O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 41 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Eleições

Investigado por: 2022-01-27

Mesmo sem biometria, eleitor poderá votar em 2022

  • Falso
Falso
É falsa a afirmação de que será exigido cadastro de biometria para votar nas eleições gerais de 2022. Publicações com variações dessa mesma mensagem têm sido divulgadas por perfis pró-Bolsonaro no Facebook, Twitter e WhatsApp, alertando para um suposto prazo para realizar o cadastramento, que se encerraria em 4 de maio. A data, na verdade, refere-se ao prazo para regularizar o título de eleitor. Um texto no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esclarece que o cadastro biométrico está suspenso desde 2020 devido à pandemia de covid-19, e que “nenhuma eleitora ou eleitor que não realizou o cadastramento será proibido de votar”.
  • Conteúdo verificado: Postagem no Facebook afirma que o prazo para registrar biometria para as eleições de 2022 se encerra em 4 de maio. O texto sugere que o cadastro é obrigatório para poder votar, e afirma que a informação não tem sido divulgada para barrar apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL). O autor pede que a publicação seja compartilhada “para alcançar o maior número possível de eleitores da direita”.

É falsa a afirmação de que será exigido cadastro de biometria para votar nas eleições gerais de 2022. Publicações com variações dessa mesma mensagem têm sido divulgadas por perfis pró-Bolsonaro no Twitter, no Facebook e também por WhatsApp, sugerindo a existência de um “complô” do TSE com a mídia tradicional para ocultar essa informação dos apoiadores do atual presidente, impedindo que votem por sua reeleição.

As postagens alertam que em 4 de maio se encerraria o suposto prazo para registrar a biometria. A data, na verdade, refere-se ao prazo para regularizar o título de eleitor.

Um texto sobre o boato no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informa que o cadastro biométrico está suspenso desde 2020 devido à pandemia de covid-19, e que “nenhuma eleitora ou eleitor que não realizou o cadastramento será proibido de votar”.

O Comprova procurou o autor de uma postagem com mais de 4 mil interações no Twitter por e-mail, WhatsApp e perfis no Facebook, mas não obteve resposta até a publicação desta verificação.

O conteúdo foi classificado como falso porque apresenta uma mentira, sem fundamento na realidade, para gerar confusão sobre o processo eleitoral.

Como verificamos?

O Comprova iniciou esta checagem buscando as informações em canais oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) de diferentes estados brasileiros a respeito do processo de cadastramento biométrico. O sistema foi um mecanismo criado pela Justiça Eleitoral para tornar o processo eleitoral brasileiro ainda mais seguro.

Conforme o TSE, a adoção da biometria — usada pela primeira vez na eleição de 2008, em três cidades brasileiras — reduziu significativamente a intervenção humana no processo de votação. A urna só é liberada para votação quando o leitor biométrico identifica as impressões digitais do eleitor, as quais são verificadas eletronicamente a partir do banco de dados unificado da Justiça Eleitoral.

Por causa da pandemia da covid-19, o processo de cadastramento biométrico no país precisou ser suspenso. A medida foi determinada pelo TSE, por meio da Resolução nº 23.615/2020, para prevenir a infecção pelo vírus.

O Comprova verificou também os prazos estipulados no calendário eleitoral de 2022 e as datas que devem ser observadas pelos partidos, candidatos e eleitores. A data mencionada na publicação alvo desta checagem [4 de maio] diz respeito ao prazo limite para que eleitores realizem operações de transferência do local de votação e revisão de qualquer informação constante do Cadastro Eleitoral.

Nessa segunda-feira (24 de janeiro), pela viralização de conteúdos com mesmo teor do post checado nesta verificação, o TSE e outros TREs de todo o país divulgaram informações em seus canais oficiais (site e redes sociais como o Facebook), classificando como falsas as alegações de que o eleitor que não realizar o cadastramento biométrico até 4 de maio estará impedido de votar na eleição, seja em primeiro (2 de outubro) ou segundo turno (30 de outubro).

O projeto de checagens também conversou com a advogada atuante em direito público e defesa de mulheres Maíra Recchia.

Verificação

Biometria suspensa

O texto verificado pelo Comprova, compartilhado por um perfil pessoal no Facebook, e propagado no WhatsApp e outras redes sociais, afirma que o cadastro eleitoral encerra em 4 de maio de 2022 e, de forma equivocada, aponta que quem não tiver registrado a biometria até esta data não poderá votar.

No entanto, o próprio TSE, em um release publicado na tarde de segunda-feira (24), informou que o eleitor sem biometria não será impedido de votar em 2022. Reiterou, ainda, que o cadastro biométrico continua suspenso em todo o país.

Além disso, todas as informações relativas à biometria, assim como a suspensão do cadastramento em função da pandemia da covid-19 foram divulgadas pelo TSE em seus canais oficiais (site e redes sociais). As mesmas informações também foram publicadas por Tribunais Regionais Eleitorais de diferentes partes do país.

Impressão digital

A advogada atuante em direito público e defesa de mulheres Maíra Recchia explicou ao Comprova que a biometria é uma forma de identificar o eleitorado pela impressão digital. “[A biometria] veio para conferir maior agilidade no processo de identificação daquele(a) que irá votar. Nesse formato, a urna só é liberada para votação quando o leitor biométrico identifica as impressões digitais da eleitora ou do eleitor, após o competente cadastramento biométrico na Justiça Eleitoral”, esclareceu.

Recchia enfatiza, assim como os órgãos eleitorais, que em virtude da pandemia da covid-19 o cadastramento biométrico foi suspenso, mas que aqueles que não se cadastraram continuam aptos a votar conforme a resolução do TSE número 23.669/2021.

“Essa resolução trata dos atos gerais do processo eleitoral, e dispõe que a carteira de identidade, identidade social, passaporte ou outro documento de valor legal equivalente, inclusive carteira de categoria profissional reconhecida por lei, certificado de reservista; carteira de trabalho e carteira nacional de habilitação são documentos suficientes para comprovar a identidade do(a) eleitor(a) e permitir o exercício do voto. Ou seja, quem ainda não se cadastrou biometricamente basta (portar um desses documentos)”, disse.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições. O projeto observa os dados de viralização e o impacto desses conteúdos para decidir pela verificação. Nos últimos anos, tem se tornado comum a circulação de mensagens e informações falsas com o intuito de descredibilizar e tumultuar o processo eleitoral no país.

A mesma publicação analisada nesta checagem do Comprova teve variações divulgadas por perfis pró-Bolsonaro no Facebook, Twitter e WhatsApp. Todas sugerem a existência de um “complô” entre o TSE e a mídia tradicional para ocultar uma suposta obrigatoriedade de realização de cadastramento biométrico para participação no processo eleitoral deste ano.

O suposto “complô” teria o objetivo de afastar das urnas apoiadores do presidente Bolsonaro, impedindo uma possível reeleição. Uma das postagens teve mais de 4.000 interações.

A segurança no sistema eleitoral é um dos principais alvos de desinformação hoje nas redes sociais. O conteúdo aqui verificado também foi investigado pelo Boatos.org, G1, Agência Lupa e desmentido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Para o Comprova, falso é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2022-01-21

Vídeo engana ao dizer que Facebook restringiu compartilhamento de conteúdo pró-Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso vídeo em que um homem alega que o Facebook não permite o compartilhamento de uma gravação que mostra o presidente Jair Bolsonaro (PL) no Pará. A visita ocorreu em agosto de 2020 e a imagem mostra o presidente sendo recebido por um grupo de apoiadores. O autor do vídeo, que circula no TikTok e no próprio Facebook, acusa a empresa americana de boicote. No entanto, a publicação tem a visualização limitada para os usuários que são amigos do responsável por postar as imagens do presidente no Facebook. Isso inviabiliza o compartilhamento e não há o suposto boicote.
  • Conteúdo verificado: Um vídeo no qual um homem alega que o Facebook não permite o compartilhamento de uma gravação mostrando o presidente Jair Bolsonaro (PL) em uma visita a Belém do Pará. No vídeo, o homem filma a tela de um celular e mostra uma publicação na linha do tempo do Facebook sem o botão de compartilhamento. O conteúdo circula no TikTok.

É enganosa a afirmação feita em vídeo que viralizou no TikTok, em que o autor diz que o Facebook censurou o compartilhamento de imagens que mostram o presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), cumprimentando apoiadores durante uma visita a Belém do Pará no dia 13 de agosto de 2020. O vídeo segue circulando nas redes sociais até hoje.

O autor grava a tela de um celular e mostra um vídeo publicado na linha do tempo do Facebook, destacando que não há botão de compartilhamento. Então, ele copia o link da publicação, afirmando que esta é uma outra forma de divulgar a postagem. Neste ponto, é possível perceber – por causa dos ícones que aparecem abaixo do nome dos donos dos perfis – que o vídeo que o autor tenta compartilhar foi publicado de forma restrita a amigos (por isso, a ausência da opção direta de compartilhamento).

Em seguida, ainda gravando a tela do celular, ele mostra ter compartilhado a postagem (de forma pública, modalidade que confere acesso a todos os usuários do Facebook) usando o link para o conteúdo. Então, o autor grava a tela de outro celular, que estaria, supostamente, logado no perfil do Facebook de sua esposa, e diz que não consegue abrir o mesmo conteúdo neste aparelho.

Vale lembrar que o vídeo compartilhado estava disponível apenas para amigos do responsável pela primeira publicação. Ou seja, não estará disponível caso pessoas que não estejam nesta lista tentem clicar.

No vídeo, é possível ver apenas a mão do autor e ouvir sua voz. Além disso, a imagem não permite confirmar que o link do vídeo compartilhado em seu celular é o mesmo que ele tenta abrir no aparelho da suposta esposa.

Pela imagem, não é possível ter certeza sobre quais perfis são responsáveis pelas postagens. A equipe entrou em contato com páginas semelhantes (nome e foto) às que aparecem no vídeo, mas os donos não responderam ou afirmaram não conhecer o conteúdo. Em nota, o Facebook informou que o vídeo da visita de Bolsonaro ao Pará está disponível na rede social e pode ser compartilhado.

Para o Comprova, enganoso é todo conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Inicialmente, a equipe do Comprova tentou localizar a publicação citada pelo autor do vídeo no Facebook. Isso foi feito por meio de busca na própria rede social e também escrevendo a URL que aparece na filmagem. No entanto, por causa da falta de qualidade da imagem, a URL não está completamente legível.

No vídeo é possível ver o nome de três pessoas — autor do vídeo, sua esposa e a pessoa que fez a publicação original. O Comprova tentou localizar as três.

Na sequência, a equipe analisou o vídeo e conferiu o que diz a Política de Conteúdo da rede social para verificar quando uma publicação pode ter o compartilhamento limitado.

Outra ação foi compartilhar uma publicação no Facebook para verificar se algo semelhante ao mostrado no vídeo acontece.

A equipe também questionou o Facebook sobre a publicação citada no vídeo. Em paralelo, confirmou com base na agenda oficial e em imagens publicadas por veículos de imprensa (aqui) que o presidente Jair Bolsonaro de fato esteve no Pará na data citada.

Verificação

O vídeo

Na gravação aqui verificada, é possível identificar no Facebook algumas informações da publicação original do vídeo em que Bolsonaro aparece. A postagem contém, por exemplo, a legenda “Chupa Petralhas e Globolixo… O Mito em Belém”. O Comprova tentou localizar o conteúdo por meio da busca pela palavra “Globolixo” no perfil identificado pela equipe como possível responsável pela publicação e também escrevendo o que parece ser a URL que aparece na filmagem, mas não encontrou nenhum resultado. A URL, inclusive, não está completamente legível.

Seleção de público

A postagem inicial que divulga a filmagem do presidente está com o marcador “seus amigos”, identificado pelo ícone de duas figuras humanas em preto (veja abaixo). Isso significa que a publicação só está disponível para ser compartilhada por pessoas que estão adicionadas na rede do perfil responsável pelo post.

Depois de mostrar a publicação sem a opção do botão compartilhar, o autor do vídeo aqui verificado exibe a postagem anterior feita pelo perfil que divulgou a gravação de Bolsonaro no Pará. Esta, ao contrário da filmagem do presidente, mostra a opção de compartilhamento porque está com o marcador “público”, identificado pelo ícone de um globo terrestre, significando estar disponível para qualquer pessoa dentro ou fora do Facebook.

| A publicação original do vídeo tem visualização restrita aos amigos do usuário. Já o compartilhamento, feito pelo autor do vídeo, tem permissão de visualização para todos.

Publicações diferentes

Sem a opção de compartilhar o vídeo de Bolsonaro diretamente, o autor opta por copiar o link da publicação original e postar em sua timeline. Ao fazer isso, o homem mostra o post com o link e o marcador “público”. O Comprova tentou encontrar a postagem pela URL, mas ela não estava completamente legível por causa da qualidade do vídeo.

Em seguida, o autor desbloqueia o segundo celular — também com sistema operacional Android — e abre a conta do Facebook da suposta esposa. O homem então expõe uma publicação diferente daquela mostrada no primeiro aparelho.

Essa segunda postagem é uma publicação feita pelo autor do vídeo na timeline da esposa, e não um compartilhamento de vídeo em seu próprio perfil. É possível ver que o marcador desta segunda publicação é o de “seus amigos”, limitando assim quem pode ter acesso ao conteúdo.

Além disso, essas duas postagens, que o homem cita como sendo a mesma, têm horários de publicação diferentes. A primeira é mostrada como compartilhada há quatro minutos. Já a segunda, na timeline da esposa, foi publicada 12 minutos antes da gravação dele.

| As publicações têm horários diferentes. Na imagem da esquerda, o conteúdo aparece como publicado há 4 minutos. Já a da direita, aparece como publicada há 12 minutos.

Sendo assim, não é possível afirmar que o conteúdo que o homem mostra no celular da esposa é de fato o vídeo de Bolsonaro no Pará.

O Comprova também fez um teste de compartilhamento público no Facebook de um outro vídeo da visita de Bolsonaro ao Pará na mesma data e não encontrou obstáculos para finalizar o processo ou visualizar a postagem.

Os perfis

No vídeo são reconhecidos nomes de três pessoas: o autor do vídeo aqui verificado, sua suposta esposa e a pessoa que fez a publicação original. Fazendo uma busca na rede social, o Comprova localizou perfis de pessoas com os mesmos nomes e fotos semelhantes às que aparecem no vídeo, mas não é possível confirmar que são as mesmas páginas que aparecem no conteúdo aqui verificado.

A equipe entrou em contato com os perfis encontrados, mas os donos das páginas não responderam ou afirmaram não conhecer o conteúdo.

O que diz o Facebook

Procurado pelo Comprova, o Facebook afirmou que um vídeo do presidente Bolsonaro em Belém do Pará está disponível e pode ser compartilhado na rede.

A postagem a que a rede se refere é de outro perfil, este não mencionado no vídeo do TikTok. A data de publicação é do dia 13 de agosto de 2020.

Questionado sobre a publicação citada no vídeo do TikTok, a empresa americana afirmou que, por questões de privacidade, não poderia comentar ou dar detalhes. Ou seja, não é possível dizer se a postagem original do vídeo em que Bolsonaro aparece foi deletada pelo perfil responsável, se está restrita a amigos ou se o Facebook a removeu por alguma razão.

Bolsonaro no Pará

O presidente Bolsonaro de fato esteve em Belém do Pará no dia 13 de agosto de 2020. Ele participou da inauguração do Parque Urbano Belém Porto Futuro e aparece discursando em um vídeo publicado no canal do Poder 360 no YouTube. A visita também consta na agenda oficial do presidente e reportagem publicada pelo portal G1 Pará registrou a passagem do presidente pelo estado.

Limitação de conteúdo no Facebook

O Facebook tem uma série de regras a respeito da limitação de conteúdos que circulam na rede social. De acordo com os “Padrões da Comunidade”, as publicações que podem sofrer limitação devem se enquadrar em uma das seguintes categorias: conteúdos que não são permitidos; que requerem mais informação ou contexto para a tomada de providências (que passam a conter um aviso); ou que são permitidos, mas apenas maiores de 18 anos de idade podem vê-los.

Segundo a política do Facebook, conteúdos podem violar as normas da rede social se inseridos em cinco principais temas: violência e comportamento criminoso; segurança; conteúdo questionável; integridade e autenticidade, e respeito à propriedade intelectual.

Caso o conteúdo publicado na rede se enquadre em uma dessas violações, o Facebook toma providências, que, a depender do caso, podem ser: remoção do conteúdo; contabilização de advertências; restrição da conta; restrição da conta de uma figura pública durante agitações civis; desativação da conta e remoção de página e/ou grupo.

Nas regras da rede, no entanto, não há menção à uma restrição somente do compartilhamento de conteúdo.

Por que investigamos?

O Comprova tem o compromisso de investigar conteúdos suspeitos que tenham viralizado na internet sobre pandemia, políticas públicas e eleições. Neste caso, o post teve mais de 10,1 mil interações no TikTok, entre curtidas e comentários. Além disso, o conteúdo foi compartilhado 3,2 mil vezes para outras redes sociais e aplicativos de mensagens como Twitter, Facebook e WhatsApp.

Jair Bolsonaro é pré-candidato à reeleição. Publicações enganosas relacionadas a política prejudicam a democracia. Os eleitores não devem tomar decisões sobre em quem votar com base em conteúdo de desinformação.

O Comprova também verificou outras postagens relacionadas à eleição, como sobre uma enquete popular que não oficializou Bolsonaro como Personalidade do Ano da Time e outra sobre o caso de músicos que não ofenderam Lula ao recebê-lo em uma instituição francesa.

Para o Comprova, enganoso é conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2021-12-10

Enquete popular não oficializa Bolsonaro como Personalidade do Ano da Time

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso que Jair Bolsonaro (PL) tenha sido eleito Personalidade do Ano pela revista Time. O presidente venceu votação popular na internet, o que é diferente da escolha feita pelos editores, que determina o título oficial. Capas da revista que circulam nas redes com a suposta conquista são falsas.
  • Conteúdo verificado: Vídeos no Facebook expõem montagens de capas da Time com imagens de Jair Bolsonaro como Personalidade do Ano. Uma das gravações traz um compilado de publicações anteriores da revista e finaliza com uma foto do presidente. Em outra, autor questiona a ausência da notícia no Jornal Nacional.

É enganoso que o presidente Jair Bolsonaro (PL) tenha sido eleito a Personalidade do Ano pela revista Time, ao contrário do que afirmam postagens no Facebook. O resultado citado pelos autores e divulgado em 7 de dezembro se refere à enquete feita anualmente pela publicação na internet, o que não representa o resultado final. A escolha definitiva virá a público em 13 de dezembro. Uma votação não tem relação direta com a outra, embora os editores possam concordar com o resultado da enquete.

Bolsonaro recebeu 24% dos 9 milhões de votos totais computados de forma online. Na sequência, aparecem o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, com 9%, e, em terceiro, com 6,3% dos votos, profissionais de serviços de saúde que atuaram contra a covid-19. Na matéria sobre os primeiros colocados da enquete, a revista destaca que a escolha da personalidade de maior influência no ano é feita “para o bem ou para o mal”.

O Comprova entrou em contato com os perfis que publicaram informações enganosas, mas não obteve retorno até a publicação desta investigação. Enganoso, segundo o Comprova, é todo conteúdo retirado do seu contexto original de modo que seu significado sofra alterações.

Como verificamos?

Inicialmente, realizamos busca no Google com as palavras-chave que envolvem o tema: Bolsonaro, Time e personalidade.

Uma matéria do Estadão sobre o assunto, publicada no último dia 8, diferencia a votação popular da escolha feita pelos editores da revista norte-americana, esta, sim, definitiva. Outro texto consultado, do site alemão DW, estabelece a mesma distinção entre as duas etapas.

A reportagem também recorreu ao banco de dados da própria revista Time para esclarecer fatos históricos sobre as edições da revista.

De quatro publicações com mesmo teor investigadas pelo Comprova, duas são marcadas como inverídicas pelo Facebook. A reportagem entrou em contato com os autores dos posts que contêm desinformação, mas não teve retorno até a publicação deste texto.

Verificação

Enquete popular

A votação vencida por Bolsonaro foi aberta ao público e apoiadores do presidente se articularam em grupos no Telegram para incentivar a participação. “Vote em Bolsonaro na enquete da revista americana e faça o Bonner chorar dando a notícia da vitória do presidente”, escreveu um usuário no grupo “Bolsonaro Presidente”, que contabiliza 10.276 membros.

Outro membro do mesmo grupo compartilhou uma capa falsa, com uma montagem da imagem de Bolsonaro em um fundo neutro da revista, com o título, em inglês, “Person of the Year”. Há ainda uma legenda ao lado da foto com os dizeres “Jair Bolsonaro, presidente do Brasil e líder do mundo livre”.

Diferentemente de apoiadores, o perfil do presidente no Twitter reconheceu que Bolsonaro não foi escolhido oficialmente. O mandatário agradeceu os votos recebidos e manifestou o desejo de que a revista conceda a ele o prêmio final.

Antes disso, em uma live semanal transmitida em 25 de novembro, Bolsonaro chegou a comentar a abertura da enquete popular. “A revista Time está fazendo aí uma enquete, como faz há décadas, personalidade do ano. São cem pessoas. Eu estive entre as cem pessoas em 2019 e em 2020. E, agora em 21, estamos liderando. Então, eu agradeço quem votou em mim. Quem não votou, eu peço que entre no site da Time e vote. Você vota nos cem se você aprova ou não.”

O presidente segue: “O voto, pessoal, é se você achar se aquela pessoa te agrada ou não. E a gente está disparado nisso aqui. Espero que ganhe, né? Espero que ganhe. Se ganhar, se merecer, até agradeço quem votou em mim. Quem não votou tem a oportunidade aí de votar nessa possível personalidade do ano”.

Capas históricas

Um dos vídeos aqui verificados mostra uma linha do tempo com imagens de pessoas que, de fato, estamparam a capa da revista como Personalidades do Ano, como o pacifista indiano Mahatma Gandhi (1930), o ex-líder da antiga União Soviética Josef Stalin (1939), os ex-presidentes dos Estados Unidos Barack Obama (2008-2012) e Donald Trump (2016). O post foi feito em um grupo público, com apoiadores de Bolsonaro, que soma mais de 95 mil membros. Ao final do vídeo, Bolsonaro aparece em uma capa falsa, como se fizesse parte da sequência de pessoas que verdadeiramente receberam o destaque.

A tradição da Personalidade do Ano começou em 1927, quando o pioneiro da aviação nos Estados Unidos, Charles Lindbergh, foi escolhido o homem mais influente. De acordo com a revista, a escolha surgiu por acaso. As capas da época haviam acabado de adquirir a emblemática borda na cor vermelha e priorizavam retratos de figuras que se destacavam nos eventos da semana. Mas, naquele fim de ano, os editores não chegaram a um consenso sobre quem deveria levar o título.

Foi aí, então, que nasceu a ideia de reconhecer uma Personalidade do Ano, e não apenas da semana, segundo um editorial publicado em 1945. O texto pondera, no entanto, que a escolha por Lindbergh foi também uma espécie de retratação da revista por não ter dado destaque, até então, a um dos heróis da época. Na semana em que se noticiou o feito histórico do aviador, que realizou o primeiro voo transatlântico sem escalas, a Time optou por estampar uma imagem do Rei Jorge V e da Rainha Maria, do Reino Unido.

Desde o início da publicação da revista, em 1923, quatro brasileiros foram retratados na capa da revista norte-americana em edições semanais. São eles: o advogado e político Julio Prestes (1930), o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek (1956), o também ex-presidente da República Jânio Quadros (1961) e o ex-líder do regime militar Costa e Silva (1967).

Segundo matéria do site alemão DW, a eleição popular realizada atualmente sobre a Personalidade do Ano não tem influência sobre a escolha feita por profissionais do periódico. O principal objetivo da enquete é gerar engajamento no site do veículo.

Em 2019 e 2020, Bolsonaro foi incluído na lista das 100 pessoas mais influentes daqueles anos, também elaborada pela revista Time. O documento inclui figuras de artistas, empresários, empreendedores e líderes mundiais. No ano passado, o youtuber Felipe Neto também foi um dos agraciados. Agora, em 2021, a única brasileira na lista é a empresária Luiza Trajano.

Essas escolhas também ficam a cargo dos editores da revista. Os nomes são selecionados de acordo com o grau de influência, não importando o mérito das ações de cada um dos ali citados. As fotos dos escolhidos também são acompanhadas de um texto com uma breve descrição feita não apenas por jornalistas, mas também por autoridades e outras figuras públicas.

Mais peça de desinformação

Outro vídeo que circula no Facebook, intitulado “globo lixo é assim mesmo, lixo 💆‍♀️ 💆‍♂️ 💆‍♂️ 💆‍♀️ 💆‍♂️ 💆‍♂️ 💆‍♀️ de mentiras… ”, resgata uma gravação do Jornal Nacional de dezembro de 2019, quando foi noticiada a escolha da ativista Greta Thunberg como Personalidade do Ano pela Time. Neste caso, a eleição foi feita pelos editores da revista e, portanto, se trata de um resultado oficial.

A mesma peça compila outro momento do jornal, de dezembro deste ano, em que os âncoras William Bonner e Renata Vasconcellos anunciaram a conquista de dois Prêmios Caboré por profissionais da Globo. A cerimônia é realizada anualmente desde 1980 pelo Grupo Meio & Mensagem, e reconhece funcionários, agências e empresários ligados ao setor de propaganda no Brasil.

O vídeo, que teve mais de 19 mil visualizações até a publicação desta reportagem, inclui uma montagem do autor, que, com tom de ironia, questiona o motivo de os jornalistas não terem noticiado a conquista de Jair Bolsonaro como Personalidade do Ano, como fez com Greta Thunberg. A afirmação é enganosa, pois, como já explicado, o presidente levou o título apenas na votação online, e isso não fica claro no vídeo. Há ainda uma capa falsa, em que o autor coloca outra montagem da imagem de Bolsonaro na revista.

Em determinado momento do vídeo, o autor desdenha do Prêmio Caboré e faz críticas à imprensa: “(…) É o presidente da República, o presidente do país, e eles não deram uma nota, uma notinha sequer, mas deram 5 minutos para duas maritacas deles que ganharam o Prêmio Caboré não sei das quantas, coisinha deles lá. O presidente do Brasil ganhou a Celebridade do Ano da revista Time, a revista mais importante do mundo, e essa ‘rede Goebbels’ [referência a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha nazista] não deu uma nota. É esse o nível de jornalismo que temos aqui, principalmente o da Rede Globo”.

Depois, conclui: “Não é lixo, não é lavagem de esgoto, é muito abaixo disso. É uma coisa deprimente, deplorável, e um desrespeito à classe deles, que se julgam jornalistas. Parabéns, presidente Bolsonaro, o Brasil está com o senhor. Mais um gol de placa para o nosso País e para o senhor também. Fiquem com Deus.”

O perfil do responsável por compartilhar o material no Facebook traz uma série de outros vídeos com críticas ao Supremo Tribunal Federal, à imprensa e a partidos políticos.

O que diz a Time

Na primeira vez em que Bolsonaro foi escolhido uma das 100 pessoas mais influentes do ano pela Time, em 2019, o editor Ian Bremmer definiu o presidente como um “personagem complexo”. O texto coloca que o político representava a “melhor chance em uma geração de ordenar as reformas econômicas” e que sua eleição marcava uma “quebra brusca em décadas de corrupção de alto nível”.

O editor também diz que Bolsonaro é um “garoto propaganda de masculinidade tóxica, um ultraconservador homofóbico” e um propulsor de uma guerra cultural que poderia se estender para um “revés no progresso do Brasil com as mudanças climáticas”. A mesma descrição defende que o país vive uma democracia dinâmica, com instituições robustas, e que o presidente teria que “aprender a trabalhar com o sistema” para avançar na agenda.

No ano seguinte, o editor internacional da revista Dan Stewart ficou responsável pelo breve contexto negativo que levou Bolsonaro a ser incluído, pela segunda vez, na lista dos 100 mais influentes. O jornalista destacou o números de mortos pela covid-19 (à época, 137 mil), os efeitos negativos da pandemia na economia, as exonerações de cinco ministros da alta cúpula do governo federal, e as queimadas na Amazônia.

Depois, define o presidente como um “homem teimoso e cético”, cuja aprovação, até então, era de 37% da população brasileira. O editor argumenta que parte desse apoio se deve ao pagamento do auxílio emergencial aos mais pobres, mas pondera que, na visão dele, há também uma “espécie de culto ao comando” de Bolsonaro.

O último texto faz parte da matéria que traz o resultado da enquete popular. O site descreve o cenário com o qual ele tentará novo mandato: “O polêmico líder, que será candidato à reeleição em 2022, está enfrentando uma desaprovação crescente sobre seu manejo da economia e enfrentou críticas generalizadas de políticos, tribunais e especialistas em saúde pública por minimizar a gravidade da covid-19 e exibir ceticismo em relação à vacina”.

A publicação cita também dois episódios recentes envolvendo Bolsonaro: os pedidos de indiciamento feitos pela CPI da Pandemia e o inquérito no Supremo Tribunal Federal que apura a declaração do presidente relacionando vacinas ao desenvolvimento de Aids.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas e eleições. As postagens aqui investigadas, juntas, contabilizam mais de 28 mil interações, incluindo curtidas, compartilhamentos e visualizações no Facebook.

Os conteúdos foram compartilhados por perfis de apoiadores do presidente para promover a falsa compreensão de que o mandatário realiza um governo reconhecido como positivo por uma influente revista estrangeira.

Para isso, os posts partem da premissa enganosa de que as tradicionais capas da Time têm como finalidade prestar homenagens. A escolha de Personalidade do Ano, como mostrado nesta checagem, é o reconhecimento de nomes que tenham exercido influência positiva ou negativa. O tom dos comentários no Facebook é de comemoração.

“Ele fez por merecer, por mais que a esquerdalha o bata, ele mais vai crescendo mundo afora. Viva o nosso presidente que Deus continue abençoando, vamos firmes pra 2022”, escreveu um usuário. “Que orgulho ter esse homem como presidente”, celebrou outra.

O conteúdo aqui verificado também foi investigado pelo UOL Confere, pela AFP Checamos e pelo Estadão Verifica.

Para o Comprova, enganoso é todo conteúdo retirado do seu contexto original de modo que seu significado sofra alterações.

Eleições

Investigado por: 2021-12-10

Músicos não ofenderam Lula ao recebê-lo em instituição francesa

  • Falso
Falso
Vídeo tem áudio alterado para parecer que grupo de percussão recebeu o ex-presidente Lula (PT) na Sciences Po, tradicional instituição de ensino de Paris, chamando-o de "filha da puta" durante apresentação. Os músicos entoam, em francês, "C'est la Batuka", que significa "É a Batuka", referindo-se ao nome do coletivo.
  • Conteúdo verificado: Vídeo com trechos da apresentação de percussão feita para a chegada de Lula (PT) à Sciences Po, em Paris. A gravação teve áudio adulterado, fazendo parecer que músicos chamam o ex-presidente de “filha da puta”.

É falso que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha sido recebido por músicos entoando “filha da puta” em sua chegada à Sciences Po, instituição pública de ensino superior em Paris, em 16 de novembro, durante sua última viagem à capital francesa.

Um vídeo que viralizou no Facebook teve o áudio adulterado, com o xingamento incluído. A gravação original, sem a montagem, foi postada pelo perfil oficial de Lula naquele mesmo dia, e é possível perceber que o grupo de percussão não canta a expressão “filha da puta”.

“É fake news. Nós estamos dizendo ‘C’est la Batuka’, que significa ‘É a Batuka'”, disse o grupo musical à reportagem.

A assessoria do ex-presidente também classificou o conteúdo como mentira. Em nota, disse que “grupos políticos que usam de fake news contra Lula produziram uma mentira com uma manifestação de carinho de jovens brasileiros e franceses em Paris”.

Também contatado, o autor do vídeo, Luan Amâncio, afirmou que poderia estar errado e, após receber a explicação sobre o áudio verdadeiro, apagou o vídeo de seus canais.

O Comprova classificou o conteúdo como falso porque ele sofreu edições para mudar o seu significado original e foi divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

O primeiro passo foi pesquisar se Lula havia postado o vídeo em suas redes sociais. Fazendo uma busca filtrando pelo perfil do ex-presidente e pelo nome “Sciences Po” no TweetDeck, foi possível encontrar a postagem. Isso foi o primeiro indício de que o vídeo verificado aqui continha desinformação – se realmente tivesse sido ofendido, Lula dificilmente compartilharia a gravação.

Os comentários de seguidores ajudaram na apuração. Um deles escreve que não consegue entender o que os músicos entoam, e outro responde: “De la Batuka, é o nome do grupo“.

Pesquisando no Google pelo nome “La Batuka”, os resultados trazem um tuíte do perfil oficial da Science Po sobre a recepção de Lula pelos estudantes que formam o grupo Batuka.

Buscando por Batuka nas redes sociais, foi possível chegar ao Instagram dos músicos. Então, a reportagem enviou uma mensagem privada perguntando o que eles cantaram na recepção ao petista.

A assessoria de Lula também foi procurada e, em mensagem de texto, negou que o ex-presidente tenha sido hostilizado.

Em seguida, a reportagem contatou, via mensagem privada no Facebook e também via Instagram, Luan Amâncio, autor do vídeo. O grupo Movimento do Povo Brasileiro no Facebook, que compartilhou a gravação falsa, foi procurado por e-mail, mas não respondeu até a publicação deste texto.

Por último, foram feitas buscas em veículos da mídia tradicional para esclarecer como foi a visita de Lula aos países europeus.

Verificação

O vídeo

Em novembro, Lula fez um tour por países europeus. No dia 16 daquele mês, quando chegou a Paris, foi à escola de ciências políticas Sciences Po, onde recebeu o título de honoris causa há dez anos, para proferir a conferência “Qual lugar para o Brasil no mundo de amanhã”.

O vídeo verificado aqui mostra a recepção feita por estudantes da instituição que participam do grupo de percussão Batuka. Em um saguão, os jovens tocam pandeiros, tambores e outros instrumentos musicais. A maioria se apresenta de máscara de proteção contra a covid-19. No centro, uma mulher organiza as batucadas com um apito.

Lula, que passava por uma área comum do prédio da instituição de ensino, foi conduzido por uma pessoa da comitiva para o local em que os jovens se apresentavam, informado de que se tratava de um grupo de batucada da cidade francesa.

O ex-presidente permaneceu assistindo à apresentação por alguns instantes, e depois se retirou, sem demonstrar nenhuma contrariedade como poderia ser esperado em caso de xingamentos. O petista estava acompanhado por dezenas de pessoas, entre as quais a socióloga Rosângela da Silva, a Janja, sua namorada.

No vídeo com o áudio distorcido, legendas foram criadas para justificar uma suposta recepção mal-sucedida, primeiramente chamando a atenção para o grupo de batucada, de modo que, no momento em que os percussionistas gritam “C’est la Batuka”, parecesse “filha da puta”, no ritmo da música.

O xingamento foi reproduzido na legenda, seguido de “kkkkk”, para caracterizar uma gargalhada. Na sequência, o autor escreveu que Lula retirou-se, decepcionado.

Lula na Europa

A passagem de Lula pela Sciences Po foi apenas uma etapa de sua visita a Paris, na França, e a outros países europeus. Em todas as cidades por onde circulou cumprindo agendas políticas, o ex-presidente foi bem recebido.

A primeira parada foi na Alemanha, onde o petista desembarcou em 11 de novembro, quando esteve com lideranças sindicais. No dia seguinte, encontrou-se com o social-democrata Olaf Sholz que, na ocasião, ainda não havia sido conduzido como o chanceler a suceder Angela Merkel.

Em Bruxelas, capital da Bélgica, Lula chegou em 14 de novembro e o primeiro encontro, com direito a foto, foi com apoiadores. No dia 15, um dos pontos altos do tour pela Europa, foi o discurso no Parlamento Europeu. O ex-presidente foi aplaudido de pé pelos eurodeputados após, entre outras declarações, dizer que o Brasil tem jeito e que é possível construir uma economia justa.

Da Bélgica, o petista partiu para a França onde, no dia 16, se encontrou com a prefeita de Paris, a socialista Anne Hidalgo. Foi nessa mesma data que o ex-presidente esteve na Sciences Po.

No outro dia, Lula foi recebido pelo presidente Emmanuel Macron em um encontro que durou mais de uma hora no Palácio do Eliseu, em Paris, e cuja pauta foi a geopolítica. Desde a eleição do francês, em 2017, ele não recebeu nenhum presidente brasileiro – nem Jair Bolsonaro (PL), com quem já se desentendeu, nem Michel Temer (MDB).

No mesmo dia, Lula foi agraciado com o prêmio de “coragem política” concedido pela revista Política Internacional, honra conferida apenas outras três vezes em 40 anos da publicação a dois ex-presidentes, Anuar Sadat (Egito) e Frederik de Klerk (África do Sul), e ao papa João Paulo II.

Em 19 de novembro, já em Madri, o petista se reuniu com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez.

Foi na capital espanhola que Lula encerrou sua turnê pela Europa. Análise de dados nas redes sociais aponta que a viagem do ex-presidente teve aprovação de 80% da opinião pública não militante.

Pesquisas de intenção de voto

Autor do vídeo com conteúdo falso, Luan Amâncio inicia a gravação dizendo que “parece que os institutos de pesquisa, mais uma vez, estão errados”, referindo-se ao fato de o presidente Bolsonaro aparecer atrás de Lula nas últimas pesquisas eleitorais.

Levantamento da Genial/Quaest divulgado em 10 de novembro mostra o petista com 48% das intenções de voto e, Bolsonaro, com 21%.

Em setembro, Lula tinha 44% dos votos contra 26% de Bolsonaro, conforme revelou o Datafolha.

O autor do vídeo

Em seu canal no YouTube, onde chama quem se considera “patriota e conservador” para se inscrever, Luan Amâncio tem 289 mil seguidores. No Facebook, rede em que compartilha os mesmos vídeos, são 211,4 mil seguidores. Nesta rede, ele se apresenta como “jornalista” e como “advogado, criador de conteúdo de Youtube e residente de Curitiba”.

Os vídeos são, em sua maioria, de apoio a Bolsonaro e contrários a Lula. Um deles foi alvo de uma checagem do Estadão Verifica, em junho deste ano. À época, Amâncio retirou de contexto um trecho de um documentário dizendo que era uma “reunião vazada” da cúpula do PT.

O Comprova entrou em contato com ele via Instagram, questionando-o sobre o vídeo adulterado. “Pode ser, então, que esteja errado mesmo”, disse ele, que apagou a publicação após a troca de mensagens com o Comprova.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Projeto Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre pandemia, governo federal e eleições. A publicação aqui verificada foi visualizada mais de 125 mil vezes no Facebook até o dia 10 de dezembro.

Ao divulgar um vídeo com áudio adulterado, o conteúdo cria a falsa impressão de que Lula teria sido mal recebido na instituição que o convidou, quando, na verdade, foi o contrário. Qualquer cidadão tem o direito de apoiar o político que quiser, mas é perigoso para a democracia quando a opinião é formada com base em conteúdos falsos, como este verificado aqui.

O conteúdo também se torna perigoso quando critica os institutos de pesquisa, importante ferramenta para a sociedade em períodos pré-eleitorais.

O mesmo vídeo foi verificado pela Lupa e AFP Checamos.

O Comprova já concluiu ser falso que o Washington Post tenha publicado manchete com elogios a Bolsonaro, que jogadores de times europeus tenham dedicado gols a ele e que torcedores do Atlético Mineiro tenham xingado Lula em partida recente.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2021-12-07

Vídeo de torcedores do Atlético Mineiro xingando Lula é de 2016

  • Falso
Falso
Vídeo da torcida do Atlético Mineiro xingando Lula voltou a viralizar em novembro de 2021, após uma partida entre o Galo e o América, no dia 7 do mês passado, no Mineirão, em Belo Horizonte. No entanto, as imagens foram gravadas em 2016, na Arena Independência, em jogo contra o Colo-Colo, do Chile.
  • Conteúdo verificado: Post alegando que o ex-presidente Lula (PT) compareceu ao jogo do Atlético Mineiro contra o América, em novembro deste ano, e acabou sendo xingado por torcedores do Galo.

Para colocar em descrédito pesquisas de opinião que mostram Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como líder nas intenções de voto para presidente nas eleições de 2022, grupos nas redes sociais espalham um vídeo de 2016 em que torcedores do Atlético Mineiro insultam o político momentos antes de uma partida de futebol. A legenda inventa que Lula teria ido a um jogo do Galo contra o América, em novembro deste ano, no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte, e presenciado os xingamentos, o que não é verdade.

O Comprova encontrou a mesma gravação circulando desde março de 2016 e constatou que ela foi feita durante uma partida do Galo contra o clube chileno Colo-Colo, pela Copa Libertadores da América. O jogo foi disputado na Arena Independência, que também fica na capital mineira.

Na época, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) enfrentava protestos e havia acabado de nomear Lula para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil, o que foi interpretado pela Justiça como uma tentativa de conferir foro privilegiado ao colega de partido. Outro assunto em evidência era uma conversa grampeada de Lula com Dilma, tornada pública naquela noite pelo ex-juiz Sergio Moro.

Já a partida do Atlético contra o América, citada no post, ocorreu no Estádio Mineirão — e não na Arena Independência — no dia 7 de novembro deste ano. Não há registro de que Lula tenha comparecido a nenhum desses eventos.

O autor da postagem foi procurado, mas não se manifestou. O Comprova classificou o conteúdo como falso porque ele sofreu edições para mudar o seu significado original e foi divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

O Comprova iniciou a checagem procurando por informações no vídeo que pudessem indicar onde e quando ele foi feito e dividiu o conteúdo em vários frames com ajuda da ferramenta InVID.

As camisetas dos torcedores confirmam que se tratava de um jogo do Clube Atlético Mineiro, e a estrutura do estádio era semelhante ao Independência, em Belo Horizonte, que pertence ao América Futebol Clube.

| Captura de tela do vídeo checado pelo Comprova.

| Imagem disponibilizada no site da Arena Independência.

Apesar da baixa resolução do vídeo, é possível visualizar rapidamente o telão do estádio durante o movimento da câmera. O escudo do Atlético Mineiro aparece primeiro, indicando que era o mandante da partida, enquanto o segundo se assemelha com o do clube chileno Colo-Colo.

| Captura de tela do vídeo mostrando o telão do estádio com Atlético mandante e escudo do Colo-Colo.

| Print de transmissão ao vivo do Fox Sports, recuperada por canal do YouTube.

Com essa dica, o Comprova pesquisou por palavras-chave no Google e encontrou um texto publicado em um blog da revista Veja que continha um link para um vídeo no YouTube, de 2016, que mostra torcedores do Galo insultando o ex-presidente Lula, mais de cinco anos atrás, em um ponto diferente do estádio.

Entre os resultados sugeridos pelo YouTube, estava outra gravação, idêntica à da postagem analisada e com data de 18 de março de 2016.

A reportagem também encontrou o mesmo vídeo publicado no Facebook um dia antes, em 17 de março de 2016, mas não conseguiu determinar a autoria da filmagem.

Por fim, o Comprova procurou informações sobre as partidas do Atlético Mineiro contra o Colo-Colo, em 2016, e o contexto da época em notícias. Também pesquisou sobre os jogos do Galo contra o América, em 2021, e o que dizem as pesquisas eleitorais até o momento.

A reportagem contatou a assessoria de comunicação do ex-presidente Lula, que respondeu por mensagem de texto. O mesmo foi feito com o perfil que espalhou o conteúdo falso na internet, mas este não retornou os questionamentos do Comprova.

Verificação

Gravação antiga

O vídeo que está sendo compartilhado nas redes sociais como se fosse recente foi gravado em 2016 e circula na internet desde aquela época.

Atlético Mineiro e Colo-Colo se enfrentaram em 16 de março daquele ano, na Arena Independência, pela fase de grupos da Copa Libertadores da América, com vitória do time brasileiro por 3 a 0. As cores dos uniformes são compatíveis com as mostradas no vídeo — o Atlético jogou de branco e o Colo-Colo, de preto.

Outro indício de que se trata daquele jogo do Atlético contra a equipe chilena é uma notícia do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. “O início do jogo entre Atlético e Colo-Colo, na noite desta quarta-feira, pela Copa Libertadores, foi marcado por gritos de protesto contra o PT, a presidente Dilma e o ex-presidente Lula”, informa a publicação, destacando o fato de que um deputado estadual foi hostilizado por torcedores antes de começar o evento.

No início da transmissão da partida pelo Fox Sports, reproduzida por um canal do YouTube, ouve-se um coro de xingamentos, executado por uma parte da torcida do Galo.

Contexto

Na data da partida entre o Atlético e o Colo-Colo, a então presidente Dilma Rousseff (PT) havia anunciado a nomeação do ex-presidente Lula para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil.

O Planalto alegou que o objetivo da medida era ajudar a recompor a base política no Congresso e barrar o processo de impeachment, mas opositores viram no movimento uma forma de conferir foro privilegiado ao político, com o intuito de escapar da alçada da força-tarefa da Lava Jato, em Curitiba.

Lula ainda não era réu em nenhuma ação penal da Lava Jato, mas estava definitivamente sob a mira da operação. No início do mês, o ex-juiz Sergio Moro havia autorizado uma condução coercitiva da Polícia Federal para colher depoimento do ex-presidente em meio às investigações.

No mesmo dia da nomeação de Lula para a Casa Civil, na noite de 16 de março, Moro derrubou o sigilo e divulgou grampo de uma conversa telefônica entre Lula e Dilma. Na gravação, Dilma avisa a Lula que mandaria um “termo de posse” para que o líder petista usasse “em caso de necessidade”.

Esses episódios estimularam uma nova onda de protestos pelo País contra o PT. Alguns deles foram registrados em estádios de futebol — além de parte da torcida do Galo, outra que registrou manifestações foi a do Athletico Paranaense, com alguns torcedores levando máscaras e faixas em apoio a Moro, na mesma semana.

A decisão do magistrado em dar publicidade a uma gravação não autorizada da presidente da República gerou polêmica e foi contestada pelo Planalto. Posteriormente, ele se desculpou com o Supremo Tribunal Federal (STF), em pedido de esclarecimento da Corte. Por outro lado, Moro já declarou publicamente que não se arrepende da decisão por considerar que as conversas vazadas não eram “republicanas”.

Lula chegou a tomar posse no cargo de ministro-chefe da Casa Civil, mas a nomeação foi suspensa em menos de dois dias pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, que entendeu que houve desvio de finalidade na medida. O petista depois foi condenado pela Justiça nos casos do sítio de Atibaia e do triplex do Guarujá e ficou preso por 580 dias.

Lula foi solto com a decisão do Supremo que proibiu a prisão após segunda instância, em novembro de 2019, e teve as sentenças anuladas quando a Corte declarou que a 13ª Vara Federal em Curitiba não era competente para investigá-lo, em abril deste ano. Dessa forma, o petista voltou a ser elegível.

Atlético x América

As postagens mostrando insultos contra Lula em jogo do Atlético Mineiro começaram a viralizar novamente em novembro deste ano, pegando carona com a partida mais recente entre o Galo e o América, adversário de Minas Gerais. A versão de maior alcance foi compartilhada no dia 15, e alegava que a gravação teria sido feita quando Lula “arriscou e foi assistir Atlético MG X América, domingo último em BH”.

Neste ano, Galo e Coelho se enfrentaram cinco vezes:

A única partida que poderia se encaixar na descrição seria a mais recente, pela 30ª rodada do Campeonato Brasileiro. Acontece que o jogo foi disputado no Estádio Mineirão, e não no Independência.

Ambos ficam em Belo Horizonte, mas a estrutura é bem diferente. O Independência apresenta um formato retangular, com cantos bem marcados e um lado vazio, sem arquibancadas atrás do telão, e tem capacidade para 23 mil torcedores. O Mineirão traz um desenho mais clássico, oval e abriga até 62 mil pessoas.

Ao contrário do que alega o boato, não há qualquer registro de que Lula tenha assistido ao jogo entre Atlético e América, no dia 7 de novembro, em Belo Horizonte. As redes sociais do petista (Facebook, Instagram e Twitter) não mencionaram nenhuma agenda naquela data, apenas divulgaram um vídeo sobre fatos da semana.

O Comprova entrou em contato com a assessoria de comunicação do ex-presidente por WhatsApp, que respondeu: “Infelizmente grupos políticos têm usado fake news e desinformação contra o ex-presidente Lula, não contribuindo para um debate público democrático”. Para as agências de checagem Lupa e Aos Fatos, que investigaram o mesmo conteúdo antes, a assessoria também negou que ele tenha comparecido ao evento.

Pesquisas

Desde que recobrou os direitos políticos, Lula tem aparecido na dianteira em sucessivas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, que será disputada em 2022. Em 10 de novembro deste ano, o petista totalizou 48% da preferência de 2.063 pessoas entrevistadas pela Genial/Quaest, contra 21% obtidos pelo atual presidente, Jair Bolsonaro (PL).

O ex-presidente foi vitorioso em duas simulações de segundo turno realizadas, uma contra Bolsonaro; outra frente ao ex-juiz Sergio Moro, pré-candidato pelo Podemos. A pesquisa foi realizada entre 3 e 6 de novembro, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

O último levantamento Datafolha, divulgado em 17 de setembro de 2021, também mostrou o líder do PT à frente de Bolsonaro, com 44% a 26%, respectivamente. Nesta pesquisa, feita entre 13 e 15 de setembro, com participação de 3.667 pessoas de 190 municípios brasileiros, Lula apareceu em primeiro nas simulações de segundo turno.

De acordo com o Datafolha, Lula somou 56% da preferência do eleitorado na simulação da segunda etapa da disputa, contra 31% do atual mandatário. Esse é o percentual ironizado na postagem falsa checada pelo Comprova.

A divisão de pesquisas eleitorais e de opinião do Poder360, o PoderData, reflete cenário similar ao apresentado pelo Datafolha. O último levantamento, feito de 22 a 24 de novembro, mostra que Lula e Jair Bolsonaro seguem isolados em 1º e 2º lugar em eventual 1º turno para 2022. Dependendo do cenário testado, o petista pontua de 34% a 36% das intenções de voto. Já Bolsonaro marca de 27% a 29%. As entrevistas foram realizadas por telefone.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Projeto Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre pandemia, governo federal e eleições. A publicação aqui verificada foi compartilhada 33 mil vezes no Facebook, contabilizando 6,3 mil reações, e o vídeo atingiu sozinho 415 mil visualizações em cerca de um mês. No Brasil e no mundo, é comum que estádios de futebol e outras praças esportivas ressoem os humores políticos do momento.

Ao reproduzir um vídeo de 2016 e afirmar se tratar de um conteúdo de 2021, o autor do post induz outros usuários a uma percepção falsa do que ocorre no período que antecede um ano de disputa presidencial.

A peça de desinformação cita o Datafolha num panorama em que o instituto de pesquisa vinculado à Folha de S. Paulo — jornal constantemente atacado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) — é um dos que mostra o ex-presidente à frente em intenções de voto na corrida ao Palácio do Planalto.

O Comprova já concluiu ser falso que o Washington Post tenha publicado manchete com elogios a Bolsonaro; e verificou que um texto de opinião com críticas ao ex-juiz Sergio Moro foi assinado por um cientista político, sem que tenha representado a opinião do The New York Times. Explicou ainda como uma foto foi retirada de contexto para sugerir aliança entre o senador Renan Calheiros e o ministro da Suprema Corte, Alexandre de Moraes.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2021-11-26

Texto com críticas a Moro é de cientista político e não representa a opinião do New York Times

  • Enganoso
Enganoso
São enganosas as postagens compartilhadas no Facebook segundo as quais o jornal norte-americano The New York Times teria dito que o ex-juiz federal Sergio Moro corrompeu o sistema judicial brasileiro. O texto com críticas à Operação Lava Jato é de autoria de um cientista político e não representa a posição institucional do periódico.
  • Conteúdo verificado: Duas publicações feitas no Facebook criticam o ex-ministro da Justiça alegando que o “New York Times diz que Moro corrompeu o sistema judicial e é responsável direto pelo caos que o Brasil vive hoje”.

São enganosas as publicações segundo as quais o jornal norte-americano The New York Times teria feito críticas ao ex-juiz federal Sergio Moro, acusando-o de corromper o sistema judicial e ser responsável pelo caos do Brasil.

Em fevereiro deste ano, o jornal publicou um artigo do cientista político Gaspard Estrada com críticas à Operação Lava Jato, inclusive afirmando que ela se tornou um escândalo judicial e que contribuiu para o caos no Brasil. O texto representa, no entanto, a opinião pessoal do especialista, e não a posição institucional do Times. Apesar do artigo citar Moro como responsável por “iniciar” a Lava Jato, ele não é individualmente responsabilizado no texto pelos atos criticados.

Especialistas em redação jornalística entrevistadas pelo Comprova dizem que, ao contrário de uma notícia, que tem a função principal de informar, um texto de opinião busca defender um posicionamento. O gênero, porém, tem duas vertentes.

A primeira é o artigo de opinião, em que uma pessoa física emite uma opinião sobre algum tópico importante para a sociedade. Esse tipo de texto é assinado, indicando quem está emitindo aquela opinião, e frequentemente é escrito por pessoas que não trabalham para o jornal. Já a segunda é o editorial, não assinado ou assinado pelo próprio veículo, e representa as posições e visões institucionais do jornal.

No caso do NYT, o Comprova identificou que o jornal já publicou três editoriais mencionando Sergio Moro, sendo o primeiro deles de junho de 2016 e o último de janeiro de 2020. A visão do jornal norte-americano sobre o ex-juiz mudou com o tempo. Inicialmente tratado como um juiz que corajosamente enfrentou a corrupção no Brasil, o jornal diz que o vazamento de mensagens dos bastidores da operação mostram o que parece ser um “conluio ilegal” entre Moro e os integrantes da força-tarefa da Lava Jato do Ministério Público Federal. Mas não diz que o ex-juiz “corrompeu o sistema judicial” ou o responsabiliza “pelo caos que o Brasil vive”.

O Comprova tentou ouvir os dois perfis que publicaram o conteúdo verificado por meio do Facebook, mas nenhum deles respondeu até a publicação desta checagem. Um dos perfis fez uma postagem em um grupo público do Facebook de apoio ao ex-presidente Lula e o outro é uma postagem de uma página de apoio ao petista.

As postagens foram consideradas enganosas por retirarem o conteúdo de seu contexto original e usá-lo em outro, de modo que seu significado fosse modificado.

Como verificamos?

Primeiramente, buscamos no site do The New York Times todos os editoriais e artigos de opinião que o jornal publicou que tenham mencionado o ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro. Na mesma página, buscamos entender como o jornal explica a diferença entre esses dois tipos de texto.

A partir daí, lemos o artigo do cientista político Gaspard Estrada, usado por um dos perfis para afirmar que o jornal americano teria dito que “Moro corrompeu o sistema judicial” brasileiro. Também lemos todos os editoriais citando o ex-ministro para saber o que o Conselho Editorial do Times escreveu sobre o ex-ministro da Justiça.

Por fim, entrevistamos duas especialistas para explicar a diferença entre editorial, artigo de opinião e notícia: Isaltina Gomes, doutora em Linguística e professora de Redação Jornalística da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Marcelle Chagas, jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Verificação

Menções a Moro no NYT

Uma busca na seção de Opinião do jornal The New York Times mostrou que eles publicaram três editoriais e nove ensaios de convidados (guest essays, no termo original) com os termos de busca “Sergio Moro”. Os editoriais que citam o ex-ministro foram publicados em 6 de junho de 2016 (A medalha de ouro do Brasil em corrupção, na versão traduzida para o português), em 12 de abril de 2018 (‘Lula’ está na prisão e a democracia brasileira está em perigo) e, o mais recente deles, em 21 de janeiro de 2020 (Brasil chama reportagem de Glenn Greenwald de crime).

Já os artigos de opinião saíram nos dias 23 de janeiro de 2018 (A democracia do Brasil empurrada para o abismo, por Mark Weisbrot); 10 de abril de 2018 (Testando a democracia do Brasil, por Carol Pires); 5 de julho de 2019 (Para onde você vai quando os cruzados anticorrupção estão sujos?, por Vanessa Barbara); 14 de agosto de 2018 (Lula: Há um golpe de direita em andamento no Brasil, por Luiz Inácio Lula da Silva); 26 de dezembro de 2019 (Por que as ruas do Brasil estão tão calmas?, por Vanessa Barbara); 24 de janeiro de 2020 (A guerra contra a verdade de Bolsonaro, por Petra Costa); 4 de agosto de 2020 (Exército de trolls vai às ruas no Brasil, por Patrícia Campos Mello); 21 de agosto de 2018 (Por que Lula deveria ter a chance de concorrer à Presidência, por Jorge G. Castañeda); e 26 de fevereiro de 2021 (A Operação Lava Jato não foi uma bala de prata, por Gaspard Estrada).

Segundo o próprio jornal, os ensaios de convidados são artigos de opinião para defender uma ideia, em busca de enriquecer o debate público e ajudar os leitores a entender o mundo. O Times descreve a seção como “um espaço para pessoas que não são jornalistas e que não têm nenhuma ligação institucional frequente com o Times falarem diretamente com os leitores”. Qualquer pessoa pode submeter textos para serem publicados como ensaios. O jornal promete ler e revisar todos os textos submetidos.

Os artigos publicados nessa seção trazem a palavra “opinião” escrita no topo da página. O nome e a profissão do autor também são mostrados antes do texto. Já os editoriais trazem o termo “editorial” no cabeçalho e são assinados pelo Conselho Editorial do jornal.

O atual conselho editorial do New York Times é formado por 13 jornalistas. Três deles são especialistas em assuntos internacionais: Alex Kingsbury, Serge Schmemann e Farah Stockman. “O conselho não fala pela redação ou pelo Times como um todo. Em vez disso, em meio às vozes individuais conflitantes da editoria de Opinião, visa a fornecer uma visão consistente e independente do mundo com base em valores institucionais testados pelo tempo”, descreve o próprio veículo.

Texto lincado

Uma das postagens verificadas pelo Comprova traz o link para o artigo mais recente com menção a Moro publicado pelo jornal, em fevereiro de 2021. Nele, o cientista político Gaspard Estrada, diretor-executivo do Observatório Político da América Latina e do Caribe da universidade francesa Sciences Po, especializado em América Latina, diz que a Lava Jato “se vendia como a maior operação anticorrupção do mundo, mas se tornou o maior escândalo judicial da história do Brasil”.

Ele também diz que “o imenso capital político e social acumulado por Sergio Moro, o célebre juiz que iniciou a Lava Jato, e pelos procuradores tem se evaporado nos últimos anos”. Além disso, também afirma que “em vez de ajudar a erradicar a corrupção, conseguir maior transparência na política e fortalecer a democracia, a famosa operação contribuiu para o caos que o Brasil vive hoje”.

Em resumo, o artigo diz que a Operação Lava Jato contribuiu para o caos, se tornou o maior escândalo judicial do país, e sinaliza que Moro iniciou a operação, mas não diz diretamente que foi o ex-juiz o responsável por corromper o sistema judicial ou instalar o caos.

No texto, o autor fala em violações do processo judicial cometidas pelos promotores e “violação do princípio jurídico de não ser juiz e parte ao mesmo tempo”, cometida por Moro, ao afirmar que ele julgou e construiu a acusação contra o ex-presidente Lula.

Estrada diz ainda que, após a divulgação das conversas via Telegram entre Moro e os procuradores da Lava Jato, a força tarefa da operação passou a apresentar números no intuito de defender seus resultados, mostrando quantas pessoas foram presas ou condenadas, por exemplo. “No entanto, para conseguir isso, os promotores caíram em violações do devido processo sem reduzir a corrupção”, afirma.

O autor do artigo acrescenta ainda que, mesmo após a revisão pela Polícia Federal de parte dos diálogos divulgada pela imprensa, a mando de Moro, as conversas “confirmam que essa operação perverteu a Justiça, violou o estado de direito no Brasil e foi fator fundamental na construção da distopia que o país vive, com uma crise política exacerbada e com o segundo lugar mundial de mais mortes pela pandemia”.

Diferença de editorial, artigo de opinião e notícia

Em entrevista ao Comprova, a professora de jornalismo Isaltina Gomes explica que a diferença entre editoriais e artigos de opinião está ligada a quem é a pessoa que emite aquela posição. Segundo ela, não há diferenças estruturais de texto. “A diferença fundamental é em termos de assinatura. O editorial é a opinião formal do jornal. Em geral, não é assinado e a responsabilidade pelo que é dito é do jornal, enquanto empresa. O artigo é assinado e representa a opinião daquela pessoa física”, detalha.

A professora ainda chama atenção para o fato de que, enquanto alguns colunistas são pessoas contratadas pelo jornal para emitir opiniões e análises, outros artigos são escritos por autores externos, que publicam de forma voluntária, sem ter nenhum vínculo com o veículo. Isaltina diz não acreditar que um jornal publicaria um artigo de opinião que fosse frontalmente contra os seus valores.

Segundo a professora da UFPE, a notícia busca relatar fatos e, ainda que ela possa demonstrar um viés, na escolha de entrevistados ou na abordagem de um determinado assunto, seu objetivo é trazer informações. Já o texto opinativo relaciona essas informações em busca de defender uma posição.

Ao Comprova, a jornalista Marcelle Chagas também explicou a diferença entre artigo e notícia. “O artigo de opinião expressa, como o próprio nome diz, a opinião de alguém sobre um determinado assunto”, disse. “Já a notícia é produzida através da apuração de fatos que podem ter mais de um relato sobre o mesmo acontecimento. Garantido assim que a notícia seja divulgada da forma mais isenta possível”.

Segundo Marcelle, o artigo de opinião e a notícia jornalística, por estarem dentro de um espaço consolidado como produtor de fonte de informação confiável, impactam o leitor e ajudam a moldar a opinião da sociedade.

Ela pondera, no entanto, sobre a ausência de uma educação midiática que ensine sobre os diversos meios de informação. “Ainda existem poucas atividades de letramento midiático para auxiliar os atores sociais a entenderem essas mensagens informacionais transmitidas em diferentes formatos”, analisa.

O que o NYT realmente falou sobre Moro?

A leitura sobre os três editoriais publicados pelo New York Times com citações a Sergio Moro mostra que o olhar do jornal sobre a figura do hoje ex-juiz mudou substancialmente com o passar dos anos.

O primeiro editorial foi ao ar em 6 de junho de 2016, logo após Michel Temer (MDB) assumir a presidência do Brasil interinamente, depois do afastamento da então presidente Dilma Rousseff (PT). Naquela época, Moro foi citado no texto porque o jornal decidiu destacar dois trechos de um artigo que ele havia escrito em maio de 2016 para a revista Americas Quarterly. O juiz foi citado porque supervisionava as investigações do caso da Petrobras, que, segundo o editorial, havia acabado de culminar no afastamento de Dilma.

“‘Esquemas de corrupção sistêmica são prejudiciais porque afetam a confiança no Estado de Direito e na democracia’, escreveu Sergio Moro, o juiz federal que supervisionou a investigação da Petrobras, em um ensaio no Americas Quarterly no mês passado, acrescentando: ‘Crimes que são descobertos e comprovados devem, respeitando o devido processo, ser punidos'”, destacou o NYT.

O segundo editorial a mencionar Moro é de 12 de abril de 2018, cinco dias após o ex-presidente Lula se entregar à Polícia Federal para cumprir pena por sua condenação na Operação Lava Jato. Embora o editorial afirme que Lula está na prisão e a democracia brasileira está em perigo, o juiz da Lava Jato não é tratado com suspeição. Para o jornal, ele liderou corajosamente a operação contra o petista.

“Juízes como Sergio Moro, que corajosamente liderou a acusação na Operação Lava Jato, demonstraram que o Brasil tem instituições e meios para enfrentar até os mais poderosos – e mais populares – dos malfeitores”, diz um trecho do editorial.

o terceiro editorial a mencionar o ex-juiz foi publicado em 21 de janeiro de 2020 e dá outro tratamento a Moro. O texto critica como no Brasil o trabalho de jornalismo investigativo de Glenn Greenwald e da equipe do The Intercept Brasil — que denunciou as trocas de mensagens entre Moro e os promotores da Operação Lava Jato – foi tratado como se fosse crime.

Para o NYT, o país decidiu atacar o mensageiro, em vez da mensagem. O editorial menciona as suspeitas de corrupção do próprio ex-juiz na condução da operação. Isso aparece no texto quando o editoral diz que as mensagens vazadas “pareciam mostrar um conluio ilegal” entre Moro e os promotores e que elas sugeriam que Moro tinha violado a lei brasileira.

O texto diz que os artigos de Greenwald” revelaram uma verdade dolorosa sobre os que estão no poder” e que “perfurar a imagem heroica do Sr. Moro foi obviamente um choque para os brasileiros e prejudicial para o Sr. Bolsonaro”.

Por que investigamos?

Atualmente, em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre as eleições de 2022, as políticas públicas do governo federal e a pandemia que tenham viralizado nas redes sociais. Juntos, os conteúdos verificados tiveram mais de 1,1 mil interações no Facebook.

As publicações se enquadram no tema eleições, já que Moro, recém-filiado ao Podemos, é um dos pré-candidatos à Presidência da República em 2022. Segundo as pesquisas de intenção de voto, a corrida presidencial está sendo liderada pelo ex-presidente Lula (PT), cuja condenação por Moro na primeira instância foi posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por ver indícios de parcialidade no julgamento, e pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), de quem Moro foi ministro da Justiça até deixar o governo acusando o atual chefe do Planalto de tentar intervir na Polícia Federal.

O Projeto Comprova mostrou recentemente ser falso que o Washington Post tenha publicado uma manchete elogiando o presidente Jair Bolsonaro e também que o surfista brasileiro Italo Ferreira tenha pedido a prisão de Lula em entrevista ao New York Times.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2021-11-26

Folha não publicou tuíte questionando se absolvição de jovem nos EUA pode estimular bolsonaristas a atirarem contra manifestantes no Brasil

  • Falso
Falso
É falsa a montagem que circula no Facebook simulando tuíte do jornal Folha de S.Paulo com o título "A absolvição do jovem supremacista branco nos EUA pode estimular brasileiros a atirar indiscriminadamente contra manifestantes pacíficos no Brasil?". O veículo não publicou tal conteúdo.
  • Conteúdo verificado: Montagem simula tuíte com título para texto da Folha de S.Paulo questionando se absolvição de jovem branco que matou dois manifestantes antirracismo nos Estados Unidos poderia estimular brasileiros bolsonaristas a atirarem contra membros do MST e do MTST.

É falso que a Folha de S.Paulo tenha publicado um tuíte com o título “A absolvição do jovem supremacista branco nos EUA pode estimular brasileiros bolsonaristas a atirar indiscriminadamente contra manifestantes pacíficos no Brasil?”. Montagem que circula no Facebook simula conteúdo usando, inclusive, o logo e o nome de usuário do veículo paulistano no Twitter.

Abaixo do título do meme há uma foto de Kyle Rittenhouse, jovem branco inocentado após matar dois manifestantes em um protesto contra o racismo em Wisconsin, nos Estados Unidos, ao lado de uma imagem do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Mais abaixo, está o endereço do site da Folha e o que seria uma explicação da suposta reportagem: “Sociólogo afirma que integrantes do MST e MTST correm risco de vida por causa da…”, assim mesmo, com reticências. Não há link para nenhum outro conteúdo.

Em uma rápida consulta no site do jornal e no Twitter, via TweetDeck, é possível verificar que não foi publicado nada nesse sentido. Contatada pelo Comprova, a Folha afirmou não ter publicado nenhum texto com esse teor e nem feito o tuíte com o conteúdo em questão.

A reportagem tentou contatar três páginas no Facebook que compartilharam o conteúdo, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. A postagem foi considerada falsa porque usa informações inventadas.

Como verificamos?

O primeiro passo foi fazer uma busca pelo título que aparece no conteúdo falso no site da Folha. Depois, para confirmar que não havia nenhum texto com aquelas informações publicado no Twitter, a mesma busca foi feita no TweetDeck.

A reportagem entrou em contato com três páginas que publicaram a montagem – @analisespoliticasdaesquerdabrasileira, @osshibumi e @paulobatistasp –, mas nenhuma delas respondeu.

Para contextualizar o caso do jovem absolvido, foram feitas pesquisas em sites da imprensa.

Verificação

O falso tuíte

Simulando um post da Folha no Twitter, o conteúdo verificado aqui inventa título de texto que o jornal não publicou. Além disso, a imagem mostra o link do site do veículo, mas, diferentemente do que ocorre nas redes sociais do jornal, não é possível clicar no endereço que aparece no montagem..

A Folha tampouco se referiu a Rittenhouse como supremacista. Há 17 textos sobre ele no site do jornal, sempre o descrevendo como “jovem branco” e “adolescente”.

O caso

Kyle Rittenhouse tinha 17 anos quando detido, após matar Joseph Rosembaum e Anthony Huber durante uma manifestação antirracista que ocorria na cidade de Kenosha, nos Estados Unidos, em agosto de 2020. Uma terceira pessoa foi atingida pelos disparos, mas, ao ser levada para o hospital, conseguiu sobreviver.

Em novembro do ano passado, ele foi liberado da detenção após pagar fiança de US$ 2 milhões. A defesa alegou que Rittenhouse agiu em legítima defesa. Rittenhouse respondia por ser um menor de idade em posse de arma de fogo, algo que é proibido em Wiscosin, e também por homicídio.

Mais de um ano após o episódio, em novembro de 2021 o júri inocentou o acusado. Os advogados do jovem afirmaram que ele foi “repetidamente atacado e atirou com medo de perder a própria vida”. Agora com 18 anos, Rittenhouse chorou após o veredito e desabou no chão antes de ser ajudado a voltar para sua cadeira.

O caso foi concluído em juízo após mais de três dias de deliberações e de oitivas que ofereceram perspectivas diferentes das ações de Rittenhouse na noite do crime.

Protestos após o veredito

A absolvição de Kyle gerou uma onda de protestos nos Estados Unidos. Após o veredito, dezenas de manifestantes ocuparam as escadas externas do tribunal em que acontecia a sessão que inocentou o adolescente. Durante a noite, eles saíram às ruas para protestar.

Personalidades políticas, como o ex-presidente norte-americano Donald Trump, elogiaram o veredito do júri, alegando que o julgamento “não foi mais do que uma caça às bruxas da esquerda radical”.

Por outro lado, o presidente Joe Biden disse que a decisão o deixava “irritado e preocupado”, mas pediu calma à parcela da população norte-americana que foi às ruas protestar.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. O conteúdo checado aqui teve ao menos 3 mil interações até 25 de novembro. Dois compartilhamentos haviam se tornado indisponíveis para visualização, o que ocorre, segundo o Facebook, porque “o dono só compartilhou com um pequeno grupo de pessoas, alterou quem pode vê-lo ou ele foi excluído”.

Ao inventar que a Folha, um dos principais jornais do país, teria publicado tal conteúdo, o post incentiva ataques ao jornal – e, consequentemente, à imprensa – ao sugerir falsamente que o veículo estaria fazendo uma campanha contra os apoiadores do presidente. Diversos comentários mostram que os seguidores das páginas entenderam que a Folha estaria ultrapassando limites éticos com o suposto conteúdo. “Tem que ser preso (por) fazer uma matéria mentirosa”, “Isso é jornalismo? Dá nojo ler uma coisa dessas” e “É cada uma! R.I.P, jornalismo brasileiro”.

O mesmo conteúdo foi verificado pela agência Aos Fatos. E o Comprova já checou outras peças de desinformação que, seguindo a linha de Bolsonaro, atacam a imprensa, como o de post que inventa que inventa que Lula é acionista da Folha.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2021-11-24

É falso que jornal The Washington Post publicou manchete elogiando Bolsonaro

  • Falso
Falso
É falsa a imagem de uma capa do The Washington Post em que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é elogiado como o “melhor presidente de todos os tempos” do Brasil e que a população “o ama”. O conteúdo é fruto de uma montagem que utilizou como base um panfleto produzido por manifestantes contrários ao ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Na sequência, foi retirada a imagem de Trump e substituída por uma de Bolsonaro.
  • Conteúdo verificado: Suposta capa do jornal The Washington Post com elogios ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) circula em grupos bolsonaristas no Facebook. O texto traz como manchete que Bolsonaro é “o melhor presidente de todos os tempos” para o Brasil.

É uma montagem a capa do jornal norte-americano The Washington Post que descreve Jair Bolsonaro (sem partido) como o melhor presidente que já liderou o Brasil. O próprio veículo norte-americano desmentiu a suposta manchete em e-mail enviado ao Comprova afirmando que nunca houve publicação como a que circula na internet.

O grupo do Facebook onde a notícia falsa circulou foi removido da plataforma antes que a reportagem conseguisse fazer contato para pedir esclarecimentos sobre a origem da publicação. Antes de ser suspenso, o post já havia alcançado mais de 27 mil interações.

Para o Comprova é falso o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira, como é o caso da publicação aqui verificada.

Como verificamos?

Inicialmente, o Comprova encaminhou um e-mail para o Washington Post para questionar a veracidade da suposta manchete com elogios a Bolsonaro.

Na sequência, a reportagem fez uma busca na internet para identificar se havia matérias em veículos nacionais registrando os tais elogios ao presidente.

Apenas foram localizados conteúdos de agências verificadoras desmentindo a montagem que circula em grupos bolsonaristas.

Por fim, o Comprova procurou o grupo do Facebook Bolsonaro 2022 BR, que divulgou a capa falsa do jornal. O conteúdo foi removido da rede social e não foi possível encaminhar mensagem.

Verificação

Manchete é falsa

A imagem da capa do jornal The Washington Post que circula na internet e na qual Bolsonaro é elogiado é falsa. O texto, em inglês, além de escrito de forma errada, mente ao dizer que o veículo considerava o brasileiro como o “melhor presidente de todos os tempos”.

As informações sobre a falsidade do material foram confirmadas pelo próprio Washington Post, após o Comprova encaminhar ao jornal um e-mail solicitando mais detalhes sobre a suposta matéria. Em resposta, o editor para assuntos internacionais Douglas Jehl declarou que a manchete nunca existiu.

“A imagem vinculada não é autêntica; o Post nunca publicou tal manchete sobre o presidente Bolsonaro”, informou. Portanto, trata-se de uma montagem que tenta simular boa reputação de Bolsonaro fora do país.

Outras agências de checagem também confirmaram que a imagem viral é falsa, como a feita pelo Estadão Verifica. A Lupa também desmentiu o boato, assim como o G1.

A publicação viralizou após momentos de baixa receptividade do presidente brasileiro por líderes internacionais em viagens diplomáticas, como a Assembleia Geral da ONU e, mais recentemente, a Cúpula do G20, que ocorreu no início de novembro, na Itália.

Na ocasião, a imprensa nacional e internacional repercutiu que Bolsonaro ficou deslocado ao não receber atenção de outros chefes de Estado. Durante a mesma viagem que gerou constrangimento ao presidente do Brasil pela ausência de credibilidade fora do país, jornalistas que faziam a cobertura do evento foram agredidos por seguranças de Bolsonaro.

Origem da montagem

A montagem em que Bolsonaro aparece foi feita a partir da junção da imagem do presidente com uma capa falsa, elaborada por manifestantes contrários ao então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em janeiro de 2019.

O conteúdo das impressões são falsos e foram desmentidos por outra publicação norte-americana, a revista New Yorker.

Na ocasião, uma tiragem de 25 mil cópias do jornal falso foi distribuída em Washington, e os documentos apresentavam uma data errada, com o cenário futuro, de maio de 2019.

O The Washington Post fez uma reportagem para desmentir a capa falsa que trazia Trump como um não presidente – “unpresident”. O jornal alegou que estava ciente de que um site tentava reproduzir sua tipografia e que investigava o caso.

A autoria dos jornais e sites falsos foi assumida pelo grupo ativista Yes Men. O anúncio foi realizado por Onnesha Roychoudhuri, porta-voz da organização.

Jornal atribui a Bolsonaro e governadores o avanço da covid no Brasil

Uma das últimas matérias veiculadas pelo jornal norte-americano em que Bolsonaro é citado dá destaque ao relatório final da CPI da Covid no Senado, citando que o presidente é apontado como um dos responsáveis pelo agravamento da covid-19 no Brasil.

Segundo uma pesquisa feita pelo veículo, não apenas Bolsonaro, mas também alguns governadores de estado influenciaram negativamente no número de infectados e mortos ao evitar medidas restritivas que impedissem o avanço da doença no país.

O Washington Post afirma ter utilizado como base estatística os dados do Observatório da Covid-19 da Universidade de Miami, Ministério da Saúde, Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A matéria em questão arrematou a análise sobre as gestões federal e estaduais a partir do relatório enviado pela CPI da Covid à Procuradoria-Geral da República, em que ações e omissões do governo federal para conter o coronavírus foram analisadas.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. O conteúdo checado teve ao menos 27 mil interações até o dia 23 de novembro, quando a postagem ainda estava acessível.

Ao fazer uma montagem falsa da capa do jornal The Washington Post, a publicação pode gerar conclusões erradas sobre a reputação de Bolsonaro fora do país e manipular a opinião pública.

O Comprova tem publicado verificações que desmentem boatos de internet, como o que esclareceu que o inquérito da PF não investiga fraude no processo de votação e que pesquisa antiga foi usada para sugerir que Bolsonaro é aprovado por metade da população.

O Comprova classifica como falso o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2021-11-18

Lewis Hamilton não elogiou Bolsonaro após o GP do Brasil

  • Falso
Falso
É falso que Lewis Hamilton tenha dito que os brasileiros estão felizes com o governo Bolsonaro, como mostra uma peça de desinformação que circula no Twitter. A publicação falsa afirma que o piloto fez o comentário elogioso ao jornal The New York Times, mas não há registros da entrevista. Escuderia de Hamilton, a Mercedes-Benz afirmou que o inglês não elogiou o governo Bolsonaro.
  • Conteúdo verificado: Peça publicada no Twitter afirma que o piloto Lewis Hamilton disse ao The New York Times nunca ter visto os brasileiros tão felizes como no governo Bolsonaro.

É falso que o piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton tenha dito que nunca viu os brasileiros tão felizes como no governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Circula nas redes sociais peça de desinformação que atribui ao britânico o comentário elogioso.

A declaração, compartilhada por perfil que se autodefine bolsonarista, teria sido dada ao jornal The New York Times, após a vitória de Hamilton no Grande Prêmio de Interlagos, em São Paulo, em 14 de novembro. Ao Comprova, por e-mail, a assessoria de comunicação da Mercedes-Benz, escuderia de Hamilton, afirmou que o piloto “nunca disse isso e não deu entrevista ao NYT”.

Em outro tuíte sobre a peça de desinformação, a dona do perfil afirmou que, para ela, não faz diferença que o piloto inglês não tenha, de fato, feito comentários positivos sobre o governo Bolsonaro. “(…) ninguém precisa falar por mim o que eu mesma posso dizer: Estou feliz com este governo”, ela escreveu.

O Comprova questionou a autora da publicação falsa pelo Instagram. Ela respondeu que não achou que a postagem tinha potencial de gerar danos a outras pessoas. Afirmou que viu apenas esquerdistas classificando o conteúdo como falso, “ninguém da direita”. Na sequência, porém, ela reconheceu a falsidade da publicação e apagou o conteúdo.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original ou divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

Inicialmente, o Comprova realizou buscas no Google e no portal do The New York Times à procura de alguma entrevista concedida pelo piloto inglês com o mesmo teor da publicação verificada. As palavras digitadas foram “Lewis Hamilton”, “Brazil” e “Bolsonaro”. O site não apresentou matérias com estes temas.

O Comprova também visitou checagens sobre a peça realizadas pelos sites Boatos.org, UOL Confere, Estadão, Yahoo, Agência Lupa e IstoÉ. A conclusão de todas as verificações foi de que o conteúdo é falso.

A reportagem entrou em contato com a autora do post por mensagem privada no Instagram e, após a entrevista, ela apagou o conteúdo.

Ao Comprova, por e-mail, a assessoria de comunicação da Mercedes-Benz, escuderia de Hamilton, afirmou que o piloto “nunca disse isso e não deu entrevista ao NYT.”

Verificação

O post aqui verificado inventa que o comentário de Hamilton teria sido feito na presença do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), um dos principais adversários políticos de Bolsonaro. O tucano é chamado de “calcinha apertada” na postagem. Foi Doria quem entregou ao inglês o prêmio de vencedor do GP de Interlagos.

“Uma honra entregar o prêmio de vencedor do Grande Prêmio SP de Fórmula 1 a Lewis Hamilton. Emocionante ver Hamilton levantar a bandeira do Brasil no lugar mais alto do podium. Emocionante ver a torcida gritar ‘Senna! Senna!’”, publicou o perfil do governador no Twitter.

Hamilton emulou Senna

A reverência do piloto à bandeira nacional não foi uma forma de menção ao bolsonarismo, movimento que usa as cores e a bandeira brasileiras em manifestações a favor do presidente da República. O gesto de Hamilton foi uma mostra de admiração ao tricampeão mundial de Fórmula 1 Ayrton Senna (1960-1994). Em 2021, completam-se 30 anos da primeira vitória de Senna em Interlagos.

Em 24 de março de 1991, o brasileiro enfrentou percalços até conseguir comemorar ineditamente perante a própria torcida, como a chuva e somente a sexta marcha funcionando. Ele levantou a bandeira nacional no primeiro lugar do pódio. Em 1993, o gesto se repetiu duas vezes, no Brasil e na Austrália, quando o piloto levantou a bandeira a partir do cockpit, ainda com o carro em movimento, como fez Hamilton. Os registros estão no site em memória ao piloto.

Em entrevista à TV Bandeirantes, que detém os direitos da transmissão da modalidade, Hamilton afirmou: “Essa foi para o Brasil. Estou muito orgulhoso e muito feliz com toda essa paixão e amor que recebi das pessoas. Foi um momento muito especial. Me lembro de ver os vídeos do Ayrton carregando a bandeira quando vencia aqui e procurei a bandeira no fim”.

Hamilton apoiou críticos de Bolsonaro

O piloto da Mercedes já publicou no Instagram, em 31 de maio de 2021, mensagem em apoio a manifestantes contrários a Bolsonaro. “Meu coração está com vocês, Brasil”, escreveu o heptacampeão da Fórmula 1.

A imagem da publicação era da Avenida Paulista, um dos cartões-postais de São Paulo, àquela oportunidade tomada por pessoas contrárias ao manejo da crise sanitária pelo governo Bolsonaro. O país somava mais de 461 mil mortes ocasionadas pela covid-19.

F1 já gerou disputa entre Doria e Bolsonaro

Bolsonaro já quis que o GP brasileiro fosse realizado no Rio de Janeiro, em um autódromo que ainda seria construído, no bairro de Deodoro, Zona Oeste da cidade. Ele chegou a anunciar que as tratativas com a Liberty Media, grupo empresarial que administra a F1, estavam 99% concluídas. Em paralelo, o governo paulista negociava com o mesmo grupo para a manutenção da corrida em São Paulo.

O projeto de mudança para a capital fluminense também continha implicações ambientais. A pista do autódromo passaria na Floresta do Camboatá, o último trecho de Mata Atlântica em área plana na cidade do Rio de Janeiro. A Câmara Municipal do Rio de Janeiro, então, aprovou o projeto de lei 1.345, de 2019, que cria o Refúgio de Vidas Silvestre (Revis) na Floresta do Camboatá.

O líder do prefeito Eduardo Paes (DEM) na Casa, Átila Nunes (DEM), avaliou que a aprovação do texto resultará na preservação da fauna e da flora.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia, as políticas públicas do governo federal e as eleições de 2022. O post aqui verificado tem potencial de levar as pessoas a uma falsa impressão sobre a popularidade de Bolsonaro, pois afirma que o presidente foi elogiado por um piloto mundialmente celebrado.

Até o momento da publicação deste texto, o post tinha mais de 6 mil interações. Alguns comentários foram contrários à publicação falsa. Outros, favoráveis. “Valeu Hamilton! O calcinha merece! E o povo, apesar de tudo, vivemos uma ditadura judicial, está feliz e seguro com Bolsonaro”, escreveu uma usuária.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original ou divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2021-11-10

Vídeo de Bia Kicis sobre retenção de passaporte de Lula é de 2018

  • Enganoso
Enganoso
Compartilhamento de vídeo gravado em 2018 pela deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), em que ela celebra a autorização da Justiça para que o passaporte do ex-presidente Lula seja apreendido, está fora de contexto. Atualmente, o político petista não está impedido de realizar viagens internacionais.
  • Conteúdo verificado: Vídeo gravado por Bia Kicis em 2018, relacionado à apreensão do passaporte de Lula naquele ano, é compartilhado fora de contexto.

É enganoso que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteja impedido de realizar viagens internacionais atualmente. Circula no Facebook vídeo em que a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) comemora a retenção do passaporte do petista, o que, de fato, ocorreu. Contudo, a decisão judicial que o impediu de ir à Etiópia é antiga, de 25 de janeiro de 2018, assim como o vídeo publicado por Kicis.

A determinação que desfavoreceu o líder petista foi do juiz federal Ricardo Leite, da 10ª Vara da Justiça Federal em Brasília. A decisão foi amplamente noticiada pela imprensa à época. Lula embarcaria na madrugada do dia 26.

Apesar de o vídeo de Kicis ser antigo, um perfil o compartilhou recentemente, dando a entender se tratar de uma decisão atual. O comentário é em tom de comemoração: “Só tenho uma maneira de me manifestar: Iiiiiiihuuuuuuu…!!!”

O Comprova considerou este conteúdo como enganoso por ter sido retirado do seu contexto original. Procurado pelo Comprova, o autor da publicação não respondeu.

Como verificamos?

Inicialmente, pesquisamos no Google as seguintes palavras-chave sobre o assunto: Bia Kicis, Lula e passaporte. Apareceram entre os principais resultados três checagens sobre o assunto, da Agência Lupa, do Boatos.org e do UOL Confere.

Todas as matérias verificam que o vídeo de Kicis foi publicado em 25 de janeiro de 2018. É algo que o Comprova também conseguiu confirmar. A partir das mesmas palavras pesquisadas, a reportagem chegou ao vídeo original, publicado no Facebook de Kicis.

A reportagem localizou ainda o pedido do Ministério Público Federal para que a Justiça determinasse a retenção do passaporte, a decisão do juiz Ricardo Leite, acatando parcialmente o pedido, e a determinação para que o passaporte fosse devolvido, uma semana depois, por decisão de outro juiz, Bruno Apolinário.

O Comprova entrou em contato com o perfil responsável pela publicação do vídeo antigo no Facebook, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

O vídeo também foi compartilhado pelo perfil Selma Gonçalves no grupo Bolsonaro 2022 no Facebook, em 8 de novembro. No mesmo dia, a postagem atingiu 1,2 mil curtidas e 468 compartilhamentos. No dia 10 de novembro, a reportagem verificou que o post não estava mais disponível. Nestes casos, o Facebook informa que o responsável compartilhou o conteúdo com um pequeno grupo de pessoas, alterou quem pode vê-lo ou foi excluído. O Comprova tentou contato com o perfil Selma Gonçalves, mas também não houve retorno.

Verificação

A viagem à Etiópia

A decisão que impediu Lula de viajar ocorreu em 25 de janeiro de 2018, motivando o vídeo de Bia Kicis. Um dia antes, o Tribunal Regional da 4ª Região (TRF-4) havia condenado Lula a 12 anos e um mês de prisão, em segunda instância, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso envolvendo um triplex no Guarujá, litoral de São Paulo.

Naquela ocasião, o advogado do político, Cristiano Zanin Martins, emitiu nota na qual defendeu que o cliente tinha assegurado pela Constituição o direito de ir e vir. No dia seguinte, a defesa de Lula entregou o passaporte dele à Polícia Federal.

No país africano, Lula participaria de reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura (FAO), com foco na discussão sobre meios para a erradicação da fome no continente até 2025.

O desfecho da ação

O pedido do Ministério Público Federal para que o passaporte fosse retido foi feito no dia 25 de janeiro de 2018 pelos procuradores Anselmo Henrique Cordeiro Lopes e Hebert Reis Mesquita. O pedido, sinalizado como urgente, foi feito no âmbito do processo 0076573-40.2016.4.01.3400, em que o ex-presidente e outras três pessoas eram acusadas da prática de crimes de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e constituição de organização criminosa.

Para os dois procuradores, era necessário reter o passaporte de Lula porque, na véspera, ele havia sido condenado em segunda instância pela 8ª Turma do TRF-4, de Curitiba (PR), e no dia seguinte estava agendada uma viagem do ex-presidente à Etiópia. Além disso, estava agendado um interrogatório do réu para o dia 20 de fevereiro daquele ano.

No pedido, os dois procuradores afirmaram que havia passado a existir “risco concreto aos bens jurídicos protegidos no processo e à garantia da ordem pública e da aplicação da lei penal, presentes no art. 312 do Código de Processo Penal, pela possível fuga do país do ex-presidente, notadamente para países sem acordo de extradição com o Brasil ou que lhe poderiam conceder institutos jurídicos internacionais como o asilo político, nos termos diversos diplomas internacionais”.

Além da apreensão do passaporte em 24 horas, o MPF pediu que o ex-presidente fosse proibido de se ausentar do país e proibido de deixar São Bernardo do Campo ou a região metropolitana de São Paulo sem comunicação prévia ao juízo.

No mesmo dia, o juiz substituto da 10ª Vara Federal do Distrito Federal Ricardo Augusto Soares Leite acatou parcialmente os pedidos do MPF, afirmando que era de conhecimento público que aliados do ex-presidente faziam declarações públicas cogitando a solicitação, se necessário, de asilo político em países “simpatizantes”. O juiz afirmou na decisão que, mesmo em países do acordo de extradição, o deslocamento retardaria a execução da pena.

“Neste ponto, entendo que a própria versão de protestos gerados em seu favor, bem como a própria declaração do acusado, que acusa o Poder Judiciário de golpe em seu desfavor, militam no sentido de que não se esquiva de uma tentativa de fixar domicílio em algum outro país. Sua permanência em outro Estado seria, então, somente o exercício de um ‘suposto’ direito de defesa, ante a atuação autoritária dos poderes constituídos. Diante desta postura, entendo necessária uma atuação mais direta e eficaz para coibir este tipo de pretensão”, afirma o juiz.

Ele discordou do pedido do MPF apenas na questão relativa à necessidade de comunicação de viagens nacionais, por entender que, nestes casos, não havia “idoneidade para violar a aplicação da lei penal”. A apreensão do passaporte em 24 horas, então, foi determinada ainda no dia 25 de janeiro, véspera da viagem de Lula à Etiópia.

O advogado do ex-presidente, Cristiano Zanin Martins, disse em nota que o cliente tinha o direito de ir e vir, mas entregou o passaporte de Lula à Polícia Federal no dia 26 de janeiro de 2018. Uma semana depois, em 2 de fevereiro, outro juiz federal do Distrito Federal determinou a devolução do passaporte.

Segundo informações do próprio TRF-1, o juiz Bruno Apolinário mandou restituir o passaporte e remover o nome de Lula do Sistema Nacional de Procurados e Impedidos da Polícia Federal. Ele levou em conta os argumentos da defesa sobre o direito de ir e vir do ex-presidente e afirmou que qualquer outra medida cautelar deveria estar fundada na existência de elementos concretos de riscos à ordem pública.

O magistrado ainda ressaltou, segundo o TRF-1, que “não há como concluir que o paciente pretendesse fugir do país com a finalidade de frustrar a aplicação da nossa lei penal. Ao contrário, percebe-se na sua conduta o cuidado de demonstrar, sobretudo ao Poder Judiciário, que sua saída do país estava justificada por compromisso profissional previamente agendado, no caso, viagem à Etiópia onde participaria de evento promovido pela African Union Comission”.

Lula na Europa

Atualmente, não há restrições a viagens do ex-presidente. Ele inicia neste dia 11 uma agenda de reuniões com líderes políticos de esquerda na Europa, nos países Alemanha, Bélgica, França e Espanha.

Em 16 de novembro, o petista participará, na França, de conferência sobre o Brasil no Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris). A conferência, feita por um dos centros de pesquisas mais respeitados no mundo, é realizada 10 anos depois de Lula ter sido o primeiro líder latino-americano a receber o título de Doutor Honoris Causa do instituto.

Nesse mesmo dia, Lula encontrará a prefeita de Paris, Anne Hidalgo. No dia seguinte, Lula recebe o prêmio Coragem Política 2021, concedido pela Politique Internationale por sua gestão na Presidência da República.

Na Espanha, nos dias 18 e 19 de novembro, o ex-presidente participará também de uma conferência e reunião com políticos do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) e do Podemos.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições, como este, que teve, até o dia 10 de novembro, ao menos 957 compartilhamentos e 4,6 mil visualizações no Facebook.

Ao divulgar novamente o vídeo sem explicar o contexto em que foi gravado e divulgado em 2018, o perfil Marco Aurélio confunde os internautas que visualizam o conteúdo, levando à interpretação de que atualmente Lula está com o passaporte apreendido.

Embora haja comentários afirmando que a notícia é de 2018, a maioria deles mostra que os internautas acreditam que se trata de uma postagem atual.

Lula é pré-candidato à presidência da República. A propagação de conteúdos enganosos relacionados a nomes que pretendem disputar a eleição prejudica a democracia. Os eleitores são livres para decidir em quem irão votar, mas decisões não devem ser tomadas com base em desinformação.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo retirado do seu contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações.