O Projeto Comprova reúne jornalistas de 33 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas, processo eleitoral e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vem sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
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Pandemia

Investigado por:2020-07-17

Texto engana ao dizer que cloroquina cura 98,7% dos pacientes com covid-19

  • Enganoso
Enganoso
O estudo citado em um texto que circula pelas redes sociais não é conclusivo e foi feito com uma metodologia contestada
  • Conteúdo verificado: Post do site Sappno afirma que estudo provou que o uso de cloroquina e azitromicina é responsável pela cura de 98,7% dos pacientes com covid-19 em um hospital francês

Um texto publicado em maio no site Sappno e compartilhado recentemente por páginas do Facebook como “Aliança pelo Brasil” e “Lava Jato Notícias” traz informações equivocadas sobre o uso de medicamentos como hidroxicloroquina e azitromicina. A publicação engana ao sugerir que esses medicamentos têm eficácia comprovada no tratamento da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, usando como fonte um estudo que não segue métodos capazes de chegar a essa conclusão.

Com o título “Estudo diz que a cloroquina ‘é segura’ e aponta cura de 98,7% dos pacientes”, o texto faz referência a um artigo publicado na plataforma ScienceDirect e vinculado à revista Travel Medicine and Infectious Disease em maio de 2020. Porém, o estudo tem qualidade científica questionada, uma vez que a metodologia utilizada não permite conclusões de causa e efeito em relação ao uso do medicamento e o tratamento da covid-19.

Entre os autores do estudo está Didier Raoult, infectologista francês criticado na comunidade científica por utilizar métodos duvidosos em suas pesquisas. Raoult ganhou projeção durante a pandemia por propor, na mídia, o uso da hidroxicloroquina para tratar a covid-19 antes mesmo de ter publicado pesquisa a respeito – o que chegou ao conhecimento de líderes como o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que chamou a proposta de “cura milagrosa”.

Como verificamos?

Para verificar o conteúdo, o Comprova acessou a publicação original do estudo mencionado pelo texto que viralizou, no site ScienceDirect. Depois, comparou o conteúdo do post do site Sappno com o que estava de fato no artigo científico. Para entender sobre a razoabilidade da metodologia científica aplicada, além de pesquisar sobre o assunto em veículos jornalísticos, entrevistamos Natalia Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência – organização dedicada à promoção do pensamento científico e do uso de evidências científicas nas políticas públicas.

Além disso, pesquisamos sobre a posição de órgãos de saúde como a OMS (Organização Mundial da Saúde) a respeito do uso da cloroquina. Sobre o medicamento, também entrevistamos o médico Antônio Carlos Bandeira, professor de Infectologia da UniFTC e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Ao analisar os nomes dos pesquisadores envolvidos na produção do artigo, encontramos Didier Raoult. A partir disso, buscamos em publicações na imprensa e nas redes sociais sobre a atuação do pesquisador tanto antes quanto durante a pandemia. Também entrevistamos Pasternak sobre o assunto.

Para compreender sobre o processo de aprovação de artigos científicos pela Travel Medicine and Infectious Disease, também tentamos entrar em contato via e-mail com a pesquisadora Patricia Schlagenhauf-Lawlor, editora-chefe. No entanto, não tivemos retorno até o fechamento desta verificação.

A credibilidade da revista no meio acadêmico também foi analisada, comparando-a com as revistas mais respeitadas da área, como Lancet e New England Journal of Medicine. É possível medir a credibilidade de revistas científicas a partir do fator de impacto – número calculado a partir de quantas vezes artigos daquela determinada publicação foram citados em outros estudos. Quanto maior o número, maior tende a ser a credibilidade. Enquanto a Travel Medicine and Infectious Disease tem fator de impacto 4.589, a Lancet tem 60.392 e a New England Journal of Medicine tem 74.699.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 17 de julho de 2020.

Verificação

O texto viral e o estudo

O texto que viralizou começa dizendo que “boa parte da mídia parece fazer uma verdadeira campanha contra o uso da cloroquina” para tratar pacientes com covid-19 e que “pesquisadores sérios em várias partes do mundo reconhecem a eficácia do medicamento”. Essa afirmação não é verdadeira. As informações que têm sido veiculadas pela imprensa sobre o uso da cloroquina, e de seu derivado hidroxicloroquina, são baseadas em estudos reconhecidos com credibilidade pela comunidade científica e por órgãos de saúde.

A cloroquina é um medicamento antigo usado contra a malária. A hidroxicloroquina é utilizada no tratamento de doenças autoimunes, como artrite reumatoide e lúpus. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), embora a cloroquina possa ter algum impacto sobre alguns pacientes com covid-19, não há, até o momento, tratamento efetivo ou drogas comprovadas contra o novo coronavírus. Sabe-se, ainda, que a cloroquina pode causar efeitos colaterais como arritmias, hepatite, pancreatite e choque anafilático.

O estudo citado pelo texto viral é intitulado “Tratamento precoce de pacientes com covid-19 com hidroxicloroquina e azitromicina: uma análise retrospectiva de 1.061 casos em Marselha, França”. O post afirma que “a administração combinada” dos dois medicamentos “antes da ocorrência de complicações com covid-19 é segura e associada a uma taxa de mortalidade muito baixa nos pacientes” – o que, de fato, consta da conclusão da pesquisa.

Porém, em entrevista ao Comprova, Natalia Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e presidente do Instituto Questão de Ciência, afirmou que esses medicamentos “não funcionam nem separados nem em combinação” no tratamento da covid-19. Sobre o uso em combinação, ainda segundo ela, sabe-se também que há um aumento significativo de risco cardíaco.

De acordo com o médico Antônio Carlos Bandeira, professor de Infectologia da UniFTC e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), “não existe comprovação (da eficácia da cloroquina ou da hidroxicloroquina) até o momento, considerando os estudos que já foram feitos”. “A verdade é que a gente não tem segurança para tratar em massa as pessoas com cloroquina”, diz, em entrevista ao Comprova.

O médico lembra ainda que a maior parte dos pacientes com covid-19 se cura sem maiores problemas. “Então, não é porque a pessoa se curou que a cloroquina funciona. É para isso que existem os estudos randomizados e com grupos de controle – para mostrar se, com esse medicamento, as pessoas se curariam mais ou não”, lembra. A SBI afirma que não há evidência para o uso da cloroquina e não apoia o uso do medicamento no tratamento do novo coronavírus.

O método utilizado pelo estudo

Como o título antecipa, o estudo realizou uma análise retrospectiva. Isso significa que a pesquisa toma como base dados já disponíveis – nesse caso, fichas hospitalares – e não pressupõe uma intervenção direta dos pesquisadores no tratamento. Trata-se de um estudo observacional.

O método científico considerado mais confiável é o ensaio clínico randomizado controlado. Para realizá-lo, os pesquisadores recrutam um grupo de participantes voluntários, realizam uma intervenção e acompanham os efeitos por meses. Há algumas características importantes que um estudo desse tipo deve cumprir para seja considerado bom. Uma delas é a existência de um grupo de controle – ou seja, os participantes devem ser separados em no mínimo dois grupos (um recebendo o tratamento e outro não, por exemplo) para que seja possível fazer uma comparação entre eles. A randomização também é importante, isto é, uma alocação aleatória de participantes entre os grupos de controle. Outras características são controle de placebo e duplo-cego (quando, para evitar vieses, nem os pesquisadores nem os participantes sabem quem recebeu placebo).

Em entrevista ao Comprova, Pasternak afirmou que o estudo observacional “já não é uma qualidade de metodologia científica que possibilita que a gente tire conclusões sobre qualquer tipo de relação de causa e efeito”. Segundo a pesquisadora, esse tipo de estudo serve para direcionar se vale a pena fazer um estudo “desenhado, direitinho, prospectivo – daí que você olha pra frente –, randomizado, duplo-cego, com grupo placebo, tudo certinho”.

Além dessa questão metodológica, o artigo mencionado pelo texto viral é de qualidade questionável. “Nem grupo de controle de comparação eles usaram. Todo mundo no estudo deles tomou [os medicamentos]. Não tem comparação. Numa doença em que você tem 90% de taxa de cura. Então, o que eles estão dizendo? ‘Olha, todo mundo que tomou hidroxicloroquina melhorou. Mas a gente não sabe se quem não tomou também melhorou porque a gente nem olhou isso’. Não faz sentido nenhum”, afirmou Pasternak.

Isso também se confirma em relação à faixa etária mais afetada pela covid-19. “Se você for olhar nas tabelas, você vai ver que os pacientes que tiveram um bom desfecho têm a idade média em torno de 40 anos. Os que tiveram um desfecho pior têm a idade média em torno de 60”, disse a pesquisadora. Ou seja, os resultados repetem um padrão da pandemia de covid-19, impossibilitando a associação com o consumo específico de hidroxicloroquina e azitromicina.

Quem é Didier Raoult

Um dos autores do artigo é o infectologista francês Didier Raoult, que já havia aparecido em verificação do Comprova do 10 de julho. Raoult foi criticado diversas vezes pelos métodos duvidosos (como erros, omissões, mecanismo deficiente de controle, distribuição não randomizada de pacientes para os grupos de controle) de pesquisas e por posicionamentos em relação à cloroquina. É um negacionista do aquecimento global e é contra a vacinação obrigatória.

A cloroquina já havia sido considerada para tratamento de infecções de outros tipos de coronavírus após as epidemias de SARS e MERS. Mas, na época, não foram feitos testes clínicos em humanos para confirmar a eficácia da droga. Em março, antes mesmo de publicar seu primeiro artigo sobre o tema, Didier Raoult deu uma entrevista para a rede de TV americana Fox News sobre o uso do medicamento para tratar pacientes com covid-19.

Pouco depois, um artigo publicado por ele ainda em março sugeria que a cloroquina poderia ser usada como tratamento para o SARS-CoV-2, o novo coronavírus. Esse estudo, porém, foi muito criticado. Outros pesquisadores questionaram os resultados e os considerados anedóticos, sem comprovação científica. A International Society of Antimicrobial Chemotherapy e a Elsevier, responsáveis pela revista que publicou o artigo, anunciaram um novo processo de revisão independente.

Na entrevista que concedeu à New York Times Magazine em maio, Raoult contou que estava concluindo um novo estudo com 1.061 pacientes usando uma combinação de hidroxicloroquina e e azitromicina e cujos resultados preliminares foram publicados em abril. Trata-se do estudo presente no post que viralizou, analisado acima. A versão preliminar havia sido tuitada pelo deputado federal Marco Feliciano. O tuíte, até o fechamento dessa verificação, tinha mais de 1,5 mil compartilhamentos e 3,6 mil curtidas. Na versão anterior do estudo, as drogas foram caracterizadas como “seguras e eficazes”. A versão atual as define apenas como “seguras”.

Na época, o Aos Fatos explicou que a pesquisa não tinha um grupo de controle que pudesse ser usado para comparar os resultados. “Papers como este último do francês são chamados de descrições de caso, um tipo de estudo que pode surgir de observações dos médicos em seu dia a dia. Normalmente, essas pesquisas têm um número pequeno de casos, não têm grupo de controle e não permitem tirar conclusões sobre a eficácia de um medicamento”, explicou o site.

Segundo a New York Times Magazine, a virologista Christine Rouzioux afirmou que a taxa de cura apontada no estudo é “quase idêntica” à que foi descrita se você deixar a doença seguir o seu curso natural. A virologista Karine Lacombe discordou que o artigo demonstre que a combinação das duas drogas seja eficaz para tratar a covid-19. Raoult também não havia obtido autorização das autoridades competentes para testar a combinação das duas drogas.

Em entrevista ao Comprova, Natalia Pasternak afirmou que Raoult é conhecido na comunidade científica como um “publicador em série”. “Ele publica muito mais do que seria humanamente possível, levando a comunidade científica a acreditar que ele simplesmente coloca o nome dele em todos os papers que saem do centro de pesquisa dele, do hospital dele e de trabalhos dos quais ele nunca participou. Então, se fizer a conta da periodicidade com que ele publica, é como se ele publicasse um paper a cada três dias. É uma coisa que é humanamente impossível”, explicou a pesquisadora da USP. Verificação anterior do Comprova mostrou que Raoult já teve 157.174 citações ao seu nome em artigos científicos publicadas desde 1995; ressaltando que ele assina seu nome em quase todos os artigos produzidos em seu instituto.

Pasternak também classifica de “antiética” a postura de Raoult sobre a hidroxicloroquina durante a pandemia. “Mesmo antes da publicação daquele primeiro paper infame dele, que deu origem a todo esse hype, ele foi na mídia falar que ele tinha achado a cura. E foi isso, inclusive, que deu origem ao hype, foi isso que chegou aos ouvidos do Trump e depois aqui nos do Bolsonaro. Então é um pesquisador que tem aí sérios problemas éticos passados, de conduta científica mesmo, e que tem publicado na pandemia insistentemente sobre a hidroxicloroquina com papers de baixíssima qualidade”, disse.

Bolsonaro e a cloroquina

Apenas dois dias após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defender pela primeira vez o uso da cloroquina, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro anunciou, em 21 de março, que o Exército ampliaria a produção do medicamento no país para pacientes com o novo coronavírus. Já no dia 25, o Ministério da Saúde emitiu uma nota técnica autorizando o uso da medicação em pacientes graves de covid-19.

Nos meses seguintes, Bolsonaro demitiu dois ministros da saúde, Luiz Henrique Mandetta, em 16 de abril, e Nelson Teich, em 15 de maio. Ambos são médicos e se opunham à prescrição de cloroquina para tratar pacientes com quadros leves da doença.

Em 20 de maio, o Ministério da Saúde, já tendo como ministro interino o general Eduardo Pazuello, passou a orientar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no “tratamento medicamentoso precoce” de pacientes com o novo coronavírus. O documento, porém, ressalta que “ainda não há meta-análises de ensaios clínicos multicêntricos, controlados, cegos e randomizados que comprovem o benefício inequívoco dessas medicações para o tratamento da covid-19”.

O tema voltou ao debate depois do dia 7 de julho, quando Jair Bolsonaro anunciou que testou positivo para o Sars-CoV-2. No mesmo dia, o presidente postou um vídeo nas redes sociais mostrando que estava tomando doses de hidroxicloroquina. No dia 9, em outra transmissão ao vivo, o presidente segurou uma caixa do medicamento e disse que ela estava sendo “eficaz” para curá-lo.

No dia 14, o deputado de oposição Rogério Correia (PT-MG) entrou com uma representação por improbidade administrativa contra Bolsonaro por “incentivar e determinar o aumento da produção de uma substância cuja eficácia é rejeitada por cientistas”. A instauração de um procedimento depende de análise da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Por que investigamos?

O Projeto Comprova verifica conteúdos sobre a covid-19 que tenham grande alcance em redes sociais e grupos de mensagem. A checagem de fatos durante a pandemia adquiriu uma importância ainda maior, uma vez que a desinformação afeta diretamente a saúde das pessoas. Nesse caso, a verificação é importante porque envolve o uso de medicamentos cuja eficácia não foi cientificamente comprovada – como a hidroxicloroquina e a azitromicina – e que podem gerar efeitos colaterais.

O conteúdo, sugerido por leitores do Comprova, chegou a ter 1,8 mil compartilhamentos na página “Lava Jato Notícias”, no Facebook. Uma versão preliminar do estudo “Tratamento precoce de pacientes com covid-19 com hidroxicloroquina e azitromicina: uma análise retrospectiva de 1.061 casos em Marselha, França” já havia sido compartilhada pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC) em sua conta do Twitter em abril e teve mais de 3,6 mil curtidas e 1,5 mil compartilhamentos. A agência de fact-checking Aos Fatos chegou a citar essa postagem do deputado em um texto, ao falar da problemática dos métodos utilizados por Didier em suas pesquisas.

Além disso, verificar o conteúdo passa por uma importância política, uma vez que a defesa do uso da hidroxicloroquina para pacientes com covid-19 faz parte da agenda do presidente Jair Bolsonaro. O post que viralizou faz essa relação e afirma que “a proposta do governo Bolsonaro para a ampliação do uso da cloroquina é justificável, e não uma fantasia”. O Comprova também verifica conteúdos suspeitos sobre políticas públicas do governo federal. Por isso, torna-se necessário contextualizar e contrastar a visão das autoridades de saúde sobre o medicamento e o histórico de defesa desse medicamento não só por Bolsonaro, mas por outras lideranças políticas.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Políticas públicas

Investigado por:2020-07-16

“Decreto-lei” para criar Tribunal Constitucional Militar é enganoso e inconstitucional

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso texto apresentado em vídeo no Facebook que trata da criação de um "Tribunal Constitucional Militar". A Constituição de 1988 não prevê, no processo Legislativo, a figura de decreto-lei
  • Conteúdo verificado: Vídeo publicado no Facebook apresenta proposta de texto de um advogado para um decreto-lei que cria um Tribunal Constitucional Militar.

É enganoso o vídeo publicado no Facebook sobre um texto que propõe a criação de um Tribunal Constitucional Militar. O autor da gravação, André Basílio, divulga uma proposta de decreto-lei que permitiria que o presidente da República criasse “um tribunal acima do STF”, para “poder julgar e condenar ou absolver, se for o caso, os ministros do STF que têm praticado crimes aqui no Brasil”. No vídeo, André dá a entender que o presidente Jair Bolsonaro poderia assinar o texto e colocá-lo em prática. No entanto, a Constituição de 1988 não prevê a criação de decretos-lei.

O autor da gravação, André Basílio, faz referência ao texto proposto pelo advogado Marcos David Figueiredo de Oliveira, que afirma em seu site que o tribunal seria “a única opção constitucional diante da falência comprovada do poder judiciário e do poder legislativo”.

O Comprova conversou sobre o conteúdo proposto por Oliveira com o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP), Caio Augusto Silva dos Santos. De acordo com ele, o decreto escrito pelo advogado é inconstitucional. O decreto-lei é uma norma expedida em caráter de urgência e de forma excepcional pelo poder Executivo. No entanto, a Constituição Federal de 1988 não prevê mais esse tipo de processo, deixando ao Executivo a possibilidade de elaborar uma Medida Provisória, que pode ser apresentada de forma emergencial com força de lei — mas que, para ser transformada em lei de forma definitiva, precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional.

Como verificamos?

Pesquisamos sobre André Basílio em suas redes sociais e encontrou publicações já desmentidas pelo Comprova e outras agências de fact-checking. No dia 9 de julho, escrevemos uma mensagem direta via Facebook para Basílio pedindo uma entrevista. Foram enviadas outras solicitações, em 13 e 15 de julho – nenhuma foi respondida. Também em 9 de julho, a equipe entrou em contato com Oliveira pelo e-mail informado em seu site. Sem resposta, o Comprova voltou a enviar um e-mail no dia 14, quando o advogado ligou para a equipe. A entrevista foi feita por mensagens de textos no WhatsApp.

Também levantamos informações sobre Oliveira em veículos de informação, no LinkedIn e nos sites do Tribunal de Justiça de São Paulo e Diário de Justiça do Estado de São Paulo.

Para ter mais informações sobre a constitucionalidade do texto proposto por Oliveira, o Comprova conversou por telefone com o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP), Caio Augusto Silva dos Santos. Após a primeira conversa, houve uma segunda entrevista com Santos para esclarecer outros pontos jurídicos fornecidos por Oliveira.

A equipe também contatou a Secretaria de Governo, que encaminhou o pedido para a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom). Esta, por sua vez, informou que as informações seriam dadas pelo Ministério da Defesa, que respondeu que “este tema não é de competência” do órgão e que o Comprova deveria falar com a Secretaria de Governo, primeira instituição contatada. Novamente, a equipe enviou e-mail e telefonou para a Secretaria de Governo, que mais uma vez informou que a secretaria de imprensa da Secretaria de Comunicação responderia. Procurado no contato informado, o órgão não retornou aos pedidos do Comprova.

Verificação

O que diz o decreto-lei?

O texto propõe a criação de um tribunal constituído por um procurador-geral constitucional — nomeado pelo presidente — e 33 ministros, sendo cinco militares. O objetivo seria permitir ao tribunal processar e julgar membros dos três poderes.

A proposta indica o uso das Forças Armadas no cumprimento de decisões monocráticas — ou seja, aquelas proferidas por um único magistrado. Para isso, o decreto-lei alega “estado de calamidade pública e a desordem institucional dos poderes executivo, legislativo e judiciário” e diz que não há fiscalização ou punição pelos conselhos e órgãos competentes.

O decreto-lei prevê a prisão de autoridades judiciárias que admitirem ações apontando a inconstitucionalidade do tribunal. Também apresenta ao presidente da República a opção de “convocar a população por meio de mídias sociais, rádio e televisão para apoio ao referido decreto-lei”.

Ficariam sob fiscalização do tribunal:

  • Supremo Tribunal Federal, Superior Tribunal de Justiça, Tribunal Superior Eleitoral, Tribunal Superior do Trabalho e Tribunal de Contas da União;
  • Ministério Público Federal, Ministério Público dos Estados e Conselho Nacional de Justiça;
  • Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal, Tribunais Regionais Federais, Tribunais Regionais Eleitorais e Tribunais Regionais do Trabalho;
  • Senadores e deputados federais e estaduais;
  • Governadores, secretários estaduais e prefeitos;
  • Delegados de polícia e juízes de direito;
  • Membros do Conselho dos Tribunais de Contas dos Estados e dos Municípios.

OAB: Decreto não é constitucional

O artigo 2º da Constituição afirma que os três poderes que constituem o Estado são o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. As leis são criadas pelo Legislativo, que têm seus membros eleitos pela população. Ao Executivo, cabe estabelecer ações para que as leis sejam cumpridas. O Judiciário, por sua vez, deve decidir quem tem razão nos conflitos que surgirem na sociedade.

Pela lei, os poderes devem ser “independentes e harmônicos entre si”. Ou seja: um não pode se sobrepor ao outro. A separação de poderes e a independência deles é prevista em cláusula pétrea — o que significa que não pode ser modificada.

O presidente da OAB-SP, Caio Augusto Silva dos Santos, vê como “absolutamente inconstitucional” a proposta de criação do Tribunal Constitucional Militar, ainda mais com poder de determinar a prisão de autoridades que o contestarem.

“Nos parece muito claro que a tentativa desta sugestão é uma tentativa de usurpação dos poderes constituídos, porque cada qual tem a sua competência. Decretar prisão é competência do Judiciário. Nenhum outro órgão pode se sobrepor a essas circunstâncias”, afirmou em entrevista ao Comprova.

O decreto-lei, quando aplicável, foi uma exceção que permitiu ao Executivo apresentar normas em regime de urgência ou emergência. “Os decretos-leis e regulamentos são normas para complementar leis que já existem”, explicou. No entanto, normas do Executivo, como o caso de Medidas Provisórias, não podem “ir além do que a lei autoriza” — neste caso específico, criar um órgão com atuação superior ao Judiciário. Até porque, a aprovação seria a violação de uma cláusula pétrea, algo que não poderia ser modificado na Constituição.

“Não tem a possibilidade de isso ser impulsionado por um decreto legislativo, porque o poder do presidente da República não chega a essa possibilidade”, observou. As assinaturas coletadas pelo site só representariam “pressão popular”, de acordo com Santos, embora não façam diferença por esbarrar em uma cláusula imutável.

A alegação de que não há fiscalização do Judiciário também não procede. Santos citou a criação do Conselho Nacional de Justiça, outro órgão previsto pela Constituição, “criado para controlar e apresentar ações importantes no âmbito do poder Judiciário”.

Quem é o autor da postagem?

Autor da postagem, André Basílio mantém um perfil no LinkedIn no qual se apresenta como consultor em gestão empresarial na Tr3de International Business.

No Facebook, onde circula o post sobre o decreto-lei, Basílio fez publicações de conteúdos comprovadamente falsos. Em uma delas, diz que uma unidade de saúde de BH “recebe R$ 1.500 por dia por cada leito ocupado com paciente que chega com dengue ou com gripe, e que colocam esta pessoa como sendo suspeita de COVID-19”. Conteúdo semelhante já foi desmentido pelo Comprova.

Outro post foi marcado pelo Facebook como conteúdo falso.

Outra postagem indica que ele se candidatou a deputado federal por Minas Gerais nas eleições de 2018. Em uma busca no DivulgaCand, site do TSE com informações sobre candidaturas, conferimos que ele concorreu pelo Patriota naquele ano. Não conseguiu a quantidade de votos para se eleger, mas ficou como suplente — o que significa que pode substituir um deputado titular do mandato de forma temporária ou definitiva.

O Comprova enviou uma mensagem a Basílio no Facebook, mas não obteve retorno até a publicação desta verificação.

Quem é o responsável por formular o decreto?

Marcos David Figueiredo de Oliveira é advogado. O Comprova acessou seu cadastro na OAB Nacional e conferiu que ele possui registro no Mato Grosso e também um cadastro suplementar em São Paulo. Em ambos os estados, ele apresenta situação regular. No seu perfil do LinkedIn, consta que é diretor jurídico na Marcos David Figueiredo Advogados Associados.

Ele é o criador do site Moraliza, que traz, majoritariamente, posts e vídeos atacando a Justiça brasileira, como a publicação intitulada “Falência do Judiciário comprovada!”. A página apresenta um perfil em que Oliveira é apontado como sobrinho do general de divisão Nicanor Presídio de Figueiredo, que seria parente do último presidente do Brasil durante o período da ditadura militar, João Batista Figueiredo (1979-1985). O Comprova conferiu na Biblioteca Nacional, acervo digital de jornais do país, e encontrou o nome de Nicanor Presídio de Figueiredo na de 23 de junho de 1934 do Jornal do Brasil, em que ele é anunciado como futuro oficial de saúde do corpo do Exército. Em outra notícia do mesmo jornal, datada de 11 de agosto de 1988, o general é envolvido em uma confusão com uma operação do Detran. No entanto, não foi possível localizar nada que mencionasse o parentesco dele com o ex-presidente Figueiredo.

Oliveira ficou conhecido por expor, na década de 1990, um caso de fraudes de títulos da dívida externa brasileira, convertidos em investimentos no país de forma ilegal. Em 1993, ele havia sido contratado para conseguir a liberação de títulos da dívida externa para o banco Paribas (posteriormente BNP Paribas), mas acabou entrando com processo judicial contra a instituição por não receber os honorários. Por meio das disputas na Justiça, foi descoberto que o valor adquirido com os títulos havia retornado para o exterior ficando com uma empresa de paraíso fiscal. Em 1996, a Polícia Federal abriu um inquérito para investigar o caso, levantando informações a respeito de operações supostamente ilegais no Banco Central. O caso é citado por Oliveira como justificativa para a criação do Moraliza, afirmando ter o objetivo de denunciar sentenças ilícitas do Judiciário.

O advogado também coleciona polêmicas. Em novembro de 2015, ele entrou com o pedido de suspeição de uma juíza, após a audiência de um caso em que ele se desentendeu com a magistrada e a promotora, alegando que magistradas mulheres “cometem mais erros” e declarou que mulheres têm “agressividade excessiva, em razão da disfunção hormonal causada pela TPM gerando a autodestruição”. O caso tramita em sigilo, mas houve ampla repercussão em coletivos ligados a questões de gênero.

Acusado de desacato e injúria pela história mencionada acima, é alvo de um processo que tramita no Tribunal de Justiça de São Paulo desde 2016. O processo, que também corre em sigilo, foi encontrado pelo Comprova ao pesquisar o nome de Oliveira na busca processual do site do TJ-SP, disponível para o público. Com base no número do processo e nas informações a respeito da Vara onde tramita, conseguimos encontrar no Diário de Justiça do estado uma publicação, de 21 de fevereiro de 2020, afirmando que o advogado não havia sido localizado para responder às acusações. Segundo a movimentação processual do TJ-SP, em 10 de março de 2020, o desembargador do caso determinou a suspensão do processo até que Oliveira seja judicialmente encontrado. “Diante do exposto, suspendo o processo e o prazo prescricional (…) Façam-se as devidas anotações e comunicações, aguardando-se o comparecimento espontâneo do réu ou dados que possibilitem localizá-lo em arquivo”, diz. Com isso, o prazo de prescrição também é suspenso.

Já em 28 de março de 2018, o site do TJ-SP publicou um texto afirmando que Oliveira agrediu verbal e fisicamente dois magistrados do Fórum da Comarca de Itatiba. Ele teria acusado uma juíza de fraude, dizendo-se “fiscal de todos os juízes do Brasil” e afirmou que daria voz de prisão a ela. Segundo a nota, o juiz diretor do fórum teria sido chamado para interceder e, ao confrontar Oliveira, teria sido empurrado. Um boletim de ocorrência foi registrado pelos dois magistrados contra o advogado.

O que diz o autor do texto?

No primeiro contato, por telefone, antes que fosse possível fazer qualquer pergunta, Marcos David Figueiredo de Oliveira sugeriu ao Comprova que lesse antes um texto que ele publicou em seu site, intitulado “Breves considerações sobre a constitucionalidade do decreto-lei que cria o Tribunal Constitucional da Ordem Institucional (TCOI)”.

Neste texto, ele defende que o presidente da República pode “promulgar as leis“. E continua: “Ora, quem faz leis é o Poder Legislativo. Entretanto, em estado de anormalidade esse direito está implícito nas atribuições do Presidente da República atuando como chefe de estado e comandante supremo das Forças Armadas, em razão do regime presidencialista”. Sem explicar, ele finaliza a resposta com “Regra de hermenêutica jurídica”.

Questionado se o seu texto não fere a Constituição, já que promulgar e fazer leis não são a mesma coisa, ele, basicamente, repetiu o texto: “promulgar as leis significa ordenar oficialmente a publicação de uma lei. Só quem ordena a publicação de uma lei tem competência para legislar”.

Informado sobre a posição da OAB, que afirmou que decretar prisão é competência do Judiciário e nenhum outro órgão pode se sobrepor a essas circunstâncias, Oliveira disse ser “muita infantilidade da OAB, porque as prisões serão decretadas através de um Tribunal Constitucional legalmente constituído”.

Ao Comprova, Oliveira disse ter criado o decreto-lei “em face da desordem institucional, da insegurança jurídica e do estado de calamidade pública”. Em seu site, afirma ainda que “o tribunal é criado para acabar com desvios e corrupção de autoridades que são protegidas pela lei para terem autonomia e segurança em suas funções, mas, quando autoridades abusam dessa proteção, a ordem democrática é destruída e a governabilidade é perdida e quem sofre é a população”.

Procurado novamente, o presidente da OAB-SP, Caio Augusto Silva dos Santos, reiterou que a proposta de Oliveira é inconstitucional. “Isso existia lá atrás, em outros momentos, mas não no atual ordenamento constitucional. Ele quase que propõe o presidente com o poder de decretar o que quiser, baixar o Ato Institucional, AI-5, de novo. Aí não existe no ambiente constitucional de hoje”, afirmou.

“O que ele propõe é uma quebra do sistema democrático. Ele propõe que o presidente da República assuma o comando de tudo e desrespeite os demais poderes. Isso é ruptura constitucional, isso é revolução”, acrescentou Santos.

Santos explicou novamente que o papel do Executivo não é o de criar leis: “O veículo para o presidente da República legislar, baseado em duas expressões, urgência e emergência, é a medida provisória (…) quem legisla é o Legislativo, e o Legislativo pode rejeitar a medida provisória. E aí ela perde a eficácia”.

Por fim, acrescentou que as Forças Armadas “devem estar à disposição dos três poderes para controlar a ordem”, sem restrição específica ao comando do presidente da República.

Convocação e “libertação”

No dia 15 de julho, Oliveira enviou ao Comprova, via WhatsApp, uma mensagem convocando as pessoas a assinarem o texto a partir do dia 16 de julho. É o mesmo texto que está em seu site. “Participe desse momento histórico onde pela primeira vez um Presidente da República fará o desejo do povo! Você guardará uma cópia do requerimento que assinou para conhecimento de suas futuras gerações, como prova de que participou do movimento que restabeleceu a ordem no País”, escreveu.

Segundo Oliveira disse ao Comprova, ele vai colher assinaturas (ou “votos”, como ele escreveu) até 6 de setembro. Questionado sobre a validade das assinaturas, o advogado afirmou que “o presidente Jair não estará pedindo a validação do decreto-lei porque não necessita disso, como exposto. Apenas pediu apoio à população para destacar e realçar sua autoridade como comandante supremo das Forças Armadas. Não se trata de referendo ou plebiscito, que é da iniciativa do Congresso Nacional”.

O texto do “decreto-lei” é datado de 7 de setembro. Questionado sobre o porquê da data, ele afirmou ser “o dia da nossa liberdade, de fato”.

Por que investigamos?

Nesta terceira fase do Comprova, o projeto retoma o monitoramento e a verificação de conteúdos suspeitos que obtenham grande alcance sobre políticas públicas no âmbito do governo federal. É o caso do vídeo em que André Basílio apresenta o texto de Marcos David Figueiredo de Oliveira, que teve 448 mil visualizações e 46 mil compartilhamentos só no Facebook até o dia 16 de julho.

O conteúdo, encaminhado por leitores do Comprova, circula no momento em que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) está envolvido em manchetes por ter participado de atos pró-golpe militar, sugerido o uso da Força Nacional em protestos contra seu governo e se desentendido com o STF.

O Boatos.org desmentiu, no ínicio de julho, que o decreto-lei tivesse sido implementado por Bolsonaro.

Usando cinco vezes o nome “Constituição Federal” e 55 a palavra “constitucional” em seu texto, Oliveira fere a Carta Magna brasileira ao defender a criação de um tribunal “com plenos poderes para julgar todas as autoridades do país”. Com o conteúdo em questão, Oliveira e Basílio tentam colocar as conquistas obtidas pelos brasileiros com a Constituição de 1988 em risco.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Políticas públicas

Investigado por:2020-07-16

Site usa texto sobre boa aprovação de Lula para tratar de apoio a Bolsonaro

  • Falso
Falso
Site publicou texto descrevendo uma suposta pesquisa na qual o presidente da República teria 64% de aprovação, mas era um plágio de reportagem de 2008 sobre a popularidade do ex-presidente Lula
  • Conteúdo verificado: Texto publicado no site Notícias de Direita afirmando que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) teria 64% de aprovação

É falso que pesquisa recente do Datafolha tenha apontado 64% de aprovação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O texto publicado pelo site Notícias de Direita, em 13 de julho deste ano e depois retirado do ar, afirmava que houve “recorde de aprovação” do governo atual, mas se trata, na verdade, de cópia de uma matéria do portal G1 de setembro de 2008. A reportagem original mostra os números de aprovação do segundo governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e não de Bolsonaro.

Na realidade, a última pesquisa publicada pelo Datafolha, realizada nos dias 23 e 24 de junho, mostra que apenas 32% dos brasileiros aprovam a gestão de Bolsonaro – ou seja, consideram ela “ótima” ou “boa” –, enquanto 44% acreditam que ela é “ruim” ou “péssima”.

Como verificamos?

O Comprova buscou trechos da matéria publicada no site Notícias da Direita no Google. Um dos primeiros links que surgiram foi da reportagem do portal G1, do Grupo Globo, com um texto quase idêntico, mas com o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Depois disso, procuramos as últimas pesquisas publicadas pelo Datafolha no site do instituto.

Verificação

O texto publicado pelo site Notícias de Direita é plágio de uma matéria publicada pelo portal G1 em setembro de 2008. A reportagem original mostra, na verdade, os números de aprovação do segundo governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As informações foram copiadas quase palavra por palavra.

Há poucas diferenças, como o nome dos presidentes e a data da publicação (originalmente a pesquisa de 2008 foi feita no mês de setembro). No texto do site Notícias de Direita, a “popularidade” de Jair Bolsonaro é justificada pelo “bom desempenho na pandemia”. No original, do G1, a avaliação positiva do ex-presidente petista é atribuída ao bom desempenho da economia.

Veja comparação abaixo:

Na época em que o texto original do G1 foi publicado, em setembro de 2008, 64% dos entrevistados consideravam o governo petista “ótimo” ou “bom”, 28% consideravam “regular” e 8% consideravam “ruim” ou “péssimo”. Além disso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o presidente que teve a melhor avaliação de toda a série histórica do Datafolha atingindo 83% de aprovação no final do segundo mandato, em dezembro de 2010.

Pesquisas recentes do governo Bolsonaro

A última pesquisa publicada pelo Datafolha, realizada nos dias 23 e 24 de junho, mostra que 32% dos brasileiros consideram que Jair Bolsonaro (sem partido) estava fazendo um governo ótimo ou bom, enquanto 44% acreditam que gestão do presidente era ruim ou péssima. Outros 23% consideram a gestão regular.

Desde o começo do mandato, o número de pessoas que desaprovam o governo Bolsonaro cresceu, enquanto os que aprovam o governo continua na mesma faixa. A primeira pesquisa Datafolha realizada no começo de abril mostrava Bolsonaro com 33% de ótimo/bom, 33% de regular e 30% de ruim/péssimo.

Gráfico:

No dia 15 de junho, o cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Cesar Zucco publicou um artigo na revista piauí em que analisou 127 pesquisas de opinião de diferentes institutos de pesquisa publicadas entre 10 de janeiro de 2019 e 9 de julho deste ano. De acordo com a análise, o número de pessoas que acreditam que Bolsonaro está fazendo um governo “ótimo” ou “bom” está caindo desde a posse — como mostram também os números do Datafolha. Além disso, utilizando um algoritmo capaz de comparar o resultado de pesquisas de opinião diferentes, Zucco mostra que Bolsonaro estaria com uma aprovação na faixa dos 25%, ainda menor do que a mostrado pelo Datafolha.

Por que investigamos?

O Projeto Comprova verifica conteúdos suspeitos que viralizam na internet e nas redes sociais. Políticas públicas do governo federal são parte do escopo do projeto e, portanto, o mesmo ocorre com a percepção pública sobre a Presidência.

De acordo com o CrowdTangle, ferramenta de monitoramento de redes sociais, o link com a informação falsa investigada aqui teve mais de 12,5 mil interações apenas no Facebook, rede pela qual mais circulou.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

A Agência Lupa, o Aos Fatos e o Boatos.org também desmentiram a existência de tais resultados em pesquisa Datafolha sobre a popularidade de Bolsonaro.

Pandemia

Investigado por:2020-07-14

Receita de “medicina natural” não combate a covid-19

  • Falso
Falso
Não há comprovação científica da eficiência de uma receita natural associada a medicamentos para a covid-19 publicada nas redes sociais. O post investigado pelo Comprova usa indevidamente foto de um infectologista que não reconhece o texto como seu
  • Conteúdo verificado: Texto publicado pela página “Alertando a Cidade” no Facebook explica a ação do coronavírus em três fases e recomenda o uso de uma receita natural combinada com medicamentos para o combate da covid-19, nos primeiros quatro dias da contaminação do vírus.

Uma publicação que circula nas redes sociais, desde 10 de junho, engana ao aconselhar uma receita de “medicina natural” para combater os sintomas da covid-19. O texto ressalta que o vírus passaria por “fases de ataque”, antes de ocorrer o risco de morte. Ainda no mesmo texto, há uma recomendação de medicamentos naturais, que seriam eficientes para combater o vírus “nos primeiros quatro dias de contaminação”.

O texto não está assinado e o nome do responsável pela receita não é revelado. A publicação usa a foto de um homem com máscara, que seria um profissional de saúde. A foto utilizada é de um infectologista da Paraíba, no nordeste brasileiro. O especialista não tem relação alguma com o texto e a receita não tem provas científicas de cura. Os responsáveis pela página foram procurados pelo Comprova, mas até agora, não responderam às tentativas de contato.

Como verificamos?

Para fazer a verificação da imagem utilizada no post, foi utilizado o Google Imagens, uma ferramenta de busca reversa que faz a localização de imagens por comparação, semelhança ou igualdade na internet. A única foto que aparecia disponível era a imagem da publicação falsa.

Como o primeiro levantamento não foi bem sucedido, foi utilizado o Bing Image Match, que identificou a imagem como sendo compatível com o frame (imagem) do vídeo usado no Twitter do Jornal Nacional, telejornal noturno da TV Globo.

Localizada a publicação no microblog do telejornal, foi detectado que a imagem era a mesma do depoimento de Fernando Chagas, que foi ao ar na edição do dia 13 de maio do JN.

Após a busca inicial no Bing Image Match, a ferramenta passou a direcionar para o site Globoplay, onde está hospedado o depoimento em vídeo do infectologista.

Após a identificação, um nova rodada de buscas foi realizada por meio de ferramentas como Google, para acessar páginas como a do Conselho Regional de Medicina, Currículo Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e de notícias locais, no Estado da Paraíba, para levantar informações biográficas, profissionais e autorais sobre o médico foi realizada e, logo depois, foi agendada uma entrevista por vídeo com o especialista.

Já para o levantamento de informações a respeito das medicações hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina, foi feita uma pesquisa básica no Google diretamente nas páginas da Organização Mundial da Saúde, Organização Pan-Americana da Saúde e Ministério da Saúde do Brasil. Nessas páginas foram levantados documentos, protocolos e estudos oficiais sobre os medicamentos citados e pesquisados como possibilidades terapêuticas para a covid-19. O Comprova também entrou em contato com a Sociedade Brasileira de Infectologia, e realizou uma entrevista com um médico indicado pela entidade para confirmar a veracidade das informações que constavam no “receituário”.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de julho de 2020.

Verificação

Homem da foto é médico infectologista

O homem mostrado na publicação é o médico-infectologista e farmacêutico Fernando Martins Selva Chagas. Ele é diretor-geral do Complexo Hospitalar de Doenças Infecto-contagiosas Dr. Clementino Fraga, localizado em João Pessoa, capital da Paraíba. Chagas foi nomeado em abril deste ano, na unidade que é considerada uma referência para casos de covid-19 naquela região.

A imagem do médico surgiu a partir de um depoimento que ele fez na edição do Jornal Nacional, da TV Globo, no dia 13 de maio. A foto foi copiada de uma captura de tela do depoimento e utilizada na publicação enganosa na rede social.

Procurado pelo Comprova, Fernando Chagas confirma que a imagem é dele. Na entrevista, Chagas explica que no período da pandemia ele tem dado várias entrevistas para vários órgãos de imprensa para prestar serviço à sociedade sobre o coronavírus.

Além disso, o especialista ressalta que nunca prescreveria online algo “absurdo” como foi colocado na publicação. “Sempre penso as prescrições, elas são feitas individualmente, para cada pessoa. A gente considera a idade, peso, uma série de características. É importante ver o paciente; é importante retornar ao paciente. Você imagina a quantidade de pessoas expostas às ações dos medicamentos e substâncias porque estão lendo isso daí?!”, respondeu indignado.

Sobre as fases do vírus, o infectologista afirma que existem etapas do avanço da doença, porém não é como foi colocado na publicação enganosa. A ideia, segundo o especialista, é entender os sintomas para que seja possível atuar com mais eficiência no uso dos medicamentos.

“É uma forma conceitual a respeito da doença, na verdade, para gente entender alguns momentos que se pode primeiro entender os sintomas, sinais e sintomas da doença; segundo, que em alguns momentos que se pode atuar com algumas fases específicas de medicamentos. É basicamente isso”, conclui.

Sobre a receita natural

A receita verificada pelo Comprova menciona uma série de medicamentos e métodos “naturais” que devem ser usados em cada uma das “fases da infecção”. Além de drogas como a hidroxicloroquina e a ivermectina, são mencionadas dicas de medicina natural, que segundo o próprio texto, devem ser usadas de forma complementar.

Entre as sugestões estão o chá de cascas de alho, suplementos de vitamina D, uma mistura de mel, açafrão e outras ervas. Cada elemento seria usado para combater um dos sintomas da covid-19. Para abaixar a febre, por exemplo, a publicação recomenda “banho e/ou toalha molhada no corpo”.

Segundo o médico infectologista e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, Alexandre Naime, a combinação de medicamentos e compostos de “medicina natural” apresentada no texto que verificamos não tem qualquer eficácia cientificamente comprovada no tratamento de pacientes da covid-19.

“Não existe, como já comprovado inclusive para outras patologias, benefício de “shot” de vitamina D; nada de coquetel de imunidade funciona”, afirma Naime. Um dos trechos do “receituário” indica a ingestão de suplemento de vitamina D como forma de “aumentar a imunidade”.

A suposta ligação entre a infecção pelo novo coronavírus e a deficiência de vitamina D no organismo é um tema constante de boatos que circulam pelas redes pelo menos desde fevereiro. O Ministério da Saúde também já desmentiu informações a respeito.

O açafrão e o alho, outros dos supostos ingredientes do tratamento “natural” sugerido pelo “receituário”, já foram objeto de uma checagem publicada pelo Estadão, em Abril; outra mensagem, de março, que associava a mistura de limão com bicarbonato à cura da covid-19 foi verificada e classificada como falsa pelo Comprova.

O fitoterápico Ginkgo Biloba, indicado na prescrição como anticoagulante, tem, na bula padrão divulgada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, contraindicações relacionadas ao uso por pacientes “com coagulopatias ou em uso de anticoagulantes”. O próprio medicamento indicado para “afinar e oxigenar o sangue”, a Aspirina, poderia ter efeitos indesejados na mistura com o fitoterápico.

Além da ausência de comprovação de qualquer eficácia no tratamento do novo coronavírus, a Anvisa ainda alerta que, ao contrário da crença popular, as plantas medicinais e os medicamentos fitoterápicos podem provocar “diversas reações como intoxicações, enjoos, irritações, edemas (inchaços) e até a morte, como qualquer outro medicamento.”

Sobre a hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina

No caso da hidroxicloroquina, a Organização Mundial de Saúde (OMS) informou no dia 4 de julho deste ano que aceitou a recomendação do Comitê Diretor Internacional do Estudo de Solidariedade – grupo de estudos clínicos, que participam 5.500 pacientes, em 21 países – para interromper os estudos sobre hidroxicloroquina devido aos baixos resultados ou avanços na redução da mortalidade de pacientes com covid-19 hospitalizados. “Esses resultados provisórios mostram que a hidroxicloroquina e o lopinavir/ritonavir produzem pouca ou nenhuma redução na mortalidade de pacientes com covid-19 hospitalizados quando comparados ao padrão de atendimento. Os investigadores do estudo de solidariedade interromperam os estudos com efeito imediato”, explica a declaração, no site da OMS.

Sobre o uso do antiparasitário ivermectina, a Organização Mundial da Saúde, por meio da Organização Pan-Americana da Saúde (OMS/OPAS) publicou uma recomendação em 22 de junho, apontando que apesar de alguns resultados positivos em testes laboratoriais, com células infectadas, ainda não há resultados suficientes e seguros para indicar o medicamento antiparasitário para o tratamento da covid-19 em humanos. “A ivermectina está sendo usada incorretamente para tratar a covid-19, sem nenhuma evidência científica de sua eficácia e segurança no tratamento desta doença”, conclui o estudo da OPAS. No dia 10 de julho, a Anvisa se manifestou oficialmente contra o uso da ivermectina no tratamento da covid-19.

Em relação à azitromicina, apesar da Organização Mundial da Saúde (OMS) não apontar um único remédio ou tratamento eficaz contra a covid-19, o Ministério da Saúde brasileiro elaborou uma cartilha sobre orientações para uso de medicamentos, lançada pela pasta em junho, orienta o uso da azitromicina nos primeiros cinco dias de tratamento da doença, combinado com a hidroxicloroquina.

O Comprova publicou em 8 de julho uma investigação que aponta ser falso um texto publicado em uma página de rede social em que o uso dos medicamentos como azitromicina e ivermectina seriam úteis sem consulta médica.

Por que investigamos?

O Projeto Comprova verifica conteúdos suspeitos que viralizam na internet e nas redes sociais. Quando o assunto está relacionado à pandemia do novo coronavírus, a checagem é ainda mais relevante, já que a saúde das pessoas pode estar em risco.

No caso do receituário, a publicação na página “Alertando a Cidade” já ultrapassava os 100 mil compartilhamentos, além de dezenas de milhares de curtidas e comentários. Além de não citar os possíveis efeitos colaterais relacionados ao uso sem prescrição dos medicamentos listados, supostos métodos de combate à covid-19 podem dar aos leitores uma falsa sensação de segurança, que faz com que abandonem práticas realmente recomendadas pelas autoridades de saúde, como o distanciamento social, o uso de máscaras e a higiene das mãos.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por:2020-07-10

Vídeo compara, erroneamente, pesquisadores que estudam covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Autora de vídeo usa índice de forma equivocada, cita positivamente pesquisador criticado por estudo polêmico, distorce comentário de outro e erra ao dizer que pesquisadores da Organização Mundial da Saúde (OMS) não têm citações acadêmicas
  • Conteúdo verificado: Vídeo afirma que mídia dá destaque a cientistas irrelevantes só pelo fato de serem pesquisadores e deixa de lado outros com influência no meio científico

Um vídeo que circula em redes sociais, publicado em 28 de junho, engana ao comparar o índice-H — métrica que avalia a quantidade de citações de artigos científicos de um determinado pesquisador — de cientistas que estudam o novo coronavírus. Na gravação, a atriz e apresentadora Karina Michelin diz que “tem um monte de gente publicando estudos de cientistas que não são relevantes, somente pelo fato de eles serem cientistas” e critica a escolha de alguns deles para entrevistas a veículos de imprensa.

Embora o índice citado na publicação seja verdadeiro, a comparação entre pesquisadores de áreas distintas e idades diferentes é equivocada. O Comprova também apurou com acadêmicos que se trata de uma métrica que quantifica qualquer menção ao pesquisador — inclusive críticas ao seu trabalho.

“O que a gente está vendo aí nessa pandemia é cientistas de pouca relevância terem tanto peso aí na internet e conseguirem que a mídia descredite aqueles que tem um H-index [índice-H] altíssimo e uma influência enorme no mundo científico”, diz Karina no vídeo.

Os três pesquisadores citados positivamente pela autora do vídeo são estrangeiros. Um deles, o francês Didier Raoult, é alvo de severas críticas por um estudo sobre a eficácia da cloroquina. Michael Levitt, britânico e ganhador do prêmio Nobel de Química, previu que o Reino Unido teria 50 mil mortes e fez críticas à política de lockdown – mesmo aplicando tal medida, o país já ultrapassou 44 mil mortes. Karl Friston, também britânico, foi citado de forma distorcida por Karina. Ela fala ainda de pesquisadores da Organização Mundial da Saúde (OMS) e afirma que eles não têm índice-H, o que não é verdade.

Como verificamos?

Dois dos conteúdos viralizaram pelos perfis de Karina Michelin, autora do vídeo, no Instagram e no Facebook. Pesquisamos o nome dela no LinkedIn para descobrir qual a sua profissão e, por meio do chat do Facebook, entramos em contato para pedir mais informações sobre o vídeo. Ela nos respondeu na rede social.

A pesquisa sobre o índice-H começou em um dos comentários feitos no vídeo de Karina. Entre as mensagens, uma leitora sugere que o embate entre ciência e mídia é algo que “quem inventa só quer aparecer” e indica o link de uma notícia da revista Fapesp questionando a importância dada ao índice. O Comprova procurou a assessoria de imprensa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pediu o contato de pesquisadores que pudessem explicar como o índice-H funciona. Conversamos com o professor Abel Packer, coordenador de projetos da Fapesp e um dos fundadores da Biblioteca Eletrônica Científica Online (SciELO), e com o professor Edgar Dutra Zanotto, da Universidade Federal de São Carlos, por mensagens de WhatsApp e por e-mail. Zanotto nos enviou artigos sobre o tema.

Ainda sobre o tema de publicação de artigos científicos, recuperamos uma entrevista com o médico Reinaldo Guimarães, vice-presidente Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), feita para uma verificação sobre a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A equipe do Comprova buscou por referências acadêmicas e dos pesquisadores citados no vídeo, e por menções em veículos conhecidos para entender quem são. Também levantou os índices-H de cada um deles nas plataformas Google Scholar e Semantic Scholar, que compilam pesquisas e estudos e apresentam a quantidade de citações que cada cientista recebeu.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 10 de julho de 2020.

Verificação

Quem é a autora do vídeo?

Autora do vídeo que viralizou, Karina Michelin diz ser atriz, jornalista e apresentadora. No perfil do LinkedIn, apresenta cargo de produtora e apresentadora de um programa sobre Miami. No Facebook, onde mantém um perfil aberto, já publicou vídeos e textos questionando atitudes adotadas em meio à pandemia e recomendações feitas pela Organização Mundial da Saúde. Um dos compartilhamentos é de um texto sobre a OMS ter declarado que a transmissão de covid-19 a partir de assintomáticos é “muito rara”. A fala, investigada pelo Estadão, foi distorcida e diz respeito a alguns estudos em andamento.

No vídeo, Karina afirma que “tem um monte de gente publicando estudos de cientistas que não são relevantes, somente pelo fato de eles serem cientistas” e introduz ao espectador o “índice-H”, que mede a produção de pesquisadores com base na quantidade de citações que recebem em estudos.

Questionada pelo Comprova sobre qual o critério utilizado na escolha dos cientistas comparados, Karina afirmou ter sido clara no vídeo ao “expor os valores, mostrando que nem tudo funciona na base da moral e da ética, principalmente no mundo científico. MUITOS cientistas têm interesses escusos e a mídia sem saber ou sabendo, acaba defendendo esses interesses sem que isso seja ciência.”

Na troca de mensagens, pelo chat do Facebook, Karina disse ter citado cientistas que a mídia divulgou e apresentam “índices irrelevantes”, comparados a pesquisadores “que não tiveram espaço no Brasil, mas sim no resto do mundo”.

O que é o índice-H?

O índice-H é um indicador de desempenho de pesquisadores de acordo com a quantidade de artigos científicos publicados por cada um. Também conhecido como H-index, foi proposto pelo físico argentino Jorge Hirsch, professor da Universidade da Califórnia, San Diego. O índice é calculado contabilizando quantos papers um pesquisador publicou e quantas quantas vezes cada um desses artigos foi citado por outras publicações. “Hirsch propôs o índice-H, que é o número H de publicações que foram citadas pelo menos H vezes, como um critério para avaliar o impacto de um cientista em sua comunidade”, explicou o professor Edgar Dutra Zanotto, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), autor de um artigo que trata das limitações do índice para a comparação entre cientistas.

O professor Abel Packer, um dos fundadores da biblioteca científica SciELO, acredita que a o índice-H é importante, “desde que se considere que o valor comparativo do índice-H aplica-se a pesquisadores da mesma área temática e com suficiente número de documentos publicados para alcançar o mesmo desempenho. No limite, serve para comparar cientistas gêmeos”, exemplifica. Zanotto segue na mesma linha: “Hoje é aceito que o índice-H é fortemente dependente do campo [de atuação de cada um], criando uma barreira para uma avaliação e comparação justa da performance científica de indivíduos ou instituições de áreas diferentes”, completou.

É o que Karina Michelin faz no vídeo, ao comparar ganhador do prêmio Nobel de Química Michael Levitt, de 73 anos, com o biólogo brasileiro Átila Iamarino, de 36. Neste exemplo, há ainda uma amostra da limitação do índice índice-H: a diferença de idade. “O uso de indicadores bibliométricos baseados na prolificidade e na visibilidade (…) enfrenta múltiplos desafios, como diferenças entre a quantidade de publicações de cada um, por exemplo, por causa de diferenças de idade e de estágios na carreira; diferenças no tamanho da área de atuação de cada um, culturas de publicação e citação em diferentes comunidades; e o questionamento, em aberto, sobre se grande visibilidade significasse também grande qualidade e relevância”, informa o professor Zanotto.

Outro problema é que, mesmo quando um artigo é mencionado de forma crítica e questionado, as citações ainda contam para aumentar o índice-H do pesquisador. Foi o que aconteceu com o francês Didier Raoult, autor de um estudo polêmico sobre o uso da cloroquina e da azitromicina para o tratamento da covid-19 (leia mais abaixo). As auto-citações também entram na conta, então quanto mais um cientista remete a artigos que ele próprio escreveu, maior seu índice.

Desde que foi criado, em 2005, o índice-H passou a ser supervalorizado na academia e é visto quase como um cartão de visita entre cientistas. Mas pesquisadores como o professor Zanotto propõem formas mais amplas de avaliação. “Nós defendemos o retorno a uma avaliação mais completa, baseada em critérios como o número de convites para publicar em periódicos de reputação, convites e palestras em congressos de prestígio (…) e o impacto social e econômico do trabalho de pesquisa”, enumera.

Quantidade x Qualidade

Em entrevista ao Comprova, o médico Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), explicou que os pesquisadores que mais apresentam publicações são os que conseguem mais investimentos para realizar novas pesquisas. Ou seja: a quantidade de estudos apresentados não necessariamente implica em melhor qualidade. Ele também relatou que há diversas retratações de pesquisas ocorrendo ao longo dos anos em diversas áreas.

“A gente tem tido, nos últimos dez, quinze anos, uma epidemia de retratações de pesquisas em vários campos. Não só medicina. Engenharia, física, enfim, estudos que passam por revisão por pares, revistas publicam, alguém tenta repetir o experimento que levou à publicação e não consegue repetir aquilo. Se muitos pesquisadores não conseguem reproduzir, retiram o artigo, porque outros pesquisadores não conseguiram chegar à conclusão. Isso não tem nada a ver com covid, existe até um portal, uma base de dados importante [que mostra isso] que chama Retraction Watch.”

Quem são os pesquisadores?

Michael Levitt

Michael Levitt recebeu o prêmio Nobel de Química em 2013 pelo “Desenvolvimento de Modelos Multi-escala para Sistemas Químicos Complexos” — sem ligação com epidemiologia. Nascido na África do sul, trabalhou na Inglaterra e hoje faz parte do quadro da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Seu índice-H é de 92, com 40.370 citações desde 1981.

Logo nos primeiros meses da pandemia, Levitt ganhou destaque na imprensa ao calcular o impacto que a covid-19 teria no Reino Unido, baseado em dados de contágio na China. Estimou que seriam 50 mil mortes no país, se nenhuma medida de isolamento fosse adotada. “Acredito que o verdadeiro vírus é o vírus do pânico”, disse ao jornal britânico Telegraph. Levitt defende o uso de máscaras e o distanciamento social, embora seja contra políticas mais severas como o lockdown, e também afirma ser possível alcançar uma “imunidade de rebanho” — quando um grande número de pessoas infectadas acabaria imunizando toda a população.

“O problema com epidemiologistas é que eles sentem que seus empregos servem para aterrorizar a população a fazer lockdown e isolamento social. Então você diz que vai acontecer um milhão de mortes e quando só ocorrem 25 mil você diz ‘que bom que ouviram o meu conselho’. Isso aconteceu com o ebola e com a gripe aviária, é parte da loucura”, acredita.

De acordo com a Universidade Johns Hopkins, até o dia 10 de julho o Reino Unido é o sétimo país em casos confirmados de covid-19, 289.677, e o terceiro em número de mortes: 44.735. O número é próximo ao calculado por Levitt. Mas, ao contrário do que ele prega, o país passou três meses em lockdown.

Átila Iamarino

Átila Iamarino é uma das principais vozes de alerta para o perigo da pandemia de covid-19 no Brasil. Biólogo, fez doutorado em microbiologia e pós-doutorado em virologia na Universidade de São Paulo. Também fez pós-doutorado na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Seu índice-H é de 10, somando 1.394 citações desde 2011.

Fundador da maior rede de blogs de ciência em língua portuguesa, o ScienceBlogs Brasil, dedica-se à divulgação científica no YouTube e em uma coluna no jornal Folha de S.Paulo. Iamarino defende medidas de isolamento social para conter o avanço da covid-19 e critica o uso de medicamentos sem eficácia científica comprovada, como a cloroquina. Sua participação no programa de entrevistas Roda Viva, em março, bateu recorde de audiência.

Karl Friston

Karl Friston não é “especialista em covid”, como descrito no vídeo. Ele é neurocientista, membro da Royal Society (tradicional instituição britânica voltada para o estudo científico) e usa modelos matemáticos para explicar processos biológicos. Foi o criador do “mapeamento paramétrico estatístico” (conhecido pela sigla SPM), uma estatística usada na análise de atividades cerebrais monitoradas por imagens — como ressonâncias e tomografias.

O que ele vem fazendo é aplicar fórmulas estatísticas em dados da covid-19 para tentar prever cenários sobre pessoas que podem vir a ser infectadas. Friston foi descrito como “especialista em covid” no título de uma entrevista concedida ao jornal britânico The Guardian, na qual ele mesmo diz não ter expertise na área: “É uma questão a se fazer aos epidemiologistas. Eles são os especialistas”, disse à publicação. Ele é consultor do Independent Sage, órgão de estudos do novo coronavírus que atua de forma alternativa ao oficial do governo, o Grupo de Conselho Científico para Emergências (conhecido pela sigla Sage).

No vídeo, Karina afirma que Friston “afirma que a maioria das pessoas são imunes ao coronavírus. Diz que 80% das pessoas não são suscetíveis ao vírus”. No entanto, a fala do neurocientista foi distorcida. Em entrevista à UnHeard, Friston projeta que há entre 50% e 80% de pessoas não-suscetíveis ao vírus no Reino Unido — e não em todo o mundo. Durante a entrevista, deixa claro que a taxa de suscetibilidade, na sua visão, é diferente em cada país e não necessariamente significa imunidade ao novo coronavírus. Ele também ressalta, mais de uma vez, que trabalha com probabilidades e que depende de dados como quantidade de testes feitos e quantidade de óbitos pela covid-19.

O índice-H de Friston é de 234. Ele já teve 250.415 citações registradas desde 1994 e tem 60 anos.

Eurico Arruda

Eurico Arruda, descrito apenas como pesquisador no vídeo, é médico e professor de virologia do Departamento de Biologia Celular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). Ele foi presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) entre 2014 e 2015 e é membro da Academia Americana de Microbiologia. Atualmente, coordena estudos sobre o novo coronavírus no Centro de Pesquisa em Virologia (CPV).

No vídeo, Karina afirma: “Eurico Arruda, pesquisador, diz que os coronavírus não induzem a imunidade duradoura e protetora, mas ele reza para estar enganado”.

Em entrevista ao Estadão, em 3 de maio, ele afirmou que para alguns tipos de vírus a imunidade adquirida é permanente, como no caso do sarampo. Mas isso não se aplica aos vírus respiratórios, que são diversos e não guardam “imunidade cruzada” entre eles. “Por isso você passa a vida inteira, vive 80 anos, tendo resfriados. Você não se imuniza contra eles”, explicou. Uma imagem da entrevista é mostrada no vídeo de Karina ao se referir ao médico.

Estudioso da família dos coronavírus desde antes da pandemia do Sars-CoV-2, Arruda declarou mais de uma vez que a presença de anticorpos no organismo não significa imunidade da doença. No caso do novo coronavírus, ele explicou que ainda não se sabe se ele possui capacidade de persistência, ou seja, de permanecer latente no organismo mesmo após o paciente se recuperar.

Arruda declarou à National Geographic, em abril, que outros coronavírus persistem no corpo. “Significa que, mesmo depois que a infecção aguda passou e que o paciente está curado, o vírus não se acabou. Fica ali por um tempo bastante longo até, que pode ser de alguns anos. Se esse novo coronavírus persistir, pode ser que o paciente se cure, não tenha mais sintoma, mas siga eliminando o vírus e sendo fonte de contágio para outras pessoas.”

Um estudo coordenado por ele analisa um medicamento usado no tratamento de pessoas com Aids no combate à covid-19.

Arruda tem um índice-H de 33 e soma 4.041 citações desde 1994.

Didier Raoult

O microbiologista francês Didier Raoult é descrito no vídeo como “um dos pesquisadores franceses mais citados e virou o mais polêmico”. Raoult dirige o Instituto Hospitalar Universitário Méditerranée Infection (IHU), fundado por ele, e já foi premiado com o Grand Prix Inserm, prêmio científico de destaque na França, por pesquisas sobre vírus constituírem um reino à parte. Conhecido por frases polêmicas, já disse que Charles Darwin, autor da teoria da evolução, “só escreveu bobagem”.

Em março deste ano, Raoult publicou um estudo afirmando que o uso da cloroquina teria curado 75% dos pacientes com covid-19 em seis dias. No entanto, seis dos 26 pacientes testados foram excluídos da pesquisa porque não completaram o tratamento. Desses, um morreu, três foram parar na UTI, outro desistiu por sentir náuseas e o último decidiu deixar o hospital.

O estudo foi alvo de críticas da revista Science, referência em pesquisas científicas, e seus resultados foram questionados e considerados incompletos. Muitas críticas apontaram que o estudo de Raoult não apresentava grupo de controle e que, por isso, os casos estudados eram isolados e que o tratamento com hidroxicloroquina não apresentava comprovação científica.

Em abril, a International Society of Antimicrobial Chemotherapy e a Elsevier, responsáveis pela revista que publicou o artigo, reconheceram a existência de questionamentos sobre o conteúdo e anunciaram um novo processo de revisão independente.

As polêmicas em torno da pesquisa de Raoult sobre a hidroxicloroquina já repercutiram em jornais brasileiros como Folha de S. Paulo e Estadão. A discussão também já esteve presente em checagens do Comprova sobre pesquisas que alegavam ataques à cloroquina e que alardeavam eficácia do uso da medicação em estudo.

O índice-H de Raoult é de 180. Aos 68 anos, ele já teve 157.174 citações registradas desde 1995. O perfil da Piauí diz que o cientista “se vangloria de um prodigioso número de publicações e citações, algo que, como dado estatístico objetivo, ele considera a melhor medida de seu próprio valor como pesquisador”. No entanto, o texto aponta que Raoult apresenta alta quantidade de publicações “porque assina seu nome em quase todos os artigos produzidos por seu instituto.”

João Viola

Descrito como pesquisador no vídeo, João Viola é médico, presidente do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI) e pesquisador do Instituto Nacional do Câncer (Inca). No vídeo, Karina afirma que ele disse que o “uso da cloroquina contra o covid-19 é perigoso, carece de evidência e tomou aspecto político e inesperado”. Ela se refere a um parecer assinado por Viola e outros integrantes da SBI em 18 de maio.

O texto menciona pesquisas realizadas com a hidroxicloroquina e afirma que “ainda é precoce a recomendação de uso deste medicamento na covid-19” pela falta de comprovação da eficácia da droga em casos de covid-19. O parecer também cita as controvérsias em torno da pesquisa coordenada por Didier Raoult, conforme apresentado anteriormente neste texto, e pede que se priorize investimentos em outras possibilidades de medicamentos para obter “maior número de terapias com potencial efetivo no tratamento da covid-19”.

A nota foi publicada três dias após o Ministério da Saúde anunciar que estava prestes a divulgar o protocolo para o uso da cloroquina em casos leves do novo coronavírus – desde março, a pasta previa o uso do medicamento para casos graves e críticos. O protocolo foi lançado em 20 de maio, dois dias depois da nota da SBI.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já divulgou que ainda não existe vacina ou medicamento específico para prevenir ou tratar a covid-19, e que os tratamentos aplicados até o momento são para “aliviar os sintomas” dos infectados. No mesmo protocolo em que recomenda o uso da cloroquina para casos leves, o Ministério da Saúde ressaltou “que não existem evidências científicas robustas que possibilitem a indicação de terapia farmacológica específica para a covid-19”.

Viola possui um índice-H de 31, com 3.962 citações desde 1996.

Tedros Adhanom

Descrito no vídeo como “político, biólogo e pesquisador que não possui H-index”, Tedros Adhanom Ghebreyesus é etíope e formado em biologia, com mestrado em imunologia de doenças infecciosas e doutorado em saúde pública. Já atuou como ministro da Saúde da Etiópia (2005-2012) e também ministro das Relações Exteriores (2012-2016). Ele é alvo de diversas críticas em seu país, acusado de ter minimizado vários surtos de cólera entre 2006 e 2011, atrasando a adoção de medidas para tentar conter a crise.

Enquanto ministro, voltou a atenção à ampliação dos serviços públicos de saúde na Etiópia. Em 2009, foi eleito presidente do Conselho Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária.

Eleito para o cargo de diretor-geral da OMS em 2017, Adhanom contou com voto do governo brasileiro e tornou-se o primeiro africano eleito para chefiar o órgão. Também é o primeiro a ocupar o cargo sem formação médica.

No vídeo, Karina diz que o diretor da OMS não tem índice-H. Embora ele não tenha perfil acadêmico registrado no Google Scholar, apresenta um no portal Semantic Scholar. Aos 55 anos, Adhanom tem índice-H de 17, com 1.349 citações desde 1996.

Michael Joseph Ryan

Michael Ryan é diretor-executivo do Programa de Emergências da OMS e gerência emergências globais há quase 25 anos. Desde 1996 ele integra a unidade de resposta para ameaças de novas doenças e epidemias. Médico formado pela Universidade Nacional da Irlanda, em Galway, possui formação voltada para a área de epidemiologia.

Ryan foi coordenador operacional da resposta da OMS à epidemia de Sars (2003) e conselheiro sênior da iniciativa global para a erradicação da pólio (2013 a 2017).

Diferentemente do que afirma Karina no vídeo, ele nunca foi funcionário da Fundação Bill e Melinda Gates; ele trabalhou em parceria com a fundação durante ações para erradicação da pólio em países do Oriente Médio. A iniciativa também contou com a participação de outras organizações.

No vídeo, Karina afirma que Ryan “não possui h-index, mas é o diretor-executivo do programa de emergências da OMS e lidera a equipe responsável pela contenção e tratamento internacional da covid”. A informação não procede.

Assim como Adhanom, Ryan não tem perfil no Google Scholar, mas sim no Semantic Scholar. Diversos homônimos de Ryan também estão na plataforma. Para encontrá-lo, o Comprova buscou pesquisas feitas pela OMS com o nome de Michael Ryan e procurou por elas no site. Por meio da busca, foi possível localizar o perfil de Ryan.

Aos 55 anos, ele tem índice-H de 22, somando 1.645 citações desde 1974. Em mais de um ano, ele não apresentou nenhuma publicação.

Maria Kerkhove

A americana Maria Van Kerkhove é descrita no site da OMS como estudiosa de zoonoses e vírus respiratórios. Consultora técnica do órgão, atuou em análises durante o surto de Mers (outra doença provocada pela família dos coronavírus) e de H1N1.

No vídeo, a citação a Kerkhove se refere a uma fala sobre uma nova onda de infecções pelo novo coronavírus. “Já a doutora Maria Kerkhove é uma epidemiologista de doenças infecciosas e, sendo a principal pesquisadora da covid-19 da OMS, disse que virá uma segunda onda porque uma proporção menor de pessoas foi infectada do que se pensava inicialmente”, diz o vídeo.

Kerkhove já trabalhou no Imperial College de Londres, universidade referência na área científica, em um conselho que analisava, junto à OMS, casos de influenza, febre amarela, meningite, Mers-CoV e ebola. Ela ainda detém o título de professora honorária na instituição.

No currículo consta que também chefiou a força-tarefa de investigação de surtos no Centro de Saúde Global do Instituto Pasteur, na França, de onde saiu para integrar o quadro de consultores da OMS.

Em perfil da The Hill, ela relata que conversa diariamente com diversos acadêmicos que estudam o novo coronavírus e busca se inteirar de novas pesquisas sobre o tema. Ela também é integrante do Consise (Consórcio para Padronização da soroepidemiologia de Influenza), composto por um comitê que reúne membros de organizações em todo o mundo, tais como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), agência sanitária dos Estados Unidos, e o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC).

Embora o Comprova não tenha encontrado seu perfil acadêmico no Google Scholar, assim como Adhanom e Ryan, outros dois ligados à OMS, ela consta no Semantic Scholar. O índice-H de Kerkhove, com 43 anos, é de 33, somando 5.366 citações desde 2004.

Por que investigamos?

O Comprova verifica boatos, textos e vídeos sobre a covid-19, por entender que a desinformação pode custar vidas em meio a uma situação de emergência sanitária com a que enfrentamos neste momento. A pandemia já custou a vida de 69.184 brasileiros, segundo dados da Universidade John Hopkins do dia 10 de julho, e é o maior problema de saúde pública já enfrentado pelo país. Ainda assim o combate ao novo coronavírus virou tema de debates políticos entre os que defendem medidas rigorosas de isolamento social para evitar a disseminação da doença e aqueles que defendem a retomada da economia. Mesmo infectado pela covid-19, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é um defensor da volta à normalidade e do uso da cloroquina — medicamento sem eficácia comprovada para o tratamento da doença.

O Comprova já verificou outros conteúdos que questionavam a necessidade de isolamento social e criticavam as políticas de lockdown. Outra constante são as críticas à OMS, como em um vídeo que mostrava praças de Genebra lotadas, ou o texto que afirmava que a organização tinha se arrependido de parar as pesquisas com a cloroquina.

O vídeo verificado, em que a autora usa um índice de desempenho acadêmico para diminuir a importância daqueles que defendem políticas rigorosas contra a disseminação do SARS-CoV-19, viralizou rapidamente. Desde que foi publicado, no dia 28 de junho, foi visto 30,7 mil vezes no Instagram, 998 vezes no Youtube e teve 611 compartilhamentos e 373 interações no Facebook.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que apresenta uma informação fora de contexto e induz a uma interpretação equivocada.

Pandemia

Investigado por:2020-07-10

É falso que a África tenha controlado pandemia com ivermectina

  • Falso
Falso
Ao contrário do que afirmam vídeos publicados nas redes sociais, a pandemia de covid-19 não está sob controle no continente africano. Países da região aplicaram diversas medidas para tentar segurar o contágio
  • Conteúdo verificado: Vídeos dos médicos Álvaro Galvão (RO) e Rafael Freitas (PR) no YouTube defendem o uso profilático da ivermectina como tratamento para a covid-19, sob o argumento de que a medicação reduziu o número de casos graves da doença na África

É falso que a pandemia de covid-19 esteja sob controle na África por causa do uso preventivo da ivermectina, um medicamento contra vermes. Em vídeos publicados em seus canais do YouTube, os médicos Álvaro Galvão, de Rondônia, e Rafael Freitas, do Paraná, afirmam que o consumo profilático de ivermectina pode evitar sintomas e o agravamento da covid-19.

Até aqui, não há nenhuma comprovação científica de que a ivermectina seja um medicamento eficiente para tratar pacientes com covid-19. É o que afirmam o Ministério da Saúde, a Food and Drug Administration (FDA), autoridade sanitária dos Estados Unidos, e os próprios pesquisadores que estudam o uso da droga contra o vírus SARS-CoV-2 em laboratório.

A pandemia também não está sob controle na África. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença tem avançado numa velocidade acelerada no continente. A Etiópia, citada em um dos vídeos como um país que teria adotado pouquíssimas ações por causa do uso profilático da ivermectina, tomou diversas medidas para tentar controlar o contágio. As autoridades locais fecharam escolas e restaurantes, proibiram aglomerações, decretaram quarentena obrigatória para todos que chegassem ao país e decretaram estado de emergência por causa da pandemia.

A Marinha do Brasil também não aprovou um protocolo para o uso de ivermectina para tratar pacientes com covid-19, outra informação difundida em um dos vídeos.

Como verificamos?

A verificação foi dividida em três partes. Inicialmente, o Comprova buscou informações sobre a situação da pandemia no continente africano e, especialmente, na Etiópia – onde, segundo o médico Álvaro Galvão, os números da doença seriam bastante inferiores em comparação aos demais países. Para checar o número de casos, óbitos e testes realizados para identificar a doença na África foram utilizadas as bases de dados do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e do Our World in Data, plataforma ligada à Universidade de Oxford, no Reino Unido.

A segunda etapa concentrou-se na investigação do uso da ivermectina no tratamento de pacientes com a covid-19. Foram consultados estudos científicos, notícias e outras verificações realizadas pelo Comprova sobre as relações do medicamento com a doença causada pelo novo coronavírus.

Por último, o Comprova entrou em contato com os autores dos vídeos. Tentou localizar Álvaro Galvão por meio do celular da clínica que aparece em seus vídeos no YouTube. E enviou mensagem para Rafael Freitas pelo e-mail cadastrado na conta dele no YouTube e via Twitter.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 10 de julho de 2020.

Verificação

Situação da África

Até a data de fechamento deste texto, 10 de julho, o continente africano contabilizava 543.136 casos e 12.474 óbitos causados pela covid-19, segundo os dados do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa Centres for Disease Control and Prevention).

Em 8 de julho, quando a África superou a marca de 500 mil casos da doença, a OMS alertou que a pandemia estava se espraiando em uma velocidade acelerada, apesar de esse crescimento não ser uniforme em todo o continente. O informe da organização afirma que os casos mais que dobraram no último mês em 22 países africanos e que em dois terços do continente há transmissão comunitária do vírus, aquela em que não é mais possível localizar a origem da infecção. Segundo os dados da OMS, em menos de cinco meses, as mortes causadas pelo novo coronavírus superaram as causadas pela epidemia de ebola na África Ocidental, que ocorreu entre 2014 e 2016.

No mesmo informe, a OMS afirmou que 71% dos casos de covid-19 no continente africano estão concentrados em cinco países: Argélia, Egito, Gana, Nigéria e África do Sul. E que 80% dos infectados possuem 60 anos ou menos.

Em uma entrevista coletiva realizada em 9 de julho, John Nkengasong, diretor do CDC africano, endossou o alerta da OMS pedindo atenção ao crescimento do número de casos e óbitos no continente. De acordo com Nkengasong, os dados sobre a doença em muitos países africanos são insuficientes ou não são confiáveis – o que, segundo ele, dificulta o controle da pandemia.

O diretor destacou, também, a necessidade de aumentar a capacidade de testagem da população no continente. De acordo com os dados da plataforma Our World in Data, a maior parte dos países africanos não possui capacidade para testar todos que apresentam sintomas da doença.

A covid-19 na Etiópia

Ao comentar no vídeo enganoso os números da covid-19 na Etiópia, o médico Álvaro Galvão destaca que o aparente sucesso do país no controle da doença estaria exclusivamente relacionado ao uso profilático da ivermectina para o tratamento de outras doenças por grande parte da população. O médico afirma que as únicas medidas tomadas pelas autoridades etíopes para frear a covid-19teriam sido “a lavagem de mãos, o distanciamento social e o controle de temperatura que nos aeroportos”.

Essa informação é falsa. Após a confirmação, em 13 de março, do primeiro caso de covid-19, as autoridades da Etiópia rapidamente anunciaram uma série de medidas para tentar controlar o avançoda doença no país. Três dias depois do registro do primeiro paciente infectado pelo novo coronavírus, o governo instituiu o fechamento de escolas, a proibição de aglomerações e o apelo à população para a prática do isolamento social.

Em 20 de março, novas medidas foram anunciadas, como a obrigatoriedade do cumprimento de quarentena para todos aqueles que desembarcassem no país, a interrupção dos voos da maior companhia aérea etíope, a Ethiopian Airlines, para 30 países e o fechamento de bares e restaurantes. No dia 8 de abril, o governo decretou estado de emergência em todo o país.

As autoridades sanitárias da Etiópia não indicam a ivermectina para a prevenção ou tratamento da covid-19. O portal do governo que reúne as informações sobre a doença no país afirma que, apesar de várias drogas estarem em estudo, até o momento não existe um medicamento eficaz para os pacientes com o novo coronavírus e destaca que, para aqueles que desenvolvem sintomas graves, são administrados os chamados tratamentos suporte.

O portal alerta que a prevenção é o método mais eficaz para controlar o contágio da covid-19 e endossa as recomendações da OMS, como lavar as mãos com frequência, evitar tocar o nariz e a boca, usar máscaras e manter distância das demais pessoas.

Outro dado falso que o médico Álvaro Galvão apresenta no vídeo diz respeito ao número de casos e óbitos causados pela covid-19 na Etiópia até o dia 31 de maio. Segundo ele, até essa data o país contabilizava 731 casos e 6 mortes. O boletim oficial do Ministério da Saúde etíope revelou números maiores: 1.172 caos e 11 mortes.

Para compreender se a população etíope utiliza a ivermectina de modo profilático para o tratamento de outras doenças, conforme apontado no vídeo, a reportagem procurou a Embaixada da República Democrática Federal da Etiópia no Brasil, o Ministério da Saúde da Etiópia e o Instituto Etíope de Saúde Pública. Até o fechamento deste texto os contatos não houve retorno.

Até a publicação desta verificação, a Etiópia registrou 7.120 casos e 124 óbitos causados pela covid-19. Os dados são da Universidade Johns Hopkins.

Os médicos

Segundo o site do Conselho Federal de Medicina, Álvaro Luis Galvão Ignácio é especialista em cirurgia vascular. Atualmente, tem registro médico em Rondônia, mas já atuou em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Em seu site pessoal, ele conta que se formou em medicina em Porto Alegre e foi militar, com a patente de tenente médico, quando serviu no Hospital de Guarnição de Porto Velho. Atualmente, trabalha no Day Hospital Center Clínica, do qual é sócio, na cidade de Ji-Paraná, no interior de Rondônia. Em 2019, Álvaro recebeu o título de cidadão do estado da Assembleia Legislativa. No YouTube, ele já fez outros vídeos sobre a pandemia, como os intitulados “O uso da hidroxicloroquina” e “Diferenças do isolamento vertical e horizontal”.

Rafael Sousa de Freitas tem registro ativo no Conselho Regional de Medicina do Paraná desde 2014. Na descrição do seu canal do YouTube, ele se apresenta como cristão, formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), escritor, palestrante motivacional e treinador de alta performance nos estudos. No Twitter, se descreve como de direita e “pró-vida”. No Instagram, declara apoio ao presidente Jair Bolsonaro e ao presidente americano Donald Trump. Seus vídeos sobre a experiência como médico trazem títulos como “Homem engasga por esconder os dentes” e “Chamei mulher obesa de elefante”.

Nenhum deles respondeu às tentativas de contato do Comprova por WhatsApp, e-mail ou Twitter.

A ivermectina e a covid-19

A ivermectina está registrada na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como “medicamento contra infecções causadas por parasitas”. Segundo a Food and Drug Administration, órgão de vigilância sanitária dos Estados Unidos, a ivermectina é liberada para humanos no tratamento de vermes intestinais e de parasitas tópicos, como piolho e rosácea. Além disso, o remédio é usado para o tratamento de vermes em diversas espécies de animais. Possíveis efeitos colaterais incluem vômito, diarreia, dor estomacal, erupções cutâneas, eventos neurológicos ( como convulsões, tontura e confusão), queda repentina da pressão arterial e danos ao fígado.

O Ministério da Saúde afirma que “ainda não existem evidências clínicas suficientes que permitam tecer qualquer recomendação quanto ao uso de ivermectina em pacientes com covid-19”. A FDA adota o mesmo posicionamento.

Em abril, um estudo da Universidade de Monash, na Austrália, apontou pela primeira vez a possibilidade de a ivermectina atuar como inibidor in vitro do SARS-CoV-2. No início de junho, em e-mail enviado ao Comprova, o Departamento de Medicina, Enfermagem e Ciências da Saúde da instituição explicou que o estudo demonstra apenas a eficiência em laboratório e que “a ivermectina não pode ser usada em pacientes com covid-19 até que outros testes e ensaios clínicos tenham sido conclusivos em estabelecer a eficácia do medicamento em níveis seguros para dosagem em humanos”.

Em verificação do Comprova publicada no dia 8 de julho, o infectologista Marcelo Carneiro, professor da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e integrante da Associação Brasileira dos Profissionais em Controle de Infecções e Epidemiologia Hospitalar (Abih), reforçou que não está comprovada a eficácia da ivermectina em humanos. “Já está provado que as doses de ivermectina precisam ser extremamente altas para funcionar. Então, em laboratório ela funciona como antiviral. Mas não existem doses para humanos e, se existir, será extremamente tóxica”, explicou.

A Marinha

Álvaro Galvão diz que a Marinha brasileira desenvolveu um protocolo para uso da ivermectina e tratou pacientes com covid-19 com o medicamento. Em uma nota enviada por e-mail ao Comprova, o departamento de imprensa disse que produziu uma “minuta de proposta de protocolo”, mas que não está em uso. A Marinha disse ainda que adota em suas unidades “todos os protocolos clínicos e terapêuticos” divulgados pela OMS, pelo Ministério da Saúde e pela Anvisa “a fim de orientar seus profissionais de saúde quanto às medidas de condução e de tratamento dos pacientes infectados pelo novo coronavírus no âmbito do Sistema de Saúde da Marinha”.

Por que investigamos?

O Comprova tem investigado conteúdos suspeitos sobre a pandemia que viralizam nas redes sociais. Como ainda não existem vacina ou cura, muitas das verificações têm sido sobre medicamentos que supostamente combatem a covid-19. O tema é de extrema importância porque a automedicação sem orientação médica, além de não curar o novo coronavírus, pode ser prejudicial para as pessoas e colocar a saúde delas em risco.

Nesse contexto, a ivermectina tem sido muito citada em conteúdos que sugerem o seu uso preventivo, ainda que não exista nenhuma comprovação científica da sua eficácia. No último mês, o Comprova já mostrou que não havia provas de que o medicamento funcionasse, que entrevistas sobre o remédio estavam sendo retiradas de contexto, e que as autoridades médicas não recomendam a automedicação.

Até o fechamento dessa verificação, os vídeos dos médicos Álvaro Galvão e Rafael Freitas tinham, juntos, 336.175 visualizações no YouTube. Eles também atingiram 4.639 e 3.162 interações no Facebook e Twiter, segundo a plataforma de monitoramento Crowdtangle.

Falso para o Comprova é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para modificar o seu significado original e divulgado de maneira deliberada para espalhar uma mentira.

Políticas públicas

Investigado por:2020-07-09

É falso que vídeo mostre “sabotagem” de governo do Ceará em canal inaugurado por Bolsonaro

  • Falso
Falso
A gravação, na qual uma mulher mostra motoristas de caminhões-pipa jogando fora um grande volume de água, foi feita em junho de 2017 no município de Pariconha, Alagoas, mais de um ano antes da eleição de Bolsonaro
  • Conteúdo verificado: Publicações afirmam que vídeo de motoristas de caminhão-pipa descartando grande volume de água mostra pessoas contratadas pelo governo do Ceará para sabotar canal recém-inaugurado pelo presidente Jair Bolsonaro no estado.

É falso que um vídeo compartilhado mais de 18 mil vezes em redes sociais mostre “pipeiros contratados pelo governo” do Ceará, dirigido pelo PT, descartando água retirada de um canal inaugurado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no estado. A gravação, na qual uma mulher mostra motoristas de caminhões-pipa jogando fora um grande volume de água, foi feita em junho de 2017 no município de Pariconha, Alagoas, mais de um ano antes da eleição de Bolsonaro.

Os motoristas gravados nas imagens faziam parte da Operação Carro-Pipa, coordenada pelo Exército em Alagoas para distribuir água potável às populações rurais e urbanas atingidas por estiagem na região. Após a primeira viralização do vídeo, em 2017, eles foram descadastrados do programa, como informou ao Comprova o batalhão responsável pelo projeto.

Como verificamos?

Para iniciar esta verificação, realizamos buscas reversas no Google Imagens por capturas de tela do vídeo associadas a palavras-chave identificadas na gravação. Essa pesquisa levou a um artigo publicado em 1º de junho de 2017 no portal alagoano Correio Notícia, ilustrado com as imagens viralizadas.

Segundo a reportagem, o vídeo havia sido gravado na época em uma área próxima ao Canal do Sertão, em Pariconha, Alagoas. Com base nessas informações e com o intuito de localizar a pessoa responsável pela gravação, buscamos publicações feitas no Facebook em junho de 2017 com os termos “água” e “canal do sertão”.

Essa busca levou a uma publicação feita às 10h21 do dia 1º de junho de 2017 por um morador do município alagoano de Piranhas, localizado a 56km, cerca de uma hora de carro de Pariconha. “Olha minha gente so pq está chovendo sertão o qui estão fazendo com a nossa água [sic]”, dizia a postagem. “o qui o exército está fazendo qui não fiscalizar isso minha gente [sic]”, continuava o texto.

O Comprova entrou em contato com o usuário para solicitar informações sobre a gravação, mas não obteve resposta até o fechamento deste texto.

Em seguida, procuramos a Prefeitura de Pariconha, que confirmou que as imagens foram gravadas no município alagoano em junho de 2017. Também foi consultado o 59º Batalhão de Infantaria Motorizada do Exército, que informou que os motoristas eram cadastrados na Operação Carro-Pipa, mas foram desligados após a viralização do vídeo.

Para reiterar a conclusão, consultamos imagens do Canal do Sertão disponibilizadas no Google Maps em busca de semelhanças com o cenário retratado no vídeo.

Verificação

Um vídeo em que uma mulher filma dois motoristas de caminhão-pipa descartando um grande volume de água em uma área rural foi amplamente compartilhado no Facebook e no Twitter como se mostrasse “pipeiros contratados pelo governo demoníaco do Ceará” pegando água “do canal inaugurado pelo presidente para jogar fora”. “Essa esquerda maldita é o câncer da sociedade”, dizem algumas das postagens.

O conteúdo ganhou força após o presidente Jair Bolsonaro inaugurar, no final de junho, um trecho da obra de transposição do Rio São Francisco no Ceará, estado governado por Camilo Santana, do PT.

O vídeo não é, contudo, atual, nem retrata uma tentativa do governo cearense de sabotar a obra inaugurada por Bolsonaro.

Vídeo de 2017

Uma busca reversa no Google por capturas de tela da gravação associadas a palavras-chave identificadas no vídeo levou a um artigo publicado em 1º de junho de 2017 pelo portal Correio Notícia. O texto diz que o “flagrante ocorreu no sítio Rolas, zona rural de Pariconha, bem ao lado do Canal do Sertão”, em Alagoas. O vídeo foi publicado na mesma data no canal do site de jornalismo no YouTube.

De fato, na gravação é possível escutar a mulher que faz a denúncia cobrando um posicionamento do Exército de Maceió, capital do Alagoas, e afirmando: “Isso aqui é o Canal do Sertão”.

As informações também foram publicadas em outra reportagem, no mesmo dia, no site GazetaWeb.

Uma análise das imagens do Canal do Sertão disponíveis no Google Maps permitiu identificar semelhanças com o vídeo compartilhado nas redes, como as pontes de cor laranja destacadas na comparação abaixo:

Para confirmar o local e a data da gravação, o Comprova entrou em contato com a Prefeitura de Pariconha, que informou que o vídeo efetivamente foi gravado “entre os municípios de Pariconha e Delmiro Gouveia” em junho de 2017.

A Prefeitura afirmou, ainda, que não puniu os motoristas de carro-pipa na época, porque seus contratos seriam de responsabilidade do Exército.

Com esta informação, o Comprova procurou o 59º Batalhão de Infantaria Motorizada do Exército, responsável pela Operação Carro-Pipa em Alagoas, que reiterou que as imagens datam de junho de 2017.

“Naquela ocasião, os Pipeiros alegaram que tiveram um problema mecânico e o peso do caminhão estava impossibilitando de prosseguir viagem”, afirmou um porta-voz do batalhão ao Comprova por e-mail. “Todas as medidas administrativas foram tomadas e os Pipeiros foram descadastrados da Operação Carro-Pipa”, completou.

Por que investigamos?

O Projeto Comprova faz a verificação de conteúdos virais sobre políticas públicas do governo federal. Neste caso, o vídeo de motoristas de caminhão-pipa descartando água obteve mais de 18 mil compartilhamentos no Facebook, Twitter e Instagram, somando mais de 265 mil visualizações em menos de 24 horas.

O conteúdo, encaminhado por leitores do Comprova, circula no momento em que as ações de infraestrutura hídricas do governo Bolsonaro estão em alta, com a recente inauguração do Eixo Norte do Projeto de Integração do Rio São Francisco — obra iniciada no segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2007-2010).

A conclusão de parte do projeto durante o governo Bolsonaro, opositor público do PT, gerou debates sobre quem seria responsável pela obra, desencadeando outras desinformações verificadas pelo Comprova.

A alegação de que o vídeo dos caminhões-pipa seria atual também foi checada pela Agência Lupa.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Políticas públicas

Investigado por:2020-07-08

Post engana ao dizer que Exército construiu ponte em 24 horas em Goiás

  • Enganoso
Enganoso
O vídeo apresentado é real, mas é de 2019 e os militares levaram uma semana para realizar a instalação. A ponte era provisória e já foi substituída por uma estrutura fixa
  • Conteúdo verificado: Post acompanhado de vídeo afirma que o Exército montou uma ponte em 24 horas a pedido do governo de Goiás.

É enganoso um post publicado em 27 de junho sobre a construção de uma ponte pelo Exército em Goiás. Diz o texto: “O governo de Goiás sem dinheiro para construir uma ponte para fazer o escoamento de produtos agrícolas, fez uma solicitação ao governo Bolsonaro e em 24 horas a engenharia do Exército brasileiro compareceu e montou uma ponte ‘Bayley’ (sic). Acorda Brasil. Vamos divulgar porque não vai sair na imprensa…”. A publicação é acompanhada de um vídeo que mostra dois homens próximos a uma das extremidades de uma ponte conversando sobre a estrutura. O vídeo é real, mas é de 2019 e a ponte não foi instalada pelo Exército em apenas um dia.

Segundo o governo de Goiás, em 2019 o estado fechou parceria com o Exército, por meio do Ministério do Desenvolvimento, para a instalação de uma ponte metálica entre os municípios de Israelândia e Fazenda Nova. A área, localizada em trecho da rodovia GO-060, estava interditada por causa de fortes chuvas. O Exército iniciou a construção da obra nove dias depois do rompimento da antiga estrutura e construiu uma nova, provisória, em uma semana, e não em 24 horas.

[Atualizado em 14 de julho de 2020 – O parágrafo acima foi atualizado para corrigir uma informação sobre o “comparecimento” do Exército ao local de construção da ponte. Na verdade, o Exército foi até o local no dia seguinte para “reconhecimento do local” – como explicado adiante – mas as obras realmente foram iniciadas somente dias depois]

Além disso, ao afirmar que é preciso “divulgar porque não vai sair na imprensa”, o post engana ao insinuar que a obra seria atual e deveria ser tema de reportagens. A construção da nova passagem metálica, que era provisória, foi finalizada em 26 de março do ano passado, ou seja, há mais de um ano, e foi noticiada por veículos de comunicação goianos.

Como verificamos?

O passo inicial foi buscar pelos termos “ponte Bailey Goiás” no Google. Entre os primeiros resultados, apareceram diversas reportagens sobre a construção de uma ponte provisória na rodovia GO-060, no município de Israelândia, no interior do estado. Uma matéria exibida no dia 22 de março de 2019 pelo jornal JA2 da TV Anhanguera, afiliada da Globo em Goiás, mostrava a maquete de uma ponte muito semelhante à apresentada no vídeo do post que viralizou.

Outra reportagem, do portal G1, divulgada em 27 de março de 2019, já mostrava a estrutura metálica em funcionamento. Pelas imagens, foi possível confirmar que era a mesma ponte do post.

Entramos em contato com a assessoria de comunicação do governo de Goiás no dia 3 de julho por e-mail. Recebemos a resposta no mesmo dia por WhatsApp.

Tentamos identificar os homens que aparecem no vídeo e que seriam os autores das imagens, mas não foi possível. O Comprova também entrou em contato com Altaisa Teixeira, responsável pelo post de maior viralização no Facebook, por meio de mensagens diretas no Facebook e no Instagram. Não obtivemos resposta até a publicação desta verificação.

O Comprova enviou e-mail para a assessoria de comunicação do Exército em 6 de julho, às 12h27, e não obteve resposta até a publicação da verificação. O órgão respondeu por meio do Departamento de Engenharia e Construção em 14 de julho, depois que a checagem já havia sido publicada.

[Atualização em 14 de julho de 2020: o parágrafo acima foi acrescentado após a resposta do Exército]

Verificação

Ponte provisória

Segundo o governo de Goiás, a rodovia estadual GO-060 foi interditada no trecho entre Israelândia e Fazenda Nova em 10 de março de 2019, após fortes chuvas e o rompimento de um bueiro. Ainda de acordo com o governo, o governador Ronaldo Caiado (DEM) contatou o Ministério do Desenvolvimento para efetuar parceria com o Exército Brasileiro e, assim, viabilizar a instalação de uma ponte metálica, tipo Logistic Support Bridge (LSB) – mais moderna e mais leve que a ponte Bailey.

Com 32 militares e 17 viaturas, a 23ª Companhia de Engenharia de Combate do Exército começou a obra em 19 de março – nove dias após o acordo com o governo estadual – e liberou a estrutura para o tráfego na noite de 26 do mesmo mês. “A ponte serviu para a passagem de veículos pesados, acima de dois eixos (mais de 16 toneladas), e foi adotado o modo ‘pare e siga’ para atender os dois sentidos da via”, informou o governo. A ponte provisória foi desmontada em setembro de 2019, após a Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra), órgão do estado, concluir a recomposição definitiva do bueiro rompido.

Após publicarmos a matéria, o Exército respondeu ao pedido de informações da reportagem. Informou que compareceu, sim, no dia seguinte ao rompimento do bueiro para “realizar o reconhecimento do local para posterior montagem da ponte”. Mesmo assim, a nota confirma que a construção da ponte só começaria dias depois. O Departamento de Engenaria e Construção diverge do estado ao dizer que a obra começou em 22 de março, mas confirma que os trabalhos foram concluídos em 26 de março. Falou, por fim, que “o recurso destinado à montagem e operação da ponte foi oriundo do orçamento da Secretaria de Defesa Civil do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR)”.

[Atualização em 14 de julho de 2020: o parágrafo acima foi acrescentado após a resposta do Exército]

Ponte permanente

Ainda de acordo com o governo, a ponte instalada pelo Exército era provisória e “foi desmobilizada em setembro de 2019, após a Goinfra concluir a recomposição definitiva do bueiro rompido”.

Em 18 de setembro do ano passado, o site da agência publicou um texto que informava que “a estruturação de um novo bueiro no KM 184 da GO-060, entre Israelândia e o trevo para Fazenda Nova, está em fase final de execução. A 23ª Companhia de Engenharia de Combate, do Exército Brasileiro, concluiu na manhã de hoje (18) a retirada da ponte metálica do local, com o objetivo de liberar a pista para as últimas etapas da obra”. Seguia dizendo que uma equipe da Goinfra trabalhava para pavimentar o trecho e motoristas que precisassem passar pela região poderiam acessar um desvio “até a conclusão dos serviços na rodovia”.

No dia 9 de outubro, a Goinfra contava sobre a etapa de concretagem da obra. E acrescentava: “Os próximos passos, que já estão em andamento, são: execução das alas das bocas do bueiro, escalonamento lateral para estabilização de corpo de aterro, pavimentação asfáltica e sinalização viária”. O desvio continuava sendo a opção para os motoristas.

A autora do post

Altaisa Teixeira, que postou o conteúdo no Facebook, costuma publicar na rede social textos, imagens e vídeos alinhados com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Há posts pedindo intervenção militar e algumas publicações verificadas pelo Comprova e classificadas como falsas – como uma combinação de fotos que usava imagens antigas como sendo obras de Bolsonaro e outra que diz que Ciro Gomes tem caminhões-pipa no Ceará.

Em 2018, ela foi candidata a deputada federal no Rio de Janeiro pelo PSL, antigo partido do presidente. Recebeu 1.128 votos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, insuficientes para ser eleita.

O Comprova tentou contatá-la via Facebook e Instagram, mas não obteve retorno até o fechamento desta verificação.

Por que investigamos?

O Projeto Comprova faz a verificação de conteúdos virais sobre políticas públicas do governo federal. O vídeo sobre a construção da ponte em Goiás pelo Exército Brasileiro, publicado no Facebook por Altaisa Teixeira em 27 de junho de 2020, recebeu 32,6 mil compartilhamentos e foi visto mais de 561 mil vezes até o fechamento desta verificação. O conteúdo foi compartilhado por páginas como “Bolsonaro Presidente 2022” e “Beto Fontes – FFAA – Brasil”.

O Exército Brasileiro ganhou destaque no governo Bolsonaro, ele próprio um capitão reformado, com a indicação de generais da reserva e da ativa para alguns ministérios — como Fernando Azevedo e Silva (Defesa), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Eduardo Pazuello (interino na pasta da Saúde). Além disso, as Forças Armadas foram chamadas a atuar em ações da União, como a Operação Verde Brasil 2, de combate ao desmatamento na Amazônia. Este programa é chefiado pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão.

A utilização de homens e equipamentos das Forças Armadas em programas federais ou nos estados é alvo de desinformação nas redes sociais. Um boato checado anteriormente pelo Comprova falsamente alegava que o Exército teria refeito trecho da transposição do Rio São Francisco durante o governo Bolsonaro.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2020-07-08

Automedicação e uso de azitromicina, ivermectina e nitazoxanida não são recomendados para tratamento de covid-19

  • Falso
Falso
Recomendação contraria a orientação da ampla maioria das autoridades e entidades de saúde. A orientação para pessoas que apresentam sintomas de covid-19 é procurar assistência médica e não se automedicar
  • Conteúdo verificado: Texto publicado pela página “Um pouco de tudo” no Facebook recomenda os medicamentos azitromicina, ivermectina e nitazoxanida para pessoas com sintomas leves de covid-19 e indica a automedicação para quem não quer ir a um hospital.

Uma publicação do dia 25 de junho da página “Um pouco de tudo” no Facebook indica o uso dos medicamentos azitromicina, ivermectina e nitazoxanida para pessoas com sintomas leves de covid-19. O texto sugere que a recomendação parte de “profissionais de saúde”, sem citar nomes, em função de um suposto “colapso no Sistema de Saúde do Brasil” e é direcionada a quem não quiser se “arriscar a ir a um hospital”.

Essa recomendação, porém, contraria a orientação da ampla maioria das autoridades e entidades de saúde. Embora haja estudos em andamento sobre a possível ação desses medicamentos contra o vírus que causa a covid-19, o SARS-CoV-2, a eficácia deles não foi comprovada até o momento. Além disso, a orientação para pessoas que apresentam sintomas é procurar assistência médica e não se automedicar.

A afirmação de que haveria um “colapso” no sistema de saúde brasileiro também não é verdadeira. Levantamento feito pelo Comprova mostra que, neste momento, todos os estados possuem leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) disponíveis.

Como verificamos?

Entramos em contato com a responsável pela publicação no Facebook por meio de um número de telefone que consta na apresentação da página. Ela disse não saber a origem do texto que compartilhou.

Também consultamos o administrador de um perfil que havia publicado material semelhante mais de dois meses antes, em 3 de maio, mas não obtivemos resposta. Por meio de buscas na internet, não identificamos nenhuma entidade de saúde que tenha reivindicado a autoria.

Em seguida, solicitamos por e-mail um posicionamento do Ministério da Saúde em relação às recomendações feitas no texto. Confrontamos essas sugestões com as orientações de entidades médicas, autoridades de saúde e estudos científicos já publicados a respeito da covid-19.

Submetemos, ainda, o conteúdo do texto à análise de dois especialistas: os infectologistas Unaí Tupinambás, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e Marcelo Carneiro, professor da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e integrante da Associação Brasileira dos Profissionais em Controle de Infecções e Epidemiologia Hospitalar (Abih).

Por fim, realizamos um levantamento com base em informações disponibilizadas pelas secretarias estaduais de Saúde para verificar as taxas de ocupação de UTIs em todo o país e entrevistamos o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto para compreender o que significa um “colapso” no sistema de saúde.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 8 de julho de 2020.

Verificação

O texto faz menção a três “fases” da evolução da covid-19 e lista sintomas e tratamentos associados a cada uma delas. Esse modelo de classificação é citado em revisão publicada em abril na revista Journal of Infection Control, da Associação Brasileira dos Profissionais em Controle de Infecções e Epidemiologia Hospitalar (Abih).

Assinado por 28 especialistas, o artigo confirma que a infecção por SARS-CoV-2 pode ser dividida em três estágios. O estágio I é “um período de incubação assintomática com ou sem vírus detectável”; o estágio II é um “período sintomático não grave com presença de vírus” e o estágio III é um “estágio sintomático respiratório grave com alta carga viral”. O estudo, porém, não associa sintomas ou tratamentos específicos a cada uma delas.

De acordo com o infectologista Unaí Tupinambás, essa classificação se aplica a apenas algumas situações, já que a ampla maioria dos casos de covid-19 não são graves e, portanto, não atingem a fase mais aguda da infecção. “Aqueles pacientes mais graves talvez possam se enquadrar nas três fases, mas, felizmente, são a minoria. Só os que estão naquela fase mais grave que precisam realmente de internação, de CTI”, explicou. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 80% das infecções são “leves ou assintomáticas”.

Em nota, o Ministério da Saúde esclareceu que os “sintomas da covid-19 podem variar de um simples resfriado até uma pneumonia severa, sendo os sintomas mais comuns a tosse, coriza, dor de garganta e dificuldade para respirar”. Embora haja relatos de infectados que apresentaram alguns dos demais sintomas citados no texto, eles são menos comuns.

De acordo com o infectologista Marcelo Carneiro, que é um dos autores do artigo do Journal of Infection Control, os sintomas mais frequentes apresentados por pacientes da covid-19 são os mesmos de outras infecções gripais. A exceção é a perda do olfato e paladar, registrada em alguns casos e, que parece, conforme o especialista, ser um traço particular da doença causada pelo novo coronavírus.

A informação da postagem de que os sintomas de virose aparecem a partir do terceiro dia de infecção também não é necessariamente verdadeira. Conforme Carneiro, os sintomas podem aparecer em até cinco dias após a pessoa ter contato com o vírus. “Isso é muito variável, depende de uma pessoa para outra”, disse.

Os medicamentos

O conteúdo que viralizou também recomenda a automedicação e indica o uso do antibiótico azitromicina a partir do terceiro dia de sintomas, bem como os medicamentos antiparasitários ivermectina e nitazoxanida (mais conhecido como Annita) “para ser mais rápido na cura”. Essa recomendação, porém, é refutada pela maioria dos profissionais e autoridades sanitárias.

Na nota, o Ministério da Saúde reiterou que “até o momento, não há nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo coronavírus ou ser utilizado com 100% de eficácia no tratamento”. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) corrobora o posicionamento e afirma que, por enquanto, “não há vacina nem medicamento antiviral específico para prevenir ou tratar a covid-19.”

Em relação à azitromicina, o Ministério da Saúde afirma que as evidências encontradas até agora “não comprovam a eficácia do uso de medicamentos antibacterianos em pacientes com covid-19.” Essa posição é ratificada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Quanto à ivermectina, o documento do Ministério da Saúde esclarece que “ainda não existem evidências clínicas suficientes que permitam tecer qualquer recomendação quanto ao uso de ivermectina em pacientes com covid-19”. O mesmo posicionamento é adotado pela Food and Drug Administration (FDA, órgão norte-americano equivalente à Anvisa).

Um estudo e publicado em junho pela revista Antiviral Research apontou que a ivermectina pode atuar como inibidor do SARS-CoV-2 em laboratório. Segundo o infectologista Marcelo Carneiro, porém, isso não garante a eficácia do medicamento em humanos. “Já está provado que as doses de ivermectina precisam ser extremamente altas para funcionar. Então, em laboratório ela funciona como antiviral. Mas não existe doses para humanos e, se existir, será extremamente tóxica”, explicou.

Quanto à nitazoxanida, uma revisão sistemática rápida publicada no dia 9 de junho por pesquisadores dos hospitais Alemão Oswaldo Cruz, Sírio-Libanês e Moinhos de Vento concluiu que, por “ausência de evidência clínica”, não é possível recomendar o uso do medicamento como terapia para covid-19. Atualmente, estão em andamento no Brasil e em outros países pesquisas sobre a possível ação da nitazoxanida contra a covid-19, mas ainda não há comprovação.

Automedicação

Especialistas também criticam a automedicação, que é sugeridapelo texto. Conforme reforçou o Ministério da Saúde na nota, o diagnóstico da covid-19 deve ser “realizado primeiramente pelo profissional de saúde que deve avaliar a presença de critérios clínicos.”

De acordo com o infectologista Unaí Tupinambás, a recomendação é de que pessoas com quadro suspeito evitem a automedicação e procurem assistência médica para receber orientações de como proceder. “É muito importante que todos os pacientes com suspeita de covid-19 tenham acesso a uma consulta médica, mesmo que à distância”, pontuou. O especialista esclareceu ainda que o tratamento da doença envolve repouso e hidratação oral frequente e que medicamentos como dipirona, novalgina ou paracetamol podem ser utilizados para aliviar sintomas como febre, mal estar e dor de cabeça.

Nos casos mais graves, o tratamento passa pela oxigenoterapia — o uso de respiradores mecânicos. Unaí Tupinambás citou ainda a dexametasona, que, segundo estudo da Universidade de Oxford, do Reino Unido, apresentou resultados satisfatórios quando ministrada a pacientes em estágios avançados da doença. O uso, porém, só deve ser feito sob orientação médica.

A situação do sistema de saúde

Ao contrário do que diz o texto publicado no Facebook, não é possível afirmar que o sistema de saúde brasileiro colapsou. Professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto explicou o que tecnicamente significaria esse colapso, que já atingiu certas regiões, mas ainda não foi observado em cenário nacional.

“Colapso é quando você tem que fazer uma escolha entre quem vai para a UTI e quem vai para o cuidado paliativo. Exemplificando: há dois pacientes que precisam entrar na UTI para terem uma chance de salvamento e você tem que escolher um dos dois, porque só tem uma vaga. O Brasil já experimentou [o colapso] em Manaus, em Belém, em algumas cidades do interior do Pará, como Marabá. Colapso geral no Brasil, não (ocorreu)”, explicou.

Levantamento feito pelo Comprova com base em dados divulgados pelas secretarias de saúde mostra que todos os estados brasileiros possuem vagas em UTIs. Sergipe (93,8%), Mato Grosso (93,2%) e Acre (92,4%) têm as maiores taxas de ocupação. Portanto, tecnicamente é possível dizer que nenhuma unidade federativa apresenta colapso no sistema de saúde no momento.

A página “Um pouco de tudo”

Por telefone, a administradora da página “Um pouco de tudo”, Lucia Barros, disse desconhecer o autor do texto e alegou que copiou o material da página de outra pessoa, mas que não se recorda quem. Lucia, que se apresentou como cabeleireira e alegou que divide-se entre Brasília e o Piauí, afirmou que mantém a página “por hobby” e que retirou o texto do ar por recomendação da filha, que é profissional da saúde.

Várias versões diferentes do texto foram publicadas no Facebook antes. Por meio da plataforma CrowdTangle, identificamos que a mais antiga é da página “Dr. Mike” e data de 3 de maio. O perfil é administrado pelo dentista Ezequias Nascimento dos Santos, que mantém uma clínica em Manaus (AM) e, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi candidato a deputado estadual pelo PSC em 2018. Na postagem – que faz menção à azitromicina, mas não à ivermectina e à nitazoxanida -, a autoria do texto não é atribuída a “profissionais de saúde”.

Procuramos a clínica por telefone para solicitar informações sobre a origem do texto, mas não houve retorno.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais. Quando o material aborda assuntos relacionados à covid-19, a verificação se torna ainda mais importante, pois esses conteúdos podem colocar a saúde das pessoas em risco.

Até o dia 2 de julho, antes de ser retirada do ar, a publicação da página “Um pouco de tudo” alcançava 76 mil compartilhamentos no Facebook. O conteúdo é perigoso porque atribui a profissionais da saúde recomendações que não são aceitas por autoridades sanitárias e entidades médicas, o que pode induzir pessoas a adotar procedimentos arriscados, como a automedicação ou o uso de medicamentos cuja eficácia contra a covid-19 ainda não é comprovada. A informação de que a rede pública de saúde estaria em colapso também é perigosa pois distorce a realidade e pode fazer com que pessoas potencialmente infectadas deixem de procurar assistência médica.

O Comprova já verificou outros conteúdos que se mostraram falsos ou enganosos, como um site que sugere que há consenso médico quanto ao tratamento da covid-19, um texto com conselhos para lidar com a pandemia e um tuíte segundo o qual o uso da hidroxicloroquina nos primeiros sintomas da covid-19 impediria que a doença avançasse para estágios mais agudos.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

O conteúdo já havia sido verificado pelo Estadão e pelo Aos Fatos, que também o classificaram como falso.

Pandemia

Investigado por:2020-07-08

Site engana ao afirmar que há consenso médico para tratamento de covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Não há consenso da comunidade médica internacional sobre uma estratégia de tratamento resolutiva para a covid-19 defendida em site lançado no Brasil. O Comprova também conversou com quatro das seis autoridades médicas citadas pelo site e nenhuma delas soube informar quem criou a página ou mesmo quem pagou para que fosse publicada
  • Conteúdo verificado: Site Covid Tem Tratamento Sim, que afirma que “após meses observando o desenvolvimento da covid-19 em vários países, a comunidade médica internacional tem a convicção de uma estratégia de tratamento resolutiva para a covid-19”. A página, que ficou fora do ar entre 3 e 7 de julho, informava os medicamentos para o “tratamento”.

São enganosos o conteúdo e a proposta do site “Covid Tem Tratamento Sim”, lançado em junho. A página diz que “após meses observando o desenvolvimento da covid-19 em vários países, a comunidade médica internacional tem a CONVICÇÃO de uma estratégia de tratamento RESOLUTIVA para a COVID-19”. A afirmação foi feita sem comprovação e sem a anuência mesmo de pessoas que supostamente apoiavam a iniciativa. O Comprova conversou com quatro das seis autoridades médicas citadas pelo site e nenhuma delas soube informar quem criou a página ou mesmo quem pagou para ela ir ao ar – uma delas não sabia nem que o endereço tinha sido lançado.

Segundo Alla Dolganova, médica que atua na Prefeitura de Porto Alegre desde 2009 e diz fazer parte do grupo central que discute as diretrizes nacionais do movimento #CovidTemTratamentoSim, o objetivo dos profissionais envolvidos era criar um site com apoiadores do tratamento precoce contra a doença. Ao Comprova, a médica afirmou que o conteúdo do site ia além disso. No dia 3 de julho, a página foi tirada temporariamente do ar e, conforme afirmou Alla, a remoção aconteceu porque o site citava um coquetel de medicamentos. De acordo com ela, informar o nome das drogas vai contra o que ela mesma e outros profissionais acreditam. “A ideia não era divulgar remédios. Dar o remédio é decisão médica”, afirmou Alla ao Comprova. O portal retornou ao ar em 7 de julho sem citar as medicações nem os profissionais de cada estado que estariam dispostos a receitá-las.

Os medicamentos citados inicialmente pelo site eram a cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e heparina. Diferentemente do que o endereço insinua, nenhum deles tem eficácia comprovada contra o novo coronavírus em nenhuma fase da doença, segundo órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Organização Mundial da Saúde (OMS).

Como verificamos?

Ao tentar localizar o responsável pelo site, o Comprova levantou dados sobre o registro da página por meio da ferramenta Whois. O conteúdo foi registrado no nome de Maicom França em 12 de junho de 2020. Além do nome, a ferramenta também forneceu o CPF e um endereço de e-mail, informações que, jogadas na busca do Google, levaram até o nome de uma empresa de Maicom – designer gráfico – e contas em redes sociais. Procurado pelo Comprova nas redes, Maicom visualizou, mas não respondeu as mensagens.

O registro também apresentou o nome da empresa Dívea como responsável pela hospedagem do portal. O Comprova identificou um perfil da companhia no Instagram, com postagens sobre o site do movimento, e utilizou as informações fornecidas na rede para entrar em contato. O CEO da empresa, Renan Corrêa, disse que não tinha autorização para divulgar quem o havia contratado.

O Comprova conversou, por telefone, com Nise Yamaguchi, uma das profissionais que apareciam entre as autoridades médicas. Ela disse não saber que o site havia ido ao ar e que não fazia parte do conselho de médicos do movimento. Informou o nome de colegas que poderiam ter mais informações sobre o site e o movimento: Paulo Porto, Dante Senra e Luciana Cruz. O primeiro conversou com a equipe por telefone. A equipe contatou ainda Luciana Cruz por mensagem direta de Instagram, Facebook e Whatsapp desde o dia 3 de julho e, no dia 7, ela respondeu e conversou com o Comprova por WhatsApp.

Paralelamente, o Comprova entrevistou Alla Dolganova – médica citada pelo portal como defensora do “tratamento precoce” –, que indicou outro médico que seria o “Relações Públicas” do grupo. Contatado pela nossa equipe, o profissional afirmou ser apenas um dos responsáveis por reunir as informações médicas do Rio Grande do Sul e disse que a médica Vânia Brilhante, que atua no Pará, era uma das líderes. Consultada por telefone, Vânia negou a informação.

O site também fornece depoimentos de pessoas que supostamente teriam obtido sucesso no tratamento da covid-19 seguindo o protocolo defendido pelos médicos. O Comprova conversou por telefone com o autor de um dos depoimentos, Fabricio Oliveira, prefeito de Balneário Camboriú, em Santa Catarina. O depoimento do prefeito foi retirado do site após ele ter ficado temporariamente fora do ar.

Também levantamos informações sobre as medicações citadas como eficazes no tratamento contra a covid-19. Utilizamos como base publicações científicas, informações da Organização Mundial de Saúde (OMS), do Ministério da Saúde, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e da Food and Drug Administration (FDA), autoridade sanitária americana. Além disso, recorremos a outras investigações feitas pelo Comprova sobre medicamentos usados no combate à doença.

Por fim, questionamos o Ministério da Saúde e o Conselho Federal de Medicina, por e-mail, para saber se os órgãos sabiam da iniciativa. As respostas enviadas apontaram que ainda não há comprovação científica sobre a eficácia das medicações no tratamento da covid-19.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 7 de julho de 2020.

Verificação

Registro do site

Na tentativa de localizar quem colocou o site no ar, com o Whois, o Comprova chegou ao nome de Maicom França. A ferramenta também forneceu o CPF e um endereço de e-mail de França.

Fazendo uma busca no Google utilizando o e-mail registrado, o Comprova encontrou um registro de CNPJ no mesmo nome e endereço de e-mail, ligado à empresa “Maicom Fg Designer Gráfico”, localizada em Balneário Camboriú, em Santa Catarina. Consultamos o CNPJ no site da Receita Federal e encontramos o registro da empresa, de mesmo nome, e-mail e endereço, e um número de telefone para contato.

O Comprova tentou entrar em contato com Maicom pelo telefone, mas não foi possível completar a ligação. Pesquisamos o nome completo registrado no CNPJ no Facebook e encontramos o perfil de um designer gráfico em Balneário Camboriú, com informações similares às da empresa pesquisada, incluindo o e-mail. Também encontramos um perfil no Instagram vinculado à conta e enviamos mensagens nas duas redes sociais. Maicom visualizou as mensagens, mas não respondeu até a publicação desta investigação.

No registro do domínio também há o contato de uma empresa de nome Dívea.

Fizemos uma busca pela empresa no Instagram e encontramos uma postagem em um perfil, datada de 2 de julho, em que a companhia anunciou que estava fazendo a hospedagem do site do projeto.

O Comprova digitou o nome completo da empresa no Google e encontrou um número de CNPJ. Ao fazer a consulta no site da Receita Federal, os dados de e-mail do cadastro eram os mesmos informados no registro do domínio. O cadastro da Receita apresentava um telefone, mas ao ligar para o número, o Comprova foi atendido por um escritório de contabilidade que alegou não trabalhar mais com a Dívea há pelo menos três anos.

De volta ao Instagram da empresa, o Comprova encontrou um número para contato e telefonou para perguntar quem teria contratado a companhia para colocar a página no ar. Fomos atendidos pelo CEO, Renan Corrêa, que afirmou só prestar “serviço para um grupo de empresários” e que não tinha certeza se poderia divulgar quem o contratou. Ele pediu alguns minutos para falar com o empregador, mas em outra ligação, Renan disse que “não tinha autorização para falar nada sobre isso”.

Quem são os médicos citados?

O site afirma que há 17 médicos “comprometidos com o tratamento precoce” de seus pacientes. Eles estariam distribuídos entre 12 unidades federativas: Alagoas, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo.

O Comprova conversou por telefone com uma das profissionais citadas, Alla Dolganova, médica russa especializada em pneumologia e com PhD em virologia que está há 20 anos no Brasil. Alla é integrante do comitê organizador de um estudo sobre a opção médica no tratamento precoce da covid-19, feito no Rio Grande do Sul, estado onde trabalha. Defensora de que há comprovação em certos tratamentos de combate à doença, ela disse em entrevista ao Comprova, por telefone, que não recebeu nenhum convite para integrar o movimento, mas que seu interesse em se unir a outros médicos foi espontâneo. Alla disse ser parte do grupo central que discute as diretrizes nacionais do movimento. “Nossa ideia é criar um site com apoiadores de tratamento precoce. Somos um grupo de oito pessoas à frente desse movimento. Elaboramos orientações para os médicos que querem aderir. Temos quase 400 assinaturas de médicos nos apoiando”, declarou.

Alla também observou que o movimento foi dividido nas cinco regiões do país e que cada estado tem um grupo próprio no WhatsApp: “Tem muitas lives saindo sobre este projeto, com médicos, empresários, jamais imaginávamos que iria crescer tanto esse movimento. Só no Rio Grande do Sul, somos oito.” Segundo ela, além dos grupos estaduais e regionais, há um grupo de WhatsApp nacional.

Em 3 de julho, o site teve a maior parte do conteúdo removido, incluindo recomendações sobre o uso de determinados medicamentos no tratamento do novo coronavírus e a relação de médicos “comprometidos com o tratamento precoce” em cada estado.

“Avisei que não concordava em dar nome de medicações. O site saiu do ar porque vários colegas começaram a reclamar. A ideia não era divulgar remédios. Dar o remédio é decisão médica. O médico tem que analisar e descobrir que fase que está o tratamento e aí tratar. Somos a favor de tratamento precoce, como em qualquer doença viral. Cada vez mais há mais trabalhos sobre isso. Tem de começar o tratamento mais cedo possível para não chegar na UTI. Quando o paciente começa a sentir falta de ar, já está com 50% do pulmão acometido”, disse Alla.

A fala da médica russa sobre a existência de um movimento e a divisão dele por estados foi rebatida pela infectologista Vânia Brilhante, que atua no Pará. Vânia foi apontada por um dos médicos que integra as discussões, e preferiu não se identificar, como uma das “cabeças” do movimento no estado – ela negou. “Não sei se tem algum movimento. Tem um grupo de médicos que acredita nisso, não sei se o nome disso é movimento”, disse ela ao Comprova em 3 de julho.

Questionada sobre quem colocou o site no ar, disse não saber e não ter autorizado o uso de seu nome: “Não fui eu, nem sei também. Estou tentando entrar em contato com essa pessoa, que botou o meu nome lá, inclusive. Se descobrir você me conta”.

Vânia afirmou que há grupos de médicos no WhatsApp discutindo essas questões, mas não respondeu se alguém havia tomado a frente e formalizado a iniciativa de lançar um site. Ela alegou que não tem tempo para ler todas as mensagens que chegam pelo aplicativo.

Procurada novamente no dia 7 de julho para saber se havia descoberto quem colocou o site no ar, a médica disse que havia conversado sobre o assunto com o filho advogado. “Quero saber quem autorizou a fornecer meus dados para um site que não tenho ciência”. Questionada se tomaria alguma providência sobre o caso, Vânia se esquivou da resposta e disse que estava muito ocupada.

Autoridades médicas

O site apresenta seis “autoridades médicas”: Nise Yamaguchi, Roberto Zeballos, José Henrique Andrade Vila, Dante Senra, Paulo Porto, Cassio Prado. O Comprova falou com quatro delas. Nise Yamaguchi disse ser “participante voluntária” do “Covid Tem Tratamento Sim” e não soube dizer quem teve a ideia de colocar a página virtual no ar. “Ainda não vi o site”, disse ela, em entrevista por telefone no dia 3 de julho.

Outro médico com quem o Comprova conversou foi o neurocirurgião Paulo Porto. Ele contou que os médicos do “Covid Tem Tratamento Sim” formam um “grupo apartidário, voluntário, sem interesse financeiro e com competências complementares na questão do combate à pandemia”. Porto diz que o colapso no sistema de saúde de Belém, no final de abril, fez com que médicos do país todo começassem a conversar sobre possíveis caminhos. “E, aí, a gente começou a tentar adaptar o que tinha de protocolo e montou um grupo, fez umas lives, umas reuniões no Zoom só para médicos para contar a experiência que o pessoal teve lá, falar um pouquinho de gestão de crise, e a coisa foi ganhando força.”

Assim como Vânia Brilhante e Nise Yamaguchi, Porto também não soube informar quem criou o site. “Olha, não sei te dizer [quem criou a página]. Na verdade, eu fui informado que meu nome iria para esse site”, contou. “Não diria que eu sou um dos organizadores, eu sou um dos componentes desse grupo. Não vejo ali uma cabeça. As pessoas foram se agregando por acreditarem em princípios semelhantes e a coisa foi andando.”

Ao Comprova, Dante Senra declarou ter sido pego de surpresa com seu nome citado no site. “Eu pertenço a um conselho apartidário, que dá o nome de ‘conselho científico’, cuja função é mostrar a nossa experiência, nada mais do que isso. Não é fazer afirmações categóricas”, disse. “Eu não fui avisado do site, eu não sabia que ele seria criado”, acrescentou.

O médico afirmou que integra um grupo no WhatsApp com outros profissionais para trocar informações sobre o uso de medicamentos. “O objetivo era mostrar a experiência, no sentido de mostrar colaboração num momento difícil”, disse ele. Senra relatou prescrever hidroxicloroquina apenas para pacientes internados, de forma que possa monitorá-los diariamente e observar possíveis efeitos colaterais. Ainda, disse que deixa claro que não há comprovação da eficácia e que apresenta todos os possíveis cenários antes de indicar o tratamento com a medicação – que só é realizado com o consentimento do paciente.

Resposta semelhante deu Roberto Zeballos, outra das “autoridades médicas” do site. “Não sei quem é o dono. Sei que foi iniciativa de gente que apoio, que quer que o tratamento saia, mas não sei exatamente quem soltou. Me ligaram e perguntaram se eu ajudaria em um site. E, se for para ajudar, estou à disposição”. E, depois, acrescentou: “É um projeto de uma comissão de cientistas que, no caso, me incluíram.” Zeballos não disse quem ligou para ele para informar do site e sugeriu contatar outros colegas para saber de quem era a propriedade da página. O médico já apareceu em duas verificações do Comprova. A primeira delas, de 22 de abril, era sobre um post viral que, com base em uma entrevista com ele, afirmava que infectologistas e imunologistas tinham descoberto a “cura oficial” da covid-19. Na gravação, Zeballos dizia ter resultados animadores, mas ele mesmo rejeitava a tese de que o método pudesse ser considerado uma cura. A segunda investigação, do dia 5 de maio, classificada como enganosa, era sobre o fato de Zeballos ter declarado que o novo coronavírus “veio de um laboratório de Wuhan”.

Outra médica com quem o Comprova conversou foi a anestesiologista Luciana Cruz. Segundo Nise Yamaguchi, ela é uma das organizadoras dos médicos que se uniram e estavam listados no site. Questionado se conhecia Luciana, Paulo Porto afirmou que sim e que “ela faz parte do conselho desse grupo, e ela teve uma atuação bastante intensa nesse episódio do Pará”. Mas Luciana disse não ter “nada a ver com o site” e que deveria ter havido algum equívoco, pois seu nome sequer estaria no endereço virtual.

O Comprova enviou, então, uma imagem captada antes de a página sair do ar, na qual aparecia o nome e uma foto dela. “Onde é isso? Eu não conheço. Isso é um site?”, perguntou. Luciana declarou não ter autorizado o uso de sua imagem e, depois de ter escrito que não sabia sobre o site, disse que havia visto a página quando foi lançada. Acrescentou que foi apenas moderadora de uma live no canal no YouTube do jornalista Alexandre Garcia, que reuniu vários médicos que aparecem no site e que sua participação na pandemia foi contar o que os profissionais viveram e aprenderam na situação de colapso no Pará.

“Eu defendo duas coisas. Primeiro, o direito do médico de ter autonomia na sua prescrição. Segundo, o direito do paciente de receber ou não os tratamentos off label (quando o medicamento é utilizado para um tratamento diferente do recomendado na bula), de acordo com o que desejar”, ela escreveu. E acrescentou: “quanto ao site, não foi ideia minha. Sei, sim, de várias pessoas que queriam um site onde pudessem juntar todas [as medicações] em um único lugar. Essa era a ideia de várias pessoas, não de uma só. Como essa ideia nunca me agradou, eu procurei não me envolver e nunca quis saber muito sobre isso também”.

Retirada do ar e retorno

Na tarde do dia 3 de julho, o site saiu do ar. Ao clicar no link, surgia a mensagem: “A pedido dos médicos integrantes do CONSELHO CIENTÍFICO e todos médicos envolvidos de vários estados no combate ao COVID-19, o site está temporariamente fora do ar para atualizações de orientações médicas”.

De acordo com Roberto Zeballos, o site “foi lançado sem ciência dos médicos” e “retirado do ar para correções”. “A gente sabia que iam fazer, mas vamos fazer uma revisão. Será um site com as abordagens e protocolos que a gente tem, estudos científicos.” Questionado sobre quais informações precisavam ser revisadas, ele respondeu que “algumas”. Ele citou o fato de ter sido incluído o logo do hospital em que ele atua. “Não quero ter logotipo de hospital nenhum”, afirmou ao Comprova. “Os médicos foram pegos de surpresa com a data de lançamento.”

A médica Luciana Cruz escreveu ter ficado sabendo que “o site incomodou muitas pessoas por ter muitas informações erradas, e por isso tiraram do ar. “Eu nem sabia que tinha a minha imagem, se não teria sido mais uma a reclamar. Confesso que nem sequer acessei e nem tinha visto isso. Você que acabou de me mostrar agora.” Questionada sobre se tomaria alguma medida legal por terem usado sua imagem sem autorização, afirmou: “Parece que o site não voltará, então talvez eu não precise fazer nada, mas vou até procurar saber”.

No dia 7 de julho, o site voltou ao ar com parte do conteúdo modificada. O portal não apresentava mais a relação de médicos que aplicavam o tratamento precoce e nem a lista de medicamentos utilizados no combate à covid-19. O depoimento em vídeo do prefeito de Balneário Camboriú, Fabrício Oliveira, sobre o tratamento também foi removido.

Depoimentos

Uma das áreas do site trazia três depoimentos em vídeo de pessoas que foram infectadas pelo novo coronavírus e se curaram após tratamento com um dos medicamentos que o site recomendava ou uma combinação deles. O Comprova falou com o autor de um dos depoimentos, Fabricio Oliveira, prefeito de Balneário Camboriú, em Santa Catarina. Oliveira contou ter tomado azitromicina e ivermectina no estágio inicial da doença e não ter tido nenhum sintoma.

Ele declarou ter gravado sete ou oito depoimentos em que contava sobre seu processo de cura e, inicialmente, disse ter cedido uma das gravações para o site. O Comprova pediu, então, para que ele fornecesse o contato da pessoa com quem falou sobre a inclusão do vídeo na página. Oliveira disse que buscaria o nome da pessoa em seu celular e pediu que a reportagem ligasse em seguida. No novo contato, Oliveira mudou a versão. Disse que gravou e publicou vídeos em redes sociais e compartilhou em grupos de conversa, mas que não deu nenhuma autorização para que a gravação fosse utilizada no site. “Todos os vídeos que eu publico, que eu mando, eu não tenho problema nenhum que eles sejam publicados. Agora (no caso do site “Covid Tem Tratamento Sim”), ninguém me pediu nada”, afirmou.

O que se sabe sobre as medicações listadas?

A Organização Mundial da Saúde já divulgou que não existe vacina ou medicamento específico para prevenir ou tratar a covid-19. Os tratamentos aplicados até o momento, explica o órgão, são para “aliviar os sintomas” dos infectados.

Os cinco medicamentos listados pelo site são utilizados para tratamentos distintos. A cloroquina e a hidroxicloroquina são usadas no tratamento de malária e doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatóide. A ivermectina é usada em tratamentos de vermes e parasitas. A azitromicina é um antibiótico, utilizada contra bactérias. E a heparina é um anticoagulante.

Em maio, o Ministério da Saúde publicou orientações a respeito do uso de medicamentos em pacientes infectados pelo novo coronavírus, ressaltando “que não existem evidências científicas robustas que possibilitem a indicação de terapia farmacológica específica para a covid-19”.

A pasta também recomenda que a aplicação da cloroquina seja evitada em associação com determinadas medicações, entre elas a heparina. Um informe da Sociedade Brasileira de Infectologia, publicado em 30 de junho, menciona todos os medicamentos citados acima e reitera que não há comprovação clínica da eficácia de qualquer um deles no tratamento contra a covid-19.

O Comprova já realizou checagens envolvendo todas as medicações acima.

Cloroquina e Hidroxicloroquina

Embora o Ministério da Saúde tenha publicado uma orientação, no início de maio, autorizando o uso de cloroquina e hidroxicloroquina em casos leves de covid-19, a pasta assinalou que não há comprovação da eficácia dos medicamentos em pacientes com a doença. Em março, a falta de comprovação da eficácia já havia sido apontada pela Saúde ao orientar o uso da cloroquina em quadros graves.

Após a publicação da orientação, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) emitiu uma nota em que “não recomenda o uso da cloroquina e hidroxicloroquina associada, ou não, a azitromicina, enquanto não houver evidências científicas definitivas acerca do seu emprego”. O texto também orienta que, para os pacientes que optarem pelo tratamento, “sejam realizados eletrocardiogramas”, de modo a acompanhar possíveis complicações cardíacas.

A Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac) também emitiu uma nota ressaltando a “ausência de evidências que apontem claramente o benefício do uso deste esquema terapêutico”. A Sobrac recomenda o monitoramento dos pacientes que usem o medicamento para “prevenir a manifestação de eventos arrítmicos potencialmente fatais que podem ocorrer devido a efeitos adversos de um destes fármacos ou da associação entre eles ou com outros fármacos que também possam predispor a distúrbios elétricos cardíacos”.

Em abril, o Conselho Federal de Medicina (CFM) emitiu um parecer com critérios e condições para a prescrição de cloroquina em pacientes com covid-19. O texto deixa claro que “não há evidências sólidas de que essas drogas tenham efeito confirmado na prevenção e tratamento dessa doença” e determina que médicos expliquem aos pacientes que a medicação não garante eficácia. “O documento do CFM ressalta que o profissional fica obrigado a explicar ao doente que não existe, até o momento, nenhum trabalho científico, com ensaio clínico adequado, feito por pesquisadores reconhecidos e publicado em revistas científicas de alto nível, que comprove qualquer benefício do uso das drogas para o tratamento da covid-19”, diz o CFM.

A cloroquina já havia sido considerada para tratamento de infecções de coronavírus após as epidemias de SARS e MERS. No entanto, não haviam sido feitos testes clínicos em humanos para confirmar a eficácia da droga. Em março deste ano, após a OMS declarar a pandemia do novo coronavírus, um estudo conduzido por médicos do Sul da França sugeriu que a cloroquina poderia ser usada como tratamento para o SARS-CoV-2. Esse estudo foi alvo de diversas críticas e seus resultados foram questionados e considerados anedóticos, ou seja, se tratavam de casos isolados, sem comprovação científica.

Mais tarde, em um comunicado, a International Society of Antimicrobial Chemotherapy e a Elsevier, responsáveis pela revista que publicou o artigo, reconheceram a existência de questionamentos quanto ao conteúdo e anunciaram um novo processo de revisão independente.

Estudos divulgados por algumas das mais importantes revistas médicas do mundo questionaram a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a covid-19. Em maio, o Journal of the American Medical Association (Jama) e o British Medical Journal (BMJ) publicaram que pacientes tratados com as medicações, associadas ou não ao antibiótico azitromicina, não tiveram melhores resultados que aqueles que não receberam os mesmos remédios.

Em junho, pesquisadores do Recovery, estudo clínico conduzido no Reino Unido, afirmaram não haver benefício no uso da hidroxicloroquina em pessoas com covid-19. Dez dias depois, a Food and Drug Administration (FDA), autoridade sanitária americana, revogou a autorização para um uso emergencial da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento da doença nos Estados Unidos. A organização alegou ser improvável que os medicamentos sejam efetivos contra a covid-19.

A OMS também avaliou o uso da hidroxicloroquina como um dos medicamentos para o tratamento da covid-19 através do estudo clínico Solidariedade, que já recrutou pacientes em 35 países. Mas decidiu encerrar os testes com a hidroxicloroquina no dia 17 de junho por não ter sido capaz de identificar redução no número de óbitos entre os pacientes que fizeram uso da droga.

Ivermectina

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a ivermectina está registrada como “medicamento contra infecções causadas por parasitas”.

A FDA libera a ivermectina para humanos no tratamento de vermes intestinais e, também, de parasitas tópicos como piolho e rosácea. A droga também é usada para o tratamento de vermes em diversas espécies de animais. Em abril deste ano, a agência sanitária divulgou uma carta aberta alertando a população a não usar remédios à base de ivermectina como tratamento contra a covid-19. A FDA acrescentou que possíveis efeitos colaterais do uso da ivermectina incluem vômito, diarreia, dor estomacal, erupções cutâneas, eventos neurológicos (tais como convulsões, tontura e confusão), queda repentina da pressão arterial e danos ao fígado.

A ivermectina foi testada como medicação em casos do novo coronavírus em estudo conduzido pelo médico Amit Patel, então ligado ao Departamento de Bioengenharia da Universidade de Utah (EUA). Os resultados mostraram que entre os pacientes que precisavam de ventilação mecânica, apenas 7,3% dos que tomaram a medicação morreram — contra 21,3% dos que não utilizaram o medicamento. No entanto, a pesquisa afirmava que os dados “não devem ser considerados conclusivos, pois fatores de confusão desconhecidos nem sempre podem ser contabilizados de maneira confiável, mesmo quando técnicas de correspondência de propensão são empregadas no desenvolvimento de grupos de controle.”

Em junho a pesquisa foi retirada do ar, porque os dados foram coletados por empresa envolvida em polêmica sobre base de dados internacional usada em estudos sobre hidroxicloroquina. A companhia responsável é alvo de uma auditoria.

Outro estudo sobre ivermectina, feito por pesquisadores da Monash University e do Hospital Royal Melbourne, na Austrália, demonstrou que o medicamento é capaz de matar o novo coronavírus in vitro em 48 horas. Apesar dos resultados, os próprios pesquisadores pediram cautela e alertaram para a necessidade de realizar testes clínicos que avaliem a eficácia do remédio fora do laboratório.

Azitromicina e heparina

Por se tratar de um antibiótico, a azitromicina é utilizada no combate a bactérias —o que não é o caso do SARS-CoV-2, como explicado pela OMS. Segundo o órgão internacional, a covid-19 é uma “doença infecciosa causada por um coronavírus recém descoberto”. Em e-mail enviado ao Comprova, o Ministério da Saúde endossou o que disse a OMS e se referiu ao SARS-CoV-2 como o “vírus por trás da covid-19”.

Já a heparina, por ser um anticoagulante, é indicada na prevenção de tromboses e embolias arteriais ou venosas, segundo a Anvisa. Também é utilizada no preparo de transfusões sanguíneas.

Em entrevista ao Comprova, o Dr. Erich Vinícius de Paula, coordenador de hemostasia e trombose da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), explicou que “tromboses são complicações de quase todas as doenças infecciosas” e que o uso de anticoagulantes busca prevenir a ocorrência delas: “A maioria dos pacientes que está internado em uma UTI, [com um quadro da covid-19] grave ou qualquer outro problema como um AVC ou um infarto, usarão anticoagulantes para a prevenção da trombose”.

No entanto, De Paula alerta que a recomendação da maioria das sociedades médicas de todo o mundo é que uma dose maior de anticoagulantes só deve ser ministrada aos pacientes no contexto de estudos clínicos.

Em abril deste ano, a revista científica Science publicou um artigo sobre a evolução do tratamento de covid-19 com o uso de heparina. No Brasil, a pneumologista Elnara Marcia Negri, do Hospital Sírio Libanês e da Universidade de São Paulo (USP), administra a medicação em seus pacientes. No entanto, ainda não foram realizados estudos randomizados — ou seja, que ministram o medicamento em um grupo e oferecem um placebo a outro grupo — que comprovem a eficácia do tratamento.

O uso de antibióticos, como o caso da azitromicina, foi mencionado pelo médico como um possível complemento a tratamentos de covid-19, já que é possível que o paciente apresente alguma infecção provocada por bactérias ao contrair o novo coronavírus. “Os antibióticos são usados na maioria dos casos graves porque é muito difícil excluir que junto com o vírus não haja uma infecção bacteriana associada, mas é muito importante entender que o antibiótico não é direcionado para tratar do vírus”, explicou.

Autoridades não endossam iniciativa

Procurado por e-mail, o Ministério da Saúde não respondeu se tinha conhecimento de que o site estava no ar e se limitou a responder sobre a eficácia dos medicamentos descritos no” CovidTemTratamentoSim”.

Segundo a assessoria de imprensa da pasta, “até o momento, não há nenhum medicamento, substância, vitamina, alimento específico ou vacina que possa prevenir a infecção pelo coronavírus ou ser utilizado com 100% de eficácia no tratamento” e “a pasta acompanha o desenvolvimento de ensaios clínicos realizados no país para testar a eficácia e segurança do uso de alternativas no tratamento de pacientes com coronavírus (covid-19). Participam destes estudos mais de 100 centros de pesquisas, como universidades e hospitais, reunindo 5 mil pacientes com quadros leves, graves e moderados”.

O Comprova consultou, também por e-mail, o Conselho Federal de Medicina (CFM). A respeito do uso dos remédios citados em tratamentos contra a covid-19, o órgão enviou um documento, já usado pelo Comprova em outras verificações, dizendo que o texto continua em vigor. De acordo com a publicação, não há “evidências robustas de alta qualidade que possibilitem a indicação de uma terapia farmacológica específica para a covid-19” e “muitos medicamentos têm sido promissores em testes através de observação clínica, mas nenhum ainda foi aprovado em ensaios clínicos com desenho cientificamente adequado, não podendo, portanto, serem recomendados com segurança”.

Questionado sobre um posicionamento frente ao site, o CFM respondeu que “não comenta casos específicos para não comprometer sua atuação prevista em lei”.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais. Quando o material aborda assuntos relacionados à covid-19, a verificação se torna ainda mais importante, pois esses conteúdos podem colocar a saúde das pessoas em risco.

Segundo a ferramenta Crowdtangle, a página tinha 38.760 interações no dia 7 de julho. O vídeo com a live feita pelo jornalista Alexandre Garcia tinha 1.751.644 visualizações na mesma data. O site é enganoso porque insinua que médicos do mundo todo chegaram a um consenso sobre o tratamento da covid-19, o que vai contra o que acreditam autoridades sanitárias e entidades médicas, segundo as quais ainda não há um tratamento reconhecidamente eficaz contra o novo coronavírus. Ele engana também ao reunir médicos que nem sabiam que seus nomes estavam na página, entre outros pontos.

O Comprova já publicou verificações de boatos com uma lista de conselhos para a pandemia com dados corretos e informações falsas sobre o vírus, que desestimulam o uso de máscara, afirmam que a covid-19 é uma trombose causada por bactéria e que a hidroxicloroquina pode descartar a necessidade de UTI.

Enganoso para o Comprova é quando um conteúdo é retirado de seu contexto original e utilizado de forma a modificar seu significado, induzindo a uma interpretação equivocada.