O Projeto Comprova reúne jornalistas de 28 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
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Confira boatos sobre eleições verificados pelo Comprova

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Eleições Municipais
Nas eleições municipais de 2020, é importante estarmos atentos para conteúdos suspeitos que circulam nas redes sociais.

Antes de tudo, vale lembrar: não compartilhe nada que você não tenha certeza ser verdade. Caso tenha dúvida, o Comprova pode ajudar. Selecionamos a seguir vários conteúdos que já verificamos sobre eleições.

Caso receba algum conteúdo duvidoso e acha que deveríamos checar a sua veracidade, você pode nos encaminhar pelo WhatsApp. Clique aqui para enviar, ou adicione o número 11-97795-0022 na sua agenda.

Alguns temas são recorrentes, como as urnas eletrônicas e possíveis fraudes nas votações. Por isso, também incluímos várias verificações que fizemos durante o período eleitoral de 2018.

Veja alguns conteúdos que temos verificado a respeito: 

Últimas sobre as eleições 2020:

É falso que cabos eleitorais de Sarto tenham transportado urna adulterada: Vídeo mostra urna conduzida em uma picape cedida à Justiça Eleitoral pelo DNOCS, no Ceará. O equipamento é uma urna de contingência, utilizada para substituir unidade que apresentou defeitos no início da votação.

É falso que Manuela D’Ávila tenha liderado protestos no Carrefour de Porto Alegre: Ao contrário do que uma postagem sugere, a rede de supermercado Carrefour nunca anunciou fechamento ou demissão de seus funcionários.

É falso que hacker tenha atacado sistema de votos do TSE: Os dados vazados eram da área de Recursos Humanos e os hackers não chegaram a invadir o sistema de apuração dos votos ou as urnas eletrônicas. Além disso, a urna não é conectada à internet. O sistema operacional instalado nela impede a conexão com qualquer rede ou acesso remoto.

Bolsonaro não se beneficiou de fraude eleitoral em 1994: Notícia de 1994 compartilhada agora nas redes sociais é verdadeira, mas não indica qualquer evidência de que Bolsonaro tenha participado da fraude. Nas eleições daquele ano, ele foi o terceiro candidato mais votado no Rio de Janeiro.

Diferença entre resultados de pesquisa e de eleição não implica fraude: Embora o resultado da eleição não tenha confirmado os índices de uma pesquisa feita para a Prefeitura de Porto Alegre em 14 de novembro, a consulta confirmou os dois nomes que já vinham liderando as pesquisas anteriores. Além disso, a desistência de um dos candidatos na semana da eleição pode ter provocado mudanças nas intenções de voto.

Panfletos distorcem frase de Marília Arraes sobre a Bíblia: Os conteúdos verificados foram retirados de contexto para dar a entender que a petista seria contra a Bíblia, mas escondem que a frase destacada envolvia uma defesa do estado laico e não uma ação anti-Bíblia.

Vídeo retira de contexto frase de Ana Arraes sobre ‘agressão’ do neto João Campos: Vídeo compartilhado no WhatsApp e Instagram reproduz alguns segundos de uma entrevista de 14 minutos em que Ana Arraes se queixa de uma briga pública entre seu neto João Campos, candidato à Prefeitura de Recife, e o advogado Antônio Campos, presidente da Fundação Joaquim Nabuco. Antônio é filho de Ana Arraes e tio do candidato.

É falso que Boulos tenha cobrado aluguel de moradores sem-teto: Postagem no Facebook faz referência ao edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou em 2018 após um incêndio causado por um curto-circuito, mas o imóvel era ocupado pelo Movimento Luta por Moradia Digna (MLMD), que não tem ligação com o Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), do qual Boulos era coordenador.

Software usado em urnas eletrônicas brasileiras não é o mesmo que dos EUA: O software usado nas urnas eletrônicas do Brasil foi integralmente desenvolvido e é mantido pela equipe técnica do TSE e não foi cedido para uso nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, ao contrário do que afirma jornalista em vídeo publicado no YouTube.

É falso que Boulos tenha falado em obrigar paulistano a receber morador de rua na pandemia: Postagem foi feita por perfil que tentava copiar a página real do político e foi suspenso pelo Twitter.

É falso que o TSE atualizou apuração baseado em informações de site de notícias: É o TSE que fornece informações da apuração aos sites de notícias e não o contrário, como afirma um vídeo publicado no Facebook. Também são falsas as afirmações de que “o resultado pode ser modificado após a votação” e que “os votos nulos e abstenções podem ser distribuídos para candidatos”.

É possível, sim, auditar e realizar recontagem dos votos, ao contrário do que afirma vídeo: Ao contrário do que afirma youtuber, existem várias formas de auditar o processo eleitoral brasileiro, antes, durante e após o pleito e a recontagem de votos é prevista no Código Eleitoral.

Sistema usado em vídeo para simular fraude não é o mesmo de urnas eletrônicas: Equipamento usado para simulação de fraude em um vídeo antigo que voltou a circular nas redes sociais não é uma urna eletrônica. É também falsa a informação de que três venezuelanos e um português seriam os responsáveis pela elaboração do código-fonte das urnas eletrônicas do Brasil.

Apuração da eleição brasileira é aberta a qualquer pessoa, ao contrário do que afirma post: Post sugere que apuração das eleições municipais deste ano foi secreta e que isso configura fraude, mas o processo é aberto e qualquer cidadão tem acesso aos resultados das seções eleitorais.

É falso que votos recebidos por candidata a vereadora no Tocantins tenham reduzido ao longo da apuração: Imagem que circula em publicações e vídeos em redes sociais foi manipulada digitalmente para representar uma votação que a candidata a vereadora em Palmas, no Tocantins, na realidade não obteve.

Votação estável ao longo da apuração não indica fraude em São Paulo: As porcentagens de votos válidos para cada candidato permaneceram estáveis durante a apuração porque não houve grande variação nos votos de cada zona eleitoral, como mostra a apuração do Comprova.

Justificativas dos eleitores não podem ser transformadas em votos válidos, como sugere tuíte: De acordo com o TSE, os votos registrados no dia da eleição e as justificativas de abstenções são registradas no mesmo banco de dados, mas são arquivos diferentes. Além disso, especialistas ouvidos pelo Comprova dizem que o vazamento de dados por um ataque hacker não seria capaz de alterar os resultados da eleição.

Ataque de hackers no sistema do TSE não viola segurança da eleição: Hackers expuseram dados administrativos antigos do TSE em links para download. Os bancos de dados acessados não têm, portanto, nenhuma relação com as eleições. Além disso, o sistema das urnas eletrônicas não funciona em rede.

Sobre urnas eletrônicas:

  • De 2020:

Sistema de voto eletrônico pode ser auditado, ao contrário do que afirma post: Há diversos mecanismos de auditoria e de verificação dos resultados que podem ser efetuados. Em 24 anos nenhum caso de fraude foi identificado e comprovado.

Ataque hacker ao STJ não é sinal de ameaça à segurança das urnas: Diferentemente de sistemas internos, como o do STJ, os equipamentos de votação são máquinas isoladas, sem qualquer conexão com a internet. 

É falso que apenas três países, inclusive o Brasil, utilizem urnas eletrônicas: Urnas eletrônicas são utilizadas em 15 países além do Brasil. Em Cuba, votações usam cédulas de papel.

Smartmatic, que forneceu urnas para a Venezuela, nunca vendeu aparelhos para o Brasil: A empresa atuou nas eleições de 2012, 2014 e 2016 no Brasil, mas em nenhuma dessas ocasiões forneceu urnas.

  • De 2018:

Códigos de urnas eletrônicas não foram entregues a venezuelanos: É falsa a informação de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) “entregou códigos de segurança das urnas eletrônicas para venezuelanos”.

Vídeo que faz acusação de fraude em urnas eletrônicas é enganoso: Imagens que mostram fiscais do TSE procurando – sem sucesso – as “mídias” das urnas, que deveriam estar nos envelopes, é enganosa, pois não dá o contexto da situação, nem explica a resolução do caso.

Forças Armadas não solicitaram ao TSE perícia nas urnas eletrônicas: Não é verdade que as Forças Armadas exigiram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma perícia nas urnas eletrônicas.

PF não apreendeu van com urnas eletrônicas adulteradas: É falso que a Polícia Federal (PF) tenha feito uma apreensão de uma van com urnas eletrônicas adulteradas e que a Rede Record tenha noticiado isso.

Número de Bolsonaro apareceu como “nulo” em vídeos porque eleitores votavam para governador: São enganosos dois vídeos em que eleitores, na cabine de votação, sugerem que existe falha nas urnas.

Denúncia de fraude em urnas no DF feita por PMs não se comprovou: Não foi comprovada fraude, ao contrário do que afirma um vídeo. A apuração do caso concluiu que houve “desconhecimento técnico” da pessoa responsável por enviar os dados de votação ao fim do dia.

Os 7,2 milhões de votos nulos não significam que houve fraude nas urnas: Os votos nulos contabilizados nas eleições 2018 não são resultado de mau funcionamento ou fraude nas urnas eletrônicas. Esses votos foram anulados pelos próprios eleitores.

Auditoria em urnas apreendidas no Paraná concluiu que não houve fraude: Mensagem que circulou no WhatsApp sobre comprovação de fraude nas urnas apreendidas em Curitiba era falsa. O Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) realizou auditoria e descartou a fraude.

É boato que urnas tenham sido apreendidas no Amazonas já preenchidas com votos para Haddad: São falsas as informações de uma corrente que afirma que quatro urnas eletrônicas foram apreendidas em um carro particular “preenchidas com voto para o Haddad com pelo menos 81%”.

Vídeo de urna com defeito em teclado não prova fraude em votação: São enganosas as publicações que apresentam um defeito no teclado de uma urna como prova de fraude. O problema nos botões foi identificado e o equipamento foi prontamente substituído.

 

Sobre fraudes em eleições:

  • De 2020:

Documento não prova fraude nas eleições de 2018 e nem comprova vitória de Bolsonaro no 1º turno: Denúncia de fraude nas eleições foi baseada em coleta equivocada de dados. É falso também que as urnas eletrônicas sejam produzidas na China, como afirma um vídeo.

  • De 2018:

Boletim de urna em que votação de Haddad é maior do que o total de eleitores é falso: A foto fora alterada digitalmente, como mostrou o Comprova ao revelar a imagem original.

Vídeo com suspeitas sobre eleições de 2014 usou lei matemática que não prova fraude: É enganoso o conteúdo de um vídeo baseado na “Lei de Benford”.

 

Sobre pesquisas eleitorais:

  • De 2018:

Pesquisador agiu corretamente ao não mostrar questionário de pesquisa eleitoral: Em vídeo, um homem denuncia pesquisa do Datafolha e diz que ela foi fraudada porque o pesquisador se recusou a mostrar o questionário. A acusação não procede.

Homem faz busca incorreta no TSE e diz que pesquisa do Datafolha não foi registrada: O homem preencheu os campos de busca de maneira errada e não conseguiu encontrar o registro da pesquisa.

Enquetes em redes sociais não têm valor científico e não valem como pesquisa eleitoral: A propagação de resultados de enquetes feitas nas redes sociais, mesmo que realizadas com uso de ferramentas de plataformas como o Facebook, contribui para a desinformação.

Mulher que acusa Ibope e Datafolha nunca foi funcionária e usa dados falsos sobre pesquisas: São falsas as afirmações de uma mulher em vídeo que circulou por redes sociais. Segundo ela, que diz trabalhar para os institutos de pesquisa Datafolha e Ibope, os resultados são fraudados.

 

Sobre o dia da votação:

  • De 2018:

Incluir número do candidato na assinatura ao votar pode levar à prisão e não permite confrontar os votos da urna, segundo o TSE: Um vereador do interior de São Paulo fez a sugestão, mas o TSE esclareceu que a atitude é proibida.

Voto não é invalidado se eleitor votar em um só cargo e optar por nulo ou branco nos demais: Escolher a opção branco para os demais cargos em disputa não faz com que o voto seja classificado como “parcial”.

Uso de camiseta com inscrição de candidato não anula voto: TSE anunciou que o uso de camisetas de candidatos está liberado.

 

Sobre leis e outros procedimentos eleitorais:

  • De 2020:

Tuíte engana ao dizer que o STF decidiu que voto impresso é inconstitucional: Na realidade, o STF não decidiu que o voto impresso era inconstitucional, mas sim um artigo da reforma eleitoral segundo o qual deveria ser feita a impressão de um comprovante após o voto nas urnas eletrônicas.

  • De 2018:

Impugnar não significa barrar candidatura, como sugere imagem “carimbada”: De acordo com o próprio TSE, impugnar é o ato de pedir o indeferimento do registro e não barrá-lo, como dá a entender a publicação.

Venezuelanos recém-chegados ao Brasil não podem tirar título eleitoral, muito menos votar: É falso o boato de que os venezuelanos que cruzam a fronteira estão recebendo ou tirando título de eleitor para votar nas eleições do Brasil.

Candidato não venceria no 1º turno com 35% dos votos válidos, como diz post enganoso: Para ganhar as eleições na primeira fase do pleito, os candidatos a cargos executivos devem ter 50% dos votos válidos mais um voto. 

Passo a passo

Investigado por:2020-06-16

Os 70 dias do Comprova na checagem de informações duvidosas sobre a covid-19

  • Relatório
Relatório
Jornalistas do Comprova fazem um relato do trabalho de verificação no período em que o projeto esteve dedicado exclusivamente à checagem de conteúdos suspeitos sobre o novo coronavírus

Quando começou o expediente especial do Projeto Comprova sobre o novo coronavírus, os checadores participantes se depararam com um desafio. Além de atender à precisão e ao rigor que as investigações propostas pela coalizão sempre exigiram, os jornalistas precisaram navegar em um cenário em que as informações sobre a pandemia mudavam rapidamente e a agenda de notícias falsas acompanhava as declarações e os posicionamentos governamentais.

À medida em que a comunidade científica se esforçava para produzir estudos em velocidade inédita e os órgãos de saúde de todo o mundo se organizavam para criar protocolos de enfrentamento à covid-19, o trabalho de separar os fatos das mentiras que circulam nas redes sociais se tornou ainda mais difícil.

Além de mais desafiadora, a verificação passou a ter outro nível de importância. Nestes novos casos investigados pelo Comprova, a desinformação está diretamente relacionada à saúde das pessoas.

Boatos sobre curas milagrosas e métodos preventivos não testados podem trazer uma falsa sensação de segurança, que estimula o relaxamento de medidas de proteção que realmente funcionam — como a higiene das mãos e o distanciamento social. Mais perigoso ainda é o convite à automedicação, que pode trazer riscos reais à saúde. Sabemos que, ao desmentir desinformação sobre o novo coronavírus, estamos tocando em um dos temas mais delicados para os leitores: o medo de adoecer e de colocar as pessoas que amam em risco.

Ao longo dos 70 primeiros dias em que os veículos participantes do Comprova se dedicaram a monitorar, checar e explicar o conteúdo on-line sobre o novo coronavírus, a desinformação sobre o assunto seguiu tendências que acompanharam o debate público em torno da pandemia. Muitas das verificações publicadas abordaram temas semelhantes — sempre refletindo o que nas redes sociais era mais viral sobre a covid-19. Nos textos abaixo, separamos algumas das ondas de boatos que tivemos que navegar.

Problemas com dados

O recente apagão de dados sobre a covid-19 do Ministério da Saúde — a pasta mudou o horário de divulgação de estatísticas e deixou de informar o total de mortos e infectados pelo vírus — evidenciou a crença, por parte de integrantes do governo e do próprio presidente Jair Bolsonaro, de que os números da pandemia estavam exagerados.

Esse pensamento, que não tem base na realidade, também permeou vários dos conteúdos enganosos desmentidos pelo Comprova nos últimos 70 dias. Virologistas e epidemiologistas calculam que o número de vítimas da covid-19 é muito maior do que o registrado oficialmente e apontam um problema de subnotificação de casos. Um estudo adotado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) estima que o número real de infectados seja entre oito e dez vezes maior que o divulgado oficialmente.

Os boatos falsos sobre supernotificação se tornaram mais frequentes à medida em que os números de contágio pelo novo coronavírus se tornavam mais alarmantes. Entre as primeiras verificações publicadas pelo expediente especial do Comprova, ainda no final de março, estava a que explicava que na Itália ainda não tinham sido registrados óbitos de crianças e outra que esclarecia que a “etapa de máxima de infecção” pelo vírus no Brasil estava próxima. Naquela semana, o país tinha pouco mais de 4,6 mil pacientes da covid-19 e 165 mortos. Nesta terça-feira, 16, o número de casos é 196 vezes maior e o de óbitos, 270 vezes mais alto. São 904.734 casos e 44.657 óbitos, segundo levantamento do consórcio de veículos de imprensa com dados das secretarias estaduais de saúde.

Nas semanas seguintes, em que a curva epidemiológica brasileira se tornou cada vez mais íngreme, o Comprova identificou mais exemplos de conteúdos virais que buscavam minimizar a gravidade da pandemia. Entre os exemplos estão vídeos que mostravam leitos vazios; a acusação falsa de que o governo da Bahia estaria “inventando” casos de covid-19; e a distorção de dados de registros de óbitos em cartórios para negar a existência da pandemia.

Chama a atenção ainda que algumas das peças de desinformação desmentidas pelo Comprova tinham como objetivo negar a realidade de alguns dos estados com situação mais crítica de contágio pelo novo coronavírus.

Sobre São Paulo, a unidade da federação com maior número de casos, espalhou-se o boato falso de que o Hospital das Clínicas não teria pacientes da covid-19. Também viralizou a mentira de que o cemitério Vila Formosa, na capital paulista, teria covas vazias para simular o aumento no número de enterros. A respeito do Amazonas, estado com segunda maior taxa de casos por habitante, viralizou uma foto fora de contexto sobre caixões vazios, além de uma acusação sem fundamentos de fraude nos registros da covid-19.

O presidente Jair Bolsonaro tem repetidamente minimizado a gravidade da covid-19, à qual já se referiu como “histeria”, “gripezinha” e “resfriadinho”. Em 20 de abril, ao comentar o aumento no número de mortes pelo novo coronavírus, ele disse que não era “coveiro”. Em 28 de abril, o presidente voltou a desprezar a alta no registro de óbitos ao declarar: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”.

Isolamento social

O isolamento social foi uma medida adotada por governadores dos estados para diminuir o contágio da covid-19. A ideia é que o máximo de pessoas possível fique em casa e evite aglomerações. Para possibilitar a medida, shoppings, bares e restaurantes foram fechados em várias partes do país. Só serviços considerados essenciais – como supermercados, farmácias, postos de gasolina e hospitais – continuaram funcionando.

O presidente Jair Bolsonaro não concorda com a ideia. Defende que a cura não pode ser pior que a doença e que a paralisação dos serviços resultará em uma recessão econômica. Acredita que a retomada das atividades econômicas é essencial para o reaquecimento da economia. Para o presidente, o isolamento deve ser feito de forma “vertical”, ou seja, apenas por pessoas idosas ou com comorbidades.

Em apoio às ideias de Bolsonaro, boatos falsos sobre o isolamento se propagaram pela internet. Em 15 de abril, o Comprova verificou uma notícia falsa sobre pesquisadores de Harvard concluírem que o isolamento poderia piorar a situação da pandemia.

Em 17 de abril, foi publicada uma verificação sobre uma possível mobilização nacional para a reabertura do comércio. O vídeo, que divulgava a Semana Nacional de Reabertura do Comércio” e a “Semana Bolsonaro”, tinha informações enganosas sobre a retomada das atividades comerciais no país.

Em 1º de maio, a equipe apurou que outro vídeo usava informações falsas para dizer que o lockdown – medida mais rígida de isolamento – foi inútil e que o pico da covid-19 havia ficado para trás. Até hoje não se sabe com certeza quando o Brasil vai chegar ao pico das infecções.

As divergências de opiniões sobre o isolamento social foram uma das principais razões para o racha entre os Executivos federal e estaduais. A ruptura foi ainda mais visível com os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC). Isso porque os dois políticos – que apoiaram Bolsonaro no 2º turno das eleições de 2018 – demonstram interesse em concorrer ao Planalto em 2022.

No vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, divulgado por determinação da Justiça, Bolsonaro disse que os governadores estão se aproveitando da pandemia da covid-19 para endossar o discurso contra o governo federal. Na ocasião, Bolsonaro chamou Doria de “bosta” e Witzel de “estrume”.

Ao entrar no foco das discussões sobre a medida, o governador de São Paulo virou tema de desinformação. Um boato usou uma frase de Doria para levantar dúvidas sobre a extensão da pandemia. Uma publicação com grande circulação no Twitter sugeria erroneamente que o governador tucano teria inventado o número de países afetados pela covid-19.

Em meio ao imbróglio com os governos estaduais, Bolsonaro se reuniu com os governos municipais para ouvir seus pleitos em troca de apoio. Em 22 de março, o presidente e o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta conversaram com os prefeitos sobre os pleitos municipais no tratamento do coronavírus. Dois dias depois, em 24 de março, o Comprova verificou um texto que dizia sem provas que governadores e prefeitos usam a pandemia para driblar as leis.

Boatos também seguiram agenda internacional

O Projeto Comprova checou, no período do expediente especial, 15 boatos que citavam entidades internacionais ou protocolos e situações epidemiológicas da covid-19 em outros países. A desinformação internacionalizada sobre a doença mobilizou uma em cada quatro publicações realizadas pela coalizão, em média. O surgimento dos boatos seguiu a agenda pública de evolução dos casos no exterior, a incorporação das medidas de restrição, além de ter sido impulsionado pela politização da pandemia.

Itália, Israel e China foram os países mais mencionados nos conteúdos inverídicos checados, ao lado da Organização Mundial da Saúde (OMS). Não à toa. A Itália foi o primeiro país do Ocidente a registrar de forma massiva casos de covid-19. Em março, quando o Projeto Comprova entrou na fase de investigação de conteúdos ligados ao novo coronavírus, o país era o segundo mais afetado pelo vírus no mundo, atrás da China, primeiro a registrar a enfermidade.

No dia 25 de março, em uma das primeiras postagens do expediente especial, o Comprova mostrou que o governo italiano não havia registrado óbitos de pessoas com menos de 30 anos até o dia 24 de março. A postagem que deu origem à verificação fazia uma correlação direta entre a realidade na Itália e um pronunciamento do presidente da República, Jair Bolsonaro, no qual ele minimizou a epidemia e sugeriu que os governadores descumprissem as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), entre elas a de fechar escolas e universidades. Na ocasião, Bolsonaro chegou a correlacionar os números da Itália à quantidade de idosos e ao clima do país.

Entre fevereiro e março, quando foram confirmados os primeiros casos e mortes por covid-19 no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro minimizou por mais de uma vez a pandemia e seus efeitos. Os posicionamentos acompanharam uma onda de desinformação sobre a origem do vírus. O Comprova, por exemplo, mostrou que uma reportagem da TV italiana RAI sobre vírus criado em laboratório chinês não tinha correlação com a pandemia de covid-19. A alegação verificada foi publicada no Twitter, em 25 de março, pelo ex-vice-premiê da Itália Matteo Salvini, e aparece em artigos e postagens compartilhados no Facebook, Twitter e YouTube.

As publicações eram enganosas. A reportagem em questão fala sobre um grupo de cientistas que criou uma versão híbrida de um coronavírus de morcego na China cinco anos atrás. Em março de 2020, o periódico Nature publicou um estudo que afirma não haver evidências de que esse experimento tenha relação com a pandemia atual.

A onda de desinformação sobre a origem do vírus foi embasada, entre outros fatores, em casos de xenofobia contra asiáticos, que motivaram publicações de autoridades brasileiras durante a pandemia, desencadeando uma crise diplomática com a China. No dia 18 de março, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) publicou um tweet ligando a criação do novo coronavírus à China. Após a publicação, o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, repudiou a declaração e exigiu a retirada imediata e um pedido de desculpas ao povo chinês, também por meio do Twitter.

O perfil oficial da embaixada da China no Brasil, na mesma rede, classificou como “absurdas e preconceituosas” as declarações de Eduardo Bolsonaro e emitiu uma nota oficial. As falas motivaram pedidos de desculpas do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). O ministro das relações exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, chegou a emitir nota afirmando que as críticas de Eduardo Bolsonaro não refletiam a posição do governo brasileiro. A crise se estendeu até abril, quando o ministro da Educação, Abraham Weintraub, voltou a apontar o país asiático como origem do novo coronavírus, motivando mais um posicionamento da embaixada da China no Brasil.

No dia 3 de abril, o Comprova checou uma corrente afirmando que o novo coronavírus não chegou às grandes cidades chinesas, como Pequim e Xangai. O material apresentava uma série de dados falsos para tentar comprovar que o vírus é um “atentado terrorista” produzido pela China para “criar pânico no mundo”. O Comprova apresentou dados da OMS e da Universidade Johns Hopkins para mostrar a quantidade de casos nas duas cidades, além de atestar os impactos econômicos da pandemia no país e as mudanças provocadas por medidas de isolamento. Confirmando a onda de desinformação sobre a China, o Comprova verificou que eram descontextualizadas as postagens mostrando o prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) com a bandeira chinesa, bem como um áudio afirmando que a China teria contaminado máscaras.

Boatos sobre a Organização Mundial da Saúde (OMS)

A onda de desinformação aproveitando contextos internacionais mesclou boatos envolvendo a China e a OMS, também alvo de críticas de autoridades durante a pandemia. A conduta da entidade foi questionada, no dia 26 de março, pelo secretário de direitos humanos da Procuradoria-Geral da República (PGR), Ailton Benedito. Em artigo, Benedito acusou a OMS de crimes contra a humanidade e disse que a entidade era comandada por um “serviçal da ditadura comunista”. Apesar de não citar nomes, as acusações seguiram uma tendência de críticas ao diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

No dia 7 de abril, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou críticas à entidade no Twitter, afirmando que ela era centrada na China. O Comprova checou, no dia 31 de março, um vídeo descontextualizado de uma fala do diretor-geral da OMS, usado para referendar a posição de Jair Bolsonaro sobre o enfrentamento à pandemia. Em sua colocação, Adhanom pediu aos governos para considerar os impactos econômicos de um lockdown para as pessoas mais pobres. A fala, no entanto, não significava que a instituição tivesse deixado de apoiar o isolamento social, o que foi esclarecido pelo diretor-geral. Em maio, o Comprova voltou a verificar uma declaração retirada de contexto do porta-voz da OMS, também dentro da agenda de críticas ao isolamento social.

Medidas tomadas por Israel também foram tema de desinformação

Ainda no que diz respeito às condutas internacionais para lidar com o contexto de pandemia, outro lugar alvo da criação de conteúdos inverídicos foi Israel. Em uma live no Facebook, do dia 19 de março, o presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar que em um mês Israel teria uma vacina contra o novo coronavírus. O país foi o segundo visitado por Bolsonaro, em viagens para diálogos bilaterais, depois que ele assumiu a Presidência. Desde então, o governo brasileiro tem demonstrado interesse em promover alianças entre as duas nações. A bandeira de Israel tem sido, inclusive, utilizada por apoiadores do governo brasileiro em protestos durante a pandemia.

No dia 27 de março, o Comprova publicou uma verificação desmentindo que o país do Oriente Médio tivesse controlado o novo coronavírus sem a necessidade de distanciamento social. Os boatos atribuíam a Israel “a melhor situação do mundo no controle do coronavírus”.

As mensagens que circularam no Whatsapp estavam amparadas em um vídeo em que o ministro da Defesa israelense, Naftali Bennett, apoia o isolamento prioritário de idosos. Contudo, desconsideram outras postagens subsequentes sobre as medidas adotadas. O Comprova mostrou um gráfico da evolução de casos em Israel, em que 3.035 casos de covid-19 tinham sido computados até o dia 27 de março. Da mesma forma, mostrou que Israel adotou medidas como o isolamento social por 14 dias de qualquer pessoa que tivesse voltado do exterior e determinou o fechamento de escolas e universidades.

Em maio, Israel voltou a ser tema de desinformação. Dessa vez, associado à onda de conteúdos inverídicos sobre a cura da covid-19. Um vídeo analisado pelo Comprova, cujo título confirmava que o país havia descoberto a cura para a doença provocada pelo novo coronavírus, na verdade fazia referência ao isolamento de um anticorpo que neutraliza o vírus, realizado por um laboratório ligado ao governo israelense. Na época, a instituição afirmou que o achado científico era um avanço, mas que ainda não significava uma vacina – o que foi reiterado pelo ministro da Defesa de Israel, Naftali Bennett.

Medicamentos e tratamentos

Com a corrida global para a descoberta de uma vacina ou um tratamento eficaz contra o novo coronavírus, boa parte das verificações realizadas pelo Comprova durante o expediente especial esteve diretamente ligada ao tema.

Um medicamento, em especial, foi assunto de inúmeros conteúdos falsos ou enganosos: a hidroxicloroquina (e a cloroquina). A menção constante à substância não é nenhuma surpresa, se considerada a aposta e a insistência do governo federal na sua utilização como a principal política de saúde diante da pandemia da covid-19.

Em março, a possibilidade de uso do medicamento foi apontada em um estudo conduzido pelo francês Didier Raoult e, após ganhar repercussão nas redes sociais e em alguns veículos de comunicação americanos, passou a ser defendida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Pouco dias depois, o presidente Jair Bolsonaro começou a fazer o mesmo e, em 26 de abril, chegou a falar sobre estudos que supostamente atestavam a eficácia da hidroxicloroquina durante uma reunião do G20. Em 06 de abril, o Comprova publicou a primeira verificação relacionada diretamente à substância.

De lá pra cá, outras 6 verificações (1, 2, 3, 4, 5, 6) – entre as 60 publicadas, ao todo, pelo Comprova — envolveram, diretamente, boatos e materiais enganosos sobre o uso da cloroquina. No Planalto, as menções ao medicamento também foram – e são – constantes. Bolsonaro anunciou que o Exército estava produzindo o medicamento, entrou em atrito com os dois últimos Ministros da Saúde por causa do tema – que acabou por contribuir para a queda de Nelson Teich à frente da pasta — e, recentemente, aceitou uma doação do governo Trump de milhões de doses da droga, que serão usadas de forma “preventiva”.

Para além do protagonismo da cloroquina, o conteúdo ligado aos tratamentos e medicamentos – mesmo que com base em outras drogas – seguiu duas tendências: a primeira, a tradução de estudos científicos sem reconhecimento dos pares, que atestavam a eficácia deste ou daquele método de combate à doença, ou a descontextualização desse tipo de pesquisa; a segunda, a divulgação de relatos e opiniões pessoais, muitas vezes de médicos, contrárias ao posicionamento oficial de órgãos que representam os especialistas e sem o devido embasamento. Foi nesse último tipo de conteúdo, baseado em experiências pessoais, aliás, que percebemos a maior relutância, por parte dos autores, em aceitar o resultado das verificações.

Por Alessandra Monnerat, Alice Souza, Ana Luiza Bongiovani, Karla Torralba e Mahila Ames

Passo a passo

Investigado por:2019-12-13

A foto de uma obra na BR-163 dos tempos de Lula que foi usada para elogiar Bolsonaro | Como verificamos

  • Estudo de caso
Estudo de caso
O Comprova está publicando relatos de algumas de suas investigações para mostrar como e por que investigou conteúdos duvidosos encontrados na internet sobre políticas públicas do governo federal.

A pavimentação da BR-163 no Pará, rota de escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste, foi um tema recorrente nas redes do presidente Jair Bolsonaro em 2019. Ao longo do ano, ele fez pelo menos 13 posts no Twitter sobre as obras na estrada, cujo asfaltamento terminou em novembro, informou o governo.

Mesmo com os trabalhos sendo realizados, houve quem preferisse abordar o assunto de forma mentirosa nas redes. No começo do ano, Agência Lupa, Estadão Verifica, Aos Fatos, e-Farsas, e Boatos.org fizeram verificações sobre posts que usavam dados falsos ou fora de contexto com o objetivo de dizer que o governo Bolsonaro tinha começado os trabalhos na rodovia.

Em julho, chegou a vez de o Comprova entrar nesta história. Um post feito no Facebook pela página “O Mito” comparava duas fotos que seriam da BR-163 para dizer que, no governo Bolsonaro, as obras estavam a todo vapor. O contraste era feito com a suposta situação da estrada nos governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff: um atoleiro só. A montagem tinha mais de 20 mil compartilhamentos.

A verificação feita pelo Comprova revelou, no entanto, uma história bem diferente daquela que o post pretendia passar.

Como verificamos

Para verificar a veracidade das imagens e do contexto em que elas foram apresentadas, precisávamos responder algumas perguntas:

– As fotos mostravam trechos da BR-163? Se sim, de que locais?
– Quando as fotos foram feitas?
– Quem tirou as fotos?

Vimos que a montagem trazia um selo escrito “Geração Conservadora”. Procurando por esse termo no Google, descobrimos que havia um perfil no Instagram com esse nome. Acessamos o perfil e, fazendo uma busca manual, encontramos um post de março com a mesma montagem.

O post do Geração Conservadora ainda não respondia, no entanto, a nenhuma pergunta nossa. Por isso, o passo seguinte foi separar as duas imagens – a do atoleiro e a das obras – para podermos fazer buscas por elas na internet e verificar se tinham sido publicadas em outro lugar. Esse processo é chamado de busca reversa de imagens.

A separação das fotos foi feita de forma simples no Paint, um programa básico do Windows. Depois, foi a hora de fazer a busca reversa no Google Imagens. A busca nos mostrou que as duas imagens já tinham sido publicadas em outros sites, e que representavam coisas bastante diferentes dos posts que viralizaram.

A foto do atoleiro foi publicada pelo site paraense Folha do Progresso, em 6 de fevereiro de 2017, em uma notícia sobre o aumento do tempo de viagem na BR-163 justamente por causa das más condições da estrada.

Por telefone, conseguimos contato com o editor do Folha do Progresso, Adécio Piran, que nos ajudou a chegar ao autor da foto, o jornalista Juliano Simionato. Ele nos contou que fez uma viagem de caminhonete pela BR-163 justamente em fevereiro de 2017. Além disso, nos confirmou que o ônibus que aparece na foto fazia o trajeto entre as cidades de Itaituba e Rurópolis, no qual a BR-163 e a BR-230 (Transamazônica) são a mesma estrada.

Ou seja: a foto do atoleiro era sim da BR-163, mas não da época dos governos Lula e Dilma, e sim do governo de Michel Temer (MDB).

Já a busca reversa pela foto dos tratores na estrada nos levou a uma notícia no site do Superior Tribunal Militar (STM) publicada em setembro de 2017. Isso já seria suficiente para dizermos que a imagem não mostrava obras do governo Bolsonaro, que começou só em janeiro de 2019. Mas nosso objetivo era chegar à origem da imagem.

O site do STM não tinha informações suficientes sobre isso. A legenda dizia apenas “imagem ilustrativa – obras de engenharia do Exército”. Procuramos a assessoria de imprensa do tribunal, que nos informou que a foto era do site do 8º BEC (Batalhão de Engenharia de Construção), que atua no Pará. No entanto, o site não existia mais, e os e-mails que mandamos para o 8º BEC não foram respondidos.

Fim da linha? Não. Acessamos o Flickr do Exército e, fazendo a boa e velha busca manual, olhando uma a uma as imagens, chegamos à foto – com a data de 15 de dezembro de 2008.

Para nossa sorte, entre as informações da foto no Flickr do Exército estavam seus dados EXIF. Os dados EXIF são uma espécie de carimbo de informações que a câmera coloca no arquivo da foto. Uma destas informações é a data: sim, a foto era de 15 de dezembro de 2008.

Agora sim, fim de papo: a foto era de obras na BR-163 – só que ainda no período de Lula, que governou entre 2003 e 2010.

Conclusão

Assim, a verificação do Comprova levou à conclusão de que a montagem era enganosa, já que o post verificado usou imagens verdadeiras, mas retirou-as do contexto correto, alterando seu significado.

Esta verificação foi feita por Ana Carolina Santos (piauí) e Bernardo Barbosa (UOL) e publicada pelo Comprova em 27 de julho de 2019 com o título Foto de obra na BR-163 usada em montagem enganosa como sendo do governo Bolsonaro é dos anos Lula. A verificação foi validada por Nexo, Poder360, Jornal do Commercio, Estadão e NSC Comunicação, membros do Comprova.

Passo a passo

Investigado por:2019-12-12

Presidente da UNE não estava na universidade desde os 11 anos | Como verificamos

  • Estudo de caso
Estudo de caso
O Comprova está publicando relatos de algumas de suas investigações para mostrar como e por que investigou conteúdos duvidosos encontrados na internet sobre políticas públicas do governo federal.

Os bloqueios de recursos nas universidades e institutos federais deste ano e as propostas do governo federal para a educação geraram uma série de boatos envolvendo o setor, estudantes e professores. Um deles atingiu diretamente o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Os ataques começaram logo após a eleição de Iago Montalvão à presidência da entidade, em julho deste ano. Na ocasião, ele interrompeu o ministro da Educação, Abraham Weintraub, durante a apresentação do programa Future-se, que propõe investimentos privados nas universidades federais, para criticar a proposta.

“Ministro, cadê o dinheiro da educação? Queremos solução para os estudantes que estão sem bolsa. Queremos uma resposta para isso, uma resposta imediata. Como vamos pensar um projeto para o futuro se no presente não funciona?”, questionou, segundo publicação do site da Revista Fórum.

Naquela época, Iago foi chamado de “Thiego Lula da Silva” e uma publicação com informações falsas sobre ele foi compartilhada centenas de vezes: dizia que tinha 33 anos e que estudava Ciências Sociais desde 2004 — havia 15 anos, portanto. No início de novembro, um conteúdo similar voltou a circular nas redes, desta vez chamando Iago de “Tiago Montalvão”.

Essa nova publicação foi verificada pelo Comprova. O post usava uma fotografia verdadeira de Iago durante a manifestação “Tsunami da Educação”, no mês de agosto, em São Paulo. Contudo, as informações pareciam estar incorretas. Assim, começamos a verificar uma postagem compartilhada no Facebook e em perfis no Twitter.

O objetivo da verificação era saber quem era o presidente da UNE, se ele era a pessoa que aparecia na foto, qual era sua idade, que curso ele frequentava ou tinha frequentado e em que contexto a imagem havia sido registrada.

Passo a passo

Começamos fazendo uma busca reversa da imagem no Google Imagens. Esse recurso serve para buscar na internet outras publicações com a mesma imagem ou com imagens semelhantes. É possível buscar fazendo um upload do arquivo da foto no sistema. Usamos a busca por imagens do Google para confirmar se a pessoa que aparecia na foto era, de fato, o presidente da UNE.

Localizamos a fotografia na imagem de capa do Facebook de Iago Montalvão, na conta oficial da UNE no Flickr — uma rede social de compartilhamento de fotos — e em sites noticiosos como o Vermelho, que é gerido pela Associação Vermelho em convênio com o PC do B.

Em seguida, buscamos informações sobre a eleição da UNE e localizamos o histórico acadêmico de Iago Montalvão por meio de uma busca no Google e na plataforma de currículos Lattes, que faz parte do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Também entramos em contato com as universidades onde havia informações de aprovação de Iago em seus processos seletivos.

Primeiro, buscamos o nome de Iago Montalvão no Google e localizamos listas de aprovação em processos seletivos em universidades do país. Depois, localizamos um currículo Lattes com o nome e a foto dele, mas com informações de duas universidades que não apareciam na busca do Google: o Centro Universitário Cesmac, em Maceió (AL), e a Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Entramos, então, em contato com todas as instituições encontradas e com o próprio Iago, que afirmou nunca ter estudado nestas duas instituições – ele também não constava nas listas de aprovados no vestibular das instituições. As demais confirmaram o percurso acadêmico informado por ele: primeiro, começou a cursar História na Universidade Federal de Goiás (UFG), em 2011; depois, se transferiu para a Universidade de Brasília (UnB), dentro do mesmo curso, em 2016.

(https://projetocomprova.com.br/wp-content/uploads/2019/11/UFG.jpeg)

Em seguida, Iago foi aprovado para o mesmo curso na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mas não chegou a cursar, porque também foi aprovado para o curso de Economia na Universidade de São Paulo (USP), em 2018, onde está atualmente matriculado. A informação foi confirmada pela universidade. Iago nunca estudou Ciências Sociais.

Uma vez descartada a possibilidade de Iago ser estudante de Ciências Sociais, precisamos confirmar sua idade. Nos perfis publicados no site da UNE e em jornais à época da eleição para a presidência da entidade, havia a informação de que o estudante tinha 26 anos – e não 33, como afirmavam as postagens. Ou seja, tendo Iago 26 anos, não seria possível que ele fosse universitário há 15 – para isso, ele precisaria ter ingressado na universidade aos 11 anos de idade.

Já tínhamos informações sobre a data e o local de nascimento, nome dos pais, curso e universidade de Iago. Mesmo assim, pedimos que ele nos enviasse uma imagem de um documento de identidade que provasse que ele tinha mesmo 26 anos. Iago nos enviou, então, uma cópia de sua Carteira Nacional de Habilitação. Assim, conseguimos confirmar que Iago nasceu no dia 14 de maio de 1993 e tem, portanto, 26 anos de idade.

Atualização

No dia 23 de novembro, um dos responsáveis pela página no Facebook ‘Jovens de Direita’, uma das que tinham compartilhado a postagem falsa sobre Iago Montalvão, respondeu ao Comprova informando que o conteúdo tinha sido retirado do ar “certamente por ser apurado como fake news”. A resposta continua: “Tentamos ser rigorosos com isto, mas nem todos editores têm o mesmo nível de rigor. Sempre que postada informação falsa, o editor é advertido ou punido”. A página também informou que não era autora do conteúdo e que havia compartilhado de outro usuário.

Conclusão

O conteúdo investigado foi considerado falso. Esta verificação foi feita por Marcel Hartmann (Gaúcha ZH), Marina Cid (TV Band), Bernardo Barbosa (UOL) e Clarissa Pacheco (CORREIO) e publicada pelo Comprova no dia 7 de novembro de 2019 com o título Para desqualificar presidente da UNE, boato diz que ele estuda Ciências Sociais há 15 anos. A conclusão foi ratificada por Folha de S.Paulo, Estadão e Poder 360, membros do Projeto Comprova.

Passo a passo

Investigado por:2019-12-11

Avião não apagava incêndio na Amazônia brasileira, mas sim na Bolívia | Como verificamos

  • Estudo de caso
Estudo de caso
O Comprova está publicando relatos de algumas de suas investigações para mostrar como e por que investigou conteúdos duvidosos encontrados na internet sobre políticas públicas do governo federal.

Em meio a uma crise internacional gerada pelos incêndios na Amazônia e a uma onda de críticas à falta de ação do governo federal — que chegou a culpar ONGs pelo ocorrido— , as queimadas também foram tema de desinformação nas redes.

O número de focos de incêndio até o dia 1º de setembro de 2019 foi recorde dos últimos nove anos, com 91.891 pontos de fogo. Desses, mais de 50% dos focos de incêndio foram na Amazônia. Nos últimos dez anos, somente 2010 teve um ano pior em queimadas.

O mês de agosto, acompanhando o número geral, também foi o pior da década, com 30.901 focos — novamente, só superado por 2010.

O boato

Diversas páginas e perfis brasileiros no Twitter e no Facebook divulgaram, em setembro de 2019, um vídeo em que era possível ver um avião jogando água sobre uma floresta. Ao fim da gravação, a mulher que filmava comemora e grita de alegria com a queda das gotas de água.

As publicações diziam que as imagens mostravam um avião israelense apagando fogo na Amazônia. A postagem da página República de Curitiba, que foi uma das que mais viralizaram, chegou a mais de 500 mil visualizações e 21 mil compartilhamentos.

Essa não era a primeira vez que circulavam boatos envolvendo o apoio de Israel ao Brasil. Em abril, por exemplo, diversas postagens apontavam uma suposta doação de 15 helicópteros ao Brasil, depois de Bolsonaro ter visitado o país, mas a informação era falsa.

A checagem

Aviões israelenses estavam apagando incêndios no Brasil?

Quem buscasse na internet encontraria textos da última semana de agosto informando que o embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, tinha declarado que seu país doaria de 200 a 300 toneladas de um produto químico para ajudar a combater as queimadas na Amazônia.

Na semana seguinte, uma delegação com 11 especialistas israelenses em combate a incêndios e salvamento foi enviada ao Brasil. Diante do alto custo, o país teria desistido de enviar o produto químico.

Com isso, um dos primeiros passos do Comprova foi entrar em contato com o Ministério da Defesa, que afirmou que a ajuda de Israel se deu “por meio do envio de bombeiros militares munidos de equipamentos para combate às chamas”.

Ainda de acordo com o órgão, o Brasil teria recebido duas aeronaves civis do Chile para combater as chamas no Pará. O modelo das aeronaves chilenas não correspondia ao visto no vídeo viralizado.

Quem fez o vídeo original?

Era preciso descobrir onde tinha sido filmado o vídeo em questão. Teria sido mesmo no Brasil, mas com outro avião?

Com o uso do Invid, é possível buscar (por meio de imagens congeladas do vídeo) postagens que compartilham determinada gravação. Basta ter o arquivo do vídeo salvo no computador ou o link do vídeo.

Dessa forma, o Comprova localizou, pela imagem de parte da roda do trator, o mesmo vídeo viralizado em um site holandês.

Mesmo com a ferramenta, chegar a esse site não foi tão simples. Como o vídeo checado trazia uma imagem pouco específica e de pouca qualidade (uma paisagem na floresta com um trator e pouco depois um avião), a busca retornava diversos outros resultados, mas na maior parte das vezes nenhum deles correspondia ao vídeo procurado — algo que acontece em muitas verificações.

A postagem no site holandês era do dia 6 de setembro. Apesar de não parecer ser o registro original, um dos comentários dizia se tratar de um “747 Supertanker”.

O Comprova buscou então no Twitter pelos termos “747 Supertanker” e chegou a um tuíte de 6 de setembro com o mesmo vídeo viralizado, com legenda que afirmava se tratar de um 747 Supertanker apagando incêndios na Amazônia boliviana.

Notícias da CNN e do G1 também informavam sobre o uso do Supertanker no combate ao fogo na Bolívia.

Partindo do forte indício de que o vídeo tinha sido filmado na Bolívia, o Comprova contatou diversas páginas de notícias locais que tinham compartilhado o vídeo, mas nenhuma delas soube informar a origem da filmagem.

Afirmações precisam ser comprovadas

Entre os tuítes, foi localizado o de uma jornalista boliviana que creditava o vídeo a um empresário também boliviano. Em uma notícia, ele aparecia como tendo sido intermediador das negociações entre a empresa dos Estados Unidos e governo boliviano.

O Comprova fez contato com ele, que afirmou ser de fato quem teria filmado o vídeo. Pedimos então os metadados para confirmar. Metadados são como a impressão digital de um arquivo (foto ou vídeo): por meio dessas informações, é possível checar o dia, a hora e o local onde o arquivo foi feito, além do local de armazenamento.

Solicitamos que ele enviasse o vídeo por meio de algum site de transferência de arquivos, visto que pelo Whatsapp e redes sociais os metadados são automaticamente zerados. No entanto, nenhum dos arquivos enviados por ele tinham informações de data, hora ou local.

O próximo passo então foi contatar Dan Reese, presidente da empresa norte-americana dona do Supertanker. Ele assistiu ao vídeo viralizado, enviado a ele pelo Comprova, e afirmou que a gravação de fato parecia mostrar um de seus aviões do modelos 747.

No entanto, negou que o empresário boliviano tivesse sido responsável por intermediar qualquer negociação. Sem os metadados e com o discurso desmentido pelo dono do avião, o Comprova voltou à busca do vídeo original.

Nem todos entendiam o porquê da necessidade dos metadados

O registro do vídeo mais antigo que foi localizado é do dia 5 de setembro, dia anterior à postagem do empresário, e foi publicado pela página “boliviaalalucha” no Instagram.

A postagem foi enviada por jornalistas locais, depois de o Comprova acionar uma rede de jornalistas sul-americanos, pedindo sugestões ou dicas para dar seguimento à verificação.

Ao entrar em contato com o administrador da página mencionada, ele indicou a pessoa que seria responsável pelo vídeo. Entretanto, mais uma vez, não era o autor.

Depois de contatar a página, o Comprova conversou com outras duas pessoas, que informavam que a localidade da filmagem era a cidade de Concepción, na Bolívia. Ao insistir em entrar em contato diretamente com a pessoa que teria filmado o vídeo, elas pareciam tomar o questionamento como falta de confiança na palavra delas.

Por fim, uma dessas pessoas forneceu o contato de María René Céspedes Bazán, que afirmou ser a autora do vídeo e contou que estava ajudando a apagar os incêndios em uma propriedade da região, com seu marido e outros voluntários, quando o avião sobrevoou o local. É ela quem grita ao fim do vídeo.

No entanto, ela desconhecia plataformas que suportassem o envio dos arquivos, mesmo as mais conhecidas, como o Drive do Google. Tentamos explicar a ela como isso poderia ser feito, mas não funcionou.

A forma encontrada para obter os dados do vídeo foi a seguinte: ela utilizou o próprio celular para filmar a gravação original no celular de seu marido, com o qual afirmou ter filmado a cena do avião, e mostrou os metadados do vídeo.

Cruzamento de dados: a última confirmação

Finalmente o Comprova tinha fortes indícios de que a autora do vídeo tinha sido encontrada. Ainda assim, apesar de pouco provável neste caso, os metadados do vídeo poderiam ter sido adulterados.

Por isso cruzamos os dados do vídeo de Bazán (data, horário, percurso e localização) com os dados sobre os voos da empresa Global Supertanker na região naquela data.

O Comprova localizou no FlightAware (site de rastreio de voos) que, no dia 5 de setembro, o Boeing 747 da empresa Global SuperTanker decolou do Aeroporto Internacional Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, às 10h40 e retornou ao mesmo aeroporto às 11h37. A foto de Bazán consta como tendo sido tirada às 11h09.

Além disso, ao comparar o trajeto do voo no site e a distância entre o aeroporto e a localidade de Concepción, as informações de Bazán também se mostravam compatíveis. A distância apontada no percurso é de cerca de 190 km, e a distância real percorrida pelo avião, contando ida e volta, foi de 394 km.

Colaboraram com esta verificação os jornalistas Cecilio Moreno, da revista Vistazo, do Equador, e Fabiola Chambi, de Los Tiempos de Cochabamba, na Bolívia.

Conclusão

Concluímos que o boato era falso. Israel não enviou aeronaves ao Brasil para combater incêndios na Amazônia, e o vídeo que viralizou foi feito em Concepción, na Bolívia, no dia 5 de setembro. Esta checagem reforça a importância de confirmar a procedência e autoria de vídeos antes de compartilhá-los.

Esta verificação foi feita por Renata Galf (Folha de S.Paulo) e Mariana Vick (Nexo) e publicada pelo Comprova em 17 de setembro de 2019 com o título “É falso que aviões israelenses tenham sido enviados para apagar incêndio na Amazônia brasileira”. O texto foi ratificado por O Estado de S. Paulo, Poder360, Jornal do Commercio, Jornal Correio, GaúchaZH e SBT.

Passo a passo

Investigado por:2019-12-10

O “navio venezuelano” era português | Como verificamos

  • Estudo de caso
Estudo de caso
O Comprova está publicando relatos de algumas de suas investigações para mostrar como e por que investigou conteúdos duvidosos encontrados na internet sobre políticas públicas do governo federal.

Após manchas de óleo começarem a atingir praias do Nordeste brasileiro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, levantou a hipótese de que a origem do material seria venezuelana. A declaração foi feita em outubro e, em seguida, viralizou um vídeo em que aparece um navio fazendo um serviço de dragagem na Praia de Matosinhos, em Portugal. De forma enganosa, a gravação, que na verdade é de abril, foi compartilhada como se fosse de um navio da Venezuela despejando petróleo no litoral nordestino.

O vídeo verificado pelo Comprova, da página Capitão Bolsonaro, foi publicado no dia 10 de outubro e teve 6,8 mil compartilhamentos em um dia.

À época da checagem, segundo análise do governo e um estudo da Universidade Federal da Bahia, a hipótese mais aceita era que o óleo teria origem venezuelana e estivesse em um navio fantasma (sem identificação e que passa despercebido pelos sonares)

Porém, no início de novembro, depois da publicação da verificação do Comprova, a Polícia Federal deflagrou a Operação Mácula, que investiga o derramamento de óleo. No período, a principal suspeita era sobre navio grego Bouboulina, de onde o vazamento de óleo teria ocorrido entre 28 e 29 de julho, a cerca de 730 km leste da divisa da Paraíba e do Rio Grande do Norte, em águas internacionais no Oceano Atlântico. Esse vazamento teria gerado uma mancha de óleo de 200 km de extensão.

De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), no entanto, até agora, a causa, o local exato do vazamento e os responsáveis não foram identificados.

O boato

No começo de outubro deste ano, bem à época das declarações do ministro, um vídeo que mostrava um navio supostamente venezuelano jogando petróleo no mar brasileiro começou a viralizar nas redes sociais. As postagens afirmavam terem ‘descoberto’ o enigma da origem das manchas de óleo que atingiram o litoral do Nordeste brasileiro desde o fim de agosto.

O Comprova foi atrás de checar o boato porque muitos elementos denotavam que as informações contidas nessas postagens pareciam ser falsas: o que era jogado do navio não parecia ser petróleo, a praia também não tinha as paisagens das praias do Nordeste brasileiro e o navio não aparentava ser um cargueiro de petróleo.

Os textos das postagens tinham muitos indicativos de boatos: palavras alarmantes, momento oportuno para divulgação (durante o aparecimento das manchas de óleo), poucos dados e informações e nenhum veículo de mídia havia publicado o vídeo.

A checagem

Nesse processo de checagem, optamos por fazer inicialmente uma busca reversa em um frame (que é uma foto de um instante de um vídeo) pelo InVid – uma extensão do navegador Google Chrome que fragmenta vídeos em fotos. “Busca reversa” é quando você procura imagens semelhantes à imagem que você tem fazendo um upload da própria foto no sistema.

Contudo, só fomos direcionados para links que continham as mesmas informações do boato. Abaixo, você pode conferir exemplos do que é uma busca reversa:

Depois pesquisamos o termo “navio venezuelano” no Facebook, mas só encontramos outras páginas compartilhando boatos semelhantes e o vídeo com as mesmas informações: de que seria um navio venezuelano que estava despejando óleo no litoral nordestino.

Contudo, uma dessas postagens trazia uma versão do vídeo que continha uma marca d’água com o nome “Diz Não Ao Paredão” (como destacado na imagem acima). Buscamos essas palavras no Google e encontramos uma página no Facebook e um perfil no Instagram de um movimento contra a construção de um paredão no porto da cidade de Matosinhos, em Portugal.

Com essas informações, o Comprova visitou a página “Diz Não Ao Paredão” e confirmou que o vídeo vinha de lá e que havia sido postado em 30 de abril de 2019, portanto, antes do aparecimento das manchas de óleo.

Não satisfeitos, procuramos por mais evidências de que o vídeo havia sido filmado em Portugal, então pesquisamos as imagens que haviam sido publicadas com a localização “Praia de Matosinhos” no Instagram. Localizamos um post do dia 30 de abril do usuário @tiagofazendeiro. Por mensagem na rede social, ele confirmou ter sido o autor da foto e disse ser morador da região e apoiador do movimento.

Quando descobrimos que a origem das imagens estava nessa postagem do “Diz Não ao Paredão”, mandamos mensagens e e-mail para a página a fim de confirmar o que tínhamos achado. O dono da página e líder do movimento, Humberto Silva, nos respondeu o e-mail no mesmo dia afirmando que o vídeo havia sido filmado por ele mesmo em Matosinhos, Portugal.

Apesar de termos esta resposta, não podíamos afirmar com certeza que ele realmente havia gravado o vídeo. Respondemos ao e-mail perguntando se ele poderia nos mandar os metadados do arquivo de vídeo. Metadados são como a impressão digital de um arquivo (foto ou vídeo) – só ele tem aqueles parâmetros únicos. Por meio dessas informações, podemos checar o dia, a hora e o local onde o arquivo foi feito, além do local de armazenamento.

Humberto prontamente nos enviou os metadados do vídeo e pudemos ter a certeza de que ele era o verdadeiro autor (o vídeo havia sido gravado em 29 de abril de 2019, em Matosinhos, Portugal, portanto, um dia antes da postagem). Portanto, não havia nenhuma chance de que as informações contidas nos boatos pudessem ser verdadeiras.

Humberto Silva é o administrador da página “Diz Não ao Paredão”, que é um movimento contrário ao prolongamento no Porto de Leixões, em Matosinhos, Portugal. O movimento alega que esta obra no porto prejudicaria as atividades de surfe no local, além de interferir negativamente na biodiversidade marítima.

O vídeo mostrava, na verdade, um navio do tipo draga que realizava um processo de dragagem, que consiste no desassoreamento, alargamento, desobstrução, remoção ou escavação de material do fundo de rios, lagos, mares, baías e canais de acesso a portos.

Segundo a página com a petição contra as obras, o objetivo desta dragagem era depositar cerca de 3 milhões de metros cúbicos de areia no fundo do mar para prolongar em 300 metros a extensão do quebra-mar do Porto de Leixões, o que possibilitaria aos navios chegarem mais perto da costa, consequentemente aumentando a quantidade de cargueiros. Contudo, a área do Porto de Leixões é repleta de atividades para a comunidade, como surfe e aulas de surfe, além de ser uma praia bastante frequentada por banhistas.

Após nosso contato, Humberto Silva fez uma edição no texto que acompanhava o vídeo na página do Instagram para desmentir os boatos e esclarecer que as imagens estavam sendo compartilhadas no Brasil com informações erradas.

Conclusão

Após dias de verificação, o Projeto Comprova confirmou que o vídeo era verdadeiro (não havia nenhum tipo de edição ou montagem), mas que foi compartilhado fora de seu contexto. O vídeo foi filmado em Portugal antes das manchas de óleo aparecerem no Brasil; e, por fim, o verdadeiro autor, que é português, confirmou o local da filmagem.

Esta verificação foi feita por Amanda Miranda (Jornal do Commercio), Cinthia Macedo (SBT), Paulo Roberto Netto (Estadão) e Marina Cid (TV Band) e publicada pelo Comprova em 14 de outubro de 2019 com o título Navio português é usado em postagens como se fosse petroleiro da Venezuela despejando óleo no Nordeste. O texto foi ratificado por Folha de S.Paulo, A Gazeta, Poder 360, O Povo e Correio do Povo, membros do Comprova.

Passo a passo

Investigado por:2019-12-09

O falso diamante gigante da Amazônia

  • Estudo de caso
Estudo de caso
O Comprova está publicando relatos de algumas de suas investigações para mostrar como e por que investigou conteúdos duvidosos encontrados na internet sobre políticas públicas do governo federal.

Em um momento em que a alta no desmatamento da Amazônia provocava tensões entre o governo do presidente Jair Bolsonaro, organizações não governamentais (ONGs) e o presidente da França, Emmanuel Macron, um vídeo de um grande mineral sendo colocado na parte de trás de um veículo circulou nas redes sociais com diversas alegações — todas falsas.

A gravação, visualizada mais de 300 mil vezes até 13 de setembro de 2019 — quando foi publicada a verificação do Comprova —, viralizou como se mostrasse um diamante, ou uma esmeralda, de mais de duas toneladas, apreendido pelo Exército, ou pela Polícia Federal, em uma ONG estrangeira. Algumas postagens detalhavam, ainda, que o mineral havia sido encontrado na Amazônia e que estaria sendo enviado para a França.

Após dias de apuração, a equipe do Comprova chegou à conclusão que nenhum dos elementos mencionados nas redes era verdadeiro: o vídeo mostra, na verdade, um cristal rutilado encontrado por garimpeiros na Bahia e a pedra tinha cerca 400 kg, e não mais de duas toneladas. O Exército e a PF não tinham, por sua vez, qualquer relação com as imagens. O caminho até a origem do vídeo foi, contudo, cheio de desvios.

Passo a passo

Começamos consultando a assessoria de imprensa das instituições públicas envolvidas: tanto a Polícia Federal quanto o Exército negaram que o vídeo mostrasse seus agentes apreendendo uma pedra preciosa, seja um diamante ou uma esmeralda, em uma ONG.

Procuramos, então, especialistas em Mineralogia com a expectativa de identificar a pedra vista nas imagens. Conversamos com professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e do Museu Nacional. Todos rejeitaram a possibilidade de que o mineral fosse um diamante de mais de duas toneladas.

Os especialistas sugeriram também lugares onde aquele mineral poderia ser encontrado. No entanto, sem mais informações sobre a gravação, eles não puderam concluir qual era efetivamente a pedra. Passamos a nos dedicar, então, a descobrir a origem do vídeo.

Quando acreditamos ter encontrado os autores do vídeo

Em um primeiro momento, submetemos a gravação à ferramenta InVID, que a fragmenta em capturas de tela, permitindo que pesquisássemos registros anteriores destas imagens no Google. Essa busca nos levou a uma publicação feita por um canal de garimpeiros no YouTube.

Por se tratar do registro mais antigo que havíamos encontrado da gravação até o momento, e também porque o canal era composto majoritariamente por vídeos próprios, acreditamos ter chegado à origem do material viralizado. Os donos do canal não forneciam, no entanto, qualquer dado de contato para que pudéssemos confirmar essa informação, o que nos forçou a ser criativos.

Após deixar comentários no vídeo pedindo informações, analisamos os outros conteúdos publicados em busca de pistas. Foi assim que identificamos que grande parte das gravações publicadas pela conta eram do garimpo da Quixaba, localizado perto do município de Sento Sé, na Bahia.

Pedimos, então, ajuda aos nossos colegas integrantes do Comprova no Nordeste, que nos recomendaram procurar estabelecimentos comerciais locais e perguntar se eles conheciam os autores do vídeo, uma vez que o município tinha pouco mais de 40 mil habitantes.

Com esse objetivo, conseguimos conversar com o proprietário de um supermercado local, que afirmou já ter visto o vídeo na Internet, mas que não conhecia os responsáveis pela gravação.

Como a única pista que tínhamos apontava para a cidade de Sento Sé, continuamos insistindo. Depois de algumas tentativas, falamos com uma representante da Prefeitura da cidade, que nos enviou o contato do presidente da cooperativa dos garimpeiros regional — talvez ele conhecesse as pessoas que encontraram a pedra gigante.

No entanto, só conseguimos falar com o garimpeiro com um número de telefone fornecido por um jornalista do Correio, da Bahia, que é um dos parceiros do Comprova. O presidente da cooperativa disse, em mensagens, que tinha certeza que a pedra não vinha da Serra da Quixaba.

Enquanto isso, continuamos assistindo aos outros vídeos publicados no mesmo canal com a esperança de encontrar uma informação de contato, o que finalmente aconteceu. Em uma gravação em que o dono do canal mostrava pedras preciosas que estavam à venda, ele divulgava um número de telefone para possíveis compradores: conseguimos estabelecer contato.

Ao contrário do que acreditávamos, entretanto, ele não era o autor do vídeo. Ao Comprova, ele disse ter apenas recebido a gravação de amigos e não saber quem era o autor das imagens.

Uma nova pista

Para retomar a investigação, fizemos uma segunda busca reversa por outras capturas do vídeo e chegamos a um resultado que não havia aparecido antes: uma matéria de um portal de notícias baiano informando que a gravação havia circulado com alegação de que a pedra tinha sido encontrada na cidade de Nordestina, na Bahia.

Como o vídeo havia circulado bastante, decidimos perguntar à Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) se eles tinham alguma informação sobre as imagens. De fato, a assessoria de imprensa da instituição já sabia sobre qual vídeo estávamos falando e tinha uma nota pronta sobre o assunto.

A CBPM confirmou que se tratava de um cristal rutilado — conforme os especialistas que consultamos adiantaram — e informou que o mineral foi encontrado na cidade de Novo Horizonte, na Bahia. A nota da instituição citava um geólogo local que tinha analisado a pedra. Precisávamos falar com ele para saber mais detalhes sobre o vídeo.

Conseguimos o contato de Osmar Martins com a assessoria de imprensa da Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia. A ligação para ele durou mais de meia hora. O geólogo falou sobre a descoberta da pedra e contou outras histórias sobre o garimpo de Novo Horizonte.

Ao Comprova, Osmar confirmou ter analisado o cristal visto no vídeo, que avaliou em R$ 1 milhão, e disse conhecer os responsáveis por sua extração. O geólogo disse, ainda, que a pedra tinha cerca de 400 quilos, e não mais de duas toneladas como alegado nas publicações viralizadas.

Ele também forneceu números de processos da Agência Nacional de Mineração (ANM) que comprovavam que ele era o responsável técnico da cooperativa de garimpeiros da cidade. Checamos esses documentos e o registro profissional de Osmar.

Enviamos as informações fornecidas pelo geólogo aos especialistas com quem havíamos conversado antes. Para eles, tanto a identificação do mineral, quanto o local de extração informados por Osmar fizeram sentido.

Não conseguimos, por meio do geólogo, entrar em contato com os garimpeiros que retiraram o cristal rutilado nem com o responsável pelo vídeo. Mas consideramos já ter provas suficientes da verdadeira origem da pedra para publicação.

Quatro dias depois de publicada a checagem do Comprova, o serviço Fato ou Fake conseguiu localizar a Cooperativa de Garimpeiros de Novo Horizonte. O presidente da associação mostrou à reportagem outros documentos que confirmavam que o achado foi feito na cidade baiana, e não na Amazônia.

Conclusão

O conteúdo investigado foi considerado “Falso”. Esta verificação foi feita por Alessandra Monnerat (Estadão) e Maria Clara Pestre (AFP) e publicada pelo Comprova no dia 13 de setembro de 2019 com o título É falso que vídeo mostra apreensão de diamante gigante retirado da Amazônia por ONG estrangeira. A conclusão foi ratificada por Correio, Jornal do Commercio, GaúchaZH, Folha de S. Paulo e Poder360, membros do Projeto Comprova.

Comunicados

Antes de compartilhar, Comprova (de novo)

Estamos de volta. Depois de denunciar e desmentir falsidades que circularam nas redes sociais e na internet na campanha eleitoral de 2018, o Comprova, maior projeto colaborativo da imprensa brasileira, vai agora analisar e combater a disseminação de rumores sobre políticas públicas relacionadas ao governo federal.

Mais uma vez, órgãos de mídia que são concorrentes na esfera comercial se unem em nome do interesse público, sob a coordenação da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e do First Draft (entidade que pesquisa e combate a desinformação nas redes).

Jornalistas de 24 veículos vão trabalhar de hoje até dezembro de forma colaborativa, em diferentes redações, mas em um mesmo ambiente virtual, sob a supervisão de editores do Comprova. Como no ano passado, o público poderá participar, enviando conteúdo duvidoso para o Whatsapp do projeto. Na medida do possível, as mensagens serão checadas e respondidas.

O objetivo do Comprova não é simplesmente desmentir determinados boatos, mas mostrar as características que evidenciam sua falsidade e que são comuns a diversos conteúdos enganosos. As ondas de desinformação só perderão força quando a própria população tiver condições de filtrar a poluição que distorce a realidade. Nesse sentido, é fundamental a contribuição do jornalismo de qualidade, que busca a precisão e a descrição da realidade com base em fatos.

A implantação da segunda fase do Comprova não seria possível sem o patrocínio e o apoio técnico de Google News Initiative e Facebook Journalism Project. Farão parte da iniciativa os seguintes veículos: AFP (Agence France-Presse), Band TV, Band.com.br, BandNews FM, BandNews TV, Canal Futura, Jornal Correio, Correio do Povo, Estadão, Exame, Folha de S. Paulo, GaúchaZH, Gazeta Online, Jornal do Commercio, Metro Jornal, Nexo, Nova Escola, NSC Comunicação, O Povo, Poder360, Rádio Bandeirantes, revista piauí, SBT e UOL.

Daniel Bramatti
Presidente da Abraji