Votos registrados após as 17h representaram 0,03% do total e não alteraram a vitória de Lula
- Comprova Explica
- Cerca de 34,4 mil votos foram computados durante a prorrogação, número que não muda o resultado da eleição.
Conteúdo analisado: Posts virais publicados no TikTok e no X alegam que a prorrogação do horário de votação no segundo turno das eleições, que ocorreu no domingo (25), configurou fraude eleitoral e viabilizou a inclusão indevida de votos após o encerramento das urnas para favorecer a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Conteúdos comparam a situação brasileira com as eleições de 2015 na Venezuela em que também houve uma prorrogação do período de votação.
Comprova Explica: Publicações nas redes sociais que acumulavam mais de 2 milhões de visualizações até 28 de outubro passaram a questionar o resultado do segundo turno das eleições ao associar a extensão do horário de votação a uma suposta fraude. As alegações dão a entender, sem fundamento, que o adiamento teria permitido a inserção de votos ilegais após as seções eleitorais já terem encerrado as atividades e comparam de forma enganosa a situação com o caso venezuelano.
A narrativa é enganosa. A prorrogação da votação até as 19h ocorreu por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) após pedidos formais de ambas as campanhas presidenciais – de Lula e de Flávio Bolsonaro (PL) –, valendo estritamente para as seções eleitorais que ainda não haviam encerrado os trabalhos às 17h. Em nota, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS) afirma que o software lacrado da urna eletrônica impossibilita tecnicamente a inserção de votos após a impressão do Boletim de Urna (BU), e os 34.393 votos computados após as 17h representaram uma fração mínima do total, sem capacidade matemática de alterar o resultado.
Ao contrário do que ocorreu nas eleições legislativas de 2015 na Venezuela, em que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) prorrogou o período de votação sem qualquer pedido dos representantes políticos, o pleito brasileiro registrou pedidos de ambos os candidatos ao Planalto. A prorrogação aqui no Brasil, se deu pelos diversos relatos de falta de ônibus no transporte público em cidades como Salvador e São Paulo. Além disso, no pleito de 2015, mesmo com a prorrogação, a oposição obteve vitória com 122 cadeiras eleitas frente às 55 da ala de Maduro.
A redução da frota de ônibus em Salvador levou o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) a determinar a prisão em flagrante de Pablo Souza, secretário municipal de Mobilidade do município. Já na capital paulista, o levantamento feito por Igor Novaes Lins, pesquisador no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), identificou uma redução de 31,4%, ou aproximadamente 3,2 mil ônibus, de sexta-feira para domingo.
Abaixo, a seção Comprova Explica traz detalhes da decisão, o funcionamento das urnas e os números oficiais do pleito.
Por que o horário de votação foi estendido e quem solicitou a medida?
A ampliação do horário foi solicitada no domingo de votação pelas campanhas presidenciais concorrentes: a de Lula e a de Flávio Bolsonaro. Ambas alegaram à Justiça Eleitoral dificuldades logísticas enfrentadas por eleitores para chegar aos locais de votação. Após mais de duas horas sem uma ação do órgão eleitoral, a campanha de Lula recorreu ao STF pela prorrogação em locais de votação dos municípios baianos.
Enquanto a campanha do PT apontou retenções e problemas de deslocamento em diferentes estados, com ênfase na Bahia, a campanha de Flávio acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) relatando que temporais severos, alagamentos e quedas de energia prejudicaram o acesso dos cidadãos às seções em municípios de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
Os pedidos foram examinados pela Presidência e pela Corregedoria do TSE no início da tarde e redistribuídos ao ministro Cristiano Zanin, do STF, que deferiu medida cautelar determinando a extensão do prazo por duas horas.
Quem determinou a prorrogação e como ela foi comunicada aos estados?
A decisão partiu do ministro Zanin, por volta das 17h de domingo. Na sequência, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, assinou às 17h49 um ofício formalizando a orientação aos TREs e aos juízes eleitorais de todo o país.
Como a ordem formal foi transmitida quase uma hora após o fechamento regular das 17h, Zanin emitiu um esclarecimento pontuando que a extensão tinha aplicação exclusiva sobre as seções eleitorais que continuavam abertas por terem eleitores em fila. Em nenhum momento foi determinada a reabertura de locais onde a mesa já havia encerrado a votação e impresso os Boletins.
O Comprova apurou que os TREs de todos os estados comunicaram o cumprimento da diretriz, seja através de notas oficiais do TSE, publicações nas redes sociais ou comunicação direta com veículos jornalísticos locais. Mesmo assim, em algumas unidades, como o Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, as urnas já tinham sido fechadas quando a informação do TSE chegou aos mesários e presidentes de seções eleitorais.
A diferença entre o horário previsto e o horário real de votação é evidência de fraude?
Não. A divergência entre as 17h (horário padrão de fechamento) e o término real dos trabalhos em uma seção eleitoral é uma rotina legal e frequente em qualquer pleito no Brasil.
O artigo 153 do Código Eleitoral e a resolução do TSE nº 23.751/2026 estabelecem expressamente que, às 17h, os mesários organizam a fila existente e distribuem senhas numeradas a partir do último cidadão presente. Todos os eleitores que estiverem na fila nesse momento têm assegurado o direito de votar, não importando a hora em que o atendimento seja concluído. Acontecimentos operacionais, como troca de baterias ou verificação biométrica em locais de grande afluência, também costumam estender o fluxo. Todos esses horários ficam gravados de forma auditável e transparente no log da urna.
A prorrogação permite inserir votos depois que a urna foi encerrada?
Não. “Quando a urna é fechada, ela não pode mais ser reaberta”, ressaltou o TRE do Distrito Federal. A afirmação é corroborada pelo secretário de TI do TRE-RS, Daniel Wobeto. Para a Rádio Gaúcha, o secretário afirmou que, após o encerramento da votação pelo mesário, a urna não aceita novos votos.
“A urna que está encerrada não volta. Ela só serviria para um próximo turno, que não existe. Não há o que fazer”, afirmou Wobeto no dia 25 de outubro.
O que a campanha de Flávio Bolsonaro alega como problema?
A contestação da equipe do senador decorre do atraso de comunicação institucional entre a concessão da liminar pelo STF e a notificação aos mesários. Como o ofício do TSE foi expedido às 17h49, a maioria das seções eleitorais do país já havia concluído suas atividades pontualmente às 17h, com os haviam sido BUs impressos.
A campanha do senador passou a argumentar que o funcionamento estendido de apenas uma parcela reduzida de seções teria provocado quebra de isonomia e assimetria de condições entre os eleitores das áreas atingidas por temporais e os demais, anunciando recursos jurídicos para contestar os procedimentos da data.
Como Lula venceu a disputa no segundo turno?
A virada de Lula no segundo turno decorreu da mobilização de um eleitorado mais numeroso, impulsionado pela expressiva redução de abstenções e votos brancos, somada à captação de votos de eleitores de terceiros candidatos do primeiro turno.
O segundo turno registrou uma taxa de abstenção de 19,22% — o menor patamar desde a eleição de 2006 e a maior queda histórica de abstenção entre primeiro e segundo turno desde a redemocratização. Esse fenômeno injetou cerca de 4,8 milhões de eleitores adicionais nas urnas, sendo 3 milhões provenientes da diminuição da abstenção e 1,8 milhão da redução de brancos.
Ao todo, o contingente de novos votos em disputa somou 14,1 milhões. Desses, o petista capturou 10,4 milhões (3 a cada 4 votos novos), enquanto Flávio Bolsonaro somou 3,7 milhões. O crescimento do presidente eleito concentrou-se de maneira expressiva nos dois maiores colégios eleitorais do Brasil: no Sudeste, Lula expandiu sua votação em 4,8 milhões de votos contra 1,7 milhão do adversário; no Nordeste, seu reduto histórico, a preferência pelo petista avançou de 63,8% para 69,4%, ao passo que a do senador oscilou para baixo, de 30,85% para 30,63%.
Os votos computados durante a prorrogação prejudicaram Flávio Bolsonaro?
Não. Os dados consolidados demonstram que a prorrogação de horário não teve qualquer peso no resultado matemático da eleição. De acordo com o TSE, após as 17h, foram registrados 34.393 votos no segundo turno. Lula recebeu 64,2 milhões de votos válidos (51,79%), contra 59,8 milhões de Flávio Bolsonaro (48,21%).
A diferença entre os candidatos é de 4,4 milhões de votos. Dessa forma, mesmo se nenhum dos votos registrados após as 17h fosse computado, a vantagem de Lula sobre Flávio ainda prevaleceria, o que descarta a possibilidade de o adiamento ter alterado o resultado final.
Fontes consultadas: Decisão cautelar do ministro Cristiano Zanin no Supremo Tribunal Federal (STF). Ofício da Presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de 25 de outubro de 2026 assinado pelo ministro Kassio Nunes Marques. Manifestações oficiais e notas públicas dos Tribunais Regionais Eleitorais (TRE-TO, TRE-RS, TRE-BA e demais unidades federativas). Código Eleitoral – Lei nº 4.737/1965 (Artigo 153). Resolução TSE nº 23.751/2026 (Regras gerais dos atos preparatórios e votação). Portal de Divulgação de Resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Reportagens do Estadão, da BBC e do UOL Notícias cobrindo os acontecimentos de domingo (25), das eleições de 2015 na Venezuela e estatísticas de apuração, dados de abstenção e registro de votos após 17h.
Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta, nesse monitoramento, um tema que gera muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Para se aprofundar mais: O Comprova já realizou outras checagens sobre o processo eleitoral, especialmente sobre o processo de entrega das mídias das urnas e a pausa na divulgação dos resultados no primeiro turno. Também checou a troca de seções eleitorais que antecedeu o segundo turno do pleito.








