O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Políticas públicas

Investigado por: 2020-09-18

Post diz que governo liberou R$ 12 milhões para tratamento de criança, mas omite que se trata de ordem judicial

  • Enganoso
Enganoso
Governo federal só pagou o tratamento de R$ 12 milhões para criança após recorrer e perder na Justiça
  • Conteúdo verificado: Postagem publicada pelo site Gazeta Brasil indicando que o Governo Federal liberou R$ 12 milhões para família poder comprar um remédio para tratar criança com atrofia muscular espinhal (AME).

É enganosa uma postagem do site Gazeta Brasil em sua página no Facebook a respeito de um repasse feito pelo governo federal à família de uma garota que sofre de atrofia muscular espinhal (AME) e que precisava de um tratamento médico avaliado em R$ 12 milhões. O repasse, de fato, foi feito, mas ocorreu após ordem judicial da qual o governo recorreu e foi derrotado, o que foi omitido no texto. A omissão da informação levou muitos leitores a interpretarem o repasse como uma ação voluntária da União, o que não é verdade.

O recurso do governo foi apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e tinha o objetivo de não realizar o pagamento. Em um primeiro momento, o STF acatou os argumentos da União, mas posteriormente voltou atrás na decisão e decidiu que o governo deveria pagar o tratamento para a menina. A primeira decisão favorável à menina é de março deste ano, mas por conta dos recursos o dinheiro só foi transferido entre o final de agosto e o início de setembro.

Procurada, a Gazeta Brasil afirmou que a matéria teve como base uma outra reportagem, de título parecido, feita pelo jornal Metrópoles e que não suprimiu a informação sobre a decisão judicial. O objeto da verificação feita pelo Comprova é, no entanto, a publicação no Facebook do portal, que não faz referência às decisões judiciais. Devido a isso, várias pessoas acreditaram se tratar de um ato de caridade direto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), como pode ser observado na imagem abaixo.

Como verificamos?

Iniciamos a verificação por meio de uma pesquisa no Google sobre o caso da menina. Assim, chegamos a diversas reportagens, entre elas as publicadas pelo jornal Correio Braziliense e pelo site G1 do Distrito Federal.

Baseados nas informações encontradas, acessamos a página do Fundo Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde. Nela é possível verificar todos os repasses feitos pelo governo federal. Assim, localizamos as datas dos repasses feitos à família.

No detalhamento dessas transferências, consta o número do processo judicial. Em consulta ao site do Supremo Tribunal Federal (STF), instância em que o processo também tramitou, o Comprova conseguiu identificar o advogado da família. Os telefones dele foram obtidos por meio de uma pesquisa no Cadastro Nacional dos Advogados da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Em contato com o advogado, conseguimos os números de todos os processos em primeira e segunda instâncias, acessíveis em consulta à ferramenta Processo Judicial Eletrônico (PJe) do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). No Sistema Eletrônico de Informações também é possível consultar o processo administrativo do Ministério da Saúde.

Verificação

Realização do pagamento

Segundo informações divulgadas em reportagens, o pagamento dos R$ 12 milhões havia sido realizado em dois depósitos: um de cerca de R$ 10 milhões e outro de aproximadamente R$ 2 milhões. O primeiro datava no mês de agosto deste ano.

Com esses recortes, por meio da consulta a repasses por dia na página do Fundo Nacional de Saúde, foi possível verificar que o primeiro repasse do Ministério da Saúde à família aconteceu no dia 17 de agosto, na quantia de R$ 10.008.250. Já o segundo ocorreu no dia 25 de agosto, no valor de R$ 1.991.750.

A família confirmou o recebimento dos valores. Em entrevista ao Projeto Comprova, a servidora pública Deilla Macedo Lima, mãe da criança, contou que “esses depósitos foram efetuados em conta judicial no mês de agosto; e em setembro, logo em seguida, transferiram para a minha conta corrente”.

O valor do remédio

Considerado o medicamento mais caro do mundo, o Zolgensma foi registrado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no dia 17 de agosto deste ano. Segundo o próprio laboratório Novartis, que fabrica a droga, este é o “primeiro passo para a comercialização” no Brasil. Porém, a aprovação de preço na Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed) deve acontecer apenas nos próximos meses.

Atualmente, o remédio injetável é fabricado nos Estados Unidos e comercializado no próprio país, além de Japão e Europa. Para justificar o alto valor de compra, o fabricante esclareceu que o método “reflete décadas de pesquisas científicas, investimentos em cadeia logística e manufatura em larga escala”. Bem como “custos diretos e indiretos com capacitação de centros de referência, hospitais e profissionais de saúde”.

No entanto, a cifra milionária já foi abordada e criticada em artigo publicado pela Fundação Oswaldo Cruz, em 27 de maio do ano passado. Coordenador do Departamento de Política de Medicamentos e Assistência Farmacêutica da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (NAF/ENSP), Jorge Bermudez afirmou que “cada vez mais” as grandes empresas farmacêuticas estabelecem “preços fictícios”, havendo uma “diferença muito grande entre custos e preços”.

A doença

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a atrofia muscular espinhal (AME) é uma doença genética que interfere na produção de uma proteína pelo organismo. Sem ela, os neurônios motores morrem e os portadores vão perdendo a capacidade de se mover e utilizar os músculos. Isso afeta os movimentos, incluindo a mastigação e a respiração.

Degenerativa, a doença rara tem incidência de um caso para cada 6 a 11 mil nascidos vivos. Conforme a própria bula do remédio Zolgensma, ele precisa ser aplicado em crianças com até dois anos de idade. A menina que receberá o tratamento está, atualmente, com um ano e dez meses, de acordo com o próprio pai.

A página de publicação

Procurada, a Gazeta Brasil afirmou que a matéria em questão teve como base a reportagem de título parecido, feita pelo jornal Metrópoles e que ela não é enganosa, porque consta a informação da Justiça. Porém, diferentemente do Metrópoles, o texto cita a decisão judicial apenas no final do terceiro parágrafo, em vez da primeira linha da reportagem. A informação relativa às decisões judiciais também não aparece na publicação da Gazeta Brasil no Facebook.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos relacionados à covid-19 e a políticas públicas do governo federal. Informações falsas ou enganosas como a checada acima são prejudiciais à sociedade e contribuem para uma interpretação distorcida da realidade.

Comentários do post mostram que internautas entenderam como uma “boa ação” o pagamento dos R$ 12 milhões à família, em vez de compreenderem que se tratava do cumprimento de decisão judicial da qual o governo chegou a recorrer. Até a tarde de 17 de setembro, a notícia tinha 300 interações no site, além de quase 7 mil compartilhamentos nas redes sociais, incluindo Facebook e Twitter.

A ação judicial aberta pela família e o recurso apresentado pelo governo são parte de um fenômeno conhecido como “judicialização da saúde”. Ele se dá quando os cidadãos acionam judicialmente, ou um plano de saúde ou a União, para obter acesso a tratamentos, algumas vezes de alto custo.

Quando o governo é obrigado a financiar determinados tratamentos, como o deste caso, os recursos precisam sair de outros pontos do orçamento, criando uma oposição entre direitos individuais e direitos coletivos. De acordo com um levantamento feito em 2019 pelo Insper para o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), entre 2009 e 2017 o número de processos em primeira instância relacionados à saúde aumentou 198%.

Enganoso, para o Projeto Comprova, é um conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Políticas públicas

Investigado por: 2020-09-17

Vídeo é tirado de contexto para dizer que brigadistas estariam causando incêndio no Pantanal

  • Enganoso
Enganoso
Vídeo mostra, na verdade, uma equipe do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) combatendo fogo com uma técnica de queima controlada que consiste em queimar pequenas áreas, de modo planejado e monitorado, para eliminar pasto seco que pode servir de combustível para incêndios florestais
  • Conteúdo verificado: Vídeo mostra brigadistas colocando fogo em pasto sugerindo que seriam os próprios combatentes responsáveis por incêndios.

São enganosas as postagens que circulam pelas redes sociais que acusam brigadistas de provocar incêndios no Pantanal. O vídeo que aparece nesses posts foi tirado de contexto e mostra uma equipe do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) combatendo o fogo, com uma técnica chamada queima de expansão, uma técnica de queima controlada. Esse recurso consiste em queimar pequenas áreas, de modo planejado e monitorado, para eliminar pasto seco que pode servir de combustível para incêndios florestais.

O próprio ICMBio confirma a ação, que foi realizada entre os dias 12 e 13 de setembro na Estação Ecológica de Taiamã, na cidade de Cáceres, em Mato Grosso. As informações estão em nota oficial de esclarecimento do órgão rebatendo a divulgação de maneira equivocada das imagens.

“O controle dessa técnica exige pessoal treinado e experiente, pontos de ancoragem muito bem definidos e condições meteorológicas favoráveis para que o fogo não se alastre e inicie um novo incêndio. Todas essas condições foram obedecidas e a queima foi considerada um sucesso”, explica a declaração.

Essa informação foi reiterada pelo analista ambiental do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (o PrevFogo, ligado ao Ibama) no Mato Grosso do Sul, Alexandre Pereira, que analisou o vídeo viralizado a pedido do Comprova.

Como verificamos?

Começamos a apuração por buscas no Google. Mapeamos outras verificações sobre o mesmo tema, feitas pelo Estadão Verifica e pelo site Aos Fatos, que ajudaram a nortear o trabalho do Comprova.

Além disso, consultamos o portal ICMBio, autarquia federal vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, que atua no combate às chamas no Pantanal.

Também procuramos um especialista em incêndios florestais para entender a técnica que aparece no vídeo e outras maneiras de combater fogo com fogo. O analista ambiental do PrevFogo Alexandre Pereira foi quem nos trouxe explicações técnicas.

Por último, fizemos contato via Messenger com o perfil que divulgou vídeo no Facebook, mas não obtivemos retorno até o fechamento desta reportagem.

Verificação

O vídeo

No vídeo compartilhado nas redes, cinco homens andam por uma área de vegetação rasteira, queimando pequenos trechos de plantas secas. Atrás deles, um sexto homem grava a ação e pode ser ouvido dizendo: “Os brigadistas, ao invés de apagar o fogo, tão tacando fogo. É brincadeira? Quem é que taca fogo no Pantanal?”. Na parte de trás de seus uniformes é possível identificar o nome do ICMBio.

Em nota publicada em 15 de setembro, o ICMBio confirmou que as imagens viralizadas mostram uma operação de seus agentes realizada na Estação Ecológica de Taiamã, unidade de conservação federal localizada em Cáceres, no Mato Grosso, entre os dias 12 e 13 de setembro.

Ao contrário do sugerido pelo narrador da gravação e por usuários em redes sociais, no entanto, o ICMBio explicou que os homens do vídeo não estavam provocando um incêndio florestal, mas realizando uma manobra de combate indireto das chamas conhecida como “queima de expansão”.

Essa técnica, segundo o instituto, “consiste em eliminar o combustível (a vegetação seca) em pequenas faixas do terreno através da aplicação do fogo”.

Sobre as publicações viralizadas nas redes, o instituto afirmou que “um vídeo que circula pela internet tem gerado diversos mal-entendidos sobre as ações do ICMBio. Ele foi produzido e divulgado por um brigadista que esteve em campo, trazendo uma versão errônea sobre a prática de que ele participara”.

Queima de expansão

A pedido do Comprova, o analista ambiental do PrevFogo Alexandre Pereira avaliou o vídeo compartilhado nas redes e confirmou que as imagens mostram uma técnica de combate às chamas.

Segundo Pereira, a tática funciona queimando de maneira controlada a vegetação do local para impedir que ela possa servir de combustível para a queimada descontrolada, de proporção bem maior, que se aproxima.

Como explicou o analista, ao queimar a vegetação mais seca, os brigadistas expandem a faixa de segurança, formada naturalmente pela vegetação verde e úmida, para impedir que a frente principal do incêndio entre na unidade de conservação.

“Depois que aquela vegetação foi queimada pelo fogo da queima de expansão que eles aplicaram ali, a frente de incêndio vai chegar, não vai ter mais combustível, que já foi consumido pelo fogo, evitando que o fogo adentre a unidade”, acrescentou.

A prática da “queima de expansão” é prevista no Manual de Formação de Brigadistas do ICMBio. Como explica o guia, “para apagar o fogo é preciso neutralizar ao menos um dos lados do triângulo do fogo”, sendo eles o combustível (ou seja a vegetação), o calor e o oxigênio.

Para eliminar o combustível, o manual recomenda a construção de uma linha de controle, ou seja, de um perímetro de segurança ao redor do setor afetado pelo incêndio para impedir sua propagação.

Isso pode ser feito com diversas técnicas, entre elas a queima de expansão. “Pode-se empregar o fogo e apagá-lo quando a faixa queimada atingir a largura desejada para a eliminação de combustíveis no lado da linha que irá queimar (queima de alargamento ou de expansão)”, detalha o documento.

A queima de expansão não é uma técnica exclusiva do Brasil, sendo utilizada em diversos outros países, como o Chile, segundo detalha a Corporação Nacional Florestal do país.

“A linha de fogo é uma faixa estreita de terreno onde é eliminada, com fogo, a vegetação combustível que está na trajetória do incêndio […]. O fogo aplicado desta maneira é chamado de queima de expansão que, ao avançar contra o vento, poderá ser apagado depois de alguns metros, mas que, mesmo que isso ocorra, cumprirá seu objetivo de expandir a faixa carente de combustível”.

A tática também é mencionada em manuais de combate a incêndios da Argentina e da Espanha.

Fogo amigo

Não é apenas a queima de expansão que faz uso do próprio fogo para conter as chamas. Conforme explica Alexandre Pereira, existem outros métodos que também envolvem chamas para controlar incêndios florestais. Entre eles, o fogo contra fogo e o aceiro negro.

O fogo contra fogo, segundo o analista ambiental, consiste em provocar um “incêndio controlado à frente de um grande queimada, de modo a causar a interacção entre ambos e a alterar a direção da propagação ou a extinção desse incêndio.”

Já o aceiro negro é uma “técnica que usa o fogo controlado para criar uma faixa sem vegetação, que impeça do avanço das chamas. Difere do aceiro comum, que é feito por meio de tratos ou outras máquinas como motoniveladoras.”

De acordo com o Código Florestal Brasileiro, o uso de fogo em vegetação é proibido. Porém, a lei permite algumas exceções, entre elas o “emprego da queima controlada em Unidades de Conservação, em conformidade com o respectivo plano de manejo e mediante prévia aprovação do órgão gestor da Unidade de Conservação, visando ao manejo conservacionista da vegetação nativa, cujas características ecológicas estejam associadas evolutivamente à ocorrência do fogo”.

Por que investigamos?

O Comprova em sua terceira fase faz verificações de conteúdos produzidos por usuários da internet sobre a pandemia de covid-19 e as políticas públicas do governo federal. Os incêndios no Pantanal se inserem neste segundo grupo, pois a resposta a eles passa por decisões tomadas em Brasília.

O vídeo verificado aqui circulou de maneira acelerada, aparecendo em diversas postagens diferentes em redes sociais como Twitter e Facebook. No post que fez o Comprova iniciar esta verificação, o vídeo teve pelo menos 8,1 mil visualizações. Em algumas das postagens, os autores davam a entender que a suposta ação criminosa dos brigadistas teria como intuito prejudicar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Trata-se de uma lógica semelhante à verificada pelo Comprova ao investigar vídeos sobre queimadas na Amazônia. Recentemente, o Comprova revelou que um vídeo mostrava um outro tipo de queima controlada feita pelo Ibama e não um incêndio provocado para culpar o presidente e que um post usava uma foto antiga de madeireiros para acusar ONGs por incêndios na Amazônia.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações.

Políticas públicas

Investigado por: 2020-09-17

TV alemã exibiu elefantes ao falar sobre queimadas na Amazônia

  • Comprovado
Comprovado
Emissora alemã confirmou ao Comprova a exibição da imagem para ilustrar uma matéria sobre queimadas na Amazônia veiculada em 2019 e disse que retirou do site a reportagem tão logo os produtores se deram conta do erro
  • Conteúdo verificado: Postagens nas redes sociais com fotografia de uma reportagem da rede de televisão alemã N-TV, que utilizou uma imagem de elefantes para falar sobre o incêndio na Amazônia

É verdadeira a publicação que mostra uma televisão transmitindo reportagem da emissora alemã N-TV sobre as queimadas na Amazônia. Na matéria, é exibida uma imagem de elefantes em um rio com as legendas ‘Feuerkatastriophe im Amazonas’ (catástrofe do fogo no Amazonas) e ‘Sorge un bedrohte Tierarten’ (preocupação com espécies ameaçadas de extinção). A publicação, que circulou em diversas contas em redes sociais, acrescenta a legenda: “TV Alemã mostrando os animais fugindo do incêndio na Amazônia. É pra rir ou não?”.

A emissora N-TV, que costuma cobrir o impacto dos incêndios na Amazônia, confirmou ao Comprova por e-mail que realmente utilizou a imagem dos elefantes na reportagem sobre as queimadas, mas que ao perceber o erro – já que não há elefantes na fauna brasileira – retirou o material do ar. Por isso, não é mais possível encontrá-la no site da emissora. A fotografia dos elefantes exibida na matéria foi tirada pela fotógrafa Charmaine Noronha, da agência Associated Press (AP), em Botswana, na África, em 2013.

A reportagem alemã foi veiculada em agosto de 2019, quando as queimadas na Amazônia brasileira estavam em evidência ao redor do mundo. A imagem começou a circular com tom de sátira já no mês seguinte, no Reddit e também no site MEME, mas só apareceu em publicações brasileiras em setembro deste ano – quando incêndios voltaram a ser assunto.

Como verificamos?

O Comprova realizou uma busca reversa de imagens utilizando Google, Bing, TinEye, Baidu e Yandex para identificar diferentes versões da publicação e qual teria sido a primeira aparição da fotografia da televisão exibindo a reportagem. Procuramos, ainda, o vídeo no site oficial da N-TV e da Heute TV, uma emissora de televisão de Viena, na Áustria, que havia republicado o vídeo da reportagem sobre incêndios. Também buscamos pela fotografia dos elefantes com uma pesquisa simples no Google.

Em seguida, o Comprova procurou a porta-voz da N-TV, o repórter responsável pela matéria sobre as queimadas na Amazônia e o profissional responsável por fazer verificações na emissora. Também entrou em contato com uma agência de checagem alemã, a Correctiv.

Verificação

Imagem é verdadeira, mas vídeo foi retirado do ar

A N-TV, emissora privada alemã que integra o grupo RTL de mídia, foi o primeiro canal de notícias 24 horas em alemão e chegou a pertencer ao mesmo grupo da CNN. Além de cobrir assuntos locais, a N-TV possui um noticiário internacional e, desde o ano passado, tem publicado diversas reportagens sobre incêndios na Amazônia.

Essa reportagem foi ao ar no dia 23 de agosto de 2019. O Comprova a localizou pelo título que aparece na chamada da televisão: ‘Feuerkatastriophe im Amazonas’ (catástrofe do fogo no Amazonas). Logo abaixo, consta mais uma informação sobre a reportagem: ‘Sorge un bedrohte Tierarten’ (preocupação com espécies ameaçadas de extinção).

A segunda chamada, na sequência das informações sobre os animais ameaçados de extinção, também é real: ‘Nawalny verlässt nach 30 Tagen Gefängnis’ (Nawalny deixa a prisão após 30 dias), se referindo à soltura do líder opositor russo, crítico de Vladimir Putin. Esta notícia também foi publicada no dia 23 de agosto de 2019 no site da N-TV.

O texto sobre os incêndios no Amazonas foi publicado no site da emissora no mesmo dia, assinado pelo repórter Roland Peter, correspondente da N-TV na América Latina, mas não faz nenhuma menção a elefantes. O Comprova entrou em contato com Peters, mas ele não soube dizer se a imagem era real ou não.

Apesar de todas as informações de datas baterem, o vídeo em que os elefantes aparecem não foi localizado no site da N-TV. O Comprova encontrou uma checagem sobre o mesmo assunto no site Boa Informação, que classifica a reportagem como verdadeira, mas não poderia confirmar se os elefantes tinham sido usados na imagem porque o vídeo tinha sido excluído.

O link divulgado pelo Boa Informação levava até o site da austríaca Heute TV, que havia republicado a reportagem. No entanto, ao clicar no endereço, fomos redirecionados para a capa do site. Por uma semana, tentamos contato com os dirigentes na Heute TV, mas não tivemos retorno.

O Comprova procurou pela porta-voz da N-TV, Bettina Klauser, por e-mail. Ela repassou a demanda a Alessia Gerkens, gerente de comunicação e relações públicas na RTL, grupo do qual a emissora faz parte. A reportagem também entrou em contato, por e-mail e via Twitter, com Andreas Greuel, o responsável por fazer verificações na emissora.

Por e-mail, Gerkerns confirmou que a imagem dos elefantes foi utilizada pela N-TV, mas que a reportagem foi retirada do ar ainda em 2019 depois que a produção percebeu o erro. Por isso, não é possível encontrar o vídeo original. Também por e-mail, Andreas Greuel agradeceu o contato e o interesse em esclarecer os fatos e disse que “infelizmente, erros acontecem”.

Elefantes não são nativos do Brasil

Não há elefantes nativos na fauna brasileira, embora existam animais no país em situação de cativeiro. A fotografia usada pela emissora de TV alemã foi feita em 2013 em Botswana, na África, por Charmaine Noronha. A imagem está publicada no site da agência Associated Press (AP).

Viralização da publicação no Brasil

A reportagem alemã foi exibida no final de agosto de 2019, quando os focos de incêndio e as queimadas na Amazônia brasileiras estavam em evidência e eram tema de debate ao redor do mundo.

Porém, a publicação em tom de sátira só começou a viralizar no Brasil em 2020. O primeiro registro encontrado pelo Comprova em português é de 6 de setembro deste ano.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica postagens suspeitas que tenham viralizado nas redes sociais e que tratam das políticas públicas do governo federal ou da pandemia da covid-19. Questões relativas à Amazônia estão no centro do debate político e são constantemente objeto de desinformação.

Em 2019, o Comprova mostrou que não era verdadeira a acusação de que o governo do ex-presidente Lula teria vendido terras para uma empresa da Noruega e que imagens de um avião combatendo incêndios não tinham sido gravadas no Brasil

Neste ano, o Comprova fez outras verificações envolvendo a Amazônia, como a de um vídeo que mostra uma queima controlada feita pelo Ibama e não um incêndio provocado para culpar o presidente, a de um post que usa uma foto antiga de madeireiros para acusar ONGs por incêndios na Amazônia e a de um vídeo que distorce dados sobre queimadas na Amazônia.

O post verificado pelo Comprova foi publicado pelo perfil @direitadaopressao e teve 9,8 mil curtidas no Instagram. No Facebook, foi compartilhado por vários perfis pessoais e em um deles teve 1,1 mil compartilhamentos.

Comprovado, para o Comprova, é o evento confirmado ou o conteúdo original publicado sem edição.

Políticas públicas

Investigado por: 2020-09-16

Vídeo distorce dados sobre queimadas na Amazônia

  • Enganoso
Enganoso
Diferentemente do que mostra o vídeo, houve um aumento do número de focos de incêndio na Amazônia em relação a 2019 e o Brasil não é o país com produção mais sustentável de alimentos no mundo. Está na 40ª posição entre 67 países em um ranking da The Economist
  • Conteúdo verificado: Vídeo lançado pela Associação de Criadores do Pará afirma que a Amazônia não está queimando, que o Brasil é o país que mais preserva áreas nativas do mundo e que os alimentos brasileiros são os mais sustentáveis do planeta

Um vídeo produzido pela Associação dos Criadores do Pará (AcriPará) que viralizou nas redes sociais usa informações distorcidas, fora de contexto ou dados questionáveis para afirmar que a Amazônia brasileira não está sendo alvo de queimadas e que o Brasil é o país mais sustentável do mundo na produção de alimentos. A peça também afirma que o Brasil é a nação que mais preserva áreas de vegetação nativa em todo o mundo, o que não está correto. Além de divulgado por diversos usuários na internet, o vídeo foi compartilhado pelo ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e pelo vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal.

O monitoramento feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostra um aumento de 11% no número de focos de queimada na Amazônia do início do ano até 14 de setembro em comparação com o mesmo período do ano passado. Dos 64.498 pontos de calor identificados na região em 2020, 49.792 ocorreram em agosto e setembro.

Embora o Brasil preserve 66,5% de cobertura vegetal nativa – dado usado corretamente no vídeo –, segundo o Projeto MapBiomas, o país perdeu 87 milhões de hectares de vegetação nativa desde 1985, considerando áreas que foram desmatadas e nunca recuperadas.

O Brasil também está longe de produzir os alimentos mais sustentáveis do mundo: ocupa o 40º lugar entre 67 países no Food Sustainability Index, elaborado pela revista The Economist e pelo Barilla Center for Food & Nutrition. No quesito agricultura sustentável, o Brasil ainda perde posições no ranking, ficando na 51ª colocação.

O vídeo cita como fonte para a maioria dos dados mencionados a Embrapa Territorial, braço de análises geográficas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). As informações da Embrapa Territorial já haviam sido questionadas no ano passado por um artigo divulgado na revista científica Environmental Conservation, publicada pela Cambridge University Press. Os autores do artigo afirmaram que alguns dados apresentados por Evaristo de Miranda, chefe da empresa pública, não apresentam referências científicas.

Nesta terça-feira (15), o vídeo foi retirado do ar após o Greenpeace Brasil notificar plataformas como Twitter, Facebook e YouTube que a peça usava imagens da ONG sem autorização.

Como verificamos?

A ferramenta de busca do Google foi o ponto de partida desta verificação. Por meio desse recurso, mapeamos estudos e reportagens sobre preservação ambiental, sustentabilidade alimentar e destruição do bioma brasileiro.

Para checar as informações sobre queimadas na Amazônia, acessamos o site do Inpe. Lá encontramos dados mensais sobre os focos de incêndio.

Sobre a parte de preservação ambiental, pesquisamos no Projeto MapBiomas, uma das referências na área. Também consultamos o Banco de Dados sobre Áreas Protegidas, mantido pela ONU Meio Ambiente.

Ainda sobre esse tema, encontramos o artigo de autores brasileiros para a revista Environmental Conservation, uma publicação da Cambridge University Press e que contestava dados da Embrapa Territorial, uma das bases para as informações contidas no vídeo. Realizamos uma entrevista com o biólogo Fábio Angeoletto, um dos autores do estudo. Ele nos enviou respostas elaboradas em conjunto com os demais responsáveis pela publicação: Marcelo Vacchiano, Jeater Santos e Normandes Matos da Silva.

Em seguida, fomos em busca de informações com entidades que cuidam do meio ambiente no país, como Embrapa Territorial e Ministério da Agricultura.

Durante a verificação, consultamos alguns documentos que trouxeram respostas sobre as afirmações feitas no vídeo: relatório Food Sustainability Index, censo agropecuário do IBGE (2017) e o Environmental Performance Index (EPI). Procuramos, ainda, o auxílio de especialistas para avaliar dados citados no vídeo e explicar alguns conceitos sobre controle ambiental. Fizemos uma entrevista por telefone com Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas.

Verificação

Quem produziu o vídeo?

O vídeo verificado foi produzido pela Associação de Criadores do Estado do Pará (AcriPará), uma associação de pecuaristas fundada em 2017. Em contato por WhatsApp com o Comprova, o presidente da entidade, Maurício Pompéia Fraga Filho, afirmou que o material foi criado como resposta a um vídeo feito pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, que afirmava que a Amazônia estava “em chamas”.

“Esse vídeo foi feito de uma maneira despretensiosa para rebater esse outro vídeo, que recomenda que não se consumam produtos agropecuários do Brasil. O nosso vídeo foi feito só para pôr nas redes sociais e acabou viralizando”, explicou Fraga Filho.

A gravação da AcriPará ainda conta com um erro de localização. Entre as imagens há um mico-leão-dourado, animal existente apenas na Mata Atlântica. Em entrevista à Globo, ele admitiu ter sido uma “gafe”.

Ao Comprova, Fraga Filho disse que não duvida dos dados sobre queimadas na Amazônia, mas não quer que o setor produtivo “seja prejudicado pelo erro de uma minoria”.

“Nós vivemos na Amazônia, conhecemos o problema. Não somos negacionistas, conhecemos e acreditamos nos números do Inpe. Somos legalistas, brigamos pela regularização fundiária e ambiental. Mas não podemos aceitar que todo o setor produtivo brasileiro seja prejudicado pelo erro de uma minoria”, diz.

Fraga Filho é presidente da AcriPará desde a criação da entidade. No último dia 10 de setembro, a revista Veja mostrou que já foi processado por submeter trabalhadores em uma de suas fazendas a condições análogas à escravidão. Ele fez um acordo e pagou R$ 1,5 milhão.

Queimadas

A principal afirmação do vídeo verificado é que “a Amazônia não está queimando novamente”. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que foram registrados 20.485 focos ativos de queimadas na Amazônia entre os dias 1º e 14 de setembro, o que já é superior aos 19.925 focos de calor identificados em setembro de 2019. Um foco de queimada é um sinal de fogo detectado pelos satélites da Nasa que tiram fotos da Terra a partir do espaço.

Outros 29.307 focos de queimadas foram identificados em agosto de 2020; número ligeiramente inferior aos 30.900 pontos de incêndios identificados no mesmo mês do ano anterior.

Ao longo de todo este ano, o Inpe identificou 64.498 focos de queimada na Amazônia. Esse dado é 11% superior ao que foi registrado, em 2019, entre os dias 1º de janeiro e 14 de setembro. Em 2020, 77,19% dos incêndios realizados no bioma ocorreram nos meses de agosto e setembro.

Análise feita pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) sobre os focos de calor na Amazônia em 2020 aponta que a maior parte deles está relacionada ao desmatamento, não à severidade da época seca do ano. “O indicador principal é a alta proporção de focos em propriedades privadas (PP) e assentamentos (ASR) possivelmente devido à conversão de florestas em outros usos, e em florestas públicas não destinadas (ND), como resultado da grilagem e da ação de criminosos interessados em especular com a terra”, informa a nota técnica divulgada pelo Ipam.

A divulgação de dados de queimadas e desmatamento já provocou vários embates entre o governo federal e o Inpe. Em julho de 2019, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse que a divulgação dos números faz com que o país seja “malvisto” no exterior. Logo depois, em agosto, o então diretor do instituto Ricardo Galvão foi exonerado. Em 2019, o Inpe registrou 89.176 pontos de calor na Amazônia; o que representa 30% a mais do que o instituto havia identificado em 2018.

Em julho de 2020, após o Inpe divulgar um relatório que mostrava dados recordes de desmatamento na Amazônia, o governo exonerou Lubia Vinhas do cargo de coordenadora-geral de Observação da Terra, departamento do instituto responsável por monitorar o desmatamento.

Em 15 de setembro, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que há alguém dentro do Inpe “que faz oposição ao governo”, divulgando dados apenas quando eles são desfavoráveis à atual gestão. Na verdade, todos os dados sobre queimadas no país são públicos e atualizados diariamente pelo instituto em um site que pode ser consultado por qualquer pessoa.

Líder de preservação?

O vídeo faz duas afirmações em relação à preservação ambiental. Na primeira, diz que o Brasil preserva 66,3% de sua mata nativa. O número é próximo dos 66,5% apresentados no relatório do Projeto MapBiomas, uma das referências atualmente em dados sobre vegetação nativa.

De acordo com o projeto, desde 1985 o país registrou uma perda líquida de 87 milhões de hectares de sua vegetação nativa – a perda líquida é o balanço entre perda com desmatamento e o ganho com a regeneração no período.

A segunda afirmação do vídeo é de que o Brasil é “o país que mais preserva mata nativa no mundo”, citando a Embrapa como fonte dos dados. Questionada pelo Comprova, a empresa enviou um relatório feito pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente de 2016 para corroborar suas afirmações.

O documento da ONU, no entanto, não fala sobre área preservada, mas área protegida, que leva em consideração unidades de conservação e terras indígenas. Não necessariamente todas as áreas protegidas estão preservadas no país.

“O que estamos vendo nesses últimos dois anos é um forte processo de degradação dentro das áreas protegidas, de desmatamento dentro das áreas protegidas, garimpo dentro das áreas protegidas. Então não dá para a gente falar que estamos protegendo e conservando as áreas quando nós estamos deixando acontecer esse tipo de coisa dentro dessas áreas protegidas”, explica o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas.

“A gente observou que uma coisa é você ter cobertura de vegetação nativa, a outra coisa é saber o quanto disso está preservado. O que é estar preservado? É aquilo que não sofreu nem desmatamento anterior e cresceu de novo e também não foi degradado. Tem diferentes formas de se medir isso, mas a gente já demonstrou esse ano que pelo menos 9% da cobertura de vegetação nativa do Brasil é de vegetação secundária, que são áreas que já deixaram de ser floresta alguma vez e voltaram a crescer. Portanto, não são áreas que foram preservadas, são áreas que foram desmatadas e que voltaram a crescer”, continuou.

O Brasil só aparece na liderança em áreas protegidas apenas quando são considerados os dez maiores países em extensão territorial. Os 30,28% do Brasil ficam à frente de Austrália (19,39%), China (15,62%), Estados Unidos (11,79%), Rússia (9,7%), Canadá (11,04%), Argentina (8,48%), Argélia (4,64%), Índia (5,97%) e Cazaquistão (3,31%). Os dados estão no Banco de Dados sobre Áreas Protegidas, mantido pela ONU Meio Ambiente.

Ao fazer a comparação com todos os países do mundo, porém, o Brasil cai para a 32ª colocação em proporção de área protegida, como mostra a tabela abaixo.

As posições da Embrapa Territorial já haviam sido questionadas em um artigo brasileiro publicado na revista Environmental Conservation, uma das publicações da Cambridge University Press, em junho do ano passado. No material intitulado “Os dados confirmam que Brasil lidera o mundo em preservação ambiental?”, os autores dizem que Evaristo de Miranda, chefe da Embrapa Territorial, apresenta “estatísticas criativas, influenciadas por uma narrativa ideológica que distorce a realidade ambiental brasileira”.

O Comprova conversou com o biólogo Fábio Angeoletto, um dos autores do artigo. “Nossa crítica à essa afirmação também decorre pelo fato de desconhecermos em que ranking (global ou mesmo regional) o Brasil é classificado como líder em preservação ambiental. Parece-nos que tal avaliação é apenas uma propaganda ideológica, porque é destituída de referências científicas”, explica.

“Se tomarmos como referência o Environmental Performance Index (EPI), que é organizado pelas universidades de Yale e Columbia nos Estados Unidos, o qual classifica a partir de consistente metodologia científica o desempenho ambiental de 180 países do globo, o Brasil não figura como líder nem em nível regional e muito menos global, seja no índice EPI global, ou seja, nos índices temáticos (florestas, por exemplo). Além disso, desde o relatório de 2016 o Brasil tem caído significativamente de posição neste ranking, já refletindo o desmonte que está ocorrendo nas políticas de preservação e conservação ambiental com os governos Temer e Bolsonaro”, completa.

O relatório citado por Angeoletto realmente mostra o Brasil muito longe da liderança em diversos índices. Na edição 2020 do EPI, o país aparece apenas na 114ª posição entre 180 países no quesito “perda de cobertura vegetal”. No ranking geral, que inclui saúde e vitalidade do ecossistema, o Brasil está em 55º.

Ao longo do relatório, o Brasil é mencionado de maneira negativa em duas oportunidades, além de um ponto sobre o desmatamento da Amazônia. “O desmatamento e a expansão agrícola continuam a ameaçar os ecossistemas exclusivos desta região [América Latina], contribuindo para as pontuações regionais médias baixas em Biodiversidade e Habitat e Serviços de Ecossistema. Embora eventos muito recentes, como a queima da Amazônia no Brasil, Bolívia e Peru no final de 2019, não tenham sido incluídos nas pontuações do EPI de 2020, esses eventos seguem uma tendência preocupante de aumento da destruição e deterioração do ecossistema”, diz um trecho do relatório.

O texto ainda faz uma crítica à política ambiental do governo de Jair Bolsonaro . “À medida que as mudanças climáticas e o desmatamento aumentam a frequência e a gravidade das secas — e à medida que o governo do Presidente Bolsonaro reverte as proteções ambientais — incêndios como os vistos em 2017 e 2019 podem se tornar ainda mais generalizados e devastadores”.

Produção e sustentabilidade

A definição de alimento sustentável — conceito mencionado no vídeo analisado — envolve aspectos que vão desde a plantação até a chegada ao prato de quem consome. O Ministério da Agricultura informou ao Comprova por e-mail que trata-se de um conceito que permeia questões econômicas, sociais e ambientais. “Quando as condições de produção viabilizem o equilíbrio econômico/financeiro dos produtores e agentes da cadeia produtiva, respeitando as condições trabalhistas e sociais dos trabalhadores e, mantendo o respeito e garantia de meio ambiente preservado, temos uma produção de alimentos perfeitamente sustentável”, afirmou a assessoria.

Em resumo, um mantimento sustentável é aquele cuja cadeia produtiva (que engloba processos como plantio, colheita, embalagem e distribuição) busca gerar o menor impacto possível no meio ambiente. Além disso, a produção leva em conta questões sociais, éticas e relacionadas à saúde do consumidor.

Questionada, também por e-mail, sobre o que caracteriza um alimento sustentável, a Embrapa Territorial respondeu: “O que é sustentável não é o alimento em si, mas a maneira de produzi-lo. A diversidade de alimentos e das formas de produzi-los no Brasil varia muito. Até para um mesmo alimento, as práticas e os sistemas de produção variam.”

Sobre se os alimentos produzidos no Brasil seriam os mais sustentáveis do mundo, como sugere o vídeo verificado, o órgão explica que depende do item a ser analisado e sugeriu outras fontes.

“Para que se afirme que os alimentos produzidos no Brasil são os mais sustentáveis do mundo, há necessidade de uma avaliação a partir do estabelecimento de índices capazes de classificar uma série de padrões submetidos à atividade agropecuária mundial”

De acordo com o relatório Food Sustainability Index, organizado pela unidade de inteligência da revista The Economist e pelo Barilla Center for Food & Nutrition, o país não é líder em sustentabilidade. O documento leva em consideração 37 indicadores divididos em três grandes áreas: perda de comida e desperdício, agricultura sustentável e desafios nutricionais.

O Brasil aparece em 40º lugar no ranking geral, que reúne 67 países. Quando o tema é agricultura sustentável, o Brasil aparece na posição 51.

Entre os indicadores, as melhores notas do país são em política de resposta à perda de comida, sustentabilidade da retirada de água, manejo da água, mitigação da mudança climática e política de resposta a padrões alimentares. As piores notas são em diversificação do sistema de agricultura, número de pessoas por restaurante de fast food, impacto comercial, composição da dieta e prevalência da subnutrição.

Área territorial

Dependendo da origem dos dados, há uma pequena variação no total de área usada para agropecuária no Brasil. Para a Embrapa Territorial, conforme estimativas de 2019, as lavouras ocupam 66 milhões de hectares, ou 7,8% do território nacional. Ainda segundo a Embrapa Territorial, o censo agropecuário do IBGE (2017) calculou a área dedicada a plantações em 7,5% do território nacional. Já um estudo da agência espacial americana National Aeronautics and Space Administration (Nasa), da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e outras instituições internacionais feito em 2018 estimou, com outros métodos, a área cultivada em lavouras do Brasil em 7,6% do território nacional. Em relação à produção de alimentos de origem animal, a área dedicada a pastagens plantadas e nativas é da ordem de 180 milhões de hectares (21,2% do território nacional), segundo a Embrapa.

Segundo o órgão, a soma das áreas dedicadas à produção de alimentos de origem vegetal e animal totaliza cerca de 246 milhões de hectares no Brasil, o equivalente a 29% do território nacional. Esse é o número apontado pelo vídeo verificado pelo Comprova.

Outro dado que aparece no vídeo é que produtores rurais teriam adquirido 218 milhões de hectares para preservação de florestas. O tamanho da área é confirmado pela Embrapa Territorial. Contudo, a entidade não especifica se esse território fica apenas na Amazônia, como sugere o vídeo. “O total das áreas destinadas à preservação da vegetação nativa pelos produtores rurais em todo o Brasil — a título de áreas de preservação permanente (APPs), reservas legais (RLs) e vegetação excedente — resulta em 218 milhões de hectares.” Os dados são referentes aos cadastros feitos até janeiro de 2018, os mais atualizados até o momento.

“Se você pegar e olhar para as áreas que estão conservadas… falam de ‘200 milhões que os agricultores compraram para proteger’… é outra leitura bem estranha, né? Porque se você pegar as áreas privadas no Brasil e comparar com as áreas protegidas, nas áreas de terra indígena nos últimos 35 anos, o desmatamento foi meio de 0,5%. Se você pegar as áreas privadas, o desmatamento da área que existia de floresta em 1985 foi de 20%. Daí você vê a diferença que tem entre o que está sendo conservado em áreas protegidas e aquilo que está sendo conservado nas propriedades rurais”, ressaltou Tasso Azevedo.

A ferramenta usada para mensurar as áreas de preservação e reserva é o SiCAR, um sistema autodeclaratório de registro. Conforme Fábio Angeoletto, é preciso cautela com essa metodologia.

“O SiCAR e os mecanismos que ele possui (a exemplo do CRA — Cota de Reserva Ambiental) é sem dúvida um avanço em termos de ferramenta de monitoramento e gestão do patrimônio ambiental do Brasil, sobretudo por se tratar de um país com dimensões continentais. Contudo, por ser autodeclaratório (o detentor do imóvel rural é que diz o que está ou não preservado da vegetação nativa em seu interior) ele precisa ser validado (…). Se esta fase de validação não é realizada ele tem sua eficácia extremamente prejudicada”, destaca o biólogo.

Ele complementa que o SiCAR é uma ferramenta desenvolvida com o fim de gestão: “Querer transformá-lo em ferramenta de regularização fundiária é um erro que abre margem à oficialização da grilagem de terras devolutas no Brasil.”

O SiCAR foi criado em 2012, mas ficou ativo apenas em 2014. Em outubro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei que retira o prazo para que os agropecuaristas criarem seus registros. Antes disso, datas limites para adesão ao sistema foram criadas e acabaram prorrogadas.

“A lei diminui o alcance e a efetividade do CAR na proteção da flora nativa do Brasil. Ao retirar o prazo para a inscrição no SiCAR, haverá menos dados disponíveis para a gestão ambiental adequada de milhões de hectares de florestas nativas do Brasil”, avalia Angeoletto.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica postagens suspeitas que tenham viralizado nas redes sociais que tenham ligação com políticas públicas do governo federal ou com a pandemia do novo coronavírus. O vídeo verificado aqui é um exemplo.

O Brasil vive uma série de problemas ambientais, principalmente em decorrência das queimadas que consomem a Amazônia e o Pantanal. Segundo matéria da Folha de S.Paulo, os 14 dias de setembro deste ano já registraram mais focos de incêndio na floresta amazônica do que em todo o mesmo mês no ano passado. Já o Pantanal — apontado como maior planície alagada do Planeta e com um bioma que cobre Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bolívia e Paraguai — é vítima de um dos maiores incêndios da história.

O vídeo, publicado pelo usuário @Jouberth19, já foi assistido 38,8 mil vezes no Twitter. Também foi curtido 35,4 mil vezes e compartilhado por 9,9 mil usuários ao ser reproduzido nos perfis do Twitter do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e do vice-presidente Hamilton Mourão, que é presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal.

A Agência Lupa chegou o mesmo conteúdo e chegou a conclusão de que ele é falso. A iniciativa Fakebook de verificação de informações ambientais checou informações semelhantes às do vídeo, como a de que o Brasil possui a maior área protegida do mundo e a que dizia que o agronegócio brasileiro é o mais sustentável do mundo.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Políticas públicas

Investigado por: 2020-09-11

Post usa foto antiga de madeireiros para acusar ONGs por incêndios na Amazônia

  • Falso
Falso
Post reproduz uma publicação feita no Facebook por outro perfil, no ano passado, e usa uma foto verdadeira, de indígenas detendo madeireiros, para acusar ONGs por queimadas
  • Conteúdo verificado: Publicações nas redes sociais reproduzem postagem de Facebook que diz que indígenas prenderam em flagrante membros de ONGs que seriam incendiários.

São falsas as postagens que acusam ONGs de serem responsáveis pelas queimadas na Amazônia. Nas publicações, é usada uma foto antiga de indígenas prendendo madeireiros ilegais. A viralização da mesma imagem já havia ocorrido em agosto do ano passado, quando o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse, sem provas, que poderia “estar havendo ação criminosa desses ongueiros para chamar a atenção contra o governo”.

Tanto naquela época quanto agora, o clique vem acompanhado da legenda: “Lembram que caíram de pau em cima de Bolsonaro, quando disse suspeitar que ONGs estariam envolvidas nos incêndios na Amazônia? Índios prenderam incendiários em flagrante. Outro preso pela polícia em Iranduba”, insinuando que os indígenas estariam prendendo membros de organizações não governamentais.

Não é verdade. A imagem foi registrada pelo fotógrafo Lunaé Parracho para a agência Reuters e mostra uma operação de indígenas da etnia Ka’apor na terra indígena Alto Turiaçu, no Maranhão, contra a exploração ilegal de madeira em 7 de agosto de 2014. Com membros de outras tribos, eles prenderam e expulsaram desmatadores daquele local – e não funcionários de uma ONG.

Uma das páginas que viralizou a foto no Instagram desta vez, o perfil @Galeradadireita retirou o post do ar após constatar que seu conteúdo era falso, conforme contou ao Comprova, e postou uma errata após entrevista com a equipe. Outros internautas que publicaram a foto com a legenda falsa foram contatados, mas não deram retorno ao Comprova até a publicação desse texto.

Como verificamos?

O Estadão Verifica, um dos 28 veículos parceiros do Projeto Comprova, havia feito uma investigação da mesma imagem no ano passado. Por meio desse trabalho, conseguimos identificar a foto e o fotógrafo, com quem fizemos contato via Instagram.

Na sequência, mandamos mensagem para o perfil do Instagram @Galeradadireita, que publicou o conteúdo verificado e retirou-o do ar. Também tentamos falar com outros perfis que compartilharam o post, mas não obtivemos resposta.

Verificação

A foto

A imagem foi feita pelo fotógrafo Lunaé Parracho, da agência Reuters, em 7 de agosto de 2014. Ela mostra membros da etnia Ka’apor detendo madeireiros que atuavam ilegalmente dentro da terra indígena Alto Turiaçu, nas imediações da cidade de Centro do Guilherme, no Noroeste do Maranhão.

De acordo com Parracho, a operação foi feita porque os indígenas, também chamados de Caapores, estavam cansados da falta de assistência do governo para acabar com a exploração ilegal da madeira e se juntaram a outras tribos para expulsar os desmatadores.

O caso virou notícia na época. Em 5 de setembro daquele ano, a Folha de S. Paulo publicou reportagem com o título: “Índios prendem e agridem madeireiros invasores no Maranhão”.

No site de fotografia da Reuters é possível ver a sequência com a foto verificada aqui. Há imagens dos indígenas tirando as roupas dos desmatadores, de um caminhão carregado de toras, de tratores usados para desmatar e de caminhões sendo queimados. A série, chamada de “Guerreiros da Amazônia lutam contra madeireiros”, foi premiada no China International Press Photo Contest, em 2015.

Parracho é gaúcho e se dedica desde 2011 a questões sociais e ambientais do Brasil – a Amazônia é um de seus principais focos. Colabora com a agência Reuters desde 2012 e já teve seus trabalhos publicados em veículos como The Guardian, The Wall Street Journal, Al Jazeera e The Washington Post, entre outros.

“Quando fiz essa foto, sentia esperança ao ver aqueles guerreiros protegerem suas terras. É o contrário do que sinto ao vê-las sendo usadas nessas fake news, que passam por cima de todos nós como um rolo compressor. Elas roubam a verdade daquele povo em resistência, e isto é uma síntese do genocídio que estamos vivendo. Sinto que estamos sendo esmagados, como todos provavelmente estão se sentindo, tendo clareza ou não do que está acontecendo”, afirmou Parracho sobre o uso de sua foto no conteúdo verificado aqui.

Bolsonaro x ONGs

As críticas do presidente Jair Bolsonaro às ONGs vêm desde 2019, quando as queimadas na Amazônia viraram notícia em todo o mundo. Em agosto do ano passado, ele acusou, sem provas, as organizações de estarem por trás dos incêndios na floresta.

Três meses depois, o presidente pediu em uma de suas lives para que as pessoas não fizessem doações para ONGs. “Logicamente o mundo não está vendo o que eu estou falando aqui, mas não doem dinheiro para ONG. ONGs não estão lá [na Amazônia] para preservar ambiente, mas em causa própria.”

Recentemente, em nova live, disse que não conseguia “matar esse câncer chamado ONG”. “Você que está numa ‘ONGzinha’ aí pegando grana de fora. Vocês sabem que as ONGs, em grande parte, não têm vez comigo, a gente bota para quebrar em cima desse pessoal lá. Não consigo matar esse câncer em grande parte chamado ONG que tem na Amazônia.”

O perfil

Contatado pelo Comprova, o perfil @galeradadireita no Instagram, que republicou o post que já havia circulado no ano passado, informou que retirou o conteúdo do ar após constatar “que era fake”. Sobre publicar sem checar a veracidade, Julio Cesar, responsável pela página, disse que “esta vez, infelizmente, passou” e que vai redobrar a atenção.

No dia 10 de setembro, após contato com o Comprova, o perfil publicou uma errata. Na legenda, escreveu: “Boa tarde a todos!! A página Galera da Direita publicou esse post ontem (e) foi constatado que se trata de notícia fake. Peço desculpa a todos seguidores e vamos tomar mais cuidado com nossas publicações!! (Jo 8,32) ‘conhecereis a verdade e a verdade vos libertarás!!!’.

Apesar da correção, há outros conteúdos considerados falsos e enganosos na página, como o que distorcia informações para afirmar que a Organização Mundial da Saúde havia pedido desculpa por reviravoltas com hidroxicloroquina e o que dizia que a OMS concluiu que pacientes assintomáticos não transmitem a covid-19.

O perfil posta conteúdos favoráveis a Bolsonaro, contra o ex-presidente Lula e a TV Globo. De acordo com o autor, ele não tem ligação com nenhum partido. “Sou somente um brasileiro que está cansado de ver o país ser saqueado por políticos ladrões e uma imprensa totalmente complacente”, afirmou ao Comprova.

Já o perfil do Facebook que escreveu o post original não respondeu ao pedido de entrevista do Comprova.

 

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica postagens suspeitas que tenham viralizado nas redes sociais que tenham ligação com políticas públicas do governo federal ou com a pandemia. É o caso do post do @Galeradadireita, que distorce a informação de uma foto verdadeira para enganar os leitores e acusar ONGs pelos incêndios na Amazônia.

Vivemos um momento delicado, em que a maior floresta do mundo está sob ameaça, sofrendo incêndios criminosos, e o presidente minimiza o perigo. No mês passado, ele chegou a afirmar que “Essa história de que a Amazônia arde em fogo é uma mentira“. A disseminação de conteúdos que reforçam essa visão, falsa, apenas agrava os riscos que a Amazônia corre. Não foi possível medir a viralização do post do @Galeradadireita no Instagram, mas, no Facebook, o conteúdo já foi compartilhado mais de 91 mil vezes desde 26 de agosto de 2019, quando começou a se espalhar.

Além do Estadão Verifica, a Agência Lupa e o AFP Checamos também investigaram o post no ano passado. E o Comprova já mostrou outros conteúdos ligados a queimadas, como o vídeo que mostrava fogo controlado feita pelo Ibama, e não incêndio provocado para culpar o presidente.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original.

Políticas públicas

Investigado por: 2020-09-11

Tuíte diz que matemática não aceita fake news, mas erra ao comparar salários

  • Enganoso
Enganoso
Tuíte verificado pelo Comprova usa valores incorretos para comparar o salário mínimo em 2012 e 2020 e desconsidera o contexto econômico dos dois períodos
  • Conteúdo verificado: Post no Twitter compara o valor do salário mínimo em dólar entre os anos de 2012 e 2020 e diz que a “matemática não aceita fake news”.

Tuíte que traz uma comparação entre o salário mínimo de 2012 com o de 2020 engana ao desconsiderar a manutenção do poder aquisitivo. A postagem viralizou no Twitter ao comparar o valor em dólares do salário mínimo dos dois anos, sugerindo que as pessoas passaram a ganhar menos no atual governo. A publicação afirma que o valor era de US$ 400 em 2012 e de US$ 187 em 2020. O Comprova fez os cálculos com base em informações do Banco Central e na legislação que regula o reajuste do salário mínimo. As quantias divergem do indicado na postagem. O salário mínimo de 2012 oscilou entre US$ 365,88 e US$ 297,60. Em 2020, o valor ficou entre US$ 247,04 e US$ 176,22 até 10 de setembro.

Além disso, o tuíte não considera o contexto econômico do período. Especialistas consultados pelo Comprova confirmam que a política monetária do governo atual contribuiu para a desvalorização do real frente ao dólar, mas também afirmam que a pandemia, o desemprego e a queda de juros iniciados nos governos anteriores contribuíram significativamente para este cenário. Enquanto 2012 era o segundo ano de mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), 2020 é o segundo ano de gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O Comprova tentou contatar o autor da postagem pelo Twitter e Instagram para entender a base do cálculo e o objetivo da mensagem. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.

Como verificamos?

O Comprova buscou informações em sites de notícias sobre o valor do salário mínimo definido para os anos de 2012 e 2020. No site do Banco Central, pesquisou informações sobre a cotação do dólar nos dois anos. Também buscamos as leis federais 12.382/11 e 13.152/15, que definiram a política de valorização do salário mínimo entre os anos de 2012 e 2019.

Ouvimos ainda a análise de dois economistas: Jocildo Fernandes Bezerra, professor de Política Monetária da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) até fevereiro deste ano.

Verificação

Valor do salário mínimo

O salário mínimo em 2012 era de R$ 622. Segundo os dados do Banco Central, o dólar teve a menor cotação de 2012 em 29 de fevereiro, quando foi negociado a R$ 1,70. A maior cotação da moeda naquele ano foi de R$ 2,09, em 18 de dezembro. O que significa que o salário mínimo de 2012 oscilou entre US$ 365,88 e US$ 297,60.

Já em 2020, o valor do salário mínimo é R$ 1.045. Neste ano, o menor valor do dólar foi registrado em 2 de janeiro, quando a moeda foi negociada a R$ 4,02. O salário mínimo de 2020, porém, só começou a vigorar em fevereiro. Desde então, o menor valor do dólar foi de R$ 4,23, em 4 de fevereiro e o maior foi de R$ 5,93, em 14 de maio. Isso significa que o salário mínimo deste ano oscilou entre US$ 247,04 e US$ 176,22 até agora.

Em 2011, entrou em vigor a lei 12.382, que determinava a política de valorização de longo prazo do salário mínimo, com regras para o reajuste da remuneração a ser paga entre 2012 e 2015. Por essa política, o salário mínimo era reajustado de acordo com a inflação do último ano mais a variação do Produto Interno Bruto (PIB) dos dois anos anteriores. A política de valorização do salário mínimo foi renovada em 2015, pela lei 13.152, com as regras para reajuste entre 2016 e 2019.

A partir de 2020, o governo federal passou a adotar uma nova regra de reajuste do salário mínimo, que levava em consideração apenas a inflação do último ano, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Com isso, o reajuste do mínimo deixou de conceder um aumento real no valor recebido pelos trabalhadores anualmente.

O que dizem os especialistas

Em entrevista ao Comprova, o professor da UFPE Jocildo Bezerra disse que é comum que se compare o valor do salário mínimo com o dólar para poder analisar o poder de compra dos trabalhadores em diferentes países, por exemplo. Para esclarecer esse ponto, ele citou um levantamento feito, no ano passado, pelo site Picodi, que compara o poder de compra dos salários mínimos de 52 países.

Segundo Bezerra, é preciso lembrar que há muitas diferenças no ambiente econômico entre 2012 e 2020. “Em parte, o elevado desemprego que nós temos hoje no Brasil é derivado da política econômica do governo Dilma [Rousseff, do PT, presidente entre 2011 e 2016]. Desse ponto de vista, não dá muito para desacreditar o governo atual em relação ao governo Dilma. E nós também tivemos um choque externo que foi a pandemia”, afirma.

Ele acredita, porém, que um dos principais fatores para a alta do dólar foi a queda na taxa de juros, que teria ocorrido de forma excessiva e numa velocidade muito grande nos últimos anos. Como juros menores significam ganhos menores para quem investe em títulos e mercado de capitais, muitos investidores foram retirando seu dinheiro do Brasil, argumenta Bezerra. “O dólar já vinha subindo antes da pandemia por causa dessa aceleração na queda da taxa de juros que começou em 2016, mas se acentuou a partir de maio de 2019”, diz.

O Comprova também consultou Clemente Ganz, que foi diretor técnico do Dieese até fevereiro deste ano. Ele ressalta que a redução do salário mínimo em dólares não implica na queda do poder aquisitivo: “Você não pode dizer que o valor do salário mínimo hoje é metade do poder de compra que ele tinha em 2012, isso não é verdade. O salário mínimo não teve uma redução a metade, pelo contrário, a média do poder de compra foi preservado”.

Clemente explica ainda que a comparação pela taxa de câmbio é “correta, do ponto de vista formal”, mas que há metodologias mais adequadas para comparar o salário mínimo entre nações. Uma delas é o câmbio de paridade do poder de compra, que consiste em pegar um produto – que não se altere entre os países analisados – e ver quantas unidades podem ser compradas com o salário mínimo de cada país. “Um sanduíche do McDonalds é o mesmo em qualquer lugar. Por exemplo, nos Estados Unidos, com um salário mínimo, eu compro 100 sanduíches; na Nigéria eu compro 20, e assim por diante”.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica postagens suspeitas que tenham viralizado nas redes sociais que tratam das políticas públicas do governo federal ou da pandemia da covid-19. É o caso desse tuíte publicado pelo perfil @pedromachadobr, que tenta comparar a política econômica de salários aplicada pelos governos Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro. A publicação teve 73,4 mil curtidas e 11,9 mil compartilhamentos no Twitter.

Recentemente, o Comprova fez outras verificações sobre políticas públicas do governo federal e mostrou que, com a correção pela inflação, o dólar sob Bolsonaro não é o mais caro desde a criação do Plano Real; ser enganoso que o Exército teria refeito todo o trecho da transposição do Rio São Francisco inaugurado pelos ex-presidentes Michel Temer (MDB) e Lula (PT) e ser falsa uma publicação que usava dados da aprovação de Lula para tratar do apoio popular ao presidente Jair Bolsonaro.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Políticas públicas

Investigado por: 2020-08-28

Viaduto na BR-277 em Foz do Iguaçu não tem relação com o governo Bolsonaro

  • Falso
Falso
Obra na BR-277 em Foz do Iguaçu foi atribuída à gestão Bolsonaro em uma publicação no Facebook. A obra, no entanto, foi feita integralmente com recursos do governo do Paraná
  • Conteúdo verificado: Vídeo que circula no Facebook afirmando que um viaduto inaugurado na BR-277 no município de Foz do Iguaçu (PR) foi obra do governo de Jair Bolsonaro.

São falsas as afirmações feitas em um vídeo que circula no Facebook e atribui ao governo de Jair Bolsonaro (sem partido) a construção de um viaduto entre a BR-277 e a Avenida Costa e Silva, no município de Foz do Iguaçu (PR). No vídeo, um homem destaca a rapidez com que a obra foi concluída, insinuando que essa seria uma marca do atual governo, e afirma que sua realização não teria sido possível sem a Operação Lava Jato. Na realidade, a obra foi feita pelo governo do Estado do Paraná, integralmente com recursos próprios, e não tem nenhuma relação com o governo federal, como confirmaram ao Comprova o governo paranaense e o próprio Ministério da Infraestrutura.

O Comprova não identificou nenhuma relação entre o viaduto e a Operação Lava Jato, como a que foi citada no vídeo. Acordos de leniência fechados pela força-tarefa da Lava Jato no Paraná de fato resultaram em valores destinados a obras viárias no estado, mas não foi o caso do viaduto em questão. Segundo a própria força-tarefa, é o governo estadual o responsável por destinar os recursos dos acordos de leniência. Ao Comprova, o governo do Paraná disse que a relação entre a Lava Jato e esse viaduto “não se aplica”.

O comprova tentou contato com a página do Facebook que publicou o conteúdo e com a página “Zap Bolsonaro”, cuja marca d’água aparece no vídeo, mas não obteve resposta.

Como verificamos?

O ponto de partida para a verificação foi um trecho da fala contida no vídeo, na qual um homem informa que está no município de Foz do Iguaçu em uma sexta-feira, dia 6, às 16h05. Fizemos uma busca com esses termos no Google, cujo resultado apontou para uma nota do governo estadual do Paraná informando a inauguração de um viaduto na cidade no dia 6 de dezembro de 2019, uma sexta-feira. Outras informações do vídeo, como a citação da BR-277 e da Avenida Costa e Silva, confirmaram que se tratava da mesma obra.

Além disso, analisamos alguns frames do vídeo e comparamos com imagens do Google Street View para verificar se o local em que o homem fez o vídeo é, de fato, o viaduto na BR-277. As imagens mais recentes do banco de dados do Google datam de dezembro de 2018, antes, portanto, da conclusão do viaduto, mas é possível localizar nelas dois prédios e um outdoor que também aparecem no vídeo, como mostra a imagem abaixo.

Com isso, procuramos a assessoria de imprensa da Secretaria de Infraestrutura e Logística do Estado do Paraná e o Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná (DER/PR) para entender de quem é a responsabilidade pela obra e verificar a veracidade das alegações feitas no vídeo. Também procuramos o Ministério da Infraestrutura, do governo federal, a assessoria de imprensa da Presidência e da força-tarefa da Operação Lava Jato.

Por fim, enviamos uma mensagem para a página do Facebook que publicou o conteúdo, mas não obtivemos resposta. Também procuramos a página Zap Bolsonaro, cuja marca d’água aparece no vídeo, mas não houve resposta.

Você também pode refazer o caminho da verificação acessando os links disponíveis na reportagem.

Verificação

O viaduto

A obra que aparece no vídeo é um viaduto localizado no quilômetro 725 da rodovia federal BR-277. Localizada em Foz do Iguaçu, no oeste paranaense, a ponte foi construída para desafogar o trânsito no cruzamento da rodovia com a avenida Costa e Silva, facilitando o acesso aos bairros da região norte e central da cidade e agilizando o tráfego de caminhões que seguem em direção às fronteiras com o Paraguai e a Argentina.

O Ministério da Infraestrutura informou que o “governo federal não tem relação com a obra na BR-277, em Foz do Iguaçu”. A Secretaria de Infraestrutura e Logística, do governo do Paraná, confirmou que a obra não teve participação de outras autoridades e foi realizada inteiramente com recursos estaduais. O viaduto, que tem duas pistas com acostamento e 22 metros de largura, recebeu um investimento total de R$ 18,4 milhões.

Operação Lava-Jato

No vídeo, um homem afirma sucessivas vezes que a inauguração do viaduto não teria sido possível sem a Operação Lava Jato. As falas sugerem que a obra foi realizada sem que houvesse corrupção dos agentes envolvidos em sua construção – segundo o vídeo, diferentemente do que acontecia nos governos anteriores.

O homem que narra o vídeo chega a afirmar que Fernando Haddad (PT), candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2018, teria prometido acabar com a Lava Jato caso fosse eleito. O Comprova encontrou manifestações públicas de Haddad que mostram o contrário. Em outubro daquele ano, o petista disse que iria dar apoio a Lava Jato. “Reitero a você: PF, MP, Poder Judiciário receberão apoio para fazer o que viemos fazendo até aqui: não vamos botar sujeira para debaixo do tapete. Vamos continuar as investigações em busca da verdade”, afirmou em entrevista à Rádio Jornal Caruaru, de Pernambuco. Dias depois, Haddad também disse, em entrevista ao SBT, que o ex-juiz Sergio Moro fez um bom trabalho na condução da operação, mas que a sentença contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi “um erro que vai ser corrigido pelos tribunais superiores porque ele não apresentou provas contra o presidente”.

Em contato com o Comprova, a assessoria de comunicação do governo paranaense informou, por mensagem, que a obra do viaduto não tem nenhuma relação com a Operação Lava Jato.

A Lava Jato e o Paraná

Em agosto de 2019, a força-tarefa da Lava Jato do Ministério Público Federal (MPF) firmou um acordo de leniência com a empresa Ecorodovias, controladora das concessionárias Ecovia e Ecocataratas, que atuam no Paraná. O acordo é referente a diversos atos de corrupção e lavagem de dinheiro relacionados a contratos firmados entre a empresa e órgãos públicos. A Ecorodovias reconheceu o pagamento de propinas para obter modificações benéficas à concessionária em contratos desde o ano 2000.

Com a leniência, a empresa deverá pagar R$ 400 milhões até o fim das concessões, que se encerram em 2021. Do total, R$ 30 milhões foram pagos como multa. Os outros R$ 370 milhões serão utilizados para reparação de danos, dos quais R$ 220 milhões para a redução do preço de pedágio de todas as praças da Ecorodovias e R$ 150 milhões serão destinados à execução de obras nas rodovias.

No dia 9 de dezembro de 2019, o governo do Paraná anunciou quais obras seriam beneficiárias do valor recebido graças ao acordo com o MPF. São elas: o Trevo Cataratas da BR-277 em Cascavel; melhorias nas vias marginais na BR-277, em Foz do Iguaçu, e terceiras faixas entre Cascavel e Guarapuava; e a duplicação da rodovia PR-407 no entroncamento com a PR-412. Uma dessas melhorias, de acordo com a Agência de Notícias do Governo do Paraná, deve acontecer em Foz do Iguaçu, nas vias marginais entre o Trevo Charrua e o Viaduto Costa e Silva, que já havia sido concluído e liberado para tráfego.

Vale ressaltar que as obras do viaduto entre a BR-277 e a Avenida Costa e Silva, alvos da investigação, foram concluídas no dia 6 de dezembro de 2019. Já o anúncio das obras que iriam receber a verba do acordo de leniência foi feito no dia 9 de dezembro de 2019 — três dias depois. Ou seja, o recurso proveniente do acordo não foi utilizado na obra verificada pelo Comprova.

A assessoria de imprensa do Ministério Público Federal no Paraná, responsável pela força-tarefa da Operação Lava Jato afirmou em nota que a destinação de recursos recuperados no âmbito da operação não é de competência da força-tarefa. Informou, também, que em 2019 assinou os acordos de leniência citados acima e sugeriu que os questionamentos sobre a obra na BR-277 fossem direcionados ao governo do Paraná.

Páginas que reproduziram o vídeo

A página “Intervenção constitucional militar já brasil clama Fortaleza-ce”, que publicou o vídeo falso analisado pelo Comprova, tem 38 mil curtidas e 122 mil seguidores. Em geral, ela publica conteúdos a favor de Bolsonaro, contra a imprensa e pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF). O próprio nome da página pede uma intervenção militar constitucional o que, como mostrou o Aos Fatos, não é possível.

O vídeo possui uma marca d’água com os dizeres “Zap Bolsonaro” e o endereço de um site. Nas redes sociais, o blog citado publica notícias envolvendo o presidente Jair Bolsonaro e conteúdos correlatos. Além disso, os administradores do site possuem diversos grupos no WhatsApp para a divulgação dos mesmos conteúdos e afirmam, no site, que “os grupos são somente para distribuição de informações pré-conferidas, para evitar FAKE NEWS” e que os grupos não são abertos para discussões ou bate-papo.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova investiga conteúdos sobre políticas públicas do governo federal que possam provocar desinformação nas redes sociais. É o caso do vídeo objeto desta verificação, que faz afirmações falsas sobre uma obra pública para atribuir sua realização ao presidente Jair Bolsonaro. Segundo dados da plataforma CrowdTangle, até a data de fechamento deste texto, o vídeo somava mais de 177 mil interações no Facebook, tendo sido compartilhado 89.351 vezes.

Com a proximidade das eleições municipais, vídeos como esse podem contribuir negativamente para os debates políticos no país. Quando a desinformação passa a integrar o cenário eleitoral, discussões sobre os projetos e agendas dos candidatos são prejudicadas, dificultando a escolha dos eleitores.

Postagens contendo informações falsas ou enganosas sobre obras públicas frequentemente viralizam nas redes sociais. O Comprova já verificou um boato que atribuiu erroneamente a construção de uma ponte entre os estados do Acre e Rondônia apenas ao governo Bolsonaro, uma postagem que usou fotos de outras estradas para afirmar que o Exército realizou reparos na rodovia Transamazônica e uma sequência de imagens que conferiam ao governo Bolsonaro a responsabilidade sobre obras realizadas em governos anteriores.

Falso para o Comprova é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Políticas públicas

Investigado por: 2020-08-27

Não há provas de que rompimento em barragem da transposição no Ceará tenha sido causado por sabotagem

  • Falso
Falso
O ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho divulgou, no dia 1º de dezembro, os resultados da perícia sobre as causas do rompimento. O laudo atesta ser completamente infundada a alegação de que o rompimento teria sido provocado por tentativa de sabotagem com o uso de explosivos.
  • Conteúdo verificado: Postagens no Twitter e no Facebook que afirmam que o acidente na barragem de captação de águas do Rio São Francisco em Jati no Ceará foi sabotagem

Postagens em redes sociais como Facebook e Twitter sobre o rompimento de uma tubulação da barragem de Jati, no município homônimo, no sul do Ceará, em 21 de agosto, usam informações sem comprovação para afirmar que o dano foi provocado por uma bomba e que o caso é fruto de uma “ação de sabotagem”. Algumas publicações também dizem que a Polícia Federal (PF) está apurando o suposto atentado ao equipamento da transposição do São Francisco. A informação não é confirmada pela PF.

As causas do vazamento na barragem ainda estão sendo apuradas, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Regional, responsável pela estrutura danificada. Portanto, não há como assegurar o que motivou a ocorrência. O órgão também não cogitou publicamente que o vazamento seja fruto de uma ação criminosa deliberada como um atentado a bomba.

O Comprova verificou que as imagens compartilhadas, em que aparecem os danos à barragem após o vazamento, são do local da ocorrência. Mas não encontrou evidências que confirmem as afirmações feitas nos textos que acompanham as imagens. Algumas publicações usam como fonte o deputado estadual do Ceará Francisco de Assis Cavalcante Nogueira (PSL), conhecido como Delegado Cavalcante. Ele afirmou em postagens e entrevista ter ocorrido uma sabotagem com explosivos no duto. A equipe do Comprova entrou em contato com a assessoria do deputado e foi informada de que “ele iria pensar se responderia”. Até a publicação desta checagem, não houve resposta.

O Comprova tentou falar com o perfil de Twitter @RaquelBlak que publicou conteúdo similar. Após a tentativa de contato, o tuíte foi apagado.

Atualização (em 2 de dezembro de 2020)

Após mais de três meses do vazamento na barragem de Jati, o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho divulgou, no dia 1º de dezembro, os resultados da perícia sobre as causas do rompimento. A perícia, segundo o Ministério, constatou que houve falha na montagem e operação das válvulas da barragem. Os erros são atribuídos pelo Governo Federal ao consórcio CMT/FAHMA, responsável pela operação do equipamento, à época do incidente.

O laudo reforça os argumentos que haviam sido levantados na verificação feita pelo Comprova, em agosto, e mais do que isso, atesta ser completamente infundada a alegação de que o rompimento teria sido provocado por tentativa de sabotagem com o uso de explosivos. “A perícia descartou a possibilidade de sabotagem na tubulação”, ressalta a nota do Ministério. Com isso, o Comprova mudou sua conclusão para Falso.

Como verificamos?

Por meio de busca reversa de imagens no Google e da ferramentas de monitoramento de redes sociais CrowdTangle, o Comprova pesquisou as primeiras postagens que sugerem a suposta sabotagem no rompimento do duto da barragem. As publicações mais antigas encontradas são do deputado estadual Delegado Cavalcante (PSL) que publicou as imagens e menciona em seu texto que havia indícios de sabotagem. O Comprova entrou em contato com a assessoria de Cavalcante para saber a fonte das suspeitas do parlamentar, mas não teve retorno até o fechamento dessa verificação.

Falamos com uma familiar de Raquel Blak,a titular de um dos perfis que publicou o conteúdo investigado, mas ela informou que Raquel não tinha interesse em conversar com a imprensa.

Em paralelo, a equipe procurou o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), a Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará (SRH) e a Prefeitura de Jati (CE) para entender a competência sob o equipamento danificado e as medidas que foram tomadas após o incidente, bem como esclarecer se os órgãos públicos suspeitam de sabotagem no duto. Também questionou a Polícia Federal e o Ministério Público Federal no Ceará (MPF) sobre possíveis investigações em curso após a ocorrência. O Comprova também ouviu duas entrevistas do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, e levantou informações sobre o evento em veículos de imprensa cearenses.

Por fim, ouvimos o engenheiro civil Antônio Nunes de Miranda, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e especialista em segurança de barragens, para entender que hipóteses técnicas poderiam explicar o rompimento da tubulação em Jati.

Verificação

Ocorrência

O vazamento foi registrado na tubulação de concreto da barragem de Jati, localizada em município de mesmo nome no sul do Ceará, no dia 21 de agosto por volta das 17h. Na ocorrência, segundo declaração do ministro Rogério Marinho, houve o rompimento de um duto que emite água para o Eixo Norte da transposição do São Francisco, em direção à Paraíba e ao Rio Grande do Norte.

Essa barragem faz parte do eixo inaugurado no dia 26 de junho pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e, além de ser um reservatório para as águas do Rio São Francisco, é o ponto inicial de outro projeto de transposição — o Cinturão das Águas do Ceará (CAC) — que é executado pelo Governo do Ceará com recursos da União. O trecho 1 do CAC, da qual a barragem de Jati faz parte, ainda está em fase de testes. A estrutura danificada integra a obra de competência federal. Após o ocorrido, Marinho disse que o vazamento foi em decorrência de “algum problema mecânico” no duto.

O rompimento ocorreu um dia após o ministro ter acionado a comporta que libera água da barragem de Jati para o Cinturão das Águas do Ceará. Nesta etapa do CAC, o eixo emergencial de 53 quilômetros deve assegurar segurança hídrica à Região Metropolitana de Fortaleza. A água correrá nos leitos dos rios Salgado e Jaguaribe até chegar ao Açude Castanhão, que abastece a capital e as cidades próximas. A estimativa dos governos estadual e federal é que cerca de 4,5 milhões de moradores sejam beneficiados pela obra.

No dia 21 de agosto, o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), e o secretário dos Recursos Hídricos, Francisco Teixeira, foram a Jati. Na ocasião, Teixeira explicou que “na ombreira direita, tem uma tubulação que se inicia em concreto e depois um bloco, onde está a emenda da tubulação em concreto com a tubulação em aço. Então, parece que nessa emenda houve um rompimento, um vazamento da tubulação. Então, esse jato d’água é devido à pressão”. A água que jorrou causou um pequeno processo de erosão na barragem, mas não comprometeu a estrutura.

O vazamento foi contido algumas horas após a ocorrência. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Regional, havia uma dificuldade de avaliação técnica da estrutura por causa da falta de iluminação naquele momento. Em razão do rompimento, por medida preventiva, duas mil pessoas residentes no raio de dois quilômetros da barragem de Jati foram evacuadas na noite de sexta-feira e madrugada de sábado. O Ministério do Desenvolvimento Regional e o governo estadual afirmam que não houve danos estruturais à barragem.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Regional, o bombeamento no Eixo Norte da transposição foi temporariamente interrompido devido à ocorrência. O site do órgão informa que a “barragem Jati foi executada pela empresa Serveng-Civilsan, no período entre janeiro de 2013 e março de 2018”. No Portal da Transparência consta que o contrato da obra no lote 5 do Eixo Norte da transposição foi assinado pelo governo federal em outubro de 2012 e teve 15 aditivos no decorrer dos últimos anos. O custo da obra passou de R$ 518.070.114,88 para R$ 895.112.734,85.

A acusação

Nas redes sociais inúmeras postagens afirmam ter ocorrido uma sabotagem com explosivos no duto. As imagens compartilhadas, em que aparecemos danos à barragem após o vazamento são, de fato, do local da ocorrência. Mas os textos são inverídicos. Algumas publicações usam como fonte o deputado estadual Delegado Cavalcante.

A primeira menção de Cavalcante ao tema ocorreu no dia 22, durante a vistoria feita pelo ministro Rogério Marinho, em Jati. Em vídeo publicado no Facebook, Cavalcante aparece questionando o ministro sobre a hipótese de “sabotagem” ou “mão humana” no incidente, alegando que a obra hídrica era importante para a popularidade do presidente Jair Bolsonaro na região.

Na ocasião, o ministro respondeu que uma análise técnica deve indicar o motivo do rompimento. “Esse laudo é o que vai permitir, inclusive, que nós, enquanto Estado brasileiro, nos posicionemos para saber quem deu causa ao problema. E quem deu causa, certamente, vai ressarcir o Estado brasileiro. Então, pode ficar tranquilo porque nós vamos usar todos os meios aí para encontrar as causas e torná-las transparentes para todo mundo”, afirmou Marinho.

Apuração da ocorrência

Em entrevista à CNN no dia 22, o ministro Rogério Marinho disse que uma análise técnica identificará em até 40 dias se houve erro na engenharia, na execução ou no material usado na obra. O ministro não citou bombas ou suspeita de sabotagem. “A pressão da água de alguma forma desregulou o sistema, deve ter fechado o duto embaixo e isso explodiu a tubulação de cimento”, disse.

Perguntada por e-mail pelo Comprova sobre a suspeita de uso de bomba, a assessoria do Ministério do Desenvolvimento Regional retornou com uma nota que se limita a detalhar os pedidos de avaliação técnica do caso.

Segundo o texto, em 24 de agosto, o ministério solicitou às empresas responsáveis pela execução testes e comissionamento da obra que “relatórios técnicos sejam apresentados até o dia 28 de agosto sobre cada etapa de funcionamento desde a última quinta-feira (20), quando foram abertas as comportas”.

O ministério diz que só com os relatórios feitos pelas empresas envolvidas na Barragem Jati será possível avaliar as causas do rompimento. O órgão também afirmou que irá contratar uma consultoria independente, com definição até esta sexta-feira, 28 de agosto.

Nas postagens também consta que a suposta sabotagem estaria sendo investigada pela Polícia Federal. Procurada pelo Comprova, a prefeita de Jati, Maria de Jesus Diniz (PSD), se limitou a dizer que agentes da PF estiveram na cidade para uma investigação.

Questionada sobre a suspeita de bomba, a PF respondeu ao Comprova que “não divulga a existência ou não de possíveis investigações em andamento”. O órgão ainda complementa que “qualquer informação que circule nas redes sociais em nome da Polícia Federal que não tenha partido de nossos canais oficiais é de total responsabilidade de quem a divulgou.”

Por envolver o uso de recursos federais, o Comprova também contactou, via e-mail, o Ministério Público Federal no Ceará para saber se o órgão foi acionado para desenvolver ou abriu alguma investigação sobre o suposto atentado a bomba. A assessoria de Comunicação Social do MPF informou, que “realizou levantamento não identificando, até a presente data, procedimento instaurado ou representação (denúncia) recebida pela instituição sobre suposta sabotagem à barragem em Jati”.

Embora a estrutura danificada seja de competência da gestão federal, o Comprova consultou também à Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará sobre o assunto. O órgão foi questionado, via e-mail, se acompanhou os desdobramentos da situação após o rompimento da estrutura e se é possível apontar hipóteses do que tenha provocado a ocorrência. Além disso, a SRH foi indagada se solicitou alguma investigação oficial sobre um suposto uso de bomba na estrutura que teria provocado uma explosão local.

Por e-mail, a SRH reitera a competência do governo federal sobre a estrutura afetada e diz que “cabe ao Governo Federal qualquer investigação”. A nota também afirma que o secretário dos Recursos Hídricos, Francisco Teixeira, esteve no local e “descarta completamente a hipótese de atentado”. O texto acrescenta que “o mesmo, que é engenheiro e atua no serviço hídrico há várias décadas, garante que o acontecido foi um evento isolado ocorrido em função de algum problema de projeto, execução da obra ou operação”.

A secretaria também informou que o rompimento da estrutura não afetou o cronograma do Cinturão das Águas, que segue em fase de testes.

Análise técnica

O Comprova também entrevistou por telefone, o engenheiro civil, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e especialista em segurança de barragens Antônio Nunes de Miranda. Ele explica que a avaliação para apontar as causas desse tipo de ocorrência, geralmente, dura cerca de um mês. Na inspeção, são analisadas as estruturas de controle da água. “No caso lá de Jati, existe uma válvula dispersora e uma válvula de controle. Esses dois equipamentos é que deixam a água passar. No final da tomada de água, onde forma o chamado véu de noiva, aquela água como um jato, há válvula dispersora. Então, se houver algum problema ali, isto pode ser uma das causas”, aponta.

Antônio menciona alguns possíveis motivos para o ocorrido. Um deles, um defeito de funcionamento na tubulação e nas válvulas, que não é comum “porque são equipamentos muito robustos, próprios para durar muito tempo e para não dar problemas”. Outra possibilidade é de ordem operacional: a válvula pode ter sido fechada bruscamente. Isso geraria acúmulo de água, o que resultaria em estrangulamento de uma parte mais sensível da tubulação. O controle de válvulas geralmente é automatizado. Um erro na operação pode ocorrer, mas, na análise do engenheiro, também é raro.

Outra hipótese é que algum entulho, madeira ou resto de obra, tenha ficado na tubulação e provocado a obstrução da água, o que resultaria no estouro. Além disso, ele pondera que no final da tubulação em concreto há uma ancoragem no tubo de aço — para fazer a mudança de direção do fluxo da água — e esse bloco pode ter sofrido um rebaixamento. “Se tiver ocorrido, pode afetar a tubulação de concreto e provocar a ruptura”, completa.

O fenômeno que provavelmente ocorreu na barragem, segundo Antônio, é chamado na engenharia de “golpe de aríete”. Na prática é a resposta da água quando vem se deslocando em uma tubulação de grande extensão e algo a obstrui de repente. “É como se fosse um trem em alta velocidade que você parasse a locomotiva bruscamente. Os outros vagões vão se amontoar, pode engavetar. O mesmo acontece com a água. Quando você veda a tubulação de repente, toda aquela água que estava se deslocando para e cria uma onda de pressão que volta no sentido contrário ao fluxo. Essa onda pode destruir um ponto fraco da tubulação”.

O engenheiro acha improvável o ato ter sido sabotagem. O “golpe de aríete” não é um fenômeno comum, mas é muito estudado na engenharia, que trabalha justamente para evitar que ocorra. Até a causa ser descoberta, a tubulação não pode ser consertada. Os reparos que estão sendo executados em Jati são do “pé da barragem”, que sofreu pequena erosão devido o jato de água.

Por que investigamos?

Nesta terceira fase do Comprova, o projeto retomou o monitoramento e a investigação de conteúdos suspeitos sobre políticas públicas do governo federal de ampla repercussão em redes sociais. As publicações verificadas são sobre a maior obra de infraestrutura hídrica do país, o Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF). Por isso, checar a veracidade desse conteúdo é tão relevante.

Desde que o trecho Leste foi inaugurado pelo presidente Jair Bolsonaro, em junho diversos boatos surgiram nas redes sociais. O Comprova já mostrou recentemente ser falso um vídeo que sugeria que o Governo do Ceará havia “sabotado” o canal da transposição inaugurado por Bolsonaro; que o Exército não refez todo o trecho da transposição do São Francisco inaugurado por Temer e Lula e que não há indícios de que a família Gomes tenha negócios no setor de transporte de água, sendo prejudicada pela inauguração da obra da transposição.

A desinformação sobre o ocorrido em Jati é prejudicial porque, além da ausência de fundamentação, impulsiona teorias conspiratórias e gera na sociedade um clima de desconfiança sobre o funcionamento de uma obra tão expressiva. A transposição do Rio São Francisco sofre grandes atrasos de entrega, e um dano a sua estrutura deve ser apurado com seriedade e resolvido de forma mais ágil e eficaz.

As publicações falsas sobre o tema ultrapassam 20 mil compartilhamentos. O tuíte do perfil @MBColunista foi compartilhado 2,5 mil vezes. Conteúdo semelhante teve 3,7 mil compartilhamentos em um dos perfis pessoais verificados pelo Comprova.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Políticas públicas

Investigado por: 2020-08-24

É falso que repórter tenha falado em visitar filha de Bolsonaro na cadeia

  • Falso
Falso
Trecho de um vídeo que mostra a ameaça do presidente a um repórter de O Globo está sendo compartilhado com uma legenda falsa para impor uma outra versão ao episódio
  • Conteúdo verificado: Vídeo do episódio em que Bolsonaro ameaça repórter do jornal O Globo com uma legenda que muda a narrativa do caso para mostrar que o presidente foi atacado pelo jornalista antes de responder.

O vídeo no qual o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se irrita e ameaça agredir um repórter do jornal O Globo foi compartilhado no Twitter com uma falsa legenda para sugerir que Bolsonaro teria sido provocado pelo profissional antes de atacar. Segundo essa versão, o jornalista teria dito: “Vamos visitar sua filha na cadeia”. Isso não aconteceu.

Embora a legenda afirme se tratar de uma provocação ao presidente, o áudio permite ouvir que a frase dita foi: “Vamos visitar nossa feirinha na catedral, presidente”. Quem faz o convite é um homem que está no meio das pessoas que seguem o presidente. O episódio ocorreu durante visita de Bolsonaro à Catedral Metropolitana de Brasília neste domingo, 23.

A versão falsa está viralizando nas redes sociais e foi publicada também por blogs como Terra Brasil Notícias e Senso Incomum, que, posteriormente, reconheceram a divergência – o último tirou o conteúdo do ar. O próprio presidente e seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), compartilharam um vídeo do incidente – sem a legenda falsa, mas com a descrição: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, em referência a um versículo bíblico utilizado pelo presidente em contexto eleitoral.

Como verificamos?

Fazendo uma busca pelas palavras Bolsonaro e cadeia no TweetDeck, chegamos a um post que questiona o ataque do presidente publicado em um perfil no dia 23, às 23h09. Segundo o TweetDeck, o post era um fio (thread), mas, ao entrar na página pelo Twitter, havia apenas a postagem inicial, que dizia: “Um homem que ver (sic) sua mulher sendo injustiçada, acusada, sendo exposta… Resolve assim! ‘Minha vontade é encher tua boca na porrada’ Pq Bolsonaro é homem!!! Cabra macho. Passar Bem”. Em resposta a um usuário, que alerta que a voz não teria falado sobre uma visita à cadeia e, sim, sobre um convite para o presidente ir à feirinha da catedral, a autora diz que apagou o vídeo. Assim, não foi possível encontrar quem postou o vídeo com a legenda falsa pela primeira vez.

Fizemos novas buscas e encontramos o perfil de @SamPancher, que postou o vídeo às 16h56 do dia 23. Em sua publicação, ele legenda apenas o trecho em que o presidente insulta o repórter – “Vontade de encher sua boca com a porrada, tá? Seu safado”. Por mensagem, Samuel Pancher, dono do perfil, nos informou seu telefone e fizemos uma entrevista com ele.

Pancher não soube informar quem gravou as imagens, mas pela plataforma InVid é possível verificar que o vídeo postado por Bolsonaro é o mesmo que ele postou.

Consultamos ainda reportagens publicadas no dia anterior, em que veículos afirmaram terem presenciado a agressão de Bolsonaro. A redação do Globo publicou o áudio gravado por seu repórter (para assinantes) envolvido no incidente. Ao ouvi-lo, é perfeitamente possível concluir que ninguém falou em visitar a filha do presidente na cadeia.

Verificação

Como foi?

Bolsonaro estava fazendo uma visita à Catedral Metropolitana de Brasília no domingo (23), quando foi interpelado por um grupo de repórteres. Um profissional do jornal O Globo questionou o presidente sobre repasses de R$ 89 mil feitos por Fabrício Queiroz, ex-assessor de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), à primeira-dama Michelle Bolsonaro. Os documentos fazem parte de uma investigação sobre suposta prática de rachadinha envolvendo o filho mais velho do presidente.

Além dos repórteres, o presidente era seguido por apoiadores. Uma das pessoas que estava ao seu redor gravou um vídeo com a resposta do presidente, que ameaçou o jornalista: “Vontade de encher tua boca de porrada”. Questionado por outros repórteres se isso seria uma ameaça, não comentou.

O assunto foi um dos mais comentados no Twitter no domingo. Usuários postaram a pergunta feita pelo repórter como forma de pressionar o presidente e se posicionar de forma contrária à agressão verbal.

Apoiadores do presidente

Amparando-se nesta versão falsa, ao menos uma dezena de sites publicou matérias acusando o repórter de ameaçar o presidente. O blog Senso Incomum publicou o texto “Checamos: Bolsonaro respondeu a repórter que disse ‘Vamos visitar sua filha na cadeia’”.

A versão com a legenda falsa se refere à filha de 9 anos do presidente com Michelle.

O texto já foi retirado do ar, e nas redes sociais o site afirmou: “Apagamos o post sobre a fala do presidente, já que alguns internautas ouviram ‘visitar nossa feirinha na catedral’, e não ‘filha na cadeia’, como entendemos. Reafirmamos que sempre cobramos Flávio Bolsonaro sobre Queiroz e comemoramos sua quebra de sigilo que ensejou sua prisão.”

O blog Terra Brasil Notícias, por sua vez, mantém no ar o texto “Vídeo: repórter ataca filha de Bolsonaro e presidente reage; ‘vontade de encher sua boca de porrada’”. O portal publicou um segundo texto com uma errata na qual reconhece que “o repórter de O Globo não se dirige para a filha do presidente Jair Bolsonaro. A reação de Bolsonaro é por conta da insistência do jornalista em indagar sobre um suposto envolvimento da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, com o caso Queiroz”.

Perfis nas redes sociais seguiram técnica semelhante: postaram o vídeo e depois apagaram, mas continuaram afirmando que o presidente foi atacado e estava se defendendo. Desta forma, o conteúdo viralizou sem a inclusão da gravação.

Marca d’água

No vídeo postado pelo presidente há uma marca d’água que aparece embaçada, mas é possível verificar ser a de @SamPancher, um dos primeiros perfis a publicar o vídeo no Twitter – sem a legenda falsa. Em entrevista ao Comprova, Samuel Pancher, estudante de jornalismo paulista, disse que costuma publicar conteúdos relacionados ao presidente e que, por isso, recebe mensagens de seguidores com sugestões de conteúdos para postar. Pancher contou que apenas recebeu o vídeo e legendou a fala do presidente. “Não sabia que iam pegar o que o ambulante falou para criar uma narrativa”, afirmou. “Eu me preocupei em legendar (apenas) o que ele (Jair Bolsonaro) falou.”

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica a veracidade de conteúdos suspeitos sobre as políticas públicas do governo federal que viralizam nas redes sociais. O vídeo que deu origem a esta investigação foi visto 4,7 mil vezes e compartilhado 57 vezes no Twitter até 24 de agosto. Um dos textos com o mesmo conteúdo, o do site Terra Brasil Notícias, foi compartilhado 849 vezes no Facebook. Na página de Bolsonaro, o vídeo (sem a legenda falsa) teve mais de 120 mil visualizações e 18 mil likes até a data.

Esse conteúdo também foi checado por Aos Fatos, Fato ou Fake, Poder 360 e Estadão, que também concluíram que a legenda é falsa.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Políticas públicas

Investigado por: 2020-08-20

Post tira de contexto frase de Damares sobre abuso infantil

  • Enganoso
Enganoso
A frase é verdadeira mas a postagem omite o contexto. O trecho foi retirado de uma entrevista concedida à BBC na qual a ministra Damares Alves dizia que mulheres vítimas de abuso sexual na infância não deveriam acreditar no discurso do abusador de que elas são culpadas por aqueles atos
  • Conteúdo verificado: Post no Facebook atribui à ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) a seguinte afirmação: “tem abuso que é prazeroso para a criança, porque o pedófilo sabe como tocar, onde tocar”.

Postagem feita no Facebook omite o contexto de uma fala de Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, em 2019. Ao afirmar que “tem abuso que é prazeroso para a criança”, a ministra tentava incentivar mulheres vítimas de abuso sexual na infância a não acreditarem no discurso do abusador de que elas são culpadas por aqueles atos. Sem essa informação, muitos dos leitores acreditaram que Damares havia tentado justificar o abuso de crianças.

“Nem sempre o abuso é como no meu caso, com dor, com sangue, com violência. Tem abuso que é prazeroso para a criança, porque o pedófilo sabe como tocar, onde tocar, e às vezes desperta prazer. O nosso corpo foi feito pelo prazer. Eu encontro muitos adultos, especialmente mulheres, que se sentem culpadas porque sentiram prazer. Eu digo que não se sintam culpadas, eram crianças e não tinham controle sobre seus corpos”, afirmou a ministra em entrevista para a BBC Brasil, publicada em 18 de dezembro de 2019.

Após o conteúdo viralizar, Damares cobrou pelo Twitter que a fala fosse colocada no seu contexto original.

Como verificamos?

Primeiramente, fizemos uma busca no Google pela frase que foi postada no Facebook ao lado do nome da ministra Damares Alves, o que nos levou ao link da entrevista dela à BBC Brasil. Depois, utilizamos a busca reversa de imagem para tentar saber se a montagem já havia sido postada antes nas redes sociais. O resultado dessa pesquisa foi uma publicação da própria ministra no Twitter em que ela explica o contexto da afirmação e dá o link onde é possível assistir à íntegra da entrevista para a BBC Brasil. Por fim, tentamos contato com o responsável por postar a frase no Facebook, mas não tivemos retorno até o fechamento dessa verificação.

Verificação

A frase que viralizou foi retirada de uma entrevista de mais de 30 minutos, concedida pela ministra à BBC Brasil em dezembro de 2019. Dentre vários assuntos abordados, Damares foi questionada sobre o abuso sexual que sofreu quando tinha 10 anos. O vídeo com a íntegra da entrevista está disponível no YouTube. Aos 26 minutos e 2 segundos, a ministra fala sobre o combate à exploração sexual de crianças. “O cara que abusou de mim aos seis anos olhou nos meus olhos e disse que o seduzi, que eu era culpada, e me fez sentir culpada por anos. A culpa me levou à tentativa de suicídio. Ele dizia que eu era suja, imunda e pecadora”, responde a ministra, visivelmente emocionada. “É isso que eles fazem, o abusador destrói sonhos, interrompe o destino. E hoje, no Brasil, fica-se culpando meninas e meninos. A criança não é culpada”, argumenta.

É nesse contexto em que Damares afirma que, em alguns casos, há um elemento adicional que faz com que as pessoas se sintam culpadas: o fato de elas terem sentido prazer. Segundo a ministra, alguns abusos provocam dor, mas em outros a pessoa é capaz de sentir prazer por questões fisiológicas. E reforça que essa reação não significa consentimento: “Eu digo que não se sintam culpadas, eram crianças e não tinham controle sobre seus corpos”.

O assunto voltou a viralizar no momento em que ganhou repercussão nacional o caso de uma menina de dez anos de idade, do Espírito Santo, que engravidou após ser abusada sexualmente por um tio desde os seis. Ela conseguiu interromper a gravidez, apesar da pressão de grupos contrários ao aborto, que fizeram tumulto em frente à unidade de saúde em que o procedimento foi realizado, no Recife.

Em seu perfil no Twitter, Damares explicou que falava sobre as dificuldades de identificar os casos de violência sexual contra crianças, já que elas nem sempre demonstram sinais claros de sofrimento ou percebem o quanto a situação é abusiva. Segundo a ministra, é preciso que os pais não tenham vergonha de conversar com as crianças sobre abusos sexuais desde cedo para protegê-las. Ela também pediu às pessoas que tenham conhecimento de casos de abuso infantil que denunciem por meio do Disque 100, do aplicativo Direitos Humanos Brasil ou do site do ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Por que investigamos?

O Comprova verifica a veracidade de conteúdos suspeitos sobre as políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. É o caso da postagem feita por um perfil no Facebook, que teve 1,5 mil interações. A imagem foi compartilhada em páginas contrárias ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A publicação levou vários internautas a criticarem Damares, acreditando que ela estaria justificando o abuso sexual de crianças.

Desde que o caso da garota de dez anos ganhou repercussão nacional, o tema do abuso sexual de crianças e o debate sobre o aborto legal no Brasil voltaram à agenda pública. Desde 2014, o país registrou 1.284 casamentos de meninas menores de 15 anos. Ao mesmo tempo, só no primeiro semestre de 2020, o Sistema Único de Saúde (SUS) já realizou 80,9 mil procedimentos após abortos mal sucedidos, além de pouco mais de mil interrupções de gravidez previstas em lei.

O Estadão Verifica checou a mesma frase e concluiu que ela estava fora de contexto.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado ou que confunde, com ou sem a intenção de causar dano.