O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a golpes e fraudes virtuais.
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Comprova Explica

Investigado por: 03/09/2026

Rejeição de 68% a Lula no Paraná é real, mas não indica ‘derrota iminente’; entenda

Comprova Explica
Pesquisa retrata a opinião de eleitores paranaenses no período da coleta e não permite prever o resultado da eleição; saiba como ler um levantamento eleitoral.

Conteúdo analisado: Uma postagem no Facebook viralizou com a afirmação de que uma pesquisa eleitoral no Paraná apontou um “índice de rejeição próximo de 70%” ao presidente Lula (PT), candidato à reeleição, o que acende um alerta para uma “derrota iminente” nas eleições presidenciais. O post foi feito em 24 de agosto e teve mais de 6,3 mil compartilhamentos e 15,3 mil comentários no Facebook.

Comprova ExplicaSem indicar a origem ou a data da pesquisa, a postagem compartilha um card com a imagem de Lula e o texto: “Rejeição de Lula chega a quase 70% no Paraná e equipe de campanha acende alerta para derrota iminente”.

O Comprova identificou que uma pesquisa realizada pela Quaest, em parceria com a plataforma de investimentos Genial, em julho, entre eleitores do Paraná, apontou que Lula era o candidato à Presidência mais rejeitado no estado (68% disseram que não votariam nele). Porém, ao contrário do que a postagem dá a entender, a rejeição no Paraná não significa que o candidato irá sofrer uma “derrota iminente”.

“Dizer que 68% de rejeição significa ‘derrota iminente’ é ir além do que a pesquisa permite afirmar”, afirmou a Quaest em nota ao Comprova. “O dado sustenta a conclusão de que Lula enfrenta uma situação eleitoral muito difícil no Paraná naquele momento. Não sustenta, sozinho, a conclusão de que ele está derrotado, porque pesquisa não prevê o futuro: ela mede o eleitorado no momento da coleta.”

Cientista político e CEO da Quaest, Felipe Nunes acrescenta que o colégio eleitoral do Paraná tem baixa representatividade no cenário nacional, e que nenhum dado de pesquisa feita em um estado pode ser extrapolado nacionalmente. “Ele representa exclusivamente a opinião daquela fração do eleitorado brasileiro”, afirma.

Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), José Paulo Martins Júnior reforça que o Paraná responde por cerca de 5% do eleitorado brasileiro e que, por isso, mesmo que a rejeição a Lula seja alta no estado, o dado não é capaz de significar uma derrota do candidato nas eleições neste momento. 

“Ter uma alta taxa de rejeição no Paraná não significa absolutamente nada em termos de resultado geral”, explica o professor. “Se o dado fosse do estado de São Paulo ou de Minas Gerais, eu diria que, aí sim, ele poderia influenciar o resultado final.”

Segundo dados atualizados do TSE, São Paulo e Minas Gerais são os maiores colégios eleitorais do país, sendo seguidos por Rio de Janeiro e Bahia. Paraná aparece em quinto. A representatividade do eleitorado brasileiro em termos estaduais está dividida da seguinte forma: 

  • São Paulo: 34.104.226 eleitores – 21,48% do total
  • Minas Gerais: 16.377.659 – 10,32%
  • Rio de Janeiro: 12.857.000 – 8,10%
  • Bahia – 11.321.005 – 7,13%
  • Paraná – 8.609.026 – 5,42%

Martins ainda avalia que Lula está, no momento, com mais intenções de voto nos principais colégios eleitorais do país do que em 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro. 

Situação pode mudar às vésperas das eleições

Segundo o professor da UFF, outro aspecto que aponta para o inexpressivo impacto da rejeição de 68% no Paraná é o fato de o dado ser de julho. Martins explica que há uma tendência histórica de queda de rejeição de candidatos à reeleição à medida em que a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão avançam: “Isso porque o candidato tem a oportunidade de mostrar suas realizações. Mesmo que diminua pouco, a tendência é de queda”.

Felipe Nunes e José Paulo Martins fazem uma ressalva: em uma eleição acirrada, qualquer variação pode ser significativa, mesmo no Paraná. “Mas isso só pode se tornar uma realidade lá na frente, às vésperas da votação. Não em julho”, destaca o professor da UFF. 

Como ler uma pesquisa eleitoral? 

Uma pesquisa eleitoral é uma fotografia do período em que as entrevistas foram realizadas, não uma previsão do resultado das urnas. Para interpretar os números, é preciso observar informações como a data da coleta, a área abrangida, a pergunta feita, a margem de erro e o nível de confiança. 

No caso da pesquisa Genial/Quaest, foram sorteados 59 municípios e feitas 1.104 entrevistas com eleitores do Paraná com 16 anos ou mais entre os dias 21 e 25 de julho. As amostras tentam reproduzir a composição da população, escolhendo pessoas de diferentes idades, sexos, rendas e escolaridades.

Para medir a rejeição, a pesquisa perguntou se o entrevistado conhecia cada candidato e votaria ou não nele. No caso de Lula, 68% responderam que o conheciam e não votariam nele, 30% disseram que o conheciam e votariam e 2% afirmaram que não o conheciam. Portanto, os 68% representam a parcela dos eleitores paranaenses entrevistados que rejeitavam Lula naquele período, e não o cenário nacional ou o resultado da eleição. 

Considerando a margem de erro máxima de 3 pontos percentuais da pesquisa, o índice de rejeição pode variar entre 65% e 71%. Já o nível de confiança de 95% indica que, se a pesquisa for repetida 100 vezes, em 95 delas os resultados estarão dentro da margem de erro para mais ou para menos.

Sabendo o número de identificação do levantamento, é possível acessar o site do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para conferir mais informações sobre determinada pesquisa eleitoral. As entidades que realizam esses levantamentos são obrigadas a registrar informações como custo, quais pessoas foram ouvidas e de que forma os questionamentos foram feitos. 

Quem publicou o conteúdo?

No Instagram e no Facebook, a página publica notícias de variedades, segurança e política de alguns estados do país, além de classificados de negócios e eventos de Goiás. Algumas das publicações distorcem e exageram fatos que circulam na imprensa, aparentemente buscando aumentar o potencial de engajamento nas redes sociais.

Antes e depois da postagem sobre a rejeição de Lula, a Mundo Novo Mil Grau fez publicações com os resultados de pesquisas eleitorais de outros estados (MA, BA, MT) e citando as fontes. O Comprova entrou em contato com o administrador para questionar a motivação da postagem, mas não obteve retorno.

Quais táticas de persuasão foram utilizadas pela publicação?

A publicação utiliza três principais táticas de persuasão para se comunicar com o público. A começar pela linguagem emocional, com expressões adjetivadas como “cenário desfavorável” e principalmente “derrota iminente”. Essa última, mesmo que a publicação deixe claro, na legenda, que se trata de uma “interpretação política”, o que sobressai é a imagem do card, com a chamada que vincula o dado de rejeição no Paraná diretamente a um sinal de fracasso nas eleições. 

Além disso, também é possível perceber a estratégia de cherry-picking, quando a publicação seleciona informações e destaca exclusivamente um dado negativo. No entanto, o post não apresenta o instituto responsável pela pesquisa, o período de coleta, o número de entrevistados, a margem de erro ou outros resultados do levantamento que permitiriam contextualizar o percentual próximo a 70%.

Também é possível identificar uma tática de falácia lógica, pois há um salto entre o dado apresentado e a conclusão sugerida. Uma taxa de rejeição, isoladamente, não permite concluir que um candidato sofrerá uma “derrota iminente” na eleição, já que o resultado eleitoral depende de diversos fatores, incluindo intenção de voto, outros candidatos, evolução da campanha e comportamento do eleitorado até a votação.

Fontes consultadas: O Comprova analisou o relatório da pesquisa Genial/Quaest, os registros do levantamento na Justiça Eleitoral, a explicação da Quaest sobre sua metodologia em 2026 e as regras do TSE para pesquisas eleitorais, além das postagens da página “Mundo Novo Mil Grau”. O projeto também entrou em contato com a Quaest, o CEO da empresa, Felipe Nunes, e com o professor do Departamento de Ciência Política da UFF José Paulo Martins Junior. O Comprova ainda fez contato com o administrador da página, mas não houve resposta. 

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta, nesse monitoramento, um tema que gera muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: Consulte a explicação da Quaest sobre as mudanças na metodologia das pesquisas para 2026 e o sistema do TSE para consultar pesquisas eleitorais registradas.

Golpes virtuais

Investigado por: 02/09/2026

Falsa prova de vida: como funciona o golpe que usa o nome do INSS

Golpes virtuais
Golpistas se passam por funcionários do INSS para aplicar o golpe da falsa prova de vida e roubar dados pessoais de beneficiários. As abordagens podem ocorrer por ligações ou mensagens de texto, sob a ameaça de suspensão do benefício. O INSS reforça que não solicita dados pessoais, senhas ou pagamentos por telefone para realizar o procedimento.

Golpe da falsa prova de vida do INSS

É uma fraude de engenharia social e roubo de dados que usa a comprovação de vida, um procedimento real do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), como pretexto para obter informações pessoais ou induzir a vítima a realizar ações que podem levar a outras fraudes.

Como os golpistas abordam as pessoas: Eles podem entrar em contato por telefone ou mensagem de texto e se apresentar como funcionários do INSS ou da Central 135, serviço telefônico do órgão. Eles afirmam que o beneficiário precisa realizar ou regularizar a ´prova de vida para evitar a suspensão ou o corte do benefício.

Durante a ligação, o criminoso pode conduzir a vítima por uma sequência de instruções. Uma delas é pedir que a pessoa digite uma determinada opção no telefone, como 1 ou 2, para supostamente confirmar a situação do benefício ou dar continuidade ao atendimento. A partir dessa interação, o golpista tenta obter informações pessoais ou induzir a vítima a realizar outras ações.

Em outras modalidades, os criminosos enviam SMS ou mensagens via WhatsApp com links que direcionam a vítima para páginas falsas. A mensagem pode informar que o benefício será suspenso por falta de prova de vida e orientar o segurado a acessar o link para atualizar o cadastro ou regularizar a situação. Ao clicar e preencher os dados solicitados, a vítima entrega suas informações aos criminosos.

Que táticas eles usam para chamar a atenção: Os criminosos utilizam principalmente a imitação de uma fonte confiável, apresentando-se como servidores do INSS ou da Central 135. Também usam informações verdadeiras, como a existência da prova de vida, para construir uma situação falsa e mais convincente.

Outra estratégia é criar um senso de urgência. Ao afirmar que o benefício pode ser suspenso ou cortado, o golpista tenta provocar medo e fazer com que a vítima tome uma decisão rápida, sem verificar se o contato é realmente do INSS.

O golpe também utiliza engenharia social. Em vez de necessariamente pedir os dados diretamente no primeiro contato, o criminoso conduz a vítima por pequenas ações, como digitar uma opção durante a ligação ou acessar um link, até chegar ao momento em que consegue obter informações pessoais ou induzir a realização de outras ações.

Como se proteger: Desconfie de ligações ou mensagens que peçam dados pessoais, senhas, informações bancárias, códigos, transferências ou pagamentos para tratar da prova de vida. O INSS afirma que não liga para os beneficiários nem vai à residência deles para tratar desse procedimento e solicitar essas informações.

Se receber uma ligação desse tipo, não forneça dados nem siga as instruções. Desligue e confirme a situação pelos canais oficiais do INSS, como o Meu INSS e a Central 135. A situação da prova de vida também pode ser consultada no serviço de mesmo nome no portal Meu INSS.

Quando necessário, o procedimento pode ser informado pelo banco pagador ou pelo WhatsApp oficial do governo federal, identificado pelo selo azul de verificação. A mensagem apenas comunica a necessidade da comprovação e não solicita dados pessoais nem envia links para regularização.

A prova de vida pode ser feita na agência bancária onde o benefício é recebido, com documento oficial com foto, ou pelo Meu INSS, por biometria facial. Não é necessário comparecer a uma agência do INSS.

Procurado pelo Comprova, o órgão informou que mantém “ações permanentes de educação previdenciária” para orientar a população sobre como evitar notícias falsas e golpes, utilizar os serviços digitais com segurança, “realizar a prova de vida, contratar empréstimos consignados, proteger dados pessoais e cuidar da vida financeira”.

Entre as iniciativas está o Programa de Educação Previdenciária (PEP), que orienta os cidadãos sobre seus direitos e incentiva o uso dos canais oficiais de atendimento e informação, evitando a necessidade de intermediários. O programa também promove palestras, cursos a distância, produção de materiais educativos e formação de pessoas para disseminar informações sobre a Previdência.

A quem denunciar: Golpes envolvendo a falsa prova de vida podem ser denunciados à Ouvidoria do INSS, por meio da plataforma Fala.BR, que permite denúncias identificadas ou anônimas. A Central 135 também recebe denúncias. O advogado Júlio Leone destaca ainda que quando há prejuízo financeiro, uso indevido de documentos ou invasão de conta, a vítima deve registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil. 

Por conta disso, manter os registros é importante para solicitar bloqueios, estornos e, eventualmente, buscar indenização. “O ponto mais importante é: não apague as provas antes de registrar tudo. Prints e comprovantes podem ser fundamentais para pedir bloqueio, estorno e eventual indenização”, completa. .

Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O INSS alertou em agosto que não envia SMS para informar sobre corte de benefício por falta de prova de vida. O G1 checou que o INSS não envia mensagens avisando sobre prova de vida com link para reconhecimento facial.

Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.

Eleições

Investigado por: 02/09/2026

Flávio Bolsonaro não prometeu salário mínimo de R$ 3 mil; informação circula em vídeos com IA

Eleições
Vídeos de Flávio Bolsonaro manipulados por IA desinformam sobre promessa de aumento do salário mínimo em um eventual mandato de governo.

Vídeos virais e manipulados por inteligência artificial (IA), divulgados por diferentes perfis no TikTok, exibem o senador e candidato à presidência da República pelo Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro, segurando uma peça de picanha e supostamente defendendo que o salário mínimo seja R$ 3 mil para que “o povo possa comprar o que quiser”.

Em uma primeira análise, o Comprova já constatou pequenos detalhes e imperfeições visuais que evidenciam o uso de IA, como por exemplo, o rosto de Flávio Bolsonaro com aspecto excessivamente liso, sem poros ou rugas. Além disso, alguns dos vídeos contém a etiqueta “mídia gerada por IA” apontada pelas próprias plataformas. 

O projeto também analisou a proposta de governo de Flávio Bolsonaro e não encontrou nenhuma informação ou citação sobre aumento de salário mínimo até R$ 3 mil. Conforme apurado pelo Comprova, há outros vídeos sintéticos de Flávio ao lado do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, com o mesmo discurso, mudando apenas o cenário.

Ademais, o Comprova fez uso de ferramentas de verificação dos conteúdos, como a Backstory, e identificou os padrões consistentes com a geração de imagens por IA. A busca reversa realizada pelo Google Lens identificou diferentes contas nas plataformas TikTok e Instagram, que divulgaram conteúdos semelhantes, e em distintos cenários. 

Em entrevista ao Jornal Nacional, no dia 28 de agosto, Flávio Bolsonaro foi questionado sobre o salário mínimo, mas não respondeu se pretende alterar ou manter a atual fórmula de reajuste salarial.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O perfil analisado pelo Comprova reúne características suspeitas sobre a origem e a forma de produção de conteúdos. A conta apresenta poucas informações pessoais. Como nome de usuário, utiliza um endereço de e-mail e possui 36,8 mil seguidores. O perfil publicou outros quatro vídeos de Flávio Bolsonaro segurando a picanha, com o mesmo discurso. 

No perfil, os cinco vídeos sintéticos de Flávio atingiram 696,4 mil visualizações e 62 mil curtidas. O Comprova tentou entrar em contato com o responsável pelo perfil, mas não recebeu resposta até a publicação desta checagem.

Táticas orquestradas nas redes sociais

Entre as estratégias usadas para chamar a atenção dos usuários estão o uso de conteúdo sintético, a divisão entre grupos políticos e o apelo à emoção. A combinação desses elementos cria uma situação que não corresponde à realidade e busca aumentar o conflito político. Para isso, os vídeos recorrem a temas de forte impacto social, como o preço dos alimentos básicos, e transformam uma questão econômica complexa em um ataque simples contra adversários políticos.

Os vídeos também incentivam os usuários a interagir com as publicações por meio de frases como “se você concorda, comenta e segue”, “clique em todos os botões ao lado” e “comenta Brasil 22”. A estratégia  busca manipular o engajamento orgânico das redes sociais, aumentando o número de comentários, curtidas e compartilhamentos. Com mais interações, a publicação pode ser considerada relevante pelos sistemas de recomendação das redes sociais e alcançar um número maior de pessoas.

Como identificar se um vídeo foi gerado por IA ou não

Para detectar conteúdos em vídeo que tenham sido manipulados por inteligência artificial é preciso olhar com atenção e de maneira crítica. Como não há um “selo único” de falsificação, a análise deve combinar a observação de detalhes visuais, a checagem do contexto e o uso de dados técnicos.

O material explicativo do Aos Fatos cita alguns sinais de manipulação para ter atenção: sinais visuais e de áudio, área focal, contexto da cena e marcas d’água.  

O guia da Global Investigative Journalism Network (GIJN) para detectar conteúdo gerado por IA, elaborado pelo especialista em buscas on-line e inteligência artificial Henk van Ess, recomenda alguns pontos de atenção: observar possíveis falhas anatômicas; desconfiar de uma aparência perfeita demais para a situação; conferir se roupas, vegetação, iluminação, arquitetura e veículos são compatíveis com a data e o local atribuídos ao vídeo; verificar quem publicou o conteúdo e procurar outros registros do mesmo acontecimento. 

É importante também ficar atento aos rostos e expressões. Repare na textura da pele: se parecer de plástico ou perfeita demais para o contexto, desconfie. Áudio e sincronia também escondem alterações. Fique atento ao movimento dos lábios, se acompanham perfeitamente a fala, sobretudo em consoantes que exigem o fechar da boca (como P, B e M). Avalie se o áudio possui respiração natural, pausas de hesitação e a acústica adequada para o ambiente mostrado.

Um caminho também é verificar outras publicações do mesmo criador, para analisar o histórico, consistência do conteúdo e padrões de edição.

Esses tipos de conteúdos integram o que os pesquisadores do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) chamam de campanha “Firehose”, que é a distribuição massiva e multiplataforma da desinformação, que se caracteriza pelo grande volume, rapidez, continuidade e repetição. 

Na série, a Trilha sobre desinformação, uma parceria da Politize! com o *desinformante, há também a citação sobre ações articuladas e coordenadas para criar narrativas desinformativas, principalmente em eleições com o uso de contas falsas, perfis de pessoas fictícias, e de canais de conteúdo.

Fontes que consultamos: O Comprova utilizou ferramentas para verificar a autenticidade dos vídeos, incluindo o Backstory e o Google Lens. Também pesquisou e analisou o plano de governo de Flávio Bolsonaro, além de uma entrevista recente do candidato à TV Globo. Assim como utilizou orientações do  guia da Global Investigative Journalism Network (GIJN) sobre conteúdos gerados por IA.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova checou um vídeo em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com cinco dedos na mão esquerda, contendo manipulação por inteligência artificial (IA) e que alimentava teorias conspiratórias sobre o uso de um sósia. A Agência Lupa checou e identificou deepfakes de Lula, Bolsonaro e outras figuras públicas em plataformas como o TikTok, que visam monetização. 

Eleições

Investigado por: 01/09/2026

Governo estuda reajuste menor para aposentadorias em novo mandato de Lula, mas não acabará com aumento aos beneficiários do INSS, ao contrário do que alega Sachsida

Política
Ex-ministro de Minas e Energia tira de contexto reportagem do Valor Econômico ao afirmar que medida que estaria sendo estudada para um eventual novo mandato de Lula não inclui aumento.

Um vídeo do ex-ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, no Instagram, repercutiu nas redes sociais ao afirmar que o governo federal não aumentaria o salário dos aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mesmo após aumentar o salário mínimo. No post, Sachsida, que é atual coordenador do plano econômico da campanha presidencial do candidato Flávio Bolsonaro (PL), cita uma reportagem do Valor Econômico, veiculada em 24 de agosto deste ano, como fonte principal para a alegação. 

Sachsida faz uma interpretação equivocada do conteúdo publicado na reportagem, que não afirma que o governo federal deixaria de reajustar o salário de aposentados e pensionistas do INSS quando o salário mínimo aumentar, caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seja reeleito.  

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

Adolfo Sachsida foi ministro de Minas e Energia em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro, ele é economista, advogado e atual coordenador da equipe econômica de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República nas eleições deste ano. 

Com 123 mil seguidores no Instagram, Sachsida divulgou o vídeo em que fala sobre o aumento do salário mínimo e aposentadoria no mesmo dia em que a reportagem do Valor Econômico foi publicada. Até a conclusão desta verificação, a publicação do ex-ministro já contava com cerca de 350 mil visualizações.

O Comprova entrou em contato com Sachsida, mas até o momento da publicação não obteve resposta. 

Qual a alegação do post investigado e quais são as suas fontes

No post, Sachsida alega que o governo federal estaria estudando desvincular o salário mínimo da aposentadoria. A reportagem citada por ele afirma que “técnicos fizeram simulações de cenários que preservariam ganhos acima da inflação” para aposentados e pensionistas do INSS, e também para trabalhadores da ativa, só que “em ritmos distintos”. 

O jornal também diz que integrantes da atual equipe econômica do governo federal seriam “favoráveis à discussão”, em “um eventual novo governo”. Porém, a reportagem informa que nenhuma decisão foi tomada e, caso seja, dependerá também do crivo do presidente para implementação.

No material do Valor Econômico, também é afirmado que, entre “membros da equipe econômica do governo”, existe uma interpretação de que o “atual cenário favorável do mercado de trabalho abre espaço para manter a valorização do salário mínimo para os trabalhadores da ativa, inclusive com a regra atual, que permite ganho real de até 2,5% ao ano”. Já para aposentadorias e benefícios assistenciais vinculados ao salário mínimo, “poderia ser adotado um ritmo menor que os 2,5%, mas ainda acima da inflação”. Ou seja, com o aumento do salário mínimo, também aumentaria o salário do aposentado, mas com um reajuste menor que os salários dos trabalhadores ativos. 

Após a repercussão do vídeo de Sachsida, o próprio Ministro da Fazenda, Dario Durigan, desmentiu os boatos levantados por Sachsida em entrevista à GloboNews. “Não discutimos e não está colocada a desvinculação do salário mínimo dos benefícios, tanto previdenciários quanto alguns sociais”, disse. Portanto, as regras vigentes de valorização integral e reajuste de trabalhadores, aposentados e pensionistas do INSS continuam mantidas.

Outra alegação citada por Sachsida no vídeo e analisada pelo Comprova é a de que o governo Lula teria investido mais de R$ 278 bilhões com o objetivo de alcançar a reeleição. O ex-ministro diz que a informação consta em um jornal, mas não aponta qual o veículo. 

Apesar de não mencioná-lo, o Comprova identificou que o Gastômetro, ferramenta inédita do jornal Estadão que acompanha e atualiza os desembolsos do governo federal em ano eleitoral, informa que, na verdade, o governo Lula já investiu R$ 277,3 bilhões em 2026. A maior parte do gasto se refere a programas de crédito e subsídios para setores da economia.

Além disso, Sachsida recomenda no final de sua publicação que o corte de gastos públicos deveria iniciar com o enxugamento de 39 para 25 pastas ministeriais. Na realidade, o governo federal conta atualmente com 38 ministérios na administração pública direta, não 39.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O conteúdo combina uma fonte reconhecida, o jornal Valor Econômico, com uma afirmação apresentada de forma simples e direta. A mensagem transforma um debate complexo sobre o reajuste do salário mínimo em uma conclusão aparentemente objetiva, sem apresentar todas as informações necessárias para sua compreensão.

Além disso, o vídeo apresenta uma estratégia de apelo à emoção e alarmismo, ao relacionar a suposta medida do governo federal às dificuldades enfrentadas por aposentados no Brasil, como a compra de medicamentos. Esse recurso pode provocar medo e indignação, levando o público a reagir antes de verificar se a informação está correta.

Também aparece a tática do cherry-picking, com a seleção de informações que reforçam uma visão negativa do governo federal, somada a acusações sobre gastos e corrupção. A estratégia pode explorar o viés de confirmação, fazendo com que pessoas que já têm uma opinião crítica sobre o governo aceitem a narrativa com maior facilidade.

Fontes que consultamos: Foram consultadas a reportagem do jornal Valor Econômico citada no post e a entrevista do ministro da Fazenda Dario Durigan à GloboNews.  Também entramos em contato com Sachsida, mas não concedeu resposta até a conclusão desta checagem.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já produziu verificações sobre a atuação do governo Lula em relação ao INSS, assim como as normas em vigor no Instituto. Também foram realizados trabalhos específicos sobre benefícios do INSS e a discussão do reajuste do salário mínimo

Política

Investigado por: 28/08/2026

Artista que se apresenta girando balde no chão não foi beneficiada pela Lei Rouanet

Política
Post associa de forma satírica performance ao mecanismo de incentivo fiscal do governo federal

Uma publicação no X associa, de forma crítica e em tom satírico, uma apresentação artística ao uso de recursos da Lei nº 8.313/1991 de incentivo à cultura. O questionamento “Quantos milhões da Lei Rouanet vale essa performance?” é feito sobre um vídeo em que uma artista gira um balde amarrado com um barbante pela sala. 

Os comentários do post questionam a qualidade artística da apresentação. O vídeo também foi compartilhado, por outros usuários, no Facebook, TikTok e Instagram. 

O Comprova apurou que a performance em questão é a apresentação da peça de uma artista e coreógrafa dentro de uma galeria no Brooklyn, em Nova York, nos Estados Unidos. A apresentação aconteceu em outubro de 2025 e a artista performa em Nova York desde 2005. Em 19 de agosto, o perfil de um centro cultural nova-iorquino no Instagram e no Facebook compartilhou o vídeo da profissional, que posteriormente foi republicado em outras redes sociais.

Diferentemente do que sugere a publicação do X, a artista não recebeu recursos da Lei Rouanet. A Lei nº 8.313/1991 criou o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), que possui três mecanismos de financiamento. Entre eles está o incentivo fiscal, pelo qual pessoas físicas e jurídicas no Brasil podem direcionar parte do Imposto de Renda devido a projetos culturais previamente aprovados pelo Ministério da Cultura. 

A legislação contempla diversas áreas, como dança, teatro, música e artes visuais, mas não estabelece uma autorização geral para que uma pessoa estrangeira receba recursos da Lei Rouanet para produzir um trabalho no exterior.

Quem pode receber recursos da Lei Rouanet?

A Instrução Normativa MinC nº 29/2026 prevê documentos brasileiros inclusive para proponentes estrangeiros e admite determinados projetos realizados entre o Brasil e o exterior, como espetáculos com itinerância entre os dois países. Essas regras, porém, não significam que um artista estrangeiro possa obter, sem vínculo ou documentação brasileira, recursos da Lei Rouanet para realizar uma performance nos Estados Unidos. 

O Ministério da Cultura (MinC) afirmou ao Comprova que não é possível um proponente estrangeiro sem documentação nacional captar recursos incentivados. A Instrução Normativa MinC nº 29/2026 determina a vinculação obrigatória das contas bancárias ao Cadastro de Pessoa Física (CPF) ou ao Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). A formalização da proposta exige documento de identificação com foto e número de CPF, além de cédula de identidade emitida pela República Federativa do Brasil.

A pasta endossou que não há registro da artista Jessica Cook no Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic), seja como proponente ou vinculada a qualquer projeto cultural viabilizado por meio da Lei Rouanet. O Salic é uma plataforma de transparência pública e pode ser acessada por qualquer cidadão por meio deste link.

 

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 

Criado em março de 2019, o perfil analisado é brasileiro e não revela a identidade real de seu criador. A conta é verificada desde julho de 2023, possui cerca de 353 mil seguidores e 41,6 mil publicações. Na descrição, o usuário se apresenta como “Conservador Nacional”.

Até o dia 26 de agosto, a publicação investigada já havia alcançado 24,4 mil visualizações e 1,1 mil curtidas. O conteúdo também recebeu diversos comentários com críticas à esquerda e à produção artística. 

O perfil não oferece a opção de contato por mensagem direta e não informa outros meios para falar com o responsável pela conta.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A Lei Rouanet é alvo constante de desinformação na internet. Nesse contexto, publicações que associam artistas, apresentações e valores milionários à lei podem despertar reações emocionais e favorecer interpretações equivocadas.

No post investigado, o autor utiliza uma estratégia de insinuação por falsa conexão ao publicar um vídeo de uma apresentação artística e questionar: “Quantos milhões da Lei Rouanet vale essa performance?”. Embora não afirme diretamente que a apresentação tenha sido financiada pela Lei, a formulação da pergunta cria uma associação implícita entre a performance e o uso de recursos públicos. Dessa forma, o leitor pode interpretar a publicação como uma acusação, mesmo sem que exista uma afirmação explícita ou uma comprovação de que a apresentação recebeu recursos da lei.

A publicação também recorre ao apelo à emoção, ao abordar um assunto que costuma provocar indignação e polarização. A pergunta pode levar o público a reagir negativamente antes de buscar informações sobre a origem do vídeo ou sobre o eventual financiamento da apresentação. Os comentários no post reforçam esse efeito ao interpretar a publicação como uma denúncia de uso de dinheiro público, contribuindo para a disseminação de uma conclusão que não é apresentada como fato comprovado.

 

Fontes que consultamos: Usamos o Google Lens para fazer a busca reversa e rastrear onde o vídeo foi publicado originalmente, também pesquisamos redes sociais e sites que citam a artista e sua apresentação. A reportagem acessou o texto da Lei Rouanet e da Instrução Normativa MinC nº 29/2026. O Ministério da Cultura e a artista também foram contatados, ela não retornou o contato até o fechamento desta reportagem.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já contextualizou sobre a diferença entre os valores que são aprovados e os que são captados por projetos via Lei Rouanet; concluiu que produtor cultural não foi a Portugal com dinheiro recebido da Lei Rouanet, diferentemente do que afirma vídeo e que produtora recebeu autorização para captar R$ 2 milhões via leis de incentivo, mas não pela Rouanet ou por ser amiga de Lula.

Comprova Explica

Investigado por: 28/08/2026

Vídeo de Lula com dez dedos gera discussão sobre uso de IA nas eleições; confira regras do TSE

Comprova Explica
Justiça Eleitoral concluiu que inteligência artificial foi usada apenas na pós-produção do conteúdo e julgou improcedente ação contra o material

Conteúdo analisado: Um vídeo recente em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com cinco dedos na mão esquerda viralizou nas redes sociais, levantando dúvidas sobre manipulação por inteligência artificial (IA) e alimentando teorias conspiratórias sobre o uso de um sósia. A peça, gravada em apoio a políticos do Ceará, virou alvo de processono Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE).

Comprova Explica: No X, onde o conteúdo viralizou, o monitoramento do Comprova identificou postagens sugerindo que Lula teria sido substituído por um sósia após aparecer em um vídeo com dez dedos nas mãos. Como o presidente perdeu o dedo mindinho da mão esquerda em um acidente de trabalho aos 18 anos, em 1964, a anomalia visual gerou desinformação e narrativas conspiratórias.

O Comprova procurou a Presidência da República, por meio da Secretaria de Comunicação Social (Secom), e solicitou esclarecimentos sobre a produção e a circulação do vídeo. O órgão foi informado sobre o prazo de resposta, mas não se manifestou até a publicação desta checagem. A teoria de que Lula morreu e foi substituído por um sósia circula há alguns anos nas redes sociais e já foi desmentida pelo Comprova em diferentes ocasiões (exemplos: 1, 2, 3 e 4).

O vídeo foi questionado na Justiça Eleitoral por possível propaganda antecipada, uso de IA sem identificação, deepfake e desinformação. A defesa dos responsáveis pela publicação admitiu o uso de ferramentas de IA na pós-produção, mas afirmou que foram empregadas apenas para melhorias estéticas e transições. Em 24 de agosto, o desembargador Francisco Luís Rios Alves rejeitou a ação por entender que a tecnologia não alterou substancialmente o conteúdo. Ainda cabe recurso no TRE-CE.

O caso serve como exemplo prático para explicar como ferramentas de inteligência artificial generativa atuam na produção audiovisual, quais são os limites e as regras da Justiça Eleitoral sobre o uso dessa tecnologia nas campanhas e como o cidadão pode identificar sinais de manipulação digital.

Em que medida o vídeo pode contrariar as regras do TSE para o uso de IA?

O vídeo analisado é uma montagem, feita a partir de recortes de outros conteúdos de mídia, que foi originalmente publicado no Instagram por um prefeito do Ceará, um senador e um ex-secretário da Casa Civil e exibe Lula em diferentes eventos políticos ao lado de um então pré-candidato ao governo do Ceará. Em representação apresentada em 7 de julho à Justiça Eleitoral, o PL questionou possível propaganda eleitoral antecipada, o uso de IA sem identificação e a ocorrência de deepfakes e desinformação. 

No processo, a defesa dos representados admitiu o emprego dos softwares Kling e Magnific, que são plataformas de edição e geração audiovisual com IA, na fase de pós-produção. Segundo os advogados, os recursos foram usados para aperfeiçoamento estético, interpolação de quadros e transições visuais (morphing). A defesa sustentou que o dedo a mais na mão do presidente foi um artefato incidental, tecnicamente conhecido como “alucinação” do modelo algorítmico.

Em decisão de 24 de agosto, o desembargador eleitoral Francisco Luís Rios Alves julgou improcedentes os pedidos do PL. De acordo com o magistrado, as ferramentas de IA foram usadas apenas na pós-produção, para melhorias estéticas e transições, o que dispensa aviso conforme as regras do TSE. 

Como não houve criação de falas, ações ou apoios inexistentes, o desembargador afastou a ocorrência de deepfake e desinformação. Também não reconheceu propaganda antecipada. Com isso, foram afastados os pedidos de remoção do vídeo, multas e outras penalidades. Ainda cabe recurso ao Plenário do TRE-CE.

Pelo artigo 9º-B da Resolução TSE nº 23.610/2019, qualquer propaganda com conteúdo fabricado ou manipulado por IA deve conter aviso explícito, ostensivo e de fácil identificação sobre o uso da tecnologia. A exigência não se aplica a ajustes destinados apenas a melhorar a qualidade da imagem ou do som, desde que não alterem substancialmente o conteúdo.

Quais são as regras para o uso de inteligência artificial nas eleições de 2026?

O TSE estabelece uma série de regras para evitar que a tecnologia seja usada para fraudar a vontade do eleitor ou disseminar desinformação:

  • Aviso obrigatório: Todas as peças com elementos criados ou alterados por IA precisam informar o uso com clareza ao público.
  • Proibição absoluta de mídia sintética: É proibido criar ou manipular áudio e vídeo de candidatos, autoridades ou figuras públicas para simular falas ou ações inverídicas.
  • Apagão pré e pós-votação: Não é permitida a veiculação de conteúdos gerados por IA nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao dia da eleição.
  • Inversão do ônus da prova: Como atestar a falsidade de um material sofisticado é complexo, a Justiça Eleitoral pode determinar que o próprio autor ou divulgador comprove a autenticidade do conteúdo.
  • Responsabilidade das plataformas: Redes sociais têm o dever de remover conteúdos sintéticos irregulares, ataques ao sistema eletrônico de votação e casos de violência política.
  • Veto a “campeonatos de cortes”: Fica proibido remunerar ou bonificar terceiros para a produção em massa e viralização de cortes de vídeos políticos de forma descentralizada.

Como identificar se um vídeo foi gerado ou alterado por IA?

Não existe um único sinal que permita confirmar que um vídeo foi produzido ou alterado por inteligência artificial. Entre os possíveis sinais de manipulação, o material explicativo do Aos Fatos cita: sinais visuais e de áudio, área focal, contexto da cena e marcas d’água. 

O guia da Global Investigative Journalism Network (GIJN) para detectar conteúdo gerado por IA, elaborado pelo especialista em buscas on-line e inteligência artificial Henk van Ess, recomenda: observar possíveis falhas anatômicas; desconfiar de uma aparência perfeita demais para a situação; conferir se roupas, vegetação, iluminação, arquitetura e veículos são compatíveis com a data e o local atribuídos ao vídeo; verificar quem publicou o conteúdo e procurar outros registros do mesmo acontecimento.

Vídeos manipulados por IA costumam apresentar discrepâncias ao retratar partes do corpo humano, especialmente as mãos. Como elas se movem em ângulos complexos, a tecnologia pode ter dificuldade para reproduzir sua anatomia corretamente, gerando, por exemplo, seis dedos, articulações invertidas ou mãos deformadas ao segurar um objeto, como o caso analisado pelo Comprova. .

Em pessoas com características anatômicas incomuns, a IA também pode ter dificuldade para reproduzi-las fielmente, aproximando a imagem de um padrão anatômico mais comum.

Por causa desse funcionamento matemático, a tecnologia costuma apresentar falhas características:

  • Mãos, dedos e articulações: Mãos em movimento são o principal ponto fraco da IA. Observe se há dedos a mais, ou menos, articulações que dobram ao contrário ou dedos que se fundem com objetos.
  • Rosto e expressões: Observe a textura da pele (se parece excessivamente lisa ou plastificada), o piscar dos olhos (ausente, excessivo ou sem sincronia) e a coerência de rugas, dentes e pintas.
  • Sincronia labial: Verifique se a movimentação da boca acompanha com precisão sons labiais difíceis (como as letras P, B e M) e se há pausas de respiração naturais no áudio.
  • Física e iluminação: Sombras apontando para direções contrárias à fonte de luz, reflexos estáticos em óculos ou pés que parecem deslizar sem tocar o chão com peso real são indícios frequentes.
  • Cenário de fundo e textos: Placas, letreiros e roupas ao fundo costumam exibir caracteres ilegíveis ou distorcidos, já que a IA desenha formas visuais, mas não escreve palavras reais.
  • Metadados e credenciais: Ferramentas modernas utilizam o padrão C2PA (Content Credentials), uma espécie de registro digital seguro que permite verificar o histórico de edição do arquivo em plataformas autenticadoras.

Fontes consultadas: O Comprova consultou as regras sobre o uso de IA no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o processo envolvendo a postagem com a imagem do presidente Lula com cinco dedos na mão esquerda no Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE). Também consultou o Guia de Detecção de Conteúdo por IA da Global Investigative Journalism Network (GIJN) e o guia do projeto Detect Fakes, do MIT Media Lab.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta, nesse monitoramento, um tema que gera muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: Não é a primeira vez que imagens manipuladas de Lula com dez dedos alimentam a teoria falsa de que ele foi substituído por um sósia. Conteúdos semelhantes já foram desmentidos pelo Comprova em 2023 e 2025, além do UOL Confere e do Estadão Verifica, em 2026. 

Contextualizando

Investigado por: 27/08/2026

Ao transferir R$ 50 mil ou mais entre contas PJ e PF, empresa deve pagar, desde janeiro, 10% de imposto sobre lucro

Contextualizando
Post viral confunde leitores ao generalizar operações bancárias; cobrança não existe em transações entre contas de mesma titularidade na pessoa física

Conteúdo analisado: Postagem feita por um perfil no X relata uma transferência de mais de R$ 50 mil da conta de pessoa jurídica para a conta de pessoa física, ambas de sua titularidade. Segundo o autor, a operação resultou em uma cobrança de R$ 5.869,00 em impostos, que ele afirma ter ocorrido “do nada”. Ele questiona a ocorrência da cobrança entre contas de mesma titularidade.  

Onde foi publicado: X.

Contextualizando: A cobrança questionada pelo perfil está vigente desde janeiro de 2026 e se refere ao recolhimento do IRRF (Imposto de Renda Retido na Fonte) no valor de 10%. Essa taxa – enquadrada na chamada taxação dos super-ricos – é uma antecipação de distribuição de lucros e dividendos do sócio de uma empresa quando o valor ultrapassa R$ 50 mil, e não uma cobrança pela mera transferência dos valores entre contas. E o valor de R$ 5.869 é referente a uma guia de pagamento e não de desconto realizado no ato da transferência.

O conteúdo foi publicado por um perfil com 8.729 seguidores e a publicação alcançou 301,7 mil visualizações até o dia 25 de agosto de 2026. No texto, o autor também critica o governo federal (“Agora me fala como que alguém pode apoiar esse governo lixo que nem o próprio dinheiro vc pode usar”) e os apoiadores. 

O perfil, criado em junho de 2011, é verificado desde junho de 2025. Procurado pelo Comprova, o autor afirmou que publicou o conteúdo para demonstrar sua indignação por ter de pagar imposto sobre um valor que, segundo ele, já havia sido tributado anteriormente — se referindo ao Documento de Arrecadação do Simples Nacional ( DAS) —  pago mensalmente pelo autor com base nas notas fiscais emitidas pela empresa. Segundo ele, o dinheiro transferido para a conta pessoal fazia parte de valores considerados no cálculo do DAS.

O post omite a natureza jurídica da operação para transformar um procedimento fiscal padrão de tributação sobre lucros em uma falsa cobrança abusiva sobre transferência bancária.

É verdade que transferências de contas PJ para PF na mesma titularidade geram imposto?

Depende. No geral, não há previsão de fato gerador de imposto pela Receita Federal por mera transferência entre valores ou movimentação financeira entre contas. O que mudou em 2026 foi a retenção de 10% na fonte sobre a distribuição de lucros e dividendos acima de R$ 50 mil a uma mesma pessoa física em um único mês, alteração trazida pela Lei 15.270/2025 e escrita no art. 6º-A da Lei 9.250/1995

O autor descreve a operação como ter mandado dinheiro “da minha conta pra minha própria conta”, e não é o caso: a empresa e o sócio são pessoas distintas, e o dinheiro que sai da conta da empresa para a conta da pessoa física é um pagamento de uma pessoa a outra. A lei descreve exatamente essa operação ao tratar do pagamento de lucros e dividendos “por uma mesma pessoa jurídica a uma mesma pessoa física residente no Brasil” (art. 6º-A da Lei 9.250/1995, caput).

A própria captura anexada pelo autor descreve a cobrança nesses termos: “distribuição de lucros ou dividendos superior a R$ 50 mil para a mesma pessoa física, passa a existir a retenção de 10% de Imposto de Renda na Fonte (IRRF) sobre o valor total da distribuição”. Não existe na legislação brasileira cobrança de imposto apenas pela transferência entre contas da mesma titularidade.

O presidente do Conselho de Contabilidade do Espírito Santo (CRC-ES), Walterleno Noronha, acrescentou em entrevista ao Comprova que quem recebe R$ 49 mil em dividendos no mês não tem essa retenção. Já quem recebe R$ 51 mil terá R$ 5,1 mil retidos, porque os 10% são calculados sobre o valor total. Nesse exemplo, o sócio que recebeu R$ 51 mil pode ficar, naquele momento, com uma renda líquida menor do que aquele que recebeu R$ 49 mil.

“É importante destacar que o valor retido na fonte não significa, necessariamente, um imposto definitivo. Ele funciona como uma antecipação do Imposto de Renda da pessoa física e pode ser compensado na Declaração de Ajuste Anual, reduzindo o imposto a pagar ou, dependendo do caso, aumentando o valor da restituição”, afirma.

Quando começou a retenção de 10%? 

A tributação sobre a renda passou a valer em janeiro de 2026. Essa mudança trouxe a cobrança de Imposto de Renda para distribuição de lucros e dividendos acima de R$ 50 mil em um único mês. Segundo a Receita Federal, para recolhimento do IRRF é gerado um Documento de Arrecadação de Receitas Federais (Darf) para pagamento até o dia 20 do mês seguinte à transferência dos valores (Lei nº 11.196/ 2005, art. 70, inciso I, alínea e). E é justamente essa data que está na resposta da suposta assessoria contábil do autor da publicação no X. 

Qual a alegação do post investigado e quais são as suas fontes?

Como fonte e suposta evidência da alegação, o post utiliza uma captura de tela de uma conversa no WhatsApp com uma assessoria contábil. No entanto, o próprio print anexado contradiz o texto do autor: a mensagem da contabilidade deixa claro que o valor de R$ 52.824,64 refere-se a uma antecipação de distribuição de lucros/dividendos da empresa, e não a uma mera transferência entre contas de mesma titularidade. 

A cobrança informada corresponde ao recolhimento de 10% de IRRF sobre o valor bruto dessa distribuição societária. 

Quais táticas foram utilizadas?

A publicação utiliza táticas como apelo à emoção, aproveitamento de vieses cognitivos e polarização, associadas à descontextualização da legislação fiscal. O autor constrói uma narrativa pessoal de indignação ao alegar ter sido cobrado “do nada” por apenas “transferir dinheiro da sua conta PJ para a sua conta normal”. 

Ao enquadrar um procedimento de tributação sobre distribuição de lucros/dividendos como uma taxação arbitrária sobre uma simples movimentação bancária própria, o post omitiu regras e enquadramentos contábeis específicos, gerando revolta e alimentando o viés de confirmação de usuários propensos a criticar a carga tributária e o governo.

Essa estratégia explora gatilhos emocionais (indignação financeira) para desativar o senso crítico do leitor, estimulando o compartilhamento impulsivo sem a checagem das normas fiscais vigentes. 

Fontes que consultamos: Consultamos a legislação brasileira, especialistas em contabilidade e entramos em contato com o autor da postagem.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou outras postagens relacionadas a finanças pessoais, como sobre o rastreio de transações via Pix, a cobrança de imposto sobre heranças e a de um novo imposto sobre o Pix.

Notas da comunidade: Não há notas da comunidade junto ao post.

Golpes virtuais

Investigado por: 26/08/2026

Golpe conhecido como sequestro de reservas usa informações verdadeiras de hóspedes para obter dados bancários

Golpes virtuais
Golpistas invadem sites de hospedagem, roubam informações de reserva e contatam clientes se passando por funcionários para assim obter seus dados bancários, induzindo-os a clicarem em links ou repassarem dados financeiros.

Golpe do sequestro de reservas

No golpe conhecido como sequestro de Reservas, os criminosos utilizam informações verdadeiras de reservas de hospedagem, com dados do hóspede, datas da estadia e até o número ou código da reserva, e entram em contato com os clientes para obter informações pessoais, incluindo dados de cartões de crédito. Esse tipo de golpe se tornou mais popular fora do Brasil, com o nome em inglês Reservation Hijacking Scam

O Comprova encontrou perfis de vítimas brasileiras desse tipo de golpe no Instagram e no TikTok, além de reclamações de usuários no Reclame Aqui. Há também relatos na mídia australiana de vários casos de vítimas desse golpe. 

Conforme dados da Norton, empresa internacional de cibersegurança, esse tipo de golpe afeta cerca de 6 milhões de hóspedes por ano, em mais de 50 países diferentes, incluindo o Brasil. Quem lidera o ranking são países do continente europeu, que concentra aproximadamente 45% das ações dos criminosos. Os países mais afetados são a Alemanha, a França e o Reino Unido. 

Como os golpistas abordam as pessoas

Primeiramente, os criminosos miram nos próprios hotéis e funcionários, além de pousadas, plataformas de hospedagem ou administradoras de imóveis por meio de uma falsa reclamação, uma fatura ou uma “atualização obrigatória” enviada geralmente por e-mail.

“O objetivo é capturar senha, instalar programa malicioso ou obter uma sessão já autenticada no sistema que o funcionário tem acesso. Tendo acesso ao sistema da hospedagem, o criminoso pode visualizar dados de reservas futuras, como nome, telefone, e-mail, hotel, período da estadia e, às vezes, contexto de pagamento”, informa o especialista em cibersegurança Marcos Sávio. 

Quando um funcionário do hotel acessa um link ou fornece suas credenciais, os criminosos conseguem entrar nos sistemas utilizados para administrar as reservas.

Com acesso aos dados, os criminosos entram em contato diretamente com os hóspedes por e-mail, SMS, WhatsApp ou até mesmo pelo sistema de mensagens da hotelaria, se apresentando como funcionário do estabelecimento. O fato de a mensagem conter informações verdadeiras sobre a reserva do hóspede é o que torna a fraude mais convincente.

Que táticas os golpistas usam para chamar a atenção

Após o contato inicial com a vítima, o golpista utiliza a estratégia do “senso de urgência”, ao afirmar que houve um problema com o cartão e que é necessário confirmar os dados, ou que uma taxa precisa ser paga em até 24 horas para garantir a reserva, senão ela corre o risco de ser cancelada. A intenção é fazer com que a vítima aja rapidamente e não verifique a informação por outro canal.

É costume desses criminosos enviar um link de pagamento ou de atualização de dados junto com a mensagem de contato inicial. O link da página pode imitar a identidade visual do hotel ou da plataforma de reserva e solicitar número do cartão do cliente, código de segurança ou outras informações pessoais.

Qual é o objetivo do golpe

Com as informações coletadas dos usuários, os golpistas podem fazer compras não autorizadas usando seus dados de pagamento, roubar informações pessoais para cometer roubo de identidade, tentar outros golpes usando seus dados.

“Na prática, o criminoso pode lucrar com pagamentos enviados pela vítima, uso do cartão capturado, venda ou reutilização de dados e ou realizar fraudes posteriores”, diz Marcos Sávio.

Como se proteger

O primeiro passo é confiar na sua reserva original, e não em quaisquer mensagens que receba posteriormente. Caso alguém entre em contato informado que é funcionário do hotel no qual você realizou a reserva, é importante verificar se a mensagem foi enviada por um canal oficial do estabelecimento. 

“A principal defesa é não pagar, não clicar nem informar os dados do cartão do banco a partir de um link recebido. Em vez disso, o usuário deve abrir o aplicativo ou digitar manualmente o endereço da plataforma, consultar a confirmação original e, se necessário, falar com o hotel, via  telefone ou canal obtido na reserva inicial”, pontua Marcos Sávio. 

A empresa Norton também orienta, em caso de algum pedido de pagamento, atualização de dados ou confirmação de informações, interromper imediatamente o contato e confirmar a informação pelos canais oficiais. Em seguida, entre na conta utilizada para fazer a reserva e verifique se existe alguma pendência. Se ainda houver dúvida, entre em contato diretamente com o hotel ou com a plataforma utilizando os dados presentes na confirmação original da reserva. 

A quem denunciar

Se a vítima já realizou um pagamento ou forneceu dados bancários, a primeira providência é entrar em contato imediatamente com o banco ou a administradora do cartão pelos canais oficiais, e informar a suspeita de fraude. O Banco Central orienta que vítimas de golpes também registrem um Boletim de Ocorrência e guardem documentos e comprovantes relacionados ao caso.

Se o golpe envolveu cartão de crédito, a vítima deve contestar a transação junto à instituição financeira. Quando houver uma relação de consumo com uma empresa que possua CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) ativo na Receita Federal, também é possível recorrer ao Consumidor.gov.br e ao Procon. 

No caso de Pix, a recomendação é comunicar o banco imediatamente e solicitar a devolução pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED). O pedido não garante que o dinheiro será recuperado, mas quanto mais rápida for a comunicação, maiores são as possibilidades de bloqueio dos recursos.

Deve-se também registrar e preservar as provas do golpe, segundo o Ministério da Segurança Pública. As provas incluem o “número utilizado, data, horário da ligação/mensagem, e o que foi dito, prints de mensagens, registros de chamadas, fotos do número utilizado, valor do prejuízo sofrido (se houver), informações referentes a transferência (para quem foi destinado os valores)”. 

É recomendável que a vítima comunique o próprio hotel e a plataforma onde realizou a reserva, para verificar se houve comprometimento no sistema ou de alguma conta utilizada para administrar reservas.

Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já publicou textos sobre como identificar e se proteger de diversos golpes virtuais, como o phishing (a “pescaria” virtual) e o smishing (por mensagens de texto).

Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.

Eleições

Investigado por: 21/08/2026

Vídeo em que Lula diz que povo vai voltar a comer picanha é de 2025 e não tem relação com o cenário atual

Eleições
Declaração do presidente em evento oficial no interior paulista foi resgatada por perfis para desinformar no período eleitoral.

Um vídeo fora de contexto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dizendo que “a carne vai baixar, vocês podem ter certeza que vão voltar a comer picanha outra vez, porque a carne vai baixar” viralizou em um perfil no TikTok, com mais de meio milhão de visualizações. O vídeo também foi replicado por outro perfil no Instagram. 

Fazendo a busca reversa por meio do Google Imagens, é possível conferir que o conteúdo não é recente. O vídeo publicado em dois perfis, tanto no TikTok como no Instagram, se referem, na verdade,  a uma cerimônia realizada no dia 14 de março de 2025, em que Lula entregou 789 novas ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), em Sorocaba, no interior de São Paulo.

Na ocasião, o presidente declarou que não conseguia entender por que o ovo estava tão caro nos supermercados e ainda afirmou que a população “vai voltar a comer picanha”. A fala de Lula remete a sua campanha presidencial nas eleições de 2022, quando prometeu “picanha” e “cerveja” ao povo brasileiro. Posteriormente, o presidente disse que a declaração era uma metáfora para a recuperação do poder de compra do brasileiro, e não significava uma promessa literal de “churrasco”.

Essa não é a primeira vez que essa declaração de Lula é tirada de contexto. Em 2022, um vídeo que circulou nas redes sociais foi editado para dar a entender que a picanha citada por Lula era “de soja”. Na gravação original, durante a participação do presidente no podcast Desce a Letra Show, em 24 de outubro daquele ano, Lula afirmou que sua promessa era “recuperar a economia desse país para que o povo possa, sabe, num final de semana eu convocar a família e comer um churrasquinho, tomar uma cerveja”. 

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

No TikTok, a postagem foi publicada por um usuário no dia 15 de março de 2025, um dia após a cerimônia de entrega das ambulâncias, o vídeo acumulava mais de 340 mil visualizações até a conclusão da investigação do Comprova. 

No entanto, o conteúdo também circulou, em 15 de agosto de 2026, em um perfil da plataforma e que acumulava mais de 500 mil visualizações até quinta-feira (20). No Instagram, a publicação também apareceu no perfil do médico obstetra Kleber Fortes Cavalcanti e somava mais de 14 mil visualizações na mesma data. 

Por que as pessoas podem ter acreditado

O vídeo, publicado fora de contexto em perfis de usuários analisados pelo Comprova, utiliza um trecho de uma declaração de Lula sobre a picanha, tema relacionado ao cotidiano e ao padrão de consumo de famílias brasileiras. A frase “Lula volta a falar na picanha e dá risada”, seguida de emojis que representam uma pessoa com a mão no rosto, pode provocar raiva e indignação em quem não teve acesso ao contexto original da fala. 

A recirculação do vídeo em 2026, ano eleitoral, contribui para ampliar seu potencial de repercussão. Durante esse período, conteúdos relacionados a candidatos à Presidência da República podem ganhar maior repercussão, especialmente quando abordam temas polêmicos e sensíveis à polarização política.

Ao retirar a fala do contexto original e acrescentar elementos que expressam a opinião de quem compartilhou o conteúdo, a publicação pode levar o público a atribuir à declaração de Lula um sentido diferente daquele expresso originalmente.

Fontes que consultamos: Consultamos reportagens sobre a cobertura da cerimônia da entrega em 14 de março de 2025 publicadas no canal do UOL no Youtube, além de reportagens do Estadão e do g1. Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Estadão Verifica também checou o mesmo conteúdo e concluiu que está fora de contexto. A Lupa checou um conteúdo semelhante de um vídeo falso em que Lula “recomendava” verduras para quem não quisesse comprar picanha. Aos Fatos checou um vídeo falso que dizia que o presidente prometeu “picanha de soja”.

Comprova Explica

Investigado por: 21/08/2026

Entenda como funciona o Discord e por que a plataforma virou alvo das autoridades brasileiras

Comprova Explica
A Constituição não permite que o presidente tire uma plataforma do ar por decreto, tarefa que cabe apenas ao Poder Judiciário. Enquanto o debate avança, o Discord teve recursos de vídeo suspensos no Brasil

Conteúdo analisado: O funcionamento da plataforma de comunicação online Discord no Brasil entrou em debate após a primeira-dama, Janja Lula da Silva, afirmar, durante um evento, que o serviço deveria ser banido do país após o suicídio de uma adolescente de 13 anos durante uma transmissão ao vivo. A declaração levantou questionamentos sobre os limites da atuação do governo federal em relação às plataformas digitais e sobre as circunstâncias em que uma plataforma online pode ser retirada do ar no Brasil.

Comprova Explica: Diante desse caso e também de processos de fiscalização que já tinham sido instaurados pelas autoridades brasileiras, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou no dia 12 de agosto que o Discord suspendesse as funcionalidades de transmissão ao vivo e compartilhamento de vídeos no Brasil. O objetivo, segundo a agência, é conter episódios de violência e coação envolvendo menores de 18 anos.

O que é o Discord e por que ele é alvo de investigações criminais?

Lançado em 2015 para jogadores de videogame conversarem enquanto jogam, o Discord é uma plataforma de comunicação que se popularizou durante a pandemia de covid-19, passando de 59 milhões de usuários em 2019 para 150 milhões em 2021. O serviço tem no Brasil seu segundo maior mercado, com 4,40% do total de usuários registrados. O país fica atrás somente dos Estados Unidos (29,90%), segundo dados do Similarweb.

A plataforma permite que os usuários conversem por meio de mensagens de texto, voz e vídeo. Eles podem entrar em servidores para conversar em grupo ou mandar mensagens privadas. No Brasil, o acesso é permitido para adolescentes a partir dos 13 anos. Segundo o site oficial, o Discord vem implementando a verificação de idade no país desde março de 2026. 

O Discord passou a ser alvo das autoridades brasileiras após a suspeita de que uma adolescente de 13 anos, de Naviraí (MS), teria sido ameaçada, manipulada e coagida por um grupo formado por seis jovens entre 13 e 18 anos a cometer suicídio durante uma live na plataforma em 22 de julho. 

A Polícia Civil do Mato Grosso do Sul passou a investigar o caso como homicídio e deflagrou uma operação sobre o caso em 4 de agosto, a Operação Lívia, que chegou a outros estados.

Além disso, a ANPD informou que já tinha instaurado processo de fiscalização contra o Discord para apurar indícios de descumprimento de deveres previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital, em vigor desde 17 de março deste ano. A lei estabelece regras para proteger crianças e adolescentes e responsabiliza plataformas e empresas de tecnologia pela adoção de medidas de segurança. 

O que motivou a polêmica envolvendo o Discord e o governo?

A discussão sobre um possível banimento do Discord no Brasil por parte do governo federal foi levantada após a primeira-dama do Brasil, Janja, opinar sobre a operação da plataforma no país durante um evento, em 8 de agosto. Ela pediu o banimento da plataforma por “não respeitar” o ECA Digital após o suicídio da menina de Naviraí.

“Eu vou novamente reiterar a minha luta para que essa plataforma seja banida do Brasil. O grupo tem que ser criminalizado por promover isso, mas a plataforma é cúmplice disso, e a gente precisa urgentemente encontrar os instrumentos jurídicos para essa plataforma ser banida do Brasil”, disse Janja.

Nas redes sociais, o assunto levantou a discussão sobre os limites da atuação do governo no funcionamento de plataformas digitais. O advogado Luis Fernando Prado, diretor-executivo do Instituto Brasileiro de Inovação e Regulação Aplicada (Ibira), esclarece que um decreto presidencial não pode determinar unilateralmente o bloqueio ou suspensão de uma plataforma no Brasil. 

“Essa sanção específica, de bloqueio ou suspensão, de uma plataforma no Brasil por violação de ECA digital, precisa ser aplicada pelo poder judiciário. Então, o fluxo seria a ANPD investigar, apurar eventuais violações no âmbito administrativo”, detalha.

Ele frisa que se for necessário essa proibição ou suspensão de um serviço no Brasil, o judiciário é que precisa determinar. “O Poder Executivo hoje não teria essa capacidade e competência legal”, explica.

Vera Chemim, advogada constitucionalista com mestrado em Administração Pública pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP), complementa que “não existe uma legislação que autorize ou delegue competência ao Presidente da República para banir um serviço dessa natureza”. Como ela explica, a legislação sobre o tema é o Marco Civil da Internet.  

Em outras palavras, o artigo 84 da Constituição Federal estabelece, nos incisos IV e VI, as hipóteses em que o presidente pode editar decretos, que incluem a regulamentação das leis e determinadas medidas relacionadas à organização e ao funcionamento da administração federal. Essas competências não abrangem o banimento de serviços ou plataformas, o que significa que não há previsão constitucional para que o presidente determine, por decreto, a retirada do Discord do ar.

Quais medidas foram tomadas pela ANPD e o que diz o Discord?

A partir do caso da menina de 13 anos e de outros processos de fiscalização em curso, a ANPD determinou em 12 de agosto que o Discord suspenda as funcionalidades de transmissão ao vivo (live) e compartilhamento de vídeos no Brasil. Para a agência, a medida tem como objetivo conter episódios de violência e coação envolvendo menores de 18 anos.

Conforme a ANPD , há evidências robustas de que a empresa não adotou medidas razoáveis para prevenir e mitigar riscos de acesso, exposição, recomendação ou facilitação de contato com conteúdos ou práticas que representem graves violações de direitos de crianças e adolescentes, incluindo à automutilação e ao suicídio, conforme o ECA Digital (art. 6º, II e III). A plataforma tinha três dias úteis para acatar a determinação.

Mesmo diante da decisão, a medida preventiva não retira a plataforma do ar. As outras funcionalidades continuam disponíveis, como a interação por texto e áudio em salas privadas, o compartilhamento de conteúdos e a moderação ativa pela comunidade.

Na mesma semana, o Discord admitiu, em um relatório enviado para o Ministério da Justiça ao qual a GloboNews teve acesso, que seu sistema de proteção falhou e demorou cerca de duas horas para derrubar a transmissão que vitimou a jovem. Naquela ocasião, a inteligência artificial (IA) da plataforma atribuiu apenas 0,12 ponto, abaixo do 0,95 necessário para enviá-la para revisão humana. A empresa alegou que o servidor era novo e pequeno, o que dificultou a detecção.

“Esse resultado está sendo reexaminado, inclusive para avaliar possíveis aprimoramentos nos critérios de priorização”, disse o Discord.

No dia 14, a plataforma enviou um ofício à ANPD pedindo que o órgão revogue a determinação de suspensão de transmissões ao vivo. A empresa alegou que não conseguiria cumprir o prazo de três dias úteis.

Porém, em 17 de agosto, diante da repercussão do caso e da ordem da ANPD, o Discord suspendeu as transmissões ao vivo no Brasil. A empresa também divulgou uma “carta à comunidade do Discord no Brasil” assinada pelo Diretor de Tecnologia  e cofundador da big tech, Stanislav Vishnevskiy, que classificou o episódio como “um caso devastador” envolvendo a morte da adolescente e aponta que o caso foi decorrente de uma campanha coordenada de violência extrema conduzida em múltiplas plataformas. 

Na carta, ele destaca que a plataforma está “trabalhando para restabelecer o acesso a esses recursos importantes (lives) o mais rápido possível”.

Fontes consultadas: O Comprova conversou com especialistas em Direito Constitucional, Digital, Privado e Proteção de Dados; pesquisou sobre as medidas da ANPD, recomendações do ECA Digital e reportagens publicadas em outros jornais brasileiros. A equipe do Comprova também entrou em contato com as assessorias de imprensa do Discord, da Meta e com Janja por meio da Secretaria de Comunicação Social.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta, nesse monitoramento, um tema que gera muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Aos Fatos já explicou as novas regras do ECA Digital.