O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 41 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
Filtro:

Eleições

Investigado por: 2021-11-10

Prejuízo de refinaria não concluída no Maranhão foi de cerca de R$ 2 bilhões, não de R$ 5 bilhões

  • Enganoso
Enganoso
São enganosas as publicações coordenadas que afirmam que houve roubo de R$ 5 bilhões dos cofres públicos na construção da refinaria Premium I, em Bacabeira, no Maranhão, sem investigação dos órgãos responsáveis. A obra, que, de fato, não foi concluída, gerou prejuízos de cerca de R$ 2,1 bilhões para a Petrobras e é alvo de auditoria do órgão desde o início, além de ter sido mencionada na CPI da Petrobras na Câmara.
  • Conteúdo verificado: Publicações no Facebook afirmam que a construção da refinaria Premium I, em Bacabeira, no Maranhão, nunca saiu do papel e que foram roubados R$ 5 bilhões dos cofres públicos, sem que o caso tivesse atenção de órgãos fiscalizadores e imprensa.

Publicações coordenadas no Facebook enganam ao afirmar que foram roubados R$ 5 bilhões dos cofres públicos na construção da refinaria Premium I, em Bacabeira, no Maranhão. O projeto, que, de fato, não foi concluído, gerou prejuízo de R$ 2,1 bilhões para a Petrobras, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), e ainda está sob investigação.

O post também erra ao afirmar que “o TCU não viu” o caso. O órgão faz auditoria no projeto desde 2011 e já apontou irregularidades no decorrer dos anos, que foram mencionadas no relatório final da CPI da Petrobras na Câmara dos Deputados.

Também acusada de “não ver” a situação, segundo o post, a imprensa noticiou o cancelamento das obras, o reflexo da promessa não cumprida e o impacto que a decisão teve nas contas da estatal de petróleo.

A publicação engana ainda ao dizer que o vídeo utilizado, mostrando o então presidente Lula (PT) e sua equipe, é de 7 de fevereiro de 2005. A gravação, uma reportagem, foi publicada originalmente no dia 19 de janeiro de 2010 no canal do programa Maranhão TV no YouTube.

Procurado, o autor da publicação, que aparece em 11 grupos de Facebook diferentes, não respondeu ao contato. O Comprova considerou o conteúdo como enganoso porque usa dados imprecisos.

Como verificamos?

Para encontrar o vídeo original, fizemos uma busca no YouTube com o nome do canal que aparece no final do vídeo publicado no post verificado aqui e o nome do estado: MA TV Maranhão. O primeiro resultado é o canal do programa Maranhão TV.

Dentro do canal, na aba de vídeos, foi feita nova busca pelas palavras-chave “Petrobras” e “Premium I”.

O segundo vídeo que aparece entre os resultados é o mesmo do post desta verificação e foi postado em 19 de janeiro de 2010. Esta data foi confirmada como sendo a correta com outras reportagens da mesma época, como esta da TV Brasil, estatal, postada um dia antes.

O próximo passo foi pesquisar reportagens sobre o lançamento, a construção e o cancelamento da obra da refinaria.

Na sequência, a reportagem contatou a assessoria de imprensa da Petrobras por telefone e email.

Também verificamos as investigações de autoridades e órgãos de controle. No site da Câmara foi possível encontrar a página com o relatório final e o próprio documento da CPI da Petrobras. O relatório final menciona processos abertos no Tribunal de Contas da União. Na página do TCU na internet, com os números citados, foi possível fazer consultas por cada um. Buscamos informações também no Senado. Contatamos a assessoria de imprensa do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), mas não obtivemos retorno.

Fizemos contato com a Secretaria de Comunicação do governo do estado do Maranhão, que não respondeu aos questionamentos. Procuramos ainda a Prefeitura de Bacabeira, mas o telefone e o email disponíveis no site da prefeitura não funcionam. Na página do Facebook, enviamos mensagem, mas não houve resposta.

Verificação

Início

A construção de uma refinaria no Maranhão havia sido citada pelo governo federal em 2007 em seu Plano de Aceleração do Desenvolvimento (PAC). No texto, o estado receberia investimentos em três eixos: logística, energia e infraestrutura social. O montante previsto no PAC era de R$ 9,1 bilhões, dos quais 5,6% destinavam-se ao eixo energia, que incluía a refinaria de petróleo.

O projeto da Premium I, da Petrobras, no município de Bacabeira, a 60 quilômetros de São Luís, foi lançado em 2010, pelo ex-presidente Lula (PT) e a a chefe da Casa Civil na época, Dilma Rousseff. A promessa era de que a fábrica entraria em funcionamento em 2015.

A construção foi incluída no Plano de Negócios e Gestão da Petrobras 2014-2018 e no PAC2. No entanto, a estatal cancelou a implantação da refinaria em 2015. Se a obra tivesse sido concluída, representaria a maior refinaria do Brasil, com capacidade de produzir cerca de 600 mil barris de petróleo por dia.

Obra cancelada

Existem alguns motivos para a construção da refinaria não ter sido concluída. Um deles é que o TCU apontou irregularidades na obra. Em um relatório de fiscalização de abril de 2013, o órgão identificou indícios graves de irregularidade na terraplanagem — a única obra que teve início, mas que foi paralisada. De acordo com o TCU, somente em 1º de novembro de 2010, oito meses depois do lançamento, e já com a terraplanagem em andamento, é que foi assinado um contrato para elaboração do projeto básico da refinaria.

Outro motivo: em informações coletadas no site do Senado, a parceria da petroleira chinesa Sinopec com a Petrobras para construir a Premium I não deslanchou porque os chineses deixaram claro que não confiavam na paridade de preços no Brasil (equilíbrio entre os preços internos dos combustíveis e do petróleo no mercado internacional) e exigiram uma rentabilidade mínima de 12% ao ano — enquanto a Petrobras trabalhava com um índice de 8,7%. A refinaria iria processar diesel para exportação.

Além disso, um terceiro ponto destacado foi a destruição da vegetação no Maranhão, que causou danos ambientais por causa da terraplenagem e outros serviços – citado no relatório do TCU. Em 2017, a Petrobras foi condenada a pagar R$ 53,7 milhões por essa questão, em decisão resultante de ação civil pública proposta pela Procuradoria-Geral do Estado.

O fato de o empreendimento ter sido iniciado sem projeto básico também foi apontado pelo TCU.

A obra da Premium I foi alvo de investigações na Câmara dos Deputados na CPI da Petrobras. Foram apontadas irregularidades na refinaria, com base em processos do Tribunal de Contas da União: sobrepreço decorrente de jogo de planilha, prática na qual o construtor muda valores durante a execução da obra, prejudicando o contrato (processo 007.321/2011-2); falha de planejamento, ocasionando aditivos e atrasos injustificáveis nas obras e serviços com prejuízos à Petrobras (006.280/2013-7).

Gastos

Com terraplanagem, construção de canais perimetrais, canteiro de obras e pontes de acesso e cercas foram gastos, pela Petrobras, R$ 583 milhões.

Além disso, o TCU apontou que foram gastos mais R$ 1 bilhão em projetos, treinamentos, transporte e estudos ambientais pela empresa estatal.

Procurada pelo Comprova, a Petrobras disponibilizou documento com os resultados consolidados do terceiro trimestre de 2015, quando houve baixa contábil das obras das refinarias Premium I e Premium II – esta última no Ceará. Segundo o documento, houve prejuízo de R$ 2,7 bilhões em ambas. De acordo com reportagem do G1 à época, R$ 2,1 bilhões eram da Premium I e R$ 596 milhões, da Premium II.

o item 561 do documento do TCU indica que “em 2015, em face da limitação de funding [financiamento] e da falta de parceiros para o empreendimento, propôs-se o encerramento parcial dos projetos com prejuízo de R$ 2,8 bilhões contabilizados até dezembro de 2014”.

Ação articulada

O autor do post se identifica no Facebook como Marcos Rocha e integra o grupo “#bolsonarotemrazão” na mesma rede, onde ele publicou o conteúdo verificado aqui. A reportagem tentou entrar em contato, mas ele não respondeu.

Após ele fazer a publicação com as informações enganosas, ela foi compartilhada em sete grupos públicos do Facebook ao mesmo tempo, sendo todos de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Cerca de uma hora depois foi postada em outros quatro grupos.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. O post aqui verificado foi usado em ação coordenada e publicado em 11 grupos diferentes, sendo em sete deles ao mesmo tempo, e, segundo a ferramenta CrowdTangle, somou cerca de 500 interações até o dia 10 de novembro de 2021. Na página do autor da publicação, ela foi visualizada 1,3 mil vezes.

Ao aumentar o valor e alegar roubo de um dinheiro investido em obras da Petrobras no governo Lula, a publicação tenta descredibilizar o político, que lidera pesquisa Datafolha de intenção de voto para presidente em 2022, sendo o principal concorrente de Jair Bolsonaro (sem partido).

O Comprova já verificou outros conteúdos que distorcem a verdade para favorecer o atual presidente, como o que acusa falsamente Lula e Dilma de terem pagado 6 mil euros em um jantar em Paris e o que retira de contexto tabela com dados do Bolsa Família.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado com alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2021-11-09

Tabela sobre pagamento de Bolsa Família é editada e retirada de contexto para favorecer Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso que o programa Bolsa Família tenha atendido a um número maior de famílias no governo de Jair Bolsonaro (sem partido), com menos recursos e parcelas maiores do que na gestão de Dilma Rousseff (PT). A postagem contém uma tabela incompleta que retira de contexto dados sobre o benefício.
  • Conteúdo verificado: Postagem no Facebook apresenta uma tabela com valores que teriam sido aplicados pelo governo federal em programas sociais, comparando as gestões do PT (Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff), do MDB (Michel Temer) e de Jair Bolsonaro (sem partido).

É enganoso que, durante o governo de Jair Bolsonaro (sem partido), o programa Bolsa Família tenha passado a atender a um número maior de famílias, com um volume menor de recursos do que o empenhado durante o governo de Dilma Rousseff (PT).

Uma postagem no Facebook apresenta uma tabela com os valores do orçamento do Bolsa Família, entre 2003 e 2021, além do número de famílias atendidas e a média do benefício, alegando que, nos últimos anos, foi possível atender mais pessoas com um orçamento menor.

A tabela, na verdade, está incompleta e foi retirada de uma reportagem do Poder360, onde foi publicada com o título “Bolsa Família teve maior valor real pago em 2014”. A postagem omite o recorte principal, deixando de mostrar a coluna com a “média real por família”, que corrige o valor do benefício de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) que é o índice que mede a inflação e variação dos preços, produtos e serviços consumidos pelas famílias brasileiras e permite uma comparação mais adequada entre os anos.

A publicação ainda afirma que o Renda Brasil vai pagar R$ 400 mensais aos beneficiários, com direito a 13º salário. O novo programa social, chamado Auxílio Brasil, prevê reajuste de 20% no valor pago pelo Bolsa Família, e, de fato, com alguns benefícios transitórios programados até dezembro do ano que vem, a transferência de renda pode chegar a R$ 400. Mas este não é um valor definitivo.

No entanto, o governo federal ainda não possui a confirmação do pagamento do novo benefício em novembro, pois depende que o Congresso aprove um projeto de lei que transfere R$ 9,3 bilhões do orçamento de um programa para o outro. O funcionamento do programa também não está claro.

Além disso, no contexto de criação do Auxílio Brasil, foi suspenso o auxílio emergencial, criado para atendimento da população mais vulnerável durante a pandemia, deixando um grupo de pessoas desassistidas, uma vez que nem todas terão direito ao novo benefício.

Procurado pelo Comprova, o autor da postagem não respondeu ao pedido de esclarecimentos. O Comprova considerou o conteúdo enganoso porque usa dados imprecisos na postagem.

Como verificamos?

O Comprova analisou a formatação da tabela e notou que o estilo de fonte e diagramação parecia com o padrão adotado pelo site Poder360. Em uma busca no Google, pelos termos “média nominal por família, bolsa família, Poder360”, fomos direcionados para o link com a reportagem onde consta a informação original, que tem o título “Bolsa Família teve seu valor máximo em 2014, ano de reeleição da Dilma”.

A reportagem comparou, então, as informações da tabela presente na postagem verificada e as da matéria original e checou a veracidade das alegações do autor do post no Facebook.

A equipe ainda fez contato com o economista e professor de finanças públicas da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Piscitelli.

Além disso, o Comprova procurou o autor da postagem no Facebook por e-mail e também por mensagem instantânea disponíveis na página da empresa em que ele se apresenta como “desenhista principal”, mas não tivemos retorno até a publicação da verificação.

Verificação

Tabela fora de contexto

A tabela que consta na postagem foi retirada de uma reportagem do site Poder360, publicada em 22 de outubro com o título “Bolsa Família teve seu valor máximo em 2014, ano de reeleição da Dilma”. No Facebook, porém, o autor omitiu o título da própria tabela (“Bolsa Família teve maior valor real pago em 2014”), algumas observações e, sobretudo, a última coluna, que mostra a “média real por família” do benefício, a cada ano.

Na tabela original, “média real por família” é o valor do benefício atualizado pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador que mede a inflação no país. Quanto mais alta é a inflação, menor é o poder de compra das famílias. A maior variação mensal de IPCA foi em março de 1990, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

| A tabela original está publicada no site Poder360, e inclui informações sobre os valores pagos por Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. O quadro revela que o valor mais alto do Bolsa Família foi em 2014.

Na publicação original, esta última coluna é o destaque, já que é na média real que o valor pago em 2014 se sobressai em relação aos demais anos. Segundo dados na própria tabela, a média real considera os valores nominais corrigidos pela inflação, resultando no montante que seria recebido se a mesma média de empenho orçamentário e número de beneficiados fosse mantida hoje.

Na postagem, o autor do conteúdo verificado alega que “Bolsa Família no governo Lula não passava de 100 reais” e que “no governo Dilma não passava de 164 reais”. Apesar de encontrarem respaldo na comparação do valor nominal, as afirmações não se sustentam na avaliação efetiva entre o valor pago a cada ano pelo benefício, já que é preciso considerar a correção monetária.

Dessa forma, considerando a média real, o valor mais baixo pago pelo governo Lula, por família, foi de R$ 110,80, em 2006. Já no governo Dilma, como é ressaltado no título da matéria, houve pagamento de até R$ 245,10 por família – o maior já registrado, em valores reais, desde a implementação do benefício.

Na legenda da publicação verificada, o autor ainda diz que “as famílias atendidas aumentaram nesse governo e foi gasto bem menos do que no ano do governo de Dilma”. A afirmação também não se sustenta, porque os valores na coluna de “orçamento” consideram a correção monetária pelo IPCA e, portanto, a comparação com o valor pago a cada família deve levar em conta, igualmente, o valor corrigido.

A tabela não especifica esta correção dos valores orçamentários, mas o Comprova fez o caminho matemático inverso do cálculo da média real do benefício por família, e encontrou as quantias destacadas na primeira coluna: por exemplo, em 2014, a média do benefício (R$ 245,10) foi paga a 14 milhões de famílias, por um período de 12 meses – o que resulta num gasto de R$ 41,1 bilhões (245,10 x 12 x 14.000.000 = 41.176.800.00).

Bolsa Família

O Bolsa Família começou a ser pago em outubro de 2003, quando o programa foi instituído pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e apresenta três eixos principais: complemento da renda; acesso a direitos; e articulação com outras ações de modo a estimular o desenvolvimento das famílias. Apesar de ter iniciado em 2003, os levantamentos do Ministério da Cidadania começaram em 2004.

O valor que cada família recebe do Bolsa Família depende de vários fatores, como o número de pessoas, a idade de cada um e condições como a gravidez, por exemplo. Depende também da renda per capita.

O pico dos gastos com o Programa Bolsa Família foi atingido em 2013, quando totalizou R$ 38,4 bilhões, segundo os dados oficiais. Já em 2019, um ano antes da pandemia, foram gastos R$ 33,5 bilhões e, em 2020, apenas R$ 10,1 bilhões, já que os beneficiários receberam parte do valor por meio do auxílio emergencial.

Em 2020, o programa englobava 41 milhões de pessoas, cerca de 13 milhões de famílias. Neste ano, eram 14,7 milhões de famílias beneficiadas pelo programa. O Bolsa Família era destinado às famílias com renda por pessoa de até R$ 89 mensais, e também às famílias com renda por pessoa entre R$ 89,01 e R$ 178 mensais, desde que tivessem crianças ou adolescentes de zero a 17 anos.

A última parcela do Bolsa Família foi paga em outubro aos beneficiários, ainda sem a confirmação do pagamento do Auxílio Brasil em novembro. O governo federal ainda depende que o Congresso aprove um projeto de lei que transfere R$ 9,3 bilhões do orçamento de um para o outro.

O programa Auxílio Brasil

Na postagem verificada, o autor afirma que o Renda Brasil terá o valor de R$400.

O benefício a que o autor do post se refere como Renda Brasil, na verdade, foi batizado de Auxílio Brasil. Quando a proposta foi apresentada em junho do ano passado, era Renda Cidadã, e mudou de nome duas vezes até chegar à denominação atual.

A previsão é que comece a ser pago em novembro deste ano (mês em que são pagas as últimas parcelas do auxílio emergencial criado na pandemia), numa composição de benefícios que vai alcançar o valor de R$ 400. O pagamento está previsto até dezembro de 2022, ano eleitoral e que deverá ter Bolsonaro na disputa à reeleição.

O interesse nas eleições presidenciais é apontado como motivação para as mudanças propostas e há uma discussão jurídica se o dinheiro extra para o auxílio pode, inclusive, ser considerado crime eleitoral.

O programa social, divulgado pelo governo federal como substituto do Bolsa Família, traz a novidade no nome, mas, na prática, o novo sistema de transferência de renda também exige inscrição no Cadastro Único (CadÚnico) – o mesmo usado para definir quem ganha atualmente a bolsa.

Assim, quem já está no Bolsa Família deve receber automaticamente o Auxílio Brasil. Para se encaixar como beneficiário, além de se inscrever no CadÚnico, é preciso seguir uma série de regras, entre as quais viver na extrema pobreza. Famílias em situação de pobreza também poderão ser atendidas, desde que tenham gestantes ou pessoas com menos de 21 anos.

Mas o valor de R$ 400 não é definitivo. A remuneração atual vai ter reajuste, estimado em 20%, e a esse resultado serão somados benefícios transitórios até o limite definido para o Auxílio Brasil. Assim, após dezembro de 2022, se não houver mudanças, os beneficiários do programa social voltarão a receber o equivalente ao que é pago hoje no Bolsa Família, acrescido do reajuste.

Diante de um custo de vida elevado, mesmo com reajuste e complementos, os R$ 400 não compram uma cesta básica nas capitais do país.

Além disso, o programa social não alcança todas as pessoas que, atualmente, recebem o auxílio emergencial. A previsão é que mais de 22 milhões de brasileiros fiquem sem o benefício a partir de novembro. A forma como o Auxílio Brasil está sendo apresentado também é alvo de críticas pela insegurança gerada nos beneficiários do Bolsa Família.

Consultado sobre o tema, o economista Roberto Piscitelli pontuou que, a princípio, não se deve comparar o Bolsa Família com o Auxílio Emergencial, pois as finalidades e circunstâncias são absolutamente diversas. E o auxílio não tem contrapartida.

Piscitelli cita um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em 2013, segundo o qual o Bolsa Família beneficiava 13,8 milhões de famílias. “Estes números, como se vê, estão próximos dos números mais recentes, 8 anos depois, quando se estima algo em torno de 14,4 milhões. Comparando-se com o aumento da população no período, esse acréscimo está aquém da relação que se poderia estabelecer, levando em conta justamente essa variável (população), e muito aquém do aumento dos números do desemprego, do subemprego e da informalidade”.

Quem é o autor do post investigado?

O perfil que publicou a planilha é de Bruno Guetä, que se identifica como desenhista no Facebook.

No início da verificação, o Comprova encontrou os perfis de Bruno também no Linkedin e Twitter, fez contato com o autor por e-mail disponibilizado no Linkedin e enviou mensagem instantânea para a página da empresa em que ele diz atuar como “desenhista principal”.

No entanto, após o contato da reportagem, o jovem excluiu os perfis no Linkedin e Twitter, mantendo apenas a conta no Facebook. Apesar de não ter respondido o contato do Comprova, Bruno saiu do grupo Bolsonaro 2022 🇧🇷, onde fez o post verificado.

Até a publicação desta matéria não houve resposta.

Por que investigamos?

Conteúdos suspeitos sobre políticas públicas do governo federal, como o Bolsa Família, fazem parte do escopo do Comprova, nesta quarta fase do Projeto – assim como postagens que tratam das eleições ou da pandemia.

A postagem verificada teve mais de 13,7 mil interações no Facebook, segundo a plataforma CrowdTangle, e usa dados falsos para criar uma impressão incorreta sobre a atuação do governo Bolsonaro. A extinção do Bolsa Família, em prol da criação de um novo benefício, com características ainda incertas, é alvo de diversas críticas.

O Comprova já verificou postagens que também atribuíam méritos ao governo federal de forma incorreta, como o vídeo falso que afirmava que Bolsonaro estaria doando máquinas agrícolas aos estados, uma publicação sobre investimentos na ciência e um vídeo sobre obras de infraestrutura.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda aquele que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2021-11-05

Post inventa que Lula é acionista da Folha

  • Falso
Falso
São falsos posts de 2018 que voltaram a circular no Facebook afirmando que o ex-presidente Lula (PT) é dono do jornal Folha de S.Paulo. O veículo pertence à família Frias.
  • Conteúdo verificado: Posts no Facebook inventam que Lula (PT) detém 52% das ações da Folha.

É falso o post de 2018 que voltou a circular no Facebook dizendo que o ex-presidente Lula (PT) seria “dono” de 52% das ações do jornal Folha de S.Paulo. Como informado em seu site, o veículo pertence à família Frias desde 1992.

Na legenda, um dos perfis que compartilhou o post alega que isso explicaria o fato de “a Folha de S.Paulo ser contra Bolsonaro”, o que também é falso. O jornal, como é explicado em seu site, é pautado pelo apartidarismo e pela desvinculação a “governos, oposições e doutrinas”.

A reportagem tentou contatar três perfis que publicaram o post com o mesmo conteúdo, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. A postagem foi considerada falsa porque usa informações inventadas.

Como verificamos?

O primeiro passo foi confirmar, por meio de notícias no site da Folha, que Lula não tem nenhuma participação no grupo do qual o jornal faz parte. Ao pesquisar as informações no Google, foi verificado que o post com conteúdo falso havia circulado inicialmente em 2018 – e que a Folha e agências como Lupa, Boatos.org e Aos Fatos já haviam checado as afirmações na época.

A reportagem também entrou em contato com a Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp), que informou que os dados da Folha só podem ser acessados por representantes legais, já que se trata de uma sociedade anônima.

Outro passo foi buscar a reportagem que aparece como print de tela no conteúdo, intitulada “Jornal espanhol corrige declaração de Lula com crítica a Dilma”. Referia-se a uma matéria do veículo “El Mundo”, de 22 de outubro de 2017.

Em seguida, o Comprova analisou o mais recente projeto editorial da Folha para averiguar o posicionamento sobre manifestações partidárias, incluindo participação de políticos na empresa.

Por último, tentamos contato via mensagem no Facebook com os perfis ​​Bolsonaro 2022, Plaster Mãozinhas e Alverindo Pommer, que publicaram os posts.

Verificação

Família Frias

Em 2018, quando o post circulou pela primeira vez, a Folha desmentiu as alegações de que Lula seria dono de ações da empresa. “A Folha é editada pela Empresa Folha da Manhã S.A., que pertence 100% à família Frias de Oliveira”, diz a nota. Também lembra que o jornal foi comprado “em 1962 pelos empresários Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho” e que, “em 1991, os dois sócios se separaram, e a família Frias tornou-se a única proprietária da empresa”.

Desde novembro de 2020, como informou nota no jornal, o publisher Luiz Frias, filho de Octavio Frias de Oliveira, se tornou o acionista majoritário da holding Folha Participações S.A., controladora da empresa à qual o jornal Folha de S.Paulo pertence.

I Nota publicada na versão impressa da Folha em 20 de novembro de 2020

Folha e Bolsonaro

Como informa seu projeto editorial mais recente, de 2019, a Folha atua com o princípio do apartidarismo – ou seja, ao contrário do que desinforma o post verificado aqui, ela não trabalha a favor ou contra nenhum político.

“Sob o pressuposto de que a difusão de informações confiáveis e opiniões qualificadas estimula o exercício da cidadania e contribui para o desenvolvimento das ideias e da sociedade”, a Folha coloca como um de seus princípios: “Manter atitude apartidária, desatrelada de governos, oposições, doutrinas, conglomerados econômicos e grupos de pressão”.

Já o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ataca a imprensa e, especificamente, a Folha, com frequência. Em 5 de maio do ano passado, por exemplo, chamou o jornal de “canalha”, “patife” e “mentiroso”. Na mesma ocasião, mandou um repórter “calar a boca”; a Folha se manifestou em nota dizendo que, “mais uma vez o presidente Jair Bolsonaro desrespeita a liberdade de expressão e insulta o jornalismo profissional” e que o jornal ia seguir “cobrindo os atos desta administração com isenção e independência, como fizemos em todos os governos”.

A notícia reproduzida na postagem

O título da reportagem da Folha exposto no conteúdo falso diz: “Jornal espanhol corrige declaração de Lula com crítica a Dilma”. A notícia, de 23 de outubro de 2017, conta que o “El Mundo” havia alterado uma declaração do petista dada em entrevista.

A mudança ocorreu após o ex-presidente afirmar, em seu Twitter, que a Folha e o UOL haviam divulgado uma declaração que ele não teria dado ao veículo espanhol – os veículos brasileiros haviam se baseado na reportagem do El Mundo.

Na primeira versão, o espanhol publicou que Lula disse que a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) “traiu seu eleitorado”. Posteriormente, o trecho foi corrigido, afirmando que Lula declarou que o “eleitorado se sentiu traído” com o ajuste fiscal promovido pela colega de partido.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições, como este checado aqui, que teve ao menos 16 mil visualizações até 4 de novembro.

Ao associar o nome de Lula ao comando da Folha, o post tenta descredibilizar tanto o político quanto o jornal – ambos são alvos de ataques frequentes de Bolsonaro. Descredibiliza também o Datafolha, instituto que, em sua última pesquisa, publicada em 17 de setembro, mostrou Lula à frente de Bolsonaro tanto no primeiro quanto no segundo turno do pleito presidencial de 2022. Os cidadãos têm o direito de apoiar o candidato que quiserem, mas é perigoso para a democracia quando a opinião é formada com base em conteúdos falsos, como estes.

Como já informado, esse conteúdo já foi checado pela Folha e por agências como Lupa, Boatos.org, Aos Fatos e Observador.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2021-10-29

Publicações falsas inventam que jogadores de times europeus dedicaram gols a Bolsonaro

  • Falso
Falso
São falsas duas publicações virais no Facebook que falam que jogadores internacionais homenagearam Jair Bolsonaro (sem partido). Não existem registros de que Mohamad Salah, do Liverpool, e Ciro Immobile, da Lazio, tenham se manifestado a favor do presidente brasileiro.
  • Conteúdo verificado: Post inventa que Mohamed Salah, atacante egípcio do Liverpool, dedicou três gols a Jair Bolsonaro (sem partido). Publicação semelhante que começou a circular antes cita outro jogador internacional, o italiano Ciro Immobile, da Lazio.

São inventadas as informações de posts virais no Facebook com homenagens de jogadores de futebol internacionais ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) após gols e vitórias de suas equipes.

Na publicação mais recente aparece o egípcio Mohamed Salah, atacante do time inglês Liverpool, com uma frase falsa enaltecendo Bolsonaro após supostamente ter ouvido boas referências de brasileiros companheiros de clube. Na semana passada, circulava uma montagem semelhante com foto do atleta italiano Ciro Immobile, que joga na equipe também italiana do Lazio.

Apontado como fonte de uma das histórias, o jornalista Jorge Nicola não fez publicação sobre a suposta homenagem de Salah a Bolsonaro. “Não escrevi nada daquilo”, ele afirmou ao Comprova.

No post com Immobile, a alegação é que a origem da história seria um jornal esportivo italiano, mas não há nenhuma reportagem com esse conteúdo.

A reportagem escreveu para as páginas que publicaram os conteúdos. O perfil Bolsonaro Presidente no Facebook não respondeu até a publicação deste texto. Já o grupo Bolsonaro 2022 BR não foi possível contatar porque não há opção de envio de mensagem.

O Comprova considerou os conteúdos falsos porque foram inventados.

Como verificamos?

Para verificar o caso de Salah, a reportagem checou o blog e todas as redes sociais de Jorge Nicola, jornalista citado como fonte da história, e não encontrou nenhuma referência ao caso no YouTube, Twitter, Facebook e Instagram. Houve contato com o próprio Nicola por mensagens no WhatsApp e ele negou ter publicado o conteúdo.

O Comprova também fez contato com o assessor de imprensa de Alisson Becker, um dos jogadores brasileiros citados em um dos posts.

Sobre o caso que circulou na semana anterior, de Immobile, a equipe entrou em contato com a assessoria de imprensa do jogador pelo Instagram e LinkedIn e fez buscas em sites de jornais esportivos da Itália, para verificar se algum deles seria a fonte citada no post, e não havia nenhuma informação sobre a homenagem. Também foram checadas as redes sociais do jogador italiano e não havia nenhuma manifestação sobre Bolsonaro. Até o momento, a assessoria do jogador não respondeu às mensagens.

Verificação

Mohamed Salah

No dia 24 de outubro, o Liverpool goleou o rival Manchester United por 5 a 0, com três gols de Mohamed Salah, um dos 30 melhores jogadores do mundo na atualidade, segundo lista do prêmio Bola de Ouro da revista francesa France Football. Tentando aproveitar a popularidade do egípcio, um post afirma falsamente que ele admira Jair Bolsonaro pelo que escuta em conversas com jogadores brasileiros do clube, como o goleiro Alisson, o volante Fabinho e o atacante Roberto Firmino.

A assessoria de imprensa do goleiro Alisson Becker afirmou que a situação narrada na postagem é falsa.

A fonte citada na publicação é “Jorge Nicolas”, grafia errada do nome do jornalista Jorge Nicola, que mantém blog no Yahoo e negou que tenha feito qualquer reportagem sobre o tema. “Nunca”, foi o que respondeu categoricamente ao ser questionado se já divulgou entrevista com esse conteúdo.

Ciro Immobile

A fonte citada no post sobre Immobile é “Jornal esportivo italiano”, sem especificar qual veículo de imprensa teria feito reportagem sobre o assunto.

No La Gazzeta dello Sport, nenhuma matéria foi publicada com os nomes de Immobile e Bolsonaro no mesmo texto.

No Corriere dello Sport, houve uma história com os dois envolvidos, mas não está relacionada ao assunto. A reportagem é 26 de março de 2020 e repercute a entrevista que Lucas Leiva, jogador brasileiro da Lazio, deu ao Globo Esporte com alerta para sua terra natal sobre o perigo do coronavírus. Até aquele dia, a covid-19 tinha matado 77 pessoas no Brasil, mas já afetava com maior intensidade a Itália, onde haviam falecido 8.215 cidadãos. Leiva relatava a rotina da quarentena no país. A matéria fala da postura negacionista do presidente brasileiro que desdenhava do perigo e descartava a necessidade de isolamento.

O nome de Immobile aparece na página em galeria de fotos que mostra jogadores que publicaram em redes sociais com a hashtag em italiano “iostoacasa”, que, em português, significa “eu fico em casa”, postura diferente da que foi defendida por Bolsonaro desde o início da pandemia.

O jogador italiano usou a mesma hashtag ou semelhantes em outras publicações. Ele também doou uma camisa de futebol para leilão com a renda revertida para um hospital que tratava vítimas da covid-19. Quando recebeu agradecimento pelo gesto, retribuiu chamando os profissionais da saúde de “verdadeiros campeões”.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. O post falso sobre homenagens de Salah a Bolsonaro teve cerca de 3,9 mil reações e mais de 1,7 mil compartilhamentos até não poder ser mais visualizado no Facebook. A publicação com Immobile teve 2 mil reações e mais de 500 compartilhamentos até 28 de outubro, quando também foi bloqueada.

Qualquer cidadão tem o direito de apoiar o político que quiser, mas é perigoso para a democracia quando a opinião é formada com base em conteúdos falsos, como estes verificados aqui.

Conteúdos iguais ou similares foram considerados falsos pelas agências de checagem Estadão Verifica, LupaAos Fatos e Boatos.org.

O Comprova já classificou como falso outros conteúdos que associavam os nomes de atletas a apoio a Bolsonaro, como o que inventava que o surfista Italo Ferreira teria pedido a prisão do ex-presidente Lula (PT) durante as Olimpíadas de Tóquio e o que dizia que a trilha usada em apresentação da ginasta Rebeca Andrade no mesmo evento seria uma homenagem a Bolsonaro.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2021-10-01

Vaia em Belo Horizonte foi para manifestante anti-Bolsonaro, não contra o presidente

  • Enganoso
Enganoso
Não é verdade que Jair Bolsonaro (sem partido) tenha sido vaiado enquanto participava de cerimônia nesta quinta-feira (30), em Belo Horizonte (MG). As vaias foram destinadas a uma opositora que xingou o presidente.
  • Conteúdo verificado: Postagens no Facebook, Instagram e Twitter apresentam vídeo de parte de uma fala de Bolsonaro sendo interrompida por gritos seguidos de vaia. Os autores dos posts afirmam que o presidente foi vaiado em Belo Horizonte.

Não é verdade que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tenha sido vaiado em público durante um discurso em Belo Horizonte nesta quinta-feira (30). O vídeo cortado e compartilhado no Twitter, no Facebook e no Instagram induz os internautas a interpretarem de forma errada o que aconteceu na ocasião.

As vaias ouvidas durante a transmissão ao vivo do evento foram feitas pelos apoiadores do presidente contra uma manifestante que o chamou de “genocida”. A agenda fazia parte do calendário de comemoração dos mil dias de governo, completos nesta semana.

O argumento utilizado pelas pessoas que compartilharam as imagens nas redes sociais não encontra respaldo na realidade. Isso porque o vídeo foi recortado e tirado de contexto, dando margem para uma interpretação errada do que ocorreu.

A reportagem entrou em contato com os perfis que divulgaram o vídeo no Instagram, Facebook e Twitter. Apenas uma respondeu às mensagens.

O Comprova considera enganosos conteúdos retirados do contexto original e usados em outro de modo que seu significado sofra alterações.

Como verificamos?

Inicialmente, a reportagem foi em busca da transmissão completa do evento do qual Bolsonaro participou em Belo Horizonte, no dia 30 de setembro.

O Comprova assistiu à transmissão do evento feita ao vivo pela TV Brasil e pelo YouTube e consultou notícias sobre o ocorrido. Também ouvimos uma jornalista da BandNews FM que estava no local para a cobertura da agenda oficial.

A reportagem consultou a agenda oficial da presidência na data e assistiu à live semanal de Bolsonaro, na qual ele falou sobre o assunto.

Por fim, entrou em contato com os autores das postagens.

Verificação

Manifestante foi vaiada, e não Bolsonaro

A vaia registrada em vídeo durante pronunciamento de Jair Bolsonaro, no dia 30, em Belo Horizonte, foi voltada a uma manifestante e não ao presidente, como pode ser analisado na transmissão completa do evento e conforme foi noticiado pela imprensa.

A partir de 47 minutos e 44 segundos de vídeo, é possível identificar gritos femininos e, em seguida, o coro de vaia. Neste momento, uma manifestante contrária ao presidente havia furado o bloqueio de seguranças que mantinha os opositores afastados do local onde ocorria a cerimônia, na Cidade Administrativa, sede do governo de Minas Gerais.

A mulher se aproximou do palco e xingou o presidente. Apoiadores do governo que estavam próximos e até algumas autoridades no palco começaram a vaiar a manifestante. Em seguida, ela foi retirada do local pelos seguranças.

Conforme reportagem do Estado de Minas, em um primeiro momento, os contrários chegaram a ficar cara a cara com apoiadores, porém logo se deslocaram para um espaço reservado, mas de frente à área dos bolsonaristas, que foram liberados para se aproximarem do palco a pedido do presidente.

Antes do evento, informou o veículo, houve troca de xingamentos e um princípio de confronto rapidamente controlado pela polícia e seguranças da Presidência da República. Os manifestantes contrários estavam em menor número, mas expressivos.

A jornalista da BandNews FM Bruna Valle, que estava no local, foi ouvida pelo Comprova e contou que uma confusão foi registrada entre os apoiadores e opositores antes do início do evento, que foi contida por seguranças.

“Quando o presidente foi começar a falar, ele pediu que os apoiadores, que estavam atrás de uma grade, atrás das cadeiras dos convidados, chegassem mais perto. Foi liberado para que se aproximassem, e eles ficaram na frente da área reservada para a imprensa”, afirmou.

Sobre o momento em que foram registradas as vaias, Valle contou que uma das opositoras conseguiu furar o bloqueio e entrar na área reservada, para xingar o presidente. “Nesse momento em que ela xingou Bolsonaro, os apoiadores, que eram muitos e estavam próximos do palco, vaiaram-na e tentaram avançar para cima dela, mas foram contidos pela segurança. As vaias foram exclusivamente para ela”, completou.

Antes do discurso de Bolsonaro, outro trecho da transmissão também mostra que havia muito mais apoiadores do presidente e que eles estavam mais próximos das câmeras, o que impediria que qualquer manifestação do grupo de opositores fosse registrada ao vivo. Aos 33 minutos da transmissão, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), começa a discursar de máscara, mas o coro ouvido ao fundo grita para que ele a retire e aplaude quando ele o faz.

Bolsonaro criticou manifestante e o PT

Após as vaias, o presidente afirmou que não iria “ofender essa senhora que proferiu essas palavras que nem deu pra entender”. Em seguida, afirmou haver um velho ditado que diz: “Quem até os 30 (anos) não foi de esquerda, não tem coração. Quem depois dos 30 (anos) continua na esquerda, não tem cérebro”. A fala foi aplaudida pelo público e por autoridades que estavam no palco, seguida por gritos de “mito”.

Em seguida, Bolsonaro criticou o PT: “Não vim aqui falar de política, mas se, porventura, vir candidato ano que vem, terei o maior prazer em debater com o candidato dessa senhora. Vamos comparar 14 anos do PT com quatro do meu governo”.

À noite, durante sua live semanal, voltou ao assunto aos 58 minutos de transmissão e fez ataques machistas à manifestante. “Estava lá falando do metrô, de repente, entra uma mulher, não sei se casada ou solteira, aparentando 35 anos, 40 anos, fala um montão de (ruídos). Fico imaginando em casa o que o marido passa com ela, se ela for casada, né? Não deu nem para entender, mas estava me ofendendo, o pessoal vaiou, vaiou, vaiou, (ela) saiu fora, a imprensa vai falar que eu levei vaia, mas tudo bem.”

Em seguida, repetiu o dito por ele na cerimônia, sobre não ofender a manifestante e o ditado sobre a esquerda, além de afirmar que a mulher teria se referido aos ex-presidentes Lula e Dilma, ambos do PT.

“Eu acho que protesto é válido, se fizer outro não tem problema nenhum. Lógico, a gente evita porque é querer tumultuar, querer ir para a agressão, ir para o ódio, né? O nosso pessoal não faz isso”, finalizou.

Agenda em Belo Horizonte

A agenda oficial do presidente para a manhã do dia 30 de setembro previa a partida dele de Brasília para Belo Horizonte, onde participaria da cerimônia de sanção do Projeto de Lei para Obras do Metrô de BH e do Lançamento de Pedra Fundamental do Centro Nacional de Vacinas MCTI da Universidade Federal de Minas Gerais, além de um almoço com lideranças empresariais mineiras.

O Projeto de Lei foi aprovado pelo Congresso na última segunda-feira (27), ao passar pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal no mesmo dia. O texto prevê a privatização da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU), empresa que administra o metrô de BH.

Há a previsão de ser realizado um aporte de R$ 2,8 bilhões mais R$ 400 milhões do governo estadual para pagamento de dívidas, término de uma linha e construção de outra no metrô Em relação ao lançamento da pedra fundamental do primeiro Centro Nacional de Vacinas, a iniciativa é uma parceria do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e da UFMG, e a construção deve começar no ano que vem.

Por fim, além do almoço com os empresários, ele participou de reunião na sede da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).

Autores

O Comprova entrou em contato com os autores das publicações por mensagens via Instagram e WhatsApp. A princípio, a reportagem questionou a todos se haviam assistido à transmissão completa do evento.

A autora da publicação no Instagram informou que “foi um evento presencial” e compartilhou o link de uma transmissão do evento feita pelo Poder360. No entanto, não respondeu ao questionamento sobre ter visto o momento da vaia dentro do contexto em que ela ocorreu.

O autor da publicação no Twitter visualizou a mensagem encaminhada pelo Comprova, mas não respondeu. A reportagem também contatou o autor da postagem do Facebook, por meio de mensagem ao número de WhatsApp disponível em seu perfil – não houve retorno.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. As publicações feitas no Facebook, Twitter e Instagram alcançaram, respectivamente, 2.643 mil interações, 353 interações e 898 interações.

Conteúdos em vídeo, retirados de contexto, são perigosos porque geram desinformação em massa nas redes sociais, induzindo outras pessoas ao erro.

Ainda que a popularidade do presidente tenha caído nos últimos meses em função das ações e omissões do governo federal diante da pandemia do coronavírus, o vídeo descontextualizado traz impactos para a avaliação dos internautas sobre Bolsonaro, que é possível candidato à reeleição em 2022.

O Comprova já verificou diversos outros conteúdos relacionados a vídeos envolvendo o presidente Jair Bolsonaro, como o que afirmava, de maneira falsa, que ele foi ovacionado no aeroporto de Nova York, quando o ocorrido aconteceu em Natal, no Rio Grande do Norte e outro sobre obras do governo baiano que teriam sido realizados para “atrapalhar” Bolsonaro.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2021-09-24

Vídeo de Bolsonaro ovacionado em aeroporto foi feito em Natal, e não em Nova York

  • Falso
Falso
É falso que um vídeo do presidente Jair Bolsonaro sendo recepcionado por multidão tenha sido gravado quando ele chegou ao Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova York, em 19 de setembro, para participar da 76ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU). A gravação já circula nas redes sociais desde 2017, quando foi postada pelo próprio Bolsonaro durante recepção no Aeroporto de Natal, no Rio Grande do Norte, quando ainda era deputado federal.
  • Conteúdo verificado: Vídeo compartilhado nas redes sociais mostra Jair Bolsonaro sendo recepcionado por centenas de pessoas em aeroporto. O post acompanha legenda dizendo que o presidente estava chegando a Nova York, onde ele desembarcou em 19 de setembro para participar da 76ª Assembleia da ONU.

É falso o post que circula nas redes sociais com vídeo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sendo recepcionado por uma multidão em aeroporto e legenda afirmando que ele estava chegando ao Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova York – o presidente esteve na cidade americana entre 19 e 22 de setembro, onde participou da 76ª Assembleia das Nações Unidas.

As imagens, na verdade, foram capturadas em Natal, no Rio Grande do Norte, em 8 de junho de 2017, como mostra tuíte do próprio Bolsonaro à época. Na ocasião, o então deputado federal foi recebido por apoiadores no Aeroporto Internacional Governador Aluízio Alves, na capital do Rio Grande do Norte.

A reportagem tentou contatar um usuário do Twitter e um do Facebook que compartilharam o conteúdo, mas não recebeu retorno até a publicação deste texto.

O Comprova considerou o conteúdo falso porque a informação de que ele foi gravado em Nova York foi inventada de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

Buscamos informações nas redes sociais de Bolsonaro e de outros representantes do governo federal que viajaram para Nova York. Pesquisamos também no YouTube, em sites oficiais do governo e em páginas jornalísticas.

Na busca, constatamos que a agência Lupa, Boatos.org e AFP Checamos já haviam verificado o vídeo em questão. A partir da informação de que a gravação era antiga, buscamos o tuíte de Bolsonaro feito em 2017 por meio do TweetDeck e comparamos elementos visuais (como letreiros) dos vídeos postados antes e agora.

Tentamos contato com uma usuária do Twitter que compartilhou o vídeo em 20 de setembro, data em que o conteúdo viralizou, mas não obtivemos resposta. Tentamos falar também com um usuário do Facebook que poderia confirmar se um vídeo postado por uma conta do YouTube em 8 de junho de 2017, com o mesmo nome de usuário dele, era de sua autoria, mas ele também não respondeu.

Verificação

Presidente em NY

No site FlightAware, foi possível confirmar que o voo da Força Aérea Brasileira (FAB) com Bolsonaro partiu em 19 de setembro de 2021 às 9h07 do Aeroporto de Brasília e chegou ao Aeroporto Internacional John F. Kennedy às 16h40 do mesmo dia.

Além disso, veículos como Poder360 publicaram conteúdos sobre a chegada de Bolsonaro a Nova York, citando o aeroporto JFK.

Bolsonaro foi à cidade para participar da 76ª Assembleia das Nações Unidas. Ele fez o discurso de abertura do evento em 21 de setembro. Na noite anterior, ao chegar ao hotel, ele entrou por uma porta que não a principal, onde havia um protesto de cerca de dez pessoas com faixas em defesa dos indígenas e contra militares em cargos do governo.

Aeroporto de Natal

Bolsonaro esteve na capital potiguar em junho de 2017, quando era deputado pelo PSC, a convite da União Nordestina de Produtores de Cana, como mostrou a Folha. A reportagem contou, à época: “gritos ricocheteiam no saguão do aeroporto de Natal” e o político foi “levantado no ar”, exatamente como mostra o vídeo postado agora – falsamente dizendo que foi em Nova York – e publicado naquela ocasião por Bolsonaro.

Comparando os vídeos frame a frame foi possível perceber que se trata do mesmo conteúdo. O Comprova também encontrou outras gravações feitas em Natal, como uma publicada pelo Poder360, que só reforçou a conclusão. Nas gravações, aparecem as mesmas pessoas e sinalizações, por exemplo. Uma bandeira do Brasil pendurada em uma escada também comprova que se trata da mesma situação.

 

| Frames do vídeo verificado (vertical) e do publicado pelo Poder360 (horizontal) mostram os mesmos elementos: uma placa onde se lê “Welcome” (bem-vindo, em inglês), além um homem careca, de óculos escuros.

 

| Frames do vídeo postado agora (vertical) e do publicado por Bolsonaro em 2017 (horizontal) mostram bandeira do Brasil pendurada em escadaria

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos relacionados ao governo federal, pandemia e eleições que viralizam nas redes, como o vídeo checado aqui, que teve cerca de 4,1 mil visualizações no Facebook até 24 de setembro. No Twitter, só um post tinha mais de 2,2 mil visualizações.

Em um momento em que a popularidade de Bolsonaro vem caindo, o vídeo prejudica a avaliação da população ao levar a crer que ele teria sido ovacionado na semana passada, o que não ocorreu.

O conteúdo também foi verificado por Agência Lupa, Boatos.org e AFP Checamos.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Esta reportagem foi produzida com a participação de jornalistas que recebem formação em verificação pelo Programa de Residência no Comprova.

Eleições

Investigado por: 2021-09-23

É falso que Dilma e Lula pagaram 6 mil euros por jantar em Paris

  • Falso
Falso
É falso que Lula e Dilma "gastavam 6 mil euros por um prato em jantar". Reportagem mencionada em post trata de evento oferecido para a então presidente brasileira pelo governo francês em 2012 – os petistas não gastaram nada no evento; Lula nem participou dele – e o valor citado não se referia à refeição, mas ao preço de um prato de porcelana da marca Puiforcat usado na ocasião.
  • Conteúdo verificado: Post em redes sociais afirma falsamente que Lula e Dilma “gastavam 6 mil euros por um prato em jantar” e compara a suposta atitude dos ex-presidentes com a de Jair Bolsonaro, “que comeu pizza em pé, do lado de fora de restaurante”, como fez recentemente em Nova York.

É falso o post viral que afirma: “Prefiro um presidente que come pizza em pé, do lado de fora do restaurante, do que os ‘pais dos pobres’, que gastavam 6 mil euros por um prato em jantar!”.

Reportagem do Terra, cujo título – “Paris: sem Lula, jantar de gala para Dilma serviu prato de 6 mil euros” – foi usado na publicação, trata de evento realizado pelo governo francês em 2012, quando Dilma era a chefe do Executivo brasileiro. Ela era a convidada de honra do então presidente daquele país, François Hollande, ou seja, não pagou nada pelo jantar. O valor de 6 mil euros a que se refere a matéria era do prato de porcelana da marca Puiforcat usado na ocasião, e não o custo da refeição. A matéria informava que esse era o preço que poderia alcançar um único prato de porcelana dessa marca.

Posts com o conteúdo falso que circulavam no Twitter e no Facebook foram removidos. Procuramos a autora de uma das publicações com mais interações via mensagem privada no Facebook, mas ela não nos respondeu e seu post não pôde mais ser visualizado. Para o Comprova, é falso o conteúdo inventado, como nesse caso, e divulgado de modo deliberado a espalhar uma mentira.

Como verificamos?

Inicialmente, o Comprova buscou a reportagem do Terra citada no conteúdo aqui verificado. Logo já ficou claro que o jantar não foi pago por Dilma ou pelo governo brasileiro.

Conferimos também o site da Biblioteca da Presidência da República, que tem registros do evento com a mesma data.

Pelo Cartão de Pagamentos do Governo Federal que seria utilizado para arcar com esse tipo de despesa, não foi localizado nenhum gasto próximo a esse valor no dia 11 de dezembro de 2012 ou em datas próximas.

Verificação

Dilma e o jantar

No dia 11 de dezembro de 2012, o governo francês, por meio do então presidente François Hollande, ofereceu um jantar de gala em honra à visita oficial da ex-presidente Dilma Rousseff e ministros ao país europeu.

Realizado no Palácio do Eliseu, a residência oficial do presidente da França, o evento recebeu políticos, empresários e celebridades dos dois países. Dilma também posou para fotos ao lado de Hollande e de estudantes brasileiros que participavam do programa Ciências Sem Fronteiras, como publicado na Biblioteca da Presidência da República.

Bolsonaro e a pizza

“Prefiro um presidente que come pizza em pé, do lado de fora do restaurante”, começa o post falso. O conteúdo se refere ao dia 19 de setembro deste ano, quando o presidente, Jair Bolsonaro (sem partido), para evitar a exigência da vacina contra a covid-19 em Nova York, jantou pizza, em pé, na calçada de um restaurante.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos relacionados ao governo federal, pandemia e eleições que viralizam nas redes. A publicação verificada aqui teve ao menos 700 interações até 21 de setembro – depois, foi removida do Facebook. Outras publicações no Twitter também não estão mais acessíveis. O post que mais repercutiu foi postado no grupo “Bolsonaro 2022 🇧🇷” do Facebook com quase 1 milhão de integrantes. Um tuíte no perfil @n7contii_ alcançou 932 interações até 23 de setembro.

O conteúdo, que também foi verificado por Estadão Verifica e Aos Fatos, tenta enaltecer Bolsonaro e desmerecer os ex-presidentes Dilma e Lula – este à frente de Bolsonaro na corrida presidencial segundo pesquisas recentes – a partir de uma mentira. Recentemente, o Comprova publicou outras verificações com o mesmo propósito, como a do vídeo que omite ações de governos anteriores para exaltar obras de Bolsonaro na Transamazônica e a da gravação que fala em trama com participação de Lula e do STF para matar Bolsonaro.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Esta reportagem foi produzida com a participação de jornalistas que recebem formação em verificação pelo Programa de Residência no Comprova.

Eleições

Investigado por: 2021-09-10

Post usa montagem de foto no 7 de Setembro para atacar senador

  • Falso
Falso
É falsa publicação compartilhada no Facebook e por WhatsApp que afirma ser montagem uma foto de manifestantes bolsonaristas ao lado de um morador de rua. O registro foi feito em Brasília durante manifestação pró-Bolsonaro no feriado de 7 de Setembro. Além de alegar que o registro original tratava-se de montagem, a usuária da rede social postou uma imagem adulterada afirmando se tratar da verdadeira.
  • Conteúdo verificado: Publicação do dia 8 de setembro no Facebook apresenta print de uma foto postada pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que retrata manifestantes bolsonaristas caminhando, em Brasília, ao lado de uma pessoa aparentemente em situação de rua deitada no asfalto. Ao lado, a autora do post compartilhou a mesma foto com a legenda “montagem” e outra, sem o morador de rua e com um círculo destacando o espaço onde ele estava, com a legenda “original”. Na descrição do post, ela critica o senador.

É falsa postagem no Facebook que apresenta uma foto verdadeira das manifestações de 7 de Setembro como se fosse montagem. A publicação ainda traz uma imagem manipulada digitalmente e afirma tratar-se da original.

O conteúdo teve como objetivo atacar o senador Randolfe Rodrigues, líder da oposição a Jair Bolsonaro no Senado, que postou o registro original, o qual retrata manifestantes caminhando ao lado de uma pessoa aparentemente em situação de rua.

O caso foi esclarecido ao Comprova pela jornalista Sarah Teófilo, responsável pela fotografia. Ela enviou ao Comprova a imagem original. Além disso, é possível observar que uma das imagens foi grosseiramente manipulada para apagar a pessoa que está deitada.

A autora do post foi procurada, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.

Para o Comprova, é falso o conteúdo que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original.

Como verificamos?

O Comprova analisou a publicação do senador Randolfe Rodrigues e percebeu que ele havia colocado crédito na foto, marcando a jornalista Sarah Teófilo. Em seguida, entrou em contato com ela, que confirmou a autenticidade da imagem e deu detalhes sobre dia, local e horário em que o registro foi feito.

A fotógrafa encaminhou a imagem original ao Comprova e conferimos os metadados da imagem (abaixo). Metadados são informações gravadas pelos equipamentos de captura de fotos digitais e que armazenam em arquivo dados como data, hora e localização da captura, equipamento utilizado e outras informações técnicas sobre a imagem.

A reportagem também analisou a imagem adulterada e procurou o senador e a responsável pela postagem no Facebook, mas nenhum retornou até o momento.

Verificação

Senador postou a foto original

A fotografia autêntica mostra um casal que passa ao lado de um homem em situação de rua deitado no chão. Eles vestem a camisa da Seleção Brasileira e a mulher segura um banner com a imagem do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Líder da oposição ao governo Bolsonaro no Senado Federal, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) publicou a foto com a legenda: “Uns comemoram a fome. Outros padecem dela”.

A publicação do congressista foi feita no dia 7, quando foram mobilizados atos antidemocráticos em favor de Bolsonaro, em prol do voto impresso e do fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF).

Entre os dias 8 e 9 de setembro, fotos adulteradas, em que o homem em situação de rua foi apagado, foram compartilhadas em resposta a Randolfe, para sustentar que a crítica política que o senador fez aos bolsonaristas teve base em uma foto montada. Na publicação, contudo, o político do Amapá dá o crédito à autora do retrato. É a jornalista Sarah Teófilo, repórter do Portal R7 em Brasília.

Em conversa com a reportagem do Projeto Comprova, Sarah confirmou ser a autora da foto, feita no dia 7, na capital federal, por volta de 7h10min. Ela detalha que captou a imagem no Eixo Monumental, precisamente no viaduto situado logo após o Museu Nacional da República. “Dá até pra ver um pedacinho do Museu no lado esquerdo da foto”, explica.

O registro foi publicado pelo Portal R7. Outras fotos foram feitas por ela a partir do mesmo ângulo, ou seja, com os manifestantes a passar ao lado do homem deitado no chão.

| Foto original, da jornalista Sarah Teófilo, registrada em 7 de setembro e publicada pelo senador Randolfe Rodrigues.

Imagem adulterada

A autora do post no Facebook é Ruane de Lima Pinheiro, suplente de vereadora no município de Santana, no Amapá, pelo PSD. Ela mantém mais de uma conta no Facebook, onde declara apoio ao presidente.

Na publicação feita pelo perfil dela, no dia 8 de setembro, é apresentada a foto original, feita pela jornalista Sarah Teófilo, com a legenda “montagem”. Já outra, sem o morador de rua e com um círculo destacando o espaço onde ele está na verdadeira foto, é identificada com a legenda “original”.

Observando a imagem, é possível perceber que a manipulação é grosseira. Por exemplo, a sombra de um homem que antes era cortada pela presença da pessoa em situação de rua, continua cortada quando a imagem dela é removida.

Em outro ponto, uma sombra tem início “do nada”, não acompanhando o padrão das demais sombras provocadas pelo ângulo do sol no horário em que a imagem foi registrada.Também é perceptível que o asfalto está com aspecto borrado.

A autora do post foi procurada pelo Comprova, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.

Manifestações

O feriado de 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil, foi marcado por atos pró e contra o presidente Jair Bolsonaro em várias partes do país. As manifestações foram amplamente noticiadas pela imprensa nacional e ganharam espaço também em veículos de comunicação internacionais.

Bolsonaro esteve pessoalmente em duas das manifestações favoráveis a ele, em Brasília e em São Paulo.

Na Esplanada dos Ministérios, que começou a ser ocupada já na noite anterior, segunda-feira (6), o presidente discursou pela manhã, com ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), principal alvo do bolsonarismo atualmente.

À tarde, na Avenida Paulista, voltou a falar dos ministros do STF. Outras capitais e cidades do interior também registraram manifestações, tanto de apoiadores quanto de opositores.

Do lado contrário a Bolsonaro, a pauta dos atos girou em torno de críticas à forma como o governo conduz o combate à pandemia de covid-19 e aos preços elevados de alimentos e combustíveis. Os manifestantes também pediram o impeachment do presidente.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições que tenham viralizado nas redes sociais, como é o caso desta postagem, que teve grande número de compartilhamentos no WhatsApp.

No Facebook, a postagem reuniu 248 interações, sendo 120 compartilhamentos. De lá, foi compartilhada também no Twitter e utilizada principalmente para atacar a mesma postagem, com a foto original, feita no perfil do senador nesta rede. O Comprova identificou contas que apagaram, posteriormente, o conteúdo.

Esta checagem foi realizada a partir de sugestões enviadas por leitores por WhatsApp. Pelo número 11 97045-4984 ou por este link é possível fazer indicações de conteúdos cuja veracidade esteja sob questionamento. A foto da qual esta investigação trata também foi verificada pela AFP Checamos e pela agência Aos Fatos.

Com a proximidade das eleições do próximo ano, tem aumentado a circulação de informações falsas construídas para atacar a imagem de figuras políticas, como é o caso do senador. Postagens desta natureza podem comprometer a avaliação dos eleitores no momento de decidir por um candidato.

Recentemente, o Comprova mostrou se tratar de montagem vídeo em que Reinaldo Azevedo aparece fazendo duras críticas ‘na cara’ de Lula; que um vídeo em que ex-deputado critica Lei da Ficha Limpa foi tirado de contexto para sugerir manipulação eleitoral; e ser enganoso tuíte que acusa Bolsonaro de acabar com o Bolsa Atleta.

Falso, para o Comprova, é conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2021-09-03

Vídeo em que ex-deputado critica Lei da Ficha Limpa é tirado de contexto para sugerir manipulação eleitoral

  • Enganoso
Enganoso
Vídeo gravado por uma apoiadora de Jair Bolsonaro engana ao afirmar que ministros do STF teriam poder de manipular o resultado eleitoral. A mulher sustenta sua alegação em uma fala do ex-deputado Wadih Damous tirada de contexto no qual ele criticava a Lei da Ficha Limpa e a Operação Lava Jato e não se referia ao processo eleitoral.
  • Conteúdo verificado: Vídeo no qual uma mulher alega que um ex-deputado petista estaria confessando um acordo com um ministro do STF para manipular o resultado das eleições por meio de fraude nas urnas eletrônicas.

Uma apoiadora do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) gravou um vídeo no qual tira de contexto uma fala do ex-deputado Wadih Damous (PT) para sugerir uma conspiração eleitoral envolvendo o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na gravação, de 2018, o petista critica a Lei da Ficha Limpa, que torna inelegível o candidato que tenha uma condenação em segunda instância. No entanto, a autora do vídeo não reproduz essa explicação. Com isso, ela sugere que o ex-deputado estaria confessando um acordo com Gilmar Mendes para manipular o resultado da eleição. Essa ideia é reforçada quando ela questiona “E aí, você tem alguma dúvida do que eles fazem com as urnas eletrônicas?”

A autora do vídeo foi procurada, mas não retornou até a publicação. Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações.

Como verificamos?

O primeiro passo foi buscar a íntegra do vídeo para saber se o seu contexto original foi preservado. Como o Comprova reconheceu o ex-deputado que aparece no vídeo como sendo Wadih Damous (PT), foi feita uma busca no Google com as palavras-chave citadas no vídeo, como “Wadih Damous”, “Gilmar Mendes” e o advogado “Tacla Durán”. Isso permitiu encontrar links na imprensa (O Antagonista e Jovem Pan) com o vídeo completo.

Consultamos os dados sobre a atuação de Damous no site da Câmara dos Deputados e no site de divulgação de candidaturas e contas eleitorais da Justiça Eleitoral, o DivulgaCandContas.

Em seguida, foram consultadas matérias na imprensa para saber a relação dos personagens citados com o tema debatido e o contexto em que a fala foi dita.

Por fim, procuramos uma forma de contato com a autora do vídeo em suas redes sociais, mas não encontramos. Então fizemos a solicitação de um posicionamento por meio do PRTB, partido pelo qual ela disputou a eleição em 2020.

Verificação

Ex-deputado criticou Lei da Ficha Limpa

O vídeo foi publicado pelo portal O Antagonista em 22 de abril de 2018. Nele, o ex-deputado Wadih Damous faz críticas à Lei da Ficha Limpa e à atuação de procuradores da Lava Jato.

Um pequeno trecho no começo mostra o deputado dizendo: “O PT embarcou nessa onda moralista desde lá de trás. O que é a Lei da Ficha Limpa? A Lei da Ficha Limpa significa dizer o seguinte: ‘O povo não sabe escolher, quem sabe escolher é o Poder Judiciário. O povo é burro, o povo só escolhe corrupto e bandido’”.

Esse trecho foi recortado do vídeo checado. Com isso, este conteúdo se torna enganoso porque não permite compreender o sentido original da fala do deputado petista. Embora ele criticasse uma lei específica, a autora do vídeo checado questiona se “você tem alguma dúvida do que eles fazem com as urnas eletrônicas?”, como se o deputado estivesse falando de alguma ingerência do Judiciário na integridade da votação e no resultado da eleição.

Damous criticava a Lei da Ficha Limpa, de 2010. Ela foi criada a partir de uma iniciativa popular do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) que, entre outros pontos, tornou inelegíveis os candidatos que tenham condenação por um órgão colegiado. Isso impossibilitava a pretensão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de se candidatar nas eleições de 2018 – ele realmente ficou impedido de concorrer naquele ano.

| Fonte: Palácio do Planalto

Damous é ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB-RJ). Ele concorreu a uma vaga na Câmara dos Deputados, em 2014, pelo PT. Não teve votos suficientes para ser eleito e ficou na fila de suplentes. Assumiu o mandato como suplente em três ocasiões entre 2015 e 2016, até que foi efetivado no cargo em dezembro de 2016, quando o titular da vaga, Luciano Horta, renunciou para assumir a prefeitura de Maricá (RJ).

O ex-deputado é crítico à possibilidade de prisão de condenados em segunda instância – caso de Lula à época. Na Câmara, apresentou um projeto de lei que reforçava a possibilidade de prisão unicamente após condenação em todas as instâncias cabíveis, alegando a presunção de inocência.

A autora também não dá informações importantes, como a data de divulgação do vídeo. Assim, quem assistir pode pensar que o vídeo é atual.

Ex-deputado faz referência à Lava Jato

Em certo momento do vídeo, Damous cita um encontro com Gilmar Mendes. Sem o contexto original, isso reforça a ideia – passada pela autora do vídeo checado – de que o Supremo Tribunal Federal poderia manipular o resultado das eleições. No entanto, quem aplica as leis para a administração do processo eleitoral é o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Embora parte dos seus integrantes seja do STF – dos sete ministros, três são provenientes de lá –, Gilmar Mendes não faz parte da atual composição deste Tribunal.

Damous afirma ter se encontrado com o ministro Gilmar Mendes para “levar as denúncias do Tacla Durán” e que ele vai “colocar a boca no trombone”. “O Gilmar, hoje, é nosso aliado. Amanhã, volta a ser inimigo, mas hoje é aliado”, disse o ex-deputado, referindo-se a um embate envolvendo a Lava Jato.

Tacla Durán é um advogado apontado por procuradores da Lava Jato como um dos operadores de propinas da Odebrecht. Eles afirmam que o escritório de advocacia dele teria recebido dinheiro das empresas investigadas. Durán chegou a ser preso na Espanha, em 2019, mas a prisão foi revogada. Ele não foi extraditado por possuir dupla cidadania.

Durán é um crítico da Lava Jato e do juiz Sergio Moro. Ele já disse ter pago dinheiro a um juiz amigo de Moro para ajudá-lo a obter vantagens em um processo de delação. A Procuradoria-Geral da República investigou e arquivou o caso, em 2018, afirmando que não encontrou provas dos ilícitos citados.

Gilmar Mendes também já fez duras críticas à operação Lava Jato e às forças-tarefas estaduais que a conduziram, especialmente a de Curitiba. Mais recentemente, durante a votação da suspeição de Moro, Mendes votou para reconhecer a parcialidade do ex-juiz federal. Em seu voto, chegou a citar Tacla Durán, lembrando que a Interpol retirou o advogado da sua lista de procurados ao reconhecer a possível parcialidade de Moro.

Em 2020, circulou na imprensa a notícia de que a Procuradoria-Geral da República estaria estudando reabrir o processo de delação premiada de Tacla Durán. A mudança ocorreu meses após Moro abandonar o governo federal. O atual PGR, Augusto Aras, nomeado por Bolsonaro, enfrentou de frente os procuradores nos estados e conduziu um processo que acabou com o modelo de forças-tarefas da operação. Até a publicação desta checagem, não havia confirmação da delação.

A autora do post

O vídeo descontextualizado foi publicado no canal do YouTube de Val Paschoalini. Em outra rede social, ela se diz “100% Bolsonaro”. Suas postagens vão ao encontro das bandeiras defendidas pelo presidente. Ela faz posts com ataques ao STF e defende o voto impresso, uma pauta que o presidente utilizou para atacar o processo eleitoral em meio a sua perda de popularidade. Desde sua implementação, em 1996, as urnas eletrônicas não tiveram nenhuma fraude comprovada.

O Comprova não conseguiu entrar em contato com Val porque ela não possui nenhuma informação desse tipo nas redes sociais. Pedimos um contato por meio da página do PRTB de São Bernardo do Campo, partido e cidade pelos quais ela concorreu à câmara de vereadores em 2020, mas não obtivemos retorno.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia ou sobre políticas públicas do governo federal e eleições. Só checamos posts que tenham chegado a um grande número de pessoas. O vídeo verificado foi visualizado ao menos 74 mil vezes no YouTube e recebeu ao menos 4 mil compartilhamentos no Facebook, segundo a ferramenta de monitoramento de redes CrowdTangle.

Conteúdos enganosos sobre as eleições representam supressão do direito ao voto porque desencorajam os cidadãos de participarem do processo democrático. O Comprova já mostrou ser falso que um inquérito da PF investigasse fraude no processo de votação. Também verificamos que são falsas as alegações de fraude na eleição de 2014 feitas por Naomi Yamaguchi em um vídeo.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2021-09-02

É montagem vídeo em que Reinaldo Azevedo aparece fazendo duras críticas ‘na cara’ de Lula

  • Falso
Falso
É falso vídeo publicado no TikTok no qual aparecem o jornalista Reinaldo Azevedo e o ex-presidente Lula. As imagens foram editadas para dar a impressão de ser uma entrevista recente, mas pertencem a momentos diferentes. O trecho que mostra Lula é de uma conversa entre os dois ocorrida em abril deste ano, mas o que apresenta a fala do jornalista foi gravado em 2017.
  • Conteúdo verificado: Vídeo no TikTok traz Reinaldo Azevedo, do lado esquerdo, fazendo duras críticas a Lula e ao Partido dos Trabalhadores (PT) e o ex-presidente em silêncio do lado direito. Uma legenda sobre as imagens diz “a verdade sendo dita na cara do maior ladrão da história”. Embaixo, outra frase afirma se tratar de uma entrevista do programa “O É da Coisa Especial”, da Rádio BandNews FM. Na descrição, o autor da postagem utiliza hashtags a favor da reeleição de Bolsonaro (sem partido) e contra a esquerda.

É montagem um vídeo publicado no TikTok que apresenta o jornalista Reinaldo Azevedo fazendo duras críticas a Luiz Inácio Lula da Silva e ao Partido dos Trabalhadores (PT), enquanto o ex-presidente permanece em silêncio na tela ao lado.

O jornalista, procurado pelo Comprova, confirmou que o conteúdo é falso e que apresenta imagens de dois momentos distintos: a primeira de uma fala dele criticando Lula em 2017 e, a segunda, do presidente Lula durante uma entrevista concedida a ele em 2021. A assessoria de Lula também informou que o vídeo não é verdadeiro.

O tempo decorrido de quatro anos entre os dois vídeos utilizados na montagem foi verificado pela reportagem, que localizou os dois conteúdos publicados na conta da Rádio BandNews FM no YouTube, um em julho de 2017 e o outro em abril de 2021.

O autor da postagem no TikTok foi procurado, mas não respondeu.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

O Comprova analisou o vídeo publicado no TikTok e, com a utilização da ferramenta de buscas do Google, pesquisou se Lula havia concedido entrevista a Reinaldo Azevedo, localizando o conteúdo de abril de 2021 no YouTube.

A partir dele, foram comparadas as imagens do ex-presidente e comprovado, por meio da roupa, do cenário e de gestos, que esta entrevista foi utilizada na montagem.

As imagens do jornalista, contudo, não eram as mesmas da entrevista. O Comprova localizou, também no YouTube, a gravação original, que é de um trecho de programa de rádio veiculado em julho de 2017.

A reportagem entrou em contato com o jornalista e com a assessoria do ex-presidente, que confirmaram ser falso o vídeo postado no TikTok. Também procurou o responsável pela publicação do conteúdo, mas não recebeu resposta.

Verificação

Vídeo no TikTok mistura imagens de 2017 e 2021

A montagem do vídeo, de um minuto e vinte e cinco segundos, apresenta Reinaldo Azevedo do lado esquerdo, fazendo duras críticas ao governo de Lula e ao PT, e o ex-presidente do lado direito, em silêncio, durante um trecho e, sorrindo, em outro.

A fala de Azevedo, contudo, foi retirada de outro vídeo, este de sete minutos e dezoito segundos e postado há quatro anos, em 6 de julho de 2017, no canal Rádio BandNews FM no YouTube. O trecho utilizado na montagem inicia aos cinco minutos e vinte e dois segundos.

Na ocasião, o jornalista comentava uma fala do ex-presidente criticando o governo de Michel Temer (MDB) durante entrevista concedida um dia antes à Rádio Arapuan, da Paraíba.

Já as imagens de Lula que aparecem na montagem são de uma entrevista concedida pelo ex-presidente ao jornalista no programa “O É da Coisa Especial”, mas em 1º de abril deste ano. O vídeo tem duração de uma hora, vinte e cinco minutos e trinta e dois segundos e também está disponível no canal da Rádio BandNews FM no YouTube.

É possível associar claramente as imagens de Lula na entrevista de 2021 com as utilizadas na montagem junto ao vídeo de 2017, tanto pelas roupas e gestos dele, quanto pelo cenário.

 

| Captura de tela realizada pelo Comprova no dia 01/09/2021 a partir da montagem publicada no TikTok.

| Captura de tela feita pelo Comprova no dia 01/09/2021 a partir do vídeo original publicado no YouYube.

O tom adotado pelo jornalista durante a conversa em 2021 não é o mesmo de 2017, sendo inclusive descontraído, com direito a uma imitação de Lula. Azevedo também pergunta ao ex-presidente se a imitação dele é boa.

No dia seguinte à entrevista, o jornalista também publicou o vídeo em sua coluna no Uol com o título: “‘Histórica?’ Acho que sim!” e comentando que “Vale a pena assistir. O resultado parece muito bom, concorde-se ou não com o ex-presidente…”.

Conteúdo falso

O Comprova procurou o jornalista por e-mail, questionando se o vídeo postado no TikTok era verdadeiro, além de outras informações sobre o assunto. Ele respondeu se tratar de conteúdo falso e confirmou que a crítica ao PT foi feita por ele em 2017, acrescentando ter entrevistado Lula no dia 1° de abril de 2021. “Editaram os dois momentos, com intervalo de quatro anos, como se eu estivesse dizendo aquilo a Lula durante a entrevista”, declarou.

A assessoria de Lula também afirmou que o vídeo é falso, alegando que o ex-presidente é alvo de um ataque de desinformação inspirado pelo presidente Jair Bolsonaro: “Infelizmente grupos de apoiadores de Bolsonaro têm, inspirados por ele, divulgado mentiras sobre uma série de assuntos com objetivos políticos, até atrapalhando o enfrentamento da pandemia. Lamentamos tais práticas que devem ser coibidas e responsabilizadas pelas plataformas de redes sociais e autoridades competentes”.

Autor da postagem

O vídeo foi postado no TikTok no dia 13 de agosto pela conta @rogeriocpf, que possui como descrição o lema “Brasil acima de tudo! Deus acima de Todos!”, utilizado pelo presidente Bolsonaro, além da frase “Deus e Família, a base de tudo!”. A conta é destinada a conteúdos defendendo o presidente e críticas a Lula e ao PT.

Em um trecho do conteúdo é possível verificar uma espécie de assinatura de outra conta: @canal_patriota. O Comprova procurou por este usuário no próprio TikTok, encontrando-o e localizando a publicação da mesma montagem no dia 9 de agosto, mas sem a legenda “a verdade sendo dita na cara do maior ladrão da história”.

A conta, que tem número bem menor de seguidores, foi procurada por meio de comentário no vídeo, já que a caixa de mensagens é fechada para não seguidores, mas o Comprova não recebeu retorno até esta publicação. O mesmo aconteceu com o autor do post aqui verificado, procurado por mensagem privada em duas ocasiões.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, pandemia de covid-19 e eleições que tenham atingido alto grau de viralização, como o caso do vídeo manipulado e postado no TikTok, que envolve o nome de um presidenciável. O conteúdo teve mais de 22 mil curtidas e 15 mil compartilhamentos na plataforma.

Com a aproximação das eleições de 2022, cresce o número de informações falsas e enganosas circulando nas redes sociais com o intuito de confundir o eleitor.

O Comprova vem publicando diversas verificações referentes ao assunto, como a que esclareceu que o inquérito da PF não investiga fraude no processo de votação, que pesquisa antiga foi usada para sugerir que Bolsonaro é aprovado por metade da população e que vídeos enganam ao atribuir obra no RN apenas à gestão de Bolsonaro, ao dizer que se trata de Lula em quadra poliesportiva e que o STF quer barrar cristãos na política.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.