O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Pandemia

Investigado por: 2022-01-10

Médico usa dados deturpados para dizer que vacina foi causa de abortos

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a afirmação de um médico brasileiro de que um estudo conduzido nos Estados Unidos teria apontado que 82% das grávidas vacinadas contra a covid-19 teriam sofrido aborto no primeiro trimestre de gestação. Além da afirmação deturpada sobre os resultados, os autores da pesquisa ainda destacam na própria publicação que os dados utilizados no levantamento preliminar têm limitações, já que foram adotados sistemas alimentados por pacientes.
  • Conteúdo verificado: Trecho de entrevista de um médico falando que um estudo apontou ocorrência de 82% de abortos entre pessoas vacinadas com a Pfizer no primeiro trimestre de gravidez. O conteúdo circula no Kwai e, a partir dele, no Youtube e Twitter. Sobre o vídeo há a legenda “Pfizer tem poder de barganha, compra tudo e todos, até diretor da Anvisa. 82% de abortos após inoculação em grávidas”.

É enganosa a afirmação feita em vídeo compartilhado no Kwai e em outras redes sociais de que 82% das grávidas vacinadas contra a covid-19 sofreram aborto no primeiro trimestre de gestação em um estudo conduzido nos Estados Unidos e que este seria um motivo para gestantes não serem vacinadas. O percentual não é citado no levantamento.

A pesquisa “Descobertas preliminares da segurança da vacina de mRNA Covid-19 em pessoas grávidas” foi realizada por cientistas ligados ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e à Food and Drug Administration (FDA), todos funcionários do governo dos Estados Unidos, e publicada em 21 de abril de 2021.

O estudo utilizou dados de 3.958 pessoas, que constavam em um sistema de registro de gravidez dos Estados Unidos, chamado V-safe. Na plataforma, podem se inscrever participantes que se autoidentificam como grávidas no momento da vacinação ou até 30 dias depois.

Entre as inscritas, 827 chegaram ao fim do período de gravidez até a publicação do estudo, seja pelo nascimento do bebê ou por aborto. Do total, 104 (12,6%) sofreram abortos espontâneos e houve 712 nascidos vivos (86,1%). Erros em cálculos e interpretações equivocadas do conteúdo do estudo fizeram com que o levantamento fosse usado para espalhar desinformação relacionada à vacinação de gestantes.

Conforme os autores, os dados do estudo são preliminares e não apontam resultados indesejáveis entre as gestantes que receberam vacinas de mRNA covid-19 (método usado pela Pfizer, por exemplo). Os responsáveis pelo documento afirmam que o acompanhamento de gestantes por maior período de tempo – inclusive de grande número de mulheres vacinadas no início da gravidez – é necessário para resultados mais concretos.

O estudo em questão foi publicado em abril de 2021. A vacinação de grávidas é recomendada por órgãos oficiais e entidades que representam médicos que atuam na área. Em outubro, levantamento publicado pelo Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19 mostrou que gestantes com quadros graves da doença e que não se vacinaram têm 5 vezes mais chance de morrer do que as vacinadas.

Além disso, os autores afirmam que os dados apresentam limitações, isso porque a fonte é de sistemas de monitoramento de reações adversas alimentadas pelos próprios pacientes e suscetíveis a erros. A amostra ainda é considerada pequena e não há controle de quantidade de doses aplicadas no grupo.

Outros veículos de checagem – como Agência Lupa e Health Feedback – identificaram que o mesmo estudo é alvo de desinformação desde a publicação, no primeiro semestre de 2021.

No Brasil, a vacinação de pessoas grávidas com o imunizante da Pfizer é recomendada com a orientação de um médico pelo Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela própria Pfizer.

Ouvido pelo Comprova, o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, afirma ser recomendada a imunização em qualquer momento da gestação, assim como a dose de reforço.

Ele destaca que os dados de vigilância pós-licenciamento mostram segurança da imunização neste público e que gestantes fazem parte do grupo de pessoas com maior probabilidade de desenvolver formas graves da doença.

Procurada, a usuária que publicou o recorte da entrevista não respondeu até a publicação deste conteúdo. Já o médico que faz as afirmações diz se basear em um quadro do estudo que foi corrigido e que “suas fontes serão sempre checadas fora (do país)”.

Para o Comprova, é enganoso o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.

Como verificamos?

Inicialmente, o Comprova fez uma busca pelo vídeo original com a entrevista do médico. Em seguida, o médico foi procurado para identificar qual foi o estudo citado por ele e fez a análise do artigo.

Realizando buscas utilizando o Google, identificou verificações antigas e realizadas por agências (Lupa e Health Feedback) sobre o mesmo assunto.

Foram procuradas a Pfizer e a Anvisa.

Em seguida, a reportagem entrevistou Renato Kfouri, diretor da SBIm.

Por fim, o Comprova tentou falar com a pessoa que primeiro publicou o recorte da entrevista viralizado.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 10 de janeiro de 2022.

Verificação

O estudo

No vídeo aqui verificado, o médico José Augusto Nasser dos Santos afirma que a Pfizer tem grande poder de dominar revistas científicas, a ponto de “roubar para si” os artigos, estimulando publicações favoráveis à empresa. Nesse contexto, ele classifica como fraude a publicação que, segundo ele, “autoriza” a imunização contra a covid-19 em gestantes. O neurocirurgião alega que o estudo deveria ter avaliado gestantes vacinadas até a 20ª ou 22ª semana de gestação, mas os pesquisadores incluíram também pessoas imunizadas no último trimestre da gravidez.

Para o médico, esse foi o motivo de o índice de abortamento registrado no estudo ser de 10% a 12%, o mesmo que ocorre em condições normais. O neurocirurgião sustenta, ainda, que quando analisados os dados entre as mulheres imunizadas no primeiro trimestre da gravidez o número de abortos foi de 82%, o que, ele afirma, foi retratado posteriormente. Em 14 de outubro de 2021 foram publicadas correções ao artigo, mas não houve mudanças nos resultados percentuais apresentados.

O Comprova procurou o médico e perguntou a qual artigo ele se referia. Em resposta, Nasser apontou o trabalho “Descobertas preliminares da segurança da vacina de mRNA Covid-19 em pessoas grávidas”, publicado em 17 de junho de 2021 na The New England Journal of Medicine.

Há uma nota do editor, contudo, informando que a publicação original do artigo é de 21 de abril de 2021. Nessa data, haviam passado apenas 54 dias desde a coleta de dados, em 28 de fevereiro de 2021, ou seja, muitas mulheres ainda não haviam terminado a gestação, que possui tempo médio de 280 dias. Não havia, portanto, como saber se a gravidez chegaria ao final com sucesso ou não. Isso é explicado detalhadamente no próprio estudo.

Ao Comprova, o médico manteve a sustentação apresentada na entrevista, dizendo que na análise de aborto entre as vacinadas no primeiro trimestre, a conta final que aparece na tabela seria de 82% e não de 10% a 12% “como eles induziram colocando todas as grávidas na mesma análise longitudinal”.

Em 6 de julho de 2021, contudo, a rede de informações médicas verificadas Health Feedback publicou texto informando que o estudo estava sendo alvo de desinformação originada de um erro de cálculo. No início daquele mês, explica a publicação, começou a circular nos Estados Unidos que a taxa de aborto espontâneo entre mulheres que receberam a primeira dose da vacina entre 30 dias antes da gravidez e 20 semanas de gravidez era de 82%.

A publicação identificou que a afirmação começou a ser propagada por um dos donos de uma academia, multada em R$ 8,5 milhões por continuar funcionando normalmente apesar de o governo de Nova Jersey, nos Estados Unidos, ter decretado funcionamento parcial.

A Health Feedback diz que o proprietário da academia interpretou de forma errada os resultados do estudo e explica de forma detalhada como ele teria chegado ao número de 82% da taxa de aborto entre mulheres vacinadas, apresentando também por que o cálculo não condiz com a realidade.

Para o cálculo, ele comparou o número de abortos espontâneos apresentados no estudo (104) com o total de gestações concluídas entre mulheres vacinadas antes do terceiro trimestre (127) à época da publicação, chegando, assim, ao número de 82% de abortos espontâneos. Da conta do dono da academia foram excluídas, intencionalmente, 700 gestações completas de vacinadas durante o terceiro trimestre.

Conforme explica a análise da Health Feedback, o dono da academia não levou em consideração o fato de que a maioria das vacinadas com até 20 semanas – 2.938 – ainda estava grávida na época da publicação do estudo, ou seja, não se sabe o resultado dessas gestações.

Outro problema diz respeito aos dados disponíveis sobre as 127 gravidezes finalizadas, usadas no cálculo. Desse total de 127, 104 resultaram em aborto espontâneo, 12 em nascidos vivos, um nascido natimorto e 10 em abortos voluntários. O estudo informa que os 104 casos de aborto espontâneo são de gestantes que se vacinaram até a 20ª semana, mas não apresenta em que estágio da gravidez foram vacinadas as demais 23 pessoas. Mesmo assim, o dono da academia utilizou o número completo (127) para o cálculo que resultou em taxa de 82% de abortos entre vacinadas no primeiro trimestre.

Além dos erros no cálculo, os autores do estudo concluíram que, embora não seja diretamente comparável, as proporções calculadas de gravidez adversa e resultados neonatais em pessoas vacinadas contra a covid-19 e que tiveram uma gravidez completa foram semelhantes às incidências relatadas em estudos conduzidos antes da pandemia.

Eles destacam, também, que a análise é preliminar e usa dados relatados por participantes, com informações limitadas sobre outros fatores de risco potenciais para gravidez adversa e resultados neonatais. Não se sabe, ainda, o número total de doses de vacina administradas nas grávidas participantes, o que limita ainda mais a capacidade de estimar as taxas de eventos adversos relatados.

Os autores concluem que os achados preliminares não mostraram alerta de segurança óbvios entre as gestantes que receberam vacinas de mRNA covid-19 e que um acompanhamento mais longitudinal, incluindo o acompanhamento de um grande número de mulheres vacinadas no início da gravidez, é necessário para informar os resultados maternos, da gravidez e do bebê.

A reportagem identificou que o mesmo estudo é alvo de interpretações errôneas há meses no Brasil. Em julho de 2021, a Agência Lupa verificou ser falso um conteúdo viralizado no país utilizando a mesma afirmação feita recentemente por Nasser.

Apontou, ainda, que o site americano LifeSiteNews, conhecido por publicar teorias da conspiração e banido permanentemente do YouTube por esse motivo, também disseminou a subtração errônea dos dados da pesquisa para concluir que 82,6% das mulheres imunizadas antes do terceiro trimestre perderam os bebês. O mesmo texto foi adaptado para o português por um site de extrema-direita.

Dados limitados

Os autores do estudo coletaram os dados da pesquisa de três fontes diferentes. A primeira foi o V-safe After Vaccination Health Checker, uma ferramenta do CDC dos Estados Unidos pela qual as pessoas vacinadas contra a covid-19 podem informar, via smartphone, se houve efeito colateral após a imunização.

A segunda foi o registro de gravidez V-safe pelo qual podem se inscrever participantes que se autoidentificam como grávidas no momento da vacinação ou até 30 dias depois. A partir desse registro, elas são procuradas para responder a perguntas sobre a gravidez e histórico médico.

A terceira foi o Vaccine Adverse Event Reporting System (VAERS), um sistema nacional de alerta precoce para detectar possíveis problemas de segurança em vacinas licenciadas nos Estados Unidos. O sistema é alimentado por relatórios de eventos adversos encaminhados por qualquer pessoa, incluindo profissionais de saúde e fabricantes de vacinas.

No estudo, os autores destacam que a participação no V-safe é voluntária e as informações de registro não estão uniformemente disponíveis em todos os locais de vacinação. Dessa forma, as comparações das proporções de mulheres vacinadas com estimativas publicadas anteriormente são limitadas por prováveis ​​diferenças entre essas populações, sejam em idade, grupo étnico ou outras características sociais, demográficas e clínicas.

Outra limitação observada é que erros na conclusão de pesquisas de saúde V-safe podem resultar na classificação incorreta das participantes como grávidas, já que os dados são fornecidos pelos próprios participantes. Assim, o conteúdo de reações locais e sistêmicas relatadas à plataforma pode incluir relatórios de pessoas não grávidas.

Os dados do registro são preliminares, de uma pequena amostra e descrevem principalmente os resultados neonatais da vacinação no terceiro trimestre, não sendo possível avaliar os resultados adversos que podem ocorrer em associação com exposições no início da gravidez, como anomalias congênitas, porque nenhuma gestante que foi vacinada nesse período teve partos registrados até a publicação.

Além disso, a proporção de grávidas que relataram aborto espontâneo pode não refletir as verdadeiras proporções pós-vacinação porque as participantes podem ter sido vacinadas após o período de maior risco no primeiro trimestre, e as perdas muito precoces da gravidez podem não ser reconhecidas.

Enquanto algumas gestações com vacinação no primeiro e no início do segundo trimestre foram concluídas, a maioria estava em andamento na época da publicação do artigo, e uma comparação direta dos resultados com base no momento da vacinação é necessária para definir a proporção de abortos espontâneos nesta coorte.

Em relação ao VAERS, os autores explicam que este está sujeito às limitações da vigilância passiva. “Apesar dos requisitos de relatórios obrigatórios dos EUA e das orientações do CDC sobre relatórios VAERS, provavelmente há subnotificação substancial de eventos adversos específicos da gravidez e do recém-nascido”, diz a conclusão do estudo.

O Comprova enviou e-mail ao doutor Tom T. Shimabukuro, do Escritório de Segurança de Imunização, Divisão de Promoção de Qualidade de Saúde do CDC, principal autor do artigo, questionando se os dados publicados seguem atuais, mas não obteve resposta.

O vídeo

O vídeo original foi publicado em 19 de dezembro de 2021 no canal de Valéria Scher, que entrevista o médico, e tem duração de 2 horas, 6 minutos e 28 segundos.

O trecho que circulou no Kwai e em seguida no Youtube e no Twitter, é uma junção de duas partes da entrevista: a primeira de 1 hora, 49 minutos e 21 segundos até 1 hora e 51 minutos e a segunda de 1 hora, 51 minutos e 21 segundos até 1 hora, 51 minutos e 33 segundos.

Os poucos segundos subtraídos entre estes dois trechos trazem apenas a entrevistadora pedindo prints do estudo para veicular junto ao vídeo.

O Comprova entrou em contato com responsáveis pelos perfis que divulgaram o conteúdo, mas não houve retorno até a publicação.

O autor

José Augusto Nasser dos Santos é inscrito no Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro e tem como especialização a neurocirurgia. Publica em redes sociais e em um site que mantém conteúdos antivacina no contexto da pandemia de covid-19.

Ele participou, no último dia 3 (terça-feira), da audiência pública promovida pelo Ministério da Saúde sobre a vacinação contra a covid-19 em crianças entre 5 a 11 anos, posicionando-se contrário à medida.

José Augusto Nasser já teve conteúdo removido do Youtube por violar a política sobre informações médicas incorretas da plataforma, informação que ele próprio divulgou em seu perfil no Facebook.

Ao ser procurado pelo Comprova, defendeu a afirmação feita por ele em vídeo alegando que um quadro do estudo foi corrigido e que essa informação é pública, já tendo sido apresentada “por diferentes conferencistas ao redor do mundo”.

Afirmou, ainda, estar sempre apresentando artigos científicos de revistas de impacto junto aos pares no exterior e que suas fontes serão sempre checadas fora do país. “Enquanto houver debate científico eu estou pronto para debater, não fico dando opinião pessoal quando o assunto são dados”, disse.

O Comprova solicitou os prints os quais o médico afirma na entrevista possuir e que comprovariam a afirmação dele, mas esses não foram encaminhados.

Como a vacinação de gestantes foi definida?

Diretor da SBIm, Renato Kfouri explica que a aplicação de vacinas contra a covid-19 em gestantes foi baseada em dois pilares: observação de mulheres vacinadas inadvertidamente (que não sabiam que estavam grávidas) e de gestantes que tinham alto risco de serem contaminadas com a doença, como profissionais de saúde.

Segundo Kfouri, pelo risco da covid-19 e pelo baixo risco teórico das vacinas, essas mulheres se submeteram à vacinação mesmo sem estudos e dados publicados e foram acompanhadas até o nascimento de seus filhos.

O médico afirma que não foram verificados desfechos maternos fetais diferentes dos números já registrados em média na população, ao contrário do argumento enganoso levantado no conteúdo de desinformação aqui verificado. Ou seja, não houve aumento de taxas de malformação, abortamento, parto prematuro, óbito fetal ou de complicações como doença hipertensiva e diabetes gestacional.

De acordo com Kfouri, nos Estados Unidos, onde se concentra a maior parte dos estudos, foi utilizada a vacina Pfizer e a imunização de gestantes foi ampliada para diversos países, como Canadá, nações da Europa e o Brasil. O médico lembra que a vacina AstraZeneca tem raro efeito colateral relacionado à trombose e que houve um único caso registrado no Brasil de uma gestante que recebeu o imunizante e sofreu o fenômeno.

Diante disso, optou-se por não usar vacinas com vetores virais (AstraZeneca e Janssen) em grávidas. “Uma recomendação de precaução, embora não tenha se evidenciado que a gestante tenha esse risco com essa vacina”, disse o médico.

Kfouri afirma que a imunização contra a covid-19 é recomendada em qualquer momento da gestação, assim como a dose de reforço. Mulheres que não estavam grávidas quando receberam a primeira dose devem tomar a segunda ou o reforço mesmo com a nova gestação. “Os dados de vigilância pós-licenciamento continuam mostrando segurança”, afirma. Kfouri ressalta que grávidas fazem parte do grupo de pessoas que têm maior probabilidade de desenvolver formas graves da covid-19.

Quanto à vacinação de crianças, citada brevemente no vídeo aqui verificado, o Ministério da Saúde autorizou nessa quarta-feira (5) a imunização de pessoas de 5 a 11 anos. A medida já havia recebido parecer favorável da Anvisa há 20 dias. Não há exigência de prescrição médica, como foi cogitado inicialmente. Segundo a pasta, a previsão é que a vacinação comece ainda em janeiro e seja feita por faixa etária e de forma decrescente.

A aplicação de vacina contra covid-19 em crianças tem sido alvo de conteúdo de desinformação há meses. Em dezembro de 2021, o Comprova verificou uma publicação enganosa que viralizou ao afirmar que o imunizante tenha provocado o aumento de mortes de meninos. Em outro caso, o projeto também verificou que a proteção oferecida pela vacina supera o risco de miocardite em crianças.

Na época, a Anvisa e especialistas informaram à reportagem que não há indicadores que apontem o crescimento no número de mortes de crianças como consequência da imunização.

Recomendações oficiais

A última edição do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19, divulgado pelo Ministério da Saúde em outubro de 2021, recomenda a imunização de todas as gestantes e puérperas com ou sem comorbidades. Além disso, o teste de gravidez não é pré-requisito para a vacinação de mulheres em idade fértil, e que se encontram em algum grupo prioritário.

O documento ressalta que diante de evento adverso grave de acidente vascular cerebral hemorrágico em uma gestante, verificado em maio de 2021, com provável associação causal com a vacina AstraZeneca, optou-se pela interrupção temporária na vacinação desse grupo com este imunizante.

Ainda segundo o plano, pessoas que fazem parte desse grupo e que receberam a primeira dose da AstraZeneca devem ser imunizadas com a Pfizer. “Gestantes que não foram vacinadas poderão ser imunizadas com qualquer vacina de plataforma de vírus inativado, vetor viral ou mRNA, respeitando os intervalos entre as doses recomendados pelo PNI”, informa o documento.

O texto afirma também que a recomendação foi subsidiada por discussões na Câmara Técnica Assessora em Imunização e Doenças Transmissíveis e Câmara Técnica Assessora em ações integradas a Assistência à Gestante e Puérpera no contexto da pandemia.

Em julho, a Anvisa propôs a restrição de uso de vacinas que utilizam vetor adenoviral (AstraZeneca/Fiocruz e Janssen) em gestantes, em uma medida de precaução por causa de casos raros (pode ocorrer em 0,1% a 0,5% do total de vacinados) de trombose em combinação com trombocitopenia (TTS) associados a estes imunizantes.

Com isso, a recomendação é de que gestantes e puérperas devem ser vacinadas com a Pfizer ou CoronaVac. Mesmo com a restrição, a Anvisa reforçou a relação benefício-risco favorável das vacinas contra covid-19 autorizadas para uso no país. O órgão também destacou que a continuidade da imunização da população é essencial.

A versão mais atual da bula da Pfizer, publicada no site da Anvisa no dia 22 de dezembro de 2021, informa que mulheres que estão grávidas ou amamentando, acreditam que podem estar grávidas ou planejam ter um bebê devem consultar seu médico ou farmacêutico antes de receber a vacina.

Em nota, a Anvisa informou que todas as bulas das vacinas contra covid-19 informam que o uso por mulheres grávidas deve ser orientado por um médico. Segundo a agência, essa é uma orientação comum, especialmente na bula de novas vacinas e medicamentos.

Pfizer

Procurada pelo Comprova, a Pfizer afirmou não serem procedentes as afirmações que circulam em redes sociais e aplicativos de mensagens sobre a aplicação em gestantes da vacina contra a covid-19.

A empresa diz não ter recebido qualquer sinalização de preocupação de segurança para esse grupo pelas agências regulatórias e pelo próprio sistema de farmacovigilância e acrescenta ter distribuído globalmente mais de 2,5 bilhões de doses da vacina para mais de 166 países sem alertas de segurança graves relacionados ao imunizante.

Em relação às gestantes, destaca que a recomendação da vacinação cabe aos principais órgãos oficiais de saúde mundiais e que estes se baseiam nos dados de vida real em diferentes países, os quais mostram o perfil de segurança da vacina mantido para as diferentes populações avaliadas e reforça que os benefícios da vacinação superam os potenciais eventos adversos.

A aplicação da vacina da Pfizer nesse grupo, sustenta, deve ser feita sob orientação médica e as informações sobre a substância, assim como composição e potenciais eventos constam na bula do imunizante.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas e eleições. O vídeo aqui verificado teve 35,1 mil visualizações, 1,8 mil compartilhamentos e quase 3 mil curtidas no Kwai. Compartilhado no Twitter e no YouTube, somou mais 4,8 mil curtidas e quase 30 mil visualizações até 6 de janeiro.

Informações enganosas sobre a pandemia, suas novas cepas e vacinação descredibilizam a eficácia de imunizantes já confirmados por organizações científicas e por isso são perigosos.

Em verificações anteriores, o Comprova mostrou que é enganoso afirmar que houve “muitas mortes” decorrentes da vacina da Pfizer contra a covid-19 e que não há comprovação de que tenha havido aumento de abortos em gestantes após inicio da campanha de vacinação.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por: 2022-01-10

Vacinas não injetam “DNA alienígena” ao contrário do que afirma postagem no Twitter

  • Falso
Falso
É falso que vacinas contra a covid-19 injetem “DNA alienígena” ou qualquer outro DNA nas pessoas. Também é falso que a CoronaVac, vacina do Instituto Butantan e da farmacêutica chinesa Sinovac, não funcione, como afirma em tuíte o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo.
  • Conteúdo verificado: Em publicação, o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, diz que não permitirá a aplicação de “DNA alienígena” em seu corpo. Apoiador do presidente Jair Bolsonaro (PL), Camargo afirma também que tomará a vacina CoronaVac “caso fique sem saída”, em referência às exigências de um passaporte da vacinação. Mesmo admitindo que tomaria, ele diz que o imunizante não funciona, mas foi desenvolvido com um “método tradicional”.

É falsa a afirmação do presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, que sugere que vacinas contra a covid-19 injetam “DNA alienígena” nas pessoas. A declaração foi feita no Twitter. Especialistas ouvidos pelo Comprova explicam que nenhum imunizante injeta DNA nas pessoas, e que as vacinas são seguras, além de eficazes.

Embora não cite, a alegação de Camargo insinua ter relação com o falso entendimento de que as vacinas que usam a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) injetam DNA ou provocam alterações genéticas nas pessoas, o que não é verdade. Essa tecnologia é usada em duas das vacinas contra a covid-19: Pfizer e Moderna.

No Brasil, apenas a Pfizer está sendo aplicada com essa tecnologia. Segundo infectologistas especialistas ouvidos pelo Comprova, as vacinas de mRNA funcionam a partir da inserção de um pedaço da sequência de RNA do Sars-Cov-2 para gerar resposta no sistema imunológico humano.

Já os imunizantes Oxford/Astrazeneca e Janssen são produzidos por meio do adenovírus recombinante, método que também não injeta DNA.

No caso da CoronaVac, a técnica usada é do vírus inativado. A afirmação de Camargo de que a vacina não funciona também é falsa. O imunizante tem eficácia global de 50,38% e os dados sobre redução de casos e mortes no Brasil após a aplicação desta vacina, a primeira utilizada no país, são um indicativo de que ela funciona.

O presidente da Fundação Palmares foi procurado por meio de sua assessoria em 4 de janeiro de 2022, mas não respondeu até a publicação desta verificação.

O Comprova classificou a publicação investigada como falsa porque o conteúdo foi inventado.

Como verificamos?

Inicialmente, a reportagem foi em busca de especialistas que pudessem explicar a formulação das vacinas contra a covid-19. A reportagem conversou com Alexandre Naime Barbosa – chefe da Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e da Associação Médica Brasileira (AMB) –, com o infectologista Leonardo Weissmann, que também é consultor da SBI, e com o virologista e coordenador do curso de biomedicina do IBMR Centro Universitário, Raphael Rangel.

A equipe também procurou o Instituto Butantan, responsável pela produção da Coronavac no Brasil, para esclarecer como a vacina é produzida e qual é sua eficácia, além de ter buscado informações sobre a vacina e os resultados de seus testes em publicações na imprensa.

Por fim, foi procurado o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, para tentar entender o que ele considera “DNA alienígena” e por qual motivo ele optaria pela CoronaVac, como escreveu em seu post no Twitter. Ele não respondeu à tentativa de contato até a publicação deste texto.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 10 de janeiro de 2022.

Verificação

DNA alienígena?

As vacinas são desenvolvidas por meio de diferentes técnicas. No caso dos imunizantes aplicados contra o coronavírus no Brasil são três os métodos: RNA mensageiro, adenovírus e vírus inativado. Diferente do que Camargo afirma na publicação, em nenhum deles é usado DNA, nem existe a possibilidade de que vacinas injetem “DNA alienígena” nas pessoas.

O DNA (ácido desoxirribonucleico) é uma molécula que fica no núcleo das células de seres vivos e que carrega toda a informação genética do indivíduo e suas características. Ela é a responsável por transmitir as informações genéticas e, por isso, tem um papel fundamental na hereditariedade. O RNA também é um ácido nucléico, formado a partir de uma molécula de DNA, que tem como principal função sintetizar proteínas.

A Pfizer – aplicada em adultos, adolescentes e crianças – é desenvolvida por meio de RNA recombinante. O chefe da Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e da Associação Médica Brasileira (AMB), Alexandre Naime Barbosa, explica que pesquisas com esse método são desenvolvidas há dez anos.

O processo funciona inserindo um pedaço de uma sequência do RNA do SARS-Cov-2. O RNA mensageiro sintetiza a proteína spike, a principal do coronavírus, mas não nociva como a do próprio vírus. Por meio desse processo, as células do próprio corpo se tornam capazes de produzir a proteína, que então é reconhecida pelo sistema imunológico, estimulando a produção de anticorpos. Todo o processo acontece no citoplasma da célula, fora do núcleo que abriga o DNA. “É uma forma muito inteligente de você conseguir que o sistema imune consiga produzir substâncias que vão proteger o indivíduo”, diz Barbosa.

Vacinas não fazem alterações genômicas

O infectologista Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), esclarece que tomar essa vacina não causa nenhum tipo de alteração genômica.

“O RNA mensageiro sintético produzido em laboratório não causa doença nem qualquer alteração em nosso genoma, já que ele não penetra no núcleo de nossas células, onde está o DNA”, explica.

Barbosa acrescenta que a técnica de mRNA não provoca nenhum tipo de toxicidade, já que a partícula utilizada se desintegra rapidamente. “Importante dizer que essa proteína de RNA mensageiro que é feita através da vacina, ela tem uma vida muito curta, ela é muito lábil, efêmera. E logo depois que é sintetizado esses pedacinhos do vírus, ela acaba perdendo sua conformação, ela se desintegra, degenera e não tem mais nenhum tipo de toxicidade”, explica.

CoronaVac: vacina de vírus inativado

No tuíte, Camargo afirma que, se ficar sem saída [e tiver que se vacinar para obter o passaporte sanitário], irá optar pela CoronaVac, porque, segundo ele, “não funciona” e foi desenvolvida usando um “método tradicional e já bem conhecido”. É verdade que a tecnologia utilizada nesta vacina já é bem conhecida, mas não é verdade que ela não funciona (leia mais abaixo).

De acordo com Weissmann, a CoronaVac é uma vacina de primeira geração, que usa uma tecnologia “quase centenária”. “Ela utiliza o microrganismo inteiro, cultivado em células no laboratório e, posteriormente, inativado, tornando-se incapaz de produzir doença. Quando entra no organismo, o vírus vacinal é percebido como um agente estranho e desencadeia a resposta do sistema imunológico”, explica.

Outras vacinas presentes no calendário vacinal dos brasileiros também usam essa mesma tecnologia, como as vacinas contra sarampo, rubéola, caxumba e gripe.

Coronavac é eficaz contra Covid-19

O autor da publicação mente ao afirmar que a CoronaVac não funciona. A queda no número diário de casos e de mortes a partir de março de 2021, quando os primeiros vacinados começaram a receber a segunda dose da CoronaVac, é um indicativo da eficácia da vacina.

| Variação diária do número de casos de covid-19 no Brasil. Fonte: Our World in Data.

| Variação diária do número de mortes por covid-19 no Brasil. Fonte: Our World in Data.

Além disso, especialistas garantem que a vacina é segura e funciona. “Isto foi demonstrado nos estudos de fase 3 (a última antes da obtenção do registro sanitário)”, afirma Weissmann.

Em janeiro de 2021, o Instituto Butantan divulgou os dados de eficácia da CoronaVac. Os resultados do estudo de fase 3 do imunizante apontaram eficácia de 100% nos casos graves e moderados da doença, 78% em casos leves e 50,68% nos casos muito leves, sendo este último percentual chamado de “eficácia global”. Esta eficácia de 50,38% está dentro do mínimo estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que é de 50%.

Um estudo feito na cidade de Serrana (SP), mostrou a eficácia da vacina na prática. “Em Serrana, foi realizado um estudo de efetividade, com 28 mil adultos vacinados, onde se verificou uma redução de 80% dos casos sintomáticos da covid-19, as internações, 86%, e as mortes, 95%”, completa Weissmann.

Em junho do ano passado, o Butantan divulgou que a eficácia da CoronaVac para casos sintomáticos havia atingido 50,7% com 14 dias de intervalo entre a primeira e a segunda dose. Segundo os cientistas do Butantan, a eficácia global poderia chegar a 62,3% se o intervalo entre as doses fosse de 21 dias ou mais. Esta nova pesquisa mostrou ainda que a eficácia para casos de moderados a graves variava de 83,7% a 100%, mais do que os 78% a 100% da pesquisa anterior.

Em novembro, o Butantan informou que a dose de reforço da CoronaVac também era eficaz contra a variante Delta e que aumentava em 17 vezes o nível de anticorpos neutralizantes contra a variante naqueles que já tinham completado o esquema vacinal há seis meses ou mais.

Essa proteção contra variantes também é destacada pelo virologista e coordenador do curso de biomedicina do IBMR, Raphael Rangel. “A Coronavac é uma ótima vacina e possui uma eficácia significativa que confere proteção inclusive para as novas variantes”, diz.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre pandemia, políticas públicas e eleições. A postagem aqui verificada teve mais de 4,8 mil interações no Twitter.

Informações falsas sobre a vacinação contra covid-19 podem fazer com que as pessoas não se imunizem ou que escolham um determinado fabricante.

O Comprova já mostrou em verificações anteriores que é falso que a vacina da Pfizer causou muitas mortes e que as mutações da covid-19 não descartam eficácia e segurança das vacinas.

Falso, para o Comprova, é um conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por: 2022-01-07

Proteção oferecida pela vacina supera o risco de miocardite em crianças, ao contrário do que afirma site

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa uma postagem segundo a qual o imunizante infantil contra a covid-19 causa mais casos de miocardite do que salva vidas. A vacinação com a Pfizer é recomendada por autoridades sanitárias brasileiras e estrangeiras. Um estudo da FDA, agência de saúde americana, publicado antes do início da imunização nos EUA, teve dados misturados pelo site que fez a postagem para enganar sobre a efetiva proteção da vacina.
  • Conteúdo verificado: Postagem em site cujo título diz que a farmacêutica Pfizer admitiu que a cada 1 milhão de crianças vacinadas, só 2 serão salvas e 179 podem ter miocardite. O site também afirma que “apesar do baixo custo benefício” e de alertas, o “experimento” de vacinação com o imunizante em crianças foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil.

São enganosas as publicações que dizem que a Pfizer teria admitido que as vacinas contra covid-19 de crianças têm um risco maior de causar miocardite do que a probabilidade de evitar mortes pelo novo coronavírus.

Os dados, apresentados no título de uma publicação no site Brasil Sem Medo e compartilhada nas redes sociais, são na verdade de um estudo da FDA (Food and Drug Administration), órgão dos EUA similar à Anvisa, que fez uma projeção possível do que aconteceria caso as crianças fossem imunizadas, ou seja, são números hipotéticos. Além disso, os dados foram misturados pelo site que fez a publicação.

O estudo em questão fez uma simulação de quantas crianças poderiam desenvolver miocardite devido à vacina da covid-19. O cenário que encontrou 179 casos para cada milhão foi o que considerou que somente crianças do sexo masculino fossem imunizadas. Já o cenário em que somente duas crianças a cada milhão seriam salvas pela vacina, é o em que apenas meninas fossem imunizadas.

Os estudos mais recentes sobre a imunização infantil e as agências reguladoras norte-americana, europeia e brasileira afirmam que o imunizante da Pfizer é seguro para as crianças. Os casos de miocardite são raros e até o momento têm se manifestado de forma leve.

O Comprova procurou por e-mail o site Brasil sem Medo e a jornalista Fernanda Salles, que compartilhou o conteúdo, mas até o momento eles não se manifestaram.

O conteúdo foi considerado enganoso por retirar a informação de contexto para provocar uma outra interpretação.

Como verificamos?

O primeiro passo foi identificar a fonte da informação à qual o Brasil Sem Medo se referia. O texto atribui o dado à farmacêutica Pfizer, mas a reportagem não encontrou nenhum tipo de declaração da empresa neste sentido.

Diferente do que é relatado no título da página, as informações, mesmo que distorcidas, são de um estudo da FDA. A pesquisa foi feita antes da liberação da aplicação do imunizante em crianças.

Além de conferir os dados do estudo, a equipe também procurou a Pfizer, que é citada como fonte da informação pelo Brasil Sem Medo.

A reportagem conversou com a médica Sônia Maria de Faria, infectologista pediátrica e membro do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), sobre a pesquisa da FDA e sobre as vantagens da vacinação desse público contra o coronavírus.

Foram compilados também dados sobre países que já vacinam crianças e declarações de agências de saúde, similares à Anvisa, que aprovaram o uso da Pfizer nesta faixa etária.

Por fim, procuramos esclarecer como está a vacinação de crianças no Brasil com base em informações da Anvisa e do Ministério da Saúde.

O Comprova fez esta verificação baseada em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 7 de janeiro de 2022.

Verificação

Riscos da vacinação de crianças

A vacinação de crianças contra a covid-19 tem gerado muitos debates. Desde que as vacinas foram aprovadas para maiores de 18 anos, a ciência começou a estudar a ampliação do público alvo. Os testes buscavam saber a dosagem adequada para cada faixa etária e a segurança dos imunizantes.

A vacina se mostrou segura para as crianças. Mais de 30 países já começaram a vacinar essa faixa etária. Só nos Estados Unidos, segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) até 7 de janeiro, 7 milhões de crianças entre 5 e 12 anos foram imunizadas com pelo menos uma dose.

Casos de miocardite foram relatados em alguns países no pós-vacinação, mas segundo a FDA esse é um evento adverso raro que não invalida a segurança dos imunizantes.

A miocardite é uma inflamação no tecido do coração geralmente causada por uma infecção viral. Os sintomas incluem dor no peito e falta de ar. Casos graves podem levar a insuficiência cardíaca. Normalmente, o tratamento é feito com medicamentos.

Os dados da publicação aqui checados são atribuídos à Pfizer. Porém, a própria empresa negou ao Comprova que eles sejam de autoria da farmacêutica. Na verdade, eles são de um estudo da FDA , órgão dos EUA similar à Anvisa, publicado em 26 de outubro, três dias antes do órgão autorizar o imunizante no país para a faixa etária.

O estudo fez uma análise comparativa entre casos, internações e mortes por covid-19 em crianças entre 5 e 11 anos e os casos de miocardite para saber o risco-benefício da vacinação.

Em nenhum dos cenários analisados a FDA estima que as crianças vão morrer em função da miocardite.

O número de 179 casos de miocardite para cada milhão de vacinados aparece apenas quando considerado que somente crianças do sexo masculino fossem imunizadas. A postagem, porém, omite que, estimando as taxas de transmissão, algo entre 2,6 mil e 57,8 mil casos de covid-19 em crianças seriam evitados.

Além disso, os únicos dois cenários em que a FDA estimou que duas mortes pelo novo coronavírus seriam poupadas são aqueles em que se avalia apenas a vacinação de crianças do sexo feminino. O texto, portanto, compara dados diferentes dentro do próprio estudo.

A FDA concluiu que na maioria dos cenários “os benefícios da série primária de duas doses da vacina da Pfizer-BioNTech contra a covid-19 claramente supera os riscos para as idades entre 5 e 11 anos”.

Sônia Maria de Faria, infectologista pediátrica e membro do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), explica que o documento só aponta projeções antes mesmo de a vacina ser liberada para uso. Na prática, ela diz que se tem visto que os casos são mínimos e não são graves. “No final, o benefício da vacina suplanta, em muito, os riscos. Isso são projeções que você faz antes até de a vacina estar em uso no mundo real. A gente já tem ela sendo aplicada em vários países e esse risco não tem sido elevado”, destaca.

Além disso, um outro estudo, divulgado pela FDA em dezembro, mostrou que a incidência de miocardite entre jovens de 16 e 17 anos após a vacinação foi de apenas 0,007%. Sendo que este foi o grupo que apresentou a maior incidência da reação. Em crianças entre cinco e 11 anos, os dados do CDC mostram que entre 7,1 milhões de doses aplicadas até aquele momento (5,1 milhões de primeiras doses e 2 milhões de segundas doses), foram relatados 14 casos suspeitos.

Já no Reino Unido, foram relatados 11 casos de miocardite por milhão de doses aplicadas em todas as idades. De acordo com o FDA, há um risco maior de desenvolver miocardite entre adolescentes após a segunda dose da vacina. O evento adverso é estimado em um caso de miocardite ou pericardite para cada 10 mil vacinados com idade entre 12 e 18 anos de idade. No entanto, os casos reportados tiveram uma recuperação em no máximo uma semana.

Um estudo feito em Israel identificou que 76% dos casos de miocardite pós-vacinação foram descritos como leves e 22% como intermediários.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o risco de desenvolver miocardite durante a covid-19 é vinte vezes maior do que o risco de desenvolvê-la devido à vacina.

As duas sociedades emitiram uma nota conjunta no dia 31 de dezembro reforçando a orientação para que crianças de 5 a 11 anos com cardiopatias sejam imunizadas contra a covid-19 com o imunizante da Pfizer.

A infectologista Sônia Maria destaca que os eventos adversos em crianças são similares aos de adultos. “Os dados de miocardite em crianças com vacina são muito menores do que aqueles vistos em adolescentes ou adultos jovens. Os eventos adversos mais comuns têm sido aqueles usados em outras vacinas também. Dor no local da aplicação, eventualmente febre, etc.”

Em nota ao Comprova, a Pfizer reforçou a segurança da vacina e disse que incentiva que qualquer reação adversa ao imunizante seja relatada. De acordo com a empresa, a vacina tem 90,7% de eficácia em crianças entre 5 e 11 anos. “Até o momento, especificamente sobre a vacina ComiRNAty, casos muito raros de miocardite e pericardite foram relatados. Os órgãos de vigilância locais e internacionais competentes endossam que o benefício da vacinação segue se sobrepondo a qualquer risco”, destaca. Segundo a empresa, até o momento já foram distribuídas mais de 2,5 bilhões de doses do imunizante para crianças em 166 países.

Vacinação de crianças no Brasil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a vacinação com a Pfizer para crianças de 5 a 11 anos no dia 16 de dezembro de 2021. O órgão divulgou que a avaliação do imunizante contou com consulta e acompanhamento de um grupo de especialistas em pediatria e imunologia. Participaram representantes da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

No dia 5 de janeiro de 2022, o Ministério da Saúde anunciou a inclusão de crianças no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 (PNO). O público alvo estimado é de 20 milhões de pessoas. As doses serão aplicadas com intervalo de 8 semanas e a campanha deverá começar ainda neste mês.

O imunizante da Pfizer também teve liberação para ser usado em crianças pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA, na sigla em inglês), o que aconteceu em novembro do ano passado. Países como Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca e Espanha já vacinam as crianças.

Sônia Maria ressalta a importância de imunizar as crianças para o controle da pandemia. “A gente tem observado mundialmente um aumento crescente de infecções neste grupo. Lógico, é um grupo que ainda não foi vacinado. Se a gente tem uma vacina que demonstrou eficácia, segurança e redução de risco de internação e complicações por covid, está mais do que justificado o uso dela”, afirma.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas e eleições. A postagem aqui verificada teve mais de 3,2 mil interações no Twitter e Facebook.

Informações enganosas sobre a vacinação de crianças podem fazer com que as pessoas desacreditem na eficácia dos imunizantes e não se vacinem. Isso é ainda mais grave nesse momento em que o Brasil discute a ampliação do programa de imunização para o público infantil.

O conteúdo aqui verificado também foi classificado como enganoso pela AFP Checamos.

Em verificações anteriores, o Comprova mostrou que não há recomendação para fazer exame dímero-D em vacinados contra a covid e que as mutações da covid-19 não descartam eficácia e segurança das vacinas.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Comunicados

Investigado por: 2021-12-31

Comprova encerra quarta fase com 187 verificações de conteúdos que viralizaram nas redes

O projeto Comprova encerrou a quarta fase, iniciada em abril de 2021, com 187 verificações de conteúdos que viralizaram nas redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre a pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Dessas, somente 3 foram consideradas verdadeiras. As demais verificações receberam rótulos de enganoso ou falso.

O Comprova é um projeto colaborativo, criado por iniciativa da First Draft, do qual participam 33 organizações de mídia e é liderado pela Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. O projeto foi financiado em 2021 por Meta Journalism Project e Google News Initiative e recebeu também apoio do WhatsApp.

Em 2021, o Comprova lançou um novo número de WhatsApp para atendimento das sugestões de verificação enviadas pelo público e recebeu, para um período de residência, nove jornalistas selecionados entre os concluintes do curso Monitoramento e investigação de conteúdos digitais promovido pela Abraji.

A quarta fase foi dominada ainda pelos temas relacionados à pandemia de covid-19. Foram 119 verificações de conteúdos suspeitos que obtiveram grande alcance, sobretudo sobre vacinas e tratamentos sem eficácia comprovada contra o coronavírus. Os jornalistas do Comprova também investigaram 34 postagens que envolviam políticas públicas relacionadas ao governo federal, tema que está no escopo do projeto desde 2019, e outras 34 já sobre as eleições presidenciais de 2022.

O projeto tem acompanhado a dinâmica da produção da desinformação no Brasil sobretudo em um ambiente no qual há convicções formadas ao longo do tempo por conteúdos enganosos. Cada vez mais, nossos jornalistas têm se esforçado para entender os contextos de quem publica mensagens enganosas ou deliberadamente falsas e seguido a regra de tentar ouvir quem criou os conteúdos investigados. Ampliamos também nosso monitoramento para avaliar o impacto da desinformação manifestado não somente pelos números de engajamento e alcance, mas também para o efeito provocado nas pessoas e que é manifestado nas áreas de comentários das publicações.

No final de 2021, o Comprova apresentou um novo formato de verificação. O Comprova explica usa técnicas de jornalismo explicativo, numa tentativa de levar informações verificadas e mais contexto sobre temas que estejam sendo tratados nas redes e que necessitam de esclarecimentos.

Colaboradores

O projeto contou com a colaboração de 53 repórteres nessa quarta fase. Eles trabalharam em grupos de três jornalistas, em média, fazendo investigações que depois eram validadas por seus pares, pelos jornalistas de veículos que não participaram da investigação. O Comprova só publica investigações que tenham sido validadas por pelo menos três outros veículos que não participaram do trabalho de verificação. Esse cross-checking é parte da metodologia do projeto e visa reduzir riscos de erros.

O Comprova também recebeu apoio de estudantes de jornalismo da FAAP que colaboraram com as equipes de monitoramento, verificação e distribuição, e da equipe da Abraji. Na sequência, publicamos a relação de todas as pessoas que se envolveram na quarta fase do Comprova.

Verificadores

Adriana Bernardes Medeiros – Correio Braziliense

Alessandra Monnerat – Estadão

Aline Nunes – A Gazeta

Ana Carolina Santos – Estadão

Ana Isabel Mansur – Correio Braziliense

Ana Luiza Bongiovani – Band News FM

Ana Viriato – Crusoé

André Spigariol – Crusoé

Bernardo Barbosa – UOL

Brenda Fernández – Correio do Povo

Bruna Barone – Band News FM

Camila de Carli – AFP

Carlos Holanda – O Povo

Caroline Nunes – Alma Preta

Catarina Duarte – NSC

Cecília Sorgine – AFP

Cibele Moreira Costa – Correio Braziliense

Cido Coelho – SBT

Clarissa Pacheco – Correio e Estadão

Daniel Bramatti – Estadão

Fredy Alexandrakis – Nexo

Gabi Coelho – Estadão

Gabriela Oliva – Poder360

Gabrielle Tavares – Correio do Estado

Izabela Carvalho – Correio do Estado

João Carlos Coutinho – SBT

João Felipe Carvalho – piauí

Juliana Arreguy – UOL

Karla Araújo – O Popular

Leticia Kleim – piauí

Luciana Loebens Marschall – Correio de Carajás

Luisa Alcantara e Silva – Folha de S. Paulo e Projeto Residência

Luiza Queiroz – AFP

Maria Clara Pestre – AFP

Matheus Chaparini – Grupo Sinos

Mayara Morales – Grupo Sinos

Melissa Fernandez – Poder360

Munise Vargas – SBT

Nadine Nascimento – Alma Preta

Nathália Pavão – GZH

Pablo Fernandez – Band News

Paulo Veras – Jornal do Commercio

Pedro Prata – Estadão

Rayanne Albuquerque – UOL

Samara Schwingel – Correio Braziliense

Samuel Lima – Estadão

Sarah Teófilo – Correio Braziliense

Thais Brunoro – Estadão

Thais Libni da Costa – Correio do Estado

Thalys Alcântara – O Popular

Thatiany Nascimento – Diário do Nordeste

Thays Martins – Correio Braziliense

Victor Pereira – Estadão

Wagner Mendes Crispim – Diário do Nordeste

Estagiários da FAAP

Ana Luiza Sousa Peixoto

Davi Krasilchik

Gabriela Martins

Maria Júlia Giovanini

Maria Sampaio

Editores

David Michelsohn

Helio Miguel Filho

José Antônio Lima

Sérgio Lüdtke

Equipe Abraji

Adriana Misiunas

Ana Beatriz Assam

Cristina Zahar

Letícia Klein

Regis Cerqueira

 

A fase 5 do Comprova começará em 3 de janeiro de 2022.

Comunicados

Investigado por: 2021-12-30

Com 9 participantes, primeiro Programa de Residência do Comprova publicou 12 verificações

O Projeto Comprova realizou em 2021  a primeira edição do Programa de Residência. Durante dois meses, entre 20 de setembro e 12 de novembro, nove jornalistas, de três regiões do país – Sul, Sudeste e Nordeste, participaram de verificações de conteúdos suspeitos compartilhados em redes sociais e que obtiveram grande alcance. Os jornalistas foram selecionados de um grupo de setenta e sete pessoas que participaram da segunda turma do curso online gratuito “Monitoramento e investigação de conteúdos digitais” e se inscreveram para o programa. O curso foi promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), com apoio do Google News Initiative.

Os residentes produziram 12 verificações, que foram de conteúdo falso afirmando que Lula e Dilma pagaram 6 mil euros por jantar em Paris à foto retirada de contexto para sugerir aliança entre Alexandre de Moraes e Renan Calheiros. Os conteúdos investigados tinham como intenções mais recorrentes apoiar o presidente Jair Bolsonaro (PL) e criticar as vacinas contra o novo coronavírus.

Como nas outras verificações do Comprova, após se voluntariarem para determinada checagem, os residentes se reuniam em um grupo de WhatsApp, onde conversavam sobre o encaminhamento da apuração. O trabalho em equipe, em documentos de texto compartilhados, foi um dos pontos que mais chamou a atenção dos participantes, que nunca haviam trabalhado dessa forma.

“Foi inspirador participar do Programa de Residência e ver jornalistas de veículos concorrentes trabalhando juntos em um mesmo conteúdo, todos por um bem maior. É o ideal jornalístico colocado em prática”, afirma o jornalista Bruno Elmano, um dos residentes da primeira turma do Programa de Residência do Comprova.

Além dele, participaram também Augusto Tenório, Caroline Ferrari Farah, Dalmir Ferreira da Silva Júnior, Flávia Terres, Gustavo de Souza Justino, Marta Alencar, Rafaela Christine Roberto de Carvalho e Thaís Marques. Sob o comando do editor Sérgio Lüdtke, a coordenação ficou a cargo de Luisa Alcantara e Silva, da Folha de S.Paulo, que trabalhou com o editor-assistente José Antonio Lima, o editor de distribuição Helio Miguel Filho e o editor de arte David Michelsohn.

No início de 2022, começa a segunda Residência do Comprova, voltada para participantes da terceira turma do curso, realizada no último mês de novembro. Fique atento ao nosso site para mais informações.

Por Luisa Alcantara e Silva

Pandemia

Investigado por: 2021-12-17

Não há recomendação para fazer exame dímero-D em vacinados contra a covid

  • Enganoso
Enganoso
O exame dímero-D é comumente solicitado quando o paciente já apresenta um quadro clínico que leve à suspeita de trombose. Isso ocorre porque diversos fatores podem causar alteração nele. O exame, por si só, não serve para indicar quadro trombótico. Além disso, não há evidências de relação da vacina da Pfizer com trombose.
  • Conteúdo verificado: Áudio no WhatsApp no qual uma mulher recomenda que as pessoas que se imunizarem contra a covid-19 realizem o exame de dímero-D, utilizado para detectar possíveis quadros trombóticos. Ela relata que seu marido estava com um índice alto de dímero-D mais de 30 dias após tomar a segunda dose da Pfizer, mesmo sem ter nenhum sintoma de trombose.

Não há embasamento para sugerir que vacinados contra a covid-19 realizem o exame dímero-D. Essa hipótese é feita por uma mulher em um áudio que circula no WhatsApp. Especialistas ouvidos pelo Comprova alertam que não há essa recomendação e que as vacinas são seguras.

O exame de dímero-D sozinho não permite diagnosticar uma trombose. Ele é comumente prescrito para pessoas que já apresentam quadro clínico para essa condição ou para avaliar se pacientes estão reagindo bem a tratamentos anticoagulantes.

O áudio cita o imunizante da Pfizer, mas este não tem como efeito adverso a ocorrência de quadros trombóticos. Além disso, não é possível relacionar uma trombose com uma vacina sem que o caso passe por rigorosa investigação médica e das autoridades da saúde.

Este conteúdo foi considerado enganoso pelo Comprova porque usa dados imprecisos.

Como verificamos?

A verificação deste conteúdo foi realizada em duas etapas. Inicialmente, o Comprova investigou o áudio do WhatsApp. Nele, uma mulher afirma que o marido teria sido atendido no “Hospital do Coração”.

Entramos em contato com as instituições com esse nome, em São Paulo e em Goiânia, mas a falta de dados do áudio não permitiu a identificação do caso citado.

Na segunda etapa da verificação, o Comprova apurou se o exame dímero-D possibilita a detecção de trombose e se seria possível associar algum imunizante da covid-19 ao caso descrito. O Comprova consultou estudos científicos, além de entrevistar especialistas.

A reportagem falou com Guilherme Furtado, líder médico da Infectologia do HCor e o professor de cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), Aguinaldo Freitas Júnior.

A equipe também procurou pela Pfizer, uma vez que, no áudio, a farmacêutica é citada, mas não houve retorno.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 17 de dezembro de 2021.

Verificação

O exame dímero-D

Para saber como funciona o exame dímero-D, é preciso entender uma proteína chamada fibrina. Ela é responsável por dar consistência aos coágulos sanguíneos. Nosso organismo tem um sistema de controle para produzir fibrinas quando necessário e também para quebrá-las. O acúmulo de coágulos pode causar danos ao sistema circulatório como AVC ou trombose.

O dímero-D detecta a quantidade de fibrinas fragmentadas no sangue. Uma alta quantidade indica, indiretamente, que esteja havendo formação excessiva de coágulos, o que sugere um quadro trombótico.

A mulher afirma no áudio que levou seu marido a fazer o exame dímero-D mesmo sem ele apresentar nenhum sintoma. Esta prática não é comum, segundo o líder médico da Infectologia do HCor, Guilherme Furtado. “O paciente chega no pronto-socorro com o quadro clínico sugestivo, como dor na perna ou perna inchada, e faz o dímero-D”, explica. Isso ocorre porque muitos fatores podem causar certas oscilações na concentração do dímero-D, como uso de determinados medicamentos ou até mesmo a presença de uma infecção mais grave, como a pneumonia.

O exame de dímero-D, isoladamente, não pode afirmar que um paciente esteja com um quadro de trombose ou embolia pulmonar, diz Aguinaldo Freitas Júnior, professor de cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG). Pacientes em pós-cirurgia, idosos e gestantes podem apresentar aumento de dímero-D na corrente sanguínea. “Um dímero-D normal afasta o diagnóstico de tromboembolismo pulmonar. Um dímero-D aumentado não confirma o diagnóstico de tromboembolismo pulmonar, porque o resultado pode vir aumentado em várias situações.”

Caso sem contexto não permite estabelecer relação com o imunizante

Freitas afirma que não há comprovação científica alguma de relação entre a vacina da Pfizer e alteração neste tipo de exame. “E mesmo que a vacina provocasse o aumento isolado do dímero-D, isso não quer dizer que esse paciente está com risco maior de tromboembolismo pulmonar.” O médico ressalta também que não há motivo para recorrer a este exame após tomar o imunizante porque alterações no resultado não podem ser analisadas isoladamente e podem ocorrer por diversos motivos.

Como o Comprova já mostrou, casos de trombose e embolia pulmonar não estão relacionados à vacina da Pfizer contra a covid-19. A bula informa que as reações mais comuns são dor e inchaço no local da injeção, cansaço, dor de cabeça, diarreia, dor muscular, dor nas articulações, calafrios, febre. Em menor grau (menos de 1% dos imunizados), também é possível ocorrer um aumento dos gânglios linfáticos, coceira, urticária, angioedema, diminuição do apetite, dor nos membros, insônia, letargia, suor excessivo, fraqueza, mal-estar e prurido no local de injeção. E em casos raros (ocorrem entre 0,01% e 0,1% das pessoas), é possível ocorrer paralisia facial aguda.

A bula também foi alterada para incluir casos raros de inflamação do músculo cardíaco e do tecido que reveste o coração. Eles ocorreram principalmente em homens jovens, curados sem consequências quando houve atendimento médico.

Casos raros de trombose foram observados em imunizados com as vacinas da Janssen e da Astrazeneca. Porém, Furtado lembra que a própria infecção pela covid-19 causa quadros inflamatórios graves e trombose. O risco de se ter um quadro trombótico é maior sendo infectado pela covid-19 do que se imunizando contra ela, afirma. “A vacina serve para evitar que você tenha uma infecção grave pelo coronavírus e que tenha trombose por causa dele.”

Um estudo publicado em agosto de 2021 na British Medical Journal (BMJ) mostrou que pessoas não vacinadas e infectadas pela covid-19 têm 200 vezes mais chances de ter trombose venosa do que as pessoas vacinadas.

Combo de boatos antigos

A mulher que gravou o áudio também reproduz uma série de alegações enganosas e falsas sobre vacinas que já foram checadas pelo Comprova. Ao contrário do que ela afirma, nenhuma das vacinas contra a covid-19 atualmente disponíveis possui grafeno em sua fórmula. Este elemento é atualmente testado em imunizantes como uma forma de potencializar a resposta imune, não sendo utilizado nas atuais vacinas.

Ela também coloca dúvidas sobre o perfil de segurança dos imunizantes ao dizer que eles teriam alumínio em sua composição, mas sua alegação não tem embasamento. O alumínio é utilizado em vacinas há décadas em quantidades seguras para a saúde. Ele nunca representou risco para os inoculados, explica o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos.

A responsável pelo áudio reproduz a hipótese infundada de que a variante ômicron teria sido inventada para disfarçar eventos adversos graves das vacinas. Como mostrou o Comprova, a nova cepa do coronavírus já foi identificada em ao menos 77 países. Dados preliminares sugerem que ela causa sintomas mais leves do que os observados com variantes anteriores, o que desmente a alegação propagada para desencorajar a imunização.

A mulher ainda reproduz a alegação de que a infecção pelo coronavírus garante proteção 7 vezes mais forte do que as vacinas. Esse número surgiu nas redes sociais da descontextualização de dados sobre casos de covid-19 em Israel. Ao Comprova, o Ministério da Saúde israelense negou que seus dados permitam chegar a essa conclusão.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas e eleições. Como se trata de uma informação publicada em diferentes plataformas — WhatsApp, Telegram e Twitter —, é difícil precisar o real alcance da postagem, em especial no aplicativo de mensagens. No WhatsApp, o áudio foi marcado pela rede social com um aviso de “compartilhado com frequência”.

Informações enganosas sobre a pandemia, suas novas cepas e vacinação descredibilizam a eficácia de imunizantes já confirmados por organizações científicas. Por isso, diante do aumento da transmissibilidade de variante ômicron, boatos que descredibilizam qualquer imunizante são perigosos.

Em verificações anteriores, o Comprova mostrou que é falso que a ômicron seja uma invenção para mascarar as reações da vacina e que mutações da covid-19 não descartam eficácia e segurança das vacinas.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Comprova Explica

Investigado por: 2021-12-17

Máscaras protegem contra epidemia de H3N2; entenda

  • Comprova Explica
Comprova Explica
Máscaras são métodos preventivos eficazes para combater a contaminação por H3N2 e pela covid-19, assim como outros adotados ao longo da pandemia, como a higiene das mãos e o distanciamento social. Uma publicação do Twitter questiona a utilidade do item diante do crescimento de casos de gripe influenza no Rio de Janeiro e em São Paulo. Contudo, segundo especialistas, entre os fatores que podem estar causando a disseminação da gripe estão exatamente o relaxamento das medidas de proteção pela população, que está se aglomerando mais e deixando de usar a máscara.
  • Conteúdo analisado: Post no Twitter de mulher que se identifica como jornalista levanta a dúvida: “Rio e São Paulo com epidemia de Influenza. As máscaras servem para quê?”. O Comprova preparou conteúdo explicativo sobre a eficácia dos equipamentos de biossegurança, já que a publicação teve 7,2 mil interações.

A epidemia da cepa H3N2, da Influenza A, tem gerado comentários que questionam a utilidade de vacinas e métodos preventivos, capazes de combater vírus como o da covid-19 e o do próprio Influenza, conhecido por ser uma gripe sazonal.

Exemplo disso é uma publicação no Twitter que questiona a serventia das máscaras de proteção usadas contra o novo coronavírus se o Rio de Janeiro e São Paulo estão com epidemia de influenza, vírus causador da gripe.

Diante dos questionamentos, o Comprova decidiu explicar por quais razões as máscaras seguem como eficazes no combate de ambos os vírus que se enquadram como epidemias no país.

Epidemia da influenza está ligada às flexibilizações e falta de vacinação

O aumento de casos está realmente acontecendo – e se espalhou para outros locais, como o estado do Espírito Santo e as cidades de Salvador, na Bahia, e Porto Velho, em Rondônia –, mas esse cenário não invalida a importância das máscaras, segundo especialistas.

Como o vacinologista e professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Odir Dellagostin explicou ao Comprova, a vacina contra a gripe oferecida neste ano “tem uma baixa proteção contra a Darwin, cepa do vírus influenza A H3N2, que está provocando o surto”. E, para piorar o cenário, diz ele, o uso de máscaras está diminuindo. “As pessoas estão voltando a se aglomerar, a se abraçar, a tomar cafezinho juntas, sem máscara, o que reduz a efetividade dela.”

Ainda de acordo com ele, “a solução é recomendar fortemente a continuidade do uso correto da máscara, o distanciamento e o uso de álcool em gel”.

O mesmo disse à Folha Geraldo Barbosa, presidente da Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC): “Agora, (para nos proteger,) são as medidas preventivas, como uso de máscaras, higienização das mãos e evitar aglomerações”.

Epidemia

No dia 9 de dezembro, quando o post verificado aqui foi publicado, a Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro confirmou em redes sociais que a capital vive uma epidemia de influenza. “Será que estamos enfrentando uma epidemia de influenza? A epidemia está localizada no município do Rio e já há aumento do número de casos em outros municípios da região metropolitana”, escreveu o órgão no Twitter.

Em nota publicada no UOL, a secretaria afirmou: “Esse crescimento repentino, verificado a partir de 22 de novembro, quando foram registrados 505 atendimentos, atingiu quase 6 mil atendimentos no último dia 6. Trata-se do maior número de atendimentos por uma única doença realizados nas UPAs estaduais em um único dia desde o início da pandemia”.

Na capital fluminense, a prefeitura está instalando cinco centros de atendimento e testagem de pessoas com síndrome gripal “para reforçar a assistência à população durante o surto de influenza”. A estratégia é semelhante à adotada em 2009, durante o surto de H1N1.

Em São Paulo, segundo e-mail da Secretaria Municipal de Saúde enviado ao Comprova, “houve um aumento significativo de pessoas com síndrome gripal” na última semana. O órgão informou ainda que, em novembro, houve 111.949 atendimentos de pessoas com sintomas gripais, sendo 56.220 suspeitos de covid-19 e, agora na primeira quinzena de dezembro, já foram 91.882 atendimentos com quadro respiratório (45.325 suspeitos de covid-19).

Em 15 de dezembro, o surto da doença já atingia outros locais, como Espírito Santo e as cidades de Salvador e Porto Velho. Só na capital baiana, de acordo com a Folha, a Secretaria Municipal de Saúde “registrou 109 casos da doença em 2021, sendo que 106 deles foram notificados entre o final de novembro e início de dezembro”.

Rio e SP seguem recomendando máscaras em ambientes de maior risco

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), determinou o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras ao ar livre. A medida foi definida por meio de um decreto, publicado em 27 de outubro deste ano.

O anúncio da mudança aconteceu em transmissão ao vivo, com a presença do secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, que lembrou a necessidade de pessoas com sintomas gripais continuarem usando a proteção. A medida também previu a liberação do uso de máscaras em locais com pista de dança, com capacidade de público de até 50%.

Junto à decisão sobre as máscaras, o Rio suspendeu todas as demais regras estabelecidas para combater a covid-19 no município, em um segundo decreto, publicado no dia 12 de novembro no Diário Oficial. Este mesmo decreto manteve o uso obrigatório de máscaras em locais fechados e transportes públicos.

Já em São Paulo, a variante ômicron levou o governo e a prefeitura da capital a manterem o uso obrigatório de máscaras em espaços abertos e fechados.

A suspensão do uso obrigatório de máscaras estava prevista para ocorrer no estado em 11 de dezembro, e o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), havia declarado que pretendia seguir as medidas determinadas pela gestão de João Doria (PSDB).

Com o avanço da nova variante da covid-19, a Vigilância Sanitária recomendou o cancelamento da flexibilização de máscaras. O órgão elaborou um estudo com indicadores epidemiológicos e assistenciais.

Máscaras são importantes contra a covid e a influenza

Ainda que a vacina contra a gripe usada no país tenha a mutação H3N2 em sua composição, a variante não é a mesma que circula agora no Rio e em São Paulo. A nova cepa, titulada Darwin — cidade na Austrália onde ela foi identificada pela primeira vez —, não está coberta pela atual vacina.

O vacinologista Odir Dellagostin detalhou que a cepa não faz parte da formulação que a OMS recomendou para ser utilizada na vacina deste ano. “Portanto, a vacina tem uma baixa proteção contra esta cepa, ainda mais reduzida pelo timing em que está ocorrendo o surto: mais de 6 meses após a campanha de vacinação”, explica.

Na visão de Dellagostin, o uso de máscara está diminuindo e isso representa um risco de exposição tanto para a covid-19 quanto para a nova mutação do vírus da gripe comum.

“As pessoas estão voltando a se aglomerar, a se abraçar, a tomar cafezinho juntas, portanto, sem máscara. Isso está reduzindo a efetividade”.

Ainda de acordo com o vacinologista, o caminho para contornar a epidemia de H3N2 tem que se basear em medidas de prevenção. “A solução é recomendar fortemente a continuidade do uso correto de máscara — cobrindo boca e nariz —, o distanciamento, o uso de álcool gel”, finaliza.

O médico infectologista Rodrigo Nascimento explicou que, para que as máscaras consigam filtrar adequadamente o ar das partículas infecciosas, é preciso que sejam fabricadas de maneira adequada e recebam o selo de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Os modelos mais indicados, de acordo com o profissional, são as máscaras PFF2 (peça facial filtrante) ou N95 –que trata do mesmo modelo, mas a primeira é certificada no Brasil e a segunda, nos Estados Unidos. “Mas as máscaras simples, cirúrgicas, são eficazes também, em torno de 30% a 40% menos do que as N95 e PFF2”.

Apesar da eficiência das máscaras contra a disseminação dos vírus, seu uso deve ser aliado a outras medidas para melhor efetividade. Os métodos de prevenção contra a doença seguem as mesmas regras de outras doenças virais, assim como a covid-19, incluindo higienização correta das mãos; evitar contato com pessoas infectadas; não compartilhar objetos pessoais, como copos, talheres, toalhas; evitar locais de grande aglomeração e pouco arejado; manter hábitos saudáveis.

Além disso, os governos estaduais realizam anualmente, de forma gratuita, campanhas de vacinação contra a Influenza.

“As vacinas contra influenza são muito eficazes, elas são revisadas anualmente. Através da cepa anterior, é produzida novas vacinas e após 14 dias aproximadamente, ela já produz anticorpos nas pessoas”, relatou o médico.

O público prioritário para receber os imunizantes são idosos, crianças e pessoas com imunossupressão, por serem mais suscetíveis ao vírus e assim, possuírem mais chances de evolução para quadros graves que um jovem saudável, por exemplo.

“Claro que dependem do organismo de cada pessoa, da capacidade que cada pessoa tem de produzir anticorpos. São características individuais imunológicas, por isso que a vacina é prioritariamente indicada para pessoas idosas e pessoas imunossuprimidas, que têm baixa capacidade de se defender de microorganismos”, pontuou.

Questionamento

O tuíte que questiona a eficácia das máscaras e mencionado aqui foi publicado por Flavia Ferronato (@flferronato). Na sequência do post checado agora, ela escreve: “E antes que venham torrar a paciência, eu realmente estou tentando entender como isso é possível, tá ok?”, o que não impediu que seguidores tenham interpretado a publicação como uma forma de descredibilizar as máscaras e outras medidas de combate contra a covid.

Um seguidor comenta: “Será uma epidemia dos vacinados? Por baixa imunidade?”; outro escreve: “Pois é! Inclusive na minha casa todos com a influenza, por enquanto menos eu que não vacinei”; e, mais um: “As máscaras são super eficazes contra doenças respiratórias, o que não é o caso do infl… não, pera…”.

Ferronato já apareceu em uma verificação do Comprova, em novembro de 2020, quando fez um post enganoso no site Jornal da Cidade Online – alvo de algumas checagens do projeto – e em seu perfil no Twitter sugerindo que o Instituto Butantan não havia informado sobre morte de voluntário da vacina Coronavac.

À época, após ser contatada pela reportagem, ela fez publicações em suas redes sociais criticando o trabalho de agências de checagem e procurando intimidar a verificadora que a contatou.

Desta vez, ela respondeu a reportagem dizendo que escreveu o tuíte porque queria “entender por que as máscaras não conseguiram segurar o influenza”.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. O conteúdo verificado aqui teve mais de 6,6 mil curtidas e foi compartilhado 1,2 mil vezes até 17 de dezembro.

Máscaras seguem como proteção fundamental para evitar a contaminação e disseminação de vírus como a H3N2 e a covid-19, principalmente em ambientes fechados e sem ventilação. Pouco usada antes da pandemia no Brasil, a proteção facial é uma das principais medidas contra a covid-19 e, consequentemente, contra outros vírus que se disseminam pelo ar, como o influenza. Sem as máscaras, os cidadãos ficam mais vulneráveis a esses vírus.

O Comprova checa peças de desinformação sobre as máscaras desde o ano passado. Alguns exemplos de verificação são o do influenciador que dizia que a proteção facial não era eficiente contra a covid-19 e o de estudo sem revisão usado também para desacreditar o uso do equipamento.

Pandemia

Investigado por: 2021-12-16

Hospital desmente relato de médico sobre infarto de paciente vacinada em Campo Grande

  • Falso
Falso
‘Dr. Jackson’ viralizou no Telegram e no Twitter dizendo que uma paciente de 26 anos teria infartado no Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, da UFMS, depois de receber dois imunizantes contra a covid-19. Autoridades de saúde e o próprio hospital negam o caso.
  • Conteúdo verificado: Vídeo em que um médico de Campo Grande alega que uma moça de 26 anos teria infartado em um hospital universitário após tomar duas doses da Astrazeneca e uma dose de reforço da Pfizer.

É falso que uma mulher de 26 anos tenha sido atendida em um hospital por causa de um infarto depois de receber duas doses da vacina Oxford/AstraZeneca e uma dose de reforço da Pfizer/BioNTech contra a covid-19. O conteúdo foi divulgado em um vídeo gravado pelo médico cardiologista João Jackson Duarte, que viralizou após a publicação em um canal do Telegram chamado Médicos pela Vida e em perfis do Twitter.

No vídeo, o médico, conhecido nas redes como “Dr. Jackson”, afirma que acabara de sair da sala de emergência e cita o suposto caso, sem dizer o nome da pessoa nem apresentar qualquer prova. Ele diz que a paciente não teria histórico familiar de infarto e que o único “fator de risco” seria o fato de ela ter sido imunizada contra o novo coronavírus.

O Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap), da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), de Campo Grande, onde o vídeo foi gravado, confirmou que o “Dr. Jackson” faz parte da equipe, mas negou a ocorrência de qualquer caso de infarto de jovem de 26 anos na unidade nos últimos dias. O registro mais antigo da publicação do vídeo encontrado pelo Comprova é de 9 de dezembro.

As secretarias municipal e estadual de saúde também informaram que não receberam qualquer notificação de reação adversa do tipo pós-vacinação contra a covid-19 e reforçaram que os efeitos colaterais mais comuns são de caráter leve a moderado, como dor no local da injeção e sintomas semelhantes a de uma gripe, a exemplo do que sustenta a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O médico não retornou aos pedidos de entrevista do Comprova. O conteúdo foi classificado como falso nesta checagem porque foi inventado e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

A reportagem baixou o vídeo publicado no Twitter usando a ferramenta Getfvid e assistiu às imagens quadro a quadro na tentativa de identificar placas, cartazes e algum elemento na estrutura do prédio que indicasse em qual hospital ocorreu a gravação. Foi possível visualizar uma placa nas cores azul e roxa, com setas em amarelo, mas os detalhes não estão legíveis.

Em seguida, procuramos por “Dr. Jackson” no Google em busca de informações sobre o profissional. Uma reportagem de um site local cita que ele atendia pacientes no Edifício Evidence Prime Office, no Royal Park, em Campo Grande. O endereço é o mesmo de uma clínica particular que aparece em seu perfil nas redes sociais como informação de contato.

Em seu cadastro na plataforma Lattes, do CNPq, o médico declara que tem doutorado em Cardiologia e Cirurgia Cardiovascular pela Fundação Cardiovascular São Francisco de Assis e que atualmente integra uma equipe do Humap. A unidade aparece como seu endereço profissional. Além desse, diz atuar também no Hospital Regional do Mato Grosso do Sul (HRMS).

Com essas pistas, a reportagem passou a procurar por imagens e vídeos dessas unidades para confirmar o local da gravação. O Comprova chegou a uma reportagem de fevereiro de 2019 do canal da TV UFMS, que mostra alguns espaços do hospital universitário. O conteúdo está disponível no YouTube.

No início da gravação aqui verificada, o médico caminha em um corredor com lâmpadas longas e posicionadas na horizontal, próximo a canaletas por onde provavelmente passam fios. O mesmo formato aparece no início da reportagem da UFMS, em corredores internos do hospital universitário.

| Captura do vídeo do médico.

| Captura da reportagem da UFMS.

A certa altura do vídeo, o médico passa por uma porta que está sinalizada por uma placa nas cores azul e roxa, com setas em amarelo. Uma placa semelhante aparece na reportagem da UFMS, logo nos corredores de entrada do hospital universitário. Naquele momento da caminhada do “Dr. Jackson”, a posição das luzes era diferente, na vertical, o que também confere com a matéria do canal.

 

| Capturas do vídeo do médico.

| Captura da reportagem da UFMS.

O hospital é administrado pela UFMS e pertence ao governo federal. A reportagem entrou em contato por meio de telefone e e-mail disponibilizado na página. A Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) confirmou que o vídeo foi gravado no Humap, mas negou a ocorrência citada pelo médico.

O Comprova entrou em contato com as assessorias de comunicação da Secretaria Estadual de Saúde do Mato Grosso do Sul (SES-MS) e da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) para verificar se houve alguma notificação de infarto como reação adversa pós-vacinação em Campo Grande. A SES-MS respondeu por e-mail, e a Sesau, por WhatsApp.

Em seguida, a equipe procurou por reportagens e comunicados oficiais que tratam sobre os efeitos colaterais das vacinas contra a covid-19 e tentou entrevistar o médico João Jackson Duarte por meio do telefone de sua clínica que aparece em pesquisa no Google. A atendente nos passou o telefone da secretária do médico, que pediu o envio de solicitação de entrevista por WhatsApp. O contato também foi feito mensagem direta no Instagram. Ele não respondeu ao pedido de explicações.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 16 de dezembro de 2021.

Verificação

Hospital desmente o relato do médico

Em nota, o Humap informou que analisou as imagens e que elas indicam a gravação na unidade hospitalar por João Jackson Duarte, que faz parte do corpo médico. O hospital disse que não tem registro de nenhuma paciente com 26 anos acometida por infarto nos últimos dias e que vai abrir processo interno para apurar os fatos e a conduta do profissional.

“Independentemente do ocorrido, a instituição ressalta que não compactua com as conclusões feitas pelo profissional, visto que qualquer análise com este teor precisa ser feita baseada em um conjunto de dados, metodologias, análises de grupos focais e em uma amplitude muito maior como tem sido feito em diversas pesquisas no Brasil e no mundo”, acrescentou a instituição.

Secretarias não foram notificadas

Em resposta ao Comprova, tanto a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande (Sesau) quanto a Secretaria Estadual de Saúde do Mato Grosso do Sul (SES-MS) afirmaram que não receberam a notificação de infarto como reação adversa das vacinas contra a covid-19. Até 16 de dezembro de 2021, mais de 4,6 milhões de doses foram aplicadas no estado e 72,15% da população estava com esquema vacinal completo.

Por mensagens de texto, a gerência técnica de imunização da Sesau disse que a informação que consta no vídeo do médico não é verídica. “O serviço não recebeu nenhuma notificação de reação adversa do tipo pós-vacinação contra a Covid-19 do Humap. Até o momento, os casos relatados à secretaria são de reações já previstas, como dor localizada. Nada referente a necessidade de internação ou outras ocorrências mais sérias.”

O mesmo relato foi feito pelas autoridades estaduais de saúde. “A SES/MS não foi notificada sobre caso de evento adverso grave no Estado”, afirmou em nota encaminhada por e-mail ao Comprova. Ainda segundo o órgão, o risco de uma reação adversa que demande atendimento é “muito pequeno” para qualquer imunizante autorizado no país e que, dessa forma, recomenda a toda a população elegível que procure uma unidade de saúde ou posto de vacinação para completar o esquema vacinal.

Reações provocadas pela vacina

Os efeitos colaterais provocados pelas vacinas podem ser encontrados nas bulas dos imunizantes, que estão disponíveis no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No caso da Pfizer, as reações mais comuns (ocorrem em 10% dos pacientes) são dor e inchaço no local de injeção, cansaço, dor de cabeça, diarreia, dor muscular, dor nas articulações, calafrios e febre. Também são comuns (ocorrem entre 1% e 10%) casos de vermelhidão no local de injeção, náusea e vômito.

Entre as reações incomuns (ocorrem em menos de 1% dos pacientes) estão aumento dos gânglios linfáticos, reações de hipersensibilidade, coceira, urticária, angioedema, diminuição de apetite, dor nos membros, insônia, letargia, hiperidrose, suor noturno, astenia, sensação de mal-estar e prurido no local de injeção. Há também reação rara de paralisia facial aguda, que ocorre entre 0,01% e 0,1% dos pacientes.

Em julho, a Anvisa publicou alerta sobre risco de miocardite e pericardite pós-vacinação com a Pfizer. A miocardite é a inflamação do músculo cardíaco e a pericardite é a inflamação do revestimento externo do coração. O comunicado da agência ocorreu após os Estados Unidos relatarem a ocorrência de casos das doenças depois da vacinação contra covid-19 com imunizantes de plataforma de RNA mensageiro (RNAm), que é o caso da Pfizer e da Moderna. Apenas a Pfizer tem registro para uso no Brasil.

No texto, a Anvisa esclarece que a ocorrência dos eventos adversos é baixa e recomenda atenção dos profissionais de saúde e da população a sintomas como dor no peito, falta de ar e palpitações. A agência ainda ressalta que a adoção de tratamento correto é fundamental para melhor evolução clínica dos pacientes. Por fim, a Anvisa reafirma que mantém a recomendação da continuidade da vacinação com a Pfizer porque, até o momento, os benefícios superam os riscos. Este também é o posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Em relação à vacina de Oxford/AstraZeneca, a bula aponta como reações muito comuns (acima de 10%) sensibilidade, dor, sensação de calor, coceira ou hematoma (manchas roxas) onde a injeção é administrada, sensação de indisposição de forma geral, fadiga, calafrio ou sensação febril, dor de cabeça, enjoos, dor na articulação ou dor muscular.

Os sintomas comuns (entre 1% e 10%) incluem inchaço, vermelhidão ou um caroço no local da injeção, febre, vômitos ou diarreia, dor nas pernas ou braços e sintomas semelhantes aos de um resfriado, como febre acima de 38 °C, dor de garganta, coriza, tosse e calafrios. Já os incomuns (entre 0,01% e 1%) envolvem sonolência ou sensação de tontura, diminuição do apetite, dor abdominal, linfonodos aumentados, sudorese excessiva e coceira ou erupção na pele.

As autoridades de saúde constataram ainda a ocorrência de coágulos sanguíneos em combinação com níveis baixos de plaquetas no sangue, ou trombocitopenia (TTS), mas em uma frequência extremamente rara, inferior a 1 entre 100.000 indivíduos vacinados. Em nota técnica de outubro, o Ministério da Saúde informou uma taxa ainda mais baixa: 1 a 8 casos por milhão. Esse é um efeito adverso mais grave que pode resultar em morte, mas a chance é muito baixa e não muda o perfil de segurança do produto, segundo a Anvisa. Estudos indicam ainda que o risco de desenvolver um quadro de trombose ao ser infectado pela covid-19 seria de 8 a 10 vezes mais alto.

A Anvisa também já publicou comunicado afirmando que a vacinação é, atualmente, a abordagem farmacológica mais promissora e segura para o controle da pandemia causada pelo Sars-CoV-2.

Quem é o médico que gravou o vídeo

João Jackson Duarte é um médico especializado em cardiologia e cirurgia cardiovascular e está regularmente inscrito no Conselho Regional de Medicina do Mato Grosso do Sul (CRM-MS), segundo consta no site da entidade.

Nas redes sociais, ele afirma atuar em uma clínica particular de “cardiologia e nutrição funcional” no bairro Royal Park, em Campo Grande. O currículo na plataforma Lattes acrescenta como locais de atendimento o Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap) e o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS).

O “Dr. Jackson” é um adepto do chamado “tratamento precoce” — um conjunto de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19 propagandeado por figuras como o presidente Jair Bolsonaro (PL) como opção terapêutica, mas que não encontra respaldo nos principais órgãos de saúde do mundo.

A página da sua clínica particular traz uma série de postagens festejando a prática, incluindo pacientes segurando uma folha de papel com a inscrição “Eu venci o covid” ao lado do médico, sempre sem máscara. Sites locais afirmam que o médico chegava a escrever “livre da picada” em sua conta no Telegram, anunciando aos seguidores que o paciente que recebeu alta não precisaria mais da vacina.

Em suas contas pessoais no Facebook e no Instagram, são frequentes os conteúdos de viés antivacina. O médico acusa os imunizantes de serem ineficazes, distorce informações sobre componentes da fórmula e os associa a casos de doenças graves e mortes sem provas. Em um post recente, afirma que se contaminou com o novo coronavírus em agosto de 2020 e se recusou a se vacinar depois disso.

A busca pelo nome do “Dr. Jackson” no Google ainda traz uma série de artigos em sites de Campo Grande sobre polêmicas do médico. Em junho, por exemplo, entrou em conflito na Justiça com a administradora do prédio onde estava localizada a sua clínica particular e a vigilância sanitária por descumprir protocolos para evitar a contaminação pela covid-19. Ele foi acusado de circular sem máscara pelas dependências do prédio mesmo com diagnóstico positivo para a doença.

Jackson também já foi citado em investigações do Ministério Público Federal (MPF), em um caso que apurou a suposta adulteração de um laudo de cirurgia que terminou na morte de uma paciente, em 2012. Na época, o médico fazia parte da equipe de cirurgia de José Carlos Dorsa no Humap e teve conversas telefônicas grampeadas em meio a um inquérito que apurava um possível esquema de corrupção operado pelo colega.

Assim como outros médicos que já foram alvos de checagem do Comprova por compartilhar desinformação, Jackson vem recebendo convites para participar de audiências públicas sobre a adoção do passaporte sanitário contra a covid-19, medida que obriga estabelecimentos a solicitarem comprovantes de vacinação para entrada. Ele diz ter participado de eventos em Dourados (MS) e Rio Branco (AC), por exemplo.

O médico também já falou sobre “acolhimento precoce” em live convocada por vereadores de Campo Grande. Em texto divulgado pelo legislativo municipal sobre o evento, o médico aparece como “diretor científico da Sociedade Brasileira de Ozonioterapia Médica”, entidade presidida por Maria Emilia Gadelha Serra, outra profissional que costuma atacar as vacinas com desinformação e tentou emplacar a aplicação retal de ozônio como tratamento contra a covid-19 no ano passado.

Apesar de o canal do Telegram em que o conteúdo viralizou se chamar Médicos pela Vida e ter na descrição um link que leva para o site do grupo de mesmo nome, conhecido por defender o tratamento precoce, este nega ser o responsável pela plataforma. No dia 10 de dezembro, o Comprova publicou reportagem mostrando que outra postagem feita no mesmo canal enganava ao afirmar que vacina contra covid-19 tinha provocado aumento de morte de crianças.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre a pandemia e políticas públicas do governo federal. O vídeo checado foi publicado no Telegram e no Twitter e já teve mais de 100 mil visualizações nas plataformas.

Esse tipo de conteúdo falso é prejudicial porque desinforma a população sobre a incidência de efeitos adversos das vacinas e desencoraja a imunização. Segundo autoridades de saúde e especialistas, os imunizantes são a principal medida de combate à covid-19, pois previnem a infecção, a evolução para quadros graves e as mortes pela doença.

Outras verificações publicadas recentemente pelo Comprova já mostraram que mutações da covid-19 não descartam eficácia e segurança das vacinas e que a vacina contra a covid-19 é segura e não gera HIV, câncer ou HPV.

Falso, para o Comprova, é conteúdo inventado e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por: 2021-12-15

É falso que a ômicron seja uma invenção para mascarar as reações da vacina contra a covid-19

  • Falso
Falso
É falso que a variante ômicron não exista e seja um conceito criado apenas para esconder os efeitos adversos das vacinas contra a covid-19. Além de a nova cepa já ter sido identificada em dezenas de países, o que as autoridades de saúde têm reportado sobre ela é que os pacientes têm manifestado casos leves, não estando associada a miocardite, infarto fulminante ou AVC, como afirma vídeo que viralizou. No caso dos imunizantes, a Anvisa afirma que os episódios de miocardites são raros, leves e que as pessoas tendem a se recuperar após um curto período de tempo de tratamento padrão e repouso.
  • Conteúdo verificado: Em vídeo que circula pelo Whatsapp e pelo TikTok, uma mulher afirma que a variante ômicron foi inventada para que os efeitos adversos graves das vacinas sejam disfarçados.

São falsas as alegações de um vídeo viral, segundo o qual a variante ômicron seria uma invenção para encobrir efeitos adversos graves das vacinas contra a covid-19. Formada a partir de mutações do Sars-CoV-2, a nova cepa já foi identificada em ao menos 77 países, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Até agora, porém, os primeiros dados demonstram que ela provoca quadros mais leves de covid-19 do que variantes anteriores. Embora mais evidências precisem ser coletadas sobre a gravidade do quadro dos infectados, os casos de ômicron não estão relacionados a uma maior presença de miocardite, infarto fulminante ou AVC, sintomas citados no vídeo.

Em nota enviada ao Comprova, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) diz que a possibilidade de alguns vacinados contra o novo coronavírus desenvolverem eventos adversos como miocardite e pericardite já é conhecida das agências reguladoras, estando descrita em bula e com os casos sendo acompanhados em cada país. A ocorrência é mais frequente em homens mais jovens, após a segunda dose da vacina. De acordo com a agência, porém, trata-se de um evento raro. “Geralmente são casos leves e os indivíduos tendem a se recuperar dentro de um curto período de tempo após o tratamento padrão e repouso”, afirma.

Em entrevista ao Comprova, o médico José Cássio de Moraes lembrou que a miocardite já é um sintoma comum para pessoas infectadas pelo Sars-Cov-2, motivo pelo qual pacientes com problemas cardíacos são considerados grupo de risco. Pesquisa da Universidade de Oxford, no Reino Unido, aponta que a trombose é um risco maior entre quem se infecta do que entre os vacinados.

O Comprova considerou o conteúdo falso porque as informações foram inventadas.

Como verificamos?

Por email, entramos em contato com a OMS e a Anvisa sobre a situação da ômicron e sobre as possíveis reações provocadas pela vacina contra a covid-19. No site da Anvisa, listamos todos os efeitos das bulas dos imunizantes.

Também consultamos matérias publicadas na imprensa. Checagens anteriores do Comprova foram utilizadas no caso de alegações enganosas já esclarecidas.

Por fim, entrevistamos José Cássio de Moraes, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e integrante da rede Observatório Covid-19 BR.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 15 de dezembro de 2021.

Verificação

Identificação da ômicron

A variante ômicron foi registrada oficialmente pela primeira vez na África do Sul, em novembro de 2021. Ela possui um número significativo de alterações com relação a variantes anteriores, principalmente na proteína Spike, utilizada pelo coronavírus para invadir as células. Sua identificação coincidiu com um terceiro pico de infecções no país africano, o que levou as autoridades de saúde a alertarem a OMS.

Em 26 de novembro, um grupo de especialistas da organização analisou os dados disponíveis e decidiu classificá-la como “variante de preocupação”. Isso quer dizer que ela pode se disseminar mais facilmente, causar doença mais severa, driblar a resposta imunológica, ter sintomas diferentes ou diminuir a eficácia das medidas conhecidas contra o coronavírus, como medidas de saúde, diagnóstico, tratamentos e vacinas.

O país de origem da nova variante pode mudar conforme as outras nações fazem análises e testes.

Ômicron: sintomas e infecções

Em uma coletiva de imprensa no dia 8 de dezembro de 2021, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, afirmou que ainda é muito cedo para tirar conclusões sobre o impacto da variante ômicron para os sistemas de saúde. Cientistas de todo o mundo analisam as informações disponíveis até o momento, e que não param de ser atualizadas, para compreender melhor os sintomas, a facilidade de transmissão e a capacidade de driblar a imunidade concedida por vacinas ou contaminação anterior.

Adhanom disse que a África do Sul registra um aumento rápido e consistente no número de casos. No entanto, a variante ômicron surgiu em um momento em que a variante Delta estava com baixa transmissão no país e é difícil saber como ela reagiria em outro local onde a Delta seja predominante. “Será importante monitorar de forma cuidadosa o que acontece em todo o mundo, para ver como essas duas variantes vão competir”, falou.

Sobre a severidade da doença causada pela ômicron, Adhanom explicou que há algumas evidências de que ela causaria sintomas mais leves do que a variante Delta. No entanto, ainda é cedo para fazer esta afirmação com certeza. Somente com informações atualizadas dos quadros de infecção em cada país é que se poderá ter uma visão mais precisa.

Na manhã da segunda-feira, 13, o secretário de saúde do sistema público de saúde britânico, Sajid Javid, disse à emissora BBC que o número de contaminados pela ômicron dobra a cada dois ou três dias. Com isso, o governo do Reino Unido iniciou uma campanha de vacinação de reforço para todos os maiores de 18 anos que tenham tomado sua última dose há pelo menos três meses.

O primeiro-ministro, Boris Johnson, anunciou que morreu o primeiro paciente infectado com a variante ômicron no Reino Unido. Não foi informado o quadro de saúde anterior desta pessoa. Johnson sugeriu que pare de se falar em “versão mais leve do vírus” e que é preciso reconhecer a velocidade com que ele se espalha pela população.

Já no dia 14, Adhanom voltou a citar a nova variante. Disse que a OMS tem visto com preocupação a variante ômicron ser subestimada como uma doença leve. “Com certeza, aprendemos que só temos a perder ao subestimar este vírus. Mesmo que a ômicron de fato cause sintomas mais leves, o expressivo número de contaminações pode mais uma vez sobrecarregar sistemas de saúde que não estejam preparados.”

Especialista

Ao Comprova, o médico José Cássio de Moraes afirmou que, até o momento, não há nenhum motivo para desconfiar da existência da ômicron. O especialista também contrapõe a tese de que a nova variante seria uma forma de esconder sintomas como miocardite, infarto e AVCs. “A variante ômicron aparentemente produz sintomas mais leves que as outras. Até sábado (dia 11 de dezembro), não tinha provocado nenhum óbito. O primeiro foi referido agora na Inglaterra. Na descrição dos casos, a miocardite não é mencionada até o momento”, explica.

De acordo com o médico, o miocárdio é um dos locais atingidos pelo vírus da covid-19 por ter um receptor específico que pode ser acessado pelo invasor, assim como acontece com pulmões e rins. Por isso, pessoas com problemas cardíacos são consideradas como parte do grupo de risco.

Moraes também rebate a ideia de que a vacina não seja segura. “A vacina Pfizer nos Estados Unidos já teve mais de 400 milhões de doses aplicadas e, até sábado, estava associada a 1700 casos de miocardite, segundo dados do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos), preferencialmente em adolescentes homens. Todos evoluíram bem e foram curados sem sequelas”, lembra.

Reação das vacinas usadas no Brasil

Os efeitos adversos podem ser conferidos nas bulas dos imunizantes, disponíveis no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Confira abaixo:

CoronaVac: Reações possíveis são dor no local da aplicação, dor de cabeça, cansaço, além de enjoo, diarreia, perda de apetite, calafrios, tosse, dor nas articulações, coceiras, coriza e congestão nasal. Em casos menos frequentes (menos de 1% de quem é vacinado), pode ocorrer vômito, febre, vermelhidão, dor na garganta ou ao engolir, fraqueza muscular, tontura, dor abdominal, sonolência, mal-estar, cansaço, dor nas costas, vertigem, falta de ar, inchaço e hematomas no local da aplicação.

Janssen: As reações mais comuns são dor de cabeça, náusea, mialgia, fadiga e dor no local da injeção, bem como tosse, dor nas juntas, inchaço no local da aplicação, febre e calafrios. Em menos de 1% das pessoas imunizadas pode ocorrer tremores, espirros, irritação na pele, fraqueza muscular, dor no corpo e nas costas, mal-estar, urticárias. Em casos muito raros (menos de 0,01% das pessoas), pode ocorrer Síndrome de Guillain-Barré, trombose e baixo nível de plaquetas no sangue.

AstraZeneca: Os principais efeitos colaterais são dor, coceira, sensação de calor ou hematomas no local da aplicação, indisposição, fadiga, calafrios, febres, dor de cabeça, enjoo, dores nas articulações e dor muscular. Também pode ocorrer vômitos ou diarreias, dor nas pernas e braços, dor de garganta, coriza, tosse, sonolência, diminuição no apetite, dor abdominal, linfonodos aumentados e sudorese excessiva. Em casos muito raros (menos de 0,01% das pessoas), podem surgir coágulos sanguíneos e um nível baixo de plaquetas sanguíneas.

Pfizer: Reações mais comuns são dor e inchaço no local da injeção, cansaço, dor de cabeça, diarréia, dor muscular, dor nas articulações, calafrios, febre, vermelhidão no local da aplicação, náusea e vômito. Em menor grau (menos de 1% dos imunizados), também é possível ocorrer um aumento dos gânglios linfáticos, coceira, urticária, angioedema, diminuição do apetite, dor nos membros, insônia, letargia, suor excessivo, fraqueza, mal-estar e prurido no local de injeção. Em casos raros (ocorrem entre 0,01% e 0,1% das pessoas), é possível ocorrer paralisia facial aguda.

Trombose e miocardite são reações raras

No caso das vacinas da AstraZeneca e da Janssen, a Anvisa afirma que casos raros de trombose têm sido relatados em vários países, inclusive no Brasil. Esses eventos foram adicionados às bulas em julho.

A população deve ficar atenta e procurar um serviço de saúde em caso de sintomas como falta de ar, dor no peito, inchaço ou dor nas pernas, dor abdominal persistente, visão turva, confusão, convulsões, hematomas e manchas vermelhas no corpo e outras manifestações hemorrágicas. Ainda assim, a posição da agência é que “os benefícios dos referidos imunizantes superam os riscos e mantém a recomendação de continuidade da vacinação dentro das indicações descritas em bula”.

Em julho, a agência norte-americana FDA relatou casos raros de inflamação no músculo cardíaco (miocardite) e no revestimento externo do coração (pericardite) associados à vacina da Pfizer. Geralmente ocorreram após a segunda dose, em adolescentes e adultos jovens do sexo masculino. A maioria dos casos foi leve.

A Anvisa então emitiu um aviso para que os vacinados procurem um atendimento médico se sentirem dor no peito, falta de ar e palpitações. Como os casos são raros e reagem bem ao tratamento, a recomendação de uso da vacina dentro das indicações em bula permanece. A Anvisa avalia que os benefícios da vacinação superam os riscos.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) também defende que os benefícios das vacinas são superiores aos riscos de miocardites. Isso porque, ao analisar dados de notificações nos EUA, ficou constatado que há 4 ou 5 casos de miocardites após o uso de imunizantes de mRNA para cada milhão de pessoas vacinadas. Na Europa, o risco de desenvolver trombose após a vacinação é de 1 a 8 casos para cada milhão de imunizados, segundo nota técnica do Ministério da Saúde.

Além disso, o risco de uma pessoa desenvolver trombose venosa cerebral é de 8 a 10 vezes maior entre pessoas que tiveram a covid-19 do que entre os vacinados, aponta um estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, divulgado pela Fiocruz.

O Comprova já mostrou que não há nenhum indício de que casos de AVC, mal súbito ou infarto tenham aumentado pós-vacinação.

A autora do post

O vídeo foi gravado por uma mulher que se apresenta no Instagram como Daniela Schettino. Ela diz ser natural do Rio de Janeiro, e, segundo seu perfil no Linkedin, dá aulas de inglês desde os anos 1990. Atualmente mora em Portugal.

Ela usa seus perfis em redes sociais para espalhar desinformação sobre vacinas e teorias da conspiração, tema pelo qual afirma que começou a se interessar após os atentados ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. O Estadão Verifica possui um guia de como identificar e rebater uma teoria da conspiração.

A Lupa já checou outro vídeo da mesma pessoa. A agência de checagem mostrou ser falso que vacinados viveriam apenas dez anos de vida após a imunização.

O Comprova tentou entrar em contato, mas ela não informa publicamente nenhum meio para isso.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre a pandemia e políticas públicas do governo federal. O vídeo checado foi publicado em diversas plataformas como WhatsApp, Telegram e TikTok. Nesta última atingiu o maior número de usuários, com 33 mil visualizações.

Conteúdos falsos sobre as vacinas contra a covid-19 influenciam as pessoas a não se imunizar e enfraquecem os esforços das autoridades em saúde pública.

O Comprova já mostrou não haver relação entre as vacinas e casos de mal súbito em atletas. Também explicou porque é falso que órfãos da Polônia teriam sido usados em experimentos dos imunizantes.

Falso, para o Comprova, é conteúdo inventado e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por: 2021-12-14

É enganoso que vacina contra pólio causou câncer em 98 milhões nos EUA

  • Enganoso
Enganoso
Publicação enganosa afirma que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos admitiu que 98 milhões de pessoas receberam o “vírus do câncer” por meio da vacina contra a poliomielite, mas apagou página com informações em seguida. Alguns lotes de vacinas (de 10 a 30%) aplicadas entre 1955 e 1963 foram realmente infectados com o vírus SV40, mas o CDC não escondeu esses dados. Além disso, não há evidências suficientes para afirmar que a vacina causou câncer nos vacinados, nem de que tenha aumentado a incidência de câncer naquele grupo de pessoas.
  • Conteúdo verificado: Publicação no site Tribuna Nacional diz que o CDC teria admitido que 98 milhões de pessoas receberam o “vírus do câncer” por meio da vacina contra a poliomielite. O texto faz referência a uma publicação que saiu do ar no site do CDC.

É enganoso o conteúdo de um texto publicado na internet por uma integrante de um site conhecido por disseminar material antivacina, em que afirma que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos admite que “98 milhões de pessoas receberam o vírus do câncer através da vacina poliomielite”.

Não existe um “vírus do câncer” e o que os Estados Unidos afirmaram, ainda na década de 1960, foi que algumas das vacinas contra a pólio aplicadas no país entre 1955 e 1963 foram infectadas pelo vírus Simian 40, o SV40 ou vírus símio, que afeta macacos.

Em 1976, um estudo apontou que entre 10% e 30% dos lotes aplicados naqueles oito anos tinham sido contaminados. Para a produção dos imunizantes na época, foram usadas células de rins de macaco e algumas delas estavam infectadas com o vírus, o que só se descobriu depois.

Aqueles eram os primeiros anos de vacinação contra a poliomielite, uma doença infecciosa que afeta principalmente crianças menores de cinco anos, e que ataca o sistema nervoso central, podendo causar paralisia nos membros ou nos músculos respiratórios e levar à morte.

Os estudos para o desenvolvimento da vacina começaram na década de 1930, após a criação de um fundo pelo presidente Franklin Roosevelt, que perdeu o movimento das pernas por causa da doença. Com a vacinação, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), os casos de poliomielite diminuíram mais de 99% nas últimas três décadas. Os números passaram de 350 mil casos estimados, em 1988, para 29 casos notificados em 2018.

Mesmo após quase 40 anos da descoberta de que parte das vacinas foram contaminadas, quando uma comissão médica emitiu um parecer sobre o caso, em 2002, não foi possível provar que houve mais incidência de câncer entre pessoas vacinadas naquela época. Também não foi possível provar que os casos de câncer em pessoas que receberam a vacina entre 1955 e 1963 tinham sido resultado do SV40 presente nas vacinas.

O texto em verificação afirma que o CDC apagou a página que continha as informações sobre contaminação da vacina, mas que esta foi recuperada através do cache do Google. A reportagem procurou o site Tribuna Nacional, que publicou o texto, pediu um posicionamento sobre o conteúdo e solicitou a gravação de tela explicando como foi feita a recuperação da página que o site diz ter sido removido do ar “rapidamente” pelo CDC. Até o momento, não houve retorno.

Apesar de ter sido publicado no site Tribuna Nacional, o texto é “assinado” por uma integrante do site Coletividade Evolutiva que, por sua vez, publicou o mesmo texto em 2019, assinado por outra pessoa. Um estudo publicado em novembro de 2019 pela Avaaz em parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) aponta o Coletividade Evolutiva como o terceiro site com mais publicações antivacina – mais de 200 links.

Diante das distorções dos fatos, o Comprova classificou este conteúdo como enganoso. Além de descontextualizar as informações, o conteúdo usa dados imprecisos e confunde o leitor.

Como verificamos?

Inicialmente, o Comprova buscou no Google e no Wayback Machine a página citada pela matéria do Tribuna Nacional como sendo do CDC. As ferramentas de busca conseguiram localizar a publicação que, de fato, não está mais disponível.

Contudo, informações similares foram encontradas em uma página do próprio CDC sobre preocupações históricas a respeito de segurança das vacinas, o que significa que o centro não escondeu dados sobre a SV40 e as vacinas contra a pólio.

O print utilizado pela publicação verificada aqui mostra que a página estava no ar no dia 11 de julho de 2013. Por meio da ferramenta Wayback Machine, o Comprova conseguiu confirmar que a publicação estava no ar ao menos até o dia 5 de julho de 2013, mas não se encontrava disponível no site a partir do dia 18 de julho do mesmo ano.

A reportagem contatou, sem sucesso, o CDC, via e-mail, questionando sobre as afirmações divulgadas pela publicação do Tribuna Nacional. Além disso, buscou no site do CDC e em artigos científicos qual seria a relação entre as vacinas contra a pólio, o vírus SV40 e o possível desenvolvimento de câncer em pessoas que receberam a vacina.

Em seguida, procuramos o pesquisador Michele Carbone, citado no texto verificado, e a farmacêutica Merck & Co. (MSD fora dos Estados Unidos e do Canadá), que, segundo o texto verificado, teria sido culpada por ele em uma fala a respeito da disseminação do vírus HIV em vacinas contra hepatite B.

Também foi ouvido Edson Elias da Silva, pesquisador do Laboratório de Enterovírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e consultor da rede de laboratórios da (OPAS) dentro do Programa de Erradicação da Poliomielite. Ele também foi pesquisador do CDC e presidiu a Sociedade Brasileira de Virologia (SBV).

Procuramos ainda o site Tribuna Nacional, mas, até a publicação desta checagem, não houve retorno.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de dezembro de 2021.

Verificação

O CDC e os números

O texto aqui verificado afirma que o CDC apagou de seu site uma página na qual admitia que mais de 98 milhões de americanos tinham recebido o “vírus do câncer” através da vacina contra a poliomielite. Isto não é verdade. Primeiramente, porque não existe um vírus do câncer. Em segundo lugar, porque, mesmo que a página citada pelo texto não esteja mais no ar, o CDC não omitiu informações sobre vacinas contra a pólio que foram infectadas por um vírus chamado SV40 entre o final da década de 1950 e o início de 1960.

Estas informações estão disponíveis numa página sobre preocupações históricas a respeito de vacinas, listando uma série de artigos científicos e até dados de contaminação e estimativa de pessoas expostas ao vírus.

Por fim, os números citados no texto são imprecisos: 98 milhões é o número aproximado de americanos que tinham tomado vacinas contra a poliomielite entre 1955 e 1963, período em que se identificou que alguns lotes tinham sido infectados pelo SV40, e não o total de pessoas que foram expostas ou infectadas por ele.

Diversos artigos publicados nas décadas seguintes concluíram não ser possível atribuir casos de câncer de pessoas vacinadas naquela época ao vírus presente nas vacinas, nem que o vírus tenha feito aumentar a incidência de câncer nesse grupo de pessoas.

O que é o SV40?

O SV40 é um poliomavírus, um gênero da família de vírus DNA, que comumente infecta algumas espécies de macacos asiáticos, especialmente o macaco rhesus, mas não causa infecções graves neles.

No entanto, em 1962, os pesquisadores Eddy Bernice, Gerlad Borman, George Grubbs e Ralph Young apontaram que o vírus era capaz de modificar células de roedores, transformando células normais em células cancerígenas.

Nesta época, também se descobriu que o vírus poderia modificar células humanas in vitro e, apenas na década de 1990, foi que se confirmou que o SV40 realmente tinha o potencial de causar câncer em humanos.

Vacinas contaminadas

Em um artigo sobre a revisão de segurança da imunização, o Centro Nacional de Biotecnologia e Informação (NCBI), dos Estados Unidos, afirmou que das 98 milhões de doses de vacinas aplicadas contra o pólio entre 1955 e 1963, estima-se que 10% a 30% continham SV40. As informações utilizaram como base um estudo realizado pelos cientistas Neal Nathanson e Keerti Shah, em janeiro de 1976.

Estes dados levam à estimativa de que algo entre 10 milhões e 30 milhões de pessoas foram expostas ao vírus e eles também foram publicados pelo CDC. Mas, como nem todos que têm contato com um vírus são infectados por ele, não é possível dizer quantas pessoas realmente foram infectadas.

Para Edson Elias da Silva, pesquisador da Fiocruz, consultor da OPAS, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia e ex-pesquisador do próprio CDC, a contaminação de alguns lotes da vacina nunca foi escondida pelo órgão americano. “Descobriram porque pesquisaram, ninguém escondeu nada, como esse texto parece dizer”, afirma.

A partir da constatação de que havia lotes contaminados, as autoridades sanitárias do país passaram a exigir que se verificasse a presença do SV40 nas vacinas produzidas. Segundo ele, não foi necessário alterar a fórmula do imunizante para livrá-lo do SV40, mas apenas se certificar de que células contaminadas não estavam sendo usadas para produzir vacinas.

“Quando se detectou que alguns lotes tinham o SV40, passaram a se preocupar em verificar se o material usado tinha o vírus, um processo chamado de pesquisa de vírus adventícios. Passaram a controlar as células usadas, então nunca mais teve vacina infectada. Desde 1963, não foi detectado o SV40 em nenhuma delas”, afirma.

Vacinas são seguras

Para Edson Elias, o mais importante é deixar clara a segurança da vacina. “Essa é uma vacina segura. Depois da varíola, a segunda doença que está quase erradicada do mundo pela vacina é a pólio. A vacina já impediu mortes de milhares de crianças e impediu prejuízo de bilhões de dólares”, afirma.

De acordo com a OPAS, o número de casos estimados para a doença em 125 países endêmicos foi de 350 mil em 1988. Trinta anos depois, em 2018, a redução tinha sido de 99% — foram 29 casos notificados. Se a doença não for erradicada, podem ser registrados 200 mil novos casos por ano. O último caso de poliomielite nas Américas aconteceu no Peru, em 1991. Nos Estados Unidos, o mais recente é de 1979. No Brasil, o último caso já tem 32 anos, foi em 1989.

O país recebeu o certificado de erradicação da poliomielite em 1994, também segundo a Opas, mas “até que a doença seja erradicada no mundo (como ocorreu com a varíola), existe o risco de um país ou continente ter casos importados e o vírus voltar a circular em seu território. Para evitar isso, é importante manter as taxas de cobertura vacinal altas e fazer vigilância constante, entre outras medidas”.

Vacinas contra covid são seguras

As vacinas produzidas para combater o coronavírus não utilizam como matéria-prima as células de chimpanzés.

Os imunizantes produzidos pela Universidade de Oxford, por exemplo, utilizam a tecnologia conhecida como vetor viral não replicante, que utiliza um “vírus vivo”, como a gripe comum, que não tem capacidade de prejudicar a saúde humana.

Já as vacinas desenvolvidas em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac utilizam como tecnologia o vírus inativado da covid. Esse vírus é cultivado em laboratório e é multiplicado numa célula de culturas.

Depois, segue para o processo de inativação por meio de calor ou produtos químicos. Esse recurso ajuda o corpo a gerar os anticorpos necessários para combater o coronavírus.

A segurança e a eficácia dos imunizantes contra a covid-19 são atestados pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo Ministério da Saúde, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por secretarias de saúde dos governos estaduais e municipais brasileiros.

Associação de vacinas ao câncer

Embora alguns casos de câncer possam ser causados por vírus, segundo o Instituto Nacional do Câncer, não existe um vírus específico da doença, como afirma de maneira enganosa o texto verificado. A associação das vacinas contra a poliomielite, o vírus SV40 e o câncer em humanos começou a ser feita na década de 1960.

Foi nesse período que aumentaram as preocupações de cientistas sobre o assunto, dado que pessoas foram expostas ao SV40 em larga escala com a vacinação contra a poliomielite. Na altura, já se sabia que o vírus era oncogênico — ou seja, podia modificar células normais e transformá-las em cancerígenas em roedores.

A partir da década de 1990 é que outros estudos apontaram que o SV40 também tinha a capacidade de transformar células humanas, não apenas in vitro. Um artigo publicado em 2004 na renomada revista científica Nature pelos pesquisadores Tam Dang-Tan, Salaheddin M. Mahmud, Riccardo Puntoni e Eduardo L. Franco retoma as discussões sobre o assunto e apresenta um panorama das evidências epidemiológicas.

As vacinas contendo o SV40 foram associadas, inicialmente, a quatro tipos de câncer: mesotelioma, osteossarcoma, ependimoma e linfomas. Na revisão de segurança de imunização publicada em 2002 pelo Centro Nacional de Biotecnologia e Informação consta que, embora muitas pessoas tenham sido expostas diretamente ao SV40 por meio de injeções, não está claro se o SV40, recebido por meio da vacina, poderia ser transmitido na população uma vez que a vacina contaminada não estivesse mais em uso.

Naquele mesmo ano, a comissão de especialistas falou sobre as conclusões à imprensa. No Brasil, uma reportagem da agência Reuters sobre o assunto foi publicada pela Folha de S.Paulo. Na matéria, os integrantes da comissão destacaram que, embora o vírus tivesse o potencial de causar câncer, não havia evidências suficientes para confirmar que houvesse uma taxa de incidência maior de câncer em pessoas que receberam a vacina entre 1955 e 1963 e pessoas que não foram vacinadas naquele período.

“A grande maioria dos estudos populacionais, com prioridade para o estabelecimento de relações causais, não encontrou taxas maiores de câncer em pessoas que receberam a vacina contaminada pelo vírus 40 dos símios”, informou a comissão, em trecho publicado pela Reuters. “Entretanto, um suposto vínculo não pode ser totalmente descartado em função das limitações dos dados disponíveis e do método de realização dos estudos”, completaram os pesquisadores.

A grande questão era saber se as pessoas que alegavam ter desenvolvido câncer por causa da vacina poderiam mesmo fazer essa afirmação. Ao que parece, não havia evidências suficientes para isso.

“Há um bom conjunto de evidências biológicas de que o SV40 seja capaz de provocar câncer, mas não se sabe se a exposição ao vírus por vacinas contaminadas pode provocar determinados tumores suspeitos de associação ao SV40 – mesotelioma, osteosarcoma, ependimoma e linfoma não Hodgkin”, diz outro trecho de uma das afirmações dos especialistas, publicado pela Reuters.

Para o pesquisador Edson Elias da Silva, da Fiocruz, ainda hoje não é possível afirmar categoricamente que o SV40 tenha de fato causado câncer nas pessoas vacinadas com doses contaminadas, inclusive porque as vacinas não eram a única maneira de que humanos tivessem acesso ao SV40.

“O que se pode dizer é que as vacinas tiveram o vírus, mas você não pode dizer que até hoje que o câncer que é encontrado é porque veio disso”, afirma.

No artigo “Contaminação de vacinas de poliovírus com vírus símio 40 (1955-1963) e taxas de câncer subsequentes” os pesquisadores Howard D. Strickler, Philip S. Rosenberg e Susan S. Devesa publicaram os resultados de estudos sobre o assunto, em 1998. Segundo eles, a ausência de uma incidência de casos analisados no estudo aumenta a evidência de que não existe relação entre a exposição à vacina contaminada com SV40 e o desenvolvimento de câncer. “Conforme os dados amadurecem, no entanto, será importante continuar a monitorar os riscos de câncer”, afirmam no artigo.

Quem é Michele Carbone?

O texto verificado menciona Michele Carbone como autor de estudos sobre a relação entre o SV40 e a incidência de câncer em pessoas vacinadas contra a pólio entre 1955 e 1963 e sobre a presença do SV40 em tumores de crianças que nasceram nessa época. Ele realmente fez muitos estudos sobre o tema, sendo usados como fonte de referência em diversas publicações, desde artigos na revista Nature até textos publicados pelo CDC.

Carbone é um médico italiano, PhD em Patologia Humana pela Universidade de Roma La Sapienza. Ele foi professor e pesquisador do Departamento de Patologia da Loyola University of Chicago e atualmente é diretor da Oncologia Torácica do Centro de Câncer da Universidade do Hawai’i. Ele é membro efetivo do Programa de Biologia do Câncer e professor do Departamento de Patologia da mesma universidade, em Manoa. Entre as revistas em que ele publicou está a Oncogene, da Nature, que concentra pesquisas mais recentes sobre biologia celular e molecular do câncer.

Ele é um dos cientistas que defendem que o SV40 consegue modificar células humanas. O cientista publicou mais de um artigo sobre isso. Em um dos mais recentes, de fevereiro de 2020, o pesquisador fala sobre o SV40 e mesotelioma humano — um tipo de câncer muito raro que acomete a membrana que reveste os pulmões, o estômago e o coração. A incidência deste tipo de câncer aumentou após a década de 1960, o que inicialmente foi atribuído ao uso de amianto durante a Segunda Guerra Mundial.

Carbone aponta que o SV40 pode ser não só ser o causador de alguns tipos de câncer, como pode ter contribuído, com o amianto, para o aumento da incidência desse tipo de tumor, já que esse aumento coincide com a exposição em larga escala ao vírus entre 1955 e 1963 com as primeiras vacinas contra a poliomielite.

Procurado pelo Comprova, Michele Carbone afirmou por e-mail que “é um fato que milhões de poliovacinas foram contaminadas com o vírus SV40 vivo de 1955 a 1963, com uma estimativa de 98 milhões de potencialmente expostas a vacinas contaminadas”.

Ele acrescentou que, embora o SV40 não tenha estado mais presente nas vacinas americanas a partir de 1963, vacinas contaminadas continuaram a ser vendidas na antiga União Soviética até 1978.

O texto verificado também tenta atacar outra vacina, a de hepatite B, ao afirmar que Michele Carbone disse abertamente que estes imunizantes foram os responsáveis por disseminar o HIV, culpando assim uma das fabricantes, a Merck & Co.

O Comprova questionou o pesquisador e ele respondeu que esta afirmação era totalmente falsa e que havia dito e publicado exatamente o contrário. Contudo, compartilhou o link de um artigo em que afirma não haver evidências de contaminação por HIV nas vacinas contra a pólio, e não de hepatite B. O Comprova voltou a questioná-lo, mas não recebeu resposta.

Em nota, a Merck & Co. (MSD), negou que o vírus HIV tenha sido transmitido pela vacina contra a hepatite B e assegurou que o imunizante é eficaz para a prevenção da doença.

A empresa também negou que o HIV tenha sido transmitido pelas vacinas contra a poliomielite. “Testes laboratoriais independentes não encontraram evidências que apoiam a teoria de que uma vacina de poliomielite, usada em cerca de 1 milhão de africanos na década de 1950, desencadeou a epidemia de AIDS. Os resultados não encontram nenhuma evidência de que a vacina, administrada entre 1957 e 1961, continha qualquer tecido de Chimpanzés e que, consequentemente, disseminava o vírus HIV em humanos. A teoria predominante da transmissão do HIV em humanos é que um caçador foi infectado, após ser arranhado por um chimpanzé, ao tentar capturá-lo ou depois de cortar o animal”, diz a nota.

Autores da informação enganosa

Na aba “Quem Somos”, o Tribuna Nacional afirma ser um portal de ideias conservadoras. O site compartilhou o texto aqui verificado, escrito por Cristina Barroso. Ao clicarmos no perfil da autora, disponibilizado no site, não aparecem informações sobre quem ela seria ou sua formação, apenas textos assinados por ela.

Abaixo da assinatura de Barroso está a indicação que o conteúdo também seria do “Coletividade Evolutiva”. O site condensa informações antivacinas e havia compartilhado anteriormente o mesmo texto, assinado por outra pessoa, em 2019.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas e eleições. A publicação verificada recebeu quase 800 interações só no Twitter — entre curtidas, retuítes e tuítes com comentários —, e 56 compartilhamentos dentro do próprio site do portal de notícias.

Informações enganosas como essa, divulgadas como “verdadeiras”, colocam a eficácia de imunizantes em questão. Diante do avanço da pandemia da covid-19 entre os anos de 2020 e 2021, boatos que descredibilizam as tecnologias que integram qualquer imunizante e reforçam o discurso antivacina, de resistência às injeções contra o vírus, são perigosos.

Até o momento, somente os imunizantes contra o coronavírus são capazes de evitar quadros graves da doença, internações e óbitos, além de prevenir a transmissão e contaminação.

Em verificações anteriores, o Comprova mostrou que as vacinas contra a covid-19 são seguras e não geram HIV, câncer ou HPV, como também desmentiu boatos criados por médico dos EUA sobre imunizantes contra o coronavírus provocarem câncer.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.