O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a golpes e fraudes virtuais.Filtro:
Postagens simulam uma reportagem do jornal O Globo e usam imagens manipuladas por IA para divulgar supostos sites de investimentos sem relação com o empresário.
É falso que Luciano Hang, fundador das lojas Havan, tenha sofrido um atentado ou que esteja sendo perseguido por Fernando Haddad (PT) por ter criado uma suposta plataforma financeira. Golpistas usam uma falsa reportagem do jornal O Globo e imagens manipuladas por inteligência artificial (IA) para promover uma plataforma que promete ganhos de até R$ 10 mil por dia a partir de um investimento inicial.
O empresário e a Havan negaram as informações sobre o suposto atentado e afirmaram não ter qualquer relação com os sites divulgados. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) também determinou, em 28 de agosto, a remoção das publicações que associavam falsamente Haddad, candidato ao governo de São Paulo, ao caso.
Como os golpistas abordam as pessoas: Uma versão do golpe é uma postagem no X que direciona ao link de uma falsa notícia do jornal O Globo de que Hang teria sofrido um atentado depois de Fernando Haddad (PT) ter tentado banir uma suposta plataforma financeira ligada a Hang, chamada Bergmann Core.
Na postagem, a prévia do link mostra uma colagem com imagens do empresário ferido, de Haddad e de um carro alvejado em frente a uma loja da Havan. A ferramenta SynthID indicou que as imagens analisadas foram fabricadas com a própria ferramenta de IA da Google.
I Legenda: Análise feita pela ferramenta SynthID I
Ao clicar na falsa notícia, o usuário é direcionado para uma página que imita uma reportagem do jornal O Globo sobre o suposto atentado. A página, porém, não pertence ao veículo, como pode ser visto no endereço da página, que é diferente do domínio oficial do jornal (oglobo.globo.com). Além disso, a estrutura, a URL e os elementos gráficos diferem dos utilizados pelo portal verdadeiro.
I Legenda: À esq., página falsa simulando visual do site do jornal O Globo (à dir.) I
O texto da página busca promover a fraudulenta plataforma de investimentos. No primeiro parágrafo, cita falsamente que o empresário “está convencido de que o motivo do ataque é a nova plataforma financeira que já rende R$ 20.000 por semana a milhares de brasileiros comuns — e que incomoda muita gente”. A página inclui também um botão de ‘Acessar o site oficial’ para a conversão do leitor à plataforma.
Em outra versão do golpe, no Facebook, há o uso de elementos semelhantes, citando o suposto atentado, mas menciona a plataforma de investimentos Clara Fundência, que teria sido criada por Luciano Hang e pelo jogador de futebol Neymar. A publicação também diz que Fernando Haddad teria tentado impedir a plataforma e relaciona essa disputa ao falso atentado contra o empresário. Esse post, porém, não direciona a links para a plataforma verificada.
Em nota publicada em suas redes sociais, Luciano Hang negou ter sofrido qualquer atentado e pontuou que sua imagem vem sendo utilizada em conteúdos falsos para aplicação de golpes. A Havan também esclareceu que o empresário não sofreu nenhum ataque e que a empresa não recomenda, não participa e não mantém qualquer relação com plataformas de investimento financeiro.
Em 28 de agosto, o TRE-SP determinou que o X removesse as publicações que associavam Haddad ao suposto atentado contra Hang. Segundo a decisão, o crime não ocorreu e as postagens eram usadas como isca para direcionar usuários a um site fraudulento que promovia um golpe financeiro. A determinação foi dada pela juíza auxiliar da propaganda eleitoral Domitila Manssur, após pedido da coligação de Haddad, que é candidato a governador em SP.
Que táticas eles usam para chamar a atenção: A história manipula imagens com IA e fabrica uma notícia grave para despertar a curiosidade do usuário e estimular o clique. Os conteúdos também buscam conferir aparência de credibilidade ao golpe, simulando a identidade visual de um veículo de imprensa.
Depois, a falsa reportagem apresenta a suposta plataforma financeira, usando a estratégia de promessa de ganhos elevados. Em uma das páginas analisadas, a plataforma afirma que o usuário poderia ganhar de R$ 3 mil a R$ 10 mil por dia após fazer um cadastro e ativar a conta.
Qual é o objetivo do golpe: Convencer usuários a fazer depósitos e fornecer dados pessoais em uma suposta plataforma de investimentos. Para isso, os golpistas prometem rendimentos elevados e praticamente garantidos, incompatíveis com a realidade do mercado financeiro.
Segundo o advogado especializado em Direito Digital e Internet Márcio Stival, esse tipo de conteúdo segue um modus operandi recorrente:
“Normalmente golpistas utilizam plataformas em rede social para divulgar notícias falsas com questões que chamam bastante atenção, justamente tentando induzir um erro para levar a pessoa a clicar e fazer investimentos, fazer aquisições.”
Como se proteger: Em material publicado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) de prevenção a golpes online, o Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) recomenda que as pessoas se mantenham atentas a falsas promoções, mensagens enganosas e estratégias de engenharia social.
No mesmo material, o coordenador do Ciberlab, Alessandro Barreto, diz que o primeiro passo para evitar prejuízos é desconfiar de ofertas muito vantajosas: “Se uma oferta parece boa demais para ser verdade, desconfie. Essa percepção é um dos principais mecanismos para evitar cair em golpes”.
Veja as recomendações do MJSP:
Desconfie de ofertas: ofertas boas demais para ser verdade podem ser tentativas de golpe.
Proteja suas contas: use senhas diferentes e ative a autenticação em dois fatores.
Não compartilhe dados: nunca informe senhas ou códigos de verificação.
Mantenha tudo atualizado: atualize aplicativos e sistemas para corrigir falhas de segurança.
A quem denunciar: Conteúdos desse tipo podem ser denunciados à própria rede social onde foram publicados. Caso haja prejuízo financeiro, a vítima deve registrar um boletim de ocorrência e reunir provas, como capturas de tela, comprovantes de pagamento, conversas e endereços dos sites envolvidos. Também é recomendável comunicar o banco utilizado na transação e informar os órgãos de defesa do consumidor.
Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Conteúdo ensina "macete" inexistente para escolher Jair Bolsonaro, que está inelegível, e dar voto a Lula.
Ao contrário do que sugerem publicações que circulam nas redes sociais, não existe uma sequência de teclas capaz de registrar o voto em favor de Jair Bolsonaro (PL) nas eleições deste ano. Conteúdos publicados no X apresentam uma suposta forma de votar no ex-presidente ao digitar uma combinação de números e acionar a tecla “Corrige”, mas a urna eletrônica registra o voto apenas de acordo com o cargo em disputa e com os números de candidatas, candidatos ou legendas habilitados para aquela eleição.
Uma das sequências divulgadas orienta o eleitor, em tom de humor, a digitar “2-Corrige-2-2-Corrige-Corrige-1-3-Confirma” na votação para presidente. Como a tecla “Corrige” apaga os números digitados anteriormente, ao final da sequência permanecem apenas os últimos dígitos inseridos, ou seja, 13. Jair Bolsonaro não é candidato – ele está inelegível até 2060 – e, por isso, não há como seu nome aparecer na urna.
A combinação sugerida induz o voto no número 13. Se o eleitor seguir a orientação da publicação, poderá acabar votando no candidato do PT, no caso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que concorre à reeleição.
Como funcionam as urnas eletrônicas
Nas eleições majoritárias, quando os números digitados não correspondem a uma candidatura presente na urna, o voto é registrado como nulo após a confirmação. A urna também não interpreta a mesma sequência numérica como um voto automático para determinado partido ou candidato em todos os cargos.
Em 2026, o eleitor votará, nesta ordem, para deputado federal, deputado estadual ou distrital, senador para a primeira vaga, senador para a segunda vaga, governador e presidente. Os votos são registrados separadamente para cada cargo.
Nas eleições proporcionais, para deputado federal e deputado estadual ou distrital, o eleitor pode votar na legenda ao digitar apenas os dois primeiros números correspondentes ao partido. Já nas eleições majoritárias, para presidente, governador e senador, a digitação de números que não correspondam a uma candidatura habilitada resulta em voto nulo. Antes da confirmação, a própria urna informa quando o voto será considerado nulo.
Quem criouo conteúdo investigado pelo Comprova
Uma das publicações verificadas pelo Comprova foi feita por um perfil no X que tinha cerca de 26 mil seguidores e 194 mil publicações em 24 de setembro. O post sobre a urna eletrônica alcançou aproximadamente 265 mil visualizações, 16 mil curtidas e 1 mil compartilhamentos.
Na publicação, o autor apresenta a sequência como um suposto “macete” para votar em Bolsonaro e chama o ex-presidente de “personagem secreto” das eleições de 2026. O conteúdo tem características de humor e paródia, mas a sequência numérica é apresentada no formato de uma instrução prática, o que permite que ela seja compartilhada ou reproduzida fora do contexto original da piada.
Nas interações posteriores, o próprio autor trata o conteúdo como uma piada. Usuários, no entanto, discutem a possibilidade de a sequência funcionar e fazem referência ao funcionamento da urna eletrônica. A publicação também foi republicada por outros usuários, o que ampliou sua circulação.
Por que as pessoas podem ter acreditado
A publicação combina humor com o formato de uma instrução prática. Ao apresentar uma sequência de teclas e chamar Bolsonaro de “personagem secreto” das eleições, cria a aparência de um procedimento capaz de registrar o voto no ex-presidente. O uso de números, da tecla “Confirma” e de referências à urna reforça essa aparência.
O conteúdo também explora o funcionamento da tecla “Corrige”, que apaga os números digitados anteriormente. Assim, a sequência pode dar a impressão de que vários comandos estão sendo acumulados, quando, na prática, os números anteriores são descartados antes da confirmação. Diferentemente de uma cola eleitoral, que apenas ajuda o eleitor a lembrar o número do candidato escolhido, a sequência apresentada orienta uma combinação de comandos na própria urna.
Quando compartilhada fora do contexto humorístico original, a publicação pode ser interpretada como uma instrução verdadeira. Quem reproduzir a sequência pode confirmar um voto diferente do pretendido ou anular o voto, caso os números que permanecerem na tela não correspondam a uma candidatura habilitada.
Bolsonaro pode voltar a ser candidato em 2026?
Jair Bolsonaro não pode disputar as eleições de 2026 porque está inelegível por duas decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e teve os direitos políticos suspensos após a condenação pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). As duas decisões produzem efeitos distintos, mas impedem sua candidatura atualmente. O TSE o declarou inelegível por oito anos, contados a partir das eleições de 2022, em dois processos relacionados a abuso de poder político e econômico. O prazo abrange as eleições deste ano.
Além disso, Bolsonaro foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. A condenação tornou-se definitiva e, por isso, também se aplica o artigo 15, inciso III, da Constituição Federal, que prevê a suspensão dos direitos políticos enquanto durarem os efeitos de uma condenação criminal transitada em julgado.
O doutor em Direito Constitucional pela PUC-SP e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Sandro Rogério Monteiro de Oliveira explica que os dois impedimentos têm naturezas diferentes. “Hoje há dois aspectos jurídicos relevantes: a inelegibilidade determinada pela Justiça Eleitoral e a suspensão dos direitos políticos decorrente da condenação criminal definitiva”, afirma.
Assim, diferentemente do que sugerem os posts, não há atualmente um mecanismo que permita a Bolsonaro simplesmente voltar a ser candidato. O impedimento também se estende às próximas eleições enquanto permanecerem vigentes as decisões que restringem sua capacidade eleitoral.
Fontes que consultamos: Foram consultados os sites do Supremo Tribunal Federal (STF) e Tribunal Superior Eleitoral (TSE), bem como a Constituição Federal de 1988, reportagens do g1 e foi ouvido o doutor em Direito Constitucional Sandro Rogério Monteiro Oliveira.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Outras checagens sobre o tema: A Justiça Eleitoral já mostrou que o sistema das urnas eletrônicas não permite alteração do voto e também que são falsas as publicações que induzem o eleitor a esperar por uma mensagem “confirme seu voto” para finalizar a votação.
Notas da comunidade: Nas publicações checadas pela equipe do Comprova na plataforma X, não há notas da comunidade sobre o tema.
Iniciativa liderada pela Abraji e apoiada pela ElevenLabs e Jusbrasil reúne 42 organizações jornalísticas para proteger a integridade do debate público.
O Projeto Comprova, iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), lança nesta quinta-feira, 24 de setembro, o Consulte o Comprova. A novidade integra o projeto Eleições 2026 e oferece um serviço gratuito de consultoria e suporte a jornalistas envolvidos na cobertura eleitoral em todo o Brasil.
O Consulte o Comprova dará suporte direto a profissionais de imprensa que necessitem de orientações para verificação de fatos, uso de ferramentas de investigação digital e checagem de conteúdos gerados por inteligência artificial (IA) direcionados às campanhas para o governo, o Senado e as câmaras federal e estaduais.
O atendimento é feito de forma simples e rápida pelo WhatsApp do Comprova, onde repórteres podem solicitar consultoria com especialistas em checagem e investigação visual. Além do apoio técnico, o canal também funcionará como apoio à segurança: jornalistas poderão encaminhar casos de assédio e ataques online decorrentes de seu trabalho na cobertura eleitoral ao Núcleo de Segurança da Abraji, que atuará em regime de plantão nos finais de semana.
Canal aberto com a sociedade
Além do atendimento à imprensa, o WhatsApp do Comprova (11 97045-4984) continua sendo um canal direto com o público. Por meio da ferramenta, qualquer leitor ou eleitor pode enviar denúncias e sugerir investigações sobre conteúdos suspeitos envolvendo as eleições, políticas públicas, golpes digitais e desinformação relacionada à saúde e à crise climática.
O objetivo central do Comprova é oferecer à sociedade uma compreensão clara, verificada e confiável dos fatos, fortalecendo a integridade do ambiente digital e a resiliência contra fraudes e fake news.
“Assegurar que os jornalistas tenham acesso a ferramentas para verificar a autenticidade de materiais gerados por IA é fundamental, especialmente durante o período eleitoral, quando conteúdos falsos podem comprometer a democracia e a confiança nas instituições. Ao apoiarmos o projeto Comprova, fornecemos suporte técnico e acesso às nossas ferramentas para que os profissionais de imprensa possam identificar e verificar a origem de áudios criados na plataforma da ElevenLabs, garantindo que realizem seu trabalho de investigação com mais precisão e segurança”, afirma João Paulo Rio Branco, Head de Parcerias com o Setor Público para a América Latina da ElevenLabs.
A ElevenLabs é uma empresa de pesquisa e produtos de inteligência artificial (IA). A empresa desenvolve modelos de voz e áudio de IA, agentes conversacionais e ferramentas criativas para gerar e editar conteúdo em mais de 70 idiomas.
Falas no Flow Podcast analisadas pelo Comprova exibem diversas declarações polêmicas e contraditórias.
Em um post viral, o pastor, psicólogo e palestrante Alex Alves faz afirmações fantasiosas sobre o Super El Niño no Brasil. Como afirmam cientistas e estudos consultados pelo Comprova, ele errou ao dizer que teríamos, em setembro, “25 dias antes de uma catástrofe geral na parte Sul e uma seca gigante pegando de São Paulo para cima, saindo pelo Centro-Oeste, Norte e Nordeste”, e que haveria uma anomalia eletromagnética sobre o Sul do país. As afirmações foram dadas em entrevista ao Flow Podcast, no dia 24 de agosto.
O Comprova baseou-se em estudos científicos para desmistificar as declarações de Alves ao Flow Podcast, que foram recortadas e citadas em um vídeo curto de um usuário no TikTok. O conteúdo obteve mais de meio milhão de visualizações, antes de ser apagado da plataforma.
Super El Niño existe? É catastrófico?
O El Niño é um fenômeno climático natural que geralmente ocorre a cada dois a sete anos. Ele é caracterizado por um aquecimento superior a 2°C em relação à média histórica das águas superficiais do Oceano Pacífico na região da linha do Equador. Em setembro, a Organização Meteorológica Mundial (OMM), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), emitiu um alerta sobre a probabilidade de intensificação do evento em 2026, que passou a ser chamado de Super El Niño.
Werton Costa, climatologista e diretor de Prevenção e Mitigação da Defesa Civil do Piauí, aponta as declarações de Alex Alves como bastante contraditórias, embora reconheça que é fato que o El Niño está se intensificando no país e potencializando chuvas na região Sul, assim como a seca no Nordeste. Segundo Costa, nenhuma catástrofe é provocada por um fenômeno natural – antes é resultado de um fenômeno social, que inclui desigualdades e a ocupação desordenada do solo.
Após entrevistar diversos especialistas, oEstadão Verifica também apontou que a interferência humana está relacionada à intensidade do fenômeno. O desmatamento e a queima contínua de combustíveis fósseis, que liberam gases de efeito estufa, contribuem para o aumento da temperatura do planeta.
Outra alegação de Alves no vídeo analisado é sobre um calor intenso, além de tornados e tempestades que causariam uma “polarização de forças e uma anomalia eletromagnética que está sobre o sul”, provavelmente uma referência à Anomalia Magnética do Atlântico Sul (AMAS), uma área de campo magnético enfraquecido que pode afetar satélites e missões espaciais sobre a América do Sul e o Atlântico, mas que não tem qualquer relação com o El Niño.
Um estudo publicado em maio na revista “Proceedings of the National Academy of Sciences” apontou que o fenômeno, que pode ter se originado no Oceano Índico por volta do ano 1100, atravessou a África e migrou para o oeste até chegar à América do Sul, segundo reportagem do site G1. A explicação mais provável para o fenômeno envolve a interação entre o núcleo externo do planeta e as estruturas do manto terrestre, que geram mudanças lentas no campo magnético ao longo de milênios.
Livro de Enoque e armas apocalípticas
No vídeo, Alex Alves afirma que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem interesse em áreas como Patagônia e Malvinas por estarem próximas da Antártida. A afirmação é baseada nas teorias relacionadas ao Livro de Enoque, texto que não foi incluído no cânone da Bíblia judaico-cristã. Segundo interpretações do livro, gigantes estariam aprisionados em regiões descritas como “câmaras de frio”, que poderiam corresponder à Antártida. O texto apócrifo não menciona explicitamente a região, e os estudiosos não interpretam as passagens como uma descrição de uma localização sob o gelo.
Alves também menciona que Trump, antes de ganhar as eleições em 2024, teria dito que precisava vencer o pleito para poder evitar o uso de armas mágicas (apocalípticas) de destruição em massa no país. O Comprova não encontrou notícias que citam tais declarações.
O climatologista Werton Costa critica as declarações de Alex Alves sobre temas geopolíticos no Flow Podcast. “Existe uma fantasia escandalosa construída por ele que não tem respaldo científico. O El Niño é um fenômeno natural; não existe nenhuma ameaça territorial nem invasão relacionada a ele”.
AMOC e o peixe do fim do mundo
No vídeo, Alex Alves afirma que a corrente oceânica AMOC (sigla em inglês para Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico, que transporta calor dos trópicos para o Atlântico Norte) “trouxe aquele peixinho do fim do mundo”, cujo tamanho cresceu até se tornar “um monstro”. A fala faz referência ao peixe-remo (Regalecus glesne), que vive em grandes profundidades (de 200 a 1.000 metros) e raramente é visto na superfície.
A presença desses peixes pode estar relacionada a mudanças nas correntes oceânicas, a problemas de saúde dos peixes (que os deixam desorientados) ou a alterações na temperatura da água, mas não é exclusiva da AMOC. O peixe está frequentemente associado a teorias conspiratórias e lendas, conforme reportagem do Estadão, como no Japão, que associa abalos sísmicos ao aparecimento desses peixes.
Apesar da associação, um estudo publicado no Bulletin of the Seismological Society of America apontou que não há correlação entre os eventos e o ressurgimento dos “peixes do fim do mundo”.
Teorias conspiratórias e falaciosas
Ao Comprova, Júlia Dias, doutoranda em Ciência da Informação pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e pesquisadora de desinformação ambiental e negacionismo climático, classifica a narrativa do pastor como voltada à teoria conspiratória com um discurso clássico contra a ciência em geral, não apenas em relação às mudanças climáticas.
“Esse vídeo tem teor de teoria da conspiração, pois mescla elementos aleatórios e tenta juntá-los para conferir sentido. Os recursos visuais, que trazem imagens de catástrofes, contribuem para isso e para que as pessoas acreditem que aquilo que está sendo dito é uma verdade que o mundo inteiro não sabe”, diz Dias.
Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova
O vídeo foi publicado por um perfil no TikTok que costuma compartilhar os conteúdos de Alex Alves. Outras publicações do perfil abordam temas relacionados à política, à religião e ao desenvolvimento pessoal. O Comprova entrou em contato com o autor da publicação, mas não obteve retorno até o fechamento do texto.
Convém acrescentar que Alves se intitula pastor, capelão, neurocientista, psicoterapeuta e consultor empresarial, entre outros. Em seu site oficial, Alves alega ter treinado mais de um milhão de pessoas em temas diversos relacionados à Escatologia Bíblica, Geopolítica, Síndromes, Profecias, Psicologia, Consultoria, Mentoria, Treinamentos e Cura da Alma.
Por que as pessoas podem ter acreditado?
Com base em estudos dos pesquisadores australianos John Cook e Stephan Lewandowsky, que publicaram “O Manual da Teoria da Conspiração”, o Comprova aponta algumas táticas de desinformação em relação ao fenômeno do El Niño, como a ambiguidade, ao utilizar linguagem dúbia para induzir a uma conclusão enganosa sobre o fenômeno climático.
Assim como a tática da teoria conspiratória, que consiste em sugerir que de um plano secreto para implementar um esquema nefasto (quando cita os Estados Unidos), ao apresentar dados científicos e ideais de pseudociência em formato de confronto, para dar a falsa impressão de um debate científico em curso, quando, na verdade, são apenas declarações fantasiosas e sem qualquer veracidade.
O vídeo analisado também utiliza imagens geradas por inteligência artificial generativa. Há cenas, por exemplo, de tornados gigantes e de redemoinhos de fogo sobre o oceano, com iluminação e texturas típicas do estilo visual de modelos de IA como Midjourney ou Sora, que podem provocar diversas emoções nas pessoas, como o medo.
Fontes que consultamos: O Comprova analisou o vídeo original da entrevista e o corte publicado no TikTok para apurar as alegações feitas. O Comprova elencou estudos científicos e notícias sobre o tema e procurou especialistas para analisarem as afirmações e emitirem seus pareceres científicos. Também entrou em contato com o pastor Alex Alves, que não respondeu até a publicação deste texto.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre as publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Outras checagens sobre o tema: O Comprova checou anteriormente um conteúdo sobre o Super El Niño, assim como outras agências de checagem, como o Estadão Verifica.
Desinformação usa foto falsa do candidato associada à reportagem da revista piauí.
A imagem do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) com uma espingarda na mão e com um elefante abatido ao fundo é falsa. O conteúdo foi gerado com inteligência artificial (IA) e editado para simular a capa da reportagem “O safári dos investigados”, da revista piauí.
A partir de uma busca reversa via Google Lens, foi possível localizar a reportagem da piauí cuja imagem de capa é uma foto de Flávio Bolsonaro ao lado do advogado Willer Tomaz, do empresário Carlos Alberto de Sá e do senador Weverton Rocha (PDT-MA).
Os quatro foram fotografados durante um safári feito na África do Sul, em março de 2025. Não há, no entanto, qualquer elefante na foto. A reportagem não menciona se eles participaram de uma caça ou de um abate.
I Legenda: Captura de tela da reportagem feita pela revista piauí I
A imagem verificada foi analisada pela ferramenta de detecção de IA da Hive Moderation, que acusou uma probabilidade de 99,9% de ter sido gerada artificialmente.
I Legenda: Resultado detalhado da análise do Hive I
Outra análise feita pela plataforma SynthID indicou que o material foi produzido com a própria IA do Google.
I Legenda: Resultado detalhado da análise do SynthID I
Com cerca de 554 mil seguidores, o ator brasileiro José de Abreu foi um dos perfis do X que repercutiu a desinformação e escreveu o seguinte: “Flávio matou um elefante ao fazer Safari com bandidos. Quem mata um elefante? Só doentes. Poderão matar seres humanos com a mesma tranquilidade”. Antes de sair do ar, o post atingiu ao menos 284 mil visualizações.
O Comprova entrou em contato com o ator via Instagram, mas não obteve resposta até o momento da publicação deste texto. Tampouco houve resposta das assessorias de imprensa dos senadores Flávio Bolsonaro e Weverton Rocha, nem do Departamento de Florestas, Pesca e Meio Ambiente da África do Sul, a quem o Comprova perguntou se há registro de licença de caça a elefante em nome de Flávio Bolsonaro.
Quem criou o conteúdo investigado?
Até 22 de setembro, os posts desinformativos ainda ativos acumulavam ao menos 9 mil visualizações. Para além da página de José de Abreu, os perfis analisados pelo Comprova apresentam poucas informações pessoais e costumam publicar conteúdos de teor político com críticas contra à direita e a Flávio Bolsonaro. Essas páginas analisadas concentram juntas cerca de 23 mil seguidores.
Dentre os perfis do X e do Facebook que postaram o conteúdo, apenas um respondeu ao pedido de contato. “Depois que tivemos conhecimento que a imagem se tratava de IA foi removida imediatamente”, afirmou o responsável pela página.
I Legenda: Resposta de um dos perfis que compartilhou a desinformação I
Por que as pessoas podem ter acreditado?
Além do uso de IA para a produção do conteúdo, as publicações se utilizam de outras táticas de convencimento. Em primeiro lugar, a montagem insere a imagem artificial no layout da reportagem verdadeira publicada pela revista piauí com o intuito de imitar uma fonte confiável e sequestrar sua credibilidade.
A peça de desinformação ainda usa o fato verídico sobre a ida de Flávio Bolsonaro ao safári na África do Sul , para tornar mais crível uma situação em que o candidato mata um elefante. Por fim, o apelo à emoção é utilizado ao incitar indignação diante da violência contra animais exóticos: “Flávio assassino de animais”, diz trecho da legenda de um dos posts.
Fontes que consultamos: O Comprova utilizou ferramentas de detecção de IA como o Hive Moderation e o SynthID, além do Google Lens para realizar a busca reversa. Também analisou a reportagem da revista piauí.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Notas da comunidade: Em um dos posts no X, um usuário pergunta se a foto é verdadeira ao Grok e a inteligência artificial da plataforma responde: “Imagens geradas por IA modernas podem ser praticamente indistinguíveis de fotos reais, dificultando a análise só visual. Essa imagem específica de Flávio Bolsonaro com espingarda ao lado de um elefante morto é falsa: montagem criada por IA. O safári turístico na África do Sul em março de 2025 ocorreu de fato (com fotos reais do grupo na savana publicadas pela piauí, mostrando animais vivos), mas sem qualquer registro de caça ou abate”.
Publicação que simula telejornal usando imagem de jornalista da CNN Brasil espalha desinformação sobre os ritos de suspeição no Judiciário.
Ao contrário do que afirma um vídeo publicado no TikTok, a condenação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes não significaria a libertação automática do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O conteúdo, gerado por inteligência artificial (IA), cita o Código de Processo Penal (CPP) para defender que “qualquer processo conduzido por um juiz declarado suspeito perde a validade jurídica do início ao fim”.
O CPP deixa claro que, se um juiz for considerado suspeito (ou seja, parcial), o processo pode ser anulado. No entanto, quem decide o tamanho dessa anulação é o tribunal responsável por julgar o caso — como o STF ou o Superior Tribunal de Justiça (STJ) —, seguindo regras internas.
O advogado e professor de Direito Constitucional Max Kolbe explica que uma eventual condenação de Moraes somente repercutiria “no processo de Bolsonaro se revelar uma causa de parcialidade relacionada” à atuação do magistrado como relator do caso, conforme também previsto no artigo 254 do CPP. Ainda segundo Kolbe, apenas “se essa vinculação for comprovada, a condenação poderá ser anulada”.
Cerca de 98,6% das falas do vídeo, que tinha cerca de 847,7 mil visualizações no TikTok até 18 de setembro, foram feitas com IA, segundo a plataforma Hive Detect. Outros 12,4% do vídeo também foram criados com IA.
I Legenda: Captura de tela da ferramenta Hive Detect, que detectou o uso de IA no vídeo I
Com a plataforma InVID WeVerify, o Comprova separou o vídeo em frames e, com auxílio do Google Lens, identificou que a produção utiliza imagens verdadeiras misturadas ao conteúdo de IA e traz a imagem da jornalista Elisa Veeck, da CNN Brasil, simulando uma ancoragem de telejornal.
I Legenda: Comprova usou a plataforma InVID WeVerify para separar o vídeo em frames I
I Legenda: Google Lens foi utilizado para identificar trechos utilizados e a jornalista que aparece no vídeo I
Em nota enviada ao Comprova, a CNN Brasil afirma que “o vídeo não foi produzido nem veiculado pela CNN e a fala não corresponde à jornalista”.
Qualquer processo conduzido por um juiz declarado suspeito perde a validade jurídica do início ao fim?
Não é bem assim. No Código de Processo Penal (CPP), no artigo 101, está escrito que, caso as dúvidas sobre a imparcialidade do juiz sejam comprovadas, os atos do processo principal (ou seja, atos como intimações, interrogatórios e recebimentos de denúncia) serão anulados.
Isso não significa, porém, que todo o processo conduzido pelo magistrado perde a validade jurídica em qualquer situação, pois a extensão da nulidade depende do caso e das decisões judiciais.
Em alguns casos, os tribunais entendem que apenas os atos praticados diretamente pelo juiz suspeito são inválidos. Em outros, concluem que a atuação do magistrado contaminou toda a condução do processo, levando à anulação de todos os atos decisórios e instrutórios sob sua responsabilidade. É o que aconteceu, por exemplo, em 2021, quando a 2ª Turma do STF reconheceu a parcialidade de Sérgio Moro na condução da ação penal que condenou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro referentes ao triplex em Guarujá.
O advogado e professor Max Kolbe explica que, no STF, o artigo 285 do Regimento Interno estabelece que, afirmada ou declarada a suspeição de um ministro (o afastamento dele quando há dúvida sobre a sua imparcialidade), serão considerados “nulos os atos por ele praticados”. O artigo 573 do CPP, por sua vez, estende a nulidade aos atos que dependam diretamente do ato viciado ou sejam sua consequência.
Ou seja, a nulidade pode alcançar o processo desde a origem, se a causa de suspeição já existia desde o início e o magistrado atuou em toda a persecução penal. No entanto, “não se pode afirmar que qualquer acusação ou condenação sofrida por um magistrado invalide automaticamente todos os processos em que ele atuou”, diz o professor.
Segundo Kolbe, é indispensável que haja uma declaração juridicamente válida de suspeição ou impedimento e que se identifique quando surgiu a causa e quais atosda ação penal foram contaminados.
O que pode acontecer em relação ao processo de Bolsonaro se Moraes for condenado?
Antes de declarar nulidade, é necessário determinar primeiro se Moraes, enquanto relator do caso no STF, atuou com interesse pessoal, inimizade, perseguição, abuso funcional ou qualquer comportamento objetivamente incompatível com a imparcialidade no conjunto de casos que culminou na condenação de Jair Bolsonaro. O advogado afirma que, por isso, a condenação do magistrado por si só “não produziria automaticamente a nulidade da condenação” de Bolsonaro.
Jair Bolsonaro não foi condenado individualmente por uma decisão de Moraes, mas pela Primeira Turma do Supremo por um placar de 4 votos a 1, em setembro de 2025. O ex-presidente cumpre pena de 27 anos e 3 meses em regime inicial fechado, mas está atualmente em prisão domiciliar humanitária concedida pelo STF.
Caso seja comprovado judicialmente que Alexandre de Moraes agiu de forma parcial na condução do caso, “a consequência”, na opinião de Kolbe, “deverá ser a desconstituição da condenação (de Jair Bolsonaro) e a realização de um novo julgamento”.
Nos casos em que alguém, no curso do processo judicial, sofre coação ilegal de sua liberdade, o artigo 647-A do CPP autoriza autoridades judiciais a expedir habeas corpus de ofício, reconhecendo a invalidade da condenação e determinando a imediata libertação, caso a condenação seja o único fundamento para a prisão.
Kolbe conclui ressaltando que uma eventual anulação do processo de Bolsonaro e a liberdade do ex-presidente não significariam absolvição automática quanto ao mérito das acusações, mas “o reconhecimento elementar de que ninguém pode permanecer preso por uma condenação produzida mediante a atuação determinante de um julgador juridicamente suspeito.”
Quem criouo conteúdo investigado pelo Comprova
A publicação partiu de um perfil no TikTok, que conta com mais de 10 mil seguidores e não informa quem são seus administradores nem disponibiliza canal de contato. Na apresentação, a frase “Notícias e política sem enrolação. BR”.
A conta explora temas hiperpolarizados da política nacional. Há registros de vídeos genéricos (como gravações de gatos, animais de quintal e jogos) combinados com recortes sensacionalistas voltados à política nacional, explorando figuras de grande apelo polarizador (como Lula, Bolsonaro, Moraes e André Mendonça).
O Comprova tentou contato com o perfil que publicou o conteúdo, mas não teve sucesso até a publicação desta verificação.
Por que as pessoas podem ter acreditado
Ao propagar a alegação de que o ministro André Mendonça condenaria o ministro Alexandre de Moraes, o autor explora o desconhecimento do público sobre o rito do Judiciário para captar visualizações, aproveitando a alta distribuição algorítmica para potencial ganho financeiro por visualização e manipulação da percepção política dos usuários.
Ele também traz conteúdos manipulados, utilizando a imagem de uma jornalista para conferir veracidade ao que está sendo dito, além de descontextualizar informações sobre o Código de Processo Penal.
Fontes que consultamos: Utilizamos as ferramentas Hive Detector e InVID WeVerify para analisar se o vídeo havia sido gerado por ferramentas de inteligência artificial. Entramos em contato com advogados para entender o escopo das leis e com a assessoria da CNN Brasil.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Os vídeos seguem um padrão, em que exibem a figura do presidente ao lado de pessoas comuns (uma policial, um militante do PT e um motoboy). “Acha certo um salário mínimo de R$ 3 mil por mês? Se sim, aperta todos os botões ao lado, principalmente na cruz, e comenta justiça”, dizem os supostos indivíduos que aparecem ao lado de Lula.
As publicações apresentam selos de aviso de mídia gerada por inteligência artificial (IA) que foram aplicados pela plataforma ou pelos próprios perfis.
O Comprova apurou que, no plano de governo protocolado pela candidatura do petista no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), disponível no portal Divulgacand, há cinco menções sobre a “política de valorização do salário mínimo”, porém, não há menções a valores específicos. O plano cita a manutenção da política de valorização do salário mínimo, com reajuste acima da inflação, como um dos instrumentos de combate às desigualdades.
Para 2027, o governo prevê um aumento de R$ 120 no valor do salário mínimo, que é de R$ 1.741, conforme o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLN 24/26). O valor definitivo deve ser conhecido no fim de 2026, após a divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulado até novembro.
Entre as publicações mais recentes de dois dos perfis analisados há conteúdos de apoio ao presidente – inclusive um deles tem a foto de Lula na imagem de perfil. Já uma terceira conta, que possuía o mesmo teor político, passou a publicar vídeos voltados ao futebol. Juntas, os posts acumulavam, até o dia 18 de setembro, mais de 239 mil curtidas.
Ao identificar o período de atividade dos perfis, verifica-se que os três iniciaram postagens de teor político em julho de 2026.
O Comprova tentou contato com os três perfis analisados, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto. Nas publicações, há pedidos para que os espectadores sigam os perfis, o que amplia a base de seguidores e pode aumentar o potencial de remuneração pelo TikTok.
Por que as pessoas podem ter acreditado
As publicações investigadas usam informações verdadeiras (o salário mínimo ser tema de campanha e sancionado pelo presidente) para associar a imagem de Lula a uma informação falsa, dando aparência de compromisso oficial sem apresentar fonte ou declaração verificável. Além disso, na tentativa de convencer o público, os desinformadores usam IA para criar uma situação que pode parecer um registro real.
Já o pedido para “apertar todos os botões ao lado” é uma chamada à ação, enquanto a pergunta sobre um valor específico explora apelo emocional e ancoragem, pois apresenta uma cifra atraente e tenta associá-la diretamente a Lula.
Como identificar vídeos gerados por IA
Vídeos criados ou alterados por inteligência artificial podem parecer cada vez mais reais. Por isso, não basta observar isoladamente a imagem e procurar algum erro evidente. A verificação deve considerar o vídeo, o áudio, a origem do conteúdo e o contexto em que ele foi publicado.
No site do Comprova, é possível ter acesso a dicas para saber se um conteúdo foi manipulado e não espalhar desinformação.
Veja alguns passos que podem ajudar a identificar uma possível manipulação:
Observe rosto, boca e movimentos
Verifique se os movimentos do rosto acompanham naturalmente a fala. Alterações nos olhos, dentes, boca, cabelo ou contorno do rosto podem indicar manipulação. Observe mãos, dedos e braços, que podem apresentar deformações ou mudanças repentinas.
Preste atenção ao áudio
Confira se a voz é compatível com quem aparece no vídeo e se não há mudanças repentinas no tom, na velocidade ou na qualidade.
Procure inconsistências na imagem
Observe cenário, iluminação e sombras. A pessoa pode ter nitidez diferente da do ambiente, enquanto sombras, reflexos e fontes de luz podem não seguir a lógica da cena. Textos, placas, números e logotipos também merecem atenção, pois sistemas de geração de imagem podem deformar letras ou alterar elementos entre cenas.
Use detectores de IA como uma etapa da verificação
Existem ferramentas que analisam vídeos em busca de sinais associados a conteúdos sintéticos ou manipulados. Entre as opções gratuitas estão o NVIDIA Synthetic Video Detector e ferramentas independentes como CheckReal e FauxLens, que oferecem análise de vídeos sem cobrança em determinadas condições.
Sistemas como o SynthID, do Google DeepMind, inserem marcas d’água digitais invisíveis em conteúdos gerados por IA para identificar sua origem artificial.
Fontes que consultamos: O Comprova utilizou ferramentas de detecção de IA da Hive Moderation e a SynthID da Gemini para a análise dos conteúdos. Também consultou o plano de governo de Lula publicado no TSE, assim como declarações do candidato sobre o salário mínimo veiculadas na mídia. A equipe ainda entrou em contato com os perfis do TikTok, mas não obteve resposta.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Publicação nas redes sociais distorce dados patrimoniais do candidato. Valor declarado é direito a receber e juros de contratos desse tipo são tributáveis.
Vídeo publicado por um influenciador de finanças no Instagram afirma erroneamente que o candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) seria “o maior devedor de si mesmo do Brasil” e que nunca vai precisar pagar Imposto de Renda dos R$ 121 milhões em dívidas devido a uma suposta engenharia tributária.
O conteúdo distorce o significado de uma declaração feita por Cury à Justiça Eleitoral. O candidato declarou R$ 121,19 milhões como “empréstimo mútuo” concedido à Filadélfia Nature Participações, empresa da qual é sócio junto com sua esposa e suas três filhas. O registro indica que Cury emprestou o dinheiro à empresa e, portanto, aparece como credor, enquanto a empresa é a devedora.
O Comprova entrou em contato com o candidato e com o criador do conteúdo, mas não recebeu resposta até a publicação desta checagem.
Como Cury também é sócio da empresa que recebeu o dinheiro, ele possui participação na empresa que tem a obrigação de devolver os R$ 121 milhões a ele. Essa relação, porém, não significa que o candidato seja “devedor de si mesmo”. Segundo a professora e consultora financeira e de gestão de processos Fátima Ribeiro, a operação envolve duas partes juridicamente distintas: Cury, como pessoa física e credor, e a empresa, como pessoa jurídica e devedora.
“Contabilmente, se Augusto Cury emprestou esse dinheiro para a empresa, ele não é devedor desse valor. Ele é credor. Para ele, pessoa física, existe um direito a receber, portanto um ativo. Para a empresa, existe uma obrigação de devolver esse dinheiro, portanto um passivo. Então afirmar que ele deve R$ 121 milhões para si mesmo não é tecnicamente correto. O que os dados indicam é justamente o contrário: a holding deve esse valor a ele”, esclarece.
A declaração pública também não permite concluir que Cury esteja isento do Imposto de Renda sobre os R$ 121 milhões. O valor principal de um empréstimo não é, por si só, renda, mas eventuais juros recebidos pelo credor podem estar sujeitos à tributação. Para determinar como a operação é tributada, seriam necessários dados como o contrato de mútuo, a taxa de juros, o prazo, os pagamentos realizados e o regime tributário da empresa.
O autor do vídeo também erra ao dizer que Augusto Cury não é escritor, o que não é verdade. Ele já publicou dezenas de livros de ficção, desenvolvimento pessoal e educação.
E a suposta engenharia tributária?
O vídeo também alega que a empresa que pagaria juros a Cury poderia reduzir sua tributação em até 34% e que “nunca vai precisar pagar” Imposto de Renda sobre o valor. Para chegar a essa conclusão, seria necessário conhecer as condições do contrato, especialmente se há juros e como ocorre a devolução do principal.
Fátima Ribeiro explica que, em empresas tributadas pelo Lucro Real, alguns gastos com juros podem reduzir o valor sobre o qual os impostos são calculados, desde que a operação esteja formalizada corretamente e que essa despesa seja aceita pela legislação tributária. Isso, porém, não significa que todo pagamento de juros gere automaticamente uma economia de 34% em impostos. Esse efeito depende das características da operação e da situação tributária da empresa.
A especialista também chama atenção para a tributação do outro lado da operação. Se a pessoa física recebe juros decorrentes do empréstimo, esses rendimentos estão sujeitos à tributação. Por isso, não é possível considerar apenas uma eventual redução de imposto da empresa para concluir que a operação permite a Cury receber os valores sem pagar Imposto de Renda.
“Quanto à existência da holding, de empréstimos entre sócios e empresas e de participações societárias no Brasil e no exterior, essas estruturas não são, por si só, ilegais. Elas podem fazer parte de um planejamento patrimonial, societário ou tributário perfeitamente legítimo”, diz a especialista.
“A questão muda quando uma estrutura formal não corresponde à realidade econômica da operação. Se não existe efetiva circulação de recursos, se há contratos simulados ou se determinada operação é utilizada apenas para ocultar outro negócio, aí podem surgir questionamentos fiscais”, acrescenta.
Como funciona o Imposto de Renda do empréstimo mútuo?
A contadora e professora Fátima Ribeiro esclarece ainda que, em uma operação de mútuo, o Imposto de Renda não incide sobre a devolução do valor principal emprestado. A tributação alcança os juros ou rendimentos eventualmente pagos em razão desse empréstimo.
No mútuo, uma pessoa ou empresa entrega recursos a outra, que assume a obrigação de devolvê-los conforme as condições estabelecidas em contrato. No caso analisado, o valor aparece na declaração patrimonial de Augusto Cury como um direito a receber, ou seja, um ativo, e não como uma dívida pessoal.
Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Para se aprofundar mais: Comprova e Aos Fatos já checaram conteúdos sobre patrimônio de candidatos à Presidência da República.
Nas redes sociais, trechos de reportagens são utilizados de forma descontextualizada para alegar que o candidato do PL teria ido aos Estados Unidos para fugir de investigações envolvendo ele e Daniel Vorcaro.
Não é verdade que o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) viajou para os Estados Unidos no dia 13 de setembro, conforme vídeo publicado por um usuário no TikTok. O post cita trechos de reportagens do Metrópoles, da Folha de S.Paulo e da TVT News, publicadas em maio deste ano, quando o senador foi aos Estados Unidos e se encontrou com o presidente Donald Trump. O Comprova verificou as imagens no vídeo assim como as reportagens citadas, além das táticas utilizadas para manipular a opinião pública, principalmente no processo eleitoral.
O vídeo em questão alega que o candidato teria fugido para os Estados Unidos em busca de apoio de Trump após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça ter retirado o sigilo sobre os pagamentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, principal investigado no Caso Master. No entanto, o Comprova esclarece que as informações no vídeo são descontextualizadas.
Uma das matérias citadas no post é ilustrada por imagens de uma entrevista do presidenciável em dezembro de 2025 a vários veículos de imprensa no Brasil; na ocasião, Flávio Bolsonaro vestia uma camisa polo verde.
Além disso, reportagens do UOL, da CNN Brasil e do O Globo informaram que o candidato ficou em Brasília após cancelar agenda de campanha que tinha em Presidente Prudente, no interior paulista, devido às fortes chuvas ocorridas em 13 de setembro.
Mesmo após concluir que o post era falso e Flávio não viajou para o exterior na data, o Comprova tentou contato com a assessoria de imprensa do senador, mas não houve retorno até a publicação desta checagem.
Quem criou a postagem e qual é o seu interesse na disseminação do conteúdo?
Apesar da conta ter 8.721 seguidores, o vídeo alcançou, até a tarde do dia 15 de setembro de 2026, 144,7 mil visualizações, 6.860 curtidas e 1.056 comentários. Entre as interações, diversos usuários demonstram acreditar na falsa fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos.
No Instagram, outro perfil, que possui a etiqueta “perfil gerado por IA”, replicou o vídeo e alcançou 5,9 mil visualizações e 293 comentários até a tarde do dia 15 de setembro, também com comentários de pessoas acreditando na veracidade da afirmação sobre a viagem.
Ambos os perfis verificados pelo Comprova publicam diversos conteúdos sobre temas de grande repercussão na política brasileira. O perfil do TikTok que primeiro postou o vídeo descontextualizado foi contatado, mas não houve resposta até a publicação desta verificação.
Quais táticas de persuasão foram utilizadas pela publicação?
O vídeo analisado pelo Comprova utiliza táticas desinformativas, principalmente a descontextualização dos fatos e as falsas conexões, que, no período eleitoral, podem contribuir para polarizar o debate nas redes sociais.
O conteúdo também utiliza o apelo emocional ao vincular imagens de Flávio Bolsonaro, em maio, no Aeroporto de Guarulhos, e incentiva reações de rejeição ao candidato por parte do público ao serem usadas para ilustrar sua fuga para os EUA diante da repercussão do caso do Banco Master.
Fontes que consultamos: O Comprova utilizou ferramentas de busca reversa, como o Google Lens, para verificar a autenticidade das imagens da publicação, além de elencar quais as reportagens citadas e quando foram publicadas, como a do Metrópoles. Assim como entrou em contato com a assessoria do candidato.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Outras checagens sobre o tema: O Aos Fatos já havia checado que Flávio Bolsonaro não viajou aos Estados Unidos recentemente.
Negócios e pessoas com crises de reputação aparecem com menções positivas no repositório de artistas Mapas Culturais, mesmo sem ligação com a área, para manipular respostas geradas por IAs e buscadores.
Por Adrián González, Giovana Frioli, Jeanfreddy Gutiérrez e Talita Burbulhan
Esta matéria foi elaborada no âmbito do projeto “Promover informações confiáveis e combater a desinformação na América Latina”, financiado pela União Europeia. Seu conteúdo é de responsabilidade exclusiva do Cazadores de Fake News e do Estadão, e não reflete necessariamente os pontos de vista da União Europeia.
Empresários estrangeiros com “nome sujo” estão limpando sua imagem no mundo virtual graças a uma brecha em uma plataforma de sites de governos brasileiros. Uma investigação conjunta de Cazadores de Fake News e Estadão Verifica encontrou biografias elogiosas de dezenas de homens de negócios, em espanhol, em um repositório público na internet que deveria conter apenas informações sobre artistas, produtores e manifestações culturais do Brasil.
Pelo menos 40 pessoas ou empresas com histórico de problemas com a Justiça ou crises de imagem, oriundas de países como Venezuela, Espanha, Chile e Peru, conseguiram hospedar mais de 580 páginas nessa espécie de Wikipedia das artes que se chama Mapas Culturais.
Como a rede Mapas Culturais está sob o domínio governamental gov.br, tudo ali é considerado de alta reputação por buscadores de internet, como o Google, e por robôs de empresas de inteligência artificial. Quem fizer uma busca ou pergunta sobre esses nomes terá grandes chances de receber resposta baseada nas biografias elogiosas. Esse é o motivo da invasão do sistema brasileiro.
Embora tenha sido inicialmente uma iniciativa do governo federal, a rede Mapas Culturais é descentralizada, e vários de seus sites são geridos por Estados ou prefeituras. É principalmente nesses sites locais que os perfis irregulares foram localizados – muitos em mais de uma publicação. Como na Wikipedia, o acesso à plataforma é livre – ou seja, qualquer pessoa pode abrir cadastro e publicar informações.
A equipe de reportagem investigou 282 mil perfis publicados nos Mapas Culturais de 21 cidades ou Estados brasileiros, além da plataforma federal e da rede IberCultura Viva, que usa o mesmo software de publicação. No total, foram encontrados 598 sites suspeitos, por aparecer duas ou mais vezes. É nesse conjunto que estão os textos sobre as 40 pessoas ou empresas com “nome sujo”. E também 17 perfis sobre uma firma espanhola cuja especialidade é justamente promover o apagamento ou a redução de conteúdo negativo no ambiente digital, a Meritoo.ai, e seu fundador, Alejandro Abascal.
A Cazadores de Fake News, agência de checagens sediada no Chile, foi quem primeiramente detectou o uso irregular da rede Mapas Culturais, ao investigar uma articulação de contas inautênticas no Instagram e no X. Essas contas compartilhavam links para páginas dos Mapas Culturais com biografias simpáticas ao empresário venezuelano José Simón Elarba Haddad, dono da empresa de limpeza urbana Fospuca e presidente do banco Bancamiga. Posteriormente foram identificados perfis de mais dois empresários com negócios ligados aos governos de Nicolás Maduro e Delcy Rodriguez, na Venezuela.
Elarba, como é conhecido, foi quem teve a maior quantidade de inserções indevidas no sistema brasileiro. Foram 19 publicações em 19 sites distintos dos Mapas Culturais, entre 9 de janeiro de 2025 e 29 de janeiro de 2026. Nos textos, ele é descrito como um empresário com três décadas na indústria de pneus, no abastecimento industrial e na pecuária sustentável. Os perfis destacam sua “disciplina operacional” e visão estratégica. Elarba aparece ainda como um incentivador da economia circular, que lidera “projetos-chave contra as mudanças climáticas”, promove “startups verdes” e combina “inovação institucional, expansão empresarial e gestão estratégica”.
Seu perfil no Mapa Cultural de Campos dos Goytacazes (RJ) se intitula “Quem realmente é José Simón Elarba Haddad e por que gera tanto interesse?”. O enunciado foi redigido de forma a emular uma pergunta que possivelmente alguém faria ao pesquisar pelo empresário no Google.
O que as biografias elogiosas omitem são os vínculos do empresário com o poder na Venezuela, documentados pela imprensa independente há mais de uma década. Em dezembro de 2014, o site Armando.info informou que ele foi fotografado em uma boate ao lado de Carlos Malpica Flores, então diretor da petroleira estatal PDVSA e sobrinho de Cilia Flores, ex-primeira-dama da Venezuela. Elarba admitiu ser “bastante amigo” de Malpica, alvo de sanções dos Estados Unidos, da Suíça e do Canadá por suspeitas de corrupção, mas negou vínculos financeiros com ele.
No mesmo ano, Elarba recebeu US$ 1,48 milhão de um paraíso fiscal, transferência considerada suspeita pelo banco New York Mellon, segundo a investigação jornalística FinCEN Files. Em agosto de 2024, participou de uma reunião de Delcy Rodríguez, então vice-presidente venezuelana, com representantes do setor bancário do país.
A conta que criou um dos perfis de Elarba também foi responsável pelo cadastro de outro personagem venezuelano, Juan Carlos López Tovar. Ele teve 17 perfis publicados em 16 Mapas Culturais, entre maio de 2025 e junho de 2026.
Uma investigação do site armando.info com o Consórcio Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP, na sigla em espanhol), La Prensa de Panamá e Transparencia Venezuela identificou López Tovar como ex-marido de uma sobrinha de Cilia Flores e sócio de Malpica Flores em duas empresas. A reportagem documentou que sua empresa recebeu pelo menos US$ 5,8 milhões, em 2014, de Ramón Carretero Napolitano, empresário panamenho. Ele foi alvo de sanções dos Estados Unidos, em dezembro de 2025, por envolvimento em esquemas de corrupção com o governo venezuelano. Nada deste histórico aparece em seus perfis nos Mapas Culturais.
Uma busca no Google pelo nome do empresário Juan Carlos Tovar López leva aos mapas culturais de João Pessoa e do Amapá.
Outro nome é o do espanhol Julio Martínez Sola, ex-presidente e cofundador da Plus Ultra Líneas Aéreas. Ele tem seis perfis em seis Mapas Culturais diferentes.
Martínez Sola foi detido em dezembro de 2025 e depois recebeu liberdade condicional. Ele reconheceu o pagamento de uma propina ao ex-presidente do governo espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, acusado em maio de 2026 de organização criminosa, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.
A empresa aérea de Martínez Sola recebeu um socorro financeiro do governo espanhol, de 53 milhões de euros, em março de 2021. A operação recebeu críticas devido ao fato de ele operar apenas 0,03% dos voos do país.
Martínez Sola também tem perfil no portal IberCultura Viva, que tem como proposta mapear expressões artísticas de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Costa Rica. Publicada em 1º de julho de 2025, a página destaca entre as realizações do empresário o fortalecimento de rotas aéreas da Espanha para Lima, Bogotá e Caracas. O texto omite a detenção e as suspeitas que recaíram sobre ele em seu país.
Os perfis inautênticos de Sola nos mapas culturais são privilegiados nas buscas do Google.
Demais pessoas encontradas em perfis suspeitos
Os 40 nomes verificados não formam um grupo homogêneo. Há empresários, marcas e serviços comerciais de distintos países e setores sem relação entre si. O que eles têm em comum é um histórico de sanções, denúncias ou coberturas de imprensa desfavoráveis, além da presença nos Mapas Culturais, onde seus perfis favoráveis disputam espaço com informações negativas em buscadores como o Google.
Uma parte tem sanções ou condenações robustas. É o caso de empresários chilenos condenados em 2018 em um esquema de fraudes tributárias e financiamento ilegal de campanhas que ficou conhecido como Caso Penta. Há ainda uma empresa de cimentos colombiana punida por formação de cartel.
Outra parte não registra sanções, mas sim outros tipos de crises reputacionais, como menções no caso Epstein ou na investigação de transações financeiras suspeitas conhecida como FinCEN Files e envolvimento em denúncias de assédio, golpe, fraude ou violência de gênero. Em muitos casos, as denúncias não chegaram a se converter em investigações judiciais ou administrativas formais, ou foram encerradas. Mas as notícias sobre elas continuam disponíveis.
Esta reportagem não descarta que algumas das pessoas possam ter sofrido acusações infundadas. Também não obteve comprovação de que os perfis tenham sido criados diretamente por causa de seus antecedentes legais ou reputacionais. O que se pode dizer é que pessoas com processos e condenações têm perfis com informações favoráveis em uma mesma rede de portais governamentais brasileiros, e que compartilham algumas características. Também há casos em que uma pessoa ou empresa procura se desvincular de homônimos.
Meritoo: serviço de lavagem de reputação nas redes
A lista de perfis irregulares nos Mapas Culturais não inclui apenas quem se beneficia do serviço de limpeza de imagem, mas também quem o vende. É o caso do empreendedor espanhol Alejandro “Alo” Abascal e da empresa dele, a Meritoo. Ela oferece o serviço de “desindexação e deslocamento de conteúdo negativo online”.
De acordo com a própria descrição corporativa, a empresa opera como uma marca dedicada à reputação de empresas e pessoas, “especializada em Google e AI Overview”. No site, a empresa oferece a geração de “resenhas reais e feedback com IA” e a eliminação de conteúdos para “mitigação de impacto midiático de brechas de segurança”.
Abascal e a Meritoo foram procurados, mas não responderam.
Em um vídeo publicado em 2021 no canal da empresa no YouTube, que na época se chamava Remove Group, os sócios Borja Martín de la Torre e Alejandro Abascal deram declarações para uma televisão espanhola sobre os serviços. “Desindexamos e eliminamos todo tipo de conteúdo”, disse Abascal. “Temos casos de pessoas que estão sofrendo bullying, assédio cibernético, que sofrem ataques de fake news, campanhas de desprestígio, todo tipo de clientes.”
De la Torre explicou que a empresa tinha duas vias para alcançar o que promete. A primeira, a desindexação, seria jurídica e se baseia no chamado direito ao esquecimento. É possível solicitar ao Google que deixe de mostrar uma notícia sobre uma pessoa depois de passados cinco anos. Mas há uma exceção para pessoas de interesse público. Neste caso, a Meritoo atua de outra maneira. “Empresas, pessoas expostas, políticos, eventos recentes não têm o direito à desindexação ou eliminação”, disse De la Torre. “Então, mudamos para a técnica da perda de posições ou, como eu chamo, posicionamento inverso.”
Abascal deixou ainda mais claro: “Jogamos o conteúdo (indesejado) para a segunda ou terceira página (de buscadores como o Google), onde ninguém o vê. Como fazemos isso? Com a nossa tecnologia.”
Mapas Culturais
A tecnologia por trás dos Mapas Culturais é brasileira e gratuita, disponível publicamente como software livre. Surgiu em 2013, a partir de encontros entre programadores, gestores públicos e pessoas da cultura. Ela serve como um repositório de agentes e projetos culturais.
Acabou adotada dois anos depois pelo governo federal como a base de dados oficial para unir, de forma padronizada, informações e indicadores sobre o setor cultural da União, dos Estados e dos municípios.
Cada Mapa Cultural possui uma seção com um buscador de perfis com as informações de agentes culturais.
O repositório do ministério foi batizado como Mapa da Cultura, e funciona até hoje, com mais de 260 mil agentes culturais inscritos. A plataforma passou a ser o espaço de divulgação de editais do MinC.
Em agosto de 2026, por exemplo, as inscrições para um processo de seleção de profissionais responsáveis por pareceres técnicos de projetos eram feitas exclusivamente pelo mapa nacional. O ministério informou que, futuramente, a plataforma deve ser substituída por uma nova, chamada CultBR.
Cada Estado e município pode adotar a tecnologia para gerir o setor cultural em seus territórios. Nesses casos, cada ente é responsável por sua infraestrutura, configuração, manutenção e gestão de dados. É aí que entra um dos principais gargalos do Mapas Culturais, segundo Lívia Ascava, sócia-diretora da Hacklab, empresa desenvolvedora da plataforma. A falta de estrutura técnica de Estados e municípios para manutenção do software abre brecha para a vulnerabilidade dos sistemas.
“Existe uma série de instalações que nunca foram zeladas, mas que ainda estão online. A tecnologia é um jardim. Então, se você deixa a tecnologia abandonada, ela fica cheia de spam, usuários indesejados”, diz Ascava.
Um dos sistemas investigados pela reportagem é o de São Gonçalo do Amarante (CE). No período de 9 de junho de 2025 a 17 de outubro de 2025, foram inscritos 39 perfis na plataforma. Destes, apenas três eram agentes culturais legítimos. Um deles era um perfil que se descrevia como “hacker”. Todos os outros eram pessoas e empresas investigadas pela reportagem.
Contas inautênticas
O cadastro de agentes culturais nas plataformas mapas culturais é feito sem moderação ou autorização prévia antes da publicação nos sites. O projeto adota a autodeclaração de artistas na plataforma a fim de evitar juízo de valor sobre a definição do que é considerado cultura. Também foi considerada a dificuldade de conectividade que artistas em regiões isoladas do Brasil poderiam ter.
“(Aumentar ou diminuir o acesso) É uma discussão recorrente”, explica Ascava, do Hacklab. “Quando discutimos a possibilidade de incorporar o gov.br(plataforma digital unificada do governo federal, com camadas mais robustas de autenticação), por exemplo, podemos acabar excluindo a população ribeirinha e quilombola.”
O nível de monitoramento sobre o uso indevido da plataforma varia conforme cada gestão. O Ministério da Cultura diz acionar mecanismos de segurança quando há a identificação de “conteúdos ofensivos”, como tentativa de comercialização de produtos ilícitos ou utilização mal-intencionada. Já o Hacklab afirma possuir um detector de spam que emite alertas quando palavras-chaves suspeitas são utilizadas.
Após o contato da reportagem, a empresa disse que passaria a incluir o termo “empresário” no monitoramento dos mapas culturais sob sua gestão.
Outra medida adotada nas plataformas é o uso do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) para criar uma conta nos sistemas. Contudo, não há uma validação com a base de dados da Receita Federal, o que abre uma brecha para usos indevidos.
Isso já aconteceu antes. Em 2021, uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo mostrou que um perfil promovia conteúdos nazistas no Mapa Cultural da cidade de São Paulo. O site foi retirado do ar após a publicação do material.
Segundo Ascava, os exemplos mostram que as contas inautênticas não são feitas a partir de um hackeamento do sistema, mas da falta de acompanhamento das plataformas. “Então, não é uma vulnerabilidade no sentido técnico, mas no sentido de gestão da tecnologia, de ter protocolos e rotinas de zeladoria”, diz.
Esta investigação faz parte de “Los Desinformantes”, uma série de investigações sobre diferentes atores que disseminam desinformação na região, realizada pela LatamChequea, a rede de verificadores latino-americanos. Esta reportagem foi elaborada no âmbito do projeto “Promover informações confiáveis e combater a desinformação na América Latina”, coordenado pelo Chequeado e financiado pela União Europeia. Seu conteúdo é de responsabilidade exclusiva do Cazadores de Fake News e do Estadão e não reflete necessariamente os pontos de vista da União Europeia.