O Projeto Comprova reúne jornalistas de 28 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
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Investigado por:2020-08-07

Imagem que circula nas redes sociais não comprova venda de cloroquina em trem no Rio de Janeiro

  • Falso
Falso
Não há embalagem de medicamentos à base de cloroquina ou hidroxicloroquina na imagem que viralizou no Twitter, Reddit e Facebook
  • Conteúdo verificado: Em postagens no Facebook e no Twitter, perfis compartilham foto de duas pessoas em um vagão, uma delas coberta por dezenas de saquinhos com diversos remédios que parecem estar à venda. O texto que acompanha as postagens afirma que “O Rio não é pra qualquer um… Cloroquina 3 por 10 no no trem em Japeri – RJ”.

Os textos que acompanham uma foto que circula pelas redes sociais e que sugerem que pacotes de cloroquina e hidroxicloroquina estariam sendo vendidos em trens da malha urbana estadual do Rio de Janeiro são falsos.

Apesar de o Comprova não ter encontrado o autor da imagem, nem registro da circunstância e local onde ela foi feita, a partir análise detalhada da foto e de informações obtidas com o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), é possível afirmar que não há embalagem de medicamentos à base de cloroquina ou hidroxicloroquina na imagem que viralizou.

Como verificamos?

Inicialmente, o Comprova contatou a Supervia, companhia que opera o transporte ferroviário no Rio de Janeiro e é responsável pela linha que leva a Japeri, onde teria sido clicada a foto, segundo algumas das postagens. Também entrou em contato com a Polícia Militar, órgão acionado quando há alguma ocorrência nos trens e estações.

A equipe também fez uma busca reversa de imagem no Google, e na ferramenta TinEye, para tentar achar a fotografia original, No entanto, os primeiros posts encontrados, do dia 4 de agosto, já são repostagens. O Comprova questionou internautas que publicaram a foto se conheciam o autor da imagem, mas nenhum respondeu de maneira afirmativa até o fechamento deste texto. Essas pessoas sempre alegavam que receberam a foto já com o contexto falso.

Sem ter a confirmação, o Comprova utilizou a ferramenta InVid, que possibilita a ampliação de imagens, para observar detalhes da foto. Com o ampliação da imagem, a reportagem entrou em contato com o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos para checar quais laboratórios comercializam medicamentos à base de cloroquina e hidroxicloroquina e, assim, identificar se as embalagens desses remédios apareciam na foto verificada. A equipe também procurou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

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O que dizem a PM e a Supervia

A Supervia informou que não pode confirmar a veracidade da foto porque não “teve registro do fato citado”. A empresa afirmou ainda que investe em campanhas para alertar sobre o comércio ilegal de camelôs “e os riscos do consumo de produtos de procedência não conhecida e, por vezes, fora do prazo de validade” e que, quando sabe de algum tipo de ocorrência, aciona a Polícia Militar por meio do Grupamento de Policiamento Ferroviário (GPFer) – os agentes da companhia não têm poder de polícia.

A Polícia Militar do Rio de Janeiro afirmou não ter sido acionada para nenhuma ocorrência relacionada à venda de cloroquina nos vagões das linhas fluminenses. E completou que “é importante que as pessoas denunciem este tipo de conduta e não contribuam comprando produtos de origem desconhecida”.

Embalagens

Observando a imagem detalhadamente com a ferramenta InVID, é possível identificar alguns remédios, como o Dipimed, à base de dipirona, utilizado no tratamento da dor e febre, e o Narix, descongestionante nasal. Para descobrirmos se há embalagem de cloroquina ou hidroxicloroquina na foto, também pesquisamos os laboratórios que comercializam as drogas no Brasil. Contatado pelo Comprova, o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) informou que as empresas que vendem atualmente as duas drogas em farmácias do país, segundo dados da consultoria IQVIAsão: Apsen, E.M.S e Sanofi.

Um quarto laboratório, Cristália, produz cloroquina, mas vende apenas para o Sistema Único de Saúde (SUS) e hospitais particulares, em embalagens de 200 comprimidos, conforme informou ao Comprova. “O Quinacris (nome do remédio) não é comercializado em farmácias e drogarias e o foco do produto não é o paciente final”, afirmou a empresa.

Comparando as embalagens dos três produtos comercializados em drogarias brasileiras, é possível verificar que não há nenhum deles na imagem que viralizou nas redes sociais.

A foto verificada pelo Comprova não mostra, portanto, nenhum remédio à base de cloroquina ou hidroxicloroquina.

Nenhuma das duas substâncias tem eficiência comprovada contra o novo coronavírus e medicamentos à base delas devem ser prescritos “em receita especial de duas vias”, informa um comunicado publicado em março pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos que tenham grande viralização e repercussão nas redes sociais. É o caso do post em questão, que teve 3.825 interações no Twitter até 7 de agosto, segundo a ferramenta CrowdTangle.

No Facebook, foram ao menos 7.700 compartilhamentos e mais de 10 mil interações. A maioria das páginas com viralização tratam de notícias locais do Rio de Janeiro, mas o caso também foi divulgado por alguns sites, o mais expressivo da rádio Tupi FM.

Embora o comércio ilegal seja comum em muitas cidades brasileiras, o post chama a atenção por supostamente mostrar a venda de uma droga que está em evidência no país. Apesar de não ter eficácia comprovada contra a covid-19, o medicamento vem sendo apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como uma possível cura para a doença – ele, inclusive, afirmou ter tomado ao ser infectado pelo novo coronavírus.

Muitos brasileiros acreditam que a substância seja realmente uma cura, e o post coloca a saúde da população em risco ao afirmar que a droga pode ser encontrada em trens do Rio de Janeiro. Como informado anteriormente, a droga só pode ser vendida em receita de duas vias.

O Comprova tem publicado outros conteúdos falsos relacionados à pandemia, como da médica que disse que a Austrália controlou a covid-19 com ivermectina e do influenciador que negou a eficiência das máscaras.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

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Investigado por:2020-08-07

Osmar Terra usa dados de um único hospital para dizer que covid-19 está reduzindo no RS

  • Enganoso
Enganoso
Deputado usa dados verdadeiros sobre uma queda no número de internações no Grupo Hospitalar Conceição — referência no tratamento da covid-19 em Porto Alegre. Mas os dados não podem ser extrapolados para as outras 298 instituições de saúde que também atendem pacientes com covid-19 em todo o estado
  • Conteúdo verificado: Publicação no Twitter do deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) em que ele usa dados de internações por covid-19 no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), na capital gaúcha, para afirmar que a epidemia está reduzindo no Rio Grande do Sul.

O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) erra ao afirmar em uma publicação no Twitter que “a epidemia começa a reduzir no RS”. Na postagem, Terra usa dados verdadeiros sobre uma queda no número de internações no Grupo Hospitalar Conceição — referência no tratamento da covid-19 em Porto Alegre — para anunciar uma melhora no quadro em todo o Rio Grande do Sul.

O post é do dia 4 de agosto, data em que o estado chegou a um recorde de mortes registradas em um único dia: 83. O novo coronavírus custou a vida de 2.231 gaúchos até o dia 6 de agosto, aponta o painel on-line do Governo do Rio Grande do Sul. O indicador mostra ainda que a capital gaúcha lidera o ranking de casos confirmados e de mortes no estado: 9.532 e 318, respectivamente. Porto Alegre também superou a própria marca máxima de internações em UTIs na quinta-feira (6), contabilizando 331 pacientes. Nos três dias que se seguiram desde o tuíte de Osmar Terra, foram 215 novos óbitos por Covid-19: 83 na terça-feira , 64 na quarta e 68 na quinta.

A equipe do Comprova tentou contato com o deputado Osmar Terra por telefone, WhatsApp e Instagram, mas não teve resposta até a data desta verificação.

Como verificamos?

O Comprova começou a verificação buscando os dados no site do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), que atualiza as informações diariamente. Os gráficos publicados por Osmar Terra não estavam na página e procuramos a assessoria de imprensa do GHC, que nos colocou em contato com o diretor-técnico do hospital, Francisco Zancan Paz. O médico confirmou que os dados são do Conceição e disse que se tratam de estudos internos, mas que estariam disponíveis havendo solicitação. Os retornos sobre os registros foram por mensagens de WhatsApp e telefone.

Também solicitamos informações à Secretaria Estadual da Saúde (SES-RS), que respondeu por e-mail.

Usamos as ferramentas TweetDeck e CrowdTangle para monitorar o desempenho da publicação de Osmar Terra nas redes sociais e o buscador Google para encontrar reportagens publicadas na imprensa sobre a situação da pandemia no Rio Grande do Sul.

Por fim, tentamos falar com o deputado federal por telefone, mensagem de WhatsApp e de Instagram. Ele não atendeu a reportagem.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 7 de agosto de 2020.

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Em tuíte publicado na última terça-feira (4), o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) usa gráficos do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) para afirmar que a epidemia de covid-19 está diminuindo em todo o Rio Grande do Sul. E critica o sistema de bandeiras adotado pelo governo para estabelecer as regras de distanciamento em cada uma das regiões do estado. “Epidemia começa reduzir no RS. Nada a ver com bandeirinhas! Tendência de número de casos de internação em UTI e em enfermaria pela Covid 19, é de queda! Veja no maior hospital do Sul do país: GHC em Porto Alegre! Cai na semana 31, como acontece em todo inverno!”, escreveu o deputado.

É incorreto afirmar que a epidemia está reduzindo no Rio Grande do Sul. O estado registrou o primeiro caso da covid-19 em março e, de lá para cá, a situação piorou. Até 6 de agosto, 78.837 pessoas foram infectadas pelo novo coronavírus e 2.231 morreram vítimas da doença. As taxa de ocupação de leitos nas UTIs dos hospitais gaúchos é de 75%.

A região metropolitana de Porto Alegre é uma das mais atingidas. Na capital gaúcha, a ocupação de leitos de UTI chegou a 90% na segunda-feira (3) e a cidade atingiu um pico no número de casos e de óbitos em 4 de agosto.

Os gráficos que Osmar Terra divulgou na publicação são de um dos hospitais de referência para o tratamento da covid-19 na cidade, o Grupo Hospitalar Conceição (GHC). Embora seja um dos maiores hospitais da capital gaúcha, os índices servem apenas para analisar a situação no GHC, e não podem ser extrapolados para os outros 298 que também atendem pacientes com covid-19 em todo o estado. “São dados dos nossos hospitais. Não temos como avaliar os restantes”, disse o diretor-técnico do hospital, Francisco Zancan Paz.

Em entrevista ao Comprova, Zancan apresentou gráficos que mostram uma tendência à queda de casos de covid-19 nas emergências e enfermarias, mas não nas UTIs. “Na última semana, a demanda das nossas emergências, da nossa UPA e da nossa internação em enfermarias têm decrescido. Isso ainda não repercute na ocupação da UTI, que está sendo mantido em quase toda sua totalidade”, disse. E reforça que só é possível bater o martelo sobre uma diminuição — ou mesmo estabilização — no número de casos se essa tendência se mantiver ao longo de pelo menos 15 dias.

O GHC é composto pelos hospitais Conceição, Criança Conceição, Cristo Redentor e Fêmina, além da UPA Moacyr Scliar, de 12 postos de saúde do Serviço de Saúde Comunitária, de três Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e da Escola GHC. Porém, o hospital Conceição é a referência no tratamento da doença.

Questionamos a Secretaria Estadual da Saúde (SES-RS) para saber se os dados poderiam indicar uma tendência mais ampla no Rio Grande do Sul. Por e-mail, a assessoria de imprensa lembrou que a ocupação das UTIs do GHC segue alta, em torno de 95% até a data do contato, “a curva de óbitos e casos relacionados à covid-19 está em crescimento no Estado. (…) A SES-RS monitora a doença, toma as medidas que julgar necessárias, mas não faz previsões”.

As semanas

No tuíte, Osmar Terra fala em uma queda de internações na 31ª semana epidemiológica, “como acontece todo inverno”. As semanas epidemiológicas são divididas pelo Ministério da Saúde para facilitar o registro e controle de doenças. Contadas de domingo a sábado, a primeira semana é a que tem o maior número de dias de janeiro e a última é a que tem o maior número de dias de dezembro. Em 2020, a semana 31 foi de 26 de julho a 1º de agosto.

A Secretaria Estadual da Saúde não confirmou que tenha havido queda no número de internações na semana 31, mas disse que “nos últimos quatro anos, o pico das internações no Rio Grande do Sul tem ocorrido entre as semanas 18 e 27”.

O período coincide com os meses mais frios do ano no estado. “No inverno tem sido este comportamento. Ano passado foi muito similar”, confirmou o diretor-técnico do GHC. Em 2019, foram notificados 1.296 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) — condição provocada por doenças respiratórias, como a gripe e a covid-19 — e 75 óbitos no hospital. Em 2020, são 1.967 casos de SRAG e 344 óbitos. Destes, 157 óbitos foram por covid-19.

Insistência

No dia seguinte, 5 de agosto, Osmar Terra voltou ao assunto em sua rede social. Com novo gráfico do GHC, falou em queda na demanda de doentes naquele hospital e na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. “Como prevíamos vírus está fazendo seu ciclo natural e em poucas semanas termina o surto epidêmico no RS. Quarentena e lockdown inúteis”. No mesmo dia, Porto Alegre bateu recorde de pacientes com coronavírus nas UTIs: 324 pessoas com diagnóstico positivo para covid-19 necessitando cuidados intensivos.

Quem é Osmar Terra

Osmar Terra exerce o sexto mandato na Câmara dos Deputados, representando o Rio Grande do Sul. Em 2016, foi Ministro do Desenvolvimento Social no governo de Michel Temer (MDB) e ocupou a pasta da Cidadania já na gestão de Jair Bolsonaro, em 2019.

O deputado federal é formado em medicina e foi presidente do Grupo Hospitalar Conceição entre 1986 e 1989. Também ocupou o cargo de secretário da Saúde do Rio Grande do Sul de 2003 a 2010, nas gestões de Germano Rigotto (MDB) e Yeda Crusius (PSDB).

Terra é um apoiador de Jair Bolsonaro e, seguindo o discurso do presidente, já negou a gravidade da pandemia em diversas ocasiões — inclusive no post verificado aqui, em que usa o termo “epidemia” e não pandemia. Chegou a afirmar que o distanciamento social não tinha eficácia comprovada, que as mortes pelo novo coronavírus não Brasil não passariam o número de óbitos por H1N1 e declarou que a pandemia terminaria em junho.Já em agosto, compartilhou imagens antigas para criticar o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PHS).

Em março, o Comprova verificou um vídeo em que Terra defende o isolamento vertical, afirmando que apenas idosos e pessoas de grupos de risco deveriam ficar isoladas. As imagens circularam como se fossem do cardiologista Adib Jatene, falecido em 2014.

Por que investigamos?

Nesta terceira fase, o Comprova verifica conteúdos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia. Em um ano de eleitoral em que as disputas políticas estão acirradas, a covid-19 virou tema de debates em todos os campos ideológicos. A desinformação circula livremente em redes sociais e pode custar vidas. O post de Osmar Terra no Twitter teve mais de 4,1 mil interações — entre curtidas, comentários e compartilhamentos — e pode enganar os leitores, ao sugerir uma melhora que não se comprova na realidade.

O Comprova já checou outros conteúdos distorciam fatos para minimizar a pandemia: uma corrente que dizia que a etapa máxima das infecções aconteceria em abril, declarações de dois médicos que diziam que o novo coronavírus estava perdendo a força em junho e um texto que garantia que a pandemia já estaria em declínio em julho.

Enganoso, para o Comprova, é todo o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado. É o caso da publicação de Osmar Terra, que usa números reais para chegar a uma conclusão que não é verdadeira.

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Investigado por:2020-08-07

Evidências atestam a eficiência das máscaras no controle da pandemia, ao contrário do que afirma site

  • Falso
Falso
As alegações de que o uso de máscaras pode causar intoxicação e aumentar o risco de contaminação pelo novo coronavírus e ou por outros vírus e bactérias não têm comprovação
  • Conteúdo verificado: Um texto no site do Instituto Rothbard traz informações falsas sobre o uso de máscaras e qualifica como “tirania” as medidas de controle da pandemia.

São falsas as alegações feitas em um texto, publicado pelo site do Instituto Rothbard, que chama o incentivo ao uso da máscara de “tirania”. O conteúdo ainda afirma que não existem evidências capazes de provar a eficiência da proteção facial e que seu uso pode causar intoxicação e aumentar o risco de contaminação pelo novo coronavírus e outros vírus e bactérias.

As afirmações vão na contramão do que dizem as autoridades sanitárias de diversos países e das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), cujo trabalho se baseia em evidências científicas. A conclusão dessas autoridades é a de que o uso correto das máscaras reduz a quantidade de partículas virais expelidas e, portanto, ajuda a conter o avanço da pandemia.

O Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC), por exemplo, indica em seu site 19 artigos publicados em diferentes revistas científicas que atestam a efetividade do uso de máscaras como parte da estratégia para controlar a pandemia. A OMS, por sua vez, conta com uma Divisão Científica que subsidia a elaboração das normas da organização e que produz inúmeras pesquisas na área da saúde pública.

Em resposta ao Comprova, a equipe do site do Instituto Rothbard afirmou que o texto não contraria as recomendações dos órgãos de saúde porque comunicados contrários ao uso de máscaras já foram emitidos pelas entidades. O site, no entanto, não leva em conta o contexto em que tais comunicados foram feitos e ignora as mudanças de posicionamento das autoridades.

No início da emergência sanitária causada pela pandemia do novo coronavírus, a OMS recomendou que pessoas sem sintomas da doença evitassem usar máscaras cirúrgicas para que não houvesse falta para os profissionais da linha de frente e para os pacientes sintomáticos. Naquele momento faltavam equipamentos de proteção em vários países do mundo. Em junho, com o avanço do números de casos e óbitos causados pela covid-19, a OMS passou a recomendar o uso de máscaras para o público geral, afirmando que a mudança em seu posicionamento fora baseada na conclusão de novos estudos científicos.

Segundo a equipe do instituto, as organizações e entidades sanitárias são “órgãos burocráticos que se contrariam a si próprios[sic], o tempo todo. E, de modo algum, eles são nossa referência e deviam ser a referência de qualquer pessoa”.

Como verificamos?

Para verificar o texto do Instituto Rothbard entrevistamos, por áudios no Whatsapp, as professoras Giliane Trindade e Viviane Alves do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que desenvolveram uma pesquisa experimental para avaliar a eficácia das máscaras na prevenção da covid-19. Falamos, ainda, com o médico pneumologista do Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, Leonardo Meira de Faria.

Além disso, consultamos os dados e indicações para frear a disseminação do vírus da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos órgãos sanitários do Brasil e dos Estados Unidos, já que encontramos conteúdos similares ao do Instituto Rothbard em sites norte-americanos.

Por fim, entramos em contato com a equipe do site do instituto por e-mail.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 07 de agosto de 2020.

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O que é o Instituto Rothbard?

Em seu site, o Instituto Rothbard define-se como “o epicentro de disseminação da Escola Austríaca de economia e do libertarianismo”. Segundo a página, a Escola Austríaca defende “a proliferação irrestrita de territórios livres e independentes, até que o alcance da jurisdição do estado se esvaeça”. No site, são encontrados diversos textos que criticam a atuação dos governos e de organizações supranacionais, como a OMS.

O portal reúne uma série de conteúdos sobre a pandemia que relativizam a gravidade da emergência sanitária e criticam as medidas adotadas para frear seu avanço. Em um dos textos, o portal destaca a manifestação convocada por grupos neonazistas contra o isolamento social, que ocorreu em Berlim no dia1º de agosto, para afirmar que os “europeus estão acordando para a tirania da covid”.

Em outro, o site defende o desembargador que humilhou guardas metropolitanos após levar uma multa por estar sem máscara na cidade de Santos, no litoral paulista. Segundo o portal, que define aqueles que usam máscaras como “paranoicos”, caberia unicamente ao desembargador a decisão de usar ou não a proteção facial.

Além disso, o portal traz inúmeras referências aos conteúdos produzidos pela “The Healthy American”, uma associação anti máscaras norte-americana. A associação também se refere às medidas para frear o espraiamento da pandemia como “ tirania” e mantém uma campanha para que lojas abram em horários distintos para atender aqueles clientes que não desejem usar máscaras.

O que dizem as autoridades e os especialistas?

A OMS e as autoridades sanitárias do Brasil, dos Estados Unidos e de diversos outros países recomendam o uso de máscaras como uma parte da estratégia para frear o espraiamento do novo coronavírus. As autoridades destacam que para que a prevenção da doença seja efetiva, além de usar máscaras, a população deve higienizar constantemente as mãos e manter uma distância de pelo menos um metro e meio entre as pessoas.

Ao contrário do que afirma o conteúdo verificado, existem evidências científicas consistentes indicando que o uso de máscaras reduz a quantidades de partículas virais que pessoas infectadas com a covid-19 expelem ao falar, espirrar ou tossir. O Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC), por exemplo, indica em seu site 19 artigos que foram publicados em diferentes revistas científicas e atestam a efetividade dasmáscaras como parte da estratégia para controlar a pandemia.

A OMS passou a recomendar o uso de máscaras pelo público geral em 5 de junho. Na entrevista coletiva em que foi feito o anúncio da mudança na recomendação, o órgão explicou que a decisão partiu da conclusão de novos estudos que apontavam a eficiência das máscaras como parte da estratégia para o controle do espraiamento da doença. Nessa data, a OMS publicou documento que reúne essas conclusões e indica como usar corretamente a proteção facial em diferentes ambientes e situações. O documento apresenta 80 referências, que abrangem pesquisas conduzidas pelo próprio órgão e por pesquisadores de centros de pesquisa de diversos países.

Em entrevista ao Comprova, a professora e pesquisadora Giliane Trindade Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explicou que o uso de máscaras impede que pessoas pré-sintomáticas ou assintomáticas liberem partículas virais ao falar, tossir ou espirrar. “A finalidade do uso da máscara é justamente evitar a pulverização dessas gotículas de saliva, evitando que elas atinjam a superfície do rosto de outras pessoas ou superfícies inanimadas, como por exemplo, corrimão, assento de ônibus, lugares em que as pessoas vão ter mais contato”, esclareceu a pesquisadora.

A explicação da professora e pesquisadora, que realizou uma pesquisa experimental para avaliar a eficácia das máscaras no combate a disseminação da covid-19, está de acordo com as recomendações do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos. O órgão produziu a ilustração abaixo para conscientizar as pessoas sobre a importância do uso de máscaras.

As tentativas de descredibilizar o uso de máscaras durante a proliferação de doenças virais não é uma novidade. Viviane Alves, que também é professora do Departamento de Microbiologia da UFMG e participou da pesquisa experimental realizada na universidade mineira, acredita que essa onda de desinformação se trata de um negacionismo. “No século XX durante a gripe espanhola também havia a existência da ‘liga anti máscara’ que pregava que elas não eram necessárias e faziam mal. A mesma coisa tem ocorrido agora, várias pessoas tentando prejudicar a saúde da população. Usar máscara, manter o distanciamento social e higienizar as mãos são medidas eficazes provadas cientificamente para prevenir a transmissão, diminuir o número de casos e também diminuir a sobrecarga do sistema de saúde”.

O Comprova já verificou outros conteúdos falsos e enganosos sobre o uso de máscaras desde o início da pandemia. Na verificação mais recente, listou o posicionamento das principais autoridades de saúde brasileiras sobre o tema.

Há possibilidade de intoxicação?

Ao contrário do que afirma o texto do Instituto Rothbard, para a microbiologista Giliane Trindade, a informação sobre intoxicação por dióxido de carbono não procede. O que pode acontecer – no caso de pessoas infectadas – é o vírus ficar contido dentro do material preventivo evitando que seja espalhado e atinja outras pessoas.

“Se a gente pressupõe que o indivíduo tem uma noção correta da forma de descartar a máscara ou de como higienizar, ela não vai funcionar como um vetor de transmissão de vírus. O indivíduo consciente, que está com medo de morrer por covid-19, segue todas as autoridades de saúde e presta atenção naquilo que está sendo divulgado pelas autoridades sanitárias”, concluiu a microbiologista.

O médico pneumologista Leonardo Meira de Faria também não considera que as máscaras causem baixos níveis de oxigênio e hipóxia. Segundo o médico, os poros das máscaras não impedem que a troca de gases que ocorre na respiração seja prejudicada. “Na verdade a máscara é um dispositivo seguro, então a reinalação do gás carbônico não acontece. Não se atinge níveis tóxicos a ponto de considerar que ela possui um risco individual nesse sentido, em hipótese nenhuma”.

Máscara baixa a imunidade?

No texto verificado, há três tipos de máscaras citados – cirúrgica, N95 e de pano – e são apontados como facilitadores da entrada de germes no organismo, supostamente reduzindo a imunidade. Especialistas consultados pelo Comprova alegam que não existem dados sobre as máscaras – fabricadas de forma correta – permitirem esse contato com germes.

“Germes presos nas máscaras não vão causar nenhum tipo de infecção, eles são microrganismos que já moram no corpo. Germes do ambiente que estiverem pelo lado de fora da máscara não vão conseguir penetrar o material. Obviamente, se o tecido estiver contaminado depois de um certo tempo de uso e você colocar a mão e logo em seguida colocar no olho, você também será infectado. Por isso é importante higienizar as mãos e evitar o toque direto nas máscaras e no rosto”.

Há de se destacar que as autoridades recomendam máscaras diferentes para situações diferentes, que variam conforme o ambiente o risco de exposição ao vírus que ele oferece. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) possui uma página que reúne informações sobre máscaras faciais de proteção e que indica qual o tipo mais adequado para os diferentes contextos. A agência, por exemplo, não recomenda o uso de uma máscara tipo N95 para uma ida ao supermercado — ao contrário do que sugere o texto do instituto.

O Comprova já mostrou ser falso um vídeo que dizia que as máscaras reduziam a imunidade e potencializavam a proliferação de bactérias.

O que diz o Instituto Rothbard?

Procurado pelo Comprova, o instituto disse, por e-mail, que nenhum dos textos e vídeos publicados em seu portal contrariam as orientações do CDC e da OMS, alegando que os órgãos “se contrariam a si próprios [sic], o tempo todo” e não servem como referência para os materiais produzidos pela equipe.

Além disso, afirmou ter compromisso com a defesa da liberdade. O instituto pontuou que “o próprio título do artigo [objeto desta verificação] já explica a importância de defender a liberdade diante desta tirania opressiva do governo” e que o texto concentra informações de todos os tipos.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova investiga conteúdos de grande viralização nas redes sociais e com potencial de causar desinformação sobre políticas públicas do governo federal, eleições municipais de 2020 e sobre a pandemia do novo coronavírus. Em se tratando de conteúdos sobre a pandemia, a verificação se torna ainda mais importante, pois a desinformação pode colocar a saúde das pessoas em risco. É o caso do texto do Instituto Rothbard, que pode induzir as pessoas a não usarem máscaras — estratégia recomendada pelas autoridades de saúde para diminuir a velocidade de propagação da doença.

Desde o início da pandemia, o Comprova identificou e desmentiu diversos boatos sobre o uso de máscaras, mostrando que elas são eficientes no combate ao novo coronavírus e que não reduzam a imunidade nem potencializam a proliferação de bactérias. Em outras verificações, também mostrou que um vídeo e um áudio enganavam ao acusar que máscaras importadas da Ásia estariam contaminadas.

Segundo dados da ferramenta CrowdTangle, até a data de fechamento deste texto, o conteúdo somava mais de 4,2 mil interações no Facebook. O Comprova também encontrou conteúdos similares ao verificado em sites dos Estados Unidos que possuem um grande número de interações nas redes sociais, como o “The Healthy American”.

Falso, para o Comprova, é um conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

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Investigado por:2020-08-06

Post engana ao sugerir que ponte entre Acre e Rondônia é obra apenas do governo Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
A obra sobre o rio Madeira, que tem como prazo atual de inauguração o fim de 2020, foi iniciada em 2014, ainda no governo Dilma Rousseff.
  • Conteúdo verificado: Em post no Twitter, perfil compartilha vídeo de motociclistas em ponte inacabada entre o Acre e Rondônia e insinua que a obra estaria pronta e teria sido realizada apenas pelo governo Bolsonaro

Um post publicado por @humbertovivian no Twitter engana ao insinuar que a construção da ponte sobre o rio Madeira, que ligará o Acre a Rondônia, foi feita apenas na gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A obra teve início em 2014, ainda no governo de Dilma Rousseff (PT). Em dezembro de 2018, um mês antes de Jair Bolsonaro assumir a presidência, as obras da ponte já estavam 85% concluídas. A publicação ainda dá a entender que o projeto já está finalizado, mas a previsão de entrega é para o fim deste ano.

A postagem vem acompanhada de um vídeo em que um grupo de motociclistas aparece em cima da ponte ainda em construção. Em um trecho, eles insinuam que forçaram a entrada: “Os caras disseram assim: ‘rapaz, se tu não deixar ‘nós’ entrar (sic), nós vamos entrar’”. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), vinculado ao Ministério da Infraestrutura, afirmou que não está autorizada a passagem de veículos e investigará o caso.

O Comprova conseguiu falar com Solano Henriques, responsável pela publicação no YouTube de um conteúdo muito semelhante ao da postagem no Twitter. Por e-mail, ele disse ter recebido o vídeo e as informações por um grupo de WhatsApp. Humberto Ramos não respondeu aos contatos.

Como verificamos?

O Comprova procurou no Twitter outras postagens com o vídeo e conteúdo semelhante. Ao todo, 34 contas publicaram as imagens até 6 de agosto, incluindo o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho de Jair Bolsonaro. Todos os posts foram feitos depois da publicação de @humbertovivian.

O senador Flávio Bolsonaro (PSL) e o secretário-executivo do Ministério da Infraestrutura, Marcelo Sampaio, que também fizeram publicações nas redes sociais com o vídeo, não responderam aos contatos.

Pela ferramenta CrowdTangle, buscamos no Facebook a publicação mais antiga do vídeo dos motociclistas e um conteúdo semelhante. As primeiras postagens foram feitas em 4 de agosto, um dia depois de Humberto Ramos publicar o conteúdo no Twitter, nas contas “Direita Vive Brasil”, “Bolsonaro Presidente Pátria Amada Brasil”, “Tulio Isac” e “Brasil Sem Corrupção”.

Entramos em contato por e-mail com o Ministério da Infraestrutura e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes para colher informações sobre o andamento da obra. Também por e-mail falamos com Solano Henriques, responsável pela postagem do conteúdo no YouTube.

Verificação

O Comprova não conseguiu identificar quem são os motociclistas que aparecem no vídeo do post verificado. Na gravação, um deles é identificado como Giovani e diz que o grupo se chama “01”.

Enviamos uma mensagem pelo Twitter para Humberto Ramos, mas não obtivemos resposta até o fechamento deste texto. Solano Henriques, responsável pela publicação do material no YouTube, afirmou por e-mail que havia recebido o vídeo por WhatsApp e disse que não sabe quem são os motociclistas.

Questionado, o Dnit disse que a ponte ainda não está liberada para veículos. O órgão declarou que a entrada do grupo não foi autorizada e que irá apurar o que aconteceu.

A ponte do Abunã

O projeto da ponte começou ainda no governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2014. Em março daquele ano, ela anunciou o plano de construção durante uma visita ao Acre. O estado sofria os impactos de uma cheia do rio Madeira, que deixou a BR-364 inundada. A rodovia é a única ligação terrestre do estado com Rondônia.

A construção da ponte teve início com os recursos vindos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e tinha entrega prevista para 2017, com investimento inicial de R$ 128 milhões. As datas de conclusão, no entanto, sofreram mais de uma alteração, passando pelas gestões Dilma, Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (sem partido).

Em contato com o Comprova por e-mail, o Dnit afirmou que o novo prazo de entrega será no fim deste ano.

Governo Bolsonaro

Em dezembro de 2018, um mês antes de Jair Bolsonaro assumir a presidência, 85% das obras da ponte sobre o rio Madeira já estava terminada. “Até março será finalizada a parte de concreto. Até agosto de 2019, a gente irá finalizar os encabeçamentos”, disse o então superintendente do Dnit-RO, Cláudio André Neves.

Em reportagem de 5 de junho de 2019, a TV Globo registrou que o Ministério da Infraestrutura havia dado garantias ao Dnit em relação aos recursos para a conclusão da obra. Naquele momento, o prazo de entrega era final de 2019 e os trabalhos estavam 95% concluídos. O anúncio foi feito pelo ministro Tarcísio Gomes em agosto do ano passado.

O prazo foi alterado mais uma vez por problemas no lado de Rondônia. Por ser uma região alagada, seria necessário um aterro maior do que o calculado no início do projeto da ponte.

“No total serão cravadas 145 estruturas metálicas que servirão de base para suportar as demais estruturas que serão construídas, principalmente, a fundação do elevado em concreto da ponte. Com aproximadamente 460 metros, esse prolongamento da estrutura, além de um aterro de 1.400 metros, com até 10 metros de altura, foi a solução encontrada pelos técnicos da Autarquia para solucionar o problema do trecho de solo mole encontrado e que exige uma complexa solução de engenharia”, disse o Dnit, por e-mail.

Apesar dos problemas, o órgão afirmou que o cronograma segue com previsão de entrega no final de 2020 e “sem risco de paralisação”.

Sonho de 50 anos?

O post investigado diz que “50 anos depois, o governo Bolsonaro realiza o sonho dos acreanos”. Em dezembro do ano passado, Assuero Veronez, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Acre (FAEAC), também disse que o projeto era um sonho de 50 anos. O Comprova não encontrou registros de alguma promessa de obra feita nos anos 1970 que pudesse justificar a afirmação.

Em contato com o Comprova, Solano Henriques, responsável pela publicação do vídeo no YouTube e que também usou a expressão “sonho de 50 anos” na descrição, disse que a informação veio de um grupo de WhatsApp de ex-militares do Exército: “A mensagem veio junto com o vídeo e não tive motivos para duvidar”.

O próprio governador Gladson Cameli (Progressistas) afirmou, no ano passado, que a construção da ponte representava “um sonho antigo dos acreanos”. “Se é a maior realização para o povo acreano, logo, é a minha também, pois trará as melhores perspectivas de desenvolvimento que tanto sonhamos”.

O texto da agência de notícias do governo do Acre afirma que a construção da ponte foi uma promessa de campanha de Cameli, quando se elegeu senador em 2015, “e a luta por sua construção iniciou quando ele ainda era deputado federal”.

Por e-mail, a equipe do governador disse que a obra ajudará as negociações do Acre com outros estados e países. “Muitos políticos e a sociedade sonham com a ligação direta entre os estados do Acre e Rondônia há décadas, o que de fato favorece em muito os negócios para o estado do Acre, que tem uma logística estratégica com o Peru por meio da Rodovia Interoceânica (Estrada do Pacífico). Até hoje, o uso de balsas como transporte entre as duas cabeceiras faz com que se perca, em média, uma hora para carros de passeio, ônibus e caminhões com os mais variados insumos”. [Atualização: este parágrafo foi incluído em 7 de agosto para incorporar mensagem recebida do governo do Acre]

Durante o evento que marcou o início das obras da ponte, o então governador Tião Viana (PT) afirmou que o projeto era uma luta sua desde 1999, quando, segundo ele, liberou emendas para a construção, mas não teve apoio do governo de Rondônia, na época sob a gestão de José Bianco, então filiado ao PFL.

Por que investigamos?

O Comprova checa informações sobre políticas públicas do governo federal e sobre a pandemia de covid-19 que tenham viralização nas redes sociais. O post de Humberto Ramos teve 8,5 mil visualizações no Twitter até 6 de agosto. No YouTube, a publicação de Solano Henriques, com conteúdo semelhante, atingiu pouco mais de 1,1 mil visualizações.

O mesmo vídeo foi publicado pelo senador Flavio Bolsonaro (PSL) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos). As postagens deles, no entanto, diferem dos outros dois ao deixar claro que a conclusão da obra está prevista para o fim de 2020. Ainda assim, dão a entender que a obra foi feita apenas na gestão Bolsonaro. A publicação de Carlos teve 69 mil visualizações e a de Flávio, 134 mil.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado de forma a induzir a uma interpretação diferente, que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar danos.

Verificação

Investigado por:2020-08-05

Médico usa dados enganosos ao sugerir conspiração sobre covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Verificamos as principais alegações de um post que faz referência a um vídeo de um grupo de médicos espanhóis que negam a existência da pandemia
  • Conteúdo verificado: Em post no Instagram, médico lê texto sobre encontro realizado na Espanha, de uma organização chamada Médicos por la Verdad. Segundo os participantes e o médico, a pandemia é uma farsa “criada com fins políticos”.

O vídeo publicado no perfil do Instagram do médico Djalma Marques, conhecido como Dr. Kefir, traz conteúdo enganoso ao afirmar que “a cada dia vão caindo as máscaras da grande farsa da pandemia!”. Ele contraria autoridades sanitárias do mundo todo que estão tentando combater a pandemia. A covid-19 já provocou a morte de mais de 700 mil pessoas, segundo a Universidade Johns Hopkins. Só no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, foram mais de 95 mil vítimas até a publicação deste texto.

Logo no início da gravação, Marques afirma ter uma “notícia fantástica”, sobre uma conferência de médicos na Espanha realizada para a imprensa por um grupo chamado de Médicos por la Verdad. Entre os pontos que ele lê no vídeo, destaca-se o trecho: “Os médicos concordam com os seguintes pontos: as vítimas do coronavírus não superam em número as que morreram devido à gripe sazonal no ano passado na grande maioria dos países. Dois: os protocolos médicos em diferentes países foram alterados para exagerar nos resultados. Três: o confinamento de pessoas sadias e o uso forçado de máscaras não têm qualquer base científica”.

Nenhuma dos três pontos é verdadeiro. A taxa de letalidade do novo coronavírus, de acordo com estimativa da OMS, atualmente é de 0,6%– o índice vem sendo reavaliado conforme a evolução da doença e estudos sobre ela. Já a da gripe sazonal é de 0,1%. Também não há nenhuma comprovação de que algum país tenha alterado informações sobre a doença e o confinamento e o uso de máscaras são algumas das poucas medidas eficientes já conhecidas contra a covid-19.

Além de defender uma suposta conspiração com fins políticos, Marques receita remédios como a hidroxicloroquina, sem eficácia comprovada. Questionado pelo Comprova sobre a posição da OMS em pedir o cancelamento dos estudos com a droga, ele disse que a organização faz uso “mais que político” da doença. “Meu respeito pela OMS é zero.”

Como verificamos?

O Comprova buscou informações sobre Djalma Marques na plataforma de currículos acadêmicos Lattes, mantida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no Conselho Federal de Medicina e na rede social Linkedin.

Também encontramos no Facebook e no Instagram páginas relacionadas à BioLogicus, empresa da qual Marques é sócio-fundador. Foi por ela que conseguimos o contato do médico e realizamos uma entrevista por telefone.

Procurando no Google, encontramos um vídeo no YouTube com a gravação completa da conferência e conseguimos o contato da associação alemã (Außerparlamentarischer Corona Untersuchungsausschuss, ou Comissão de Inquérito Extra-parlamentar do Corona, segundo tradução livre) que deu origem ao movimento dos médicos negacionistas na Europa. Enviamos dois e-mails pedindo informações, mas não recebemos resposta até a publicação deste texto.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 5 de agosto de 2020.

Verificação

Quem é Djalma Marques?

Ele é médico e possui registro no Conselho Regional de Medicina do Estado da Paraíba (CRMPB). Em seu perfil no Linkedin, ele se descreve como “sócio-presidente, idealizador e fundador” da BioLogicus, uma empresa de biotecnologia. O texto de descrição do site diz que a companhia foi fundada em 2004 por Djalma Marques e pela engenheira química Fátima Fonseca.

Marques tem duas contas no Instagram. Uma delas, no entanto, não é atualizada desde o fim de 2019. Na outra, ainda ativa e com postagens quase diárias, ele se intitula “Doutor Kefir”, nome de um complemento alimentar. A BioLogicus anuncia em suas redes sociais diversos produtos à base da substância.

Em contato por telefone com o Comprova, Marques disse ter se formado em medicina em 1978 e exercido a profissão desde então. Ele diz ter atuado na área de homeopatia e, atualmente, trabalha como médico generalista. Seu registro no Conselho Federal de Medicina não especifica a área de atuação dele.

Máscaras e lockdown

Marques tem se dedicado nas redes sociais a postar conteúdos relacionados à covid-19 desde o começo da pandemia. Inicialmente, defendia o uso de máscara e pedia para que as pessoas permanecessem em casa. No fim de julho, porém, se referiu ao objeto como “focinheira”.

Questionado pelo Comprova, afirmou: “Fui um dos primeiros a dizer para as pessoas ficarem em casa e usarem máscara, porque a gente não conhecia nada do vírus. Depois que começamos a conhecer, a gente começou a mudar”. Ele disse ainda que “não existem trabalhos científicos mostrando que o uso de máscara previne ou evita a disseminação do vírus. Agora, existe o contrário, mostrando que não previne”.

Segundo o Comprova mostrou, no início de junho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), reforça que as máscaras “reduzem a incidência de infecções” e recomenda seu uso em locais públicos, como supermercados e farmácias.

Ainda no vídeo verificado, Marques critica o lockdown. Questionado pelo Comprova, chamou a medida de “prisão domiciliar forçada”. “Vamos tirar esse nome lockdown do vocabulário porque somos brasileiros. Então, qual é o nome? Não tem nome ainda na ciência colocar todo mundo sadio, suspeito, doente, dentro de casa. A ciência tem nome para quarentena, que é pegar pessoas doentes, separá-las das pessoas sadias até que passem os sintomas ou sejam tratadas. Isso se chama quarentena.” E continuou: “Substituir o nome por lockdown é para deixar o povo na ignorância. Ou você tem uma prisão domiciliar forçada, ou você tem uma quarentena”.

As medidas de restrição e isolamento foram vistas pela OMS, desde o começo da pandemia, como algumas das mais eficazes para a contenção do vírus e o retardamento do pico de contágio da doença. “Além das medidas de lockdown, precisamos de estratégias abrangentes baseadas em vigilância, em intervenção de saúde pública, testes, quarentena, e fortalecer os sistemas de saúde para absorver o golpe”, disse Michael Ryan, diretor-executivo de emergências sanitárias da OMS, em 1 de abril.

Uso da hidroxicloroquina

Na parte final do vídeo, o médico afirma que a hidroxicloroquina se mostrou eficaz no tratamento da covid-19 “em diversos países”. O tratamento com a substância, porém, não tem comprovação científica. A Organização Mundial da Saúde e o National Health Service (Serviço Nacional de Saúde) do Reino Unido cancelaram estudos com a cloroquina e a hidroxicloroquina.

Nos Estados Unidos, um dos países citados por Marques, a Food and Drugs Administration (FDA), órgão equivalente à Anvisa, revogou a autorização para o uso emergencial da hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19 no país.

No caso do Brasil, o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina é amplamente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Ele ordenou que o Laboratório do Exército produzisse os medicamentos e a pressão pela adoção das substâncias custou o cargo de dois ministros da Saúde (Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich). Em maio, o Ministério da Saúde, já sob a gestão de Eduardo Pazuello, ampliou a possibilidade do uso da hidroxicloroquina e da cloroquina para pacientes com sintomas leves da covid-19 – até então, elas eram previstas apenas em casos graves e com monitoramento em hospitais.

Em julho, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) publicou um informe dizendo ser “urgente e necessário que a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da covid-19” diante das novas evidências científicas.

Em contato com o Comprova, Marques diz receitar hidroxicloroquina e ivermectina – outra droga sem comprovação contra a doença – aos seus pacientes. “Eu uso a hidroxicloroquina porque ela é segura. Tratei pacientes obesos, hipertensos, diabéticos, grávidas e não tive um caso de insucesso. Quem diz que não pode tem que explicar o porquê. Acho que é um tema mais político do que médico.” E continuou: “A OMS é liderada por um ex-guerrilheiro do partido comunista, que não é médico. Meu respeito por ela é zero”.

Tedros Adhanom, diretor-geral da organização, nunca atuou como guerrilheiro de um partido comunista. Entre 2005 e 2012, foi ministro da Saúde na Etiópia no governo do presidente Girma Wolde-Giorgis, filiado à Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope. A organização política, de esquerda, teve papel fundamental no fim do regime socialista de Mengistu Haile Mariam (de 1974 a 1991).

Vacina

No Brasil, está em teste uma vacina criada pelo Instituto Butantan em parceria com a empresa farmacêutica chinesa Sinovac Biotech e anunciada pelo governo do estado de São Paulo. Os testes foram autorizados pela Anvisa no início de julho. Já havia sido definido que o estudo clínico envolveria nove mil pessoas – metade receberá a vacina e outra metade receberá um placebo para que seja possível comparar a resposta imune. Os participantes foram recrutados pelo governo – entre os pré-requisitos para se candidatar era preciso ser profissional de saúde, estar atuando no tratamento de pacientes com o novo coronavírus, ainda não ter sido infectado e não estar grávida.

Os testes estão sendo realizados em 12 centros de pesquisa de seis estados do país. Os voluntários serão acompanhados durante três meses. Se a imunização se provar segura e eficaz, o Butantan produzirá 120 milhões de doses a partir do início de 2021. Segundo o instituto, nessa fase, a vacina será disponibilizada para todo o país pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Além desta, há a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelo laboratório AstraZeneca em cooperação com o Brasil. Em junho, o Ministério da Saúde brasileiro anunciou ter entrado na parceria para a produção por meio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Segundo comunicado do órgão, serão 100 milhões de doses à disposição da população brasileira quando demonstrada a eficácia da proteção.

Embora haja testes e estudos para o combate ao novo coronavírus, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, afirmou nesta semana que a espera por uma vacina pode ser longa. “Muitas vacinas estão na terceira fase de testes clínicos e todos esperamos que haja várias vacinas eficientes que possam ajudar a prevenir que pessoas sejam infectadas. No entanto, não existe bala de prata no momento — e pode ser que nunca exista”, disse.

Médicos por la Verdad?

A associação que foi chamada de Médicos por la Verdad na Espanha surgiu a partir de um movimento criado na Alemanha que tem o médico Heiko Schöning como um dos líderes. Ela reúne pessoas que acreditam, como Marques, que a pandemia não existe. Uma das profissionais à frente do movimento na Espanha é Natalia Prego Cancelo. Em um dos vídeos em seu canal no YouTube, ela aparece à frente de um protesto com menos de 15 pessoas, gritando “Confinamento, nunca mais”.

Na entrevista para o Comprova, Djalma Marques afirmou ter uma relação com os profissionais envolvidos no Medicos por la Verdad. “Como eu estudei em Barcelona, tenho um contato bastante estreito com médicos que fazem parte”, disse. Sobre uma possível presença da associação no Brasil, ele informou que “ainda não é oficial”.

Por que investigamos?

O Comprova checa informações sobre políticas públicas do governo federal e sobre a pandemia de covid-19 que tenham viralização nas redes sociais. O vídeo do médico Djalma Marques teve mais de 38 mil visualizações no Instagram até 5 de agosto. No Facebook, a publicação na página do médico foi compartilhada 689 vezes e teve mais de 13 mil visualizações.

Marques e a associação Médicos por la Verdad colocam a saúde da população em risco ao utilizar informações enganosas para sugerir uma possível conspiração relacionada à covid-19 e ao criticar o uso de máscara e ao “lockdown”. Eles também indicam o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da doença, o que vai contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde.

O Comprova já publicou verificações desmentindo a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina em diversas ocasiões. Entre as investigações mais recentes estão as da médica que usou informações falsas para falar em cura da doença, a da profissional que citou estudos não conclusivos para sugerir uma conspiração contra a cloroquina e do site que relacionou a baixa mortalidade por covid-19 em Cuba à hidroxicloroquina.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado de forma a induzir a uma interpretação diferente, que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar danos.

Verificação

Investigado por:2020-08-05

É falso que a Austrália tenha controlado a covid-19 com o uso de ivermectina

  • Falso
Falso
O único tratamento contra a doença aprovado pelo país foi o remdesivir, que só deve ser prescrito para pacientes graves. Antes disso, o país adotou medidas como distanciamento social, higienização das mãos, restrição de viagens e lockdown
  • Conteúdo verificado: Em vídeo publicado nas redes sociais, a médica Cecília Pimenta diz que a Austrália distribuiu ivermectina “para toda a população” e, após isso, os casos de covid-19 começaram a cair

É falso que o governo da Austrália recomendou a toda população que tomasse a ivermectina como medida preventiva contra a covid-19 e que, depois disso, o número de casos no país caiu. A afirmação foi feita em um vídeo viral pela médica Cecília Pimenta. O único tratamento contra a doença aprovado pela Austrália foi o remdesivir, que só deve ser prescrito para pacientes graves. Antes disso, o país adotou medidas como distanciamento social, higienização das mãos, restrição de viagens e lockdown. A Universidade de Monash, que lidera a pesquisa australiana sobre o uso da ivermectina para tratar o novo coronavírus, afirmou ao Comprova que nem sequer iniciou o teste em humanos. Atualmente, a Austrália enfrenta uma segunda onda de infecções.

No vídeo, Pimenta também afirma, erroneamente, que a eficácia do medicamento foi reconhecida pela agência sanitária dos Estados Unidos, a Food And Drug Administration (FDA) – o órgão orientou os pacientes de covid-19 a não tomar ivermectina. A médica também diz que o uso da ivermectina foi responsável por controlar a pandemia na Etiópia, o que já havia sido desmentido pelo Comprova. Por fim, afirma que o remédio já é considerado uma “vacina” contra o novo coronavírus. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), porém, não reconhece a eficácia da droga no tratamento da doença.

O Comprova conseguiu falar com Cecília Pimenta e a questionou sobre as fontes das informações que cita no vídeo. Por WhatsApp, ela sugeriu que o Comprova pesquisasse na internet artigos sobre o uso da ivermectina no tratamento da covid-19.

Como verificamos?

O Comprova buscou informações sobre Cecília Pimenta no site do Conselho Federal de Medicina (CFM) e no Google, onde encontrou o número da clínica onde ela atende. A secretária nos deu o contato direto da médica. Também buscamos informações em verificações anteriores do Comprova sobre o uso da ivermectina na Austrália e na Etiópia.

Enviamos e-mail para a médica australiana Kylie Wagstaff, que coordena a pesquisa com ivermectina para combater o novo coronavírus na Universidade de Monash, na Austrália, e para o doutor Thomas Borody, diretor do Centro para Doenças Digestivas, que defendeu o uso da droga pelo governo australiano. Também tentamos contato com o Departamento de Saúde da Austrália, mas não tivemos retorno.

Por fim, procuramos a assessoria de imprensa da Anvisa e os sites das autoridades sanitárias dos Estados Unidos, FDA, e da Austrália, Therapeutic Goods Administration (TGA), em busca de informações sobre o uso da ivermectina nos três países.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 5 de agosto de 2020.

Verificação

Quem é Cecília Pimenta?

Cecília Maria Pimenta é registrada no Conselho Federal de Medicina (CFM) com atuação em Minas Gerais desde 1989. Atualmente, trabalha na cidade de Uberlândia. Em seus vídeos, se apresenta como ginecologista e médica da longevidade, embora não tenha nenhuma especialidade registrada junto ao CFM. Criou um canal no YouTube em novembro de 2019, quando publicou uma palestra feita em uma igreja com o tema “A razão da superação à luz da ciência e da Bíblia”. Todos os outros três vídeos do canal foram postados a partir do dia 22 de junho deste ano e falam sobre o uso da ivermectina para tratar pacientes com covid-19. Em um deles, cita como fonte a médica Lucy Kerr, cujo conteúdo sobre a ivermectina já foi apontado como enganoso pelo Comprova.

No vídeo que viralizou, um homem pediu, nos comentários, que ela indicasse os estudos que comprovam a eficácia da droga. A médica respondeu afirmando que, se ele pesquisasse, encontraria estudos contrários e favoráveis ao uso. “A ivermectina é extremamente segura e tem demonstrado resultados excepcionais em todo o mundo. Trabalhos científicos levam tempo para ser concluídos, não temos tempo”, afirmou.

Questionada sobre as fontes das informações que cita no vídeo, Pimenta afirmou, por WhatsApp, que estudos e pesquisas estão facilmente disponíveis em sites como Google Acadêmico, Scielo e BVS. “Basta você só pesquisar por ‘Ivermectin and COVID 19’ que terá acesso às informações que procura”, disse. Quando o Comprova perguntou se ela poderia indicar os links desses estudos, voltou a sugerir que a reportagem fizesse uma busca no Google. “Tem tudo o que você precisa”, disse.

A ivermectina na Austrália

A pesquisa sobre o possível uso da ivermectina como tratamento do novo coronavírus teve início na Universidade de Monash, na Austrália. Os pesquisadores constataram a eficácia do medicamento em laboratório, mas com uma dosagem superior à recomendada para o uso humano. Em junho, a universidade disse ao Comprova que pacientes com covid-19 não deviam usar a ivermectina como tratamento até que testes clínicos em humanos conseguissem comprovar a eficácia e a dose segura para ingestão.

O Comprova voltou a procurar a instituição em agosto para essa verificação. A doutora Kylie Wagstaff, que coordena a pesquisa com ivermectina na universidade, afirmou por e-mail, que, embora os testes pré-clínicos tenham se mostrado promissores, eles ainda não usaram a ivermectina em humanos. Isso porque a Austrália não tinha muitos pacientes para serem testados até recentemente, quando o país começou a passar por uma segunda onda de infecções. Ela também disse desconhecer a adoção da droga pelo governo do país para enfrentar a pandemia.

Segundo o site da Therapeutic Goods Administration (TGA), autoridade sanitária australiana, até o momento não há remédios ou vacinas comprovados para tratar ou prevenir a covid-19. Em 10 de julho, a TGA aprovou o primeiro tratamento específico para a doença no país, o remdesivir. Mesmo assim, só deve ser aplicado em pacientes hospitalizados com sintomas graves. Em 4 de agosto, o médico australiano Thomas Borody, diretor do Centro para Doenças Digestivas (Centre for Digestive Disease), defendeu que o governo adote a ivermectina como parte de um coquetel para tratar o novo coronavírus. O Comprova enviou e-mail para o doutor Borody para saber se ele receitou a medicação para seus pacientes, mas não teve retorno até o fechamento dessa verificação.

Pandemia na Austrália

A Austrália identificou o primeiro caso de covid-19 em 25 de janeiro, um homem vindo da província de Wuhan, na China. Seis dias depois, o governo determinou que todos os estrangeiros vindos da China passassem por um período de quarentena em outro país antes de serem autorizados a entrar em território nacional. Em fevereiro, as restrições foram ampliadas para a entrada de estrangeiros vindo de outras nações.

No início de março, os australianos registraram a primeira morte pela doença e os primeiros casos de transmissão comunitária do novo coronavírus. A partir daí, medidas mais enérgicas foram adotadas. A Austrália fechou suas fronteiras, impôs medidas de distanciamento social e fechou serviços não essenciais. O país também injetou 17,6 bilhões de dólares australianos (R$ 67 bilhões) em um pacote econômico e investiu outros 2,4 bilhões (R$ 9,1 bilhões) em saúde.

O afrouxamento gradual dessas medidas teve início em maio. Mas, em junho, os australianos passaram a lidar com uma segunda onda de infecções e o governo teve que adotar o lockdown em Melbourne, onde o comércio voltará a ser fechado a partir desta sexta-feira, 6 de agosto. O retorno das sessões presenciais do Parlamento federal, que ocorreria agora em agosto, também foi adiado.

Atualmente, o governo federal australiano mantém restrições de viagem, obrigação de quarentena para pessoas que chegam ao país e orienta os cidadãos a manter medidas de higiene e isolamento em casos de sintomas. Governos locais podem impor barreiras sanitárias. A Austrália também restringiu a venda de hidroxicloroquina e de medicamentos essenciais, como analgésicos, anticoagulantes e antidepressivos, para garantir o suprimento para pessoas que precisam dessas substâncias. Até esta quarta-feira (5), a Austrália tinha registrado 19.445 casos de covid-19 e 257 mortes pela doença, segundo dados da Johns Hopkins University.

O que diz a FDA?

Cecília Pimenta disse que a Food and Drug Administration (FDA), órgão sanitário dos Estados Unidos, reconheceu que a ivermectina funcionou em laboratório para combater o novo coronavírus. O site da FDA, porém, informa que as pessoas não devem tomar a medicação para prevenir ou tratar a covid-19 e cita a pesquisa da Universidade de Monash, mas lembra que “esse tipo de estudo laboratorial é comumente usado nos estágios iniciais do desenvolvimento de remédios” e que “testes adicionais são necessários para determinar se a ivermectina pode ser apropriada para prevenir ou tratar a covid-19”.

A FDA também negou haver uma autorização emergencial para que a droga seja usada por pacientes do novo coronavírus e orientou as pessoas a não consumirem medicamentos de ivermectina feitos para tratar animais.

O que diz a Anvisa?

Em email enviado ao Comprova, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que não existem medicamentos aprovados para prevenção ou tratamento da covid-19 no Brasil. Sobre a ivermectina, a Anvisa disse que “não existem estudos conclusivos que comprovem o uso desse medicamento para o tratamento da covid-19, bem como não existem estudos que refutem esse uso”. A agência também lembrou que o uso do medicamento para indicações não previstas na bula é de escolha e responsabilidade do médico que o prescreve.

No dia 22 de julho, a Anvisa determinou que as farmácias devem reter a receita das pessoas que compram ivermectina; o que garante um controle maior à venda da droga no Brasil.

Etiópia

Em julho, o Comprova mostrou ser falso que os países da África tenham controlado a pandemia de covid-19 com a ivermectina. No caso da Etiópia, logo após a confirmação do primeiro caso, em 13 de março, o governo fechou escolas, proibiu aglomerações e pediu à população que adotasse o isolamento social. Em 20 de março, a Etiópia adotou novas medidas, como o fechamento de bares e restaurantes, o cancelamento de voos para dezenas de países e a obrigatoriedade de quarentena para todos os que desembarcassem no país. Em 8 de abril, o governo decretou estado de emergência nacional por causa da pandemia.

A ivermectina não é indicada pelas autoridades sanitárias da Etiópia para a prevenção ou tratamento da covid-19. Segundo o governo, não há medicamento eficaz para os pacientes e a prevenção é o melhor método para controlar o contágio da doença. O país recomenda que os cidadãos lavem as mãos com frequência, evitem tocar o nariz e a boca, usem máscara e mantenham distância das outras pessoas.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica informações sobre as políticas públicas do governo federal e a pandemia de covid-19 que tenham viralizado nas redes sociais. É o caso da vídeo da médica Cecília Pimenta, que teve 11,3 mil visualizações no YouTube e 10,4 mil compartilhamentos no Facebook. A verificação se torna ainda mais importante quando se trata de medicações e tratamentos para o novo coronavírus, porque esses conteúdos podem induzir as pessoas a automedicação e expô-las a riscos de contaminação, por acreditarem que há uma cura comprovada e barata para a doença.

A ivermectina tem sido tema recorrente de desinformação. Além das verificações citadas acima, o Comprova também mostrou que as declarações de médicos têm sido distorcidas para alegar a eficácia da droga no combate à covid-19. Além disso, o Comprova já verificou conteúdos sobre as vacinas testadas no Brasil, o uso de máscaras, e que a cloroquina cura a doença. Também mostrou ser enganoso o uso via retal de ozônio como tratamento.

Falso para o Comprova é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edição para modificar o seu significado original e divulgado de maneira deliberada para espalhar uma mentira.

Verificação

Investigado por:2020-08-05

Ozonioterapia não tem eficácia comprovada contra a covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Aplicação de ozônio, homeopatia e tratamento com ivermectina anunciados em uma live pelo prefeito da cidade catarinense de Itajaí não tem eficácia comprovada para tratar a covid-19
  • Conteúdo verificado: Prefeito de Itajaí (SC) faz live para anunciar que disponibilizará ozonioterapia à população como forma de tratamento da covid-19. Prefeito também fala da eficácia de homeopatia e ivermectina no combate ao novo coronavírus.

Não há comprovação científica de eficácia dos tratamentos para a covid-19 propostos pelo prefeito de Itajaí (SC), Volnei Morastoni (MDB). No dia 3 de agosto, em uma live no Facebook, ele anunciou que o município vai passar a oferecer um “ambulatório de ozônio”, onde os pacientes confirmados com a doença poderão realizar a chamada ozonioterapia.

A técnica, que administra uma mistura de oxigênio e ozônio no corpo por diversas vias, porém, não é um consenso na comunidade médica e só tem autorização do Conselho Federal de Medicina para ser aplicada de forma experimental. Por isso, a cidade vai participar de um estudo da Associação Brasileira de Ozonioterapia que vai avaliar a efetividade do tratamento. O ensaio, segundo a prefeitura, também é realizado em outras partes do país e não tem limite de participantes – na prática, portanto, estará disponível a todos os moradores da cidade que estiverem interessados.

O prefeito também mencionou a distribuição de comprimidos de ivermectina e de cânfora — nenhuma das duas substâncias tem comprovação de eficácia contra o novo coronavírus.

Como verificamos?

O Comprova entrou em contato com a Prefeitura de Itajaí para saber os detalhes da medida. Também consultamos Conselho Federal de Medicina (CFM), Sociedade Brasileira de Ozonioterapia Médica (SOBOM) e Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB) para entender a utilização das terapias e medicamentos citados no vídeo. Ainda falamos com especialistas da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e do Instituto Questão de Ciência. Por fim, consultamos os dados da doença junto às secretarias de saúde estadual e municipal.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 4 de agosto de 2020.

Verificação

No vídeo transmitido no dia 3 de agosto, Morastoni disse que a Secretaria Municipal de Saúde estava finalizando os trâmites, junto ao Conselho Nacional de Pesquisa e Ética (Conep), para que a cidade seja incluída em um “protocolo nacional de pesquisa”. “Com isso, nós vamos ser autorizados a usar, a ter um ambulatório de ozônio”, afirmou.

A terapia foi a principal novidade anunciada pelo político, que ainda detalhou o tratamento: “Para esses casos [de diagnóstico positivo da covid-19, com sintomas], além da ivermectina, além da azitromicina, além de tudo mais, além da cânfora, nós também vamos oferecer o ozônio. É uma aplicação simples, rápida, de dois a três minutinhos por dia. Provavelmente vai ser uma aplicação via retal, que é uma aplicação tranquilíssima, rapidíssima, de dois minutos, num cateter fininho, e isso dá um resultado excelente. Nós vamos, em breve, estar implantando isso também. E, aí, a pessoa tem que fazer durante 10 dias seguidos — são 10 sessões de ozônio […] e isso ajuda muitíssimo nos casos, provavelmente, nos casos de coronavírus positivos.”

Ozonioterapia

Em 20 de abril de 2018, o Conselho Federal de Medicina tornou a ozonioterapia “procedimento experimental”. Com isso, determinou que ela só pode ser realizada “em instituições devidamente credenciadas” e sob o escopo de estudos. Sua aplicação deve seguir critérios definidos pela Conep. Uma das regras é que a aplicação da ozonioterapia não pode ser cobrada.

O CFM define a ozonioterapia como técnica de aplicação de uma mistura dos gases oxigênio e ozônio, por diversas vias de administração, com finalidade terapêutica. As principais são: endovenosa, retal, intra-articular, local, intervertebral, intraforaminal, intradiscal, epidural, intramuscular e intravesical.

O estudo em Itajaí será coordenado pela Associação Brasileira de Ozonioterapia (ABOZ), que faz lobby pela regularização da terapia junto ao Conselho Federal de Medicina . O CFM analisou 26 mil trabalhos sobre o tema e classificou-os como “incipientes”. Entendeu que “seriam necessários mais estudos com metodologia adequada e comparação da ozonioterapia a procedimentos placebos, assim como estudos comprovando as diversas doses e meios de aplicação de ozônio”.

O Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina (CRM-SC) emitiu nota nesta terça-feira, 4, na qual reforça que todo tratamento — não só para covid-19 — deve ser validado pelo CFM e que este já emitiu parecer restringindo a prática da ozonioterapia a estudos experimentais. “A norma federal também deixa claro que o seu uso benéfico em tratamentos clínicos ainda está longe de ser uma unanimidade positiva, já que o volume de estudos e trabalhos científicos adequados sobre a prática ainda é incipiente e não oferece as certezas necessárias. Esse assunto exige mais pesquisa em busca de conhecimento sobre o tema.”

Ozonioterapia e a covid-19

Desde abril, a possibilidade de uso da ozonioterapia como tratamento complementar de pacientes com covid-19 vem sendo discutida no Brasil, por meio do Projeto de Lei 1383/20, da deputada Paula Belmonte (Cidadania-DF). A proposta da parlamentar é que o tratamento seja uma possibilidade, aplicada conforme indicação médica em cada caso e de forma complementar. O texto foi alvo de discussão em uma comissão externa da Câmara dos Deputados no começo de julho. Na ocasião, defensores da terapia alegaram que seria capaz de reduzir a gravidade e o tempo de duração da infecção pelo SARS-CoV-2, com possibilidade de diminuição dos custos do tratamento em até 80%. Representantes do CFM que participaram do debate, porém, afirmam que as evidências clínicas defendidas não são consideradas pela entidade e que não há reconhecimento da ozonioterapia como especialidade médica.

Procurado pelo Comprova, o Ministério da Saúde também reafirmou que “de acordo com nota técnica publicada em abril deste ano, o efeito da ozonioterapia em humanos infectados por coronavírus (Sars-Cov-2) ainda é desconhecido e não deve ser recomendado como prática clínica ou fora do contexto de estudos clínicos”.

O Comprova entrou em contato com a presidente da Sociedade Brasileira de Ozonioterapia Médica (Sobom), Maria Emília Gadelha Serra. A médica enviou um ofício, encaminhado em 3 de agosto ao Ministério da Saúde, solicitando a inclusão de dois hospitais de Porto Alegre em um estudo clínico sobre o uso da ozonioterapia em pacientes com covid-19. O estudo já foi aprovado pela Comissão Brasileira de Ética em Pesquisa e tem registro da participação de 10 centros de pesquisa no país, inclusive a Fundação Oswaldo Cruz, mas ainda não foi iniciado. O ensaio vai recrutar 150 participantes.

Sobre as evidências científicas dos benefícios da ozonioterapia, Gadelha disse que há vários artigos publicados na literatura internacional dos últimos 70 anos. Perguntada sobre os resultados obtidos em outros estudos que coordena e para os quais recebeu aprovação do Conep, a pesquisadora disse apenas que foram protocolados recentemente.

Segundo o prefeito de Itajaí, o município vai fazer parte de uma pesquisa para que tenha autorização para montar um “ambulatório de ozônio”. Ao contrário do que sugere um protocolo de pesquisa, porém, o chefe do executivo municipal disse que a terapia vai estar disponível para todos os habitantes da cidade que testarem positivo para a covid-19: “ivermectina, cânfora, ozônio e tudo mais que nós formos descobrindo e sabendo que pode ajudar, nós vamos colocar à disposição da nossa população”, afirmou, na transmissão ao vivo.

Em uma nota publicada no site da prefeitura e enviada ao Comprova, a prefeitura diz que o estudo está sendo realizado em outros hospitais e ambulatórios do país, com os mesmos protocolos que ainda não tem data para ser implementados na cidade. “Os pacientes poderão participar da pesquisa de forma voluntária, desde que preencham os requisitos do estudo e assinem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido da Pesquisa. Todas as informações serão fornecidas pela equipe da pesquisa. O estudo recomenda que o protocolo seja aplicado em, no mínimo, 142 pacientes”, diz, ainda, o texto divulgado pela prefeitura.

O Comprova contatou a Associação Brasileira de Ozonioterapia, responsável pelo estudo que será realizado na cidade, mas não recebeu retorno até o fechamento desta verificação.

Perguntamos à presidente da SOBOM sobre a possibilidade de utilização da terapia de forma ampla, como anunciada pelo prefeito, ao invés de definir um grupo claro de estudo. Segundo ela, seria um caso de utilização “off-label”, que necessita de autorização do paciente em um “termo de consentimento livre e esclarecido para uso não estabelecido em bula de medicamentos”.

Para Luiz Gustavo de Almeida, microbiologista formado pelo Instituto de Ciências Biomédicas USP e coordenador dos Projetos Educacionais do Instituto Questão de Ciência, a terapia é uma repetição de outros tratamentos propostos durante o curso da pandemia do novo coronavírus. “É a mesma história de todos os outros remédios. A gente testa em laboratório, ele funciona na cultura de células. E as pessoas dão um salto para aplicar isso para pessoas. O ozônio mata vírus e bactérias, tanto que é usado para higienizar laboratórios. Agora, você assume que dentro do corpo da pessoa ele vai ter o mesmo funcionamento. Ele, inclusive, pode fazer mal para as nossas células, dependendo da forma como reage dentro do corpo”, afirmou em entrevista ao Comprova. E completou: “Antes que se faça os testes necessários para saber se esse tratamento funciona em humanos, você já está dando para as pessoas”.

Em abril, o Instituto já alertava para a ineficácia do tratamento com ozônio nos casos de covid-19. Na ocasião, uma clínica nos Estados Unidos foi proibida de oferecer a terapia. Por lá, a Food and Drug Administration (FDA, órgão equivalente à Anvisa no Brasil) considera o ozônio um “gás tóxico e sem aplicações médicas conhecidas em terapias específicas, complementares ou preventivas”.

No dia seguinte à live, 4 de agosto, o Ministério Público enviou uma recomendação à prefeitura de Itajaí para que não seja fornecido o tratamento à base de ozônio. Pelo site oficial, porém, o Executivo informou que “esta ação não se trata da distribuição de ozônio como forma de tratamento, mas sim da participação em um estudo multicêntrico da Associação Brasileira de Ozonioterapia, aprovado pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa do Ministério da Saúde, que irá avaliar cientificamente o impacto do uso desta técnica no tratamento de pacientes com COVID-19”

Ivermectina

Outro elemento do protocolo adotado em Itajaí no combate à covid-19 e mencionado na live é o uso da ivermectina. A prefeitura iniciou a distribuição massiva da ivermectina para a população em 7 de julho. O prefeito publicou um vídeo em sua página no Facebook no qual diz que a intenção é “ajudar na prevenção ao contágio e na diminuição dos sintomas no tratamento de pacientes com covid-19”. Em 31 de julho, a prefeitura anunciou que 126 mil pessoas já haviam aderido ao programa municipal e que haviam sido distribuídos 1.584.455 comprimidos do medicamento. Neste intervalo, os casos cresceram 75,2% e os óbitos, 113,3%, segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde.

A ivermectina é um remédio utilizado há muito tempo na cura de doenças parasitárias como piolho e sarna. Há alguns anos, cientistas descobriram que ela tem efeito inibidor in vitro em alguns vírus, como o da dengue, da gripe e o HIV. Por isso, um grupo de cientistas australianos da Universidade Monash testou seu efeito no SARS-CoV-2 e descobriu que o medicamento possui o mesmo efeito: eliminou todo o coronavírus presente em uma cultura de células em até 48h.

Isso não quer dizer que a ivermectina tenha eficácia comprovada no tratamento da covid-19. Muitas drogas têm efeito positivo em laboratório, mas o resultado não é replicado quando se passa para seres vivos (chamado in vivo), explica Lucile Maria Floeter Winter, diretora da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Segundo ela, os testes in vitro são apenas o primeiro passo, pois nem sempre é possível atingir a dosagem ideal in vivo — isso é, quando a fisiologia do organismo infectado está ativa. “O organismo íntegro pode, por exemplo, metabolizar a substância, fazendo que a dose ideal não atinja o alvo, ou mesmo que esse alvo não seja acessível ao composto por alguma outra razão biológica.”

A própria Universidade de Monash explica que “a ivermectina não pode ser usada em humanos para o tratamento da covid-19 até que sejam feitos testes clínicos que comprovem a sua eficácia em dosagens seguras”.

Na live, o prefeito citou a médica Lucy Kerr, defensora do uso da ivermectina no tratamento de pacientes com a covid-19. O Comprova verificou um vídeo em que ela defendia o uso do medicamento em maio e concluiu que as informações são enganosas.

Tratamento homeopático

Outra substância mencionada pelo prefeito na live foi a cânfora (Camphora officinalis), usada na cidade de forma preventiva e no tratamento dos pacientes com diagnóstico confirmado do novo coronavírus. A Prefeitura de Itajaí anunciou a distribuição do remédio homeopático para a população no final de abril. Até meados de julho, mais de 93 mil frascos de cânfora foram distribuídos no município. Em 17 de julho, a prefeitura divulgou os resultados de uma enquete feita com 1.171 pessoas. Os dados, segundo o município, sugerem uma “redução da gravidade” da doença e um índice de mortalidade menor. A comparação, porém, não leva em conta que apenas 3,7% dos que responderam ao questionário testaram positivo para o novo coronavírus.

Segundo o protocolo desenvolvido pela Associação Médica Homeopática Brasileira (AMHB), a homeopatia deve ser vista como “uma terapia complementar, que além de auxiliar a melhora física, atua na vitalidade emocional dos pacientes” e que “o tratamento homeopático deve ser aliado ao alopático”, ou seja, à medicina tradicional. Para o doutor Luiz Darcy Siqueira, presidente da entidade, a homeopatia não cura a covid-19. Ela trata o paciente, ajudando no seu restabelecimento e na resposta à doença.

Um estudo preliminar feito pela AMHB listou cinco medicamentos homeopáticos para serem usados em pacientes de covid-19: Arsenicum album, Bryonia alba, China officinalis, Chininum arsenicosum e Phosphorus; sem menção à Camphora officinalis. A entidade, porém, diz que o levantamento da Prefeitura de Itajaí é parte de um estudo da Associação Médica Homeopática de Santa Catarina, com acompanhamento da AMHB. Segundo Siqueira, os compostos podem ajudar na prevenção, mas pacientes com casos graves devem ser encaminhados aos hospitais. A AMHB aguarda autorização do poder público para dar início a um estudo clínico no Hospital Regional de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

De acordo com o microbiologista Luiz Gustavo de Almeida, é preciso lembrar que não há comprovação de que a homeopatia funciona no tratamento da covid-19 e de outras enfermidades. “É preciso ter muito cuidado com esse tipo de tratamento. Você pode dar falsas esperanças para as pessoas ao oferecer um medicamento que não tem eficácia comprovada. As pessoas podem se sentir mais seguras por estarem fazendo um tratamento profilático, saírem de casa e se contaminar”, adverte. Ele lembra que, em Itajaí, há um número elevado de pessoas contaminadas com o novo coronavírus. “As pessoas acreditam nessa voz de autoridade do prefeito, que é médico, e relaxam justamente as ações que a gente sabe que funcionam, como o distanciamento social, para apostar nessas medidas. Não é nem só uma questão de perda de tempo. Você pode estar fazendo um mal para a população”, alerta.

O prefeito de Itajaí

Volnei José Morastoni (MDB) é médico desde 1979, com especialização em pediatria, pela Universidade Federal do Paraná. Teve registros no Conselho Regional de Medicina do Paraná e depois em Santa Catarina, conforme o portal do Conselho Federal de Medicina. Está em situação regular para exercer a medicina, segundo o órgão.

É prefeito pela segunda vez de Itajaí (2005-2008 e 2017-2020), cidade de 219,5 mil habitantes localizada no Litoral Norte de Santa Catarina. Foi também deputado estadual e presidiu a Assembleia Legislativa de Santa Catarina entre 2003 e 2004. Morastoni é simpatizante do cardiologista e nutrólogo Lair Ribeiro, que prega práticas alternativas na medicina, com quem já fez uma especialização.

No discurso de posse para o atual mandato, em 2 de janeiro de 2017, apontou como prioridade resgatar um antigo projeto da prefeitura, chamado de Centro de Práticas Integrativas e Complementares, dedicado a oferecer modalidades alternativas de tratamento aos pacientes, que incluem homeopatia, acupuntura, relaxamento e métodos terapêuticos orientais. Esse centro havia sido criado em 2008, quando ele foi prefeito pela primeira vez, ainda pelo PT, e, segundo a prefeitura, nasceu amparado na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, do SUS, aprovada dois anos antes.

Não é a primeira polêmica em que Morastoni se envolve ao defender o uso de homeopatia na rede pública. Em 2017, ele lançou um projeto pioneiro para tratar dependentes de cocaína e crack utilizando composto feito a partir da folha da coca. Embora esse projeto tenha contado com apoio da Universidade do Vale do Itajaí e do Conselho Federal de Medicina, além de ter recebido recursos do Ministério da Saúde, foi criticado por especialistas do setor, como do Instituto Questão de Ciência.

A pandemia na cidade

Conforme a Prefeitura de Itajaí, até a noite do dia 03 de agosto havia 3.648 casos confirmados de covid-19 na cidade e 105 mortes. Dados do governo de Santa Catarina, no entanto, mostravam 3.823 diagnosticados com a doença até a mesma data

As medidas envolvendo homeopatia e ivermectina não geraram efeitos sobre a ampliação do contágio e número de mortes na cidade.

A distribuição de homeopatia, começou em 29 de abril. Nessa época, Itajaí tinha 86 casos confirmados para covid-19 e 3 mortes, segundo a prefeitura e o estado. A ivermectina começou a ser distribuída em 7 de julho, quando a cidade já registrava pouco mais de 2,1 mil casos de covid-19 e 45 mortes. Portanto, havia 25 vezes mais pacientes diagnosticados do que em 29 de abril e 15 vezes mais óbitos.

Desde que a ivermectina começou a ser distribuída até 03 de agosto, quando o prefeito anunciou o tratamento com ozônio, houve um aumento de 80% nos casos diagnosticados e 124% no total de óbitos na cidade, segundo a Secretaria de Estado da Saúde.

Os dados foram extraídos dos boletins diários da prefeitura e dos boletins do governo do Estado

Itajaí é referência em atendimento médico aos municípios da região de saúde do SUS conhecida como Foz do Rio Itajaí, que concentra 11 cidades com população estimada em 2019 de 715 mil habitantes, segundo o IBGE. No entanto, de acordo com relatórios produzidos pelo governo de Santa Catarina para orientar os prefeitos a tomarem medidas contra o avanço do novo coronavírus, essa região é a mais crítica do estado em número de casos de covid-19, lotação de leitos e medidas de isolamento ou distanciamento social.

Desde 30 de maio, a ocupação dos leitos de terapia intensiva na região tem preocupado a população. E desde 23 de junho apresenta o quadro mais crítico entre as 16 regiões de saúde de Santa Catarina, devido à baixa taxa de isolamento social, lotação dos leitos do SUS (que ultrapassou 90%) e testagem insuficiente da população, segundo critérios definidos pelo governo do Estado. É a região com mais mortes em Santa Catarina: 267, conforme o governo estadual. Até a última segunda-feira, 4, concentrava um em cada cinco óbitos registrados no estado.

Por que investigamos?

O Comprova checa informações sobre políticas públicas do governo federal ou sobre a pandemia de covid-19 que tenham alta viralização nas redes sociais. A possibilidade de aplicação da ozonioterapia como tratamento da covid-19 se tornou um dos assuntos mais comentados do dia.

No momento em que o Brasil se aproxima de 100 mil mortos pela doença, aumenta a expectativa por uma cura. Com isso, o protocolo medicamentoso específico de algumas cidades ou até países chama a atenção. Tanto Cuba quanto Senegal já foram alvo de desinformação em textos que relacionavam a prescrição da cloroquina e da hidroxicloroquina com o sucesso dos países no combate ao novo coronavírus.

A Organização Mundial da Saúde afirma que até o momento não há tratamento que cure a doença. Os medicamentos atualmente prescritos servem para aliviar os sintomas.

Até o fechamento deste texto, o vídeo original da live, no Facebook da Prefeitura de Itajaí, acumulava mais de 16 mil visualizações e centenas de comentários. No Twitter, trechos do vídeo que falam do tratamento — muitas vezes, de modo irônico — também viralizaram. Uma única postagem tinha mais de 9 mil curtidas. A utilização da ozonioterapia foi alvo de matérias do UOL, Estadão, Folha, G1 e até dos veículos britânico The Guardian e do português tvi24.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde com ou sem a intenção de causar dano.

Verificação

Investigado por:2020-07-31

Publicações enganam ao associar Bolsonaro à aprovação de verba para filme sobre sua eleição

  • Enganoso
Enganoso
Ancine aprovou em 2019 a captação de 530 mil reais para a realização de um filme que trata da eleição de Bolsonaro, mas não liberou recursos diretos para o documentário como dão a entender duas postagens investigadas pelo Comprova
  • Conteúdo verificado: Informação compartilhada no Twitter e no Facebook afirma que Bolsonaro teria liberado, via Ancine, 530 mil reais para a produção de um filme sobre ele mesmo.

Duas postagens sobre liberação de verbas da Ancine para um documentário sobre o presidente Jair Bolsonaro trazem informações falsas ou enganosas. Em uma delas, o perfil de Twitter @r_camilotti afirma que “Bolsonaro, via Ancine, libera 560 milhões para um filme sobre ele”. Essa informação é falsa. Na outra, no Facebook, o deputado José Guimarães (PT-CE) publicou uma imagem com o texto “Ancine libera 530 mil para documentário sobre Bolsonaro”. Essa informação é enganosa. O que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) de fato liberou foi a captação de recursos, por meio da Lei do Audiovisual, para uma produção que pretende retratar os movimentos políticos do país desde 2013 até a eleição de Bolsonaro.

A aprovação para a captação ocorreu em julho de 2019 e não direciona verbas diretamente para o filme: o investimento é indireto, oferecendo aos interessados em contribuir com o filme a possibilidade de deduzir o valor das doações no Imposto de Renda (IR). Além disso, a aprovação ou não de verbas pela Lei do Audiovisual é feita por uma equipe técnica – e não passa pelo crivo direto de Bolsonaro. O presidente, inclusive, se posicionou contra a utilização da verba para a produção do filme.

Como verificamos?

A partir do texto utilizado na postagem de Guimarães, o Comprova utilizou a ferramenta CrowdTangle para rastrear se o post era novo ou se repetia conteúdo propagado por terceiros. Também foram feitas buscas no site da Ancine, com a qual entramos em contato por e-mail, e no Diário Oficial da União. Entrevistamos o cineasta Josias Teófilo, responsável pelo projeto do documentário, e enviamos mensagens ao deputado José Guimarães, que não nos retornou até a publicação desta investigação.

Realizamos buscas em veículos de imprensa para conferir declarações e ações de Bolsonaro a respeito da Ancine.

Verificação

A primeira postagem mencionando que Bolsonaro teria liberado R$ 530 mil para a produção um filme sobre ele foi compartilhada em 23 de julho pela página Ciro da Massa no Facebook. A descrição a identifica como “página voluntária em apoio ao Projeto Nacional de Desenvolvimento do PDT, liderado por Ciro Gomes”, e o perfil apresenta mensagens de apoio ao pedetista. Enviamos uma mensagem para a página para saber de onde surgiu a informação, mas não obtivemos retorno até a publicação desta investigação.

Em 26 de julho, publicação similar foi compartilhada pelo deputado federal Guimarães. Na descrição, o parlamentar afirma que o governo pretendia usar “dinheiro público da cultura para promover Bolsonaro”. Ele citou como fonte uma notícia do UOL, de 24 de julho do ano passado, dizendo que filme sobre eleição de Bolsonaro recebeu aprovação da Ancine para captar R$ 530 mil para sua produção.

Questionamos o deputado, por mensagem no WhatsApp, se o caso teve novas atualizações ou se ele estava apenas republicando uma informação antiga. Ele não nos retornou até a publicação deste texto.

O que foi omitido pela postagem é que a matéria do UOL cita aprovação para captar recursos, e não para financiar, diretamente, a produção do filme. O texto credita o projeto ao cineasta Josias Teófilo, que chegou a anunciar a aprovação da Ancine em redes sociais. Em uma página criada para o projeto no Twitter, ele é identificado como “documentário ensaístico sobre os desdobramentos políticos das Jornadas de Junho de 2013 que culminaram na eleição de Jair Bolsonaro”.

Já o perfil que fez a postagem do Twitter afirmando que Bolsonaro liberou R$ 560 milhões para a produção, pouco depois, publicou outro post corrigindo as cifras e afirmando se tratar de R$ 560 mil, valor ainda errado, mas mais próximo do autorizado para captação.

Como funciona a captação da Lei do Audiovisual?

A Lei do Audiovisual (8.685/93) não libera recursos para a produção de obras; o que ela faz é autorizar que eles sejam captados por um determinado projeto por meio de patrocínios e investimentos, segundo explicação no site da Ancine. Desta forma, os projetos se submetem à aprovação da Ancine e, caso liberados, podem buscar apoio de terceiros.

A vantagem prevista na lei é que quem estiver disposto a investir ou patrocinar projetos audiovisuais aprovados pela Ancine pode deduzir do Imposto de Renda (IR) os valores direcionados à produção das obras audiovisuais. O abatimento não pode passar de 6% do total declarado no IR de pessoas físicas e nem de 4% no caso de pessoas jurídicas.

Ou seja: o órgão não injeta recursos públicos diretamente na produção, mas permite que o contribuinte possa abater o valor de tributos pagos ao Estado.

Houve aprovação para a captação de um projeto associado a Bolsonaro?

Segundo a matéria do UOL, a aprovação para captação de recursos foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 31 de maio de 2019. O Comprova confirmou, na edição do dia, a autorização obtida pelo projeto de Teófilo para captar R$ 530.100 por meio da Lei do Audiovisual.

Procurada por e-mail, a Ancine enviou o link de uma página do site da instituição com as informações sobre a produção de Teófilo. Entre maio e dezembro de 2019, período aprovado para captação, o projeto conseguiu captar R$ 78 mil pela Lei do Audiovisual. Em entrevista ao Comprova, Teófilo confirmou os valores, mas disse que o órgão ainda não liberou o dinheiro. “O filme está sendo montado. Captou R$ 78 mil mas não conseguimos liberar ainda o dinheiro”, disse.

Teófilo alega que o filme não será produzido apenas com os recursos da lei, mas também através de financiamento coletivo, disponível no site oficial da produção. De acordo com o site do projeto, foram arrecadados mais de R$ 70 mil até o momento.

“O filme trata das manifestações de junho de 2013, do impeachment de Dilma, da ascensão da nova direita e da eleição de Bolsonaro. É dividido em cinco partes, a quinta parte trata da eleição de Bolsonaro. Ainda não temos sinopse”, resumiu ele por e-mail.

Em entrevista ao Canal Contracapa, concedida em 27 de julho deste ano, Teófilo declarou que optou por utilizar a lei do incentivo para que as pessoas da direita entendam “que não existe cinema sem lei de incentivo”. O cineasta disse que previa a polêmica em torno do financiamento e ressaltou que isso é ótimo para o projeto. “Quando as pessoas estão debatendo o filme, é sinal que você ganhou”, declarou.

Bolsonaro se opôs ao projeto e defende extinção da Ancine

Questionado pelo Comprova se obteve a liberação diretamente de Bolsonaro, Teófilo negou envolvimento do chefe do Executivo na decisão.

“Não é verdade que Bolsonaro liberou via Ancine. Os projetos da Lei do Audiovisual são aprovados por uma comissão técnica composta por funcionários de carreira. Bolsonaro inclusive se opôs publicamente à aprovação na Ancine desse projeto – ele pensava que o filme era sobre ele, ou sobre sua campanha”, afirmou no e-mail.

Em live nas redes sociais, Bolsonaro declarou ter sugerido à Ancine que recuasse na decisão de autorizar a captação de recursos para o filme. “Não queremos filmes de políticos com dinheiro público. O poder público não deve se meter a fazer filme. O estado vai deixar de patrocinar”, disse o presidente no dia 25 de julho de 2019.

Naquela mesma época, Bolsonaro disse que pretendia impor um filtro à Ancine, acabar com a agência ou privatizá-la. Ele reclamou do financiamento de diversos filmes nacionais, incluindo o longa “Bruna Surfistinha”, de 2011, que alegou ter “fins pornográficos”. Pouco depois, anunciou um corte de quase 43% no orçamento destinado ao Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), tentou transferir a sede da Ancine para Brasília e indicou um pastor e uma produtora ligada a filmes cristãos para a diretoria do órgão.

O que diz a Ancine?

Procurada pelo Comprova, a Ancine declarou que “dados sobre projetos aprovados para captação de recursos estão disponíveis no Portal Ancine” e indicou o link para a consulta pública do projeto “Nem Tudo se Desfaz”. O site mostra que, assim como relatado por Teófilo, foram captados R$ 78 mil para a produção. No entanto, o órgão não respondeu se o dinheiro já havia sido liberado para uso pelo cineasta.

Outros filmes

A produção de Teófilo não é a primeira nacional a ter aporte indireto de recursos com temáticas relacionadas à política. O filme “Polícia Federal: A Lei É para Todos”, que conta como se iniciou a Operação Lava Jato e seus desdobramentos — que levaram à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ainda que após os acontecimentos relatados no longa — também contou com auxílio da Lei do Audiovisual, segundo o próprio site da Ancine.

Outro filme de tema similar com captação via Lei do Audiovisual foi “Real: O Plano por Trás da História”, que relata os bastidores da criação do Plano Real e dá protagonismo ao economista Gustavo Franco.

Alvo de polêmica, o longa “Lula, o Filho do Brasil”, uma biografia de Lula, foi produzido sem o uso de leis de incentivo — ou seja, foi feito por meio do patrocínio direto de empresas. Em reportagem de março de 2009, o Estadão relatou que diversas companhias que não apresentavam envolvimento com a indústria nacional do cinema estavam destinando grandes quantias à realização do filme. O texto destaca que, na maioria, são “empresas com negócios que dependem intimamente de decisões do Executivo e que possuem contratos milionários com o governo federal”. Em 2018, os patrocínios do filme entraram na mira da Lava Jato. Em delação premiada, o ex-ministro Antônio Palocci disse que havia determinado ao grupo Schahin que usasse dinheiro proveniente de propina para financiar a obra.

O documentário “Democracia em Vertigem”, indicado ao Oscar em 2020, retrata parte do auge do governo petista, o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e a ascensão de movimentos políticos que levaram à eleição de Bolsonaro. Não há nenhum registro do uso de recursos públicos no site da Ancine. Segundo a diretora Petra Costa, no portal oficial do documentário, parte dos recursos utilizados partiu de sua própria produtora — a Busca Vida Filmes —, enquanto outro aporte financeiro veio de “diversos fundos estrangeiros”. Os fundos, citados no site como Doc Society, Tribeca, Sundance, Berta e Threshold, concedem bolsas a produções audiovisuais que consideram relevantes. Para participar é necessário se inscrever em um processo seletivo. Costa afirma que não houve uso de dinheiro público na produção.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos de ampla repercussão em redes sociais que apresentem informações erradas ou mesmo fora de contexto sobre determinados assuntos. Em um contexto de polarização política, inflamado pela proximidade com as eleições municipais de 2020, o projeto vê a necessidade de esclarecer se postagens que viralizaram na internet envolvendo agentes públicos são verdadeiras.

Outros conteúdos ligados à política foram investigados, como a “sabotagem” do governo do Ceará em canal inaugurado por Bolsonaro, um texto sobre boa aprovação de Lula utilizado para tratar de apoio a Bolsonaro e uma postagem que dizia que o Exército construiu ponte em 24 horas em Goiás.

No caso da aprovação de captação de recursos para um documentário que trata da eleição de Bolsonaro, não se trata de uma informação nova. A publicação também omite como é feita a captação via Lei do Audiovisual e induz o leitor a uma interpretação equivocada de que o chefe do Executivo teria interferido diretamente na liberação e que os valores seriam enviados de forma direta à produção.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado e que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.

Até 31 de julho, a postagem no Facebook teve mil comentários e 1,2 mil compartilhamentos. O tuíte foi compartilhado 75 vezes.

Verificação

Investigado por:2020-07-31

Post mostra imagens de outras estradas para afirmar que o Exército arrumou a Transamazônica

  • Falso
Falso
Parte dos trechos das gravações utilizadas no vídeo verificado pelo Comprova não é da BR-230, segundo um dos autores das imagens. O próprio Exército informou que a força não concluiu nenhuma obra na rodovia Transamazônica durante o governo Bolsonaro
  • Conteúdo verificado: Publicação no Facebook afirmando que o Exército está fazendo melhorias na Transamazônica, após 40 anos sem nenhuma obra. Acompanha um vídeo com imagens do que seria a rodovia em situação precária e, depois, também do que seria a via em boas condições após obras supostamente feitas pelo Exército.

É falsa uma publicação que circula no Facebook afirmando que a rodovia Transamazônica (BR-230) está em boas condições de tráfego, após 40 anos, graças a obras do Exército. O post, publicado pelo perfil Brasil Unido, diz que “segundo os governos anteriores, era impossível arrumar a rodovia TransAmazônica”, e é acompanhado por um vídeo, no qual constam imagens de estradas em situação precária, seguidas de gravações do Exército trabalhando em obras rodoviárias e, por último, de pistas em bom estado.

Em primeiro lugar, parte dos trechos das gravações utilizadas no vídeo verificado não é da BR-230, segundo um dos autores das imagens e o Exército. Além disso, o próprio Exército disse que a força não concluiu nenhuma obra na rodovia Transamazônica durante o governo de Jair Bolsonaro (sem partido).

Procurado, o autor da postagem no perfil Brasil Unido, Fernando da Silva Ferreira, disse que apenas compartilhou o vídeo. “Não fui ao local averiguar se é correto ou não, mas vi muita gente comentando que realmente fizeram obra lá e que melhorou bastante.”

Como verificamos?

O primeiro passo foi buscar pelas palavras “exército obras rodovias” no YouTube. A pesquisa trouxe o vídeo intitulado “Obras da BR-163 e BR-116 – Engenharia do Exército”. Trata-se de uma edição que utiliza o áudio de uma live feita em 18 de julho pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, em que eles falam sobre obras na BR-163 (a partir de 13min47s) e também gravações do ministro com representantes do Exército na BR-116. Foi possível verificar que várias das imagens utilizadas neste vídeo encontrado no Youtube foram também enxertadas no vídeo objeto desta verificação. São imagens que mostram o Exército atuando em estradas.

Na primeira parte da gravação verificada, que mostra a estrada intransitável, algumas gravações têm marcas d’água, que são dos canais no Youtube Lebrão e Narrador Champz. Ao buscar esses nomes na plataforma, apareceram dois perfis ligados ao universo caminhoneiro. O Comprova assistiu e comparou os vídeos publicados nos canais com o vídeo verificado, mas não encontrou correspondência. Depois disso, enviou mensagens privadas por redes sociais para os dois perfis e conseguiu falar com os responsáveis por eles. A equipe também contatou o responsável pela página Brasil Unido, que teve grande viralização ao compartilhar o conteúdo no Facebook.

Também para checar o conteúdo da postagem, o Comprova enviou e-mail para o Exército – algumas imagens do vídeo trazem a marca d’água do órgão – e para o Ministério da Infraestrutura. O último não respondeu até a publicação deste texto.

O Comprova fez esta verificação baseado em dados oficiais disponíveis até o dia 31 de julho de 2020.

Verificação

O Exército e a Transamazônica

Além de afirmar erroneamente que o atual governo estaria, com a participação do Exército, concluindo obras na Transamazônica, a postagem mente ao dizer que governos anteriores não trabalharam por melhorias na via – que tem, no total, 4.260 quilômetros. Questionado sobre obras na BR-230 em gestões passadas, o Exército enviou, por e-mail, uma lista com os feitos para o Comprova. Em 1955, por exemplo, a instituição implantou um trecho de 24 quilômetros na rodovia na Paraíba. Durante o governo militar e nos governos Lula e Dilma (PT), também realizou obras de pavimentação e implantação em diversos trechos da rodovia. Segundo o Exército informou, atualmente, ele está executando obras de adequação da BR-230 em um trecho de 8 quilômetros na região da cidade de Cabedelo, na Paraíba.

Além de obras realizadas pelo Exército no passado, é importante ressaltar que a Transamazônica teve trechos implantados ou pavimentados por empresas particulares, que atuaram por meio de licitações de governos anteriores. Uma reportagem do G1, de 2009, por exemplo, mostra que o então presidente Lula discursou durante a inauguração de obras de duplicação da BR-230, em Campina Grande, na Paraíba.

Sobre o vídeo, o Exército afirmou que “verifica-se que se trata de uma edição em que foram inseridos trechos de diversos vídeos, configurando uma montagem não profissional” e que “a qualidade afeta a identificação de símbolos que aparecem no vídeo, mas existem trechos em que é possível verificar o símbolo do Exército”. Algumas das gravações identificadas pelo órgão foram feitas na BR-163, no trecho entre Novo Progresso e Igarapé do Lauro, no Pará. O Exército informou ainda: “Além de não se tratar da Transamazônica, o período provável das filmagens deve ser de agosto de 2017 a dezembro de 2019” – ou seja, começando no governo de Michel Temer (MDB).

A rodovia em situação precária

Algumas das imagens que mostram estradas em condições difíceis de tráfego no vídeo verificado trazem as marcas d’água dos canais do YouTube de Lebrão e do Narrador Champz.

Segundo o caminhoneiro Marcio de Almeida, dono do perfil Lebrão 001 G.N.A no YouTube, as gravações que contêm a sua inscrição no vídeo verificado “são de 2018, começo de 2019 ou mais antigas”. Ele disse ser o autor de todas as filmagens que posta e que algumas passagens também “não são nem da Transamazônica“.

Já o responsável pelo canal Narrador Champz, Diego da Silva, afirmou que os vídeos com a sua marca d’água são mesmo da Transamazônica, e foram feitos em 2014 e 2015 – as filmagens originais já foram deletadas de seu canal. Silva ressaltou que os vídeos não são de sua autoria, mas que ele recebe de outras pessoas e monta os compilados que publica no YouTube.

O autor da postagem

O post verificado foi publicado pela página Brasil Unido no Facebook. O Comprova entrevistou o autor do perfil por telefone, Fernando da Silva Ferreira. Ele não soube informar a origem do vídeo. “Não me lembro exatamente de onde veio, eu vi no Facebook e compartilhei”, afirmou. “Não fui ao local averiguar se é correto ou não, mas vi muita gente comentando que realmente fizeram obra lá e que melhorou bastante.”

No perfil, criado em maio e que já tem 11 mil seguidores, ele publica conteúdos contrários ao Supremo Tribunal Federal (STF), críticas a nomes como o ex-ministro Sergio Moro e a apresentadora Xuxa por ter um projeto de livro infantil com conteúdo LGBT e, principalmente, posts favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro.

Por que investigamos?

Atualmente em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos que dizem respeito a políticas públicas do governo federal e à pandemia de covid-19. As verificações são feitas em conteúdos que viralizam de forma significativa, caso do vídeo investigado aqui. A postagem falsa teve 75 mil interações no Facebook, além de 8,8 mil comentários, e o vídeo foi visualizado mais de 1,6 milhão de vezes até o dia 31 de julho.

Supostas realizações do governo Bolsonaro na área de infraestrutura têm sido objeto de desinformação. Naquele ano, o Comprova mostrou, por exemplo, que uma montagem enganosa atribuía a Bolsonaro obras na BR-163 feitas no governo Dilma e que outra usava foto de obra no governo Lula para elogiar Bolsonaro. Neste ano, o Comprova voltou ao tema ao investigar um post com conteúdo falso que usava fotos de obras da Transposição do Rio São Francisco dos períodos petistas para destacar supostos avanços realizados no atual governo.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Verificação

Investigado por:2020-07-31

Eduardo Bolsonaro posta vídeo antigo sobre liberação da cloroquina

  • Enganoso
Enganoso
Em uma publicação no Twitter, o deputado usa como se fosse de agora um vídeo gravado em 9 de abril no qual o prefeito de São Paulo anuncia a inclusão da cloroquina no protocolo de tratamento de pacientes com covid-19 nos hospitais municipais. No post, ele cobra do governador do estado que faça o mesmo, mas isso já é feito desde 5 de maio
  • Conteúdo verificado: Tuíte do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) com um vídeo do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), anunciando a inclusão da cloroquina no protocolo de tratamento de pacientes com covid-19 nos hospitais municipais.

É enganoso o post no perfil do Twitter do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) que apresenta um vídeo no qual o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), anuncia a inclusão da cloroquina no protocolo de tratamento da covid-19 na cidade de São Paulo. E, no texto que acompanha o vídeo, diz: “Resta saber se Doria também cairá na real de que vidas estão acima de política, que para uma doença nova não existe remédio testado e que toda tentativa de cura é válida”. A Secretaria Estadual da Saúde já libera o uso da cloroquina para casos graves de covid-19, de acordo com a avaliação do médico, desde 5 de maio.

O trecho, publicado no dia 30 de julho, é de uma gravação de 9 de abril e traz o anúncio feito à época por Covas, durante coletiva de imprensa realizada no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Ao publicá-lo, Eduardo Bolsonaro dá a entender que a adoção do protocolo ocorreu agora.

O protocolo, que só foi publicado em 17 de junho, orienta os profissionais de saúde da rede pública municipal sobre o manejo de pacientes com covid-19. Nele, o uso de cloroquina não é recomendado, mas é autorizado — desde que obedecendo critérios médicos e com aval do paciente.

Tentamos entrar em contato com o deputado Eduardo Bolsonaro, mas não tivemos resposta até a publicação desta verificação.

Como verificamos?

Uma verificação já publicada pelo Comprova esclareceu que o anúncio da adoção da cloroquina como parte do protocolo de tratamento da covid-19 na cidade aconteceu no dia 9 de abril. Uma busca no Google confirmou a informação. Com essa data, encontramos o vídeo original no canal do governo do estado de São Paulo no YouTube.

O vídeo editado tem uma marca d’água com o nome do deputado federal Luiz Lima (PSL-RJ) e o endereço de suas redes sociais. Na página de Facebook de Lima encontramos uma postagem com as imagens, datada do dia 9 de maio.

Pesquisamos a recomendação para o tratamento de pacientes com covid-19 no site da Prefeitura de São Paulo e da Secretaria Municipal da Saúde. Também consultamos a página da Secretaria Estadual da Saúde (SES-SP) para esclarecer qual é a orientação do estado em relação ao uso da cloroquina. Os dados sobre o número de casos confirmados e de mortes são do boletim da Secretaria Municipal da Saúde.

As ferramentas Tweetdeck e CrowdTangle foram úteis para mostrar a viralização do conteúdo investigado pelas redes sociais.

Por fim, entramos em contato por e-mail com a assessoria de imprensa do prefeito Bruno Covas, que respondeu ao Comprova e esclareceu que a Secretaria Municipal de Saúde não recomenda, mas permite a uso do medicamento na rede hospitalar, mediante prescrição médica e consentimento do familiar ou paciente. E acrescenta que, apesar de o Ministério da Saúde ter ampliado o uso da cloroquina para casos leves e moderados, a Secretaria Municipal da Saúde emitiu recomendação contrária, “em virtude da ausência de evidências científicas robustas que justifiquem tal indicação”. Também tentamos entrar em contato com o deputado Eduardo Bolsonaro por mensagem de WhatsApp e no Instagram, mas não tivemos resposta até a publicação desta verificação.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 31 de julho de 2020.

Verificação

A equipe do Comprova começou a verificação analisando o vídeo publicado pelo deputado Eduardo Bolsonaro. Bruno Covas está no saguão do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. O logotipo da administração estadual pintado no púlpito junto à hashtag #FiqueEmCasa mostra que as imagens foram captadas em uma das entrevistas coletivas conduzidas pelo governador João Doria para atualizar a situação da pandemia. Chama a atenção o fato de que Covas não está de máscara. O uso do equipamento de segurança é obrigatório em locais públicos no estado desde 4 de maio, mas a gravação aconteceu antes dessa data.

Em junho, o Comprova já tinha desmentido uma postagem no Twitter que dizia que a cloroquina era proibida na capital paulista. Na ocasião, informamos que a Secretaria Municipal da Saúde incluiu a cloroquina no protocolo de tratamento da covid-19 em 9 de abril. Buscando por essa data, encontramos o vídeo original no canal do governo do estado de São Paulo no YouTube.

“Ainda não é possível ser uma política pública, pois não temos ainda pesquisas concluídas, mas havendo prescrição do médico e a concordância do paciente, a Secretaria Municipal de Saúde passou a integrar esse medicamento [cloroquina] no protocolo de tratamento da covid-19”, anunciou o prefeito aos 39 minutos.

O protocolo entrou em prática logo depois do anúncio. Apenas no dia 17 de junho uma recomendação técnica foi publicada detalhando o uso da medicação. O documento sugere uma “análise criteriosa do quadro clínico, o monitoramento do paciente, da resposta em relação à terapêutica selecionada e as reações adversas”. E indica a prescrição de drogas para o tratamento dos sintomas em diferentes momentos da infecção pelo novo coronavírus.

O protocolo da prefeitura autoriza, mas não recomenda, o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina. A prescrição deve ocorrer de acordo com o critério do médico e com consentimento do paciente. “Em virtude da ausência de evidências científicas robustas que justifiquem tal indicação. A deliberação ainda recomenda que o uso em casos graves sob regime hospitalar não seja de rotina”, alerta a publicação.

O documento segue a posição da Secretaria Estadual da Saúde, que em 5 de maio orientou que o uso das drogas “não seja expandido para casos leves e moderados em acompanhamento ambulatorial. Em 20 de maio, o Ministério da Saúde estendeu o uso da cloroquina para pacientes com sintomas leves. O Conselho Municipal de Saúde de São Paulo criticou a decisão em uma nota técnica divulgada oito dias depois.

De lá para cá a situação se agravou na capital paulista. De acordo com o Boletim Epidemiológico do município, em 9 de abril o município registrava 5.832 casos de covid-19, com 386 óbitos. No dia 30 de julho, data em que Eduardo Bolsonaro postou o vídeo, já havia 223.571 casos e 9.547 óbitos confirmados.

Vídeo antigo

O vídeo editado compartilhado por Eduardo Bolsonaro tem uma marca d’água com o nome do deputado federal Luiz Lima (PSL-RJ) e o endereço de suas redes sociais. Na página de Facebook de Lima encontramos uma postagem com as imagens, datada do dia 9 de maio — um mês depois do anúncio. Naquele momento, a cidade de São Paulo registrava 27.414 casos de covid-19 e 2.268 mortes, de acordo com o boletim da Secretaria Municipal da Saúde. O número de óbitos que aparece no vídeo editado é menor, 2.106. Essa diferença pode acontecer por causa dos casos positivos confirmados posteriormente e somados à estatística.

Cloroquina e hidroxicloroquina

Até o momento, não há comprovação científica da eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento ou prevenção da covid-19. Pelo contrário, estudos publicados no Journal of the American Medical Association (Jama) e no British Medical Journal (BMJ) apontaram que pacientes tratados com cloroquina e hidroxicloroquina não tiveram melhores resultados que aqueles que não receberam os mesmos remédios. Uma pesquisa realizada em 55 hospitais brasileiros e publicada no New England Journal of Medicine (NEJM) chegou às mesmas conclusões.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o National Health Service no Reino Unido cancelaram estudos com cloroquina e hidroxicloroquina.

Em 17 de julho, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) publicou um informe em que afirma ser “urgente e necessário que a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da covid-19” diante das novas evidências científicas.

A posição dos médicos não mudou a opinião do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que defende a adoção da cloroquina desde o começo da pandemia. Ele teve covid-19 e declarou que tomou cloroquina para se tratar. Hoje, o Ministério da Saúde tem quatro milhões de comprimidos em estoque.

O Comprova já verificou diversos conteúdos que defendiam o uso da cloroquina, como estudos sem comprovação científica e declarações polêmicas de médicos.

Por que investigamos?

O Comprova verifica informações sobre políticas públicas do governo federal e a pandemia de covid-19 sempre que os conteúdos tenham grande viralização. É o caso do tuíte do deputado federal Eduardo Bolsonaro, que até a data de publicação teve mais de 16 mil interações e 84 mil visualizações do vídeo incluído na postagem.

A cloroquina e a hidroxicloroquina se tornaram objeto de discursos políticos desde que os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro, passaram a defender essas drogas como cura para a covid-19. A postagem de Eduardo se insere nesse contexto, ao insinuar que a prefeitura de São Paulo estaria “atrasada” na adoção da hidroxicloroquina em relação ao governo federal.

O fato de Bruno Covas ser o alvo é relevante, pois ele é um aliado político do governador de São Paulo, João Doria. No início da pandemia, as medidas de distanciamento social também foram objeto de disputa, pois Bolsonaro se opôs às regras, contrariando recomendações de autoridades de saúde nacionais e estrangeiras.

Nesse ponto, Doria se tornou antagonista do presidente e virou alvo de críticas de seus apoiadores. No auge da disputa, o governador chegou a afirmar que o presidente “despreza vidas” e deveria começar “a ser um líder, se for capaz”. Bolsonaro, por sua vez, acusou Doria de usar a crise como palanque para as eleições presidenciais de 2022 e chamou o governador de São Paulo de “bosta” em reunião ministerial tornada pública.

Enganoso, para o Comprova, é todo o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano. É o caso do vídeo com as declarações de Covas que, apesar de verdadeiro, é antigo.