O Projeto Comprova reúne jornalistas de 33 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas, processo eleitoral e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vem sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
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Eleições

Investigado por:2021-07-23

É falso que áudio mostre Luana Piovani defendendo Jair Bolsonaro

  • Falso
Falso
São falsos posts virais no Facebook e no TikTok com áudio em que supostamente a atriz Luana Piovani estaria defendendo que acreditaria em urnas fraudadas caso Jair Bolsonaro não fosse eleito em primeiro turno. A atriz negou a autoria da gravação em seu perfil no Instagram.
  • Conteúdo verificado: Posts no Facebook e no TikTok utilizam uma foto da atriz Luana Piovani e atribuem a ela uma fala segundo a qual a fraude nas eleições presidenciais estaria comprovada caso Jair Bolsonaro não fosse eleito em primeiro turno. Na fala, a pessoa ainda diz que não gostaria de ter filhas homossexuais.

É falso o áudio atribuído à atriz Luana Piovani em que ela teria dito acreditar na possibilidade de urnas burladas caso Jair Bolsonaro não ganhasse no primeiro turno. Os posts, que viralizaram no Facebook e no TikTok e já circulavam desde 2018, trazem a inscrição “Nossa, finalmente, uma atriz lúcida” e, na gravação, a voz ainda diz não querer que “filhas fossem sapatas”.

Ao ouvir o áudio com atenção, é possível perceber que não é a atriz falando. De qualquer forma, o Comprova procurou a assessoria de imprensa de Piovani, que negou a autoria do conteúdo. Em seguida, ainda na sexta-feira (23), Luana, que está em viagem na Turquia, gravou stories no seu Instagram também desmentindo ser ela no áudio. “Gente, eu não sou a favor do Bolsonaro, sou anti-Bolsonaro, esse áudio não sou eu, não é a minha voz”, disse ela.

Como verificamos?

O primeiro passo do Comprova foi verificar se o áudio vinculado à imagem de Luana Piovani havia sido gravado pela atriz. Entramos em contato com a assessoria da artista no Brasil, por e-mail e por telefone, para que pudesse informar se a voz registrada na postagem era da Luana.

Também buscamos contato diretamente com a atriz, com mensagem por e-mail e telefone para sua assessoria de imprensa e para seu perfil no Instagram, canal pelo qual Luana acabou se manifestando posteriormente, em stories.

Por fim, acionamos dois internautas que compartilharam a montagem da foto da artista com o áudio, mas não obtivemos retorno até o fechamento desta checagem.

Verificação

Fraude nas eleições

No áudio que circulou pela primeira vez em 2018 e que já havia sido desmentido, mas voltou a viralizar agora, a mulher afirma que, se Jair Bolsonaro não fosse eleito naquele ano, se mudaria para o exterior porque seria um indício de que as urnas teriam sido burladas, ou seja, fraudadas.

O áudio também sugere que, no pleito anterior, em 2014, a vitória já estava assegurada para o candidato Aécio Neves (PSDB) e, “do nada”, Dilma Rousseff (PT) se reelegeu para a presidência.

Naquele ano, a disputa eleitoral foi bastante acirrada e a petista venceu com 51,64% dos votos válidos. As teorias sobre supostas fraudes começaram logo em seguida, questionando a confiabilidade das urnas eletrônicas, e o PSDB – partido derrotado nas eleições – ingressou com um pedido de auditoria junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Um ano depois, relatório do próprio partido confirmou que não houve fraude, embora tenha defendido que o sistema não permitia uma auditoria externa independente e efetiva. O TSE argumenta que há diversas formas de auditar e recontar os votos. Recentemente, o Comprova fez uma checagem sobre o tema, reafirmando que não há evidências de irregularidades nas eleições de 2014.

Mudança para Portugal

Bolsonaro foi eleito em outubro de 2018. Pouco depois, em janeiro de 2019, Luana Piovani mudou-se para Portugal, numa atitude diferente daquela descrita pela pessoa do áudio de que, se o então candidato não chegasse ao Palácio do Planalto, ela deixaria o país.

Em abril deste ano, a atriz afirmou que o motivo de ir morar no exterior era a vontade de criar os filhos fora da “bolha” de celebridade, além da possibilidade de oferecer mais liberdade e segurança para as crianças, sem mencionar razões políticas.

A postura de Luana Piovani nas redes sociais, entretanto, tem se mostrado frequentemente contrária aos posicionamentos de Bolsonaro e sua gestão na pandemia, como demonstra neste vídeo.

Filhas?

Além de ser possível identificar que a voz não é da atriz, a mulher no falso áudio diz que tem “duas filhas”, o que não é o caso da atriz. Luana, conforme publicações em revistas e sites de celebridades e em seus posts em redes sociais, é mãe de dois meninos (Dom e Bem) e apenas uma menina (Liz). A informação está, inclusive, em sua descrição no Instagram.

‘Não sou eu’

Em viagem a Istambul, na Turquia, a atriz gravou stories em seu perfil no Instagram logo depois que o Comprova procurou sua assessoria de imprensa. Além de se dizer “anti-Bolsonaro” e negar a autoria do áudio viral, Luana pediu: “Pelo amor de deus, não cansem minha beleza”.

Acrescentou que, se tivesse votado nas eleições presidenciais de 2018, teria escolhido Marina Silva, então candidata pela Rede Sustentabilidade. Antes de finalizar os stories, afirmou ser “anti-Lula também” e pediu novamente: “Pelo amor de deus, não diz que eu sou Bolsonaro, não, que me dói até a barriga”.

Não foi a primeira vez que a atriz teve seu nome envolvido em desinformação. Áudios falsos atribuídos a ela e com apoio a Bolsonaro, como o verificado aqui, circulam desde 2018, e já foram checados por veículos como G1 e Veja SP. A atual postagem também foi verificada pela Agência Lupa.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições e a pandemia que tenham atingido alto grau de viralização. O conteúdo verificado aqui atingiu 62,2 mil interações no Facebook até 23 de julho.

No falso áudio – que, como afirmado anteriormente, já circulava em 2018 –, a voz feminina fala em fraude nas urnas nas últimas eleições presidenciais, mesmo discurso que o presidente Bolsonaro vem pregando desde antes de ser eleito. Conteúdos como esses geram desinformação e reforçam a impressão sem fundamento de que o processo eleitoral brasileiro não é seguro, colocando em xeque a própria democracia.

Recentemente, o Comprova publicou verificações semelhantes, sobre conteúdos que questionavam o sistema eleitoral brasileiro, como postagens que afirmavam falsamente que urnas usadas aqui haviam sido hackeadas nos Estados Unidos e que um vídeo mostrava fraude nas eleições de 2014. No ano passado, o projeto mostrou que o sistema de votação eletrônica pode ser auditado e que a Smartmatic nunca vendeu urnas para o Brasil.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2021-07-23

Site omite que pesquisa com vantagem para Bolsonaro foi feita apenas em SC

  • Enganoso
Enganoso
Título de artigo compartilhado em grupos bolsonaristas no Facebook omite que uma pesquisa eleitoral que apresentou vantagem para o atual presidente foi feita apenas em Santa Catarina. O Estado no Sul do país representa apenas 3,5% do eleitorado brasileiro.
  • Conteúdo verificado: Artigo em site cujo título diz que “Bolsonaro aparece com mais que o dobro que Lula” em nova pesquisa eleitoral.

É enganoso o título de um artigo compartilhado em grupos governistas no Facebook que afirma que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem mais que o dobro de intenções de voto que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A chamada omite que o levantamento foi realizado apenas no Estado de Santa Catarina – que corresponde a 3,5% do eleitorado nacional.

A informação que a pesquisa é estadual aparece apenas no corpo do texto. Mas, como fica evidenciado nos comentários das postagens do link no Facebook, muitas pessoas se confundiram, acreditando se tratar de um levantamento realizado em todo o país.

O Comprova entrou em contato com o site responsável pela publicação, mas não obteve resposta.

Como verificamos?

Consultamos a pesquisa mencionada no artigo, realizada pela empresa Paraná Pesquisas. Verificamos ainda os resultados de outros levantamentos de intenção de voto, feitos pelos institutos Datafolha e Ipec (formado por ex-executivos do Ibope). Procuramos ainda estatísticas de eleitorado do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Tentamos contato com o site News Atual, que publicou o artigo verificado aqui, mas não obtivemos resposta.

Verificação

Resultados da Paraná Pesquisas

O levantamento do Paraná Pesquisas indica que Bolsonaro tem 52% das intenções de voto, contra 24,2% de Lula no Estado de Santa Catarina. Os ex-ministros Ciro Gomes e Luiz Henrique Mandetta aparecem com 3,6% e 2,8%, respectivamente. O governador gaúcho, Eduardo Leite, foi mencionado por 2% dos entrevistados.

Foram ouvidos 1.514 eleitores catarinenses, de 86 municípios, entre os dias 15 e 19 de julho. As perguntas foram feitas por telefone. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

A mesma empresa divulgou uma pesquisa nacional em 16 de junho. Nela, Bolsonaro e Lula aparecem empatados tecnicamente: o primeiro, com 34,3%; o segundo, com 32,5%. O apresentador José Luiz Datena tem 7,5% e Ciro, 5,8%. Depois, vem o governador de São Paulo, João Doria, com 3,4%, e Mandetta, com 3,2%.

Este levantamento teve metodologia diferente: foram ouvidos, presencialmente, 2.040 eleitores de 156 municípios do país. Na região Sul, foram feitas 302 entrevistas, 14,8% do total.

O Paraná Pesquisas publicou recentemente outras pesquisas regionais. Em Maceió, capital do Alagoas, 41,3% disseram preferir Lula, e 28,4% citaram Bolsonaro. Em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, o petista teve 32,6% e o atual presidente, 26,1%. No Estado do Ceará, essas porcentagens foram de 45,9% e 19,4%, respectivamente.

Como são feitas as pesquisas de intenção de voto

O objetivo de uma pesquisa eleitoral é fazer um retrato da opinião da sociedade naquele momento. As pesquisas não antecipam resultados, mas podem apontar tendências. Agora, a mais de um ano para as eleições, é preciso olhar para os números com um olhar crítico.

As pesquisas buscam obter informações sobre o eleitorado a partir de uma amostra – um grupo de pessoas com características de sexo, idade, escolaridade, renda e região em proporções semelhantes ao do restante do país. As amostras do Datafolha, por exemplo, costumam ter entre 2 mil e 2,5 mil entrevistados.

Nas últimas pesquisas divulgadas por Datafolha e Ipec, o percentual de moradores do Sul do Brasil foi de 15%. Isso porque, segundo as estatísticas mais recentes do TSE, 14,7% dos votantes vivem lá – são mais de 21,5 milhões de pessoas.

Santa Catarina é o Estado com menos eleitores no Sul. São 5,1 milhões de votantes, que representam 3,5% do eleitorado nacional.

Na pesquisa Ipec divulgada em junho, 35% dos entrevistados do Sul disseram que votariam em Lula; 29% citaram Bolsonaro. O Datafolha de julho indicou números semelhantes: 35% dos sulistas ouvidos mostraram preferência pelo petista, e 29% pelo atual presidente.

É importante ressaltar que as amostras por região são menores. Como explica o Datafolha em sua página de perguntas e respostas, “quanto menor o tamanho do segmento, maior o erro amostral associado aos resultados nele obtidos. Uma amostra de 2.500 entrevistas, por exemplo, fornece bases razoáveis para leituras por região geográfica, mas não pelos Estados. Se houver necessidade de leitura de resultados para determinado Estado ou cidade, é preciso ampliar a amostra nesta região”.

O site checado

O Comprova entrou em contato com o site News Atual para perguntar por que o título do artigo analisado não deixou claro que a pesquisa em questão foi feita apenas entre catarinenses. Não obtivemos resposta. O site já foi checado em outras duas ocasiões pelo Comprova: em uma verificação que desmentiu que o filho de Lula teria “embolsado” R$ 317 milhões com uma delação e em outra que mostrou que o patrimônio de Marisa Letícia pertencia ao casal Lula da Silva.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

O conteúdo verificado teve mais de 15,6 mil interações no Facebook, sendo 1,3 mil compartilhamentos, de acordo com a ferramenta CrowdTangle.

Conteúdos que questionam a credibilidade de pesquisas científicas e estatísticas sobre eleições são prejudiciais porque ajudam a espalhar acusações de que o sistema e o processo eleitoral brasileiros são fraudulentos. Isso cria um ambiente para questionamento dos resultados das eleições, caso eles não tenham o resultado esperado por determinado grupo político, como vem afirmando constantemente o presidente Jair Bolsonaro. Não houve registro de fraudes em eleições brasileiras desde a adoção das urnas eletrônicas, em 1996.

Recentemente, o Comprova mostrou que um site não indicava quem estava na frente de pesquisas eleitorais e que uma enquete em um programa de TV não indicava a opinião da população.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por:2021-07-19

Posts enganam ao afirmar que voto impresso já é lei

  • Enganoso
Enganoso
O conteúdo verificado pelo Comprova destaca trecho revogado da Lei 10.408, que dispõe sobre um mecanismo da urna que permite a impressão do voto. Além disso, não dá o contexto do que foi dito pela deputada estadual Janaina Paschoal, em junho de 2018, sobre a decisão liminar do STF de derrubar o voto impresso nas eleições daquele ano a partir da suspensão do artigo 59-A da minirreforma eleitoral de 2015.
  • Conteúdo verificado: Posts publicados por diversas páginas de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) trazem um trecho revogado da Lei 10.408, de 10 de janeiro de 2002, que dispõe sobre um mecanismo da urna que permite a impressão do voto, acompanhados com uma foto da deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) e uma frase atribuída a ela defendendo que o voto impresso já é lei e deveria ser implementado.

Posts virais no Facebook enganam ao colocar uma frase da deputada Janaina Paschoal (PSL) ao lado de uma lei de 2002 que foi parcialmente revogada.

De fato, a deputada fez declarações de que “o voto impresso já é lei” e “não deveria nem estar sendo discutido, mas implementado” em um post no Twitter em 2018, mas referindo-se a um artigo da lei 13.165 – a minirreforma eleitoral de 2015 – que dispunha sobre o voto impresso.

Já os posts verificados apresentam trechos de outra lei, a 10.408, que foi sancionada em 2002 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Esta segunda legislação de fato previa a impressão do voto, mas o artigo sobre este ponto foi revogado no ano seguinte, pela lei 10.740.

A revogação ocorreu após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) detectar “vários inconvenientes” onde os votos foram impressos, tais como mais urnas com defeito, maior número de votos nulos e brancos e contribuição “para a quebra do sigilo constitucional do voto em algumas seções eleitorais”.

Os dois grupos públicos e o perfil pessoal que publicaram os posts verificados aqui são de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Eles foram procurados pela reportagem, mas não responderam até a publicação deste texto.

Como verificamos?

Inicialmente, a reportagem procurou informações oficiais sobre a lei citada nos posts no site do TSE, do STF (Supremo Tribunal Federal) e da Câmara dos Deputados. Nessas mesmas páginas, pesquisou dados sobre suas atualizações.

O segundo passo foi entrar em contato com Janaina Paschoal, que respondeu por e-mail. A equipe também procurou, por mensagem privada no Facebook, três perfis que publicaram os posts verificados aqui.

Além disso, entrevistou o sociólogo Elimar Pinheiro do Nascimento, professor de sociologia política e ambiental da Universidade de Brasília (UnB), para entender a legalidade e a segurança do voto impresso e eletrônico. Sobre este último, também fez pesquisas no site do TSE.

Verificação

Lei parcialmente revogada

A imagem engana ao destacar um trecho da lei 10.408, de 10 de janeiro de 2002, que diz que “a urna eletrônica disporá de mecanismo que permita a impressão do voto, sua conferência visual e depósito automático, sem contato manual, em local previamente lacrado, após conferência pelo eleitor”.

A lei foi sancionada em 2002 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso e ainda está em vigor, mas foi parcialmente revogada. Em outubro de 2003, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei 10.740, que instituiu o Registro Digital do Voto (RDV) – uma espécie de tabela digital que permite, a qualquer tempo, a recontagem dos votos da urna eletrônica – e revogou os dispositivos da lei 10.408 que determinavam a impressão do voto.

Na postagem que está circulando, está destacado o inciso 4, que, com a lei de número 10.740 de 2003, teve a redação alterada, como é possível ver nas duas imagens abaixo:

 

 

Segundo o TSE, em 2002, foram detectados vários problemas nos locais em que foi realizada a impressão dos votos, no âmbito da lei 10.408. Naquele ano, 7.128.233 eleitores de 150 municípios de todas as unidades da Federação, isto é, 6,18% do eleitorado brasileiro da época, tiveram voto impresso.

De acordo com um relatório elaborado pelo TSE, “a experiência demonstrou vários inconvenientes na utilização do denominado módulo impressor externo e sua introdução no processo de votação nada agregou em termos de segurança ou transparência. Por outro lado, criou problemas”.

Entre os problemas listados, estão: maior tamanho das filas; maior número de votos nulos e brancos; maior percentual de urnas com votação por cédula – com todo o risco decorrente desse procedimento; maior percentual de urnas que apresentaram defeito, além das falhas verificadas no módulo impressor.

Ainda de acordo com o TSE, a impressão em 2002 “contribuiu para a quebra do sigilo constitucional do voto em algumas seções eleitorais, pois para resolver problemas de travamento de papel na impressora, foi necessária a intervenção humana”.

Por fim, o relatório concluiu que “o voto impresso pode ter efeito desastroso em eleições municipais, muitas vezes decididas com diferença de poucas dezenas ou centenas de votos”. Em reunião do Colégio de Presidentes e do Colégio de Corregedores da Justiça Eleitoral, realizada em Florianópolis (SC), em 28 e 29 de novembro de 2002, um mês após o segundo turno do pleito, os participantes concluíram ser imperativa a eliminação do voto impresso no processo de votação. E aí vem a lei nº 10.740, que revogou o que não deu certo.

Declaração de Janaina é de 2018

O conteúdo verificado traz uma foto da deputada Janaina Paschoal e uma frase atribuída a ela: “Voto impresso já é lei. Não deveria nem estar sendo discutido, mas implementado. Simples assim”.

Ela escreveu essa frase no Twitter, em 6 de junho de 2018. A íntegra está abaixo, e o trecho “trata-se de um direito, inerente à Democracia, poder auditar as eleições” foi cortado no conteúdo que está circulando. Print abaixo:

 

Nesse dia, o STF decidiu liminarmente, por oito votos a dois, derrubar o voto impresso nas eleições de 2018, a partir da suspensão do artigo 59-A da minirreforma eleitoral de 2015 que instituía: “No processo de votação eletrônica, a urna imprimirá o registro de cada voto, que será depositado, de forma automática e sem contato manual do eleitor, em local previamente lacrado. Parágrafo único. O processo de votação não será concluído até que o eleitor confirme a correspondência entre o teor de seu voto e o registro impresso e exibido pela urna eletrônica”.

Os ministros entenderam que “o dispositivo coloca em risco o sigilo e a liberdade do voto, contrariando a Constituição Federal”. Além disso, destacaram a “falta de proporcionalidade e razoabilidade da medida, uma vez que impõe altos custos de implantação – estimados em mais de R$ 2 bilhões – e traz riscos para a segurança das votações, sem haver garantia de que aumenta a segurança do sistema. Isso em um contexto em que faltam indícios de fraude generalizada no sistema de voto eletrônico, existente desde 1996. Foi ressaltada a confiança da população no sistema, tido como referência internacional, e no fato de que a alteração poderia, pelo contrário, minar essa confiança”.

Em setembro do ano passado, o STF declarou inconstitucional a impressão do voto eletrônico, por “colocar em risco o sigilo e a liberdade do voto”. Em decisão unânime, os ministros confirmaram a decisão liminar do dia 6 de junho e julgaram procedente a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5889.

Para o relator, o ministro Gilmar Mendes, “não há comprovação de que a impressão incrementará de forma decisiva a integridade das apurações eleitorais, pois se trata de um processo mecânico, mas controlado por dispositivos eletrônicos. Dessa forma, há riscos teóricos de manipulação das impressões, por exemplo, com o cancelamento de votos”.

Procurada pelo Comprova, Janaina Paschoal afirmou que não conhece a origem da montagem que fizeram com o tuíte dela, de 2018. Como explicitado anteriormente, ela afirmou que estava se referindo ao artigo 2º da lei 13.165 – a minirreforma eleitoral de 2015 – que altera a lei 9.504, de 1997, e dispõe sobre a impressão do voto no artigo 59-A, e não ao trecho da lei 10.408, que foi destacado na montagem enganosa.

A deputada ainda disse que defende o voto impresso, “não por duvidar do atual sistema, mas por entender que, quanto mais segurança, melhor” – afirmação que vai na contramão do que dizem o TSE e especialistas, segundo os quais o sistema eletrônico é mais seguro.

Fraude

Para o sociólogo Elimar Pinheiro do Nascimento, da UnB, o voto impresso, além de não ser mais o sistema legal vigente no país, representaria um retrocesso.

Na entrevista ao Comprova, entre as possibilidades de fraude, ele cita o momento da contagem dos votos em papel – o responsável pela verificação conta o voto para um candidato diferente do que o que estava escrito e consegue fazer com que outros fiscais não percebam a mentira.

“Em mais de 20 anos de voto eletrônico, jamais houve uma denúncia que pudesse levantar suspeita real, (o que houve foi) apenas falatório”, diz ele.

Sobre a segurança do sistema, ele destaca que as urnas são lacradas com a presença de representantes de todos os partidos, que podem acompanhar se elas funcionam corretamente e que não são ligadas à internet. “Não há como um hacker entrar e desvirtuar (o sistema)”, diz Nascimento.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. O conteúdo publicado por diversas pessoas em páginas de apoio ao presidente Bolsonaro atingiu mais de 8 mil interações.

Conteúdos como esses geram desinformação e reforçam a falsa impressão de que o processo eleitoral brasileiro não é seguro, colocando em xeque a própria democracia.

Bolsonaro tem afirmado, sem provas, desde 2018, que houve fraude no pleito que o elegeu. Ele também critica de forma recorrente o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas e vem radicalizando seu discurso – inclusive tendo feito insinuações sobre a lisura do processo para 2022, no momento em que pesquisas apontam o aumento de sua reprovação e o favoritismo de Lula.

O mesmo material também foi checado pelo Estadão Verifica, O Globo, Aos Fatos, G1 e Boatos.org.

Recentemente, o Comprova publicou verificações semelhantes, sobre conteúdos que questionavam o sistema eleitoral brasileiro, como postagens que afirmavam falsamente que urnas usadas aqui haviam sido hackeadas nos Estados Unidos e que vídeo mostrava fraude nas eleições de 2014. No ano passado, o projeto mostrou que o sistema de votação eletrônica pode ser auditado e que a Smartmatic nunca vendeu urnas para o Brasil.

Enganoso para o Comprova é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por:2021-07-16

Enquete em site não indica quem está na frente das pesquisas eleitorais

  • Enganoso
Enganoso
Enquetes não têm controle sobre a amostra da população que as respondem e, por isso, não são capazes de indicar uma estimativa das intenções de voto da sociedade. Além disso, o próprio site que realiza a enquete estimula os internautas a compartilharem o link nas redes e, assim, ajudar o candidato preferido a ter mais votos na ferramenta.
  • Conteúdo verificado: Vídeo no TikTok que compartilha um site de enquetes como sendo uma forma de saber “quem realmente está na frente das pesquisas” eleitorais para presidente da República, em 2022.

É enganoso um vídeo compartilhado no TikTok que divulga um site de enquetes como uma forma de saber “quem realmente está na frente das pesquisas” eleitorais. Como a participação em enquetes é espontânea, não há como delimitar o público respondente. Dessa forma, um grupo específico pode ter representação maior que a de outros, distorcendo a realidade – na enquete em questão, há votos de moradores do Sudeste em proporção muito maior do que de outras regiões brasileiras.

Pesquisas eleitorais usam métodos estatísticos para selecionar um grupo de pessoas proporcional à população brasileira, de forma que a opinião dos diferentes segmentos da sociedade esteja representada nos resultados.

No vídeo analisado, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) aparece liderando as intenções de voto, com 40,4%; o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está em segundo lugar, com 24,6% dos votos; os ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Sérgio Moro vêm na sequência, com 15,5% e 9,2%, respectivamente.

Na última pesquisa Datafolha, divulgada em julho de 2021, Lula tem 46% das intenções de voto; Bolsonaro, 25%; depois, aparecem empatados tecnicamente Ciro (8%), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB, 5%) e o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM, 4%). A margem de erro é de dois pontos porcentuais.

O Comprova entrou em contato com o perfil que divulgou o vídeo no TikTok e com os responsáveis pelo site de enquetes, mas não obteve resposta até a publicação.

Como verificamos?

Procuramos o site Eleições ao Vivo, mencionado no vídeo do TikTok, e analisamos os resultados das votações apresentadas. Usamos as ferramentas Who.Is e WebsiteInformer.com para descobrir os responsáveis pelo site. Entramos em contato com os e-mails informados, mas não obtivemos resposta. Também verificamos os compartilhamentos do site nas redes sociais na plataforma CrowdTangle.

Consultamos verificações já publicadas pelo Comprova sobre enquetes, e acessamos resultados de pesquisas de intenção de voto divulgadas recentemente por Datafolha e Ipec.

Por fim, contactamos o perfil que divulgou o vídeo no TikTok, mas não conseguimos resposta.

Verificação

Enquetes não têm valor científico

O Comprova mostrou em outras verificações que enquetes não têm valor científico, e não podem ser usadas como reflexo da opinião da sociedade. Isso porque não se sabe exatamente qual o perfil do público que respondeu – qual a parcela de homens, de que região são os cidadãos, quantas são as pessoas com renda mais alta ou mais baixa etc.

Pesquisas de opinião realizadas por institutos confiáveis, como Ipec (formado por ex-executivos do Ibope) e Datafolha, usam dados sobre a população do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para definir cotas de sexo, idade, escolaridade e outras características. Dessa forma, ouvem entrevistados em proporções similares às observadas no restante da sociedade. Isso garante que, mesmo que em número menor, o grupo pesquisado seja representativo do país.

O site de enquetes permite que os participantes preencham a região onde moram. O Comprova verificou a porcentagem de votos de cada região na tarde do dia 15 de julho: 9,6% dos respondentes disseram ser do Sul; 60,5% do Sudeste; 6,2% do Centro-Oeste; 6,2% do Norte; e 17,3% do Nordeste.

Levando-se em consideração que as pessoas preencheram corretamente a região onde moram, os números acima indicam super-representação do eleitorado do Sudeste e sub-representação dos votantes de todas as outras regiões. De acordo com as estatísticas mais recentes do TSE, 14,7% dos eleitores do País moram no Sul; 42% no Sudeste; 7,3% no Centro-Oeste; 7,8% no Norte; e 26,8% no Nordeste.

Outro aspecto importante das enquetes é que o público sabe o resultado antes do encerramento da votação. Dessa forma, os participantes podem se sentir estimulados a mudar o resultado da dinâmica. Esse aspecto está evidente no site analisado, que estimula o compartilhamento da enquete para “fazer seu candidato subir” no ranking. O site não exige qualquer cadastro para votar. Assim, é fácil escolher um candidato mais de uma vez, usando navegadores diferentes ou abas anônimas.

Viés bolsonarista

O Comprova usou a ferramenta CrowdTangle para verificar os compartilhamentos do link para participação na enquete nas redes sociais. É possível ver abaixo que o levantamento tem circulado mais entre grupos bolsonaristas ou de direita; um indício que o número de eleitores de Bolsonaro pode estar inflado.

Outro indício que aponta que o público que acessa o site tem mais afinidade com o governo Bolsonaro está nos resultados de outras enquetes na mesma página. Em uma pergunta sobre o impeachment do presidente, 65,4% das respostas no dia 14 de julho eram contrárias; 34,6% eram favoráveis. Uma pesquisa Datafolha divulgada no dia 10 de julho indica que, na realidade, 54% dos brasileiros querem a abertura do processo na Câmara; 42% rejeitam a ideia.

É possível perceber que o público do site demonstra simpatia por Bolsonaro em outras enquetes sobre a relação do presidente com a mídia e sobre a briga com o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro. Em perguntas sobre esses assuntos, 85,3% e 78% dos respondentes, respectivamente, tomaram partido de Bolsonaro.

Qual o resultado de pesquisas de intenção de voto?

A pesquisa Datafolha de intenção de voto mais recente, divulgada em 11 de julho, indicou que Lula venceria a disputa eleitoral no primeiro turno: 46% dos entrevistados preferem o petista. Bolsonaro aparece na segunda posição, com 25%. Foram ouvidos 2.074 eleitores em 146 municípios.

Pesquisa Ipec divulgada em 25 de junho indicou cenário semelhante: se a eleição fosse naquela data, Lula venceria já na primeira etapa, com 49% dos votos. Bolsonaro foi citado por 23% dos entrevistados; mais atrás, estavam Ciro (7%), Doria (5%) e Mandetta (3%).

Importante ressaltar que falta mais de um ano para as eleições e o quadro de candidatos ainda não está definido. Dessa forma, os levantamentos não antecipam resultados, mas mostram um retrato da preferência do eleitorado neste momento em que o governo sofre com desgastes.

Como o Comprova mostrou nesta verificação, em anos eleitorais, a divulgação de pesquisas segue regras elaboradas pelo TSE. Devem ser registradas junto ao Tribunal informações sobre “o contratante da pesquisa, com CPF ou CNPJ; o valor e a origem dos recursos gastos; a metodologia e o período de sua realização; o questionário aplicado ou a ser aplicado; o nome do estatístico responsável; e a indicação do estado em que será realizado o levantamento”.

O TSE proíbe a divulgação de enquetes no período eleitoral. Segundo a Resolução nº 23.600/2019, se encaixam nessa categoria “o levantamento de opinião sem plano amostral, que depende da participação espontânea do interessado e que não utiliza método científico para a sua realização, apresentando resultados que possibilitam ao eleitor perceber a ordem dos candidatos na disputa”.

Quem é o responsável pelo site de enquetes?

A ferramenta Who.Is indica que o domínio do site que realiza enquetes sobre as eleições presidenciais de 2022 no Brasil pertence a Rafael Gustavo. Não há informações sobre contato ou sobrenome da pessoa. Então, usando o Google, o Comprova fez uma busca pelo nome da pessoa associado às palavras “enquete” e “eleições”.

Os resultados levaram à ferramenta Website Informer, que listou os três domínios mais populares em nome de Rafael Gustavo, desta vez com um sobrenome – Neves. Dois deles eram sites de enquetes para eleições e, o terceiro, o site de humor G17, que publica conteúdos falsos em tom satírico.

Lá, havia um endereço de e-mail com o nome de Rafael Gustavo. A reportagem enviou um e-mail para este endereço, mas não obteve resposta até a publicação desta verificação.

Contudo, há indícios de que o dono do G17 é o mesmo dono do site em que a enquete foi publicada. O site de humor foi criado em 2011. No ano seguinte, o jornal O Globo fez uma reportagem sobre sites que publicavam mentiras em tom de humor – um dos criadores citados era Rafael Gustavo Neves, responsável pela criação do G17.

O site tem uma página no Facebook e a publicação mais recente é justamente o compartilhamento de uma enquete sobre eleições presidenciais, do mesmo site mostrado no vídeo do TikTok verificado aqui.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vem sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

O conteúdo verificado teve mais de 1.000 interações no TikTok e outras 262 mil em páginas do Facebook onde o link do site foi compartilhado. A enquete foi respondida por 3,7 milhões de pessoas.

Conteúdos que questionam a credibilidade de pesquisas científicas e estatísticas sobre eleições são prejudiciais porque ajudam a espalhar acusações de que o sistema e o processo eleitoral brasileiros são fraudulentos. Isso cria um ambiente para questionamento dos resultados das eleições, caso eles não tenham o resultado esperado por determinado grupo político, como vem afirmando constantemente o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Não houve registro de fraudes em eleições brasileiras desde a adoção das urnas eletrônicas, em 1996.

Desde a última eleição presidencial, quando as supostas falhas no sistema eleitoral passaram a ser divulgadas, o Comprova já verificou diversas vezes conteúdos falsos e enganosos sobre o assunto. Em outubro do ano passado, o projeto mostrou que um documento não prova fraude nas eleições de 2018 nem comprova vitória de Bolsonaro no 1º turno. No mês seguinte, duas publicações do Comprova apontaram para o fato de o voto eletrônico no Brasil já ser auditável. No início desta semana, outra publicação mostrou que é enganoso afirmar que o resultado de uma enquete sobre voto impresso reflita a opinião da população. Recentemente, também comprovamos que um vídeo da ex-candidata a deputada federal Naomi Yamaguchi não prova que houve fraude na votação de 2014.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por:2021-07-16

Vídeo não é de fazenda de filho do Lula e mostra ovelhas, não bois

  • Falso
Falso
É falso um vídeo publicado por um usuário do TikTok alegando haver uma fila de caminhões aguardando para transportar 40 mil cabeças de gado de uma fazenda que pertence a um filho do ex-presidente Lula, em São Félix do Xingu, no sul do Pará. O conteúdo, na verdade, é uma montagem de dois vídeos diferentes e os animais sequer são bois, e sim ovinos.
  • Conteúdo verificado: Montagem postada por um usuário do TikTok junta dois vídeos, o primeiro mostrando um rebanho de animais e o segundo uma fila de caminhões. Há, também, um comentário escrito “quer ter uma fazenda com 40 mil boi (sic) de 18 arrobas? Basta ter um pai igual a esse!”. Uma narração, em primeira pessoa, afirma que as imagens são da “fazenda do filho de Lula”, em São Félix do Xingu, no Pará. Acrescenta que os bois serão embarcados em direção ao frigorífico.

Um vídeo postado no TikTok atribui, falsamente, um rebanho de bois supostamente mantidos em uma fazenda em São Félix do Xingu, no sul do Pará, a um filho do ex-presidente Lula, sem determinar qual deles.

O conteúdo é uma montagem de dois vídeos distintos. O primeiro foi localizado pelo Comprova sendo compartilhado por diversas contas em redes sociais estrangeiras e sequer apresenta cabeças de gado. Trata-se, na verdade, de um grande rebanho de ovinos sendo pastoreado por dois cães. O segundo apresenta uma fila de caminhões. Não foi possível identificar onde o vídeo foi gravado, mas ele está no YouTube há pelo menos quatro anos.

A equipe procurou o responsável pela postagem da montagem via comentário no TikTok, mas ele não respondeu até esta publicação. O mesmo conteúdo, mas sem as legendas, foi postado por um usuário no Instagram, no dia 9 de junho. O Comprova também entrou em contato, mas não obteve resposta.

Como verificamos?

O Comprova dividiu as duas partes do vídeo e separou os frames utilizando a ferramenta InVid. Em seguida, utilizou o mesmo aplicativo e o TinEye para fazer a busca reversa pelas imagens e saber se os vídeos já haviam sido publicados anteriormente na internet e em qual contexto. O buscador Yandex encontrou publicações desde 2017 que utilizavam trechos dos vídeos.

Em seguida, a verificação enviou mensagens para os responsáveis pelas publicações mais antigas do trecho que mostra os animais e do trecho que mostra os caminhões. No primeiro caso, uma página turca respondeu. No segundo, não houve retorno.

Utilizando o Google, o Comprova também pesquisou os nomes dos filhos do ex-presidente associados à palavra “fazenda”, além de consultar as empresas registradas em nome de um deles, alvo frequente de postagens contendo informações falsas.

Por fim, encaminhou mensagens ao autor da postagem no TikTok e para um usuário do Instagram, que também publicou o conteúdo, mas sem legendas.

Verificação

Filho do Lula e as supostas fazendas

Não há notícia de que os filhos do ex-presidente Lula sejam proprietários de fazendas no sul do Pará. Ao utilizar o Google para pesquisar os nomes deles associados à palavra “fazenda”, o Comprova descobriu que há dezenas de verificações desmentindo boatos de que o mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, seja pecuarista.

O Boatos.Org, por exemplo, fez verificações semelhantes a esta em junho deste ano, em fevereiro do ano passado e em 2016, destacando que os boatos sobre supostas fazendas da família de Lula circulam há muitos anos.

Em 2013, a página E-Farsas mostrou ser falso que Lulinha comprou uma fazenda avaliada em R$ 47 milhões. Em 2019, a Agência Lupa mostrou que “fazenda de R$ 50 milhões do filho de Lula” é, na verdade, um campus universitário em Piracicaba, e o Estadão Verifica mostrou ser falso que o filho do presidente comprou “a maior fazenda do mundo”. Já em 2021 foi desmentido que ele é dono da Fazenda Fortaleza, no interior de São Paulo, pelo Aos Fatos e pelo G1.

O próprio Comprova já fez outras verificações envolvendo o nome do filho mais velho do ex-presidente, demonstrando ser falsa postagem que associa o governador de São Paulo João Doria e Lulinha na compra da vacina Coronavac e que não existe delação afirmando que ele “embolsou” R$ 317 milhões.

Utilizando a ferramenta CruzaGrafos, o Comprova identificou que Lulinha é sócio de quatro empresas que têm como atividade principal serviços em tecnologia da informação. Elas são holdings de instituições não financeiras, ou seja, entidades controladoras das participações de um conjunto de companhias. São elas a BR4 Participações LTDA., a LLF Participações – Eireli, a FFK Participações LTDA. e a G4 Entretenimento e Tecnologia Digital LTDA.

Em março deste ano, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região determinou paralisação de uma investigação aberta contra Lulinha, suspeito de ter recebido R$ 132 milhões da operadora Oi/Telemar por meio de contratos com empresas do grupo Gamecorp, que reúne serviços de jogos eletrônicos, mídia e tecnologia. A suspensão é válida até que seja definido quem será o juiz competente.

Ele foi investigado no âmbito da 69ª fase da Operação Lava-Jato e o processo foi remetido à Justiça Federal de São Paulo. Antes da deflagração da fase, a Polícia Federal chegou a pedir a prisão de Lulinha, que foi negada pela 13ª Vara Federal de Curitiba.

A investigação aponta haver indícios de que os valores tenham sido usados ​​na compra do sítio de Atibaia (SP), propriedade pela qual o ex-presidente Lula foi condenado. A condenação foi anulada em março deste ano pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, entendendo que a competência do julgamento é da Justiça Federal do Distrito Federal. Os casos do pai e do filho estão sendo julgados em processos diferentes.

Vídeo mostra rebanho de ovinos

Realizando buscas por fragmentos do vídeo que mostra o bando de animais, o Comprova chegou a uma verificação da AFP Fact Check de Hong Kong que checou um boato em circulação na Ásia. Embora não tenha confirmado quem é o autor das filmagens ou onde elas foram gravadas, o veículo diz que o conteúdo retrata ovinos e foi compartilhado em 2019 em uma rede social russa.

Neste caso, o vídeo também foi utilizado para a construção de informações falsas, mas que circularam fora do Brasil. Na ocasião, os responsáveis pelas publicações enganosas afirmavam se tratar da doação de 30 mil ovinos pela Mongólia à China durante a epidemia de coronavírus. Acontece que antes da doação, anunciada em 27 de fevereiro de 2020, as imagens já circulavam na internet.

O Comprova seguiu fazendo buscas pelas imagens e identificou que o mesmo vídeo foi postado em uma conta árabe intitulada “Raridades da pecuária e da agricultura” no Facebook, com a legenda: “Glória ao Deus Todo Poderoso, Senhor dos mundos”, no dia 15 de agosto de 2020. Nesta publicação, ele é mais extenso e aparecem dois cachorros pastoreando o rebanho.

Outras postagens foram localizadas em uma rede social russa, em dezembro de 2019, e em uma plataforma de vídeos do país, em 6 de maio do mesmo ano. Nesta última, o conteúdo traz uma  montagem com outro vídeo no qual mulheres aparecem tratando peles de ovinos.

Dois dias antes, em 4 de maio de 2019, o vídeo do rebanho foi publicado em uma conta do Instagram que só posta vídeos de ovinos. A legenda, em turco, diz: “eles controlam este rebanho com 2 cães”. Essa foi a postagem mais antiga do conteúdo localizada pelo Comprova. Uma mensagem foi enviada ao usuário, questionando mais informações sobre as imagens. Ele respondeu ter visto o conteúdo em uma página há muito tempo, de onde fez o download, mas sem lembrar qual. Afirmou, ainda, não ser o responsável pela gravação das imagens.

Fila de caminhões está no Youtube desde 2017

Não foi possível identificar onde foram gravadas as imagens que mostram uma extensa fila de caminhões. Buscando pelos fragmentos do vídeo, o Comprova chegou a dois arquivos postados no Youtube. Um, de 3 de janeiro de 2020, já associava a presença dos veículos a um “embarque gigante na fazenda do Lulinha em São Félix do Xingu”. A legenda do outro, de 2017, só diz “congestionamento muito grande de caminhões!”. Neste, as imagens estão cobertas por um filtro. O Comprova deixou comentários em ambos os conteúdos, questionando a origem dos vídeos, mas não recebeu retorno até o momento.

Autor é apoiador de Bolsonaro e tem como foco a ufologia

O autor do post verificado no TikTok, Rogério Bin, é de São Paulo, trabalha como dedetizador e escreveu o livro “Os anjos são reais?”. Na conta dele na plataforma, as postagens são principalmente sobre ufologia e óvnis. Em 2019, postou no próprio canal do YouTube uma reportagem da Record na qual afirma, em entrevista, ter sido abduzido. O vídeo original não foi localizado no canal do Repórter Record Investigação.

As postagens políticas começaram a aparecer na conta já em 2021. Foram identificadas, além da verificada aqui, outras quatro neste sentido: uma contra o lockdown – criticando o governador de São Paulo João Doria –, uma de  apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), uma defendendo o voto impresso e uma culpando os governos estaduais pelo preço do gás. Essas duas últimas questões foram alvos de verificações recentes do Comprova (aqui, aqui e aqui).

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

Com a proximidade das eleições de 2022, aumenta a circulação de informações falsas construídas para atacar a imagem de figuras políticas ou de pessoas associadas a elas, como no caso dos filhos de Lula. O ex-presidente é cotado como candidato à presidência no próximo pleito.

Postagens falsas ou enganosas podem comprometer a avaliação dos eleitores no momento de decidir por um candidato. Neste caso, por exemplo, o post no Tik Tok alcançou quase 60 mil curtidas, 35 mil compartilhamentos e mais de 2 mil comentários.

Conteúdo bastante semelhante já foi verificado em duas ocasiões pelo Boatos.Org (aqui e aqui). Além disso, há diversas outras verificações desmentindo a propriedade de fazendas por parte do filho de Lula, como as publicadas por  E-Farsas, Agência Lupa, Estadão Verifica, Aos Fatos e G1.

Para o Comprova, falso é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2021-07-15

Vídeo não prova fraude em eleição de 2014

  • Falso
Falso
Não há provas de que as eleições de 2014 tenham sido fraudadas. Em um vídeo de 2018, que voltou a ser compartilhado nas redes sociais depois de comentários feitos sobre o assunto pelo presidente Jair Bolsonaro, um suposto especialista usa metodologia incorreta para analisar os dados da apuração minuto a minuto dos votos para presidente no segundo turno.
  • Conteúdo verificado: Em vídeo publicado nas redes sociais em 2018, um suposto especialista analisa a apuração dos votos das eleições de 2014 e conclui que houve fraude no segundo turno e que a vitória deveria ter sido de Aécio Neves (PSDB).

Um vídeo com acusações inconsistentes de fraude nas eleições de 2014 voltou a circular nas redes sociais após comentários do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), durante conversas com apoiadores, no dia 8 de julho. O conteúdo mostra uma entrevista da ex-candidata a deputada federal de São Paulo pelo PSL Naomi Yamaguchi com uma fonte anônima que apresenta supostos indícios de irregularidades no pleito daquele ano.

Ao contrário do que sugere o vídeo, não há, até o momento, provas de que ocorreram fraudes nas eleições de 2014 e em outras disputas eleitorais desde a adoção do sistema eletrônico para o processamento dos resultados, em 1994. Especialista consultado pelo Comprova, verificações antigas, bem como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já desmentiram os apontamentos enganosos propagados no material.

O vídeo erra ao comparar os resultados parciais iniciais da eleição com pesquisas de intenção de voto. Além dos principais levantamentos apontarem para um resultado final próximo ao registrado, diferenças entre pesquisas eleitorais e o desfecho de eleições não configuram prova sólida de fraude.

A análise gráfica sobre a curva dos votos dos candidatos ignora que a contabilização dos votos não é distribuída de maneira uniforme durante o período de apuração. A queda na curva do candidato Aécio Neves (PSDB) não foge do esperado, tampouco permite concluir que houve fraude. O padrão alardeado no vídeo se baseia em uma metodologia pouco clara e imprecisa.

Já a aplicação da chamada Lei de Benford — princípio matemático usado para tentar identificar fraudes em auditorias fiscais e contábeis — no contexto eleitoral é controversa e, isoladamente, não fornece indícios suficientes para provar a ocorrência de irregularidades.

Como verificamos?

Para analisar o vídeo enganoso, o primeiro passo do Comprova foi confirmar se os dados dos resultados parciais apresentados na gravação estavam corretos. A reportagem identificou que os dados foram extraídos de uma cobertura do portal de notícias G1, que tem como fonte o TSE. Também solicitamos ao Tribunal acesso aos dados do acompanhamento minuto a minuto das eleições 2014.

Em seguida, considerando que o vídeo foi publicado há pelo menos dois anos, o Comprova promoveu buscas por verificações de outros veículos sobre o vídeo e as alegações disseminadas pelo conteúdo. Identificamos uma checagem de fatos da Agência Pública e uma resposta do TSE publicada em 2018, que contestavam os boatos. Também encontramos uma verificação antiga do Comprova acerca de um boato similar sobre a Lei de Benford e eleições 2014.

Consultamos o professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, Diego Aranha, que confirmou a inviabilidade das análises presentes no vídeo e nos recomendou a matéria da Agência Pública. Procuramos também por manifestações recentes no TSE sobre a segurança das urnas eletrônicas.

Além disso, tentamos contato com o homem identificado como Alexandre Chut. Ele aparece no vídeo como suposto especialista, mas não obtivemos retorno.

Verificação

Pesquisas eleitorais não determinam resultado da eleição

O primeiro argumento enganoso do vídeo diz respeito às pesquisas eleitorais. Um homem identificado como Alexandre Chut e um entrevistado anônimo, que aparece conversando com Naomi Yamaguchi, apontam que pesquisas eleitorais “fundamentadas” indicavam que Aécio Neves teria cerca de 70% das intenções de votos antes da eleição. Eles não esclarecem, no entanto, qual instituição foi responsável pelos levantamentos, tampouco quem foram os contratantes da pesquisa.

Pesquisas do Datafolha e do Ibope, por outro lado, indicavam uma disputa acirrada, na margem do empate técnico entre os candidatos. Nos dois últimos levantamento do Ibope, alguns dias antes da eleição, Dilma Rousseff (PT) abriu uma vantagem entre 8% e 10% em relação ao tucano. No dia anterior ao pleito, a Vox Populi indicou 7% de vantagem para a petista, já uma pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes estipulou um empate técnico.

De qualquer maneira, a diferença do resultado final para pesquisas eleitorais não implica fraude. Em nota publicada ainda em 2018, em resposta ao vídeo enganoso, o TSE aponta que “o desempenho dos candidatos nas pesquisas eleitorais não constitui um fator determinante no resultado das eleições, pois pesquisas estão sujeitas a erros amostrais inexistentes na realidade do processo eleitoral.”

Curva acentuada no início é comum

As pessoas que aparecem no vídeo mencionam a suposta pesquisa eleitoral que mostrava uma vitória folgada de Aécio para ancorar uma análise equivocada sobre o gráfico da apuração de votos do segundo turno. Tanto o entrevistado anônimo como Alexandre Chut tratam com estranheza que o candidato tucano tenha alcançado 67% dos votos no início da apuração e sofrido uma queda até ser ultrapassado por Dilma depois de 2 horas e meia de apuração.

“Como cai tanto em 2h30 quando os votos do sul do país estavam sendo computados…”, diz uma imagem apresentada no vídeo.

O gráfico, porém, não mostra nada além de que Aécio obteve muitos votos nas regiões Sudeste e Sul do País, cujos dados foram processados primeiro. Diferentemente do que o vídeo sugere, é natural que no começo da apuração a diferença entre os candidatos seja maior do que o resultado final.

Isso pode acontecer porque no começo da contagem o número absoluto de votos é baixo, então a diferença entre o número de votos dos candidatos nas primeiras parciais terá um impacto mais significativo na curva do gráfico do que quando já se tem muitos votos apurados. O tucano começou na frente embalado pela apuração de votos da região Sudeste, onde obteve um bom desempenho.

Ao atingir a marca de 67% alardeada no vídeo, Aécio continha 94,6 mil de 194 mil votos computados. Em vias de comparação, após duas horas e meia de apuração, 94 mil votos significariam um percentual de apenas 0,0001% do total de votos válidos.

Quantidade de votos apurados por minuto não é uniforme

O fato da porcentagem de Aécio cair após atingir 67% não significa necessariamente que ele obteve menos votos ou que teria ficado atrás de Dilma nas parciais seguintes e na região Sul e Sudeste, mas apenas que a diferença proporcional entre o candidato e sua adversária não se manteve nas parciais seguintes. O tucano não conseguiu fechar com esse percentual de votos em nenhuma das regiões brasileiras.

A reportagem da Agência Pública mostra que Aécio esteve à frente da petista em todas as parciais até às 18h25.

A peça desinformativa ainda faz um falso alarde ao questionar porque os votos de Aécio não caíram acentuadamente após a virada de Dilma. Um dos equívocos da interpretação do entrevistado anônimo é ignorar que a quantidade de votos apurados não é distribuída uniformemente minuto a minuto na eleição.

A virada aconteceu às 19h32, quando as curvas do gráfico se cruzam. Naquele momento, 94 milhões do total de 105,5 milhões dos votos válidos já estavam apurados, segundo os dados do TSE. Logo, apenas cerca de 10% do total de votos válidos foi computado no período de seis horas após a virada de Dilma.

Ou seja, ainda que Dilma tenha registrado vantagem em parciais nas horas seguintes, esses votos tiveram um impacto proporcional já reduzido, porque representavam uma pequena parcela dos votos totais da eleição. Além disso, Dilma venceu por uma diferença de 12 milhões de votos no Nordeste. Isso significa que os votos da região já eram contabilizados antes da virada acontecer.

Para o TSE, o vídeo não faz nada mais do que uma constatação óbvia do resultado observado.

“Os primeiros dados da apuração são recebidos da região Sudeste, e os últimos da região Norte e Nordeste, sendo esperado que a referida candidata possua realmente a vantagem nas regiões em que recebeu mais votos. Consequentemente, ao analisar a linha temporal das parciais nessas regiões onde teve mais votos, é esperado que as variações percentuais sejam mais favoráveis para aquela candidata.”, afirmou o tribunal em nota.

Padrão fabricado

O vídeo enganoso ainda faz uma análise com metodologia confusa para traçar o padrão apresentado como prova de que um algoritmo teria manipulado os resultados do pleito. Como apontado nesta checagem da Agência Pública, publicada em 2018, a análise não reflete a quantidade de votos recebidos pelos candidatos em cada parcial.

O cálculo consiste na subtração do total de votos do candidato no minuto analisado pela “variação do incremento” do minuto anterior. Por exemplo, a variação de Dilma no minuto 17:09 é o resultado dos 270.466 votos totais da candidata, menos a “variação de incremento” do minuto anterior, de 111.843. Essa conta fecha em 158.623. Não está claro, porém, a metodologia utilizada para calcular essa variação.

A partir disso, o entrevistado anônimo marca qual dos dois candidatos apresentou uma maior diferença em relação à “variação de incremento” anterior. Ele não deixa claro porque adotou essa metodologia, mas o fato é que o cálculo não prova fraude. A quantidade de votos totais recebidos pelos candidatos minuto a minuto mostra um padrão bem diferente, conforme mostra a reportagem da Pública.

No vídeo, o homem compara a chance de encontrar um padrão como o que obteve a partir desta metodologia com um “cara ou coroa”: “se você jogar uma moeda e der cara, e na vez seguinte der coroa; e na vez seguinte der cara; e na outra coroa… 241 vezes. É a mesma probabilidade”. A mesma comparação foi usada pelo presidente Bolsonaro no dia 9 de julho, em conversa com apoiadores, e não faz sentido.

De acordo com o TSE, “a alternância das vantagens também não constitui indício da inexistência de tendências no desempenho dos candidatos”. Isso ocorre porque a análise apresentada no vídeo não considera a magnitude das variações, mas somente as frequências em que elas ocorreram.

O Comprova procurou o professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, Diego Aranha, que coordenou o projeto Você Fiscal em 2014. Esses dados foram usados na auditoria realizada pelo PSDB em 2014 e 2015. À nossa reportagem, o professor disse que essa auditoria não encontrou problemas nas etapas posteriores ao momento da votação.

“A crítica técnica sobre a transparência do sistema brasileiro de votação é centrada no software de votação, e não no que acontece depois: transmissão e totalização”, afirma. O professor disse ainda que “o vídeo não faz qualquer sentido” e nos referiu a checagem feita pela Agência Pública.

Em nota enviada ao UOL após declarações do presidente Bolsonaro contra o sistema eleitoral brasileiro, Aécio Neves disse não acreditar que tenha ocorrido fraude nas eleições de 2014. O ex-senador Aloysio Nunes (PSDB), que concorreu à vice-presidência na chapa de Aécio, afirmou à Folha de S. Paulo que a “eleição foi limpa” e reconheceu ter perdido a disputa “porque faltou voto”

Lei de Benford

Outro argumento falho remete à Lei de Benford. Em 2018, o Comprova já desmentiu um vídeo que aplicava a lei matemática para estabelecer uma prova de que as eleições de 2014 foram fraudadas. Porém, o método, por si só, não é capaz de provar irregularidades, como explicaram especialistas na reportagem.

A Lei de Benford sugere que em números naturais, gerados sem interferência humana, a probabilidade de ocorrência de dígitos menores (1, 2, 3) é maior do que a de dígitos maiores (7, 8, 9). O método é muito utilizado em auditorias contábeis e fiscais para identificar possíveis manipulações, porém sua aplicação no contexto eleitoral ainda é controversa no universo acadêmico.

Além disso, especialistas defendem que o modelo pode ser um sinalizador de possíveis irregularidades, e não uma prova concreta. Já um estudo do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF) aplicou a lei matemática nos resultados de eleições anteriores, segmentando a votação por município. Segundo os autores, a análise por cidades seria mais adequada. Os resultados indicaram que não houve fraudes em nenhum dos pleitos.

TSE defende processo de totalização dos votos

O homem entrevistado no vídeo repete, por diversas vezes, que as urnas eletrônicas não são auditáveis. Como já mostraram verificações anteriores do Comprova e de outros veículos, o TSE defende que as urnas podem ser auditadas antes, durante e depois da eleição.

Perguntado sobre qual parte do processo de votação poderia estar comprometida, o homem diz que o problema pode estar no “módulo de criptografia” das urnas, que poderia, por exemplo, imprimir boletins de urna com resultados diferentes dos realmente digitados no equipamento. Porém, não há evidências de que algo similar já tenha ocorrido.

Em nota, divulgada na semana passada, o TSE defendeu a segurança do processo de totalização dos votos das urnas eletrônicas. O comunicado diz que após o encerramento da votação, o total de votos registrados em cada aparelho é gravado em uma mídia digital. O resultado é transmitido ao TSE por meio de uma rede exclusiva da Justiça Eleitoral, o que impediria, segundo o tribunal, qualquer tentativa de interceptação por hackers.

Os dados chegam criptografados ao TSE, onde são checados e somados por um programa. Isso significa que as informações são protegidas por um código que pode ser decifrado apenas por uma “chave” em posse do tribunal. A instituição ainda reforçou que os equipamentos são auditáveis.

“Antes da eleição, os códigos-fonte usados na urna eletrônica podem ser conferidos no TSE. Durante todo o processo eleitoral, é permitido checar e auditar todos os softwares que realizam a totalização dos votos. Por fim, depois da votação, tudo fica registrado no Boletim de Urna (BU), um relatório detalhado, que contém, entre outras informações, o total de votos por partido e por candidato, bem como a totalidade de eleitores aptos a votar na seção e a quantidade de votos nulos e brancos.”, diz a nota.

Há um debate técnico em torno da efetividade desses processos. Uma auditoria independente promovida pelo PSDB entre 2014 e 2015 concluiu que não foi possível identificar fraudes na votação de 2014. Os autores ressaltaram, porém, que mesmo com os recursos do TSE, o sistema não permitia uma auditoria externa independente e efetiva. O tribunal contesta.

Quanto à possibilidade levantada de fraude nos boletins de urna, é preciso considerar o processo de Auditoria de Funcionamento das Urnas Eletrônicas. No dia das eleições, todos os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) fazem um processo de votação paralelo ao oficial, usando equipamentos sorteados entre os que serão efetivamente usados nas seções eleitorais.

Para mostrar que as urnas estão funcionando e apurando os votos corretamente, pessoas registram os votos em uma planilha e digitam o mesmo número na urna. Todo o processo, incluindo a cabine de votação, é filmado, para garantir que os representantes digitaram os números certos, e acompanhado por empresas terceirizadas. Ao final, faz-se uma comparação entre o boletim da urna e a planilha do TRE.

Quem são as pessoas que aparecem no vídeo

O vídeo verificado nesta checagem foi feito por Naomi Yamaguchi, irmã da médica Nise Yamaguchi, que é conhecida aliada do presidente Jair Bolsonaro e defensora de tratamentos comprovadamente ineficazes contra a covid-19.

Naomi tem atuação política desde 2016, quando se candidatou a vereadora em São Paulo pelo Partido Novo. Nas eleições seguintes, em 2018, se candidatou a deputada federal no estado pelo PSL, e está na lista de suplentes.

Apesar da legenda do vídeo no YouTube a identificar como jornalista, Naomi se apresenta como “consultora intercultural” de uma empresa da área de Recursos Humanos em sua página na plataforma LinkedIn.

Ela mantém, até hoje, uma página no Facebook com o mesmo nome que aparece no início do vídeo: “Naomi Yamaguchi pensa”. Ela tem mais de 24 mil curtidas e mais de 48 mil seguidores e já publicou outros vídeos defendendo voto impresso e falando em fraude nas eleições e sobre o uso de tratamentos ineficazes contra a covid-19. Em abril, outro vídeo dela, sobre o uso da cloroquina em pacientes com coronavírus, foi marcado como falso em uma checagem da Agência Lupa.

Um dos homens que aparece no vídeo é identificado apenas como Alexandre Chut. A única pessoa que o Comprova localizou com este nome nas ferramentas de busca foi um psicólogo e astrólogo de São Paulo. Enviamos um e-mail para o contato que aparece nas redes sociais desta pessoa, para confirmar se ela realmente é quem aparece no vídeo e pedir detalhes sobre a metodologia da análise realizada, mas não tivemos retorno. Não localizamos qualquer ligação entre esta pessoa e o PSDB ou a avaliação de resultados eleitorais.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos relacionados à pandemia da covid-19 ou a políticas públicas do governo federal que tenham viralizado na internet.

Bolsonaro tem afirmado, sem provas, desde o começo do ano passado, que houve fraude nas eleições de 2018. Ele também critica de forma recorrente o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas e já fez insinuações sobre a lisura do processo para 2022.

Conteúdos como o vídeo de Nise Yamaguchi, que já foi visto mais de 151 mil vezes no Facebook e 1,5 mil vezes no YouTube, reforçam a falsa impressão de que o processo eleitoral brasileiro não é seguro e colocam em xeque a própria democracia.

O mesmo material também foi checado pela Agência Lupa, que concluiu serem falsos os dados usados na análise. O Comprova já verificou outros conteúdos relacionados às eleições e mostrou que as urnas eletrônicas brasileiras não foram hackeadas nos Estados Unidos, que o sistema de votação eletrônico pode ser auditado e que o resultado de uma enquete sobre o voto impresso não reflete a opinião da população.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2021-07-13

Urnas brasileiras não foram hackeadas nos EUA

  • Falso
Falso
Urnas brasileiras não foram hackeadas em conferência nos Estados Unidos, e trecho do programa Estúdio i, da GloboNews, não prova que os equipamentos usados nas eleições brasileiras são inseguros.
  • Conteúdo verificado: Em vídeo publicado no Facebook e no YouTube, homem usa trechos de um programa do canal GloboNews em que eram discutidos os resultados de uma conferência hacker que testou a segurança das urnas eletrônicas dos Estados Unidos para dizer que os equipamentos usados nas eleições brasileiras não são seguros.

É falso que urnas brasileiras tenham sido hackeadas durante uma conferência hacker nos Estados Unidos, e que isso provaria falhas no sistema eleitoral usado no Brasil.

O autor de um vídeo publicado no YouTube e no Facebook tira de contexto um vídeo de 2017, com um trecho do programa Estúdio i, do canal pago GloboNews, para afirmar que “Bolsonaro tem razão”. Na reportagem, o advogado e diretor científico do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), Ronaldo Lemos, comenta o resultado do trabalho de hackers durante a DEF CON 2017, maior conferência hacker do mundo, que, naquele ano, avaliou a segurança de urnas eletrônicas usadas nos Estados Unidos.

Como explicitado na fala do especialista, e ao contrário do que afirma o autor do vídeo, Felipe Lintz, os equipamentos testados não são os mesmos usados no processo eleitoral brasileiro. Em artigo recente, o próprio Ronaldo Lemos contesta o uso de sua fala na ocasião, que vem sendo utilizada fora de contexto para desinformar a respeito do processo eleitoral brasileiro.

Procurado pelo Comprova, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reafirmou, em uma nota publicada em 2017, que as vulnerabilidades encontradas nos equipamentos americanos foram em conexão com a internet ou em tecnologias que não são usadas nas urnas eletrônicas brasileiras.

O Comprova tentou contato com Lintz pelo e-mail fornecido na descrição da página “O jacaré de tanga”, no YouTube, mas não tivemos retorno até a publicação desta checagem.

Como verificamos?

Através de uma busca no Google, encontramos o vídeo original exibido pela GloboNews no site da emissora. Contatamos Ronaldo Lemos, especialista ouvido pelo canal por meio do WhatsApp. Ele nos encaminhou o link de um artigo escrito por ele em que rebate as alegações em relação ao programa. Também procuramos a assessoria de imprensa do TSE para saber se os aparelhos testados nos EUA eram utilizados no Brasil. Verificações publicadas anteriormente pelo Comprova nos ajudaram a identificar quais empresas já venderam urnas eletrônicas para a Justiça Eleitoral brasileira.

Buscamos no Google o nome do homem que apresenta o vídeo e descobrimos que ele foi candidato a prefeito de Mogi da Cruzes nas eleições de 2020. Enviamos e-mail para o endereço de contato que consta na página, mas não tivemos resposta até a publicação deste texto.

Verificação

O programa

A edição do Estúdio i citada no vídeo foi ao ar no dia 7 de agosto de 2017. O Comprova conseguiu reencontrar o vídeo da conversa no site da GloboNews.

Antes de falar sobre as urnas eletrônicas, o programa exibiu uma matéria sobre uma maratona hacker (também chamada de hackathon) promovida pela Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) nos dias 5 e 6 daquele mês. No evento, programadores se reuniram para desenvolver soluções utilizando inteligência artificial para combater a corrupção ou casos de pornografia infantil. O evento teve cobertura da Rede Globo. É a esse evento que a apresentadora Cecília Flesch se referia quando ela cita “hackers trabalhando para o bem”.

Em seguida, o programa começa a abordar a realização de testes em urnas eletrônicas nos EUA durante a DEF CON, maior conferência hacker do mundo, que ocorre em Las Vegas. Em 2017, foi a primeira vez que a segurança de urnas eletrônicas foi testada no evento. Os modelos que estavam lá foram violados dentro de duas horas.

As urnas eletrônicas utilizadas pelos participantes da DEF CON 2017 não eram as mesmas usadas nas eleições brasileiras. Na própria entrevista com Ronaldo Lemos, cujo trecho em áudio o youtuber usa no vídeo, o especialista explica: “A gente tem que lidar com calma com essa situação, porque também, depois, as pessoas ficam achando que isso tem a ver com o Brasil; não, isso aconteceu nos Estados Unidos, com alguns modelos, e não é claro se o modelo da urna brasileira, específico, foi uma dessas que foram testadas ou não.”

Em 2017, portais brasileiros e americanos noticiaram a conferência, antes e depois dos resultados. Todos os textos explicam que os equipamentos testados foram os usados nos Estados Unidos.

O especialista convidado para comentar os resultados da conferência é o advogado Ronaldo Lemos, diretor científico do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio) e apresentador do programa Expresso Futuro, no Canal Futura.

Em maio deste ano, ele escreveu um artigo no jornal Folha de S. Paulo em que contesta o uso do vídeo desse programa como argumento para adoção do voto impresso no Brasil. No texto, ele fala que nenhuma das urnas testadas foi a brasileira e que, desde 2017, o TSE tem atuado para dar mais segurança e transparência à utilização das urnas. Ele também argumenta que a logística necessária para fazer um ataque capaz de alterar o resultado da eleição é tão grande que a chance de alguém conseguir fazê-lo “é zero”. Para ele, a possibilidade de fraudar a eleição seria maior se a votação fosse de papel.

Urnas brasileiras não têm as vulnerabilidades identificadas nos EUA

Na época em que aconteceu a conferência, o TSE divulgou uma nota explicando que apenas urnas usadas nos EUA foram testadas. As vulnerabilidades encontradas foram em conexão com a internet (no caso da urna WinVote) ou através de portas de depuração (acesso e testagem) da placa-mãe que utilizavam a tecnologia JTAG. Nenhuma dessas tecnologias é usada nas urnas eletrônicas brasileiras.

Neste ano, o Tribunal preparou um vídeo sobre o tema, para a série “Fato ou Boato”. Em uma publicação sobre o conteúdo, no site oficial, o TSE explica que “não é possível comparar o sistema norte-americano com o brasileiro, uma vez que os dois operam de formas distintas. No Brasil, os programas utilizados na urna eletrônica são assinados digitalmente e lacrados em uma cerimônia pública. Se houver qualquer tentativa de adulteração do software, o equipamento nem sequer começa a funcionar. Uma invasão hacker também é uma hipótese improvável, pois a urna brasileira é um dispositivo isolado, sem conexão com a internet.”

O texto se baseia em outra peça de desinformação que circulava sobre o tema e falava sobre os mecanismos de impressão do voto para confirmação do resultado. Segundo o TSE, foram realizados “diversos testes para a implementação do módulo impressor do voto”, sendo que o primeiro ocorreu durante as Eleições de 2020. Foram constatadas, porém, diversas falhas nesse processo, que atrasaram a votação e violaram o sigilo do voto, já que foi preciso intervenção de outras pessoas para correção dos problemas mecânicos nas impressoras.

É importante ressaltar, ainda, que um dos aparelhos testado durante a DEF CON pertencia à empresa Diebold, que já produziu urnas eletrônicas para o Brasil em várias ocasiões entre os anos de 2000 e 2015, como mostra essa verificação do Comprova. “Sobre a Diebold, embora a empresa tenha fabricado as urnas brasileiras nos últimos anos, ela segue um projeto genuinamente nacional, desenvolvido pelo TSE e aberto em edital público de licitação. Assim, a empresa não pode vender a urna brasileira nos EUA e nem tampouco adotar as tecnologias de seus produtos na nossa urna, sendo obrigatório seguir o projeto brasileiro”, afirmou o TSE na nota divulgada após a conferência.

A empresa Smartmatic, citada no vídeo verificado aqui, não é mencionada nenhuma vez durante o programa da GloboNews. Ela também nunca forneceu urnas eletrônicas para a Justiça Eleitoral brasileira. Os testes realizados na DEF CON em 2017 foram acompanhados de perto por dois técnicos do TSE.

O autor do vídeo

O homem que aparece no vídeo fazendo críticas em relação às urnas eletrônicas se chama Felipe Lintz. Ele foi candidato a prefeito de Mogi das Cruzes, em São Paulo, pelo PRTB. Terminou a eleição em quarto lugar, com 16.971 votos. De acordo com o sistema de divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais (DivulgaCandContas) do TSE, ele tem 26 anos e não há registro de que tenha disputado eleições anteriores. Ele também não declarou sua ocupação à Justiça Eleitoral.

O Comprova enviou e-mail para o endereço de contato disponível na página no dia 9 de julho, uma sexta-feira. Na segunda, dia 12, o vídeo não estava mais disponível para o público no YouTube e não era mais possível encontrá-lo na página do Facebook.

Por que investigamos?

Atualmente em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre políticas públicas do governo federal e a pandemia de covid-19 que tenham viralizado nas redes sociais. Publicações que questionam a segurança das urnas eletrônicas são importantes de serem checadas porque colocam em risco a confiança dos cidadãos nas eleições diretas.

O vídeo verificado pelo Comprova teve 513 mil visualizações no Facebook e foi assistido 147 mil vezes no YouTube, pelo menos até o dia 9 de julho.

O Estadão Verifica e a Agência Lupa já verificaram o mesmo conteúdo e o classificaram como fora de contexto e falso, respectivamente.

Anteriormente, o Comprova também já mostrou que o sistema de votação eletrônica pode ser auditado; que a Smartmatic nunca vendeu urnas para o Brasil; e que o resultado de uma enquete sobre o voto impresso não reflete a opinião da população.

Para o Comprova, falso é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

 

Eleições

Investigado por:2021-07-12

É enganoso afirmar que resultado de enquete sobre voto impresso reflete opinião da população

  • Enganoso
Enganoso
Enquetes não usam uma amostragem que reflita a composição da população e a participação é espontânea e, portanto, não têm valor científico. Para indicar de forma adequada a opinião dos brasileiros, pesquisas de institutos confiáveis ouvem entrevistados em proporções de sexo, idade, escolaridade e renda semelhantes às da população do país. Dessa forma, os participantes são representativos do restante da sociedade, ainda que em número menor.
  • Conteúdo verificado: Texto afirma que 91% da população brasileira quer o voto impresso. O número se baseia em uma enquete aberta no site da Câmara dos Deputados sobre a PEC 139/2019, que propõe a adoção de comprovantes impressos de votação nas eleições.

São enganosas postagens no Facebook que afirmam que 91% da população brasileira quer o voto impresso. O número se baseia em uma enquete aberta no site da Câmara dos Deputados sobre a proposta de adoção de comprovantes impressos de votação. O próprio site da Câmara informa que a enquete não tem valor científico e não representa necessariamente a opinião da sociedade.

O Comprova já mostrou em outras verificações que enquetes não usam uma amostragem que reflita a composição da população. Como a participação é espontânea e quem responde às perguntas conhece o resultado da votação antes do encerramento, isso pode influenciar as conclusões.

Pesquisas de opinião pública, realizadas por institutos como Ipec (empresa criada por ex-integrantes do Ibope Inteligência) e Datafolha, usam métodos estatísticos para garantir que os entrevistados são representativos de todos os brasileiros. Ou seja: os participantes são selecionados em cotas proporcionais às características de sexo, escolaridade e renda da população do país.

Por fim, é importante ressaltar que o link para participação na enquete no Facebook foi compartilhado principalmente em páginas e grupos bolsonaristas. Como o voto impresso é uma bandeira do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), é possível que o resultado seja enviesado.

Atualização: Após a publicação desta checagem, o responsável pelo site Imprensa Brasil corrigiu seu texto. O título que antes dizia “Enquete sobre o voto Impresso da Câmara dos Deputados aponta que 91% da população brasileira quer o Voto Impresso”, foi alterado para “Enquete sobre o voto Impresso da Câmara dos Deputados tem resultado positivo sobre Voto Impresso”. Além disso, o texto também passou a ressaltar que “o número se baseia sobre a enquete da Câmara dos Deputados e não tem valor científico e não apresenta opinião da sociedade”. [Esta atualização foi feita em 15 de julho de 2021 para incluir informação sobre providências tomadas pelo site para corrigir a publicação original]

Como verificamos?

O Comprova procurou a enquete citada no site da Câmara dos Deputados e verificou os resultados. Constatamos no portal quais as regras de participação na dinâmica e baixamos os dados dos comentários na enquete. Usamos a ferramenta de monitoramento de redes sociais CrowdTangle para analisar os compartilhamentos do link da enquete no Facebook. Pesquisamos outros levantamentos de opinião sobre voto impresso e recuperamos o contexto da proposta sobre o assunto na Câmara dos Deputados. Os materiais consultados estão citados abaixo. Por fim, entramos em contato com o blog que publicou o conteúdo.

Verificação

A enquete na Câmara dos Deputados

As postagens analisadas aqui reproduzem o título de um texto publicado no blog Imprensa Brasil: “Enquete sobre o voto Impresso da Câmara dos Deputados aponta que 91% da população brasileira quer o Voto Impresso”. A enquete em questão é sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 135/2019, da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), que prevê a adoção de comprovantes de voto em papel em todas as eleições.

Até a noite de 11 de julho, 93% dos participantes disseram que “concordam totalmente” com a proposta, com 104.830 votos. Apenas 6% afirmaram “discordar totalmente” da PEC, com 6.850 votos.

O portal da Câmara abre enquetes para todas as proposições em tramitação na Casa. O objetivo é “estimular o debate sobre as propostas” e “propiciar oportunidade e canal para os cidadãos se manifestarem”, segundo a página de perguntas e respostas do portal.

O site deixa claro que os resultados não têm valor científico. “A intenção de votar parte do cidadão e não há limitação de público, como em pesquisas oficiais de opinião pública, nas quais se prepara uma amostragem específica”, informa o portal. “Porém, os resultados ficam disponíveis aos deputados, que recebem os dados analisados periodicamente em seus gabinetes e servem como termômetro do interesse e da mobilização popular”.

Como o Comprova mostrou recentemente, pesquisas de opinião pública usam dados oficiais sobre a população brasileira para determinar cotas de sexo, idade, escolaridade e outras características. O objetivo é ouvir um grupo proporcional à população brasileira, ainda que em número menor.

É importante lembrar que nem todos os brasileiros sabem da existência das enquetes no site da Câmara e nem todos têm acesso à internet para votar. Além disso, as conclusões do levantamento podem ser influenciadas pelo fato de o resultado parcial ser conhecido do público antes do encerramento da votação. Uma pessoa que discorda totalmente da PEC, por exemplo, poderia se sentir estimulada a votar para melhorar a porcentagem de respostas negativas à proposta.

Participação também tem motivação política

O Comprova pesquisou os compartilhamentos do link para a enquete no Facebook na ferramenta CrowdTangle e verificou que a maior parte dos posts sobre o assunto foi feita em páginas e grupos bolsonaristas. A própria autora da PEC do voto impresso, Bia Kicis, publicou uma postagem para estimular a participação no levantamento no dia 28 de junho e obteve 8,5 mil compartilhamentos.

Ao votar na enquete, os participantes também podem registrar comentários sobre pontos positivos e negativos da proposição. Os dados desses comentários indicam que houve picos de participação em datas específicas. Esses picos coincidem com compartilhamentos do link da enquete em postagens no Facebook. Ou seja: a interação na enquete da Câmara aumentou depois que páginas bolsonaristas publicaram sobre o assunto na rede social.

No dia em que Bia Kicis pediu que seus seguidores no Facebook participassem na enquete, foram registrados 933 comentários na Câmara dos Deputados; no dia seguinte, 1.307 comentários – a segunda maior participação desde que a votação foi aberta, em 2019.

De acordo com o site da Câmara, os participantes só podem votar na enquete uma vez. Para participar, é necessário cadastrar um e-mail no portal. Ao votar, é possível cadastrar mais de um comentário sobre pontos negativos ou positivos. Vários comentários têm termos como “#Bolsonaro2022” e “#BolsonaroReeleito2022”.

Diante desses dados, é possível inferir que uma parte dos respondentes teve motivação política ao participar, já que o voto impresso é uma bandeira de Bolsonaro. Os resultados, portanto, podem ter tendência a favor da PEC em questão.

Outros levantamentos sobre voto impresso

O portal do Senado também tem uma seção de consulta pública em que se pergunta a opinião dos internautas a respeito de diversos temas. Uma enquete sobre voto impresso aberta em 2018 tem disputa acirrada: até a noite do dia 11 de julho, 1.044.887 disseram apoiar a impressão de votos, e 1.044.943 disseram ser contra. Novamente, esse resultado não é suficiente para afirmar que a população esteja dividida sobre o tema.

Em maio deste ano, o site Poder360 realizou uma pesquisa sobre o tema por telefone. O levantamento indicou que 46% rejeitam a adoção do comprovante nas urnas, e 40% apoiam a ideia. Outros 14% não souberam responder. O PoderData ouviu 2.500 pessoas em 462 municípios das 27 unidades da federação entre 24 e 26 de maio, com margem de erro de 2 pontos porcentuais para mais ou para menos.

A pesquisa indicou que a rejeição à proposta é mais comum em grupos mais jovens (56% entre pessoas de 16 a 24 anos), moradores da região Sudeste e Nordeste (50% e 49%, respectivamente) e com renda mais alta (67% entre os que recebem mais de 5 salários mínimos).

Os segmentos mais favoráveis à impressão do voto estão em pessoas de 45 a 59 anos (52%), moradores do Norte e do Centro-Oeste (59% e 50%, respectivamente) e participantes sem renda fixa (49%).

A pesquisa também cruzou a opinião sobre o voto impresso com o apoio a Bolsonaro. Entre os que avaliam o governo como ótimo ou bom, 74% são a favor da proposta e 20% são contra; no grupo que considera a gestão federal regular, 44% são favoráveis e 36% são contrários. Esses índices entre as pessoas que opinaram que o presidente é péssimo ou ruim, a tendência é contrária: 60% são contra a impressão do voto, ante 24% que concordam com a PEC.

A metodologia das pesquisas do PoderData é diferente das de Ipec e Datafolha, que entrevistam presencialmente. No Poder360, os levantamentos são feitos por ligações automáticas, em um sistema chamado Unidade de Resposta Audível (URA). Apenas as chamadas em que os participantes respondem a todas as perguntas são consideradas. O portal entrevista pessoas até cumprir as cotas de sexo, idade, renda, escolaridade e localização geográfica em proporções similares à da população brasileira. Muitas vezes, é necessário fazer centenas de milhares de ligações até que se consiga ouvir uma parcela representativa do restante da sociedade.

A proposta de emenda à Constituição

A PEC 135/2019, de autoria de Bia Kicis, aguarda apreciação no Plenário da Câmara. A proposta prevê a obrigatoriedade de comprovantes impressos de votação. Após registrar o voto na urna eletrônica, o eleitor conferiria a cédula com suas escolhas, sem manuseá-la, e o papel seria depositado em uma “urna indevassável” para fins de auditoria. No último mês, a proposição passou por uma comissão especial na Câmara; o relator, Filipe Barros (PSL-PR), fez um parecer favorável à aprovação da PEC.

Presidentes de 11 partidos se posicionaram contra a iniciativa: PSL, Progressistas, PL, PSD, MDB, PSDB, Republicanos, DEM, Solidariedade, Avante e Cidadania. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e especialistas ouvidos pelo Estadão avaliam que a proposta aumenta o risco de fraude. Segundo a coordenadora da Transparência Eleitoral Brasil, Ana Claudia Santano, a comissão especial na Câmara ignorou fatores de risco na adoção da impressão de comprovantes. Ela opina que a tendência é de aumento da judicialização do pleito.

“Se tem um comprovante em papel, eu posso pedir a recontagem. Porque se não for para pedir a recontagem, por que é que eu vou ter o papel?”, afirmou em entrevista ao jornal. “A questão da judicialização já existe. O terceiro turno está aí há muito tempo. Agora, além da alta judicialização que a gente tem nas candidaturas, vai também judicializar os resultados”.

O presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, citou dificuldades logísticas e financeiras que dificultariam a implementação da proposta pouco mais de um ano antes das eleições de 2022. “Qual a razão pela qual o TSE tem se empenhado contrariamente ao voto impresso? É que nós vamos ter que transportar 150 milhões de votos no País do roubo de carga, da milícia, do Comando Vermelho, do PCC, do Amigos do Norte, já há aí um primeiro problema”, argumentou no início de julho.

O magistrado afirmou que não há mais tempo hábil para implementar um sistema de contagem automática das cédulas de papel. Nesse caso, a recontagem de votos teria de ser manual, o que, segundo ele, seria um “terror”. O ministro pontuou ainda que seria um paradoxo adicionar um passo extra de verificação, já que as urnas já têm mecanismos de auditoria. Como o Comprova mostrou no ano passado, entre as possibilidades de auditagem, há cerimônias públicas para testagem das urnas antes e no dia das eleições. É possível ainda fazer recontagem de votos com o Registro Digital de Voto (RDV), dispositivo presente desde 2004 nas urnas que registra de forma anônima todos os votos computados naquela seção eleitoral.

“O voto impresso seria imprimido pela mesma urna que estaria sob suspeita, portanto, se fraudar o eletrônico, frauda o impresso”, disse Barroso. “Vamos gastar R$ 2 bilhões, criamos um inferno administrativo para essa licitação, com o risco de fraude, e pior, quebra de sigilo”.

Em 2015, um artigo da minirreforma eleitoral estabelecia a implementação de comprovantes de votação em papel. O trecho foi vetado pela então presidente Dilma Rousseff, que indicou o alto custo da iniciativa, mas o veto foi derrubado pelo Congresso. Em 2018, a proposta foi questionada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) no Supremo Tribunal Federal (STF), e a Corte concedeu liminar que impediu que o mecanismo de impressão fosse utilizado no pleito daquele ano. Em 2020, o Plenário do Tribunal decidiu que a legislação era inconstitucional, porque colocava em risco o sigilo do voto.

O site

O texto analisado nesta checagem foi publicado pelo blog Imprensa Brasil. O Comprova entrou em contato por meio de um e-mail listado no site, mas não recebeu resposta até a publicação desta verificação. Posteriormente, o site enviou mensagem informando ter tomado providências para corrigir partes do texto.

Os responsáveis pelo site Imprensa Brasil entraram em contato com o Estadão Verifica, que faz parte do Comprova, depois que o artigo foi marcado como “Parcialmente falso” no Programa de Verificação de Fatos Independente do Facebook. Por meio desse programa, iniciativas de fact-checking podem marcar conteúdos enganosos na rede social, que diminui a circulação dessas publicações. Várias outras páginas também administradas pelos mesmos responsáveis pelo site cujo conteúdo foi aqui verificado, como “Notícia Brasil Online”, “Escapuliu” e “Aliança pelo Brasil Eu Apoio”, já tiveram postagens marcadas como “Falso” pelo Estadão Verifica anteriormente.

As publicações do site Imprensa Brasil têm vários títulos enviesados (exemplo 1, exemplo 2, exemplo 3), com termos como “CPI do Circo” e “esquerdopatas”. Além disso, nenhum texto é assinado e o blog não informa os responsáveis pela redação. 

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. O conteúdo verificado teve mais de 28 mil interações no Facebook, sendo 1.968 compartilhamentos, de acordo com a ferramenta CrowdTangle.

Conteúdos que questionam a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro, ainda que por meio de informações manipuladas e enganosas, corroboram as acusações, sem fundamentos, que o presidente Jair Bolsonaro faz constantemente à veracidade do processo eleitoral. Desde o início do voto eletrônico no Brasil, em 1996, nenhum caso de fraude foi identificado e comprovado.

Desde a última eleição presidencial, quando as supostas falhas no sistema eleitoral passaram a ser divulgadas, o Comprova já verificou diversas vezes conteúdos falsos e enganosos sobre o assunto. Em outubro do ano passado, o projeto mostrou que um documento não prova fraude nas eleições de 2018 nem comprova vitória de Bolsonaro no 1º turno. No mês seguinte, duas publicações do Comprova apontaram para o fato de o voto eletrônico no Brasil já ser auditável.

Para o Comprova, um conteúdo é enganoso quando confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano, porque usa dados imprecisos e induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor, além de ter sido retirado do contexto original e usado em outro, com alterações no significado.

Eleições

Investigado por:2021-07-07

É falsa foto de Schwarzenegger com camiseta de apoio a Bolsonaro

  • Falso
Falso
É falsa uma foto de Arnold Schwarzenegger usando camiseta com a imagem de Jair Bolsonaro e a inscrição "Bolsonaro presidente" publicada por um lutador de MMA no Twitter. O clique original, feito em 2015, mostra o ator e ex-governador da Califórnia com uma blusa lisa com um pequeno logo da Nike pouco abaixo do ombro.
  • Conteúdo verificado: Tuíte de um lutador de MMA, apoiador de Bolsonaro, com foto de Arnold Schwarzenegger vestindo camiseta com foto do político brasileiro e a inscrição “Bolsonaro presidente”.

Uma fotomontagem que viralizou nas redes em 2020 voltou a circular nesta semana em um tuíte do lutador Renzo Gracie. Falsa, ela mostra o ator e ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger fumando charuto com uma camiseta vermelha com o retrato ilustrado de Jair Bolsonaro (sem partido) e a inscrição “Bolsonaro presidente”.

Como já haviam verificado veículos de checagem no ano passado, a foto original foi feita em 2015 pela X17, “agência de fotos de celebridades líder de Hollywood”, e publicada pelo Daily Mail.

Renzo Gracie, que postou a foto com a legenda “Vai discutir com o Arnold”, foi procurado pela reportagem, mas não respondeu até a publicação deste texto.

Como verificamos?

Ao fazer a primeira busca no Google, com as palavras “Schwarzenegger”, “Bolsonaro” e “presidente”, os resultados mostraram verificações sobre a foto investigada aqui realizadas em fevereiro e março do ano passado por veículos de checagem brasileiros UOL Confere e Aos Fatos. Incluindo a palavra “camiseta” na pesquisa, vieram outros textos classificando a imagem como falsa.

A partir dessas verificações, chegamos à foto original, publicada no Daily Mail, como informado acima. Depois, deixamos mensagem nos comentários do tuíte de Renzo Gracie, mas ele não respondeu. Como o perfil no Twitter de Schwarzenegger não permite envio de mensagens privadas, escrevemos para sua página oficial no Instagram – também sem resposta.

Além disso, pesquisamos no TweetDeck posts em que o astro de Hollywood falou sobre o Brasil ou sobre Bolsonaro – deste último não veio nenhum resultado.

Verificação

Versões

A imagem usada no tuíte de Renzo Gracie foi alterada digitalmente para incluir o retrato em preto e branco de Bolsonaro na camiseta usada por Schwarzenegger e a inscrição “Bolsonaro presidente”. A versão modificada vem sendo usada desde o início de 2020, época em que Bolsonaro já estava empossado.

Como já informado, o clique original foi feito em 2015. O astro foi flagrado na cidade americana de Beverly Hills, no condado de Los Angeles.

Na versão falsa da imagem é possível ver, inclusive, uma marca circular mais escura onde originalmente está o logotipo da Nike, marca da blusa usada pelo ator e político.

O tuíte com a falsa foto:

 

A foto original:

Schwarzenegger e Bolsonaro

O astro de “Exterminador do Futuro” e ex-governador da Califórnia nunca fez menção ao presidente brasileiro em seu perfil no Twitter, segundo uma busca no TweetDeck. O último post que ele escreve a palavra “Brasil” é de 21 de abril de 2017, quando veio ao país para divulgar seu evento voltado ao universo fitness, com concursos de fisiculturismo.

Três dias depois, ele postou uma foto com João Doria, então prefeito de São Paulo, com a mensagem: “Honrado por encontrar o prefeito @jdoriajr para discutir energia verde com @Regions20 e como estou orgulhoso por hospedar o festival @ArnoldSports em sua grande cidade”.

Em nova visita ao Brasil em 2019, Schwarzenegger recebeu das mãos do deputado federal Alexandre Frota um “certificado de reconhecimento”, espécie de homenagem feita por Bolsonaro, fã de políticos republicanos, como o ator. No diploma, está a mensagem do presidente: “Ao ilustríssimo senhor Arnold Schwarzenegger. Os agradecimentos da República Federativa do Brasil pela sua dedicação e integridade durante sua trajetória na vida artística, social e política”.

O autor do tuíte

Mestre em jiu-jitsu, Renzo é neto de Carlos Gracie e sobrinho-neto de Hélio Gracie, considerados os fundadores do “jiu-jítsu brasileiro”. É carioca e tem uma rede de academias com unidades em cidades como Nova York e Rio de Janeiro.

Segundo a Vejinha, a unidade de sua academia em Nova York é frequentada por personalidades como o cineasta Guy Ritchie e o ator Keanu Reeves, e por lutadores de MMA que figuram entre os melhores do mundo, como os americanos Chris Brennan e Frank Edgar.

Em 15 de agosto de 2019, o lutador foi nomeado “embaixador do turismo” pela Embratur, título que se refere ao trabalho voluntário de divulgação do Brasil no exterior.

Duas semanas depois, em 1º de setembro daquele ano, ele gravou um vídeo em que chamava o presidente da França, Emmanuel Macron, de “franga”. Como mostrou a Folha, referindo-se às acusações de omissão do governo brasileiro em relação às queimadas na Amazônia, ele disse, na gravação: “Macron… I’m sorry, Micron, Micron. ​Tá falando mal do meu país… O único fogo que tem é no coração dos brasileiros e do nosso presidente, seu palhaço”. E continuou: “Vem aqui que tu vai tomar um gogó nesse pescoço, nesse pescoço de franga. Não me engana não, porra. Aqui o merthiolate tá ardendo”.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia ou sobre políticas públicas do governo federal.

O tuíte checado aqui – que foi compartilhado cerca de 256 vezes e gerou mais de 1,7 mil reações – relaciona um grande astro de Hollywood e político dos Estados Unidos com o presidente brasileiro, tentando passar a falsa mensagem que Schwarzenegger apoia Bolsonaro.

Acompanhada da legenda “Vai discutir com o Arnold”, a foto tuitada por Renzo Gracie gerou comentários debochando do trabalho de jornalistas e agências de checagem.

“Parabéns, já pode ser contrato (sic) pela Folha, vai diretamente para o departamento de explicação de memes e piadas”, escreveu um seguidor do lutador. “Avisa que é meme porque se não as agências verificadoras vão dizer que é falsa a informação!”, seguido de vários emojis chorando de rir, comentou outro.

O que esses usuários talvez não tenham visto é que outras pessoas acreditaram na falsa foto e, por isso, a verificação é importante.

Neste ano, o Comprova já publicou diversos conteúdos que, como o verificado aqui, distorcem a realidade para defender ou apoiar o presidente. Alguns exemplos são o que afirmava que obras em Pernambuco entregues por Dilma Rousseff e Michel Temer haviam sido concluídas pelo atual presidente e o que acusava falsamente os irmãos Miranda de terem forjado documento relacionado à compra da Covaxin.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2021-07-07

Vídeo engana ao mostrar resultado parcial de enquete com intenção de voto para presidente

  • Enganoso
Enganoso
Ao apresentar resultado parcial de uma enquete feita por um programa de TV a respeito da intenção de votos para presidente, youtuber passa informação enganosa de que Bolsonaro tem 87,5% de preferência nas eleições do ano que vem. Não é possível usar enquetes como pesquisas eleitorais nem como prévias confiáveis, uma vez que não há uso de metodologias estatísticas, como a representação proporcional da população por meio de amostragem, sequer a confirmação de quantas vezes cada telespectador pôde responder. O resultado final da enquete em questão pode demonstrar, no máximo, a preferência de parte da audiência do programa, mas não é capaz de provar possível fraude nas eleições de 2022 caso o atual presidente não seja reeleito.
  • Conteúdo verificado: Youtuber mostra trecho de um programa de uma emissora de TV de Goiás com resultado parcial de uma enquete e diz: “se nós não conseguirmos o voto auditável com contagem pública, Lula vai ser colocado na presidência, por mais que 87,5% da população rejeite Lula e aprove Bolsonaro”. 

É enganoso um vídeo viral nas redes sociais que conclui que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem apoio de 87,5% da população a partir da parcial de uma enquete de um programa de TV regional. Ao divulgar esse número como sinal de aprovação do presidente, o youtuber bolsonarista Gustavo Gayer omite o resultado final da enquete e não deixa claro que esse tipo de levantamento não tem valor científico e não representa adequadamente a opinião da população brasileira.

Em 29 de junho, o programa Balanço Geral, da TV Sucesso, no interior de Goiás, pediu que os espectadores enviassem por WhatsApp o nome do candidato em quem votariam para presidente. Ao final do programa, 64,9% disseram que escolheriam Bolsonaro e 33,5% citaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Não é possível tirar conclusões a partir do resultado dessa enquete porque o programa tem alcance regional e não há controle sobre quem responde à pergunta. Não há como saber quantas pessoas participaram do levantamento, quantas eram mulheres e quantas eram homens, quantas têm título de eleitor, nem mesmo se alguém enviou mais de uma mensagem.

Pesquisas eleitorais realizadas por institutos como Ipec (formado por ex-executivos do Ibope) e Datafolha usam métodos estatísticos para garantir que a população ouvida seja representativa de todos os brasileiros. Ou seja: os entrevistados são selecionados em proporções de sexo, escolaridade, raça e renda semelhantes às da totalidade do país.

Como verificamos?

Consultamos uma verificação publicada anteriormente pelos parceiros do UOL Confere, por meio da qual acessamos a íntegra do programa Balanço Geral de Goiás. Também recuperamos checagens do Comprova sobre enquetes e pesquisas eleitorais. Checamos as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre divulgação de pesquisas de opinião.

Analisamos ainda os dados da pesquisa de intenção de voto para presidente mais recente, realizada pelo Ipec e divulgada pelo Estadão.

Por fim, consultamos verificações anteriores do Comprova a respeito da auditabilidade do voto eletrônico.

Entramos em contato com Gustavo Gayer por e-mail e WhatsApp. O youtuber se limitou a ironizar a reportagem.

Verificação

A enquete do Balanço Geral

Como mostrou o UOL Confere, a TV Sucesso é uma afiliada da Record que transmite para 30 cidades do sudoeste de Goiás. O Balanço Geral é apresentado por Anderson Magrão, em um estúdio em Jataí, e por Rômulo César, em Rio Verde. No dia 29 de junho, o programa pediu que os espectadores enviassem por WhatsApp a resposta à pergunta “se a eleição fosse hoje, você votaria em quem?”.

No resultado parcial citado no vídeo de Gustavo Gayer, exibido às 12h15 no programa original, Bolsonaro aparecia com 87,5% e Lula com 6,2%. Outros 6,2% citaram o ex-juiz federal Sérgio Moro. Pouco mais de 20 minutos depois, às 12h36, os números já eram ligeiramente diferentes: 83,3% para Bolsonaro e 11,3% para Lula.

Ao final do programa, foi exibido o resultado final: 64,9% para Bolsonaro e 33,1% para Lula. Moro foi mencionado em 1,2% das respostas e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), em 0,4%. O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), também apareceu com 0,4%.

O apresentador Rômulo César comenta os números dizendo que a mesma pergunta é feita todo mês, com resultados semelhantes. Ele não informa quantas pessoas responderam à dinâmica, nem quantas mandaram mais de uma mensagem. Também não há segmentação por sexo, escolaridade ou renda.

Como a participação é espontânea e o público conhece as parciais antes do encerramento, isso pode influenciar as conclusões. Por exemplo, um eleitor de Ciro poderia se sentir impelido a mandar mais mensagens para melhorar a porcentagem do pedetista.

Por que enquetes não têm valor científico?

Enquetes não têm controle sobre o público respondente. O resultado reflete apenas a opinião dos espectadores do Balanço Geral daquele dia que decidiram participar da dinâmica de votação. Importante lembrar que mesmo entre os moradores do interior de Goiás, nem todos assistem ao programa, têm acesso à Internet ou usam smartphone — por isso, há uma parte da população que não é representada.

Em pesquisas eleitorais, institutos de pesquisa como o Ipec e o Datafolha usam dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do TSE para definir cotas de sexo, idade, escolaridade e outras características. O objetivo é ouvir um grupo proporcional à população brasileira, ainda que em número menor.

Na pesquisa de intenção de voto mais recente, divulgada em junho pelo Ipec, foram ouvidas 2.002 pessoas de 141 municípios brasileiros, presencialmente. A partir de dados do Censo 2010 e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) 2018, estipulou-se o número de entrevistados de cada grupo em critérios de sexo, idade, nível de instrução e atividade profissional em todas as regiões do país.

O resultado: 49% dos entrevistados disseram que votariam em Lula e 23% em Bolsonaro, com margem de erro de 2 pontos porcentuais para mais ou para menos. O petista tem vantagem sobre o atual presidente em todos os segmentos populacionais analisados pelo Ipec.

Em anos eleitorais, a divulgação de pesquisas segue regras elaboradas pelo TSE. Devem ser registradas junto ao Tribunal informações sobre “o contratante da pesquisa, com CPF ou CNPJ; o valor e a origem dos recursos gastos; a metodologia e o período de sua realização; o questionário aplicado ou a ser aplicado; o nome do estatístico responsável; e a indicação do estado em que será realizado o levantamento”.

O TSE proíbe a divulgação de enquetes no período eleitoral. Segundo a Resolução nº 23.600/2019, se encaixam nessa categoria “o levantamento de opinião sem plano amostral, que depende da participação espontânea do interessado e que não utiliza método científico para a sua realização, apresentando resultados que possibilitam ao eleitor perceber a ordem dos candidatos na disputa”.

Qual a opinião da classe C e dos menos escolarizados?

No vídeo, o youtuber Gustavo Gayer diz que a enquete do Balanço Geral reflete a opinião da classe C e dos menos escolarizados. Na realidade, de acordo com a última pesquisa Ipec, a maior parte desses segmentos populacionais declarou intenção de votar no ex-presidente petista.

Entre os entrevistados que cursaram até a 4ª série do ensino fundamental, 52% disseram preferir Lula e 18%, Bolsonaro; na faixa de pessoas que estudaram da 5ª à 8ª série, os índices são de 59% e 19%; entre os que chegaram ao Ensino Médio, 50% e 24%. No grupo de escolaridade superior, a diferença entre os dois candidatos é menor: 37% responderam que votariam em Lula e 29% em Bolsonaro.

Na segmentação por renda, o petista tem a preferência de 62% entre os que recebem até 1 salário mínimo, contra 20% do atual presidente; nos que ganham de 1 a 2 salários mínimos, os índices são de 51% e 22%; na faixa de 2 a 5 salários, 40% e 29%. Bolsonaro chega mais perto de Lula apenas no grupo com renda superior a 5 salários mínimos: tem 34% das intenções de voto, contra 39% do ex-presidente.

A pesquisa de intenção de voto divulgada pelo Datafolha em maio mostrou um cenário semelhante. Entre os que têm escolaridade de ensino fundamental, 51% disseram preferir Lula e 20%, Bolsonaro. Essas porcentagens foram de 39% e 26% na faixa de ensino médio e de 30% e 22% na de ensino superior. O petista também apresentou vantagem entre os que ganham até 2 salários mínimos (47%, contra 20% do atual presidente) e no grupo que recebe de 2 a 5 salários (34% a 29%). Bolsonaro apareceu à frente no segmento mais rico: 30% entre os que têm renda de 5 a 10 salários e 24% entre os que recebem mais de 10 salários. Nessas faixas, Lula pontuou com 26% e 18%.

Voto eletrônico já é auditável

No vídeo, Gayer diz que “se nós não conseguirmos o voto auditável com contagem pública, Lula vai ser colocado na Presidência, por mais que 87,5% da população rejeite Lula e aprove Bolsonaro”. Ele faz referência à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 135/2019, do voto impresso auditável, que tramita na Câmara dos Deputados. O texto, da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), define a instalação de impressoras junto aos equipamentos de votação, para emitir comprovantes que ficariam armazenados em urnas.

O sistema de votação eletrônica, no entanto, já é auditável. Como mostrou o Comprova no ano passado, há vários mecanismos para a auditagem dos votos. Partidos, coligações, candidatos e Ministério Público podem fazer auditoria pré e pós-eleições.

O TSE informa que nunca se identificou ou comprovou fraude eleitoral durante todo o período de uso das urnas eletrônicas. O equipamento é regularmente submetido a testes públicos de segurança e atualizações.

Quem é o youtuber

Ele tem um canal de YouTube com 419 mil inscritos. Já foi desmentido em verificações do Comprova que demonstraram que um documento não prova fraude nas eleições 2018 e que uma pesquisa brasileira não usou doses letais para matar pacientes e desacreditar cloroquina. Foi candidato a prefeito de Goiânia em 2020 pelo Democracia Cristã (DC); ficou em 4º lugar com 7,6% dos votos.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. O vídeo verificado foi visto ao menos 286,6 mil vezes no YouTube e Facebook.

Conteúdos que descredibilizam o sistema eleitoral brasileiro, ainda que por meio de informações manipuladas e enganosas, corroboram as acusações, sem fundamentos, que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) faz constantemente à veracidade do processo eleitoral. Desde o início do voto eletrônico no Brasil, em 1996, nenhum caso de fraude foi identificado e comprovado.

Desde a última eleição presidencial, quando as supostas falhas no sistema eleitoral passaram a ser divulgadas, o Comprova já verificou diversas vezes conteúdos falsos e enganosos sobre o assunto. Em outubro do ano passado, o projeto mostrou que um documento não prova fraude nas eleições de 2018 nem comprova vitória de Bolsonaro no 1º turno. No mês seguinte, duas publicações do Comprova apontaram para o fato de o voto eletrônico no Brasil já ser auditável.

Para o Comprova, um conteúdo é enganoso quando confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano, porque usa dados imprecisos e induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor, além de ter sido retirado do contexto original e usado em outro, com alterações no significado.