O Projeto Comprova reúne jornalistas de 33 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas, processo eleitoral e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vem sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
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Pandemia

Investigado por:2021-07-23

Estudo francês em hamsters não prova eficácia da ivermectina contra a covid-19 em humanos

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a publicação no site Terça Livre que afirma que um estudo francês apontou a eficácia da ivermectina para combater a covid-19. O texto omitiu que o estudo mencionado, realizado pelo Instituto Pasteur da França e publicado na revista EMBO Molecular Medicine no último dia 12, foi feito em hamsters, e não em humanos.
  • Conteúdo verificado: Texto do site Terça Livre afirma que um estudo francês apontou a eficácia da ivermectina contra a covid-19.

É enganosa a publicação no site Terça Livre que afirma que um estudo francês apontou a eficácia da ivermectina para combater a covid-19. O texto omitiu que o estudo mencionado, realizado pelo Instituto Pasteur da França e publicado na revista EMBO Molecular Medicine no último dia 12, foi feito em hamsters, e não em humanos. Estudos publicados até o momento são insuficientes para concluir que a ivermectina seja eficaz contra o novo coronavírus.

O Comprova procurou o Terça Livre por e-mail, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. Após o contato, a publicação do site foi editada para incluir a informação de que o estudo em questão foi feito em hamsters.

Como verificamos?

O Comprova leu o estudo citado na publicação e também a checagem feita pela AFP sobre o assunto. Em seguida, consultou o doutor em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Alison Chaves.

Para a verificação, também foram consultadas outras pesquisas sobre o uso da ivermectina no tratamento da covid-19 e agências reguladoras que falam sobre o medicamento.

Por fim, entramos em contato com o site responsável pelo texto.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 23 de julho de 2021.

Verificação

Estudo

O estudo realizado pelo Instituto Pasteur da França e publicado na revista EMBO Molecular Medicine no último dia 12 mostrou que doses padrão de ivermectina foram capazes de prevenir a deterioração clínica e a perda de olfato, além de limitar a inflamação do trato respiratório superior e inferior em hamsters sírios (também chamados de hamsters dourados) infectados com SARS-CoV-2. Foi concluído que a ivermectina melhorou o resultado clínico nos animais infectados com o vírus e está associada a um estado inflamatório reduzido, mas sem impacto das cargas de SARS-CoV-2 no trato respiratório superior e inferior. Por fim, o estudo afirma que traz a prova de conceito de que uma terapia imunomoduladora baseada em ivermectina melhora a condição clínica de hamsters infectados com SARS-CoV-2 e, em ensaios clínicos, aliviaria os sintomas da covid-19 em humanos.

Em nota à imprensa, o Instituto Pasteur informou que os pesquisadores demonstraram que ‘’a ivermectina, uma molécula comercializada como um tratamento antiparasitário, protege contra os sintomas da Covid-19 em um modelo animal’’. O Instituto Pasteur informou à AFP, parceira do Comprova, que esses resultados foram obtidos como parte de um estudo pré-clínico.

Para o doutor em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Alison Chaves, o estudo não é mal feito, apenas exagera as conclusões. Ele chama atenção para o relato de redução da resposta a interferon nos hamsters do estudo. Os interferons são glicoproteínas produzidas naturalmente no organismo e têm propriedades antivirais. ‘’Isso não é bom e gera mais dúvidas do que certezas, pois o interferon é uma das principais citocinas antivirais que nosso sistema imunológico produz. Há publicações sugerindo que a deficiência de interferon está associada a quadros mais severos da doença e há muitos estudos sugerindo interferon como intervenção para a doença”, observa.

Chaves ainda aponta que o modelo animal pode ter uma quantidade muito maior da citocina se comparado a humanos. ‘’Não conheço a fundo os modelos inflamatórios em hamster, mas camundongos, por exemplo, produzem uma enxurrada de interferon. Esta foi uma das limitações na época dos estudos com zika vírus. Os animais não desenvolviam a doença pelo excesso de interferon inerente ao modelo. Isso foi resolvido gerando camundongos geneticamente modificados para expressar menos interferon’’.

O Comprova tentou entrar em contato por e-mail com o pesquisador do Instituto Pasteur Guilherme Dias de Melo, um dos responsáveis pelo estudo, mas não obteve retorno.

O resultado em hamsters significa que será igual em humanos?

Julival Ribeiro, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explicou à AFP que “todo estudo sobre qualquer droga tem fases pré-clínica e clínica até que fique comprovado por meio de estudos clínicos randomizados, duplo-cego, que esse medicamento combate determinada doença”.

‘’A Sociedade Americana de Infectologia e outras sociedades do mundo afirmam que a ivermectina só poderá ser usada quando sua eficácia for comprovada em estudos clínicos. Até agora não está demonstrada a eficácia da ivermectina para tratar covid-19 em seres humanos”, acrescentou Ribeiro. Ele alertou ainda que após testar uma droga em animais, jamais se pode extrapolar o resultado para seres humanos.

Alison Chaves também aponta que não é possível usar o estudo para embasar qualquer conduta clínica: ‘’Trata-se de um estudo em modelo animal. Por isso não se pode extrapolar esses dados para clínica, como fizeram os autores, tanto ao sugerir melhora clínica (termo inapropriado para modelos animais) quanto ao sugerir que a droga poderia ser usada na clínica para covid-19, considerando estes resultados.”

Estudos com ivermectina não comprovaram eficácia contra covid-19

Embora não exista comprovação científica de que a ivermectina seja eficaz contra a covid-19, o Terça Livre citou outros quatro estudos que supostamente indicariam a eficácia do medicamento. Ao Comprova, o doutor em Microbiologia e Imunologia Alison Chaves analisou cada um deles.

O primeiro é um estudo australiano de junho de 2020. ‘’O estudo australiano aponta o caminho inverso do estudo do Instituto Pasteur. Nesse estudo, a ivermectina reduz a carga viral in vitro. No estudo francês in vivo, não há redução importante da carga viral e os autores sugerem que o caminho é outro (imunomodulação). Estudos in vitro são apenas screening de drogas, não servem para embasar condutas clínicas’’, analisa Chaves.

Outros dois estudos mencionados pelo site são metanálises. Nesses casos, diferentes estudos sobre um mesmo assunto são agrupados e, então, os resultados são comparados. ‘’O estudo da Indonésia é uma metanálise cujas conclusões dependem fortemente de estudos mal feitos e, descoberto mais recentemente, fraudados’’, diz Chaves. Em junho deste ano, ele publicou um artigo na Revista Questão de Ciência sobre como essas metanálises de ivermectina são compostas por estudos suspeitos. “Observe que o estudo de Oxford é outra metanálise que usa exatamente os mesmos estudos problemáticos. Especial atenção para o estudo de Elgazzar em ambas metanálises’’, completa. O Comprova também já publicou uma verificação mostrando que a metanálise publicada no Open Forum Infectious Diseases em julho é insuficiente para apontar a eficácia da ivermectina contra a covid-19.

Já o quarto e último estudo citado, publicado no Chest Journal, é finalmente um estudo clínico. ‘’No entanto, é de baixa qualidade de evidência. O estudo é retrospectivo, não foi controlado em nenhum aspecto. Em síntese, agrupando todos estes estudos, não há contribuição alguma para se reduzir as incertezas sobre eficácia do tratamento proposto. Neste caso, não se pode concluir nada sobre a droga. Uma conclusão negativa seria de qualidade duvidosa pelas mesmas razões já mencionadas’’, conclui.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda que a ivermectina seja usada contra a covid-19, exceto em ensaios clínicos, devido à falta de evidências que comprovem seus benefícios contra a doença. A Agência Europeia de Medicamentos e a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, compartilham o mesmo posicionamento. No Brasil, a Anvisa também reconhece que não existem estudos conclusivos que comprovem o uso do medicamento para o tratamento da covid-19.

Quem postou

O Terça Livre pertence a Allan dos Santos, investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no inquérito das fake news. O Google removeu o canal no YouTube do site após decisão judicial favorável à multinacional. Em fevereiro o canal já havia sido derrubado por violar diretrizes da plataforma, mas uma liminar conseguiu permitir o retorno do perfil. O Comprova procurou o Terça Livre por e-mail, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. Após o contato, o texto do site foi editado e a informação de que o estudo em questão foi feito em hamsters foi incluída.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia, processo eleitoral ou políticas públicas do governo federal. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. A publicação verificada aqui teve mais de 4 mil interações no Facebook.

A checagem de conteúdos envolvendo informações sobre supostos tratamentos para a covid-19 é importante, pois a desinformação pode colocar a saúde das pessoas em risco.

A mesma publicação foi verificada pela AFP Checamos na última terça-feira (20).

Postagens sobre a ivermectina já foram verificadas pelo Comprova, mostrando que a metanálise publicada no Open Forum Infectious Diseases é insuficiente para apontar a eficácia da ivermectina contra a covid-19, que é enganoso que a Universidade de Oxford tenha encontrado ‘fortes indícios’ da eficácia do medicamento contra a covid e outra que mostra que a ivermectina em altas doses pode causar até convulsão.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

 

 

Pandemia

Investigado por:2021-07-22

Exame sorológico não prova que vacinas deixam de proteger

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso vídeo publicado no Facebook e Twitter no qual um médico afirma que o diagnóstico negativo de um exame sorológico que fez provaria que a Coronavac não gera imunidade contra a covid-19. Especialistas ouvidos pelo Comprova explicam que o exame não é capaz de medir o nível de proteção garantida por vacinas, pois mede apenas a quantidade de anticorpos neutralizantes, que representam só parte do sistema imunológico humano.
  • Conteúdo verificado: Em um vídeo publicado nas redes sociais, o médico Delano Santiago Pacheco diz que foi imunizado com duas doses da Coronavac. Porém, ao fazer dois testes sorológicos não teria apresentado anticorpos neutralizantes suficientes contra o Sars-CoV-2. Ele conclui que a vacina não serviu para ele.

Médico engana ao associar o resultado de um teste de anticorpos neutralizantes à eficácia da vacina Coronavac. Os anticorpos só são uma das defesas ativadas após uma imunização e também não se sabe qual a quantidade necessária deles para garantir uma proteção.

Tanto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quanto a Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm) não aconselham a realização desse tipo de exame após a vacinação por esses dois motivos.

Conforme explicado pela imunologista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), Anna Castelo Branco, esse tipo de teste só serve para saber se a pessoa teve contato com o vírus, o que não assegura que ela tenha ou não imunidade contra a doença.

O vídeo foi removido das redes sociais dele, mas circula em outros perfis, como o da ex-deputada federal pelo PTB do Rio de Janeiro Cristiane Brasil. Em outra publicação, do mesmo médico, ele admite que os anticorpos não são a única forma de defesa contra o vírus produzida após a vacinação.

Como verificamos?

O primeiro passo feito pelo Comprova foi procurar saber quem era o médico que falava no vídeo. Com isso, fomos tentar entender que teste ele tinha feito, o que esse exame mede e se ele serve para apontar a eficácia de uma vacina. Para isso, além das notas técnicas divulgadas pela Anvisa e pela SBIm, consultamos a imunologista do ICB-USP Anna Castelo Branco.

Também tentamos entrar em contato com Delano, responsável pelo vídeo, pelo e-mail disponível no site da Câmara Municipal de Divinópolis (MG), onde ele é suplente, e pelo número de WhastApp divulgado em sua página do Facebook, mas até o fechamento dessa checagem, não obtivemos retorno. Além disso, tentamos falar com a ex-deputada federal pelo PTB do Rio de Janeiro Cristiane Brasil pelo Facebook.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 22 de julho de 2021.

Verificação

Testes sorológicos não são capazes de medir eficácia de uma vacina

Existem dois tipos de testes sorológicos para a covid-19 disponíveis no mercado. Esses exames servem para medir se a pessoa tem anticorpos contra o vírus. O mais simples deles mede se a pessoa tem anticorpos de memória, o IgG – nesse caso só se sabe se a pessoa teve contato com o vírus. O segundo tipo de teste é um pouco mais detalhista. Ele mede se a pessoa tem os chamados anticorpos neutralizantes, que servem para impedir a entrada do vírus na célula. Não fica claro no vídeo exatamente qual o teste que o médico fez, mas ao que parece ele fez um exame de anticorpos neutralizantes.

O problema desse exame é que ainda não há estudos que demonstrem qual a quantidade de anticorpos neutralizantes necessária para impedir uma infecção. De acordo com explicação do site do Laboratório Exame, a única indicação do teste é para quem deseja saber se já teve contato com o vírus da covid-19.

Segundo a imunologista Anna Castelo Branco, nenhum teste sorológico disponível no mercado tem a capacidade de medir a eficácia de uma vacina. “Ainda não foi estabelecida qual é exatamente a necessidade de anticorpos que são necessários para bloquear a entrada do vírus na célula”, destaca Anna.

Além disso, ela lembra que os anticorpos neutralizantes são só uma das defesas ativadas pela vacina. Para as outras não há testes capazes de fazer a medição. “O segundo ponto é que o sistema imunológico é treinado em várias frentes diferentes, como se fosse um exército composto por vários batalhões. O anticorpo é só um desses batalhões, mas a gente tem a imunidade inata, que é primeira linha de defesa, e a adaptativa”, ressalta.

O próprio médico, autor do vídeo, fez essa explicação em outra postagem após a repercussão da primeira. No novo vídeo, ele adota um tom diferente e, apesar de não desmentir o primeiro, diz que o teste sozinho não é capaz de determinar que uma pessoa não está imune. Ele afirma que, além dos anticorpos, existem outras defesas que são ativadas com a vacina, mas que não há como medi-las.

Anna Castelo Branco explica que o médico usa conceitos corretos, mas ele erra ao dizer que a vacina não foi capaz de protegê-lo, já que a defesa não é feita somente pelos anticorpos. “Ele é muito enfático em dizer que não está protegido e isso não é verdade. Ele pega uma única informação e tira uma conclusão clínica. Esse dado isolado de uma única pessoa não representa nada quando a gente fala de eficácia de uma vacina. O que é mais real são os ensaios clínicos que são feitos em várias pessoas. E a Coronavac tem alta efetividade, principalmente no que é prioridade, que são os casos graves e mortes”, destaca.

Uma análise da resposta imunológica provocada pelas diferentes vacinas em uso, publicada na revista científica Nature em julho, apontou que as respostas apresentadas têm sido diferentes e que ainda não há como saber qual dessas defesas é mais eficaz contra a covid-19. Os autores concluem que estudos futuros devem ser feitos analisando as pessoas que se infectaram mesmo estando vacinadas. “Análises abrangentes e cuidadosas de todos os dados imunológicos, comparando as respostas pós-vacina iniciais em indivíduos que foram infectados após a vacinação com aqueles que não foram, acabarão por fornecer uma resposta.”

Com a repercussão do vídeo, a Secretaria de Saúde de Divinópolis (Semusa) emitiu uma nota pública em que contesta a fala do médico. Na publicação, o órgão apresenta orientações da Anvisa e da SBIm que desaconselham o uso de testes sorológicos após a vacinação.

Segundo a SBIm, em nota técnica de março deste ano, testes sorológicos não são recomendados após a vacinação por não terem a capacidade de medir de forma correta se a pessoa está imunizada. “A complexidade da imunidade pós-vacinal ou mesmo após doença natural, no entanto, não corrobora a realização dos testes, pois os resultados não traduzem a situação individual de proteção”, afirma.

A instituição lembra ainda a fragilidade do método, já que a imunização não é formada apenas por anticorpos. “A complexidade que envolve a proteção contra a doença torna desaconselhável a dosagem de anticorpos neutralizantes com o intuito de se estabelecer um correlato de proteção clínica, pois certamente não se avalia a proteção desenvolvida após vacinação apenas por testes laboratoriais ‘in vitro’ através da dosagem de anticorpos neutralizantes”, destaca.

Em nota técnica, a Anvisa também se manifestou contra a realização dos exames. A agência destaca que, para que esses testes pudessem ser de alguma forma utilizados, seria indispensável saber a quantidade de anticorpos que são necessários para neutralizar o vírus. “Assegurar a proteção ao vírus, seja pela imunidade adquirida após uma infecção ou desenvolvida após a vacinação, requer estudos que verifiquem a quantidade de anticorpos necessária para a efetividade da proteção. A avaliação por quanto tempo estes anticorpos ficam viáveis no organismo e que seja verificado também a sua funcionalidade, isto é, a sua capacidade de neutralização. As informações quanto à proteção ao Sars-CoV-2 ainda não foram estabelecidas pela ciência”, diz. “Independentemente do resultado de um ensaio sorológico, devem ser seguidas as orientações e cuidados quanto ao distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos”, completa.

O mesmo entendimento foi destacado pelo Instituto Butantan, fabricante da Coronavac no Brasil. “Testes sorológicos não servem para avaliar se alguém está protegido ou não contra a covid-19. Os testes de anticorpos detectam a presença de anticorpos em determinado momento, sendo úteis apenas para identificar pessoas que foram expostas ao vírus, não para garantir se alguém está protegido ou não contra a doença. Mesmo a Anvisa recomenda não utilizar estes testes para avaliar a proteção”, explicou em post no Instagram.

O que se sabe sobre a eficácia da Coronavac

A Coronavac foi aprovada para uso emergencial no Brasil pela Anvisa em janeiro de 2021 e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em junho. A vacina teve uma eficácia global de 50,38% na fase três dos testes clínicos no Brasil.

Além dos testes clínicos, um estudo feito pelo Instituto Butantan na cidade de Serrana, no interior de São Paulo, vacinou cerca de 75% da população adulta e constatou queda de 80% nos casos sintomáticos de covid e de 86% nas internações, além da redução de mortes em 95%.

Outra pesquisa, feita no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, apontou queda de 80% nos casos de covid-19 entre os 22 mil funcionários vacinados com a Coronavac.

Quem é Delano Santiago Pacheco?

O médico se formou em medicina pela Unigranrio, no Rio de Janeiro, e é pós-graduado em dermatologia pelo Centro de Medicina Especializada, Pesquisa e Ensino (Cemepe). Ele foi eleito vereador de Divinópolis em 2012, pelo PRTB, e reeleito em 2016, pelo MDB. Também foi candidato em 2020, mas ficou como suplente. Delano é clínico geral e dermatologista. Ele atende em uma clínica própria em Divinópolis e no Hospital Bom Pastor.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre a pandemia e sobre políticas públicas do governo federal. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

Conteúdos sobre vacinas ou tratamentos contra a covid-19 são ainda mais necessários, já que podem induzir a população a recusar medidas de prevenção, como as vacinas, e se expor a riscos durante a pandemia. O conteúdo verificado aqui teve 8,2 mil visualizações e mil interações no Facebook. Já no Twitter, foram mais de 3,1 mil visualizações e 300 curtidas.

O Comprova já mostrou que o Diagnóstico positivo de Doria não indica ineficácia da Coronavac, que a Infecção de Rodrigo Faro não prova ineficácia da vacina contra a covid-19, que as vacinas usadas no Brasil passaram por testes de segurança e eficácia; que são enganosas as postagens afirmando que quem tomou CoronaVac se protegeu pela metade; que um imunizante não precisa ser estudado por dez anos para ser seguro; e que a OMS não recomendou a aplicação de uma terceira dose da CoronaVac.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda aquele que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-07-22

Post engana ao desacreditar eficácia das vacinas contra a covid-19

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Enganoso
Post sobre a covid-19 engana ao afirmar que "não há nenhuma lógica" em se vacinar uma vez que pessoas imunizadas podem, como as não protegidas, transmitir o vírus. A publicação vai na contramão do que afirmam órgãos como Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde, segundo os quais a vacinação é uma das principais ferramentas para conter a pandemia.
  • Conteúdo verificado: Publicação no Instagram que tenta colocar em xeque a eficácia dos imunizantes contra a covid-19 ao afirmar que tanto pessoas vacinadas quanto não vacinadas podem transmitir o coronavírus.

É enganosa a publicação que viralizou no Instagram comparando pessoas vacinadas com não imunizadas para insinuar que a proteção não é eficaz contra o novo coronavírus. A imagem do post traz a inscrição “Os não vacinados podem pegar covid e podem transmitir covid; os vacinados podem pegar covid, podem transmitir covid, mas estão vacinados” e, na legenda, “A irracionalidade sem nenhuma lógica…pare e pense”.

O post acerta ao dizer que a vacina não impede que a pessoa se infecte com o Sars-CoV-2, mas ele desinforma ao não esclarecer que elas reduzem os riscos de desenvolvimento de formas graves da doença e óbitos.

Uma das evidências disso é o estudo de efetividade conduzido pelo Instituto Butantan na cidade de Serrana, no interior paulista. Foi observada queda de 80% nos casos sintomáticos da doença, 86% nas internações e 95% nas mortes após 75% da população adulta ser imunizada.

Diferentemente do que o post afirma, tomar uma das vacinas em uso no Brasil não é um ato irracional. Pelo contrário: estudos clínicos realizados com milhares de voluntários, usados como base para liberação do uso dos imunizantes no país, comprovaram que as vacinas contra a covid, são, sim, além de seguras, eficazes. E, por enquanto, de acordo com órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério da Saúde, são a “abordagem farmacológica mais promissora” para conter a circulação do vírus.

A reportagem tentou falar com o perfil que publicou o post, @mulherdireitaconvervadora, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Como verificamos?

Inicialmente, a equipe buscou reportagens sobre a relação entre pessoas imunizadas e a transmissão da doença e também sobre estudos ligados à campanha de vacinação.

Também pesquisou informações em sites como os do Ministério da Saúde e da OMS e utilizou uma verificação recente feita pelo Comprova, sobre como o diagnóstico positivo do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), não indicava a ineficácia da Coronavac.

Além disso, a reportagem entrevistou por telefone o epidemiologista e professor do curso de Saúde Pública da Universidade de Brasília (UnB) Walter Ramalho e tentou falar, via mensagem privada no Instagram, com o perfil que fez a publicação, mas não houve resposta.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 22 de julho de 2021.

Verificação

Transmissão

O post verificado aqui afirma que “os vacinados podem transmitir a covid”. Esse dado é verdadeiro, já que nenhum imunizante é 100% eficaz contra qualquer doença. Mas, diferentemente do que a publicação faz crer, isso não significa que se vacinar é um ato de “irracionalidade”.

No caso do coronavírus, já está comprovado que as vacinas em uso no Brasil reduzem os riscos de que a pessoa infectada desenvolva formas mais graves da doença ou mesmo que ela morra.

Foi o que evidenciou um estudo do Instituto Butantan realizado em Serrana, no interior paulista. Com 75% da população adulta totalmente vacinada (com duas doses da Coronavac), os pesquisadores já conseguiram observar uma queda importante entre os novos casos sintomáticos da doença e de hospitalizações. Quando 95% estavam imunizados, a cidade viu as mortes caírem em 95%.

Consultado pelo Comprova, o epidemiologista Walter Ramalho explica que é possível perceber uma diminuição no período de transmissão pelas pessoas vacinadas que foram contaminadas pelo novo coronavírus. “Quando uma pessoa imunizada contra a covid-19 entra em contato com o vírus, ela vai ter uma resposta imunológica mais rápida da doença. Vai transmitir, mas o período de transmissão é bem menor em relação às pessoas não vacinadas”, ressalta.

Pesquisas

Outras pesquisas também revelam um impacto positivo da imunização contra a covid-19 em relação às internações em UTI e mortes em níveis nacionais. O Boletim Extraordinário do Observatório Covid-19/Fiocruz, divulgado em 14 de julho pela Fundação Oswaldo Cruz, aponta uma melhora no índice de ocupação dos leitos de UTI. Segundo o documento, entre 4 e 10 de julho, nenhuma unidade da federação apresentou taxa de ocupação superior a 90%. Um cenário visto pela primeira vez desde o início de dezembro de 2020. O estudo também registra uma queda de 2% ao dia no número de casos e óbitos pelo novo coronavírus. A vacinação no Brasil iniciou em 17 de janeiro de 2021.

Essa tendência também foi observada em pesquisa realizada em parceria com o Ministério da Saúde, com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e com a Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Os pesquisadores analisaram o cenário epidemiológico entre 3 de janeiro a 27 de maio, e identificaram uma redução significativa de mortes pela covid-19 entre brasileiros com mais de 70 anos – população com maior cobertura vacinal no momento.

Eficácia

Como mostrado em verificação recente do Comprova, a Coronavac apresentou eficácia global de 50,38% – o número representa a proporção de pessoas que não foram infectadas após tomarem a vacina.

Já o imunizante da AstraZeneca apresentou eficácia de 70%; o da Pfizer, 95% sete dias após a segunda dose, de acordo com a bula; e, o da Janssen, de dose única, 66%.

No entanto, pesquisas podem apresentar resultados distintos umas das outras por diversos aspectos, que incluem o perfil da população, idade e diferentes respostas imunológicas de cada organismo. É exatamente por isso que não tem como comparar uma vacina com a outra.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ressalta que todas as vacinas analisadas e autorizadas pelo órgão são seguras e possuem perfis de eficácia definidos por estudos desenvolvidos e ainda em andamento. “É importante destacar que estas são vacinas novas e que por isso seguem em monitoramento”, salientou em nota.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições ou a pandemia que tenham atingido alto grau de viralização. O post verificado aqui atingiu mais de 3,7 mil interações até 22 de julho.

A checagem de conteúdos envolvendo informações sobre a vacina é importante, pois a desinformação pode colocar a saúde das pessoas em risco. Como citado acima, ao contrário do que o post faz crer, a imunização é uma das principais formas para conter a pandemia.

O Comprova já desmentiu outras afirmações equivocadas sobre imunização, como a que usava a infecção do apresentador Rodrigo Faro para questionar a eficácia da vacina, a que desinformava ao falar da validade das doses da vacina Janssen doadas ao Brasil pelos Estados Unidos e a que enganava ao dizer que quem tomou Coronavac se protegeu pela metade.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-07-22

Estudo compartilhado por Damares não atribui suicídios de crianças a isolamento na pandemia

  • Enganoso
Enganoso
Ministra compartilhou conteúdo enviesado de um site. O estudo original, que ainda não foi revisado por outros pesquisadores ou publicado em revistas científicas, analisa apenas o risco de morte de crianças e adolescentes por covid-19 na Inglaterra, e não as taxas de suicídio.
  • Conteúdo verificado: A ministra Damares Alves divulgou link para um texto alegando que “cinco vezes mais crianças morreram por suicídio no confinamento do que por covid-19”, supostamente baseado em uma pesquisa do Reino Unido. Na legenda do post, defende a reabertura das escolas.

São enganosas as análises que o site Epoch Times e a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, fazem acerca de um estudo que analisa dados sobre mortes de crianças e adolescentes por covid-19 na Inglaterra. Os pesquisadores não analisaram as taxas de suicídio. Não é correto, portanto, atribuir o número de casos a medidas de isolamento, como sugere a postagem.

Tanto o site quanto a ministra associam o número de suicídios entre menores de 18 anos na Inglaterra, citado no levantamento, ao fechamento de escolas e ao distanciamento social. O dado, entretanto, aparece no documento apenas como comparativo com o número de crianças e adolescentes mortos em decorrência da covid-19. Os autores não analisam se houve aumento ou diminuição destes casos em tempos de lockdown. Em junho deste ano, entretanto, o órgão britânico National Child Mortality Database (NCMD) compartilhou em sua página artigo concluindo haver poucos indícios de que tenha havido mortalidade excessiva entre crianças e adolescentes durante o período de lockdown no país.

O Comprova conversou por e-mail com um dos pesquisadores para saber se é correto atribuir os casos de suicídio a medidas de isolamento na pandemia. David Odd, professor da Escola de Medicina da Universidade de Cardiff, respondeu que investigou essa questão em uma outra pesquisa, ainda não publicada, concluindo que “não foram encontradas evidências concretas de que a morte de crianças por suicídio tenha aumentado durante a pandemia de covid-19 na Inglaterra”.

O Comprova procurou Damares Alves e o site que publicou o conteúdo distorcendo a pesquisa britânica. A assessoria da ministra não respondeu aos questionamentos. O site não recebeu a mensagem enviada pelo endereço de contato informado.

Como verificamos?

O Comprova consultou a viralização do conteúdo utilizando a ferramenta CrowdTangle e analisou o estudo original citado na publicação compartilhada pela ministra Damares Alves, buscando também na imprensa reportagens que tivessem feito a divulgação dos resultados.

Em seguida, buscou dados do Serviço Nacional de Saúde (NHS) britânico e do National Child Mortality Database (NCMD) para consultar informações sobre os suicídios entre crianças e adolescentes em anos anteriores ao início da pandemia. Também consultou pesquisas específicas sobre o tema, relacionadas de fato ao isolamento social.

Os verificadores pediram ao psicólogo Caio Maximino de Oliveira, doutor em Neurociências e Biologia Celular e professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), que fizesse uma análise do estudo.

Os autores da pesquisa britânica foram procurados por endereços de e-mail que constam nas páginas de suas universidades. David Odd, da Universidade de Cardiff, foi o único que respondeu até a publicação desta checagem.

Por meio de relatórios e reportagens, foi pesquisada a forma como ocorreu o fechamento das escolas na Inglaterra. Por fim, tentou-se contato com o veículo que publicou o conteúdo e com a assessoria da ministra.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 22 de julho de 2021.

Verificação

Estudo

O estudo “Deaths in Children and Young People in England following SARS-CoV-2 infection during the first pandemic year: a national study using linked mandatory child death reporting data” foi divulgado na primeira semana de julho nas plataformas Research Square e medRxiv.

Esses sites funcionam como repositórios de preprints, ou seja, de versões preliminares de um manuscrito não revisado por outros cientistas. As duas plataformas, inclusive, alertam que o estudo não deve ser absorvido como informação estabelecida, nem utilizado para orientar a prática clínica.

As análises de dados de saúde pública foram conduzidas por pesquisadores britânicos. O grupo de menores de 18 anos que morreu de SARS-CoV-2 na Inglaterra foi comparado ao mesmo grupo que morreu de todas as outras causas usando estatísticas resumidas, e as diferenças entre os grupos foram comparadas.

O estudo concluiu que 25 pessoas menores de 18 anos, ou seja, crianças e adolescentes, morreram de SARS-CoV-2 durante o primeiro ano de pandemia, o equivalente a uma taxa de mortalidade de duas a cada milhão. No Brasil, o resultado foi divulgado pela Revista Crescer.

A maioria dos mortos tinha uma comorbidade subjacente, principalmente neurodeficiências e condições limitantes de vida, e eram de etnias asiática e negra.

Os pesquisadores afirmam ter usado um conjunto de dados de mortalidade nacional exclusivo vinculado aos dados do NHS — sigla em inglês para Serviço Nacional de Saúde —, além de informações do Banco de Dados Nacional de Mortalidade Infantil (NCMD).

Em meio a essas informações, os autores apontam que o SARS-CoV-2 contribuiu com 0,8% das 3.105 mortes registradas entre crianças e adolescentes entre março de 2020 e fevereiro de 2021. É neste ponto do estudo em que são citadas as mortes por suicídio (124) e as mortes por trauma (268), como exemplos para enfatizar que a covid-19 raramente é fatal entre menores de 18 anos naquele país.

Fonte: Deaths in Children and Young People in England following SARS-CoV-2 infection during the first pandemic year: a national study using linked mandatory child death reporting data

Os pesquisadores apontam que, no período entre março de 2020 e fevereiro de 2021, dentre as 3.105 mortes registradas entre crianças e adolescentes, 61 testaram positivo para a covid-19 — 5 mortes a cada 30 dias. Os casos detectados foram revisados, identificando que a doença havia contribuído para a morte de 25 jovens (41%) — duas mortes a cada 30 dias.

Dentre os 25 casos, 22 mortes se deram por covid-19 aguda e três por Síndrome Multissistêmica Inflamatória Pediátrica e Adolescência, uma reação inflamatória grave que acomete crianças e está relacionada ao novo coronavírus.

O psicólogo Caio Maximino de Oliveira, doutor em Neurociências e Biologia Celular e professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), faz algumas ressalvas em relação ao estudo. Ele destaca que passar pela revisão por pares é o padrão básico para avaliar a qualidade de artigo científico, o que ainda não ocorreu nesse caso.

Afirma, também, que o método utilizado pelos autores para calcular o risco não é ideal. “O risco de morte ou de internação foi calculado com base em toda a população de crianças e adolescentes do Reino Unido, e não em relação à população de crianças e adolescentes que pegaram covid-19”, explica Oliveira.

“Só posso saber a mortalidade ou o risco de uma doença causar algum evento grave que leve à internação se analisar quem pegou a doença, e não quem não pegou. A norma, na literatura epidemiológica, é analisar desse jeito, e não da forma como os autores fizeram. Os resultados, portanto, não querem dizer nada”, avalia.

O pesquisador destaca que o estudo original não trata sobre suicídio, cujos dados foram utilizados para comparação na contextualização. “Com certeza, se esse artigo for publicado, isso vai ser retirado da versão final. Eles não fazem inferência estatística sobre isso.”

Suicídios

O suicídio é citado apenas uma vez no estudo, para efeito de comparação em números de mortes em menores de 18 anos. Em determinado trecho, na discussão, os pesquisadores dizem que o “risco de remoção das crianças e adolescentes de suas atividades normais em eventos educacionais e sociais pode ser um risco maior do que o próprio SARS-CoV-2”. A menção, entretanto, é desacompanhada de qualquer dado científico que comprove ou sustente a ideia.

O Comprova buscou as mesmas bases de dados citadas nas referências dos estudos: o Serviço Nacional de Saúde (NHS) e o National Child Mortality Database (NCMD), um sistema que passou a registrar todos as mortes em menores de 18 anos desde abril de 2019, incluindo dados demográficos e clínicos dos eventos que levaram ao óbito.

Foram localizados relatórios a partir do ano terminado em março de 2018. De acordo com o documento “Revisões da morte infantil: ano terminado em 31 de março de 2018”, publicado pelo NHS, foram registradas 190 mortes por suicídio, dano autoinfligido ou aparente suicídio em menores de 18 anos no período.

O mesmo órgão de saúde do Reino Unido publicou, no ano seguinte, o documento “Revisões da Morte Infantil: Ano que Termina em 31 de março de 2019”, que somou 195 mortes de crianças e adolescentes pelas mesmas causas.

 

Após este ano, os relatórios passaram a ser confeccionados pelo NCMD, que publicou os “Dados de Revisão de Mortalidade Infantil: Ano Encerrado em 31 de março de 2020”. O documento contabiliza 213 mortes por suicídio, dano autoinfligido, aparente suicídio ou automutilação.

Este é o último relatório público localizado. Desta forma, o Comprova não teve acesso ao relatório onde constam as 124 mortes por suicídio informadas pelo estudo entre os meses de março de 2020 e fevereiro de 2021.

Em 25 de junho de 2021, o órgão compartilhou o artigo “Mortalidade infantil na Inglaterra durante a pandemia COVID-19”, que concluiu haver poucos indícios de que tenha havido mortalidade excessiva durante o período de lockdown no país. O estudo destaca que os dados utilizados foram coletados junto ao NCMD e que não estão disponíveis publicamente.

Este levantamento aponta terem sido registradas 1.550 mortes de crianças entre 6 de janeiro e 28 de junho de 2020. Destas, diz, 437 das mortes foram ligadas aos registros de virologia do SARS-CoV-2 e 25 (5,7%) e tiveram um resultado de PCR positivo.

As taxas de mortalidade por todas as causas durante o lockdown, no período analisado, foram semelhantes na comparação com as registradas no período de 2019. Conforme a conclusão deste estudo, são poucos os indícios de que tenha havido mortalidade excessiva durante o período de isolamento social.

Outro estudo, publicado na revista The Lancet Regional Health Europe, em abril deste ano, comparou o número de suicídios na população em geral da Inglaterra — não apenas crianças e adolescentes — entre abril e outubro de 2020 com janeiro a março do mesmo ano. O objetivo foi analisar os indicadores antes e depois do primeiro lockdown no país.

“Não observamos um crescimento nas taxas de suicídio na Inglaterra nos meses posteriores ao primeiro lockdown nacional de 2020, apesar das evidências de maior angústia na população”, apontam os autores, que destacam algumas limitações do estudo, como o fato de a pesquisa se concentrar em um período inicial da pandemia e não focar em características populacionais e geográficas.

Em resposta ao Comprova, o pesquisador da Universidade de Cardiff, David Odd, um dos autores do estudo britânico, encaminhou uma outra pesquisa divulgada na plataforma medRxiv que analisou de fato a incidência de suicídios de crianças e adolescentes na pandemia. Esse preprint afirma que foram encontrados 193 prováveis suicídios de jovens com menos de 18 anos na Inglaterra entre abril e dezembro de 2020, mas que aparentemente não houve aumento de casos do tipo durante a pandemia.

A preocupação com a saúde mental das pessoas, principalmente adolescentes, durante a pandemia, entretanto, existe. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, por exemplo, apontam que o número de tentativas de suicídio nessa faixa etária aumentou, de acordo com reportagem da rede CNBC.

A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) também emitiu um alerta, em setembro do ano passado, afirmando que a emergência de saúde pode aumentar os fatores de risco para o suicídio, como ansiedade e depressão. E esse tipo de problema pode também estar entre as sequelas da doença, de acordo com pesquisas.

A maioria das análises científicas, no entanto, sugere que essa possível alta nos suicídios pode se tratar de uma visão um tanto alarmista. Um artigo recente da revista científica Asian Journal of Psychiatric, por exemplo, sustenta que “a maioria dos estudos abrangentes baseados em dados apresentam uma redução modesta nas taxas de suicídio totais, enquanto o restante não relatou aumentos significativos durante o primeiro ano da pandemia de covid-19”.

Outros estudos publicados em revistas científicas importantes também não identificaram alterações relevantes no número de casos registrados.

Escolas do Reino Unido não ficaram o tempo todo fechadas

De acordo com um relatório do Parlamento Britânico, a maioria das escolas do Reino Unido foi fechada em 23 de março de 2020, data do primeiro lockdown. Apenas algumas crianças sob responsabilidade de trabalhadores essenciais, que não tinham com quem deixar os filhos para trabalhar, foram admitidas.

Ainda em maio do ano passado, o primeiro-ministro, Boris Johnson, anunciou uma retomada gradual do ensino presencial para algumas faixas etárias prioritárias do ensino primário, com reabertura parcial a partir de 1º de junho. Mas a chegada dos alunos na maioria das escolas aconteceu mesmo apenas em 1º de setembro, ao final do período regular de férias de verão e após cerca de cinco meses em casa.

As escolas permaneceram abertas durante todo o restante do segundo semestre de 2020, mesmo com uma série de restrições impostas pelo governo britânico para conter a escalada de casos de covid-19 e de apelos para o cuidado da população nos meses seguintes. Houve um segundo lockdown nacional na Inglaterra, em 5 de novembro, por exemplo, mas as instituições de ensino ficaram de fora.

Em 4 de janeiro de 2021, diante de mais uma onda de contaminação por covid-19, Johnson anunciou a volta do ensino remoto para escolas primárias, secundárias e faculdades da Inglaterra em um terceiro lockdown. A maior parte dos alunos retornou ao ensino presencial três meses depois, no dia 8 de março. Já as universidades foram totalmente reabertas em 17 de maio.

O estudo referido pela ministra Damares Alves, portanto, abrange tanto épocas em que a maioria das crianças e adolescentes da Inglaterra ficou em casa quanto outros períodos em que os estudantes estavam aprendendo presencialmente, mesmo durante a pandemia. As instituições estiveram abertas durante quatro meses no período analisado, entre os meses de setembro e dezembro. Ainda assim, não há registro de que os autores tenham excluído a quantidade de suicídios de jovens nesse período quando mencionam o dado.

Atualmente, as medidas de prevenção nas escolas estão bem mais flexíveis. O governo britânico não exige mais, por exemplo, o sistema de “bolhas”, que procurava restringir o contato dos estudantes apenas a certas turmas ou idades. Também não é preciso mais usar máscaras, nem manter o distanciamento social no ambiente escolar, exceto sob circunstâncias específicas.

Alunos que tiveram contato próximo com casos positivos também não precisam mais entrar automaticamente em isolamento, em um programa conhecido como NHS Trace and Track. Eles devem apenas fazer o teste de covid-19 e seguir o protocolo sanitário caso estejam contaminados. Outras medidas preventivas simples continuam em vigor, como promover a higienização e garantir a ventilação dos espaços escolares.

O Reino Unido estava com 69% da população totalmente vacinada em 20 de julho, ou seja, com as doses necessárias, e 88% com ao menos a primeira dose, segundo dados oficiais. O país flexibilizou as regras com base nos baixos índices de casos positivos entre os meses de fevereiro e maio, mas enfrenta uma nova alta de diagnósticos desde junho deste ano, com cerca de 47 mil novos casos por dia, em média.

As mortes, por outro lado, seguem em patamares baixos, em torno de 52 por dia, como reflexo da imunização. Esse cenário fez com que o governo britânico relaxasse ainda mais as medidas em 19 de julho — que foi apelidado de “Dia da Liberdade” pelos moradores locais. Não há mais obrigatoriedade de uso de máscaras, exceto no metrô de Londres, nem limite para aglomerações em ambientes abertos e fechados.

Quem ligou o estudo aos suicídios e ao isolamento?

O site Epoch Times publicou um texto distorcendo o conteúdo do estudo britânico, ao dar um destaque inexistente ao número relacionado aos suicídios entre crianças e adolescentes e ao relacionar esse dado aos lockdowns na Inglaterra, o que deturpa as informações contidas na análise.

Segundo detalha reportagem publicada em O Globo, o jornal em questão foi fundado em 2000 e é filiado ao obscuro movimento espiritual chinês Falun Gong, tendo crescido nos anos 2016 e 2017 ao apoiar o ex-presidente americano Donald Trump e abrir diversas páginas no Facebook, tornando-se uma das publicações digitais mais poderosas dos Estados Unidos.

É conhecido, também, por ser um importante fornecedor de desinformação de direita. A organização e as filiadas cresceram promovendo teorias de conspiração e acabaram virando uma máquina de espalhar boatos em escala global. Atualmente, possui versões em dezenas de países, inclusive no Brasil, na qual foi publicado o texto aqui verificado.

Em 2019, conforme o jornal The New York Times, o Facebook baniu a publicidade do Epoch Times após a NBC News publicar um relatório informando que o veículo sem fins lucrativos havia gastado mais de US$ 1,5 milhão em cerca de 11 mil anúncios pró-Trump em seis meses.

Nos sites que mantém, o Epoch Times costuma publicar conteúdos de conspiração, como teorias antivacinação. Já os canais no YouTube promovem o movimento QAnon. O Comprova procurou via email a publicação no Brasil, mas um dia depois recebeu uma mensagem automática afirmando ser impossível a entrega da mensagem “apesar das tentativas repetidas”, com a informação de que “o sistema de e-mail do destinatário recusou-se a aceitar uma conexão do seu sistema de e-mail”.

Já a ministra Damares Alves, que compartilhou a publicação associando o número de suicídios ao fechamento de escolas, é uma das figuras centrais do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Embora seja responsável pela pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, frequentemente se posiciona sobre assuntos referentes ao Ministério da Educação. É defensora da aprovação de lei autorizando a prática do ensino domiciliar no Brasil, já assinou nota com críticas e sugestões à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), cujo texto defendia a introdução da teoria criacionista para o estudo da biologia, e anunciou a criação de um canal para que professores fossem denunciados por “atos contra a família”, além de apoiar o projeto “Escola sem Partido”. O Comprova entrou em contato com a assessoria de imprensa da ministra, mas não houve resposta.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre políticas públicas e pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

As medidas de distanciamento social, restrição de circulação e lockdown têm sido responsáveis, desde o início da pandemia, por evitar o colapso dos sistemas de saúde de vários países e por diminuir os índices de transmissão e as mortes em decorrência da contaminação pelo coronavírus. Associar essas medidas de forma enganosa aos números de suicídio pode causar pânico nas pessoas e, consequentemente, alimentar atitudes anti-isolamento.

Segundo a ferramenta CrowdTangle, o conteúdo do site recebeu mais de 17 mil interações no Facebook, mais de 1 mil no Twitter e mais de 33 mil no Instagram.A conta que mais contribuiu para a disseminação do conteúdo enganoso foi a da ministra Damares Alves. Todas as interações no Instagram, por exemplo, partiram do perfil dela. No Facebook, apenas o compartilhamento dela somou 7 mil interações. Na plataforma, o conteúdo foi compartilhado também por perfis de apoio ao presidente Bolsonaro.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-07-19

É falso que polícia tenha prendido enfermeiro impostor em hospital onde Bolsonaro foi internado

  • Falso
Falso
São inverídicos os posts que circulam no Facebook e no WhatsApp afirmando que um falso enfermeiro, que seria filiado ao PCdoB, foi preso no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, onde o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) esteve internado nos últimos dias. A imagem utilizada pelos autores foi feita em abril de 2021, em Manaus, e a prisão em São Paulo foi desmentida pela Polícia Civil.
  • Conteúdo verificado: Postagens no Facebook e no WhatsApp com a foto de um falso enfermeiro algemado. O texto afirma que o homem é Joilton Batista Silverio, filiado ao PCdoB, preso pela Polícia Civil após ter sido detido pela segurança do Hospital Vila Nova Star, onde Bolsonaro esteve internado recentemente.

É falso que um homem, se passando por enfermeiro, tenha sido preso no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, onde o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) estava internado. A informação foi desmentida pela unidade hospitalar e também pela Polícia Civil do Estado de São Paulo, ao serem procurados pelo Comprova.

A imagem veiculada junto à informação falsa pertence a um homem preso em abril deste ano, em um hospital de Manaus, capital do Amazonas, segundo reportagens publicadas na época. A Polícia Civil do estado e a assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde amazonense confirmaram a informação.

O autor da postagem mais antiga localizada pelo Comprova no Facebook foi procurado via Messenger e afirmou ter recebido o conteúdo de “alguém”. A informação falsa foi apagada logo após o contato.

Como verificamos?

Bastou realizar a busca reversa da foto que aparece nas postagens – utilizando o Google Imagens – para que o Comprova detectasse diversas notícias publicadas com a mesma imagem em abril deste ano em portais locais de Manaus (AM).

A partir dessa informação, o Comprova encaminhou e-mails para as assessorias de imprensa do governo e da Polícia Civil do Amazonas, questionando as circunstâncias das reportagens e a veracidade das informações.

A equipe de verificação também entrou em contato com a Rede D’Or, responsável pelo Hospital Vila Nova Star, onde o presidente ficou internado, e com a Polícia Civil do Estado de São Paulo, ambas citadas nas publicações falsas.

Em seguida, consultamos o repositório de dados eleitorais do TSE, onde constam os nomes de todas as pessoas filiadas a partidos políticos no Brasil. Por fim, também entramos em contato com os autores das postagens no Facebook.

Verificação

Caso é de Manaus

A pessoa que aparece na foto que circula com a mensagem falsa foi presa, na verdade, no Hospital e Pronto-Socorro Platão Araújo, em Manaus, em abril deste ano. Segundo a Secretaria de Saúde do Amazonas, o homem de 36 anos se passava por técnico de enfermagem da unidade, da rede estadual, e foi detido por militares da 27ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom). Com ele, foram encontrados medicamentos de vários tipos, além de materiais cirúrgicos.

A direção do hospital disse que o falso profissional de saúde entrou na unidade por meio do serviço de pronto-atendimento, se passando por um paciente. Depois, em um dos consultórios, vestiu um jaleco e passou a circular dentro do hospital, onde solicitou medicamentos aos verdadeiros profissionais de saúde. Ele foi descoberto por uma enfermeira que desconfiou da presença dele e acionou a segurança da unidade e a polícia.

A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas também confirmou a história, acrescentando que ele foi detido pelos crimes de tentativa de furto e falsificação de documento (RG). Um inquérito foi aberto sobre o caso e enviado à Justiça.

O Comprova também entrou em contato com a Rede D’Or, que administra o Hospital Vila Nova Star, e com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, para confirmar se algum caso do tipo foi registrado enquanto o presidente estava internado, mas ambos negaram.

Filiação ao PCdoB

As publicações verificadas afirmam que o homem que teria entrado no hospital onde Bolsonaro estava internado se chama Joilton Batista Silvério, teria passagem na polícia por tentativa de homicídio e seria filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Isso também não é verdade. Consultamos o repositório de dados eleitorais do TSE, onde constam os nomes de todas as pessoas filiadas a partidos políticos no Brasil. Não há ninguém com esse nome na relação de eleitores filiados ao PCdoB:

No sábado, dia 17 de julho, quando Bolsonaro ainda estava internado, o deputado federal pelo PCdoB, Orlando Silva, desmentiu, no Twitter, as ligações da suposta pessoa com o partido.

O Comprova ainda tentou buscar pelo nome Joilton Batista Silvério no Google, mas os únicos resultados encontrados foram as postagens falsas e as verificações realizadas por outros veículos. A Polícia Civil do Amazonas não informou o nome do rapaz detido por lá.

Internação de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro sentiu dores abdominais e foi internado no Hospital das Forças Armadas, em Brasília, na última quarta-feira (14). Sua equipe médica decidiu levá-lo para o Hospital Villa Nova Star, na zona sul de São Paulo, para avaliar a necessidade de uma cirurgia emergencial. Ele ficou em observação durante quatro dias devido a uma obstrução intestinal e teve alta neste domingo (18). Ele não precisou passar por procedimento cirúrgico.

O presidente politizou a sua internação ao relembrar o atentado a faca que sofreu durante a campanha eleitoral de 2018. Ele voltou a alegar falsamente que Adélio Bispo, responsável pelo ataque, teria recebido ordens do PT e do PSOL. Bispo já foi filiado ao PSOL, mas deixou a legenda em 2014, quatro anos antes do atentado. Além disso, as falas de Bolsonaro contrariam a conclusão de todas as investigações policiais feitas até o momento e que apontaram para ação isolada de Bispo.

Autor da postagem

A página “Aconteceu em Praia Grande” foi a primeira a postar a imagem no Facebook, segundo a ferramenta de análise de redes sociais CrowdTangle. A página foi criada em 14 de setembro de 2018 e diz falar de “festas, eventos, atos de corrupção, prefeitura, policiamento, informações, desaparecimentos”. Parte de suas postagens são em defesa de Bolsonaro.

Procurado pelo Comprova, o responsável afirmou: “Só copiei de alguém, já apaguei”. De fato, a imagem foi excluída na manhã desta segunda-feira (19), após o contato da reportagem.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

Desde antes do pleito que elegeu Jair Bolsonaro presidente, em 2018, ele e apoiadores atacam partidos de esquerda, como o PCdoB. Assim como a sigla, PT e PSOL também são alvos frequentes de informações falsas ou enganosas que circulam amplamente em redes sociais, publicadas principalmente por contas bolsonaristas.

Uma das postagens analisadas pelo Comprova foi compartilhada ao menos 255 vezes no Facebook e recebeu 429 reações. O mesmo conteúdo também circula em aplicativos de mensagem, como o Whatsapp. A alegação foi verificada pelo Boatos.Org e também pelo G1.

Falso, para o Comprova, é conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por:2021-07-16

Diagnóstico positivo de Doria não indica ineficácia da Coronavac

  • Falso
Falso
A Coronavac reduz o risco de desenvolver quadros graves da covid-19, mas não elimina a possibilidade de contágio. Isso ocorre com todas as vacinas, contrariando a postagem de influenciador de direita que afirma que o novo diagnóstico de coronavírus do governador de São Paulo, João Doria, é prova de ineficácia do imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan.
  • Conteúdo verificado: Tuíte afirma que o fato de o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ter se infectado duas vezes com a covid-19 é a prova de que a Coronavac não funciona.

É falso que casos de pessoas infectadas com a covid-19, mesmo após receberem as duas doses da Coronavac, mostrem que a vacina é ineficaz contra o coronavírus. Os imunizantes contra o Sars-CoV-2 reduzem o risco de desenvolver quadros graves da doença, mas não eliminam a possibilidade de contágio.

Nenhuma vacina garante 100% de imunidade contra uma doença. O propósito delas é tornar o contato do sistema imunológico com o vírus mais seguro e reduzir internações e mortes. Quanto maior a quantidade de pessoas vacinadas, menores as chances de o vírus continuar circulando. As informações desmentem alegação de um influenciador de direita no Twitter, de que o diagnóstico de covid-19 do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), “prova que a vacina chinesa não tem eficácia”.

Como verificamos?

Primeiramente, o Comprova verificou quando o governador João Doria foi vacinado e quando se infectou com a covid-19.

Em seguida, procurou dados sobre a eficácia da Coronavac e de como age uma vacina no organismo. Também foi consultado o professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF/USP) Marco Antonio Stephano para entender melhor a atuação dos imunizantes.

O Comprova pesquisou quem era o autor da postagem, @AlanLopesRio, e encontrou notícias sobre sua candidatura a vereador do Rio de Janeiro pelo PSD em 2020. O perfil dele no Twitter é fechado para o envio de mensagens particulares, então, a reportagem tentou contato no diretório estadual do PSD e por um e-mail utilizado na campanha do ano passado e disponível na página do Facebook de sua candidatura. Não houve nenhum retorno até a publicação deste texto.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 16 de julho de 2021.

Verificação

Mesmo vacinado, Doria pegou covid-19 pela segunda vez

Doria testou positivo para a covid-19 pela primeira vez em agosto de 2020. Na época, ele compartilhou, pelo Twitter, o resultado de um exame PCR-RT e também disse que estava assintomático. Aos 63 anos, o político só foi vacinado contra a doença no dia 7 de maio deste ano, quando tomou a primeira dose da Coronavac. Ele recebeu a segunda dose em 4 de junho, 28 dias após a primeira, como indica a bula da vacina.

Nesta quinta-feira (15/7), Doria anunciou que testou positivo pela segunda vez. Em post no Twitter, o governador disse que fez um teste por prevenção após detectar alguns sintomas e que está se sentindo bem. Ele atribuiu os sintomas leves ao fato de ter sido vacinado.

Vacina não impede infecção, mas, sim, casos graves

A imunização não impede que a pessoa contraia o vírus, mas reduz os riscos de que desenvolva formas mais graves da doença. Segundo especialistas, nenhuma vacina é 100% eficaz contra doenças, o que inclui imunizantes utilizados há décadas, como imunizantes contra sarampo, catapora e gripe. O objetivo deles é garantir que o sistema imunológico seja exposto ao vírus de forma segura.

O que permite a erradicação de uma doença – ou redução dos casos – é a ampla cobertura vacinal. Ou seja: quanto mais pessoas protegidas, menor a circulação do vírus.

O professor da FCF/USP Marco Antonio Stephano explica que é importante entender que o objetivo das vacinas é evitar casos graves e mortes pela doença. “Quando você faz uma imunização em massa é esperado que 16% da população não tenha uma boa produção de anticorpos. Essa premissa é uma característica genética”, explica.

Além disso, os próprios estudos de eficácia demonstram que uma parcela da população não desenvolverá uma imunidade completa. “As vacinas injetáveis levam a uma imunidade para casos graves da doença. Se a pessoa toma a vacina e não desenvolve anticorpos, essa pessoa tem risco de morrer? Mais ou menos. Um grupo muito pequeno pode desenvolver a forma a grave”, acrescenta Marco Antonio.

O professor ainda ressalta que a eficácia de uma vacina é diferente para cada grupo de pessoas. “A tendência é que em idosos a resposta imune não seja a mesma que em pessoas mais jovens, assim como em quem tem comorbidade”, diz.

Coronavac é menos eficaz?

Antes de apresentar os dados de eficácia, é importante ressaltar que a eficácia e a efetividade de uma vacina não são sinônimos para os pesquisadores, conforme explica reportagem da Veja Saúde. A eficácia é definida a partir de estudos clínicos rigorosos feitos em condições controladas. Já a efetividade avalia os resultados da vacina na população de modo geral.

A Coronavac teve o uso emergencial aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) após apresentar eficácia global de 50,38% – isso representa a proporção de pessoas que não foram infectadas após tomarem a vacina. No entanto, pesquisas podem apresentar resultados distintos umas das outras por diversos aspectos, que incluem o perfil da população, idade e diferentes respostas imunológicas de cada organismo. É exatamente por isso que não tem como comparar uma vacina com a outra.

Um estudo de efetividade conduzido pelo Instituto Butantan na cidade de Serrana, no interior de São Paulo, vacinou cerca de 75% da população adulta e observou quedas de 80% nos casos sintomáticos de covid e de 86% nas internações, além da redução de mortes em 95%.

Outra pesquisa, feita no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, mostra que houve queda de 80% nos casos de covid entre 22 mil funcionários vacinados com a Coronavac, mesmo tratando-se de agentes de saúde constantemente expostos ao vírus.

Nenhuma das vacinas aprovadas para uso no Brasil apresentaram 100% de eficácia nos testes, conforme explicado anteriormente.O imunizante da Pfizer apresentou uma eficácia de 95% sete dias após a segunda dose, de acordo com a bula. A da Janssen apresentou eficácia de 66,9% contra casos graves e moderados e a da AstraZeneca de 70%.

Segundo o professor Marco Antonio, com todos os imunizantes há casos de pessoas que se infectam mesmo estando vacinadas, mas os que envolvem a vacina do Butantan estão se destacando pela quantidade de informações falsas que rondam o imunizante. “Isso ocorre com todas as vacinas, mas por ter muita desinformação circulando contra a Coronavac, ela fica mais em evidência”, diz.

A desconfiança em torno da Coronavac ocorre desde o ano passado, quando o imunizante entrou no centro da disputa política entre Doria e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac, a vacina virou uma das bandeiras do governador de São Paulo no combate à covid-19, enquanto Bolsonaro passou a desacreditá-la publicamente, tratando-a por “vacina chinesa”.

Além de desautorizar a compra da Coronavac pelo Ministério da Saúde, em outubro passado, Bolsonaro celebrou a suspensão temporária de testes com o imunizante após a morte de um voluntário – que não teve relação com possíveis efeitos da vacina.

Este ano, o presidente já afirmou equivocadamente, mais de uma vez, que a Coronavac “não deu certo” e que ela teria provocado problemas no Chile.

Por fim, Marco Antonio ressalta a importância das pessoas confiarem nas vacinas e se vacinarem. “Essas coisas fazem com que os grupos antivacinas levantem sua bandeira e as pessoas não se vacinem. Mas são elas que estão salvando pessoas. Se demorarmos, vão surgir novas variantes que vão conseguir neutralizar as vacinas”, alerta.

Reinfecção é possível?

Apesar de raras, já se sabe que reinfecções por covid-19 são possíveis. De acordo com um estudo publicado na revista científica The Lancet, em março, menos de 1% se contagia novamente com o coronavírus. Um outro estudo publicado na The Lancet em abril deste ano mostrou uma chance 84% menor de pegar o novo coronavírus para quem já foi contaminado.

Já uma outra pesquisa feita pela Fiocruz indicou que uma pessoa que é assintomática ou tem sintomas leves, como foi o caso de Doria, está mais propensa a ter uma segunda infecção, por não ter produzido uma resposta imunológica forte. O estudo, inclusive, encontrou indícios de que essa segunda infecção pode provocar sintomas mais fortes do que o primeiro contágio.

De acordo com Marco Antonio Stephano, as reinfecções são provocadas por variantes que conseguem driblar o sistema imune. “Quando mais a gente demora para vacinar as pessoas, mais surgem novas variantes e aumenta o risco de reinfecções”, explica.

Autor é apoiador de Bolsonaro e costuma compartilhar desinformação

O autor do post, Alan Lopes, foi candidato a vereador do Rio de Janeiro pelo PSD em 2020 e, com 2.540 votos, não foi eleito. Ele é descrito como influenciador de direita por reportagem da Aos Fatos, que ressalta o perfil de Lopes nas redes sociais como propagador de notícias falsas. O Comprova tentou entrar em contato com ele, mas não recebeu nenhum retorno até a publicação desta verificação.

No Twitter, Lopes possui mais de 75 mil seguidores e se descreve como “cristão, conservador, casado, pai, empresário e defensor implacável da família tradicional”. Ele é seguido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e pelo Secretário Especial de Cultura do governo federal, Mário Frias. Entre as postagens na rede social há a defesa à adoção do voto impresso, posts pró-armamento e críticas ao uso de máscaras e distanciamento social. Ele também afirma ser CEO do Instituto Intelectos, plataforma que alega que o Brasil é o maior protetor ambiental do mundo.

Lopes já compartilhou notícias falsas, como supostos documentos que comprovariam fraude nas eleições de 2018, e que a empresa responsável pela fabricação das urnas eletrônicas no Brasil teria sido vendida a uma companhia chinesa, desmentida por Aos Fatos, Agência Lupa e Estadão Verifica.

Por que investigamos?

A quarta fase do Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições ou a pandemia que tenham atingido alto grau de viralização, como o caso da postagem verificada, que apresentou mais de 11,3 mil interações no Twitter.

Em julho de 2021, os participantes do projeto decidiram também verificar desinformações envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

O Comprova já desmentiu afirmações equivocadas sobre imunização envolvendo a infecção do apresentador Rodrigo Faro mesmo após ter tomado a vacina contra a covid-19. Também foram verificadas postagens sobre a validade das doses da vacina Janssen doadas ao Brasil pelos EUA; que quem tomou Coronavac se protegeu pela metade; que a OMS não recomendou a aplicação de uma terceira dose da vacina e que um imunizante não precisa ser estudado por mais de dez anos para ser seguro.

A AFP Checamos publicou uma verificação no Twitter sobre o conteúdo.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por:2021-07-14

Estudo é insuficiente para comprovar eficácia da ivermectina contra covid-19

  • Enganoso
Enganoso
São enganosos posts nas redes sociais que dizem que estudo comprova que a ivermectina é capaz de reduzir as mortes por covid-19 em até 56%. Apesar da pesquisa citada realmente falar nessa estimativa de redução da mortalidade, os dados não são considerados suficientes para apontar o benefício do antiparasitário para o combate à doença. Isso porque a maior parte das pesquisas utilizadas na análise não foram revisadas, não houve diferença da mortalidade em casos graves e o número de pacientes observados é muito pequeno.
  • Conteúdo verificado: Informação compartilhada nas redes sociais de que um novo estudo comprovaria que a ivermectina é capaz de reduzir as mortes por covid-19 em até 56%. A mesma pesquisa foi citada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em live semanal no Facebook na quinta-feira (8).

São enganosas publicações nas redes sociais que afirmam que uma metanálise mostrou que a ivermectina pode reduzir em até 56% as mortes por covid-19. Apesar do estudo em questão realmente apontar para este número, existem diversos problemas nas pesquisas que impedem que o resultado seja considerado conclusivo.

O estudo em questão é uma metanálise. Nesse tipo de pesquisa, estudos sobre um mesmo assunto são agrupados e, então, os resultados são comparados.

Os próprios pesquisadores advertem que cada um dos estudos analisados tinha um número muito pequeno de participantes, com populações distintas e que não houve diferenças significativas na sobrevivência em pacientes graves.

Além disso, a maior parte dos estudos utilizados na análise não foi revisada por pares, o que é necessário para validar uma pesquisa científica. Dos 24 estudos, somente oito haviam sido revisados.

O Comprova procurou os autores dos posts no Twitter e no Instagram. Somente o empresário Paulo Figueiredo Filho nos respondeu com o link para a pesquisa.

Como verificamos?

O Comprova pesquisou sobre o estudo citado nas postagens. Em seguida, consultou a infectologista da Secretaria de Saúde do Distrito Federal Joana Darc Gonçalves e o infectologista do Hospital Sírio-Libanês Alexandre Cunha.

Para a verificação, também foram consultadas outras pesquisas sobre o uso da ivermectina no tratamento da covid-19 e agências reguladoras que falam sobre o medicamento.

Por fim, entramos em contato com o autor do post no Twitter e com os autores da postagem no Instagram.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de julho de 2021.

Verificação

A metanálise de ensaios clínicos randomizados de ivermectina para tratar a infecção por SARS-CoV-2 (Meta-analysis of randomized trials of ivermectin to treat SARS-CoV-2 infection), publicada no Open Forum Infectious Diseases em julho, é uma análise de 24 estudos sobre o uso da ivermectina para tratamento de covid-19. Dessas pesquisas, 11 mostraram um resultado positivo para o uso do remédio contra a doença, com a redução de 56% da mortalidade.

No entanto, a pesquisa apresenta vários problemas. A maior parte dos estudos analisados não foi revisada por pares, fator determinante para a validação de uma pesquisa. Dos 24 estudos incluídos, oito eram artigos publicados, nove eram pré-prints (ainda não tinham sido revisados), seis eram resultados que sequer tinham sido publicados e um era uma publicação independente.

Além disso, uma das limitações apontada pelos próprios autores é que a quantidade de pacientes avaliada é muito pequena para se chegar a uma conclusão. Os 24 estudos só somam 3.328 pacientes.

A infectologista da Secretaria de Saúde do Distrito Federal Joana Darc Gonçalves ainda aponta vários problemas nos estudos analisados na metanálise. Segundo ela, os resultados não mostram quais pacientes usaram corticoides e quais não, só dois estudos demonstraram redução de sintomas e nenhuma das análises demonstrou redução na hospitalização. Ademais, foram misturados pacientes ambulatoriais e hospitalizados, o que pode ter interferido nos resultados. Por isso, ela ressalta que este estudo não pode ser considerado conclusivo. “Permanece a necessidade complementar de ensaios clínicos randomizados que testem o tratamento precoce, para delinear os benefícios clínicos, resolução dos sintomas e redução de hospitalização”, indica ela.

De acordo com o infectologista do Hospital Sírio-Libanês Alexandre Cunha, por ser uma metanálise, ou seja, a junção de vários estudos, a qualidade da pesquisa fica prejudicada. “Quando você faz um apanhado de vários estudos, vários ou alguns deles têm má qualidade e isso acaba atrapalhando o resultado. Em toda metanálise, o mais importante não é o número de estudos, mas a qualidade dos dados. As metanálises bem feitas sobre ivermectina, com estudos bem controlados, não mostraram bons resultados”, enfatiza.

Além disso, ele lamenta que esse tipo de análise seja publicada. “Outro problema é que se misturam estudos muito diferentes. O problema de metanálises que pegam estudos ruins é que acaba amplificando um resultado que não é verdadeiro”, explica.

A infectologista Joana Darc Gonçalves também ressalta que o mais importante é focar na vacinação para evitar que as pessoas fiquem doentes. “Com certeza é importantíssimo avaliarmos os resultados das metanálises, mas acredito que já temos a solução para o problema. Precisamos buscar os meios para vacinarmos nossa população. Vacinar continua sendo a melhor solução”, destaca.

Não há comprovação da eficácia de ivermectina contra covid-19

Desde março de 2020, quando um estudo mostrou resultados animadores do antiparasitário contra a covid-19 in vitro, várias outras pesquisas com o remédio foram realizadas ao redor do mundo. Nenhuma mostrou resultados conclusivos para a eficácia do medicamento no tratamento da doença.

Um estudo publicado em junho deste ano na revista científica EClinical Medicine, publicação que faz parte da The Lancet, mostrou que não houve diferença na redução da carga viral entre os grupos que utilizaram a ivermectina e os que não.

Outra metanálise publicada na Clinical Infectious Diseases, da Oxford University Press, em junho, concluiu, com base em outros estudos, que a ivermectina não funciona para o tratamento da covid-19. “Em comparação com tratamento padrão ou placebo, a ivermectina não reduziu todas as causas de mortalidade, tempo de internação ou depuração viral em estudos controlados por placebo em pacientes com covid-19, principalmente com doença leve. Ivermectina não é uma opção viável para tratar pacientes com covid-19”, concluíram os pesquisadores.

Em março, um estudo publicado na revista científica Jama Network concluiu que o “uso da ivermectina não melhorou significativamente o tempo de resolução dos sintomas. Os resultados não apoiam o uso de ivermectina para o tratamento de covid-19 leve”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) só recomenda o uso da ivermectina para ensaios clínicos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou nota em julho de 2020 e atualizada em abril deste ano em que diz não existirem estudos conclusivos que comprovem a eficácia da ivermectina no tratamento da covid-19.

A Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) também desaconselha o uso do medicamento para tratamento da covid-19. Assim como a Agência de Medicamentos Europeia (EMA), que concluiu que os estudos disponíveis só suportam o uso do remédio em ensaios clínicos.

O laboratório Merck, fabricante do remédio nos Estados Unidos, disse em fevereiro de 2021 que analisou os estudos disponíveis sobre o remédio e que, até o momento, não há base científica que aponte um efeito terapêutico do uso da ivermectina contra a covid-19.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia ou sobre políticas públicas do governo federal.

O post viral foi publicado pelo empresário Paulo Figueiredo Filho em seu Twitter no dia 6 de julho. Até o dia 12 de julho, o boato teve alcance de mais de 18 mil curtidas e 5 mil compartilhamentos, além de circular em páginas no Instagram de simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), como no @direita.piauiense, onde a publicação teve 1.161 curtidas e no @politizados, que teve 2.760 curtidas.

A checagem de fatos envolvendo informações sobre supostos tratamentos para a covid-19 é necessária, pois falsas esperanças podem levar as pessoas a colocarem sua saúde em risco. O antiparasitário ivermectina tem sido alvo de desinformação desde o início da pandemia e o uso indiscriminado do medicamento pode causar hepatite medicamentosa.

Esse mesmo estudo foi verificado pelo UOL Verifica depois de citado por Bolsonaro em sua live semanal no Facebook na última quinta-feira (8).

Postagens sobre a ivermectina já foram verificadas pelo Comprova, mostrando ser enganoso que a Universidade de Oxford encontrou ‘fortes indícios’ da eficácia da ivermectina contra a covid-19 e outra que ivermectina em altas doses pode causar até convulsão.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-07-09

Estudos não comprovam que a cúrcuma ajuda a combater a covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Apesar de ser uma planta fitoterápica reconhecida pela Anvisa e usada no tratamento de algumas enfermidades, ainda não há estudos que comprovem que a cúrcuma pode ser usada para combater a covid-19.
  • Conteúdo verificado: Texto publicado no Instagram e no Twitter, no qual um médico indica que as pessoas comprem a cúrcuma em lojas de produtos naturais para ajudar a combater a covid, pois, de acordo com ele, já existiriam vários estudos a respeito disso. Ele ainda afirma que a planta tem potencial anti-inflamatório e “fator protetor”. Por fim, o médico indica a ingestão de 1,5 g todo dia.

Ao contrário do que afirma um médico no Instagram e no Twitter, não há estudos que comprovem que a cúrcuma, uma planta originária do sudeste da Ásia, possa ajudar a combater o coronavírus. A cúrcuma (Curcuma longa L) é reconhecida como fitoterápica pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e é utilizada tradicionalmente para combater algumas enfermidades, mas as pesquisas com a planta para casos de covid-19 ainda estão nas fases iniciais.

Além disso, até o momento, não há nenhum medicamento ou produto, com indicação das autoridades sanitárias, que possa ser usado no chamado “tratamento precoce”. O médico responsável pelas postagens foi procurado pelo Comprova por e-mail, porém não deu retorno. As postagens que ele fez sobre a cúrcuma já não estão mais disponíveis nos perfis do Instagram e do Twitter.

Como verificamos?

Para obter mais informações sobre o uso de cúrcuma e as suas propriedades, o Comprova consultou documentos oficiais do Ministério da Saúde e da Anvisa, como uma monografia de 2015 que relaciona estudos feitos com a planta e sua utilização para fins medicinais.

Para a verificação, também foram entrevistados especialistas: Cristiano Augusto Ballus, doutor em Ciência dos Alimentos; Carlos Takeshi Hotta, doutor em Ciência das Plantas pela University of Cambridge; Maria Angélica Fiut, presidente da Associação Brasileira de Fitoterapia (ABFIT) e Juliana Bello Baron Maurer, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Por fim, entramos em contato com o médico que postou o texto, que já foi apagado das redes sociais.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 9 de julho de 2021.

Verificação

O que é cúrcuma

A cúrcuma (Curcuma longa L), segundo monografia elaborada pelo Ministério da Saúde e Anvisa em 2015, é uma planta milenar originária do sudeste da Ásia, encontrada principalmente nas encostas de morros das florestas tropicais da Índia.

Também conhecida como “açafrão”, “gengibre-dourado” e “açafrão-da-terra”, foi introduzida no Brasil e é cultivada ou encontrada como subespontânea (definição em Botânica para vegetais que se adaptam a regiões para onde foram levados) em vários estados.

O documento aponta que a cúrcuma é utilizada tradicionalmente para diversas enfermidades, sendo os rizomas – tipo de caule que cresce horizontalmente – a principal parte da planta empregada nas preparações.

Confira alguns dos principais usos do rizoma da planta no gráfico abaixo:

Uso medicamentoso

Maria Angélica Fiut, nutricionista, fitoterapeuta e presidente da ABFIT, afirma que a cúrcuma tem uso medicamentoso e apresenta potencial anti-inflamatório. “Ela acaba trabalhando nos marcadores inflamatórios que temos no corpo, reduzindo o processo inflamatório. Tem medicamento, inclusive, pronto da indústria, que é de cúrcuma, como o Motore (da Aché).”

O professor Cristiano Augusto Ballus, do Departamento de Tecnologia e Ciência dos Alimentos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pontua que há diversas publicações indicando benefícios da cúrcuma – sobretudo de um de seus compostos, a curcumina – porém carecem de mais estudos antes de apontá-la como benéfica para a covid.

Doutor em Ciência de Alimentos, ele relata que um artigo de revisão publicado recentemente no periódico Journal of Functional Foods resume algumas das evidências científicas relacionadas a ensaios com extratos de cúrcuma, ou, então, com aplicação direta da curcumina. Na publicação, está descrita a possibilidade de a planta atuar na redução do risco de doenças cardiovasculares e diabetes, e ainda reporta, entre outras propriedades, melhora na atividade anti-inflamatória e na antioxidante.

“Essas evidências são muito interessantes e servem como base para a realização de mais estudos com número maior de participantes e monitorando diversas características metabólicas. Alguns ensaios foram realizados somente in vitro, ou seja, em laboratório, e posteriormente podem não ser significativos quando testados in vivo (com modelos animais ou com humanos)”, alerta Ballus.

Essa também é uma preocupação do professor Carlos Takeshi Hotta, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP). Ele é enfático ao observar que a cúrcuma é uma especiaria que muitos vinculam a efeitos anti-inflamatórios, apesar de não haver um estudo em grande escala para atestar essa indicação, demonstrando que não há consenso sobre o uso terapêutico da planta.

Eficácia contra a covid

Na postagem verificada, o autor sugere o uso de cúrcuma para o combate à covid-19, embora, até o momento, não haja nenhum medicamento ou produto, com indicação das autoridades sanitárias, que possa ser usado no chamado “tratamento precoce.” Ao contrário, o Comprova registrou, em mais de uma publicação, que em relação a algumas substâncias, inclusive, a ineficácia foi confirmada.

Por outro lado, há estudos sendo conduzidos sobre o uso da cúrcuma nos casos de covid. Mais uma vez, assim como a análise sobre outras propriedades da planta, ainda incipientes.

Maria Angélica Fiut afirma que há muitas pesquisas sendo desenvolvidas, devido ao potencial anti-inflamatório, porém estão todas em estágios iniciais, a maioria in vitro (laboratório). Não há ainda uma validação ou eficácia comprovada.

“Não dá para afirmar que a cúrcuma combate a covid. Conhecemos muito pouco da doença, então, não podemos afirmar que algo possa ser usado contra ela com toda a certeza”, adverte.

O professor Carlos Takeshi Hotta afirma que há pesquisas sobre o uso da cúrcuma, associadas à piperina (substância presente na pimenta-do-reino), para avaliar seus efeitos em relação à doença, porém pequenas demais para se alcançar um resultado conclusivo.

“Esse estudo envolveu humanos – 70 pacientes tratados com cúrcuma e piperina, 70 não tratados. É muito pouco. Este é o grande problema da cúrcuma: há muitos artigos científicos propagando a sua eficácia, mas poucos dados de qualidade apoiando-a”, constata.

Com doutorado em Ciência das Plantas pela University of Cambridge, Carlos Hotta observa ainda que o princípio ativo da cúrcuma é pouco absorvido pelo organismo e rapidamente eliminado. Isso, segundo o professor, já é um indício de que a ação da cúrcuma no corpo é improvável. “Muitos tentam minimizar essa condição combinando com outras substâncias e, por isso, usam a piperina”, aponta.

Uma das pesquisas para investigar os possíveis efeitos da cúrcuma contra a covid-19 é da UFPR, coordenada pela professora Juliana Bello Baron Maurer, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular e do Núcleo Paranaense de Pesquisa Científica e Educacional de Plantas Medicinais (NUPPLAMED).

A pesquisa se baseou, afirma a professora, nas propriedades antivirais e anti-inflamatórias da planta, que já eram conhecidas antes da covid. O estudo partiu da pergunta: será que fitoterápicos e/ou seus produtos na forma de nanoformulações podem ser uma alternativa terapêutica para enfrentamento da covid-19 e síndromes respiratórias agudas graves?

No entanto, Juliana Maurer destaca que estão finalizando a fase 1- e ainda são necessárias outras duas etapas antes de se chegar a algum resultado conclusivo sobre a possibilidade de a cúrcuma servir no combate à doença. O que há são evidências que as espécies selecionadas – a Salvia officinalis L (sálvia) também está sendo estudada – podem ser uma alternativa promissora no desenvolvimento das formas terapêuticas.

“É uma irresponsabilidade de um profissional indicar um produto, seja natural ou não, para a covid. Além disso, temos muito conhecimento sobre a cúrcuma e, mesmo sendo um produto natural, tem contraindicações”, frisa Juliana Maurer.

Ela destaca ainda que a maioria dos estudos avalia o composto curcumina, e, “apesar de a cúrcuma ser uma planta fantástica, a gente absorve uma quantidade pequena, tendo um efeito mais a longo prazo. No caso de infecções agudas, sabe-se que os fitoterápicos não são a forma mais adequada para tratamento porque os sintomas aparecem muito rapidamente.”

Dosagem e contraindicações

A cúrcuma faz parte da lista de drogas vegetais inseridas no formulário de fitoterápicos da Anvisa – documento que traz os padrões de qualidade para a produção de medicamentos fitoterápicos. É recomendado o uso de diferentes quantidades, conforme o problema a ser tratado. Em outro documento da Anvisa, de 2010, é indicado o uso de rizomas por meio de decocção (técnica na qual o material vegetal é fervido, coado e depois consumido na forma de chá): 1,5 g (3 colheres de café) em 150 mL (1 xícara de chá).

No formulário de fitoterápicos, também há uma lista de contraindicações, como, por exemplo, para casos de obstrução dos dutos biliares, de úlcera gastroduodenal e durante a gestação, lactação e menores de 18 anos.

Independentemente da dosagem, Carlos Hotta reforça que é muito arriscado à saúde utilizar substâncias sem evidências científicas fortes, no caso a cúrcuma, para combater uma doença como a covid-19.

Cristiano Ballus acrescenta que a população precisa compreender que, no momento, não há “tratamento precoce” para a covid-19. “Alguns medicamentos para tratamento foram autorizados pela Anvisa, porém normalmente para os casos graves que estão hospitalizados. Sendo assim, a melhor maneira de prevenir o contágio é mantendo as recomendações de uso de máscara, limpeza frequente das mãos com água e sabão ou álcool em gel e distanciamento social, evitando aglomerações.”

Quem é o autor do post?

Marcos Falcão Farias Monte é médico com registro no Conselho Regional de Medicina do Estado de Alagoas, sob o número 8608-AL. A primeira inscrição na entidade é de 15 de dezembro de 2020. Não há especialidades registradas.

Em seu perfil nas redes sociais, ele descreve que faz telemedicina e oferece tratamento imediato e ainda se apresenta como ativista político. Marcos Falcão já teve outro conteúdo verificado pelo Comprova, no qual afirmava que a ivermectina era um remédio “enviado por Deus” e seguro em altas doses, o que se mostrou enganoso – nenhum medicamento é seguro fora das doses estipuladas

As postagens que fez sobre a cúrcuma já não estão mais disponíveis nos perfis do Instagram e do Twitter. Em uma das páginas que o médico mantém no Instagram, ele informa que o perfil principal foi banido pela rede social e menciona que também sofreu sanção do YouTube, mas não diz por quais publicações recebeu as punições e atribui à influência que exerce sobre seus seguidores.

Marcos Falcão foi procurado pelo Comprova por e-mail, porém, não deu retorno.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal ou a pandemia que tenham atingido alto grau de viralização. A postagem do médico chegou a ter 6,5 mil interações.

Conteúdos imprecisos sobre medicamentos “milagrosos” que supostamente combatem o coronavírus podem fazer com que a população acredite e use produtos indevidamente, podendo agravar o quadro de infecção ou levar a outros problemas de saúde. Não existe “tratamento precoce” para a covid-19 e a desinformação oferece risco porque, se as pessoas acreditarem, deixam de adotar os cuidados necessários para se prevenir.

O Comprova já demonstrou, por exemplo, ser enganoso que o uso de hidroxicloroquina seja eficaz contra a covid-19 e que a Universidade de Oxford tenha encontrado ‘fortes indícios’ da eficácia da ivermectina para a doença. Até o momento, as medidas defendidas pelas autoridades sanitárias continuam sendo a vacinação, que também já foi alvo de boatos e desinformação, o uso de máscaras, distanciamento social e higienização frequente das mãos.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

 

Pandemia

Investigado por:2021-07-07

Infecção de Rodrigo Faro não prova ineficácia da vacina contra a covid-19

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa uma postagem no Instagram que questiona a eficácia da vacinação contra a covid-19 ao mostrar fotografias do apresentador Rodrigo Faro, que testou positivo para a doença uma semana após ter sido imunizado. Especialistas ouvidos pelo Comprova explicam que a proteção completa e ideal só ocorre em torno de duas a três semanas após a segunda dose.
  • Conteúdo verificado: Publicação no Instagram apresenta montagem com duas fotos do apresentador Rodrigo Faro, uma no dia 25 de junho de 2021, quando ele foi imunizado contra a covid-19, e outra no dia 3 de julho de 2021, no leito de um hospital após ser contaminado. A legenda “mais um famoso mostrando a eficácia da vacina!” ironiza a imunização contra a doença, dando a entender que ela não funciona.

Uma publicação enganosa no Instagram sugere que a vacina contra a covid-19 pode ser ineficaz porque o apresentador de TV Rodrigo Faro testou positivo para o Sars-CoV-2 sete dias após receber a primeira dose do imunizante. Pelo período entre a vacinação e o surgimento dos sintomas, entretanto, é possível que Faro já estivesse infectado antes de se vacinar, considerando que a doença pode levar até 14 dias após o contato com o vírus para se manifestar.

Além disso, especialistas ouvidos pelo Comprova assinalam que cada dose leva em torno de duas semanas para produzir a resposta imune. A maioria das vacinas aplicadas no Brasil (Coronavac, Astrazeneca e Pfizer) também exige duas doses para completar o esquema vacinal e, nestes casos, a pessoa só poderia ser considerada imunizada 15 dias após receber a segunda dose. No país, apenas a Janssen é de única aplicação. A assessoria de Faro foi procurada, mas não informou que vacina o apresentador recebeu.

Os especialistas também ressaltam que cada vacina tem diferentes percentuais de eficácia e que a proteção contra o vírus depende da genética e do sistema imune de cada indivíduo. O aparecimento de novas variantes, como a Gama, que surgiu no Brasil, ou a Delta, já identificada em território nacional, também pode ter um papel na contaminação de pessoas já vacinadas, uma vez que os imunizantes foram desenvolvidos para proteger contra o vírus original e a eficácia diante das novas cepas ainda está sendo estudada.

Por isso, mesmo pessoas que tenham completado o esquema vacinal devem manter medidas para evitar o contágio, como o uso de máscara, o distanciamento social e a higienização das mãos até que a transmissão do vírus seja contida no país.

A página @ o_desesquerdizador, que publicou originalmente o conteúdo, afirma que em nenhum momento escreveu que a vacina não funcionava; apenas levantou uma dúvida, tendo em vista a data da vacinação. Procurada, a página @ transdedireita_of, que replicou a postagem, não respondeu ao Comprova.

Como verificamos?

Procuramos o perfil de Rodrigo Faro nas redes sociais e reportagens na imprensa para entender quando ele foi vacinado e quando passou a apresentar sintomas. A assessoria do apresentador foi procurada para mais detalhes, mas não respondeu ao Comprova.

Com base nisso, buscamos informações em sites de órgãos públicos e em verificações anteriores do Comprova sobre o funcionamento do esquema vacinal e a eficácia das vacinas contra a covid-19 aplicadas no Brasil.

Também entrevistamos o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, e a médica infectologista Sylvia Lemos Hinrichsen, consultora em biossegurança, para entender se é possível as pessoas serem infectadas após receberem os imunizantes.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 7 de julho de 2021.

Verificação

Vacinação e contaminação

Conforme amplamente divulgado pela imprensa , (Terra, Estadão, Isto É, Folha)  Rodrigo Faro testou positivo para covid-19 no dia 2 de julho, uma semana após receber a primeira dose da vacina contra a covid, em 25 de junho.

A penúltima publicação dele no Instagram, no dia 3, é de uma foto na qual aparece deitado em um leito hospitalar, utilizando uma máscara de proteção, com a legenda “vai dar tudo certo”.

Pouco mais de uma semana antes, no dia 25, o artista postou uma foto sendo imunizado e comemorando ter recebido a vacina, aos 47 anos. Não há, nas publicações, referências à qual vacina ele recebeu. O Comprova solicitou essa informação à assessoria dele, mas não foi respondido. No dia 6 de julho, o artista fez nova publicação, desta vez em casa.

Apesar da publicação aqui verificada ironizar o fato de o apresentador ter adoecido após a vacinação, especialistas ouvidos pelo Comprova lembram que a imunização total só ocorre 14 dias após a última dose aplicada. Além disso, nenhuma vacina desenvolvida contra a doença até o momento possui 100% de eficácia.

Em entrevista concedida ao Comprova, Juarez Cunha, da SBIm, afirma que em locais como o Brasil, onde há alta carga da doença, têm sido observados casos de pessoas infectadas com covid-19 mesmo após a vacinação. Porém, a tendência é terem quadros mais leves. “Ser vacinado, mesmo com uma ou duas doses, não significa uma proteção total, mas uma chance muito grande de proteção contra a forma grave da doença”, observa.

Conforme o especialista, artigos científicos têm demonstrado que entre duas e três semanas após a primeira dose já se tem uma proteção considerável com as vacinas utilizadas no país.

Outro detalhe apontado pelo médico é a existência do escape vacinal em relação a qualquer vacina e em qualquer situação onde há muita circulação do vírus. ”Ou seja, mesmo as pessoas vacinadas podem ter a doença. O escape vacinal não significa que a vacina não está protegendo; ela protege contra formas mais graves”, diz.

Na mesma linha, a médica Sylvia Lemos Hinrichsen afirma que o organismo começa a produzir anticorpos de 14 a 15 dias após cada dose. “Há pessoas que se vacinam já infectadas e apresentam em até sete dias a doença”.

De acordo com ela, nestas brechas de tempo até que a produção de anticorpos seja iniciada, muitas pessoas estão se reunindo e relaxando em relação aos cuidados com a prevenção, como o uso de máscara, a lavagem das mãos e o distanciamento social. “Pessoas vão para restaurantes, tiram a máscara, comem, ficam em lugares fechados. As pessoas se aglomeram mesmo com quatro, cinco, seis pessoas… e aí existem as brechas”, afirma.

A médica recorda, também, que as vacinas não são 100% eficazes. “Existem margens (de eficácia) porque depende de cada pessoa e da produção de anticorpos de cada uma, da genética e das exposições. Ainda temos como agravante que essas vacinas não foram preparadas para as mutações, elas foram preparadas para um coronavírus que depois passou por mutações. E podem existir brechas, principalmente se as pessoas entram em contato com outras pessoas. Elas podem ter contato, inclusive, com pessoas assintomáticas e transmissíveis”, resume.

De acordo com Sylvia, a diminuição da contaminação depende da cobertura vacinal, ou seja, que um maior número de pessoas vacinadas gere a proteção de umas para as outras. “Desta forma, com uma população acima de 70% ou 80% vacinada, o vírus circula menos e, circulando menos, transmite-se menos e evita-se que as pessoas tenham possibilidade de adquirir a doença”.

Eficácia das vacinas aplicadas no Brasil

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Anvisa recomendam que a eficácia geral de uma vacina seja de, ao menos, 50%. A taxa de eficácia geral representa a proporção de redução de casos entre o grupo vacinado, comparado ao não vacinado nos testes clínicos. No Brasil, atualmente, quatro vacinas possuem autorização para aplicação. Dentre elas, a Astrazeneca tem em eficácia de 63,09%, a Pfizer de 95%, a Coronavac de 50,38% e a Janssen de 66,9%.

Sylvia Hinrichsen pontua que as vacinas são novas e ainda não se sabe com exatidão quanto tempo dura a proteção de quem foi imunizado. Por esse motivo, inclusive, a possibilidade de doses de reforço estão sendo estudadas. A médica destaca que os imunizantes foram aprovados em caráter emergencial e, alguns, em definitivo, passando por testes de primeira, segunda e terceira fase, que mostraram eficácia em grupos de estudo. A partir disso, em dezembro de 2020 começaram a ser aplicados na população mundial. “Ainda não chegamos a um ano (de imunização). Não sabemos quanto tempo essas vacinas vão ficar protegendo as pessoas. O que se tem agora são estudos prospectivos em cima de hipóteses”.

Outras medidas devem ser mantidas

Após os Estados Unidos liberarem pessoas imunizadas de utilizarem máscaras e de respeitarem o distanciamento social, a OMS se posicionou sustentando que o uso obrigatório do equipamento de segurança não deve levar em conta apenas a imunização. Conforme o diretor-executivo da entidade, Michael Ryan, é fundamental levar em conta a transmissão comunitária antes de relaxar medidas antitransmissão.

A médica Sylvia Hinrichsen concorda, lembrando que os efeitos da vacina são coletivos, e não individuais. “É uma ação coletiva. Eu posso estar vacinado e ir para uma área onde existam riscos e pessoas assintomáticas ou sintomáticas, que me transmitam a possibilidade de eu me reinfectar. Infelizmente, nós vamos ter que conviver com esse vírus e com medidas restritivas, flexibilizadas ou não; e com medidas como a higienização das mãos enquanto não tivermos um bom número de pessoas vacinadas”, sustenta.

Ela apresenta como exemplo o caso de Israel, que restabeleceu recentemente a obrigação de usar máscara em lugares públicos fechados e em empresas, após aumento dos casos de covid-19 mesmo com mais da metade do país tendo recebido as duas doses da vacina. “Uma opinião minha pessoal é que as pessoas devem manter as restrições até se ter um maior número de pessoas vacinadas, mais de 70% ou 80%”.

Também defendendo a continuidade da adoção de medidas protetivas paralelas à vacinação, Juarez Cunha destaca a existência de variantes, o que deixa a cobertura vacinal menor. “Por isso é importante que mesmo as pessoas vacinadas continuem se cuidando”.

Autores do post

A postagem aqui verificada foi feita no Instagram pelo perfil @ transdedireita_of, que se define como transexual de direita, conservadora, cristã e apoiadora do presidente Jair Bolsonaro. O Comprova entrou em contato via mensagem direta, mas não obteve resposta.

A foto publicada, entretanto, possuía o selo da conta @ o_desesquerdizador, também na plataforma, onde a equipe localizou a mesma postagem com a legenda “nada contra Rodrigo Faro, apenas mais um famoso mostrando a eficácia da vacina”.

Este afirma ser um site de notícias e mídia para “desesquerdizar com fatos e humor e ajudar restaurar a ordem e o progresso desse país, destruídos por socialistas”.

O perfil também foi procurado e respondeu que em momento algum está escrito na publicação que a vacina não funciona ou que o apresentador foi contaminado pelo imunizante, acrescentando ter publicado um fato: “ele testou positivo uma semana após se vacinar mesmo sendo adepto de máscaras e distanciamento social”.

O responsável pela conta defendeu, ainda, ser válida a dúvida em torno da contaminação do apresentador “mesmo seguindo todas as regras que vocês pregam”, afirmando ter feito o post dentro da liberdade de expressão garantida pela Constituição Brasileira.

Por que investigamos?

Atualmente em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre a pandemia e sobre políticas públicas do governo federal. Conteúdos que falem sobre vacinas ou tratamentos contra o novo coronavírus são ainda mais necessários, já que eles podem induzir as pessoas a recusar medidas de prevenção e se expor a riscos durante a pandemia.

O conteúdo verificado aqui teve 7.776 curtidas no Instagram e mais de 500 compartilhamentos no Facebook. No primeiro perfil em que foi postado, recebeu mais de 4 mil curtidas e 324 comentários.

O Comprova já mostrou que as vacinas usadas no Brasil passaram por testes de segurança e eficácia; que são enganosas as postagens afirmando que quem tomou CoronaVac se protegeu pela metade; que um imunizante não precisa ser estudado por dez anos para ser seguro; e que a OMS não recomendou a aplicação de uma terceira dose da CoronaVac.

A AFP Checamos verificou com um conteúdo semelhante no Twitter.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda aquele que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-07-06

Doses da Janssen doadas pelos EUA ao Brasil estavam aptas para uso e foram aprovadas pela Anvisa

  • Enganoso
Enganoso
Doses de vacinas da Janssen doadas pelos Estados Unidos ao Brasil não estão estragadas. Os imunizantes foram considerados seguros pelas autoridades sanitárias dos dois países, e a extensão do prazo de validade considerou a qualidade da vacina armazenada nas condições adequadas por até 4 meses e meio.
  • Conteúdo verificado: Vídeo publicado no Instagram, no qual uma mulher diz que a vacina da Janssen estaria sendo recusada pelos americanos por questões de segurança e que os Estados Unidos estenderam o prazo de validade de imunizantes prestes a vencer para, em seguida, doar 3 milhões de doses ao Brasil.

Um vídeo publicado no Instagram engana ao relacionar a extensão da validade de vacinas da Janssen, subsidiária da Johnson & Johnson, com a doação de doses pelos Estados Unidos para outros países – incluindo o Brasil.

Em junho, os imunizantes, em um procedimento usual, tiveram o prazo de validade estendido, com base em estudos contínuos apresentados pela fabricante. Os dados, segundo a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que também autorizou a prorrogação, indicam que as vacinas podem ser armazenadas por até 4 meses e meio – e não apenas 3, como originalmente previsto – na temperatura indicada.

Ao contrário do que afirma a autora do vídeo no Instagram, as doses também não estão “sobrando” nos Estados Unidos porque há dúvidas sobre a sua segurança. A aplicação dos imunizantes foi paralisada em abril, por 10 dias, para que fosse investigada a possível conexão entre a vacina e a formação de coágulos sanguíneos – registrada em seis pessoas. A apuração concluiu que o imunizante é seguro e a vacinação foi retomada. Desde então, o número de pessoas que tomaram a vacina nos Estados Unidos quase dobrou.

Além disso, a política dos Estados Unidos de doação de doses de vacinas a outros países inclui imunizantes de outros laboratórios, como a Pfizer, e foi adotada também por pressão internacional. Isso porque, em um cenário em que faltam doses em várias partes do mundo, os Estados Unidos já têm, desde março, o suficiente para imunizar totalmente o triplo da sua população adulta.

A autora do vídeo foi procurada pelo Comprova, mas não respondeu. Em vídeo posterior publicado no Instagram, Amanda Possamai proferiu ofensas contra a repórter do Comprova. Também negou ter dito que “as picadas estavam estragadas”, embora ela tenha dito no vídeo que as vacinas estariam estragando ao menos duas vezes.

Como verificamos?

Consultamos as notícias citadas pela autora da publicação para verificar o contexto das informações ditas no vídeo. Também procuramos os posicionamentos oficiais dos órgãos reguladores sobre os fatos mencionados.

Por fim, entramos em contato com a autora do vídeo. Ela bloqueou a repórter do Comprova e publicou um vídeo com ofensas à jornalista.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 6 de julho de 2021.

Verificação

Suspensão temporária das vacinas Johnson & Johnson

A autora do vídeo diz que “essa picada da J&J foi pausada aqui nos Estados Unidos por um período de tempo porque ela estava causando trombose, inclusive uma pessoa morreu. Então, o FDA e o CDC suspenderam a aplicação para fazer mais estudos”.

Isso realmente aconteceu. Em 13 de abril, o Centro de Controle de Doenças (CDC) e a FDA emitiram uma nota conjunta para sugerir uma pausa temporária na aplicação da vacina produzida pela Johnson & Johnson. A medida foi tomada após o relato de seis pessoas vacinadas que teriam desenvolvido uma mistura rara de coágulos sanguíneos com baixo número de plaquetas. Todas eram mulheres e tinham entre 18 e 48 anos.

Naquela altura, 6,8 milhões de pessoas já haviam recebido a vacina Janssen, ou seja, era menos de um caso por milhão de vacinados. Poderia ser um efeito colateral extremamente raro, por isso era preciso que os técnicos da FDA e do CDC verificassem se as vacinas tinham causado os incidentes. Assim, foi sugerida a pausa, até que a situação se esclarecesse.

Vacinas passam por rigorosos estudos clínicos, com milhares de voluntários, para comprovar sua eficácia e segurança. Mesmo assim, o monitoramento da saúde da população permanece após o imunizante estar sendo usado. Os principais órgãos de saúde do mundo mantêm plataformas nas quais as pessoas podem relatar quaisquer efeitos adversos que tenham tido depois de receber uma vacina. Faz parte do processo de segurança.

Esses dados recebidos possuem uma relação temporal com o imunizante, isto é, são relatados após um imunizante ser aplicado. No entanto, é preciso verificar se ele possui também uma relação causal, ou seja, se foi a vacina que causou aquele evento adverso. Muitos relatos acabam sendo descartados por não terem relação com o imunizante.

Conclusão

A análise dos dados durou dez dias. Em 23 de abril, os dois órgãos concluíram que os casos de coágulos estavam, sim, relacionados ao imunizante. No entanto, reconheceram que a chance deles ocorrerem é “muito baixa” e determinaram a retomada da aplicação da vacina.

“A FDA considera que os benefícios conhecidos são maiores do que os riscos conhecidos em indivíduos acima dos 18 anos”, disse a agência. Ela também anunciou que manteria o sistema de vigilância para detectar eventuais aumentos nos riscos trazidos pelo imunizante.

A análise resultou numa revisão dos documentos informativos direcionados aos funcionários da saúde. Isso porque o tipo de coágulo causado pela vacina é muito raro e exige uma forma de tratamento diferente da convencional.

A autora da postagem segue no vídeo dizendo que, mesmo após a retomada da vacinação com a Johnson & Johnson, “ninguém queria tomar; e a picada começou a estragar”. Para sustentar seu argumento, ela mostra a matéria “Estados avisam que doses da J&J podem vencer em breve e a Casa Branca demanda que eles consultem a FDA”, do jornal New York Times, de 8 de junho.

A reportagem diz que os estados americanos alertaram para a possibilidade de vencimento das doses da Johnson & Johnson, enquanto a FDA analisava os testes de estabilidade conduzidos pela farmacêutica para averiguar a possibilidade de extensão do prazo de validade. Em nenhum momento há a informação de que as doses teriam ficado encalhadas por uma suposta negativa da população. Há, sim, a informação de que a procura por doses no geral despencou conforme parcela expressiva da população passou a ser imunizada. Alguns estados também reclamam que as leis do país impedem o envio de vacinas para outras unidades mais necessitadas ou até mesmo para outros países.

A desconfiança da população em relação ao imunizante apareceu em uma pesquisa feita a pedido do jornal Washington Post e da emissora ABC News que mostrou que pouco menos da metade dos entrevistados considerava o imunizante seguro. A pesquisa ouviu 1.007 adultos entre 18 e 21 de abril, quando a aplicação ainda estava sob revisão e não havia sido retomada.

Mesmo assim, dados do CDC mostram que a imunização com esta vacina quase dobrou desde então. Até esta terça-feira (6), 12,6 milhões de pessoas nos Estados Unidos já haviam sido vacinadas com imunizantes da Johnson & Johnson.

 

Existem vacinas estragadas nos Estados Unidos?

A responsável pelo vídeo fala que, em 8 de fevereiro, “a FDA diz para a J&J jogar 60 milhões de doses fora porque estavam com problema de contaminação”. A reportagem, da emissora NBC News, é verdadeira, mas foi publicada em 11 de junho e no próprio texto há a explicação. Segundo comunicado da FDA, alguns lotes da vacina foram contaminados na fábrica da Emergent BioSolutions, em Baltimore, com substâncias usadas para fazer a vacina da AstraZeneca, também produzida no local entre agosto de 2020 e abril de 2021. A própria Janssen notificou a FDA, no dia 26 de março deste ano, avisando que havia detectado a irregularidade.

Após revisão completa dos registros das instalações e dos resultados dos testes de qualidade realizados pelo fabricante, em 11 de junho, a FDA autorizou o uso, no contexto de emergência de saúde pública causada pela pandemia, de dois lotes da vacina – não especificam a quantidade de doses – fabricada nas instalações da Emergent BioSolutions, em Baltimore. No comunicado, a agência afirma que “concluiu que esses lotes são adequados para uso. Embora a FDA ainda não esteja pronta para incluir a fábrica da Emergent BioSolutions na Janssen EUA como uma instalação de manufatura autorizada”. Outros lotes produzidos na fábrica não foram considerados adequados para uso e alguns ainda estão sendo avaliados.

De acordo com a determinação da agência, os dois lotes autorizados poderiam ser usados nos EUA ou exportados para outros países. No entanto, afirma que a condição para qualquer exportação desses lotes é que a Janssen e a Emergent devem concordar que a FDA compartilhe informações sobre a fabricação dos lotes com as autoridades regulatórias dos países em que a vacina for usada. “Isso fornecerá informações relevantes para as autoridades que desejam fazer seu próprio julgamento sobre a adequação desses dois lotes para uso em seus países”. As três milhões de doses que chegaram ao Brasil, no dia 25 de junho, segundo a Casa Branca, são seguras, foram liberadas pela FDA e vieram do fornecimento que os Estados Unidos tinham imediatamente disponível.

Extensão do prazo de vencimento

Por fim, a autora do post fala que “a picada ia vencer em 23 de junho, mas, de repente, o FDA aparece e estende em seis semanas a data de validade” e que “aí com essa novidade, os Estados Unidos irão doar 3 milhões de doses da J&J”.

No dia 10 de junho, a Johnson & Johnson recebeu o aval das autoridades sanitárias dos Estados Unidos para ampliar o prazo de vencimento das vacinas contra a covid-19 da Janssen. Segundo um comunicado divulgado pela empresa, testes contínuos de durabilidade dos imunizantes demonstraram que elas mantêm a qualidade quando armazenadas num período de até 4 meses e meio a temperaturas entre 2 e 8 graus celsius.

O procedimento de extensão da validade de insumos é comum. A FDA, órgão dos Estados Unidos com atribuições similares às da Anvisa, possui um programa próprio para esse tipo de ação, chamado SLEP (Shelf-Life Extension Program), ativo desde 1986. Por meio dele, é possível que empresas encomendem ao órgão a realização de testes que avaliam a possibilidade de ampliação da data de validade inicialmente prevista. A ideia é que medicamentos, vacinas e produtos médicos em geral que precisem ser estocados em grande quantidade não tenham que ser jogados fora sem necessidade, caso ainda estejam em plenas condições de uso.

No caso da vacina da Janssen, tratou-se de uma reavaliação feita pelo próprio fabricante – também num procedimento comum – e analisada posteriormente pela FDA. Esse tipo de autorização depende de dados que comprovem a qualidade do produto em estudos a longo prazo, colhidos em diferentes lotes.

Depois da autorização nos Estados Unidos, o laboratório requisitou à Anvisa a mesma extensão. Segundo a agência, a decisão da diretoria colegiada do órgão, que autorizou a medida, levou em consideração “uma criteriosa avaliação dos dados de qualidade dos estudos que demonstrou que a vacina tende a se manter estável pelo período (4,5 meses), bem como considerou decisão da agência norte-americana”.

A definição vale não apenas para as doses que já foram produzidas e entregues aos países, mas também para os imunizantes que ainda serão fabricados – como os 38 milhões de doses adquiridos pelo governo brasileiro, que chegarão ao país até novembro. Desse contrato, o Brasil recebeu, até agora, 1,8 milhão de doses que chegaram nos dias 22 e 24 de junho. Esses lotes tinham a previsão de vencimento inicial para o dia 27 de junho, e tiveram o envio autorizado pela FDA.

Nos Estados Unidos, segundo uma reportagem da NBC, do dia 8 de junho, mais de 10 milhões de doses de vacinas da Janssen que haviam sido distribuídas aos estados até o começo de março ainda não haviam sido aplicadas no começo de junho, quando se aproximavam da data de validade até então vigente.

O Comprova consultou, no dia 5 de julho, a mesma base de dados usada na reportagem, do Center for Disease Control and Prevention (CDC), e verificou que o número de vacinas da Janssen distribuídas no país era o mesmo: 21.434.300. O número de aplicações do imunizante, porém, aumentou, de 11,1 milhões para 12.617.454. Isso significa, portanto, que mais de um milhão e meio de americanos foram imunizados com as doses que tiveram o prazo de validade ampliado, enquanto 8,8 milhões de doses dos mesmos lotes ainda estão disponíveis para serem utilizadas nos estados.

Vacinas doadas pelos EUA

Em março, o governo norte-americano já havia comprado doses de vacinas suficientes para imunizar 750 milhões de pessoas – três vezes a população adulta do país – e em meio à escassez de doses em outras partes do mundo, passou a enfrentar pressão internacional para que os imunizantes em excesso fossem enviados a outros países.

Os Estados Unidos doaram vacinas da Janssen para o Brasil e a Colômbia, mas não há informações sobre o lote exato dos imunizantes. No caso do Brasil, porém, as quase 3 milhões de vacinas estavam entre aquelas que venceriam no dia 27 de junho, mas tiveram o prazo estendido. As doses chegaram no Brasil em 25 de junho, quando o país já tinha recebido as primeiras remessas adquiridas junto ao laboratório.

Até março de 2021, a administração Biden havia encomendado 100 milhões de doses do imunizante à Johnson & Johnson, e planejava adquirir mais 100 milhões de vacinas – mesmo já tendo doses suficientes, de outras farmacêuticas, para imunizar toda a população.

O governo Biden também doou imunizantes – cujo fabricante não foi especificado – para Honduras, por meio do consórcio Covax, liderado pela OMS, e se comprometeu a enviar para outros países, também por meio do consórcio da Organização Mundial da Saúde, um total de 200 milhões de doses de vacinas da Pfizer até o final de 2021. No ano que vem, a promessa é do envio de mais 300 milhões de doses.

Quem é a autora do vídeo

Em seu Instagram, Amanda Possamai diz que mora nos Estados Unidos e se apresenta como consultora de imagem. Ela já publicou outros vídeos enganosos sobre imunizantes, como a alegação de que pessoas estariam ficando com o braço magnetizado após a aplicação. Como o Comprova já mostrou, as vacinas não possuem nenhum elemento em sua composição que permita o efeito.

Procurada pelo Comprova, Amanda bloqueou a repórter e publicou um vídeo no qual profere ofensas a ela. Também diz que “em nenhum momento eu falei que as picadas estavam estragadas”, embora ela faça essa afirmação em duas situações, como já citado. Ela continua: “Eu apresentei fatos, mostrei notícias de todo o percurso dela aqui nos Estados Unidos e que ela iria vencer dia 23 de junho, final do mês, e que eles estenderam o prazo de validade dela”.

Por que investigamos?

Em sua 4ª fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. O vídeo verificado foi visto ao menos 44 mil vezes no Instagram.

Conteúdos imprecisos sobre vacinas enfraquecem a confiança da população nos imunizantes e atrapalham a principal estratégia atualmente disponível para combater a pandemia. O Projeto Comprova já mostrou que agências reguladoras negam risco de infertilidade de vacinados com imunizantes que utilizam a tecnologia de mRNA.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.