O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a golpes e fraudes virtuais.
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Investigado por: 17/09/2026

Cury não é ‘devedor de si mesmo’ nem tem isenção garantida de IR em empréstimo de R$ 121 milhões

Contextualizando
Publicação nas redes sociais distorce dados patrimoniais do candidato. Valor declarado é direito a receber e juros de contratos desse tipo são tributáveis.

Vídeo publicado por um influenciador de finanças no Instagram afirma erroneamente que o candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) seria “o maior devedor de si mesmo do Brasil” e que nunca vai precisar pagar Imposto de Renda dos R$ 121 milhões em dívidas devido a uma suposta engenharia tributária.

O conteúdo distorce o significado de uma declaração feita por Cury à Justiça Eleitoral. O candidato declarou R$ 121,19 milhões como “empréstimo mútuo” concedido à Filadélfia Nature Participações, empresa da qual é sócio junto com sua esposa e suas três filhas. O registro indica que Cury emprestou o dinheiro à empresa e, portanto, aparece como credor, enquanto a empresa é a devedora.

O Comprova entrou em contato com o candidato e com o criador do conteúdo, mas não recebeu resposta até a publicação desta checagem.

Como Cury também é sócio da empresa que recebeu o dinheiro, ele possui participação na empresa que tem a obrigação de devolver os R$ 121 milhões a ele. Essa relação, porém, não significa que o candidato seja “devedor de si mesmo”. Segundo a professora e consultora financeira e de gestão de processos Fátima Ribeiro, a operação envolve duas partes juridicamente distintas: Cury, como pessoa física e credor, e a empresa, como pessoa jurídica e devedora.

“Contabilmente, se Augusto Cury emprestou esse dinheiro para a empresa, ele não é devedor desse valor. Ele é credor. Para ele, pessoa física, existe um direito a receber, portanto um ativo. Para a empresa, existe uma obrigação de devolver esse dinheiro, portanto um passivo. Então afirmar que ele deve R$ 121 milhões para si mesmo não é tecnicamente correto. O que os dados indicam é justamente o contrário: a holding deve esse valor a ele”, esclarece.

A declaração pública também não permite concluir que Cury esteja isento do Imposto de Renda sobre os R$ 121 milhões. O valor principal de um empréstimo não é, por si só, renda, mas eventuais juros recebidos pelo credor podem estar sujeitos à tributação. Para determinar como a operação é tributada, seriam necessários dados como o contrato de mútuo, a taxa de juros, o prazo, os pagamentos realizados e o regime tributário da empresa.

O autor do vídeo também erra ao dizer que Augusto Cury não é escritor, o que não é verdade. Ele já publicou dezenas de livros de ficção, desenvolvimento pessoal e educação. 

E a suposta engenharia tributária? 

O vídeo também alega que a empresa que pagaria juros a Cury poderia reduzir sua tributação em até 34% e que “nunca vai precisar pagar” Imposto de Renda sobre o valor. Para chegar a essa conclusão, seria necessário conhecer as condições do contrato, especialmente se há juros e como ocorre a devolução do principal.

Fátima Ribeiro explica que, em empresas tributadas pelo Lucro Real, alguns gastos com juros podem reduzir o valor sobre o qual os impostos são calculados, desde que a operação esteja formalizada corretamente e que essa despesa seja aceita pela legislação tributária. Isso, porém, não significa que todo pagamento de juros gere automaticamente uma economia de 34% em impostos. Esse efeito depende das características da operação e da situação tributária da empresa.

A especialista também chama atenção para a tributação do outro lado da operação. Se a pessoa física recebe juros decorrentes do empréstimo, esses rendimentos estão sujeitos à tributação. Por isso, não é possível considerar apenas uma eventual redução de imposto da empresa para concluir que a operação permite a Cury receber os valores sem pagar Imposto de Renda.

“Quanto à existência da holding, de empréstimos entre sócios e empresas e de participações societárias no Brasil e no exterior, essas estruturas não são, por si só, ilegais. Elas podem fazer parte de um planejamento patrimonial, societário ou tributário perfeitamente legítimo”, diz a especialista.

“A questão muda quando uma estrutura formal não corresponde à realidade econômica da operação. Se não existe efetiva circulação de recursos, se há contratos simulados ou se determinada operação é utilizada apenas para ocultar outro negócio, aí podem surgir questionamentos fiscais”, acrescenta.

Como funciona o Imposto de Renda do empréstimo mútuo?

A contadora e professora Fátima Ribeiro esclarece ainda que, em uma operação de mútuo, o Imposto de Renda não incide sobre a devolução do valor principal emprestado. A tributação alcança os juros ou rendimentos eventualmente pagos em razão desse empréstimo.

No mútuo, uma pessoa ou empresa entrega recursos a outra, que assume a obrigação de devolvê-los conforme as condições estabelecidas em contrato. No caso analisado, o valor aparece na declaração patrimonial de Augusto Cury como um direito a receber, ou seja, um ativo, e não como uma dívida pessoal.

Fontes consultadas: O Comprova buscou dados sobre a declaração de contas e bens do candidato, que está registrada no site DivulgaCand do TSE. Além disso, o Comprova utilizou fontes oficiais, como a Lei nº 8.981/1995 — Planalto, art. 70; Solução de Consulta Cosit nº 190/2015 — Receita Federal e Solução de Consulta Cosit nº 205/2015 — Receita Federal, assim como entrevistou a professora, consultora financeira e gestão de processos, Fátima Ribeiro.

Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: Comprova e Aos Fatos já checaram conteúdos sobre patrimônio de candidatos à Presidência da República.

Eleições

Investigado por: 17/09/2026

Flávio Bolsonaro não viajou aos EUA em setembro; imagens são de maio

Eleições
Nas redes sociais, trechos de reportagens são utilizados de forma descontextualizada para alegar que o candidato do PL teria ido aos Estados Unidos para fugir de investigações envolvendo ele e Daniel Vorcaro.

Não é verdade que o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) viajou para os Estados Unidos no dia 13 de setembro, conforme vídeo publicado por um usuário no TikTok. O post cita trechos de reportagens do Metrópoles, da Folha de S.Paulo e da TVT News, publicadas em maio deste ano, quando o senador foi aos Estados Unidos e se encontrou com o presidente Donald Trump. O Comprova verificou as imagens no vídeo assim como as reportagens citadas, além das táticas utilizadas para manipular a opinião pública, principalmente no processo eleitoral.

O vídeo em questão alega que o candidato teria fugido para os Estados Unidos em busca de apoio de Trump após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça ter retirado o sigilo sobre os pagamentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, principal investigado no Caso Master. No entanto, o Comprova esclarece que as informações no vídeo são descontextualizadas.

Uma das matérias citadas no post é ilustrada por imagens de uma entrevista do presidenciável em dezembro de 2025 a vários veículos de imprensa no Brasil; na ocasião, Flávio Bolsonaro vestia uma camisa polo verde. 

Além disso, reportagens do UOL, da CNN Brasil e do O Globo informaram que o candidato ficou em Brasília após cancelar agenda de campanha que tinha em Presidente Prudente, no interior paulista, devido às fortes chuvas ocorridas em 13 de setembro.

Mesmo após concluir que o post era falso e Flávio não viajou para o exterior na data, o Comprova tentou contato com a assessoria de imprensa do senador, mas não houve retorno até a publicação desta checagem. 

Quem criou a postagem e qual é o seu interesse na disseminação do conteúdo?  

Apesar da conta ter 8.721 seguidores, o vídeo alcançou, até a tarde do dia 15 de setembro de 2026, 144,7 mil visualizações, 6.860 curtidas e 1.056 comentários. Entre as interações, diversos usuários demonstram acreditar na falsa fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos. 

No Instagram, outro perfil, que possui a etiqueta “perfil gerado por IA”, replicou o vídeo e alcançou 5,9 mil visualizações e 293 comentários até a tarde do dia 15 de setembro, também com comentários de pessoas acreditando na veracidade da afirmação sobre a viagem. 

Ambos os perfis verificados pelo Comprova publicam diversos conteúdos sobre temas de grande repercussão na política brasileira. O perfil do TikTok que primeiro postou o vídeo descontextualizado foi contatado, mas não houve resposta até a publicação desta verificação. 

Quais táticas de persuasão foram utilizadas pela publicação?

O vídeo analisado pelo Comprova utiliza táticas desinformativas, principalmente a descontextualização dos fatos e as falsas conexões, que, no período eleitoral, podem contribuir para polarizar o debate nas redes sociais.

O conteúdo também utiliza o apelo emocional ao vincular imagens de Flávio Bolsonaro, em maio, no Aeroporto de Guarulhos, e incentiva reações de rejeição ao candidato por parte do público ao serem usadas para ilustrar sua fuga para os EUA diante da repercussão do caso do Banco Master.

Fontes que consultamos: O Comprova utilizou ferramentas de busca reversa, como o Google Lens, para verificar a autenticidade das imagens da publicação, além de elencar quais as reportagens citadas e quando foram publicadas, como a do Metrópoles. Assim como entrou em contato com a assessoria do candidato.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Aos Fatos já havia checado que Flávio Bolsonaro não viajou aos Estados Unidos recentemente.

Comunicados

Empresários estrangeiros usam plataforma do governo em esquema de limpeza de imagem

Latam Chequea
Negócios e pessoas com crises de reputação aparecem com menções positivas no repositório de artistas Mapas Culturais, mesmo sem ligação com a área, para manipular respostas geradas por IAs e buscadores.

Por Adrián González, Giovana Frioli, Jeanfreddy Gutiérrez e Talita Burbulhan

Esta matéria foi elaborada no âmbito do projeto “Promover informações confiáveis e combater a desinformação na América Latina”, financiado pela União Europeia. Seu conteúdo é de responsabilidade exclusiva do Cazadores de Fake News e do Estadão, e não reflete necessariamente os pontos de vista da União Europeia.

Empresários estrangeiros com “nome sujo” estão limpando sua imagem no mundo virtual graças a uma brecha em uma plataforma de sites de governos brasileiros. Uma investigação conjunta de Cazadores de Fake News e Estadão Verifica encontrou biografias elogiosas de dezenas de homens de negócios, em espanhol, em um repositório público na internet que deveria conter apenas informações sobre artistas, produtores e manifestações culturais do Brasil.

Pelo menos 40 pessoas ou empresas com histórico de problemas com a Justiça ou crises de imagem, oriundas de países como Venezuela, Espanha, Chile e Peru, conseguiram hospedar mais de 580 páginas nessa espécie de Wikipedia das artes que se chama Mapas Culturais.

Como a rede Mapas Culturais está sob o domínio governamental gov.br, tudo ali é considerado de alta reputação por buscadores de internet, como o Google, e por robôs de empresas de inteligência artificial. Quem fizer uma busca ou pergunta sobre esses nomes terá grandes chances de receber resposta baseada nas biografias elogiosas. Esse é o motivo da invasão do sistema brasileiro.

Embora tenha sido inicialmente uma iniciativa do governo federal, a rede Mapas Culturais é descentralizada, e vários de seus sites são geridos por Estados ou prefeituras. É principalmente nesses sites locais que os perfis irregulares foram localizados – muitos em mais de uma publicação. Como na Wikipedia, o acesso à plataforma é livre – ou seja, qualquer pessoa pode abrir cadastro e publicar informações.

A equipe de reportagem investigou 282 mil perfis publicados nos Mapas Culturais de 21 cidades ou Estados brasileiros, além da plataforma federal e da rede IberCultura Viva, que usa o mesmo software de publicação. No total, foram encontrados 598 sites suspeitos, por aparecer duas ou mais vezes. É nesse conjunto que estão os textos sobre as 40 pessoas ou empresas com “nome sujo”. E também 17 perfis sobre uma firma espanhola cuja especialidade é justamente promover o apagamento ou a redução de conteúdo negativo no ambiente digital, a Meritoo.ai, e seu fundador, Alejandro Abascal.

A Cazadores de Fake News, agência de checagens sediada no Chile, foi quem primeiramente detectou o uso irregular da rede Mapas Culturais, ao investigar uma articulação de contas inautênticas no Instagram e no X. Essas contas compartilhavam links para páginas dos Mapas Culturais com biografias simpáticas ao empresário venezuelano José Simón Elarba Haddad, dono da empresa de limpeza urbana Fospuca e presidente do banco Bancamiga. Posteriormente foram identificados perfis de mais dois empresários com negócios ligados aos governos de Nicolás Maduro e Delcy Rodriguez, na Venezuela.

Elarba, como é conhecido, foi quem teve a maior quantidade de inserções indevidas no sistema brasileiro. Foram 19 publicações em 19 sites distintos dos Mapas Culturais, entre 9 de janeiro de 2025 e 29 de janeiro de 2026. Nos textos, ele é descrito como um empresário com três décadas na indústria de pneus, no abastecimento industrial e na pecuária sustentável. Os perfis destacam sua “disciplina operacional” e visão estratégica. Elarba aparece ainda como um incentivador da economia circular, que lidera “projetos-chave contra as mudanças climáticas”, promove “startups verdes” e combina “inovação institucional, expansão empresarial e gestão estratégica”.

Seu perfil no Mapa Cultural de Campos dos Goytacazes (RJ) se intitula “Quem realmente é José Simón Elarba Haddad e por que gera tanto interesse?”. O enunciado foi redigido de forma a emular uma pergunta que possivelmente alguém faria ao pesquisar pelo empresário no Google.

O que as biografias elogiosas omitem são os vínculos do empresário com o poder na Venezuela, documentados pela imprensa independente há mais de uma década. Em dezembro de 2014, o site Armando.info informou que ele foi fotografado em uma boate ao lado de Carlos Malpica Flores, então diretor da petroleira estatal PDVSA e sobrinho de Cilia Flores, ex-primeira-dama da Venezuela. Elarba admitiu ser “bastante amigo” de Malpica, alvo de sanções dos Estados Unidos, da Suíça e do Canadá por suspeitas de corrupção, mas negou vínculos financeiros com ele.

No mesmo ano, Elarba recebeu US$ 1,48 milhão de um paraíso fiscal, transferência considerada suspeita pelo banco New York Mellon, segundo a investigação jornalística FinCEN Files. Em agosto de 2024, participou de uma reunião de Delcy Rodríguez, então vice-presidente venezuelana, com representantes do setor bancário do país.

A conta que criou um dos perfis de Elarba também foi responsável pelo cadastro de outro personagem venezuelano, Juan Carlos López Tovar. Ele teve 17 perfis publicados em 16 Mapas Culturais, entre maio de 2025 e junho de 2026.

Uma investigação do site armando.info com o Consórcio Latino-Americano de Investigação Jornalística (CLIP, na sigla em espanhol), La Prensa de Panamá e Transparencia Venezuela identificou López Tovar como ex-marido de uma sobrinha de Cilia Flores e sócio de Malpica Flores em duas empresas. A reportagem documentou que sua empresa recebeu pelo menos US$ 5,8 milhões, em 2014, de Ramón Carretero Napolitano, empresário panamenho. Ele foi alvo de sanções dos Estados Unidos, em dezembro de 2025, por envolvimento em esquemas de corrupção com o governo venezuelano. Nada deste histórico aparece em seus perfis nos Mapas Culturais.

Uma busca no Google pelo nome do empresário Juan Carlos Tovar López leva aos mapas culturais de João Pessoa e do Amapá.

Outro nome é o do espanhol Julio Martínez Sola, ex-presidente e cofundador da Plus Ultra Líneas Aéreas. Ele tem seis perfis em seis Mapas Culturais diferentes.

Martínez Sola foi detido em dezembro de 2025 e depois recebeu liberdade condicional. Ele reconheceu o pagamento de uma propina ao ex-presidente do governo espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, acusado em maio de 2026 de organização criminosa, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.

A empresa aérea de Martínez Sola recebeu um socorro financeiro do governo espanhol, de 53 milhões de euros, em março de 2021. A operação recebeu críticas devido ao fato de ele operar apenas 0,03% dos voos do país. 

Martínez Sola também tem perfil no portal IberCultura Viva, que tem como proposta mapear expressões artísticas de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Costa Rica. Publicada em 1º de julho de 2025, a página destaca entre as realizações do empresário o fortalecimento de rotas aéreas da Espanha para Lima, Bogotá e Caracas. O texto omite a detenção e as suspeitas que recaíram sobre ele em seu país.

Os perfis inautênticos de Sola nos mapas culturais são privilegiados nas buscas do Google.
Demais pessoas encontradas em perfis suspeitos

Os 40 nomes verificados não formam um grupo homogêneo. Há empresários, marcas e serviços comerciais de distintos países e setores sem relação entre si. O que eles têm em comum é um histórico de sanções, denúncias ou coberturas de imprensa desfavoráveis, além da presença nos Mapas Culturais, onde seus perfis favoráveis disputam espaço com informações negativas em buscadores como o Google.

Uma parte tem sanções ou condenações robustas. É o caso de empresários chilenos condenados em 2018 em um esquema de fraudes tributárias e financiamento ilegal de campanhas que ficou conhecido como Caso Penta. Há ainda uma empresa de cimentos colombiana punida por formação de cartel.

Outra parte não registra sanções, mas sim outros tipos de crises reputacionais, como menções no caso Epstein ou na investigação de transações financeiras suspeitas conhecida como FinCEN Files e envolvimento em denúncias de assédio, golpe, fraude ou violência de gênero. Em muitos casos, as denúncias não chegaram a se converter em investigações judiciais ou administrativas formais, ou foram encerradas. Mas as notícias sobre elas continuam disponíveis.

Esta reportagem não descarta que algumas das pessoas possam ter sofrido acusações infundadas. Também não obteve comprovação de que os perfis tenham sido criados diretamente por causa de seus antecedentes legais ou reputacionais. O que se pode dizer é que pessoas com processos e condenações têm perfis com informações favoráveis em uma mesma rede de portais governamentais brasileiros, e que compartilham algumas características. Também há casos em que uma pessoa ou empresa procura se desvincular de homônimos.

Meritoo: serviço de lavagem de reputação nas redes

A lista de perfis irregulares nos Mapas Culturais não inclui apenas quem se beneficia do serviço de limpeza de imagem, mas também quem o vende. É o caso do empreendedor espanhol Alejandro “Alo” Abascal e da empresa dele, a Meritoo. Ela oferece o serviço de “desindexação e deslocamento de conteúdo negativo online”.

De acordo com a própria descrição corporativa, a empresa opera como uma marca dedicada à reputação de empresas e pessoas, “especializada em Google e AI Overview”. No site, a empresa oferece a geração de “resenhas reais e feedback com IA” e a eliminação de conteúdos para “mitigação de impacto midiático de brechas de segurança”.

Abascal e a Meritoo foram procurados, mas não responderam. 

Em um vídeo publicado em 2021 no canal da empresa no YouTube, que na época se chamava Remove Group, os sócios Borja Martín de la Torre e Alejandro Abascal deram declarações para uma televisão espanhola sobre os serviços. “Desindexamos e eliminamos todo tipo de conteúdo”, disse Abascal. “Temos casos de pessoas que estão sofrendo bullying, assédio cibernético, que sofrem ataques de fake news, campanhas de desprestígio, todo tipo de clientes.”

De la Torre explicou que a empresa tinha duas vias para alcançar o que promete. A primeira, a desindexação, seria jurídica e se baseia no chamado direito ao esquecimento. É possível solicitar ao Google que deixe de mostrar uma notícia sobre uma pessoa depois de passados cinco anos. Mas há uma exceção para pessoas de interesse público. Neste caso, a Meritoo atua de outra maneira. “Empresas, pessoas expostas, políticos, eventos recentes não têm o direito à desindexação ou eliminação”, disse De la Torre. “Então, mudamos para a técnica da perda de posições ou, como eu chamo, posicionamento inverso.”

Abascal deixou ainda mais claro: “Jogamos o conteúdo (indesejado) para a segunda ou terceira página (de buscadores como o Google), onde ninguém o vê. Como fazemos isso? Com a nossa tecnologia.”

Mapas Culturais

A tecnologia por trás dos Mapas Culturais é brasileira e gratuita, disponível publicamente como software livre. Surgiu em 2013, a partir de encontros entre programadores, gestores públicos e pessoas da cultura. Ela serve como um repositório de agentes e projetos culturais.

Acabou adotada dois anos depois pelo governo federal como a base de dados oficial para unir, de forma padronizada, informações e indicadores sobre o setor cultural da União, dos Estados e dos municípios.

Cada Mapa Cultural possui uma seção com um buscador de perfis com as informações de agentes culturais.

O repositório do ministério foi batizado como Mapa da Cultura, e funciona até hoje, com mais de 260 mil agentes culturais inscritos. A plataforma passou a ser o espaço de divulgação de editais do MinC.

Em agosto de 2026, por exemplo, as inscrições para um processo de seleção de profissionais responsáveis por pareceres técnicos de projetos eram feitas exclusivamente pelo mapa nacional. O ministério informou que, futuramente, a plataforma deve ser substituída por uma nova, chamada CultBR.

Cada Estado e município pode adotar a tecnologia para gerir o setor cultural em seus territórios. Nesses casos, cada ente é responsável por sua infraestrutura, configuração, manutenção e gestão de dados. É aí que entra um dos principais gargalos do Mapas Culturais, segundo Lívia Ascava, sócia-diretora da Hacklab, empresa desenvolvedora da plataforma. A falta de estrutura técnica de Estados e municípios para manutenção do software abre brecha para a vulnerabilidade dos sistemas.

“Existe uma série de instalações que nunca foram zeladas, mas que ainda estão online. A tecnologia é um jardim. Então, se você deixa a tecnologia abandonada, ela fica cheia de spam, usuários indesejados”, diz Ascava.

Um dos sistemas investigados pela reportagem é o de São Gonçalo do Amarante (CE). No período de 9 de junho de 2025 a 17 de outubro de 2025, foram inscritos 39 perfis na plataforma. Destes, apenas três eram agentes culturais legítimos. Um deles era um perfil que se descrevia como “hacker”. Todos os outros eram pessoas e empresas investigadas pela reportagem.

Contas inautênticas

O cadastro de agentes culturais nas plataformas mapas culturais é feito sem moderação ou autorização prévia antes da publicação nos sites. O projeto adota a autodeclaração de artistas na plataforma a fim de evitar juízo de valor sobre a definição do que é considerado cultura. Também foi considerada a dificuldade de conectividade que artistas em regiões isoladas do Brasil poderiam ter.

(Aumentar ou diminuir o acesso) É uma discussão recorrente”, explica Ascava, do Hacklab. “Quando discutimos a possibilidade de incorporar o gov.br (plataforma digital unificada do governo federal, com camadas mais robustas de autenticação), por exemplo, podemos acabar excluindo a população ribeirinha e quilombola.”

O nível de monitoramento sobre o uso indevido da plataforma varia conforme cada gestão. O Ministério da Cultura diz acionar mecanismos de segurança quando há a identificação de “conteúdos ofensivos”, como tentativa de comercialização de produtos ilícitos ou utilização mal-intencionada. Já o Hacklab afirma possuir um detector de spam que emite alertas quando palavras-chaves suspeitas são utilizadas.

Após o contato da reportagem, a empresa disse que passaria a incluir o termo “empresário” no monitoramento dos mapas culturais sob sua gestão.

Outra medida adotada nas plataformas é o uso do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) para criar uma conta nos sistemas. Contudo, não há uma validação com a base de dados da Receita Federal, o que abre uma brecha para usos indevidos.

Isso já aconteceu antes. Em 2021, uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo mostrou que um perfil promovia conteúdos nazistas no Mapa Cultural da cidade de São Paulo. O site foi retirado do ar após a publicação do material.

Segundo Ascava, os exemplos mostram que as contas inautênticas não são feitas a partir de um hackeamento do sistema, mas da falta de acompanhamento das plataformas. “Então, não é uma vulnerabilidade no sentido técnico, mas no sentido de gestão da tecnologia, de ter protocolos e rotinas de zeladoria”, diz.

Esta investigação faz parte de “Los Desinformantes”, uma série de investigações sobre diferentes atores que disseminam desinformação na região, realizada pela LatamChequea, a rede de verificadores latino-americanos. Esta reportagem foi elaborada no âmbito do projeto “Promover informações confiáveis e combater a desinformação na América Latina”, coordenado pelo Chequeado e financiado pela União Europeia. Seu conteúdo é de responsabilidade exclusiva do Cazadores de Fake News e do Estadão e não reflete necessariamente os pontos de vista da União Europeia.

Golpes virtuais

Investigado por: 16/09/2026

Hospitais não pedem pagamentos por telefone; veja como se proteger

Golpes virtuais
No golpe do falso médico (ou do hospital), criminosos usam a pressa e o medo de pacientes e suas famílias para exigir pagamentos imediatos; saiba como não agir no impulso e confirmar a veracidade das informações.

Golpe do falso médico ou golpe do hospital

É uma fraude em que criminosos se passam por médicos ou funcionários de hospitais públicos ou privados para cobrar valores de familiares de pacientes internados. No entanto, nenhum hospital pede pagamento de emergência via Pix ou transferência por ligação ou por WhatsApp.

Devido à sua recorrência, em vários estados do Brasil hospitais e instituições de saúde costumam apresentar nas suas dependências cartazes alertando para o golpe e divulgam o alerta nas redes sociais (veja abaixo)

O objetivo do golpe é extorquir dinheiro rapidamente de familiares de pacientes internados, aproveitando-se da vulnerabilidade do momento. Em casos investigados recentemente pela Polícia Civil em Santa Bárbara d’Oeste (SP), criminosos chegaram a obter previamente informações sobre pacientes e seus tratamentos, o que permitiu tornar a abordagem mais convincente. 

Como os golpistas abordam as pessoas e que táticas usam para chamar a atenção: Em geral, os golpistas entram em contato com as vítimas por telefone ou WhatsApp se passando por médicos ou outros funcionários do hospital. Os criminosos inventam alguma mudança no quadro clínico do paciente ou uma complicação de última hora que exige um exame ou procedimento adicional que não seria coberto pelo plano de saúde do indivíduo ou pelo SUS. 

Como já alertou o Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, em outras abordagens, os criminosos vão à residência da vítima e pedem pagamento antecipado, enviam documentos para serem assinados ou tentam receber dinheiro em espécie ou através de pagamento via cartão de crédito/débito. Assim, para liberar o procedimento, pedem a transferência de dinheiro para contas de terceiros. 

Para dar credibilidade à sua abordagem, os golpistas usam informações reais vazadas ou obtidas ilicitamente do prontuário (como nome completo, CPF, histórico médico e o setor onde o paciente está internado, geralmente a UTI). 

Como os dados podem ser vazados: Entre janeiro e o início de setembro de 2026, foram registradas no país 43 comunicações formais de incidentes de segurança no setor de saúde, de acordo com o painel de acompanhamento da Coordenação-Geral de Incidentes de Segurança da Agência Nacional de Proteção de Dados (CGIS-ANPD).

Dados do painel apontam que desse total, dez incidentes foram casos de roubo de credenciais, outros oito foram de acesso não autorizado a sistemas de informação, sete de divulgação indevida de dados pessoais e cinco de sequestro de dados. Os números mostram ainda que 88% dos incidentes ocorreram no setor privado.    

De acordo com informações da ANPD ao Comprova, os chamados “vazamentos” podem ocorrer em algumas circunstâncias ligadas à exposição ou acesso indevido a dados pessoais de saúde. As mais comuns são: 

  • Roubo ou vazamento de credenciais/engenharia social: uso de senhas de funcionários que foram roubadas ou compartilhadas de forma inadequada;
  • Acesso e compartilhamento não autorizados: quando pessoas que têm acesso autorizado aos sistemas do hospital visualizam ou repassam dados sem necessidade (sem uma razão profissional para isso) ou autorização legal; 
  • Divulgação indevida de dados pessoais; 
  • Falhas e vulnerabilidades nos sistemas: falhas de segurança nos softwares do hospital que o expõe a atividades maliciosas.

Além disso, para evitar novos casos, a Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp) informou que os hospitais associados vêm continuamente aprimorando seus mecanismos de proteção e segurança de dados. A entidade reforça que a proteção das informações envolve também cuidados dos por parte dos pacientes, que devem evitar compartilhar seus dados pessoais desnecessariamente e ter atenção ao descarte de documentos e identificadores utilizados durante o atendimento. 

Como saber se é golpe: A Anahp orienta desconfiar de cobranças não previstas e confirmar diretamente com a instituição, por seus canais oficiais, qualquer solicitação de pagamento. Também é importante não fornecer dados pessoais ou financeiros sem verificar a identidade do solicitante e conferir atentamente os valores antes de qualquer transação. 

Além disso, uma das maiores pistas para saber se um pedido do tipo é golpe é o pedido de Pix ou transferência urgente. Os hospitais privados ou do SUS não cobram por procedimentos, medicamentos ou exames por telefone ou WhatsApp.

É necessário que o indivíduo fique atento à conta bancária de destino. Se quem o contatou pedir para fazer um Pix ou depósito em nome de um indivíduo (CPF) em vez do CNPJ oficial do hospital, é golpe. Os golpistas usam termos técnicos e dizem que o paciente “vai piorar” ou que a “cirurgia será cancelada” se o pagamento não for imediato, fazendo com que o paciente pague e deixe de verificar a veracidade da informação. 

Por usar informações vazadas, os golpistas também costumam saber o nome do paciente, do médico e o motivo da internação. Na dúvida, o paciente deve ir pessoalmente até a recepção do hospital ou ligar para o número oficial que está no folheto de internação, no site oficial ou na recepção. Não deve ligar de volta para o número que o contatou. 

O paciente também pode falar com a Ouvidoria ou Serviço Social. Todo hospital tem um setor responsável para orientar as famílias e confirmar se alguma cobrança (em caso de hospitais particulares) é legítima e como ela deve ser paga administrativamente.

Orientações dos hospitais: Diversos hospitais brasileiros já divulgaram comunicados em seus sites oficiais alertando sobre o golpe. Em um comunicado oficial, o Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, afirmou que só entra em contato com os pacientes por por telefone, e-mail ou conta verificada no WhatsApp”. 

Já o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, reforçou quenão realiza negociações, não solicita depósitos bancários ou faz cobranças relativas a pagamentos por via telefônica”. Além disso, o Hospital Aliança Centro Médico, em Barreiras, na Bahia, afirmou que “em caso de qualquer contato suspeito” o indivíduo pode contatar a instituição através dos canais oficiais. 

A quem denunciar: Se você ou um familiar foi vítima do golpe do falso médico em um ambiente hospitalar, pode pedir a “reparação dos prejuízos sofridos ao hospital e ao plano de saúde”, conforme o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec). O artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor (CDC) orienta que, nesse caso, o hospital e a operadora do plano de saúde respondem “independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços”.

Se o hospital ou o plano de saúde se recusarem a ressarcir os valores roubados, o consumidor pode registrar uma denúncia no Procon e/ou site consumidor.gov.br, do Ministério da Justiça. Também é possível registrar um Boletim de Ocorrência por estelionato na Polícia Civil, o que pode ser feito presencialmente ou de forma online. 

Também é possível realizar uma denúncia ao presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) ou à sua Corregedoria. Ela deve ser assinada “pelo denunciante, seu representante legal ou por procurador devidamente constituído, de forma analógica ou digital”.

Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já realizou verificações relacionadas a golpes de números desconhecidos ou por mensagens de texto, abordagens do golpe do hospital. As atividades dos criminosos também foram identificadas por diferentes veículos jornalísticos como o G1 e GZH

Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.

Eleições

Investigado por: 15/09/2026

O Pix não foi criado no governo de Dilma, diferentemente do que afirma legenda alterada em vídeo no Instagram

Eleições
Vídeo publicado pelo humorista Gregorio Duvivier mistura informações verdadeiras e erradas sobre programas sociais e iniciativas implementadas por governos do PT no Brasil.

Não é verdade que a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) tenha criado o Pix, diferentemente do que afirma post com trecho do filme “A Vida de Brian”, do grupo britânico Monty Python, que viralizou com uma legenda em português diferente do texto original em inglês.

Criada pelo humorista Gregorio Duvivier, a legenda inventada sobre a cena do filme lista realizações implementadas por governos petistas no Brasil. De 13 programas e/ou ações mencionadas, sete foram, de fato, instituídos por Dilma ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e algumas ações mencionadas no post requerem contextualização, como o Comprova faz mais abaixo. 

Diferentemente do que o vídeo afirma, o Pix, citado no fim do vídeo, começou a ser discutido no governo de Dilma, em 2014, mas foi desenvolvido em 2019 e lançado em 2020, pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), como o Comprova já mostrou

Procurado pelo Comprova, Duvivier não respondeu até a publicação deste texto.

O que foi de fato o PT que implementou e o que não foi? 

O Fome Zero foi criado por um governo petista?
Sim. O programa foi criado em 2003, no primeiro mandato do governo do presidente Lula, e representa um marco inicial das políticas sociais no combate à insegurança alimentar no país. Na época, o Brasil tinha ao menos 44 milhões de pessoas em estado de subnutrição, o que correspondia a 27,8% da população, segundo o Pacto Contra a Fome

Convém informar que o Brasil já havia saído do Mapa da Fome em 2014, após mais de 14 milhões de famílias brasileiras serem atendidas pelo programa. No triênio 2023-2025, a proporção de população subnutrida ficou abaixo do limite de 2,5%, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO-ONU). 

Apenas governos petistas reajustaram o salário mínimo?
Não. Considerando o período desde o Plano Real, tanto governos petistas como a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) deram aumentos reais (acima da inflação). O maior aumento real foi de cerca de 13%, em 2006, no segundo mandato de Lula.  Já Michel Temer (MDB)  fixou apenas reajustes que cobriram a inflação ou ficaram abaixo dela. Jair Bolsonaro (PL) também não ajustou o piso acima da inflação. Em 2022, ele assinou uma Medida Provisória estabelecendo o valor do mínimo em R$ 1.302, apenas repondo a variação apurada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). 

O Luz para Todos foi criado por um governo petista?
Sim. O Programa Nacional de Universalização do Acesso e Uso da Energia Elétrica, que busca oferecer atendimento às populações do meio rural e residentes em regiões remotas da Amazônia Legal, foi instituído no primeiro mandato de Lula, conforme Decreto nº 4.873

O Gás do Povo foi criado por um governo petista?
Não é bem assim.  O Gás do Povo (chamado no vídeo verificado aqui de Gás para Todos), lançado por Lula em setembro de 2025, deriva do programa Auxílio Gás dos Brasileiros, sancionado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em 2021. Vale acrescentar que o texto do Programa Auxílio Gás dos Brasileiros é de autoria do deputado Carlos Zaratini (PT-SP). 

O programa Farmácia Popular foi criado por um governo petista?
Sim. Lula criou a iniciativa, que disponibiliza medicamentos da Atenção Primária à Saúde por meio de farmácias credenciadas da rede privada, em 2004.

O Prouni foi criado por um governo petista?
Sim. O Programa Universidade para Todos foi criado em 2004 e instituído pela Lei nº 11.096, de 13 de janeiro de 2005. Ele oferece bolsas de estudo integrais e parciais em cursos de graduação e sequenciais de formação específica de instituições privadas de educação superior. Desde sua criação, o Prouni concedeu mais de 3,6 milhões de bolsas de estudo. 

A PEC das Empregadas foi criação de governo petista?
Não é bem assim. A medida é uma Proposta de Emenda à Constituição de autoria do deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT), tendo como relatoria principal, a deputada Benedita da Silva (PT-RJ). Na época, em 2013, o governo Dilma deu forte apoio à aprovação da emenda no Congresso. Dois anos depois, a presidente sancionou a lei que ampliava os direitos dos empregados domésticos. 

Lei Maria da Penha foi criação de governo petista?
Sim, a  Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340) foi sancionada por Lula em 7 de agosto de 2006, durante o seu primeiro mandato. A lei decorre da atuação de um consórcio de organizações defensoras dos direitos das mulheres, inspiradas pela luta da biofarmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes e pelas denúncias à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). O projeto de lei resultante desse movimento social foi encaminhado ao Congresso Nacional pelo Poder Executivo. A Lei determina que todo caso de violência doméstica é crime, deve ser apurado por meio de inquérito policial e remetido ao Ministério Público.

Ampliação da licença-maternidade foi criação de governo petista?
Não é bem assim. A ampliação da licença-maternidade estabelecida pela Lei nº 15.222, de 2005, foi de fato sancionada pelo presidente Lula em 29 de setembro de 2025 e publicada no Diário Oficial da União em 30 de setembro, data em que entrou em vigor. No entanto, a proposta da ampliação desse tipo de licença tem origem no PL 386/2023, da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), quando foi apresentado e iniciou sua tramitação em 2023 no Senado. A lei permite a prorrogação da licença-maternidade em até 120 dias após a alta hospitalar da mãe e do recém-nascido, quando a internação superar duas semanas e estiver relacionada a complicações do parto.

Ligue 180 foi criação de governo petista?
Sim, o Ligue 180 foi criado em 2005 pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres durante o primeiro governo Lula. As atendentes da Central são capacitadas permanentemente em questões de gênero, legislação e políticas governamentais para as mulheres vítimas de violência.

Pé de Meia foi criação de governo petista?
Não é bem assim. O programa de incentivo financeiro voltado para estudantes do ensino médio em escolas públicas e de graduação com habilitação em licenciatura, foi instituído por Lula em 2024. Mas a ideia original do auxílio em formato de bolsa-poupança foi da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), que liderou a articulação e a autoria do Projeto de Lei nº 54/2021 no Congresso Nacional, com o apoio de outros parlamentares e frentes ligadas à educação.

Cisternas no semiárido foram criação de governo petista?
Sim, o programa foi estabelecido como política pública no primeiro mandato de Lula em 2003, e é regulamentado pela Lei nº 12.873 de 2013 e pelo Decreto nº 9.606 de 2018. O projeto é executado pelo Ministério do Desenvolvimento Social com o objetivo de promover o acesso à água para consumo humano e para a produção de alimentos pela agricultura familiar às comunidades rurais.

Quem criou o Pix?

A primeira manifestação sobre “soluções que permitam, a baixo custo, pagamentos de varejo em tempo real e ininterruptos”, como o Pix, aconteceu em 2014, durante o governo Dilma, conforme apontado pelo BC no Relatório de Vigilância do Sistema de Pagamentos Brasileiro

Como o Comprova mostrou, em maio de 2018, durante o governo Michel Temer e meses antes da eleição em que Jair Bolsonaro foi eleito presidente, o BC instituiu um grupo de trabalho para estudar meios de pagamento mais ágeis, conforme constava em reportagem do Estadão. O sistema de pagamento instantâneo foi lançado dois anos depois, em novembro de 2020, durante o governo Bolsonaro.

Quem criou a postagem e qual é o seu interesse na disseminação do conteúdo?

Com mais de 1,6 milhão de seguidores, Gregorio Duvivier é ator, humorista, escritor, roteirista e poeta brasileiro. É também um dos criadores e participantes do canal do YouTube Porta dos Fundos. 

O Comprova encontrou o trecho original da cena do filme “A Vida de Brian”, lançado em 1979. Vale citar que o humorista faz uma “sátira da sátira”, em que os personagens judeus representam os “opositores dos petistas” e, os romanos, os “petistas”. 

O Comprova fez uma busca em várias plataformas, como Instagram, TikTok e Youtube, além de ter realizado pesquisas no Google e não encontrou a mesma versão transcrita no vídeo, o que confirma ter sido produzida de fato pelo próprio Duvivier, conforme ele mesmo confirma a um de seus seguidores em comentário, quando questionado. 

O Comprova entrou em contato com a assessoria do humorista para confirmar a autenticidade da transcrição e até o momento não obteve um posicionamento.

Outros casos semelhantes

Nas redes sociais, há diversos memes com trechos do filme “A Vida de Brian”, embora sejam raras as alterações nas legendas. Um dos cortes mais compartilhados é a cena em que o personagem Stan anuncia aos companheiros da Frente Popular da Judeia o desejo de se tornar mulher e se chamar Loretta. O trecho é frequentemente usado por perfis e por influenciadores para criticar pautas progressistas contemporâneas.

O filme não é alvo somente de paródias na internet. Desde seu lançamento, a obra é constantemente referenciada por comediantes e produções da cultura pop em vários países. No Brasil, o Porta dos Fundos se inspirou no filme e produziu um especial de Natal, “A Primeira Tentação de Cristo”, em 2019.

Quais táticas de persuasão foram utilizadas pela publicação? 

O post utiliza como principal estratégia o humor e a analogia, ao adaptar uma cena de “A Vida de Brian” para o contexto político brasileiro. A comparação entre os personagens que criticam o Império Romano e os críticos dos governos petistas busca exaltar as ações dos governos do PT. 

Também é possível identificar o efeito de acumulação de evidências, já que a legenda apresenta uma longa sequência de programas, leis e ações associadas aos governos petistas. Com o acúmulo de informações, o público tende a deixar de verificar individualmente cada uma das iniciativas. 

Além disso, a publicação emprega uma estratégia de transferência de credibilidade, ao combinar alegações amplamente reconhecidas pelo público, como Bolsa Família, ProUni e Lei Maria da Penha, com afirmações que exigem mais contextualização ou que podem estar incorretas. 

Por fim, o conteúdo faz uso de apelo identitário e polarização política, ao dialogar diretamente com o debate sobre o legado dos governos do PT. Ao apresentar a crítica ao partido como irracional ou contraditória, o vídeo tende a reforçar convicções pré-existentes e estimular reações emocionais de concordância ou rejeição entre grupos politicamente identificados com a discussão.

Fontes que consultamos: O Comprova analisou frames do vídeo e entrou em contato com a assessoria do humorista, mas não obteve retorno. Além disso, fez buscas no Google e em sites para apurar dados sobre cada programa social citado no post, incluindo o Relatório de Vigilância do Sistema de Pagamentos Brasileiro da ONU e informações do Pacto Contra a Fome, assim como pesquisou leis, decretos e maiores informações no site do Governo e do Senado Federal.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Como afirmado acima, o Comprova já fez uma verificação sobre a criação do Pix. O Aos Fatos também já havia checado conteúdo semelhante.

Eleições

Investigado por: 15/09/2026

Áudio de Renan Santos a Daniel Vorcaro foi criado por IA e não foi vazado pelo Intercept

Eleições
Conteúdo que circula nas redes sociais simula fala do candidato à Presidência ao ex-banqueiro e afirma erroneamente que o áudio teria sido divulgado pelo site The Intercept Brasil.

Não é verdade que o veículo The Intercept Brasil publicou um áudio que Renan Santos, candidato à Presidência da República pelo partido Missão, teria enviado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmando que o colocaria na “cadeia”. Conforme verificado pelo Comprova, o áudio é falso. Análise do Hive Moderation, ferramenta que identifica indícios de manipulação por inteligência artificial, apontou uma probabilidade de 99,2% da fala de Renan ter sido gerada artificialmente.

Em contato com o Comprova, o Intercept confirmou que o conteúdo foi manipulado e utiliza, de forma indevida, elementos da identidade visual do jornal para simular uma publicação do veículo. Em nota, o Intercept declarou que o material não foi produzido, publicado ou distribuído pela redação e não corresponde a nenhuma de suas reportagens. 

O Comprova  também tentou contato com a assessoria de imprensa de Renan Santos, mas, até a publicação deste texto, não obteve retorno. 

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 

O perfil que publicou o vídeo investigado se apresenta com frases como: “Aqui a fofoca é sempre servida bem quente, Você vai encontrar: política, ironias, comédia, verdades, opiniões“. A foto de capa do perfil é de Renan Santos.

Com cerca de 1.457 seguidores no X, a publicação alcançou 80,7 mil visualizações. Muitos internautas perceberam que o áudio havia sido gerado por inteligência artificial, mas outros demonstraram dúvidas sobre a autenticidade do conteúdo. “Ei @grok, isso é verdade?”, comentou um usuário.

O post investigado tem o mesmo nome de usuário de um perfil que publicou o mesmo conteúdo no X dias antes. Esta conta se apresenta como “militante e apoiador do @MBLivre desde 2018. A sigla MBL corresponde ao Movimento Brasil Livre, do qual Renan Santos é um dos fundadores. 

O perfil possui diversas publicações enaltecendo Renan Santos e argumentando que o voto no candidato é a melhor opção para as eleições de 2026. Na foto e imagem de capa de seu perfil, o usuário mantém a imagem e o número de candidatura de Renan em destaque, evidenciando o forte alinhamento político entre o usuário e o político.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O post reproduz a linguagem visual que o portal Intercept Brasil usou ao publicar no X, em 13 de maio, chamada para reportagem exclusiva sobre áudio de Flávio Bolsonaro (PL) para Vorcaro.  Ao atribuir o suposto vazamento ao Intercept, utiliza-se o nome de um veículo jornalístico real para conferir aparência de legitimidade e credibilidade ao conteúdo. 

Além disso, aparecem alguns sinais que o público costuma associar a um material vazado: documentos com carimbo de confidencialidade ao fundo e a legenda abrindo com “ÁUDIO VAZADO!” em caixa alta. Esse apelo à emoção, a utilização da tática de polarização e a imitação de fontes confiáveis são técnicas comumente usadas por desinformadores, pois reduzem a chance de o leitor duvidar da veracidade do conteúdo. 

Fontes que consultamos: O Comprova analisou o suposto áudio, que foi submetido ao Hive Moderation, além de consultar o The Intercept Brasil sobre a veracidade do conteúdo. Rastreamos a conta que produziu o post, e a circulação nas redes sociais, além da análise de contas que replicaram o mesmo conteúdo. 

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Estadão desmentiu recentemente uma informação relacionada à candidatura de Renan Santos à Presidência da República. Além disso, o jornal também verificou declarações que o candidato fez em entrevista, assim como o G1. Em 2018, o El País publicou que Renan Santos e outros fundadores do MBL difundiram dados falsos nas redes sociais.

Política

Investigado por: 11/09/2026

Datas em faturas de cartão de André Mendonça com compra de ternos não comprovam que documento é falso

Política
Ministro do STF repassou capturas de tela dos registros ao Globo para refutar suspeitas de que despesas teriam sido pagas por Daniel Vorcaro; postagem explora suposta incompatibilidade de datas para alegar falsamente que houve montagem.

Ao contrário do que afirma uma postagem que viralizou no X, detalhes das capturas de tela de faturas de cartão de crédito apresentados pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, com registros de compras em uma alfaiataria de São Paulo, não comprovam que os documentos foram adulterados.  

As capturas de tela foram publicadas em matéria de O Globo e, segundo o jornal, foram repassadas pelo próprio Mendonça, com o intuito de comprovar que foi ele quem pagou pelos ternos e roupas sob medida que tinham a suspeita de terem sido bancadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.  

No início do mês, o jornalista Paulo Motoryn revelou mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro que levantaram suspeitas de que o advogado Ciro Rocha Soares teria levado o ministro ao estabelecimento, e que as despesas teriam sido custeadas por Vorcaro. 

“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, disse o advogado em áudio de 8 de fevereiro de 2025, segundo a reportagem de Motoryn.

Alegação de montagem não procede 

No X, uma postagem com mais de 670 compartilhamentos destaca alguns aspectos das capturas de tela que indicariam que o “ministro bolsonarista André Mendonça apresentou um documento adulterado”. Mas isso não é verdade. 

O post aponta incompatibilidade de datas em relação ao modelo do cartão que aparece no alto da fatura: Altus Liv Visa, lançado em 17 de novembro de 2025, e as datas das faturas apresentadas por Mendonça com o registro das compras na alfaiataria: março e abril de 2025. Portanto, antes de o cartão ter sido lançado. “Ou seja, é impossível ter uma fatura real dele em março de 2025, já que o banco nem tinha criado o produto ainda. Portanto é uma montagem”, afirma, de forma enganosa. 

Procurado pelo Comprova, o Banco do Brasil (BB) esclareceu que “qualquer cliente que eventualmente migre de um cartão para outro, e busque realizar o download de uma fatura de períodos anteriores, irá visualizar, no cabeçalho, a modalidade atual do seu cartão”. 

O Comprova também procurou o gabinete de André Mendonça, mas não obteve retorno. 

Veja a resposta do BB na íntegra:

“Relacionamento com cliente: O BB não comenta sobre transações de clientes por conta de sigilo bancário. 

Sobre o produto cartão Visa Altus Liv: o lançamento oficial do produto ocorreu em novembro de 2025, marcando sua disponibilidade inicial no mercado. A partir dessa data, os cartões foram distribuídos em tranches para os clientes. 

Sobre procedimentos de pesquisas de faturas por clientes: qualquer cliente que eventualmente migre de um cartão para outro, e busque realizar o download de uma fatura de períodos anteriores, irá visualizar, no cabeçalho, a modalidade atual do seu cartão e o detalhamento dessa fatura antiga preenchido com as informações das compras referentes ao mês consultado.”

O perfil responsável pela postagem 

O post no X foi feito no dia 7 por um perfil que tem 2.258 seguidores e costuma publicar conteúdos com críticas ao chamado “centrão” e à direita brasileira. A imagem de capa traz os termos “Bolsonarismo com centrão” acima de uma gravura com silhuetas nuas e contorcidas. 

O perfil segue 7.498 contas, entre elas as de defensores públicos, veículos jornalísticos, figuras do governo federal e militantes de esquerda. O perfil de mesmo nome no Facebook divulga postagens anti-bolsonaristas e contra a direita, além de enaltecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O mesmo comportamento é verificado no TikTok, onde há a postagem de um vídeo relacionado à campanha eleitoral de Lula. 

Diante das publicações prévias do perfil, compreende-se que o conteúdo relacionado a André Mendonça foi divulgado com a intenção de suscitar uma reação de indignação e revolta por parte do público.

Fontes que consultamos: O Comprova consultou notícias na imprensa e entrou em contato com o Banco do Brasil, o gabinete de André Mendonça e o responsável pela postagem. Os dois últimos não retornaram.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Recentemente, o Comprova mostrou que documento atribuído à PF sobre conversas entre Nikolas e Vorcaro é falso e foi gerado por IA e que Jornal Nacional não anunciou pedido de prisão preventiva contra Alexandre de Moraes

Notas da comunidade: Até a publicação deste texto não havia “notas da comunidade” no post analisado.  

Mudanças climáticas

Investigado por: 11/09/2026

Super El Niño e aquecimento global são eventos climáticos comprovados, ao contrário do que diz meteorologista

Mudanças climáticas
Cientista que deu a declaração é apontado por outros profissionais da categoria como um dos principais nomes responsáveis pela desinformação e negacionismo climático no Brasil.

Ao contrário do que afirma um meteorologista em uma entrevista para um canal no YouTube, o aquecimento global e o fenômeno conhecido como Super El Niño possuem fundamentação científica consolidada e sofrem influência direta da ação humana. No conteúdo investigado, o profissional minimiza a ação antrópica no clima e atribui o aquecimento anormal do Oceano Pacífico a um terremoto ocorrido no Japão.

Em sua fala, Luiz Carlos Molion argumenta que a humanidade é incapaz de alterar as temperaturas da Terra porque manipula ativamente apenas 6% da superfície do planeta, em contraste com os 71% cobertos por oceanos. Ele também alega que a principal influência climática vem do espaço – prevendo um resfriamento global entre 2030 e 2040 devido à baixa atividade solar – e que o recente deslocamento de águas quentes até o Polo Sul foi um evento sísmico aleatório, sem relação com a formação normal do El Niño.

Para checar as afirmações de Molion, o Comprova entrevistou Higo José Dalmagro, professor da Unic/Uniderp e doutor em Física Tropical pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Ele explica que a ciência aponta para um El Niño muito forte, com sinais de resposta atmosférica ao aquecimento do Pacífico. “O Molion é bastante crítico em relação às mudanças climáticas e costuma questionar modelos e interpretações que hoje têm amplo respaldo na comunidade científica”, acrescenta. Dalmagro reflete ainda que não se deve usar a explicação de Molion para colocar em dúvida todo o conjunto de evidências científicas que temos hoje.

Ainda em contraste com o que é dito no vídeo, especialistas entrevistadas pelo Estadão Verifica elucidam que a interferência humana não se limita à porcentagem de área territorial ocupada. A explicação foi dada por Sonaira Silva, doutora em Ciências de Florestas Tropicais pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e afiliada à Academia Brasileira de Ciências, e Eliana Fonseca, pesquisadora do Centro Polar e Climático e da iniciativa MapBiomas. Elas sustentam que o desmatamento e a queima contínua de combustíveis fósseis liberam grandes quantidades de gases de efeito estufa. O excesso de dióxido de carbono (CO₂) retém calor na atmosfera e contribui para o aumento da temperatura do planeta.

Esse acúmulo de calor também afeta os oceanos e pode intensificar fenômenos naturais e cíclicos, como o Super El Niño, que é monitorado internacionalmente e registrado há séculos. A classificação é usada quando o aquecimento das águas do Pacífico equatorial ultrapassa 2 °C em relação à média histórica. Temperaturas dos oceanos e dos continentes são monitoradas continuamente por satélites e medições são feitas em diferentes locais por agências meteorológicas nacionais e internacionais. Esses dados mostram uma elevação das temperaturas e sustentam a conclusão científica de que as atividades humanas alteram a dinâmica de troca de energia da Terra.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 

Luiz Carlos Molion é graduado pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em Meteorologia pela University of Wisconsin e pós-doutorado em Hidrologia de Florestas pelo Instituto de Hidrologia do Reino Unido, além de ter sido bolsista em uma instituição na Alemanha. Também atua como pesquisador e professor, dentro e fora do Brasil.

Esta não é a primeira vez que suas afirmações são verificadas. Molion é apontado por pesquisadores e jornais como um dos principais nomes da desinformação e do negacionismo climático no Brasil. De acordo com investigações detalhadas em uma reportagem da BBC News Brasil, o meteorologista mantém uma agenda ativa de cerca de 50 palestras anuais, e cerca de 85% dessas apresentações são financiadas por entidades, sindicatos e cooperativas do agronegócio. 

As alegações de Molion também têm sido contestadas pelo consenso científico. Conforme registrado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), o Estadão Verifica submeteu as declarações do meteorologista feitas em uma entrevista de 2010 à análise do climatologista Carlos Nobre e do glaciologista Jefferson Cardia Simões, que apontaram sérios erros conceituais e distorções nas declarações de Molion. 

Ainda, conforme exposto em reportagens da Agência Pública e do portal ClimaInfo, Molion é um nome em destaque no cenário negacionista brasileiro. Ele também foi checado em 2024 pelo Estadão Verifica, quando uma de suas postagens, que utilizava um gráfico desatualizado para negar o aquecimento global, foi classificada como falsa.

Molion foi procurado pelo Comprova, mas não respondeu até a publicação deste texto.

Cortes da entrevista foram publicados no Instagram e já alcançaram, até 11 de setembro, mais de 10 mil curtidas e 120 mil visualizações. No YouTube, a entrevista completa teve 23 mil visualizações. O canal onde ela foi veiculada possui mais de 2 mil inscritos no YouTube e 11,2 mil em seu perfil no Instagram.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A declaração combina a autoridade atribuída a um meteorologista com termos técnicos, dados históricos e informações verdadeiras sobre fenômenos climáticos. O discurso também apresenta explicações com relações de causa e efeito aparentemente simples, o que pode facilitar a compreensão de um tema complexo.

Por exemplo, ao mencionar enchentes e secas registradas antes da urbanização em massa, ele usa dados reais para chegar a conclusões que precisam ser analisadas separadamente. A ocorrência desses eventos no passado não é, por si só, suficiente para determinar quais fatores influenciam nos eventos atuais. A presença de números e conceitos científicos pode dar ao argumento uma aparência de precisão.

Para climatologista, há, sim, bases científicas que apontam para Super El Niño

O Projeto Comprova entrevistou o climatologista Higo José Dalmagro, professor da Unic/Uniderp e doutor em Física Tropical pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Ele reforça que há evidências científicas e dados de modelos meteorológicos que indicam um Super El Niño neste fim de 2026.

Na avaliação do especialista, a publicação com a fala de Molion é enganosa porque tira de contexto sua análise. “Parece que o professor Molion está simplesmente dizendo que ‘não existe El Niño’, sem mostrar o restante da explicação dele.”

Segundo Dalmagro, na entrevista completa, disponível no YouTube, Molion acerta ao dizer que é preciso haver um acoplamento entre o aquecimento das águas do Pacífico e a atmosfera para que o El Niño se estabeleça e produza seus efeitos. Contudo, o climatologista analisa que “o aquecimento da água, sozinho, não explica tudo; é preciso haver também uma resposta da atmosfera”.

Dalmagro também discorda das conclusões de Molion, que questiona modelos e interpretações com amplo respaldo na comunidade científica. Segundo ele, o conjunto de evidências aponta para um El Niño muito forte, com sinais de resposta atmosférica ao aquecimento do Oceano Pacífico.

Fontes que consultamos: O Comprova analisou o vídeo original da entrevista e os cortes publicados no Instagram para entender quais alegações foram feitas. Com o Google, foi realizada uma busca sobre a biografia do meteorologista, notícias e outras checagens sobre o tema. Especialistas foram procurados para analisarem as afirmações e darem seu parecer científico sobre o tema.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Como afirmado acima, o Estadão Verifica também checou que o Super El Niño não é invenção; fenômeno pode ser medido e sofre influência de atividades humanas. O Comprova já explicou que  é consenso científico que ação humana causa mudanças climáticas e checou que o aquecimento global é uma realidade e tem impacto severo, diferentemente do que alega Donald Trump.

Política

Investigado por: 11/09/2026

Animes e mangás não foram proibidos no Brasil

Política
Vídeos e postagens nas redes sociais relacionam erroneamente artigos de lei aprovada em agosto à proibição de produções com crianças e adolescentes.

Não é verdade que os animes serão proibidos no Brasil com base nos artigos 241-B e 241-E da Lei 15.487/2026, que institui medidas de enfrentamento e repressão à violência sexual contra crianças e adolescentes, inclusive no ambiente digital e com uso de inteligência artificial (IA), modificando, por exemplo, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

André Luiz de Carvalho Matheus, advogado atuante na área de mídia e liberdade de expressão, explicou ao Comprova que não há na lei uma autorização para banir indiscriminadamente animes, mangás, ou outras produções que retratem personagens crianças ou adolescentes. 

A Lei 15.487/2026 “institui medidas de enfrentamento e repressão ao crime de violência sexual contra criança ou adolescente, inclusive no ambiente digital e com uso de inteligência artificial”. O artigo 241-B pune quem adquire, possui, armazena ou solicita registros que contenham violência sexual contra criança ou adolescente. Já o artigo 241-E detalha quais materiais se enquadram na lei: registros que envolvam crianças ou adolescentes, reais ou fictícios, em atos sexuais ou obscenos. 

Para os críticos, o texto da lei abre margem para uma interpretação tão ampla que poderia incluir os animes com algum nível de “ecchi”, termo japonês que se refere às produções animadas com relação sexual ou amostra de muita sensualidade.

Segundo André Matheus, as obras ficcionais devem ser verificadas caso a caso, considerando-se, entre alguns pontos: o contexto, o modo de produção e a finalidade.

“Uma obra ficcional não pode ser proibida simplesmente porque contém personagens menores de idade, aborda sexualidade, mostra nudez ou retrata situações de assédio, abuso ou violência. Uma série que trate de violência sexual para denunciá-la, por exemplo, não se confunde automaticamente com conteúdo destinado à sexualização ou à exploração sexual da personagem”, explicou o advogado.

Os fãs das produções não serão automaticamente punidos por verem cenas com crianças e adolescentes sexualizados, segundo Carvalho Matheus. “A existência de uma cena incômoda, de nudez ou de violência não equivale, por si, a material de violência sexual na definição legal, nem permite concluir que o espectador agiu para buscar excitação sexual”.

Mangás não foram censurados

A Yppy Productions, produtora brasileira responsável pelas revistas Yppy-ê, Yppy-ecchi e Yppy-ê Sketch, foi citada em postagens que abordam a Lei 15.487/2026 como exemplo de produtora censurada. A Yppy Productions removeu temporariamente de seu site a revista “A Pervertida e o Virtuoso”, história que acompanha o relacionamento entre dois adolescentes colegas de turma. 

Na trama, Augusto é um jovem cristão e Anahí uma colega que “propõe jogos ousados envolvendo suas roupas, deixando o rapaz constantemente dividido entre a tentação e suas convicções espirituais”. Uma das cenas da revista mostra, por exemplo, a adolescente enviando uma foto em que aparece levantando a blusa e mostrando os peitos para o rapaz. Há postagens de divulgação de “A Pervertida e o Virtuoso” no Instagram da produtora que sexualizam a personagem.

A produtora afirmou em postagem no Instagram que a remoção havia sido feita em conformidade com as alterações do ECA Digital. Ao Comprova, Alessandra Leite, CEO da Yppy Productions, afirmou que houve “confusão” da produção em relação à interpretação da lei, mas que haverá modificação no design e na história para que os personagens sejam readequados para o público adulto.

“Queríamos fazer essa adequação desde que o autor foi chamado para publicar com a gente. Então aproveitamos a oportunidade [das dúvidas com a lei] para fazer as edições antes de prosseguir com os próximos projetos”, afirmou.

Crianças e adolescentes ‘fictícios’

Yuri Lannes, advogado atuante nas áreas de Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), tecnologia e tributário, apontou  que a expressão “fictício” é “provavelmente a mais problemática do ponto de vista interpretativo”. Isso porque ela alcança crianças ou adolescentes inteiramente gerados por IA ou criados graficamente. 

Porém, o advogado afirma que a intenção legislativa está relacionada ao desenvolvimento da inteligência artificial generativa, ainda que, por interpretação literal, haja espaço para discutir a incidência também sobre desenhos, animações e outras formas de criação artística.

“É justamente aí que surge uma questão jurídica importante: o objetivo legislativo parece ter sido, em grande medida, enfrentar conteúdo sintético produzido por novas tecnologias, mas a linguagem normativa escolhida potencialmente alcança um universo muito mais amplo de ficção”, diz Lannes.

André Luiz de Carvalho Matheus destaca que os artigos buscam alcançar quem acessa propositalmente conteúdo sexualmente exploratório envolvendo crianças e adolescentes, inclusive conteúdo sintético criado por inteligência artificial. 

“Ela não autoriza a criminalização automática de espectadores de filmes, séries, animes ou jogos, nem transforma toda obra que represente adolescentes em contexto de nudez, assédio ou sexualidade em conteúdo criminoso”, fala o advogado.

O Comprova entrou em contato com o deputado federal Osmar Terra (PL-RS), autor do Projeto de Lei 3066/2025 que originou a Lei nº 15.487/2026, pedindo um posicionamento sobre o caso. Até a última atualização desta reportagem, ele não havia respondido. O espaço segue aberto.

Fontes consultadas: O Comprova entrou em contato com a Yppy e buscou mais informações sobre animes e mangás tirados de circulação no Brasil. Também procurou o deputado Osmar Terra e advogados para analisar os artigos citados.

Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Aos Fatos fez uma publicação sobre o que é fato e o que é falso sobre as novas regras do ECA Digital.

Comunicados

Rede LatamChequea pede à Meta que não substitua a checagem independente pelas Notas da Comunidade

LatamChequea
A rede, que reúne 47 organizações de checagem da região, incluindo o Comprova, alerta que as Notas da Comunidade não são suficientes em contextos de alta desinformação e pede que elas complementem a verificação independente, sem substituí-la.

A Meta anunciou que lançará seu sistema de Notas da Comunidade em países da América Latina que falam espanhol. A iniciativa, segundo a empresa, poderá substituir gradualmente seu programa de checagem independente, do qual atualmente participam 14 organizações na região.

O programa de checagem de fatos independente foi lançado pela Meta em 2016 para combater a desinformação em suas plataformas. Como parte dessa iniciativa, as organizações certificadas pela Rede Internacional de Checagem de Fatos (IFCN, na sigla em inglês) analisam as publicações potencialmente falsas ou enganosas e as classificam de acordo com as evidências disponíveis. A plataforma decide, então, quais medidas aplicar aos conteúdos. As ações, de acordo com suas políticas, podem incluir reduzir a visibilidade do conteúdo, adicionar contexto às publicações e avisar quem as compartilhou de que há novas informações disponíveis. Segundo a empresa, a classificação não implica que o conteúdo seja removido nem que deixe de estar acessível.

Em janeiro de 2025, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, anunciou o fim desse programa nos Estados Unidos, onde foi substituído pelo sistema de Notas da Comunidade, inspirado em ferramenta semelhante da rede social X. Ambos os sistemas baseiam-se em contribuições voluntárias dos usuários, que acrescentam contexto às publicações. As notas são publicadas somente se alcançarem consenso entre usuários, que, normalmente, divergem em suas avaliações.

As evidências disponíveis mostram que esse sistema tem limitações — o que também foi apontado pelo Conselho Consultivo da Meta em um parecer emitido em março de 2026 a pedido da empresa. Em suas advertências, o Conselho Consultivo da Meta destacou a demora que costuma ocorrer na publicação de notas, o número reduzido de notas que efetivamente são publicadas e sua dependência na confiabilidade do ecossistema informativo mais amplo. Também reafirmou o papel fundamental da checagem  independente, observando que esses profissionais “estão entre as fontes mais citadas como contexto de apoio, o que evidencia a dependência das Notas da Comunidade em relação ao trabalho dos checadores”. E acrescentou: “Reduzir o apoio aos checadores de fatos provavelmente afetará as Notas da Comunidade, já que os colaboradores terão menos fontes confiáveis para citar”.

As evidências sobre o funcionamento do sistema de Notas da Comunidade provêm principalmente da rede social X, que oferece dados para a realização de análises independentes. A Meta, por outro lado, não apresentou evidências da eficácia do sistema nos Estados Unidos, embora, em seu anúncio, mencione números gerais sobre a quantidade de notas e seu alcance, sem dar mais detalhes.

A rede LatamChequea dá as boas-vindas a novas ferramentas que permitam combater a desinformação. As Notas da Comunidade, que serão testadas nos países de língua espanhola da região, podem ser uma contribuição valiosa se forem implementadas como um complemento à checagem independente, ampliando o alcance do trabalho dos checadores e aproveitando o conhecimento coletivo. A preocupação reside na possibilidade, levantada pela plataforma, de que a verificação independente seja substituída por esse sistema.

Se o apoio às organizações que verificam as informações for reduzido, com que fontes confiáveis contarão aqueles que escrevem as notas da comunidade? Substituir a verificação independente enfraquecerá as fontes das quais o próprio sistema se alimenta.

Em um momento crítico, em que os problemas gerados pela desinformação na região foram agravados pelo aumento de conteúdos gerados e manipulados por inteligência artificial, reduzir as ferramentas para combater a desinformação é especialmente preocupante.

LatamChequea é a rede de verificadores latino-americanos composta por 47 organizações, incluindo o Projeto Comprova.

Confira aqui a publicação original deste comunicado.