O Projeto Comprova reúne jornalistas de 28 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
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Eleições

Investigado por:2020-12-04

É enganoso vídeo que denuncia suposta fraude nas urnas em João Pessoa

  • Enganoso
Enganoso
Um candidato a vereador pelo MDB disse não ter tido nenhum voto na seção onde ele próprio votou, mas documentos oficiais da Justiça Eleitoral mostram que ele teve dois votos no local
  • Conteúdo verificado: Vídeo no YouTube em que candidato a vereador em João Pessoa afirma que voto que ele deu em si mesmo não foi contado

É enganoso o vídeo em que um candidato a vereador em João Pessoa, na Paraíba, afirma que não foi contabilizado o voto que ele deu em si mesmo. Na realidade, foram contados dois votos para Edmilson Gomes de Melo (MDB) na seção onde ele votou. Ao todo, o candidato recebeu 119 votos e ganhou uma vaga de suplente na Câmara Municipal.

Gomes de Melo está inscrito no Título de Eleitor na zona 001, seção 004. Porém, algumas seções eleitorais foram agregadas este ano, por isso Edmilson foi orientado a votar na seção 001. Ao Comprova, o Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) apresentou documentos que provam a votação de Edmilson na seção 001.

No vídeo, o candidato afirma ainda que um funcionário do TRE-PB “adicionou” dois votos para ele na seção eleitoral. O TRE-PB esclareceu que o banco de dados de votação jamais pode ser “editado”. O órgão comunicou em nota que o vídeo é uma “tentativa de macular a Justiça Eleitoral, forjando fatos”.

Como verificamos?

O Comprova entrou em contato com o Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) e solicitou informações sobre as seções e zonas eleitorais existentes em João Pessoa. Também buscamos o resultado das eleições 2020 no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para confirmar a candidatura do homem que aparece no vídeo e a quantidade de votos obtida por ele. Foram procurados ainda o candidato Edmilson Duroger e o responsável pelo canal Seu Mizuka, que divulgou o vídeo.

Verificação

Qual a explicação do TRE-PB?

No vídeo, o candidato a vereador Edmilson Gomes de Melo está em frente à sede do TRE-PB. De acordo com o órgão eleitoral, ele foi atendido na Seção de Orientação e Apoio às Zonas Eleitorais (SOAZE) no dia 18 de novembro, três dias depois do primeiro turno do pleito. Na gravação, Edmilson afirma que o voto que ele depositou em si mesmo não foi contado, assim como a votação de seus familiares.

Isso não é verdade. De acordo com os resultados oficiais divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Edmilson recebeu 119 votos. O TRE-PB detalhou que foram dois votos na seção onde o candidato votou, a 001 da 1ª Zona Eleitoral. A mesma votação consta no boletim de urna divulgado pelo TSE.

Os votos a favor de Gomes de Melo foram distribuídos da seguinte maneira: 49 votos na 1ª Zona Eleitoral; 24 votos na 64ª Zona; 19 votos na 70ª; 12 votos na 76ª; e 15 votos na 77ª.

Edmilson está cadastrado no Título de Eleitor na seção 004 da 1ª Zona Eleitoral, mas o TRE-PB esclareceu que algumas das seções foram agregadas este ano. O órgão apresentou ao Comprova um documento que mostra que o local de votação do candidato foi transferido.

Como mostra consulta ao site oficial do TSE, Gomes de Melo votou na Faculdade de Ciências Médicas (antigo Colégio Pio XII), na Praça São Francisco, 116, no centro de João Pessoa.

No vídeo, Edmilson diz que, depois de reclamar que nenhum voto a seu favor foi contado na seção onde votou, um funcionário do TRE-PB “adicionou” dois votos para o candidato. Em resposta, o TRE-PB disse que não é possível “editar” o banco de dados de votação. Neste ano, a totalização dos votos foi centralizada na sede do TSE, em Brasília.

O TRE-PB informou que vai encaminhar o caso ao Ministério Público Eleitoral.

Quem é o autor do vídeo original?

Edmilson Gomes de Melo tem 57 anos e foi candidato pelo MDB, usando o número 15.777 e o nome de urna “Edmilson Duroger” — referência ao Roger, um dos bairros mais carentes da capital paraibana. No local ficava, até 2003, o antigo lixão da cidade, e ainda hoje funciona a Penitenciária Desembargador Flósculo da Nóbrega, o mais antigo presídio da Paraíba, inaugurado há 80 anos.

Conversamos com Edmilson por telefone. Ele disse que “estranhou não ter tido votos em sua seção, a 4ª da 1ª zona eleitoral, mas que um funcionário do TRE disse que poderia corrigir e imprimiu um relatório com dois votos naquela seção (na verdade, a 1ª)”.

Durante o telefonema, ele admitiu que o funcionário que o atendeu “pode ter sido irônico”. Após a gravação do vídeo, Edmilson disse que retornou ao TRE e recebeu a explicação que sua seção original, a 4ª, foi agregada à 1ª seção por conta das alterações realizadas para reduzir o número de mesários por causa da pandemia.

O candidato explicou que, no vídeo, se referiu aos oito votos que teve no bairro do Roger, pois sabia que, no total, obteve 119 votos. “Sem arrogância, pela campanha que fiz e pelo trabalho que faço no Roger, há muitos anos, era pra ter tido 5 mil votos”. De acordo com os dados do último censo do IBGE, em 2010, a população do bairro era de 10.381 pessoas aptas a votar.

O trabalho ao qual ele se refere seria “as denúncias de corrupção na Câmara Municipal” que costuma fazer. Edmilson informou ao TRE ser “jornalista e redator”. Na documentação de registro de candidatura consta apenas um diploma de conclusão do Ensino Médio.

No dia 24 de novembro, ele foi à sede da superintendência da Polícia Federal no estado e protocolou um pedido para “pegar todas as urnas do município de João Pessoa, e que se disponibilize uma equipe de especialistas na segurança da informação que seja neutra para periciá-las”.

Edmilson contou que foi à PF acompanhado de dois outros candidatos, citados no vídeo analisado: Nininho Mangabeira e Dr. Nosman (Antônio Nosman Barreiro Paulo), ambos do MDB. Um terceiro candidato que, segundo ele, também estaria “revoltado”, Dr. Aníbal Marcolino (José Aníbal Costa Marcolino Gomes), não o acompanhou por ter desistido de fazer a denúncia.

O Comprova entrou em contato com a PF para saber mais informações sobre a denúncia de Edmilson, mas não recebeu resposta.

O canal do Youtube

O vídeo de Edmilson foi reproduzido pelo canal Seu Mizuka, que existe no YouTube desde 9 de dezembro de 2017 e tem 71,9 milhões de visualizações. É conhecido por publicar conteúdos favoráveis ao governo federal e é um dos canais que veicularam anúncios da Secretaria Especial de Comunicação Social do Governo Federal sobre a Previdência, sendo o sexto canal do YouTube com mais interações nos anúncios do governo por visualização. Em junho deste ano, o Comprova já desmentiu um vídeo publicado no mesmo canal e que tentava desacreditar a pandemia da covid-19, apoiado em imagens da cidade de Genebra, na Suíça.

O Comprova tentou contato com o responsável pelo canal Seu Mizuka, mas não obteve resposta.

Por que investigamos?

Atualmente em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre as eleições municipais de 2020, a pandemia de covid-19 e as políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. A verificação de conteúdos que tratam de apuração é importante porque conteúdos inverídicos podem atingir a confiança das pessoas nas eleições.

O vídeo publicado no canal “Seu Mizuka” teve mais de 157 mil visualizações desde o dia 25 de novembro. No Facebook, o link de YouTube teve 32.355 interações, de acordo com a ferramenta CrowdTangle.

O Comprova tem checado uma série de conteúdos que atacam a lisura do processo eleitoral. Por exemplo, desmentimos que o software das urnas eletrônicas brasileiras tenha sido usado em fraudes nos Estados Unidos e que o TSE tenha atualizado os resultados das eleições de acordo com o portal de notícias G1. Veja todas as verificações do Comprova sobre eleições.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações.

Eleições

Investigado por:2020-12-01

Boulos não prometeu deixar o país depois da derrota nas eleições

  • Falso
Falso
Guilherme Boulos nega ter feito a promessa, o Comprova não encontrou nenhum registro de uma manifestação do político nesse sentido e o site responsável pela publicação não respondeu ao nosso contato para que apresentasse alguma prova.
  • Conteúdo verificado: Link de um site compartilhado nas redes sociais afirma que, após serem derrotados nas eleições municipais em Porto Alegre e São Paulo, respectivamente, Manuela D’Ávila (PCdoB) teria chorado, e Guilherme Boulos (PSOL) anunciado que deixará o país.

Não há indícios de que o ex-candidato à Prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos (PSOL) tenha anunciado que deixaria o país após perder para o atual prefeito Bruno Covas (PSDB) nas eleições do último domingo (29), como diz uma publicação que circula pelas redes sociais.

Procurada, a assessoria de comunicação de Boulos negou o conteúdo. Em seu pronunciamento pós-eleições publicado no Youtube, Boulos não fez nenhuma menção a sair do país. Pelo contrário, disse ser “o começo de uma caminhada” e motivou as pessoas a continuarem lutando, quando reconheceu a derrota na noite de domingo (29). Além disso, o Comprova não encontrou qualquer entrevista em que o psolista afirme isso.

O “Jornal 21 Brasil”, portal responsável pela publicação, afirma que “uma imprensa livre é a condição fundamental para que as sociedades resolvam seus conflitos, promovam o bem-estar e protejam sua liberdade.” O site foi listado pela “CPI das fake news” do Congresso Nacional como um dos sites de “conteúdo inadequado” que recebeu anúncios do governo. Para a CPI, o site publica notícias falsas” e veiculou material de publicidade da campanha Nova Previdência. A CPI analisou o conteúdo publicado pelo site entre junho e julho de 2019. Outras publicações realizadas pelo portal já foram verificadas, como a afirmação de que o TSE teria mudado a empresa responsável pela divulgação da apuração.

Entramos em contato com o Jornal 21 Brasil, mas, até o momento em que essa checagem foi publicada, não tivemos retorno.

Como verificamos?

Procuramos, por WhatsApp, a assessoria de comunicação de Boulos.

Também verificamos os conteúdos publicados pelo candidato em suas redes sociais oficiais após o fim da apuração no domingo e matérias com entrevistas para verificar se ele havia feito alguma afirmação do tipo. Pesquisamos, ainda, checagens relacionadas a Boulos realizadas anteriormente.

Verificação

Não há indícios de que Boulos pretenda deixar o país

Ao Comprova, a assessoria de Guilherme Boulos negou o conteúdo da corrente. A equipe disse que “a informação, evidentemente, não procede”. Ainda segundo a assessoria, a equipe do candidato já tinha conhecimento de que esse conteúdo estava circulando.

Em seu pronunciamento pós-eleição, o candidato derrotado do PSOL também não disse nada sobre deixar o país. Pelo contrário. Em vídeo publicado em suas redes sociais na noite de domingo (29), ele falou em “começo de uma caminhada”.

“Nós não vencemos essa eleição, mas ninguém perdeu a vontade de lutar por esse caminho, para a gente seguir nos próximos anos. Hoje não é o fim de uma caminhada, é o começo. Começo da vitória da solidariedade sobre a indiferença”, declarou Boulos, em publicação após o fim da apuração.

Por que investigamos?

Atualmente em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre as eleições municipais de 2020, a pandemia e as políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. A verificação de conteúdos que tratam de apuração é importante porque conteúdos inverídicos podem atingir a confiança das pessoas nas eleições.

Neste caso, o post no Facebook que compartilha o link com a notícia falsa teve mais de 3,3 mil curtidas, 2,2 mil comentários e cerca de 500 compartilhamentos desde a noite de domingo.

Esta já é a terceira corrente que o Comprova checa sobre Boulos. Durante as eleições de 2020, o Comprova desmentiu que ele havia cobrado aluguel de sem-tetos e que iria obrigar paulistanos a receber moradores de rua durante a pandemia.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2020-11-29

É falso que cabos eleitorais de Sarto tenham transportado urna adulterada

  • Falso
Falso
Vídeo mostra urna conduzida em uma picape cedida à Justiça Eleitoral pelo DNOCS, no Ceará. O equipamento é uma urna de contingência, utilizada para substituir unidade que apresentou defeitos no início da votação
  • Conteúdo verificado: Vídeo no Facebook que mostra urna eletrônica em uma picape, com legenda que diz que o equipamento foi adulterado e transportado por cabos eleitorais do prefeito eleito de Fortaleza José Sarto (PDT)

É falso que um vídeo viral no Facebook mostre cabos eleitorais do prefeito eleito de Fortaleza José Sarto (PDT) transportando uma urna eletrônica adulterada em um carro particular. Na verdade, a gravação mostra um equipamento trazido em uma picape cedida à Justiça Eleitoral pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS). A máquina é uma urna de contingência, utilizada para substituir um equipamento que apresentou defeitos no início da votação.

De acordo com Edna Saboia, coordenadora de Eleições do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE), o procedimento de substituição de urnas é “correto, dentro da legalidade e comum nas eleições”. Ao todo, 42 urnas foram substituídas na capital cearense.

O Tribunal afirmou que o tumulto foi gravado por uma eleitora que não entendeu o transporte da urna. “Ressalta-se que o vídeo está editado e não mostra o momento em que uma servidora explica o processo de troca”, comunicou o TRE-CE.

Como verificamos?

Entramos em contato com o TRE-CE, que divulgou uma nota sobre o ocorrido. Também questionamos Edna Saboia, coordenadora de Eleições do TRE-CE. O editor-chefe do site de checagem E-Farsas Marco Faustino cedeu ao Comprova áudios de uma conversa com uma auxiliar convocada pela Justiça Eleitoral que presenciou o incidente, Ana Cristina Rodrigues.

Verificação

Em que contexto foi gravado o vídeo?

De acordo com o Tribunal Regional do Ceará, o vídeo mostra um tumulto causado por uma eleitora que não aceitou o processo de troca de uma urna eletrônica defeituosa. A confusão ocorreu em um local de votação da 85ª zona eleitoral de Fortaleza, na escola Professor César Campelo.

Uma auxiliar convocada pela Justiça Eleitoral presenciou o incidente e conversou com o editor-chefe Marco Faustino, do site de checagem E-Farsas. Ana Cristina Rodrigues disse que uma urna da seção 141 estava apresentando defeitos pela manhã. “Quando isso acontece, o presidente da mesa tem que reiniciar a urna e se ela continuar travando, tem que substituir”, disse ela. “Mas isso é último caso, porque nós só temos duas urnas de reposição”.

De acordo com a auxiliar, por volta das 11h30 uma eleitora viu uma urna de contingência chegando para a substituição. Ainda segundo Ana Cristina, essa mulher começou a fazer acusações de fraude contra o candidato a prefeito Capitão Wagner (PROS). Uma segunda eleitora filmou, do lado de fora da escola, a picape em que a urna de contingência foi transportada.

“Mostramos para que ela (a mulher que filmava) pudesse ver que era uma urna de reposição, um procedimento normal”, disse Ana Cristina. “Ela continuou gritando dizendo que a gente tava roubando. Ela filmou e editou, deixou só a parte que interessava.”

Segundo o TRE-CE, algumas das pessoas mostradas em torno da picape faziam parte da equipe de apoio da Justiça Eleitoral. O carro utilizado para transporte da urna de contingência foi cedido pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) e estava identificado com adesivos.

“A equipe estava em carro adesivado pelo TRE-CE que foi requisitado ao DNOCS, visto que a Justiça Eleitoral não possui carros suficientes para abranger todas as rotas, sendo necessária a requisição de veículos de outros órgãos públicos”, informou o Tribunal.

Urnas de contingência

São aparelhos reservas, preparados para substituir equipamentos que apresentem algum defeito no dia da votação. Elas são preparadas e lacradas na mesma audiência que as demais e, portanto, apresentam como opções os mesmos candidatos de uma urna “normal”. Caso a urna original apresente problemas após o início da votação, a Justiça Eleitoral transfere o flash card e o disquete do aparelho com defeito para a urna de contingência, garantindo que os votos já registrados não sejam desconsiderados. A nova urna é, então, lacrada novamente e passa a ser a urna da seção eleitoral.

Caso os problemas persistam, a Justiça Eleitoral prevê também a possibilidade de se utilizar um flash card de contingência, também preparado previamente, ou, se não houver alternativa para usar a urna eletrônica, de coletar os votos manualmente através de cédulas.

De acordo com Edna Saboia, coordenadora de Eleições do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE), o vídeo em questão gravou o transporte de urnas para substituição, procedimento que é usual em todas as eleições. “Há mais de 600 urnas de contingência, que são as urnas reservas que ficam em pontos específicos. Quando tem uma ocorrência [de mau funcionamento da urna em uso] em algum local de votação, as equipes de apoio do TRE transportam essas urnas de contingência para substituição. Quem transporta essas urnas são os veículos requisitados pela Justiça Eleitoral. A frota (para as eleições atuais) é de uns 500 veículos, só aqui em Fortaleza, e os carros são requisitados de vários órgãos. O veículo que aparece no vídeo é do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS). O procedimento é correto, dentro da legalidade e comum nas eleições”.

Registros de denúncia

Segundo a Polícia Militar do Ceará, apenas seis ocorrências foram encaminhadas à superintendência da Polícia Federal em Fortaleza por irregularidades no dia da votação. Os registros são de suspeita de distribuição de material de campanha, realização de carreata, apreensão de folhetos e dinheiro (sem comprovação de compra de votos) e outras três ocorrências em Fortaleza e em Caucaia, município da Região Metropolitana, classificadas como “tentativas de atrapalhar os trabalhos eleitorais” que não foram especificados pelo TRE-CE.

Para Saboia, esta foi uma das eleições mais tranquilas que a servidora já vivenciou. “A quantidade de ocorrências foi bem menor do que na eleição passada”, destaca.

Quem é o Inspetor Alberto?

O vídeo com maior viralização no Facebook foi divulgado pela conta do Inspetor Alberto, nome de urna do servidor público aposentado José Alberto Bastos Vieira Júnior, de 59 anos. Ele foi eleito vereador em Fortaleza com 7.301 votos pelo Partido Republicano da Ordem Social (PROS). Essa foi a quinta eleição que ele disputou e a primeira em que teve sucesso – desde 2006, quando concorreu a deputado estadual, vem se candidatando a cargos proporcionais.

Em suas redes sociais, onde ostenta foto ao lado do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), ele se define como “armamentista, conservador e antiesquerdista”.

Nos documentos disponíveis no sistema de divulgação de candidaturas do TSE (DivulgaCand), os três números de telefones fornecidos são do partido PROS. Tentamos contato com o Inspetor através de uma pessoa chamada Tancredo Santos, seu correligionário, que não respondeu às mensagens do Comprova.

No início da noite, Alberto voltou ao seu perfil no Facebook para postar em letras maiúsculas, sugerindo estar gritando: “O Facebook está tentando manipular as pessoas! Está alegando que a notícia é falsa! Contra fatos não há argumentos!”

Por que investigamos?

Atualmente em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre as eleições 2020, a pandemia e as políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. A verificação de conteúdos que tratam de apuração é importante porque conteúdos inverídicos podem atingir a confiança das pessoas nas eleições.

O vídeo que viralizou teve 121,6 mil interações no Facebook, segundo a plataforma de monitoramento de mídias sociais CrowdTangle.

O Aos Fatos, o E-farsas e a Agência Lupa verificaram o mesmo conteúdo e o classificaram como falso.

Durante a eleição de 2020, o Comprova mostrou que as justificativas dos eleitores não podem ser transformadas em votos válidos; que a apuração brasileira é aberta a qualquer pessoa; que é possível realizar recontagem dos votos; e que o sistema que aparece em um vídeo para simular fraude não é o mesmo das urnas eletrônicas.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2020-11-29

É falso que Manuela D’Ávila tenha liderado protestos no Carrefour de Porto Alegre

  • Falsa
Falsa
Ao contrário do que uma postagem sugere, a rede de supermercado Carrefour nunca anunciou fechamento ou demissão de seus funcionários
  • Conteúdo verificado: Publicação em grupo de Facebook afirma que o Carrefour de Porto Alegre onde João Alberto Silveira Freitas foi morto será fechado por conta de protestos liderados pela candidata a prefeita Manuela D’Avila (PCdoB)

É falsa a publicação no Facebook que afirma que o Carrefour da Zona Norte de Porto Alegre, onde ocorreu a morte de João Alberto Silveira Freitas, será fechado por conta de protestos liderados pela candidata a prefeita Manuela D’Avila (PCdoB). Na verdade, os atos foram organizados e convocados por entidades e coletivos do movimento negro, movimentos sociais e integrantes da torcida do time São José.

Ao contrário do que a postagem sugere, a rede de supermercado Carrefour nunca anunciou fechamento ou demissão de seus funcionários. Após a morte, o mercado anunciou no Twitter que no dia 20 de novembro a loja não iria abrir: “em respeito à vítima, a loja será fechada”.

A decisão ocorreu um dia depois do espancamento de João Alberto por dois seguranças. No dia 26 de novembro, sete dias depois da morte de João Alberto, a unidade também ficou fechada. Em post no Twitter, a rede de mercados informou que “em respeito ao luto da família de João Alberto Freitas e à sociedade brasileira, nossas lojas estarão fechadas na quinta até as 14h” .

Não há registro de que funcionários do Carrefour tenham sido demitidos ou que a unidade tenha sido fechada em decorrência dos protestos. Segundo a assessoria da empresa, “a loja segue operando normalmente”. Já o Sindicato dos Empregados do Comércio de Porto Alegre comunicou que não recebeu nenhuma denúncia referente à demissão de funcionários ou sobre a possibilidade de fechamento da loja.

Até o momento, foram demitidos apenas os seguranças envolvidos no espancamento: os terceirizados Giovane Gaspar da Silva e Magno Braz Borges. O Carrefour, em nota, afirmou que terminou o contrato com o Grupo Vector, empresa responsável pela segurança.

Como verificamos?

Procuramos o posicionamento oficial do Carrefour e do Sindicato dos Empregados do Comércio de Porto Alegre. Questionamos a assessoria da própria Manuela D’Ávila sobre sua participação no protesto e entramos em contato com os movimentos e grupos que organizaram os atos realizados em prol de João Alberto. Um dos verificadores foi presencialmente a um dos protestos entrevistar os manifestantes.

O Comprova também tentou contato com a página responsável pela publicação. Não obteve retorno. Posteriormente, a postagem foi apagada, mas outras publicações com o mesmo conteúdo continuam circulando nas redes sociais.

Verificação

A morte de João Alberto desencadeou diversos protestos, que inicialmente foram convocados para o dia 20 de novembro. A reportagem conversou pessoalmente com participantes de uma das manifestações. De acordo com os entrevistados, os atos foram criados pelos seguintes grupos: Torcida Os Farrapos (torcedores do clube Esporte Clube São José, do qual João Alberto fazia parte), Movimento Negro Unifcado (MNU), Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), Juntos, Alicerce, Renagro Casa do Babá Giba de Yemanjá, Pastorais da Criança e do Negro Paróquia Santo Antônio, Articulação Popular Gaúcha, Partido Unidade Popular, Movimento de Alabês Velha África.

Manuela D’Ávila, candidata à prefeitura de Porto Alegre pelo PCdoB, chegou a participar de uma manifestação na unidade do Carrefour, mas não fazia parte da organização do ato. A mídia local informou que a manifestação foi “convocada por entidades e coletivos ligados ao movimento negro”. O fato foi corroborado ao Comprova por representantes de coletivos presentes no local.

Os protestos

Manuela D’Ávila esteve presente em apenas um protesto contra o racismo após a morte de João Alberto na unidade do Carrefour à qual a postagem analisada faz menção. Foi no dia 20 de novembro, quando se celebra o Dia da Consciência Negra no Brasil.

Até a publicação desta verificação, quatro protestos foram feitos em Porto Alegre contra a morte de João Alberto. Na sexta-feira, 20 de novembro, cerca de 2,5 mil manifestantes, segundo a Guarda Municipal de Porto Alegre, se reuniram em frente ao supermercado. Um grupo pequeno de manifestantes tentou invadir o mercado, que estava fechado, gerando confronto com a Brigada Militar.

No sábado, 21 de novembro, 50 pessoas protestaram pacificamente no mesmo local por aproximadamente duas horas. Na segunda-feira, 23, o protesto aconteceu em outro local, em frente ao Carrefour da Avenida Bento Gonçalves, zona leste da cidade. Já no dia 27 de novembro, ocorreu um ato ecumênico no final da tarde, em frente à Igreja São Jorge. Manifestantes caminharam cerca de 3km até o Carrefour da Avenida Bento Gonçalves.

Ao Comprova, a assessoria de Manuela D’Ávila negou que ela tenha convocado o ato e informou que a candidata “apenas passou pelo protesto, no primeiro dia, muito antes de haver qualquer tipo de confusão”.

Posicionamento do Carrefour

Não há evidência de que funcionários do Carrefour tenham sido demitidos em decorrência dos protestos. Segundo a assessoria de comunicação do Carreforur, a informação de que a loja da Zona Norte de Porto Alegre será fechada não é verdadeira. “A informação não procede. A loja segue operando normalmente”, afirmou a empresa, por e-mail.

Já o Sindicato dos Empregados do Comércio de Porto Alegre informou ao Comprova que não recebeu nenhuma denúncia referente à demissão dos funcionários e nem sobre a possibilidade de fechamento da loja.

Após o ocorrido, o mercado anunciou em seu perfil no Twitter que no dia 20 de novembro a loja não iria abrir, “em respeito à vítima, a loja será fechada”. A decisão foi um dia depois do espancamento que levou João Alberto a óbito. No dia 26 de novembro, sete dias depois do espancamento, o mercado também ficou fechado. Em post no Twitter, a rede informa que “Em respeito ao luto da família de João Alberto Freitas e à sociedade brasileira, nossas lojas estarão fechadas na quinta até as 14h” .

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais referente à pandemia, a políticas públicas do governo federal e às eleições de 2020. A postagem analisada nessa verificação se enquadra no último caso: difunde informações falsas sobre uma candidata e pode afetar o processo eleitoral. O conteúdo foi divulgado em pelo menos quatro publicações no Facebook, que somaram mais de 7 mil interações, entre curtidas, comentários e compartilhamentos. Também registrou 50 curtidas em uma publicação no Instagram.

O Fato ou Fake, Aos Fatos e AFP também checaram este conteúdo como falso.

Outros candidatos à prefeitura de capitais foram alvos de desinformação. O Comprova já demonstrou que Boulos não cobrou aluguel de moradores sem-teto e que panfletos distorceram frase de Marília Arraes sobre a Bíblia. Uma frase de Ana Arraes também foi tirada de contexto em vídeo para implicar que seu neto e candidato à prefeitura de Recife, João Campos, teria lhe agredido fisicamente.

Sobre Porto Alegre, o Comprova demonstrou que a diferença entre os resultados do primeiro turno e de uma pesquisa realizada na cidade não implica em fraude do levantamento.

Falso: Conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2020-11-29

É falso que hacker tenha atacado sistema de votos do TSE

  • Falso
Falso
Os dados vazados eram da área de Recursos Humanos e os hackers não chegaram a invadir o sistema de apuração dos votos ou as urnas eletrônicas. Além disso, a urna não é conectada à internet. O sistema operacional instalado nela impede a conexão com qualquer rede ou acesso remoto
  • Conteúdo verificado: Post no Twitter diz que um jovem de 19 anos atacou o sistema do TSE e que um sistema sem auditoria não tem segurança

É falso que um hacker tenha atacado o sistema de votos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), como afirma um tuíte que viralizou neste domingo (29), dia do segundo turno das eleições. Nesse sábado, a Polícia Federal cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em São Paulo, Minas Gerais e em Portugal contra programadores acusados de integrar o grupo hacker que vazou dados administrativos do TSE no primeiro turno das eleições de 2020. Os dados vazados eram da área de Recursos Humanos e os hackers não chegaram a invadir o sistema de apuração dos votos ou as urnas eletrônicas, de acordo com a Justiça Eleitoral, a Polícia Federal e quatro especialistas em cibersegurança que, a pedido do Comprova, analisaram as informações vazadas no dia em que a falha de segurança se tornou pública.

Também não é verdade que o sistema de votação brasileiro não seja seguro por não ter uma auditoria através de votos impressos. As urnas eletrônicas, a rede que transmite os votos e o programa que faz a totalização da votação de cada candidato têm uma série de mecanismos de segurança, como criptografias e chaves de segurança às quais apenas o TSE tem acesso. A Justiça Eleitoral também realiza auditorias das urnas eletrônicas em todos os estados, no primeiro e no segundo turno das eleições, com participações de fiscais dos partidos políticos, de representantes da sociedade civil e de qualquer cidadão interessado em acompanhá-las. Como o Comprova já mostrou, a impressão de um comprovante com os votos de cada eleitor foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF) porque poderia violar o sigilo do voto, que é definido como direito fundamental pela Constituição de 1988.

Como verificamos?

Para essa verificação, inicialmente buscamos informações sobre a prisão do hacker que vazou dados da Justiça Eleitoral. Também procuramos o TSE para saber sobre a segurança das urnas e o processo de apuração dos votos. Entrevistamos Emanuel Bezerra, professor do Departamento de Computação da Universidade Federal do Ceará (UFC), para entender como funciona o tipo de ataque que resultou no vazamento de dados da Justiça Eleitoral. Por fim, entramos em contato com o autor do tuíte.

Verificação

Como foi a ação do hacker preso?

De acordo com matéria publicada pelo Estadão, que entrevistou o hacker, o ataque foi do tipo DDoS (do inglês Distributed Denial-of-Service attack) e realizado por meio de uma “botnet” (controle de uma rede de dispositivos com internet), o que gerou instabilidade no site. O ataque de DDoS, também conhecido como ataque de negação de serviço, atinge seu objetivo excedendo os limites do servidor. Para isso, os hackers criam programas maliciosos que são instalados em diversas máquinas, as quais realizarão múltiplos acessos simultâneos ao site ao qual o ataque é direcionado. A mesma estratégia foi utilizada nos ataques aos sites da Receita Federal, da Presidência da República, do Portal Brasil e da Petrobras ocorridos em junho de 2011.

Na segunda-feira (16), o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, afirmou que o ataque não afetou as urnas eletrônicas nem o resultado das eleições. No entanto, a ação resultou em lentidão nos serviços remotos do TSE em todo o Brasil, devido a solicitações oriundas de 435 mil conexões — que além do território nacional, partiram de países como Estados Unidos e Nova Zelândia.

Segundo Emanuel Bezerra, professor do Departamento de Computação da Universidade Federal do Ceará (UFC), esse tipo de ataque só é possível ser feito com uma rede articulada de computadores, ao contrário do que afirmou o hacker, que disse ter feito a operação sozinho e com auxílio apenas de um celular. “É muito difícil só uma pessoa com o celular conseguir derrubar uma rede. Geralmente são muitas máquinas infectadas trabalhando ao mesmo tempo, e elas não precisam ser do hacker. O que os hackers fazem é contaminar as máquinas (computadores e celulares) de outras pessoas ao redor do mundo, que ficam como se fossem ‘zumbis’ no momento do ataque e iniciam os disparos em massa na rede que o hacker quer derrubar. Essa contaminação de máquinas pode ser causada por sites ou links maliciosos e resultam no que a gente chama de botnet (rede de robôs), que obedecem as ordens do atacante”, explica.

Quem é o hacker?

O hacker português identificado como Zambrius, líder do grupo local CyberTeam, suspeito de ter atacado os dados da Justiça Eleitoral do Brasil, foi preso sábado, 28, pela Polícia Federal em Portugal. O hacker tem 19 anos e se diz “viciado” em programação de computador. Estava detido em casa desde março, com uma tornozeleira eletrônica, após efetuar um ataque aos sistemas de uma empresa de energia elétrica local. Em entrevista ao Estadão, feita entre os dias 17 e 18 de novembro, mas publicada após a prisão, ele contou que agiu por “diversão” e por ser contra governos. Ele acrescentou que o objetivo principal era demonstrar que o TSE continuava vulnerável mesmo depois de ter sido anunciado que tinha reforçado a segurança.

Sobre o fato de o ataque ter feito com que os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro acusassem fraude no sistema eleitoral do Brasil, o hacker disse que a intenção do grupo não era propulsionar o que chamou de “desinformação de fraudes”, e que a invasão não afeta ou causa fraudes nas eleições. “Eu não tenho envolvimento em atos políticos, tenho apenas protestos antigoverno, nunca apoiei partidos, governos ou o quer que seja relacionado ao governo”, afirmou.

No dia 15, o Comprova entrou em contato com a página do CyberTeam e a pessoa que respondeu às mensagens e trocas de e-mails se apresentou como Zambrius e disse ser o jovem que já havia sido preso em abril deste ano em Portugal. Ele disse que o ataque teria ocorrido na data do primeiro turno das eleições, não anos antes. Quando questionado sobre a avaliação de especialistas ouvidos pelo Comprova, segundo a qual o vazamento não teve ligação com dados da eleição, Zambrius respondeu: “Eu não explorei por completo o TSE e só me foquei em reunir os dados de utilizador”.

Sistema de votos não foi invadido

O TSE afirmou ainda no dia 15 de novembro, data do primeiro turno, que o vazamento envolvia apenas dados administrativos do tribunal, com informações de funcionários e ex-ministro da Corte. As informações são referentes ao período de 2001 a 2010. A falha não comprometeu o sistema de votação, que funciona à parte e possui várias travas de segurança, inclusive utilizando chaves e criptografia. O ataque também não poderia afetar as urnas eletrônicas, que estavam recebendo o voto dos eleitores naquele momento, porque elas não são conectadas à internet.

Ainda no dia 15 de novembro, o Comprova pediu a quatro especialistas em cibersegurança que avaliassem os dados vazados para saber se eles poderiam comprometer o resultado das eleições. Todos foram unânimes em afirmar que o sistema de votos não foi afetado e que o ataque não violou a segurança da eleição. Foram ouvidos Paulo Lício de Geus, professor do Instituto de Computação e CIO da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e representante da Sociedade Brasileira de Computação nos testes públicos de segurança do sistema eletrônico de votação do TSE; Hiago Kin, presidente da Associação Brasileira de Segurança Cibernética e CEO da Deepcript; Thiago Tavares, presidente da SaferNet; e Márcio Correia, analista de sistemas da Universidade Federal do Ceará (UFC) e professor de Tecnologia de Informação da Faculdade Cearense (FaC).

Posição do TSE e segurança da eleição

Desde o dia do primeiro turno da eleição, as informações iniciais passadas pelo ministro Luís Roberto Barroso eram de que o vazamento de dados havia partido de Portugal. O ministro da Justiça, André Mendonça, também afirmou, no dia da votação, que a Polícia Federal estava investigando o caso e não havia encontrado “qualquer indicativo de prejuízo ao pleito eleitoral”. Além de garantir que a falha de segurança não afetou o resultado das eleições por conta das medidas de proteção, o TSE também instituiu uma Comissão de Segurança Cibernética para trocar informações com a PF e acompanhar a apuração do caso.

As urnas eletrônicas possuem comandos que garantem que apenas softwares assinados digitalmente pelo TSE possam ser executados. Também são programadas barreiras de segurança que fazem com que tentativas de ataque ou de executar um software não autorizado bloqueiem o aparelho. O programa oficial do TSE também para automaticamente de ser executado caso alguém tente executá-lo em um hardware não certificado. Além disso, a urna não é conectada à internet. O sistema operacional instalado nela impede a conexão com qualquer rede ou acesso remoto.

As urnas passam por testes públicos em que especialistas tentam quebrar as barreiras de segurança. Em nenhuma das cinco edições (realizadas em 2009, 2012, 2016, 2017 e 2019) os programadores conseguiram quebrar o sigilo ou desvirtuar a destinação dos votos. Se houver qualquer suspeita em relação à autenticidade do software utilizado em qualquer aparelho, as assinaturas digitais também podem ser conferidas pela Justiça Eleitoral.

Por fim, o TSE realiza auditorias para testar a segurança e a lisura da votação. Os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) sorteiam ao menos seis urnas em cada turno da eleição. Em três delas são conferidos os sistemas instalados no equipamento. Fiscais da sociedade civil, de partidos políticos e cidadãos podem conferir se a assinatura digital que consta nas urnas é a mesma que foi lacrada anteriormente em uma cerimônia feita pela Justiça Eleitoral. Nas demais urnas, é feita uma votação paralela. Em um local público, com a participação de fiscais dos partidos políticos e de qualquer cidadão que tenha interesse em acompanhar, é feita uma votação simulada, em que os representantes dos partidos preenchem cédulas em papel e, depois, registram esses votos nas urnas. Ao final, as cédulas em papel são contadas para verificar se os votos batem com o boletim impresso ao final pela urna eletrônica.

O autor do post

O Comprova entrou em contato com o autor da postagem, um ex-agente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) com atuação pró-Bolsonaro nas redes sociais. “Eu não disse que ela (a urna eletrônica) não é auditável. Eu disse que sem o voto impresso, não há segurança 100%. (…) Não é voltar ao sistema anterior, mas adicionar outra camada de segurança”, afirmou, defendendo a impressão do voto, medida declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por riscos de fraude e quebra de sigilo.

Logo após o contato do Comprova, o autor restringiu o acesso à publicação, que já havia sido curtida por mais de duas mil contas e compartilhada por quase 500.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre as eleições de 2020, a pandemia de covid-19 e políticas públicas do governo federal. É o caso do tuíte verificado aqui, do perfil @pacefeco, que teve 2,2 mil interações nas redes sociais. Conteúdos sobre a eleição são importantes porque a desinformação pode afetar a credibilidade dos resultados das urnas.

Recentemente, o Comprova mostrou que as justificativas dos eleitores não podem ser transformadas em votos válidos; que a apuração brasileira é aberta a qualquer pessoa; que é possível realizar recontagem dos votos; e que o sistema que aparece em um vídeo para simular fraude não é o mesmo das urnas eletrônicas.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2020-11-27

Bolsonaro não se beneficiou de fraude eleitoral em 1994

  • Enganoso
Enganoso
Notícia de 1994 compartilhada agora nas redes sociais é verdadeira, mas não indica qualquer evidência de que Bolsonaro tenha participado da fraude. Nas eleições daquele ano, ele foi o terceiro candidato mais votado no Rio de Janeiro
  • Conteúdo verificado: Tuíte usa recorte de um jornal da década de 1990 para afirmar que Jair Bolsonaro já se envolveu em fraude eleitoral

É enganoso afirmar que o atual presidente, Jair Bolsonaro (sem partido), participou de fraude em eleições nos anos 1990. A alegação viralizou no Twitter no início da semana (23/11). A postagem apresenta uma notícia da época, em que Bolsonaro, então candidato a deputado federal, é citado como um dos favorecidos pelo uso de cédulas falsas.

O tuíte desconsidera que, de acordo com a própria reportagem, Bolsonaro só teria angariado um voto a mais caso a Justiça Eleitoral não tivesse descoberto as irregularidades nas cédulas naquele ano. Nas eleições de 1994, ele foi o terceiro candidato mais votado no Rio de Janeiro. Além disso, a notícia não indica qualquer evidência de que ele tenha participado do episódio.

Contudo, o Comprova verificou que a notícia é verdadeira e que as irregularidades citadas no jornal não foram as únicas registradas na ocasião. A eleição chegou a ser anulada e uma segunda votação foi realizada. Em 1996, porém, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) restabeleceu o resultado do primeiro pleito por entender que a maioria dos votos foi válida.

De acordo com especialistas consultados pela reportagem, as fraudes no período foram facilitadas pelo fato do voto ser impresso. Os métodos para fraudar eram inúmeros: cédulas depositadas em branco nas urnas pelos eleitores poderiam ser preenchidas irregularmente durante a apuração; lotes inteiros de cédulas não utilizadas poderiam ser extraviadas; e os formulários chamados “boletins de urnas” poderiam ser alterados após a apuração com informações falsas, tidas como autênticas por não haver registro eletrônico. O voto em papel é a tecnologia defendida diversas vezes pelo presidente Bolsonaro, mas, segundo o TSE, as urnas eletrônicas vieram para dar mais segurança e confiabilidade às eleições.

Como verificamos?

Na publicação verificada, internautas comentaram que o recorte da reportagem seria do Jornal do Brasil de 1994. O Comprova confirmou a informação após pesquisas no arquivo da Biblioteca Nacional. Por meio das edições antigas do periódico, também fizemos um retrato das fraudes ocorridas naquelas eleições.

A fim de comentar como era o cenário da votação e da apuração na época, entrevistamos por telefone o cientista político David Fisher, que foi observador da Organização dos Estados Americanos (OEA) em São Paulo; e o procurador regional eleitoral aposentado Alcir Molina da Costa, que foi responsável pelo pedido de anulação daquela eleição.

Detalhes sobre a investigação das fraudes e o desfecho dela foram solicitados à assessoria de imprensa do Tribunal Superior Eleitoral. Os resultados das eleições do Rio de Janeiro em 1994 estão disponíveis no próprio site do TSE. Por estes meios, também foram obtidas informações sobre a adoção e a segurança das urnas eletrônicas.

Para contextualizar a verificação, o Comprova buscou notícias no Google sobre o voto impresso, encontrando declarações favoráveis de Jair Bolsonaro (sem partido) e contrárias do ministro Luís Roberto Barroso, presidente do TSE. Pelo buscador também detalhamos quem eram os outros deputados citados na reportagem presente no tweet.

Verificação

A reportagem antiga é real

O recorte do jornal mostrado no tuíte verificado é real. Trata-se de uma reportagem publicada no Jornal do Brasil, no dia 17 de novembro de 1994. Ela aparece na quinta página do periódico, na seção “Política e Governo”, que naquele dia cobria, principalmente, as eleições. Naquele ano, a votação ainda era feita por meio de cédulas de papel.

Conforme o texto, foram constatadas fraudes em quatro zonas eleitorais no Rio de Janeiro. Na 70ª, cerca de 200 votos foram anulados devido à caligrafia idêntica. Na 25ª, havia 16 votos fantasmas, 15 com assinaturas falsificadas e 79 preenchidos com a mesma letra. Na 77ª zona, 28 votos para um candidato a deputado não foram contabilizados.

Já a tentativa de fraude envolvendo o agora presidente Jair Bolsonaro – na época, candidato a deputado federal – aconteceu na 24ª zona, onde foram descobertas quatro cédulas falsas, feitas com papel mais fino. Também seriam beneficiados Álvaro Valle (PL), Vanessa Felippe (PSDB) e Francisco Silva (PP).

Na ocasião, Jair Messias Bolsonaro (PPR) foi o terceiro candidato a deputado federal mais votado no Rio de Janeiro, com 111.927 votos (2,48%), de acordo com o resultado divulgado no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O mais votado, Oliveira Franciso da Silva (PP), teve 141.880 votos (3,14%). Os dois foram eleitos.

Outros dois candidatos que teriam recebido os votos falsos –caso os mesmos não tivessem sido detectados– também se elegeram. Vanessa Felippe (PSDB), que angariou 44.822 votos (0,99%), e Álvaro Bastos do Valle (PL), com 38.247 votos (0,85%). Na lista dos candidatos mais votados no Rio de Janeiro, eles aparecem nas posições 24ª e 34ª, respectivamente.

As fraudes nas eleições de 1994 no Rio de Janeiro

Os jornais da época relatam vários casos diferentes de fraude ou suspeita de fraude, com métodos diferentes. O primeiro indício da fraude generalizada foi o baixo percentual de votos em branco, que havia caído pela metade: de 20,8% em 1990 para 10,8% em 1994, no caso da eleição para deputado estadual. À medida que a apuração avançava, fiscais e juízes também perceberam a grande quantidade de cédulas preenchidas com a mesma caligrafia.

A 25ª zona, em Santa Cruz, teria sido a região com maior número de votos fraudados, mas as denúncias recebidas pela Justiça Eleitoral e pelo Ministério Público chegavam de vários bairros da capital e de municípios da região metropolitana e interior. Em pelo menos quatro urnas, havia mais votos do que eleitores registrados.

Em um caso, o presidente da 58º seção da 117ª zona eleitoral, na Ilha do Governador, desapareceu levando urnas, cabine de papelão, livro de votação, 500 cédulas de votação para governador e 500 para deputado federal e estadual. Na 7ª zona, um escrutinador (voluntário credenciado pela Justiça Eleitoral para contar os votos) suspeito de alterar oito boletins de urna foi preso duas semanas após a eleição do primeiro turno, quando foi ao fórum participar de uma audiência do próprio divórcio.

Em Nova Iguaçu, um juiz eleitoral chegou a ser investigado por envolvimento com uma quadrilha de fraudadores. Ele teria violado o código eleitoral ao nomear dois parentes para atuar na mesma junta apuradora. As pessoas nomeadas pelo juiz, dois irmãos, foram flagrados alterando boletins de urna em favor de um candidato do PPR, apoiado pelo então presidente da Assembleia Legislativa, José Nader (PDT).

Desfecho: houve anulação, mas foi revertida

Por causa das fraudes, a eleição foi anulada e houve uma nova votação para os cargos proporcionais junto com a votação do segundo turno para governador, no dia 15 de novembro. No entanto, em 1996, a segunda votação é que foi anulada e os resultados da primeira votação foram homologados pelo TSE.

Em e-mail enviado ao Comprova, o Tribunal Superior Eleitoral explicou que as eleições proporcionais foram anuladas pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) porque “entendeu que o índice de votos em branco poderia ser uma evidência de fraude na votação”. Porém, “essa anulação foi revertida em 1996 pelo plenário do TSE”.

“Para os ministros da Corte Eleitoral, não ficou provado que o total de votos supostamente fraudados seria o suficiente para determinar anulação de todo o pleito. É importante esclarecer que o voto fraudado é retirado do cômputo dos votos válidos, mas isso não necessariamente conduz à anulação de toda a votação. Para que isso ocorra, é preciso ter a comprovação de fraude substancial acima de 50% dos votos válidos”, esclareceu o TSE.

Procurador regional eleitoral naquela eleição e hoje aposentado do Ministério Público Federal (MPF), Alcir Molina da Costa, contou que, naquele ano, a decisão do TRE-RJ de anular as eleições para deputado federal e estadual foi inédita e surpreendente.

“Desde os anos 1960 e 1970, havia no Rio um ditado entre candidatos e cabos eleitorais que dizia ‘eleição não se ganha na votação, se ganha na apuração’. Era verdade. O ambiente da apuração, primeiro no Maracanãzinho e, depois, no Riocentro, era uma grande confusão, com centenas de mesas apuradoras cercadas por fiscais dos partidos, com as contagens das cédulas de papel e preenchimento de boletins oficiais acontecendo ao mesmo tempo”, recordou.

Em 1994, contudo, as denúncias que surgiam a todo instante e vindas de todos os locais do estado indicavam que as fraudes tinham se tornado a regra e não a exceção. “Então, eu e o juiz-corregedor eleitoral, Paulo César Salomão, entendemos que não podíamos homologar aquele absurdo. Mesmo sabendo que seria difícil o TRE concordar, pedimos a anulação”. Para surpresa de ambos, foram sete votos a zero pela suspensão da primeira votação.

Qual o envolvimento de Jair Bolsonaro?

Apesar do nome do atual presidente aparecer na reportagem, não é possível afirmar que ele tenha tido envolvimento direto com a ação. Ele é citado apenas em um caso isolado, exatamente o do recorte do Jornal do Brasil mostrado no conteúdo verificado.

Conforme relata o próprio texto, ele poderia ter recebido somente um voto fruto de fraude, elaborado em uma cédula de papel que era mais fina que a oficial. O mesmo aconteceu com Álvaro Valle (PL), Vanessa Felipe (PSDB) e Francisco Silva (PP). As suspeitas mais graves, já citadas acima, recaíram sobre diversos outros candidatos e candidatas.

Também de acordo com o ex-procurador regional eleitoral Alcir Molina, a quantidade de cédulas com o nome de Bolsonaro era irrelevante e restrita a uma seção eleitoral. Aliás, o atual presidente teve cerca de 23 mil votos a mais na segunda eleição do que na primeira. Além dele, os outros três candidatos em igual situação também foram eleitos em ambas as votações.

Quem são os outros candidatos citados?

Mais votado entre todos os candidatos, Oliveira Francisco da Silva era empresário e radialista. Nascido na cidade de Cunha (SP), ele foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro a primeira vez em 1990, pelo PDC. Nas eleições de 1994, ele foi reeleito. No ano seguinte, ele foi um dos fundadores do Partido Progressista Brasileiro (PPB).

Novamente reeleito em 1998, Oliveira Francisco da Silva deixou o cargo em janeiro de 1999 para assumir a Secretaria de Habitação do Rio de Janeiro, na gestão de Anthony Garotinho. Em outubro de 2017, aos 79 anos, ele morreu e foi velado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Ele é pai do atual deputado estadual Fábio Silva.

Já Álvaro Bastos do Valle era professor, diplomata e bacharel em direito. Antes das eleições de 1994, ele já tinha sido eleito deputado federal cinco vezes consecutivas pelo Rio de Janeiro, sendo a primeira delas em 1974. Nas décadas de 1960 e 1970, ele foi também deputado estadual pela UDN e pela ARENA.

Em junho de 1985, ele fundou o Partido Liberal (PL) e, no ano seguinte, foi o quinto candidato à deputado federal constituinte mais votado de todo o país, com mais de 320 mil votos, fazendo parte, assim, da Assembleia Constituinte. Nascido no Rio de Janeiro em 1934, ele morreu na capital em janeiro de 2000, aos 65 anos.

Nascida em outubro de 1972, Vanessa Poyares Tuffy Felippe foi deputada federal pelo Rio de Janeiro entre os anos de 1995 e 1999, iniciando o mandato como a mais jovem congressista do país, com apenas 26 anos. Ela é filha do também político Jorge Miguel Felipe, que foi três vezes vereador da capital fluminense.

Atualmente empresária, ela foi novamente candidata a deputada federal pelo Rio nas eleições de 2018, pelo Partido da Mobilização Nacional (PMN), terminando a disputa como suplente. Em 2016, ela se candidatou à vereadora na capital fluminense pelo Partido Trabalhista do Brasil (PTdoB), mas não foi eleita.

Votação em papel facilita fraudes e manipulações

Cientista político da Universidade de Brasília (UnB), David Fisher foi categórico ao afirmar que o voto por meio de cédulas de papel “abre muito espaço para manipulação e falsificação”. Como exemplo, ele citou experiências que viveu durante as eleições de 1994 em São Paulo, quando foi observador da Organização dos Estados Americanos.

“Era complicado porque tinha que apurar votos para cargos majoritários e proporcionais. Teve uma mesária que foi ao banheiro quatro ou cinco vezes. O juiz desconfiou e mandou uma oficial ir atrás dela. A apuradora havia pego votos em branco sorrateiramente, colocado na calcinha e estava no banheiro preenchendo”, exemplificou.

“Naquela época, nas cidades menores, tinha o fenômeno que o cabo eleitoral guardava o título eleitoral dos eleitores e depois levava o eleitor para votar. Chegava lá, entregava o título e a chamada marmita (envelope com todas as cédulas de papel). Era muito mais produtivo você comprar o cabo eleitoral que os eleitores. O Mário Palmério, que foi um deputado federal de Minas Gerais, publicou um livro chamado ‘Vila dos Confins’ que descreve uma eleição. A maior corrupção que ele já tinha visto”, contou Fisher.

Outro exemplo dado por ele é o de um juiz eleitoral que pediu a opinião dos fiscais para saber como contabilizar os votos. “Fernando Henrique Cardoso não era candidato, deveria ser voto nulo. Mas podia contar como voto partidário ao PSDB. Mesma coisa no caso do Lula e do Brizola: acabou contando como voto de legenda”, contou.

O próprio TSE admitiu que houve “várias denúncias de fraudes antes da adoção da urna eletrônica pela Justiça Eleitoral”. No entanto, o Tribunal não tem um levantamento específico sobre essas ocorrências. “Esclarecemos que todos os votos que comprovadamente decorriam de fraude eram anulados e excluídos da contagem dos votos válidos”, garantiu por e-mail.

O procurador aposentado Alcir Molina conta que a fraude generalizada de 1994 estimulou o TSE a acelerar o processo de adoção do voto eletrônico no país, que passou a ser testado já na eleição seguinte.

Adoção das urnas eletrônicas

As urnas eletrônicas passaram a ser adotadas nas eleições brasileiras em 1996. Ou seja, na seguinte à relatada nesta verificação. De acordo com o próprio Tribunal Superior Eleitoral, ela foi desenvolvida “com o objetivo de garantir mais segurança, rapidez e transparência ao processo eleitoral – diminuindo a intervenção humana dos procedimentos de apuração e totalização dos resultados”. Assim como “impedir interferências na vontade do eleitor” e “assegurar o sigilo do voto”.

Desde que a urna eletrônica começou a ser utilizada, “não houve qualquer comprovação de fraude envolvendo o sistema eleitoral brasileiro”. Gradualmente implantado a partir das eleições de 1996, o voto eletrônico passou a estar presente em todo o país em 2000. “A partir de 2008, a Justiça Eleitoral iniciou o cadastro biométrico dos eleitores, aumentando ainda mais a segurança do pleito”, afirmou o TSE.

Recentemente, o Comprova já realizou diversas verificações que mostram a segurança e a confiabilidade das urnas e do atual sistema de votação do país, tais como: a que mostrou ser possível auditar e realizar a recontagem de votos; a que esclareceu que a apuração é aberta para qualquer pessoa; e a que garante que as justificativas dos eleitores não podem ser transformadas em votos válidos.

Bolsonaro é a favor do voto impresso

Atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro já se declarou a favor do voto impresso inúmeras vezes, inclusive durante a campanha à presidência. Recentemente, no dia 5 deste mês, em transmissão ao vivo pela internet, ele voltou a defender a mudança já para as próximas eleições, em 2022.

Vale lembrar também que, em março deste ano, Bolsonaro afirmou – sem apresentar provas – que a eleição de 2018, na qual ele saiu vencedor, teria sido fraudada. Até hoje as provas que ele garantiu possuir nunca foram apresentadas. Também com a alegação de “evitar fraudes”, ele defendeu o voto impresso em outubro.

No último domingo (22), o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, também defendeu que um Projeto de Emenda Constitucional (PEC) para a impressão de comprovantes de urna junto aos votos seja tratado como prioridade. No mesmo dia, apoiadores do governo federal se manifestaram em apoio no Planalto do Palácio.

É importante ressaltar que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em setembro deste ano, que a impressão do registro do voto eletrônico é inconstitucional, porque poderia colocar em risco o sigilo e a liberdade do voto. Sobre a decisão, o Comprova chegou a esclarecer que era enganosa a afirmação de que o voto impresso seria inconstitucional.

Rebatendo as afirmações de Bolsonaro, o ministro Luís Roberto Barroso, atual presidente do TSE, reiterou que “de 1996 para cá nunca se documentou nenhum tipo de fraude associada às urnas eletrônicas”, que não tem “paixão pelas urnas, mas apreço por eleições limpas” e declarou que “retornar ao voto impresso é um retrocesso, é como comprar um videocassete na era do streaming”.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos duvidosos que viralizaram na internet, relacionados a políticas do governo federal, à pandemia ou às eleições municipais de 2020. A publicação aqui verificada engana ao usar uma reportagem real para afirmar que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) já se envolveu em fraude eleitoral.

Até o início da tarde de 26 de novembro, o tuíte em questão já tinha mais 3.300 curtidas, além de 690 retweets e mais de 240 comentários. De acordo com a ferramenta CrowdTangle, o conteúdo poderia ter atingido até 280 mil internautas, apenas no Twitter. A publicação também foi compartilhada no Facebook, mas em menor número.

Recentemente, em maio ao período eleitoral, o Comprova já mostrou que o software usado nas urnas eletrônicas brasileiras não é o mesmo que o utilizado nos EUA, que diferenças entre o resultado da pesquisa e da eleição não significa fraude, que o TSE não atualizou o resultados das eleições com base em um portal de notícias e que o sistema usado em um vídeo que sugere fraudes não é o mesmo usado nas urnas eletrônicas do Brasil.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por:2020-11-26

Panfletos distorcem frase de Marília Arraes sobre a Bíblia

  • Enganoso
Enganoso
Os conteúdos verificados foram retirados de contexto para dar a entender que a petista seria contra a Bíblia, mas escondem que a frase destacada envolvia uma defesa do estado laico e não uma ação anti-Bíblia
  • Conteúdo verificado: Panfletos e posts no Facebook segundo os quais Marília Arraes, candidata à Prefeitura do Recife, quis proibir a leitura da Bíblia na Câmara dos Vereadores e que é impossível cristãos apoiarem sua eleição

São enganosos os panfletos e posts afirmando que a deputada federal Marília Arraes (PT), candidata à Prefeitura do Recife, quis proibir a leitura da Bíblia nas sessões da Câmara dos Vereadores da capital pernambucana quando era vereadora. Os materiais alegam que “cristão de verdade” não vota na petista e estampam um trecho de uma fala da candidata retirada de contexto.

Os conteúdos verificados dão a entender que a petista seria contra a Bíblia, mas escondem que a frase destacada envolvia uma defesa do estado laico e não uma ação anti-Bíblia.

A frase de Marília que aparece no panfleto é a seguinte: “Inclusive, na edição do novo regimento, me posicionei contra se manter o costume de se ler passagens da Bíblia e se falar em nome de Deus”. A candidata fez essa declaração em 2017, em entrevista à Folha de Pernambuco, ao comentar a decisão do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) de recomendar a proibição de práticas religiosas na Câmara.

Os panfletos não são assinados e, após um pedido da candidata, a Justiça Eleitoral determinou que eles não fossem mais distribuídos.

O site do PT, partido da candidata, publicou um texto afirmando ser falso que Marília seja contra a Bíblia e os cristãos. O Comprova procurou a assessoria de imprensa da candidata, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Como verificamos?

O Comprova buscou reportagens antigas, em jornais de Pernambuco e nos sites e redes sociais da Câmara de Vereadores do Recife, para descobrir se a frase atribuída a Marília Arraes existia e qual o contexto em que teria sido dita. A reportagem buscou também o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), para ter acesso à resolução que motivou a declaração da candidata, e o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PE), para saber quais as medidas judiciais em torno da distribuição dos panfletos e publicações na internet.

A página que publicou as postagens foi procurada, bem como a assessoria de comunicação da petista e do candidato do PSB, João Campos. Também foram consultadas publicações nas páginas de redes sociais de ambos, e entrevistas anteriores, para saber o posicionamento de Marília sobre temas correlatos ao da declaração mencionada nas postagens checadas. O programa de governo da candidata e o site do PT também foram usados para a checagem.

Verificação

Marília e a leitura da Bíblia na Câmara dos Vereadores

A declaração de Marília Arraes, que aparece nas imagens publicadas na internet, foi extraída de uma reportagem publicada na Folha de Pernambuco, no dia 21 de abril de 2017. O jornal repercutiu entre os parlamentares uma resolução do Ministério Público de Pernambuco que recomendava que o presidente da Câmara de Vereadores do Recife se abstivesse de “autorizar/permitir a realização naquela casa legislativa e/ou seus anexos, de reunião/encontro ou assemelhado, em que haja a prática de liturgias e rituais próprios de cultuação religiosa.”

Marília Arraes foi consultada sobre a recomendação do MPPE por, na época, ocupar o cargo de líder da oposição na Câmara. De acordo com a reportagem, a frase completa dita por ela foi: “A defesa do Estado Laico é uma luta que vem sendo travada desde o primeiro mandato. Inclusive, na edição do novo regimento me posicionei contra se manter o costume de se ler passagens da Bíblia e se falar no nome de Deus. A gente tem que prezar pelo Estado Laico, principalmente pelo momento de retrocesso que a gente vive no Brasil”, ressaltou.

Segundo a reportagem, em continuação, Marília Arraes disse que iria estudar uma forma de retirar a Bíblia do plenário, porém que era “importante frisar que esse posicionamento nosso não é contra qualquer religião. Ele é, sim, a favor de todas elas e para que a gente tenha um Estado sem discriminação”. A TV Câmara do Recife registrou os posicionamentos dos parlamentares no plenário, no dia em que foi expedida a recomendação do MPPE, mas lá não consta a frase de Marília Arraes nem qualquer manifestação da petista.

O contexto da fala de Marília Arraes

A frase foi dita por Marília Arraes no contexto da recomendação número 002/2017, publicada pelo Ministério Público de Pernambuco no Diário Oficial do dia 20 de abril de 2017. Na época, a 27ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital Promoção e Defesa do Patrimônio Público fez a recomendação considerando um procedimento preparatório para apurar “o pretenso uso das dependências da Câmara Municipal do Recife para a realização de evento religioso.”

O MPPE deu 20 dias para que a Câmara dos Vereadores, na figura do presidente, informasse à Promotoria de Justiça sobre as providências adotadas em face da recomendação. O tema foi alvo de matérias na imprensa local, na Folha de Pernambuco, Diario de Pernambuco e no Blog do Jamildo, do Jornal do Commercio. O tema também motivou manifestações dos parlamentares em reuniões ordinárias de abril de 2017.

O regimento da Câmara dos Vereadores do Recife diz que “a Bíblia Sagrada deverá ficar, durante todo o tempo da reunião, aberta sobre a mesa, à disposição de quem dela pretender fazer uso” e também diz que “achando-se presente na Casa, pelo menos, a quinta parte do número total de Vereadores, desprezada a fração, o Presidente declarará aberta a reunião, proferindo as seguintes palavras: ‘Sob a proteção de Deus e em nome do povo recifense, iniciamos nossos trabalhos’”.

Por e-mail, o Ministério Público afirmou que “a recomendação foi feita em caráter preventivo e que o MPPE não tomou conhecimento de que a Câmara de Vereadores do Recife tenha descumprido a recomendação.”

Cartazes apócrifos motivaram ações

Os panfletos não possuem assinatura. A candidatura de Marília Arraes apresentou uma representação à Justiça Eleitoral para impedir a circulação desses panfletos e informou que eles estariam sendo entregues em frente a uma igreja no dia 22 de novembro. A defesa da candidata alegou que a campanha do adversário João Campos (PSB) “foi responsável pela confecção e patrocínio da entrega do material, pois os adesivos colados no carro utilizado na distribuição e o material elogioso do candidato entregue com a publicidade combatida apresentam design típico de sua campanha impresso em alta qualidade”.

Na decisão, a juíza da 7ª Zona Eleitoral de Recife, Virgínia Gondim Dantas, deferiu liminar em favor da candidata petista proibindo a distribuição do material e acolheu o argumento da coligação que sustentava se tratar de propaganda irregular, ao dizer que a distribuição dos materiais impressos foi “levada a efeito de forma irregular, por não constar em nenhum deles a identificação do responsável pela confecção, assim como quem o contratou e a tiragem”. Essas informações são obrigatórias em materiais de propaganda de candidaturas, segundo resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A magistrada também apontou na liminar que a propaganda “não poderia ser divulgada porque, além da característica [de campanha] negativa, apresenta contornos de fake news, uma vez que induz o eleitor que professa a fé cristã a ter sentimentos de ódio e ojeriza pela candidata, porquanto imputa fatos notadamente inverídicos e ensejadores do repúdio da população”, segundo um trecho da decisão.

A coligação liderada por João Campos se manifestou ao ser citada na representação da candidatura adversária e negou qualquer relação com os materiais. O grupo disse tratar-se de “propaganda apócrifa, sem qualquer informação acerca da coligação ou do responsável pela confecção”, e que não há prova de autoria ou de conhecimento do fato por parte da campanha de Campos.

Em uma série de postagens no Instagram no dia 23 de novembro, João Campos também negou relação com os materiais e disse que “jamais autorizaria qualquer tipo de ataque de baixo nível”. Ele afirmou ainda que foi “o primeiro a pedir ao Ministério Público a apuração de denúncias sobre materiais apócrifos vistos no Recife. De minha parte, nunca irão surgir ataques pessoais, baixarias, acusações ou notícias falsas.”

Procurado pelo Comprova, a assessoria de Campos não retornou a mensagem até a publicação desta verificação.

Além da representação com pedido de liminar para proibir a circulação dos panfletos, a campanha de Marília Arraes também moveu uma Ação de Investigação da Justiça Eleitoral (Aije) contra Campos e sua candidata a vice Isabella de Roldão (PDT) por suposta prática de abuso de poder econômico na distribuição dos materiais. Esta ação ainda não havia sido analisada pela Justiça eleitoral até as 13h de 26 de novembro de 2020.

Onde os panfletos foram compartilhados

As informações de que Marília Arraes teria tentado proibir a leitura da bíblia na Câmara de Vereadores foram publicadas em uma montagem com a foto da candidata à prefeita, acima da imagem de uma bíblia com sinal de proibição e uma frase entre aspas atribuída à Marília, dizendo que ela teria se posicionado contra a leitura da Bíblia “na edição do novo regimento”.

Este mesmo panfleto que circulou em versão impressa em Recife aparece publicado por usuários no Facebook em um grupo de apoio à candidata a prefeita de Recife, Delegada Patrícia (Podemos), que ficou em quarto lugar no primeiro turno e que recebeu apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Um usuário publicou no mesmo grupo outra versão do panfleto com informações semelhantes, de que Marília Arraes “tirou a bíblia da Câmara do Recife”, de que o “PT persegue cristãos em todo o Brasil”, entre outras acusações.

A postagem do primeiro cartaz também foi replicada em um grupo chamado “Bolsonaro Pernambuco”. A fotografia desta montagem em formato impresso foi compartilhada ainda pela página “Assembleianos de VALOR” no Facebook. Neste caso, a imagem foi publicada junto com uma frase questionando se “um grande número de ‘cristãos’ votarão nela [Marília Arraes]?”. A postagem também copia um texto do jornal Folha de Pernambuco sobre o apoio do pastor Cleiton Collins (Progressistas), que é deputado estadual e tem influência no meio evangélico, à candidatura de João Campos (PSB).

Procurada pelo Comprova, a página que compartilhou a foto do panfleto respondeu que o conteúdo estaria publicado no jornal Folha de Pernambuco. A página foi questionada se possuía alguma comprovação de que um pedido de retirada da Bíblia haveria partido de Marília Arraes, mas, até a publicação desta checagem, não enviou novas mensagens.

A página Assembleianos de VALOR tem 881 mil curtidas e publica a maior parte do conteúdo sobre religião. No entanto, no último mês há postagens favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro e a candidatos apoiados pelo mesmo grupo religioso em capitais do país, como Bruno Covas, em São Paulo (SP).

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos que viralizam nas redes sociais ligados às eleições municipais, às políticas públicas do governo federal e à pandemia.

Esta verificação é inédita para o Comprova, pois iniciou-se com panfletos distribuídos fisicamente – é o primeiro caso de desinformação checado pela equipe que não começou nas redes sociais. Ao descontextualizar afirmações de Marília e acusar indevidamente uma candidata ao segundo turno, os conteúdos colocam o processo democrático em risco. Somados, os posts tinham, até 26 de novembro, mais de 500 compartilhamentos.

O Comprova já averiguou outros conteúdos relacionados às eleições deste ano, como o de um vídeo que retira de contexto uma frase de Ana Arraes sobre ‘agressão’ do neto João Campos, uma postagem que acusou, também erroneamente, o candidato paulistano Guilherme Boulos de cobrar aluguel de moradores sem-teto, e o que enganava ao afirmar que votos recebidos por vereadora no Tocantins teriam diminuído durante a apuração. O processo eleitoral também esteve presente nas checagens da equipe, que produziu investigações desmentindo que o software usado nas urnas brasileiras seria o mesmo dos Estados Unidos e que o ataque de hackers no sistema do TSE violaria a segurança da eleição (produzido em parceria com a agência Aos Fatos).

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos; que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano; ou que é retirado de seu contexto original e usado em outro, de modo que seu significado sofra alterações.

Eleições

Investigado por:2020-11-26

Vídeo retira de contexto frase de Ana Arraes sobre ‘agressão’ do neto João Campos

  • Enganoso
Enganoso
Vídeo compartilhado no WhatsApp e Instagram reproduz alguns segundos de uma entrevista de 14 minutos em que Ana Arraes se queixa de uma briga pública entre seu neto João Campos, candidato à Prefeitura de Recife, e o advogado Antônio Campos, presidente da Fundação Joaquim Nabuco. Antônio é filho de Ana Arraes e tio do candidato
  • Conteúdo verificado: Vídeo em que Ana Arraes, ministra do Tribunal de Contas da União (TCU), diz ter sido agredida pelo neto, o deputado federal e candidato à prefeitura de Recife João Campos

É enganoso um vídeo que sugere que o deputado federal João Campos (PSB), candidato à Prefeitura do Recife, agrediu fisicamente a própria avó, a ministra do Tribunal de Contas da União (TCU) Ana Arraes. O vídeo reproduz apenas alguns segundos de uma entrevista de 14 minutos em que Ana Arraes se queixa de uma briga pública entre João e o tio, o advogado Antônio Campos, presidente da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), órgão ligado ao Ministério da Educação.

Na época, João afirmou que o tio era “um sujeito pior” do que o então ministro da Educação Abraham Weintraub, que participava de uma audiência pública na Câmara Federal. Nas duas vezes em que se manifestou sobre esse episódio, em dezembro de 2019 e em janeiro de 2020, Ana Arraes defendeu o filho e disse se sentir agredida pela fala do neto.

Procurada pelo Comprova, Ana Arraes disse que não iria se manifestar sobre o episódio. Também procuramos a assessoria de imprensa de João Campos, mas não recebemos resposta até a publicação desta verificação.

O blogueiro Ricardo Antunes, que publicou o vídeo nas redes sociais, disse que estava apenas buscando informar sobre uma peça de desconstrução de imagem, feita contra o candidato. A postagem dele, porém, não deixa claro que a declaração foi retirada do seu contexto original.

Atualização [em 27 de novembro]

Um dia após o Comprova publicar a verificação, a ministra Ana Arraes divulgou uma nota à imprensa confirmando que não houve agressão física e que o trecho da gravação que tem circulado nas redes sociais está fora de contexto. “Não admito a utilização de meu nome, sobretudo em peças com viés claro de fake news, tentando prejudicar alguém da minha família. Nunca fui agredida por nem um (sic) dos meus netos, com os quais tenho uma relação de amor profundo e carinho”, afirma no texto. Na nota, Ana Arraes ainda lembra que, como ministra do TCU, é impedida pela legislação de assumir posições políticas ou pessoais no processo eleitoral.

Como verificamos?

Para essa verificação, o Comprova resgatou matérias publicadas na imprensa sobre as críticas mútuas feitas por João Campos e o tio, Antônio Campos, e sobre as declarações de Ana Arraes na época. Também ouvimos na íntegra a entrevista em que a ministra do TCU profere as frases ressaltadas no vídeo verificado, para entender em que contexto ela afirmou que o neto a “agrediu”.

Procuramos a ministra Ana Arraes pelo WhatsApp e pela assessoria de imprensa do Tribunal de Contas da União (TCU). Também entramos em contato com a assessoria de João Campos. Por fim, conversamos com o blogueiro Ricardo Antunes, que publicou o vídeo nas redes sociais.

Verificação

Contexto da fala de Ana Arraes

Em dezembro de 2019, o deputado federal João Campos criticou a gestão do então ministro da Educação, Abraham Weintraub, durante uma reunião da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Ao responder às críticas do parlamentar, Weintraub lembrou que um tio de João, o advogado Antônio Campos, conhecido como “Tonca”, ocupa o posto de presidente da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), órgão ligado ao MEC. O deputado pernambucano, então, respondeu: “Eu nem relação eu tenho com ele. Ele é um sujeito pior do que você”.

O episódio deu início a uma crise interna na família, tradicional na política pernambucana. Um dia após a troca de ataques entre João e o tio, a ministra do Tribunal de Contas da União, Ana Arraes, avó de João Campos e mãe de Antônio Campos, se manifestou pela primeira vez, dizendo que não admitiria grosserias entre os familiares. “Eu não vou admitir agressões suas contra Tonca. Ele nunca lhe agrediu”, afirmou a ministra, que disse se sentir desrespeitada pelo neto.

Em janeiro de 2020, Ana Arraes deu uma longa entrevista ao Blog de Jamildo, do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação. O áudio verificado pelo Comprova é um trecho dessa entrevista que foi retirado de contexto.

Questionada sobre o episódio e se ainda estava magoada com o neto, a ministra respondeu: “Eu espero que ele me peça desculpas. Se ele não me pedir, nem me procurar, o problema é dele. Quem me agrediu foi ele. Eu não o agredi. Nunca agredi nenhum neto. Pelo contrário, sempre fui avó. (risos) Eu sou uma pessoa calma, uma pessoa que tem tranquilidade para resolver as coisas. Mas tem coisas que a gente não pode admitir. Porque eu fui criada e aprendi desde cedo a ter respeito às pessoas.”

Em outro momento da entrevista, quando perguntada se a família não fez as pazes durante o Natal, ela nega. “Ele não me procurou. Ele é quem tem que me procurar. Porque o agressor é quem tem que procurar o agredido.”

Em todos os momentos em que fala sobre ter se sentido agredida, portanto, a ministra se refere, então, às críticas públicas que o neto fez ao próprio tio, não a uma eventual agressão física. Procurada para comentar sobre o assunto, a ministra disse que não iria se manifestar. Até a publicação desta verificação, a assessoria de imprensa de João Campos também não se manifestou.

Vídeo e autor

O vídeo reproduz apenas alguns segundos da entrevista com as mensagens “João Campos agrediu a própria avó” e “quem agride a própria avó não respeita ninguém”. A peça viralizou no momento em que o deputado federal do PSB disputa o segundo turno das eleições no Recife com uma prima, a também deputada federal Marília Arraes (PT). O conteúdo chegou ao Comprova por sugestão dos leitores, após ter circulado no WhatsApp, e também no monitoramento de redes sociais.

No Instagram, o vídeo foi publicado pelo blogueiro Ricardo Antunes. Ao Comprova ele disse que tem reproduzido memes criados durante a campanha eleitoral e vídeos produzidocriados com a função de atacar os concorrentes. “O critério, nesse caso, é que ela tenha algo verdadeiro (como essa briga que ele teve com a avó durante a questão do tio) e se encaixe como peça de ‘desconstrução de imagem’ do candidato”, explicou. O objetivo seria mostrar até onde os candidatos vão para tentar desconstruir o adversário.

No caso desse vídeo específico, o blogueiro informou que o recebeu por WhatsApp de várias fontes diferentes.

A proposta, porém, não é explicada na publicação dele. O perfil de Antunes costuma ter conteúdos noticiosos e a única indicação de que a postagem do vídeo é um conteúdo distorcido é a expressão “Guerra de Propaganda” na legenda. No entanto, uma pessoa que olhar apenas essa postagem isolada dificilmente entenderá esse contexto.

Antunes já foi preso em flagrante, em 2012, acusado de extorsão. Ele foi solto após quatro meses e, na época, alegou que a prisão teria motivações políticas.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre as eleições 2020, a pandemia de covid-19 e políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. Peças de desinformação sobre a eleição podem levar as pessoas a decidirem o seu voto a partir de informações incorretas. O vídeo verificado aqui foi compartilhado por WhatsApp e teve 1,7 mil visualizações no Instagram até o dia 26 de novembro. Trechos da entrevista também foram publicados no Twitter, com menor alcance.

Sobre candidatos, o Comprova já mostrou ser falso que Guilherme Boulos (PSOL), candidato à Prefeitura de São Paulo, tenha cobrado aluguel de moradores sem-teto; e que o prefeito da capital paulista, Bruno Covas (PSDB), tenha proibido o uso de hidroxicloroquina na cidade. O Comprova também já mostrou que o ataque hacker a sistemas do TSE não viola a segurança da eleição; que a justificativa dos eleitores não pode ser transformada em voto válido; e que o sistema de voto eletrônico do Brasil pode ser auditado.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por:2020-11-24

É falso que Boulos tenha cobrado aluguel de moradores sem-teto

  • Falso
Falso
Postagem no Facebook faz referência ao edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou em 2018 após um incêndio causado por um curto-circuito, mas o imóvel era ocupado pelo Movimento Luta por Moradia Digna (MLMD), que não tem ligação com o Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), do qual Boulos era coordenador
  • Conteúdo verificado: Post no Facebook afirma que Guilherme Boulos alugava quartos para moradores em ocupações no centro de São Paulo, citando prédio que pegou fogo

É falso que o candidato a prefeito de São Paulo pelo PSOL, Guilherme Boulos, “alugava quartos nos prédios abandonados” no centro da capital. A alegação circula em postagem viral no Facebook. O post se refere ao edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou em 2018 após um incêndio causado por um curto-circuito. O imóvel era ocupado pelo Movimento Luta por Moradia Digna (MLMD), que não tem ligação com o Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), do qual Boulos era coordenador e se afastou durante a campanha eleitoral.

Após o desabamento, moradores da ocupação no centro da cidade disseram que pagavam até R$ 400 de aluguel. Um ano depois, quatro pessoas ligadas aos movimentos Moradia Para Todos e ao Movimento dos Sem Teto do Centro foram presas por quatro meses, acusadas de extorsão, o que elas negam.

Essa acusação já havia sido feita contra Boulos em 2018, quando o líder do movimento sem-teto concorreu à Presidência pelo PSOL. O candidato negou reiteradas vezes que ele ou o MTST cobre aluguel em ocupações. Ao Comprova, disse que a alegação difundida no post de Facebook é mentirosa.

Como verificamos?

Ao iniciar esta checagem, pesquisamos reportagens sobre a cobrança de aluguel feita a moradores do edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou em São Paulo, há dois anos. Nenhuma delas ligava o MTST ao local e, por meio de buscas on-line, verificamos que a falsa acusação envolvendo Boulos já vinha desde 2018 e foi requentada na campanha eleitoral para a Prefeitura de São Paulo – ele concorre no segundo turno.

Procuramos a assessoria de imprensa da campanha do político, que nos respondeu por WhatsApp, e tentamos contato com a autora do post, que não nos retornou até a publicação deste texto.

Verificação

Acusação antiga

Em seu post, a autora relembra o episódio de um imóvel que “pegou fogo”, quando “faleceu um rapaz”. Em 1º de maio de 2018, o edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo, desabou após um incêndio, causado por um curto-circuito. Sete pessoas morreram e 291 famílias ficaram desabrigadas. O prédio, de 24 andares, havia sido construído nos anos 1960 e pertencia ao governo federal, mas estava abandonado desde o fim dos anos 2000 e começou a ser ocupado por sem-tetos. Desde 2010, era ocupado pelo Movimento Luta por Moradia Digna (MLMD).

Logo após o desabamento, moradores afirmaram em entrevistas que líderes da ocupação cobravam uma taxa de aluguel de quem vivia ali, entre R$ 200 e R$ 400. Mais de um ano depois do acidente, algumas pessoas apontadas como líderes ficaram cerca de quatro meses presas, acusadas de extorsão, o que negam. Elas eram ligadas ao Movimento Moradia Para Todos e ao Movimento dos Sem Teto do Centro. Os presos não eram ligados ao movimento que organizou a ocupação do edifício Wilton Paes de Almeida, o MLMD, mas a denúncia do Ministério Público que motivou a prisão englobava ocupações de outros prédios, segundo o site Ponte Jornalismo.

Ou seja, diferentemente do que afirma o post verificado aqui, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, do qual Boulos era coordenador, não teve relação nenhuma com a acusação de cobrança de aluguel.

Na época do desastre, Boulos era pré-candidato à Presidência pelo PSOL, e disse desconhecer o MLMD e repudiou a taxa. “O MTST reconhecidamente não faz qualquer tipo de cobrança; esse não é um método que a gente ache adequado. Depende muito de cada movimento, mas desde a formação do MTST, há mais de 20 anos, esse é nosso entendimento”, afirmou.

Já como candidato, em setembro de 2018, ele criticou os casos de desinformação sobre esse assunto em entrevista à Jovem Pan. “A sociedade está doente. Eu estou tendo que processar muita gente porque inventaram a história de que o MTST cobra aluguel. Isso é uma mentira deslavada, absurda, que ‘virou verdade’”, disse. E acrescentou: “Aquela ocupação não era organizada pelo MTST. Existem centenas de movimentos no país e cada um tem seus critérios. Ao que parece, naquele caso, tinha gente explorando a miséria. Tanto que os organizadores vazaram. Nós nunca fizemos isso. Alguém que está nessa situação não tem como pagar nada”.

Na eleição de 2020

No dia 11 de novembro de 2020, quatro dias antes do primeiro turno, a Justiça Eleitoral mandou que Celso Russomanno, então candidato à Prefeitura de São Paulo pelo Republicanos, fosse investigado por suposta desinformação envolvendo o nome de Boulos.

O pedido havia sido feito pela campanha do candidato psolista, que afirmou que o adversário havia propagado informações falsas sobre Boulos invadir casas e cobrar aluguel em imóveis em situação irregular – em um vídeo, Russomanno dizia que a cobrança foi feita aos moradores do edifício Wilton Paes de Almeida. Antes de ser retirada do ar pela Justiça, a desinformação foi disseminada por Russomanno na propaganda eleitoral no rádio, na TV e nas redes sociais.

O que Boulos diz sobre a volta da desinformação

Além de ter entrado na Justiça contra a desinformação espalhada por Russomanno, em 7 de outubro de 2020, Boulos postou um vídeo em seu canal no YouTube sobre esse assunto. Na gravação, que entrou no site de sua campanha na aba “Fake News”, ele repete que nunca cobrou aluguel de sem-teto.

Contatada pelo Comprova, a assessoria de imprensa do candidato acusou a campanha do adversário na corrida à Prefeitura de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), de espalhar mentiras. Questionada se teria alguma prova de que o tucano tenha disseminado desinformação sobre o assunto verificado aqui, a equipe do psolista respondeu apenas: “É essa a resposta por enquanto”.

Recursos do MTST e da campanha

Na página “Fake News”, em que publicou o vídeo sobre o assunto verificado aqui, a campanha de Boulos explica de onde vêm os recursos do MTST: “De doações, campanhas de financiamento online e também de produtos produzidos pelo próprio movimento, como bonés e camisetas”. O texto cita como exemplo uma ação criada pelo movimento durante a pandemia, o Fundo Solidário, que arrecadou mais de R$ 1 milhão “para comprar alimentos, produtos de higiene e proteção” que foram distribuídos em comunidades mais carentes de São Paulo.

Já a campanha eleitoral de Boulos é financiada, segundo o site de Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), principalmente pelo fundo eleitoral (dinheiro público a que os partidos têm direito em eleições). O financiamento coletivo aparece em segundo lugar e, a partir do terceiro, são doações de pessoas físicas.

Por que investigamos?

O Projeto Comprova, em sua terceira fase, verifica conteúdos que viralizam nas redes sociais ligados às políticas públicas do governo federal, à pandemia do novo coronavírus e às eleições municipais.

Postado no grupo de Facebook “Caio Copolla no Senado” em 21 de novembro, ou seja, depois de a informação disseminada ter sido desmentida pela Justiça Eleitoral, o conteúdo verificado aqui teve mais de 3 mil compartilhamentos e 1,4 mil reações até 24 de novembro.

O nome de Boulos esteve em uma verificação recente do Comprova, que mostrou ser falso que ele decretaria que os paulistanos abrissem suas casas para abrigar pessoas em situação de rua. Além disso, o Comprova já verificou outros conteúdos ligados às eleições, como os que mostraram que um recente ataque hacker ao STJ não era ameaça à segurança das eleições e que o sistema de voto eletrônico brasileiro pode ser auditado, ao contrário do que afirmava um post nas redes sociais.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2020-11-23

Software usado em urnas eletrônicas brasileiras não é o mesmo que dos EUA

  • Falso
Falso
O software usado nas urnas eletrônicas do Brasil foi integralmente desenvolvido e é mantido pela equipe técnica do TSE e não foi cedido para uso nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, ao contrário do que afirma jornalista em vídeo publicado no YouTube
  • Conteúdo verificado: Vídeo publicado por uma jornalista afirmando que as eleições norte-americanas fizeram “test drive” de um software usado nas eleições municipais brasileiras em 2020

É falso que as eleições de 2020 no Brasil usaram o mesmo software utilizado no pleito presidencial norte-americano, conforme afirma uma jornalista em um vídeo publicado no YouTube. Isso não ocorreu em 2020 nem ocorrerá na próxima votação. O Brasil tem um sistema próprio e único utilizado na urna eletrônica, desenvolvido pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em nota ao Comprova, o Tribunal afirmou que o software usado nas urnas eletrônicas do país “é integralmente desenvolvido e mantido pela equipe técnica do TSE” e que “ele não foi cedido para uso nas eleições presidenciais dos Estados Unidos”.

O vídeo traz ainda outras informações inverídicas, como a de que a empresa Lenovo iria fornecer as novas urnas a serem usadas na eleição de 2022 no Brasil. Os equipamentos serão fabricados pela Positivo Tecnologia, companhia brasileira de capital aberto que não tem relação com a Lenovo.

Também é falso que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que perdeu as eleições para o democrata Joe Biden, esteja provando que houve fraude no pleito – o atual presidente tem perdido judicialmente recursos que move para tentar comprovar fraude. Segundo a jornalista, no Brasil seria impossível questionar o resultado da votação pois as urnas não são auditáveis. Isso também é falso. O TSE divulga todos os boletins de urnas eletrônicas e qualquer um pode ter acesso e conferir a votação de todos os candidatos.

No vídeo, a jornalista, que já foi candidata a deputada federal pelo PSL, questiona ainda a inviolabilidade das urnas eletrônicas por usarem sistema operacional baseado em Linux, que seria “sem segurança e facilmente adulterável”. Segundo especialistas, nenhum sistema é 100% seguro, mas o fato de o Linux ser um sistema aberto oferece mais segurança, pois mais programadores podem verificar seu código e melhorá-lo. Além disso, o TSE faz testes e atualizações regulares para aumentar a segurança das urnas. O Comprova tentou contato por e-mail com a autora do vídeo, mas não obteve retorno até a publicação.

Como verificamos?

Primeiramente, acionamos o TSE via e-mail para entender se o sistema usado no Brasil já foi ou será compartilhado com os Estados Unidos. Também questionamos a segurança do sistema usado nas urnas eletrônicas e se a Lenovo tem qualquer relação com a produção. Consultamos também as assessorias das empresas Positivo e Lenovo para confirmar se haveria alguma relação entre ambas.

Procuramos por especialistas em tecnologia da informação para saber mais sobre a segurança do sistema Linux. Foi entrevistado, por e-mail, o diretor técnico do Departamento de Tecnologia da Informação (DTI) do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), Fabio Correa Xavier, que trabalha no departamento há 17 anos. Também fizemos contato com o diretor da empresa Linux Solutions, Paulo Henrique Oliveira, que trabalha com o sistema operacional Linux há 23 anos. A entrevista foi realizada via e-mail.

Consultamos também o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e representante da Sociedade Brasileira de Computação nos testes do TSE, Paulo Lício de Geus. Pesquisamos ainda notícias em portais jornalísticos sobre os temas abordados no vídeo e no próprio Comprova, que já verificou uma série de correntes que questionam a segurança das urnas eletrônicas e a lisura do processo eleitoral brasileiro.

Para saber mais sobre a identidade da jornalista, procuramos no Google e no registro de candidatura divulgado pelo TSE.

Verificação

Os softwares do Brasil e dos Estados Unidos

Em um trecho do vídeo, a autora denuncia, sem apresentar provas, uma suposta fraude na eleição norte-americana. Segundo ela, “votos dados ao presidente Trump foram lidos como se tivessem sido dados a Biden”, e “fizeram lá [nas eleições americanas] um test drive do software que seria usado aqui nas eleições municipais de 2020”. A afirmação, no entanto, é falsa.

Procurado pelo Comprova, o TSE afirmou em nota que o software utilizado nas urnas eletrônicas é integralmente desenvolvido e mantido pela equipe técnica do Tribunal e que ele não foi cedido para uso nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. “O software utilizado no Brasil não possui qualquer relação com sistemas informatizados utilizados nas eleições americanas. O software desenvolvido pelo TSE nunca foi submetido a qualquer tipo de teste nos EUA”, afirma um trecho da resposta.

Em um comunicado divulgado em 2018, o TSE já informava que equipes de desenvolvimento de software do próprio tribunal desenvolvem os programas de eleições, inclusive os que são utilizados nas urnas. O material também reforça que os sistemas passam pelos chamados Testes Públicos de Segurança (TPS), em que especialistas em tecnologia e órgãos públicos e privados auxiliam na melhoria dos sistemas.

Um artigo publicado na revista da Escola Judiciária Eleitoral afirma que o software inicialmente era desenvolvido pela vencedora da licitação para fabricar as urnas, com acompanhamento do TSE, mas que passou a ser desenvolvido por técnicos da própria Corte no ano de 2005. “Em 2005, diante da impossibilidade de a empresa contratada para a fabricação da urna 2004 fazer as adaptações necessárias no software para o referendo sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munições, foi preciso que a equipe da Seção de Voto Informatizado (Sevin), da Secretaria de Tecnologia da Informação do TSE, assumisse o desenvolvimento do software”, diz um trecho do artigo.

Uma possível origem do boato pode estar em outras notícias falsas que circulam nas redes sociais desde o fim das eleições presidenciais nos Estados Unidos. Uma delas dá conta de que a empresa Dominion, que fornece software para as eleições em alguns estados norte-americanos, teria deletado 2,7 milhões de votos para Donald Trump. A acusação, sem provas, foi publicada no próprio Twitter do atual presidente norte-americano. O tema já foi alvo de outras verificações, como a da Agência Lupa, que mostrou ser falsa a afirmação, e do Aos Fatos, que indicou não haver evidências desta suposta fraude.

Segundo uma verificação da Reuters, a Dominion, que é alvo das críticas de Trump, atuou em pelo menos 24 estados norte-americanos nas eleições presidenciais de 2020. Dados da Verified Voting Foundation, organização não governamental que acompanha o uso da tecnologia nas eleições do país, indicam que ela foi a empresa presente no segundo maior número de estados, atrás apenas da Election Systems & Software, que atuou em 43 unidades da federação. A Dominion é uma empresa de origem canadense e a Election Systems & Software, norte-americana. Outras 19 empresas ainda aparecem como fornecedoras de soluções usadas na votação deste ano nos EUA, segundo a ONG.

No Brasil, o sistema operacional da votação (baseado em Linux e chamado de Uenix) e os softwares utilizados nas urnas são os mesmos em todo o país. As soluções são desenvolvidas pelos próprios técnicos do TSE e não têm relação com sistemas usados na eleição norte-americana, conforme apontou o tribunal.

Consultado pelo Comprova, o professor da Universidade Estadual de Campinas e representante da Sociedade Brasileira de Computação nos testes do TSE como avaliador, Paulo Lício de Geus, reforçou que não há relação entre o sistema das urnas brasileiras e tecnologias usadas nos Estados Unidos. Ele diz que toda a relação que pode existir entre algumas urnas americanas e a brasileira é que a empresa que fabrica o hardware (o equipamento em si) no Brasil foi comprada pela norte-americana Diebold. A partir de 2022, no entanto, a produção ficará a cargo da empresa brasileira Positivo (veja mais abaixo).

“Mas o que importa é o sistema de software, feito pelo TSE, um para cada eleição (obviamente aprimoramentos das versões anteriores)”, explicou o professor, em conversa pelo aplicativo WhatsApp.

Lenovo não irá fornecer urnas eletrônicas

Em outro trecho do vídeo, a autora afirma que “aqui [no Brasil], o plano [de fraude] começou a ser articulado com a compra de novas urnas eletrônicas da Lenovo, empresa chinesa, que serão usadas somente em 2022”. A informação também é falsa.

Em julho deste ano, o TSE confirmou o nome da empresa Positivo Tecnologia como vencedora da licitação para a fabricação de novas urnas eletrônicas, a serem usadas a partir de 2022.

Outros conteúdos falsos que circulam nas redes sociais já sugeriram uma suposta compra da Positivo pela Lenovo, o que não procede. Em nota enviada ao Comprova, a Positivo desmentiu rumores sobre uma suposta venda à Lenovo e disse que “não existe qualquer negociação neste sentido”. Checagens da Agência Lupa e do Estadão Verifica já haviam apontado como falso o conteúdo que afirmava ter ocorrido uma compra da Positivo pela Lenovo.

Segundo o site da empresa para relações com investidores, a Positivo é uma empresa de capital aberto com 55,4% das ações negociadas em mercado (free float), 43,8% pertencente a um grupo de controladores e o restante ligado a ações em tesouraria da própria empresa. A Positivo Tecnologia foi fundada no Brasil, em 1989, conforme informado no site da empresa.

O Comprova também consultou a assessoria da Lenovo, que igualmente negou a suposta aquisição da Positivo Tecnologia. Em nota, a empresa também informou que não participou da concorrência pública para fornecimento de urnas eletrônicas ao TSE e que não tem acordo para oferecer esses equipamentos. “Além disso, a companhia não fornece tecnologia voltada ao processo eleitoral”, aponta um trecho da resposta.

Em resposta ao Comprova, o TSE afirmou que em 2012 a Lenovo fez uma oferta de compra da Positivo, mas que o negócio não foi efetuado porque a empresa brasileira não aceitou. O Tribunal reforçou também que a Lenovo não fornece equipamentos ou softwares para uso nas eleições. Disse que a empresa foi contratada em uma licitação apenas para o fornecimento de estações de trabalho para áreas administrativas do TSE.

Trump não provou fraude nos EUA

A jornalista afirma ainda que Donald Trump está conseguindo comprovar fraudes nas eleições dos Estados Unidos graças à recontagem dos votos impressos. Na verdade, o que tem acontecido é o contrário.

O presidente norte-americano perdeu mais de 20 ações que moveu em diferentes estados questionando o resultado das eleições. No Geórgia, estado tradicionalmente republicano, as autoridades eleitorais já afirmaram que a recontagem não tirará a vitória de Joe Biden.

Na semana passada, a Agência de Cibersegurança e Segurança de Infraestrutura dos Estados Unidos (CISA, na sigla em inglês) afirmou que a eleição de 2020 teria sido a “mais segura da história”. Trump, que, como a jornalista no vídeo, insiste que houve fraude sem apresentar provas, reagiu à publicação demitindo o diretor da agência, Chris Krebs, nesta semana.

Urnas eletrônicas são auditáveis

A informação de que as urnas eletrônicas não podem ser auditadas é falsa e já foi verificada pelo Comprova e por outros veículos de checagem, como UOL Confere. As urnas não só são auditadas no dia da eleição como todos os votos ficam registrados e podem ser checados por qualquer um.

No dia da votação, todos os tribunais regionais eleitorais (TREs) fazem um processo de votação paralelo ao oficial, chamado Auditoria de Funcionamento das Urnas Eletrônicas. Para mostrar que as urnas estão funcionando e apurando os votos corretamente, pessoas registram os votos em uma planilha e digitam o mesmo número na urna. Todo o processo, incluindo a cabine de votação, é filmado, para garantir que os representantes digitaram os números certos, e acompanhado por empresas terceirizadas. Ao final, faz-se uma comparação entre o boletim da urna e a planilha do TRE.

Além disso, ao fechar a votação, todas as urnas emitem boletins com todos os votos registrados nelas. Entre cinco e dez cópias desses documentos são impressas, registradas em cartório e entregues a representantes dos partidos, da Justiça Eleitoral, do Ministério Público Eleitoral (MPE) e podem ser fotografadas por membros da sociedade civil.

Alguns dias após as eleições, todos os boletins de urnas são publicados on-line, respeitando o sigilo de voto, mas com o número exato de cada voto registrado em cada urna. Caso um candidato, partido ou membro da sociedade civil queira fazer uma contagem própria, é possível.

STF barrou impressão de comprovante de voto

Conforme diz a jornalista, a impressão do voto pela urna eletrônica de fato foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A decisão foi dada por maioria em setembro deste ano. A proposta, presente na minirreforma eleitoral de 2015, já estava suspensa por liminar desde 2018 a pedido da então procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

Segundo a Agência Brasil, em seu voto, o ministro Gilmar Mendes, relator do processo, destacou que não se pode utilizar “uma impressora qualquer” para a emissão do voto. Ele avaliou que seria necessário o desenvolvimento de um equipamento ao mesmo tempo “inexpugnável” e capaz de inserir o comprovante de votação em um invólucro lacrado.

Mendes também colocou em xeque a segurança das urnas. “De outra forma, a impressora poderia ser uma via para hackear a urna, alterando os resultados da votação eletrônica e criando rastros de papel que, supostamente, os confirmassem”, declarou o ministro.

Na manhã do domingo das eleições municipais (15), o sistema do TSE sofreu um ataque hacker que roubou dados atualizados do Tribunal, segundo investigação da Polícia Federal. Isso, no entanto, nada teve a ver com as urnas eletrônicas. Conforme o Comprova já checou, elas são dispositivos completamente isolados, sem qualquer conexão com redes externas – e é exatamente isso que a torna inviolável.

A segurança do Linux

O Linux é um sistema operacional de código aberto que utiliza o Kernel Linux, um núcleo que comporta outros subsistemas e permite que várias aplicações sejam executadas de modos independente e concorrente por usuários diferentes. Isso possibilita a interação de outros usuários, o que também contribui para sua maior segurança.

Um software livre como o sistema Linux possui os códigos abertos, visíveis aos usuários, onde é permitido realizar mudanças no sistema, a fim de propor melhorias. “A segurança no Linux é bem completa e totalmente configurável. O sistema de segurança foi criado pela NSA [Agência Nacional de Segurança dos EUA], e impõe regras em arquivos e processos em um sistema Linux”, explica Fábio Correa Xavier, diretor técnico do Departamento de Tecnologia da Informação (DTI) do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP).

De acordo com o TSE, o sistema das urnas, baseado em Linux, está sempre em monitoramento. “Por ser aberto, o sistema está sob permanente escrutínio e teste por especialistas de todo o mundo (inclusive do Brasil)”, afirmou o Tribunal, em resposta ao Comprova. “A visão do Linux como um sistema seguro é uma posição fortemente defendida pela comunidade técnica e acadêmica especializada”.

Para o analista de sistemas e diretor da Linux Solutions, Paulo Henrique Oliveira, não existe um sistema cem por cento seguro. O diferencial no sistema de segurança do Linux se dá pelo fato de ser um software de código aberto, o que gera a facilidade em resolver seus problemas de segurança rapidamente. “Como o Linux é aberto, mais programadores podem verificar seu código e melhorá-lo. Isso acaba tornando o Linux um sistema bem seguro.”

O mecanismo de segurança das urnas foi colocado à prova durante testes públicos de segurança realizados em 2009, 2012, 2016, 2017 e 2019, quando nenhuma tentativa de fraude e adulteração dos sistemas obteve êxito. No ano de 2016 tornaram-se obrigatórios, pela Resolução nº 23.444, do TSE, os testes nas urnas eletrônicas. A urna eletrônica utiliza as tecnologias de criptografia, assinatura digital e resumo digital. Durante todo o processo de votação são utilizadas tecnologias pelo hardware e pelo software da urna eletrônica que criam uma cadeia de confiança, garantindo que somente o software desenvolvido pelo TSE possa ser usado nos equipamentos.

“O TSE tem uma versão própria do Linux, o UENIX, com diversas alterações que foram feitas para melhorar a segurança. Esse código é alterado, e os drivers e aplicativos desenvolvidos são proprietários. Além disso, o código-fonte que vai para a urna é lacrado digitalmente com uma assinatura digital que permite identificar qualquer adulteração que venha a ser feita posteriormente”, ressalta Xavier.

Segundo verificações do UOL, a Corte eleitoral permite que mais de 15 instituições (entre elas estão OAB, MP, STF) tenham acesso ao código-fonte durante os seis meses anteriores às eleições para uma auditoria. Esse processo está previsto pela resolução nº 23.603, de 12 de dezembro de 2019. Durante o processo de carregamento das urnas eletrônicas com os softwares, o código-fonte é compilado, transformado em código binário (linguagem para a máquina entender e rodar os devidos comandos), e os arquivos recebem uma identificação. Depois desse processo, as instituições que compõem a corte assinam digitalmente o arquivo, e ele é lacrado publicamente.

Quem é Regina Villela

Regina Villela é uma jornalista e radialista carioca que se candidatou a deputada federal pelo PSL, então partido do presidente Jair Bolsonaro (hoje sem partido), em 2018 no Ceará. Com pouco menos de 3 mil votos, ela não foi eleita.

Em seu canal do YouTube, com mais de 165 mil inscritos, ela trata majoritariamente de política, com visão à direita. Regina já veiculou informações contestáveis e inflou números de desvios na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em 2019, ela foi investigada pela Polícia Civil após divulgar informações falsas sobre a prefeitura de Fortaleza. Conteúdos compartilhados por ela já foram checados por diversos veículos. O Comprova enviou mensagem ao e-mail indicado no canal da jornalista no YouTube, mas não obteve retorno até a publicação desta verificação.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova monitora e verifica conteúdos sobre a pandemia, eleições municipais e políticas públicas do governo federal que possam causar desinformação nas redes sociais. É o caso do vídeo compartilhado pela jornalista. Com mais de 73 mil visualizações e 16 mil curtidas, Regina passa uma série de informações falsas com intuito de questionar a lisura do sistema eleitoral brasileiro, como já fez o próprio presidente Jair Bolsonaro, que, como ela, também não apresentou provas.

O Comprova tem verificado uma série de postagens que questionam a eficiência das urnas eletrônicas, como a corrente que afirma que um documento prova fraudes nas eleições de 2018 e a que diz que apenas três países no mundo usam urnas eletrônicas, ambas apontadas como falsas

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.