O Projeto Comprova reúne jornalistas de 28 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
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Investigado por:2020-04-15

É falso que pesquisadores de Harvard concluíram que isolamento pode piorar a situação

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Falso
Segundo o estudo em questão, a rápida implementação de medidas duras de distanciamento social é essencial para ajudar a controlar a epidemia do novo coronavírus

É falso que pesquisadores de Harvard teriam concluído que as medidas de distanciamento social impostas na maior parte do mundo contra o novo coronavírus podem “piorar a situação” da pandemia, como é dito em um texto publicado em sites e redes sociais. Também não é verdade que os mesmos pesquisadores teriam referendado as medidas aplicadas na Suécia, consideradas mais leves que as da maioria dos países.

Ao contrário do que diz o texto investigado, os pesquisadores de Harvard afirmam que as simulações realizadas por eles vão ao encontro de outros estudos que concluem que a rápida implementação de regras duras para o distanciamento social é essencial para ajudar a controlar a epidemia do novo coronavírus. O estudo em questão também conclui que, sob as atuais condições, a implantação de medidas de distanciamento social em períodos intermitentes pode ser a melhor maneira de evitar que hospitais esgotem a sua capacidade de atendimento.

A pesquisa foi publicada no site científico MedRxiv, uma plataforma dedicada a divulgar trabalhos que ainda aguardam “revisão por pares” — termo que se refere ao processo de validação dos métodos e conclusões das publicações científicas por outros especialistas da área. Trata-se, portanto, de um relatório preliminar que não pode orientar práticas clínicas, destaca o Cold Spring Harbor Laboratory (CSHL). A instituição gerencia a plataforma com a Universidade de Yale e o periódico BMJ.

Ao jornal The New York Times, John Inglis, co-fundador do MedRxiv, afirmou que audiência da plataforma aumentou mais de 100 vezes desde dezembro. Isso gera preocupação porque o site, que tem como objetivo facilitar a troca de informações entre pesquisadores diante de emergências de saúde como a atual, tem sido utilizado como base para a propagação de rumores e falsidades, aumentando a desinformação a respeito da pandemia.

O Comprova verificou informações contidas em um texto publicado no site Mix Misturado e republicado posteriormente pelo site Agora Notícias Brasil.

Falso para o Comprova é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos

O Comprova apurou a origem do boato ao pesquisar diferentes trechos do texto no Google. O resultado indica que o site “Mix Misturado” foi o primeiro a espalhar conclusões equivocadas sobre o estudo e envolver a Suécia. A investigação prosseguiu com a verificação do conteúdo do artigo usado como base pelo site “Mix Misturado”. O link do estudo original leva para um arquivo em formato PDF publicado na página do programa Dash, mantido pela biblioteca da Universidade Harvard.

Ao buscar o título do artigo – “Social distancing strategies for curbing the COVID-19 epidemic” – é possível conferir que o estudo está de fato publicado na página. Ao buscar o título no Google, encontramos o mesmo texto no MedRxiv.

Na sequência, o Comprova realizou uma leitura do estudo e constatou diversas discrepâncias entre o que concluem os pesquisadores e o que diz o site Mix Misturado. Não há, por exemplo, nenhuma referência à Suécia no artigo, ao contrário do que afirma o site.

Também verificamos as medidas aplicadas pela Suécia no controle da epidemia por meio de página oficial do governo local, disponível em inglês. Regras para prevenção foram adotadas — ainda que em “baixa-escala”, como defenderam as autoridades locais — desde 11 de março. Também comparamos estatísticas de casos e mortes por Covid-19 na Suécia com as de outros países da Escandinávia.

O Projeto Comprova entrou em contato com a autora do texto, Cilene Bonfim, pelo Twitter, na terça-feira, 14, para buscar esclarecimentos sobre o conteúdo, mas não recebeu retorno.

Nota de atualização (17/4) — A autora do texto entrou em contato com a reportagem após a publicação desta notícia e respondeu a perguntas do Comprova. Por e-mail, foi questionada a respeito das diferenças entre o que é relatado pelos pesquisadores de Harvard em artigo e o que consta no material do site Mix Misturado. Cilene Bonfim afirma que fez uma “contextualização” do relatório da pesquisa e insistiu em suas conclusões. “Não existe nenhuma informação falsa no meu artigo”, escreve. “Eu nem disse o que eu penso sobre o assunto, apenas relatei os fatos e não fatos falsos, como vocês publicaram”. O Comprova também notou uma série de edições no texto do site Mix Misturado após a publicação desta verificação, incluindo título, URL e citações checadas pela equipe.

Quem são os autores do estudo?

O estudo é assinado por quatro pesquisadores da Escola de Saúde Pública de Harvard. São eles Stephen Kissler, doutor em Matemática Aplicada pela Universidade de Cambridge e pesquisador no Departamento de Imunologia e Doenças Infecciosas; Christine Tedijanto, estudante de doutorado na área de Epidemiologia de Doenças Infecciosas; Marc Lipsitch, professor nos departamentos de Epidemiologia e Imunologia e Doenças Infecciosas; e Yonatan Grad, professor do Departamento de Imunologia e Doenças Infecciosas da instituição.

Quais são os objetivos do estudo?

O estudo destaca que alguns locais, como Cingapura e Hong Kong, conseguiram controlar a epidemia por meio de uma estratégia que envolveu testes intensivos, rastreamento dos infectados e isolamento. Outro países, no entanto, não têm bons sistemas de saúde e capacidade de testar. Entre esses dois polos na capacidade de mobilização, muitos governos estão adotando como alternativa o distanciamento social: o objetivo aqui é “achatar a curva” do contágio, evitando a lotação dos sistemas de saúde e ganhando tempo para a descoberta de uma vacina.

O estudo parte de duas preocupações. A primeira é que essas medidas de distanciamento social podem permanecer ativas por um longo período. Assim, é necessário estimar cenários futuros. Os pesquisadores destacam, também, que ainda não se sabe se o novo coronavírus está sujeito, assim como outros vírus respiratórios, a variações sazonais. Se estiver, dizem eles, deve ser mais difícil achatar a curva no inverno do que no verão.

Outra preocupação gira em torno da capacidade dos governos de proverem cuidados intensivos. A pesquisa tenta avaliar o impacto, na trajetória geral da pandemia, do aumento desta capacidade.

Como o estudo foi feito?

O estudo tem como base modelos matemáticos capazes de projetar tanto o número de infecções quanto a capacidade dos hospitais. Os cálculos levam em conta um cenário em que 95,6% dos pacientes são assintomáticos ou têm efeitos considerados leves; 3,08% requerem internação, mas não em UTIs, e que 1,32% precisarão deste cuidado crítico.

Além disso, assumem o valor de 0,89 leito livre a cada 10 mil habitantes como o mínimo para garantir o atendimento hospitalar para a população. Esse número reflete a situação atual dos Estados Unidos.

Os pesquisadores alertam, ainda, que os resultados devem ser entendidos como o “pior cenário” possível, pois o modelo leva em conta que cada pessoa tem a mesma possibilidade de ser infectada. Na realidade, os cenários reais contêm diferença na estrutura da população, com alguns grupos mais propensos a serem infectados e outros, menos.

A partir desses números, simulações são realizadas em diversos cenários, modificados conforme os dados usados pelos cientistas e as estimativas de variação sazonal.

Quais os resultados do estudo?

O estudo chegou a vários resultados conforme o cenário simulado. Nos testes sem influência sazonal, os pesquisadores estimam que um período único de distanciamento social de fato reduz o pico da epidemia, mas que a infecção tem alta quando tais medidas são relaxadas.

Outra conclusão é de que períodos mais longos com medidas duras de distanciamento social nem sempre geram reduções grandes no pico de infecção. No caso de uma “quarentena” de 20 semanas com redução de 60% no “número básico de reprodução”, o pico após o fim do distanciamento social poderia ser quase o mesmo de um cenário sem nenhuma medida. Isso ocorreria, diz o estudo, porque um distanciamento social tão rigoroso protegeria tanto a população que poucos adquiririam imunidade.

Nos cenários em que as estações do ano influenciam a epidemia, o pico ressurgente (após o fim das medidas de distanciamento social) poderia ser ainda maior que o pico caso nada fosse feito. Isso porque, neste cenário, as medidas da distanciamento social seriam encerradas no fim do outono e começo do inverno, justamente quando as síndromes respiratórias se espalham mais.

O que significa tudo isso?

É neste ponto que o site “Mix Misturado” afirma, equivocadamente, que os pesquisadores teriam concluído que o isolamento pode piorar a situação. Não é essa a conclusão.

Em primeiro lugar, cabe destacar que ainda não se sabe se o contágio pelo novo coronavírus é influenciado pela sazonalidade. Em segundo lugar, os pesquisadores são claros ao dizer que o distanciamento social é, sim, efetivo para conter a epidemia em seu início. O que o estudo discute é a duração dessas medidas e o possível impacto delas conforme os vários cenários analisados.

De acordo com os pesquisadores, mais que longos períodos de distanciamento social, é uma estratégia intermitente com diversos períodos de distanciamento social que pode evitar que a capacidade hospitalar seja superada. A distância entre esses períodos aumentaria à medida que mais pessoas adquirissem imunidade nos intervalos das “quarentenas”.

O estudo alerta ainda que, sob as condições atuais do sistema hospitalar dos Estados Unidos, essa estratégia de períodos intermitentes de distanciamento social teria de durar até 2022. Assim, os pesquisadores indicam que se os Estados Unidos aumentarem sua capacidade de prover cuidados hospitalares intensivos, a população poderá acumular imunidade mais rapidamente e tanto a duração da epidemia quanto os períodos de distanciamento social tendem a ser menores.

Quais as conclusões do estudo?

Os pesquisadores afirmam que as simulações realizadas estão de acordo com outros estudos, segundo os quais a rápida implementação de medidas duras de distanciamento social é essencial para controlar a epidemia do novo coronavírus.

Ao mesmo tempo, afirmam que, “na ausência do desenvolvimento de novas terapias ou medidas preventivas, como uma busca ativa pelos casos [infectados] e quarentena, medidas intermitentes de distanciamento devem ser a única forma de não sobrecarregar a capacidade hospitalar enquanto a população adquire imunidade ao vírus”.

O estudo destaca que a estratégia de impor períodos intermitentes de distanciamento social só pode ser colocada em prática se houver uma forma sofisticada de medir a prevalência da infecção na população. Na ausência dessa capacidade, a disponibilidade de leitos hospitalares pode ser usada como uma variável substituta, mas como a doença não se manifesta imediatamente após o contágio, os hospitais podem acabar sobrecarregados.

Qual a realidade da Suécia?

Ainda que o país não seja citado no artigo dos pesquisadores de Harvard, o Comprova verificou informações quanto ao cenário da pandemia na Suécia e às medidas governamentais adotadas, denominadas de “baixa-escala,” pelas autoridades locais.

Essa abordagem vem sendo criticada por especialistas de fora do governo. Em 14 de abril, 22 especialistas publicaram uma carta aberta no jornal Dagens Nyheter afirmando que as “autoridades de saúde pública falharam” e pedindo medidas mais duras.

Na comparação com os vizinhos da Escandinávia, os números suecos são piores. Para verificar isso, o Comprova utilizou estatísticas populacionais do Eurostat, o departamento oficial de estatísticas da União Europeia, e a base de dados sobre casos e mortes provocadas pelo novo coronavírus montada pela Universidade Johns Hopkins, dos EUA.

A Suécia é o maior país da Escandinávia, com uma população de 10,2 milhões de pessoas, quase o dobro de Dinamarca (5,8 milhões), Finlândia (5,5 milhões) e Noruega (5,3 milhões). O país registrou 1.203 mortes até 15 de abril, 3,8 vezes mais que a Dinamarca (309 mortes), oito vezes mais que a Noruega (72 mortes) e quase 17 vezes mais que a Finlândia (72 mortes).

A Suécia tem diversas medidas restritivas em prática. O texto do site “Mix Misturado”, também desinforma ao afirmar que os suecos “não fecharam nada e não proibiram nada” diante da pandemia do novo coronavírus, o que não é verdade. Informações retiradas de site oficial do governo da Suécia mostram que o país aplica medidas de prevenção ao menos desde 11 de março, quando decidiu proibir aglomerações e eventos públicos com mais de 500 pessoas.

A restrição foi ampliada no dia 29, quando aglomerações e eventos de 50 pessoas ou mais passaram a ser banidas. A punição para quem organizar esse tipo de encontro vai de multa até 6 meses de prisão, e a polícia está autorizada a dispersar os indivíduos.

Ainda em março, a Agência de Saúde Pública da Suécia recomendou aulas a distância para escolas secundárias e de educação para adultos, faculdades e universidades — afetando estudantes com mais de 16 anos. Escolas primárias (6 a 16 anos) e pré-escolas não foram incluídas na medida e podem operar normalmente.

O governo também sugeriu a adoção de home office aos trabalhadores, principalmente na região de Estocolmo, e proibiu aglomerações em restaurantes, bares e cafés — os clientes precisam comer e beber sentados, mantendo distância uns dos outros, ou levar as mercadorias para casa. Autoridades locais podem fechar estabelecimentos que não cumprirem as regras desde o dia 25 de março.

As viagens pelo território sueco foram desaconselhadas pelos órgãos de saúde, sobretudo em zonas metropolitanas. Já para os cidadãos com sintomas de Covid-19, a orientação do governo é de que não viajem de qualquer maneira. Atualmente, vigoram ainda proibições de viagens não essenciais da Suécia para alguns países da União Europeia e de países de fora da Europa para o território nacional.

No início de abril, o governo da Suécia determinou a proibição de visitas às casas de repousos de idosos, considerado grupo de risco para o novo coronavírus. Diversas localidades do país já haviam introduzido algum tipo de medida restritiva semelhante na ocasião. Pessoas com mais de 70 anos também foram orientadas a evitar farmácias, mercados e eventos sociais.

No último dia 7, diante da escalada do número de infectados no país, o primeiro-ministro da Suécia, Stefan Löfven, encaminhou proposta para que o legislativo autorize medidas mais restritivas de controle do novo coronavírus. O governo afirma considerar limitações temporárias de aglomerações, fechamento de shopping centers e outros estabelecimentos comerciais e suspensão de transporte, entre outras ações, caso a proposta seja aprovada. A ampliação dos poderes seria aplicada durante três meses, entre 18 de abril e 30 de junho.

Viralização

Desde a publicação, o link do site Mix Misturado teve mais de 21 mil interações no Facebook e 11,5 mil no Twitter, de acordo com a ferramenta de monitoramento de redes sociais CrowdTangle. O link para o texto foi compartilhado no Twitter por perfis como @leandroruschel e o do Agora Notícias Brasil pelo perfil @rosedbarros.

Esse conteúdo também foi verificado pelo site Boatos.org.

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Investigado por:2020-04-15

Desembargador e advogados não acionaram Forças Armadas contra STF e governadores

  • Falso
Falso
Forças Armadas não foram chamadas para prender ministros do Supremo Tribunal Federal. Desembargador e advogado negam autoria de petição citada em um vídeo publicado no YouTube

É falsa a informação veiculada em vídeo no YouTube de que as Forças Armadas foram chamadas às pressas para prender ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em função de uma decisão que retiraria poderes e competências do presidente da República.

Publicado em 11 de abril, o vídeo afirma que o jurista Modesto Carvalhosa, o desembargador aposentado Laércio Laurelli e o advogado Luís Carlos Crema acionaram as Forças Armadas contra o STF e governadores. O vídeo atingiu rapidamente 430 mil visualizações.

O conteúdo do vídeo é mais uma versão de boatos que circularam nas redes sociais e aplicativos de mensagem e que citam Laurelli e Carvalhosa como co-autores de uma petição elaborada pela equipe do advogado Luís Carlos Crema para pedir que a União garanta, mediante ação das Forças Armadas, a execução unificada em todo o território nacional de medidas contra os impactos da pandemia do novo coronavírus. A petição foi elaborada no dia 6 de abril.

Já no dia 7 de abril, os juristas em questão fizeram declarações públicas em seus respectivos perfis nas redes sociais negando que tenham entrado em conjunto com a petição. O próprio Crema negou a participação dos juristas em uma postagem em sua página no Facebook. Ele também reafirma que “o objetivo (da petição) é tão-somente que todos os brasileiros tenham tratamento igualitário em todo o território nacional”.

O Comprova verificou o conteúdo de um vídeo publicado no canal Notícias da Hora, no YouTube e postagens no blog do Edgar Ribeiro, no site NBO e em um perfil pessoal no Facebook.

Falso para o Comprova é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos

O Comprova entrou em contato com os três juristas citados. Carvalhosa e Laércio Laurelli já haviam se posicionado em suas redes sociais e negado assinatura da peça. O próprio advogado Luis Carlos Crema escreveu em sua página no Facebook que os outros dois não faziam parte da equipe que redigiu a petição.

O Comprova ainda entrou em contato com o escritório do advogado que confirmou o protocolo da petição junto à Presidência da República.

O que dizem os juristas

Modesto Carvalhosa publicou em seu perfil oficial no Facebook: “Soube que tem circulado uma petição eletrônica, com minha assinatura, que requer ao Presidente da República a intervenção das Forças Armadas em decorrência da pandemia do novo Coronavírus. Não redigi essa petição, não assinei essa petição, não autorizei que ninguém apusesse minha assinatura em tão rematado absurdo.”

Carvalhosa é professor aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Participou da Comissão Especial de Investigação criada pelo então presidente Itamar Franco para apurar o escândalo dos Anões do Orçamento.

No mesmo dia, Luís Carlos Crema confirmou, também em seu Facebook, que a petição não teve o apoio e nem a assinatura de Carvalhosa ou do desembargador Laercio Laurelli. Posteriormente, em entrevista sobre o tema, Crema disse que defende uma intervenção pontual e não que os militares assumam o poder. Crema é advogado e autor de ao menos cinco pedidos de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff.

O terceiro jurista mencionado no vídeo, Laércio Laurelli, é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo. Foi o primeiro secretário-geral do Grupo de Apoio à Justiça e membro do Conselho Consultivo da Comissão de Direito Penal Militar da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo.

Carvalhosa, Laurelli e Crema já compartilharam a autoria de várias petições, incluindo pedido de impeachment contra o presidente do STF, Dias Toffoli, e os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes. Os pedidos, no entanto, são anteriores à crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. Todos foram engavetados pelo Senado. O trio também já pediu o cancelamento do registro de nove partidos acusados na Operação Lava Jato.

Decisão do STF

Respondendo a um pedido da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu no dia 8 de abril que estados e municípios podem estabelecer políticas de isolamento social no combate ao avanço do novo coronavírus. Isso significa que o governo federal não pode interferir nessas medidas.

A OAB havia pedido ao STF que obrigasse o presidente Jair Bolsonaro a respeitar as decisões dos governadores; não interferir no trabalho técnico do Ministério da Saúde; e seguir o protocolo da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em sua decisão, o ministro cita a existência de “grave divergência de posicionamentos entre autoridades de níveis federativos diversos e, inclusive, entre autoridades federais componentes do mesmo nível de governo, acarretando insegurança, intranquilidade e justificado receio em toda a sociedade”.

Moraes diz ainda que “Não compete ao Poder Executivo federal afastar, unilateralmente, as decisões dos governos estaduais, distrital e municipais que, no exercício de suas competências constitucionais, adotaram ou venham a adotar, no âmbito de seus respectivos territórios, importantes medidas restritivas (…) reconhecidamente eficazes para a redução do número de infectados e de óbitos, como demonstram a recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde) e vários estudos técnicos científicos”.

Divergências com governadores

As divergências entre os poderes Executivos federal e estadual começaram no início de fevereiro, quando Bolsonaro desafiou os chefes dos entes a zerar o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), dizendo que estava preparado para zerar os impostos federais sobre os combustíveis como resposta.

O pano de fundo do comentário do presidente envolvia pressões para que o preço da gasolina nos postos caísse, acompanhando os cortes anunciados pela Petrobras no valor do combustível às refinarias.

Foi uma questão de dias até que o clima de tensão entre Bolsonaro e os governadores atingisse um novo pico, mas, desta vez, relacionado às estratégias de combate à disseminação da Covid-19 no país.

“Estão tomando medidas, no meu entender, exageradas. Fecharam o aeroporto do Rio de Janeiro. Não compete a ele, meu Deus do céu! Parece que o Rio de Janeiro é um outro país.”, disse Bolsonaro, no dia 20 de março, diante da intenção do governador Wilson Witzel de isolar o Rio para transportes de passageiros.

Bolsonaro já se posicionou diversas vezes contra o isolamento social e entrou em atrito com governadores que adotaram medidas de restrição aos transportes e ao comércio. Ele foi alvo de críticas de seu ex-aliado Ronaldo Caiado (DEM), governador de Goiás, e trocou acusações com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), durante uma reunião com os governadores do Sudeste.

Artigo 142

O vídeo também sugere que uma eventual intervenção militar seria sustentada pelo artigo 142 da Constituição, o que também é falso, já que a lei brasileira não permite que uma decisão desse tipo seja tomada somente pelo Executivo, sem o aval do Congresso.

Não é a primeira vez que esse artigo surge de forma distorcida em conteúdos virais. Ele diz o seguinte: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. Em outras palavras, o que a lei quer dizer é que o presidente da República é o chefe maior das Forças Armadas.

Viralização

O vídeo publicado no canal Notícias da Hora YouTube tinha 466 mil visualizações no dia 15 de abril. O post do site NBO teve 55 mil interações no Facebook e 733 no Twitter. informação também foi replicada em um perfil pessoal no Facebook, que teve mais de 15 mil compartilhamentos.

A verificação desse conteúdo também foi feita pelo site Boatos.org e pela Agência Lupa.

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Investigado por:2020-04-14

Acusação de que China contaminou máscaras com coronavírus foi inventada por autor de áudio

  • Falso
Falso
Em contato com o Comprova, o responsável por uma gravação que viralizou no WhatsApp disse que a fonte de suas alegações era “ele mesmo” e que a prova era “o próprio áudio”

Circula em grupos de WhatsApp um áudio em que um homem afirma que as máscaras de proteção exportadas pela China estão infectadas com o novo coronavírus. A alegação é falsa. O Comprova entrou em contato com o autor da gravação, que não ofereceu nenhuma evidência de que isso seja verdade. Ele também não citou fontes que corroborassem sua teoria.

A reportagem também consultou o médico infectologista Jean Gorinchteyn, do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, que classificou o boato como “bobagem”. O especialista afirmou ser impossível que as máscaras chegassem infectadas da China. “Pelo tempo que demoraria a produção e o transporte da máscara, o vírus não sobreviveria”, explicou ele.

Um estudo publicado na revista científica The New England Journal of Medicine aponta que o SARS-CoV-19 (nome oficial do novo coronavírus) pode ser detectado por até 72 horas em superfícies de plástico e até 24 horas em papelão. Os pesquisadores concluíram que a quantidade de vírus cai exponencialmente ao longo do tempo.

No dia 8 de abril, o Ministério da Saúde anunciou ter comprado da China 240 milhões de máscaras para proteger profissionais de saúde que atendem pacientes com a covid-19. A encomenda tem 960 toneladas, que serão transportadas em quarenta voos que chegarão ao Brasil em duas semanas. Desde o anúncio, boatos sobre contaminação de máscaras têm circulado em aplicativos de mensagens e em perfis, páginas e grupos de redes sociais.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos

O autor do áudio fala seu nome e diz ser cantor, compositor e estudante de Medicina. O Comprova encontrou um canal do YouTube que atendia à descrição feita no áudio e entrou em contato com o número de telefone divulgado na página.

O Comprova também consultou o médico infectologista Jean Gorinchteyn, do Hospital Emílio Ribas, para saber da possibilidade de contaminação de máscaras por coronavírus.

Quem é o autor do áudio

A voz no áudio se identifica como Rodrigues Filho. Por telefone, ele afirmou que a fonte de suas alegações sobre máscaras importadas da China era “ele mesmo” e que a prova era “o próprio áudio”.

O cantor disse ainda que todas as pessoas que estão com coronavírus foram infectadas por máscaras chinesas. A reportagem perguntou se ele tinha realizado testes em máscaras ou se ele mesmo tinha sido infectado, mas Rodrigues negou.

Por WhatsApp, o Comprova voltou a pedir provas ao cantor, mas ele não ofereceu nenhuma evidência de qualquer tipo.

Viralização

O áudio foi distribuído em 43 grupos de WhatsApp monitorados pelo Monitor de WhatsApp da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) nos dias 10 e 11 de abril. Conteúdo semelhante foi encontrado em dezenas de páginas e grupos no Facebook e em publicações no Twitter.

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Investigado por:2020-04-09

Hospital nega que tenha tratado o “primo Antonio Carlos”

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Falso
Hospital Unimed-Rio nega que tenha atendido paciente chamado Antonio Carlos, de 67 anos, curado da covid-19 com cloroquina, características descritas em um tuíte que viralizou.

O Hospital Unimed-Rio nega que um paciente com as características descritas em um tuíte que viralizou nas redes sociais tenha sido tratado na instituição. O paciente seria um homem chamado Antonio Carlos, de 67 anos, primo do autor do tuíte, e que teria sido curado da covid-19 com o uso do medicamento cloroquina no hospital localizado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

O autor do post afirma que tinha acabado de sair do Hospital Unimed da Barra, onde o “primo Antonio Carlos de 67 anos”, detectado há 16 dias com covid-19, havia sido curado após tratamento com cloroquina.

A mensagem viralizou e foi copiada por uma série de perfis no Twitter e também no Facebook. Muitas pessoas reuniram os posts de diferentes contas das redes sociais para ironizar a quantidade de primos que Antonio Carlos possuiria.

Alguns perfis perguntaram ao autor do post original se ele tinha parentesco com outras pessoas que publicaram o mesmo post, dizendo ser primas de “Antonio Carlos”.

O Comprova verificou a veracidade do conteúdo publicado no Twitter pelo perfil @marcelloneves72 no dia 7 de abril. O perfil tinha 45 mil seguidores na tarde do dia 9 de abril.

Nesta quarta-feira, 8 de abril, Marcello voltou a afirmar, em resposta a uma publicação do presidente Jair Bolsonaro no Twitter a respeito do uso de hidroxicloroquina, que seu primo havia sido curado pelo medicamento.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos

Para verificar o conteúdo da mensagem, o Comprova entrou em contato com a Unimed-Rio. Por email, a Instituição informou desconhecer “o referido atendimento ao paciente Antonio Carlos, de 67 anos, diagnosticado com a covid-19”. Questionada se algum paciente tinha sido curado ou tratado com cloroquina na unidade, a Unimed-Rio disse que “segue todas as orientações do Ministério da Saúde para o tratamento dos casos suspeitos ou confirmados da doença”.

O Comprova também tentou falar com Marcello Neves para saber sobre o “primo Antonio Carlos”. A equipe encaminhou mensagens pelo Twitter, que não foram respondidas. Logo em seguida, Marcello restringiu o acesso à sua conta na rede social.

A cloroquina tem sido alvo de debate no país para o tratamento da covid-19. O presidente Jair Bolsonaro tem tratado o medicamento como uma possibilidade de cura da doença e incentivado o uso pelos médicos para acabar com o isolamento social.

A substância, juntamente com a hidroxicloroquina, tem sido administrada em pacientes infectados pelo novo coronavírus por instituições brasileiras e internacionais, mas ainda não há elementos científicos suficientes que assegurem a sua eficácia. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem alertado para os efeitos colaterais do uso indiscriminado do medicamento, como arritmia cardíaca.

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A mensagem publicada no Twitter tinha 12,5 mil curtidas e 3,7 mil retuítes na tarde da quinta-feira, 9 de abril.

A verificação desse conteúdo também foi feita pelo site Catraca Livre.

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Investigado por:2020-04-09

É falso que o Hospital das Clínicas de São Paulo não tenha pacientes com covid-19

  • Falso
Falso
Um vídeo que circula pelas redes sociais mostra imagens de outro hospital, que fica em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Ele também tem pacientes internados com a covid-19

É falsa a alegação que circula em vídeos compartilhados no Facebook e em canais no YouTube de que o Hospital das Clínicas de São Paulo não tem nenhum paciente infectado pela covid-19 – doença causada pelo novo coronavírus – internado na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). Até 7 de abril, a instituição já tinha recebido 256 pacientes com covid-19, sendo que 120 deles estavam internados na UTI.

As imagens que circulam como sendo do HC de São Paulo foram feitas em 3 de abril, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, a 310 quilômetros da capital. No dia da gravação, 11 pacientes infectados pela covid-19 estavam internados no HC-FMRP, todos em estado grave.

O Comprova verificou o conteúdo do vídeo em postagens em um perfil pessoal e na página Eu sou mais Brasil, no Facebook, e no canal Paulo Pavesi no Brasil, no YouTube.

Falso para o Comprova é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos

O Comprova entrou em contato com a assessoria de imprensa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, maior hospital público da América Latina, que sugeriu que as imagens poderiam ser do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Também fizemos contato com a assessoria de imprensa do HC-FMRP. Ambas instituições são administradas pela Universidade de São Paulo.

Também tentamos entrar em contato com as pessoas que publicaram o vídeo com informações falsas nas redes sociais.

Quem é o autor da publicação?

O Comprova conversou com autor da postagem no Facebook que trazia o vídeo que mais teve compartilhamentos. Trata-se de um homem, de Cuiabá. Ele afirmou que recebeu o conteúdo pelo WhatsApp e resolveu postar em seu perfil. Disse que não sabia quem era o autor das imagens.

O vídeo mais antigo que o Comprova encontrou foi postado no YouTube em 5 de abril. O autor também postou as imagens no Facebook. Ele não respondeu às nossas tentativas de contato.

A assessoria de imprensa do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto informou ao Comprova que conseguiu identificar o homem responsável pela gravação das imagens, mas não quis informar de quem se trata. Segundo o hospital, ele não conversou com nenhuma funcionária da instituição, ao contrário do que afirma no vídeo. O departamento do jurídico do HC-FMRP estuda tomar providências contra a pessoa que fez a gravação.

Onde as imagens foram feitas?

A pessoa que gravou o vídeo afirma que está “no balcão 5 do Hospital das Clínicas de São Paulo”, mas não esclarece que as imagens foram feitas no HC de Ribeirão Preto, e não no da capital paulista. Até a quarta-feira, 08 de abril, havia 4946 casos confirmados de covid-19 na cidade de São Paulo e apenas 36 em Ribeirão Preto, como informa um balanço do governo do Estado.

O “balcão 5” é um corredor de acesso ao ambulatório geral do HC-FMRP. O movimento nesta área é baixo atualmente porque apenas os doentes graves estão sendo atendidos. Casos de menor complexidade estão sendo reagendados para priorizar o combate ao novo coronavírus.

Com isso, o número de consultas caiu de 3.000 para 500 por dia. “As medidas foram tomadas para proteger os pacientes que fazem parte dos grupos mais vulneráveis ao coronavírus”, afirmou, por e-mail, a assessoria de imprensa do HC-FMRP Até o momento da checagem, no dia 08 de abril, 11 pacientes infectados com a covid-19 permaneciam internados no hospital.

O diretor do HC-FMRP, Antonio Pazin Filho, publicou um vídeo em que esclarece como funciona a triagem dos pacientes que chegam ao hospital. “Nós estamos, com isso, demonstrando que estamos nos preparando para enfrentar essa pandemia e tudo que não precisamos neste momento são fake news divulgadas da forma irresponsável como foram feitas nessa última vez”, afirma.

Viralização

A postagem no Facebook com o vídeo e que mais viralizou foi compartilhada, 2,2 mil. No YouTube, o vídeo mais antigo foi postado em 5 de abril, dois dias depois que as imagens foram captadas, e teve 10.704 visualizações até a quarta-feira 8 de abril. O homem que publicou o vídeo no YouTube também postou as imagens no Facebook, mas elas foram compartilhadas apenas 35 vezes até a data.

O conteúdo verificado pelo Comprova também foi publicado em outras contas de Twitter, Facebook e YouTube, todas com menos de 100 compartilhamentos até o dia 8 de abril. Entre o dia 5 e o dia 7 também foram publicados no YouTube ao menos dez vídeos com o mesmo tom alarmista denunciando hospitais vazios em Juiz de Fora (MG), Maringá (PR), Taguatinga (DF), além de outro vídeo que visitava unidades de atendimento de saúde menores em Ribeirão Preto.

Verificação

Investigado por:2020-04-09

Vídeo de grupo bolsonarista engana ao falar em “mobilização nacional para a reabertura do comércio”

  • Enganoso
Enganoso
Não existe um movimento organizado para a abertura do comércio ou a realização de promoções nesta semana

O vídeo que divulga a “Semana Nacional de Reabertura do Comércio” e a “Semana Bolsonaro” tem informações enganosas sobre uma mobilização nacional para a retomada das atividades comerciais no país. Não existe um movimento organizado para a abertura do comércio ou a realização de promoções nesta semana.

No último domingo, 5 de abril, um grupo denominado “Soberanistas” postou no Youtube um vídeo anunciando a reabertura do comércio com promoções a partir do dia 7 de abril, chamada de “Bolsonaro Week”. A mensagem propunha que todos os estabelecimentos abrissem as portas e que consumidores saíssem às ruas para fazer compras, apesar da política de isolamento social que vem sendo adotada no país como estratégia de combate à pandemia de covid-19 – doença causada pelo novo coronavírus.

O Comprova apurou e não encontrou indícios de qualquer organização nacional de empresários e comerciantes ou a articulação de uma “Black Week”. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) afirmam que o isolamento social é uma medida essencial para o combate à pandemia do coronavírus durante o estágio de transmissão comunitária da doença — fase que o país atingiu em 20 de março.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos

Para realizar esta checagem, o Comprova usou a base de dados Brasil.io, um repositório de dados públicos, e fez buscas em redes sociais e no site da Receita Federal.

Também foram consultadas notas técnicas da Sociedade Brasileira de Infectologia, e transcrições de entrevistas concedidas por representantes da OMS, sobre a covid-19, e ouvido um porta-voz da Ordem dos Advogados do Brasil. Foram ouvidas a Confederação Nacional do Comércio (CNC) e uma das fundadoras do grupo Soberanistas, que protagoniza o vídeo em questão.

O que é o grupo “Soberanistas”?

Na seção de perguntas do blog oficial do movimento, o grupo apresenta-se como um think tank que trabalha a partir da criação de células locais, no ambiente digital, promovendo o “protagonismo histórico, político e cultural, via integração da população total em torno de valores chaves do conservadorismo.

Na página dos “Soberanistas” no Facebook, o grupo também se identifica como conservador e reafirma sua “lealdade” ao presidente Jair Bolsonaro, além de afirmar ter “o professor Olavo de Carvalho como referência”.

Apesar das frequentes indicações de apoio e concordância, por parte do grupo, às ideias de Olavo de Carvalho, o guru bolsonarista negou qualquer relação com o movimento.

O Comprova também entrou em contato com o grupo por mensagem, no Facebook. Recebeu um número de telefone identificado como sendo de um dos responsáveis pelo grupo. O número pertence a Valquíria Lopes, que confirmou ser a pessoa que aparece no vÍdeo que divulga a “Semana Bolsonaro”.

Valquíria Lopes

A mulher que aparece no vídeo dos “Soberanistas” é Valquíria Lopes, fundadora e coordenadora nacional do grupo.

Em seu perfil pessoal no Facebook, ela tem vários posts e fotos em apoio a Bolsonaro, e uma foto de Olavo de Carvalho como figura de capa.

Valquíria Lopes concordou em conceder uma entrevista, pelo WhatsApp, sobre o movimento e o vídeo que viralizou. Ela diz que em todo o Brasil muitas pessoas apoiam a ideia de reabertura do comércio. “Empresários e trabalhadores estão angustiados e com medo de perderem tudo que construíram ao longo da vida”, afirmou.

Val Lopes, como ela se apresenta no vídeo verificado pelo Comprova, é de Ourinhos, no interior de São Paulo, cidade que adotou restrições ao setor de comércio e serviços por causa da covid-19. Ela, que já foi empresária e hoje diz trabalhar como autônoma, avalia que a proposta da Bolsonaro Week foi uma tentativa de evitar o colapso econômico no país durante o período de pandemia.

A mulher aparece em todos os vídeos publicados no blog dos Soberanistas e em vários outros disponíveis no canal do grupo no YouTube.

Nesta quinta-feira, Val Lopes publicou novo vídeo nas redes sociais, afirmando estar sendo processada pelo Ministério Público do Ceará por conta do vídeo da Bolsonaro Week. Ela mostra, ao fundo, uma delegacia da Polícia Civil onde diz ter ido prestar depoimento. Val teria sido denunciada pelo art 267 do Código Penal que se refere a “Causar epidemia, mediante a propagação de germes patogênicos”. Nesse mesmo vídeo ela afirma que não retirará o conteúdo do Youtube.

A “Bolsonaro Week”

O vídeo publicado pelos Soberanistas fala em “reabertura do comércio” e retomada de serviços, além da realização de promoções em todo o país, aos moldes de uma “Black Week”.

O Comprova entrou em contato com a Confederação Nacional do Comércio (CNC), para saber se existia algum tipo de mobilização nacional para o retorno das atividades comerciais em todo o país, ou para a realização conjunta de promoções no setor. Em nota, a CNC disse que não sabia de qualquer movimento organizado neste sentido. A entidade afirma que tem acompanhado a “evolução do cenário de pandemia do coronavírus e as recomendações das autoridades competentes em relação às medidas de distanciamento social e a forma mais adequada de volta à normalidade, para que possa orientar da melhor forma os empresários do setor.”

No vídeo, Val Lopes fala em retomada das atividades em nome do “direito de ir e vir”, do “direito de comprar” e do “direito de se sustentar”. O Comprova consultou a OAB para saber mais sobre a manutenção de direitos individuais, como os defendidos pelos “Soberanistas”, em um cenário de pandemia como o atual.

Para o Presidente da Comissão Nacional de Estudos Constitucionais da OAB, Marcus Vinícius Furtado Coêlho, “não há o direito individual de cometer crimes.” Segundo Coêlho, “o que o movimento defende é o cometimento de crime contra a saúde pública e a exposição a moléstia contagiosa.” “O caso é de polícia”, completou.

O isolamento físico ou social é, atualmente, uma das principais medidas defendidas pelas autoridades mundiais de saúde. No dia 20 de março, em uma entrevista coletiva sobre o cenário do coronavírus, Michael Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências em Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), respondeu diretamente a uma pergunta sobre as medidas adotadas no Brasil, e reafirmou a importância do isolamento.

“Quando a doença chega a um determinado estágio, principalmente na transmissão comunitária, não é mais possível identificar todos os casos ou todos os contatos [com doentes] que você pode mover e separar do restante das pessoas”, explica. Segundo o médico, “você cria distância física entre todos, porque não sabe exatamente quem pode estar contaminado pelo vírus”. [tradução livre]

As orientações da Sociedade Brasileira de Infectologia também são no mesmo sentido. Em uma das notas técnicas publicadas, a entidade criticou um pronunciamento do presidente que falava em afrouxamento de medidas restritivas, e afirmou que “do ponto de vista científico-epidemiológico, o distanciamento social é fundamental para conter a disseminação do novo coronavírus”.

“Quando a covid-19 chega à fase de franca disseminação comunitária, a maior restrição social, com fechamento do comércio e da indústria não essencial, além de não permitir aglomerações humanas, se impõe. Por isso, ela está sendo tomada em países europeus desenvolvidos e nos Estados Unidos da América”, assinou o presidente da entidade, Clóvis Arns da Cunha.

As medidas de distanciamento social já foram inclusive defendidas em um documento técnico do Centro de Estudos Estratégicos do Exército, que foi posteriormente apagado do site oficial da instituição.

Junto com o vídeo, o grupo os soberanistas publicou, no Twitter, uma imagem com um “Protocolo Inteligente Pós Isolamento”. Na postagem, é sugerido, entre outros pontos, que “quem puder ficar em casa, fique”, que todos cuidem da proteção individual e que grupos de risco fiquem isolados. Esta última sugestão faz referência à ideia de “isolamento vertical”, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro. A prática já foi analisada por vários especialistas, que afirmam que ela não é uma solução eficaz para a pandemia da covid-19.

Sobre a utilização do nome do Presidente Jair Bolsonaro para nomear a iniciativa, o Comprova procurou o Palácio do Planalto, mas não obteve resposta até o fechamento deste texto.

Viralização

No YouTube, o vídeo no canal dos Soberanistas teve, até a tarde desta quinta-feira, 09/04, 124 mil visualizações, com 34 mil reações negativas e 746 positivas.

O vídeo recebeu muitas críticas também nas redes sociais. No Twitter, quase todas as manifestações eram de repúdio à iniciativa de retorno do comércio em um tipo de “Black Friday” fora de época. O vídeo foi retirado após denúncias.

No Facebook do grupo Soberanistas o vídeo também não está mais disponível desde o meio da tarde desta quarta-feira (8). Não é possível dizer se ele foi apagado propositalmente ou retirado do ar.

Outras pessoas, no entanto, republicaram o mesmo conteúdo em suas redes sociais. Um dos vídeos foi, inclusive, compartilhado pelo deputado federal Alexandre Frota (SP), que também criticou a iniciativa.

No dia 7 de abril, a mulher que aparece no conteúdo que trata da Bolsonaro Week, Val Lopes, ironiza as críticas que recebeu, publicou um novo vídeo, no twitter, “agradecendo” o “apoio” de quem chama de “esquerdistas” e “idiotas úteis”.

Sobre as reações que o conteúdo recebeu nas redes sociais Val Lopes disse que houveram, sim, muitas manifestações de apoio e que a repercussão negativa veio de “agressões e ofensas por parte de pessoas que formam grupos organizados da esquerda radical. Essas pessoas são fanáticas, não são pessoas racionais e querem o pior para o país, apenas estão instrumentalizando politicamente a pandemia.”

O conteúdo também foi repercutido pelo portal GaúchaZH.

Verificação

Investigado por:2020-04-08

Nenhum dos homens que aparecem em vídeos criticando isolamento é analista da bolsa NASDAQ

  • Falso
Falso
Vídeos de terceiros, com críticas à política de isolamento social como combate à pandemia do novo coronavírus, foram atribuídos a Marcio Rocha, um suposto analista da bolsa NASDAQ, de Nova York

Postagens nas redes sociais usam o nome de um suposto analista da Nasdaq, a bolsa de valores de Nova York, para impulsionar o compartilhamento de vídeos com críticas à política de isolamento social como combate à pandemia do novo coronavírus. Cada vídeo é diferente, mas todos eles trazem uma descrição com poucas variações: “Este é Marcio Rocha, analista da bolsa Nasdaq, de Nova York, que mora em Oakville, no Canadá.”

Um dos vídeos que circula no Facebook, creditado a Marcio Rocha, é na verdade do economista e master coach Djalma Pinho. Ele confirmou ao Comprova que um vídeo publicado em seu canal no YouTube no dia 30 de março foi compartilhado em um perfil de Facebook e creditado a Marcio Rocha.

O mesmo ocorreu com material gravado por Wilian Tonezi, ativista do Movimento Direita Joinville. Ele teve a parte final de um vídeo publicado em 2 de abril na página do movimento recortada e republicada. A nova postagem, feita em um perfil do Twitter, passa a identificá-lo como Marcio Rocha.

Além desses, a reportagem encontrou mais um vídeo atribuído ao suposto analista da bolsa. Desta vez, o alvo foi a Rádio Bandeirantes de Goiânia. A gravação da edição do dia 2 de novembro de 2019 do Programa Cidade 820 foi republicada na página Notícias Servseg, no Facebook, com legenda que citava Marcio Rocha. Na verdade, o convidado da rádio naquele dia era o youtuber conservador Gustavo Gayer. Ele comentava sobre a cobertura da Rede Globo do caso Marielle.

Há ainda um áudio que circula no WhatsApp e nas redes sociais, também atribuído a Marcio Rocha. Nele, uma voz elogia a gestão do governo Bolsonaro sobre a crise do coronavírus. O Comprova não conseguiu verificar a autoria do áudio.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos

O Comprova identificou vários vídeos atribuídos a Márcio Rocha no YouTube, Facebook e Twitter.

Em uma das gravações, aparece o nome Djalma Pinho. No canal dele no YouTube, verificamos que o vídeo atribuído a Marcio Rocha foi publicado no dia 30 de março com o título “Alarde inconsequente da mídia ou realidade?”. O coach compara o número de casos de coronavírus no Brasil com o de outros países para afirmar que não há motivo para pânico em torno da doença.

Também entramos em contato com Pinho por meio da editora Record, que publicou o livro “Desvende o poder da inteligência espiritual”. Por e-mail, o autor confirmou que o vídeo era de sua autoria.

No segundo vídeo, é mostrado o link para o perfil de Wilian Tonezi. Além disso, ele fala em frente a um painel com a sigla “MDJ”. Acessamos o seu perfil e encontramos o vídeo original. Identificamos que a sigla MDJ refere-se ao Movimento Direita Joinville. A foto do perfil de Tonezi no Facebook mostra que é a mesma pessoa que aparece na gravação.

No vídeo, o ativista de direita critica as medidas de quarentena adotadas por governadores de diferentes Estados do País, que vão de encontro às opiniões externadas pelo presidente Jair Bolsonaro sobre a necessidade de reabertura do comércio mesmo em meio à pandemia do coronavírus.

Por fim, no terceiro vídeo há identificadores da Rádio Bandeirantes de Goiânia e do programa Cidade 820. Na página da emissora de rádio no Facebook encontramos a gravação original, de 2 de novembro de 2019.

O apresentador do programa identifica o entrevistado como professor Gustavo Gayer. No canal do professor no YouTube, é possível confirmar que se trata da mesma pessoa. Na entrevista à Rádio Bandeirantes, Gayer responde a uma pergunta sobre a cobertura da Rede Globo sobre o caso do assassinato da vereadora Marielle Franco. O youtuber diz que a emissora está “pegando pesado” e que a empresa se beneficia quando o país tem mau desempenho econômico.

Quem é Marcio Rocha?

A ferramenta BrokerCheck lista operadores das bolsas dos Estados Unidos, verificados pela Finra, entidade não-governamental independente que regula a área. Há apenas um “Marcio Rocha” entre os operadores, mas o Comprova não conseguiu confirmar se é a pessoa que fala no áudio disseminado nas redes sociais.

A reportagem encontrou o nome Marcio Rocha em ferramentas de busca de indivíduos, como o site Pipl, mas não conseguiu fazer contato com o suposto operador da NASDAQ.

Viralização

O Comprova verifica conteúdos suspeitos compartilhados em redes sociais e aplicativos de mensagem que tenham grande viralização. Os vídeos falsamente atribuídos a Marcio Rocha tiveram, somados, 16,9 mil visualizações até o dia 8 de abril.

O site Boatos.Org também publicou uma checagem sobre os três vídeos.

Verificação

Investigado por:2020-04-07

Orçamento do governo para hospitais não foi desviado para projetos culturais

  • Falso
Falso
O Comprova conferiu a situação de 14 projetos culturais, mencionados em um post no Facebook, que estariam habilitados para captar recursos pela Lei Rouanet. Dois deles não existem e outros oito não conseguiram captar os recursos necessários e foram arquivados. O Comprova não encontrou indícios de que os valores foram retirados do orçamento da Saúde como sugere a publicação

Uma imagem que circula pelas redes sociais atribui a um desvio de orçamento para projetos culturais uma suposta falta de dinheiro para os hospitais brasileiros. A publicação, além de mostrar uma série de projetos e os supostos valores destinados a cada um deles, ainda traz os dizeres: “Toma um calmante, senta e lê isso”.

O texto é semelhante a outros que circulam nas redes sociais pelo menos desde 2018 e voltou a ser compartilhado em meio à pandemia do novo coronavírus. Algumas publicações já alegavam que os recursos para os projetos causaram falta de dinheiro para hospitais. Em outras, que os valores poderiam ser usados para salvar o Museu Nacional, no Rio de Janeiro – que sofreu um incêndio em 2018 e teve parte de seu acervo de 20 milhões de itens destruído.

O Comprova conferiu a situação dos projetos culturais mencionados no texto. Em 12 dos 14 itens apontados na lista os dados usados são de projetos que realmente existem e foram habilitados para captação de recursos pela Lei de Incentivo à Cultura, mais conhecida como Lei Rouanet.

Oito deles, porém, não conseguiram captar os recursos suficientes e foram arquivados. Outros precisaram arrecadar apenas parte do total autorizado pelo governo. Os valores citados na lista também não são exatamente iguais aos que foram apresentados nos projetos culturais. A lista mostra, ainda, projetos cadastrados entre 2010 e 2018.

O Comprova não encontrou indícios de que os valores destinados aos projetos culturais foram retirados do orçamento da Saúde. Cabe salientar que, sendo a lei Rouanet uma lei de incentivo fiscal, não há repasse direto de valores do orçamento do Ministério da Cultura para os responsáveis pelo projeto. Cabe ao ministério apenas autorizar a captação por parte do idealizadores dos projetos junto às empresas.

O Comprova verificou o conteúdo de uma imagem publicada em 30 de março em um perfil pessoal no Facebook e encontrou o mesmo conteúdo em contas de Twitter, Pinterest e Facebook. A versão mais antiga da postagem foi encontrada no “Portal da Direita do Brasil”. Posteriormente, a publicação foi apagada da página.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos

A maior parte dos projetos listados no boato consta na plataforma VerSalic, ferramenta do Governo Federal que informa quais projetos culturais foram habilitados para receber incentivos fiscais. Também foram consultadas reportagens que abordam os temas listados e a Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Os leitores podem refazer o caminho da verificação acessando os links para visualizar os conteúdos da apuração.

Confira a verificação de cada item da lista

Livro sobre a vida de José Dirceu (R$1.526.536,25): NÃO REALIZADO

Não houve a intenção de se fazer um livro sobre o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. Em 2013 diversas notícias diziam que foi aprovada a captação de R$ 1,5 milhão para realizar um filme sobre ele. De acordo com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), essa quantia era o valor total da obra que poderia ser captada de diversas formas de financiamento. Pela Lei Rouanet nenhum recurso foi destinado e o projeto foi cancelado.

DVD de Mc Guimé (R$ 516 mil): NÃO REALIZADO

Houve um projeto aprovado para um DVD do Mc Guimê em 2015, com o registro de 14 músicas em um show na cidade de São Paulo. No entanto, o projeto de R$ 516.550 não teve recursos captados e foi arquivado.

Livro de poesia de Maria Bethânia (R$ 1,3 milhão): NÃO REALIZADO

O projeto original do blog “O mundo precisa de poesia”, de Maria Bethânia, é de 2010. Ele tinha permissão para captar R$ 1.356.858. Essa quantia, no entanto, não foi atingida e o projeto foi arquivado por excesso de prazo. Após o projeto gerar críticas nas redes sociais, a artista desistiu de criar o blog de poesia.

Turnê de Luan Santana (R$ 4,1 milhões): NÃO REALIZADA

O projeto “Luan Santana – Turnê: Nosso Tempo é Hoje – Parte II” foi aprovado para captação de recursos em 2014. Ele poderia receber até R$ 4.143.325, mas não arrecadou nada. Ele foi arquivado pelo próprio proponente.

Turnê Detonautas (R$ 1 milhão): NÃO REALIZADA

A banda Detonautas teve um projeto aprovado para captar recursos pela Lei Rouanet no valor de R$ 1.086.214,40. Ele foi aberto em 2013, mas arquivado por excesso de prazo sem captação.

Shows de Cláudia Leitte (R$ 5,8 milhões): REALIZADO, COM RESSALVAS

Um projeto para a realização de 12 shows da cantora Cláudia Leitte, em 2012, foi aprovado para captação de R$ 5.883.100. A cantora conseguiu captar R$ 1,2 milhão na iniciativa privada. Em 2016, porém, o Ministério da Cultura (MinC) reprovou as contas apresentadas pela cantora e pediu a devolução do dinheiro aos cofres públicos. O processo continua em tramitação.

Filme do Brizola (R$ 1,9 milhão): NÃO REALIZADO

Não consta na plataforma Versalic nenhum filme sobre Leonel Brizola (1922-2004), mas sim a montagem do espetáculo “Brizola”, que conta a história do político que fundou o PDT e governou os estados do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. O valor aprovado para captação era de R$ 1.641.506, no ano 2015, mas foi arquivado por excesso de prazo sem captação.

Peppa Pig (R$ 1,7 milhão): NÃO REALIZADO

O objetivo do projeto era a realização de uma turnê do espetáculo infantil Peppa Pig. Aprovado em 2014 para receber captação pela Lei Rouanet, no valor de R$ 1.772.320, o projeto acabou arquivado sem nenhuma captação.

Painel do Club São Paulo (R$ 5,7 milhões): NÃO REALIZADO

A proposta era a criação de um painel artístico de difusão cultural nos segmentos da música, dança e artes cênicas, dentro e fora do espaço físico do Club A São Paulo. O projeto, de 2011, no valor de R$ 5.714.399,96, não teve nenhuma quantia captada e foi arquivado por excesso de prazo.

Turnê Shrek, o Musical (R$ 17,8 milhões): REALIZADO COM MENOR VALOR

Em 2010, foi aprovada a captação de recursos para o espetáculo “Shrek, o musical”, no valor de R$ 8.260.620. O projeto conseguiu captar R$ 6 milhões de empresas como a Vivo e o Bradesco. Dois anos depois, em 2012, foi aprovada outra captação de R$ 9.618.120. O projeto levantou um total de R$ 5,36 milhões em sete empresas, entre elas os Correios e BrasilCap Capitalização. As duas prestações de contas foram aprovadas.

Cirque du Soleil (R$ 9,4 milhões): REALIZADO

Em 2006, a empresa CIE Brasil propôs a turnê brasileira do grupo canadense Cirque du Soleil, O projeto era de R$ 22,3 milhões, mas o Ministério da Cultura (MinC) liberou apenas uma parte (R$ 9,4 milhões) para captação via Lei Rouanet.

Livro do Chico Buarque (R$ 414 mil): REALIZADO COM MENOR VALOR

O projeto mais recente da lista é a produção de um livro fotobiográfico sobre a vida e a obra do artista Chico Buarque. A proposta é de 2018 e teve aprovação para captar até R$ 415.958,04. Conseguiu R$ 280.000,29 da empresa Icatu-Hartford e agora está na fase de prestação de contas.

Queermuseu (R$ 800 mil): REALIZADO

A Queermuseu é uma exposição que teve dois projetos aprovados para captação. Um é de 2013 no valor de R$ 539.043,60, mas não obteve recursos e foi arquivado por excesso de prazo sem captação. O outro é de 2016 no valor de R$ 872.560. Este conseguiu captar R$ 800 mil, a maior parte do Banco Santander. A exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, que apresentava trabalhos que discutiam diversidade de gêneros e de sexualidade, foi cancelada pelo banco após uma série de protestos.

Museu Lula (R$ 7.9 milhões): EM TRÂMITE

O projeto do Museu do Trabalho e do Trabalhador, como seria chamado o Museu Lula, é de 2013 e poderia captar R$ 19.859.580,43 pela Lei de Incentivo à Cultura. Conseguiu arrecadar R$ 3,6 milhões da construtora OAS e da Vale. O projeto, no entanto, está parado e com a prestação de contas reprovada. Em 2018, faltando dez dias para deixar o cargo, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, autorizou que o prédio onde seria construído o museu, em São Bernardo do Campo, fosse ocupado por uma Fábrica de Cultura.

Entenda a Lei Rouanet

Criada em 1991, a Lei Rouanet, hoje chamada de Lei de Incentivo à Cultura, é o principal mecanismo de fomento à cultura no Brasil. Ela autoriza empresas a destinar parte de seu Imposto de Renda a pagar para projetos culturais. Para isso, o proponente deve ter seu projeto submetido ao órgão federal responsável pela cultura (atualmente a Secretaria Especial de Cultura, vinculada ao Ministério do Turismo).

Se o projeto é aprovado, é o próprio proponente que deve buscar apoio financeiro diretamente junto aos investidores culturais. Os repasses não são feitos pelo Governo Federal, mas pelos incentivadores cadastrados.

A lei sofreu alterações em 2019. A principal mudança foi a redução no valor máximo para captação por projeto, de R$ 60 milhões, caiu para R$ 1 milhão. No caso das carteiras – que são o conjunto de projetos apresentados por uma empresa ou por um grupo de empresas com sócio em comum – o teto caiu de R$ 60 milhões para R$ 10 milhões.

Saiba como se dá a aprovação de um projeto pela Lei de Incentivo à Cultura:

1) Apresentação de proposta: o proponente, responsável pelo projeto, insere uma proposta cultural no Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic), de forma eletrônica.

2) Análises: A proposta passa por uma série de análises antes da decisão final quanto à sua aprovação ou rejeição.

3) Captação: após a aprovação do projeto, cabe ao proponente encontrar as empresas que apoiarão a ideia. Quando conseguir captar 20% do valor total aprovado, pode iniciar a execução da proposta.

4) Execução: é a realização do projeto, quando o proponente entra em contato com fornecedores, artistas e outros prestadores de serviço que irão ajudar a executar a proposta. Também envolve a realização em si do espetáculo, show, festival, montagem e visitação de exposições, impressão de livros, etc.

5) Prestação de contas: após o término do projeto, o proponente precisa prestar contas de tudo o que foi realizado. É preciso comprovar como os recursos foram aplicados, se os objetivos e resultados do projeto foram alcançados, quantas pessoas foram atingidas, qual foi a contrapartida social oferecida – tudo acompanhado por notas fiscais, comprovantes de transferência, panfletos, anúncios, matérias de jornal, fotos, etc

Incentivos

Segundo dados do governo Federal, somente em 2017 houve R$ 1,15 bilhão em incentivos fiscais à cultura. Em 2018, esse número foi de R$ 1,2 bilhão. Se forem somados os valores dos dez anos entre 2009 e 2018, o total de incentivos fiscais para projetos culturais foi de R$ 10,66 bilhões.

“Não é verdadeira a informação de que os recursos destinados aos hospitais serviram para o financiamento público de projetos culturais. Salienta-se que o orçamento público é definido pela Lei Orçamentária Anual (LOA) encaminhada pelo Executivo e votada pelo Congresso Nacional”, informou em nota o Ministério da Cidadania.

Os números da saúde são bem mais expressivos que os da cultura no Brasil. A Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2020 tem previsão de R$ 125 bilhões para o Ministério da Saúde. Somente para fortalecer a rede pública de saúde no enfrentamento ao novo coronavírus (covid-19), foram acrescentados R$ 14,5 bilhões ao orçamento deste ano. Isso foi possível através de duas medidas provisórias, uma em março no valor de R$ 5 bilhões, e outra em abril, de R$ 9,4 bilhões.

Viralização

O conteúdo pelo Comprova foi publicado em 30 de março em um perfil pessoal do Facebook. Até o dia 7 de abril, a publicação já teve 12 mil compartilhamentos. No Twitter, a publicação feita pelo perfil @ernanitec, em 16 de maio de 2019, obteve 1,3 mil retuítes. O Comprova também encontrou publicações em outras contas de Twitter, Facebook e Pinterest e recebeu solicitações de verificação de leitores que receberam a imagem pelo WhatsApp.

Verificação

Investigado por:2020-04-07

Imagem de prédio da FIESP com bandeira da China é usada fora de contexto para relacionar a instituição ao governo chinês

  • Enganoso
Enganoso
Postagens em redes sociais e mensagens em aplicativo usam imagem e link de uma publicação de 2019 para acusar a FIESP de proteger o governo chinês em meio à pandemia do novo coronavírus

São enganosas as postagens nas redes sociais que acusam o governo de São Paulo e a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) de “serem comunistas e protegerem o governo chinês em meio à pandemia do novo coronavírus”. Os posts reproduzem imagens de outubro de 2019 do prédio da instituição na Avenida Paulista, em São Paulo, iluminado com a bandeira da China.

Algumas das publicações no Facebook e no Twitter também trazem o link de uma reportagem da Folha de São Paulo de 2 de outubro de 2019, que diz que a entidade iria exibir a bandeira do país asiático em homenagem aos 70 anos da revolução comunista. A matéria antiga explica ainda que não se tratava de uma iniciativa da própria FIESP, mas que diversos países costumam entrar em contato solicitando a exibição de suas bandeiras. São citados Japão e Itália como exemplos.

Em 2020, a FIESP também projetou a bandeira da China em seu prédio, mas o motivo era outro. A bandeira chinesa foi exibida junto a várias outras de países com maior número de casos confirmados de Covid-19 como Estados Unidos e Itália.

O Comprova entrou em contato com a FIESP, que enviou à reportagem uma nota e o vídeo completo com todas as bandeiras exibidas. “Na última semana, nossa galeria digital prestou homenagem e solidariedade aos povos mais atingidos pelo novo coronavírus. Foram exibidas bandeiras dos países com maior número de pessoas infectadas confirmadas, em gesto humanitário. Foram projetadas em sequência as bandeiras de Alemanha, China, Espanha, Estados Unidos, França e Itália”, diz o comunicado.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado ou que induza a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.

O Comprova verificou mensagens de WhatsApp enviadas para verificação por leitores e postagens com conteúdos similares em vários perfis no Twitter, em páginas e grupos de Facebook.

Como verificamos

Após constatar que o texto da Folha de S. Paulo reproduzido nos últimos dias se tratava, na verdade, de uma publicação de outubro de 2019, o Comprova entrou em contato com as assessorias de imprensa da FIESP e do governo de São Paulo. A FIESP esclareceu que a bandeira chinesa foi projetada na última semana no prédio junto a de outros países e mandou à reportagem o vídeo completo.

FIESP não é ligada ao governo de São Paulo

Algumas das postagens sobre a bandeira da China no prédio da FIESP atacam o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que é acusado de “comemorar o comunismo”. “Comunismo comemorado em SP #ForaDoria. #BolsonaroTemRazao. Isso foi a (sic) 6 meses. Não é de hoje que DoriAna tem seu projeto”, diz um dos posts, que ainda avisa que a matéria da Folha é antiga, mas reproduz o texto mesmo assim.

Há ainda comentários chamando os chineses de “donos do vírus”: “Homenagem aos donos do vírus. Agora vendem respiradores e demais insumos. Valeu São Paulo homenagem aos fabricantes da pandemia”.

Em contato por telefone, a assessoria de imprensa do governo de São Paulo ressaltou que a FIESP não depende do governo de São Paulo e tem total liberdade para ações próprias.

A FIESP representa 130 mil indústrias de São Paulo de diversos setores e “luta pela competitividade da indústria brasileira com reivindicações para diminuir custos de produção e conter a desindustrialização”, como é explicado em seu site oficial.

João Doria pediu para que ataques à China parassem

Os ataques à China vêm se disseminando pelas redes sociais desde o início da pandemia do novo coronavírus por ter sido o país onde foi confirmado o primeiro caso da doença no mundo. Em 19 de março, o governador de São Paulo João Doria (PSDB) rebateu publicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro sobre a China. O filho do presidente havia publicado uma crítica em suas redes sociais no dia 18 de março.

O governador de São Paulo é um dos críticos da postura do presidente Jair Bolsonaro, que defende o fim do isolamento completo da população brasileira no combate ao novo coronavírus. Em São Paulo, João Doria prorrogou a quarentena até 22 de abril. Apenas serviços considerados essenciais estão permitidos funcionar.

“Graças às medidas de isolamento adotadas até aqui, a taxa de ocupação de leitos no estado de SP é de 50% hoje. Sem as medidas de isolamento social, faltariam 3 mil leitos”, escreveu João Doria em seu Twitter em 7 de abril.

Viralização

A imagem e o link da Folha foram compartilhados em dezenas de páginas, grupos e perfis nas redes sociais e em grupos de WhatsApp. O perfil @MBColunista do Twitter obteve 850 interações. A publicação na página Voz da Liberdade Brasil, no Facebook, foi compartilhada 311 vezes e a página Carlos Alberto Brilhante Ustra, também no Facebook, tinha 1.560 interações até a tarde do dia 7 de abril.

Verificação

Investigado por:2020-04-06

Vacina do coronavírus não terá microchip para rastrear a população

  • Falso
Falso
Não há nenhuma notícia de qualquer vacina com microchip em desenvolvimento no mundo como tenta fazer crer uma publicação que viralizou nas redes sociais. E, embora haja uma série de testes clínicos em andamento, ainda não existe vacina contra o coronavírus

Uma teoria conspiratória sobre a covid-19 que tem se espalhado pelas redes sociais alega que as vacinas contra o novo coronavírus terão “microchips” para colher a “identidade biométrica da população”. A tese é falsa. Não há nenhuma evidência que comprove o conteúdo do texto, publicado no blog “Livro das Revelações”.

O texto mistura uma série de informações falsas sobre projetos internacionais de identidade digital, como a Aliança ID2020 e o a2i, e sobre a Aliança Mundial para Vacinas e Imunização (Gavi, na sigla em inglês), entidade que atua para fornecer vacina para países pobres.

O blog reproduz em português trechos de um texto em inglês sobre a mesma teoria conspiratória, publicado em outubro de 2019 no blog “Natural News”. Na mensagem “original”, o coronavírus sequer é mencionado.

Inicialmente, não há notícia de que qualquer vacina com microchip esteja em desenvolvimento no mundo. A informação foi confirmada pelo presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Juarez Cunha, em entrevista pelo telefone.

Cunha também ressaltou que, como tem sido amplamente divulgado pela imprensa mundial, ainda não existe vacina contra o coronavírus. Há uma série de testes clínicos em andamento, mas nenhum concluído até o momento. Segundo a perspectiva mais otimista da comunidade médica, as doses para o combate à covid-19 estarão disponíveis dentro de um ano – esse prazo, contudo, pode ser maior.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos

O Comprova consultou a Aliança ID2020 e a Sociedade Brasileira de Imunizações. Também pesquisou o histórico da Aliança Mundial para Vacinas e Imunização e da a2i (Access to Information, na sigla em inglês). Os links utilizados como fonte de informação estão ao longo do texto.

O que são as entidades mencionadas?

Aliança ID2020

O texto do blog “Livro das Revelações” apresenta a Aliança ID2020 como uma conspiração criada para inserir microchips no corpo das pessoas por meio da vacinação. Isso significaria que a população seria controlada “por meio de uma matriz de identificação global”. Nada disso faz sentido.

Na realidade, a Aliança ID2020 é um projeto anunciado em 2017 pelas empresas Accenture e Microsoft. Lançada como um consórcio público-privado em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU), a iniciativa busca atender o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável para 2030 de fornecimento de identidade legal a toda a população mundial.

De acordo com uma estimativa divulgada pela Microsoft em 2018, uma em cada seis pessoas no mundo não tinha qualquer forma de identificação oficial, dificultando o acesso a direitos humanos básicos, como saúde, habitação e educação.

Por e-mail, a ID2020 informou que o consórcio público-privado trabalha com ações de financiamento e suporte técnico de organizações não-governamentais, corporações e governos. O objetivo é ajudar a implementar soluções de identidade digital, sem qualquer relação com a implantação de microchips nas pessoas.

“Tipicamente, a identidade digital depende de telefones celulares como forma de autenticar a identidade do usuário”, afirmou a ID2020. “Os dados do usuário geralmente são armazenados em uma base de dados descentralizada, para garantir o máximo de privacidade e controle sobre as informações pessoais”.

A teoria conspiratória menciona de maneira descontextualizada três programas da Aliança ID2020 que são reais — nos Estados Unidos, na Tailândia e na Indonésia.

O primeiro é uma parceria com a prefeitura de Austin, no Texas, para fornecimento de identidade digital à população sem-teto. A proposta ainda está em fase inicial.

O projeto tailandês tem parceria com as organizações iRespond e Comitê Internacional de Resgate e tem como objetivo providenciar uma plataforma de identidade digital para os refugiados do acampamento Mae La.

Já na iniciativa na Indonésia, a ID2020 atua com a cooperação das organizações Everest e TNP2K, do governo local, para estabelecer um sistema de identidade digital para 6 mil famílias de baixa renda. Nenhum desses programas, contudo, prevê implantação de microchips.

A ID2020 também negou, por e-mail, que tenha qualquer relação com o desenvolvimento de vacinas. O único projeto da entidade relacionado ao assunto é em parceria com a Gavi (leia mais abaixo). “Nossa missão e mandato são bem delimitados, e não desenvolvemos ou participamos do desenvolvimento de vacinas”, informou.

Gavi

A Gavi foi criada em 2000 com o objetivo de imunizar pessoas sem acesso a vacinas em países pobres. Diferente do que é citado no texto, de que a Aliança Mundial para Vacinas e Imunização “contribuirá para a distribuição dessas supostas vacinas com microchips” com o governo de Bangladesh e outras organizações, esse não é o papel da organização.

A Gavi surgiu por iniciativa da Fundação Bill e Melinda Gates que, no final dos anos 1990, projetava que mais de 30 milhões de crianças poderiam estar em risco porque seus países não tinham dinheiro para a compra de vacinas. A ideia consistiu em reunir parceiros que pudessem financiar as vacinas e incentivar os fabricantes a reduzir os preços.

A aliança se tornou uma parceira mundial de saúde de setores privados e públicos. Hoje, a Gavi faz parte da Aliança Global de Força de Trabalho na Saúde (Global Health Workforce Alliance, em inglês) da Organização Mundial da Saúde, uma parceria que envolve governos, sociedade civil, instituições financeiras, pesquisadores e educadores e mobiliza recursos humanos para a saúde.

Bangladesh, citado no texto do blog “Livro das Revelações”, é um dos países contemplados pelo trabalho da Gavi. Em release divulgado pela Gavi em fevereiro, o país aparece como um dos beneficiados para receber doses de vacinas para imunizar crianças nos próximos seis meses. “Gavi financiará vacinas contra sarampo-rubéola para mais de 15,5 milhões de crianças menores de cinco anos. O governo de Bangladesh também apoiará a vacinação de mais 17 milhões de crianças até nove anos de idade”, diz a nota.

O governo de Bangladesh, a Gavi e a ID2020 também são parceiros para o fornecimento de uma identidade digital de saúde no nascimento ou na primeira imunização de crianças do país. Em contato por e-mail, a ID2020 explicou que o programa facilita os atendimentos médicos da criança e que isso continua pela vida toda.

De acordo com estimativa da entidade, em Bangladesh, apenas 20% das crianças recebem uma certidão de nascimento durante os primeiros cinco anos de vida, enquanto mais de 95% recebem pelo menos uma dose da vacina. O projeto prevê que profissionais de saúde, empregados por organizações comunitárias, facilitem a inscrição para “aumentar a porcentagem de crianças registradas, melhorar os resultados da vacinação e melhorar o acesso aos serviços de saúde durante toda a vida útil”, segundo informou a ID2020 em nota.

A2I

O A2i (Acesso à Informação), também mencionado no texto falso, é um setor do governo de Bangladesh que busca desburocratizar o acesso da população a serviços públicos. Em seu site oficial, menciona até mesmo o quanto as pessoas conseguem economizar em tempo e custos graças à iniciativa. Tudo é atualizado em tempo real e até a finalização do texto, já foram quase “2 bilhões de dias economizados”.

Outro citado na teoria conspiratória, Anir Chowdhury é consultor de políticas da a2i e realmente trabalha para o governo de Bangladesh. Porém, não é possível dizer que as falas atribuídas a Chowdhury na matéria falsa são realmente dele. Desde setembro de 2019, as mesmas declarações atribuídas a ele têm sido reproduzidas em sites não-confiáveis.

O Comprova questionou a a2i sobre as falas atribuídas a Anir Chowdhury, mas não teve retorno até o fechamento deste texto.

Viralização

O texto do blog “Livro das Revelações” obteve 3,8 mil compartilhamentos desde o dia 22 de março.