Documento atribuído à PF sobre conversas entre Nikolas e Vorcaro é falso e foi gerado por IA
- Política
- Narrativa sobre o relatório, de que não haveria indícios de crime nas conversas entre ambos, foi publicada por sites e por perfis nas redes, inclusive o do deputado.
Depois do áudio do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) para Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, ter sido divulgado na quinta-feira (3), circularam nas redes sociais conteúdos dizendo que a Polícia Federal (PF) havia concluído em relatório não haver crime, acusação formal ou indiciamento no caso das mensagens. O próprio deputado chegou a compartilhar a publicação com a informação em seu story do Instagram, mas o documento atribuído à PF é falso.
Sites como o Diário360 e Pleno News (que foi verificado pelo Comprova em outras ocasiões) também publicaram textos sobre o suposto o relatório. O documento tem o logo da Polícia Federal e cita a operação Compliance Zero. Esse suposto relatório preliminar apresenta mensagens e áudios envolvendo Ferreira e Daniel Vorcaro. O deputado tratou com Vorcaro de uma negociação envolvendo um ex-assessor e um ativo minerário.
A Polícia Federal confirmou ao Comprova que o documento citado não foi produzido pela corporação.

Além disso, consulta feita com o SynthID, ferramenta que permite verificar conteúdos gerados por inteligência artificial, encontrou marca d’água proveniente da OpenAI, dona do ChatGPT.

Ainda na quinta-feira (3), o Aos Fatos publicou uma checagem com a informação de que o relatório era falso, mostrando que a ferramenta apontou ser conteúdo gerado por IA. Análise de manipulação de imagem feita pelo Comprova também aponta fortes indícios visuais e estruturais de falsificação digital devido a fatores como padrões gráficos inconsistentes, desalinhamento de blocos de texto, vestígios de edição no fundo da folha – como granulação irregular no padrão do papel – e inconsistências formais nos termos e logotipos institucionais.
Há também erros institucionais na imagem. O cabeçalho cita a “Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado”, mas o nome oficial de departamento equivalente na Polícia Federal é DICOR – Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção.
Qual a alegação do post investigado e quais são as suas fontes?
O texto do Diario360 afirma que “O relatório da PF, até o momento, não aponta que os contatos registrados tenham configurado crime ou prática irregular por parte do deputado”.
O conteúdo trata a informação como “exclusiva”. Não há links ou citações de outros jornais, de modo que o leitor não pode fazer a própria apuração. O texto atribui algumas das declarações a “aliados do deputado”, além da PF, e não é assinado por um jornalista.
Quem criou a postagem e qual é o seu interesse na disseminação do conteúdo?
O conteúdo foi publicado pelo site Diário360, que tem cerca de 600 mil seguidores no Instagram. A publicação no Instagram acumulava 58 mil curtidas até a publicação deste texto.
O domínio do site foi registrado há menos de um ano, em 15 de outubro de 2025, e a última alteração cadastral foi feita em 20 de maio de 2026.
Não há informações públicas no site de quem são os integrantes do Diário360, mas é possível ter acesso a elas a partir de publicações no Instagram.
Em 19 de novembro de 2024, Fabiano Braga, então candidato a vereador de Fortaleza (CE) pelo Partido Liberal (PL), compartilhou em seu perfil do Instagram a criação do Diário360. Desde então, ele aparece como um dos principais porta-vozes do Diário360, celebrando marcos do site e participando de cortes de vídeos no YouTube.
O Comprova procurou Nikolas Ferreira. O deputado afirmou, via assessoria, que repostou o conteúdo do portal de notícias que havia publicado o relatório. Mas, depois que descobriu que o conteúdo era falso, deletou o story.
A reportagem também tentou contato com o Diário360, mas não houve retorno até a publicação deste texto.
Por que as pessoas podem ter acreditado
O texto do Diário360 usa o selo “exclusivo” no título para construir uma manchete que induza o leitor a acreditar que a informação “PF não aponta irregularidade contra Nikolas Ferreira” é verdadeira. O site aproveita um assunto que está em alta para captar engajamento sem citar fontes, links ou documentos para que o leitor possa fazer sua própria verificação. O layout do veículo também é similar ao de outros meios de imprensa, o que confere credibilidade aos conteúdos publicados.
O uso da imagem de um documento atribuído à PF em uma publicação no X também pode levar pessoas a acreditarem no conteúdo. Essa é uma tática de imitação de fontes confiáveis, combinada com o uso de conteúdo manipulado.
A estratégia visa induzir o público a aceitar o material como uma prova oficial e autêntica de um procedimento investigativo.
Fontes que consultamos: O Comprova entrou em contato com a Polícia Federal, que garantiu que o documento compartilhado nas redes sociais é falso. Também analisou publicações no Instagram, eventualmente chegando a nomes ligados ao Diário360, que não estão citados de maneira clara no site.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Outras checagens sobre o tema: Aos Fatos, Estadão Verifica e Agência Lupa foram algumas das agências que também verificaram o laudo atribuído à PF.


