O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Saúde

Investigado por: 2024-06-17

Post engana ao associar sintomas da covid longa às vacinas

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Enganoso
Post engana ao afirmar que existe exame clínico capaz de dizer se uma pessoa “está bem” após ser vacinada contra covid-19. A publicação usa uma fala em que um médico relaciona sintomas como fadiga e perda de memória ao imunizante. Órgãos internacionais de saúde, pesquisas e especialistas apontam que estas condições estão ligadas a consequências da doença e não do imunizante.

Conteúdo investigado: Publicação afirma que apenas um exame é capaz de comprovar que uma pessoa está bem de saúde após receber a vacina contra covid-19 e que este exame não é realizado no Brasil. O post é acompanhado pelo recorte de um vídeo no qual um médico afirma que imunizantes provocam uma “síndrome de inflamação crônica”, que levaria a sintomas como fadiga e problemas de memória. O vídeo é sobreposto pela frase “Quais são as sequelas severas das vacinas?”.

Onde foi publicado: X.

Conclusão do Comprova: Sintomas como perda de memória e fadiga são conhecidos no meio científico como consequências da covid-19, ou sintomas da chamada covid longa, covid crônica ou condições pós-covid. Até o momento, não há um exame clínico que possa diagnosticar essa condição. É enganoso, portanto, afirmar que estas reações estariam entre as características de uma doença supostamente provocada por vacinas contra o coronavírus, como faz o post investigado aqui.

O conteúdo se apoia em uma afirmação do médico infectologista Francisco Cardoso, conhecido por defender o “tratamento precoce” e a cloroquina no tratamento da covid-19, como mostra depoimento na CPI da Pandemia, em 2021. Em outras oportunidades (aqui e aqui), o Comprova se debruçou sobre declarações feitas por ele.

Cardoso abordou o assunto em entrevista ao podcast 3 Irmãos, no dia 22 de maio. Na oportunidade, o médico alegou que os imunizantes provocam “síndrome de inflamação crônica”. Ele também relacionou esta condição com a proteína spike, base de parte das vacinas contra a covid-19. Outros sintomas citados foram dificuldade de raciocínio, queda de cabelo e dificuldade para dormir.

Embora ainda esteja em investigação o fator que leva um paciente a ter covid longa, já é de amplo conhecimento científico que esta condição clínica afeta pessoas com histórico de infecção provável ou confirmada pelo vírus SARS CoV-2, que causa a covid-19. Esta condição foi classificada clinicamente pela primeira vez em 2021 pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Diferentes órgãos internacionais de saúde reconhecem que os sintomas citados no vídeo pelo médico são associados à covid-19 – isso inclui fadiga crônica, névoa mental, queda de cabelo, enfraquecimento das unhas, perda de olfato ou paladar entre outros – e apontam que a vacinação, em vez de provocar, ajuda a evitar as condições pós-covid. Entre os órgãos que apontam, com base em evidências científicas, que a covid longa é associada à covid-19, e não à vacina, estão a OMS, o European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC), os Centers for Disease Control and Prevention (CDC, dos Estados Unidos), o National Institutes of Health, também dos Estados Unidos, e o Ministério da Saúde do Brasil.

Além disso, especialistas consultados pelo Comprova reforçam que os sintomas mencionados no vídeo estão relacionados à condição pós-covid, demonstrando que a alegação feita na postagem é enganosa. Eles reiteram que a proteína spike, citada no vídeo como uma espécie de responsável pela inflamação, é uma partícula do vírus que estudos científicos indicaram como a melhor opção para ser usada na produção das vacinas. Ela é capaz de induzir o organismo de uma pessoa a produzir anticorpos contra a doença, mas é naturalmente eliminada poucos dias após a vacinação, como já mostrou o Comprova. Já o vírus, propriamente dito, tem muito mais proteína spike do que o imunizante.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 14 de junho, a publicação alcançou 251,7 mil visualizações.

Fontes que consultamos: A equipe consultou o vídeo completo da entrevista do médico no YouTube e fez pesquisa por publicações relacionadas ao pós-covid. Foram consultados estudos e protocolos internacionais para a covid longa da OMS, do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, do National Institutes of Health (NIH), também dos Estados Unidos, do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) e do Ministério da Saúde.

Também foram entrevistados o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, o infectologista Marcelo Daher, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o médico Celso Granato, especialista em Infectologia pela SBI e em Patologia Clínica pela Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML) e o farmacêutico-bioquímico Jorge Luiz Joaquim Terrão, diretor da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC).

Covid crônica é o mesmo que covid longa, e não existe “síndrome pós-spike” provocada pela vacina

No vídeo, Francisco Cardoso aponta alguns sintomas, como fadiga crônica, queda de cabelo, enfraquecimento das unhas e névoa mental como uma “síndrome de inflação crônica” que, segundo ele, seria o principal efeito dos imunizantes.

Ele afirma que o nome correto a se dar a essa doença seria “síndrome do pós-spike”, como se fosse uma consequência direta dos imunizantes, e não da covid-19. Não há evidência que possa sustentar essa afirmação. No mês de abril, o episódio 88 do podcast Fake News Não Pod, do Jornal da USP, abordou a alegação de que existiria uma “síndrome pós-spike” causada pelas vacinas. A cientista biomédica Beatriz Calasense disse que não existe a tal síndrome.

A proteína spike, mencionada em diversas alegações mentirosas sobre a vacina, está presente no Sars-COV-2, o vírus da covid-19, e é ela que permite a entrada do vírus no organismo, levando ao desenvolvimento da doença. Algumas vacinas usam material genético para produzir a spike dentro do organismo, mas ela serve apenas para ensinar o sistema imunológico a se defender do vírus. “Ela atua somente como mensageira para as nossas células imunológicas e logo depois é degradada”, afirma Beatriz Calasense.

Para especialistas ouvidos pelo Comprova, apenas apontar a proteína spike presente na vacina como causa da inflamação é controverso. O infectologista Marcelo Daher aponta, inclusive, que a covid-19 produz mais proteínas spike do que contém na vacina, já que se trata de uma parte do vírus. “E o vírus, quando entra no organismo, produz vírus completo e partículas virais, que a gente chama de vírus incompletos. E esses vírus incompletos têm proteína spike”, explicou o consultor da SBI. Renato Kfouri, da SBIm, aponta a mesma conclusão: “O vírus tem muito mais proteína spike do que qualquer vacina”, declarou.

Diferentemente do que aparece em alegações contrárias às vacinas, é de amplo conhecimento no meio científico que os sintomas citados por Francisco Cardoso são da covid longa, covid crônica ou condições pós-covid, associada à própria covid-19, e não às vacinas.

A OMS fez a primeira classificação clínica desse conjunto de sintomas ainda em 2021, quando descreveu que “a condição pós-covid-19 ocorre em indivíduos com histórico de infecção provável ou confirmada pelo SARS CoV-2, geralmente três meses após o início da covid-19 com sintomas que duram pelo menos dois meses e não podem ser explicados por um diagnóstico alternativo”. O assunto foi novamente discutido pela OMS em 6 de junho de 2024 em sessão do G20 em Salvador (BA).

Essa classificação foi feita após a realização de estudo, ainda em 2021, utilizando a metodologia Delphi, que consiste na discussão de um assunto complexo a partir de grupos de especialistas selecionados de forma anônima e estratégica, que devem ser selecionados em países diferentes, para se ter um panorama representativo.

Os especialistas levaram em conta definições de covid longa feitas por publicações e órgãos renomados, como as revistas Lancet, Nature e Scientific American, a Haute Autorité de Santé (França), e os Centers for Disease Control and Prevention, dos Estados Unidos. Nenhum deles menciona que as condições aparecem após a vacina, e sim após a infecção pelo Sars CoV-2, o vírus que causa a covid-19.

O National Institutes of Health, dos Estados Unidos, define a covid longa como “problemas de saúde que algumas pessoas enfrentam alguns meses após um diagnóstico de covid-19” e aponta que alguns podem ser iguais ou diferentes daqueles da covid, mas elenca a síndrome da fadiga crônica como um deles.

O Portal Europeu de Informações Sobre Vacinação, mantido pela União Europeia, e o European Centre for Disease Prevention and Control classificam a covid longa como “efeitos a longo prazo da infecção de Sars CoV-2” e cita entre os sintomas a perda de olfato ou paladar, cansaço, fraqueza geral, falta de ar e déficit cognitivo. Segundo a Anvisa, o termo “inflamação” é genérico e as próprias bulas das vacinas citam eventos adversos que podem ser considerados inflamação, desde os mais comuns, como dor no local, até os raros, como a miocardite. “É importante destacar ainda que a própria covid é uma doença que pode desencadear cenários de inflamação generalizada ou mesmo crônica”, diz o órgão brasileiro.

Segundo o NIH, que reúne pesquisas sobre a covid longa, ainda estão em curso os estudos para apontar com clareza o que causa as condições pós-covid, mas já existem algumas pistas: a reativação de partículas do vírus SARS CoV-2, que podem fazer com que os sintomas reapareçam; a liberação de altos níveis de substâncias inflamatórias por parte de células imunológicas hiperativas; e a produção de autoanticorpos que atacam os próprios órgãos e tecidos, desencadeada pela infecção.

O NIH aponta que a melhor maneira de se prevenir contra a covid longa é evitar pegar a covid-19, mantendo-se vacinado. Para aqueles que já estão com a covid, o órgão faz recomendações para tentar reduzir as chances de contrair a covid longa:

“Se você não estiver vacinado, a vacinação após a recuperação da covid-19 pode ajudar a prevenir a covid longa. A vacinação contra a covid-19 também pode reduzir a probabilidade de contrair a síndrome inflamatória multissistêmica (MIS-C) [uma complicação tardia grave da infecção por SARS CoV-2] em jovens de 12 a 18 anos”, diz uma página específica do órgão sobre o assunto.

Em nota, o Ministério da Saúde também apontou que estudos clínicos e de farmacovigilância, conduzidos por instituições e organizações de saúde respeitadas mundialmente, refutam a alegação de que a suposta “síndrome da inflamação crônica” esteja associada à vacinação. A pasta citou entidades como OMS, CDC, e a Anvisa entre os responsáveis por estas pesquisas.

Condições citadas no vídeo são associadas à covid, não às vacinas, dizem especialistas

Especialistas ouvidos pelo Comprova reforçam o que os órgãos internacionais e as pesquisas científicas já dizem: os sintomas citados no vídeo são associados à covid, não aos imunizantes. “Hoje, o termo mais aceito internacionalmente e adotado pelo próprio Ministério da Saúde chama-se ‘condições pós-covid’, porque a doença dá tudo isso. A doença dá uma fraqueza, dá fadiga crônica, dá essa névoa cerebral, perda de cabelo, queda das unhas. São mais de 200 sintomas relatados nessas condições pós-covid e que realmente têm assolado um número expressivo de pessoas, não só aqui no Brasil, mas em todo o mundo”, explica Renato Kfouri, vice-presidente da SBIm.

Ele diz que a fala feita durante o podcast tenta atribuir aos imunizantes uma série de sintomas que, na verdade, são causados pela covid-19. “Não há nenhuma evidência de que as vacinas possam trazer essas condições. Os eventos adversos relacionados às vacinas são muito bem conhecidos, já estão muito bem descritos. Há vários estudos demonstrando que as vacinas previnem as condições pós-covid, não causam condições pós-covid. Então é muito mais frequente condições pós-covid em não-vacinados do que em vacinados”, completa Kfouri.

O infectologista Marcelo Daher também nega que a covid crônica, longa, ou as condições pós-covid sejam causadas pela proteína spike presente na vacina, e concorda com Kfouri ao apontar que os sintomas citados no vídeo são provocados pela covid-19: “O que é bem caracterizado e bem documentado é a doença causando isso. Não tem trabalho mostrando a vacina causando isso”, afirma.

Inflamação celular é complexa e ainda não há teste específico para diagnosticar covid longa

No vídeo, Cardoso menciona a existência de “um exame americano que mede a proteína spike dentro do macrófago humano”, que seria capaz de mostrar a inflamação que ele alega ser causada por vacinas contra a covid-19. Este exame seria de análise de citoquina – ou citocina, termo mais usado no Brasil.

Diferentemente do que diz o médico, as análises de citocinas são feitas em laboratórios brasileiros, segundo o farmacêutico-bioquímico Jorge Terrão, diretor da SBAC, mas é preciso saber a quais delas Cardoso se referia, o que não fica claro no vídeo.

Além disso, o médico Celso Granato, especialista em infectologia e em patologia clínica e associado à SBPC/ML – entidade ligada à área de diagnóstico laboratorial – observa que citocinas e proteína spike são coisas diferentes, e que a fala do médico acaba confundindo as pessoas.

“Ele fala que tem um exame americano que chegou a fazer aqui [no Brasil] e que dosa a citocina, e que lá se encontra a spike. Isso é esquisito, porque para usar um produto de laboratório, tem que ter aprovação da Anvisa. Eu nunca soube de aprovação da Anvisa nesse sentido. Realmente desconheço esse exame”, disse Granato.

Procurada, a Anvisa disse que “não regulamenta protocolos ou procedimentos para exame e diagnóstico de pacientes”, o que cabe às sociedades médicas e científicas. A Anvisa atua na regulamentação dos produtos e dispositivos utilizados nos procedimentos. No entanto, a agência disse que precisaria de mais informações sobre os insumos e dispositivos para responder se eles existem ou não no Brasil.

Quanto à declaração de Cardoso sobre existir um exame nos Estados Unidos, o CDC, órgão oficial do país para controle de doenças, publicou no último dia 10 de junho que “atualmente, nenhum teste laboratorial pode ser usado para diagnosticar definitivamente a covid longa ou para distinguir a covid longa de condições com etiologias diferentes”.

Em setembro do ano passado, um estudo publicado na renomada revista científica Nature disse ter encontrado diferenças entre exames de sangue de pessoas com covid longa e outras sem as condições pós-covid, mas isso não significa que já existe um exame para diagnosticar essas condições, e sim que os resultados representam um passo importante para encontrar uma forma de diagnóstico. Outros estudos avaliam a possibilidade, mas ainda estão em fase de pré-print, ou seja, não foram revisados pelos pares.

SUS faz atendimento de pacientes com pós-covid

Durante a entrevista, Francisco Cardoso diz que não existe tratamento no SUS para o que ele chama de covid crônica. Em nota, o Ministério da Saúde informou que recomenda que a avaliação de pacientes com condições pós-covid sejam realizadas na Atenção Primária à Saúde (APS). De acordo com a pasta, em alguns casos, é recomendado o encaminhamento para os serviços multidisciplinares, de reabilitação e/ou atenção especializada, visando otimizar os recursos disponíveis na Rede de Atenção à Saúde (RAS) e potencializar a resolução de problemas mais complexos.

No texto, o ministério mencionou que, segundo dados do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (Sisab), entre março de 2022 e abril de 2024, foram realizados mais de 228 mil atendimentos a pessoas com condições pós-covid no âmbito do SUS. A pasta destacou que a organização dos cuidados em saúde no País é coordenada por estados e municípios, levando em consideração os protocolos e diretrizes do SUS e a rede de atenção disponível.

Para Renato Kfouri, da SBIm, ainda não há, de fato, algo a ser feito especificamente contra as condições pós-covid. “Não há nada a ser feito por enquanto, a não ser reabilitar essas condições crônicas e tratar os sintomas e as doenças que vierem a aparecer”, diz. Segundo ele, esse tratamento precisa ser multidisciplinar. Na nota, o Ministério da Saúde também citou a existência de equipes multiprofissionais nas APSs.

Kfouri explica que esta é uma das razões pelas quais a fala de Cardoso é perigosa: faz as pessoas atribuírem um conceito errado às suas condições de saúde e ainda acreditarem que há um tratamento diferente daquele que é feito para as condições pós-covid.

No vídeo, Cardoso ainda é questionado sobre a possibilidade de “tirar o efeito do imunizante do corpo” e o médico afirma que não existe detox de vacina (tratando das doses de forma geral e não de uma marca específica). Daher também argumenta que não existe medida como esta. Outras verificações publicadas pelo Comprova já abordaram o assunto, mostrando, por exemplo, que não há evidência que a proteína spike cause ferimentos nas pessoas imunizadas, nem que medicamentos poderiam eliminá-la do organismo.

Procurado pelo Comprova, Francisco Cardoso argumentou que sua fala foi editada e disse que não conhece o autor da publicação. A postagem traz recorte de 6 minutos e 45 segundos da participação do médico no podcast, que teve duração de mais de uma hora e meia. Apesar do recorte, a fala do médico não foi editada e ele realmente associou os sintomas da covid longa à vacina. O médico alegou ainda que fez declarações sobre sintomas de pós-covid, que ocorrem, segundo ele, após a infecção pelo vírus ou exposição à proteína spike. Cardoso disse que existe “farta evidência científica” sobre a síndrome, mas não indicou suas fontes.

O perfil responsável por compartilhar trecho da entrevista no X não permite o envio de mensagens diretas e, por isso, não foi possível entrar em contato.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Desde 2020, quando os primeiros casos de covid-19 foram diagnosticados no Brasil, o assunto é alvo de desinformação no País. No último mês, o Comprova mostrou, por exemplo, que é enganoso afirmar que miocardite e pericardite ocorrem apenas em pessoas vacinadas e que postagens exageram peso de declaração da Astrazeneca, já que o efeito adverso de vacina já era conhecido.

Saúde

Investigado por: 2024-06-12

Post engana ao dizer que Fauci teria afirmado ser um dos criadores da covid-19 e deletado e-mails sobre origem do vírus

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Enganoso
Post engana ao afirmar que o médico Anthony Fauci, principal conselheiro da Casa Branca durante a pandemia, teria ocultado que o vírus da covid-19 foi desenvolvido por cientistas dos Estados Unidos usando um laboratório na China. Acusações tiram de contexto mensagens de Fauci divulgadas em 2021.

Conteúdo investigado: Post afirma que Anthony Fauci “foi novamente exposto” no Senado norte-americano. “A covid-19 foi oficialmente desmascarada como um projeto do governo dos Estados Unidos. Um vírus desenvolvido por cientistas norte-americanos usando um laboratório biológico na China”, escreve o autor do conteúdo, que acompanha vídeo do congressista Ronny Jackson fazendo críticas a Fauci. No início do vídeo, a legenda sobre a imagem de Fauci sugere que ele teria dito: “Nós criamos a covid e deletamos todos os documentos de sua origem”.

Onde foi publicado: X.

Conclusão do Comprova: É enganoso o post segundo o qual o infectologista Anthony Fauci, conselheiro principal de saúde na Casa Branca durante a pandemia, teria confessado participação na criação do vírus da covid-19 e deletado documentos sobre a origem do novo coronavírus. A publicação usa as declarações do deputado norte-americano Ronny Jackson durante audiência com o médico promovida pelo Subcomitê sobre a Pandemia do Coronavírus em 3 de junho. O grupo avalia a atuação do governo frente à pandemia e tem feito audiências para investigar a origem do vírus.

Após acusar Fauci de “falhar miseravelmente” em sua atuação frente à pandemia, Jackson, do Partido Republicano, diz que o ex-diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas (Niaid, na sigla em inglês), ligado ao Instituto Nacional de Saúde norte-americano (NIH), teria muito a perder “se o povo americano descobrisse que a covid-19 provavelmente vazou de um laboratório em Wuhan, na China”. Como o Comprova mostrou, ainda não há evidência científica de que o vírus tenha sido criado no local e sua origem ainda está sendo pesquisada.

O deputado também acusou Fauci de ter financiado, por meio do NIH, pesquisas de “ganho de função” conduzidas de forma imprudente no laboratório. Pesquisas de ganho de função envolvem modificações genéticas em um vírus para avaliar se estas tornam o patógeno mais mortal ou contagioso. Fauci declarou, em 2021, que o NIH nunca financiou pesquisas de ganho de função no Instituto de Virologia de Wuhan.

Uma das acusações feitas contra Fauci se baseia em troca de mensagens entre o imunologista e Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, ONG com sede nos Estados Unidos que desenvolve programas de pesquisa relacionados à saúde. O post enganoso distorce o conteúdo dos emails ao afirmar que Daszak teria agradecido Fauci por “esconder que o vírus veio de laboratório“. O email de Daszak elogiava uma declaração pública dada pelo então diretor da Niaid em que ele rejeitou a teoria do vazamento, sem qualquer menção sobre esconder a verdade. O Comprova já fez uma verificação sobre o assunto.

Os emails de Fauci foram divulgados em 2021, após um pedido via Lei de Liberdade de Informação (FOIA, na sigla em inglês) feito por veículos de imprensa. Mas o post investigado aqui desinforma ao dizer que ele teria deletado emails sobre a origem do coronavírus. Um funcionário do NIH incentivou colegas a usar seus emails pessoais como uma maneira de proteger Fauci, mas não há evidências de que a sugestão tenha vindo do médico ou de que ele tenha deletado emails.

Contatado pelo Comprova, o autor do post, BielConn, que se descreve no X como “especialista em desmascarar fraudes que até ‘ontem’ eram teorias da conspiração”, afirmou ter traduzido o que Ronny Jackson disse. Sua página no X saiu do ar após o contato da reportagem.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. O post foi visualizado ao menos 432 mil vezes até o perfil ser retirado do ar.

Fontes que consultamos: Buscamos primeiramente entender de que se tratava a audiência por meio de notícias e canais oficiais da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. Também pesquisamos por notícias da época, onde pudemos encontrar, na íntegra, os emails de Fauci divulgados em 2021.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já checou conteúdos que acusam Anthony Fauci de afirmar que o novo coronavírus aparenta ser fruto de engenharia genética e que máscaras são inúteis e que alegam que emails do imunologista revelam que o Sars-CoV-2 foi criado em laboratório. Também mostrou ser enganoso que Fauci e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) estariam dizendo que “as vacinas não protegem”.

Saúde

Investigado por: 2024-06-10

É enganoso afirmar que miocardite e pericardite ocorrem apenas em pessoas vacinadas contra a covid

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Enganoso
Estudo preprint, não revisado por pares, não permite afirmar, de forma ampla, que miocardite e pericardite ocorrem apenas em pessoas vacinadas contra a covid, como afirma um post. Há literatura científica publicada que sugere o contrário. De acordo com esses estudos, revisados por pares, a probabilidade de miocardite como consequência da infecção pelo coronavírus chega a ser sete vezes maior do que em pessoas imunizadas. Autores do estudo preprint afirmam que suas conclusões foram distorcidas pela postagem aqui investigada.

Conteúdo investigado: Postagem com link de artigo publicado pelo site Médicos Pela Vida com o título “Miocardite e pericardite ocorrem apenas em vacinados, revela estudo”. O texto afirma que casos de miocardite e pericardite foram registrados somente em grupos de crianças e adolescentes vacinados contra covid-19 e que o Ministério da Saúde desinforma ao dizer que quem recebeu os imunizantes contra o coronavírus tem menos chances de desenvolver miocardite do que pessoas não vacinadas.

Onde foi publicado: X.

Conclusão do Comprova: O grupo Médicos Pela Vida, associação criada na pandemia que defende “tratamento precoce” e medicamentos como a hidroxicloroquina contra a covid-19, se baseia em um estudo não revisado por pares para afirmar que “miocardite e pericardite ocorrem apenas em vacinados”. Um post no X publicado no perfil deles sugere uma conclusão abrangente que não condiz com a literatura científica publicada até o momento sobre o tema.

A afirmação enganosa destaca uma frase do estudo, que diz que “entre adolescentes e crianças, miocardite e pericardite foram documentadas apenas nos grupos vacinados”. O estudo em questão, que analisou dados de mais de um milhão de crianças e adolescentes, observou que essas ocorrências foram muito raras.

Ao Comprova, Edward Parker e William J. Hulme, dois pesquisadores envolvidos no estudo, afirmaram que suas conclusões foram distorcidas pelo Médicos Pela Vida. Parker acrescentou que não foi estabelecida relação de causalidade entre as enfermidades e as vacinas.

Além disso, o estudo é um preprint, ou seja, não foi revisado por pares, processo exigido para validação e posterior publicação em revista científica de referência.

O texto também engana ao afirmar que o Ministério da Saúde espalha desinformação ao dizer que “quem se vacinou contra covid-19 tem menos chance de desenvolver miocardite”. A declaração do órgão tem respaldo em, pelo menos, dois estudos revisados por pares. Um deles foi publicado pela editora Frontiers e mostra que o risco de miocardite é mais de sete vezes maior em pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 do que naquelas que receberam a vacina. Foram analisados dados de 58 milhões de pessoas.

Outro estudo publicado pela revista Circulation, da Associação Americana do Coração, mostrou que o risco de miocardite é maior após infecção por SARS-CoV-2 em indivíduos não vacinados do que após a vacinação. Neste, foram observados 43 milhões de casos.

Ao Comprova, o autor do post investigado reforçou os argumentos defendidos no artigo publicado no site Médicos Pela Vida e a crítica ao Ministério da Saúde.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 7 de junho, o post tinha 87,7 mil visualizações, 4 mil curtidas, 2 mil compartilhamentos e 117 comentários.

Fontes que consultamos: Estudos científicos revisados por pares, os autores do preprint, o virologista Flávio Fonseca, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o estudo mencionado pelo Médicos Pela Vida e checagens anteriores do Comprova sobre o tema. Fonseca indicou os estudos apresentados nesta verificação.

Casos são raros, como o próprio preprint destaca

Casos de miocardite e pericardite como efeito adverso pós-vacinação com imunizantes de mRNA são conhecidos e raros. A informação consta na bula da vacina Pfizer-BioNTech (BNT162b2), também chamada Comirnaty, que foi aplicada no grupo de mais de um milhão de pessoas observadas no estudo a que o Médicos Pela Vida se refere. Segundo a bula, casos muito raros de miocardite e pericardite foram relatados após a vacinação. A proporção em pessoas acima de 5 anos de idade é de menos de 1 caso a cada 10 mil doses aplicadas.

“Geralmente os casos são leves e os indivíduos tendem a se recuperar dentro de um curto período de tempo após o tratamento padrão e repouso”, diz a bula do medicamento.

O próprio estudo destaca que, no universo analisado, os casos de miocardite e pericardite foram raros, sem registro de mortes. “Embora raros, todos os eventos de miocardite e pericardite durante o período do estudo ocorreram em indivíduos vacinados: não houve mortes após miocardite ou pericardite”, diz trecho do estudo, na seção “Discussão”. Mais acima, é relatada a proporção de 27 e 10 casos por milhão de miocardite e pericardite, respectivamente.

O estudo é um preprint, ou seja, não foi revisado por pares e, portanto, como consta na publicação, não deve ser usado para orientar a prática clínica. Além disso, ele não tem o objetivo de analisar ocorrência de miocardite em infectados por covid-19 versus vacinados, mas sim a efetividade da vacinação em crianças e adolescentes. “A observação de miocardites é apenas um achado exploratório”, diz o virologista Flávio Fonseca.

Autores do estudo dizem que conclusões foram distorcidas

Ao Comprova, dois pesquisadores envolvidos no preprint citado como referência no texto do Médicos Pela Vida afirmam que as alegações apresentadas são interpretações errôneas do que o estudo avaliou.

“O número pequeno de casos de miocardite/pericardite ocorreu em indivíduos vacinados. No entanto, avaliar a causalidade é muito desafiador, pois existem outras explicações possíveis para o registro desses casos. Por exemplo, as vacinações em nosso estudo ocorreram após a miocardite e a pericardite terem sido discutidas na mídia, então essa maior conscientização pode ter causado diferentes padrões de comportamento de busca por saúde e diagnóstico após a vacinação”, afirma Edward Parker, professor assistente na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (LSHTM).

Ele reforça que a pericardite e miocardite foram muito raras tanto em crianças quanto em adolescentes no estudo. “Também vale mencionar que entre os adolescentes em nosso estudo, a vacinação foi associada a uma redução nas internações e hospitalizações por covid, apoiando os efeitos protetores da vacinação como um todo”, destaca.

Já William J. Hulme, da Divisão de Ciências Médicas da Universidade de Oxford, explica que não é possível dizer, a partir do estudo, que o risco de miocardite pós-vacinação é maior em comparação com o risco de miocardite após a infecção pelo coronavírus.

“A nossa é uma análise observacional, e sempre há a possibilidade de confundimento não mensurado e outros vieses. No entanto, nós nos propusemos a responder à pergunta ‘a vacinação em crianças reduz a ocorrência de eventos relacionados à covid, e ela aumenta a ocorrência de certos eventos adversos?’”.

“Embora não tenhamos identificado nenhum caso de miocardite ou pericardite no grupo não vacinado, isso não significa que nenhum ocorreu em todas as crianças não vacinadas, pois incluímos apenas crianças não vacinadas que foram pareadas com crianças vacinadas em nossa análise”, avalia.

Miocardite: incidência em infectados por covid-19 é sete vezes maior do que em vacinados

Ao contrário do que afirma o Médicos Pela Vida, estudos revisados por pares e publicados em revistas científicas mostram que a probabilidade de uma pessoa sofrer miocardite como resultado de infecção por covid-19 é muito maior do que como evento adverso pós-vacinação – como afirma o tuíte do Ministério da Saúde enganosamente chamado de “desinformação” pelo Médicos Pela Vida.

O estudo Myocarditis in SARS-CoV-2 infection vs. COVID-19 vaccination: A systematic review and meta-analysis, publicado pela editora científica Frontiers, mostra que o risco de miocardite é mais de sete vezes maior em pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 do que naquelas que receberam a vacina. “Estes achados apoiam a continuidade do uso das vacinas de mRNA contra a COVID-19 entre todas as pessoas elegíveis conforme as recomendações do CDC e da OMS”, conclui o estudo.

Os autores conduziram uma revisão sistemática de 22 estudos publicados em diferentes países, com um total de 58 milhões de participantes. O estudo foi repercutido no site da Universidade da Pensilvânia.

Publicado no jornal Circulation, da Associação Americana do Coração (American Heart Association), o estudo Risk of Myocarditis After Sequential Doses of COVID-19 Vaccine and SARS-CoV-2 Infection by Age and Sex analisou dados de 43 milhões de pessoas na Inglaterra e mostrou que “o risco de miocardite é substancialmente maior após infecção por SARS-CoV-2 em indivíduos não vacinados do que o risco observado após uma primeira dose da vacina ChAdOx1nCoV-19, e uma primeira, segunda ou dose de reforço da vacina BNT162b2”. O estudo é citado no tuíte do Ministério da Saúde.

Em outro estudo (One-Year Risk of Myocarditis After COVID-19 Infection: A Systematic Review and Meta-analysis), que analisou casos de mais de 20 milhões de pessoas, constam os seguintes dados: miocardite ocorreu em cerca de 0,2 a cada 1000 pacientes que tiveram e sobreviveram à infecção por covid-19. Ou seja, 200 casos por milhão. Já a miocardite como complicação rara das vacinações de mRNA tem uma incidência estimada de cerca de 12,6 casos por milhão de aplicações da segunda dose da vacina de mRNA.

Portanto, a incidência da miocardite em vacinados é mais de 10 vezes menor do que em pessoas infectadas por covid-19.

Miocardite como consequências da covid

Já o estudo Understanding COVID-19-related myocarditis mostra como a infecção por covid-19 pode provocar miocardite, uma inflamação do miocárdio, músculo cardíaco que reveste o coração. Segundo a publicação, a causa mais comum de miocardite são as infecções por vírus, sendo o SARS-CoV-2 um deles. “Assim como outros tipos de vírus, o SARS-CoV-2 pode causar miocardite após infectar o tecido miocárdico, o que é atribuído ao dano direto do vírus e às reações inflamatórias descontroladas”, explica o estudo.

Para o virologista Flávio Fonseca, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o argumento analisado nesta checagem não se sustenta diante das evidências científicas já publicadas:

“O argumento forte é o do Ministério da Saúde, que se baseia numa série de estudos publicados em revistas importantes como a Frontiers, que indicam que o risco de miocardite em pessoas que se infectam com o vírus é maior do que o risco em pessoas vacinadas, independente dessas pessoas vacinadas terem ou não covid-19 no futuro”, diz Fonseca. “O Ministério está correto em sua afirmação, enquanto o grupo de médicos (Médicos Pela Vida) pinçou uma frase solta dentro de um artigo não revisado por pares para embasar seu argumento. O argumento forte continua sendo o do Ministério, enquanto que o do grupo de médicos é fraco e facilmente derrubável, digamos assim”.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: As vacinas contra a covid-19 são alvo frequente de peças de desinformação. O Comprova já mostrou que a proteção oferecida por elas supera o risco de miocardite em crianças, que não é necessário detox de proteína dos imunizantes e que é enganosa a montagem em que uma deputada associa miocardite de jogador à vacinação. Também mostrou que é falsa a alegação de que a OMS teria admitido que bebês de mães vacinadas estariam nascendo com problemas no coração.

Contextualizando

Investigado por: 2024-05-07

Postagens exageram peso de declaração da Astrazeneca em processo; efeito adverso de vacina já era conhecido

  • Contextualizando
Contextualizando
A Astrazeneca declarou em tribunal no Reino Unido que a Síndrome de Trombose com Trombocitopenia (STT) pode ser um dos efeitos raros do imunizante contra covid-19, segundo reportagem do jornal The Telegraph publicada na última semana. A publicação tem gerado reações de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Uma postagem do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-mandatário, afirma que o pai “sempre esteve certo” nas críticas às vacinas. O risco, no entanto, já era conhecido, pois está presente na bula desde 2021.

Conteúdo analisado: Postagens afirmam que Bolsonaro estava certo ao duvidar das vacinas contra covid-19 e relacioná-las a casos de embolia e trombose após a Astrazeneca ter admitido que o imunizante pode ocasionar Síndrome de Trombose com Trombocitopenia (STT) em casos raros.

Contextualizando: Uma declaração da farmacêutica Astrazeneca gerou uma série de reações de grupos que questionam a segurança do imunizante contra a covid-19 produzido pela companhia. Em documentos judiciais, a empresa afirma que a vacina produzida em parceria com a Universidade de Oxford pode causar Síndrome de Trombose com Trombocitopenia (STT), com incidência rara, afetando uma a cada 100 mil pessoas vacinadas. A farmacêutica é alvo de uma ação coletiva no Reino Unido que alega que o imunizante causou ferimentos graves e até a morte de dezenas de pessoas no país.

A afirmação, revelada pelo The Telegraph, foi feita pela defesa da farmacêutica na Suprema Corte britânica em resposta ao processo movido pela família de Jamie Scott, homem que ficou com lesão cerebral permanente ao ter uma hemorragia um dia após tomar a vacina. A família de Scott acredita que a lesão foi causada pelo imunizante.

A Astrazeneca defende que os casos passem por uma perícia. “Admite-se que a vacina AZ pode, em casos muito raros, causar STT. O mecanismo causal não é conhecido. Além disso, a STT também pode ocorrer na ausência da vacina AZ (ou de qualquer imunizante).”. Em 2023, a empresa declarou que não acredita “que a STT seja causada pela vacina a nível generalizado”.

Diferentemente do que sugerem Eduardo Bolsonaro e outros perfis que postaram o conteúdo, a incidência de casos raros de coágulos em imunizados não é um segredo. A informação está disponível na bula da vacina desde 23 de abril de 2021, o que pode ser conferido no histórico de bulas do site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A vacina da Astrazeneca teve o uso emergencial aprovado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em fevereiro de 2021. No Brasil, ela foi produzida pela Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) e aprovada pela Anvisa no mesmo mês.

Também diferentemente do que afirmam o deputado federal e outras pessoas em redes sociais, a notícia publicada pelo jornal britânico não indica que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estava certo ao criticar as vacinas como forma de combater a pandemia de covid-19.

Em março de 2021, a aplicação do imunizante da Astrazeneca chegou a ser suspensa em países da União Europeia após a ocorrência de casos de coágulos sanguíneos atribuídos à vacina. Após uma análise, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concluiu que a formação de coágulos é efeito muito raro, que pode acontecer em uma a cada 100 mil pessoas vacinadas, e que reações ao imunizante são geralmente leves e passam em poucos dias.

Diante disso, a agência declarou que os benefícios da vacina Astrazeneca na prevenção da covid superam os riscos de efeitos secundários. A base desta conclusão é o fato de que a imensa maioria dos efeitos adversos das vacinas são leves e moderados, enquanto os efeitos graves são muito raros. No caso da covid-19, a chance de a doença matar os não vacinados era significativamente maior do que a chance de a doença levar a óbito uma pessoa com o esquema vacinal completo. Por isso, inúmeras agências de saúde e especialistas afirmam que os benefícios da vacinação superam seus riscos.

Em nota enviada ao Comprova, a FioCruz afirmou que a vacina da Astrazeneca foi considerada segura e eficaz tanto pelo Ministério da Saúde como pela Anvisa e que ela segue recomendada pela OMS para pessoas acima de 18 anos “uma vez que seus possíveis efeitos adversos graves, como a Síndrome de Trombose com Trombocitopenia, são extremamente raros”.

Fontes consultadas: Buscamos por informações sobre o caso na Justiça para entender as denúncias contra a farmacêutica. Em seguida, procuramos a bula do imunizante e os selos de aprovação dos órgãos competentes, que atestam a segurança da vacina. Pesquisas sobre notícias na época mostraram ainda que a agência europeia recomenda o uso da vacina da Astrazeneca.

Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já mostrou ser enganoso que pesquisadores descobriram relação entre vacina e covid longa e que o Brasil tenha comprado imunizantes banidos em outros países. Também é falso que estudo de Cambridge comprove que pessoas vacinadas contra o novo coronavírus adquiriram Aids e que a Suprema Corte dos EUA decidiu que as vacinas contra a covid-19 “não são vacinas”.

Saúde

Investigado por: 2024-05-06

Moderna não admitiu que DNA residual em vacinas pode levar a câncer

  • Enganoso
Enganoso
Não é verdade que a farmacêutica Moderna tenha admitido que o DNA residual em suas vacinas de RNA mensageiro (mRNA), como a contra a covid-19, possa causar câncer nos imunizados. Ao Comprova, a empresa afirmou que o DNA residual é uma impureza relacionada ao processo de fabricação que não afeta a segurança e a eficácia do produto. O Federal Drug Administration (FDA), agência reguladora do governo dos EUA, também nega que as vacinas de mRNA causem câncer.

Conteúdo investigado: Post afirma que a farmacêutica Moderna admitiu que as vacinas contra a covid-19 estão contaminadas por DNA e, portanto, podem causar defeitos congênitos e câncer. Em um vídeo compartilhado junto à alegação, o médico norte-americano Robert Malone, conhecido por desinformar sobre as vacinas, diz o mesmo, acrescentando que a contaminação poderá causar qualquer doença que esteja associada com danos ao DNA.

Onde foi publicado: X.

Conclusão do Comprova: Post viral engana ao afirmar que a farmacêutica Moderna tenha admitido que sua vacina contra a covid-19 possa levar a pessoa imunizada a desenvolver câncer por conta de resíduos de DNA no produto. De fato, há DNA residual em vacinas de mRNA, como a da Moderna, mas isso não interfere na segurança.

“Nossa vacina contra a covid-19 foi submetida a extensos testes clínicos e não clínicos para demonstrar sua eficácia, qualidade e segurança”, afirmou a farmacêutica ao Comprova. A empresa explicou que “o DNA residual é uma impureza relacionada ao processo de fabricação” que não afeta o produto final. Também disse que seus processos seguem padrões estabelecidos extensivamente e revistos por órgãos reguladores.

Conclusão semelhante tem o Food and Drug Administration (FDA), órgão norte-americano de vigilância sanitária. Em documento de 2023 sobre DNA residual em vacinas de mRNA, a agência afirma que “não há nada que indique danos ao genoma, como o aumento das taxas de câncer” e garante a segurança e eficácia de todos os imunizantes aprovados nos Estados Unidos (o da Moderna é um deles).

No Brasil, duas vacinas contra a covid produzidas pela farmacêutica são registradas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Spikevax bivalente e a Spikevax monovalente. A última teve o registro concedido em março e está atualizada para proteger contra a variante Kraken. Nesta semana, as primeiras doses do imunizante chegaram ao Brasil como parte de um contrato assinado no mês passado para a aquisição de 12,5 milhões de doses.

O post usa trecho de fala do médico Robert Malone, conhecido por desinformar sobre vacinas. O mesmo vídeo foi utilizado em outra publicação enganosa verificada pela Comprova nesta semana, também atacando, sem evidências, a vacina da Moderna.

O Comprova tentou falar com o autor do conteúdo, mas o perfil no X não recebe mensagens. Não foram identificados perfis semelhantes em outras redes sociais.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. O post aqui checado teve 97,9 mil visualizações até 6 de maio, além de ser compartilhado mil vezes e somar duas mil curtidas.

Fontes que consultamos: Procuramos a farmacêutica citada no post e consultamos a FDA e informações sobre a audiência em que a fala do médico foi gravada. Também localizamos outras checagens sobre o assunto e tentamos contato com o autor do post.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: A alegação aqui verificada também foi alvo de checagens fora do Brasil e desmentida por USA Today e Lead Stories. O Comprova já checou anteriormente ser falso que vacina contra covid-19 cause danos irreversíveis ao DNA e demonstrou que os imunizantes não provocam câncer.

Saúde

Investigado por: 2024-05-02

É enganoso que Brasil tenha comprado vacina contra a covid banida em outros países

  • Enganoso
Enganoso
Não é verdade que o Brasil comprou vacinas que foram banidas em diversos países, diferentemente do que afirma post. As primeiras doses vendidas pelo laboratório Moderna foram realocadas para diferentes públicos ao longo das campanhas, mas nunca excluídas das ações. A versão atual do imunizante é aprovada pela Anvisa e recomendada pela OMS.

Conteúdo investigado: Mensagens no X e no Telegram sobre a compra pelo governo brasileiro de mais de 12 milhões de doses da vacina contra a covid-19 da Moderna. Post afirma que “inúmeros países” já baniram o imunizante “devido a graves problemas”.

Onde foi publicado: X e Telegram.

Conclusão do Comprova: Post engana ao afirmar que o Brasil acaba de comprar uma vacina contra a covid-19 banida em inúmeros países. O governo federal anunciou a aquisição de 12,5 milhões de doses da farmacêutica Moderna em 19 de abril. Segundo o Ministério da Saúde, o lote faz parte dos imunizantes mais atualizados contra a doença, aprovado pela Anvisa e recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O imunizante que o responsável pelo post se refere é a versão original (bivalente), que teve o público-alvo alterado em alguns países por causa de efeitos adversos. No entanto, a vacina Moderna não foi banida.

Como o próprio post mostra, na Suécia, por exemplo, o governo suspendeu a vacina para menores de 30 anos em outubro de 2021. Mas, o que o post não informa é que órgãos de saúde do país voltaram a oferecer o imunizante em outubro de 2022, com novas diretrizes para crianças acima de seis anos.

Outro exemplo de país que teria banido a vacina, segundo o post, foi o Japão, mas isso não ocorreu. Em agosto de 2021, o governo suspendeu o uso de 1,63 milhão de doses após “relatos de contaminantes em alguns frascos”. Diferentemente do que o post sugere, não foi identificado nenhum problema de segurança ou eficácia e a suspensão foi apenas uma precaução, segundo autoridades japonesas e a Moderna.

Como reações adversas graves, a bula da versão atual da vacina cita casos de miocardite e pericardite, condições que afetam o coração. Ainda assim, o risco de desenvolvimento dessas doenças, segundo a farmacêutica, é muito raro e ocorre em menos de 0,01% dos pacientes que utilizam o medicamento. A maioria se recuperou, mas há casos fatais, segundo o laboratório. As reações mais comuns são inchaço, dor de cabeça, dores musculares, náuseas e diarreia.

A publicação também traz um vídeo traduzido do inglês em que o médico Robert Malone fala sobre riscos da vacina da Moderna a congressistas norte-americanos. A sessão foi gravada em Washington em 2023 e divulgada pela republicana Marjorie Taylor Green, publicamente anti-vacina e que já teve o perfil do X derrubado por compartilhar desinformação sobre a covid-19. Malone também é conhecido por difundir informações falsas sobre vacina e já foi desmentido diversas vezes.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. No X, a publicação teve, até 30 de abril, mais de 118,8 mil visualizações e, no Telegram, 4 mil.

Fontes que consultamos: Links dos sites New York Post, BMJ e The Straits Times, citados pelo autor, do Ministério da Saúde e da OMS.

Moderna diz que vacina está atualizada

Um dos argumentos do post que tenta descredibilizar a vacina é o de que a dose atual produzida pela Moderna não protege os humanos da variante do coronavírus em circulação, o que não é verdade. A publicação compartilha outro post de um médico infectologista alegando que o imunizante não combate a linhagem JN.1, descendente da XBB e que vem aumentando de forma exponencial entre os infectados.

Em dezembro de 2023, a OMS publicou uma diretriz sobre qual deveria ser a composição dos imunizantes para acompanhar a evolução do vírus. Na nota, a organização manteve a recomendação de usar como antígeno vacinal uma linhagem descendente da variante XBB.1, como a XBB.1.5. A orientação já vinha sendo aplicada pelos laboratórios desde maio do ano passado. Segundo a OMS, pesquisas indicam que vacinas com essa composição tiveram resultados positivos na neutralização da JN.1. A entidade pondera que os dados ainda são limitados.

Ao divulgar informações sobre o acordo fechado com o governo brasileiro, a Moderna esclareceu, em nota oficial, que a farmacêutica “gerou dados pré-clínicos e clínicos de sua vacina candidata monovalente XBB.1.5 mostrando uma resposta imunológica contra sub-linhagens XBB e cepas atualmente circulantes do vírus SARS-CoV-2, incluindo JN.1”. Ou seja, o imunizante apresentou benefícios no combate à variante em circulação.

Em um texto publicado no site do Ministério da Saúde, o médico infectologista e doutor em Epidemiologia Sérgio de Andrade Nishioka explicou que todas as vacinas usadas atualmente protegem contra formas graves da covid-19, independentemente da linhagem. “Novas variantes como JN.1, porém, são mais transmissíveis que as variantes anteriormente mais prevalentes, e podem infectar e causar doença em pessoas previamente imunizadas pela vacina e/ou infecção anterior.” Todas as vacinas aprovadas pela Anvisa apresentaram resultados eficazes e de segurança; essa é a principal estratégia de prevenção.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Diversas publicações com informações falsas sobre vacinas foram checadas pelo Comprova, incluindo a de que um estudo de Cambridge comprovou que pessoas vacinadas contra a covid-19 adquiriram Aids e que o imunizante cause danos irreversíveis ao DNA.

Saúde

Investigado por: 2024-04-23

Não é necessário detox de proteína da vacina contra a covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Não há evidência que a proteína spike, produzida no corpo humano a partir de vacinas contra covid-19, cause ferimentos nas pessoas imunizadas, nem que medicamentos poderiam eliminá-la do organismo, como alega um post no X. Especialistas consultados pelo Comprova explicaram que a proteína é naturalmente eliminada poucos dias após a vacinação, e alertaram que a automedicação com as substâncias indicadas pode trazer prejuízos. Há uma ação disciplinar do Conselho Americano de Medicina Interna (Abim, na sigla em inglês) contra o médico que recomenda a conduta.

Conteúdo investigado: Publicação traduzida do inglês traz lista de substâncias indicadas pelo médico Peter McCullough para “desintoxicação” da proteína S presente na vacina contra a covid-19. O mesmo conteúdo contém o vídeo original com falas do médico sobre o assunto.

Onde foi publicado: X.

Conclusão do Comprova: Não há comprovação científica de que as substâncias indicadas pelo cardiologista norte-americano Peter McCullough para um suposto detox contra os efeitos da vacina da covid-19 possam eliminar a proteína S do organismo após a imunização, diferentemente do que afirma post.

A proteína spike está presente no Sars-CoV-2 como estrutura que conecta o vírus à célula humana. Os imunizantes de tecnologia RNA mensageiro, como o da Pfizer, ensinam o corpo a produzir a mesma proteína para que o sistema imunológico crie anticorpos contra ela.

Conforme explica Eduardo Silveira, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), não faz sentido afirmar que há uma intoxicação da proteína S após a vacinação porque ela é eliminada do corpo em poucos dias. “No organismo, quando se vacina uma pessoa, tudo é processado rapidamente e em menos de uma semana você não tem mais absolutamente nenhuma proteína circulando porque ela é rapidamente reconhecida por anticorpos e eliminada. Algumas enzimas das células vão degradar aquele material.”

O suposto detox elaborado por McCullough inclui nattoquinase, bromelaína e curcumina para ajudar a “degradar a proteína spike” após a vacinação. O médico também recomenda tratamentos adicionais com hidroxicloroquina, ivermectina, colchicina, adesivo de nicotina ou aciclovir oral e naltrexona.

Ao Comprova, o Ministério da Saúde esclareceu que nenhuma dessas substâncias têm relação comprovada de eficácia contra qualquer eventual efeito das vacinas da covid-19. “A automedicação pode apresentar diversos riscos para a saúde, incluindo o agravamento de sintomas ou condições médicas, reações alérgicas e resistência antimicrobiana”, alerta o comunicado.

Além disso, assim como explicou Silveira, não há evidências que comprovem danos causados pela proteína spike às pessoas vacinadas, segundo a pasta. “A afirmação de que as pessoas são ‘feridas’ pela proteína spike das vacinas não possui embasamento científico confiável”, diz a nota.

O infectologista Igor Queiroz, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, destaca que a eficácia das substâncias citadas no post não foi comprovada em humanos nem mesmo contra a doença. “Esses compostos podem ser até que funcionem no laboratório, num tubo de ensaio, mas quando vai colocar no organismo humano, o que a gente fez com várias medicações, como a hidroxicloroquina e a ivermectina, é como um placebo. Não tem ação contra o vírus nos seres humanos”.

McCullough é conhecido por disseminar desinformações no contexto da pandemia. O médico já foi alvo de outras verificações do Comprova, como a que demonstrou que a revisão de um estudo publicado no site do Ministério da Saúde não garante eficácia da hidroxicloroquina no tratamento preventivo contra a covid-19 e que estudos fraudados não deslegitimam artigos que comprovam ineficácia da substância.

O médico também foi citado em checagens na imprensa internacional, como a que demonstrou que um evento em que ele criticou a Organização Mundial de Saúde (OMS) não foi oficialmente organizado pelo Parlamento Europeu, ao contrário do que se divulgou nas redes sociais. Contra McCullough há uma ação disciplinar do Conselho Americano de Medicina Interna (ABIM, na sigla em inglês) por alegações infundadas relacionadas às vacinas.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até a publicação deste texto, o post contabilizava mais de 70 mil visualizações. O conteúdo original, no entanto, ultrapassa a marca de 1,3 milhão de visualizações e mais de 30 mil interações.

Fontes que consultamos: Consultamos o Ministério da Saúde, o infectologista Igor Queiroz, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, e Eduardo Silveira, professor da USP. Também resgatamos verificações anteriores do Comprova sobre o médico Peter McCullough e a proteína spike.

Automedicação pode trazer riscos à saúde

O Ministério da Saúde alerta que é difícil garantir a segurança e a eficácia de qualquer tratamento sem o diagnóstico e a supervisão de um profissional de saúde qualificado. A pasta também deu mais detalhes sobre as substâncias sugeridas pelo médico do conteúdo aqui verificado e esclareceu que não há qualquer evidência científica ou relação entre o uso delas com o tratamento da covid-19.

  • Nattoquinase, bromelaína e curcumina: são substâncias naturais que podem ter propriedades anti-inflamatórias e anticoagulantes.
  • Hidroxicloroquina, ivermectina e colchicina: são drogas que têm sido objeto de debate em relação ao seu uso no tratamento ou prevenção da covid-19. No entanto, estudos científicos publicados até o momento não forneceram evidências conclusivas de que elas sejam eficazes contra a doença. Além disso, essas drogas podem causar efeitos colaterais graves e até mesmo fatais quando usadas de forma inadequada.
  • Adesivo de nicotina ou aciclovir oral: O uso de nicotina pode ser prejudicial à saúde. O aciclovir é um medicamento antiviral usado principalmente para tratar infecções por herpes.
  • Naltrexona: é um medicamento usado no tratamento de dependência de substâncias e para reduzir os desejos de álcool ou opioides. Seu uso indevido pode ter consequências sérias.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Outras alegações infundadas do médico Peter McCullough já foram verificadas por agências de checagem, incluindo a do boato antigo que engana sobre efeitos colaterais da vacina da covid-19, as afirmações enganosas sobre a suposta relação de óbitos com o imunizante a partir de um estudo que não foi revisado e a informação falsa de casos de miocardite após a vacinação.

Comprova Explica

Investigado por: 2024-04-11

Não há casos de H5N1 em humanos no Brasil

  • Comprova Explica
Comprova Explica
O vírus H5N1 é responsável por causar a influenza aviária, doença infecciosa que pode atingir aves e mamíferos, inclusive humanos. Apesar de a região das Américas enfrentar uma epidemia desse tipo de infecção, apenas quatro casos em humanos foram confirmados nos últimos dois anos, nenhum deles no Brasil, que registrou a doença apenas em aves silvestres. Ao Comprova, o Ministério da Agricultura e Pecuária informou que o país permanece livre do surto, e que o consumo de carne de aves, ovos e derivados é seguro.

Conteúdo analisado: Publicação compartilha manchete da agência internacional de notícias BNO News sobre um caso de gripe aviária confirmada em um humano no Texas, nos Estados Unidos, após contato com vacas infectadas. Nessa e em outras postagens nas redes sociais usuários comentam demonstrando preocupação com o alastramento da doença e a infecção de seres humanos.

Comprova Explica: Posts sugerindo uma nova pandemia, agora da influenza aviária, têm circulado nas redes sociais, gerando preocupação entre os leitores. Contra uma possível onda de pânico, o Comprova traz detalhes sobre a doença e mostra que, ao contrário do que sugerem as publicações, os casos em humanos são isolados, como esclareceu a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

A influenza aviária é uma doença viral infecciosa que pode infectar aves e mamíferos, incluindo humanos. Segundo a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), desde 2022, a região das Américas enfrenta uma epidemia de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) – que produz sintomas em praticamente todos os infectados–, associada ao vírus influenza subtipo A (H5N1) em aves domésticas, aves e mamíferos silvestres.

No Brasil, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) notificou à OMSA as primeiras detecções de influenza aviária em aves silvestres no Espírito Santo, em 15 de maio de 2023. Em 4 de outubro do mesmo ano, a pasta confirmou um foco de gripe aviária em leões-marinhos no Rio Grande do Sul. O registro mais recente foi feito em 5 de abril de 2024, no Rio de Janeiro, segundo o Ministério da Saúde.

Até o momento, não houve casos confirmados em humanos. Além disso, o Mapa esclareceu ao Comprova que a OMSA segue considerando o Brasil como livre de IAAP nas aves comerciais, sendo seguro consumir carne, ovos e derivados.

Segundo a diretora do Laboratório de Virologia do Instituto Butantan, Viviane Botosso, os surtos da doença vêm ocorrendo em ondas desde o final da década de 1990, a depender das mutações do vírus H5N1. De acordo com a pesquisadora, a tendência, neste ano, é de uma redução no número de casos entre os animais, já que o pico foi registrado em 2023. “É um problema global, que começou em 2020 em países da Europa e da Ásia, e, recentemente, chegou à América.”

Botosso também afirmou que a infecção entre vacas é uma novidade, provavelmente em função de adaptações do vírus, e que, até então, a contaminação ocorria principalmente entre aves silvestres. Além disso, segundo ela, o risco de transmissão entre humanos é baixo. “O receptor do influenza aviário é ligeiramente diferente do receptor do influenza humano, então nós não temos os receptores em abundância para esse vírus. Por isso, é difícil ter a transmissão. Não se sustenta”, explicou ao Comprova.

Como verificamos: Inicialmente, procuramos pela informação sobre mais um caso de influenza aviária em humanos em outros sites da imprensa. Em seguida, buscamos explicações e orientações sobre o H5N1 junto aos Ministérios da Saúde e da Agricultura e Pecuária e ainda com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), além do panorama da doença no Brasil e na região das Américas. Por fim, consultamos uma especialista do Instituto Butantan.

H5N1 em humanos

Segundo o Ministério da Saúde, essa transmissão é rara, mas pode acontecer por meio de contato direto com aves infectadas ou pela inalação de secreções ou excreções de animais doentes.

Nas Américas, os casos de infecção em humanos associados à epidemia são isolados, com quatro relatados até o momento, sendo um no Equador, em janeiro de 2023, outro no Chile, em março do mesmo ano, bem como um nos Estados Unidos, em abril de 2022, e o mais recente, também nos EUA. Em 1º de abril, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) confirmou que uma pessoa no Texas foi infectada com o vírus da gripe aviária H5N1 após exposição a vacas leiteiras supostamente infectadas.

As manifestações clínicas incluem desde um quadro de infecção respiratória leve até a progressão rápida para desconforto respiratório, pneumonia grave e óbito. Os sintomas podem ser consultados no site do Ministério da Saúde. Ainda de acordo com a pasta, em casos suspeitos ou confirmados, é indicada a prescrição de um medicamento antiviral, preferencialmente nas primeiras 48 horas após o início dos sintomas.

Segundo a OPAS, existem vacinas de uso humano contra a influenza aviária, mas são de uso restrito. Como o risco de infecção humana permanece baixo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda a vacinação da população no período interpandêmico – fase de vigilância após uma epidemia ou pandemia. A OMS orienta a imunização contra a influenza sazonal, com campanhas anuais, em pessoas com risco de infecção pelo vírus da influenza A (H5), especialmente em áreas com circulação da doença.

“É um vírus tipicamente de aves, não está adaptado para infecções em humanos. Podem ocorrer infecções pontuais, como esse caso recente no Texas, mas não é um vírus de transmissão entre humanos”, explica Viviane Botosso, do Instituto Butantan. No caso do paciente americano, o Departamento de Saúde do Texas informou que o sintoma apresentado pelo infectado foi conjuntivite.

Prevenção e controle

O Mapa recomenda à população que, ao encontrar aves silvestres e mamíferos marinhos doentes, com sinais como pescoço torto, diarreia, dificuldade de voar ou andar, ou mortalidade, deve-se notificar o serviço veterinário mais próximo. Toda notificação é atendida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária e segue o Plano de Contingência para Influenza Aviária.

O Ministério da Saúde orienta aqueles que trabalham com animais silvestres e profissionais de saúde expostos a casos suspeitos ou confirmados de influenza aviária, que adotem medidas de precaução e utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) como luvas, máscaras N95 ou superior e protetores oculares sempre que forem manusear animais ou ter contato com ambientes contaminados. É importante evitar tocar na boca, olhos e nariz após contato com animais ou superfícies contaminadas, lavar as mãos com sabão e trocar de roupas após contato com animais infectados.

“O grande problema é o manuseio de um animal doente, e não o consumo da carne, porque o cozimento impediria a contaminação”, explica Botosso. “A grande preocupação é com o vírus não chegar nas granjas, mas os ministérios ficam em cima disso para garantir o controle. Tanto que, até hoje, não tivemos casos em nenhuma produção de ave comercial no nosso país. Monitoramento é a melhor prevenção”, diz.

Por que explicamos: Textos alarmistas sobre saúde que circulam na internet podem comprometer o combate a doenças que têm ferramentas de controle. O conteúdo aqui explicado faz parte de um problema detectado há mais de 30 anos e que vem sendo monitorado por organismos globais, com estratégias para controlar surtos já esperados pelas autoridades em saúde pública. Esclarecer essas informações pode promover atitudes individuais que complementam ações mais amplas de prevenção.

Outras checagens sobre o tema: É comum que temas sobre saúde, em especial relacionados à pandemias e epidemias, sejam alvo de desinformação. Recentemente, o Comprova desmentiu que casos de pneumonia estão sendo usados para encobrir a covid-19 e que a substância suramina tenha sido identificada como um antídoto para inibir os efeitos da vacina contra a doença. O Comprova também mostrou que a folha do mamoeiro e derivados da planta e ivermectina não são eficazes no tratamento de dengue, assim como distribuir recipientes com vinagre de álcool não é um método recomendado contra o Aedes aegypti.

Saúde

Investigado por: 2024-04-02

Órgão de saúde alemão não determinou que lockdown era prejudicial, nem que covid matava igual à gripe

  • Enganoso
Enganoso
A taxa de mortalidade da covid-19 não é igual à da gripe e os lockdowns durante a pandemia não foram prejudiciais, diferentemente do que afirma post que usa reportagem sobre documentos do Robert Koch Institut (RKI), órgão do governo alemão que monitora doenças infecciosas. Os arquivos mencionados são verdadeiros, mas não emitem o posicionamento oficial do instituto, apenas opiniões individuais de integrantes do comitê de crise emitidas em diferentes momentos, quando o conhecimento sobre a covid ainda era incipiente. Contatado pelo Comprova, o RKI afirmou, sobre a mortalidade, que 65 mil pessoas morreram de covid-19 na Alemanha no inverno de 2020/2021, número muito superior ao da pior gripe das últimas décadas, ocorrida no inverno de 2017/2018, quando cerca de 25 mil pessoas faleceram.

Conteúdo investigado: Post com foto de jornal alemão com o título “Protocolos secretos da Covid revelados” e a legenda: “Descobriram documentos oficiais do RKI (Robert Koch Institut), a ‘Anvisa alemã’, que confirmaram todas as teorias dos ‘negacionistas’. Segundo os próprios conselheiros do governo para a questão da pandemia, o ‘lockdown traria mais consequências maléficas do que o vírus. O uso de máscara era questionável e que a mortalidade da COVID era parecida com a da gripe’. Ou seja, tudo aquilo que quem falou, quando da pandemia, era perseguido e até processado criminalmente”.

Onde foi publicado: X.

Conclusão do Comprova: Post engana ao afirmar que documentos do Robert Koch Institut (RKI), órgão do governo alemão que monitora doenças infecciosas, confirmaram que o lockdown seria mais prejudicial do que o novo coronavírus, que o uso de máscara era questionável e que a mortalidade da covid-19 era semelhante à da gripe.

De fato, houve documentos do órgão publicados com essas afirmações, mas as opiniões não representam o posicionamento oficial do instituto. Contatado pelo Comprova, o RKI afirmou que os documentos são resumos de discussões da equipe de crise de covid-19 que refletem o nível de conhecimento em diferentes datas e que nessas conversas são abordadas diferentes perspectivas. “As declarações individuais feitas no contexto de tais discussões não refletem necessariamente a posição acordada do RKI”, informou o instituto.

Diferentemente do que sugere o post enganoso, tanto os lockdowns quanto o uso de máscaras continuaram sendo defendidos pelo RKI ao longo da pandemia.

Segundo o post enganoso, o RKI afirmou que o lockdown era mais prejudicial do que o vírus, mas não foi isso que o documento mostrava. Ele trazia um alerta de que os lockdowns mostraram um aumento esperado da mortalidade infantil na África. Além de falar sobre a questão do confinamento no continente africano, onde a realidade é diferente, a citação sobre a mortalidade infantil era um dado e não refletia o posicionamento do RKI, que defendia os lockdowns na Alemanha, que teve bloqueios parciais e totais de circulação de pessoas.

Sobre o uso de máscaras, o RKI afirma ter recomendado a proteção assim que percebeu que elas poderiam conter a transmissão do vírus, antes mesmo de outros países europeus. No fim de janeiro de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) não tinha decretado a pandemia (isso só ocorreria em março), o RKI sugeriu que pessoas com algum sintoma de infecção respiratória aguda usassem a proteção facial em espaços públicos. E, no início de abril daquele ano, passou a recomendar o uso geral de máscaras pela população.

A OMS só começou a recomendar o uso do item de proteção em junho de 2020 e, em fevereiro de 2023, afirmou que o uso de máscara continuava sendo uma das estratégias para reduzir a transmissão do vírus. Em página sobre a covid atualizada em outubro do ano passado, quando já havia sido decretado o fim da pandemia, o órgão afirma que “o uso de máscara reduz a propagação de doenças respiratórias na comunidade, reduzindo o número de partículas infecciosas que podem ser inaladas ou exaladas”.

Outra teoria negacionista citada no post enganoso e que aparece no documento do RKI, de que a mortalidade da covid era parecida com a da gripe, também não faz sentido. De 2020 a 2022, morreram de covid na Alemanha, segundo o Robert Koch Institut, 161,5 mil pessoas – destas, 65 mil ocorreram no inverno de 2020/2021. Para efeito de comparação, o órgão cita em seu site que, “na pior onda de gripe das últimas décadas, no inverno de 2017/2018, ocorreram cerca de 25 mil mortes”.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até 1 de abril, a publicação havia sido visualizada 70,4 mil vezes no X.

Como verificamos: Buscamos no Google o título da reportagem em alemão mostrado no post e descobrimos que a matéria foi publicada pelo jornal Bild, cuja sede é em Berlim. Confirmamos a publicação na versão impressa por meio do site Front Pages, que mostra capas de jornais do mundo todo. No Google Tradutor, traduzimos o conteúdo da reportagem. E, em outra busca realizada no Google sobre essa discussão na Alemanha, foi possível encontrar uma reportagem publicada pelo The Telegraph.

Entramos em contato com o RKI por e-mail, que negou o conteúdo alarmante do post e enviou uma verificação feita pelo veículo alemão Tagesschau com o título “Os arquivos RKI e o escândalo que não é escândalo”. Na avaliação de especialistas ouvidos pela reportagem do site, o “conteúdo é muito menos explosivo do que se afirma” e as atas foram escandalizadas, com declarações tiradas de contexto.

O que diz o responsável pela publicação: A reportagem tentou contato com o autor do post, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

O que podemos aprender com esta verificação: Dados reais podem ser tirados de contexto com o objetivo de desinformar. O post se refere a documentos do RKI, mas que retratavam opiniões emitidas em momentos da pandemia nos quais os integrantes do comitê de crise alemão ainda não tinham conhecimento completo sobre as dinâmicas da doença e que não consistiam no posicionamento oficial do órgão. Para não cair na desinformação, quando vir posts com conteúdos muito bombásticos, o primeiro passo é refletir se aquilo faz sentido. Como os órgãos de saúde informaram desde o início da pandemia, os cientistas estavam estudando como o vírus agia e as medidas de proteção foram divulgadas em etapas diferentes em cada país de acordo com o número de mortes. Foi provado, para ficar apenas em um exemplo do conteúdo do post, que o uso de máscaras foi eficaz. Também vale sempre buscar a informação em outros sites. Neste caso, uma busca na plataforma do RKI mostraria o que o órgão acredita até hoje.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Como citado anteriormente, o veículo alemão Tagesschau também verificou posts semelhantes ao verificado aqui. E, sobre pandemia, o Comprova já concluiu, por exemplo, ser enganoso que pesquisadores descobriram relação entre vacina e covid longa e falso que haja evidências de que suramina elimine vacina do organismo de imunizados contra a covid.

Saúde

Investigado por: 2024-03-21

Surto de dengue não tem relação com programa de mosquitos financiado por Bill Gates

  • Falso
Falso
Não é verdade que o atual surto de dengue no Brasil tem relação com um programa de combate à doença financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates, como alega publicação feita em rede social. A parceria do Programa Mundial de Mosquitos com a Fiocruz foi fechada em março de 2023 para a instalação de uma biofábrica, ainda em construção, que vai criar populações do Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia. O método reduz as chances de infecção e se mostrou eficaz e seguro em diversas cidades do mundo, como Niterói (RJ). Além disso, os mosquitos não são geneticamente modificados e a entidade não pertence à ONU.

Conteúdo investigado: Post diz que “surto de dengue no Brasil aumenta em 400% após os mosquitos OGM [geneticamente modificados] de Bill Gates serem liberados propositalmente”. O texto cita o “Programa Mundial de Mosquitos da ONU” e um “plano para liberar bilhões de mosquitos geneticamente editados no Brasil durante um período de 10 anos”. A publicação afirma ainda que “um ano após o início desta iniciativa ‘genial’ contra os mosquitos, desafiando a própria natureza, os casos de dengue aumentaram exponencialmente, em vez de diminuir”. E questiona a eficácia da vacina Qdenga: “será que funciona? Os efeitos adversos começam a ser reportados, pelo próprio Diretor do Departamento do Programa Nacional de Imunização, Eder Gatti”.

Onde foi publicado: X.

Conclusão do Comprova: O Programa Mundial de Mosquitos (WMP, em inglês), parcialmente financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates, não tem relação com o atual surto de dengue no Brasil, diferentemente do que afirma post viral. O projeto foi fundado pelo cientista Scott O’Neill, que estuda a dengue desde os anos 1990 e, ao contrário do que diz a publicação falsa, não tem relação com a ONU. A fundação é uma associação sem fins lucrativos que “trabalha para proteger a comunidade global de doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, zika, febre amarela e chikungunya”.

Em março de 2023, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Ministério da Saúde fecharam uma nova parceria com a entidade para expandir a atuação do programa com a instalação da maior biofábrica – instalação que utiliza processos de biotecnologia para cultivar organismos vivos – do mundo no Brasil. O local vai abrigar a criação de mosquitos Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia, método do projeto de combate à dengue, zika e chikungunya. Diferentemente do que alega o post aqui investigado, a biofábrica ainda não foi inaugurada. O local começou a ser construído em março deste ano em uma unidade do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), em Curitiba. A previsão é que comece a operar em 2025, segundo o líder de Relações Institucionais e Governamentais do WMP, Diogo Chalegre.

O post também mente ao afirmar que o método contribui para o avanço das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti. Em Niterói, no Rio de Janeiro, por exemplo, o programa em parceria com a Fiocruz começou em 2015 e, desde então, os casos de dengue vêm diminuindo ano após ano. Mesmo agora com o surto, a cidade, que tem mais de 500 mil habitantes, contabiliza quase 600 casos prováveis da doença e nenhum óbito.

No restante do país, de fato, houve crescimento de 400% no número de diagnósticos da doença em relação a 2023. O motivo, no entanto, não envolve o Programa Mundial de Mosquitos. “Nós temos um aumento natural de casos, frequentemente a cada cinco ou seis anos, dentro de todo o ciclo histórico de doença”, explicou ao Comprova o médico infectologista Jean Gorinchteyn, do Hospital Albert Einstein e do Hospital Emílio Ribas. “Mas, especialmente no último ano, nós tivemos questões climáticas envolvidas, como aumento recorde de temperaturas, grande índice de chuvas, fazendo com que houvesse um ambiente muito favorável à proliferação dos mosquitos”, diz.

Atualmente, a campanha de vacinação contra a dengue no Brasil contempla jovens de 10 a 14 anos de idade com doses da Qdenga, fabricada pelo laboratório japonês Takeda. Uma nota técnica emitida pelo Ministério da Saúde esclareceu que os efeitos adversos após a imunização, sendo a maioria reação alérgica, são raros e não evoluem para internações. A vacina pode reduzir em 80% os casos sintomáticos da doença e em 90% as hospitalizações, segundo a farmacêutica.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 21 de março, a publicação somava 163 mil visualizações e mais de sete mil interações.

Como verificamos: Começamos a verificação buscando informações sobre o Programa Mundial de Mosquitos no site oficial da instituição. Parte das alegações do post foi desmentida no canal da própria entidade, assim como no site da Fundação Bill & Melinda Gates. Também encontramos dados sobre o surto de dengue no portal da Fiocruz e do Ministério da Saúde. Entrevistamos o médico infectologista Jean Gorinchteyn e um porta-voz do Programa Mundial de Mosquitos.

Como funciona o programa financiado por Bill Gates

Os mosquitos criados pelo programa financiado por Bill Gates não são geneticamente modificados, como alega o post aqui verificado. OGM é a sigla para “organismos geneticamente modificados”, ou seja, que tiveram alterações genéticas manipuladas por cientistas. O programa do empresário é considerado natural e sustentável por não apresentar riscos ao ecossistema em que é liberado, diferentemente do uso de inseticidas em larga escala, por exemplo. A técnica é diferente daquela desenvolvida pela empresa Oxitec, que também atua no Brasil.

Um dos laboratórios de criação dos mosquitos do WMP está localizado em Medellín, na Colômbia. “Eles atendem a todas as necessidades dos insetos à medida que crescem de larvas a pupas e até adultos, mantendo a temperatura ideal e alimentando-os com porções generosas de farinha de peixe, açúcar e, claro, sangue”, escreveu Bill Gates em um blog. São produzidos cerca de 30 milhões de mosquitos por semana.

Na fábrica, os cientistas introduzem a bactéria Wolbachia nos ovos do Aedes aegypti, sem alteração genética. Essa bactéria está presente em quase 60% dos insetos no mundo, incluindo moscas-das-frutas, mariposas, libélulas e borboletas, e pode impedir que os vírus da dengue, zika e chikungunya se desenvolvam no mosquito. Consequentemente, reduz a chance de o Aedes aegypti transmitir essas doenças para humanos.

“A Wolbachia vive dentro das células dos insetos e é transmitida de uma geração para outra através dos ovos dos insetos. Os mosquitos Aedes aegypti normalmente não transmitem Wolbachia, mas muitos outros mosquitos o fazem”, diz o site do programa. “Análises de risco independentes indicam que a libertação de mosquitos Wolbachia representa um risco insignificante para os seres humanos e para o ambiente.”

Os mosquitos são colocados em pequenas caixas e liberados no ambiente com ajuda da população local ao longo de 12 a 20 semanas. Outra opção oferecida pelo programa é a instalação de cápsulas, com ovos já criados com a Wolbachia, nas ruas ou dentro das casas dos moradores do local estudado. A própria população fica responsável por colocar água nas caixas até a eclosão do mosquito adulto, que ocorre entre uma e duas semanas.

Um teste realizado entre 2017 e 2020 na cidade de Yogyakarta, na Indonésia, mostrou uma redução de 77% na incidência de dengue e uma queda de 86% no número de hospitalizações pela doença na comunidade que recebeu o método com a Wolbachia. O programa comparou dados de uma região não tratada com o local que aplicou o teste. Na área com os mosquitos selvagens, foram registrados 318 casos de dengue e 102 internações. Já na região tratada, foram 67 casos e 13 hospitalizações.

A Fundação Bill & Melinda Gates financia o trabalho com a Wolbachia desde 2004 através do Programa Grandes Desafios na Saúde Global, iniciativa criada pela própria instituição. O investimento ultrapassa a marca de US$ 230 milhões, incluindo o aporte de US$ 50 milhões (respectivamente, R$ 1,1 bilhão e R$ 250 milhões) citado pelo post aqui investigado. O projeto recebe apoio de outras 23 entidades, incluindo os governos do Brasil, dos Estados Unidos, da Austrália, da Nova Zelândia, de El Salvador, além da empresa KPMG, o banco australiano Macquarie, a Fundação Comunitária do Vale do Silício e outras instituições ligadas à famílias de filantropos.

Testes no Brasil tiveram resultados positivos

A cidade do Rio de Janeiro foi a primeira a receber a iniciativa no Brasil, em 2014. Os projetos em larga escala, no entanto, começaram a partir de 2017, com a liberação dos mosquitos não só na capital fluminense, mas também em Niterói (RJ), Belo Horizonte, (MG), Campo Grande (MS) e Petrolina (PE). Em 2024, a pedido do Ministério da Saúde, o projeto será ampliado para outros seis municípios: Joinville (SC), Foz do Iguaçu (PR), Londrina (PR), Presidente Prudente (SP), Uberlândia (MG) e Natal (RN).

Os trabalhos são acompanhados pela Fiocruz, que destaca a redução de 70% dos casos de dengue, 60% de chikungunya e 40% de zika em Niterói. “Depois desses dados, a gente vem acompanhando ainda toda a série histórica da cidade, mostrando resultados ainda superiores na redução dos casos das arboviroses. Estamos fazendo a compilação para publicar para a população e para a comunidade científica”, destaca o pesquisador da fundação e Líder do Programa Mundial de Mosquitos Brasil, Luciano Moreira, em nota enviada ao Comprova. Os resultados dos demais municípios ainda estão sendo levantados.

Segundo o líder de Relações Institucionais e Governamentais do WMP, Diogo Chalegre, o engajamento da população local tem sido expressivo. “Antes de liberarmos, fazemos uma atividade chamada de Engajamento Comunitário, onde informamos a população sobre nossas atividades. Ao final dela, fazemos uma pesquisa de aceitação. Os números de aceitação giram em torno de 90%”, disse.

Os resultados promissores levaram o governo brasileiro a firmar uma nova parceria com o projeto em março de 2023. A maior biofábrica do mundo está sendo construída em Curitiba e deve começar a operar em 2025, com a criação de 100 milhões de mosquitos por semana, atendendo 70 milhões de pessoas nos próximos 10 anos. O programa já conta com uma instalação no Rio de Janeiro, inaugurada em 2014. Além disso, uma terceira biofábrica construída em Belo Horizonte está passando por testes operacionais e vai atender 22 municípios da Bacia do Paraopeba a partir do segundo semestre deste ano.

“Não existe nenhuma relação entre esse surto atual com a liberação de mosquitos que têm no seu interior a Wolbachia ou mosquitos transgênicos. Pelo contrário, os lugares que fizeram isso conseguiram diminuir a população dos mosquitos, infelizmente de uma forma temporária. É um mecanismo extremamente caro, que impede que o gestor público institua isso como uma forma de controle para a epidemia”, pondera o médico infectologista Jean Gorinchteyn, que já foi Secretário de Saúde do estado de São Paulo.

Vacina Qdenga é segura e eficaz

A vacina Qdenga, do laboratório japonês Takeda, é recomendada pela Organização Mundial da Saúde para combate à dengue desde outubro de 2023. Na ocasião, a presidente do Grupo Consultivo Estratégico de Peritos em Imunização da OMS, Hanna Nohynek, enfatizou a eficácia do imunizante. “Essa é a primeira vacina contra dengue com potencial para uso mais amplo. Muitos países estão enfrentando surtos devastadores de dengue e prevemos o agravamento geral da situação com as alterações climáticas”, disse.

A farmacêutica, aliás, já recebeu financiamento da Fundação Bill & Melinda Gates, como afirma o post investigado. Em 2016, a instituição anunciou um aporte de U$ 38 milhões no programa de desenvolvimento e registro de uma vacina contra a poliomielite para 70 países em desenvolvimento. A Takeda, que está ativa há 70 anos, também trabalha com vacinas contra covid-19, zika e influenza.

No Brasil, a Anvisa aprovou o registro da Qdenga em março de 2023. Segundo a agência, “o valor de eficácia global da vacina, que é o objetivo primário do estudo clínico apresentado, atingiu o patamar de 80,2%”, combatendo os quatro diferentes sorotipos do vírus causador da doença. A bula indica o imunizante para pessoas de 4 a 60 anos, mas o Ministério da Saúde incluiu apenas jovens de 10 a 14 anos na campanha em razão da baixa produção pelo laboratório.

Em março deste ano, o governo emitiu uma nota técnica sobre o andamento da campanha. No universo de 365 mil doses aplicadas no país desde 2023, foram identificados 16 casos de reações alérgicas graves. Todos se recuperaram e não houve hospitalizações. Naquele momento, o diretor do Departamento do Programa Nacional de Imunizações, Eder Gatti, reafirmou que os benefícios superam os riscos. “Nem todos os casos estão relacionados à estratégia de vacinação. É um número pequeno frente ao número de doses aplicadas. Mas o Ministério da Saúde, prezando pela transparência e segurança, fez uma nota técnica de acompanhamento após a discussão com especialistas”, afirmou.

O que diz o responsável pela publicação: O Comprova entrou em contato com Karina Michelin, autora do post, mas não recebeu retorno até o momento da publicação deste texto. Ela já teve diversos conteúdos classificados como falso ou enganoso pelo Comprova.

O que podemos aprender com esta verificação: A publicação faz uso do nome de Bill Gates, bilionário cujo nome é constantemente citado em teorias da conspiração, para criar um tom alarmista sobre um assunto que se tornou rotineiro. O texto mistura nomes de instituições globais, como a ONU, e inclui diversos números para tentar passar credibilidade à mensagem, mas não se preocupa com a veracidade e o contexto das informações. O projeto da biofábrica citada no texto, por exemplo, faz parte de um plano real, mas o laboratório sequer foi inaugurado, portanto, não pode ter qualquer relação com o atual surto de dengue. Como são temas de interesse público, informações sobre doenças e vacinas podem ser confirmadas pelo próprio leitor em sites oficiais de órgãos públicos e também das instituições privadas, além da imprensa.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: As alegações do post aqui verificado também foram alvo de investigação da AFP, que mostrou que o mesmo texto tem versões em inglês e espanhol. O Comprova já publicou explicações sobre o programa de liberação de mosquitos geneticamente modificados no Brasil e esclareceu falas com desinformação sobre a vacina Qdenga.