O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhados nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Saúde

Investigado por: 2025-02-26

Post desinforma sobre vacina contra HPV usando reportagem antiga de um caso não comprovado

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Enganoso
Assim como qualquer outra vacina, o imunizante contra o HPV pode causar eventos adversos, mas ocorrências são raras. Pesquisas apontam que os benefícios da vacina superam os riscos causados por eventuais efeitos colaterais, uma vez que a imunização é a medida mais eficaz para a redução dos casos de câncer de colo de útero, causado pelo papilomavírus humano.

Conteúdo investigado: Vídeo que mostra uma reportagem que aborda os supostos efeitos colaterais da vacina contra o papilomavírus humano (HPV), vírus causador do câncer de colo de útero.

Onde foi publicado: X.

Conclusão do Comprova: Pesquisas apontam que os benefícios da vacinação contra o HPV superam os riscos causados por eventuais efeitos adversos, considerados raros. Um vídeo publicado no X mostra uma reportagem antiga sobre o caso de uma ação ajuizada em 2015 pelo Ministério Público Federal (MPF) de Uberlândia (MG), que pedia a suspensão do imunizante em todo o país. Em 2017, a Justiça não acatou o pedido do MPF.

O assunto chegou ao MPF por meio de representação feita pela mãe de uma adolescente que, após receber a vacina, desenvolveu problemas de saúde. A ação envolvia também outros jovens que, segundo um neurocirurgião ouvido pelo Ministério Público, relataram quadros clínicos neurológicos após receberem o medicamento.

Porém, no processo, a juíza Anna Cristina Gonçalves, da 14ª Vara Federal da Seção Judiciária de Minas Gerais, considerou que não havia provas científicas de que o imunizante teria causado efeitos colaterais nos adolescentes vacinados.

O caso repercutiu e gerou receio na população sobre a segurança do medicamento. Na época, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) repudiou a ação do Ministério Público Federal. Por meio de nota oficial, a organização destacou que a atitude colocava em risco a saúde de milhares de brasileiras.

“As vacinas HPV são seguras, fato referendado por inúmeros estudos científicos e resultados práticos de países que adotaram a vacinação em larga escala desde 2007. Já foram aplicadas mais de 200 milhões de doses e as reações adversas se mostraram pouco frequentes (10-20%). O quadro nesses casos costuma ser leve”, destacou a SBIm.

Estudos realizados ao longo dos anos descartam a relação entre o imunizante e o surgimento de doenças autoimunes. E outras entidades além da SBIm atestam a segurança da vacina, como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Geyson Florêncio, especialista em clínica médica do Hospital Oto Meireles, de Fortaleza, reforça que a vacina contra o HPV é amplamente reconhecida por sua eficácia na prevenção de infecções pelo vírus e suas complicações. “Estudos corroboram a segurança da vacina, indicando que eventos adversos são raros e que os benefícios superam amplamente os riscos potenciais”, explicou.

O Comprova entrou em contato com a autora da publicação compartilhada no X, via mensagem direta por meio do aplicativo, mas não recebeu resposta até a publicação desta verificação. Também buscamos a Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia.

Em nota, o órgão afirmou que não poderia fornecer informações sobre os casos dos adolescentes que levaram à ação do MPF em razão da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). “A Secretaria de Saúde esclarece que não repassa dados pessoais e médicos dos pacientes. Essas informações são preservadas pela LGPD e pelas legislações que regulam o sigilo médico”, informou a entidade.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. O vídeo alcançou mais de 191,4 mil visualizações e quase dois mil compartilhamentos até o dia 26 de fevereiro.

Fontes que consultamos: Foram consultadas as bulas das vacinas contra o HPV disponíveis no SUS, além de pesquisas que analisaram a relação entre o imunizante e o surgimento de doenças autoimunes ou outras condições. Também foram consultadas matérias que trataram do caso na época em que a ação foi ajuizada. Ainda foi ouvido o especialista em clínica médica do Hospital Oto Meireles, Geyson Florêncio. Além disso, a reportagem procurou a Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia.

Reportagem não é atual

O vídeo compartilhado no X é um recorte do programa Interesse Público que é transmitido pela TV Justiça e por mais de 30 emissoras parceiras em diferentes estados brasileiros. O trecho foi publicado em 16 de fevereiro de 2016 no canal do MPF no YouTube. 

A reportagem mostra que o MPF havia ajuizado uma ação civil pública pedindo que a Justiça Federal proibisse a aplicação da vacina contra o HPV na rede pública de saúde em todo o país. O processo também pedia a anulação de todos os atos normativos da Anvisa que autorizaram a importação, produção, distribuição e comercialização do imunizante no Brasil.

O autor da ação, o procurador Cléber Eustáquio Neves, justificou o pedido alegando que a vacina seria responsável por muitos efeitos colaterais, entre eles paralisia, alterações do sistema imunológico, respiratório e até infertilidade. Segundo o MPF, também foi ouvido um neurocirurgião de Uberlândia que relatou a ocorrência de quadros clínicos neurológicos em pacientes que haviam tomado o imunizante.

No período da ação, por meio de nota oficial, a SBIm destacou que a atitude do MPF colocava em risco a saúde de milhares de brasileiras. Além disso, reforçou que a relação entre o HPV e o câncer de colo de útero é indiscutível.

Em 2017, o jornal Estado de Minas noticiou que a Justiça Federal não acatou o pedido de liminar do MPF para suspender a vacinação contra o HPV. A juíza Anna Cristina Gonçalves considerou que o procurador não conseguiu provar a conexão entre a vacina e as condições desenvolvidas por adolescentes que receberam o imunizante.

“Diante da fragilidade das alegações relativas a eventuais efeitos colaterais e levando-se em conta as milhares de doses já aplicadas na população brasileira desde 2011, observo que os poucos relatos apresentados, sem prova científica de que a vacina teria causado efeitos colaterais, não são suficientes para amparar a pretensão ministerial de suspender a aplicação da vacina contra HPV em todo o território nacional”, considerou a magistrada.

HPV e câncer

O papilomavírus humano é transmitido por meio das relações sexuais e pode ocasionar o aparecimento de verrugas na pele e nas regiões oral, anal e genital. Existem mais de cem tipos do vírus, mas os subtipos 16 e 18 são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer de colo de útero no mundo, segundo relatório da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, entidade ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS).

Na maioria dos casos, a infecção pelo HPV não apresenta sintomas, por isso as mulheres devem se submeter ao exame ginecológico preventivo com regularidade. Para a prevenção, além do uso de preservativos, a medida mais eficaz é a vacinação. Atualmente, os imunizantes registrados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) são o do Instituto Butantan e o da farmacêutica Sharp & Dohme.

Desde 2014, a vacina do Butantan está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), sendo distribuída para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos. O imunizante também é ofertado para pessoas de 9 a 45 anos com condições clínicas específicas, como HIV, além de transplantados, pacientes oncológicos e vítimas de abuso sexual. A indicação é que a vacinação ocorra antes do início da vida sexual.

O medicamento do laboratório brasileiro protege contra o HPV de baixo risco, dos subtipos 6 e 11, e de alto risco, dos subtipos 16 e 18, que causam câncer de colo de útero, de pênis, anal e oral. Já a vacina da farmacêutica Sharp & Dohme, chamada de Gardasil 9, protege contra outros cinco subtipos do HPV: 31, 33, 45, 52 e 58. Ela foi aprovada pela Anvisa em 2022, indicada para pessoas de 9 a 26 anos.

Em abril de 2024, o Ministério da Saúde, por meio da Nota Técnica nº 41, adotou o esquema de vacinação em dose única contra o HPV. Anteriormente, eram necessárias duas aplicações. O órgão informou que a decisão foi tomada com o objetivo de intensificar a proteção contra o câncer de colo do útero e outras complicações associadas ao vírus.

Eventos adversos

Após mais de 20 anos no SUS, a vacina contra o HPV ainda é alvo de desinformação. Em 2014, ano em que teve início a oferta do imunizante na rede pública de saúde, um grupo de mães no Acre alegou que meninas vacinadas em escolas apresentaram efeitos como convulsões e dormência nas pernas. O caso repercutiu nas redes sociais, especialmente no Facebook, e gerou uma campanha de desinformação.

Diante do ocorrido, o Ministério da Saúde solicitou que a Universidade de São Paulo (USP) realizasse uma pesquisa para averiguar os possíveis efeitos da vacina nas crianças. O estudo apontou que não havia relação entre as propriedades do imunizante e os sintomas relatados. Foi demonstrado que ocorrências como perda de consciência e abalos motores tratavam-se de crises psicogênicas causadas pelo estresse do ato de vacinar e não pelos compostos da vacina.

Organizações como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a SBIm atestam a segurança e a eficácia da vacina. Entre os efeitos colaterais, a SBP cita aqueles comuns a vacinações em geral, como dor, vermelhidão e inchaço no local da aplicação, além de febre, dor de cabeça e mal estar, porém todos sintomas leves e de curta duração. Os mesmos eventos adversos estão descritos nas bulas dos imunizantes do Butantan e da Sharp & Dohme.

Outras reações relatadas após o uso do medicamento do Butantan são dificuldade para respirar, falta de ar (broncospasmo), urticária e erupções cutâneas. Em ambas as bulas, as farmacêuticas enfatizam que, assim como qualquer imunizante, as vacinas contra o HPV podem causar efeitos adversos, mas raramente são graves.

Benefícios superam potenciais riscos

Segundo o médico Geyson Florêncio, todas as vacinas apresentam efeitos adversos. No caso do HPV, já foram relatados a trombose de vasos venosos e a Síndrome de Guillain-Barré (SGB), uma doença autoimune rara que ocorre quando o sistema imunológico do próprio corpo ataca parte do sistema nervoso. Mas diversos estudos publicados ao longo dos anos apontam a raridade desses eventos.

Geyson cita uma pesquisa que avaliou a associação entre a vacinação contra o HPV e o aparecimento de doenças autoimunes. O estudo analisou mais de dois milhões de meninas na França, com idade entre 13 e 16 anos, que haviam recebido o imunizante. “Os resultados indicaram que não há aumento significativo no risco de doenças autoimunes após a vacinação”, enfatizou o médico.

Além disso, ele destaca uma meta-análise que compilou dados de vários ensaios clínicos para avaliar a segurança da vacina quadrivalente contra o HPV. A meta-análise é um método que agrega os resultados de dois ou mais estudos sobre uma mesma questão de pesquisa. “Os achados confirmaram um perfil de segurança favorável, com eventos adversos geralmente leves e temporários”, explicou. O levantamento apontou que, com base em 10 milhões de relatórios analisados, os casos de SGB decorrente da vacina eram raros.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O UOL Confere já desmentiu que a vacina contra o HPV cause paralisia. O Comprova explicou que a vacina contra a covid-19 é segura e não gera HIV, câncer ou HPV e também que livro sobre documentos da Pfizer não comprova que vacina de covid tenha causado centenas de mortes. A Agência Lupa publicou que a ação do procurador de Uberlândia foi indeferida. Além disso, o Estadão Verifica apurou que é falso que a vacina contra o HPV cause esterilidade e menopausa precoce.

Notas da comunidade: Até a publicação desta verificação, não havia notas da comunidade publicadas junto ao post no X.

Saúde

Investigado por: 2025-02-25

Livro sobre documentos da Pfizer não comprova que vacina de covid tenha causado centenas de mortes

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Enganoso
Posts que mencionam o livro “Pfizer Papers” enganam ao afirmar que a vacina da Pfizer contra a covid-19 causou 1.223 mortes e possui 1.291 efeitos colaterais. Os dados são distorcidos, uma vez que, como informado nos documentos usados como fonte para a elaboração do livro, não há relação de causa e efeito comprovada com o imunizante.

Conteúdo investigado: Post em que a médica Raissa Soares fala sobre o livro “Pfizer Papers”, dizendo que ele comprova que a vacina da farmacêutica contra a covid-19 matou 1.223 pessoas. Em um vídeo, ela aparece ao lado de um homem que também comenta o livro e apresenta um segundo homem, que seria o responsável por organizar parte do trabalho mostrado na obra.

Onde foi publicado: Instagram e X.

Conclusão do Comprova: Posts virais enganam ao afirmar que o livro “Pfizer Papers” teria comprovado 1.291 efeitos colaterais e 1.223 óbitos causados pela vacina da farmacêutica contra a covid-19.

A obra apresenta um compilado de conclusões que já foram classificadas como desinformação desde o começo da pandemia. O livro se baseia em um pedido de licença biológica da Pfizer enviado à agência sanitária dos Estados Unidos (FDA). O relatório contido neste pedido começou a ser divulgado no início de 2022 pela FDA a pedido de um grupo de médicos, após determinação da Justiça norte-americana.

O documento analisa mais de 40 mil relatos pós-imunização nos Estados Unidos, mas diz não haver relação de causa e efeito dos efeitos colaterais relatados com os imunizantes.

Ou seja, ele não é uma pesquisa científica, mas sim um apanhado que envolve relatos espontâneos, utilizado pela farmacêutica para identificar eventuais efeitos adversos graves. Não há comprovação, deste modo, que as vacinas tenham relação com essas mortes.

Em uma das publicações verificadas pelo Comprova, a médica Raissa Soares – que já teve conteúdos checados pelo Comprova ao menos três vezes (1, 2 e 3) – e John Kage – que disputou, sem sucesso, uma vaga de deputado estadual em São Paulo em 2022 e também já teve post verificado por agências de checagem – estão ao lado de Chris Flowers, a quem se referem como “líder dos médicos dessa grande investigação” que seria o livro “The Pfizer Papers: Pfizer’s Crimes Against Humanity” (“Os papeis da Pfizer: Os crimes da Pfizer contra a humanidade”, em tradução literal).

No post, ela afirma, citando o livro, que “mais de 1.233” pessoas morreram por causa da vacina no primeiro trimestre de uso, mas, como informado acima, não há relação comprovada de causa e efeito com o produto.

Como o Comprova já mostrou, os documentos da Pfizer “afirmam, sim, que 1.223 pessoas que se vacinaram morreram entre a autorização do uso emergencial da vacina pela FDA ,o que ocorreu em 10 de dezembro de 2020, e 28 de fevereiro de 2021, mas não relacionam esses óbitos à vacina”. Ou seja, os dados podem incluir, por exemplo, pessoas que morreram de uma condição médica que já existia antes de se imunizarem.

O Estadão Verifica publicou, em junho de 2023, que, segundo o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, não havia nenhuma morte relacionada à vacina da Pfizer. Além disso, a segurança dos imunizantes continua sendo monitorada por órgãos regulatórios e os produtos seguem sendo recomendados.

Outra afirmação infundada do livro é que o imunizante prejudica o sistema reprodutor, causando abortos. Novamente, como o Comprova já publicou, os dados usados para se chegar à tal conclusão não permitem afirmar que houve uma relação de causa e efeito entre a vacina e as mortes. Mulheres ficam mais suscetíveis a infecções respiratórias na gravidez, por isso a vacinação é importante. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que gestantes recebam três doses da vacina, além de uma dose de reforço dentro de seis meses após a última dose.

O post engana também ao afirmar que Naomi Wolf, autora do livro, é jornalista do The New York Times. A referência que ela mesma coloca em seu perfil no X sobre o veículo norte-americano é ter tido oito livros na lista dos mais vendidos da publicação. Entre suas obras mais famosas está “O Mito da Beleza”, de 1990. Na pandemia, se tornou uma ativista antivacina. Em 2021, chegou a ser banida do então Twitter (hoje X) por propagar desinformação acerca dos imunizantes.

Contatada pelo Comprova, a Pfizer reforçou que sua vacina é segura e eficaz dizendo que ela foi aprovada por órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o FDA e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) após “avaliações robustas e independentes, a partir de dados científicos sobre qualidade, segurança e eficácia, incluindo nosso estudo clínico de fase 3”. Afirmou ainda que “dados de estudos de mundo real complementam as informações dos estudos clínicos e proporcionam evidência adicional de que a vacina fornece proteção eficaz contra formas graves da doença”.

Por fim, a farmacêutica afirmou que, “até o momento, já distribuiu mais de 4,8 bilhões de doses da vacina ComiRNAty, em mais de 183 países, e não há qualquer alerta de segurança, de modo que o benefício da vacinação permanece se sobrepondo a qualquer risco”.

Também procurado pela reportagem, John Kage repetiu as afirmações enganosas feitas no post. “Foram encontrados nos documentos da Pfizer 1.291 tipos de efeitos colaterais e 1.223 (pessoas) vieram a óbito”, disse. Raissa não respondeu o contato do Comprova até a publicação deste texto.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até 25 de fevereiro, o post no Instagram havia sido visualizado mais de 448 mil vezes. Publicação com conteúdo semelhante no X teve 161,5 mil visualizações até a data.

Fontes que consultamos: Sites da Anvisa e da Pfizer, reportagens, o livro citado no post e a farmacêutica Pfizer.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Estadão Verifica publicou que não é verdade que a vacina da Pfizer tenha causado 1,2 mil mortes nos Estados Unidos. O Comprova já checou diversos conteúdos relacionados à vacina contra a covid, como ser falso que ela cause danos irreversíveis ao DNA, enganoso post que afirma que ela provoca infarto e morte súbita em crianças. Recentemente, o projeto concluiu ser enganosa publicação que cita artigo pedindo a retirada do produto do mercado.

Notas da comunidade: Até a publicação desta verificação, não havia notas da comunidade publicadas junto ao post no X.

Contextualizando

Investigado por: 2025-02-21

Não há registros de que água tenha invadido imóveis entregues por Lula em Belém

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Contextualizando
O Comprova não encontrou registros de que apartamentos do Minha Casa, Minha Vida, em Belém, tenham sido alagados no dia da entrega das chaves. Mas a região possui histórico de inundações. Entenda o caso.

Conteúdo analisado: Vídeos compartilhados por deputados federais mostram o presidente Lula deixando a cerimônia de entrega de um conjunto habitacional em Belém, no Pará. Ele atravessa uma passarela erguida sob um volume de água. As imagens vêm acompanhadas da alegação de que os imóveis foram alagados.

Onde foi publicado: X e Instagram.

Contextualizando: No dia 13 de fevereiro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou da cerimônia de entrega do Residencial Viver Outeiro, situado na Ilha de Caratateua, em Belém. Na ocasião, mais de mil famílias beneficiárias do programa Minha Casa, Minha Vida receberam as chaves dos apartamentos. Além de Lula, estiveram presentes o ministro das Cidades, Jader Filho, o governador do Pará, Helder Barbalho, e o prefeito de Belém, Igor Normando.

Nas redes sociais, publicações alegam que as unidades habitacionais foram tomadas pela água das chuvas no mesmo dia da entrega. Não há registros de que as moradias tenham sido alagadas naquela data, mas relatos de moradores e da imprensa local apontam que é recorrente o acúmulo de água em trechos da localidade.

Ao Comprova, o Ministério das Cidades, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República e a Prefeitura de Belém negaram qualquer tipo de invasão pela água no empreendimento no dia 13 de fevereiro. “Não houve dano ao conjunto, mas ocorreu uma chuva torrencial de quase quatro horas durante a entrega do residencial. Algumas áreas do estacionamento, onde aconteceu o evento, acumularam água devido ao excesso de chuva”, explicou o governo municipal.

Na quinta-feira, 20, poucos dias após a inauguração do imóvel, um vídeo publicado no Instagram mostra uma das ruas do condomínio alagada. A gravação, com narração de uma moradora, foi publicada em um perfil na rede social que recebe o nome do residencial. Nas imagens, duas crianças atravessam a via encoberta por água.

Embora não seja possível afirmar que as unidades habitacionais foram invadidas pela água na data de entrega do empreendimento, há um histórico de alagamentos no distrito de Outeiro, além de queixas sobre a falta de pavimentação e de sistemas de drenagem em algumas áreas.

O Comprova questionou o Ministério das Cidades sobre o planejamento para a realização de algum serviço de drenagem nas ruas no entorno dos imóveis, mas o órgão não respondeu até a publicação deste texto. Já a Prefeitura de Belém afirmou que a responsabilidade pela manutenção do perímetro é do governo federal.

O Comprova entrou em contato com os gabinetes dos deputados federais Silvia Waiãpi (PL- AP) e delegado Éder Mauro (PL-PA), que postaram os vídeos analisados aqui, mas até a publicação deste texto, não houve resposta.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até 19 de fevereiro, as publicações no X acumulavam mais de 7 mil compartilhamentos. No Instagram, o post somou mais de mil comentários e 7 mil e 400 curtidas.

Fontes consultadas: Foram consultados órgãos como o Ministério das Cidades, a Secretaria de Comunicação do Governo Federal e a Prefeitura de Belém. Além disso, buscamos documentos que abordam os problemas socioambientais que afetam o município e imagens publicadas por moradores do residencial.

Alagamentos e erosão

Entre fevereiro e novembro de 2021, o Serviço Geológico do Brasil (SGB) realizou um levantamento para mapear áreas de risco em Belém. Em Outeiro, foi identificado alto risco de inundação na Comunidade Fé em Deus II, no bairro São João do Outeiro, e muito alto risco de erosão e deslizamento na avenida Beira Mar e na praia Belo Paraíso, no bairro Fama.

De acordo com o documento, os riscos de inundação e alagamentos são agravados pela falta de planejamento urbano e pela ausência de fiscalização em áreas que são proibidas para ocupação. O relatório gerou um mapa entregue à Prefeitura de Belém em dezembro de 2021.

Anos depois, em 2024, os primeiros resultados do Plano Municipal de Redução de Riscos de Belém (PMRR), coordenado pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) em parceria com o Ministério das Cidades, apontaram mais uma vez que os principais desafios enfrentados pelos moradores do município são as inundações e os alagamentos. Além disso, nas ilhas, como é o caso da região onde fica Outeiro, as erosões costeiras também são um fator preocupante.

Durante o evento de lançamento dos resultados iniciais do plano, Kátia Demeda, coordenadora do PMRR Belém, explicou que as inundações estão relacionadas aos ciclos das chuvas e às características geográficas da cidade, que possui vários cursos de água adentrando o perímetro do município. “Ou melhor, a cidade que adentrou sobre esses cursos d’água”, enfatizou a pesquisadora.

Na primeira fase do PMRR, também foram mapeados a falta de saneamento básico adequado, a ausência de pavimentação em algumas ruas e o acúmulo de lixo em locais inapropriados como agravantes para os alagamentos.

Residencial Outeiro

Contratado em 2014, o empreendimento recebeu o investimento total de R$ 97,2 milhões, segundo informações do governo federal. No dia 13 de fevereiro deste ano, foram entregues 1.008 unidades com apartamentos de 43,85 m², distribuídos em 63 blocos de prédios de quatro andares. Ao longo dos anos, o projeto recebeu críticas em razão da demora da conclusão das obras, que foram paralisadas em 2021 e reiniciadas apenas no ano de 2023.

Para a retomada da construção, foi assinado um termo de cooperação que garantiu repasses de R$ 1,6 milhão da Prefeitura de Belém e de R$ 20 milhões do Ministério das Cidades. Na época, o acordo marcou o relançamento do “Minha Casa, Minha Vida” após a substituição do programa pelo “Casa Verde e Amarela” no governo Jair Bolsonaro.

Já em janeiro de 2025, mais de mil famílias beneficiárias do residencial protestaram a fim de reivindicar o recebimento dos imóveis. Os manifestantes alegavam que as obras tinham sido concluídas em novembro de 2024, mas ainda não havia uma data estabelecida para a entrega das moradias.

Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já checou que entrega de chaves de condomínio no Amapá começou no dia de evento com Lula, vídeo que compara casas em comunidade do RN engana ao atribuir estruturas a Lula e Bolsonaro e que é falso que PT tenha projeto de moradia social para abrigar famílias sem teto em casas que já têm dono.

Política

Investigado por: 2025-02-20

Vídeo mostra réplicas usadas em airsoft para acusar Justiça de devolver armas ao crime organizado

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Enganoso
É enganoso que membros de uma organização criminosa tenham conseguido a devolução de armas de grosso calibre por meio da Justiça. O vídeo foi tirado de contexto para parecer que, após uma perícia, a Polícia Civil devolveu armamentos para criminosos. Na verdade, os homens que aparecem nas imagens são produtores de conteúdo digital e as armas são de airsoft, um jogo desportivo onde os participantes simulam operações policiais.

Conteúdo investigado: Vídeo mostra homens saindo de um prédio, que seria uma delegacia da Polícia Civil, com armas. De acordo com o relato deles, o armamento teria passado por uma perícia. O texto que acompanha o post diz: “Justiça determina devolução de armas de grosso calibre a membros de organização criminosa q haviam sido apreendidas pela Polícia. ESSE É O BRASIL GOVERNADO POR BANDIDOS DENTRO DE TODOS OS PODERES! Aceitem o Brasil acabou!”

Onde foi publicado: Telegram, Instagram e X.

Conclusão do Comprova: É enganoso que membros de uma organização criminosa tenham conseguido a devolução de armas de grosso calibre por meio da Justiça. O vídeo foi tirado de contexto. Os homens que aparecem no vídeo são produtores de conteúdo digital e os itens são réplicas de armas de fogo do tipo airsoft, um jogo desportivo onde os participantes simulam operações policiais.

O vídeo em questão foi gravado no dia 10 de fevereiro de 2025, em frente ao Complexo Policial Investigador Bandeira, em Feira de Santana, na Bahia. Nele, dois influenciadores digitais celebram que retomaram a posse de suas armas de airsoft. “Estamos com nossos equipamentos novamente, graças a Deus. Saindo aqui agora da delegacia da Polícia Civil. Todas as armas passaram por perícia. Estamos de volta com nossos equipamentos, viu”, diz um deles.

Após a repercussão do vídeo de maneira enganosa, eles se pronunciaram. Um deles, que se apresenta nas redes sociais como Jean Youtuber, disse em um post no Instagram que está sendo “acusado de tráfico de drogas” e esclareceu que os itens em questão são para a prática de airsoft.

Já Erick Menezes, o outro homem que aparece no registro, se desculpou por ter gravado dentro da delegacia e disse que a intenção do vídeo era justamente mostrar que os materiais apreendidos não eram armas de fogo.

Em outro vídeo, o advogado que representa os dois, Bender Nascimento, afirmou que iniciou tratativas jurídicas para que as postagens fraudulentas sejam retiradas do ar.

Questionada pelo Comprova sobre o conteúdo do vídeo, a Polícia Civil da Bahia explicou que em 20 de dezembro de 2024, a Polícia Militar conduziu quatro homens à Central de Flagrantes de Feira de Santana. Com eles, foram encontrados os seguintes materiais: nove réplicas de arma de fogo (modelos: A4, AK 47, G36, Glock G18, Th Hammer, bereta, revólver) e itens como cinco rádios comunicadores, duas capas de coletes balísticos, chapéu e coturno.

Os homens prestaram depoimento e informaram que são produtores de conteúdo digital, sendo que, na data em que foram conduzidos à delegacia, estavam na Avenida Senador Quintino, no bairro Brasília, em Feira de Santana, realizando gravações.

As nove imitações foram apreendidas e passaram por uma perícia no Departamento de Polícia Técnica. Os demais materiais foram devolvidos aos proprietários. O laudo da polícia constatou que todas as réplicas são do tipo airsoft. Por esse motivo, os itens foram restituídos aos donos, Jean e Erick, pela 1ª Delegacia Territorial de Feira de Santana no dia 10 de fevereiro.

O Comprova não conseguiu contato com o canal do Telegram que divulgou o vídeo nem com uma das contas do X que reproduziu o conteúdo e obteve grande alcance. Uma mensagem foi enviada para uma das contas do Instagram que publicou o vídeo, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. No canal do Telegram, o vídeo contava com 3,6 mil visualizações até 19 de fevereiro. No X, o vídeo já foi divulgado por dezenas de perfis. Um dos posts teve 105,6 mil visualizações, mil curtidas e mil compartilhamentos até a mesma data. No Instagram, a publicação conta com 58,6 mil visualizações.

Fontes que consultamos: Google Maps para verificar o local onde o vídeo foi gravado. As redes sociais dos homens que aparecem nas imagens foram encontradas por meio de uma pesquisa no Google sobre influencers baianos que usam airsoft. A história foi confirmada com a assessoria de imprensa da Polícia Civil da Bahia.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Estadão, o g1, Aos Fatos e a Reuters também mostraram que é enganosa a informação de que criminosos deixaram uma delegacia após recuperar armas de grosso calibre. O Comprova já verificou um post que mentiu ao relacionar a soltura de membros do Comando Vermelho a visitas de “dama do tráfico” ao Ministério da Justiça e outro que enganou ao afirmar um delegado que fez a proteção de Lula durante a eleição tinha ligação com a delação de Marcos Valério.

Notas da comunidade: Em um dos posts do X que divulgam o vídeo, foi adicionada a seguinte nota da comunidade: “As armas eram cenográficas, de airsoft!”, o que coincide com o resultado da apuração do Comprova. O post no Instagram também conta com um alerta de informação falsa. A plataforma informa que o conteúdo passou por análise de verificadores de fatos independentes (Estadão, Aos Fatos e Reuters).

Política

Investigado por: 2025-02-19

Documentos apresentados por senador não são sigilosos e nem provam que ‘modelo de censura’ americano foi aplicado no Brasil

  • Enganoso
Enganoso
Documentos da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não provam que “o modelo de censura americano foi aplicado no Brasil” para manipular as eleições de 2022. A afirmação foi feita nas redes sociais pelo senador Marcos do Val (Podemos-ES). Ele sugere, sem provas, que os documentos são sigilosos – quando na realidade são públicos – e faz sua afirmação sem apresentar provas. O senador ainda acusa o Projeto Comprova de “filtrar informações” como parte do suposto modelo. A USAID e o TSE não estão envolvidos na criação do Comprova, no seu financiamento ou na orientação do seu trabalho, que segue metodologia descrita em seu site e evidenciada em cada verificação.

Conteúdo investigado: Vídeo em que o senador Marcos do Val afirma ter provas claras da intervenção da USAID nas eleições presidenciais brasileiras de 2022. Segundo ele, a interferência se deu com a aplicação no Brasil, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do “modelo de censura” preconizado pela USAID. Uma das diretrizes, afirma Do Val, era a atuação de uma coalizão para checagem de fatos, “filtrando informações que deveriam chegar ao público”. Por trás da iniciativa, segundo o senador, estaria a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Onde foi publicado: Facebook e Instagram.

Conclusão do Comprova: Em um vídeo compartilhado nas redes sociais, o senador Marcos do Val (Podemos-ES) sugere estar revelando documentos secretos que contêm “provas claras” de que “o modelo de censura americano foi aplicado no Brasil” para interferir nas eleições presidenciais de 2022. “Me deram a autorização para falar”, diz ele, acrescentando que guardava o material, em silêncio, desde 2023.

Os documentos, porém, são públicos e podem ser lidos por qualquer pessoa com acesso à internet. O documento produzido pela USAID é de 2021 e traça um panorama da desinformação a nível global, como forma de ajudar seus funcionários e parceiros a compreender seus princípios básicos e a como lidar com o fenômeno, reduzindo os danos de seus impactos. Já o documento do TSE delineia esforços para reduzir os efeitos da desinformação no processo eleitoral brasileiro.

Ambos os documentos citam a checagem de fatos como um dos aspectos para combater a desinformação. Do Val equipara a verificação à “censura”, mas não apresenta provas a respeito de suas afirmações. Como mostra o histórico da atividade do Comprova, o que pode ser verificado em links disponíveis na internet, o projeto não censura ou filtra conteúdos na internet.

O Comprova procurou Marcos Do Val. Não houve retorno até o fechamento desta verificação.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. A publicação teve mais de 3,4 mil visualizações e 3,7 mil curtidas até o dia 19 de  fevereiro.

Fontes que consultamos: O Comprova fez buscas na internet para localizar e ler os documentos mostrados no vídeo. Ao encontrar o link de publicação do documento da USAID no site da agência, mencionado em um arquivo em pdf, recuperou-o no site Web Archive, plataforma que grava e arquiva páginas da internet para consulta posterior, mesmo quando o site original não estiver acessível online. Esse é o caso do site da USAID, que não está ativo. Foram consultados dados sobre os programas de financiamento da agência norte-americana e publicações dos sites do Projeto Comprova e da Abraji. O senador Marcos do Val foi procurado.

Documentos são públicos

No vídeo, Marcos do Val mostra dois documentos que, segundo ele, trazem “provas claras” de que as eleições foram manipuladas. Ele dá a entender que os documentos são sigilosos. Ao se referir a um deles, diz que “a USAID nem imaginava que a gente ia chegar até isso”. O documento, porém, não é sigiloso. Ele foi disponibilizado no site da entidade, como mostra gravação de página no Web Archive. Também é possível consultá-lo em pelo menos dois outros sites (aqui e aqui). A página da USAID está fora do ar, após o início de uma investigação do governo de Donald Trump a respeito das atividades da agência.

O documento, chamado Disinformation Primer, algo como “Guia de Desinformação” em tradução livre, foi produzido pela agência. Ele não apresenta um “modelo de censura”. Como consta na página 1, trata-se de uma cartilha com o objetivo de ajudar funcionários e parceiros da USAID a compreender os princípios básicos da desinformação – como ela é difundida, por que é difundida e como reduzir os danos de seu impacto nas sociedades em todo o mundo.

O outro documento citado por Marcos do Val é intitulado “Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação no Âmbito da Justiça Eleitoral – Plano Estratégico Eleições 2022”. Ele também é público e está disponível no site do TSE. O programa foi instituído na Portaria nº 510, de 4 de agosto de 2021, com a “finalidade de enfrentar a desinformação relacionada à Justiça Eleitoral e aos seus integrantes, ao sistema eletrônico de votação, ao processo eleitoral em suas diferentes fases e aos atores nele envolvidos” (Art. 1).

Guia da USAID não contém ‘modelo de censura’

No vídeo, Marcos do Val diz que a comparação entre os documentos provaria que “o modelo de censura americano foi de fato aplicado no Brasil” para manipular as eleições. Ele menciona “coalizão para checagem de fatos, filtrando informações que deveriam chegar ao público”, como uma dessas “provas”. Neste momento, ele cita a página 52 do guia da USAID e a página 11 do documento do TSE. Segundo ele, a Abraji “estaria por trás dessa checagem de fatos”.

Como consta no site do Comprova, a Abraji é a entidade que mantém e lidera a iniciativa, uma coalizão atualmente composta por 42 veículos.

A partir da página 52, o guia da USAID lista, no tópico “Esforços de Programação Focados em Eleições”, um compilado de ações para reduzir a desinformação adotadas ao redor do mundo para defender a integridade de eleições democráticas. Dentre elas, “construir a capacidade dos corpos de gestão eleitoral para combater a desinformação durante os períodos eleitorais”.

É isso o que propõe o documento do TSE, que descreve, na página 11, o histórico das ações do órgão, desde 2017, para o enfrentamento dos efeitos da desinformação sobre o processo eleitoral.

O documento do TSE cita o guia da USAID dentre uma série de outras referências teóricas, produzidas por “organismos internacionais e por entidades internacionais e nacionais dedicadas ao estudo e ao enfrentamento da desinformação” (Pág. 16).

O fato de o TSE ter tomado medidas contra a desinformação e de a USAID ter feito um guia sobre desinformação não fornecem qualquer prova de que as ações descritas sejam ilegítimas ou tenham influenciado as eleições. Não indicam, também, a existência de alguma relação entre elas ou de “provas claras” de que “o modelo de censura americano foi de fato aplicado no Brasil”.

Programa do TSE não orienta checagem de fatos

O “Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação no Âmbito da Justiça Eleitoral” foi lançado inicialmente nas eleições de 2020. No documento, há previsão para organização de um fluxo de informações entre membros da Justiça Eleitoral e agências de checagem de fatos com o objetivo de verificar “possíveis conteúdos falsos relacionados ao Processo Eleitoral” (Pág. 26). Ainda na mesma página, o TSE destaca que “cada instituição de checagem terá absoluta independência em suas apurações e será responsável pelas checagens que realizar”.

A iniciativa, chamada “Coalizão para Checagem”, também integrou a versão do programa para as eleições de 2022. O material – que é o citado por Do Val no vídeo – descreve, na página 34, que “o ingresso de novas instituições de checagem na coalizão deve levar em consideração seu comprometimento e esforço com o enfrentamento à desinformação, além de aspectos como transparência, apartidarismo, ética jornalística, consistência no trabalho de checagem ao longo dos últimos dois anos, além da aplicação de uma política de correção clara e comunicada ao público”.

Em 2022, a parceria entre o TSE e as agências de checagem envolveu o Comprova. O projeto se chamou Confirma 2022 e sua existência era pública. Em 2023, a iniciativa foi premiada no evento GlobalFact10, realizado na Coreia do Sul. Por meio da parceria, eleitores podiam solicitar informações à corte via WhatsApp e, se houvesse uma verificação publicada a respeito daquele tema, poderiam receber esclarecimentos feitos com base nas verificações já publicadas.

Comprova não ‘filtra’ informações

No vídeo, Marcos do Val afirma a existência de uma “coalizão para checagem de fatos, filtrando informações que deveriam chegar ao público”, tendo por trás a Abraji. Apesar de não citar nominalmente o Comprova, é ao projeto de checagem de fatos liderado pela Abraji que ele se refere.

O Projeto Comprova, porém, não “filtra”, censura ou tira de circulação conteúdos que estão disponíveis na internet. Como descrito no site da iniciativa, o Comprova monitora as redes sociais e recebe de seus leitores sugestões de conteúdos suspeitos ou duvidosos. Aqueles que têm mais viralização são investigados e uma verificação é publicada, com uma de quatro etiquetas possíveis: Enganoso, Falso, Comprovado ou Sátira.

Esse conteúdo com os esclarecimentos é publicado no site do Comprova e pode ser republicado por qualquer veículo de imprensa.

Verbas da USAID

Como consta no site do Comprova, o projeto foi idealizado e desenvolvido pelo First Draft com a colaboração da Abraji, do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), do Google News Initiative e do Meta Journalism Project, e teve início em 2018. Não há, portanto, participação da USAID ou do TSE na fundação do Comprova.

Também não há qualquer envolvimento da USAID ou do TSE no financiamento do Comprova. Até 2024, o Google foi o patrocinador master do projeto, que ainda recebeu recursos da Meta e do WhatsApp.

Ao longo dos anos, o projeto recebeu outros aportes financeiros, dentre eles o da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil – e não da USAID, que é um outro órgão do governo norte-americano. Eles serviram para financiar os projetos +Comunidades, em 2020, no governo de Donald Trump, e +Redações, em 2022, no mandato de Joe Biden. A existência das duas iniciativas, bem como a origem de seu financiamento, é pública.

Os dados sobre os programas de financiamento da USAID estão disponíveis para consulta na internet no portal ForeignAssistance.gov, do governo norte-americano. Conforme o portal, não há qualquer financiamento para o Comprova, a Abraji, agências de checagens ou veículos jornalísticos nos anos de 2022, 2023 e 2024.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já desmentiu outras alegações de Marcos do Val, quando mostrou que Trump não pode prender Alexandre de Moraes e que falas antigas de Drauzio Varella foram usadas para minimizar a gravidade da pandemia de covid-19. Sobre a USAID, o Comprova mostrou recentemente que é falso que a Agência Lupa foi financiada pela USAID para interferir nas eleições de 2022, que imagem de Alexandre de Moraes com boné da USAID foi gerada por IA, que post alega sem apresentar provas que a covid-19 foi criada em laboratório por ordem de Obama e que vídeo é tirado de contexto para dizer que trechos da Bíblia serão banidos das redes sociais.

Mudanças climáticas

Investigado por: 2025-02-17

Emissão de gases de efeito estufa pelo ser humano é responsável pelo aumento da temperatura global, ao contrário do que diz vídeo

  • Falso
Falso
Jornalista norte-americano mente ao negar a relação do dióxido de carbono (CO₂) com o aumento da temperatura na Terra. É fato que a concentração total do gás na atmosfera é de menos de 1%, mas estudos científicos e especialistas atestam que o aumento da emissão do componente químico e de outros gases de efeito estufa ao longo dos anos tem sido o principal responsável pelo aquecimento global.

Conteúdo investigado: Vídeo em que o jornalista norte-americano Alex Newman alega que a crise climática seria uma farsa inventada para controlar as vidas das pessoas. Na ocasião, ele afirma que o dióxido de carbono (CO₂) não polui o meio ambiente e não tem ligação com o aquecimento global.

Onde foi publicado: X.

Conclusão do Comprova: É falso que o dióxido de carbono não tenha relação com o aquecimento global. Segundo o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a elevação da temperatura na superfície global é causada pelo ser humano por meio da emissão de gases de efeito estufa (GEE), principalmente CO₂ e metano (CH4). O documento ainda aponta que as concentrações atuais de CO₂ são mais altas do que em qualquer momento durante pelo menos os últimos dois milhões de anos.

Os GEE absorvem parte do calor do sol que irradia da superfície do planeta. A presença deles impede a perda excessiva de temperatura, o que viabiliza a vida na Terra. Esse fenômeno natural é chamado de efeito estufa. Porém, ao longo dos anos, o rápido aumento da concentração destes gases na atmosfera tem causado a elevação da temperatura do planeta, o que chamamos de aquecimento global.

O vídeo verificado pelo Comprova é de julho de 2023, mas voltou a circular nas redes sociais este ano. O clipe mostra um recorte da participação do jornalista Alex Newman em um evento realizado em Memphis, nos Estados Unidos. Na ocasião, ele defendeu que a concentração de CO₂ é muito pequena e não poderia ser responsável pelo aquecimento global. No entanto, há consenso na comunidade científica sobre o papel do CO₂ no aquecimento do planeta.

Segundo o professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) Micael Amore Cecchini, a concentração total de CO₂ na atmosfera é de menos de 1%, mas não é a quantidade que importa.

“A concentração total de CO₂ na atmosfera é da ordem de 400 ppm (partes por milhão), o que quer dizer que, cada metro cúbico de ar realmente contém muito menos do que 1% de dióxido de carbono. Ainda assim, os dados e os milhares de estudos na literatura mostram que já é suficiente para causar aquecimento global. Que inclusive está sendo mais intenso do que o previsto anteriormente”, explica.

O especialista ainda aponta que, considerando as características moleculares e seu tempo de permanência na atmosfera, é um gás altamente eficiente em gerar efeito estufa.

Uma análise feita por cientistas da agência espacial dos Estados Unidos (NASA) aponta que, em 2024, a temperatura média da superfície da Terra foi a mais quente já registrada. Os dados começaram a ser coletados em 1880. Os pesquisadores concluíram que o aquecimento do planeta nas últimas décadas é impulsionado pelo dióxido de carbono, metano e outros gases de efeito estufa.

O Comprova entrou em contato com o perfil que publicou o vídeo, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até 17 de fevereiro, a publicação no X tinha 37,1 mil visualizações, mais de mil compartilhamentos e 3 mil curtidas.

Fontes que consultamos: O Comprova buscou no Google informações sobre o jornalista citado na publicação no X. A partir da pesquisa, foi possível identificar o histórico de atuação do profissional e sua relação com um meio de comunicação conhecido por propagar desinformação. Também foi consultado o professor do IAG-USP Micael Amore Cecchini, além de relatórios de entidades como ONU e pesquisas científicas sobre as mudanças climáticas.

Emissão de CO₂ é benéfica?

A comunidade científica reconhece que a alta concentração de dióxido de carbono ocasiona uma série de alterações climáticas. Por outro lado, o composto químico desempenha um papel fundamental na fotossíntese. “Algumas plantas se desenvolvem melhor quando o CO₂ aumenta. Mas, com o aquecimento global aumentando a frequência e a intensidade das secas, há uma degradação maior da vegetação”, explica o professor Micael Amore.

Ele cita como exemplo a Amazônia que, no ano passado, sofreu muito com a seca. Entre 1º de setembro de 2023 e outubro de 2024, o monitoramento do Serviço Geológico do Brasil (SGB) identificou que a Bacia do Rio Amazonas, composta também pelos afluentes Purus, Madeira, Solimões, Negro e Paraná do Careiro, apresentou os menores níveis de água desde o início das medições, em 1902.

Para o pesquisador Micael Amore, além da atenção com a saúde da Terra, o que preocupa é a capacidade de sobrevivência da vida humana diante de condições climáticas tão extremas. “O planeta continuará existindo mesmo com as temperaturas elevadas. O grande problema é a sobrevivência e a qualidade de vida humana que está sendo, e continuará a ser, afetada pelo aquecimento global”, destaca.

Diferente do que afirma o jornalista Alex Newman, a redução de emissões de CO₂ pode sim contribuir para a diminuição do efeito estufa e, consequentemente, para a desaceleração das mudanças climáticas. É o que mostra o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Alex Newman e Epoch Times

O homem que aparece no vídeo investigado é o jornalista Alex Newman. Na ocasião, ele participava de um painel no FreedomFest, um evento que ocorreu de 12 a 15 de julho de 2023, na cidade de Memphis, no estado do Tennessee, nos Estados Unidos. No site do festival, Newman aparece como palestrante na mesa intitulada “A Guerra Global contra os Agricultores e a Pressão para comer Insetos”.

O painel focava na divulgação e discussão sobre o documentário “No Farmers No Food: The Coming Food Crisis”, lançado pelo grupo de mídia Epoch Times. O filme aborda uma teoria conspiratória de que a crise climática foi criada por líderes mundiais na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como Rio 92, realizada na cidade do Rio de Janeiro. O propósito seria extinguir o trabalho dos agricultores e, assim, o governo poderia controlar o abastecimento alimentar no mundo.

Newman escreve para o The Epoch Times, um jornal que pertence ao conglomerado de mídia Epoch, fundado por sino-americanos nos anos 2000. Em seu site, a publicação se define como um veículo independente que nasceu da “necessidade de fornecer notícias para um povo imerso em censura na China”. Presente em mais de 30 países, incluindo o Brasil, atualmente a mídia é conhecida pelo viés político de extrema-direita e por propagar desinformação.

Em 2019, o grupo foi banido do Facebook após uma investigação da NBC News revelar que o jornal investia dinheiro em anúncios favoráveis a Donald Trump. No Brasil, o The Epoch Times lançou, às vésperas das eleições de 2022, uma série intitulada “As Eleições do Fim do Mundo”, que dava destaque para um suposto plano de implementação do comunismo no país, envolvendo partidos de esquerda e a China.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já mostrou que é enganoso que o CO₂ não tenha relação com o aquecimento global. Além disso, outra verificação recente demonstrou que é consenso científico que a ação humana causa as mudanças climáticas. Também já foi investigado vídeo que engana ao negar a importância da Amazônia na regulação do clima.

Notas da comunidade: Até a publicação desta verificação, não havia notas da comunidade publicadas junto ao post no X.

Eleições

Investigado por: 2025-02-14

É falso que Agência Lupa foi financiada pela USAID para interferir nas eleições de 2022

  • Falso
Falso
Não há provas de que a Agência Lupa, iniciativa dedicada à checagem de fatos, esteja “envolvida em ações patrocinadas pela USAID", como afirmou no Instagram uma vereadora de Porto Alegre. No portal que registra os financiamentos externos da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) não consta nenhum repasse à Lupa nos anos de 2022, 2023 e 2024.

Conteúdo investigado: Vídeo da vereadora de Porto Alegre Fernanda Barth (PL) afirma que a Agência Lupa estava envolvida em campanhas de financiamento da USAID contra a desinformação em período eleitoral com o objetivo de “calar tudo aquilo que eles não concordam”.

Onde foi publicado: Instagram.

Conclusão do Comprova: Não existem provas de que a Agência Lupa tenha sido financiada pela Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID), como argumenta Fernanda Barth (PL), vereadora em Porto Alegre. Em um post, ela afirmou que a “Agência Lupa é uma das que encontramos envolvidas em ações patrocinadas pela USAID”, mas não apresentou provas.

As alegações de Barth repercutem declarações de Mike Benz, ex-funcionário do departamento de Estado dos EUA, de que a USAID financiou iniciativas de combate à desinformação globalmente com o intuito de conter governos populistas de direita. Benz afirmou que, no Brasil, caso a USAID não existisse, Bolsonaro teria sido eleito presidente em 2022. Ele não apresentou provas que sustentem suas alegações.

Os dados sobre os programas de financiamento da USAID estão disponíveis para consulta na internet no portal ForeignAssistance.gov, do governo norte-americano. O Comprova consultou os valores relacionados ao Brasil nos anos de 2022, 2023 e 2024. Não há qualquer financiamento para a Agência Lupa, agências de checagens ou veículos jornalísticos. Ao Comprova, a Lupa negou ter recebido fundos direta ou indiretamente da USAID.

Procurada, Fernanda Barth negou, por meio de seu advogado, ter partido dela a afirmação de que a Agência Lupa recebeu qualquer valor diretamente da USAID. Segundo ela, a “manifestação se baseia em informações públicas e declarações de parlamentares que já alertaram sobre a atuação da USAID no financiamento de projetos alinhados a determinadas agendas políticas.”

O Comprova informou à vereadora não ter encontrado no site ForeignAssistance.gov nenhuma menção à Lupa. Em resposta, Barth disse que a afirmação categórica de que a Agência Lupa não recebeu recursos da USAID sem que tenha sido realizada uma auditoria externa e isenta de suas contas, configura “uma publicação sem provas concretas”. Ela acrescentou que “a mera negativa por parte das instituições não comprova que esses recursos nunca foram recebidos direta ou indiretamente”.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 14, o vídeo da vereadora havia alcançado mais de 2,5 mil curtidas no Instagram. 

Fontes que consultamos: O Comprova assistiu à entrevista de Mike Benz, consultou suas redes sociais e reportagens da imprensa brasileira e internacional que repercutiram suas alegações. Foram feitas consultas ao portal que registra os financiamentos da USAID e ao site do ICFJ e Agência Lupa. A reportagem fez contato com a Lupa, o ICFJ, a vereadora Fernanda Barth e o deputado Eduardo Bolsonaro.

O ICFJ e o papel de Eduardo Bolsonaro

A suposta ligação entre a USAID e a Agência Lupa foi citada em um post publicado no X pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em 4 de fevereiro, três dias antes da publicação de Fernanda Barth. A postagem de Eduardo Bolsonaro alcançou mais de 435 mil visualizações e oito mil compartilhamentos.

No post, ele afirma, sem provas, que a USAID “tem financiado ONGs, veículos de mídia e movimentos políticos com o objetivo de moldar narrativas e interferir na democracia brasileira.” Eduardo Bolsonaro também afirma que o Centro Internacional para Jornalistas, uma organização sem fins lucrativos baseada em Washington e conhecida pela sigla em inglês ICFJ, intermediou recursos da USAID para a Lupa “sustentar a narrativa oficial sobre os eventos de 8 de janeiro de 2023”. Não constam na postagem evidências dessa acusação.

Em 2023, um projeto da Agência Lupa chamado “Lupa nos Golpistas” esteve entre os nove selecionados para uma iniciativa do ICFJ chamada Jogo Limpo 2.0. A iniciativa ofereceu financiamento e mentorias e, como consta no site do ICFJ, foi integralmente financiado pelo YouTube Brasil e não pela USAID.

O projeto se dedicou a mapear publicações falsas que levaram cidadãos brasileiros a participar dos atos antidemocráticos em Brasília em 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes pró-Bolsonaro depredaram a sede dos Três Poderes.

O projeto “Lupa nos Golpistas” resultou em um minidocumentário que, segundo consta no site da Agência Lupa, foi realizado com apoio da Fundação Heinrich Böl, uma organização sem fins lucrativos baseada na Alemanha, e do programa Jogo Limpo 2.0, do ICFJ. Procurada, a Fundação Heinrich Böll afirmou que “não recebe nenhum recurso da USAID e também não funciona como intermediária de repasse para nenhum de seus parceiros”.

O Comprova informou a Fernanda Barth que a Agência Lupa negou, em nota, ter recebido financiamento direto da USAID ou via ICFJ. Em resposta, a vereadora afirmou que “a existência do ICFJ é financiada pela USAID” e que “é inegável que há um fluxo financeiro entre a USAID e o ICFJ”.

Como afirmou Fernanda Barth ao Comprova, o nome da USAID de fato consta na página “Amigos e Apoiadores 2024” no site do ICFJ. Ele aparece ao lado de mais de 50 entidades públicas e privadas, incluindo outras cinco agências governamentais – o Departamento de Estado dos EUA, três embaixadas norte-americanas e o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido.

Ao Comprova, o ICFJ afirmou que “já recebeu recursos da USAID antes” e que eles foram “concessões de subsídios para executar programas específicos em países específicos”, mas disse que “nunca recebeu financiamento da USAID para nenhum projeto no Brasil” e que “não financiou a Agência Lupa com nenhum recurso da USAID”.

Além disso, a entidade afirmou que nunca “recebeu fundos da USAID para operações gerais ou financiamento institucional.”

Suposto dossiê

A vereadora Fernanda Barth também afirma, no vídeo, que a Agência Lupa fez um dossiê de 10 páginas contra ela, o que teria resultado no bloqueio de seu perfil no Instagram. A Agência Lupa negou, respondendo que, sobre ela, produziu a seguinte checagem: Vereadora de Porto Alegre usa informações falsas para criticar vacina em vídeo viral.

“Não fizemos nenhum tipo de dossiê sobre a vereadora, mas checamos essa manifestação dela, assim como checamos um sem número de manifestações públicas de outros ocupantes de cargos eletivos sobre os mais variados temas”, disse a Lupa.

Uma busca por outras checagens da agência mostra que Fernanda Barth aparece citada em uma outra checagem, mas não como a responsável pela alegação checada. O texto, de 2020, mostra que é falso que a então candidata à Prefeitura de Porto Alegre Manuela D’Ávila publicou propaganda de campanha com foice e martelo de brinquedo para festejar o Dia das Crianças.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Aos Fatos concluiu que a denúncia sobre atuação da USAID contra Jair Bolsonaro é baseada em desinformação. Recentemente, o Comprova mostrou que imagem de Alexandre de Moraes com boné da USAID foi gerada por IA, que post alega sem apresentar provas que a covid-19 foi criada em laboratório por ordem de Obama e que vídeo é tirado de contexto para dizer que trechos da Bíblia serão banidos das redes sociais. As duas últimas checagens também mencionam a USAID.

Notas da comunidade: Até o fechamento deste texto não havia “notas da comunidade” nas postagens no X de Eduardo Bolsonaro e de Mike Benz com sua entrevista a Steve Bannon.

Política

Investigado por: 2025-02-13

Vídeo de homem falando em ‘abraçar o capeta’ é de programa humorístico, não de ministro de Lula

  • Enganoso
Enganoso
Um post engana ao dizer que um ministro do governo Lula (PT) teria ofendido os brasileiros e proposto uma “aliança com o capeta”. A publicação usa vídeo do Porta dos Fundos, produtora de vídeos de humor. A gravação é protagonizada pelos atores Luis Lobianco e Fabio Porchat e uma rápida busca no Google mostrou tratar-se da esquete “Aliança com o Demo”, publicada em 2022.

Conteúdo investigado: Post com vídeo em que um homem fala sobre política, pergunta se “a solução não é a gente abraçar o capeta?” e propõe um governo satanista, que substitua a bíblia pela constituição. A legenda afirma: “Ouça o que o ministro do Lula disse sobre a família brasileira. Você e eu pagamos o salário pra esse cara ir a público dizer isso, veja só. Ele mandou a família brasileira ir a… Isso é postura de ministro?”.

Onde foi publicado: X.

Conclusão do Comprova: É enganoso que um homem que faz declarações sugerindo “abraçar o capeta” em um vídeo compartilhado nas redes sociais seja ministro do governo Lula. Ele é, na verdade, o ator e comediante Luis Lobianco. Ao lado do também ator Fabio Porchat, os dois interpretam personagens fictícios em um quadro de humor do canal Porta dos Fundos.

O vídeo utilizado pela postagem com informação falsa reuniu recortes do episódio “Aliança com o demo”, publicado no YouTube no dia 15 de setembro de 2022, às vésperas das eleições presidenciais. Lobianco interpreta o personagem Sérgio Góes, um candidato a presidente do Brasil que é entrevistado por Edson, personagem de Porchat.

Além de Lobianco não ocupar cargo de ministro no governo, não há nenhuma menção em sites de notícias de que algum ministro de Lula tenha feito alguma declaração parecida.

Apesar de muitas pessoas terem deixado comentários dizendo se tratar de um vídeo de humor, houve quem acreditasse no conteúdo. “A própria palavra de Cristo diz que não devemos dar créditos a essa gentalha que fala de Deus honrando com os lábios, mas suas ações e atitudes são completamente inversas” e “É um canalha satânico, que quer impor a satanice dele no Brasil, vai pro inferno Satanás” foram alguns dos comentários feitos no post.

No vídeo publicado no X, aparece uma marca d’água de um canal na rede de vídeos Kwai. O Comprova encontrou a página original que, apesar de ter recebido mais de 350 mil curtidas, está vazia, o que sugere que o canal tenha apagado as suas publicações.

A reportagem tentou contato com o perfil que publicou o post, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até 13 de fevereiro, o post tinha sido visualizado mais de 3,6 mil vezes.

Fontes que consultamos: Pesquisa no Google a partir da identificação de Lobianco e Porchat.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O conteúdo enganoso já foi checado pelo UOL Confere, G1, Agência Lupa e Boatos.org. O Comprova também já checou que ”advogado do PT” em vídeo do Kwai é personagem de humor, vídeo satírico de Lula pedindo votos para Bolsonaro em 2026 foi gerado por IA e que entrevista sobre voto foi feita por humorista, não pelo Datafolha.

Notas da comunidade: Até a publicação desta verificação, o X não havia acrescentado notas da comunidade à postagem em questão.

Política

Investigado por: 2025-02-12

Vídeo é tirado de contexto para dizer que trechos da bíblia serão banidos de redes sociais

  • Enganoso
Enganoso
Post retira de contexto trecho de um vídeo antigo em que a jornalista Daniela Lima, então âncora na CNN Brasil, comentava uma postagem publicada pelo ex-deputado federal Deltan Dallagnol. A edição do vídeo faz parecer que era da jornalista e não do deputado a alegação de que trechos da bíblia serão proibidos porque podem ser interpretados como discurso de ódio.

Conteúdo investigado: Post com vídeo da jornalista Daniela Lima, no programa CNN 360º, dizendo que trechos da bíblia serão proibidos porque podem ser interpretados como discurso de ódio. Sobre a imagem, é aplicado o texto “Exemplo de discurso e pessoa recrutada pela USAID para propagar mentiras e defender a censura da direita no Brasil”.

Onde foi publicado: Instagram, X e Facebook.

Conclusão do Comprova: É enganoso um post nas redes sociais que retira de contexto o trecho de um vídeo com comentário feito pela jornalista Daniela Lima para atribuir a ela uma fala que, na verdade, é do ex-deputado federal Deltan Dallagnol, no contexto da discussão do Projeto de Lei 2630/2020, o PL das Fakes News.

O trecho em questão foi retirado de uma fala de Daniela no programa CNN 360° veiculado no dia 1º de maio de 2023. No vídeo, a partir dos 58 minutos e 28 segundos, ela comenta sobre um pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a favor do fim da desinformação. Na sequência, a jornalista discorre sobre a pressão das big techs e dos setores conservadores do Congresso Nacional contra o Projeto de Lei, que atualmente está travado no legislativo, e sobre a desinformação que estava sendo propagada a fim de posicionar critãos contra o texto.

A partir de uma hora, dois minutos e 22 segundos, Daniela expõe a pressão dos parlamentares evangélicos para o não andamento do projeto e diz que vai citar um político que pautou uma grande discussão na semana anterior. Então, emenda: “Ele disse: trechos da bíblia serão proibidos de circular porque podem ser interpretados como discurso de ódio. Trechos que falam contra a população LGBTQIA+. E se você repetir, na rua, o que ele tá querendo que você possa dizer na internet, você pode ser indiciado por homofobia. Que prega a submissão da mulher ao seu marido. Oi? Século 21. Eu pago as contas da minha casa.” Na época, a fala de Dallagnol gerou repercussão e chegou a ser desmentida pelo Comprova.

Nesta semana, o vídeo voltou a circular nas redes sociais do verador Carlos Bolsonaro (PL-RJ).. Na publicação, ele escreve que a fala da jornalista é “um exemplo de discurso e pessoa recrutada pelo USAID [Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional] para propagar mentiras e defender a censura da direita no Brasil”.

Recentemente, a USAID, responsável por 40% dos programas de ajuda humanitária do mundo, tem sido alvo de ataques do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do bilionário Elon Musk. No Brasil, a Agência também tem sido alvo de desinformação.

O Comprova entrou em contato com o gabinete do vereador Carlos Bolsonaro por e-mail, mas até a publicação deste texto, não houve resposta.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Carlos Bolsonaro tem 3,2 milhões de seguidores no Instagram e a publicação em questão já possuía 9,7 mil comentários até o dia 12 de fevereiro. No Facebook, o post acumula 1,2 mil compartilhamentos. No X, o vídeo alcançou mais de 100 mil visualizações e 6 mil curtidas.

Fontes que consultamos: O Comprova consultou o vídeo completo do programa CNN 360º veiculado no dia 1º de maio de 2023 e disponível no YouTube. Além disso, buscou as versões dos textos do PL 2630/2020 a fim de averiguar o que estava descrito na proposta sobre manifestações religiosas.

Desinformação propagada por ex-deputado

Em abril de 2023, a informação de que trechos da bíblia seriam banidos das redes sociais começou a circular na internet por meio de publicações do então deputado federal Deltan Dallagnol. No X, Facebook e Telegram, a mensagem ganhou repercussão diante do debate sobre o PL 2630/2020.

Dallagnol alegava que, caso aprovado, o PL das Fake News seria responsável por censurar a fé. Em posts alarmistas, ele convocava cristãos a impedir a votação do projeto na Câmara dos Deputados. Mas na realidade o texto deixava claro que manifestações religiosas não seriam impactadas pela legislação.

O artigo 6º do texto inicial previa que não seriam restritas manifestações artísticas, intelectuais ou de conteúdo satírico, religioso, político, ficcional ou literário. A última versão do PL, entregue pelo relator Orlando Silva (PCdoB-SP) ainda no mês de abril, também não citava a proibição de trechos bíblicos.

À época, o relator chegou a anunciar mudanças no texto para deixar ainda mais explícito que o PL não tinha a intenção de vedar citações da bíblia. Nas redes sociais, Orlando Silva publicou um vídeo gravado com a presença do deputado Cezinha da Madureira (PSD-SP), ex-coordenador da Frente Parlamentar Evangélica, para esclarecer que o projeto não pretendia censurar a prática religiosa.

Um ano depois, em abril de 2024, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), anunciou o engavetamento do PL 2630/2020. Na ocasião, ele também divulgou que seria criado um grupo de trabalho para debater um novo projeto de regulamentação das redes sociais no Brasil.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Estadão já verificou que houve manipulação no vídeo em que a jornalista Daniela Lima aparece comentando sobre o PL das Fake News. O Comprova desmentiu o boato de que o Projeto de Lei iria proibir versículos bíblicos nas redes sociais e também mostrou que é falsa uma imagem que circula pela internet do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, com o boné da Agência.

Notas da comunidade: Até a publicação desta verificação, o X não havia acrescentado notas da comunidade à postagem em questão.

Saúde

Investigado por: 2025-02-11

Post alega sem apresentar provas que covid-19 foi criada em laboratório por ordem de Obama

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso que o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama tenha ordenado a criação do vírus da covid-19, no ano de 2015. Não há documentos ou evidências que comprovem essa acusação. O conteúdo investigado faz uso de teorias conspiratórias e descontextualiza publicações científicas.

Conteúdo investigado: Post afirmando que documentos oficiais provam que o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ordenou a criação do vírus da covid-19. 

Onde foi publicado: X e site Infowars.

Conclusão do Comprova: É enganoso o conteúdo de um post no X que afirma que documentos federais provam que o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama ordenou a criação da covid-19 em 2015, e que a doença tem sido usada como arma biológica desde então.

O post compartilha o link para uma publicação do site Infowars, criado em 1999 pelo conspiracionista de extrema-direita Alex Jones. Segundo o site, o documento comprobatório teria vindo à tona após o atual presidente Donald Trump assumir o controle da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), uma das maiores agências de ajuda humanitária do mundo.

No entanto, a publicação não compartilha qualquer documento e se resume a declarações vagas feitas em entrevista de Jones com o advogado Tom Renz no dia 6 de fevereiro deste ano. A única menção a Obama é feita por Jones no vídeo quando ele diz que cobriu um “grande escândalo” em 2015 quando cientistas denunciaram que Obama estava criando um vírus e que este foi “movido para Wuhan”, na China, para que, quando o vírus fosse implementado, fosse possível negar o envolvimento dos EUA.

Em 2014, os EUA suspenderam financiamentos para estudos de “ganho de função” envolvendo vírus Influenza, Sars e Mers para avaliar os “riscos potenciais associados”. Na época, o National Institutes of Health (NIH) financiava um estudo na Universidade da Carolina do Norte que, usando engenharia reversa no vírus Sars-CoV, apontou um “risco potencial de ressurgimento do SARS-CoV a partir de vírus que atualmente circulam em populações de morcegos”.

No entanto, não é possível afirmar que o vírus tenha vazado a partir deste estudo ou de algum outro financiado pelos EUA. Os autores da alegação também não apresentaram documentos que provem que Obama mandou fabricar a covid-19 para usar como arma biológica.

O Comprova procurou o autor da declaração, o radialista Alex Jones – que já teve conteúdos banidos de redes sociais por disseminar desinformação e discurso de ódio – mas não obteve resposta até a publicação desta verificação. Um dos e-mails retornou sem ser entregue ao destinatário

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. A publicação investigada aqui acumula mais de 9 mil interações apenas no X até 11 de fevereiro.

Fontes que consultamos: Primeiramente, o Comprova acessou o site compartilhado na publicação no X a fim de averiguar a confiabilidade da fonte. Em seguida, por meio de pesquisa no Google, investigamos quais informações públicas existiam sobre o responsável pelo site Infowars. Dessa forma, foi possível encontrar diversas matérias e reportagens sobre as teorias conspiratórias propagadas por Alex Jones.

Também consultamos pesquisas e estudos científicos publicados a partir de 2014 a respeito da origem da covid-19 e sua possível relação com o governo Barack Obama. Buscamos ainda o artigo da revista Nature citado durante o vídeo investigado, compartilhado no site Infowars. Além disso, ouvimos um pesquisador na área de Biociências e Zoologia, o professor Daniel Lahr, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

Documentos provam que Obama mandou criar o Sars-CoV-2?

Não. A alegação se mistura à teoria não confirmada de que o Sars-CoV-2 escapou de um laboratório de Wuhan, na China, após estudos feitos em parceria com pesquisadores norte-americanos. O que aconteceu foi que, em 2014, pesquisadores liderados pelo virologista Ralph Baric, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, nos Estados Unidos, conduziram um estudo que apontou que um aglomerado de coronavírus circulantes em morcegos, semelhantes aos SARS, mostrava potencial para uma emergência de saúde em humanos.

Para realizar o estudo, os cientistas usaram um sistema de genética reversa do vírus Sars-CoV – mapeado em 2003, ou seja, diferente do SARS-CoV-2, que causa a covid-19 – para gerar um vírus quimérico, isto é, híbrido. Esse vírus quimérico mostrava o pico do coronavírus de morcego em uma estrutura de Sars-CoV adaptada em camundongos. O resultado foi que o vírus se replicava com eficiência nas vias respiratórias dos camundongos, o que sugeria um “risco potencial de ressurgimento do Sars-CoV a partir de vírus que atualmente circulam em populações de morcegos”.

A pesquisa foi aprovada no Comitê de Biossegurança Institucional da Universidade da Carolina do Norte e recebia financiamento do governo dos Estados Unidos através do National Institutes of Health. No entanto, em outubro de 2014, quando o estudo ainda estava em andamento, o governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Barack Obama, decidiu suspender o financiamento de pesquisas de “ganho de função” envolvendo os vírus influenza, SARS e MERS enquanto avaliava “os riscos potenciais associados“.

O ganho de função ocorre quando um organismo — ou um vírus — ganha outras habilidades. No caso dos vírus, pesquisas assim costumam ser feitas para que se descubra como combatê-los num momento em que, eventualmente, se tornem mais transmissíveis ou mais perigosos. Segundo os autores do estudo, houve um pedido de reavaliação do financiamento e o NIH liberou a continuidade. O virologista Ralph Boric disse ao Washington Post que a pesquisa foi avaliada como não sendo de ganho de função.

Um artigo derivado do estudo foi publicado em 2015 pela renomada revista científica Nature. Em março de 2020, os editores publicaram uma nota informando estar cientes de que o conteúdo estava “sendo usado como base para teorias não verificadas de que o novo coronavírus que causa a COVID-19 foi projetado”. A nota disse ainda: “Não há evidências de que isso seja verdade; os cientistas acreditam que um animal é a fonte mais provável do coronavírus”.

Em maio do ano passado, a revista Vanity Fair publicou uma reportagem com base no conteúdo de entrevistas de Ralph Boric ao Subcomitê Seleto de Supervisão e Responsabilidade sobre a Pandemia do Coronavírus e o Subcomitê de Supervisão e Investigações de Energia e Comércio, ambos da Câmara e ambos liderados por Republicanos.

Ele disse que, em Chapel Hill, a pesquisa era desenvolvida em laboratórios com instalações de nível de biossegurança 3 (BSL-3), mas que, mais tarde, no Instituto de Virologia de Wuhan, na China, a pesquisa estaria sendo feita em um laboratório com nível inferior, BSL-2. O pesquisador também afirmou que acredita ser muito mais provável que o SARS-CoV-2 tenha se espalhado naturalmente de animais para humanos, “dada a grande abundância de vírus na natureza”, mas declarou que não pode descartar um vazamento do laboratório.

O nome do presidente Obama vem sendo nos últimos anos associado à criação do SARS-CoV-2 como uma arma biológica, possivelmente, devido ao financiamento federal para o estudo, mas também por conta de uma declaração feita por ele em dezembro de 2014, na sede do NIH, em Maryland. Na época, ele visitou as instalações do instituto para falar sobre o combate ao vírus Ebola, que assolava países da África.

Em determinado momento do discurso, Obama ressaltou a importância de fazer pesquisas que pudessem se antecipar a cenários mais catastróficos. “Pode e provavelmente chegará um momento em que teremos uma doença transmitida pelo ar que é mortal. E para que possamos lidar com isso efetivamente, temos que colocar em prática uma infraestrutura — não apenas aqui em casa, mas globalmente — que nos permita vê-la rapidamente, isolá-la rapidamente, responder a ela rapidamente. E também exige que continuemos o mesmo caminho de pesquisa básica que está sendo feito aqui no NIH”, disse.

Na mesma época, esta imagem viralizou como se mostrasse Obama em um laboratório de Wuhan. Na verdade, a foto foi feita em Maryland, nas instalações do NIH, em dezembro de 2014.

O Comprova tentou contato com o virologista Ralph Boric, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.

Evidências apontam transferência de morcego para humanos

A teoria de que o Sars-CoV-2 teria sido fabricado em laboratório não é recente. No ano de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia negado essa hipótese, afirmando que o mais provável era que a transmissão tivesse ocorrido de um animal para os humanos. Mais de cinco anos após a crise sanitária, o professor Daniel Lahr, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), afirma que essa ainda é a origem com mais evidências.

“A ciência depende da evidência disponível, e até onde temos evidência, o organismo mais próximo com o qual o Sars-CoV-2 compartilha um ancestral em comum é um vírus que infecta morcegos na China. Isso está bastante claro”, explica.

Segundo o pesquisador, estudos indicam que a transferência do vírus do morcego para o humano teria ocorrido nos últimos meses de 2019. Além disso, a descoberta do mercado de Wuhan, na China, como epicentro da pandemia, apenas trouxe mais evidências de que a origem da doença veio da transferência de animais.

“É essa a origem que a maior parte da evidência científica indica. A transferência de um hospedeiro animal para um hospedeiro humano. Devido às características desse epicentro, uma localidade extremamente densa, com muita gente e circulação enorme, tanto de animais quanto de pessoas, o vírus foi se propagando e conseguindo então velocidade para causar uma epidemia”, destaca Daniel Lahr.

Para ele, é pouco plausível a hipótese da criação do coronavírus como uma arma biológica. “É algo que nunca foi feito. Custa muito caro, exige uma estrutura muito grande. Se alguém estivesse ou está tentando construir um vírus causador de pandemia, deveria haver evidências e simplesmente não há”, finaliza.

Infowars e teorias da conspiração

O conteúdo aqui investigado foi originalmente publicado no site Infowars, um portal norte-americano de extrema-direita fundado em 1999 e conhecido por propagar teorias da conspiração e informações falsas. Foi criado por Alexander Emerick Jones, mais conhecido como Alex Jones, radialista e conspiracionista já processado e condenado pela Justiça pela disseminação de desinformação.

Em 2018, Facebook, Youtube, Spotify e Apple baniram de suas plataformas conteúdos de Jones que propagavam discurso de ódio. No mesmo ano, o conspiracionista foi banido do X por violar a política de comportamento da plataforma. Mas seu retorno para a rede social foi autorizado por Elon Musk em 2023.

Um ano depois, em 2024, Alex Jones foi condenado a pagar quase 1,5 bilhão de dólares aos familiares das vítimas do tiroteio ocorrido na escola primária de Sandy Hook, em Connecticut, nos Estados Unidos, em 14 de dezembro de 2012. Por anos, ele afirmou que o massacre que resultou na morte de 20 crianças e seis adultos foi fabricado pelo governo americano e pelos defensores do desarmamento.

O radialista chegou a dizer que os pais das vítimas seriam atores e que alguns nunca nem existiram. Com a denúncia por difamação e as condenações na Justiça, Jones declarou falência no Texas, seu estado natal. Um juiz autorizou a liquidação dos seus bens para o pagamento de indenização às famílias das vítimas do tiroteio.

Como parte da liquidação dos ativos, o Infowars foi à leilão e, inicialmente, comprado pelo portal de sátiras The Onion. Em novembro de 2024, o CEO da empresa anunciou em um editorial a aquisição do site. Porém, um mês depois, o juiz de um tribunal de falências no Texas impediu a venda por falhas no procedimento do leilão.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já mostrou ser falso que a criação do vírus da covid-19 esteja comprovada, que é enganoso que e-mail de Anthony Fauci mostrado no Fantástico prove origem do vírus em laboratório e que o Nobel de Medicina Tasuku Honjo não disse que o coronavírus é artificial.

Notas da comunidade: O X não liberou notas da comunidade para o post investigado até a publicação desta verificação.