Post engana sobre saúde de Lula para gerar cliques em link de compras online
- Política
- Inteligência artificial cria cena inexistente do presidente e de seu médico, Roberto Kalil Filho, em post que direciona usuários para a Shopee
Conteúdo viral no Facebook que mostrava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) supostamente hospitalizado e o médico dele, Roberto Kalil Filho, chorando, é falso. O Comprova constatou que as imagens foram geradas por meio de colagens de fotos antigas, em contextos distintos, e alteradas com uso de inteligência artificial (IA).
A ferramenta SynthID, do Google, identificou que partes dessas imagens foram geradas sinteticamente, especialmente a foto do médico. Na foto de Lula apenas uma pequena área foi detectada. O Google alerta que o SynthID funciona de forma probabilística e pode gerar falsos positivos, embora com margens de erro controladas.

Conteúdo viral no Facebook que mostrava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) supostamente hospitalizado, e o médico dele, Roberto Kalil Filho, chorando, é falso. O Comprova constatou que as imagens foram geradas por meio de colagens de fotos antigas, em contextos distintos, e alteradas com uso de inteligência artificial (IA).
A ferramenta SynthID, do Google, identificou que partes dessas imagens foram geradas sinteticamente, especialmente a foto do médico. Na foto de Lula apenas uma pequena área foi detectada. O Google alerta que o SynthID funciona de forma probabilística e pode gerar falsos positivos, embora com margens de erro controladas.

No caso de Kalil Filho, a foto corresponde a registros reais de uma entrevista concedida à GloboNews em dezembro de 2024, quando informou sobre um procedimento bem-sucedido do presidente, mas nas imagens originais ele não aparece chorando.
Ao contrário do que a postagem afirma, Lula está bem de saúde e cumpre normalmente as atividades previstas em sua agenda. A informação foi dada ao Comprova pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e a agenda oficial pode ser conferida no site.
Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova
No dia 6 de agosto, uma página publicou no Facebook a chamada “Nesta manhã, laudo médico afirma que Lula está m.. Ver mais”. O primeiro comentário do post repetia a chamada e levava a um link externo da Shopee.
A página tem 1,6 milhão de seguidores e, embora se apresente como uma página de divulgação de música sertaneja, publica também conteúdos políticos de teor sensacionalista. Criada em 2019, em Toledo (PR), a página passou a mesclar publicações musicais e político-partidárias meses após sua criação. O Comprova identificou o músico Emerson Schultz, conhecido como “Sanfoneiro Vermelho”, como criador da página. Segundo ele, o perfil é administrado por sua ex-mulher.
Procurada pelo Comprova, a responsável pela página afirmou que a publicação foi feita a partir de material que circulava nas redes sociais, “sem intenção de produzir ou divulgar deliberadamente uma informação falsa”. A publicação foi removida após o contato da equipe.
“A página também realiza divulgação de produtos e conteúdos comerciais, incluindo links relacionados à Shopee, como parte de sua estratégia de divulgação e monetização”, informou.
Por que as pessoas podem ter acreditado
A publicação usa conteúdo manipulado. As imagens tiveram partes geradas com inteligência artificial do Google, como mostrou a ferramenta SynthID, fabricando um cenário que não corresponde à realidade.
Quando a desinformação vira estratégia para ganhar dinheiro
Compras na internet têm crescido cada vez mais no Brasil. Segundo levantamento da FecomercioSP, em 2025, o faturamento de vendas online bateu o recorde de R$ 295,6 bilhões. Em busca de ampliar cada vez mais essas vendas, algumas empresas adotaram um sistema de parcerias onde pagam comissões a pessoas que promovem seus produtos e realizam vendas através de links rastreáveis, chamados de afiliados.
Na postagem investigada pelo Comprova, o link disponibilizado no primeiro comentário não levava informações sobre a saúde de Lula. Ao clicar, o usuário era direcionado para um produto na Shopee.
A publicação utiliza uma chamada sensacionalista e enganosa para despertar a curiosidade do leitor e incentivá-lo a clicar em “ver mais”. No site de compras, é identificado que o divulgador do link faz parte do Programa de Afiliados por meio da URL — endereço de páginas na internet. O endereço contém o parâmetro “utm_medium=affiliates”, que indica que o acesso foi gerado por uma campanha de afiliados. A página também confirmou ao Comprova que divulga produtos e utiliza links da plataforma como parte de sua estratégia de monetização.
No programa, os afiliados podem receber comissão quando uma compra é concluída a partir de sua indicação. Procurada, a Shopee informou ao Comprova que os participantes não são remunerados pela geração de tráfego, mas pelas vendas concluídas. Por isso, não é possível afirmar que a página tenha recebido dinheiro a partir da publicação investigada.
O conteúdo, no entanto, utilizava uma informação falsa para estimular o clique no link comercial, prática que contraria as regras do Programa de Afiliados da Shopee, cláusula 4.3 (j) . A empresa informou ao Comprova que é obrigatória a sinalização de publicidade e que suas políticas proíbem links em publicações que promovam desinformação ou conteúdos enganosos. Segundo a Shopee, infrações podem levar à exclusão do usuário do programa.
“Nossas políticas proíbem estritamente o uso de links em publicações que promovam desinformação ou conteúdos enganosos”, informou a Shopee.
A Meta, dona do Facebook, afirmou que “atividades que visam enganar, fraudar ou explorar terceiros” não são permitidas em suas plataformas. A empresa disse ainda que aprimora sua tecnologia para combater atividades suspeitas e recomenda que conteúdos que possam violar suas regras sejam denunciados pelos próprios aplicativos.
Márcio Stival, advogado especializado em Direito Digital e Internet, explicou que a prática de divulgação de uma informação falsa não tem uma tipificação criminal direta que permita classificá-la, por si só, como golpe ou estelionato, já que o usuário não sofre uma perda financeira direta ao clicar no conteúdo.
No caso analisado, porém, dependendo das circunstâncias, a conduta poderia ser avaliada sob outras normas, como crimes contra a honra, caso a publicação atingisse a imagem ou a reputação de alguém, ou ainda sob regras de proteção ao consumidor, caso se configure propaganda enganosa.
“É algo bem específico e que não passa propriamente por uma legislação. Por isso, acaba sendo um pouco difícil de enquadrar como um crime propriamente. Além disso, também podem ser aplicadas sanções administrativas das plataformas. Então, vai de acordo com cada plataforma, cada política interna, cada termo de uso”, explica.No caso da publicação analisada, tanto o Meta quanto a Shopee podem adotar medidas caso identifiquem violação de suas políticas, inclusive relacionadas ao uso indevido do programa de afiliados.
Algospeak: a linguagem que dribla o algoritmo
A publicação utilizou palavras como “m5nhã”, “laud0” e “médic0”, substituindo letras por números. A prática é conhecida como algospeak e consiste no uso intencional de palavras alteradas, códigos ou símbolos para tentar evitar que sistemas automatizados de moderação identifiquem determinados termos como sensíveis.
O recurso pode ser usado para abordar temas sensíveis sem que o conteúdo seja automaticamente limitado, mas também pode dificultar a identificação e a moderação de publicações problemáticas.
Fontes que consultamos: O Comprova submeteu as imagens à ferramenta de detecção de IA do Google SynthID. Também consultou a Presidência da República, as plataformas Shopee e Meta e o advogado Márcio Stival, especializado em Direito Digital e Internet.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Outras checagens sobre o tema: O Comprova já realizou outras verificações envolvendo o presidente Lula. Entre elas, está a publicação de uma conta no X que afirmava que Lula teria dito, na ONU, que entregaria o Brasil caso o país fosse invadido. Em novembro de 2025, a equipe também investigou dois casos, um vídeo de um estudante atacando Lula e Alexandre de Moraes, além de uma outra publicação com uma foto de Lula em um pacote de drogas, que circulava nas redes desde 2023, e seguia uma tática comum do tráfico.

