O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Eleições

Investigado por: 2022-07-01

Não há dispositivo nas urnas eletrônicas capaz de alterar votação, ao contrário do que diz postagem

  • Falso
Falso
É falso conteúdo de site que afirma haver na urna eletrônica um programa executável capaz de fazer alterações nos votos digitados por eleitores no dia das eleições. A existência do dispositivo, segundo a publicação, teria sido identificada pelas Forças Armadas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e especialistas consultados pelo Comprova negam que isso seja possível e apontam pelo menos duas etapas do processo de auditoria e fiscalização das urnas em que tal impossibilidade pode ser comprovada. Sobre a suposta identificação de tal fragilidade pelas Forças Armadas, o Comprova questionou o Ministério da Defesa, que não se pronunciou.

Conteúdo investigado: Publicação de site conservador sugerindo, sem apresentar provas, que há um programa executável nas urnas capaz de transferir votos de um candidato para outro, “aproveitar” votos brancos e nulos para alguém ou considerar como nulos os votos em determinado candidato. Tal “executável”, segundo o blog, fica inativo em simulações e entra em ação somente na votação real. O conteúdo ganhou visibilidade nas redes sociais através de um post no Instagram do deputado estadual Capitão Assumção (PL-ES).

Onde foi publicado: Facebook e Instagram.

Conclusão do Comprova: É falso o conteúdo de um site conservador afirmando que as urnas eletrônicas possuem um programa executável capaz de alterar votos digitados. A publicação também aponta, sem apresentar provas, que tal executável diferenciaria votações reais de simulações. Além disso, há a citação de que membros das Forças Armadas teriam identificado a existência de tal programa.

Ao Comprova, especialistas e o TSE afirmaram que os sistemas executáveis — parte do programa das urnas com códigos que têm instruções com as tarefas que devem ser executadas no sistema — não fazem qualquer tipo de adulteração dos votos em quaisquer dos cenários de uma votação. E que há, no processo de auditoria e fiscalização da urna eletrônica, diversos mecanismos que comprovam isso, como o Teste Público de Segurança e o Teste de Integridade.

O Comprova procurou o Exército Brasileiro e o Ministério da Defesa para saber se, de fato, as Forças Armadas identificaram a existência de um executável capaz de alterar votos, como afirma a postagem. O Exército pediu que as respostas fossem direcionadas à Defesa, que não respondeu aos questionamentos.

Em documentação sobre as sugestões apresentadas na Comissão de Transparência Eleitoral (CTE) para aprimoramento da urna, divulgada pelo TSE em 11 de junho, não consta a identificação de qualquer fragilidade como a sugerida pela postagem falsa. A postagem ainda mente sobre a existência de uma sala escura no TSE, informação já contestada pelo tribunal.

O Comprova considera falso todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: Até o dia 1º de julho, a publicação do site teve 1.037 interações no Facebook, 5.101 no Twitter e 586 no Instagram, segundo a ferramenta CrowdTangle. Já a postagem do deputado alcançou 82.951 visualizações e 1.174 comentários.

O que diz o autor da publicação: Um homem vinculado ao site que divulgou as informações falsas foi contatado. O autor afirma ser editor da página na internet e ter escrito a matéria sobre as urnas eletrônicas baseando-se em fontes militares. Ele cita um programa executável chamado Inserator, que, segundo ele, foi responsável pela “virada da Dilma sobre o Aécio”, fazendo referência às eleições presidenciais de 2014.

Questionado sobre as alegações do autor, o TSE respondeu que o Inserator fez parte de um pacote de sistemas utilizados até 2004, que gerava certificados digitais, antes da lacração dos sistemas. Os certificados são atestados emitidos pelo TSE garantindo que determinada urna faz parte do sistema oficial da Justiça Eleitoral. Já a lacração das urnas eletrônicas funciona como procedimento que confere uma blindagem a todo o conjunto de sistemas eleitorais, possibilitando assegurar que não houve nenhuma adulteração dos programas que foram desenvolvidos.

“Ele [Inserator] não fazia parte da urna, era externo ao equipamento e gerava um certificado digital em uma tabela. Importante ressaltar que o Inserator não poderia permitir fraudes, já que ele nunca foi usado, mesmo em 2006. A única função que continha era o de inserir o certificado antes da lacração”, disse o órgão.

O deputado estadual Capitão Assumção foi procurado por meio do seu e-mail e contato telefônico, via aplicativo de mensagens, que estão disponibilizados no seu site próprio. Ele não respondeu até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: Foram feitas pesquisas na internet pelo nome do deputado estadual Capitão Assumção e sobre pessoas relacionadas ao site conservador. Também pesquisamos matérias da imprensa que citam os mesmos integrantes das Forças Armadas relacionados às postagens falsas (UOL) e reportagens sobre as reuniões entre membros das Forças Armadas e do Tribunal Superior Eleitoral, que acontecem no âmbito da Comissão de Transparência Eleitoral (CTE), da qual as Forças Armadas fazem parte (Poder360, Nexo e CNN).

O Comprova também fez pesquisas no site do TSE e entrou em contato com o tribunal e com representantes de instituições que formam a CTE (Universidade Federal de Pernambuco, Open Knowledge Brasil e Transparência Eleitoral Brasil). Por fim, fez contato com o Exército Brasileiro e com o Ministério da Defesa.

O que são os sistemas executáveis

Ao Comprova, o TSE explicou que os executáveis são todas as porções de software — códigos com o que deve ser executado — das urnas. De acordo com o tribunal, quando a urna é preparada para a eleição, ela recebe todos os executáveis necessários para o seu funcionamento.

A instalação desses executáveis ocorre na Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração dos Sistemas, evento público realizado a dois meses da eleição e que conta com a presença de representantes das entidades fiscalizadoras. O evento é uma das etapas de auditoria e fiscalização das urnas, que ocorrem antes, durante e depois da votação e podem ser conferidas, em detalhes, nesta página.

Conforme a página, na cerimônia todos os sistemas que serão usados nas eleições são assinados digitalmente e uma cópia é armazenada na sala-cofre do TSE. O site explica que a assinatura digital “é uma tecnologia que utiliza chaves criptográficas de um certificado digital para autenticar documentos eletrônicos. Ela permite identificar os signatários, proteger as informações e conferir validade jurídica a algo”.

O Tribunal Superior Eleitoral garante que em nenhum cenário os programas executáveis da urna fazem qualquer tipo de adulteração dos votos nela depositados. O tribunal também ressaltou que o Inserator, usado até 2004 de forma externa à urna na criação de um certificado digital, não permitiria fraudes. “O voto é sempre gravado exatamente como foi digitado pelo eleitor, seja um voto válido, branco ou nulo. Na hipótese de um eleitor não votar em todos os cargos, os votos confirmados são gravados e os não realizados são anulados. E em nenhuma hipótese os votos são apurados sem a correspondência com aquilo que foi gravado pela urna”, informa o órgão.

Isso, segundo o TSE, é demonstrado em todas as eleições em uma outra etapa do processo de auditoria e fiscalização, o Teste de Integridade, que ocorre no dia da votação. Nele, conforme consta no site, é realizada “votação pública, aberta e auditada, em uma urna eletrônica que estava pronta para uso na eleição, utilizando-se os mesmos votos em cédula de papel que também são depositados em uma urna de lona. Ao final, compara-se o resultado da urna eletrônica com os da urna que recebeu votos em papel”.

De acordo com o TSE, desde 2002, quando o teste foi iniciado, nunca houve divergência entre os resultados da urna eletrônica e da contagem dos votos em papel.

O Inserator, mencionado pelo autor do conteúdo, não faz parte da urna. É externo à urna e gerava um certificado digital em uma tabela

Não existe executável capaz de alterar votos

O Comprova buscou contato também com especialistas na área de tecnologia e representantes da sociedade civil que fazem parte da Comissão de Transparência das Eleições. Todos afirmaram não haver no sistema algum executável que seja capaz de alterar votos.

“Não tem como, pois isso teria que estar no código, que não tem nada assim. E o código é o mesmo em todas (as urnas). Os programas (executáveis) são assinados com diversas chaves, de diversas pessoas, e ela (a urna) não aceita código sem essas assinaturas. Por isso que tem como garantir e verificar a qualquer momento, se quiser, que é o mesmo código”, diz o doutor em tecnologia André Luís de Medeiros Santos, professor titular do Centro de Informática (CIn) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O professor destaca que, no dia das eleições, todas as urnas operam com os mesmos sistemas, que são autenticados na forma de assinaturas digitais antes do pleito, na Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração dos Sistemas, como explicado anteriormente.

“Existe uma cerimônia no calendário eleitoral de assinatura do código que ocorre antes de ele ser distribuído para todas as urnas (através dos TREs)”, explicou. “Então esse código assinado é o único que tem aquelas assinaturas. Só o código assinado dessa forma é que funciona nas urnas. Então em todas é copiado esse mesmo código. Não teria como alterar o código em algumas e não em outras, por exemplo. Todas vão funcionar da mesma forma, com os mesmos executáveis, no dia da eleição”.

Também consultada, Fernanda Campagnucci, CEO da Open Knowledge Brasil, cita que, na hipótese de haver mudança no código, a urna está programada para desligar: “Ela está programada para cortar a energia e desligar caso haja qualquer mudança no código original, que é validado e lacrado publicamente”.

No dia da votação, destaca o professor André Luís, há um sorteio das urnas já preparadas para as eleições e dispostas nas zonas eleitorais de cidades e estados para o Teste de Integridade, que verifica o comportamento da urna, como também foi explicado anteriormente.

“Todas as urnas recebem os mesmos executáveis. Então são os mesmos programas em todas”, disse. “O Teste de Integridade, que é feito no dia da eleição, sorteia várias urnas para testes no dia da eleição. Depois inclusive de elas estarem em seus locais de votação. Essas urnas são substituídas por outras sobressalentes e as que estavam nos locais são testadas no mesmo dia e horário da eleição, então ela não teria como diferenciar se são votos reais ou não. Esse é apenas um dos controles que existem, mas existem muitos outros controles”.

Ana Claudia Santano, professora de Direito Constitucional, Eleitoral e Direitos Humanos da Transparência Eleitoral Brasil, também rechaçou qualquer possibilidade de alteração dos votos registrados na urna eletrônica.

“A urna não diferencia entre voto em alguém ou voto nulo e branco”, afirmou. “Quem dá esse comando é somente o eleitor. Não há qualquer mecanismo que diferencie votos. O software da urna sempre é o mesmo, funciona do mesmo jeito, em todas elas, seja no teste de integridade, seja na votação normal. Tudo isso pode ser visto no teste de integridade, ou seja, que os softwares são iguais, rodam igual e que não há diferenciação entre votos de candidatos, por exemplo”.

Fernanda Campagnucci e Ana Cláudia Santano ainda comentam que tanto no âmbito da CTE quanto do Teste Público de Segurança (TPS) não foram encontradas quaisquer fragilidades em relação à alteração de votos nas urnas eletrônicas. Os resultados do último TPS podem ser conferidos nos seguintes links: aqui (relatório completo) e aqui (resumo).

Simulação de votações

O TSE aponta que existem diferentes maneiras de simular uma votação com uma urna eletrônica. A primeira delas é o treinamento de eleitores ou de mesários, quando a urna pode ser carregada com variação do software especialmente projetada para facilitar esse treinamento.

Outra possibilidade é uma eleição simulada em que a urna pode ser carregada com uma variação do software para permitir um ensaio geral de todo o processo eleitoral. Assim, as equipes da Justiça Eleitoral praticam todos os procedimentos de uma eleição.

Há também o modo de demonstração. Nele, a urna pode iniciar o Software de Votação num modo que permite a votação, mas não requer a habilitação de eleitores reais, tampouco gera resultados para a totalização. O objetivo é apenas demonstrar como o processo de votação se dá com dados de candidatos em modo oficial ou numa eleição simulada. O modo de demonstração deve ser ativado em equipamentos selecionados durante a cerimônia de carga e lacre das urnas e não pode ser ativado no dia da eleição.

Em todos os casos de simulação de votos, a urna evidencia o modo em que está executando, apresentando nas telas as mensagens “TREINAMENTO”, “SIMULADO” e “DEMONSTRAÇÃO”.

“Na realização de simulações, a urna é carregada com variante específica do software”, explicou o TSE. “Para a execução em modo oficial no dia da eleição, o software da urna é preparado para tratar somente a eleição real e nada mais, não possuindo qualquer dispositivo que seja capaz de identificar que o equipamento está participando de algum tipo de ensaio ou exercício em ambiente controlado”.

Transparência nas eleições: novos órgãos

Em 9 de setembro de 2021, o então presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, anunciou a criação de dois órgãos: a Comissão de Transparência das Eleições (CTE) e o Observatório da Transparência das Eleições (OTE). Entre as finalidades da CTE, presentes na Portaria TSE nº 578, de 8 de setembro de 2021, estão: “ampliar a transparência e a segurança de todas as etapas de preparação e realização das eleições”; “aumentar a participação de especialistas, entidades da sociedade civil e instituições públicas na fiscalização e auditoria do processo eleitoral”; e “contribuir para resguardar a integridade do processo eleitoral”. Enquanto o objetivo do OTE é colaborar com as atividades desenvolvidas pelo CTE e pelo TSE.

A Comissão de Transparência é formada por 12 especialistas da área de tecnologia e representantes da sociedade civil e por representantes de instituições e órgãos públicos. O general Heber Garcia Portella, comandante de Defesa Cibernética, se insere no último grupo, como representante das Forças Armadas. O Observatório da Transparência, por sua vez, é composto por profissionais de organizações e instituições públicas e privadas com foco de atuação nos campos da tecnologia, dos direitos humanos, da democracia e da ciência política.

A reunião do dia 20 de junho, mencionada no conteúdo aqui investigado, foi a primeira a reunir os dois órgãos criados a fim de aumentar a transparência eleitoral. Nela, foram apresentados “os resultados dos trabalhos e estudos que vêm sendo realizados nos últimos meses para assegurar a transparência e a auditabilidade do pleito geral de 2022”, conforme notícia no site do TSE.

Segundo reportagens da época (Folha de S.Paulo, O Globo), o general Heber Portella permaneceu em silêncio no encontro. O Comprova perguntou ao Exército Brasileiro e ao Ministério da Defesa o motivo de o militar não ter se pronunciado na reunião. O Exército pediu que as perguntas fossem encaminhadas à Defesa, que não respondeu aos questionamentos.

Quem é o deputado capitão Assumção?

O deputado estadual Lucinio Castelo de Assumção, conhecido como Capitão Assumção, usou suas redes sociais para divulgar as informações originais do site. Em vídeo publicado no Instagram, o político basicamente lê o texto da publicação. A postagem também foi compartilhada por outros usuários no Facebook.

Não foram encontradas relações entre Capitão Assumção e o site que publicou o conteúdo falso. Esse foi um dos questionamentos feito pelo Comprova a Assumção, que não respondeu até a publicação desta verificação.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam na internet e tenham relação com pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. Informações que mentem sobre o funcionamento das urnas eletrônicas atrapalham todo o processo eleitoral. Além disso, de acordo com resolução do TSE, é vedada a divulgação ou compartilhamento de fatos sabidamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que atinjam a integridade do processo eleitoral.

Outras checagens sobre o tema: O Projeto Comprova já mostrou que as urnas brasileiras não foram hackeadas nos EUA; que vídeo citando falhas já corrigidas nas urnas volta a circular fora de contexto e que empresa foi multada por pagar propinas, não por fraudar urnas eletrônicas. Nesta quarta-feira, o TSE publicou texto desmentindo as afirmações feitas na postagem aqui verificada.

Eleições

Investigado por: 2022-07-01

Postagem usa foto de atos sem presença de Lula para tentar desacreditar pesquisas eleitorais

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a publicação que tenta desacreditar as pesquisas eleitorais colocando lado a lado imagens de supostas manifestações de apoio a Lula, com poucas pessoas, e em apoio a Jair Bolsonaro lotadas, junto a dados de uma pesquisa divulgada em junho de 2022 que mostra o petista à frente da disputa. O conteúdo foi compartilhado por pelo menos dois políticos. As consultas ao eleitorado registram um recorte do momento e não uma previsão do futuro.

Conteúdo investigado: Publicação compara três imagens de supostas manifestações em apoio a Bolsonaro com três fotos que seriam de atos em prol do ex-presidente Lula. Acima de cada uma das duas colunas aparecem os percentuais de intenção de voto do atual presidente (28%) e do petista (47%), conforme último levantamento do Datafolha. O post é acompanhado da legenda: “A melhor pesquisa continua sendo o DataPovo!”. Deputado federal compartilhou a postagem e adicionou a música “Mentes tão bem”, de Zezé di Camargo e Luciano.

Onde foi publicado: Facebook.

Conclusão do Comprova: É enganoso o conteúdo publicado no perfil “Jacaré de Tanga” no Facebook para levantar suspeitas sobre a credibilidade das pesquisas eleitorais. Na postagem, fotos de manifestações em apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao presidente Jair Bolsonaro (PL) –ambos na disputa ao Palácio do Planalto – aparecem junto aos dados de intenções de voto de cada um deles na última pesquisa divulgada pelo Datafolha. O conteúdo de desinformação é acompanhado da legenda “A melhor pesquisa continua sendo o DataPovo”, em uma tentativa de ironizar os dados obtidos no levantamento.

Usando fotos com número reduzido de pessoas em manifestações, o post sugere que Lula tem baixa popularidade junto ao eleitorado brasileiro, o que não procede. Até agora, o petista aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para presidente, que utilizam métodos científicos a fim de eliminar vieses. Além disso, as imagens relativas a Bolsonaro são de eventos com a participação do presidente. Enquanto as de Lula, no momento do registro fotográfico, o petista não estava presente. A comparação, portanto, se mostra equivocada.

As consultas ao eleitorado registram um recorte do momento em que as entrevistas foram feitas e não uma previsão do futuro. Até as eleições, mudanças podem ocorrer no cenário eleitoral e um candidato, que hoje aparece na preferência, pode deixar essa posição. Atualmente, conforme levantamento do Estadão que agrega resultados de pesquisas eleitorais, Lula lidera por 46% a 30% sobre Bolsonaro.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 1º de julho, o conteúdo publicado pelo deputado teve mais de 2,3 mil compartilhamentos, 6,6 mil curtidas e 1,6 mil comentários.

O que diz o autor da publicação: O Comprova tentou contato com o dono do perfil “O jacaré de tanga”, que acumula mais de 940 mil seguidores no Facebook. Não obtivemos resposta até a publicação desta checagem.

Como o post também foi compartilhado pelo deputado federal José Medeiros (PL), que é vice-líder do governo Bolsonaro na Câmara, buscamos um posicionamento do parlamentar. Procurado, por meio de sua assessoria de imprensa, ele afirmou que o conteúdo alvo desta checagem seria um meme. Medeiros acrescentou que há pesquisas que mostram outros cenários no primeiro turno, e compartilhou a mais recente feita pelo Instituto Futura para o Banco Modal, em que Lula e Bolsonaro aparecem empatados. Contudo, mesmo neste levantamento, o petista ganha no segundo turno.

Como verificamos: Inicialmente, tentamos localizar, por meio da busca reversa do Google, todas as imagens contidas na publicação alvo desta checagem para saber se de fato as manifestações ocorreram. Separamos foto por foto e cada uma foi inserida no buscador. Para tanto, na seção imagens, a reportagem clicou no símbolo de uma câmera e fez o upload das fotos. Também foi usado o Google Lens para pesquisar as imagens.

Para entender o contexto de cada foto, ainda recorremos a reportagens publicadas na imprensa (Uol, G1, Estadão, Correio Braziliense, Estado de Minas).

Buscamos outras verificações feitas pelo próprio Comprova, igualmente relativas a conteúdos de desinformação e que tentam, de forma reiterada, desacreditar as pesquisas eleitorais (1, 2, 3, 4, 5, 6).

O Comprova também fez contato com o deputado federal José Medeiros, por meio de sua assessoria de imprensa, e com o perfil “O Jacaré de Tanga”, em mensagem pelo Facebook.

Pesquisa retrata realidade do momento

O post aqui investigado, ao escrever “O DataPovo é a melhor pesquisa!”, questiona a credibilidade das pesquisas de intenção de voto. Postura semelhante adota o deputado federal José Medeiros, ao inserir trecho da canção “Mentes tão bem”, de Zezé di Camargo e Luciano, ao conteúdo compartilhado em seu perfil no Facebook.

Nos comentários, seguidores também desacreditam os levantamentos e chegam a sugerir que uma eventual vitória de Lula na disputa deste ano seria fruto de uma “fraude nas urnas”. Outro seguidor acrescenta: “Uma vergonha essas pesquisas manipuladas, a esquerda vai dar o golpe nas urnas. É a única saída para ela voltar ao poder”.

Como o Comprova mostrou recentemente, as pesquisas eleitorais utilizam métodos científicos para apurar a realidade do momento junto a segmentos representativos do eleitorado brasileiro de uma forma geral.

Em entrevista à Agência Brasil, a diretora-executiva do Ipec (ex-Ibope Inteligência), Marcia Cavallari, explicou que “o objetivo de uma pesquisa eleitoral não é o de antecipar os resultados da eleição, mas sim o de mostrar o cenário no momento em que foi realizada.” Segundo Cavallari, “a pesquisa é uma fotografia do momento e não tem o poder e nem a intenção de prever o resultado de uma eleição. Por isso, seus resultados não podem ser usados para prever o resultado das urnas.”

Além disso, uma checagem publicada pelo Estadão em 30 de junho, reforça que os institutos de pesquisa fazem um planejamento amostral, no qual sorteiam os municípios e setores censitários onde serão realizadas as entrevistas. Isso ocorre, segundo o professor do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Minas Gerais (UFMG) Felipe Nunes para garantir que o critério de participação do entrevistado na pesquisa seja aleatório, sem sofrer interferências externas que possam gerar vieses.

O último levantamento realizado pelo Datafolha mostrou um cenário estável na corrida presidencial do país. Foram ouvidos 2.556 eleitores em 181 cidades brasileiras, entre os dias 22 e 23 de junho. A pesquisa foi contratada pela Folha de S. Paulo e está registrada no TSE sob o número 09088/2022. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos.

O ex-presidente Lula apareceu 19 pontos à frente de Jair Bolsonaro, totalizando 47% das intenções de voto no primeiro turno. O atual presidente foi mencionado por 28% dos entrevistados e ficou com larga vantagem em relação ao terceiro colocado, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), que obteve 8% da preferência do eleitorado.

Fotos usadas na postagem são de diferentes manifestações

O autor da montagem do post usa momentos distintos de manifestações pró e contra Bolsonaro para sustentar a tese de que a preferência do eleitorado não está sendo reproduzida pelas pesquisas.

Na primeira foto relacionada a Lula, o protesto não era exatamente a favor do ex-presidente, mas contra o atual mandatário do país. Intitulado “Bolsonaro Nunca Mais”, foi realizado por movimentos sociais e sindicatos em 9 de abril de 2022 em várias cidades brasileiras. Na foto reproduzida no post, trata-se da manifestação em Joinville, Santa Catarina, e a baixa adesão no município catarinense já havia sido alvo de ironia de aliados do governo, como Luciano Hang. No mesmo dia, porém, houve mais mobilização em outros pontos do país, como São Paulo.

A terceira imagem é de fato um ato pró-Lula e foi realizado em 1º de maio deste ano, Dia do Trabalho, em São Paulo. Organizado pelas centrais sindicais, aconteceu ao longo do dia na praça Charles Miller, no centro da capital paulista, e teve a participação do ex-presidente, que fez discurso à tarde.

Reportagens indicaram que houve baixa adesão ao movimento naquele dia, mas não apenas no de apoio ao petista. Bolsonaro também enfrentou a situação.

Diferentemente das fotos atribuídas a atos pró-Lula, em que apenas uma manifestação registrou a presença do ex-presidente, todas as imagens que retratam apoio a Bolsonaro no post têm a participação do presidente.

A segunda foto é de uma motociata em São Paulo realizada em 12 de junho de 2021, ou seja, há mais de um ano. O ato foi registrado em redes sociais pelo próprio presidente. O Comprova já demonstrou mais de uma vez (1, 2) a utilização de imagens antigas, por apoiadores de Bolsonaro, para inflar a popularidade dele e questionar a credibilidade das pesquisas eleitorais deste ano.

A última imagem reproduz motociata realizada em 11 de junho deste ano em Orlando, nos Estados Unidos. O ato reuniu cerca de 350 apoiadores de Bolsonaro, conforme reportagem da Folha.

A segunda foto referente a Lula e a primeira de Bolsonaro não foram localizadas nas pesquisas de busca reversa e do Google Lens em reportagens de veículos profissionais para que fosse possível identificar o contexto do registro, como local, data e circunstâncias.

Ataque às pesquisas têm aumentado

Acompanhando a narrativa de Bolsonaro, seguidores do presidente frequentemente fazem ataques às pesquisas eleitorais, numa tentativa de tirar a credibilidade das consultas à população que, até o momento, têm indicado vantagem de Lula na disputa à presidência.

Os casos têm se tornado mais frequentes e, para conter a desinformação, o Comprova reiteradamente faz matérias para demonstrar o problema (1, 2, 3, 4, 5, 6). Também já explicou que a pesquisa usa métodos científicos para chegar ao resultado divulgado.

Vale ressaltar ainda que a legislação brasileira prevê que todas as pesquisas sejam registradas na Justiça Eleitoral, detalhando, entre outras informações, a metodologia usada, a amostra, os dados do profissional responsável e, inclusive, quem contratou a pesquisa. Tudo está disponível para consulta no site do TSE.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições que viralizaram. As pesquisas eleitorais são ferramentas essenciais para a análise do contexto político do país. A tentativa de descredibilizá-las diminui a confiança das pessoas sobre os institutos de pesquisa, atrapalha a percepção da realidade e influencia o voto de forma equivocada.

Outras checagens sobre o tema:

Recentemente, o Comprova mostrou que post engana ao usar caso no Rio Grande do Norte para tirar credibilidade de pesquisas eleitorais, que outro post troca local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas, que vídeo faz alegações enganosas para colocar em dúvida credibilidade de pesquisas eleitorais e que áudio sobre fraudes em pesquisas é de comediante, não de ex-diretor do Datafolha.

Eleições

Investigado por: 2022-07-01

É falso vídeo que tenta ligar filho de Lula a Petrobras e a aumento de combustíveis

  • Falso
Falso
Diferentemente do afirmado em vídeo, o preço do barril de petróleo não é manipulado por uma empresa internacional que investe na Petrobras. O preço varia, na verdade, com a oferta e demanda do produto no mundo. Além disso, nenhum filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é sócio de empresa investidora da companhia e o presidente Jair Bolsonaro (PL) não instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os acionistas da petroleira. O conteúdo é falso.

Conteúdo investigado: Vídeo na plataforma Helo e no YouTube traz alegações de que uma empresa estrangeira e investidora na Petrobras manipula o preço do barril de petróleo, e que teriam descoberto que essa empresa teria como principal acionista um filho do ex-presidente Lula. O autor do vídeo também afirma que a suposta empresa, apesar do nome estrangeiro, teria políticos e filhos de políticos brasileiros como sócios. Por fim, afirma que os acionistas da empresa teriam R$ 900 bilhões para receber e que o presidente Bolsonaro teria aberto uma CPI para investigar o caso.

Onde foi publicado: Helo, YouTube e WhatsApp.

Conclusão do Comprova: É falso vídeo que afirma que o preço do barril de petróleo é manipulado por uma empresa internacional que investe na Petrobras. Também não é verdade que um filho do ex-presidente Lula seja sócio dessa empresa e que o presidente Bolsonaro tenha instaurado uma CPI para investigar os acionistas, que teriam R$ 900 bilhões para receber.

Como o Comprova mostrou recentemente, o controle da petrolífera pertence ao governo brasileiro, que detém mais de 50% das ações ordinárias da companhia. É ele também que controla o conselho de administração da companhia – a aprovação de nomes ou da política de preços de combustíveis, por exemplo, é definida pelos membros dele. A Petrobras explica em seu site que o valor do petróleo varia de acordo com a oferta e demanda no mundo, e a estatal segue essas variações.

Sobre a menção a um filho de Lula, a informação também não procede, como mostram pesquisas no site Brasil.IO e na plataforma Aleph da Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP). Esses dois portais contêm dados sobre quadros societários de empresas. Não foi encontrada nenhuma informação que relacione os filhos do ex-presidente a empresas ligadas ao comércio de barris de petróleo.

A outra alegação falsa do vídeo é sobre a CPI. Bolsonaro afirmou, em 17 de junho, que iria propor uma CPI para investigar a Petrobras, após a estatal anunciar novo reajuste – nada relacionado a valores que acionistas teriam a receber.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 1º de julho, o vídeo publicado no Helo teve 4,5 mil interações, sendo 4,1 mil visualizações, 208 curtidas, 16 comentários e 238 compartilhamentos. O conteúdo publicado no YouTube foi excluído entre a noite do dia 27 de junho e a manhã do dia 28.

O que diz o autor da publicação: O autor do vídeo apagou a publicação original no YouTube e gravou um desmentido dias depois da postagem. Nesse novo vídeo, ele exibe links de veículos mostrando que tratava-se de uma notícia falsa e diz: “Está aí o desmentido. O filho do Lula não é o principal acionista desta empresa.” O autor também alega que as informações sobre a Petrobras e o filho de Lula foram veiculadas por “diversas rádios do Brasil”. Ele não respondeu aos pedidos do Comprova por esclarecimentos. Já o responsável por compartilhar o vídeo no Helo não respondeu a um comentário deixado na postagem.

Como verificamos: Procuramos por informações oficiais sobre os acionistas da Petrobras, sobre a variação de preços de combustíveis e do barril de petróleo, e também sobre as empresas das quais os filhos do ex-presidente Lula são sócios através das ferramentas Brasil.IO, que facilita o acesso a bases de dados públicos, e Aleph da Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) – Projeto de Relatório de Crimes Organizados e Corrupção, em português.

Além disso, tentamos identificar o autor original das afirmações que o vídeo contém. Por fim, entramos em contato com a Petrobras, com a assessoria do ex-presidente Lula e com o autor do post.

Sistema de preços dos combustíveis

De acordo com a agência Energy Information Administration, um órgão independente que produz as estatísticas e definições oficiais para a área de energia do governo dos Estados Unidos, o preço do barril do petróleo é definido por uma série de fatores geopolíticos e ligados à economia mundial. Uma apresentação no site oficial da agência lista os principais motivos para a variação do preço do barril de petróleo no mundo, como o ritmo de produção e oferta nos países com as maiores indústrias petrolíferas, o consumo nos países ricos e as expectativas dos principais mercados financeiros sobre a produção e o consumo de petróleo no mundo.

A explicação está de acordo com o que diz a Petrobras. Segundo a empresa, o preço do petróleo varia por causa da oferta e da demanda no mundo, o que impacta os reajustes de preço dos combustíveis distribuídos pela empresa, que acompanham as variações, para cima e para baixo. Não se encontrou nenhuma informação que aponte para uma empresa que consiga “manipular” os preços do barril do petróleo ou dos combustíveis no Brasil, como diz o vídeo.

O Comprova procurou a Petrobras, que, por e-mail, informou que “publica em seu site informações referentes à formação e composição dos preços de combustíveis ao consumidor”. A empresa também enviou o link do site Investidor Petrobras, onde está disponível a composição acionária da empresa.

O site da Petrobras informa que parte dos preços dos combustíveis é formada pelo preço cobrado pela empresa, e também por impostos federal e estaduais, além dos custos de distribuição e revenda. A parcela paga à Petrobras é responsável por 40% do preço da gasolina e 65,9% do preço do diesel, segundo a própria empresa.

A Petrobras também informa que, desde 2016, os valores do diesel e da gasolina passaram a levar em consideração dois fatores:

1 – O Preço de Paridade Internacional (PPI), que vincula os valores praticados no Brasil aos existentes no mercado internacional, calculados em dólar, e que inclui custos como frete de navios, custos internos de transporte e taxas portuárias;

2 – A margem praticada para remunerar riscos inerentes à operação. Nesse caso, engloba a volatilidade da taxa de câmbio e dos preços sobre estadias em portos e lucro, além de tributos.

Acionistas e lucro da Petrobras

O estatuto social da Petrobras, que define a estrutura societária e as atividades da empresa, diz que a União deve possuir mais da metade das ações da companhia, com no mínimo 50% mais uma ação. O primeiro artigo do estatuto diz que o controle da companhia também é da União, ou seja, do governo federal. A composição acionária da empresa mostra que a União tem 50,3% das ações ordinárias da Petrobras, que estrangeiros (empresas e pessoas físicas) detêm 13,62% das ações da Petrobras, e demais pessoas jurídicas e físicas detêm outros 6,3%. Ou seja, são parcelas menores do que a que garante o controle acionário do governo.

Um relatório de desempenho financeiro da Petrobras para 2021, publicado no site da companhia em fevereiro, mostra que no ano passado foram pagos R$ 72,2 bilhões em dividendos a acionistas (a informação consta na página 15 do relatório). O valor está bem abaixo dos R$ 900 bilhões citados no vídeo.

Em junho deste ano, o Estadão Verifica classificou como enganoso um vídeo que afirmava que a Petrobras havia feito uma reserva antecipada para distribuição de lucros em 2022 no valor de R$ 200 bilhões. Na verdade, a rubrica em questão se chamava “Reserva de Lucros”, e nem todo o valor é destinado, de fato, à distribuição de dividendos aos acionistas. Dentro dela há seis itens e o valor destinado à remuneração de acionistas é menor, de R$ 48,466 bilhões. Em nota, a Petrobras afirmou que suas Demonstrações Financeiras referentes ao primeiro trimestre de 2022 trazem uma “Reserva de Lucros” no valor de R$ 208,6 bilhões. Entretanto, a empresa esclareceu que esses recursos são destinados a diversos pagamentos.

Filhos de Lula

Dados do CruzaGrafos, ferramenta desenvolvida pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) que reúne informações de todas as empresas do Brasil registradas na Receita Federal, mostram que Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como “Lulinha”, é sócio de quatro empresas: G4 Entretenimento e Tecnologia Digital Ltda.; Br4 Participacoes Ltda.; LLF Participacoes – Eireli e FFK Participacoes Ltda.

Uma pesquisa adicional do Comprova pelo nome de Fábio Luís no site Brasil.IO no campo “Sócios das Empresas Brasileiras”, e também por meio da plataforma Aleph da Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) – que dá acesso a bases de dados governamentais de diversos países –, confirmou que ele é sócio de quatro empresas. O Brasil.IO utiliza dados da Receita Federal brasileira. Essas empresas não têm participação de outros políticos brasileiros. Não se encontrou nenhuma informação sobre a atuação dessas empresas no comércio de barris de petróleo.

A pesquisa por sociedades de outros filhos do ex-presidente Lula também não retornou nenhuma empresa que atue nesse mercado ou com nome estrangeiro, como descreve o vídeo. Sandro Luis é sócio de FlexBR Tecnologia Ltda., Gasbom Cursino I e Gisan Comércio de Roupas e Acessórios Ltda. Luís Cláudio é sócio da LFT Marketing Esportivo Ltda., Touchdown Promoção de Eventos Esportivos Ltda. e Lula Comércio e Serviços Fotográficos Ltda. Marcos Cláudio tinha 25% das quotas do capital social da empresa Flex BR, segundo sua prestação de contas à Justiça Eleitoral em 2016, ano em que foi candidato a vereador em São Bernardo do Campo (SP). A pesquisa pelo nome de Lurian Cordeiro não retornou resultados.

CPI da Petrobras

No dia 17 de junho de 2022, Bolsonaro disse que iria propor uma CPI para investigar a Petrobras, após a estatal anunciar novo reajuste. A gasolina subiu 5,18%, enquanto o diesel teve acréscimo no preço de 14,26%. A declaração foi dada à Rádio 96 FM, de Natal, no Rio Grande do Norte e transmitida no perfil oficial do presidente no Facebook.

Ele não mencionou a manipulação de preços do barril de petróleo por qualquer acionista da Petrobras. Segundo Bolsonaro, a CPI serviria para investigar “a Petrobras, seus diretores e os membros do Conselho” e buscar uma explicação para o lucro da própria Petrobras.

Até o dia 29 de junho, a medida tinha a adesão de 139 deputados. Restam 32 assinaturas para instalar a CPI. As CPIs estão previstas no § 3º do artigo 58 da Constituição e têm seu regramento detalhado na Lei 1.579, de 1952. Elas são usadas pela Câmra como forma de exercer sua atividade fiscalizadora e devem somente apurar fato determinado e ter um prazo certo de duração. Uma CPI pode ser criada a requerimento de senadores, de deputados ou em conjunto, quando são formadas as CPIs mistas – portanto, embora o requerimento tenha sido feito após uma declaração de Bolsonaro, não é o presidente da República que abre comissões desse tipo no Congresso.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia de covid-19, eleições presidenciais e políticas públicas do governo federal que viralizaram nas redes sociais. Além de ser um importante fator econômico, o preço dos combustíveis tornou-se pauta eleitoral. O vídeo aqui verificado relaciona, de forma enganosa, o filho de um ex-presidente e pré-candidato ao Planalto à empresa estatal Petrobras. Conteúdos como esse podem induzir a população a análises equivocadas sobre o assunto, influenciando a decisão dos eleitores na hora do pleito.

Outras checagens sobre o tema: Em junho deste ano, a Aos Fatos, a Lupa e o site Boatos.org checaram o mesmo conteúdo e o classificaram como falso.

Em verificações anteriores envolvendo o sistema de preços dos combustíveis e a Petrobras, o Comprova mostrou que o governo federal é acionista majoritário e responsável pelo controle da Petrobras, que vídeo no TikTok em que Lula chama colaborador da Petrobras de corrupto está fora de contexto e que pagamento de indenização à Justiça dos Estados Unidos não influenciou preço da gasolina.

Eleições

Investigado por: 2022-06-30

Protesto anti-Bolsonaro na Itália não teve manifestantes enviados pelo PT, ao contrário do que diz post

  • Enganoso
Enganoso
Título de vídeo de protesto contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) que ocorreu em 2021, na Itália, engana ao afirmar que o Partido dos Trabalhadores (PT) enviou brasileiros para participar do ato fingindo ser do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ao Comprova, o partido afirmou que "jamais enviou manifestantes à Itália para promover qualquer tipo de protesto contra Bolsonaro". Um dos participantes confirmou que o ato "foi organizado por centros sociais da Itália" e negou qualquer envolvimento do partido de Lula.

Conteúdo investigado: Vídeo mostra manifestantes com faixa com a inscrição “Fora, Bolsonaro” e bandeiras do MST ao fundo. Eles andam em direção a uma barreira policial até que inicia-se um confronto e uma manifestante é contida por policiais. O conteúdo é acompanhado da legenda: “O PT (partido dos trapaceiros) enviou brasileiros para Itália, fingindo ser do MST e protestando contra o presidente Bolsonaro. A polícia italiana, muito competente, se fez do uso da força para mandar a ordem! Parabéns à policia de lá! Os arruaceiros achavam estar no Brasil, onde a mídia militante defende… olha no que deu, minha gente!”.

Onde foi publicado: Facebook, Twitter e WhatsApp.

Conclusão do Comprova: É enganosa postagem que afirma que o PT enviou brasileiros para a Itália para participarem de um protesto fingindo ser integrantes do MST. O post usa um vídeo de manifestação contra o presidente Jair Bolsonaro na cidade de Pádua e refere-se ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e ao fato de os policiais terem dispersado o ato após confronto.

A manifestação, de fato, foi realizada. De acordo com a agência italiana Ansa, cerca de 500 pessoas participaram do ato, reprimido pela polícia, que usou jatos d’água e bombas de gás lacrimogêneo. Porém, o PT não enviou brasileiros ao local.

Segundo Antonio Pio Lancellotti, diretor do Global Project, plataforma multimídia que reúne ativistas no mundo todo, “a manifestação foi organizada por centros sociais da Itália e não havia nenhuma comitiva enviada pelo partido de Lula”. Lancelloti também participou do protesto e disse que “a grande maioria dos manifestantes era de italianos.”

Procurados, o PT e o MST afirmaram que não enviaram manifestantes à Itália para promover qualquer tipo de protesto contra Bolsonaro. “Informamos também que existem na Europa e outras partes do mundo comitês de amigas e amigos do MST que se articulam organicamente em defesa da democracia e da reforma agrária popular no Brasil”, afirmou a assessoria de imprensa do movimento social.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 29 de junho, o vídeo publicado no Facebook teve 14,6 mil interações, sendo 12 mil visualizações, 2 mil curtidas e 643 comentários. O mesmo conteúdo foi compartilhado dezenas de vezes no Twitter, o que indica uma ação organizada.

O que diz o autor da publicação: “Foi uma falha no texto“, afirmou o major Ricardo Silva, autor da publicação, que foi divulgada de forma organizada, com dezenas de perfis postando ao mesmo tempo. Após o contato da reportagem, ele alterou o título e a legenda do vídeo para “A polícia italiana muito competente resolveu da forma adequada a manifestação! Olha no que deu, minha gente!”.

Como verificamos: O primeiro passo da verificação foi buscar no Google pelas palavras-chave “protesto”, “MST” e “Itália”, o que resultou em diversas reportagens publicadas pela imprensa nacional em novembro de 2021 (CNN, Valor Econômico, Congresso em Foco, Brasil de Fato, Correio Braziliense, UOL, Folha).

A partir da leitura das matérias e análise dos vídeos da manifestação presente em algumas delas, o Comprova identificou o local, data e contexto do protesto.

Depois disso, o Comprova reuniu informações sobre o major Ricardo Silva por meio das redes sociais (Instagram e Facebook) e do site do militar.

A equipe também conversou com Janaina Cesar, jornalista que cobriu o protesto para a Folha, e que entrevistou Antonio Pio Lancellotti. Por fim, a reportagem contatou, por e-mail, o major Ricardo Silva, e, por WhatsApp, as assessorias de imprensa do PT e do MST.

A manifestação

Em 1º de novembro de 2021, cerca de 500 jovens se concentraram na via Belludi, na cidade de Pádua, na Itália, para protestar contra a visita de Jair Bolsonaro ao país. Os manifestantes portavam faixas com dizeres contra Bolsonaro e alguns carregavam bandeiras do MST.

Segundo reportagem da Folha, por volta das 16h, no horário da Itália, os manifestantes tentaram romper a barreira dos agentes de segurança, que bloqueavam as áreas que davam acesso à Basílica de Santo Antônio – local que deveria ser visitado posteriormente pelo presidente brasileiro.

A polícia italiana usou jatos d’água, bombas de gás lacrimogêneo, escudos e cassetetes para dispersar os manifestantes. O grupo então reagiu lançando mastros de bandeiras nos agentes.

Bolsonaro na Itália

Em novembro de 2021, Bolsonaro esteve na Itália para receber um título de cidadão honorário na cidade de Anguillara Veneta, que fica a cerca de 40 km ao sul de Pádua. A honraria foi entregue pela prefeita Alessandra Buoso, ligada ao partido de extrema direita Liga Norte. Em fevereiro deste ano, no entanto, moradores da cidade e Partido Europa Verde apresentaram uma ação popular na Justiça pedindo que o título fosse anulado.

O presidente brasileiro esteve em Anguillara Veneta na manhã do dia 1º de novembro, onde também foi alvo de protestos.

A agenda oficial do presidente confirma que Bolsonaro partiu de Roma para Pádua às 9h do dia 1º de novembro para participar da cerimônia de outorga do título de cidadão honorário do município de Anguillara Veneta às 13h (horário da Itália). Bolsonaro retornou ao Brasil no dia 2 de novembro às 11h40.

Quem é o major Ricardo Silva?

Ricardo Azevedo da Silva nasceu na cidade de São Paulo, em 1971. Há 20 anos reside e trabalha em Santo André (SP).

De acordo com informações do site do major, ele é técnico em Eletrônica Aeronáutica e atuou como Sargento Especialista por 10 anos na Força Aérea Brasileira. Além disso, é bacharel em Administração em Segurança Pública e em Direito, deputado suplente e militar com mais de 34 anos de experiência.

Em 2018, disputou as eleições para deputado estadual pelo PSL. Teve 12.649 votos, mas não se elegeu. Em 2020, disputou as eleições para vereador de Santo André (SP) pelo Patriota. Teve 1.103 votos e não foi eleito. Atualmente, Ricardo Silva é pré-candidato a deputado estadual de São Paulo.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia, políticas públicas do governo federal e as eleições presidenciais que viralizaram nas redes sociais. O vídeo aqui verificado traz informações enganosas sobre a atuação do PT, partido de Lula, em protesto contra Bolsonaro. Peças de desinformação envolvendo os pré-candidatos à presidência da República podem confundir e influenciar a decisão de voto dos eleitores, o que é prejudicial para o processo democrático.

Outras checagens sobre o tema: O MST já apareceu em outros conteúdos investigados pelo Comprova, como publicações que enganavam ao afirmar que movimentos sociais e partidos teriam participado de depredação de casa popular e que mentiam sobre Exército ter apreendido madeira ilegal ligada a ONGs e MST.

Eleições

Investigado por: 2022-06-29

Brasil é acionista majoritário e responsável pelo controle da Petrobras, ao contrário do que diz post

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o post no Facebook segundo o qual a “Petrobras não é mais do Brasil”. O conteúdo, que tem como base uma notícia de 2008 sobre a compra de ações por parte do investidor húngaro-americano George Soros, está fora de contexto e com números desatualizados, sem explicar que a companhia de capital aberto é controlada pelo governo brasileiro, que detém mais de 50% das ações ordinárias. A publicação também tenta enganar o leitor ao associar a compra de ações aos aumentos sucessivos nos preços de combustíveis no país.

Conteúdo investigado: Post no Facebook afirma que “Petrobras não é mais do Brasil” e usa como argumento uma notícia afirmando que o investidor George Soros comprou ações da estatal. O conteúdo tenta associar tal informação ao aumento de preços pagos pelo brasileiro nos postos de combustíveis.

Onde foi publicado: Facebook.

Conclusão do Comprova: É enganoso o post no Facebook que destaca título de reportagem informando que o bilionário George Soros comprou mais de R$ 1 bilhão em ações da Petrobras e que a companhia “não é mais do Brasil”. O conteúdo está fora de contexto e tenta fazer o leitor acreditar que a compra de ações é responsável pela política de preços da companhia.

A publicação também não explica que Soros vendeu, após negociações ao longo de oito anos, todas suas ações da Petrobras em 2016. De qualquer forma, mesmo que o investidor continuasse com os papéis, isso não faria dele controlador da empresa brasileira. O controle da petrolífera pertence ao governo federal, que detém mais de 50% das ações ordinárias da companhia.

A Petrobras é uma empresa de capital aberto e seu estatuto social a define como uma sociedade de economia mista, sob controle da União com prazo de duração indeterminado.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O post foi compartilhado 1,4 mil vezes no Facebook e teve mais de 1,1 comentários e curtidas até 29 de junho.

O que diz o autor da publicação: A autora da publicação não respondeu ao questionamento do Comprova até o fechamento desta checagem.

Como verificamos: Por meio de análises em sites especializados no mercado de ações no Brasil e no exterior, e também no Google, foi possível acessar informações sobre a situação atual da Petrobras, bem como a posição de George Soros no mercado. O Comprova também buscou a assessoria da Petrobras.

Petrobras

De acordo com informações no site oficial da Petrobras, a empresa é de capital aberto e o seu capital social é formado por ações ou cotas que podem ser adquiridas no mercado. O estatuto social da empresa a define como uma sociedade de economia mista, sob controle da União com prazo de duração indeterminado. O controle da União é exercido mediante a propriedade e posse de, no mínimo, 50%, mais uma ação, do capital votante da Companhia. É possível ser acionista da empresa como investidor pessoa física ou jurídica, brasileiro ou estrangeiro, residente ou não no país.

O Comprova buscou a assessoria da Petrobras para ter acesso aos nomes dos seus investidores atuais, mas foi informado que só seria possível o repasse de conteúdo público presente no portal da empresa. O site não mostra os nomes de todos os investidores, apenas destaca a composição acionária geral até o mês de maio. É possível verificar que o grupo de controle da companhia é o governo federal, com 50,26% das ações ordinárias.

Negociação na bolsa

As ações da Petrobras são negociadas no Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira. Os acionistas podem receber uma parcela do lucro da empresa em forma de dividendos. Quem negocia ações da Petrobras tem conta em corretora de valores credenciada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Fora do Brasil, também é possível adquirir ações por meio da intermediação de uma corretora em operações de compra e venda.

No mercado, as ações da Petrobras são representadas por siglas como a PETR. Usualmente, as ações da companhia são comercializadas em lotes. É comum que um investidor compre de 100 em 100 ações (tamanho de um lote).

Há também possibilidade da compra de papéis unitários (de 1 a 99 ações) por meio do mercado fracionário. Para isso, deve ser adicionado um F ao final do código da ação para configurar o investimento dessa forma. No caso da Petrobras, seria PETR3F (ações ordinárias com direito a voto no Conselho) ou PETR4F (ações preferenciais e com recebimento de proventos, mas sem direito a voto).

Soros na Petrobras

As negociações de George Soros envolvendo papéis da Petrobras ocorrem desde 2008, quando, no segundo trimestre daquele ano, adquiriu cerca de US$ 811 milhões em ações da companhia. O magnata comprou e vendeu ações da empresa durante oito anos. A última venda ocorreu em 2016, quando se desfez de todas as suas ações remanescentes no quarto trimestre. Atualmente, ele não possui mais nenhuma ação da Petróleo Brasileiro SA.

A imagem abaixo do portal Stockcircle.com, site que detalha o portfólio de investidores, mostra os períodos de compra e venda e a quantidade de papéis da empresa brasileira nas mãos do fundo de investimento de Soros a partir de 2009.

Ao buscar pelo nome da empresa de Soros é possível acessar informações sobre datas e ações negociadas. O Comprova não localizou neste portal a negociação de 2008, que deu origem ao post investigado, mas é possível verificar que, em junho de 2022, George Soros não possui mais ações da Petrobras.

O site da StockCircle indica que as últimas negociações do magnata envolvendo papéis da companhia brasileira ocorreram no penúltimo e último trimestre de 2016. Naquela época, Soros adquiriu 987 mil ações ao preço unitário de US$ 7,52 e vendeu todas no final do mesmo ano pelo valor de US$ 9,5, cada uma.

 

O Comprova também buscou informações em outros sites estrangeiros especializados em ações, inclusive no portal da SEC (Securities and Exchange Commission), a reguladora do mercado de capitais dos EUA. Lá, tentamos verificar se era possível obter a íntegra da lista de papéis de Soros, atualmente. A SEC informou que não teria como atender ao pedido.

No portal de investimentos gurufocus.com, é possível acessar a lista de ações da carteira de Soros até 31 de março deste ano. Nenhuma ação da Petrobras foi localizada durante a pesquisa.

Conselho da Petrobras

As decisões da Petrobras são de responsabilidade do conselho de administração da companhia, que tem o governo federal como controlador. A aprovação de nomes ou da política de preços de combustíveis, por exemplo, é definida pelos membros dele. Os ajustes nos valores dos combustíveis nas refinarias são de responsabilidade do Grupo Executivo de Mercados e Preços, formado pelo presidente da empresa, o diretor de refino e gás natural e o diretor financeiro e de relacionamento com investidores.

Isso significa que o fato de George Soros ter comprado mais de R$ 1,5 bilhão em ações preferenciais da Petrobras em 2008 não o credenciava como voz principal no destino da empresa. Ainda que ele comprasse hoje todas as ações ordinárias possíveis, com direito a voto no Conselho, não estaria acima da União, pois teria menos de 50% da companhia.

Política de preços

A atual política de preços da Petrobras foi adotada pela companhia em 2016, período do governo de Michel Temer (MDB). Naquela época, a diretoria executiva definiu que não praticaria preços abaixo de algumas paridades internacionais.

Tratava-se de uma resposta à política de represamento dos preços praticada pela estatal durante o segundo mandato de Dilma Rousseff (PT), de 2011 a 2014. Tal política permitia à empresa segurar os preços no Brasil quando havia elevações grandes no mercado internacional, mas em determinadas ocasiões podia reduzir o lucro da empresa ou provocar prejuízos.

A partir de 2016, os valores do diesel e da gasolina passaram a levar em consideração dois fatores:

1 – O Preço de Paridade Internacional (PPI), que vincula os valores praticados no Brasil aos existentes no mercado internacional, calculados em dólar, e que inclui custos como frete de navios, custos internos de transporte e taxas portuárias;

2 – A margem praticada para remunerar riscos inerentes à operação. Nesse caso, engloba a volatilidade da taxa de câmbio e dos preços sobre estadias em portos e lucro, além de tributos.

Com a mudança, o prazo para a realização de ajustes em relação ao mercado internacional mudou. A política adotada em 2016 prevê avaliações para revisões de preços pelo menos uma vez por mês.

Com a recente alta, a política de preços passou a ser criticada pelo próprio presidente Jair Bolsonaro e também pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Desde 2021, a companhia está em seu quarto presidente. Após Roberto Castello Branco, Joaquim Silva e Luna e José Mauro Ferreira Coelho saírem, está no cargo desde o dia 28 de junho Caio Mário Paes de Andrade.

No site da Petrobras, a empresa informa como ocorre a formação do preço do litro da gasolina dando o exemplo do preço médio no país.

Em 28 de junho, o valor era de R$ 7,39, composto da seguinte forma:

  • R$ 1,03 (13,9%): distribuição e revenda
  • R$ 0,96 (13,0%): custo etanol anidro
  • R$ 1,75 (23,7): imposto estadual
  • R$ 0,69 (9,3%): impostos federais
  • R$ 2,96 (40,1%): parcela Petrobras

 

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos sobre pandemia, eleições e políticas públicas que atinjam alto grau de viralização nas redes sociais. Com a proximidade do período eleitoral, também cresce o número de conteúdos divulgados nas redes sociais que tentam confundir ou enganar o público. O preço dos combustíveis, além de ser uma importante questão no âmbito federal, se tornou pauta eleitoral. Informações enganosas como a investigada aqui podem induzir o leitor a análises equivocadas sobre o assunto.

Outras checagens sobre o tema: O preço dos combustíveis no Brasil tem sido alvo de abordagens nos mais diferentes formatos na internet. No primeiro semestre do ano, o Comprova já realizou verificações de vários conteúdos virais. Em um deles, um vídeo tirava dados de contexto e enganava sobre poder de compra nos governos Lula e Bolsonaro. Outra publicação do Comprova mostrou que o pagamento de indenização à Justiça dos EUA não influenciou preço da gasolina. Em outra checagem recente, foi possível chegar à conclusão de que não era de Aldo Rebelo áudio que culpava Lula por alta de combustíveis.

Eleições

Investigado por: 2022-06-29

Post engana ao usar caso no RN para tirar credibilidade de pesquisas eleitorais

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o post que usa a relação entre um integrante do Partido dos Trabalhadores (PT) no Rio Grande do Norte e um instituto de pesquisa local para desacreditar todas as pesquisas de intenção de voto para a presidência da República. O caso envolve Antônio Leonilde de Oliveira, que já foi candidato pelo PT em eleições passadas, e o Instituto de Pesquisa Sensatus, e já foi remetido ao Ministério Público. Oliveira solicitou seu desligamento do instituto em janeiro de 2022 e deixou oficialmente a empresa em maio. A postagem reforça uma prática recorrente de alguns grupos de tentar tirar a credibilidade de pesquisas eleitorais.

Conteúdo investigado: Post no TikTok em apoio a Jair Bolsonaro (PL) traz vídeo com a frase “Agora tá explicado porque nas pesquisas o ladrão está na frente”. As imagens mostram trechos de dois programas nos quais os apresentadores criticam um caso ocorrido no Rio Grande do Norte, afirmando que o presidente de um diretório municipal do PT naquele estado é também dirigente de instituto de pesquisa que apontou vantagem do partido em consulta recente à população sobre a disputa eleitoral de outubro.

Onde foi publicado: TikTok e WhatsApp.

Conclusão do Comprova: É enganoso o post publicado no TikTok que usa a relação do presidente do PT de Itaú, município do Rio Grande do Norte, com o instituto de pesquisa Sensatus para desacreditar as pesquisas eleitorais realizadas no Brasil.

O caso em questão envolve Antônio Leonilde de Oliveira, que foi apontado em reportagens de veículos locais como o indivíduo ligado, simultaneamente, ao PT e ao Instituto Sensatus. Ao Comprova, o instituto confirmou que a polêmica se refere a Oliveira e que ele, de fato, foi um dos fundadores do instituto de pesquisa, ainda que já tenha se desligado da sociedade.

O PT, por sua vez, confirmou que Oliveira é dirigente do partido no município de Itaú. Em cidades pequenas, informou a assessoria, o endereço da legenda é o mesmo da presidência. Conforme cadastro interno do partido, o endereço de Oliveira coincide com a localização da sede da Sensatus que consta no site, embora hoje a área jurídica da empresa aponte em documentos outra numeração. Na internet, o endereço do instituto de pesquisa está com dados desatualizados, segundo a Sensatus.

A pesquisa de opinião que colocou em evidência a relação de Oliveira com o PT e o Sensatus foi feita entre os dias 28 e 31 de maio de 2022 e consultou a população sobre candidatos à presidência da República, governo do estado, Câmara Federal, Senado e Assembleia Legislativa.

Até aqui, não há comprovação de que tenha havido ilegalidade na coleta dos dados e nas informações registradas pelo Instituto Sensatus no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mas o conteúdo investigado, que manifesta apoio a Jair Bolsonaro (PL), explora o episódio para questionar a credibilidade das pesquisas eleitorais de uma forma geral, sem citar outros casos específicos ou apresentar provas. Há uma referência à liderança do “ladrão” nas pesquisas, o que indica ser uma alusão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma vez que apoiadores de Bolsonaro costumam se referir a ele desta forma.

Consultado, o Ministério Público Federal (MPF) informou sobre a existência de um pedido de investigação envolvendo este caso, já remetido à promotoria eleitoral estadual. O MP estadual, por sua vez, confirmou que vai apurar a situação mencionada no vídeo.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: Até o dia 23 de junho, quando foi removido, o post já havia somado mais de 165 mil visualizações, 13,9 mil curtidas e 1,3 mil comentários.

O que diz a autora da publicação: A autora respondeu inicialmente ao Comprova, mas ao ser questionada sobre o vídeo, bloqueou a reportagem e apagou a publicação. O perfil dela não foi identificado em outras plataformas.

Como verificamos: Primeiramente, a reportagem assistiu ao vídeo aqui investigado e, na sequência, buscou a identificação dos trechos reproduzidos na postagem. Com a observação de detalhes dos vídeos, como o nome dos programas, as vestimentas dos participantes e o ambiente de fundo, a equipe encontrou, no YouTube, o original dos programas da rádio 96 FM e do canal ‘Todo poder emana do povo’.

Considerando essas alegações, o Comprova fez pesquisas através do Google, com as palavras “presidente”, “PT”, “Itaú”, “Rio Grande do Norte”, “Sensatus”, “pesquisa”, porém a consulta não retornou nenhum material produzido por veículos profissionais da imprensa nacional. Foi utilizado ainda o recurso do Google Street View para conferir o endereço.

A reportagem também consultou o TSE e o Ministério Público, tanto Federal quanto Estadual, para saber sobre a legalidade de suposto acúmulo de função de dirigente partidário e presidente de instituto de pesquisa, além de verificar se existe alguma investigação em curso sobre o que foi alegado no vídeo.

A equipe ainda procurou a direção do PT do Rio Grande do Norte, o governo do estado e o Instituto Sensatus, bem como tentou contato com a autora da publicação. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e a TV Bandeirantes do estado, que contratou a pesquisa, também foram consultados.

Vídeo reproduz trechos de programas na internet

O vídeo investigado apresenta um trecho do Jornal da Noite, publicado pelo canal do YouTube Todo Poder Emana do Povo no dia 9 de junho de 2022. Nele, o jornalista Gustavo Reis mostra parte do programa Meio Dia, da rádio 96 FM de Natal, veiculado dia 3 de junho e no qual o apresentador Bruno Giovanni trata sobre a suposta relação entre o presidente do PT em Itaú (RN) e o Instituto Sensatus.

Após o trecho da rádio ser exibido, Gustavo comenta o caso juntamente com o convidado Alan Lopes, que diz: “canalhas, pilantras, cafajestes, bandidos é o que eles são”. Ele ainda sugere que o PT deveria ter seu registro de candidatura cassado, acrescentando que “não é um partido, é uma facção criminosa, a gente precisa acabar com essa esquerda nojenta, asquerosa, comunista, assassinos.”

O vídeo foi apresentado no conteúdo investigado com a legenda “Atenção! Agora tá explicado porque nas pesquisas o ladrão tá na frente”. No texto do post, aparecem as tags “bolsonaro”, “mito”, “capitao” e “eleicoeslimpas”, ecoando o discurso de apoiadores de Bolsonaro segundo o qual as pesquisas que mostram Lula à frente nas intenções de voto são fraudadas. Há ainda dois emojis verdes que caracterizam uma pessoa sentindo náuseas.

Pesquisa está registrada na Justiça Eleitoral

A pesquisa que gerou o debate usado como base para o post investigado está registrada no TSE sob o número RN-02196/2022. No resumo do documento, constam consultas à população potiguar, no fim de maio, para os cargos de governador do Rio Grande do Norte e dos representantes do Legislativo – deputados estaduais, federais e senadores. Mas o questionário traz ainda perguntas sobre a disputa presidencial.

A advogada do instituto, Maria Paula Melo, e a chefia de jornalismo da TV Bandeirantes Natal confirmaram que a pesquisa também apontou a preferência do eleitorado para a presidência da República. O levantamento foi feito a pedido da afiliada da emissora no estado.

A emissora não exibiu, entretanto, os resultados para o cargo presidencial durante a transmissão de seus programas, pois, segundo a empresa, o foco do jornalismo local são as eleições estaduais. Os resultados completos da pesquisa de maio do Instituto Sensatus também não foram divulgados no portal ibandnr, site oficial da Band RN.

Ao Comprova, o TSE disse que a Justiça Eleitoral apenas registra as pesquisas realizadas, mas que não é sua atribuição divulgar o conteúdo.

Entretanto, conforme previsto no artigo 15 da Resolução 23.600/2019, a Justiça Eleitoral pode agir quando provocada pelas partes legitimadas – Ministério Público, candidatos, partidos, coligações e federações – a impugnar o registro e/ou a divulgação das pesquisas. Não houve nenhuma solicitação de impugnação para este caso, segundo o TSE.

O instituto e o PT

A direção do PT no Rio Grande do Norte também foi procurada, por e-mail e por telefone, mas não se manifestou sobre o caso. Mensagens foram enviadas para o endereço eletrônico do partido no estado e não foram respondidas. Em ligação para o diretório estadual, o presidente, identificado no contato apenas como Júnior, não estava. Foram três tentativas de falar com ele na sede, até que passaram o número do celular. O dirigente foi procurado por mensagem de texto e em ligações, porém não deu retorno.

Entre as perguntas enviadas para o partido desde o dia 20 de junho estão se Oliveira é mesmo presidente do diretório do PT em Itaú ou ocupa alguma outra função de dirigente do partido no Rio Grande do Norte, se é sócio da Sensatus e se a sede do instituto é a mesma do diretório petista. Também houve questionamentos sobre a compatibilidade do exercício das duas funções. Nada foi respondido pela direção.

Por fim, também consultada, a assessoria do partido no Rio Grande do Norte confirmou que Oliveira é presidente do PT de Itaú e, em cidades pequenas, disse que é comum que o endereço do partido seja o mesmo do seu dirigente.

No cadastro do partido, consta como endereço a mesma rua e numeração da Sensatus, considerando as informações do site da empresa até 29 de junho. Isto é: Oliveira é presidente do PT de Itaú e a localização da sua casa e diretório é igual ao endereço da empresa registrado no site. No entanto, documentos indicam que a empresa já não opera neste local.

A partir de pesquisas na internet, a equipe ainda identificou que Oliveira já disputou eleições pelo partido. Em 2004, concorreu a uma vaga na Câmara Municipal de Vereadores de Itaú e, em 2008, foi candidato a vice-prefeito numa chapa com o antigo PMDB na mesma cidade. Na urna, era identificado como Léo Basílio e não foi eleito em nenhuma das duas disputas.

Em 2019, Oliveira foi designado para uma função comissionada no governo do Rio Grande do Norte, comandado por Fátima Bezerra (PT). Ele é diretor regional de Alimentação Escolar de Pau dos Ferros, conforme consta na página 6 do Diário Oficial do dia 9 de março daquele ano. Uma busca por seu nome no Diário Oficial do Rio Grande do Norte não retorna nenhum informe sobre eventual exoneração, um indicativo de que ele permanece no cargo.

A assessoria do governo do estado foi questionada sobre a nomeação de Oliveira a uma função de confiança e se há compatibilidade com outras atividades, como a ligação com o instituto de pesquisa até o mês passado, mas não houve resposta.

Sociedade foi desfeita no mês passado

Procurado pelo Comprova, o Instituto Sensatus afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que Antônio Leonilde de Oliveira foi, no ano 2000, sócio-fundador da empresa que, na época, levava o nome de A Leonilde de Oliveira ME. Entretanto, em 2016, a razão social foi alterada para Sensatus Pesquisa e Consultoria.

Em relação ao desligamento de Oliveira do quadro societário da empresa, a advogada do Instituto Sensatus, Maria Paula Melo, informou à reportagem que ele requereu sua saída em janeiro de 2022, mas, devido a questões fiscais e administrativas, a homologação saiu apenas no mês passado.

Maria Paula acrescentou que, desde o requerimento de saída, Antônio não tem nenhuma função ou ligação com o instituto. Ao consultarmos a ficha do CNPJ do instituto no portal do governo federal, pudemos conferir o quadro societário, no qual só aparece o nome de Edson Alves de Lima Junior (sócio-administrador).

A advogada disse que o endereço Rua Joaquim André, 39, no Centro de Itaú, no Rio Grande do Norte, é “100% do Instituto Sensatus e não existem residentes no local.” A equipe também usou o Google Street View para localizar o endereço, porém as imagens são de 2012, quando ainda havia poucas construções no local e nenhuma referência ao instituto ou diretório do PT (imagem abaixo).

 

No site da Sensatus, porém, até o dia 29 de junho aparecia outra numeração no endereço da empresa. Ao ser questionada sobre essa situação, Maria Paula explicou que a Sensatus não possui mais domínio deste site. Segundo a advogada, a última movimentação foi em 2018 e, por isso, está desatualizado. Também esclareceu que o imóvel foi dividido e, desde 2020, o instituto tem uma nova numeração, conforme aparece na foto enviada ao Comprova pela assessoria da empresa.

A assessoria do instituto também mencionou que os resultados das pesquisas realizadas nos últimos anos correspondem aos resultados das urnas, demonstrando, em sua avaliação, o trabalho zeloso e responsável da empresa na coleta de dados.

Ministério Público vai apurar existência de ilegalidade

Podendo ser uma das partes a impugnar registro ou divulgação de pesquisas, o Ministério Público Federal informou, em áudio da assessoria por aplicativo de mensagem, que não havia até a última quinta-feira (23) investigação em curso para apurar suposta ilegalidade na pesquisa realizada pelo Instituto Sensatus, ou por acúmulo de atribuições de Oliveira, no PT e na empresa.

“Não tem nenhum procedimento na procuradoria regional eleitoral sobre isso, não foi registrada representação, nada.”

No dia seguinte, porém, a própria comunicação do MPF fez contato com o Comprova para informar sobre a chegada de um pedido de apuração sobre o caso, mas o órgão declinou e encaminhou o requerimento ao Ministério Público Estadual, que ainda vai averiguar as alegações apresentadas.

Tentativa de desacreditar pesquisas

O caso aqui investigado se soma a outros cinco verificados pelo Comprova somente neste mês (1, 2, 3, 4, 5), todos com conteúdos de desinformação para tentar desacreditar as pesquisas eleitorais.

O Comprova já explicou que a pesquisa é feita com uma amostra cientificamente calculada, a fim de representar o grupo como um todo e eliminar vieses. Também já esclareceu que o levantamento é uma representação do momento em que foi realizado, e não uma previsão do futuro. Até as eleições, mudanças podem ocorrer no cenário eleitoral e um candidato, que hoje aparece na preferência, pode deixar essa posição.

Além disso, segundo a legislação brasileira, todas as pesquisas devem ser registradas na Justiça Eleitoral, com detalhes sobre o método científico empregado, o plano de amostragem, os dados do profissional responsável, questionário completo a ser aplicado, entre outros. Essas informações estão disponíveis para consulta no site do TSE.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Embora não haja menção explícita ao ex-presidente e candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o vídeo traz ataques à esquerda e, particularmente, ao partido, tentando imputar atitudes suspeitas a seus dirigentes. Além disso, faz insinuações para desqualificar as pesquisas eleitorais que colocam candidatos petistas à frente nas consultas, seguindo a linha do presidente Bolsonaro, que também ataca as consultas. Essa prática é danosa ao processo democrático, pois confunde o eleitor, que tem direito a fazer suas escolhas baseadas em conteúdos verdadeiros.

Outras checagens sobre o tema: Com as eleições se aproximando, o tema tem sido pauta de desinformação frequentemente. Em muitos casos, tentando tirar a credibilidade das pesquisas eleitorais, como demonstrado pelo Comprova que um post trocou local de atos contra Lula para desacreditar pesquisas; que um vídeo faz alegações enganosas também pela mesma razão; e que entrevista sobre voto foi feita por humorista, não pelo Datafolha. O Comprova também já explicou a diferença de pesquisa, que usa métodos científicos, e enquete.

Eleições

Investigado por: 2022-06-28

É falso que PT seja responsável por drone que lançou produtos químicos em Minas Gerais

  • Falso
Falso
É falso que drone que lançou produtos químicos em evento de Lula e Alexandre Kalil em Minas Gerais foi contratado pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Em vídeo, pastor diz que investigação da Polícia Civil apontou que equipamento pertencia a uma empresa de propaganda e que operador disse à polícia que imagens seriam usadas na propaganda petista. O caso é apurado pelo Ministério Público Federal (MPF), que desmentiu a versão.

Conteúdo investigado: Vídeo em que pastor evangélico do Paraná afirma que drone usado para lançar fezes e urina em público de evento com Lula em Minas Gerais foi contratado pelo próprio PT, que pretendia usar imagens em propaganda eleitoral.

Onde foi publicado: YouTube

Conclusão do Comprova: É falso o conteúdo de um vídeo publicado no YouTube por um pastor evangélico do Paraná em que ele afirma que o drone usado para jogar fezes e urina no público de um evento com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PSD) em Uberlândia (MG), no dia 15 de junho, foi contratado pelo próprio PT. O Ministério Público Federal (MPF), que investiga o caso, desmentiu a fala e disse que, “segundo o apurado até o momento, não há nenhuma indicação que sustente tais ilações”. O drone foi usado para lançar agrotóxico no local, e não fezes e urina.

A fala do pastor Sandro Rocha, que já teve outro conteúdo verificado pelo Comprova, foi feita durante uma live transmitida em 22 de junho passado. Em meio a outras declarações, Rocha usou menos de dois minutos para afirmar que foi o próprio PT quem contratou o drone “para se fazer de vítima, para fazer propaganda política contra o Bolsonaro”. Ele atribui a falsa informação à Polícia Civil de Minas Gerais, que teria prendido o operador do drone e este, por sua vez, teria dito que recebeu ordens de lançar excrementos para que o ato fosse filmado e as imagens fossem usadas na propaganda política petista.

O Comprova procurou a Polícia Civil. A corporação respondeu que, na verdade, quem investiga o caso é o Ministério Público Federal. O MPF disse que a investigação está em fase inicial, mas adiantou que a fala do pastor não se sustenta. O PT denunciou o caso ao Ministério Público Estadual em Minas Gerais e o procurador-geral, Jarbas Soares Junior, também desmentiu a falsa acusação pelo Twitter.

Fotos feitas no local no momento da prisão dos três operadores do drone mostram que o equipamento estava em uma caminhonete Hilux branca, na qual havia um adesivo do atual presidente Jair Bolsonaro (PL). As imagens foram feitas pelo fotógrafo freelancer Wladimir Raeder no momento em que a Polícia Militar de Minas Gerais prendeu os três suspeitos.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O vídeo no YouTube que contém a declaração falsa tinha 115 mil visualizações até o final da manhã desta terça-feira (28).

O que diz o autor da publicação: O autor da publicação, o pastor evangélico Sandro Rocha, foi procurado através do e-mail oficial da Igreja do Porto de Cristo, que ele coordena, em Guaratuba, no Paraná, mas não houve resposta até a publicação desta checagem.

Como verificamos: Primeiro, buscamos no Google pelas palavras “drone”, “PT”, “Lula”, “Kalil”, “Minas Gerais”, “Polícia Civil” e “presos”. O resultado levou a reportagens sobre o ataque feito com o lançamento de um produto químico agrícola com o uso de um drone durante um evento com a participação de Lula e de Kalil. Dentre as publicações, as da CNN, G1, O Tempo, Estadão, Folha, Yahoo e Valor.

Inicialmente, acreditava-se que fezes e urina tinham sido jogadas no público, por conta do odor. Depois, se descobriu que o drone havia jogado um agrotóxico no público. Três pessoas foram presas em flagrante pela Polícia Militar de Minas Gerais, mas foram liberadas após assinarem um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO).

O Comprova, então, passou a buscar reportagens sobre os presos na ocasião. Foram três homens: Rogério Luiz Parreira, Charles Wender Oliveira Souza e Daniel Rodrigues de Oliveira. Nenhuma das matérias citava participação do PT ou mencionava que eles eram apenas operadores do drone por trás de uma empresa de propaganda.

Uma das matérias, publicada pelo Diário do Centro do Mundo (DCM), mostra uma fotografia de uma caminhonete Hilux branca com drones na carroceria e um adesivo do presidente Bolsonaro na parte de trás, pouco abaixo do nome e do modelo do carro – do lado direito.

O Comprova, então, buscou informações sobre o carro e procurou por outras imagens do evento que também mostrassem o mesmo veículo, o que levou a fotos feitas pelo fotógrafo freelancer Wladimir Raeder. A reportagem entrou em contato com o fotógrafo, que enviou três fotos feitas no local durante a prisão em flagrante do suspeito – uma mostra o adesivo e outra mostra a placa do carro.

Foram procuradas ainda as polícias Civil e Militar de Minas Gerais, o Ministério Público Federal em Minas, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) – que regulamenta os drones –, o PT e acessado o perfil no Twitter do procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, Jarbas Soares Junior, além do autor do vídeo.

O ataque com drone

O lançamento de um produto químico com drone durante um evento político em Minas Gerais aconteceu no dia 15 de junho deste ano, na Universidade do Triângulo Mineiro (UniTri), na cidade de Uberlândia. O evento de Lula como pré-candidato à presidência da República contou também com a participação de Alexandre Kalil, que é pré-candidato ao governo do estado de Minas e tem apoio do petista. A princípio, as pessoas atingidas gritavam que estavam jogando fezes e urina, mas a Polícia Militar informou se tratar de um produto agrícola.

Três homens foram presos em flagrante no local pela PM. Eles estavam em uma caminhonete Hilux branca com drones na carroceria e disseram que tinham jogado veneno no público. Um vídeo publicado nas redes sociais mostra as mãos de um homem operando o drone, enquanto eles conversam e dão risada sobre o ato. Em dado momento, um deles diz para aumentar a vazão do produto, enquanto o outro responde que está no máximo e que só jogou dois litros. Eles riem ao constatarem que as pessoas estão gritando. Um dos homens diz para jogar o produto no palco e na arquibancada.

Uma foto divulgada pela Polícia Militar de Minas Gerais foi usada pela imprensa local, mas não mostra informações como a placa do carro, apenas a cor. O drone está na carroceria do veículo que, segundo mostram a foto publicada pelo DCM e as outras, feitas pelo fotógrafo Wladimir Raeder, tem placa de Itumbiara (GO), cidade a 133 quilômetros de Uberlândia. A informação foi acessada pelo Comprova através do aplicativo Sinesp Cidadão, do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Preso por estelionato

Um dos suspeitos presos em flagrante no local se chama Rodrigo Luiz Parreira, de 38 anos. Agropecuarista, ele é conhecido como “Rodrigão Treta” e já possui passagens pela polícia, inclusive uma condenação em primeira instância por estelionato em Minas Gerais e outra por roubo em Goiás, onde nasceu.

Pelo crime de estelionato, Parreira foi condenado a dois anos e seis meses de prisão, mas a pena foi convertida em alternativa. Ele foi acusado de integrar uma quadrilha de desvio de cargas. Durante o processo, disse que era “perseguido” pela polícia. À Folha e ao Estadão, o advogado de Parreira não se manifestou sobre a prisão por estelionato, disse que o cliente é réu primário e que já foi absolvido de uma condenação.

Ele se refere, provavelmente, a uma ação em que o Ministério Público de Minas Gerais denunciou o cliente, junto com outras pessoas, de intermediar a venda de uma carga roubada de uma grande loja de roupas em um posto de combustíveis de Jaraguá (GO). O juiz que o absolveu, Márcio José Tricotti, de Uberlândia, disse que as provas eram frágeis. A sentença ainda pode ser alvo de recurso.

Investigação do MPF e MP-MG

No vídeo aqui investigado, o pastor evangélico atribui à Polícia Civil de Minas Gerais a informação de que o drone teria sido contratado pelo próprio PT para “se fazer de vítima”. Contudo, não é a Polícia Civil que investiga o caso, e sim o Ministério Público Federal, já que o caso, a princípio, envolve drone, que é regulamentado pela Anac, na esfera federal.

Mesmo assim, o Comprova consultou a Polícia Civil sobre as declarações do pastor. A corporação respondeu por e-mail que “a investigação ficou a cargo do Ministério Público Federal por se tratar, a matéria, de competência da Justiça Federal”.

Também por e-mail, o MPF em Minas respondeu que, “até o momento, não há nenhuma indicação que sustente tais ilações”, em referência às afirmações feitas pelo pastor.

O Partido dos Trabalhadores, acusado pelo autor do vídeo de ter contratado uma empresa de propaganda para lançar o produto por meio de drone e usar as imagens em peças de campanha, negou as acusações. “O PT não contratou as pessoas, a acusação é caluniosa. As pessoas que operavam o drone foram presas no dia e o PT acompanha o caso para que elas sejam punidas”, disse o partido, através da assessoria de imprensa.

Na ocasião, o PT acionou o Ministério Público Estadual (MPMG), que também investiga o episódio. No Twitter, o procurador-geral de Justiça no Estado, Jarbas Soares Junior, também desmentiu a acusação feita no vídeo.

A denúncia ao MPMG foi feita pelo deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG) no dia 20 de junho. Segundo o procurador-geral, o caso foi sorteado para o promotor Marco Aurélio Nogueira, que está apurando a denúncia.

A Anac informou que, até o momento, não foi acionada pelos investigadores do caso, mas que “está à disposição para prestar os esclarecimentos necessários, caso seja demandada”.

Foto mostra adesivo de Bolsonaro

O Diário do Centro do Mundo, um portal digital que se identifica como sendo de esquerda, publicou com exclusividade uma imagem da picape onde estava o drone usado na ação. O carro possui um adesivo com o rosto do presidente Jair Bolsonaro. O site atribuiu a informação e a fotografia em que aparece nitidamente o adesivo a um dos policiais que participou da abordagem e que pediu para não ser identificado.

O Comprova consultou a Polícia Militar sobre a alegação do vídeo. Depois, solicitou informações também sobre eventuais fotografias feitas pela corporação que mostrassem o adesivo. Em nota, a PM respondeu apenas que o caso foi encaminhado ao MPF em Uberlândia, mas não respondeu sobre imagens.

Entretanto, uma matéria publicada pelo G1 Triângulo e Alto Parnaíba usava uma fotografia do momento da prisão, creditada ao fotógrafo Wladimir Raeder.

| Polícia Militar de Minas Gerais prendeu em flagrante três suspeitos de operar o drone. Crédito: Wladimir Raeder

A reportagem entrou em contato com o fotógrafo e solicitou imagens feitas no local no dia do ato. Raeder as enviou à equipe, junto com os metadados. As fotos foram feitas no dia 15 de junho de 2022 às 16:23:38 e às 16:23:56, como mostram os metadados abaixo:

O fotógrafo explicou que aguardava o início do evento quando notou uma movimentação e correu para ver o que estava acontecendo. Foi quando ele subiu num muro de um condomínio fechado e conseguiu registrar o momento em que policiais a bordo de duas viaturas da PM de Minas Gerais prenderam em flagrante três suspeitos de operar o drone.

Mesmo com baixa nitidez por causa do zoom máximo, é possível observar em duas das imagens enviadas pelo fotógrafo tanto a placa do carro quanto o adesivo de Bolsonaro que aparecem na foto publicada pelo DCM (clique para comparar as fotos). A marca de poeira que aparece um pouco acima do nome do carro também é similar.

| Uma das fotos enviadas por Wladimir Raeder mostra placa do veículo e marca de poeira, que também aparecem na imagem do DCM. A outra mostra partes do drone. Crédito: Wladimir Raeder

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e as eleições presidenciais de 2022 que viralizaram nas redes sociais. O vídeo aqui verificado traz informações falsas a respeito de um ataque real feito em um evento de um pré-candidato à presidência da República e, sem provas, atribui a ação ao próprio PT. Ao dizer que a informação veio da Polícia Civil, o que não é verdade, o autor passa aos seus espectadores a falsa sensação de que a acusação tem base em fatos, o que não é a realidade aqui.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já mostrou como um vídeo antigo foi usado para afirmar que Lula e Alckmin foram hostilizados em Porto Alegre, que um protesto de indígenas na Bahia era por melhorias na educação, e não por verba para ato contra Bolsonaro, e que pessoas gritavam a favor de Lula e não contra ele em vídeo na Sapucaí. O mesmo conteúdo aqui verificado já foi checado pelo Boatos.Org, pela agência Aos Fatos e pela AFP Checamos.

O autor do vídeo já foi verificado pelo Comprova. Em outro vídeo, ele disse que “a maior reserva de gás natural do mundo” foi encontrada no Paraná durante o governo Lula, mas que o ex-presidente criou o Parque Nacional do Iguaçu no local para impedir a exploração da commodity e privilegiar a compra de gás da Bolívia, em benefício do ex-presidente boliviano Evo Morales. O Comprova mostrou que a afirmação era falsa e que o Parque Iguaçu, além de não ter reserva de gás, foi criado por Getúlio Vargas, não por Lula.

Eleições

Investigado por: 2022-06-28

Lula faz crítica a políticos que veem pobres como números; vídeos enganam ao mudar contexto

  • Enganoso
Enganoso
Vídeos enganam ao usar um trecho fora de contexto de discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para sugerir que o petista teria comparado pessoas pobres a papel higiênico e dito que elas "são apenas números". Na fala, realizada durante um evento sobre a fome no Brasil, em outubro de 2021, Lula reprova a atitude de alguns políticos que, segundo ele, só pensam na população que tem pouco recurso em épocas de eleição.

Conteúdo investigado: Dois vídeos exibem o mesmo trecho de uma fala de Lula em que o ex-presidente diz que pessoas pobres só são lembradas por políticos em época de eleição. Uma das publicações tem a tela dividida em duas partes: à esquerda, o autor do post reage desaprovando a fala do ex-presidente, enquanto à direita é mostrado o vídeo do petista.

Onde foi publicado: Kwai.

Conclusão do Comprova: São enganosos os vídeos que circulam no Kwai que sugerem que o ex-presidente Lula, durante um discurso, teria menosprezado a população pobre ao compará-la com papel higiênico.

A fala do petista, que durou cerca de 43 minutos, foi retirada de contexto. Na ocasião, Lula discursou no Encontro dos Movimentos do Campo, das Florestas e das Águas, em 15 de outubro de 2021, que tinha como objetivo promover uma discussão sobre o combate à fome no Brasil.

Os vídeos aqui verificados não exibem a fala completa de Lula que, na realidade, critica a postura, atribuída por ele a outros líderes, de lembrar das pessoas pobres apenas em período de campanha eleitoral.

O Comprova classifica como enganoso todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações e que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Juntos, os vídeos publicados no Kwai alcançaram mais de 906 mil interações, sendo 28,2 mil curtidas, mais de 7 mil comentários, 40,9 mil compartilhamentos e 830,4 mil visualizações até o dia 28 de junho.

O que dizem os autores das publicações: O Comprova entrou em contato com os responsáveis pelas publicações por meio de mensagens na rede social Kwai. No entanto, não houve retorno até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: O Comprova iniciou a checagem fazendo a transcrição da fala de Lula exibida pelos vídeos verificados. A partir disso, utilizando um trecho do discurso, fez uma busca no Google, que resultou em um vídeo mais completo, publicado no perfil do ex-presidente no Facebook, com a íntegra do discurso.

Com a gravação, que tem 42 minutos e 59 segundos de duração, o Comprova pôde investigar o contexto e o teor da fala completa de Lula, além da data e local onde foi realizada.

Os vídeos verificados

As peças de desinformação verificadas pelo Comprova foram publicadas no dia 24 de junho por dois perfis diferentes na rede social Kwai, um aplicativo móvel de compartilhamento de vídeos. Ambos utilizam trecho de um discurso feito por Lula, pré-candidato à presidência da República pelo PT. Um dos vídeos leva o título de “Lula diz: ‘Pobre é só um número’. Lula e a esquerda contra o povo”; o outro é intitulado “É um número Lula? Pobre é papel higiênico Lula?”.

No conteúdo alvo da verificação, Lula aparece dizendo: “O pobre é um número. Às vezes, um número bonito para se utilizar em campanha. Eu, há 20 anos atrás, dizia: ‘Pobre, sabe, é utilizado como se fosse papel higiênico. Ah, tem uma baita utilidade na época de eleição, mas depois joga ele fora, esquece’”.

A declaração, retirada de seu contexto original, sugere, de forma enganosa, que Lula considera o pobre “um número bonito para se utilizar em campanha. Na verdade, o ex-presidente faz uma crítica a essa postura, atribuída por ele a outros políticos.

Fala completa

Ao buscar por um trecho da declaração no Google, a equipe de verificadores chegou a outro vídeo, mais completo, publicado na página oficial de Lula no Facebook, com duração de 42 minutos e 59 segundos. A partir desse conteúdo, foi possível identificar o contexto e a data em que o discurso foi feito.

A manifestação ocorreu no Encontro dos Movimentos do Campo, das Florestas e das Águas com Lula, em 15 de outubro de 2021, véspera do Dia Mundial da Alimentação. Um vídeo, ainda mais extenso, desse mesmo encontro está publicado no canal oficial de Lula no YouTube. No evento, o ex-presidente afirmou que a volta da fome estaria relacionada à ausência de um projeto que coloca os pobres no orçamento do país: “A gente pode produzir o que quiser, mas se o povo não tiver dinheiro, ele vai passar fome.”

O trecho utilizado pelos autores dos vídeos verificados pode ser encontrado entre os minutos 00:34:59 e 00:35:18 (link do Facebook). A ideia completa parte do minuto 00:33:45 e se estende ao 00:35:59, confira:

“Então, nós estamos falando de fome de comida, mas nós temos muitas outras fomes, gente. Muitas outras fomes tão duras ou tão fortes quanto a comida. Nós temos fome de política ambiental e preservação das nossas águas, e preservação das nossas florestas, dos nossos animais, da nossa fauna. E de um animal, que, se a gente não tomar cuidado, ele está morrendo muito fortemente, que é o ser humano. Uma das grandes desgraças é que o ser humano, os mais pobres, não estão morrendo só na Amazônia por causa do desmatamento, do desemprego e da fome. Morre no mundo inteiro pelo esquecimento daqueles que deveriam ter responsabilidade de lembrar. Nenhum presidente de nenhum país do mundo se esquece do orçamento das Forças Armadas, nenhum país do mundo se esquece dos orçamentos do Itamaraty, do orçamento do Ministério Público, do orçamento da Polícia Federal, do orçamento da Receita, mas esquece de colocar o pobre no orçamento. Porque o pobre não é levado em conta. O pobre é um número. Às vezes, um número bonito para se utilizar em campanha. Eu, há 20 anos atrás, dizia: ‘Pobre, sabe, é utilizado como se fosse papel higiênico. Ah, tem uma baita utilidade na época de eleição, mas depois joga ele fora, esquece.’ Eu estou falando isso, coisa que eu já falei 30 anos atrás, eu sou velho, eu estou falando do passado. Eu deveria falar do futuro, mas essa gente que cassou a Dilma, fez o impeachment da Dilma, fazendo a ponte para o futuro, olha a ponte que eles nos deram: o purgatório. Essa gente faz autocrítica? Não. Essa gente quer a continuidade disso. Porque esse país nunca foi governado para 100% do seu povo. Esse país sempre foi governado para uma minoria privilegiada.”

Ao analisar o discurso, é possível perceber que Lula critica, inicialmente, o posicionamento de presidentes ao redor do mundo que se esquecem de “colocar o pobre no orçamento” e que os mais pobres estão morrendo “pelo esquecimento daqueles que deveriam ter responsabilidade de lembrar”. Ao mencionar que “o pobre é um número”, “um número bonito para se utilizar em campanha”, Lula não está expressando a própria opinião, mas buscando exemplificar como esses presidentes, cujos nomes não são citados, enxergam o pobre.

Na sequência, o presidenciável faz referência a “essa gente que cassou a Dilma (PT), fez o impeachment da Dilma”. Cita que deveria estar falando do futuro, mas que há décadas segue insistindo no mesmo tema (a “utilização” do pobre em época de eleição por interesse) por entender que a questão não foi superada.

Lula, em seguida, menciona que, em vez de “ponte para o futuro”, “olha a ponte que eles nos deram: o purgatório” – fazendo uma clara crítica ao programa de governo batizado de ”Uma Ponte para o Futuro”, que pavimentou as ações do presidente Michel Temer após a queda da ex-presidente Dilma Rousseff.

Os autores dos vídeos

Um dos perfis que postou o vídeo checado aqui tinha, até dia 27 de junho, 5,2 mil seguidores no Kwai e 523 conteúdos postados. A maior parte das publicações é contrária a Lula e ao PT e favorável ao presidente Jair Bolsonaro (PL). O autor também possui um canal no YouTube, com 462 seguidores, e um perfil no Twitter, em que consta que é de Minas Gerais.

O outro vídeo verificado foi publicado por um perfil intitulado Sou contra o PT e você? (Celso 5692). O perfil tem 48,9 mil seguidores e 634 postagens; a maioria delas contra Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e as eleições presidenciais que viralizaram nas redes sociais. Os vídeos aqui verificados tiram de contexto a fala de um pré-candidato ao Planalto. Isso pode confundir e influenciar a decisão de voto dos eleitores, o que é prejudicial para o processo democrático.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou outras peças de desinformação a respeito de figuras políticas que podem interferir na escolha dos eleitores. Recentemente, o Comprova mostrou que Lula não tem conta no banco do Vaticano; que post adulterou áudio e mentiu ao afirmar que Lula foi xingado em Caruaru (PE) e que post trocou local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas.

Eleições

Investigado por: 2022-06-24

Lula não tem conta no banco do Vaticano; falsa denúncia já foi contestada pela instituição

  • Falso
Falso
É falso vídeo em que homem afirma que "Lula tem 250 milhões de euros no Banco do Vaticano". A fonte da informação foi uma entrevista no YouTube, de um canal boliviano, com um suposto diácono que já havia sido desmentido pelo Vaticano em 2019. Ao Comprova, a assessoria de Lula confirmou que o ex-presidente nunca teve conta no banco do Vaticano ou em qualquer outro no exterior.

Conteúdo investigado: Vídeo em tom de denúncia afirma que o ex-presidente Lula teria 250 milhões de euros escondidos no Banco do Vaticano. O autor do conteúdo exibe trecho de uma entrevista no YouTube com um homem que diz ser diácono e possuir documento mostrando os dados da conta do petista e de outros líderes da América Latina.

Onde foi publicado: Kwai e Facebook.

Conclusão do Comprova: É falso vídeo que circula nas redes sociais em que homem diz fazer uma denúncia e afirma que o ex-presidente e pré-candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria 250 milhões de euros no Banco do Vaticano, cujo nome oficial é Istituto per le Opere di Religione (IOR) ou Instituto para as Obras de Religião, em português. O apresentador usa como fonte do conteúdo falso uma entrevista de um suposto diácono ao canal de uma apresentadora boliviana no YouTube. O vídeo foi publicado há dois anos.

O primeiro registro do tal clérigo fazendo acusações infundadas não só contra Lula como contra outros líderes da América Latina foi em um jornal colombiano, em janeiro de 2019. Na época, o Vaticano logo desmentiu o conteúdo. “Nenhuma das pessoas mencionadas (…) jamais teve uma conta bancária na IOR, nem tem atualmente uma, nem tem uma assinatura de delegação de contas a terceiros, nem teria – com base nas novas regras adotadas pelo Instituto – qualquer título para acessar qualquer operação lá. Os documentos apresentados como prova são falsos. A IOR se reserva o direito de tomar medidas legais””, disse Alessandro Gisotti, então diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé. Procurada pelo Comprova, a assessoria de imprensa do petista também negou a informação.

Além disso, não há provas que confirmem a posição de diácono do homem que faz as supostas denúncias e os documentos apresentados por ele já foram verificados como falsos pela agência de checagem colombiana Colombia Check.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. No Facebook, o vídeo compartilhado em grupo bolsonarista teve 374 interações, entre comentários, curtidas e compartilhamentos até o dia 24 de junho. No Kwai, o conteúdo alcançou 1,5 mil interações.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com o autor do vídeo verificado aqui e com os responsáveis pelas publicações no Kwai e no Facebook, mas não houve retorno até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: A partir da busca no Google pelas palavras-chave “Lula” e “Banco do Vaticano”, o Comprova encontrou diversas checagens sobre o tema de outras agências como Aos Fatos, Lupa e Estadão Verifica. Assim, foi possível buscar o vídeo original da entrevista em que o suposto diácono acusa líderes da América Latina de manterem contas secretas no Banco do Vaticano.

O próximo passo foi verificar as informações a respeito do IOR, seu funcionamento e quem são os clientes do banco. Isso foi feito por meio de consultas ao site da instituição e ao relatório de atividades de 2021.

O Comprova também reuniu dados sobre o homem que aparece no vídeo verificado, professor Emílio, apresentador da TV Nossa Senhora de Fátima.

Por fim, a equipe tentou contato, sem sucesso, com o Banco do Vaticano, a TV Nossa Senhora de Fátima, o professor Emílio, o suposto diácono Jorge Sonnante e o Arcebispado de Buenos Aires. A assessoria do ex-presidente Lula também foi procurada.

O vídeo

“Denúncia. Lula teria € 250 milhões no Banco do Vaticano” começa o vídeo verificado aqui, de 4 minutos e 59 segundos. O homem que traz a falsa denúncia diz que é por isso que “você não vê foto do [papa] Francisco com Bolsonaro, mas vê com Lula, Dilma, Evo Morales e Maduro”. Dirigindo-se ao presidente do Brasil, ele, que se apresenta como professor Emílio, da TV Nossa Senhora de Fátima, afirma “então, Bolsonaro, é por isso que você não recebe cartinha do papa quando você é operado nem a benção do Francisco, tá bom? Matamos a charada, tá?”.

Depois de exibir um trecho de 19 segundos da entrevista com o suposto diácono (a entrevista completa, no Ahora con Roxana, tem pouco mais de uma hora; a parte de Lula é a partir dos 46 minutos e 33 segundos), o apresentador diz que, para as “pessoas de esquerda”, a relação “nunca é por amizade, nunca é por fidelidade, é só dinheiro e corrupção”. No final, ele pede que a Polícia Federal investigue o caso, com a Interpol e a Agência Central de Inteligência (CIA).

O professor Emílio, segundo o site da TV Nossa Senhora de Fátima, é professor e catequista. No LinkedIn, ele se apresenta como Emílio Carlos, “diretor no Apostolado de Evangelização Nossa Senhora de Fátima”, em Taubaté, no interior paulista. Ainda nesta rede, ele afirma que “o apostolado evangeliza pela internet através da web TV Criança Católica e da web TV Nossa Senhora de Fátima”.

Contas inexistentes

O trecho da entrevista usada no vídeo verificado aqui foi retirado do canal Ahora con Roxana no YouTube, com 10,3 mil inscritos. A apresentadora é Roxana Lizárraga, que, no Twitter, se descreve como “jornalista, advogada, política e guerreira da democracia e da liberdade de expressão”. Entre 2019 e 2020, foi ministra das Comunicações da Bolívia – em um episódio que ficou conhecido, ameaçou jornalistas enquanto ocupava o cargo.

Em 2019, ela publicou em seu canal uma entrevista com Jorge Sonnante, apresentando-o como diácono. Na gravação, intitulada “Contas socialistas no Vaticano”, ele mostra papéis que afirma serem documentos oficiais do Vaticano. O suposto diácono mostra os documentos como provas da existência de contas bancárias dos presidentes e ex-presidentes da América Latina Cristina Kirchner (presidente da Argentina de 2007 a 2015; atual vice), Juan Manuel Santos (Colômbia, de 2010 a 2018), Evo Morales (Bolívia, de 2006 a 2019) Rafael Correa (Equador, de 2007 a 2017), Raúl Castro (Cuba, de 2006 a 2018), Daniel Ortega (Nicarágua, de 1979 a 1990 e desde 2007), Nicolás Maduro (Venezuela, desde 2013) e Lula (Brasil, 2003 a 2011).

No post verificado aqui, o homem que aparece no vídeo usa apenas o trecho em que Roxana e o entrevistado falam de Lula.

Antes de Roxana, a primeira reportagem sobre os documentos de Sonnante que comprovariam essas contas foi publicada pelo site colombiano El Expediente, em 9 de janeiro de 2019.

Porém, no mesmo mês, o Vaticano desmentiu as alegações. “Depois de verificar com as autoridades competentes, posso afirmar que nenhuma das pessoas mencionadas no artigo jamais teve uma conta bancária no IOR, nem a possui atualmente, nem possui assinaturas de delegados em nome de terceiros, nem teria algum título para realizar alguma operação”, afirmou Alessandro Gisotti, então diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé. “Os documentos apresentados como evidência são falsos. O IOR se reserva o direito de tomar medidas legais”, terminava o comunicado oficial.

Outros casos

O conteúdo apresentado no canal Ahora com Roxana não foi o primeiro a afirmar que Lula tem fortunas em bancos fora do Brasil. Em 2018, por exemplo, o Comprova verificou um texto sobre o petista ser dono de uma poupança de US$ 108 milhões depositada em Luxemburgo – não havia nenhuma evidência do caso.

Procurada pela reportagem para comentar o post verificado aqui, sobre o Banco do Vaticano, a assessoria de imprensa de Lula também negou a informação. “O ex-presidente nunca teve conta nem no Banco do Vaticano nem em nenhum banco do exterior. Lula já foi extensamente investigado, já teve todos os seus sigilos fiscais e bancários quebrados e não foi encontrada nenhuma irregularidade”, afirmou.

Banco do Vaticano

Diferentemente do que o post insinua, não é qualquer pessoa que pode ter uma conta no Banco do Vaticano, fundado em 1942. Apenas instituições credenciadas à Santa Sé e entidades ou pessoas jurídicas ligadas ao Vaticano.

Como informa seu site, o IOR “realiza atividades financeiras autorizadas pela Autoridade de Supervisão e Informação Financeira (ASIF) e oferece os seguintes serviços: recebimento de depósitos, administração de ativos, determinadas funções de custódia, transferências internacionais de pagamentos por meio de bancos correspondentes e manutenção de contas de salários e pensões de funcionários da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano”.

Ainda de acordo com a página, “a missão do instituto envolve assegurar a custódia e administração dos bens transferidos ou confiados ao instituto por pessoas físicas ou jurídicas, e destinados para obras de religião ou caridade”.

No final de 2020, o Banco do Vaticano gerenciava cerca de 5 bilhões de euros (31 bilhões de reais, aproximadamente) em depósitos de clientes e administrava uma carteira de ativos de 649,9 milhões de euros (cerca de 4 bilhões de reais), segundo matéria do UOL.

Até o dia 31 de dezembro de 2021, o IOR tinha 14.519 clientes, divididos da seguinte forma: ordens religiosas (50%), departamentos da Cúria Romana, escritórios da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano e nunciaturas apostólicas – missões diplomáticas da Santa Sé – (23%), conferências episcopais, dioceses e paróquias (9%), cardeais, bispos e clero (8%), funcionários e aposentados do Vaticano (7%); fundações e outras entidades de Direito Canônico (3%). As informações constam no site da instituição.

Quem é Jorge Sonnante

O suposto diácono nasceu na cidade de Bahía Blanca, na Argentina. Ele tem 43 anos, é casado e tem duas filhas.

Sonnante é presidente da União para o Partido da República da Argentina e, conforme consta no site do partido, já teria sido “membro da Secretaria de Estado na Santa Sé como conselheiro pontifício de vários papas e como analista de campo na área de inteligência”.

Embora ele se apresente como diácono da Igreja Católica, não há provas que confirmem a função. Como mostrou a Agência Aos Fatos, documentos postados por Sonnante no Twitter que comprovariam seu trabalho na Cúria Romana de 2013 a 2015 têm ao menos dois erros. Em vez de “Segreteria di Stato“, grafia correta do nome do órgão em italiano, o selo e o carimbo dizem: “Secretaria de Estado” e “Secretaria di Stato”, respectivamente.

Além disso, Rodriguez Carballo, arcebispo espanhol que teria assinado o documento do suposto diácono em 12 de abril de 2013, só foi ordenado para o cargo em 18 de maio de 2013.

Sonnante também tem uma empresa de análise de informação e inteligência chamada Dark Falcon SRL e mantém uma plataforma online para divulgar conteúdos que, segundo ele, não são noticiados pela mídia. Por meio de seu site, Sonnante comercializa quatro itens: duas conferências, um equipamento de respiração “para o usuário sobreviver a qualquer ataque bacteriológico” e um livro escrito por ele, intitulado “Trump: a marca do anticristo”.

O argentino já foi alvo de verificações em outros países como Colômbia e Bolívia.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e as eleições presidenciais de 2022 que viralizaram nas redes sociais. O vídeo aqui verificado traz informações falsas a respeito de um pré-candidato ao Planalto que podem confundir e influenciar a decisão de voto dos eleitores.

Outras checagens sobre o tema: A mesma peça de desinformação já foi verificada pela Aos Fatos, Agência Lupa e Estadão Verifica. Além disso, os documentos utilizados pelo homem que aparece no vídeo foram comprovados como falsos pela agência de fact-checking colombiana Colombia Check.

Em verificações anteriores envolvendo o ex-presidente Lula, o Comprova mostrou que post troca local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas; que post engana ao omitir que protesto contra Lula em Bagé é de 2018; e que Lula não foi expulso de Niterói como afirma vídeo.

Eleições

Investigado por: 2022-06-24

Post adultera áudio e mente ao afirmar que Lula foi xingado em Caruaru

  • Falso
Falso
É falso conteúdo publicado no Facebook afirmando que Lula foi hostilizado ao participar da festa junina em Caruaru, Pernambuco. A publicação sofreu edição com a introdução de um áudio com gritos de “ladrão”. No conteúdo original, o ex-presidente é aplaudido durante um ato político de um aliado em Uberlândia, Minas Gerais. No post, é tocado um jingle de pré-campanha eleitoral.

Conteúdo investigado: Vídeo no Facebook mostra Lula caminhando em um palco ao lado do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil. O ex-presidente segura uma bandeira do Brasil nas mãos. No conteúdo, são ouvidos gritos de: “ladrão, ladrão”. A legenda ironiza: “O líder das pesquisas foi na festa junina de Caruaru-PE e foi extremamente aclamado pelo povo”.

Onde foi publicado: Facebook.

Conclusão do Comprova: É falso um vídeo compartilhado no Facebook afirmando que o ex-presidente e pré-candidato à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi vaiado e xingado de ladrão durante uma festa junina em Caruaru (PE). O vídeo que circula na rede social é, na verdade, uma montagem. O áudio com os xingamentos foi inserido posteriormente por meio de edição.

As imagens foram feitas no dia 15 de junho em um evento político em Uberlândia (MG), em que Lula participou ao lado do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PSD-MG). Não há registros de que o petista tenha participado de festa junina em Caruaru.

O post também questiona a credibilidade das pesquisas de intenção de voto ao ironizar: “O líder das pesquisas foi na festa junina de Caruaru-PE e foi extremamente aclamado pelo povo”. A alegação sugere que o ex-presidente tem baixa popularidade, o que não procede. Ele aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para presidente, que utilizam métodos científicos para apurar o quadro do momento.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: No Facebook, o post acumulava até o dia 24 de junho, mais de 1,3 mil compartilhamentos, 138 comentários e 351 curtidas. A postagem já foi sinalizada como “informação falsa” pela plataforma.

O que diz o autor da publicação: No Facebook, o post foi feito por uma usuária que costuma publicar conteúdos em apoio a Jair Bolsonaro. Na imagem do perfil, inclusive, ela divulga o número 22, em alusão ao PL, partido ao qual o presidente é filiado. O mesmo conteúdo foi compartilhado por um seguidor em um grupo denominado Dr Damares eu apoio a ministra dos Direitos Humanos. Ambos foram procurados pelo Comprova, mas não responderam.

Como verificamos: A publicação analisada pelo Comprova já foi alvo de checagens de outras agências como Aos Fatos, Boatos.org e AFP Checamos, que serviram como base para o início desta verificação. A partir daí, foi possível encontrar o vídeo original publicado no TikTok.

Neste conteúdo, foi possível escutar um trecho do que parece ser um jingle de campanha e que traz os seguintes dizeres: “Eu sou de Minas Gerais, coração do Brasil…”. Em busca no Google por esse trecho, encontramos um vídeo no YouTube, no canal de Lucas Rodrigues, que detalhou a informação de que este, de fato, é um jingle da pré-campanha do ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD) ao governo de Minas Gerais, nas eleições de 2022.

A partir daí, em uma busca no Google com as palavras “Lula”, “Minas Gerais” e “Kalil”, encontramos o registro do evento, que teve transmissão ao vivo no YouTube.

O Comprova ainda buscou matérias publicadas na imprensa a respeito do ato político, como as do Poder 360 e Estado de Minas. Também entramos em contato com dois perfis que compartilharam o conteúdo falso no Facebook.

Vídeo com Lula sendo hostilizado é montagem

O vídeo que mostra o ex-presidente Lula sendo recebido com vaias e gritos de “ladrão”, na verdade, é uma montagem, e os xingamentos foram inseridos por meio de edição.

Originalmente, a gravação foi feita em Uberlândia (MG), no dia 15 de junho, e postada no TikTok pelo sindicalista Gil Carteiro, durante um evento político.

O trecho do vídeo que viralizou, com edições, foi feito no fim do ato, quando Lula e o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil dividiram o palanque e apareceram juntos segurando a bandeira do Brasil.

No vídeo original, é possível ouvir o ex-presidente sendo recebido com palmas ao som do jingle de Alexandre Kalil, que também é pré-candidato ao governo de Minas Gerais nas eleições estaduais deste ano. A montagem ainda tenta esconder com stickers a marca d’água do verdadeiro autor da gravação das imagens, que segue parcialmente visível.

| Sticker tenta cobrir a marca d’água do verdadeiro autor da gravação das imagens. (Foto: Reprodução / Facebook)

Lula esteve em Natal (RN), Maceió (AL) e Aracaju (SE) no fim de semana dos dias 18 e 19 de junho, mas não participou das festividades de São João em Caruaru, conforme informado por sua assessoria de imprensa.

Protesto antes do evento

O evento político aqui checado marcou a primeira vez em que Lula e Kalil compartilharam palanque nesta pré-campanha de 2022. O evento foi realizado no Centro Universitário do Triângulo (Unitri). O episódio ganhou repercussão na imprensa por conta de um incidente provocado por pessoas que teriam colocado um drone para espalhar fezes e urina sobre o público. Os dejetos foram jogados antes que o evento começasse.

Embora os atingidos tenham relatado ter sofrido ataque com fezes, a Polícia Militar de Minas Gerais disse se tratar de produto biológico usado para atrair moscas em lavouras.

No dia 20 de junho, o G1 revelou que o Ministério Público Estadual de Minas Gerais (MPE-MG) vai apurar o caso. Os operadores do drone que jogaram produto químico nos apoiadores foram denunciados ao MPE pelo deputado federal Reginaldo Lopes (PT). O documento foi entregue ao procurador-geral Jarbas Soares Júnior. Segundo o procurador, é necessária a devida apuração dos fatos com a realização de prova pericial no drone e no produto pulverizado.

Pesquisas de intenção de voto

A legenda do post investigado também questiona a credibilidade das pesquisas de intenção de voto: “O líder das pesquisas foi na festa junina de Caruaru-PE e foi extremamente aclamado pelo povo”. Diversos seguidores endossam o questionamento com comentários que desqualificam o trabalho de institutos, como o Datafolha; entre eles: “Olha aí o data povo”. “Acho que aí ele subiu mais um pouco nas pesquisas”, digitou outro.

A mais recente pesquisa realizada pelo grupo Folha, publicada em 23 de junho, mostra Lula com 19 pontos de vantagem sobre o atual presidente, marcando 47% das intenções de voto no primeiro turno. Bolsonaro tem 28%.

Ainda que o post aqui verificado fosse verdadeiro, um eventual episódio isolado não seria suficiente para configurar uma amostra de baixa popularidade de determinado candidato. Como o Comprova mostrou recentemente, as pesquisas eleitorais utilizam métodos científicos para apurar a realidade do momento junto a segmentos que possam ser representativos do eleitorado brasileiro de uma forma geral.

As críticas aos institutos de pesquisas seguem a linha de Bolsonaro, que já chamou de “canalhice” dados do Datafolha sobre a intenção de votos dos eleitores evangélicos.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições que viralizaram. O conteúdo aqui checado trata de uma suposta manifestação contra Lula, pré-candidato à Presidência da República. Conteúdos enganosos prejudicam a decisão de eleitores durante as votações, atrapalhando o processo democrático. Além disso, pesquisas eleitorais são ferramentas essenciais para a análise do contexto político do país. A tentativa de descredibilizá-las diminui a confiança das pessoas sobre os institutos de pesquisa, atrapalha a percepção da realidade e influencia o voto de forma equivocada.

Outras checagens sobre o tema: O conteúdo desta checagem foi verificado também por Boatos.org, Yahoo, Terra e Aos Fatos.

Recentemente, o Comprova mostrou que post troca local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas, que post engana ao omitir que protesto contra Lula em Bagé (RS) é de 2018 e que vídeo antigo engana ao afirmar que Lula e Alckmin foram hostilizados em Porto Alegre.