O Projeto Comprova reúne jornalistas de 33 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas, processo eleitoral e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vem sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
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Eleições

Investigado por:2021-07-23

É falso que áudio mostre Luana Piovani defendendo Jair Bolsonaro

  • Falso
Falso
São falsos posts virais no Facebook e no TikTok com áudio em que supostamente a atriz Luana Piovani estaria defendendo que acreditaria em urnas fraudadas caso Jair Bolsonaro não fosse eleito em primeiro turno. A atriz negou a autoria da gravação em seu perfil no Instagram.
  • Conteúdo verificado: Posts no Facebook e no TikTok utilizam uma foto da atriz Luana Piovani e atribuem a ela uma fala segundo a qual a fraude nas eleições presidenciais estaria comprovada caso Jair Bolsonaro não fosse eleito em primeiro turno. Na fala, a pessoa ainda diz que não gostaria de ter filhas homossexuais.

É falso o áudio atribuído à atriz Luana Piovani em que ela teria dito acreditar na possibilidade de urnas burladas caso Jair Bolsonaro não ganhasse no primeiro turno. Os posts, que viralizaram no Facebook e no TikTok e já circulavam desde 2018, trazem a inscrição “Nossa, finalmente, uma atriz lúcida” e, na gravação, a voz ainda diz não querer que “filhas fossem sapatas”.

Ao ouvir o áudio com atenção, é possível perceber que não é a atriz falando. De qualquer forma, o Comprova procurou a assessoria de imprensa de Piovani, que negou a autoria do conteúdo. Em seguida, ainda na sexta-feira (23), Luana, que está em viagem na Turquia, gravou stories no seu Instagram também desmentindo ser ela no áudio. “Gente, eu não sou a favor do Bolsonaro, sou anti-Bolsonaro, esse áudio não sou eu, não é a minha voz”, disse ela.

Como verificamos?

O primeiro passo do Comprova foi verificar se o áudio vinculado à imagem de Luana Piovani havia sido gravado pela atriz. Entramos em contato com a assessoria da artista no Brasil, por e-mail e por telefone, para que pudesse informar se a voz registrada na postagem era da Luana.

Também buscamos contato diretamente com a atriz, com mensagem por e-mail e telefone para sua assessoria de imprensa e para seu perfil no Instagram, canal pelo qual Luana acabou se manifestando posteriormente, em stories.

Por fim, acionamos dois internautas que compartilharam a montagem da foto da artista com o áudio, mas não obtivemos retorno até o fechamento desta checagem.

Verificação

Fraude nas eleições

No áudio que circulou pela primeira vez em 2018 e que já havia sido desmentido, mas voltou a viralizar agora, a mulher afirma que, se Jair Bolsonaro não fosse eleito naquele ano, se mudaria para o exterior porque seria um indício de que as urnas teriam sido burladas, ou seja, fraudadas.

O áudio também sugere que, no pleito anterior, em 2014, a vitória já estava assegurada para o candidato Aécio Neves (PSDB) e, “do nada”, Dilma Rousseff (PT) se reelegeu para a presidência.

Naquele ano, a disputa eleitoral foi bastante acirrada e a petista venceu com 51,64% dos votos válidos. As teorias sobre supostas fraudes começaram logo em seguida, questionando a confiabilidade das urnas eletrônicas, e o PSDB – partido derrotado nas eleições – ingressou com um pedido de auditoria junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Um ano depois, relatório do próprio partido confirmou que não houve fraude, embora tenha defendido que o sistema não permitia uma auditoria externa independente e efetiva. O TSE argumenta que há diversas formas de auditar e recontar os votos. Recentemente, o Comprova fez uma checagem sobre o tema, reafirmando que não há evidências de irregularidades nas eleições de 2014.

Mudança para Portugal

Bolsonaro foi eleito em outubro de 2018. Pouco depois, em janeiro de 2019, Luana Piovani mudou-se para Portugal, numa atitude diferente daquela descrita pela pessoa do áudio de que, se o então candidato não chegasse ao Palácio do Planalto, ela deixaria o país.

Em abril deste ano, a atriz afirmou que o motivo de ir morar no exterior era a vontade de criar os filhos fora da “bolha” de celebridade, além da possibilidade de oferecer mais liberdade e segurança para as crianças, sem mencionar razões políticas.

A postura de Luana Piovani nas redes sociais, entretanto, tem se mostrado frequentemente contrária aos posicionamentos de Bolsonaro e sua gestão na pandemia, como demonstra neste vídeo.

Filhas?

Além de ser possível identificar que a voz não é da atriz, a mulher no falso áudio diz que tem “duas filhas”, o que não é o caso da atriz. Luana, conforme publicações em revistas e sites de celebridades e em seus posts em redes sociais, é mãe de dois meninos (Dom e Bem) e apenas uma menina (Liz). A informação está, inclusive, em sua descrição no Instagram.

‘Não sou eu’

Em viagem a Istambul, na Turquia, a atriz gravou stories em seu perfil no Instagram logo depois que o Comprova procurou sua assessoria de imprensa. Além de se dizer “anti-Bolsonaro” e negar a autoria do áudio viral, Luana pediu: “Pelo amor de deus, não cansem minha beleza”.

Acrescentou que, se tivesse votado nas eleições presidenciais de 2018, teria escolhido Marina Silva, então candidata pela Rede Sustentabilidade. Antes de finalizar os stories, afirmou ser “anti-Lula também” e pediu novamente: “Pelo amor de deus, não diz que eu sou Bolsonaro, não, que me dói até a barriga”.

Não foi a primeira vez que a atriz teve seu nome envolvido em desinformação. Áudios falsos atribuídos a ela e com apoio a Bolsonaro, como o verificado aqui, circulam desde 2018, e já foram checados por veículos como G1 e Veja SP. A atual postagem também foi verificada pela Agência Lupa.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições e a pandemia que tenham atingido alto grau de viralização. O conteúdo verificado aqui atingiu 62,2 mil interações no Facebook até 23 de julho.

No falso áudio – que, como afirmado anteriormente, já circulava em 2018 –, a voz feminina fala em fraude nas urnas nas últimas eleições presidenciais, mesmo discurso que o presidente Bolsonaro vem pregando desde antes de ser eleito. Conteúdos como esses geram desinformação e reforçam a impressão sem fundamento de que o processo eleitoral brasileiro não é seguro, colocando em xeque a própria democracia.

Recentemente, o Comprova publicou verificações semelhantes, sobre conteúdos que questionavam o sistema eleitoral brasileiro, como postagens que afirmavam falsamente que urnas usadas aqui haviam sido hackeadas nos Estados Unidos e que um vídeo mostrava fraude nas eleições de 2014. No ano passado, o projeto mostrou que o sistema de votação eletrônica pode ser auditado e que a Smartmatic nunca vendeu urnas para o Brasil.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Políticas públicas

Investigado por:2021-07-23

Fragmento de arroz não é ‘resto’ e é vendido desde antes do governo Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
Os fragmentos de arroz são um subproduto apto para o consumo humano. Eles não são restos de comida e apresentam o mesmo valor nutricional que os grãos inteiros. Além disso, eles já eram comercializados antes do governo do presidente Jair Bolsonaro, e a marca que aparece na foto de uma das postagens não detectou nenhum aumento de produção ou vendas em 2020 ou 2021.
  • Conteúdo verificado: Posts no Instagram e Twitter mostram sacos de arroz com um rótulo indicando que são fragmentos de arroz. Os posts dizem que esses grãos quebrados seriam “restos de comida”, com “valor nutricional reduzido”, usados para “compor rações de animais e fazer farinha de arroz” e que teriam começado a ser comercializados no governo de Jair Bolsonaro com um preço maior, devido à “miséria” e “fome” do país.

Não é verdade que os “fragmentos de arroz” sejam restos de comida e tenham começado a ser vendidos nos supermercados recentemente, já durante o governo Bolsonaro, como sugerem alguns posts que viralizaram.

Esse subproduto do arroz, formado por grãos que quebraram durante a etapa de polimento e que são separados dos inteiros, está regulamentado como apropriado para o consumo humano desde a Instrução Normativa de 2009, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e tem valor nutricional similar ao do arroz inteiro, segundo especialistas ouvidos pelo Comprova.

Além disso, segundo a fabricante da marca que aparece na foto que acompanha um dos tuítes, Rampinelli Alimentos, os fragmentos são comercializados desde 2016 e indicados para receitas de sopas e caldos.

A empresa também afirmou que não foi percebido nenhum aumento recente no volume produzido de fragmentos de arroz no governo Bolsonaro e, portanto, nem no consumo.

O Comprova entrou em contato com os responsáveis pelas postagens, e um deles, @diogotapuio, nos respondeu, dizendo que o tuíte se refere ao aumento da fome e da pobreza no Brasil.

Como verificamos?

O Comprova consultou documentos oficiais do MAPA que regulamentam sobre o consumo humano de fragmentos de arroz e conversou com especialistas em alimentação e agricultura.

Fizemos contato também com a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), para saber mais sobre a venda desse subproduto no país, com a Apas (Associação Paulista de Supermercados) e Abras ( Associação Brasileira de Supermercados).

Além disso, a equipe procurou a empresa Rampinelli – que aparece nas postagens em uma foto que mostra vários sacos de fragmentos comercializados pela marca.

Pelas redes sociais, fizemos contato com os responsáveis pelas postagens verificadas, mas só um deles nos respondeu.

Verificação

O que são fragmentos de arroz

Os conteúdos enganosos indicam que os fragmentos de arroz seriam “restos de comida”.

A Instrução Normativa 6/2009 do MAPA – que define o padrão oficial de classificação do arroz, com os requisitos de identidade e qualidade –, prevê a comercialização dos fragmentos de arroz.

Ele é definido como “o produto constituído de, no mínimo, 90% de grãos quebrados e quirera”, sendo que os grãos quebrados são “o pedaço de grão de arroz descascado e polido que apresentar comprimento inferior às (três quartas) partes do comprimento mínimo da classe que predomina e que ficar retido na peneira de furos circulares de 1,6 mm de diâmetro” e quirera (menor parte do grão quebrado) que é “o fragmento de arroz que vazar na peneira de furos circulares de 1,6 mm de diâmetro”.

Dessa forma, o fragmento de arroz beneficiado é classificado em 4 subgrupos – integral, polido, parboilizado integral e parboilizado polido – e nas 2 categorias: grão quebrado e quirera, como mostra a imagem abaixo, retirada do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal, do MAPA:

 

A pesquisadora em Ciência de Alimentos da Embrapa Arroz & Feijão Priscila Zaczuk Bassinello reforça que os fragmentos de arroz não podem ser considerados “restos” nem “sobras”. “Restos são alimentos que já não podem ser reaproveitados. Quando a gente fala de sobras limpas são os alimentos prontos que não foram distribuídos e dependendo da quantidade podem ser também uma forma de desperdício. Não é o caso de fragmentos de arroz”, explica.

Segundo ela, a ocorrência dos fragmentos é algo normal e ocorre sempre, já que o grão tende a quebrar no processo até chegar na embalagem que vai ao mercado. “Dependendo do tipo de amido que tem no grão ele pode ser mais frágil, depende do manejo, da genética da cultura. Então, essa quebra faz parte de grande parte dos cultivares que temos no mercado e sempre você tem uma porcentagem de quebra. Já se espera, pelo menos, de 30 a 40% de perda com grãos quebrados em qualquer cultivo”, explica.

Carlos Magri Ferreira, agrônomo e analista da Embrapa Arroz e Feijão, afirma que o fragmento de arroz é um subproduto e a origem dele pode ser em função da forma de cultivo, condições climáticas durante o ciclo da cultura, ação física no grão, problemas na secagem ou no beneficiamento. “O grão quebrado reduz o preço do arroz. Dessa forma, pesquisas na área são realizadas para reduzir o aparecimento deste”, explicou.

Os fragmentos são menos lucrativos para os produtores. Priscila afirma que a indústria que compra o arroz e vai empacotar paga o preço em função do rendimento industrial. “Quanto mais quebrados, menos eles pagam por aquele material. No mercado se define a porcentagem aceitável de grãos inteiros, eles falam em, no mínimo, 65% de inteiros do arroz.”

A Rampinelli Alimentos ressaltou que o produto vendido como “fragmento de arroz” é classificado pelo MAPA na categoria “quebrado”, tipo 1 – informações que estão na embalagem.

Segundo a Abiarroz, “a quantidade de fragmento de arroz produzida no Brasil não chega a 10% do total da produção (cerca de 1 milhão de toneladas)”.

Consumo humano

Os posts que estão viralizando indicam que os fragmentos de arroz seriam usados “para compor rações e fazer farinha de arroz” e estariam ligados à “miséria” e à “fome”.

Apesar de serem usados para ração animal e para fazer farinha de arroz, Priscila destaca que não dá para confundir fragmentos com aquilo que é abaixo do padrão e desclassificado para consumo humano.

“Não é apto para consumo humano quando o arroz está em mau estado de conservação, com presença de mofo, odor estranho ou com substâncias nocivas à saúde. Isso tudo não tem relação com o fato de eles serem quebrados. A quebra pode acontecer com qualquer um dos tipos, qualquer classe, porque isso depende de manejo pós-colheita. Não há problema nenhum em se comercializar e consumir um grão de arroz quebrado. Não é considerado um defeito”, explica.

Ferreira destaca que a preferência do consumidor é definida por questões sociais, religiosas, econômicas e culturais e que o brasileiro é exigente e, normalmente, não aceita comprar arroz quebrado. “O padrão médio desejado pelo consumidor brasileiro é pelo arroz longo fino, polido, que, após o cozimento, fique macio, seco e solto. A marca comercial e tipo 1 são fatores predominantes na decisão de compra. Talvez seja o produto que o brasileiro mostre-se mais exigente para servir seja para a família ou convidados”, explica.

Para Priscila, deve-se levar em consideração o mercado para o qual o arroz será vendido. Alguns países valorizam o arroz fragmentado, principalmente na África, em que já é hábito consumir os grãos quebrados. Segundo ela, países africanos têm receitas específicas para esse arroz. Em contraposição, outros mercados só toleram menos de 10% de teor de quebrados no pacote. “A preferência varia e a qualidade pode ser boa para alguns e ruim para outros, depende dos hábitos alimentares daquela cultura. Os fragmentos também podem ser misturados com porcentagens de arroz inteiro em alguns países que aceitam esse tipo de mistura, principalmente importadores de baixa renda”, afirma.

O arroz especial e os fragmentos de arroz representam cerca de 1% do consumo total da cultura no Brasil, segundo a Abiarroz. De acordo com a associação, a maior parte da produção brasileira desse tipo de grão é comercializada para países africanos, onde há o hábito de consumo do arroz quebrado.

Em resposta ao Comprova, a Rampinelli Alimentos disse que o produto chamado de “fragmento de arroz” é indicado para receitas de sopas, minestras e caldos e não é vendido para consumo animal. A empresa fabrica outro produto para a alimentação de cães, comercializado com o nome “Arroz Luppy”, que é feito à base de arroz.

Valor nutricional

Um dos conteúdos enganosos afirma que os fragmentos de arroz tem “valor nutricional reduzido”.

Segundo a nutricionista, professora da área de Tecnologia de Alimentos da Federal de Pernambuco (UFPE) e consultora da Associação Brasileira de Nutrição(Asbran), Viviane Lansky Xavier, os fragmentos de arroz têm o mesmo valor nutricional que os grãos inteiros, sendo que a diferença está na estrutura física.

Na entrevista ao Comprova, para exemplificar, ela disse que comparou os dados dos produtos da marca Rampinelli: o fragmento de arroz polido apresenta 80g de carboidratos e 6g de proteínas por 100g de produto. Já o arroz polido inteiro apresenta o mesmo teor de carboidratos (80g) e 6,6g de proteína por 100g de produto. Ou seja, a variação no teor de proteínas não chega nem a 1g por 100g de produto.

“Há pequenas variações nesses valores entre uma marca e outra, depende de como a empresa fez a informação nutricional que está no rótulo, mas, na comparação, não há tanta diferença assim. Temos que lembrar também que, quando pensamos numa alimentação saudável, o arroz está no grupo de alimentos energéticos, ou seja, aqueles que são as fontes de carboidratos. Quanto ao teor deste nutriente, não há diferença entre os produtos”, explica.

Ela ressalta que é hábito alimentar de se consumir o arroz inteiro, enquanto que o fragmento, historicamente, é destinado a alimentação animal, pois o valor comercial sempre foi menor. “A própria embalagem do fragmento de arroz geralmente indica a forma de consumo: ideal para sopas, canjas etc. É a mesma coisa do milho, tem o inteiro e o quebrado, chamado de quirera também, ou xerém. É usado na alimentação animal, mas também na alimentação humana”, afirma.

Priscila destaca que como o arroz só foi quebrado ele preserva a mesma constituição nutricional do grão que lhe deu origem, mudando apenas a estrutura física. “Ele preserva as mesmas propriedades nutritivas do arroz inteiro. O que pode alterar é a qualidade culinária, que pode tender a empapar mais do que o grão inteiro”, comenta.

Comercialização e governo Bolsonaro

Uma das postagens afirma que “no Brasil de 2021, fragmento de arroz é vendido nos mercados”, como se o produto nunca tivesse sido comercializado antes. A outra diz “eu não sei se vocês tem noção, mas fragmento de arroz não era comercializado”, e afirma que, antes desse ano, o quilo do produto custava R$1. Os dois tuítes são acompanhados de uma foto, que mostra o pacote de 5kg dos “fragmentos de arroz” da marca Rampinelli, sendo vendido a R$15,99 em um supermercado.

As afirmações não procedem. A norma do MAPA sobre a classificação desse subtipo de arroz é de 2009, como já mencionado. “Existe essa classificação normatizada no Ministério da Agricultura. Sempre existiu no Brasil e a classificação existe de longa data, desde a década de 80”, diz Priscila Zaczuk Bassinello.

Já o produto da Rampinelli começou a ser vendido em 2016, bem antes de Jair Bolsonaro se tornar presidente do Brasil. Ao Comprova, a empresa disse que a ideia foi criar um produto voltado para o preparo de caldos e sopas: “o fragmento entra no catálogo de produtos da Rampinelli para agregar ainda mais a diversidade de receitas. Sendo assim, ele NÃO é um substituto dos demais produtos”.

De lá pra cá, as vendas nunca corresponderam a mais de 1,2% das vendas totais da empresa, como mostra a tabela abaixo, enviada ao Comprova:

Além disso, segundo a Rampinelli, não foi percebido nenhum aumento recente nesse volume – e, portanto, nem no consumo.

A Abiarroz disse que, por causa da falta de costume dos brasileiros em consumir o arroz quebrado, ele não é encontrado com facilidade em todos os supermercados. “Nos estados do Sul do país, onde se tem costume de comer caldo, sopa, canja, minestra, especialmente com clima mais frio, é mais facilmente encontrado. A percepção de indústrias que comercializam fragmento de arroz é de que houve queda no consumo deste produto, desde 2016”, afirma a associação.

O Comprova não conseguiu localizar uma média de preços do fragmento de arroz nos últimos anos. A Rampinelli disse que, em comparação com outros produtos, o fragmento realmente é comercializado a um preço mais baixo, mas que “não é responsável pela formação do preço de venda ao varejo, este é o próprio supermercado/atacadista que faz”.

O Comprova também procurou a Apas que disse que possui uma base de dados provenientes de parceiros, como a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), com cerca de 200 produtos. No entanto, o arroz fragmentado não existe nas análises, pois há uma representação ínfima no setor supermercadista do estado de São Paulo. Dessa forma, não há uma base de dados para comparar os preços deste produto.

Procuramos a Associação Brasileira de Supermercados, que disse que não conseguiria atender nossa solicitação.

Já a Abiarroz afirma que o preço do fardo de arroz quebrado geralmente equivale a 24% do valor do arroz polido – que é mais consumido no país. “A alteração de preço é proporcional ao preço do arroz Tipo 1, uma vez que, muitas vezes, sequer se tem a matéria-prima para fragmento de arroz em função da qualidade do arroz brasileiro, que apresenta grande percentual de grãos inteiros”, diz a nota enviada ao Comprova.

O preço médio do arroz mais comumente usado nos lares brasileiros subiu 61% no país, entre maio de 2020 e maio de 2021, durante a pandemia, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV).

O que diz quem publicou o conteúdo

O conteúdo enganoso foi publicado no Twitter pelos usuários @diogotapuio e @astrafito. O post de Diogo ainda foi compartilhado no Instagram pela página “Esquerda Pensante”.

O Comprova tentou contato com os três, mas só Diogo Cabral nos respondeu, dizendo que a postagem está relacionada aos níveis alarmantes de insegurança alimentar no Brasil.

“O tuíte ilustra uma grave situação que temos atravessado no país: a fome”, nos escreveu ele, por mensagem no Instagram. Diogo mencionou ainda os dados de aumento da insegurança alimentar e da desigualdade no país. Não informou, porém, se sabia quando o fragmento de arroz começou a ser comercializado.

De fato, o Brasil uma pesquisa de abril da organização humanitária Oxfam, que atua em todo o mundo, apontou que mais de 19 milhões de brasileiros passaram fome durante a pandemia da covid-19.

Também é verdade, segundo uma pesquisa da FGV, que o número de brasileiros em situação considerada de extrema pobreza — ou seja, vivendo com menos de R$246 mensais — aumentou desde o começo de 2020. Antes da pandemia, em 2019, o índice chegava a 10,97%, mas, com o pagamento do auxílio emergencial mais amplo no ano passado, havia caído, em agosto, para 4,25%. Em fevereiro, com as mudanças no pagamento do benefício, o índice voltou a subir e ultrapassou o período pré-pandêmico, chegando a 12,83% — o que corresponde a 27,2 milhões de pessoas.

Apesar disso, os números não estão relacionados à venda dos fragmentos de arroz em supermercados.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

Os posts verificados nessa checagem atingiram mais de 57 mil interações no Twitter e Instagram e, ainda que a intenção dos autores tenha como base informações verdadeiras – aumento da fome e da pobreza no país –, a venda do fragmento de arroz não tem relação com esse cenário.

Além disso, o conteúdo engana ao indicar que esses produtos não seriam apropriados para consumo humano e ao relacionar a comercialização dos fragmentos como consequência do governo Bolsonaro.

Enganoso é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por:2021-07-23

Site omite que pesquisa com vantagem para Bolsonaro foi feita apenas em SC

  • Enganoso
Enganoso
Título de artigo compartilhado em grupos bolsonaristas no Facebook omite que uma pesquisa eleitoral que apresentou vantagem para o atual presidente foi feita apenas em Santa Catarina. O Estado no Sul do país representa apenas 3,5% do eleitorado brasileiro.
  • Conteúdo verificado: Artigo em site cujo título diz que “Bolsonaro aparece com mais que o dobro que Lula” em nova pesquisa eleitoral.

É enganoso o título de um artigo compartilhado em grupos governistas no Facebook que afirma que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem mais que o dobro de intenções de voto que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A chamada omite que o levantamento foi realizado apenas no Estado de Santa Catarina – que corresponde a 3,5% do eleitorado nacional.

A informação que a pesquisa é estadual aparece apenas no corpo do texto. Mas, como fica evidenciado nos comentários das postagens do link no Facebook, muitas pessoas se confundiram, acreditando se tratar de um levantamento realizado em todo o país.

O Comprova entrou em contato com o site responsável pela publicação, mas não obteve resposta.

Como verificamos?

Consultamos a pesquisa mencionada no artigo, realizada pela empresa Paraná Pesquisas. Verificamos ainda os resultados de outros levantamentos de intenção de voto, feitos pelos institutos Datafolha e Ipec (formado por ex-executivos do Ibope). Procuramos ainda estatísticas de eleitorado do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Tentamos contato com o site News Atual, que publicou o artigo verificado aqui, mas não obtivemos resposta.

Verificação

Resultados da Paraná Pesquisas

O levantamento do Paraná Pesquisas indica que Bolsonaro tem 52% das intenções de voto, contra 24,2% de Lula no Estado de Santa Catarina. Os ex-ministros Ciro Gomes e Luiz Henrique Mandetta aparecem com 3,6% e 2,8%, respectivamente. O governador gaúcho, Eduardo Leite, foi mencionado por 2% dos entrevistados.

Foram ouvidos 1.514 eleitores catarinenses, de 86 municípios, entre os dias 15 e 19 de julho. As perguntas foram feitas por telefone. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

A mesma empresa divulgou uma pesquisa nacional em 16 de junho. Nela, Bolsonaro e Lula aparecem empatados tecnicamente: o primeiro, com 34,3%; o segundo, com 32,5%. O apresentador José Luiz Datena tem 7,5% e Ciro, 5,8%. Depois, vem o governador de São Paulo, João Doria, com 3,4%, e Mandetta, com 3,2%.

Este levantamento teve metodologia diferente: foram ouvidos, presencialmente, 2.040 eleitores de 156 municípios do país. Na região Sul, foram feitas 302 entrevistas, 14,8% do total.

O Paraná Pesquisas publicou recentemente outras pesquisas regionais. Em Maceió, capital do Alagoas, 41,3% disseram preferir Lula, e 28,4% citaram Bolsonaro. Em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, o petista teve 32,6% e o atual presidente, 26,1%. No Estado do Ceará, essas porcentagens foram de 45,9% e 19,4%, respectivamente.

Como são feitas as pesquisas de intenção de voto

O objetivo de uma pesquisa eleitoral é fazer um retrato da opinião da sociedade naquele momento. As pesquisas não antecipam resultados, mas podem apontar tendências. Agora, a mais de um ano para as eleições, é preciso olhar para os números com um olhar crítico.

As pesquisas buscam obter informações sobre o eleitorado a partir de uma amostra – um grupo de pessoas com características de sexo, idade, escolaridade, renda e região em proporções semelhantes ao do restante do país. As amostras do Datafolha, por exemplo, costumam ter entre 2 mil e 2,5 mil entrevistados.

Nas últimas pesquisas divulgadas por Datafolha e Ipec, o percentual de moradores do Sul do Brasil foi de 15%. Isso porque, segundo as estatísticas mais recentes do TSE, 14,7% dos votantes vivem lá – são mais de 21,5 milhões de pessoas.

Santa Catarina é o Estado com menos eleitores no Sul. São 5,1 milhões de votantes, que representam 3,5% do eleitorado nacional.

Na pesquisa Ipec divulgada em junho, 35% dos entrevistados do Sul disseram que votariam em Lula; 29% citaram Bolsonaro. O Datafolha de julho indicou números semelhantes: 35% dos sulistas ouvidos mostraram preferência pelo petista, e 29% pelo atual presidente.

É importante ressaltar que as amostras por região são menores. Como explica o Datafolha em sua página de perguntas e respostas, “quanto menor o tamanho do segmento, maior o erro amostral associado aos resultados nele obtidos. Uma amostra de 2.500 entrevistas, por exemplo, fornece bases razoáveis para leituras por região geográfica, mas não pelos Estados. Se houver necessidade de leitura de resultados para determinado Estado ou cidade, é preciso ampliar a amostra nesta região”.

O site checado

O Comprova entrou em contato com o site News Atual para perguntar por que o título do artigo analisado não deixou claro que a pesquisa em questão foi feita apenas entre catarinenses. Não obtivemos resposta. O site já foi checado em outras duas ocasiões pelo Comprova: em uma verificação que desmentiu que o filho de Lula teria “embolsado” R$ 317 milhões com uma delação e em outra que mostrou que o patrimônio de Marisa Letícia pertencia ao casal Lula da Silva.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

O conteúdo verificado teve mais de 15,6 mil interações no Facebook, sendo 1,3 mil compartilhamentos, de acordo com a ferramenta CrowdTangle.

Conteúdos que questionam a credibilidade de pesquisas científicas e estatísticas sobre eleições são prejudiciais porque ajudam a espalhar acusações de que o sistema e o processo eleitoral brasileiros são fraudulentos. Isso cria um ambiente para questionamento dos resultados das eleições, caso eles não tenham o resultado esperado por determinado grupo político, como vem afirmando constantemente o presidente Jair Bolsonaro. Não houve registro de fraudes em eleições brasileiras desde a adoção das urnas eletrônicas, em 1996.

Recentemente, o Comprova mostrou que um site não indicava quem estava na frente de pesquisas eleitorais e que uma enquete em um programa de TV não indicava a opinião da população.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-07-23

Estudo francês em hamsters não prova eficácia da ivermectina contra a covid-19 em humanos

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a publicação no site Terça Livre que afirma que um estudo francês apontou a eficácia da ivermectina para combater a covid-19. O texto omitiu que o estudo mencionado, realizado pelo Instituto Pasteur da França e publicado na revista EMBO Molecular Medicine no último dia 12, foi feito em hamsters, e não em humanos.
  • Conteúdo verificado: Texto do site Terça Livre afirma que um estudo francês apontou a eficácia da ivermectina contra a covid-19.

É enganosa a publicação no site Terça Livre que afirma que um estudo francês apontou a eficácia da ivermectina para combater a covid-19. O texto omitiu que o estudo mencionado, realizado pelo Instituto Pasteur da França e publicado na revista EMBO Molecular Medicine no último dia 12, foi feito em hamsters, e não em humanos. Estudos publicados até o momento são insuficientes para concluir que a ivermectina seja eficaz contra o novo coronavírus.

O Comprova procurou o Terça Livre por e-mail, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. Após o contato, a publicação do site foi editada para incluir a informação de que o estudo em questão foi feito em hamsters.

Como verificamos?

O Comprova leu o estudo citado na publicação e também a checagem feita pela AFP sobre o assunto. Em seguida, consultou o doutor em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Alison Chaves.

Para a verificação, também foram consultadas outras pesquisas sobre o uso da ivermectina no tratamento da covid-19 e agências reguladoras que falam sobre o medicamento.

Por fim, entramos em contato com o site responsável pelo texto.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 23 de julho de 2021.

Verificação

Estudo

O estudo realizado pelo Instituto Pasteur da França e publicado na revista EMBO Molecular Medicine no último dia 12 mostrou que doses padrão de ivermectina foram capazes de prevenir a deterioração clínica e a perda de olfato, além de limitar a inflamação do trato respiratório superior e inferior em hamsters sírios (também chamados de hamsters dourados) infectados com SARS-CoV-2. Foi concluído que a ivermectina melhorou o resultado clínico nos animais infectados com o vírus e está associada a um estado inflamatório reduzido, mas sem impacto das cargas de SARS-CoV-2 no trato respiratório superior e inferior. Por fim, o estudo afirma que traz a prova de conceito de que uma terapia imunomoduladora baseada em ivermectina melhora a condição clínica de hamsters infectados com SARS-CoV-2 e, em ensaios clínicos, aliviaria os sintomas da covid-19 em humanos.

Em nota à imprensa, o Instituto Pasteur informou que os pesquisadores demonstraram que ‘’a ivermectina, uma molécula comercializada como um tratamento antiparasitário, protege contra os sintomas da Covid-19 em um modelo animal’’. O Instituto Pasteur informou à AFP, parceira do Comprova, que esses resultados foram obtidos como parte de um estudo pré-clínico.

Para o doutor em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Alison Chaves, o estudo não é mal feito, apenas exagera as conclusões. Ele chama atenção para o relato de redução da resposta a interferon nos hamsters do estudo. Os interferons são glicoproteínas produzidas naturalmente no organismo e têm propriedades antivirais. ‘’Isso não é bom e gera mais dúvidas do que certezas, pois o interferon é uma das principais citocinas antivirais que nosso sistema imunológico produz. Há publicações sugerindo que a deficiência de interferon está associada a quadros mais severos da doença e há muitos estudos sugerindo interferon como intervenção para a doença”, observa.

Chaves ainda aponta que o modelo animal pode ter uma quantidade muito maior da citocina se comparado a humanos. ‘’Não conheço a fundo os modelos inflamatórios em hamster, mas camundongos, por exemplo, produzem uma enxurrada de interferon. Esta foi uma das limitações na época dos estudos com zika vírus. Os animais não desenvolviam a doença pelo excesso de interferon inerente ao modelo. Isso foi resolvido gerando camundongos geneticamente modificados para expressar menos interferon’’.

O Comprova tentou entrar em contato por e-mail com o pesquisador do Instituto Pasteur Guilherme Dias de Melo, um dos responsáveis pelo estudo, mas não obteve retorno.

O resultado em hamsters significa que será igual em humanos?

Julival Ribeiro, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explicou à AFP que “todo estudo sobre qualquer droga tem fases pré-clínica e clínica até que fique comprovado por meio de estudos clínicos randomizados, duplo-cego, que esse medicamento combate determinada doença”.

‘’A Sociedade Americana de Infectologia e outras sociedades do mundo afirmam que a ivermectina só poderá ser usada quando sua eficácia for comprovada em estudos clínicos. Até agora não está demonstrada a eficácia da ivermectina para tratar covid-19 em seres humanos”, acrescentou Ribeiro. Ele alertou ainda que após testar uma droga em animais, jamais se pode extrapolar o resultado para seres humanos.

Alison Chaves também aponta que não é possível usar o estudo para embasar qualquer conduta clínica: ‘’Trata-se de um estudo em modelo animal. Por isso não se pode extrapolar esses dados para clínica, como fizeram os autores, tanto ao sugerir melhora clínica (termo inapropriado para modelos animais) quanto ao sugerir que a droga poderia ser usada na clínica para covid-19, considerando estes resultados.”

Estudos com ivermectina não comprovaram eficácia contra covid-19

Embora não exista comprovação científica de que a ivermectina seja eficaz contra a covid-19, o Terça Livre citou outros quatro estudos que supostamente indicariam a eficácia do medicamento. Ao Comprova, o doutor em Microbiologia e Imunologia Alison Chaves analisou cada um deles.

O primeiro é um estudo australiano de junho de 2020. ‘’O estudo australiano aponta o caminho inverso do estudo do Instituto Pasteur. Nesse estudo, a ivermectina reduz a carga viral in vitro. No estudo francês in vivo, não há redução importante da carga viral e os autores sugerem que o caminho é outro (imunomodulação). Estudos in vitro são apenas screening de drogas, não servem para embasar condutas clínicas’’, analisa Chaves.

Outros dois estudos mencionados pelo site são metanálises. Nesses casos, diferentes estudos sobre um mesmo assunto são agrupados e, então, os resultados são comparados. ‘’O estudo da Indonésia é uma metanálise cujas conclusões dependem fortemente de estudos mal feitos e, descoberto mais recentemente, fraudados’’, diz Chaves. Em junho deste ano, ele publicou um artigo na Revista Questão de Ciência sobre como essas metanálises de ivermectina são compostas por estudos suspeitos. “Observe que o estudo de Oxford é outra metanálise que usa exatamente os mesmos estudos problemáticos. Especial atenção para o estudo de Elgazzar em ambas metanálises’’, completa. O Comprova também já publicou uma verificação mostrando que a metanálise publicada no Open Forum Infectious Diseases em julho é insuficiente para apontar a eficácia da ivermectina contra a covid-19.

Já o quarto e último estudo citado, publicado no Chest Journal, é finalmente um estudo clínico. ‘’No entanto, é de baixa qualidade de evidência. O estudo é retrospectivo, não foi controlado em nenhum aspecto. Em síntese, agrupando todos estes estudos, não há contribuição alguma para se reduzir as incertezas sobre eficácia do tratamento proposto. Neste caso, não se pode concluir nada sobre a droga. Uma conclusão negativa seria de qualidade duvidosa pelas mesmas razões já mencionadas’’, conclui.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda que a ivermectina seja usada contra a covid-19, exceto em ensaios clínicos, devido à falta de evidências que comprovem seus benefícios contra a doença. A Agência Europeia de Medicamentos e a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, compartilham o mesmo posicionamento. No Brasil, a Anvisa também reconhece que não existem estudos conclusivos que comprovem o uso do medicamento para o tratamento da covid-19.

Quem postou

O Terça Livre pertence a Allan dos Santos, investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no inquérito das fake news. O Google removeu o canal no YouTube do site após decisão judicial favorável à multinacional. Em fevereiro o canal já havia sido derrubado por violar diretrizes da plataforma, mas uma liminar conseguiu permitir o retorno do perfil. O Comprova procurou o Terça Livre por e-mail, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. Após o contato, o texto do site foi editado e a informação de que o estudo em questão foi feito em hamsters foi incluída.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia, processo eleitoral ou políticas públicas do governo federal. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. A publicação verificada aqui teve mais de 4 mil interações no Facebook.

A checagem de conteúdos envolvendo informações sobre supostos tratamentos para a covid-19 é importante, pois a desinformação pode colocar a saúde das pessoas em risco.

A mesma publicação foi verificada pela AFP Checamos na última terça-feira (20).

Postagens sobre a ivermectina já foram verificadas pelo Comprova, mostrando que a metanálise publicada no Open Forum Infectious Diseases é insuficiente para apontar a eficácia da ivermectina contra a covid-19, que é enganoso que a Universidade de Oxford tenha encontrado ‘fortes indícios’ da eficácia do medicamento contra a covid e outra que mostra que a ivermectina em altas doses pode causar até convulsão.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

 

 

Pandemia

Investigado por:2021-07-22

Exame sorológico não prova que vacinas deixam de proteger

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso vídeo publicado no Facebook e Twitter no qual um médico afirma que o diagnóstico negativo de um exame sorológico que fez provaria que a Coronavac não gera imunidade contra a covid-19. Especialistas ouvidos pelo Comprova explicam que o exame não é capaz de medir o nível de proteção garantida por vacinas, pois mede apenas a quantidade de anticorpos neutralizantes, que representam só parte do sistema imunológico humano.
  • Conteúdo verificado: Em um vídeo publicado nas redes sociais, o médico Delano Santiago Pacheco diz que foi imunizado com duas doses da Coronavac. Porém, ao fazer dois testes sorológicos não teria apresentado anticorpos neutralizantes suficientes contra o Sars-CoV-2. Ele conclui que a vacina não serviu para ele.

Médico engana ao associar o resultado de um teste de anticorpos neutralizantes à eficácia da vacina Coronavac. Os anticorpos só são uma das defesas ativadas após uma imunização e também não se sabe qual a quantidade necessária deles para garantir uma proteção.

Tanto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quanto a Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm) não aconselham a realização desse tipo de exame após a vacinação por esses dois motivos.

Conforme explicado pela imunologista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), Anna Castelo Branco, esse tipo de teste só serve para saber se a pessoa teve contato com o vírus, o que não assegura que ela tenha ou não imunidade contra a doença.

O vídeo foi removido das redes sociais dele, mas circula em outros perfis, como o da ex-deputada federal pelo PTB do Rio de Janeiro Cristiane Brasil. Em outra publicação, do mesmo médico, ele admite que os anticorpos não são a única forma de defesa contra o vírus produzida após a vacinação.

Como verificamos?

O primeiro passo feito pelo Comprova foi procurar saber quem era o médico que falava no vídeo. Com isso, fomos tentar entender que teste ele tinha feito, o que esse exame mede e se ele serve para apontar a eficácia de uma vacina. Para isso, além das notas técnicas divulgadas pela Anvisa e pela SBIm, consultamos a imunologista do ICB-USP Anna Castelo Branco.

Também tentamos entrar em contato com Delano, responsável pelo vídeo, pelo e-mail disponível no site da Câmara Municipal de Divinópolis (MG), onde ele é suplente, e pelo número de WhastApp divulgado em sua página do Facebook, mas até o fechamento dessa checagem, não obtivemos retorno. Além disso, tentamos falar com a ex-deputada federal pelo PTB do Rio de Janeiro Cristiane Brasil pelo Facebook.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 22 de julho de 2021.

Verificação

Testes sorológicos não são capazes de medir eficácia de uma vacina

Existem dois tipos de testes sorológicos para a covid-19 disponíveis no mercado. Esses exames servem para medir se a pessoa tem anticorpos contra o vírus. O mais simples deles mede se a pessoa tem anticorpos de memória, o IgG – nesse caso só se sabe se a pessoa teve contato com o vírus. O segundo tipo de teste é um pouco mais detalhista. Ele mede se a pessoa tem os chamados anticorpos neutralizantes, que servem para impedir a entrada do vírus na célula. Não fica claro no vídeo exatamente qual o teste que o médico fez, mas ao que parece ele fez um exame de anticorpos neutralizantes.

O problema desse exame é que ainda não há estudos que demonstrem qual a quantidade de anticorpos neutralizantes necessária para impedir uma infecção. De acordo com explicação do site do Laboratório Exame, a única indicação do teste é para quem deseja saber se já teve contato com o vírus da covid-19.

Segundo a imunologista Anna Castelo Branco, nenhum teste sorológico disponível no mercado tem a capacidade de medir a eficácia de uma vacina. “Ainda não foi estabelecida qual é exatamente a necessidade de anticorpos que são necessários para bloquear a entrada do vírus na célula”, destaca Anna.

Além disso, ela lembra que os anticorpos neutralizantes são só uma das defesas ativadas pela vacina. Para as outras não há testes capazes de fazer a medição. “O segundo ponto é que o sistema imunológico é treinado em várias frentes diferentes, como se fosse um exército composto por vários batalhões. O anticorpo é só um desses batalhões, mas a gente tem a imunidade inata, que é primeira linha de defesa, e a adaptativa”, ressalta.

O próprio médico, autor do vídeo, fez essa explicação em outra postagem após a repercussão da primeira. No novo vídeo, ele adota um tom diferente e, apesar de não desmentir o primeiro, diz que o teste sozinho não é capaz de determinar que uma pessoa não está imune. Ele afirma que, além dos anticorpos, existem outras defesas que são ativadas com a vacina, mas que não há como medi-las.

Anna Castelo Branco explica que o médico usa conceitos corretos, mas ele erra ao dizer que a vacina não foi capaz de protegê-lo, já que a defesa não é feita somente pelos anticorpos. “Ele é muito enfático em dizer que não está protegido e isso não é verdade. Ele pega uma única informação e tira uma conclusão clínica. Esse dado isolado de uma única pessoa não representa nada quando a gente fala de eficácia de uma vacina. O que é mais real são os ensaios clínicos que são feitos em várias pessoas. E a Coronavac tem alta efetividade, principalmente no que é prioridade, que são os casos graves e mortes”, destaca.

Uma análise da resposta imunológica provocada pelas diferentes vacinas em uso, publicada na revista científica Nature em julho, apontou que as respostas apresentadas têm sido diferentes e que ainda não há como saber qual dessas defesas é mais eficaz contra a covid-19. Os autores concluem que estudos futuros devem ser feitos analisando as pessoas que se infectaram mesmo estando vacinadas. “Análises abrangentes e cuidadosas de todos os dados imunológicos, comparando as respostas pós-vacina iniciais em indivíduos que foram infectados após a vacinação com aqueles que não foram, acabarão por fornecer uma resposta.”

Com a repercussão do vídeo, a Secretaria de Saúde de Divinópolis (Semusa) emitiu uma nota pública em que contesta a fala do médico. Na publicação, o órgão apresenta orientações da Anvisa e da SBIm que desaconselham o uso de testes sorológicos após a vacinação.

Segundo a SBIm, em nota técnica de março deste ano, testes sorológicos não são recomendados após a vacinação por não terem a capacidade de medir de forma correta se a pessoa está imunizada. “A complexidade da imunidade pós-vacinal ou mesmo após doença natural, no entanto, não corrobora a realização dos testes, pois os resultados não traduzem a situação individual de proteção”, afirma.

A instituição lembra ainda a fragilidade do método, já que a imunização não é formada apenas por anticorpos. “A complexidade que envolve a proteção contra a doença torna desaconselhável a dosagem de anticorpos neutralizantes com o intuito de se estabelecer um correlato de proteção clínica, pois certamente não se avalia a proteção desenvolvida após vacinação apenas por testes laboratoriais ‘in vitro’ através da dosagem de anticorpos neutralizantes”, destaca.

Em nota técnica, a Anvisa também se manifestou contra a realização dos exames. A agência destaca que, para que esses testes pudessem ser de alguma forma utilizados, seria indispensável saber a quantidade de anticorpos que são necessários para neutralizar o vírus. “Assegurar a proteção ao vírus, seja pela imunidade adquirida após uma infecção ou desenvolvida após a vacinação, requer estudos que verifiquem a quantidade de anticorpos necessária para a efetividade da proteção. A avaliação por quanto tempo estes anticorpos ficam viáveis no organismo e que seja verificado também a sua funcionalidade, isto é, a sua capacidade de neutralização. As informações quanto à proteção ao Sars-CoV-2 ainda não foram estabelecidas pela ciência”, diz. “Independentemente do resultado de um ensaio sorológico, devem ser seguidas as orientações e cuidados quanto ao distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos”, completa.

O mesmo entendimento foi destacado pelo Instituto Butantan, fabricante da Coronavac no Brasil. “Testes sorológicos não servem para avaliar se alguém está protegido ou não contra a covid-19. Os testes de anticorpos detectam a presença de anticorpos em determinado momento, sendo úteis apenas para identificar pessoas que foram expostas ao vírus, não para garantir se alguém está protegido ou não contra a doença. Mesmo a Anvisa recomenda não utilizar estes testes para avaliar a proteção”, explicou em post no Instagram.

O que se sabe sobre a eficácia da Coronavac

A Coronavac foi aprovada para uso emergencial no Brasil pela Anvisa em janeiro de 2021 e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em junho. A vacina teve uma eficácia global de 50,38% na fase três dos testes clínicos no Brasil.

Além dos testes clínicos, um estudo feito pelo Instituto Butantan na cidade de Serrana, no interior de São Paulo, vacinou cerca de 75% da população adulta e constatou queda de 80% nos casos sintomáticos de covid e de 86% nas internações, além da redução de mortes em 95%.

Outra pesquisa, feita no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, apontou queda de 80% nos casos de covid-19 entre os 22 mil funcionários vacinados com a Coronavac.

Quem é Delano Santiago Pacheco?

O médico se formou em medicina pela Unigranrio, no Rio de Janeiro, e é pós-graduado em dermatologia pelo Centro de Medicina Especializada, Pesquisa e Ensino (Cemepe). Ele foi eleito vereador de Divinópolis em 2012, pelo PRTB, e reeleito em 2016, pelo MDB. Também foi candidato em 2020, mas ficou como suplente. Delano é clínico geral e dermatologista. Ele atende em uma clínica própria em Divinópolis e no Hospital Bom Pastor.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre a pandemia e sobre políticas públicas do governo federal. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

Conteúdos sobre vacinas ou tratamentos contra a covid-19 são ainda mais necessários, já que podem induzir a população a recusar medidas de prevenção, como as vacinas, e se expor a riscos durante a pandemia. O conteúdo verificado aqui teve 8,2 mil visualizações e mil interações no Facebook. Já no Twitter, foram mais de 3,1 mil visualizações e 300 curtidas.

O Comprova já mostrou que o Diagnóstico positivo de Doria não indica ineficácia da Coronavac, que a Infecção de Rodrigo Faro não prova ineficácia da vacina contra a covid-19, que as vacinas usadas no Brasil passaram por testes de segurança e eficácia; que são enganosas as postagens afirmando que quem tomou CoronaVac se protegeu pela metade; que um imunizante não precisa ser estudado por dez anos para ser seguro; e que a OMS não recomendou a aplicação de uma terceira dose da CoronaVac.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda aquele que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-07-22

Post engana ao desacreditar eficácia das vacinas contra a covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Post sobre a covid-19 engana ao afirmar que "não há nenhuma lógica" em se vacinar uma vez que pessoas imunizadas podem, como as não protegidas, transmitir o vírus. A publicação vai na contramão do que afirmam órgãos como Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde, segundo os quais a vacinação é uma das principais ferramentas para conter a pandemia.
  • Conteúdo verificado: Publicação no Instagram que tenta colocar em xeque a eficácia dos imunizantes contra a covid-19 ao afirmar que tanto pessoas vacinadas quanto não vacinadas podem transmitir o coronavírus.

É enganosa a publicação que viralizou no Instagram comparando pessoas vacinadas com não imunizadas para insinuar que a proteção não é eficaz contra o novo coronavírus. A imagem do post traz a inscrição “Os não vacinados podem pegar covid e podem transmitir covid; os vacinados podem pegar covid, podem transmitir covid, mas estão vacinados” e, na legenda, “A irracionalidade sem nenhuma lógica…pare e pense”.

O post acerta ao dizer que a vacina não impede que a pessoa se infecte com o Sars-CoV-2, mas ele desinforma ao não esclarecer que elas reduzem os riscos de desenvolvimento de formas graves da doença e óbitos.

Uma das evidências disso é o estudo de efetividade conduzido pelo Instituto Butantan na cidade de Serrana, no interior paulista. Foi observada queda de 80% nos casos sintomáticos da doença, 86% nas internações e 95% nas mortes após 75% da população adulta ser imunizada.

Diferentemente do que o post afirma, tomar uma das vacinas em uso no Brasil não é um ato irracional. Pelo contrário: estudos clínicos realizados com milhares de voluntários, usados como base para liberação do uso dos imunizantes no país, comprovaram que as vacinas contra a covid, são, sim, além de seguras, eficazes. E, por enquanto, de acordo com órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério da Saúde, são a “abordagem farmacológica mais promissora” para conter a circulação do vírus.

A reportagem tentou falar com o perfil que publicou o post, @mulherdireitaconvervadora, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Como verificamos?

Inicialmente, a equipe buscou reportagens sobre a relação entre pessoas imunizadas e a transmissão da doença e também sobre estudos ligados à campanha de vacinação.

Também pesquisou informações em sites como os do Ministério da Saúde e da OMS e utilizou uma verificação recente feita pelo Comprova, sobre como o diagnóstico positivo do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), não indicava a ineficácia da Coronavac.

Além disso, a reportagem entrevistou por telefone o epidemiologista e professor do curso de Saúde Pública da Universidade de Brasília (UnB) Walter Ramalho e tentou falar, via mensagem privada no Instagram, com o perfil que fez a publicação, mas não houve resposta.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 22 de julho de 2021.

Verificação

Transmissão

O post verificado aqui afirma que “os vacinados podem transmitir a covid”. Esse dado é verdadeiro, já que nenhum imunizante é 100% eficaz contra qualquer doença. Mas, diferentemente do que a publicação faz crer, isso não significa que se vacinar é um ato de “irracionalidade”.

No caso do coronavírus, já está comprovado que as vacinas em uso no Brasil reduzem os riscos de que a pessoa infectada desenvolva formas mais graves da doença ou mesmo que ela morra.

Foi o que evidenciou um estudo do Instituto Butantan realizado em Serrana, no interior paulista. Com 75% da população adulta totalmente vacinada (com duas doses da Coronavac), os pesquisadores já conseguiram observar uma queda importante entre os novos casos sintomáticos da doença e de hospitalizações. Quando 95% estavam imunizados, a cidade viu as mortes caírem em 95%.

Consultado pelo Comprova, o epidemiologista Walter Ramalho explica que é possível perceber uma diminuição no período de transmissão pelas pessoas vacinadas que foram contaminadas pelo novo coronavírus. “Quando uma pessoa imunizada contra a covid-19 entra em contato com o vírus, ela vai ter uma resposta imunológica mais rápida da doença. Vai transmitir, mas o período de transmissão é bem menor em relação às pessoas não vacinadas”, ressalta.

Pesquisas

Outras pesquisas também revelam um impacto positivo da imunização contra a covid-19 em relação às internações em UTI e mortes em níveis nacionais. O Boletim Extraordinário do Observatório Covid-19/Fiocruz, divulgado em 14 de julho pela Fundação Oswaldo Cruz, aponta uma melhora no índice de ocupação dos leitos de UTI. Segundo o documento, entre 4 e 10 de julho, nenhuma unidade da federação apresentou taxa de ocupação superior a 90%. Um cenário visto pela primeira vez desde o início de dezembro de 2020. O estudo também registra uma queda de 2% ao dia no número de casos e óbitos pelo novo coronavírus. A vacinação no Brasil iniciou em 17 de janeiro de 2021.

Essa tendência também foi observada em pesquisa realizada em parceria com o Ministério da Saúde, com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e com a Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Os pesquisadores analisaram o cenário epidemiológico entre 3 de janeiro a 27 de maio, e identificaram uma redução significativa de mortes pela covid-19 entre brasileiros com mais de 70 anos – população com maior cobertura vacinal no momento.

Eficácia

Como mostrado em verificação recente do Comprova, a Coronavac apresentou eficácia global de 50,38% – o número representa a proporção de pessoas que não foram infectadas após tomarem a vacina.

Já o imunizante da AstraZeneca apresentou eficácia de 70%; o da Pfizer, 95% sete dias após a segunda dose, de acordo com a bula; e, o da Janssen, de dose única, 66%.

No entanto, pesquisas podem apresentar resultados distintos umas das outras por diversos aspectos, que incluem o perfil da população, idade e diferentes respostas imunológicas de cada organismo. É exatamente por isso que não tem como comparar uma vacina com a outra.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ressalta que todas as vacinas analisadas e autorizadas pelo órgão são seguras e possuem perfis de eficácia definidos por estudos desenvolvidos e ainda em andamento. “É importante destacar que estas são vacinas novas e que por isso seguem em monitoramento”, salientou em nota.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições ou a pandemia que tenham atingido alto grau de viralização. O post verificado aqui atingiu mais de 3,7 mil interações até 22 de julho.

A checagem de conteúdos envolvendo informações sobre a vacina é importante, pois a desinformação pode colocar a saúde das pessoas em risco. Como citado acima, ao contrário do que o post faz crer, a imunização é uma das principais formas para conter a pandemia.

O Comprova já desmentiu outras afirmações equivocadas sobre imunização, como a que usava a infecção do apresentador Rodrigo Faro para questionar a eficácia da vacina, a que desinformava ao falar da validade das doses da vacina Janssen doadas ao Brasil pelos Estados Unidos e a que enganava ao dizer que quem tomou Coronavac se protegeu pela metade.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-07-22

Estudo compartilhado por Damares não atribui suicídios de crianças a isolamento na pandemia

  • Enganoso
Enganoso
Ministra compartilhou conteúdo enviesado de um site. O estudo original, que ainda não foi revisado por outros pesquisadores ou publicado em revistas científicas, analisa apenas o risco de morte de crianças e adolescentes por covid-19 na Inglaterra, e não as taxas de suicídio.
  • Conteúdo verificado: A ministra Damares Alves divulgou link para um texto alegando que “cinco vezes mais crianças morreram por suicídio no confinamento do que por covid-19”, supostamente baseado em uma pesquisa do Reino Unido. Na legenda do post, defende a reabertura das escolas.

São enganosas as análises que o site Epoch Times e a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, fazem acerca de um estudo que analisa dados sobre mortes de crianças e adolescentes por covid-19 na Inglaterra. Os pesquisadores não analisaram as taxas de suicídio. Não é correto, portanto, atribuir o número de casos a medidas de isolamento, como sugere a postagem.

Tanto o site quanto a ministra associam o número de suicídios entre menores de 18 anos na Inglaterra, citado no levantamento, ao fechamento de escolas e ao distanciamento social. O dado, entretanto, aparece no documento apenas como comparativo com o número de crianças e adolescentes mortos em decorrência da covid-19. Os autores não analisam se houve aumento ou diminuição destes casos em tempos de lockdown. Em junho deste ano, entretanto, o órgão britânico National Child Mortality Database (NCMD) compartilhou em sua página artigo concluindo haver poucos indícios de que tenha havido mortalidade excessiva entre crianças e adolescentes durante o período de lockdown no país.

O Comprova conversou por e-mail com um dos pesquisadores para saber se é correto atribuir os casos de suicídio a medidas de isolamento na pandemia. David Odd, professor da Escola de Medicina da Universidade de Cardiff, respondeu que investigou essa questão em uma outra pesquisa, ainda não publicada, concluindo que “não foram encontradas evidências concretas de que a morte de crianças por suicídio tenha aumentado durante a pandemia de covid-19 na Inglaterra”.

O Comprova procurou Damares Alves e o site que publicou o conteúdo distorcendo a pesquisa britânica. A assessoria da ministra não respondeu aos questionamentos. O site não recebeu a mensagem enviada pelo endereço de contato informado.

Como verificamos?

O Comprova consultou a viralização do conteúdo utilizando a ferramenta CrowdTangle e analisou o estudo original citado na publicação compartilhada pela ministra Damares Alves, buscando também na imprensa reportagens que tivessem feito a divulgação dos resultados.

Em seguida, buscou dados do Serviço Nacional de Saúde (NHS) britânico e do National Child Mortality Database (NCMD) para consultar informações sobre os suicídios entre crianças e adolescentes em anos anteriores ao início da pandemia. Também consultou pesquisas específicas sobre o tema, relacionadas de fato ao isolamento social.

Os verificadores pediram ao psicólogo Caio Maximino de Oliveira, doutor em Neurociências e Biologia Celular e professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), que fizesse uma análise do estudo.

Os autores da pesquisa britânica foram procurados por endereços de e-mail que constam nas páginas de suas universidades. David Odd, da Universidade de Cardiff, foi o único que respondeu até a publicação desta checagem.

Por meio de relatórios e reportagens, foi pesquisada a forma como ocorreu o fechamento das escolas na Inglaterra. Por fim, tentou-se contato com o veículo que publicou o conteúdo e com a assessoria da ministra.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 22 de julho de 2021.

Verificação

Estudo

O estudo “Deaths in Children and Young People in England following SARS-CoV-2 infection during the first pandemic year: a national study using linked mandatory child death reporting data” foi divulgado na primeira semana de julho nas plataformas Research Square e medRxiv.

Esses sites funcionam como repositórios de preprints, ou seja, de versões preliminares de um manuscrito não revisado por outros cientistas. As duas plataformas, inclusive, alertam que o estudo não deve ser absorvido como informação estabelecida, nem utilizado para orientar a prática clínica.

As análises de dados de saúde pública foram conduzidas por pesquisadores britânicos. O grupo de menores de 18 anos que morreu de SARS-CoV-2 na Inglaterra foi comparado ao mesmo grupo que morreu de todas as outras causas usando estatísticas resumidas, e as diferenças entre os grupos foram comparadas.

O estudo concluiu que 25 pessoas menores de 18 anos, ou seja, crianças e adolescentes, morreram de SARS-CoV-2 durante o primeiro ano de pandemia, o equivalente a uma taxa de mortalidade de duas a cada milhão. No Brasil, o resultado foi divulgado pela Revista Crescer.

A maioria dos mortos tinha uma comorbidade subjacente, principalmente neurodeficiências e condições limitantes de vida, e eram de etnias asiática e negra.

Os pesquisadores afirmam ter usado um conjunto de dados de mortalidade nacional exclusivo vinculado aos dados do NHS — sigla em inglês para Serviço Nacional de Saúde —, além de informações do Banco de Dados Nacional de Mortalidade Infantil (NCMD).

Em meio a essas informações, os autores apontam que o SARS-CoV-2 contribuiu com 0,8% das 3.105 mortes registradas entre crianças e adolescentes entre março de 2020 e fevereiro de 2021. É neste ponto do estudo em que são citadas as mortes por suicídio (124) e as mortes por trauma (268), como exemplos para enfatizar que a covid-19 raramente é fatal entre menores de 18 anos naquele país.

Fonte: Deaths in Children and Young People in England following SARS-CoV-2 infection during the first pandemic year: a national study using linked mandatory child death reporting data

Os pesquisadores apontam que, no período entre março de 2020 e fevereiro de 2021, dentre as 3.105 mortes registradas entre crianças e adolescentes, 61 testaram positivo para a covid-19 — 5 mortes a cada 30 dias. Os casos detectados foram revisados, identificando que a doença havia contribuído para a morte de 25 jovens (41%) — duas mortes a cada 30 dias.

Dentre os 25 casos, 22 mortes se deram por covid-19 aguda e três por Síndrome Multissistêmica Inflamatória Pediátrica e Adolescência, uma reação inflamatória grave que acomete crianças e está relacionada ao novo coronavírus.

O psicólogo Caio Maximino de Oliveira, doutor em Neurociências e Biologia Celular e professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), faz algumas ressalvas em relação ao estudo. Ele destaca que passar pela revisão por pares é o padrão básico para avaliar a qualidade de artigo científico, o que ainda não ocorreu nesse caso.

Afirma, também, que o método utilizado pelos autores para calcular o risco não é ideal. “O risco de morte ou de internação foi calculado com base em toda a população de crianças e adolescentes do Reino Unido, e não em relação à população de crianças e adolescentes que pegaram covid-19”, explica Oliveira.

“Só posso saber a mortalidade ou o risco de uma doença causar algum evento grave que leve à internação se analisar quem pegou a doença, e não quem não pegou. A norma, na literatura epidemiológica, é analisar desse jeito, e não da forma como os autores fizeram. Os resultados, portanto, não querem dizer nada”, avalia.

O pesquisador destaca que o estudo original não trata sobre suicídio, cujos dados foram utilizados para comparação na contextualização. “Com certeza, se esse artigo for publicado, isso vai ser retirado da versão final. Eles não fazem inferência estatística sobre isso.”

Suicídios

O suicídio é citado apenas uma vez no estudo, para efeito de comparação em números de mortes em menores de 18 anos. Em determinado trecho, na discussão, os pesquisadores dizem que o “risco de remoção das crianças e adolescentes de suas atividades normais em eventos educacionais e sociais pode ser um risco maior do que o próprio SARS-CoV-2”. A menção, entretanto, é desacompanhada de qualquer dado científico que comprove ou sustente a ideia.

O Comprova buscou as mesmas bases de dados citadas nas referências dos estudos: o Serviço Nacional de Saúde (NHS) e o National Child Mortality Database (NCMD), um sistema que passou a registrar todos as mortes em menores de 18 anos desde abril de 2019, incluindo dados demográficos e clínicos dos eventos que levaram ao óbito.

Foram localizados relatórios a partir do ano terminado em março de 2018. De acordo com o documento “Revisões da morte infantil: ano terminado em 31 de março de 2018”, publicado pelo NHS, foram registradas 190 mortes por suicídio, dano autoinfligido ou aparente suicídio em menores de 18 anos no período.

O mesmo órgão de saúde do Reino Unido publicou, no ano seguinte, o documento “Revisões da Morte Infantil: Ano que Termina em 31 de março de 2019”, que somou 195 mortes de crianças e adolescentes pelas mesmas causas.

 

Após este ano, os relatórios passaram a ser confeccionados pelo NCMD, que publicou os “Dados de Revisão de Mortalidade Infantil: Ano Encerrado em 31 de março de 2020”. O documento contabiliza 213 mortes por suicídio, dano autoinfligido, aparente suicídio ou automutilação.

Este é o último relatório público localizado. Desta forma, o Comprova não teve acesso ao relatório onde constam as 124 mortes por suicídio informadas pelo estudo entre os meses de março de 2020 e fevereiro de 2021.

Em 25 de junho de 2021, o órgão compartilhou o artigo “Mortalidade infantil na Inglaterra durante a pandemia COVID-19”, que concluiu haver poucos indícios de que tenha havido mortalidade excessiva durante o período de lockdown no país. O estudo destaca que os dados utilizados foram coletados junto ao NCMD e que não estão disponíveis publicamente.

Este levantamento aponta terem sido registradas 1.550 mortes de crianças entre 6 de janeiro e 28 de junho de 2020. Destas, diz, 437 das mortes foram ligadas aos registros de virologia do SARS-CoV-2 e 25 (5,7%) e tiveram um resultado de PCR positivo.

As taxas de mortalidade por todas as causas durante o lockdown, no período analisado, foram semelhantes na comparação com as registradas no período de 2019. Conforme a conclusão deste estudo, são poucos os indícios de que tenha havido mortalidade excessiva durante o período de isolamento social.

Outro estudo, publicado na revista The Lancet Regional Health Europe, em abril deste ano, comparou o número de suicídios na população em geral da Inglaterra — não apenas crianças e adolescentes — entre abril e outubro de 2020 com janeiro a março do mesmo ano. O objetivo foi analisar os indicadores antes e depois do primeiro lockdown no país.

“Não observamos um crescimento nas taxas de suicídio na Inglaterra nos meses posteriores ao primeiro lockdown nacional de 2020, apesar das evidências de maior angústia na população”, apontam os autores, que destacam algumas limitações do estudo, como o fato de a pesquisa se concentrar em um período inicial da pandemia e não focar em características populacionais e geográficas.

Em resposta ao Comprova, o pesquisador da Universidade de Cardiff, David Odd, um dos autores do estudo britânico, encaminhou uma outra pesquisa divulgada na plataforma medRxiv que analisou de fato a incidência de suicídios de crianças e adolescentes na pandemia. Esse preprint afirma que foram encontrados 193 prováveis suicídios de jovens com menos de 18 anos na Inglaterra entre abril e dezembro de 2020, mas que aparentemente não houve aumento de casos do tipo durante a pandemia.

A preocupação com a saúde mental das pessoas, principalmente adolescentes, durante a pandemia, entretanto, existe. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, por exemplo, apontam que o número de tentativas de suicídio nessa faixa etária aumentou, de acordo com reportagem da rede CNBC.

A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) também emitiu um alerta, em setembro do ano passado, afirmando que a emergência de saúde pode aumentar os fatores de risco para o suicídio, como ansiedade e depressão. E esse tipo de problema pode também estar entre as sequelas da doença, de acordo com pesquisas.

A maioria das análises científicas, no entanto, sugere que essa possível alta nos suicídios pode se tratar de uma visão um tanto alarmista. Um artigo recente da revista científica Asian Journal of Psychiatric, por exemplo, sustenta que “a maioria dos estudos abrangentes baseados em dados apresentam uma redução modesta nas taxas de suicídio totais, enquanto o restante não relatou aumentos significativos durante o primeiro ano da pandemia de covid-19”.

Outros estudos publicados em revistas científicas importantes também não identificaram alterações relevantes no número de casos registrados.

Escolas do Reino Unido não ficaram o tempo todo fechadas

De acordo com um relatório do Parlamento Britânico, a maioria das escolas do Reino Unido foi fechada em 23 de março de 2020, data do primeiro lockdown. Apenas algumas crianças sob responsabilidade de trabalhadores essenciais, que não tinham com quem deixar os filhos para trabalhar, foram admitidas.

Ainda em maio do ano passado, o primeiro-ministro, Boris Johnson, anunciou uma retomada gradual do ensino presencial para algumas faixas etárias prioritárias do ensino primário, com reabertura parcial a partir de 1º de junho. Mas a chegada dos alunos na maioria das escolas aconteceu mesmo apenas em 1º de setembro, ao final do período regular de férias de verão e após cerca de cinco meses em casa.

As escolas permaneceram abertas durante todo o restante do segundo semestre de 2020, mesmo com uma série de restrições impostas pelo governo britânico para conter a escalada de casos de covid-19 e de apelos para o cuidado da população nos meses seguintes. Houve um segundo lockdown nacional na Inglaterra, em 5 de novembro, por exemplo, mas as instituições de ensino ficaram de fora.

Em 4 de janeiro de 2021, diante de mais uma onda de contaminação por covid-19, Johnson anunciou a volta do ensino remoto para escolas primárias, secundárias e faculdades da Inglaterra em um terceiro lockdown. A maior parte dos alunos retornou ao ensino presencial três meses depois, no dia 8 de março. Já as universidades foram totalmente reabertas em 17 de maio.

O estudo referido pela ministra Damares Alves, portanto, abrange tanto épocas em que a maioria das crianças e adolescentes da Inglaterra ficou em casa quanto outros períodos em que os estudantes estavam aprendendo presencialmente, mesmo durante a pandemia. As instituições estiveram abertas durante quatro meses no período analisado, entre os meses de setembro e dezembro. Ainda assim, não há registro de que os autores tenham excluído a quantidade de suicídios de jovens nesse período quando mencionam o dado.

Atualmente, as medidas de prevenção nas escolas estão bem mais flexíveis. O governo britânico não exige mais, por exemplo, o sistema de “bolhas”, que procurava restringir o contato dos estudantes apenas a certas turmas ou idades. Também não é preciso mais usar máscaras, nem manter o distanciamento social no ambiente escolar, exceto sob circunstâncias específicas.

Alunos que tiveram contato próximo com casos positivos também não precisam mais entrar automaticamente em isolamento, em um programa conhecido como NHS Trace and Track. Eles devem apenas fazer o teste de covid-19 e seguir o protocolo sanitário caso estejam contaminados. Outras medidas preventivas simples continuam em vigor, como promover a higienização e garantir a ventilação dos espaços escolares.

O Reino Unido estava com 69% da população totalmente vacinada em 20 de julho, ou seja, com as doses necessárias, e 88% com ao menos a primeira dose, segundo dados oficiais. O país flexibilizou as regras com base nos baixos índices de casos positivos entre os meses de fevereiro e maio, mas enfrenta uma nova alta de diagnósticos desde junho deste ano, com cerca de 47 mil novos casos por dia, em média.

As mortes, por outro lado, seguem em patamares baixos, em torno de 52 por dia, como reflexo da imunização. Esse cenário fez com que o governo britânico relaxasse ainda mais as medidas em 19 de julho — que foi apelidado de “Dia da Liberdade” pelos moradores locais. Não há mais obrigatoriedade de uso de máscaras, exceto no metrô de Londres, nem limite para aglomerações em ambientes abertos e fechados.

Quem ligou o estudo aos suicídios e ao isolamento?

O site Epoch Times publicou um texto distorcendo o conteúdo do estudo britânico, ao dar um destaque inexistente ao número relacionado aos suicídios entre crianças e adolescentes e ao relacionar esse dado aos lockdowns na Inglaterra, o que deturpa as informações contidas na análise.

Segundo detalha reportagem publicada em O Globo, o jornal em questão foi fundado em 2000 e é filiado ao obscuro movimento espiritual chinês Falun Gong, tendo crescido nos anos 2016 e 2017 ao apoiar o ex-presidente americano Donald Trump e abrir diversas páginas no Facebook, tornando-se uma das publicações digitais mais poderosas dos Estados Unidos.

É conhecido, também, por ser um importante fornecedor de desinformação de direita. A organização e as filiadas cresceram promovendo teorias de conspiração e acabaram virando uma máquina de espalhar boatos em escala global. Atualmente, possui versões em dezenas de países, inclusive no Brasil, na qual foi publicado o texto aqui verificado.

Em 2019, conforme o jornal The New York Times, o Facebook baniu a publicidade do Epoch Times após a NBC News publicar um relatório informando que o veículo sem fins lucrativos havia gastado mais de US$ 1,5 milhão em cerca de 11 mil anúncios pró-Trump em seis meses.

Nos sites que mantém, o Epoch Times costuma publicar conteúdos de conspiração, como teorias antivacinação. Já os canais no YouTube promovem o movimento QAnon. O Comprova procurou via email a publicação no Brasil, mas um dia depois recebeu uma mensagem automática afirmando ser impossível a entrega da mensagem “apesar das tentativas repetidas”, com a informação de que “o sistema de e-mail do destinatário recusou-se a aceitar uma conexão do seu sistema de e-mail”.

Já a ministra Damares Alves, que compartilhou a publicação associando o número de suicídios ao fechamento de escolas, é uma das figuras centrais do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Embora seja responsável pela pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, frequentemente se posiciona sobre assuntos referentes ao Ministério da Educação. É defensora da aprovação de lei autorizando a prática do ensino domiciliar no Brasil, já assinou nota com críticas e sugestões à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), cujo texto defendia a introdução da teoria criacionista para o estudo da biologia, e anunciou a criação de um canal para que professores fossem denunciados por “atos contra a família”, além de apoiar o projeto “Escola sem Partido”. O Comprova entrou em contato com a assessoria de imprensa da ministra, mas não houve resposta.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre políticas públicas e pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

As medidas de distanciamento social, restrição de circulação e lockdown têm sido responsáveis, desde o início da pandemia, por evitar o colapso dos sistemas de saúde de vários países e por diminuir os índices de transmissão e as mortes em decorrência da contaminação pelo coronavírus. Associar essas medidas de forma enganosa aos números de suicídio pode causar pânico nas pessoas e, consequentemente, alimentar atitudes anti-isolamento.

Segundo a ferramenta CrowdTangle, o conteúdo do site recebeu mais de 17 mil interações no Facebook, mais de 1 mil no Twitter e mais de 33 mil no Instagram.A conta que mais contribuiu para a disseminação do conteúdo enganoso foi a da ministra Damares Alves. Todas as interações no Instagram, por exemplo, partiram do perfil dela. No Facebook, apenas o compartilhamento dela somou 7 mil interações. Na plataforma, o conteúdo foi compartilhado também por perfis de apoio ao presidente Bolsonaro.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-07-19

É falso que polícia tenha prendido enfermeiro impostor em hospital onde Bolsonaro foi internado

  • Falso
Falso
São inverídicos os posts que circulam no Facebook e no WhatsApp afirmando que um falso enfermeiro, que seria filiado ao PCdoB, foi preso no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, onde o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) esteve internado nos últimos dias. A imagem utilizada pelos autores foi feita em abril de 2021, em Manaus, e a prisão em São Paulo foi desmentida pela Polícia Civil.
  • Conteúdo verificado: Postagens no Facebook e no WhatsApp com a foto de um falso enfermeiro algemado. O texto afirma que o homem é Joilton Batista Silverio, filiado ao PCdoB, preso pela Polícia Civil após ter sido detido pela segurança do Hospital Vila Nova Star, onde Bolsonaro esteve internado recentemente.

É falso que um homem, se passando por enfermeiro, tenha sido preso no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, onde o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) estava internado. A informação foi desmentida pela unidade hospitalar e também pela Polícia Civil do Estado de São Paulo, ao serem procurados pelo Comprova.

A imagem veiculada junto à informação falsa pertence a um homem preso em abril deste ano, em um hospital de Manaus, capital do Amazonas, segundo reportagens publicadas na época. A Polícia Civil do estado e a assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde amazonense confirmaram a informação.

O autor da postagem mais antiga localizada pelo Comprova no Facebook foi procurado via Messenger e afirmou ter recebido o conteúdo de “alguém”. A informação falsa foi apagada logo após o contato.

Como verificamos?

Bastou realizar a busca reversa da foto que aparece nas postagens – utilizando o Google Imagens – para que o Comprova detectasse diversas notícias publicadas com a mesma imagem em abril deste ano em portais locais de Manaus (AM).

A partir dessa informação, o Comprova encaminhou e-mails para as assessorias de imprensa do governo e da Polícia Civil do Amazonas, questionando as circunstâncias das reportagens e a veracidade das informações.

A equipe de verificação também entrou em contato com a Rede D’Or, responsável pelo Hospital Vila Nova Star, onde o presidente ficou internado, e com a Polícia Civil do Estado de São Paulo, ambas citadas nas publicações falsas.

Em seguida, consultamos o repositório de dados eleitorais do TSE, onde constam os nomes de todas as pessoas filiadas a partidos políticos no Brasil. Por fim, também entramos em contato com os autores das postagens no Facebook.

Verificação

Caso é de Manaus

A pessoa que aparece na foto que circula com a mensagem falsa foi presa, na verdade, no Hospital e Pronto-Socorro Platão Araújo, em Manaus, em abril deste ano. Segundo a Secretaria de Saúde do Amazonas, o homem de 36 anos se passava por técnico de enfermagem da unidade, da rede estadual, e foi detido por militares da 27ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom). Com ele, foram encontrados medicamentos de vários tipos, além de materiais cirúrgicos.

A direção do hospital disse que o falso profissional de saúde entrou na unidade por meio do serviço de pronto-atendimento, se passando por um paciente. Depois, em um dos consultórios, vestiu um jaleco e passou a circular dentro do hospital, onde solicitou medicamentos aos verdadeiros profissionais de saúde. Ele foi descoberto por uma enfermeira que desconfiou da presença dele e acionou a segurança da unidade e a polícia.

A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas também confirmou a história, acrescentando que ele foi detido pelos crimes de tentativa de furto e falsificação de documento (RG). Um inquérito foi aberto sobre o caso e enviado à Justiça.

O Comprova também entrou em contato com a Rede D’Or, que administra o Hospital Vila Nova Star, e com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, para confirmar se algum caso do tipo foi registrado enquanto o presidente estava internado, mas ambos negaram.

Filiação ao PCdoB

As publicações verificadas afirmam que o homem que teria entrado no hospital onde Bolsonaro estava internado se chama Joilton Batista Silvério, teria passagem na polícia por tentativa de homicídio e seria filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Isso também não é verdade. Consultamos o repositório de dados eleitorais do TSE, onde constam os nomes de todas as pessoas filiadas a partidos políticos no Brasil. Não há ninguém com esse nome na relação de eleitores filiados ao PCdoB:

No sábado, dia 17 de julho, quando Bolsonaro ainda estava internado, o deputado federal pelo PCdoB, Orlando Silva, desmentiu, no Twitter, as ligações da suposta pessoa com o partido.

O Comprova ainda tentou buscar pelo nome Joilton Batista Silvério no Google, mas os únicos resultados encontrados foram as postagens falsas e as verificações realizadas por outros veículos. A Polícia Civil do Amazonas não informou o nome do rapaz detido por lá.

Internação de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro sentiu dores abdominais e foi internado no Hospital das Forças Armadas, em Brasília, na última quarta-feira (14). Sua equipe médica decidiu levá-lo para o Hospital Villa Nova Star, na zona sul de São Paulo, para avaliar a necessidade de uma cirurgia emergencial. Ele ficou em observação durante quatro dias devido a uma obstrução intestinal e teve alta neste domingo (18). Ele não precisou passar por procedimento cirúrgico.

O presidente politizou a sua internação ao relembrar o atentado a faca que sofreu durante a campanha eleitoral de 2018. Ele voltou a alegar falsamente que Adélio Bispo, responsável pelo ataque, teria recebido ordens do PT e do PSOL. Bispo já foi filiado ao PSOL, mas deixou a legenda em 2014, quatro anos antes do atentado. Além disso, as falas de Bolsonaro contrariam a conclusão de todas as investigações policiais feitas até o momento e que apontaram para ação isolada de Bispo.

Autor da postagem

A página “Aconteceu em Praia Grande” foi a primeira a postar a imagem no Facebook, segundo a ferramenta de análise de redes sociais CrowdTangle. A página foi criada em 14 de setembro de 2018 e diz falar de “festas, eventos, atos de corrupção, prefeitura, policiamento, informações, desaparecimentos”. Parte de suas postagens são em defesa de Bolsonaro.

Procurado pelo Comprova, o responsável afirmou: “Só copiei de alguém, já apaguei”. De fato, a imagem foi excluída na manhã desta segunda-feira (19), após o contato da reportagem.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

Desde antes do pleito que elegeu Jair Bolsonaro presidente, em 2018, ele e apoiadores atacam partidos de esquerda, como o PCdoB. Assim como a sigla, PT e PSOL também são alvos frequentes de informações falsas ou enganosas que circulam amplamente em redes sociais, publicadas principalmente por contas bolsonaristas.

Uma das postagens analisadas pelo Comprova foi compartilhada ao menos 255 vezes no Facebook e recebeu 429 reações. O mesmo conteúdo também circula em aplicativos de mensagem, como o Whatsapp. A alegação foi verificada pelo Boatos.Org e também pelo G1.

Falso, para o Comprova, é conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por:2021-07-19

Posts enganam ao afirmar que voto impresso já é lei

  • Enganoso
Enganoso
O conteúdo verificado pelo Comprova destaca trecho revogado da Lei 10.408, que dispõe sobre um mecanismo da urna que permite a impressão do voto. Além disso, não dá o contexto do que foi dito pela deputada estadual Janaina Paschoal, em junho de 2018, sobre a decisão liminar do STF de derrubar o voto impresso nas eleições daquele ano a partir da suspensão do artigo 59-A da minirreforma eleitoral de 2015.
  • Conteúdo verificado: Posts publicados por diversas páginas de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) trazem um trecho revogado da Lei 10.408, de 10 de janeiro de 2002, que dispõe sobre um mecanismo da urna que permite a impressão do voto, acompanhados com uma foto da deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) e uma frase atribuída a ela defendendo que o voto impresso já é lei e deveria ser implementado.

Posts virais no Facebook enganam ao colocar uma frase da deputada Janaina Paschoal (PSL) ao lado de uma lei de 2002 que foi parcialmente revogada.

De fato, a deputada fez declarações de que “o voto impresso já é lei” e “não deveria nem estar sendo discutido, mas implementado” em um post no Twitter em 2018, mas referindo-se a um artigo da lei 13.165 – a minirreforma eleitoral de 2015 – que dispunha sobre o voto impresso.

Já os posts verificados apresentam trechos de outra lei, a 10.408, que foi sancionada em 2002 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Esta segunda legislação de fato previa a impressão do voto, mas o artigo sobre este ponto foi revogado no ano seguinte, pela lei 10.740.

A revogação ocorreu após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) detectar “vários inconvenientes” onde os votos foram impressos, tais como mais urnas com defeito, maior número de votos nulos e brancos e contribuição “para a quebra do sigilo constitucional do voto em algumas seções eleitorais”.

Os dois grupos públicos e o perfil pessoal que publicaram os posts verificados aqui são de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Eles foram procurados pela reportagem, mas não responderam até a publicação deste texto.

Como verificamos?

Inicialmente, a reportagem procurou informações oficiais sobre a lei citada nos posts no site do TSE, do STF (Supremo Tribunal Federal) e da Câmara dos Deputados. Nessas mesmas páginas, pesquisou dados sobre suas atualizações.

O segundo passo foi entrar em contato com Janaina Paschoal, que respondeu por e-mail. A equipe também procurou, por mensagem privada no Facebook, três perfis que publicaram os posts verificados aqui.

Além disso, entrevistou o sociólogo Elimar Pinheiro do Nascimento, professor de sociologia política e ambiental da Universidade de Brasília (UnB), para entender a legalidade e a segurança do voto impresso e eletrônico. Sobre este último, também fez pesquisas no site do TSE.

Verificação

Lei parcialmente revogada

A imagem engana ao destacar um trecho da lei 10.408, de 10 de janeiro de 2002, que diz que “a urna eletrônica disporá de mecanismo que permita a impressão do voto, sua conferência visual e depósito automático, sem contato manual, em local previamente lacrado, após conferência pelo eleitor”.

A lei foi sancionada em 2002 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso e ainda está em vigor, mas foi parcialmente revogada. Em outubro de 2003, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei 10.740, que instituiu o Registro Digital do Voto (RDV) – uma espécie de tabela digital que permite, a qualquer tempo, a recontagem dos votos da urna eletrônica – e revogou os dispositivos da lei 10.408 que determinavam a impressão do voto.

Na postagem que está circulando, está destacado o inciso 4, que, com a lei de número 10.740 de 2003, teve a redação alterada, como é possível ver nas duas imagens abaixo:

 

 

Segundo o TSE, em 2002, foram detectados vários problemas nos locais em que foi realizada a impressão dos votos, no âmbito da lei 10.408. Naquele ano, 7.128.233 eleitores de 150 municípios de todas as unidades da Federação, isto é, 6,18% do eleitorado brasileiro da época, tiveram voto impresso.

De acordo com um relatório elaborado pelo TSE, “a experiência demonstrou vários inconvenientes na utilização do denominado módulo impressor externo e sua introdução no processo de votação nada agregou em termos de segurança ou transparência. Por outro lado, criou problemas”.

Entre os problemas listados, estão: maior tamanho das filas; maior número de votos nulos e brancos; maior percentual de urnas com votação por cédula – com todo o risco decorrente desse procedimento; maior percentual de urnas que apresentaram defeito, além das falhas verificadas no módulo impressor.

Ainda de acordo com o TSE, a impressão em 2002 “contribuiu para a quebra do sigilo constitucional do voto em algumas seções eleitorais, pois para resolver problemas de travamento de papel na impressora, foi necessária a intervenção humana”.

Por fim, o relatório concluiu que “o voto impresso pode ter efeito desastroso em eleições municipais, muitas vezes decididas com diferença de poucas dezenas ou centenas de votos”. Em reunião do Colégio de Presidentes e do Colégio de Corregedores da Justiça Eleitoral, realizada em Florianópolis (SC), em 28 e 29 de novembro de 2002, um mês após o segundo turno do pleito, os participantes concluíram ser imperativa a eliminação do voto impresso no processo de votação. E aí vem a lei nº 10.740, que revogou o que não deu certo.

Declaração de Janaina é de 2018

O conteúdo verificado traz uma foto da deputada Janaina Paschoal e uma frase atribuída a ela: “Voto impresso já é lei. Não deveria nem estar sendo discutido, mas implementado. Simples assim”.

Ela escreveu essa frase no Twitter, em 6 de junho de 2018. A íntegra está abaixo, e o trecho “trata-se de um direito, inerente à Democracia, poder auditar as eleições” foi cortado no conteúdo que está circulando. Print abaixo:

 

Nesse dia, o STF decidiu liminarmente, por oito votos a dois, derrubar o voto impresso nas eleições de 2018, a partir da suspensão do artigo 59-A da minirreforma eleitoral de 2015 que instituía: “No processo de votação eletrônica, a urna imprimirá o registro de cada voto, que será depositado, de forma automática e sem contato manual do eleitor, em local previamente lacrado. Parágrafo único. O processo de votação não será concluído até que o eleitor confirme a correspondência entre o teor de seu voto e o registro impresso e exibido pela urna eletrônica”.

Os ministros entenderam que “o dispositivo coloca em risco o sigilo e a liberdade do voto, contrariando a Constituição Federal”. Além disso, destacaram a “falta de proporcionalidade e razoabilidade da medida, uma vez que impõe altos custos de implantação – estimados em mais de R$ 2 bilhões – e traz riscos para a segurança das votações, sem haver garantia de que aumenta a segurança do sistema. Isso em um contexto em que faltam indícios de fraude generalizada no sistema de voto eletrônico, existente desde 1996. Foi ressaltada a confiança da população no sistema, tido como referência internacional, e no fato de que a alteração poderia, pelo contrário, minar essa confiança”.

Em setembro do ano passado, o STF declarou inconstitucional a impressão do voto eletrônico, por “colocar em risco o sigilo e a liberdade do voto”. Em decisão unânime, os ministros confirmaram a decisão liminar do dia 6 de junho e julgaram procedente a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5889.

Para o relator, o ministro Gilmar Mendes, “não há comprovação de que a impressão incrementará de forma decisiva a integridade das apurações eleitorais, pois se trata de um processo mecânico, mas controlado por dispositivos eletrônicos. Dessa forma, há riscos teóricos de manipulação das impressões, por exemplo, com o cancelamento de votos”.

Procurada pelo Comprova, Janaina Paschoal afirmou que não conhece a origem da montagem que fizeram com o tuíte dela, de 2018. Como explicitado anteriormente, ela afirmou que estava se referindo ao artigo 2º da lei 13.165 – a minirreforma eleitoral de 2015 – que altera a lei 9.504, de 1997, e dispõe sobre a impressão do voto no artigo 59-A, e não ao trecho da lei 10.408, que foi destacado na montagem enganosa.

A deputada ainda disse que defende o voto impresso, “não por duvidar do atual sistema, mas por entender que, quanto mais segurança, melhor” – afirmação que vai na contramão do que dizem o TSE e especialistas, segundo os quais o sistema eletrônico é mais seguro.

Fraude

Para o sociólogo Elimar Pinheiro do Nascimento, da UnB, o voto impresso, além de não ser mais o sistema legal vigente no país, representaria um retrocesso.

Na entrevista ao Comprova, entre as possibilidades de fraude, ele cita o momento da contagem dos votos em papel – o responsável pela verificação conta o voto para um candidato diferente do que o que estava escrito e consegue fazer com que outros fiscais não percebam a mentira.

“Em mais de 20 anos de voto eletrônico, jamais houve uma denúncia que pudesse levantar suspeita real, (o que houve foi) apenas falatório”, diz ele.

Sobre a segurança do sistema, ele destaca que as urnas são lacradas com a presença de representantes de todos os partidos, que podem acompanhar se elas funcionam corretamente e que não são ligadas à internet. “Não há como um hacker entrar e desvirtuar (o sistema)”, diz Nascimento.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. O conteúdo publicado por diversas pessoas em páginas de apoio ao presidente Bolsonaro atingiu mais de 8 mil interações.

Conteúdos como esses geram desinformação e reforçam a falsa impressão de que o processo eleitoral brasileiro não é seguro, colocando em xeque a própria democracia.

Bolsonaro tem afirmado, sem provas, desde 2018, que houve fraude no pleito que o elegeu. Ele também critica de forma recorrente o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas e vem radicalizando seu discurso – inclusive tendo feito insinuações sobre a lisura do processo para 2022, no momento em que pesquisas apontam o aumento de sua reprovação e o favoritismo de Lula.

O mesmo material também foi checado pelo Estadão Verifica, O Globo, Aos Fatos, G1 e Boatos.org.

Recentemente, o Comprova publicou verificações semelhantes, sobre conteúdos que questionavam o sistema eleitoral brasileiro, como postagens que afirmavam falsamente que urnas usadas aqui haviam sido hackeadas nos Estados Unidos e que vídeo mostrava fraude nas eleições de 2014. No ano passado, o projeto mostrou que o sistema de votação eletrônica pode ser auditado e que a Smartmatic nunca vendeu urnas para o Brasil.

Enganoso para o Comprova é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-07-16

Diagnóstico positivo de Doria não indica ineficácia da Coronavac

  • Falso
Falso
A Coronavac reduz o risco de desenvolver quadros graves da covid-19, mas não elimina a possibilidade de contágio. Isso ocorre com todas as vacinas, contrariando a postagem de influenciador de direita que afirma que o novo diagnóstico de coronavírus do governador de São Paulo, João Doria, é prova de ineficácia do imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan.
  • Conteúdo verificado: Tuíte afirma que o fato de o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), ter se infectado duas vezes com a covid-19 é a prova de que a Coronavac não funciona.

É falso que casos de pessoas infectadas com a covid-19, mesmo após receberem as duas doses da Coronavac, mostrem que a vacina é ineficaz contra o coronavírus. Os imunizantes contra o Sars-CoV-2 reduzem o risco de desenvolver quadros graves da doença, mas não eliminam a possibilidade de contágio.

Nenhuma vacina garante 100% de imunidade contra uma doença. O propósito delas é tornar o contato do sistema imunológico com o vírus mais seguro e reduzir internações e mortes. Quanto maior a quantidade de pessoas vacinadas, menores as chances de o vírus continuar circulando. As informações desmentem alegação de um influenciador de direita no Twitter, de que o diagnóstico de covid-19 do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), “prova que a vacina chinesa não tem eficácia”.

Como verificamos?

Primeiramente, o Comprova verificou quando o governador João Doria foi vacinado e quando se infectou com a covid-19.

Em seguida, procurou dados sobre a eficácia da Coronavac e de como age uma vacina no organismo. Também foi consultado o professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF/USP) Marco Antonio Stephano para entender melhor a atuação dos imunizantes.

O Comprova pesquisou quem era o autor da postagem, @AlanLopesRio, e encontrou notícias sobre sua candidatura a vereador do Rio de Janeiro pelo PSD em 2020. O perfil dele no Twitter é fechado para o envio de mensagens particulares, então, a reportagem tentou contato no diretório estadual do PSD e por um e-mail utilizado na campanha do ano passado e disponível na página do Facebook de sua candidatura. Não houve nenhum retorno até a publicação deste texto.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 16 de julho de 2021.

Verificação

Mesmo vacinado, Doria pegou covid-19 pela segunda vez

Doria testou positivo para a covid-19 pela primeira vez em agosto de 2020. Na época, ele compartilhou, pelo Twitter, o resultado de um exame PCR-RT e também disse que estava assintomático. Aos 63 anos, o político só foi vacinado contra a doença no dia 7 de maio deste ano, quando tomou a primeira dose da Coronavac. Ele recebeu a segunda dose em 4 de junho, 28 dias após a primeira, como indica a bula da vacina.

Nesta quinta-feira (15/7), Doria anunciou que testou positivo pela segunda vez. Em post no Twitter, o governador disse que fez um teste por prevenção após detectar alguns sintomas e que está se sentindo bem. Ele atribuiu os sintomas leves ao fato de ter sido vacinado.

Vacina não impede infecção, mas, sim, casos graves

A imunização não impede que a pessoa contraia o vírus, mas reduz os riscos de que desenvolva formas mais graves da doença. Segundo especialistas, nenhuma vacina é 100% eficaz contra doenças, o que inclui imunizantes utilizados há décadas, como imunizantes contra sarampo, catapora e gripe. O objetivo deles é garantir que o sistema imunológico seja exposto ao vírus de forma segura.

O que permite a erradicação de uma doença – ou redução dos casos – é a ampla cobertura vacinal. Ou seja: quanto mais pessoas protegidas, menor a circulação do vírus.

O professor da FCF/USP Marco Antonio Stephano explica que é importante entender que o objetivo das vacinas é evitar casos graves e mortes pela doença. “Quando você faz uma imunização em massa é esperado que 16% da população não tenha uma boa produção de anticorpos. Essa premissa é uma característica genética”, explica.

Além disso, os próprios estudos de eficácia demonstram que uma parcela da população não desenvolverá uma imunidade completa. “As vacinas injetáveis levam a uma imunidade para casos graves da doença. Se a pessoa toma a vacina e não desenvolve anticorpos, essa pessoa tem risco de morrer? Mais ou menos. Um grupo muito pequeno pode desenvolver a forma a grave”, acrescenta Marco Antonio.

O professor ainda ressalta que a eficácia de uma vacina é diferente para cada grupo de pessoas. “A tendência é que em idosos a resposta imune não seja a mesma que em pessoas mais jovens, assim como em quem tem comorbidade”, diz.

Coronavac é menos eficaz?

Antes de apresentar os dados de eficácia, é importante ressaltar que a eficácia e a efetividade de uma vacina não são sinônimos para os pesquisadores, conforme explica reportagem da Veja Saúde. A eficácia é definida a partir de estudos clínicos rigorosos feitos em condições controladas. Já a efetividade avalia os resultados da vacina na população de modo geral.

A Coronavac teve o uso emergencial aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) após apresentar eficácia global de 50,38% – isso representa a proporção de pessoas que não foram infectadas após tomarem a vacina. No entanto, pesquisas podem apresentar resultados distintos umas das outras por diversos aspectos, que incluem o perfil da população, idade e diferentes respostas imunológicas de cada organismo. É exatamente por isso que não tem como comparar uma vacina com a outra.

Um estudo de efetividade conduzido pelo Instituto Butantan na cidade de Serrana, no interior de São Paulo, vacinou cerca de 75% da população adulta e observou quedas de 80% nos casos sintomáticos de covid e de 86% nas internações, além da redução de mortes em 95%.

Outra pesquisa, feita no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, mostra que houve queda de 80% nos casos de covid entre 22 mil funcionários vacinados com a Coronavac, mesmo tratando-se de agentes de saúde constantemente expostos ao vírus.

Nenhuma das vacinas aprovadas para uso no Brasil apresentaram 100% de eficácia nos testes, conforme explicado anteriormente.O imunizante da Pfizer apresentou uma eficácia de 95% sete dias após a segunda dose, de acordo com a bula. A da Janssen apresentou eficácia de 66,9% contra casos graves e moderados e a da AstraZeneca de 70%.

Segundo o professor Marco Antonio, com todos os imunizantes há casos de pessoas que se infectam mesmo estando vacinadas, mas os que envolvem a vacina do Butantan estão se destacando pela quantidade de informações falsas que rondam o imunizante. “Isso ocorre com todas as vacinas, mas por ter muita desinformação circulando contra a Coronavac, ela fica mais em evidência”, diz.

A desconfiança em torno da Coronavac ocorre desde o ano passado, quando o imunizante entrou no centro da disputa política entre Doria e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac, a vacina virou uma das bandeiras do governador de São Paulo no combate à covid-19, enquanto Bolsonaro passou a desacreditá-la publicamente, tratando-a por “vacina chinesa”.

Além de desautorizar a compra da Coronavac pelo Ministério da Saúde, em outubro passado, Bolsonaro celebrou a suspensão temporária de testes com o imunizante após a morte de um voluntário – que não teve relação com possíveis efeitos da vacina.

Este ano, o presidente já afirmou equivocadamente, mais de uma vez, que a Coronavac “não deu certo” e que ela teria provocado problemas no Chile.

Por fim, Marco Antonio ressalta a importância das pessoas confiarem nas vacinas e se vacinarem. “Essas coisas fazem com que os grupos antivacinas levantem sua bandeira e as pessoas não se vacinem. Mas são elas que estão salvando pessoas. Se demorarmos, vão surgir novas variantes que vão conseguir neutralizar as vacinas”, alerta.

Reinfecção é possível?

Apesar de raras, já se sabe que reinfecções por covid-19 são possíveis. De acordo com um estudo publicado na revista científica The Lancet, em março, menos de 1% se contagia novamente com o coronavírus. Um outro estudo publicado na The Lancet em abril deste ano mostrou uma chance 84% menor de pegar o novo coronavírus para quem já foi contaminado.

Já uma outra pesquisa feita pela Fiocruz indicou que uma pessoa que é assintomática ou tem sintomas leves, como foi o caso de Doria, está mais propensa a ter uma segunda infecção, por não ter produzido uma resposta imunológica forte. O estudo, inclusive, encontrou indícios de que essa segunda infecção pode provocar sintomas mais fortes do que o primeiro contágio.

De acordo com Marco Antonio Stephano, as reinfecções são provocadas por variantes que conseguem driblar o sistema imune. “Quando mais a gente demora para vacinar as pessoas, mais surgem novas variantes e aumenta o risco de reinfecções”, explica.

Autor é apoiador de Bolsonaro e costuma compartilhar desinformação

O autor do post, Alan Lopes, foi candidato a vereador do Rio de Janeiro pelo PSD em 2020 e, com 2.540 votos, não foi eleito. Ele é descrito como influenciador de direita por reportagem da Aos Fatos, que ressalta o perfil de Lopes nas redes sociais como propagador de notícias falsas. O Comprova tentou entrar em contato com ele, mas não recebeu nenhum retorno até a publicação desta verificação.

No Twitter, Lopes possui mais de 75 mil seguidores e se descreve como “cristão, conservador, casado, pai, empresário e defensor implacável da família tradicional”. Ele é seguido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e pelo Secretário Especial de Cultura do governo federal, Mário Frias. Entre as postagens na rede social há a defesa à adoção do voto impresso, posts pró-armamento e críticas ao uso de máscaras e distanciamento social. Ele também afirma ser CEO do Instituto Intelectos, plataforma que alega que o Brasil é o maior protetor ambiental do mundo.

Lopes já compartilhou notícias falsas, como supostos documentos que comprovariam fraude nas eleições de 2018, e que a empresa responsável pela fabricação das urnas eletrônicas no Brasil teria sido vendida a uma companhia chinesa, desmentida por Aos Fatos, Agência Lupa e Estadão Verifica.

Por que investigamos?

A quarta fase do Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições ou a pandemia que tenham atingido alto grau de viralização, como o caso da postagem verificada, que apresentou mais de 11,3 mil interações no Twitter.

Em julho de 2021, os participantes do projeto decidiram também verificar desinformações envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

O Comprova já desmentiu afirmações equivocadas sobre imunização envolvendo a infecção do apresentador Rodrigo Faro mesmo após ter tomado a vacina contra a covid-19. Também foram verificadas postagens sobre a validade das doses da vacina Janssen doadas ao Brasil pelos EUA; que quem tomou Coronavac se protegeu pela metade; que a OMS não recomendou a aplicação de uma terceira dose da vacina e que um imunizante não precisa ser estudado por mais de dez anos para ser seguro.

A AFP Checamos publicou uma verificação no Twitter sobre o conteúdo.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.