
É falso que um tratado proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) vise “substituir leis nacionais e estaduais”, dando à entidade o poder de exigir vacinações obrigatórias e acabando com a democracia no mundo, conforme afirma um post no Telegram. O texto é baseado em teorias conspiratórias sem fundamento. A OMS deu início a um processo para firmar um tratado internacional de prevenção e resposta a pandemias, mas o conteúdo e formato do acordo ainda estão sendo negociados. A primeira versão do documento deve ficar pronta apenas em agosto de 2022.

Conteúdo investigado: Uma publicação alega que a OMS pretende controlar os sistemas de saúde do mundo por meio da implementação de um tratado internacional que substituiria “leis nacionais e estaduais” e daria à entidade o poder de exigir vacinações obrigatórias, acabando com a democracia. O post apresenta o link para um artigo em inglês publicado no site americano The Defender.

Onde foi publicado: Telegram.

Conclusão do Comprova: É falso que um tratado proposto pela OMS vise “substituir leis nacionais e internacionais”, dando à entidade o poder de exigir vacinações obrigatórias e acabando com a democracia no mundo, conforme afirma um post no Telegram.

Em dezembro de 2021, a OMS realmente deu início a um processo para firmar um tratado internacional de prevenção e resposta a pandemias, mas o conteúdo e formato do acordo ainda estão sendo negociados. O documento pode tomar forma como um conjunto de recomendações, convenções ou regulações, das quais somente as regulações firmam compromissos legais aos países-membros da entidade, a não ser que eles explicitamente se oponham.

O post no Telegram apresenta um link para um artigo do site The Defender, portal de notícias da Children’s Health Defense, uma organização dos EUA conhecida por ser uma das maiores disseminadoras de conteúdo antivacina na internet do mundo, segundo reportagem da agência Associated Press. O texto se baseia em teorias da conspiração sem fundamento e distorce conceitos usados pela OMS para suscitar desconfiança no trabalho realizado pela entidade.

Um representante da OMS afirmou ao Comprova que “há muita desinformação por aí” e que o artigo do The Defender “não parece respeitável”.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com o The Defender, mas não houve retorno. No Telegram, o conteúdo foi compartilhado pelos canais “Médicos pela Vida” e “Advogados pela Liberdade”. Na rede social, no entanto, não aparece opção para entrar em contato com os perfis. Buscas pelos nomes dos canais na internet não retornaram resultados compatíveis com as contas do Telegram.

Como verificamos: A partir de materiais divulgados pela própria OMS (que podem ser acessados aqui, aqui e aqui), o Comprova buscou informações que confirmassem a existência de um tratado internacional de enfrentamento a pandemias e explicassem os objetivos do acordo.

A reportagem também reuniu informações sobre o The Defender, site de notícias vinculado à organização norte-americana Children’s Health Defense, e a respeito do médico psiquiatra Peter Breggin, que foi citado como fonte para embasar os argumentos do artigo.

Foram investigados em reportagens (The New York Times, Nexo, BBC, outra da BBC e Weforum) termos mencionados no artigo e que foram distorcidos ou que são comuns em teorias da conspiração, como “globalismo” e “the great reset” (“a grande reinicialização”, em português).

Por fim, o Comprova entrou em contato com a OMS, que informou que o artigo do “não parece respeitável”. A equipe ainda aguarda o retorno do The Defender com esclarecimentos em relação à matéria.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 28 de março de 2022.

 

Sobre o tratado

Em dezembro de 2021, a Assembleia Mundial da Saúde, órgão decisório da OMS, decidiu dar início ao processo de elaboração de um tratado internacional que visa a prevenção, preparação e resposta a futuras crises sanitárias globais. A ideia do documento, que pode tomar forma como recomendações, convenções ou regulações, é determinar regras que auxiliem os países no enfrentamento de novas possíveis pandemias.

A decisão da Assembleia, intitulada “The World Together” (“O Mundo Junto”, em português), estabelece um Órgão Intergovernamental de Negociação Intergovernmental Negotiating Body (INB) – que deve se reunir para desenvolver o tratado até 2024.

No dia 24 de fevereiro deste ano, o órgão realizou a primeira reunião para acordar métodos de trabalho e prazos. O segundo encontro, para apresentar uma versão inicial do acordo, deve ser feito até o dia 1º de agosto. O grupo também deve realizar audiências públicas para informar as deliberações; entregar um relatório de progresso em 2023 e submeter seu resultado à consideração da 77ª Assembleia Mundial da Saúde, em 2024.

Conforme uma reportagem da agência Reuters, essa não é a primeira vez que a OMS estabelece um tratado internacional relacionado à saúde pública. O primeiro, instituído em 2003, foi a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, cujo objetivo era combater a epidemia de tabagismo no mundo.

Além desse tratado, há ainda o Regulamento Sanitário Internacional, instrumento jurídico instaurado em 2005 após um surto de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) na China. Esse regulamento, apesar de dispor sobre as obrigações dos países para o enfrentamento de patologias, é visto como útil apenas para epidemias regionais como o Ebola, sendo inadequado para uma pandemia global. Por isso a necessidade da criação de um tratado específico para tratar sobre a propagação mundial de doenças infecciosas.

Por enquanto, o tratado internacional de pandemias tem apoio da União Europeia e outros 22 países. Os Estados Unidos e o Brasil manifestaram ressalvas.

Sobre o site The Defender

The Defender é o portal de notícias da Children’s Health Defense, uma organização dos EUA que se tornou um dos maiores vetores de conteúdo antivacina do mundo. De acordo com uma reportagem da agência Associated Press, a entidade foi fundada em 2007 sob o nome World Mercury Project por Eric Glader, um cineasta que alega ter sido contaminado com mercúrio ao receber uma vacina antitetânica. Mas a organização cresceu em 2015, com a entrada de Robert F. Kennedy Jr., filho do senador Robert F. Kennedy (1925-1968) e sobrinho de John F. Kennedy (1917-1963), ex-presidente dos EUA.

Robert F. Kennedy Jr. fez carreira como advogado por causas ambientais, mas nos anos 2000 passou a difundir desinformação sobre vacinas, como a tese falsa de que os imunizantes causariam intoxicação por mercúrio e autismo em crianças. Ele é hoje o presidente e chefe do conselho jurídico da Children’s Health Defense, que, segundo informações da AP, se expandiu muito durante a pandemia de covid-19. A organização duplicou sua arrecadação, chegando a US$ 6,8 milhões em receitas em 2020.

Ainda de acordo com a AP, as visitas ao site também aumentaram naquele ano, batendo um pico de quase 4,7 milhões de acessos mensais, segundo dados coletados pela empresa de análise de tráfego online Similarweb. Antes da pandemia, a média era inferior a 150 mil acessos mensais. Um levantamento feito pelo Observatório de Mídias Sociais da Universidade de Indiana também mostrou que links para conteúdos da Children’s Health Defense foram compartilhados com mais frequência no Twitter do que conteúdos de empresas de mídia tradicionais como a CNN, Fox News e NPR.

Segundo a NBC, os textos da organização contêm “informação enviesada, fatos tirados de contexto e teorias da conspiração para disseminar desconfiança sobre as vacinas contra a covid-19”. Em março de 2021, o grupo lançou um documentário que recupera o histórico real de racismo na medicina para promover mensagens antivacina e teorias conspiratórias ao público afro-americano.

Um relatório do Center for Countering Digital Hate, uma organização de combate ao discurso de ódio e desinformação na internet, identificou Robert F. Kennedy como um membro dos “Disinformation Dozen”: um grupo (não organizado) de doze pessoas responsáveis por quase dois terços do conteúdo antivacina que circulava nas redes sociais entre fevereiro e março de 2021. O advogado foi banido do Instagram em fevereiro de 2021 por “repetidamente compartilhar alegações desmentidas sobre o coronavírus e vacinas”, segundo disse um porta-voz da empresa à NPR.

Linguagem conspiratória

A matéria do site The Defender linkada no post aqui verificado também faz citações extensas de um artigo assinado por Peter Breggin, um psiquiatra que há décadas causa controvérsia por se opor ao uso de medicação psiquiátrica e questionar a existência do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Em 1987, ele teve de comparecer a uma audiência do conselho disciplinar médico do estado de Maryland, nos EUA, após sugerir que pacientes psiquiátricos não tomassem seus medicamentos, durante uma aparição no programa televisivo da apresentadora Oprah Winfrey. Ele foi absolvido no caso.

O médico recentemente voltou a ganhar notoriedade ao aparecer no documentário da HBO “Eu te amo, agora morra” (2019), sobre o caso de uma adolescente que estimulou o suicídio de seu namorado. Ele foi uma testemunha pela defesa, alegando que a ré Michelle Carter havia sido intoxicada involuntariamente por sua medicação psiquiátrica e que estava em um estado “delirante”. Outra psiquiatra, Anne Glowinski, rebate as alegações no documentário: “Intoxicação involuntária é um diagnóstico que eu e meus colegas nunca usamos, que vem do campo da psiquiatria forense — sem consenso na nossa profissão de que sequer é um diagnóstico real”, disse. Carter acabou sendo condenada por assassinato culposo.

Uma reportagem do site BuzzFeed News mostrou que testemunhos de Breggin já foram questionados em outras oportunidades. Em um caso de 1995, um juiz excluiu o depoimento do psiquiatra dos autos, dizendo que “a corte acredita que não apenas esse homem não é qualificado a oferecer as opiniões que deu, como também sua visão enviesada nesse caso está o cegando”. Em outro caso, de 1997, um juiz disse que Breggin era uma “fraude” e que seus comentários eram “totalmente sem credibilidade”.

O texto de Breggin citado pelo The Defender emprega vários termos associados a teorias de conspiração, traçando conexões sem fundamento entre o Partido Comunista da China, bilionários americanos como Bill Gates e organizações multilaterais como a OMS. Um deles é o conceito da “Grande Reinicialização”, cujo nome vem de um plano de recuperação econômica sustentável proposto pelo príncipe Charles, do Reino Unido, e o Fórum Econômico Mundial para o mundo pós-pandemia. Segundo a BBC News Brasil, o termo foi cooptado por grupos extremistas que acreditam haver “uma grande conspiração da elite global, que de alguma forma planejou e geriu a pandemia da covid-19”.

O artigo do The Defender também distorce termos usados pela OMS para suscitar desconfiança em relação aos planos da entidade. Por exemplo, a ideia de uma “cobertura universal da saúde”, defendida como uma prioridade pela OMS, é apresentada ao lado de um trecho do texto de Breggin que fala sobre o “espírito do comunismo” e negligência a “direitos individuais, liberdade política, ou soberania nacional”. Na verdade, a cobertura universal de saúde, de forma simples, significa que “todas as pessoas teriam acesso aos serviços de saúde de que precisam, quando e onde precisam, sem dificuldades financeiras”, de acordo com a OMS.

Sobre a OMS

Fundada em 1948, a OMS é uma agência de saúde vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU) que tem como objetivo “promover a saúde, manter o mundo seguro e servir os vulneráveis – para que todos, em qualquer lugar, possam alcançar o mais alto nível de saúde“.

Atualmente, a OMS trabalha com 194 países associados em seis regiões do planeta. A equipe de liderança da Organização é formada pelo Diretor-Geral, que planeja e supervisiona todo o trabalho de saúde internacional, e por Diretores Regionais, que lideram as atividades dos seis escritórios regionais e dos nacionais.

De acordo com a OMS, a organização é financiada por duas fontes principais: pagamento de contribuições fixas dos Estados-Membros e contribuições voluntárias, tanto dos países associados quanto de outros parceiros.

As contribuições fixas (ou assessed contributions), que representam 20% do aporte da Organização, são as taxas que os países pagam, anualmente, para serem membros da OMS. O valor que cada um deve desembolsar é calculado em relação à riqueza – por meio do Produto Interno Bruto (PIB) – e à população do país.

O restante (80%) do financiamento é coberto na forma de contribuições voluntárias, feitas, em grande parte, pelos países membros da OMS, organizações intergovernamentais, fundações filantrópicas, instituições acadêmicas, o setor privado e outras fontes.

A cada três meses, a OMS atualiza o portal de orçamento, pelo qual é possível ter acesso a informações detalhadas sobre o trabalho da Organização, financiamento e progresso de implementação dos programas. Entre os maiores contribuintes da OMS estão os Estados Unidos (15,15%), a Fundação Bill e Melinda Gates (10,82%), o Reino Unido e a Irlanda do Norte (8,12%) e a GAVI Alliance, iniciativa da Fundação Bill e Melinda Gates para o acesso de crianças em situação de vulnerabilidade à vacinação (7,93%).

Com o início da pandemia, Bill Gates se tornou alvo de teorias conspiratórias que alegam que o empresário estaria comandando esforços para despovoar o mundo através das vacinas. Outros, como o atual presidente da Children’s Health Defense, acreditam que o co-criador da Microsoft é um dos principais interessados na dominação do sistema de saúde mundial, motivo pelo qual sua fundação financiaria pesquisas na área médica.

Uma das teorias mais difundidas é de que Gates, junto do infectologista e conselheiro da Casa Branca no combate à covid-19, Anthony Fauci, por meio da criação da pandemia, estaria tentando controlar e censurar os dissidentes, aqueles que discordam da política oficial ou do poder instituído. Tanto o Estadão Verifica quanto a Aos Fatos já desmentiram que e-mails de Fauci provariam que o coronavírus foi criado em laboratório por obra de cientistas e empresários, como Bill Gates e Mark Zuckerberg.

Em entrevista à BBC News Brasil, Rory Smith, do First Draft News, uma das maiores organizações que combatem a desinformação do mundo, afirmou que não é uma surpresa que Bill Gates tenha se tornado alvo de conspirações “porque ele sempre representou a saúde pública”. Por meio da fundação filantrópica que administra com a esposa, Bill Gates já investiu bilhões em assistência médica global.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Distorcer informações e manipular contextos são estratégias comuns utilizadas por narrativas conspiratórias para deslegitimar o discurso de cientistas ou mesmo de órgãos governamentais, como a OMS.

Alcance da publicação: Até o dia 28 de março, a publicação teve mais de 28 mil visualizações no Telegram.

Outras checagens sobre o tema: Desde o início da pandemia de covid-19, a OMS já foi associada a diversas mentiras e conteúdos enganosos. Em verificações anteriores, o Comprova concluiu que um vídeo do diretor da OMS foi tirado de contexto para validar discurso de Bolsonaro; que é falso que o diretor-geral da OMS tenha se posicionado contra o carnaval de 2022; que para atacar vacinas, post mente ao dizer que OMS apontou dano ao sistema imunológico e que a OMS não indica ivermectina para tratamento da covid-19.

Além disso, em 2020, o Comprova verificou que as vacinas não são uma iniciativa globalista para reduzir a população mundial.

Pandemia

Investigado por: 2022-03-23

Vacinas de mRNA não são terapia genética e não causam covid-19

  • Falso
Falso
É falso que vacinas de mRNA sejam terapia genética ou causem a mesma doença que deveriam combater. Médico também engana ao afirmar que imunizantes são responsáveis por hipercoagulação, cascatas de citocina e por antecipar a morte de mais de 23 mil pessoas.

Conteúdo verificado: Vídeo que circula no Youtube e no Telegram, publicado pelo médico urologista Alain Machado da Silva Dutra, retoma uma série de argumentos contra as vacinas de mRNA que circulam desde que a tecnologia passou a ser utilizada.

Onde foi publicado: YouTube e Telegram

Conclusão do Comprova: Vacinas que utilizam a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) não são terapia genética, não causam inúmeras doenças e não provocam a mesma enfermidade que deveriam combater. Também é falso que elas provocam hipercoagulação e que desencadeiam uma síndrome chamada cascata ou tempestade de citocinas. Em um vídeo publicado no YouTube e distribuído também no Telegram, o médico urologista Alain Dutra faz essas e outras afirmações, entre falsas e enganosas, numa tentativa de desacreditar os imunizantes e desestimular a vacinação.

Agências sanitárias de todo o mundo já atestaram que as vacinas são seguras e eficazes contra a covid-19 e concordam que seus benefícios superam possíveis riscos (1, 2 e 3). Além de divulgar mentiras a respeito das vacinas, o autor do vídeo também engana ao apresentar dados de notificações de efeitos adversos às autoridades sanitárias dos Estados Unidos como se fossem dados definitivos e incontestáveis, o que não é verdade. O próprio sistema Open Vaers (Vaccine Adverse Event Reporting System) alerta que os relatórios “não podem ser usados para determinar se uma vacina causou ou contribuiu para um efeito adverso ou doença”.

O médico urologista também engana ao citar uma série de artigos científicos que, supostamente, corroboram com as afirmações dele. Os artigos, contudo, ou não chegam às mesmas conclusões, ou não são, de fato, publicações científicas, e sim artigos de opinião.

O Comprova classificou este vídeo como falso porque há, nele, conteúdo inventado ou que sofreu edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

O que diz o autor da publicação: O autor foi procurado por e-mail, mas não respondeu até a publicação deste texto.

Como verificamos: Inicialmente, o Comprova buscou por outras verificações publicadas que já tratavam de pontos mencionados pelo autor do vídeo ou sobre as vacinas de RNA mensageiro (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Em seguida, foram entrevistadas duas imunologistas: Rosane Nassar Meireles Guerra, doutora em Imunologia e professora do departamento de Patologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA); e Fernanda Grassi, doutora em Imunologia, pesquisadora titular do Instituto Gonçalo Moniz da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e membro da Rede CoVida, parceria entre a Fiocruz e a Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Também foram acessados os artigos mencionados pelo autor do vídeo e os dados do sistema Open VAERS, que reúne notificações voluntárias de suspeitas de reações adversas às vacinas, mantido pelo governo dos Estados Unidos, além de publicações de agências sanitárias, institutos de pesquisa e associações médicas. Por fim, foi procurado o médico urologista Alain Dutra, autor do vídeo aqui verificado.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 23 de março de 2022.

 

Conteúdo do vídeo

O vídeo completo tem quase 15 minutos de duração e traz informações falsas e enganosas sobre as vacinas contra a covid-19, sobretudo as que utilizam a tecnologia de RNA mensageiro, e ainda sobre reações adversas aos imunizantes.

O autor do vídeo, um médico urologista, engana ao afirmar, por exemplo, que as vacinas de mRNA provocam hipercoagulação, quando, na verdade, episódios muito raros foram associados às vacinas de adenovírus, como Janssen e AstraZeneca. Ele também mente ao descrever o funcionamento das vacinas de mRNA e associá-las a uma cascata de citocinas. A síndrome pode ser fatal, mas muito raramente é desencadeada pelas vacinas.

Ele ainda mente ao sugerir que, na prática, as vacinas provocam a mesma doença que deveriam combater. A comunidade científica concorda que as vacinas em uso no mundo contra a covid-19 são seguras, eficazes e não provocam doenças. Entenda a seguir cada um dos pontos mencionados pelo autor do vídeo.

Vacinas de mRNA não provocam hipercoagulação

Para a imunologista Fernanda Grassi, da Fiocruz-BA, não faz sentido falar em hipercoagulação associada às vacinas de mRNA. Casos do tipo chegaram a ser associados às vacinas de adenovírus, como a AstraZeneca e a Janssen, entre março e abril do ano passado. “Na realidade, nem as vacinas de adenovírus fazem isso. O que acontece é que algumas pessoas que têm uma espécie de reação autoimune, que fazem anticorpos anti-plaquetas, mas não é que a vacina faz isso, é que algumas pessoas têm essa susceptibilidade. Com a vacina de mRNA, então, não tem nenhuma associação”, explica Fernanda.

Quando a relação entre casos raros de hipercoagulação associados à baixa contagem de plaquetas (trombocitopenia) e as vacinas AstraZeneca começou a ser investigada pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e pela Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA), em abril de 2021, a Fiocruz, que fabrica a vacina no Brasil, recomendou “fortemente” a continuidade da vacinação, por entender que os benefícios superavam os riscos.

A Anvisa se manifestou sobre o caso um pouco mais tarde, em junho, e também recomendou a continuidade da vacinação tanto com o imunizante da AstraZeneca quanto com o da Janssen, chamando a atenção para a necessidade de diagnóstico precoce. É importante destacar, ainda, que pessoas com covid-19 podem desenvolver quadros de hipercoagulação e que o risco de trombose é maior em decorrência da doença do que da vacina.

Vacinas não provocam a mesma doença que o vírus – nem outras, como câncer

Outra afirmação falsa presente no vídeo é de que as vacinas que utilizam a tecnologia de mRNA provocam a mesma doença que o vírus, ou seja, a que elas deveriam combater. O que a vacina de mRNA faz é “ensinar” as células do corpo humano a sintetizar a proteína spike, que é própria do coronavírus, para que o sistema imune esteja preparado para combatê-la caso o coronavírus de fato entre em contato com o corpo.

“Você tem uma molécula de RNA que vai dar uma informação para que a célula do nosso corpo produza a proteína spike. Essa molécula é muito instável, se degrada muito facilmente, é lábil. Através de nanopartículas, conseguiram estabilizar essa molécula de RNA para que ela entre e dê as informações para que a célula produza a proteína. Depois, ela se degrada, ela não faz nada no corpo, não se incorpora, ela simplesmente se desfaz”, explica Fernanda Grassi.

A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) também explica em seu site como funciona a tecnologia, presente em vacinas como a Moderna e a Pfizer, e descarta a possibilidade de que o imunizante cause a covid-19 ou qualquer alteração no genoma. “É essencial deixar claro que a molécula não contém outra informação, não é capaz de realizar qualquer outra tarefa e não penetra no núcleo de nossas células. Então, não consegue causar a covid-19 ou qualquer alteração em nosso genoma”, diz o texto, que também detalha todo o processo de defesa desencadeado pela vacina.

Da mesma forma que não causa doenças autoimunes nem a própria covid-19, as vacinas de mRNA também não causam outras doenças como câncer, ou doenças autoimunes, conforme já desmentiu o Comprova.

São raros casos de cascata de citocina desencadeada pela vacina

Ainda falando sobre como as vacinas atuam no corpo, o autor do vídeo utiliza uma analogia com a guerra para afirmar que, ao receber a vacina, o corpo trava uma batalha com ele mesmo. Ele diz que as vacinas de mRNA, em vez de levar pequenos fragmentos do “armamento” do inimigo para estimular o sistema imune a criar anticorpos para combater o invasor, acabam estimulando o corpo a produzir esses mesmos armamentos em larga escala, produzindo “mísseis teleguiados para os órgãos”.

Segundo ele, isso provoca uma guerra constante dentro do corpo humano que provoca uma “cascata de citocinas”, o que é contestado por imunologistas ouvidos pelo Comprova. A professora Rosane Nassar, da UFMA, explica que a cascata de citocinas está associada à hiperativação do sistema imune e é capaz de intensificar as reações inflamatórias, pois pode atrair e estimular células diversas. Quando essa cascata não é controlada, ela pode sim levar à morte.

Rosane explica que essa é uma das principais complicações causadas pela covid-19 em sua forma grave e que é muito raro que as vacinas contra o novo coronavírus possam provocar uma cascata ou tempestade de citocinas.

Para a também imunologista Fernanda Grassi, a relação entre a vacina e a tempestade de citocinas não tem qualquer cabimento. “A vacina é composta de substâncias que não levam ao desenvolvimento da doença. O SARS-Cov 2 leva a essa tempestade de citocinas, mas a vacina não faz isso”, afirma. De acordo com Fernanda, o que a vacina pode fazer é desencadear uma reação imunológica, mas ela é controlada e “infinitamente mais leve do que a doença”.

“O antígeno que estimula o sistema imune não causa uma reação patogênica, não tem nenhum cabimento dizer isso, nem com a vacina de vírus inativado, que tem a estrutura do vírus, só que inativado. As únicas vacinas que poderiam, teoricamente, levar a um quadro de uma resposta mais patogênica são as vacinas de vírus atenuados, e essas vacinas são contraindicadas para pessoas imunossuprimidas. É o caso da vacina de febre amarela. Mas todas as vacinas que estamos utilizando aqui contra a covid, nenhuma delas causa esse tipo de situação”, esclarece.

Vacinas x terapia genética experimental

No vídeo publicado em seu canal no YouTube, o médico usa o conceito “terapia genética experimental” para nomear as vacinas de mRNA. Segundo ele, os imunizantes que usam essa tecnologia nem poderiam ser chamados de vacinas. Ao Comprova, a imunologista Rosane Nassar refutou a alegação do urologista e explicou que esse conceito nem sequer faz sentido. Segundo ela, a terapia genética experimental só ocorre com animais de laboratório.

Já a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma nota em 7 de janeiro de 2022 para esclarecer que as vacinas de mRNA não podem ser consideradas “terapias gênicas”, outro termo comumente ligado às vacinas por pessoas que tentam desacreditá-las: “Segundo normas vigentes na Anvisa, publicadas desde 2018, o produto de terapia gênica é um medicamento especial que contém ácido nucleico recombinante (material genético), com o objetivo de regular, reparar, substituir, adicionar ou deletar uma sequência genética e/ou modificar a expressão de um gene humano, com vistas a resultados terapêuticos. Ou seja, a terapia gênica utiliza-se de material genético humano, manipulado em laboratório, para tratamento de doenças genéticas ou relacionadas”, diz a Anvisa.

Fernanda Grassi também rechaça o argumento do autor do vídeo. “As vacinas são, conceitualmente, vacinas, são substâncias que vão induzir a produção de anticorpos com o intuito de prevenir o desenvolvimento de uma doença. Elas não são terapias genéticas porque estas terapias modificam o gene”, afirma.

O uso de argumentos que sugerem que as vacinas contra a covid-19 fazem experimentos ou alterações genéticas é recorrente. O Comprova já desmentiu, por exemplo, que as vacinas injetam DNA alienígena, e já mostrou que outro médico descontextualizou o manual da Pfizer para sugerir alterações genéticas.

Vacinas anteciparam a morte de mais de 23 mil pessoas?

O autor cita dados do relatório Open Vaers (Vaccine Adverse Event Reporting System), do governo dos Estados Unidos, até o dia 11 de fevereiro de 2022. Não é possível conferir se os dados são precisos, mas o relatório aponta, com dados até 11 de março e 2022, um total de 25.641 mortes relatadas como efeito adverso das vacinas contra a covid-19, 141.112 hospitalizações ligadas às vacinas e 1.183.493 eventos adversos ligados à vacina.

O relatório de fato informa que o sistema de notificação voluntária representa apenas 1% dos eventos, mas faz uma observação importante que não foi levada em conta pelo médico autor do vídeo: de que os dados não devem ser usados para determinar se uma vacina causou ou contribuiu para um efeito adverso ou mesmo a doença.

“Embora muito importante no monitoramento da segurança da vacina, os relatórios Vaers por si só não podem ser usados ​​para determinar se uma vacina causou ou contribuiu para um evento adverso ou doença. Os relatórios podem conter informações incompletas, imprecisas, coincidentes ou não verificáveis. Em grande parte, as denúncias ao Vaers são voluntárias, o que significa que estão sujeitas a vieses. Isso cria limitações específicas sobre como os dados podem ser usados ​​cientificamente. Os dados dos relatórios VAERS devem sempre ser interpretados com essas limitações em mente”, diz um aviso sobre a isenção de responsabilidade do Vaers e do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

O site Open Vaers lista as “principais considerações e limitações dos dados”:

  • Os fornecedores de vacinas são incentivados a relatar qualquer problema de saúde clinicamente significativo após a vacinação ao Vaers, independentemente de acreditarem ou não que a vacina foi a causa.
  • Os relatórios podem incluir informações incompletas, imprecisas, coincidentes e não verificadas.
  • O número de notificações por si só não pode ser interpretado ou usado para chegar a conclusões sobre a existência, gravidade, frequência ou taxas de problemas associados às vacinas.
  • Os dados do Vaers são limitados a notificações de eventos adversos de vacinas recebidas entre 1990 e a data mais recente para a qual os dados estão disponíveis.
  • Os dados Vaers não representam todas as informações de segurança conhecidas para uma vacina e devem ser interpretados no contexto de outras informações científicas.

Artigos não corroboram tese do vídeo

Para tentar passar uma impressão de que as alegações do vídeo são bem fundamentadas, o autor cita estudos e compartilha os links na descrição do material. Os artigos, contudo, não corroboram necessariamente os argumentos do urologista. O primeiro estudo citado, publicado em março de 2021 na revista científica Circulation Research, do AHA Journals, não diz que a vacina é problemática, pelo contrário. Os pesquisadores perceberam, num estudo com hamsters, que a proteína Spike (S) do coronavírus é capaz, sozinha, de danificar as células endoteliais vasculares, que possuem funções metabólicas no sistema circulatório. Na conclusão do artigo, os estudiosos afirmam que “o anticorpo gerado pela vacinação e/ou o anticorpo exógeno contra a proteína S não apenas protege o hospedeiro da infectividade do SARS-CoV-2, mas também inibe a lesão endotelial imposta pela proteína S”.

O segundo artigo citado também não depõe contra a vacina. Ele foi lançado primeiro na plataforma Medrxiv, que reúne produções que ainda não foram revisadas por pares, e depois na revista Bioscience Reports, em agosto do ano passado. No texto, os pesquisadores apontaram que a presença da proteína Spike na circulação de pacientes com covid-19 contribuiu para a hipercoagulação nesses pacientes. Eles dizem que o estudo fornece evidências de que direcionar a proteína, “diretamente, seja por meio de vacinas ou anticorpos, provavelmente será um benefício terapêutico”.

O terceiro link compartilhado é do “Estudo para Descrever a Segurança, Tolerabilidade, Imunogenicidade e Eficácia de Candidatos à Vacina de RNA Contra covid-19 em Indivíduos Saudáveis”, feito pela Pfizer/BioNTech, mas ainda não há resultados publicados.

O quarto link faz referência a um artigo publicado em fevereiro de 2022 pela jornalista Apoorva Mandavilli, do The New York Times. O artigo mostra que o CDC vem deixando de publicar alguns dados sobre efetividade das vacinas em adultos jovens e que uma das razões é o medo de que eles sejam mal interpretados e gerem hesitação. O link compartilhado pelo autor do vídeo, contudo, é um artigo opinativo que omite uma análise de especialistas sobre o caso. Segundo ele, o medo da hesitação não é uma razão plausível para omitir os dados, mas o órgão deveria ter alertado as pessoas que, à medida que mais pessoas fossem vacinadas, a porcentagem de pessoas vacinadas hospitalizadas também aumentaria. O artigo opinativo compartilhado, pelo contrário, interpreta o artigo do The New York Times como um sinal de que as vacinas não funcionam, o que é mentira.

Em seguida, o autor do vídeo lista um artigo de opinião baseado em afirmações do cardiologista norte-americano Peter McCullough, que diz que as vacinas de mRNA estão instalando uma proteína inflamatória permanentemente no corpo humano, se referindo à proteína spike McCullough, contudo, já teve várias de suas afirmações desmentidas por outras agências de checagem.

Já os dois artigos publicados na revista Nature tratam de sequelas patológicas da covid-19 longa e de efeitos a longo prazo da covid, sem mencionar eventuais problemas provocados pela vacinação.

Quem é o autor do vídeo

O autor do vídeo aqui verificado é o médico urologista Alain Dutra, que possui registro ativo no Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp). A especialidade dele pode ser verificada no site do Conselho Federal de Medicina (CFM), mas também nas próprias redes de Dutra.

O médico se apresenta como o dono do “canal de saúde mais completo do YouTube” e, além do vídeo que tenta desacreditar as vacinas, ele também já gravou um material sobre como fazer um “detox da proteína Spike” com ervas.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais ou aplicativos de mensagem sobre a pandemia de covid-19, eleições e políticas públicas do governo federal. Conteúdos que buscam desacreditar as vacinas, associando-as às doenças que elas combatem, contribuem para minar a principal estratégia contra o coronavírus em nível mundial. Isso pode desestimular o processo de vacinação da população e favorecer a disseminação do vírus.

Alcance da publicação: A publicação verificada teve mais de 83 mil visualizações no YouTube e 4,4 mil no Telegram até o dia 22 de março.

Outras checagens sobre o tema: Em publicações anteriores, o Comprova mostrou ser falso que vacinas de RNA mensageiro causam doenças autoimunes, também mostrou que agências reguladoras negaram risco de infertilidade nos vacinados, que vacinas não injetam DNA alienígena e que elas também não provocam câncer, nem provocam alterações genéticas.

Pandemia

Investigado por: 2022-03-17

Não é possível afirmar que morte em Jundiaí (SP) está ligada à vacinação; investigação segue em andamento

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a publicação que atribui a morte de um jovem à vacinação contra covid-19. A Secretaria de Saúde de São Paulo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a prefeitura de Jundiaí (SP), onde o rapaz foi atendido, informaram que a causa da morte ainda é investigada.

Conteúdo verificado: Publicação que atribui a morte de um jovem de 20 anos de Jundiaí (SP) à vacinação contra a covid-19.

Onde foi publicado: Twitter

Conclusão do Comprova: A publicação sobre a morte de Guilherme Rian Barbosa Gomes, 20 anos, engana ao afirmar que o jovem faleceu em decorrência da vacina contra o coronavírus. As agências de saúde esclareceram que o caso ainda está sob investigação. A suspeita foi levantada pelo padrasto de Guilherme. O homem compartilhou vídeos em que diz que o enteado teve uma crise epiléptica após a aplicação da primeira dose da Pfizer. O mesmo teria acontecido depois da segunda.

Procurado pelo Comprova, o homem afirmou que não comentaria sobre o caso do enteado, a pedido da mãe do menino.

Ao Comprova, a prefeitura de Jundiaí informou que o caso está sob investigação. O mesmo foi dito pela Secretaria de Saúde de São Paulo. A Anvisa, que também analisa o ocorrido, afirmou que outros eventos adversos foram relatados neste óbito, contudo, o órgão não especificou quais seriam e informou que ainda não concluiu a investigação. O Ministério da Saúde também acompanha o caso. Procurada, a Pfizer disse desconhecer o caso em questão.

Enganoso para o Comprova é todo o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações, confundindo o público, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

O que diz o autor da publicação: A equipe entrou em contato com a autora da postagem por uma conta no Instagram. O perfil no Twitter, onde foi feita publicação, não permite o envio de mensagens. Não houve retorno até a publicação.

Como verificamos: A partir da publicação do Twitter, o Comprova localizou o perfil no Instagram do padrasto de Guilherme, Moises Aparecido Rodrigues, que, desde dezembro de 2021, compartilha na rede social o quadro de saúde do enteado.

A equipe entrou em contato com a Anvisa, Pfizer, Ministério da Saúde, Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, Prefeitura de Jundiaí e o Hospital São Vicente de Paulo, onde o jovem foi internado, para entender se o caso está sendo apurado e o que causou a morte de Guilherme.

O padrasto de Guilherme também foi procurado pelo Comprova. No entanto, ele preferiu não dar detalhes sobre o caso.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 17 de março de 2022.

 

Morte de Guilherme

Fazendo uma busca pelo perfil do padrasto, descobrimos que, após receber a primeira dose da Pfizer em 26 de agosto de 2021, Guilherme sofreu alguns episódios de convulsão, foi internado, mas se recuperou.

Em 30 de novembro do ano passado, cinco dias após receber a segunda dose, o rapaz teve crises de epilepsia e foi internado na UTI do Hospital de Caridade São Vicente de Paulo, em Jundiaí (SP) no dia 2 de dezembro. Lá, Guilherme faleceu em 10 de março de 2022.

O Comprova não teve acesso ao atestado de óbito do rapaz. Nem a família, nem o hospital repassaram a informação sobre a causa da morte.

Investigação em andamento

Questionado sobre o atendimento e óbito de Guilherme, o Hospital São Vicente de Paulo informou que, em razão da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), não é possível fornecer dados de pacientes ou detalhes de tratamentos ministrados.

Porém, segundo o hospital, não há evidências médicas, no âmbito dos tratamentos ministrados pelo São Vicente de Paulo, de morte causada por efeitos adversos da vacina contra a covid-19.

Ao Comprova, a prefeitura de Jundiaí informou que realiza a investigação epidemiológica do caso de Guilherme por meio da Unidade de Gestão de Promoção da Saúde (UGPS). Posteriormente, a apuração será encaminhada à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, órgão responsável pela conclusão da análise e, caso necessário, ao Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS).

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, o Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) está acompanhando e analisará a ocorrência de Jundiaí. A pasta informou que todos os casos de eventos adversos são analisados por uma comissão de especialistas antes de qualquer confirmação e ressaltou a segurança e eficácia das vacinas.

“É, portanto, precipitado e irresponsável afirmar que o caso do município está associado à vacinação. Na maioria das vezes, os casos de eventos adversos pós-vacinação são coincidentes, sem qualquer relação causal com o imunizante”, afirmou, em nota.

Já a Anvisa foi notificada sobre a morte, mas informou que até o momento não foram divulgadas evidências que comprovem a relação do óbito com a vacinação. O caso segue em investigação, segundo o órgão.

Procurado, o Ministério da Saúde declarou que o caso é investigado pelas secretarias de saúde do município e do Estado.

“Todos os Eventos Adversos Pós-Vacinação (EAPV) graves (deste caso) ainda estão em investigação pelas vigilâncias de EAPV municipais e estaduais e, até o momento, nenhum deles têm relação causal confirmada com as vacinas covid-19 utilizadas”, disse.

Mortes por efeitos adversos

A Pfizer informou que não foi notificada sobre o óbito em Jundiaí e que a empresa realiza o monitoramento dos relatos recebidos de eventos adversos do produto, mantendo sempre informadas as autoridades sanitárias brasileiras.

Conforme a farmacêutica, todas reações adversas observadas em estudos clínicos e pós comercialização estão disponibilizadas na bula do imunizante e não há alertas de gravidade em segurança, de forma que os benefícios da vacinação seguem sobrepondo-se a qualquer potencial risco.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais ou aplicativos de mensagem sobre a pandemia de covid-19, eleições e políticas públicas do governo federal. Conteúdos que associam a vacina a óbitos de forma infundada contribuem para descredibilizar a segurança e efetividade dos imunizantes. Isso pode desestimular o processo de vacinação da população, principal medida para combater a proliferação do vírus.

Alcance da publicação: A publicação verificada teve mais de 2 mil interações até o dia 16 de março.

Outras checagens sobre o tema: Em verificações anteriores, o Comprova mostrou ser enganoso um post que relacionava a morte de uma criança com Coronavac, que não há registro de mortes de crianças causadas por vacinas contra a covid-19 no Brasil e que não há comprovação que a morte de um adolescente em Arujá (SP) tem relação com a vacina. Além disso, no início deste ano, o Comprova também explicou por que eventos adversos graves pós-vacinação contra a covid-19 são raros e os benefícios da imunização superam os riscos.

Pandemia

Investigado por: 2022-03-17

Em tuíte para atacar vacinas, deputado ignora comorbidades dos pacientes e a alta cobertura vacinal no RS

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa uma postagem feita por deputado federal que dá a entender que pessoas vacinadas morrem mais de covid-19 do que as não vacinadas. Apesar de usar dados verdadeiros de um hospital do Rio Grande do Sul, a postagem desconsidera que aproximadamente 100% da população do estado acima dos 60 anos (faixa etária que concentra a maioria dos óbitos mencionados no tuíte) já está vacinada, de forma que os dados sobre mortes precisam ser analisados proporcionalmente. Além disso, de acordo com o hospital, a maioria desses óbitos aconteceu entre pessoas idosas e/ou que possuíam comorbidades que levaram os pacientes a um quadro grave ao mesmo tempo que estavam com covid-19.

Conteúdo verificado: Post do deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) compartilha trecho de uma tabela com dados de óbitos no Hospital Nossa Senhora da Conceição, de Porto Alegre (RS), mostrando que a maioria dessas mortes aconteceu entre pessoas que já haviam se vacinado.

Onde foi publicado: Twitter

Conclusão do Comprova: É enganoso um tuíte compartilhado pelo deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) no dia 5 de março de 2022 com uma tabela que mostra o número de óbitos por covid-19 registrado em um hospital do Rio Grande do Sul. Os dados são verdadeiros e indicam que a maioria das mortes registrada aconteceu entre pessoas que haviam se vacinado com duas ou três doses da vacina, mas isso não significa que os imunizantes sejam ineficazes, como explicaram ao Comprova a assessoria do próprio hospital e uma médica da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

De acordo com o hospital, a maioria dos óbitos registrados na tabela compartilhada pelo deputado era de pessoas idosas e/ou que tinham alguma comorbidade grave ao mesmo tempo que estavam infectadas com a covid-19. Ou seja, há casos em que o óbito aconteceu em decorrência dessa doença prévia, e não necessariamente por causa da covid-19, o que faz com que os dados não sejam adequados para considerações a respeito da efetividade das vacinas.

Também segundo o hospital, é preciso levar em conta que, no estado do Rio Grande do Sul, quase 100% da população acima dos 60 anos (faixa etária que concentra a maioria dos óbitos na tabela) já está vacinada, o que impede qualquer comparação proporcional entre óbitos ocorridos entre vacinados e não vacinados.

Além disso, estudo feito pelo Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs) do Rio Grande do Sul demonstrou que a vacinação com ao menos duas doses foi capaz de reduzir o risco de morte por covid-19 em até 95% para pessoas com mais de 60 anos. Dados coletados entre agosto e novembro de 2021 no estado indicaram que a taxa de óbitos entre os idosos não vacinados foi de 4,16/100 mil habitantes. Na mesma faixa etária, entre os vacinados, a taxa foi de 0,17/100 mil, ou seja, 24 vezes menor.

O conteúdo foi considerado enganoso porque oculta a limitação da base de dados da tabela do hospital gaúcho, não contextualiza o quadro clínico dos pacientes que vieram a óbito e faz comparações desproporcionais. Para o Comprova é enganoso todo o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor, confundindo o público, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

O que diz o autor da publicação: O Comprova tentou contato com Osmar Terra por meio de seu e-mail institucional e telefone divulgados no site da Câmara dos Deputados, mas não houve retorno até o fechamento da checagem.

Como verificamos: Para verificar o conteúdo, o Comprova fez contato, por e-mail, com a assessoria de imprensa do Hospital Nossa Senhora da Conceição, que é citado no tuíte de Osmar Terra, pedindo esclarecimentos sobre a veracidade dos dados e da interpretação dos números.

A SBIm também foi procurada para contribuir com a explicação dos dados divulgados e contextualizar se pessoas que tomaram duas doses das vacinas podem ser consideradas “vacinadas”. O mesmo questionamento foi feito para o Ministério da Saúde, que foi acionado pela equipe do Comprova por e-mail.

A assessoria de imprensa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o ministério foram contatados na busca por informações sobre casos graves e óbitos por covid-19 no Brasil de acordo com o status de vacinação.

Por fim, a equipe do deputado federal Osmar Terra foi procurada, por e-mail e telefone, para fornecer explicações sobre o tuíte.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 17 de março de 2021.

 

Dados compartilhados pelo deputado

Os dados que aparecem na postagem do deputado são verdadeiros e dizem respeito ao número de óbitos por covid-19 registrados na UTI destinada a atender pacientes adultos com covid-19 do hospital Nossa Senhora da Conceição, de Porto Alegre (RS), entre janeiro e fevereiro de 2022. A informação foi confirmada pela assessoria do hospital em e-mail enviado ao Comprova. Na mesma mensagem, o hospital também afirmou que os dados não podem avaliar a efetividade das vacinas e que a interpretação desses números deve ser feita “com cuidado”, levando-se em consideração o quadro clínico dos pacientes que vieram a óbito e a proporção da população gaúcha que já está vacinada.

O tuíte compartilhado pelo deputado apresenta uma tabela mostrando que, em janeiro de 2022, foram registrados 12 óbitos por covid-19 no hospital, dos quais dois se tratam de pessoas que não haviam se vacinado, sete de quem havia tomado duas doses da vacina e três de pessoas que tomaram as três doses.

Em fevereiro de 2022, foram 35 óbitos registrados, dos quais três foram de pessoas que não haviam tomado nenhuma dose da vacina; dois óbitos de pessoas com uma dose; 13 óbitos de pessoas com duas doses e 17 mortes registradas entre quem havia tomado as três doses.

Nos dois meses, portanto, foram 47 óbitos registrados por covid-19, dos quais 40 foram entre pessoas que podem ser consideradas vacinadas (que receberam ao menos duas doses dos imunizantes), o que corresponde a cerca de 85% das mortes, conforme escreveu Osmar Terra.

Apesar de serem verdadeiros, os dados mostrados na tabela não devem, segundo o próprio hospital, ser interpretados para avaliar a eficácia das vacinas, e que a maioria dos casos era de pessoas idosas e/ou com comorbidades, cujo óbito ocorreu por conta de alguma outra doença que o paciente já possuía, e não necessariamente em decorrência da covid-19. “Eram pessoas com comorbidades graves associadas a um quadro de síndrome respiratória por covid-19 que provocou um agravamento da doença de base. Ou seja, estes pacientes foram a óbito pela doença de base ao mesmo tempo que estavam com covid-19”, explicou a assessoria do hospital. “Atualmente, com a elevada cobertura vacinal não estamos identificando óbitos por covid-19 em pessoas sem comorbidades e mais jovens como presenciamos em 2020 e no início de 2021”, acrescentaram.

Segundo os dados da tabela, dos 47 óbitos registrados no hospital, 40 foram de pessoas com 60 anos ou mais. “Os dados não avaliam a efetividade das vacinas uma vez que aproximadamente 100% das pessoas com mais de 60 anos já receberam as duas doses de vacina contra a covid-19 no Rio Grande do Sul”, argumentou ainda o hospital.

De acordo com números da secretaria estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, 75% de toda a população residente no estado está vacinada com pelo menos duas doses. Conforme avaliou o hospital na resposta ao Comprova, esse patamar é próximo a 100% para todas as faixas-etárias acima dos 60 anos, também de acordo com números da secretaria, consultados no dia 15 de março de 2022.

60 a 64 anos: 99%;

65 a 69 anos: 98%;

70 a 74 anos: 99%;

75 a 79 anos: 96%

80 anos ou mais: 90%.

Dados precisam ser observados em conjunto a outras informações

Em concordância com a explicação dada pelo hospital, a presidente da Comissão Técnica para a Revisão dos Calendários Vacinais da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mônica Levi, afirma que os dados mostrados na tabela repercutida no tuíte de Osmar Terra precisam ser analisados em conjunto a outras informações sobre o histórico do paciente.

Ela explica que, embora os casos sejam computados como covid-19, não significa, necessariamente, que o paciente tenha morrido em decorrência da doença, mas sim devido ao agravamento de outras enfermidades, como diabetes ou hipertensão.

“Há casos em que o paciente é internado para uma cirurgia eletiva, faz o teste de covid e dá positivo. Mesmo que ele não tenha sintomas e venha a falecer de outras causas, é considerado paciente covid. Da mesma forma, existem situações em que o paciente é internado por covid mas os sintomas da doença não são graves, porém acabam agravando outras enfermidades. Mas a causa da morte não é por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave)”, explica Mônica Levi.

A médica afirma ainda que nenhuma vacina é capaz de proteger 100% contra internações e mortes. E que, em um cenário de significativa cobertura vacinal, como verificado no Brasil, é natural que haja casos entre vacinados.

“A gente viu uma proteção excelente, mas não tão intensa nos idosos, especialmente acima dos 70 anos, e nos imunodeprimidos. Mesmo tomando doses extras, os imunodeprimidos não respondem tão bem à vacinação. Então, obviamente, nós vamos encontrar pessoas vacinadas e que tiveram casos graves e óbitos. Além disso, quando você tem uma parcela muito elevada da população que foi vacinada, entre 80% e 90%, vai ser mais difícil encontrar alguém não vacinado entre os internados”, diz Mônica.

Em checagem recente, o projeto Comprova já demonstrou como uma publicação semelhante, mas com dados da Inglaterra, gerou o mesmo tipo de desinformação. Uma postagem feita no Telegram se baseou em um relatório do sistema de vigilância em saúde do Reino Unido que mostrava como pessoas com 1, 2 ou 3 doses da vacina representavam, em números absolutos, muito mais óbitos por covid-19 do que pessoas não vacinadas, desconsiderando a informação de quase 70% da população inglesa já havia recebido pelo menos uma dose da vacina.

O próprio relatório alertava que a análise desses dados brutos não era capaz de indicar a efetividade da vacina, e citava algumas explicações, entre elas, que:

-No contexto de uma cobertura vacinal muito alta na população, mesmo com uma vacina altamente eficaz, espera-se que uma grande proporção de casos, hospitalizações e mortes ocorram em indivíduos vacinados, simplesmente porque uma proporção maior da população é vacinada do que não vacinada e nenhuma vacina é 100% eficaz.

-Além disso, desde o início da vacinação, os imunizantes têm sido priorizados à população mais suscetível a desenvolver a forma grave da doença, como idosos e pessoas imunossuprimidas. Esses indivíduos, dos chamados grupos de risco, também correm maior risco de hospitalização ou morte devido a outras enfermidades não relacionadas à covid, e, portanto, podem ser hospitalizados ou morrer com a covid-19 ao invés de covid-19.”

-A situação vacinal dos casos, pacientes internados e mortes, não deve ser usada para avaliar a eficácia da vacina devido às diferenças de risco, comportamento e testes nas populações vacinadas e não vacinadas. As taxas de casos nas populações vacinadas e não vacinadas são taxas brutas que não levam em conta os vieses estatísticos subjacentes nos dados.

Outro ponto é que, quando o mesmo relatório mostrava taxas proporcionais (taxa/100 mil habitantes) entre a população vacinada e a não vacinada, esta segunda apresentava, em todas as faixas etárias, números maiores de hospitalizações e óbitos por covid-19.

Quem está imunizado?

Outro foco de desinformação a respeito da efetividade das vacinas tem relação com o critério usado para que pessoas sejam consideradas efetivamente vacinadas: se após tomar duas ou três doses dos imunizantes. Um post com esse teor feito pelo médico Alessandro Loiola , no aplicativo Gettr, e depois compartilhado no Telegram, fazia menção a uma suposta “manipulação” das estatísticas sobre vacinação no Brasil, que antes consideravam “vacinadas” as pessoas que tomaram duas doses, e hoje os “vacinados” seriam aqueles com as três doses dos imunizantes.

A médica Mônica Levi esclarece que, para efeito de estatísticas, o Ministério da Saúde considera como vacinados aqueles que tomaram duas doses/dose única ou mais do imunizante contra a covid-19; parcialmente vacinados os que tomaram uma dose, e não vacinados aqueles que não tomaram a primeira dose.

“No início da vacinação, as duas doses se mostraram muito eficazes. No entanto, no segundo semestre do ano passado, vários estudos no Brasil e no exterior mostraram que havia uma perda de imunidade a partir do quarto mês da segunda aplicação. Esse fator, aliado ao surgimento das variantes, levou à necessidade da aprovação da dose de reforço. Acredito que essa classificação precise mudar, pois, do ponto de vista médico, não se pode dizer que uma pessoa está protegida após seis, sete meses da segunda aplicação”.

No Brasil, a terceira dose da vacina já está sendo aplicada desde setembro de 2021. Inicialmente, essa dose de reforço foi direcionada para grupos de risco, como idosos com mais de 70 anos e pessoas com comorbidades, mas hoje é recomendada e está disponível para todos os brasileiros maiores de 18 anos. O prazo atual recomendado para imunização com a terceira dose é de no mínimo quatro meses após a data de aplicação da segunda dose.

O Comprova questionou o Ministério da Saúde para entender quais públicos são considerados “vacinados” e “não vacinados” ou com “esquema vacinal completo” e com “esquema vacinal incompleto”, mas não houve retorno até o fechamento desta checagem.

Nesta notícia do site do Ministério da Saúde, do dia 11 de março, é possível verificar uma diferenciação entre os que estão com esquema vacinal completo – os que teriam tomado as duas doses da vacina – e os que tomaram a dose de reforço. As informações aparecem no último parágrafo do texto:

“Atualmente, 91% da população acima de 12 anos tomou a primeira dose da vacina, 84,38% desse mesmo público completou o esquema vacinal e apenas 36,48% das pessoas acima de 18 anos – único público listado no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação (PNO) como alvo desta etapa – tomaram a dose de reforço”.

Na Nota Técnica Diferenciais de Cobertura Vacinal Segundo Grupos Etários no Brasil, divulgada pela Fiocruz nesta quarta-feira, 16, a diferenciação é a mesma: o que se depreende do trecho abaixo:

“Considerando o esquema atual de duas doses ou aplicação de dose única, o país tem 73,9% da população com esquema completo, e 32,9% da população que já recebeu a dose de reforço”.

Maior número de casos e mortes entre não vacinados

O Comprova buscou dados oficiais do Ministério da Saúde sobre casos graves e óbitos por covid-19 de acordo com a cobertura vacinal da população. Não foi possível localizar as informações nos canais oficiais da pasta. Os dados foram solicitados por e-mail, mas não houve resposta.

No boletim “Evolução temporal de casos e óbitos de SRAG por faixa etária”, do Observatório Covid-19 BR, da Fiocruz, há informações de acordo com o status vacinal da população. A fundação, no entanto, faz a ressalva de que os dados são preliminares, inconclusivos, e que o estudo precisa ser aprofundado.

Na tabela abaixo, por exemplo, é possível constatar maior proporção de casos de SRAG por covid-19 no país entre não vacinados do que entre os vacinados ao menos com a segunda dose. A incidência é avaliada a cada 100 mil habitantes.

 

Já em outro quadro, abaixo, há a relação de casos e óbitos de SRAG por covid-19 de acordo com a cobertura vacinal a 100 mil habitantes. São considerados dados do país e de São Paulo. Os números seguem a mesma tendência: maior ocorrência entre os não vacinados.

Quem são Osmar Terra e Alessandro Loiola

Em seu sexto mandato como deputado federal pelo Rio Grande do Sul, Osmar Terra é médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) especializado em saúde perinatal. Foi prefeito de Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, secretário de saúde do Rio Grande do Sul, ministro do Desenvolvimento Social e Agrário durante o governo de Michel Temer (MDB) e ministro da Cidadania do atual governo. Materiais divulgados por ele já foram checados pelo Comprova, como este em que usou dados incorretamente e neste quando compartilhou vídeos como sendo de um ex-ministro.

Nascido no Espírito Santo e formado pela Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, Alessandro Lemos Passos de Loiola tem registro como cirurgião geral, proctologista e coloproctologista nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Em novembro de 2019, foi nomeado como coordenador-geral de Empreendedorismo e Inovação, do Departamento de Empreendedorismo Cultural, da Secretaria de Economia Criativa. A nomeação foi assinada pelo então ministro do Turismo Marcelo Henrique Teixeira Dias e publicada no diário oficial dia 27 de novembro. Dois meses depois teve a exoneração publicada no Diário Oficial dia 24 de janeiro de 2020, dez dias após a demissão do ministro. Já teve conteúdos divulgados verificados pelo projeto Comprova como este em que fala das vacinas , ou neste que fala sobre as medidas protetivas.

 

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos com grande alcance nas redes sociais que tenham relação com a pandemia de covid-19, políticas públicas e as eleições presidenciais. A postagem confunde o leitor porque, além das informações serem apresentadas sem o devido contexto, dão a entender que as vacinas não seriam eficazes para o controle da pandemia.

Alcance da publicação: Até o dia 17 de março, o post do deputado federal Osmar Terra somava 5,3 mil interações no Twitter.

Outras checagens sobre o tema: Em verificações recentes, o Comprova já demonstrou que estudos sobre a eficácia das vacinas apontaram que a maioria dos infectados pela covid-19 são pessoas não vacinadas; que os benefícios da vacinação superam os riscos e que a vacinação é endossada por alguns dos principais órgãos e agências de saúde do mundo como principal forma de combate à covid-19.

Pandemia

Investigado por: 2022-03-15

Pfizer pagou FDA e Anvisa para inscrição em processo de análise, não para aprovação da vacina

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o tuíte que insinua que a Pfizer pagou pela aprovação da vacina contra a covid-19 para a Food and Drug Administration (FDA) e também para Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ambos órgãos cobram taxas a serem quitadas para análise técnica e clínica de produtos, mas o pagamento não interfere no resultado final.

Conteúdo verificado: Uma publicação feita no Twitter sugere que a Pfizer pagou para que a FDA aprovasse o imunizante da empresa contra a covid-19. O autor da postagem mostra um print screen de um documento que cita uma transferência de US$ 2,8 milhões feita pela empresa ao órgão americano. Também é sugerido que a farmacêutica pagou para que a Anvisa aprovasse o uso do imunizante no Brasil.

Onde foi publicado: Twitter

Conclusão do Comprova: É enganoso que a FDA e a Anvisa tenham recebido pagamento da Pfizer/BioNTech para aprovação da vacina contra a covid-19 nos Estados Unidos e no Brasil, conforme sugere um post no Twitter.

Diferente do que indica o autor da publicação, o documento mostrado não é uma prova de que a Pfizer pagou para a FDA aprovar o imunizante. O que o documento mostra na verdade é um pagamento feito pela empresa como taxa de usuário, valor cobrado para submeter o produto para análise. A publicação verificada mostra a frase incompleta, não apresentando o trecho que cita o motivo desse pagamento.

Ao Comprova, a FDA informou que o valor foi usado para financiar uma revisão independente dos dados clínicos da vacina ComiRNAty, produzida pela Pfizer/BioNTech. O órgão disse também que essa análise não interferiu na integridade científica e na segurança da população. Esse tipo de cobrança é amparada por uma lei federal americana, de outubro de 1992.

Já a Anvisa informou que cobra uma Taxa de Fiscalização de Vigilância Sanitária (TFVS) para a utilização de diferentes serviços da agência, inclusive para solicitar a aprovação de medicamentos. O pagamento, segundo o órgão, não interfere no resultado final da avaliação.

Também em nota, a Pfizer informou que tem a política global de não comentar documentos que circulam ou viralizam em redes sociais. A empresa argumentou que tanto Anvisa quanto FDA cobram taxas específicas para diferentes avaliações realizadas pelas agências.

No texto, a Pfizer destacou ainda que a aprovação de sua vacina por agências reguladoras internacionais e pela Anvisa ocorreu “por meio da análise robusta de documentos contendo informações técnicas dos estudos conduzidos”.

Para o Comprova, enganoso é todo o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor, confundindo o público, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

O que diz o autor da publicação: O autor da postagem é Frank César. No Twitter, ele se apresenta como CEO e editor-chefe de um site que publica conteúdo de apoio ao presidente da República, Jair Bolsonaro (PL). Procurado pelo Comprova, Frank disse que não se posicionará sobre a conclusão que a equipe chegou após a verificação do conteúdo.

Como verificamos: Por meio de pesquisas na internet, o documento foi encontrado no site do Public Health and Medical Professionals for Transparency Documents (PHMPT). A entidade reúne profissionais de saúde pública e cientistas para divulgar os dados em que a FDA se baseia para licenciar os imunizantes contra o coronavírus.

O grupo PHMPT fez um pedido de Lei de Acesso à Informação para obter informações sobre a autorização de uso da ComiRNAty em pessoas com mais de 16 anos nos Estados Unidos. As informações foram confirmadas pelo FDA em resposta ao Comprova.

O texto é descrito como a primeira parte da inscrição original à aprovação de licença biológica, que autoriza a utilização do imunizante na faixa etária determinada. O documento indica que foi enviado no dia 6 de maio de 2021. Meses depois, em 23 de agosto de 2021, a vacina da Pfizer/BioNTech foi a primeira a ser aprovada nos Estados Unidos pelo FDA, conforme foi divulgado no site do órgão.

Buscamos também a Anvisa e a Pfizer para esclarecer o processo de aprovação de medicamentos.

A equipe também tentou contato com o autor das publicações por meio das redes sociais, mas ele disse que não comentaria o caso.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 15 de março de 2021.

 

Pagamento à FDA

No fim da primeira página do documento, é demonstrado que a agência de regulação recebeu um pagamento de U$ 2.875.842,00 por parte da Pfizer no dia 5 de maio de 2021. O dinheiro foi destinado ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. No texto, é descrito que a quantia é para a aplicação da taxa de usuário. No conteúdo investigado, porém, a frase está pela metade e não mostra o trecho que cita o motivo do pagamento. O valor é superior a R$ 14 milhões, segundo a cotação de 14 de março de 2022.

Para o Comprova, a FDA certificou que o pagamento foi apresentado como uma taxa de usuário. Esse tipo de pagamento faz parte do “Prescription Drug User Fee Act (PDUFA)”, criado pelo Congresso dos Estados Unidos em 1992

O valor pago, segundo o órgão, financia a revisão independente dos dados da vacina. Isso “sem atrapalhar o compromisso da agência com a integridade científica, a saúde pública, as normas regulamentares, a segurança dos pacientes e a transparência”.

O texto autoriza que a FDA cobre taxas de empresas que produzem certos medicamentos e produtos biológicos. “Desde a aprovação, as taxas de uso têm desempenhado um papel importante na agilização do processo de aprovação de medicamentos”, informa o site da FDA.

O dinheiro, de acordo com a lei, deve ser usado para custear os recursos usados no processo de aprovação. Isso inclui o pagamento de funcionários e de consultores, a criação de comissões de análise e a aquisição de equipamentos de informática e científicos.

Os valores das taxas exibidos no site da FDA são:

A quantia paga pela Pfizer equivale à taxa de inscrição com dados clínicos obrigatórios em 2021. Um pedido de medicamento humano, em que não seja necessário apresentar dados clínicos sobre segurança ou eficácia para aprovação, custa metade desse montante. Os valores são relativos à data de envio do pedido e são os mesmos para todas as solicitações, independentemente de qual empresa se trata.

Aprovação de medicamentos pela Anvisa

A aprovação de medicamentos pela Anvisa passa por pelo menos três grandes áreas. Elas estão descritas na Lei nº 5.991/1973:

  • Gerência Geral de Medicamentos (avalia aspectos de segurança e eficácia),
  • Gerência Geral de Inspeção e Fiscalização Sanitária (avalia qualidade, certificação e linhas de produção do medicamento);
  • Gerência de Farmacovigilância (avalia o plano de monitoramento de possíveis efeitos adversos após a aprovação do remédio).

A partir da avaliação positiva dos aspectos obrigatórios, o registro do medicamento é aprovado pela Gerência Geral de Medicamentos. No caso dos medicamentos em Autorização de Uso Emergencial, a aprovação é feita pela Diretoria Colegiada da Anvisa.

A empresa cobra uma TFVS, valor pago para a utilização de qualquer serviço da agência. O valor varia de acordo com o porte da empresa e com o serviço solicitado. Esse pagamento é previsto pela lei 9.782/99.

Essa taxa é paga no momento em que o interessado faz uma petição à Anvisa, antes da análise. “A taxa é paga antes que o processo técnico se inicie e independentemente do resultado da análise, seja de aprovação ou negativa”, esclareceu o órgão ao Comprova.

O que diz a farmacêutica

Em nota, a Pfizer informou que tem política global de não comentar documentos que circulam ou viralizam em redes sociais. A empresa informou que, assim como todas as farmacêuticas, segue a Resolução nº 222/2006 da Anvisa, que determina o pagamento de taxas específicas para cada tipo de avaliação a ser realizada pela agência, como estudos clínicos, aprovação de medicamentos e vacinas, inspeção de fábricas, alterações em bula.

A Pfizer destacou que as taxas variam de US$ 3.514,32 a US$ 157.416,00, conforme determinação da agência. De acordo com a empresa, a FDA tem esse mesmo processo de pagamento de taxas, definidas pela agência regulatória americana e aplicada a todas as indústrias farmacêuticas dos Estados Unidos.

“A aprovação da vacina ComiRNAty pelas agências regulatórias internacionais e pela Anvisa aconteceu por meio da análise robusta de documentos contendo informações técnicas dos estudos conduzidos”, argumentou.

 

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos que viralizam na internet sobre a pandemia da covid-19, políticas públicas e as eleições presidenciais deste ano. O foco é analisar publicações virais, que tiveram grande alcance nas redes sociais e podem confundir a população.

O conteúdo verificado engana o leitor ao induzir que a aprovação da vacina contra a covid-19 depende de pagamentos aos órgãos de regulação sanitária, como a Anvisa e a FDA. Além disso, a publicação não indica o contexto do documento, permitindo uma interpretação equivocada.

Alcance da publicação: Até o dia 14 de março, a postagem tinha 3.290 curtidas, 1.270 compartilhamentos e 100 comentários.

Outras checagens sobre o tema: Em relação à pandemia, o Comprova verificou recentemente que post tira dados de contexto para sugerir que vacinados são mais vulneráveis à covid e que um estudo feito em Itajaí não prova eficácia de ivermectina contra covid-19.