O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Pandemia

Investigado por: 2021-07-29

Site engana ao afirmar que Anvisa ‘confessa ineficácia de máscaras’ contra a covid

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a publicação em um site conservador brasileiro afirmando que “Anvisa confessa ineficácia de máscaras e diz se basear apenas na OMS”. O texto se baseou em um ofício do órgão que trata de máscaras de tecido e que foi descontextualizado. Além disso, publicações da agência utilizam outras fontes, além da OMS, como referência desde o início da pandemia do novo coronavírus.
  • Conteúdo verificado: Texto em site afirma que a Anvisa confessou ineficácia de máscaras e disse se basear apenas na OMS para recomendar o equipamento, sem levar a ciência em conta.

É enganoso que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tenha “confessado” que máscaras sejam ineficazes para a proteção contra a covid-19, segundo afirma o título e o subtítulo de texto publicado em um site conservador brasileiro e fechado para não assinantes, que foi compartilhado em redes sociais. Outro artigo, veiculado no dia seguinte e sem bloqueio, muda levemente o tom, afirmando que a Anvisa confessou falta de evidências de eficácia de máscaras.

No Twitter, onde o link postado teve grande interação, pessoas comentaram a postagem fazendo coro à afirmação que consta no título e concordando com ela. Como o conteúdo é liberado apenas para assinantes, muitos usuários da rede social não tiveram acesso ao texto completo.

Em ofício utilizado como base para o conteúdo, a chefe de gabinete da agência, Karin Schuck Hemesath Mendes, afirma ter sido mantida, em nota técnica do órgão, a recomendação para o uso da proteção “apesar de não existir evidências robustas sobre a eficácia do uso de máscaras de tecido como controle de fonte para a transmissão da covid-19”.

O documento diz, ainda, que a recomendação é baseada no princípio da precaução e alinhada com as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O ofício trata apenas de máscaras de tecido e em nenhum momento a funcionária da Anvisa diz que elas são ineficazes. O título do texto verificado, entretanto, não faz essa identificação dos equipamentos e leva à interpretação de que nenhum deles protege contra o vírus.

Diversos documentos consultados pelo Comprova demonstram que a Anvisa recomenda a utilização das máscaras para a proteção desde 2020, assim como estudos, médicos e outros órgãos de saúde. A agência também utiliza outras fontes, além da OMS, para as orientações.

A reportagem entrou em contato com o site que publicou o conteúdo e a equipe afirmou ter construído o título de forma a resumir o conteúdo da publicação e chamar a atenção, alegando ser impossível inserir nele todas as informações do texto. Justificou, ainda, que o trecho do ofício em que se baseou está na abertura e que o parágrafo seguinte esclarece que se tratam de máscaras de pano.

Como verificamos?

O Comprova acessou e leu o ofício citado no conteúdo publicado no site. Em seguida, consultou diversas publicações da Anvisa desde o início da pandemia do novo coronavírus e entrou em contato com o órgão, por e-mail.

Também consultou estudos relacionados ao uso de máscaras na proteção contra a covid-19 e entrevistou o clínico geral Vitor Key Assada, que atende na linha de frente contra a covid-19 no Hospital Santa Casa de Londrina.

Por fim, entrou em contato com os responsáveis pela publicação verificada.

O Comprova fez esta verificação baseada em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 29 de julho de 2021.

Verificação

Anvisa não “confessa a ineficácia de máscaras” contra a covid-19

O texto publicado afirma que a Anvisa confessou a ineficácia de máscaras e que se baseia apenas na OMS, não levando em conta a ciência para recomendar o uso do equipamento. O conteúdo foi baseado em um ofício assinado por Karin Schuck Hemesath Mendes, chefe de gabinete da Anvisa, no dia 7 de abril de 2021, em resposta a questionamentos do defensor público federal João Frederico Bertran Wirth Chaibub, que atua em Goiânia (GO).

No documento, ela esclarece que as orientações para prevenção e controle da disseminação de doenças na população em geral, incluindo a recomendação do uso de máscara facial de tecido, competem ao Ministério da Saúde e que cabe à Gerência Geral de Tecnologia em Serviços de Saúde (GGTES) da Anvisa emitir orientações sobre prevenção e controle da disseminação da covid-19 apenas dentro dos serviços de saúde.

Destaca, ainda, que para este público o órgão atualiza frequentemente notas técnicas levando em consideração a situação epidemiológica do país e a disponibilização de novas evidências nacionais e internacionais.

Neste contexto, a chefe de gabinete afirma que “apesar de não existir evidências robustas sobre a eficácia do uso de máscaras de tecido como controle de fonte para a transmissão da covid-19, considerando o cenário epidemiológico atual, com vasta disseminação do vírus, incluindo cepas com tendência de maior transmissibilidade e virulência, pelo princípio da precaução e alinhado com as orientações da Organização Mundial da Saúde, a GGTES manteve na última atualização da nota técnica Nº 04/2020 (25/02/2021), a orientação para o uso de máscara de tecido para o controle de fonte por: pacientes, acompanhantes e visitantes (se estiverem assintomáticos) e profissionais do serviço de saúde que executam atividades exclusivamente administrativas e não tem nenhum contato com pacientes ou áreas de internação de pacientes”.

O ofício, entretanto, trata apenas de máscaras de tecido e, em nenhum momento, Karin diz que elas são ineficazes, ao contrário do que afirma um segundo texto publicado no site, que só cita se tratar de máscaras de tecido quando reproduz literalmente, entre aspas, trechos do documento.

Procurada pelo Comprova, a assessoria de comunicação da agência encaminhou posicionamento afirmando que o trecho sobre não existirem “evidências robustas” foi retirado de contexto. “O fragmento deve ser lido à luz do conhecimento científico produzido no transcorrer do enfrentamento à pandemia no Brasil e no mundo”, diz a nota. O Comprova verificou que, por não terem padronização na fabricação, a eficácia de máscaras de tecido varia. Já outros modelos, como o cirúrgico e o PFF2, têm eficácia comprovada em impedir a transmissão.

A agência acrescenta que a nota técnica a que se refere o ofício elenca entre as medidas de prevenção e controle de novos casos de infecção pelo Sars-CoV-2 o uso de máscaras adequadas pelos profissionais que atuam nos serviços de saúde. “Com o avanço da pandemia e considerando o acúmulo de evidências sobre a transmissão do novo coronavírus, a Anvisa vem implementando diversas atualizações em suas publicações. Em todas elas o uso de máscaras faciais adequadas às necessidades e aos profissionais de saúde foi reforçado”, afirma.

Assim como consta no ofício, a assessoria de comunicação afirma que as definições sobre o uso de máscaras pela população devem partir do Ministério da Saúde, mas explicou que a agência elaborou diversas orientações sobre máscaras faciais para uso não profissional com a finalidade de apoiar as ações para a saúde pública.

“Máscaras faciais não hospitalares não oferecem total proteção contra infecções, mas reduzem sua incidência. Especialistas apontam que mesmo pequenas medidas para reduzir transmissões têm grande impacto na atual pandemia, especialmente quando combinadas com medidas preventivas adicionais. Por esse motivo, a Agência sempre reforçou que máscaras de tecido íntegras, limpas, secas e usadas de forma correta são eficazes para evitar que gotículas contaminadas sejam expelidas sobre produtos, equipamentos e outras pessoas”.

O vírus pode se espalhar pela boca ou nariz de uma pessoa infectada, ao tossir, espirrar, falar, cantar ou respirar, por gotículas respiratórias maiores e aerossóis menores. A evidência atual sugere que a doença se espalha principalmente entre pessoas que estão em contato próximo umas com as outras, normalmente dentro de um metro. Uma pessoa pode ser infectada quando aerossóis ou gotículas contendo o vírus são inalados ou entram em contato direto com os olhos, nariz ou boca.

O que a Anvisa diz sobre o uso de máscaras?

Em janeiro deste ano, a Anvisa publicou um longo material em texto esclarecendo dúvidas sobre o uso de máscaras faciais e alertando as pessoas para que não se deixem “enganar pelas fake news”. O conteúdo, em formato de perguntas e respostas, explica, por exemplo, quais são os diferentes tipos de máscaras, para que servem e quais tipos de equipamentos têm sido utilizados pela população e pelos profissionais de saúde.

Em uma questão específica, afirma que as máscaras de proteção de uso não profissional são aquelas confeccionadas artesanalmente com tecidos e utilizadas para cobrir o nariz e a boca em espaços públicos durante a pandemia. “Essas máscaras atuam como barreiras físicas, reduzindo a propagação do vírus e, consequentemente, a exposição e o risco de infecções”, diz o texto.

Em seguida, o material educativo destaca que a utilização é uma importante medida de saúde pública que as pessoas devem adotar no combate à covid-19, além do distanciamento social e da limpeza frequente das mãos.

Em março deste ano, o órgão também publicou um documento de perguntas e respostas sobre o uso de máscaras de proteção facial em aeroportos e aeronaves, esclarecendo quais os tipos permitidos nesses locais, como usá-las e em quais situações é permitido retirá-las.

Em maio, uma nota técnica atualizou as medidas sanitárias a serem adotadas em portos e embarcações para resposta à Emergência de Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN) e Internacional (ESPII) pelo novo coronavírus, também reforçando a obrigatoriedade do uso das máscaras. “Entre as exigências aos viajantes, a Anvisa determinou que as máscaras de tecido confeccionadas artesanal ou industrialmente com material como algodão e tricoline devem possuir mais de uma camada de proteção e ajuste adequado ao rosto”, disse o órgão em nota encaminhada ao Comprova.

No início da pandemia no Brasil, em abril de 2020, a Anvisa já havia lançado uma cartilha com as orientações gerais relacionadas às máscaras faciais de uso não profissional. Nas referências, consta que o órgão se baseou em orientações do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) – o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos; da Association Française de Normalisation (AFNOR) – conjunto de normas francesas, como a ABNT no Brasil; da National Center for Biotechnology Information (NBCI) – que é o Centro Nacional de Informação Biotecnológica, uma seção da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos; em artigos científicos, entre outras.

Na ocasião, a OMS somente foi citada com a recomendação de que se respeitasse a distância entre as pessoas preconizada pela entidade e pelo Ministério da Saúde.

No dia 23 de julho de 2021, há menos de uma semana, a Anvisa publicou uma revisão da nota técnica nº 07/2020 com orientações para prevenção e vigilância epidemiológica das infecções por Sars-CoV-2 dentro dos serviços de saúde. Nela, o órgão destaca que a vacinação protege o indivíduo de infecção ou da forma grave da infecção, mas esta proteção não é absoluta e que estudos mais recentes relatam eficácia reduzida das vacinas contra a infecção por variantes do vírus.

Desta forma, o órgão orienta que mesmo o profissional do serviço de saúde totalmente vacinado – que recebeu a segunda dose em uma série de duas doses há mais de duas semanas ou uma dose de uma vacina de dose única há mais de duas semanas – deve continuar a usar os equipamentos de proteção individual, incluindo a máscara.

O texto também distribui orientações para pacientes, acompanhantes e visitantes, destacando que pessoas assintomáticas devem fazer uso de máscara de tecido e sintomáticas de máscara cirúrgica durante toda a permanência no serviço de saúde.

“Ressalta-se que por ainda estarmos com elevada transmissão comunitária do Sars-CoV-2 e que a vacinação não reduz 100% a possibilidade de infecção por esse vírus, todos dentro do serviços de saúde (profissionais, pacientes, visitantes e acompanhantes) devem continuar utilizando máscara facial como controle de fonte, independente de já estarem vacinados contra covid-19 ou não”, diz a nota técnica.

Conforme a Anvisa informou ao Comprova, nos primeiros meses da pandemia, diante de um possível cenário de desabastecimento de máscaras profissionais no mercado nacional, que poderia atingir trabalhadores que atuam na linha de frente com pacientes com covid-19, o órgão publicou material com orientações sobre confecção e uso de máscaras artesanais. “O objetivo era estimular a população a buscar uma solução de baixo custo e de mais fácil acesso para reforçar a proteção”.

A agência também lembra que, embora o uso de máscara de proteção facial seja uma medida fundamental no combate à propagação do novo coronavírus, para que haja prevenção efetiva o equipamento precisa fazer parte de um conjunto de medidas que inclui distanciamento social e higiene das mãos com água e sabonete ou preparações alcoólicas. Além disso, é necessário evitar aglomerações e permanecer em locais limpos e bem ventilados.

Estudos comprovam a eficácia do equipamento de proteção

Estudos científicos comprovam a eficácia das máscaras na proteção contra a contaminação pelo novo coronavírus. Em maio deste ano, por exemplo, a Agência Brasil publicou o resultado de um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), que constatou que máscaras de algodão, as mais comumente usadas pela população na prevenção da covid-19, têm eficiência de filtração de 20% a 60%. A pesquisa foi publicada na revista Aerosol Science & Technology e analisou 300 máscaras usadas pela população brasileira.

Em abril de 2020, uma reportagem do UOL já citava outra pesquisa científica que atestou a eficácia de máscaras cirúrgicas contra a disseminação do coronavírus. O estudo publicado na revista Nature Medicine comprovou que o aparato reduz a quantidade do agente infeccioso no ar expirado por pessoas contaminadas com coronavírus sazonais, que integram a família do Sars-CoV-2, causador da pandemia, ou com o vírus da influenza, que provoca a gripe.

Em 5 de julho de 2021, especialistas em medicina, baseados em evidências científicas, divulgaram a carta “Choosing Wisely” na revista Nature Medicine, com 10 dicas para enfrentamento da covid-19. Dentre elas, a primeira é usar máscaras sempre que estiver em público. De acordo com os especialistas, uma revisão sistemática e meta-análise de 10 estudos observacionais ajustados e 29 não ajustados mostraram que o risco de infecção foi significativamente reduzido com o uso de máscaras faciais. As máscaras N95 (PFF2 no Brasil) foram citadas como as que mais protegem.

Em março deste ano, no momento mais grave da pandemia no Brasil, a Associação Médica Brasileira chegou a divulgar carta pedindo vacinas, isolamento e uso de máscaras para combater pandemia: “Nosso diagnóstico é de que apenas a obediência às regras de proteção – como confinamento, uso de máscara e outras –, as iniciativas contínuas de testagem e rastreio de contactantes, juntamente com a vacinação em larga escala, são capazes de oferecer melhor prognóstico à população brasileira”.

Em dezembro de 2020, um ano após o início da pandemia, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, gravou uma mensagem na qual afirmava que a vacinação de todos contra a covid-19 levaria tempo e a população deveria “continuar a aderir às medidas testadas e comprovadas que mantêm todos e cada um de nós seguros”, o que significa, destacou, “manter distância física, usar máscaras faciais, praticar a higiene das mãos e respiratória, evitar locais fechados lotados e encontrar pessoas em ambientes abertos”.

Em junho deste ano, Mariângela Simão, diretora-geral assistente da OMS, elogiou a produção de vacinas no Brasil, mas destacou que a vacinação por si só não é suficiente no país e reforçou a importância do uso da máscara. “Eu sei que há uma controvérsia recente no Brasil sobre o uso consistente de máscaras. Continua sendo uma orientação da OMS o uso consistente de máscaras onde não há possibilidade de distanciamento social, a higienização das mãos, etiqueta respiratória, ambientes ventilados, evitar aglomerações”, afirmou.

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço da OMS nas Américas, mantém uma folha informativa sobre a covid-19 com as orientações das duas entidades sobre o uso de máscaras, afirmando que as evidências científicas mais recentes mostram que elas são uma medida fundamental para suprimir a transmissão da doença e salvar vidas. O texto orienta a utilização das máscaras de tecido, especificamente, pelo público em geral com idade inferior a 60 anos e que não apresente problemas de saúde subjacentes.

Tipos de máscara e a eficácia

O Comprova entrevistou o clínico geral Vitor Key Assada, que atende na linha de frente contra a covid-19 no Hospital Santa Casa de Londrina. O profissional ressaltou a importância do uso das máscaras para evitar a propagação do vírus. “Essas postagens afirmando que [as máscaras] são ineficazes são completamente errôneas. São várias publicações desde o início da pandemia que confirmam a eficácia do uso das máscaras. Quando a gente coloca a máscara, entendemos subjetivamente que estamos nos protegendo, que vamos colocar a máscara para não nos contaminar, mas não é só isso. Muitos artigos evidenciam o quanto a máscara, principalmente para os assintomáticos, ajuda a não transmitir o vírus para outras pessoas”, esclarece.

Ele destaca a existência de três modelos principais de máscara: as de pano, as cirúrgicas e aquelas com modelos “bico de pato”, como N95 e PFF2. As duas últimas, afirma, são as mais recomendadas para quem está em ambientes com alta carga viral, como hospitais, apresentando eficácia maior que 90%.

Quanto às máscaras de tecido, ele observa haver alguns problemas. “Não quer dizer que todas são ineficazes, mas não há um padrão. Por mais que a OMS cite que elas devem ter pelo menos dois tecidos, que seriam as camadas da máscara, sabemos que as empresas estão mais ligadas em estética e conforto do que propriamente na filtragem das partículas. Os estudos apontam uma variabilidade de eficácia muito grande de proteção [das máscaras de tecido], justamente porque não há controle de qualidade”.

Em relação às cirúrgicas, afirma que possuem proteção de 80% para cima. “Obviamente, cada uma delas tem um período de uso, ou seja, você tem que estar trocando elas e conservá-las. Tudo isso pode afetar diretamente a eficácia das máscaras”.

Por fim, o profissional opina pela manutenção do uso das máscaras mesmo diante do avanço da vacinação. “Como sabemos, a vacina por si só não significa que estamos acabando com a doença de uma hora para outra, ainda mais que nenhuma vacina tem proteção de 100%. Não dá para falar: olha, temos 70% da população vacinada, abre a porteira, todo mundo está livre do uso de máscara. Eu acho que não é por aí. Acho que é muito importante continuar usando a máscara mesmo com o avanço da vacinação. A vacina não significa que não podemos pegar e nem transmitir para quem não foi vacinado”.

Quem publicou o texto

O texto com título e subtítulo enganosos foi publicado no site Brasil sem Medo, que se identifica como “o maior jornal conservador do Brasil” e tem, entre os colunistas, o escritor bolsonarista Olavo de Carvalho.

Procurada, a equipe do site afirmou que “o título é construído de forma a resumir o conteúdo da publicação e, também, chamar a atenção, sendo impossível inserir nele todas as informações do texto”, acrescentando que aqueles que leram a matéria completa “sabem que esse trecho do ofício está no próprio lead e que, no parágrafo seguinte, também é esclarecido que se tratam de máscaras de pano, que são as utilizadas pela maior parte da população”.

Declarou, também, que a intenção do site ao publicar o texto foi “informar a população sobre um aspecto importante da pandemia, que é a possível ineficácia das máscaras de pano”, acrescentando que a imprensa tradicional não o faz “por razões ideológicas e financeiras”.

Dentre os colunistas do site também está Bernardo P. Kuster, que se apresenta como jornalista, palestrante, tradutor e diretor de opinião do Brasil sem Medo. O link com o conteúdo que ele compartilhou nas próprias redes sociais gerou, apenas no Twitter, 6.892 interações. Ele foi procurado, mas não respondeu.

No Instagram, ele teve o conteúdo publicado no dia 26 de julho removido sob alegação, por parte da plataforma, de ir contra as diretrizes da comunidade. No dia seguinte, 27 de julho, foi publicado novo artigo sobre o assunto no site, desta vez liberado para a leitura de não assinantes, acusando o Instagram de censura. O site ainda aproveitou o teor postado em uma coluna que faz “giro de notícias”.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições e pandemia que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

O compartilhamento da primeira publicação aqui verificada teve 8.822 interações apenas no Twitter, segundo a ferramenta CrowdTangle. Uma conta do Instagram que postou o print da coluna do site onde foi utilizado o teor do texto somou mais de 700 curtidas na plataforma.

O uso de máscaras faciais é apontado como uma das medidas de prevenção à covid-19, sendo incentivado pela Organização Mundial da Saúde desde o ano passado, somado a outras ações, como a higienização frequente das mãos e o distanciamento social.

Enquanto não há medicamentos eficazes contra o vírus e sem a cobertura vacinal adequada, esta segue sendo a recomendação, principalmente no Brasil, onde já foram registradas mais de 550 mil mortes pela doença. O país tem hoje pouco mais de 38,04 milhões de pessoas completamente vacinadas, o que equivale a 18,6% da população brasileira.

Desde o ano passado, o uso de máscaras faciais têm sido alvo de afirmações falsas ou enganosas. O Comprova já verificou, por exemplo, que um estudo não comprova a ineficácia do uso do equipamento; que as máscaras são eficientes no combate ao novo coronavírus; que o uso correto delas reduz as chances de contaminação e não torna o sangue ácido; e que as elas não causam acúmulo de líquido nos pulmões, tampouco intoxicação.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; bem como aquele que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

 

Políticas públicas

Investigado por: 2021-07-29

É enganoso o tuíte que acusa Bolsonaro de acabar com o Bolsa Atleta

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa postagem que aponta para o fim do programa Bolsa Atleta no governo Bolsonaro em 2020. No ano passado, não foi lançado edital para seleção de novos atletas para receber o benefício – segundo o governo, por conta da pandemia –, mas o programa está vigente. Tanto que a mesma postagem afirma, corretamente, que 80% dos atletas na Olimpíada usufruíram da bolsa criada na gestão de Lula.
  • Conteúdo verificado: Post publicado no Twitter afirma que o governo Bolsonaro acabou com o Bolsa Atleta e que a maioria dos atletas que estão em Tóquio usufruíram do programa.

É enganosa a postagem sugerindo que o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) acabou com o Bolsa Atleta, um programa de apoio à prática esportiva de alto rendimento. No ano passado, não foi lançado o edital para seleção de novos atletas para receber o benefício, porém o auxílio não deixou de existir para quem já havia sido selecionado no programa de 2019. Segundo o governo federal, a decisão de não lançar edital em 2020 se deu por conta da pandemia e da suspensão de campeonatos em decorrência da covid-19.

No mesmo post publicado no Twitter, o autor ressalta, de maneira correta, que 80% dos atletas que participam das Olimpíadas de Tóquio são beneficiados pelo programa, criado em 2004, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) era o presidente.

O benefício alcança hoje 7.531 atletas em seis categorias, segundo o Ministério da Cidadania, ao qual está vinculada a Secretaria Especial do Esporte e, portanto, o Bolsa Atleta. Do grupo de 302 esportistas convocados para os Jogos Olímpicos no Japão, 242 (80%) são atendidos atualmente pelo programa.

O atual orçamento para o programa é de R$ 145,2 milhões e contempla 7.531 atletas. Dados obtidos através da Lei de Acesso à Informação (LAI) pelo Estadão revelam uma redução de 17% no orçamento total do ciclo olímpico (2017/2021).

A informação sobre o suposto encerramento do Bolsa Atleta por Bolsonaro foi publicada pela primeira vez pelo perfil @ThiagoResiste no Twitter. A reportagem o procurou, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Como verificamos?

Para saber se o Bolsa Atleta havia acabado, o Comprova fez pesquisas em sites do governo federal e logo foi possível constatar, na página do Ministério da Cidadania, que o programa está ativo.

Também pesquisamos publicações sobre o assunto e descobrimos que, em 2020, o governo não lançou edital para seleção de novos atletas, justificando a medida com a pandemia da covid-19.

Foram consultados dados orçamentários sobre o programa, disponíveis publicamente no Siga Brasil (na ação orçamentária 09HW – Concessão de Bolsa a Atletas) e também publicados pelo Estadão.

Entramos em contato com o Ministério da Cidadania, por e-mail, para saber se o programa havia passado por reformulações no governo Bolsonaro, se houve cortes e por que não havia sido lançado o edital no ano passado.

Para a checagem, ainda foi feito contato, por e-mail, com o Comitê Olímpico Brasileiro (COB). O autor do tuíte também foi procurado, em mensagem direta no Twitter, mas não se manifestou.

Verificação

O Bolsa Atleta é um programa, na definição do Ministério da Cidadania, que visa garantir a manutenção pessoal aos atletas de alto rendimento que não têm patrocínio.

O programa é dividido em seis categorias: Atleta de Base (R$ 370); Estudantil (R$ 370); Nacional (R$ 925); Internacional (R$ 1.850); Olímpico/Paralímpico (R$ 3.100) e Pódio (R$ 5 mil a R$ 15 mil). Os valores pagos são mensais.

Para as cinco primeiras, a seleção é feita por chamada pública e é preciso atender a uma série de pré-requisitos, como idade e vinculação a entidade desportiva.

O Ministério da Cidadania aponta que na categoria Pódio, a mais alta do programa, são apoiados os atletas que estão entre os 20 primeiros do ranking mundial de sua modalidade ou prova específica e que atendam aos critérios estabelecidos pela legislação. “Os atletas elegíveis nessa categoria de bolsa são avaliados por um grupo de trabalho composto por representantes da Secretaria Especial do Esporte, das Entidades Nacionais de Administração do Desporto e dos Comitês Olímpico e Paralímpico”, afirma o órgão federal, em nota.

Suspensão do edital

O autor da postagem no Twitter afirma que o governo federal acabou com o Bolsa Atleta em 2020. No ano passado, entretanto, houve a suspensão do edital do programa. O lançamento foi adiado para 2021, segundo o Ministério da Cidadania, devido ao período de excepcionalidade imposto pela pandemia da covid-19.

O órgão federal assegura que não houve interrupção do pagamento do benefício aos atletas que haviam sido contemplados no edital de 2019. Entre os desportistas da categoria Pódio, houve renovação automática dos 274 que continuaram atendendo aos critérios para receber a bolsa.

Em janeiro deste ano, foi lançado o edital para seleção de esportistas para o Bolsa Atleta e, em maio, publicada a lista com os contemplados nas cinco categorias da chamada pública.

O COB foi questionado sobre a execução do programa, mas, em e-mail da assessoria de comunicação, informou que não tem porta-voz para falar do assunto.

Redução da verba

O atual orçamento para o programa é de R$ 145,2 milhões e contempla 7.531 atletas, dos quais 334 são da categoria Pódio. Apesar de o governo não admitir cortes e afirmar que o valor é o maior desde 2014, dados obtidos através da Lei de Acesso à Informação (LAI) do Ministério da Cidadania pelo Estadão revelam uma redução de 17% no orçamento total do ciclo olímpico (2017/2021) – maior parte do período sob a gestão de Jair Bolsonaro na presidência.

Conforme os dados disponibilizados pela LAI, o ciclo olímpico de Tóquio – com um ano a mais devido ao adiamento dos jogos – teve R$ 530,4 milhões destinados ao programa, enquanto o ciclo do Rio recebeu R$ 641,1 milhões.

Segundo dados do Siga Brasil – ferramenta do Senado para análise do Orçamento Federal –, o governo Bolsonaro desembolsou, em média, R$ 124,1 milhões por ano entre 2019 e 2020 com o pagamento de bolsas a atletas, em números já atualizados pela inflação. O valor é 5,4% superior à média registrada entre 2016 e 2018, durante o governo de Michel Temer.

Atletas em Tóquio

Entre os 302 atletas convocados para a Olimpíada, 242 integram o Bolsa Atleta. Nos Jogos Paralímpicos, 222 dos 232 convocados são contemplados pelo programa.

O governo federal mantém uma página na internet para divulgação do desempenho dos brasileiros nas competições.

Até o dia 28 de julho, dos cinco primeiros medalhistas no Brasil, apenas a skatista Rayssa Leal não é beneficiada – ela não tem a idade mínima, de 14 anos, para se candidatar ao programa.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições e pandemia que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

Nesta verificação, o nome de Jair Bolsonaro, que é provável candidato à reeleição, foi associado à suspensão de um programa federal, bastante em evidência no momento devido aos Jogos Olímpicos de Tóquio. O evento, inclusive, já foi pauta de outra checagem do Comprova ao relacionar falsamente a trilha sonora da ginasta Rebeca Andrade a uma homenagem ao presidente.

Somente no Twitter, até o dia 29 de julho, a postagem sobre o Bolsa Atleta já havia recebido 1,4 mil curtidas e outros 418 retuítes.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Políticas públicas

Investigado por: 2021-07-27

É falso que trilha sonora da ginasta Rebeca Andrade na Olimpíada seja homenagem a Bolsonaro

  • Falso
Falso
São falsas postagens afirmando que a música utilizada pela ginasta Rebeca Andrade na classificatória da ginástica artística da Olimpíada de Tóquio, na modalidade solo, seja o “Funk do Bolsonaro”. Na verdade, a trilha mistura "Toccata and Fugue", de Johann Sebastian Bach, com "Baile de Favela", do MC João.
  • Conteúdo verificado: Postagens em site e em contas do Instagram e do YouTube afirmam que a ginasta olímpica Rebeca Andrade utilizou o “Funk do Bolsonaro”, uma paródia de “Baile de Favela”, como trilha para a apresentação.

É falso que a trilha sonora da apresentação da ginasta brasileira Rebeca Andrade durante os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, no Japão, seja uma homenagem ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), conforme afirmam postagens de apoiadores do presidente no Instagram, no YouTube e em um site.

A trilha sonora tem como base o funk “Baile de Favela”, composto por MC João, e não uma paródia feita em 2018, pelo MC Reaça, que ficou conhecida como “Funk de Bolsonaro”. Um vídeo com a paródia chegou a ser publicado no dia 11 de abril daquele ano no Facebook do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), um dos filhos do presidente.

Responsável por fazer a trilha usada pela atleta desde 2018, o músico Misael Passos Junior negou ao Comprova que haja motivação política na escolha da base. Ele também postou em sua conta oficial no Instagram o áudio completo da trilha e informou, na legenda, se tratar de uma mistura da música “Baile de Favela” com o compositor alemão Johann Sebastian Bach, cuja peça utilizada foi “Toccata and Fugue”.

Ao ser procurado pela reportagem, Misael disse desconhecer “qualquer motivação política na escolha das músicas”. “O foco sempre foi o resultado musical oferecer o que a atleta precisa para uma boa performance, nada mais”, falou por meio de mensagem no Instagram.

O responsável pelas relações públicas da atleta, Felipe Paulino, respondeu ao Comprova por e-mail que a música e a série de solo de Rebeca “fazem referência unicamente à cultura do funk brasileiro”.

Em entrevista após a classificação para três finais nos Jogos Olímpicos de Tóquio, Rebeca afirmou que a música tinha sido uma escolha do coreógrafo, Rhony Ferreira. Procurado, ele também negou politização da apresentação. “É um absurdo isso que as pessoas ficam falando, não tem nada a ver com Bolsonaro”. Em 2018, ela comentou sobre a escolha de “Baile de Favela” para a nova coreografia: “Vou botar os japoneses para dançar funk”. Ela também agradeceu em um post feito pelo compositor do funk, MC João, no qual ele afirma que a ginasta fez um baile de favela em Tóquio.

O Comprova procurou cinco contas que postaram o conteúdo falso, mas apenas o site Terra Notícias Brasil respondeu, afirmando ter mudado o título da postagem após o contato. Sustentou, ainda, que a música foi apresentada de forma instrumental, cabendo“ à atleta atestar para qual versão ela se apresentou”, e afirmou que “cada um interpreta a música como conhece”.

Atualização: Esta verificação foi atualizada em 3o de julho para incorporar uma resposta do coreógrafo Rhony Ferreira recebida após a primeira publicação.

Como verificamos?

Inicialmente, buscamos no Google pelo termo “Funk de Bolsonaro”. Os resultados levaram a vídeos em diversas plataformas de uma paródia feita pelo MC Reaça da música “Baile de Favela”, de autoria do MC João. A postagem mais antiga encontrada foi do dia 11 de abril de 2018, no Facebook do senador Flávio Bolsonaro.

Em seguida, procuramos por notícias que relacionassem a trilha sonora da apresentação da ginasta Rebeca Andrade nas Olimpíadas de Tóquio com a paródia, mas os resultados faziam referência direta à escolha pelo funk “Baile de Favela”, sem mencionar o presidente.

Algumas delas falavam sobre o fato de o autor da música, MC João, estar comemorando o funk nas Olimpíadas. Buscamos por postagens no Instagram oficial do artista e encontramos um vídeo da apresentação de Rebeca com uma legenda a parabenizando e exaltando o uso da música nos jogos, enquanto ela o agradece.

Uma publicação no site do jornal Lance! incluiu um vídeo de uma entrevista de Rebeca na qual ela afirmava que a escolha tinha sido feita pelo coreógrafo dela.

Então, passamos a pesquisar quem era o coreógrafo da atleta e chegamos ao nome de Rhony Ferreira. Em sua conta pessoal do Instagram, há duas postagens feitas no dia 25 de julho de 2021 (aqui e aqui), uma delas ao lado de Rebeca, na qual ele afirma que a atleta está fazendo história. Uma busca no feed do coreógrafo levou a uma postagem, também ao lado de Rebeca, no dia 7 de abril de 2018, em que ele afirma ter finalizado a nova coreografia dela.

Também acessamos os stories de Rhony, onde encontramos a repostagem de uma publicação do músico Misael Passos Junior, responsável pela trilha. Na legenda da postagem, Misael afirma que a trilha é uma mistura de (Johann Sebastian) Bach com “Baile de Favela”. Então, o procuramos por mensagem direta e ele disse não haver qualquer motivação política na escolha da música.

Procuramos, ainda, os responsáveis pela comunicação oficial de Rebeca Andrade, além dos autores das publicações que ligam a apresentação dela a Bolsonaro.

Verificação

Trilha é mistura de “Baile de Favela” com Johann Sebastian Bach

A apresentação de Rebeca nas Olimpíadas reacendeu a empolgação pela escolha da trilha sonora, baseada no funk “Baile de Favela”, do MC João. Mas esta não é necessariamente uma novidade, já que a coreografia foi montada em 2018, mesma época da escolha da trilha.

Em entrevista após a apresentação em Tóquio, Rebeca afirmou que o “Baile de Favela” foi uma surpresa do coreógrafo, Rhony Ferreira. Antes, em 2016, a ginasta se apresentava ao som de Beyoncé. “Ele chegou com essa música, no começo eu até estranhei um pouco, porque eu estava saindo da Beyoncé para ir para um funk, mas depois, gente… a música é a minha cara, né? Não tem como… é a cara do Brasil. Então, eu fiquei muito empolgada e depois eu comecei a amar a música”, disse. A entrevista em vídeo aparece numa matéria sobre a repercussão do uso da música, feita pelo Lance!.

Rebeca já fala sobre a escolha do funk desde 2018. No dia 7 de abril daquele ano, o coreógrafo Rhony Ferreira postou uma foto no Instagram ao lado da ginasta. Na legenda, dizia que havia acabado de finalizar a nova coreografia dela. Ele não fez menção ao nome da música. O Comprova o procurou, mas ele não respondeu até a publicação dessa verificação.

O Comprova o procurou pelo Instagram e, em áudio, o coreógrafo esclareceu que a música é Toccata and Fugue, de Bach, com Baile de Favela, além de classificar como absurdas e mentirosas as associações feitas com o presidente. “Não tem nada a ver com Bolsonaro, inclusive, quando eu descobri essa música, em 2016, eu nem conhecia o Bolsonaro, nem sabia quem era e que viria a ser presidente da República”, declarou.

Ele acrescenta ter escolhido a música pelo ritmo ao ver as pessoas a cantarem nas arquibancadas durante a Olimpíada do Rio, em 2016. “Não tem nada a ver com Bolsonaro e com partido político nenhum. É uma mentira e só escolhi a música pela música, pela batida, pelo ritmo, pela vibração que ela faz e porque combinava com Tocatta and Fugue, de Bach”.

Já o produtor e músico Misael Passos Junior, responsável pela trilha, confirmou ao Comprova que a trilha é mesmo do início de abril de 2018. Em novembro daquele ano, uma nota do jornal O Globo já trazia uma fala de Rebeca sobre o uso do funk e a expectativa de levá-lo à Olimpíada: “Vou botar os japoneses para dançar funk”, disse.

A trilha também foi usada no mês passado, no Pan-Americano de Ginástica, no Rio de Janeiro, onde Rebeca se classificou para a Olimpíada. No dia 8 de junho, a cantora Margareth Menezes fez um post no Instagram mencionando o uso do funk.

Sem motivação política

Misael Passos Junior foi questionado pelo Comprova se havia alguma motivação política ou homenagem a Bolsonaro. Em resposta, o músico afirmou que desconhece qualquer motivação política na escolha.

“Trabalhei no arranjo para a trilha da Rebeca sob a direção do coreógrafo Rhony e a diretora Angela Monteni. Desconheço qualquer motivação política na escolha das músicas. Ficamos muito tempo juntos em estúdio produzindo, pois trabalhamos juntos em trilhas para ginastas desde o Brasileirinho da Daiane dos Santos, e o foco sempre foi o resultado musical oferecer o que a atleta precisa para uma boa performance, nada mais”, escreveu.

Também questionado sobre uma eventual intenção de homenagear Bolsonaro, o responsável pelas relações públicas da atleta, Felipe Paulino, declarou por e-mail que a trilha e a série de Rebeca no solo da Olimpíada “fazem referência unicamente à cultura do funk brasileiro”.

Autor do funk comemorou

O autor de “Baile de Favela”, MC João, comemorou o fato de a música ter sido ouvida nos Jogos Olímpicos de Tóquio e parabenizou Rebeca Andrade. Ele postou em sua conta no Instagram um vídeo da apresentação da ginasta ao som de sua composição. “Parabéns pela conquista @rebecaandrade vc vem ostentando superação e hoje fez um baile de favela em tokio… Que apresentação foda só luz… pra mim você já é uma vencedora (sic)”, diz a legenda.

Nos comentários do post de MC João há um agradecimento de Rebeca: “Gratidão!”.

Quem disseminou o conteúdo falso?

O conteúdo falso começou a circular ainda no domingo, dia 25 de julho, quando a ginasta se classificou na prova. Na data, a conta bolsonaroraiz postou no Instagram vídeo da apresentação com uma inscrição sobre as imagens: “Bolsonaro capitão da reserva”.

A mesma montagem foi postada pelo deputado estadual Anderson Moraes (PSL-RJ), com a legenda “ginasta usa rap do Bolsonaro em competição! A esquerdalha vai a loucura, chora mais que tá pouco (sic)”, e pela página direita.conservadora.oficial, que já foi alvo de verificação anterior do Comprova. Esta página retornou o contato feito pelos verificadores, dizendo apenas “repórter de” e marcando outra conta do Instagram que também postou o conteúdo, dando a entender que compartilhou de lá.

Ainda no dia 25, mas no YouTube, o “Canal ponto de ignição” postou um vídeo no qual o responsável pela conta, Junior Almeida, diz que a trilha utilizada por Rebeca Andrade parece ser o som utilizado na paródia a favor de Bolsonaro. Em seguida, ele toca a paródia.

Na segunda-feira, dia 26, a conta bolsonaroraiz voltou a tratar do assunto, postando vídeo da apresentação da ginasta afirmando que ela dançou ao som da música que ficou conhecida como “Funk de Bolsonaro”. O vídeo tem uma inscrição na qual se lê “ginasta brasileira se apresenta com música de apoio a bolsonaro e TV Globo é obrigada a transmitir”.

No mesmo dia, o site “Terra Notícias Brasil”, que também já foi alvo de verificações anteriores, publicou texto sustentando a mesma afirmação: “A música em questão é a versão pró-Bolsonaro que fez enorme sucesso durante as eleições de 2018, feita como paródia à canção ‘Baile de Favela’”, afirma o texto.

Até o Comprova entrar em contato com o site, o título afirmava que a ginasta brasileira se apresentou com música de apoio a Bolsonaro. A chamada, entretanto, foi modificada.

Em resposta à reportagem, o responsável pela publicação, que não se identificou, afirmou acreditar que o título tenha sido o único equívoco, alegando ter informado no corpo tratar-se de uma paródia. Sustentou, ainda, que a música foi apresentada de forma apenas instrumental e que “cabe à atleta atestar para qual versão ela se apresentou”, acrescentando que “cada um interpreta a música como conhece”.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições e pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

O conteúdo em questão foi compartilhado no momento em que a atenção dos brasileiros está voltada para a Olimpíada e envolve uma atleta de destaque na modalidade em que compete. A associação da ginasta ao presidente pode induzir as pessoas a crerem que ela está se posicionando a favor do atual governo ou que a apresentação tenha motivação política.

Apenas no Instagram as postagens somaram 144.404 visualizações até 27 de julho, dois dias após a apresentação da ginasta. No YouTube foram mais 23.691. A partir do site, o conteúdo falso foi compartilhado também em contas do Facebook e do Twitter.

Falso, para o Comprova, é conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2021-07-23

É falso que áudio mostre Luana Piovani defendendo Jair Bolsonaro

  • Falso
Falso
São falsos posts virais no Facebook e no TikTok com áudio em que supostamente a atriz Luana Piovani estaria defendendo que acreditaria em urnas fraudadas caso Jair Bolsonaro não fosse eleito em primeiro turno. A atriz negou a autoria da gravação em seu perfil no Instagram.
  • Conteúdo verificado: Posts no Facebook e no TikTok utilizam uma foto da atriz Luana Piovani e atribuem a ela uma fala segundo a qual a fraude nas eleições presidenciais estaria comprovada caso Jair Bolsonaro não fosse eleito em primeiro turno. Na fala, a pessoa ainda diz que não gostaria de ter filhas homossexuais.

É falso o áudio atribuído à atriz Luana Piovani em que ela teria dito acreditar na possibilidade de urnas burladas caso Jair Bolsonaro não ganhasse no primeiro turno. Os posts, que viralizaram no Facebook e no TikTok e já circulavam desde 2018, trazem a inscrição “Nossa, finalmente, uma atriz lúcida” e, na gravação, a voz ainda diz não querer que “filhas fossem sapatas”.

Ao ouvir o áudio com atenção, é possível perceber que não é a atriz falando. De qualquer forma, o Comprova procurou a assessoria de imprensa de Piovani, que negou a autoria do conteúdo. Em seguida, ainda na sexta-feira (23), Luana, que está em viagem na Turquia, gravou stories no seu Instagram também desmentindo ser ela no áudio. “Gente, eu não sou a favor do Bolsonaro, sou anti-Bolsonaro, esse áudio não sou eu, não é a minha voz”, disse ela.

Como verificamos?

O primeiro passo do Comprova foi verificar se o áudio vinculado à imagem de Luana Piovani havia sido gravado pela atriz. Entramos em contato com a assessoria da artista no Brasil, por e-mail e por telefone, para que pudesse informar se a voz registrada na postagem era da Luana.

Também buscamos contato diretamente com a atriz, com mensagem por e-mail e telefone para sua assessoria de imprensa e para seu perfil no Instagram, canal pelo qual Luana acabou se manifestando posteriormente, em stories.

Por fim, acionamos dois internautas que compartilharam a montagem da foto da artista com o áudio, mas não obtivemos retorno até o fechamento desta checagem.

Verificação

Fraude nas eleições

No áudio que circulou pela primeira vez em 2018 e que já havia sido desmentido, mas voltou a viralizar agora, a mulher afirma que, se Jair Bolsonaro não fosse eleito naquele ano, se mudaria para o exterior porque seria um indício de que as urnas teriam sido burladas, ou seja, fraudadas.

O áudio também sugere que, no pleito anterior, em 2014, a vitória já estava assegurada para o candidato Aécio Neves (PSDB) e, “do nada”, Dilma Rousseff (PT) se reelegeu para a presidência.

Naquele ano, a disputa eleitoral foi bastante acirrada e a petista venceu com 51,64% dos votos válidos. As teorias sobre supostas fraudes começaram logo em seguida, questionando a confiabilidade das urnas eletrônicas, e o PSDB – partido derrotado nas eleições – ingressou com um pedido de auditoria junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Um ano depois, relatório do próprio partido confirmou que não houve fraude, embora tenha defendido que o sistema não permitia uma auditoria externa independente e efetiva. O TSE argumenta que há diversas formas de auditar e recontar os votos. Recentemente, o Comprova fez uma checagem sobre o tema, reafirmando que não há evidências de irregularidades nas eleições de 2014.

Mudança para Portugal

Bolsonaro foi eleito em outubro de 2018. Pouco depois, em janeiro de 2019, Luana Piovani mudou-se para Portugal, numa atitude diferente daquela descrita pela pessoa do áudio de que, se o então candidato não chegasse ao Palácio do Planalto, ela deixaria o país.

Em abril deste ano, a atriz afirmou que o motivo de ir morar no exterior era a vontade de criar os filhos fora da “bolha” de celebridade, além da possibilidade de oferecer mais liberdade e segurança para as crianças, sem mencionar razões políticas.

A postura de Luana Piovani nas redes sociais, entretanto, tem se mostrado frequentemente contrária aos posicionamentos de Bolsonaro e sua gestão na pandemia, como demonstra neste vídeo.

Filhas?

Além de ser possível identificar que a voz não é da atriz, a mulher no falso áudio diz que tem “duas filhas”, o que não é o caso da atriz. Luana, conforme publicações em revistas e sites de celebridades e em seus posts em redes sociais, é mãe de dois meninos (Dom e Bem) e apenas uma menina (Liz). A informação está, inclusive, em sua descrição no Instagram.

‘Não sou eu’

Em viagem a Istambul, na Turquia, a atriz gravou stories em seu perfil no Instagram logo depois que o Comprova procurou sua assessoria de imprensa. Além de se dizer “anti-Bolsonaro” e negar a autoria do áudio viral, Luana pediu: “Pelo amor de deus, não cansem minha beleza”.

Acrescentou que, se tivesse votado nas eleições presidenciais de 2018, teria escolhido Marina Silva, então candidata pela Rede Sustentabilidade. Antes de finalizar os stories, afirmou ser “anti-Lula também” e pediu novamente: “Pelo amor de deus, não diz que eu sou Bolsonaro, não, que me dói até a barriga”.

Não foi a primeira vez que a atriz teve seu nome envolvido em desinformação. Áudios falsos atribuídos a ela e com apoio a Bolsonaro, como o verificado aqui, circulam desde 2018, e já foram checados por veículos como G1 e Veja SP. A atual postagem também foi verificada pela Agência Lupa.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições e a pandemia que tenham atingido alto grau de viralização. O conteúdo verificado aqui atingiu 62,2 mil interações no Facebook até 23 de julho.

No falso áudio – que, como afirmado anteriormente, já circulava em 2018 –, a voz feminina fala em fraude nas urnas nas últimas eleições presidenciais, mesmo discurso que o presidente Bolsonaro vem pregando desde antes de ser eleito. Conteúdos como esses geram desinformação e reforçam a impressão sem fundamento de que o processo eleitoral brasileiro não é seguro, colocando em xeque a própria democracia.

Recentemente, o Comprova publicou verificações semelhantes, sobre conteúdos que questionavam o sistema eleitoral brasileiro, como postagens que afirmavam falsamente que urnas usadas aqui haviam sido hackeadas nos Estados Unidos e que um vídeo mostrava fraude nas eleições de 2014. No ano passado, o projeto mostrou que o sistema de votação eletrônica pode ser auditado e que a Smartmatic nunca vendeu urnas para o Brasil.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Políticas públicas

Investigado por: 2021-07-23

Fragmento de arroz não é ‘resto’ e é vendido desde antes do governo Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
Os fragmentos de arroz são um subproduto apto para o consumo humano. Eles não são restos de comida e apresentam o mesmo valor nutricional que os grãos inteiros. Além disso, eles já eram comercializados antes do governo do presidente Jair Bolsonaro, e a marca que aparece na foto de uma das postagens não detectou nenhum aumento de produção ou vendas em 2020 ou 2021.
  • Conteúdo verificado: Posts no Instagram e Twitter mostram sacos de arroz com um rótulo indicando que são fragmentos de arroz. Os posts dizem que esses grãos quebrados seriam “restos de comida”, com “valor nutricional reduzido”, usados para “compor rações de animais e fazer farinha de arroz” e que teriam começado a ser comercializados no governo de Jair Bolsonaro com um preço maior, devido à “miséria” e “fome” do país.

Não é verdade que os “fragmentos de arroz” sejam restos de comida e tenham começado a ser vendidos nos supermercados recentemente, já durante o governo Bolsonaro, como sugerem alguns posts que viralizaram.

Esse subproduto do arroz, formado por grãos que quebraram durante a etapa de polimento e que são separados dos inteiros, está regulamentado como apropriado para o consumo humano desde a Instrução Normativa de 2009, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e tem valor nutricional similar ao do arroz inteiro, segundo especialistas ouvidos pelo Comprova.

Além disso, segundo a fabricante da marca que aparece na foto que acompanha um dos tuítes, Rampinelli Alimentos, os fragmentos são comercializados desde 2016 e indicados para receitas de sopas e caldos.

A empresa também afirmou que não foi percebido nenhum aumento recente no volume produzido de fragmentos de arroz no governo Bolsonaro e, portanto, nem no consumo.

O Comprova entrou em contato com os responsáveis pelas postagens, e um deles, @diogotapuio, nos respondeu, dizendo que o tuíte se refere ao aumento da fome e da pobreza no Brasil.

Como verificamos?

O Comprova consultou documentos oficiais do MAPA que regulamentam sobre o consumo humano de fragmentos de arroz e conversou com especialistas em alimentação e agricultura.

Fizemos contato também com a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), para saber mais sobre a venda desse subproduto no país, com a Apas (Associação Paulista de Supermercados) e Abras ( Associação Brasileira de Supermercados).

Além disso, a equipe procurou a empresa Rampinelli – que aparece nas postagens em uma foto que mostra vários sacos de fragmentos comercializados pela marca.

Pelas redes sociais, fizemos contato com os responsáveis pelas postagens verificadas, mas só um deles nos respondeu.

Verificação

O que são fragmentos de arroz

Os conteúdos enganosos indicam que os fragmentos de arroz seriam “restos de comida”.

A Instrução Normativa 6/2009 do MAPA – que define o padrão oficial de classificação do arroz, com os requisitos de identidade e qualidade –, prevê a comercialização dos fragmentos de arroz.

Ele é definido como “o produto constituído de, no mínimo, 90% de grãos quebrados e quirera”, sendo que os grãos quebrados são “o pedaço de grão de arroz descascado e polido que apresentar comprimento inferior às (três quartas) partes do comprimento mínimo da classe que predomina e que ficar retido na peneira de furos circulares de 1,6 mm de diâmetro” e quirera (menor parte do grão quebrado) que é “o fragmento de arroz que vazar na peneira de furos circulares de 1,6 mm de diâmetro”.

Dessa forma, o fragmento de arroz beneficiado é classificado em 4 subgrupos – integral, polido, parboilizado integral e parboilizado polido – e nas 2 categorias: grão quebrado e quirera, como mostra a imagem abaixo, retirada do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal, do MAPA:

 

A pesquisadora em Ciência de Alimentos da Embrapa Arroz & Feijão Priscila Zaczuk Bassinello reforça que os fragmentos de arroz não podem ser considerados “restos” nem “sobras”. “Restos são alimentos que já não podem ser reaproveitados. Quando a gente fala de sobras limpas são os alimentos prontos que não foram distribuídos e dependendo da quantidade podem ser também uma forma de desperdício. Não é o caso de fragmentos de arroz”, explica.

Segundo ela, a ocorrência dos fragmentos é algo normal e ocorre sempre, já que o grão tende a quebrar no processo até chegar na embalagem que vai ao mercado. “Dependendo do tipo de amido que tem no grão ele pode ser mais frágil, depende do manejo, da genética da cultura. Então, essa quebra faz parte de grande parte dos cultivares que temos no mercado e sempre você tem uma porcentagem de quebra. Já se espera, pelo menos, de 30 a 40% de perda com grãos quebrados em qualquer cultivo”, explica.

Carlos Magri Ferreira, agrônomo e analista da Embrapa Arroz e Feijão, afirma que o fragmento de arroz é um subproduto e a origem dele pode ser em função da forma de cultivo, condições climáticas durante o ciclo da cultura, ação física no grão, problemas na secagem ou no beneficiamento. “O grão quebrado reduz o preço do arroz. Dessa forma, pesquisas na área são realizadas para reduzir o aparecimento deste”, explicou.

Os fragmentos são menos lucrativos para os produtores. Priscila afirma que a indústria que compra o arroz e vai empacotar paga o preço em função do rendimento industrial. “Quanto mais quebrados, menos eles pagam por aquele material. No mercado se define a porcentagem aceitável de grãos inteiros, eles falam em, no mínimo, 65% de inteiros do arroz.”

A Rampinelli Alimentos ressaltou que o produto vendido como “fragmento de arroz” é classificado pelo MAPA na categoria “quebrado”, tipo 1 – informações que estão na embalagem.

Segundo a Abiarroz, “a quantidade de fragmento de arroz produzida no Brasil não chega a 10% do total da produção (cerca de 1 milhão de toneladas)”.

Consumo humano

Os posts que estão viralizando indicam que os fragmentos de arroz seriam usados “para compor rações e fazer farinha de arroz” e estariam ligados à “miséria” e à “fome”.

Apesar de serem usados para ração animal e para fazer farinha de arroz, Priscila destaca que não dá para confundir fragmentos com aquilo que é abaixo do padrão e desclassificado para consumo humano.

“Não é apto para consumo humano quando o arroz está em mau estado de conservação, com presença de mofo, odor estranho ou com substâncias nocivas à saúde. Isso tudo não tem relação com o fato de eles serem quebrados. A quebra pode acontecer com qualquer um dos tipos, qualquer classe, porque isso depende de manejo pós-colheita. Não há problema nenhum em se comercializar e consumir um grão de arroz quebrado. Não é considerado um defeito”, explica.

Ferreira destaca que a preferência do consumidor é definida por questões sociais, religiosas, econômicas e culturais e que o brasileiro é exigente e, normalmente, não aceita comprar arroz quebrado. “O padrão médio desejado pelo consumidor brasileiro é pelo arroz longo fino, polido, que, após o cozimento, fique macio, seco e solto. A marca comercial e tipo 1 são fatores predominantes na decisão de compra. Talvez seja o produto que o brasileiro mostre-se mais exigente para servir seja para a família ou convidados”, explica.

Para Priscila, deve-se levar em consideração o mercado para o qual o arroz será vendido. Alguns países valorizam o arroz fragmentado, principalmente na África, em que já é hábito consumir os grãos quebrados. Segundo ela, países africanos têm receitas específicas para esse arroz. Em contraposição, outros mercados só toleram menos de 10% de teor de quebrados no pacote. “A preferência varia e a qualidade pode ser boa para alguns e ruim para outros, depende dos hábitos alimentares daquela cultura. Os fragmentos também podem ser misturados com porcentagens de arroz inteiro em alguns países que aceitam esse tipo de mistura, principalmente importadores de baixa renda”, afirma.

O arroz especial e os fragmentos de arroz representam cerca de 1% do consumo total da cultura no Brasil, segundo a Abiarroz. De acordo com a associação, a maior parte da produção brasileira desse tipo de grão é comercializada para países africanos, onde há o hábito de consumo do arroz quebrado.

Em resposta ao Comprova, a Rampinelli Alimentos disse que o produto chamado de “fragmento de arroz” é indicado para receitas de sopas, minestras e caldos e não é vendido para consumo animal. A empresa fabrica outro produto para a alimentação de cães, comercializado com o nome “Arroz Luppy”, que é feito à base de arroz.

Valor nutricional

Um dos conteúdos enganosos afirma que os fragmentos de arroz tem “valor nutricional reduzido”.

Segundo a nutricionista, professora da área de Tecnologia de Alimentos da Federal de Pernambuco (UFPE) e consultora da Associação Brasileira de Nutrição(Asbran), Viviane Lansky Xavier, os fragmentos de arroz têm o mesmo valor nutricional que os grãos inteiros, sendo que a diferença está na estrutura física.

Na entrevista ao Comprova, para exemplificar, ela disse que comparou os dados dos produtos da marca Rampinelli: o fragmento de arroz polido apresenta 80g de carboidratos e 6g de proteínas por 100g de produto. Já o arroz polido inteiro apresenta o mesmo teor de carboidratos (80g) e 6,6g de proteína por 100g de produto. Ou seja, a variação no teor de proteínas não chega nem a 1g por 100g de produto.

“Há pequenas variações nesses valores entre uma marca e outra, depende de como a empresa fez a informação nutricional que está no rótulo, mas, na comparação, não há tanta diferença assim. Temos que lembrar também que, quando pensamos numa alimentação saudável, o arroz está no grupo de alimentos energéticos, ou seja, aqueles que são as fontes de carboidratos. Quanto ao teor deste nutriente, não há diferença entre os produtos”, explica.

Ela ressalta que é hábito alimentar de se consumir o arroz inteiro, enquanto que o fragmento, historicamente, é destinado a alimentação animal, pois o valor comercial sempre foi menor. “A própria embalagem do fragmento de arroz geralmente indica a forma de consumo: ideal para sopas, canjas etc. É a mesma coisa do milho, tem o inteiro e o quebrado, chamado de quirera também, ou xerém. É usado na alimentação animal, mas também na alimentação humana”, afirma.

Priscila destaca que como o arroz só foi quebrado ele preserva a mesma constituição nutricional do grão que lhe deu origem, mudando apenas a estrutura física. “Ele preserva as mesmas propriedades nutritivas do arroz inteiro. O que pode alterar é a qualidade culinária, que pode tender a empapar mais do que o grão inteiro”, comenta.

Comercialização e governo Bolsonaro

Uma das postagens afirma que “no Brasil de 2021, fragmento de arroz é vendido nos mercados”, como se o produto nunca tivesse sido comercializado antes. A outra diz “eu não sei se vocês tem noção, mas fragmento de arroz não era comercializado”, e afirma que, antes desse ano, o quilo do produto custava R$1. Os dois tuítes são acompanhados de uma foto, que mostra o pacote de 5kg dos “fragmentos de arroz” da marca Rampinelli, sendo vendido a R$15,99 em um supermercado.

As afirmações não procedem. A norma do MAPA sobre a classificação desse subtipo de arroz é de 2009, como já mencionado. “Existe essa classificação normatizada no Ministério da Agricultura. Sempre existiu no Brasil e a classificação existe de longa data, desde a década de 80”, diz Priscila Zaczuk Bassinello.

Já o produto da Rampinelli começou a ser vendido em 2016, bem antes de Jair Bolsonaro se tornar presidente do Brasil. Ao Comprova, a empresa disse que a ideia foi criar um produto voltado para o preparo de caldos e sopas: “o fragmento entra no catálogo de produtos da Rampinelli para agregar ainda mais a diversidade de receitas. Sendo assim, ele NÃO é um substituto dos demais produtos”.

De lá pra cá, as vendas nunca corresponderam a mais de 1,2% das vendas totais da empresa, como mostra a tabela abaixo, enviada ao Comprova:

Além disso, segundo a Rampinelli, não foi percebido nenhum aumento recente nesse volume – e, portanto, nem no consumo.

A Abiarroz disse que, por causa da falta de costume dos brasileiros em consumir o arroz quebrado, ele não é encontrado com facilidade em todos os supermercados. “Nos estados do Sul do país, onde se tem costume de comer caldo, sopa, canja, minestra, especialmente com clima mais frio, é mais facilmente encontrado. A percepção de indústrias que comercializam fragmento de arroz é de que houve queda no consumo deste produto, desde 2016”, afirma a associação.

O Comprova não conseguiu localizar uma média de preços do fragmento de arroz nos últimos anos. A Rampinelli disse que, em comparação com outros produtos, o fragmento realmente é comercializado a um preço mais baixo, mas que “não é responsável pela formação do preço de venda ao varejo, este é o próprio supermercado/atacadista que faz”.

O Comprova também procurou a Apas que disse que possui uma base de dados provenientes de parceiros, como a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), com cerca de 200 produtos. No entanto, o arroz fragmentado não existe nas análises, pois há uma representação ínfima no setor supermercadista do estado de São Paulo. Dessa forma, não há uma base de dados para comparar os preços deste produto.

Procuramos a Associação Brasileira de Supermercados, que disse que não conseguiria atender nossa solicitação.

Já a Abiarroz afirma que o preço do fardo de arroz quebrado geralmente equivale a 24% do valor do arroz polido – que é mais consumido no país. “A alteração de preço é proporcional ao preço do arroz Tipo 1, uma vez que, muitas vezes, sequer se tem a matéria-prima para fragmento de arroz em função da qualidade do arroz brasileiro, que apresenta grande percentual de grãos inteiros”, diz a nota enviada ao Comprova.

O preço médio do arroz mais comumente usado nos lares brasileiros subiu 61% no país, entre maio de 2020 e maio de 2021, durante a pandemia, segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV).

O que diz quem publicou o conteúdo

O conteúdo enganoso foi publicado no Twitter pelos usuários @diogotapuio e @astrafito. O post de Diogo ainda foi compartilhado no Instagram pela página “Esquerda Pensante”.

O Comprova tentou contato com os três, mas só Diogo Cabral nos respondeu, dizendo que a postagem está relacionada aos níveis alarmantes de insegurança alimentar no Brasil.

“O tuíte ilustra uma grave situação que temos atravessado no país: a fome”, nos escreveu ele, por mensagem no Instagram. Diogo mencionou ainda os dados de aumento da insegurança alimentar e da desigualdade no país. Não informou, porém, se sabia quando o fragmento de arroz começou a ser comercializado.

De fato, o Brasil uma pesquisa de abril da organização humanitária Oxfam, que atua em todo o mundo, apontou que mais de 19 milhões de brasileiros passaram fome durante a pandemia da covid-19.

Também é verdade, segundo uma pesquisa da FGV, que o número de brasileiros em situação considerada de extrema pobreza — ou seja, vivendo com menos de R$246 mensais — aumentou desde o começo de 2020. Antes da pandemia, em 2019, o índice chegava a 10,97%, mas, com o pagamento do auxílio emergencial mais amplo no ano passado, havia caído, em agosto, para 4,25%. Em fevereiro, com as mudanças no pagamento do benefício, o índice voltou a subir e ultrapassou o período pré-pandêmico, chegando a 12,83% — o que corresponde a 27,2 milhões de pessoas.

Apesar disso, os números não estão relacionados à venda dos fragmentos de arroz em supermercados.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

Os posts verificados nessa checagem atingiram mais de 57 mil interações no Twitter e Instagram e, ainda que a intenção dos autores tenha como base informações verdadeiras – aumento da fome e da pobreza no país –, a venda do fragmento de arroz não tem relação com esse cenário.

Além disso, o conteúdo engana ao indicar que esses produtos não seriam apropriados para consumo humano e ao relacionar a comercialização dos fragmentos como consequência do governo Bolsonaro.

Enganoso é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2021-07-23

Site omite que pesquisa com vantagem para Bolsonaro foi feita apenas em SC

  • Enganoso
Enganoso
Título de artigo compartilhado em grupos bolsonaristas no Facebook omite que uma pesquisa eleitoral que apresentou vantagem para o atual presidente foi feita apenas em Santa Catarina. O Estado no Sul do país representa apenas 3,5% do eleitorado brasileiro.
  • Conteúdo verificado: Artigo em site cujo título diz que “Bolsonaro aparece com mais que o dobro que Lula” em nova pesquisa eleitoral.

É enganoso o título de um artigo compartilhado em grupos governistas no Facebook que afirma que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem mais que o dobro de intenções de voto que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A chamada omite que o levantamento foi realizado apenas no Estado de Santa Catarina – que corresponde a 3,5% do eleitorado nacional.

A informação que a pesquisa é estadual aparece apenas no corpo do texto. Mas, como fica evidenciado nos comentários das postagens do link no Facebook, muitas pessoas se confundiram, acreditando se tratar de um levantamento realizado em todo o país.

O Comprova entrou em contato com o site responsável pela publicação, mas não obteve resposta.

Como verificamos?

Consultamos a pesquisa mencionada no artigo, realizada pela empresa Paraná Pesquisas. Verificamos ainda os resultados de outros levantamentos de intenção de voto, feitos pelos institutos Datafolha e Ipec (formado por ex-executivos do Ibope). Procuramos ainda estatísticas de eleitorado do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Tentamos contato com o site News Atual, que publicou o artigo verificado aqui, mas não obtivemos resposta.

Verificação

Resultados da Paraná Pesquisas

O levantamento do Paraná Pesquisas indica que Bolsonaro tem 52% das intenções de voto, contra 24,2% de Lula no Estado de Santa Catarina. Os ex-ministros Ciro Gomes e Luiz Henrique Mandetta aparecem com 3,6% e 2,8%, respectivamente. O governador gaúcho, Eduardo Leite, foi mencionado por 2% dos entrevistados.

Foram ouvidos 1.514 eleitores catarinenses, de 86 municípios, entre os dias 15 e 19 de julho. As perguntas foram feitas por telefone. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

A mesma empresa divulgou uma pesquisa nacional em 16 de junho. Nela, Bolsonaro e Lula aparecem empatados tecnicamente: o primeiro, com 34,3%; o segundo, com 32,5%. O apresentador José Luiz Datena tem 7,5% e Ciro, 5,8%. Depois, vem o governador de São Paulo, João Doria, com 3,4%, e Mandetta, com 3,2%.

Este levantamento teve metodologia diferente: foram ouvidos, presencialmente, 2.040 eleitores de 156 municípios do país. Na região Sul, foram feitas 302 entrevistas, 14,8% do total.

O Paraná Pesquisas publicou recentemente outras pesquisas regionais. Em Maceió, capital do Alagoas, 41,3% disseram preferir Lula, e 28,4% citaram Bolsonaro. Em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, o petista teve 32,6% e o atual presidente, 26,1%. No Estado do Ceará, essas porcentagens foram de 45,9% e 19,4%, respectivamente.

Como são feitas as pesquisas de intenção de voto

O objetivo de uma pesquisa eleitoral é fazer um retrato da opinião da sociedade naquele momento. As pesquisas não antecipam resultados, mas podem apontar tendências. Agora, a mais de um ano para as eleições, é preciso olhar para os números com um olhar crítico.

As pesquisas buscam obter informações sobre o eleitorado a partir de uma amostra – um grupo de pessoas com características de sexo, idade, escolaridade, renda e região em proporções semelhantes ao do restante do país. As amostras do Datafolha, por exemplo, costumam ter entre 2 mil e 2,5 mil entrevistados.

Nas últimas pesquisas divulgadas por Datafolha e Ipec, o percentual de moradores do Sul do Brasil foi de 15%. Isso porque, segundo as estatísticas mais recentes do TSE, 14,7% dos votantes vivem lá – são mais de 21,5 milhões de pessoas.

Santa Catarina é o Estado com menos eleitores no Sul. São 5,1 milhões de votantes, que representam 3,5% do eleitorado nacional.

Na pesquisa Ipec divulgada em junho, 35% dos entrevistados do Sul disseram que votariam em Lula; 29% citaram Bolsonaro. O Datafolha de julho indicou números semelhantes: 35% dos sulistas ouvidos mostraram preferência pelo petista, e 29% pelo atual presidente.

É importante ressaltar que as amostras por região são menores. Como explica o Datafolha em sua página de perguntas e respostas, “quanto menor o tamanho do segmento, maior o erro amostral associado aos resultados nele obtidos. Uma amostra de 2.500 entrevistas, por exemplo, fornece bases razoáveis para leituras por região geográfica, mas não pelos Estados. Se houver necessidade de leitura de resultados para determinado Estado ou cidade, é preciso ampliar a amostra nesta região”.

O site checado

O Comprova entrou em contato com o site News Atual para perguntar por que o título do artigo analisado não deixou claro que a pesquisa em questão foi feita apenas entre catarinenses. Não obtivemos resposta. O site já foi checado em outras duas ocasiões pelo Comprova: em uma verificação que desmentiu que o filho de Lula teria “embolsado” R$ 317 milhões com uma delação e em outra que mostrou que o patrimônio de Marisa Letícia pertencia ao casal Lula da Silva.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal ou a pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

O conteúdo verificado teve mais de 15,6 mil interações no Facebook, sendo 1,3 mil compartilhamentos, de acordo com a ferramenta CrowdTangle.

Conteúdos que questionam a credibilidade de pesquisas científicas e estatísticas sobre eleições são prejudiciais porque ajudam a espalhar acusações de que o sistema e o processo eleitoral brasileiros são fraudulentos. Isso cria um ambiente para questionamento dos resultados das eleições, caso eles não tenham o resultado esperado por determinado grupo político, como vem afirmando constantemente o presidente Jair Bolsonaro. Não houve registro de fraudes em eleições brasileiras desde a adoção das urnas eletrônicas, em 1996.

Recentemente, o Comprova mostrou que um site não indicava quem estava na frente de pesquisas eleitorais e que uma enquete em um programa de TV não indicava a opinião da população.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por: 2021-07-23

Estudo francês em hamsters não prova eficácia da ivermectina contra a covid-19 em humanos

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a publicação no site Terça Livre que afirma que um estudo francês apontou a eficácia da ivermectina para combater a covid-19. O texto omitiu que o estudo mencionado, realizado pelo Instituto Pasteur da França e publicado na revista EMBO Molecular Medicine no último dia 12, foi feito em hamsters, e não em humanos.
  • Conteúdo verificado: Texto do site Terça Livre afirma que um estudo francês apontou a eficácia da ivermectina contra a covid-19.

É enganosa a publicação no site Terça Livre que afirma que um estudo francês apontou a eficácia da ivermectina para combater a covid-19. O texto omitiu que o estudo mencionado, realizado pelo Instituto Pasteur da França e publicado na revista EMBO Molecular Medicine no último dia 12, foi feito em hamsters, e não em humanos. Estudos publicados até o momento são insuficientes para concluir que a ivermectina seja eficaz contra o novo coronavírus.

O Comprova procurou o Terça Livre por e-mail, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. Após o contato, a publicação do site foi editada para incluir a informação de que o estudo em questão foi feito em hamsters.

Como verificamos?

O Comprova leu o estudo citado na publicação e também a checagem feita pela AFP sobre o assunto. Em seguida, consultou o doutor em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Alison Chaves.

Para a verificação, também foram consultadas outras pesquisas sobre o uso da ivermectina no tratamento da covid-19 e agências reguladoras que falam sobre o medicamento.

Por fim, entramos em contato com o site responsável pelo texto.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 23 de julho de 2021.

Verificação

Estudo

O estudo realizado pelo Instituto Pasteur da França e publicado na revista EMBO Molecular Medicine no último dia 12 mostrou que doses padrão de ivermectina foram capazes de prevenir a deterioração clínica e a perda de olfato, além de limitar a inflamação do trato respiratório superior e inferior em hamsters sírios (também chamados de hamsters dourados) infectados com SARS-CoV-2. Foi concluído que a ivermectina melhorou o resultado clínico nos animais infectados com o vírus e está associada a um estado inflamatório reduzido, mas sem impacto das cargas de SARS-CoV-2 no trato respiratório superior e inferior. Por fim, o estudo afirma que traz a prova de conceito de que uma terapia imunomoduladora baseada em ivermectina melhora a condição clínica de hamsters infectados com SARS-CoV-2 e, em ensaios clínicos, aliviaria os sintomas da covid-19 em humanos.

Em nota à imprensa, o Instituto Pasteur informou que os pesquisadores demonstraram que ‘’a ivermectina, uma molécula comercializada como um tratamento antiparasitário, protege contra os sintomas da Covid-19 em um modelo animal’’. O Instituto Pasteur informou à AFP, parceira do Comprova, que esses resultados foram obtidos como parte de um estudo pré-clínico.

Para o doutor em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Alison Chaves, o estudo não é mal feito, apenas exagera as conclusões. Ele chama atenção para o relato de redução da resposta a interferon nos hamsters do estudo. Os interferons são glicoproteínas produzidas naturalmente no organismo e têm propriedades antivirais. ‘’Isso não é bom e gera mais dúvidas do que certezas, pois o interferon é uma das principais citocinas antivirais que nosso sistema imunológico produz. Há publicações sugerindo que a deficiência de interferon está associada a quadros mais severos da doença e há muitos estudos sugerindo interferon como intervenção para a doença”, observa.

Chaves ainda aponta que o modelo animal pode ter uma quantidade muito maior da citocina se comparado a humanos. ‘’Não conheço a fundo os modelos inflamatórios em hamster, mas camundongos, por exemplo, produzem uma enxurrada de interferon. Esta foi uma das limitações na época dos estudos com zika vírus. Os animais não desenvolviam a doença pelo excesso de interferon inerente ao modelo. Isso foi resolvido gerando camundongos geneticamente modificados para expressar menos interferon’’.

O Comprova tentou entrar em contato por e-mail com o pesquisador do Instituto Pasteur Guilherme Dias de Melo, um dos responsáveis pelo estudo, mas não obteve retorno.

O resultado em hamsters significa que será igual em humanos?

Julival Ribeiro, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explicou à AFP que “todo estudo sobre qualquer droga tem fases pré-clínica e clínica até que fique comprovado por meio de estudos clínicos randomizados, duplo-cego, que esse medicamento combate determinada doença”.

‘’A Sociedade Americana de Infectologia e outras sociedades do mundo afirmam que a ivermectina só poderá ser usada quando sua eficácia for comprovada em estudos clínicos. Até agora não está demonstrada a eficácia da ivermectina para tratar covid-19 em seres humanos”, acrescentou Ribeiro. Ele alertou ainda que após testar uma droga em animais, jamais se pode extrapolar o resultado para seres humanos.

Alison Chaves também aponta que não é possível usar o estudo para embasar qualquer conduta clínica: ‘’Trata-se de um estudo em modelo animal. Por isso não se pode extrapolar esses dados para clínica, como fizeram os autores, tanto ao sugerir melhora clínica (termo inapropriado para modelos animais) quanto ao sugerir que a droga poderia ser usada na clínica para covid-19, considerando estes resultados.”

Estudos com ivermectina não comprovaram eficácia contra covid-19

Embora não exista comprovação científica de que a ivermectina seja eficaz contra a covid-19, o Terça Livre citou outros quatro estudos que supostamente indicariam a eficácia do medicamento. Ao Comprova, o doutor em Microbiologia e Imunologia Alison Chaves analisou cada um deles.

O primeiro é um estudo australiano de junho de 2020. ‘’O estudo australiano aponta o caminho inverso do estudo do Instituto Pasteur. Nesse estudo, a ivermectina reduz a carga viral in vitro. No estudo francês in vivo, não há redução importante da carga viral e os autores sugerem que o caminho é outro (imunomodulação). Estudos in vitro são apenas screening de drogas, não servem para embasar condutas clínicas’’, analisa Chaves.

Outros dois estudos mencionados pelo site são metanálises. Nesses casos, diferentes estudos sobre um mesmo assunto são agrupados e, então, os resultados são comparados. ‘’O estudo da Indonésia é uma metanálise cujas conclusões dependem fortemente de estudos mal feitos e, descoberto mais recentemente, fraudados’’, diz Chaves. Em junho deste ano, ele publicou um artigo na Revista Questão de Ciência sobre como essas metanálises de ivermectina são compostas por estudos suspeitos. “Observe que o estudo de Oxford é outra metanálise que usa exatamente os mesmos estudos problemáticos. Especial atenção para o estudo de Elgazzar em ambas metanálises’’, completa. O Comprova também já publicou uma verificação mostrando que a metanálise publicada no Open Forum Infectious Diseases em julho é insuficiente para apontar a eficácia da ivermectina contra a covid-19.

Já o quarto e último estudo citado, publicado no Chest Journal, é finalmente um estudo clínico. ‘’No entanto, é de baixa qualidade de evidência. O estudo é retrospectivo, não foi controlado em nenhum aspecto. Em síntese, agrupando todos estes estudos, não há contribuição alguma para se reduzir as incertezas sobre eficácia do tratamento proposto. Neste caso, não se pode concluir nada sobre a droga. Uma conclusão negativa seria de qualidade duvidosa pelas mesmas razões já mencionadas’’, conclui.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda que a ivermectina seja usada contra a covid-19, exceto em ensaios clínicos, devido à falta de evidências que comprovem seus benefícios contra a doença. A Agência Europeia de Medicamentos e a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, compartilham o mesmo posicionamento. No Brasil, a Anvisa também reconhece que não existem estudos conclusivos que comprovem o uso do medicamento para o tratamento da covid-19.

Quem postou

O Terça Livre pertence a Allan dos Santos, investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no inquérito das fake news. O Google removeu o canal no YouTube do site após decisão judicial favorável à multinacional. Em fevereiro o canal já havia sido derrubado por violar diretrizes da plataforma, mas uma liminar conseguiu permitir o retorno do perfil. O Comprova procurou o Terça Livre por e-mail, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. Após o contato, o texto do site foi editado e a informação de que o estudo em questão foi feito em hamsters foi incluída.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia, processo eleitoral ou políticas públicas do governo federal. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. A publicação verificada aqui teve mais de 4 mil interações no Facebook.

A checagem de conteúdos envolvendo informações sobre supostos tratamentos para a covid-19 é importante, pois a desinformação pode colocar a saúde das pessoas em risco.

A mesma publicação foi verificada pela AFP Checamos na última terça-feira (20).

Postagens sobre a ivermectina já foram verificadas pelo Comprova, mostrando que a metanálise publicada no Open Forum Infectious Diseases é insuficiente para apontar a eficácia da ivermectina contra a covid-19, que é enganoso que a Universidade de Oxford tenha encontrado ‘fortes indícios’ da eficácia do medicamento contra a covid e outra que mostra que a ivermectina em altas doses pode causar até convulsão.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

 

 

Pandemia

Investigado por: 2021-07-22

Exame sorológico não prova que vacinas deixam de proteger

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso vídeo publicado no Facebook e Twitter no qual um médico afirma que o diagnóstico negativo de um exame sorológico que fez provaria que a Coronavac não gera imunidade contra a covid-19. Especialistas ouvidos pelo Comprova explicam que o exame não é capaz de medir o nível de proteção garantida por vacinas, pois mede apenas a quantidade de anticorpos neutralizantes, que representam só parte do sistema imunológico humano.
  • Conteúdo verificado: Em um vídeo publicado nas redes sociais, o médico Delano Santiago Pacheco diz que foi imunizado com duas doses da Coronavac. Porém, ao fazer dois testes sorológicos não teria apresentado anticorpos neutralizantes suficientes contra o Sars-CoV-2. Ele conclui que a vacina não serviu para ele.

Médico engana ao associar o resultado de um teste de anticorpos neutralizantes à eficácia da vacina Coronavac. Os anticorpos só são uma das defesas ativadas após uma imunização e também não se sabe qual a quantidade necessária deles para garantir uma proteção.

Tanto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quanto a Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm) não aconselham a realização desse tipo de exame após a vacinação por esses dois motivos.

Conforme explicado pela imunologista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), Anna Castelo Branco, esse tipo de teste só serve para saber se a pessoa teve contato com o vírus, o que não assegura que ela tenha ou não imunidade contra a doença.

O vídeo foi removido das redes sociais dele, mas circula em outros perfis, como o da ex-deputada federal pelo PTB do Rio de Janeiro Cristiane Brasil. Em outra publicação, do mesmo médico, ele admite que os anticorpos não são a única forma de defesa contra o vírus produzida após a vacinação.

Como verificamos?

O primeiro passo feito pelo Comprova foi procurar saber quem era o médico que falava no vídeo. Com isso, fomos tentar entender que teste ele tinha feito, o que esse exame mede e se ele serve para apontar a eficácia de uma vacina. Para isso, além das notas técnicas divulgadas pela Anvisa e pela SBIm, consultamos a imunologista do ICB-USP Anna Castelo Branco.

Também tentamos entrar em contato com Delano, responsável pelo vídeo, pelo e-mail disponível no site da Câmara Municipal de Divinópolis (MG), onde ele é suplente, e pelo número de WhastApp divulgado em sua página do Facebook, mas até o fechamento dessa checagem, não obtivemos retorno. Além disso, tentamos falar com a ex-deputada federal pelo PTB do Rio de Janeiro Cristiane Brasil pelo Facebook.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 22 de julho de 2021.

Verificação

Testes sorológicos não são capazes de medir eficácia de uma vacina

Existem dois tipos de testes sorológicos para a covid-19 disponíveis no mercado. Esses exames servem para medir se a pessoa tem anticorpos contra o vírus. O mais simples deles mede se a pessoa tem anticorpos de memória, o IgG – nesse caso só se sabe se a pessoa teve contato com o vírus. O segundo tipo de teste é um pouco mais detalhista. Ele mede se a pessoa tem os chamados anticorpos neutralizantes, que servem para impedir a entrada do vírus na célula. Não fica claro no vídeo exatamente qual o teste que o médico fez, mas ao que parece ele fez um exame de anticorpos neutralizantes.

O problema desse exame é que ainda não há estudos que demonstrem qual a quantidade de anticorpos neutralizantes necessária para impedir uma infecção. De acordo com explicação do site do Laboratório Exame, a única indicação do teste é para quem deseja saber se já teve contato com o vírus da covid-19.

Segundo a imunologista Anna Castelo Branco, nenhum teste sorológico disponível no mercado tem a capacidade de medir a eficácia de uma vacina. “Ainda não foi estabelecida qual é exatamente a necessidade de anticorpos que são necessários para bloquear a entrada do vírus na célula”, destaca Anna.

Além disso, ela lembra que os anticorpos neutralizantes são só uma das defesas ativadas pela vacina. Para as outras não há testes capazes de fazer a medição. “O segundo ponto é que o sistema imunológico é treinado em várias frentes diferentes, como se fosse um exército composto por vários batalhões. O anticorpo é só um desses batalhões, mas a gente tem a imunidade inata, que é primeira linha de defesa, e a adaptativa”, ressalta.

O próprio médico, autor do vídeo, fez essa explicação em outra postagem após a repercussão da primeira. No novo vídeo, ele adota um tom diferente e, apesar de não desmentir o primeiro, diz que o teste sozinho não é capaz de determinar que uma pessoa não está imune. Ele afirma que, além dos anticorpos, existem outras defesas que são ativadas com a vacina, mas que não há como medi-las.

Anna Castelo Branco explica que o médico usa conceitos corretos, mas ele erra ao dizer que a vacina não foi capaz de protegê-lo, já que a defesa não é feita somente pelos anticorpos. “Ele é muito enfático em dizer que não está protegido e isso não é verdade. Ele pega uma única informação e tira uma conclusão clínica. Esse dado isolado de uma única pessoa não representa nada quando a gente fala de eficácia de uma vacina. O que é mais real são os ensaios clínicos que são feitos em várias pessoas. E a Coronavac tem alta efetividade, principalmente no que é prioridade, que são os casos graves e mortes”, destaca.

Uma análise da resposta imunológica provocada pelas diferentes vacinas em uso, publicada na revista científica Nature em julho, apontou que as respostas apresentadas têm sido diferentes e que ainda não há como saber qual dessas defesas é mais eficaz contra a covid-19. Os autores concluem que estudos futuros devem ser feitos analisando as pessoas que se infectaram mesmo estando vacinadas. “Análises abrangentes e cuidadosas de todos os dados imunológicos, comparando as respostas pós-vacina iniciais em indivíduos que foram infectados após a vacinação com aqueles que não foram, acabarão por fornecer uma resposta.”

Com a repercussão do vídeo, a Secretaria de Saúde de Divinópolis (Semusa) emitiu uma nota pública em que contesta a fala do médico. Na publicação, o órgão apresenta orientações da Anvisa e da SBIm que desaconselham o uso de testes sorológicos após a vacinação.

Segundo a SBIm, em nota técnica de março deste ano, testes sorológicos não são recomendados após a vacinação por não terem a capacidade de medir de forma correta se a pessoa está imunizada. “A complexidade da imunidade pós-vacinal ou mesmo após doença natural, no entanto, não corrobora a realização dos testes, pois os resultados não traduzem a situação individual de proteção”, afirma.

A instituição lembra ainda a fragilidade do método, já que a imunização não é formada apenas por anticorpos. “A complexidade que envolve a proteção contra a doença torna desaconselhável a dosagem de anticorpos neutralizantes com o intuito de se estabelecer um correlato de proteção clínica, pois certamente não se avalia a proteção desenvolvida após vacinação apenas por testes laboratoriais ‘in vitro’ através da dosagem de anticorpos neutralizantes”, destaca.

Em nota técnica, a Anvisa também se manifestou contra a realização dos exames. A agência destaca que, para que esses testes pudessem ser de alguma forma utilizados, seria indispensável saber a quantidade de anticorpos que são necessários para neutralizar o vírus. “Assegurar a proteção ao vírus, seja pela imunidade adquirida após uma infecção ou desenvolvida após a vacinação, requer estudos que verifiquem a quantidade de anticorpos necessária para a efetividade da proteção. A avaliação por quanto tempo estes anticorpos ficam viáveis no organismo e que seja verificado também a sua funcionalidade, isto é, a sua capacidade de neutralização. As informações quanto à proteção ao Sars-CoV-2 ainda não foram estabelecidas pela ciência”, diz. “Independentemente do resultado de um ensaio sorológico, devem ser seguidas as orientações e cuidados quanto ao distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos”, completa.

O mesmo entendimento foi destacado pelo Instituto Butantan, fabricante da Coronavac no Brasil. “Testes sorológicos não servem para avaliar se alguém está protegido ou não contra a covid-19. Os testes de anticorpos detectam a presença de anticorpos em determinado momento, sendo úteis apenas para identificar pessoas que foram expostas ao vírus, não para garantir se alguém está protegido ou não contra a doença. Mesmo a Anvisa recomenda não utilizar estes testes para avaliar a proteção”, explicou em post no Instagram.

O que se sabe sobre a eficácia da Coronavac

A Coronavac foi aprovada para uso emergencial no Brasil pela Anvisa em janeiro de 2021 e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em junho. A vacina teve uma eficácia global de 50,38% na fase três dos testes clínicos no Brasil.

Além dos testes clínicos, um estudo feito pelo Instituto Butantan na cidade de Serrana, no interior de São Paulo, vacinou cerca de 75% da população adulta e constatou queda de 80% nos casos sintomáticos de covid e de 86% nas internações, além da redução de mortes em 95%.

Outra pesquisa, feita no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, apontou queda de 80% nos casos de covid-19 entre os 22 mil funcionários vacinados com a Coronavac.

Quem é Delano Santiago Pacheco?

O médico se formou em medicina pela Unigranrio, no Rio de Janeiro, e é pós-graduado em dermatologia pelo Centro de Medicina Especializada, Pesquisa e Ensino (Cemepe). Ele foi eleito vereador de Divinópolis em 2012, pelo PRTB, e reeleito em 2016, pelo MDB. Também foi candidato em 2020, mas ficou como suplente. Delano é clínico geral e dermatologista. Ele atende em uma clínica própria em Divinópolis e no Hospital Bom Pastor.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre a pandemia e sobre políticas públicas do governo federal. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

Conteúdos sobre vacinas ou tratamentos contra a covid-19 são ainda mais necessários, já que podem induzir a população a recusar medidas de prevenção, como as vacinas, e se expor a riscos durante a pandemia. O conteúdo verificado aqui teve 8,2 mil visualizações e mil interações no Facebook. Já no Twitter, foram mais de 3,1 mil visualizações e 300 curtidas.

O Comprova já mostrou que o Diagnóstico positivo de Doria não indica ineficácia da Coronavac, que a Infecção de Rodrigo Faro não prova ineficácia da vacina contra a covid-19, que as vacinas usadas no Brasil passaram por testes de segurança e eficácia; que são enganosas as postagens afirmando que quem tomou CoronaVac se protegeu pela metade; que um imunizante não precisa ser estudado por dez anos para ser seguro; e que a OMS não recomendou a aplicação de uma terceira dose da CoronaVac.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda aquele que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por: 2021-07-22

Post engana ao desacreditar eficácia das vacinas contra a covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Post sobre a covid-19 engana ao afirmar que "não há nenhuma lógica" em se vacinar uma vez que pessoas imunizadas podem, como as não protegidas, transmitir o vírus. A publicação vai na contramão do que afirmam órgãos como Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde, segundo os quais a vacinação é uma das principais ferramentas para conter a pandemia.
  • Conteúdo verificado: Publicação no Instagram que tenta colocar em xeque a eficácia dos imunizantes contra a covid-19 ao afirmar que tanto pessoas vacinadas quanto não vacinadas podem transmitir o coronavírus.

É enganosa a publicação que viralizou no Instagram comparando pessoas vacinadas com não imunizadas para insinuar que a proteção não é eficaz contra o novo coronavírus. A imagem do post traz a inscrição “Os não vacinados podem pegar covid e podem transmitir covid; os vacinados podem pegar covid, podem transmitir covid, mas estão vacinados” e, na legenda, “A irracionalidade sem nenhuma lógica…pare e pense”.

O post acerta ao dizer que a vacina não impede que a pessoa se infecte com o Sars-CoV-2, mas ele desinforma ao não esclarecer que elas reduzem os riscos de desenvolvimento de formas graves da doença e óbitos.

Uma das evidências disso é o estudo de efetividade conduzido pelo Instituto Butantan na cidade de Serrana, no interior paulista. Foi observada queda de 80% nos casos sintomáticos da doença, 86% nas internações e 95% nas mortes após 75% da população adulta ser imunizada.

Diferentemente do que o post afirma, tomar uma das vacinas em uso no Brasil não é um ato irracional. Pelo contrário: estudos clínicos realizados com milhares de voluntários, usados como base para liberação do uso dos imunizantes no país, comprovaram que as vacinas contra a covid, são, sim, além de seguras, eficazes. E, por enquanto, de acordo com órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério da Saúde, são a “abordagem farmacológica mais promissora” para conter a circulação do vírus.

A reportagem tentou falar com o perfil que publicou o post, @mulherdireitaconvervadora, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Como verificamos?

Inicialmente, a equipe buscou reportagens sobre a relação entre pessoas imunizadas e a transmissão da doença e também sobre estudos ligados à campanha de vacinação.

Também pesquisou informações em sites como os do Ministério da Saúde e da OMS e utilizou uma verificação recente feita pelo Comprova, sobre como o diagnóstico positivo do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), não indicava a ineficácia da Coronavac.

Além disso, a reportagem entrevistou por telefone o epidemiologista e professor do curso de Saúde Pública da Universidade de Brasília (UnB) Walter Ramalho e tentou falar, via mensagem privada no Instagram, com o perfil que fez a publicação, mas não houve resposta.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 22 de julho de 2021.

Verificação

Transmissão

O post verificado aqui afirma que “os vacinados podem transmitir a covid”. Esse dado é verdadeiro, já que nenhum imunizante é 100% eficaz contra qualquer doença. Mas, diferentemente do que a publicação faz crer, isso não significa que se vacinar é um ato de “irracionalidade”.

No caso do coronavírus, já está comprovado que as vacinas em uso no Brasil reduzem os riscos de que a pessoa infectada desenvolva formas mais graves da doença ou mesmo que ela morra.

Foi o que evidenciou um estudo do Instituto Butantan realizado em Serrana, no interior paulista. Com 75% da população adulta totalmente vacinada (com duas doses da Coronavac), os pesquisadores já conseguiram observar uma queda importante entre os novos casos sintomáticos da doença e de hospitalizações. Quando 95% estavam imunizados, a cidade viu as mortes caírem em 95%.

Consultado pelo Comprova, o epidemiologista Walter Ramalho explica que é possível perceber uma diminuição no período de transmissão pelas pessoas vacinadas que foram contaminadas pelo novo coronavírus. “Quando uma pessoa imunizada contra a covid-19 entra em contato com o vírus, ela vai ter uma resposta imunológica mais rápida da doença. Vai transmitir, mas o período de transmissão é bem menor em relação às pessoas não vacinadas”, ressalta.

Pesquisas

Outras pesquisas também revelam um impacto positivo da imunização contra a covid-19 em relação às internações em UTI e mortes em níveis nacionais. O Boletim Extraordinário do Observatório Covid-19/Fiocruz, divulgado em 14 de julho pela Fundação Oswaldo Cruz, aponta uma melhora no índice de ocupação dos leitos de UTI. Segundo o documento, entre 4 e 10 de julho, nenhuma unidade da federação apresentou taxa de ocupação superior a 90%. Um cenário visto pela primeira vez desde o início de dezembro de 2020. O estudo também registra uma queda de 2% ao dia no número de casos e óbitos pelo novo coronavírus. A vacinação no Brasil iniciou em 17 de janeiro de 2021.

Essa tendência também foi observada em pesquisa realizada em parceria com o Ministério da Saúde, com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e com a Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Os pesquisadores analisaram o cenário epidemiológico entre 3 de janeiro a 27 de maio, e identificaram uma redução significativa de mortes pela covid-19 entre brasileiros com mais de 70 anos – população com maior cobertura vacinal no momento.

Eficácia

Como mostrado em verificação recente do Comprova, a Coronavac apresentou eficácia global de 50,38% – o número representa a proporção de pessoas que não foram infectadas após tomarem a vacina.

Já o imunizante da AstraZeneca apresentou eficácia de 70%; o da Pfizer, 95% sete dias após a segunda dose, de acordo com a bula; e, o da Janssen, de dose única, 66%.

No entanto, pesquisas podem apresentar resultados distintos umas das outras por diversos aspectos, que incluem o perfil da população, idade e diferentes respostas imunológicas de cada organismo. É exatamente por isso que não tem como comparar uma vacina com a outra.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ressalta que todas as vacinas analisadas e autorizadas pelo órgão são seguras e possuem perfis de eficácia definidos por estudos desenvolvidos e ainda em andamento. “É importante destacar que estas são vacinas novas e que por isso seguem em monitoramento”, salientou em nota.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal, eleições ou a pandemia que tenham atingido alto grau de viralização. O post verificado aqui atingiu mais de 3,7 mil interações até 22 de julho.

A checagem de conteúdos envolvendo informações sobre a vacina é importante, pois a desinformação pode colocar a saúde das pessoas em risco. Como citado acima, ao contrário do que o post faz crer, a imunização é uma das principais formas para conter a pandemia.

O Comprova já desmentiu outras afirmações equivocadas sobre imunização, como a que usava a infecção do apresentador Rodrigo Faro para questionar a eficácia da vacina, a que desinformava ao falar da validade das doses da vacina Janssen doadas ao Brasil pelos Estados Unidos e a que enganava ao dizer que quem tomou Coronavac se protegeu pela metade.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por: 2021-07-22

Estudo compartilhado por Damares não atribui suicídios de crianças a isolamento na pandemia

  • Enganoso
Enganoso
Ministra compartilhou conteúdo enviesado de um site. O estudo original, que ainda não foi revisado por outros pesquisadores ou publicado em revistas científicas, analisa apenas o risco de morte de crianças e adolescentes por covid-19 na Inglaterra, e não as taxas de suicídio.
  • Conteúdo verificado: A ministra Damares Alves divulgou link para um texto alegando que “cinco vezes mais crianças morreram por suicídio no confinamento do que por covid-19”, supostamente baseado em uma pesquisa do Reino Unido. Na legenda do post, defende a reabertura das escolas.

São enganosas as análises que o site Epoch Times e a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, fazem acerca de um estudo que analisa dados sobre mortes de crianças e adolescentes por covid-19 na Inglaterra. Os pesquisadores não analisaram as taxas de suicídio. Não é correto, portanto, atribuir o número de casos a medidas de isolamento, como sugere a postagem.

Tanto o site quanto a ministra associam o número de suicídios entre menores de 18 anos na Inglaterra, citado no levantamento, ao fechamento de escolas e ao distanciamento social. O dado, entretanto, aparece no documento apenas como comparativo com o número de crianças e adolescentes mortos em decorrência da covid-19. Os autores não analisam se houve aumento ou diminuição destes casos em tempos de lockdown. Em junho deste ano, entretanto, o órgão britânico National Child Mortality Database (NCMD) compartilhou em sua página artigo concluindo haver poucos indícios de que tenha havido mortalidade excessiva entre crianças e adolescentes durante o período de lockdown no país.

O Comprova conversou por e-mail com um dos pesquisadores para saber se é correto atribuir os casos de suicídio a medidas de isolamento na pandemia. David Odd, professor da Escola de Medicina da Universidade de Cardiff, respondeu que investigou essa questão em uma outra pesquisa, ainda não publicada, concluindo que “não foram encontradas evidências concretas de que a morte de crianças por suicídio tenha aumentado durante a pandemia de covid-19 na Inglaterra”.

O Comprova procurou Damares Alves e o site que publicou o conteúdo distorcendo a pesquisa britânica. A assessoria da ministra não respondeu aos questionamentos. O site não recebeu a mensagem enviada pelo endereço de contato informado.

Como verificamos?

O Comprova consultou a viralização do conteúdo utilizando a ferramenta CrowdTangle e analisou o estudo original citado na publicação compartilhada pela ministra Damares Alves, buscando também na imprensa reportagens que tivessem feito a divulgação dos resultados.

Em seguida, buscou dados do Serviço Nacional de Saúde (NHS) britânico e do National Child Mortality Database (NCMD) para consultar informações sobre os suicídios entre crianças e adolescentes em anos anteriores ao início da pandemia. Também consultou pesquisas específicas sobre o tema, relacionadas de fato ao isolamento social.

Os verificadores pediram ao psicólogo Caio Maximino de Oliveira, doutor em Neurociências e Biologia Celular e professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), que fizesse uma análise do estudo.

Os autores da pesquisa britânica foram procurados por endereços de e-mail que constam nas páginas de suas universidades. David Odd, da Universidade de Cardiff, foi o único que respondeu até a publicação desta checagem.

Por meio de relatórios e reportagens, foi pesquisada a forma como ocorreu o fechamento das escolas na Inglaterra. Por fim, tentou-se contato com o veículo que publicou o conteúdo e com a assessoria da ministra.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 22 de julho de 2021.

Verificação

Estudo

O estudo “Deaths in Children and Young People in England following SARS-CoV-2 infection during the first pandemic year: a national study using linked mandatory child death reporting data” foi divulgado na primeira semana de julho nas plataformas Research Square e medRxiv.

Esses sites funcionam como repositórios de preprints, ou seja, de versões preliminares de um manuscrito não revisado por outros cientistas. As duas plataformas, inclusive, alertam que o estudo não deve ser absorvido como informação estabelecida, nem utilizado para orientar a prática clínica.

As análises de dados de saúde pública foram conduzidas por pesquisadores britânicos. O grupo de menores de 18 anos que morreu de SARS-CoV-2 na Inglaterra foi comparado ao mesmo grupo que morreu de todas as outras causas usando estatísticas resumidas, e as diferenças entre os grupos foram comparadas.

O estudo concluiu que 25 pessoas menores de 18 anos, ou seja, crianças e adolescentes, morreram de SARS-CoV-2 durante o primeiro ano de pandemia, o equivalente a uma taxa de mortalidade de duas a cada milhão. No Brasil, o resultado foi divulgado pela Revista Crescer.

A maioria dos mortos tinha uma comorbidade subjacente, principalmente neurodeficiências e condições limitantes de vida, e eram de etnias asiática e negra.

Os pesquisadores afirmam ter usado um conjunto de dados de mortalidade nacional exclusivo vinculado aos dados do NHS — sigla em inglês para Serviço Nacional de Saúde —, além de informações do Banco de Dados Nacional de Mortalidade Infantil (NCMD).

Em meio a essas informações, os autores apontam que o SARS-CoV-2 contribuiu com 0,8% das 3.105 mortes registradas entre crianças e adolescentes entre março de 2020 e fevereiro de 2021. É neste ponto do estudo em que são citadas as mortes por suicídio (124) e as mortes por trauma (268), como exemplos para enfatizar que a covid-19 raramente é fatal entre menores de 18 anos naquele país.

Fonte: Deaths in Children and Young People in England following SARS-CoV-2 infection during the first pandemic year: a national study using linked mandatory child death reporting data

Os pesquisadores apontam que, no período entre março de 2020 e fevereiro de 2021, dentre as 3.105 mortes registradas entre crianças e adolescentes, 61 testaram positivo para a covid-19 — 5 mortes a cada 30 dias. Os casos detectados foram revisados, identificando que a doença havia contribuído para a morte de 25 jovens (41%) — duas mortes a cada 30 dias.

Dentre os 25 casos, 22 mortes se deram por covid-19 aguda e três por Síndrome Multissistêmica Inflamatória Pediátrica e Adolescência, uma reação inflamatória grave que acomete crianças e está relacionada ao novo coronavírus.

O psicólogo Caio Maximino de Oliveira, doutor em Neurociências e Biologia Celular e professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), faz algumas ressalvas em relação ao estudo. Ele destaca que passar pela revisão por pares é o padrão básico para avaliar a qualidade de artigo científico, o que ainda não ocorreu nesse caso.

Afirma, também, que o método utilizado pelos autores para calcular o risco não é ideal. “O risco de morte ou de internação foi calculado com base em toda a população de crianças e adolescentes do Reino Unido, e não em relação à população de crianças e adolescentes que pegaram covid-19”, explica Oliveira.

“Só posso saber a mortalidade ou o risco de uma doença causar algum evento grave que leve à internação se analisar quem pegou a doença, e não quem não pegou. A norma, na literatura epidemiológica, é analisar desse jeito, e não da forma como os autores fizeram. Os resultados, portanto, não querem dizer nada”, avalia.

O pesquisador destaca que o estudo original não trata sobre suicídio, cujos dados foram utilizados para comparação na contextualização. “Com certeza, se esse artigo for publicado, isso vai ser retirado da versão final. Eles não fazem inferência estatística sobre isso.”

Suicídios

O suicídio é citado apenas uma vez no estudo, para efeito de comparação em números de mortes em menores de 18 anos. Em determinado trecho, na discussão, os pesquisadores dizem que o “risco de remoção das crianças e adolescentes de suas atividades normais em eventos educacionais e sociais pode ser um risco maior do que o próprio SARS-CoV-2”. A menção, entretanto, é desacompanhada de qualquer dado científico que comprove ou sustente a ideia.

O Comprova buscou as mesmas bases de dados citadas nas referências dos estudos: o Serviço Nacional de Saúde (NHS) e o National Child Mortality Database (NCMD), um sistema que passou a registrar todos as mortes em menores de 18 anos desde abril de 2019, incluindo dados demográficos e clínicos dos eventos que levaram ao óbito.

Foram localizados relatórios a partir do ano terminado em março de 2018. De acordo com o documento “Revisões da morte infantil: ano terminado em 31 de março de 2018”, publicado pelo NHS, foram registradas 190 mortes por suicídio, dano autoinfligido ou aparente suicídio em menores de 18 anos no período.

O mesmo órgão de saúde do Reino Unido publicou, no ano seguinte, o documento “Revisões da Morte Infantil: Ano que Termina em 31 de março de 2019”, que somou 195 mortes de crianças e adolescentes pelas mesmas causas.

 

Após este ano, os relatórios passaram a ser confeccionados pelo NCMD, que publicou os “Dados de Revisão de Mortalidade Infantil: Ano Encerrado em 31 de março de 2020”. O documento contabiliza 213 mortes por suicídio, dano autoinfligido, aparente suicídio ou automutilação.

Este é o último relatório público localizado. Desta forma, o Comprova não teve acesso ao relatório onde constam as 124 mortes por suicídio informadas pelo estudo entre os meses de março de 2020 e fevereiro de 2021.

Em 25 de junho de 2021, o órgão compartilhou o artigo “Mortalidade infantil na Inglaterra durante a pandemia COVID-19”, que concluiu haver poucos indícios de que tenha havido mortalidade excessiva durante o período de lockdown no país. O estudo destaca que os dados utilizados foram coletados junto ao NCMD e que não estão disponíveis publicamente.

Este levantamento aponta terem sido registradas 1.550 mortes de crianças entre 6 de janeiro e 28 de junho de 2020. Destas, diz, 437 das mortes foram ligadas aos registros de virologia do SARS-CoV-2 e 25 (5,7%) e tiveram um resultado de PCR positivo.

As taxas de mortalidade por todas as causas durante o lockdown, no período analisado, foram semelhantes na comparação com as registradas no período de 2019. Conforme a conclusão deste estudo, são poucos os indícios de que tenha havido mortalidade excessiva durante o período de isolamento social.

Outro estudo, publicado na revista The Lancet Regional Health Europe, em abril deste ano, comparou o número de suicídios na população em geral da Inglaterra — não apenas crianças e adolescentes — entre abril e outubro de 2020 com janeiro a março do mesmo ano. O objetivo foi analisar os indicadores antes e depois do primeiro lockdown no país.

“Não observamos um crescimento nas taxas de suicídio na Inglaterra nos meses posteriores ao primeiro lockdown nacional de 2020, apesar das evidências de maior angústia na população”, apontam os autores, que destacam algumas limitações do estudo, como o fato de a pesquisa se concentrar em um período inicial da pandemia e não focar em características populacionais e geográficas.

Em resposta ao Comprova, o pesquisador da Universidade de Cardiff, David Odd, um dos autores do estudo britânico, encaminhou uma outra pesquisa divulgada na plataforma medRxiv que analisou de fato a incidência de suicídios de crianças e adolescentes na pandemia. Esse preprint afirma que foram encontrados 193 prováveis suicídios de jovens com menos de 18 anos na Inglaterra entre abril e dezembro de 2020, mas que aparentemente não houve aumento de casos do tipo durante a pandemia.

A preocupação com a saúde mental das pessoas, principalmente adolescentes, durante a pandemia, entretanto, existe. Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, por exemplo, apontam que o número de tentativas de suicídio nessa faixa etária aumentou, de acordo com reportagem da rede CNBC.

A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) também emitiu um alerta, em setembro do ano passado, afirmando que a emergência de saúde pode aumentar os fatores de risco para o suicídio, como ansiedade e depressão. E esse tipo de problema pode também estar entre as sequelas da doença, de acordo com pesquisas.

A maioria das análises científicas, no entanto, sugere que essa possível alta nos suicídios pode se tratar de uma visão um tanto alarmista. Um artigo recente da revista científica Asian Journal of Psychiatric, por exemplo, sustenta que “a maioria dos estudos abrangentes baseados em dados apresentam uma redução modesta nas taxas de suicídio totais, enquanto o restante não relatou aumentos significativos durante o primeiro ano da pandemia de covid-19”.

Outros estudos publicados em revistas científicas importantes também não identificaram alterações relevantes no número de casos registrados.

Escolas do Reino Unido não ficaram o tempo todo fechadas

De acordo com um relatório do Parlamento Britânico, a maioria das escolas do Reino Unido foi fechada em 23 de março de 2020, data do primeiro lockdown. Apenas algumas crianças sob responsabilidade de trabalhadores essenciais, que não tinham com quem deixar os filhos para trabalhar, foram admitidas.

Ainda em maio do ano passado, o primeiro-ministro, Boris Johnson, anunciou uma retomada gradual do ensino presencial para algumas faixas etárias prioritárias do ensino primário, com reabertura parcial a partir de 1º de junho. Mas a chegada dos alunos na maioria das escolas aconteceu mesmo apenas em 1º de setembro, ao final do período regular de férias de verão e após cerca de cinco meses em casa.

As escolas permaneceram abertas durante todo o restante do segundo semestre de 2020, mesmo com uma série de restrições impostas pelo governo britânico para conter a escalada de casos de covid-19 e de apelos para o cuidado da população nos meses seguintes. Houve um segundo lockdown nacional na Inglaterra, em 5 de novembro, por exemplo, mas as instituições de ensino ficaram de fora.

Em 4 de janeiro de 2021, diante de mais uma onda de contaminação por covid-19, Johnson anunciou a volta do ensino remoto para escolas primárias, secundárias e faculdades da Inglaterra em um terceiro lockdown. A maior parte dos alunos retornou ao ensino presencial três meses depois, no dia 8 de março. Já as universidades foram totalmente reabertas em 17 de maio.

O estudo referido pela ministra Damares Alves, portanto, abrange tanto épocas em que a maioria das crianças e adolescentes da Inglaterra ficou em casa quanto outros períodos em que os estudantes estavam aprendendo presencialmente, mesmo durante a pandemia. As instituições estiveram abertas durante quatro meses no período analisado, entre os meses de setembro e dezembro. Ainda assim, não há registro de que os autores tenham excluído a quantidade de suicídios de jovens nesse período quando mencionam o dado.

Atualmente, as medidas de prevenção nas escolas estão bem mais flexíveis. O governo britânico não exige mais, por exemplo, o sistema de “bolhas”, que procurava restringir o contato dos estudantes apenas a certas turmas ou idades. Também não é preciso mais usar máscaras, nem manter o distanciamento social no ambiente escolar, exceto sob circunstâncias específicas.

Alunos que tiveram contato próximo com casos positivos também não precisam mais entrar automaticamente em isolamento, em um programa conhecido como NHS Trace and Track. Eles devem apenas fazer o teste de covid-19 e seguir o protocolo sanitário caso estejam contaminados. Outras medidas preventivas simples continuam em vigor, como promover a higienização e garantir a ventilação dos espaços escolares.

O Reino Unido estava com 69% da população totalmente vacinada em 20 de julho, ou seja, com as doses necessárias, e 88% com ao menos a primeira dose, segundo dados oficiais. O país flexibilizou as regras com base nos baixos índices de casos positivos entre os meses de fevereiro e maio, mas enfrenta uma nova alta de diagnósticos desde junho deste ano, com cerca de 47 mil novos casos por dia, em média.

As mortes, por outro lado, seguem em patamares baixos, em torno de 52 por dia, como reflexo da imunização. Esse cenário fez com que o governo britânico relaxasse ainda mais as medidas em 19 de julho — que foi apelidado de “Dia da Liberdade” pelos moradores locais. Não há mais obrigatoriedade de uso de máscaras, exceto no metrô de Londres, nem limite para aglomerações em ambientes abertos e fechados.

Quem ligou o estudo aos suicídios e ao isolamento?

O site Epoch Times publicou um texto distorcendo o conteúdo do estudo britânico, ao dar um destaque inexistente ao número relacionado aos suicídios entre crianças e adolescentes e ao relacionar esse dado aos lockdowns na Inglaterra, o que deturpa as informações contidas na análise.

Segundo detalha reportagem publicada em O Globo, o jornal em questão foi fundado em 2000 e é filiado ao obscuro movimento espiritual chinês Falun Gong, tendo crescido nos anos 2016 e 2017 ao apoiar o ex-presidente americano Donald Trump e abrir diversas páginas no Facebook, tornando-se uma das publicações digitais mais poderosas dos Estados Unidos.

É conhecido, também, por ser um importante fornecedor de desinformação de direita. A organização e as filiadas cresceram promovendo teorias de conspiração e acabaram virando uma máquina de espalhar boatos em escala global. Atualmente, possui versões em dezenas de países, inclusive no Brasil, na qual foi publicado o texto aqui verificado.

Em 2019, conforme o jornal The New York Times, o Facebook baniu a publicidade do Epoch Times após a NBC News publicar um relatório informando que o veículo sem fins lucrativos havia gastado mais de US$ 1,5 milhão em cerca de 11 mil anúncios pró-Trump em seis meses.

Nos sites que mantém, o Epoch Times costuma publicar conteúdos de conspiração, como teorias antivacinação. Já os canais no YouTube promovem o movimento QAnon. O Comprova procurou via email a publicação no Brasil, mas um dia depois recebeu uma mensagem automática afirmando ser impossível a entrega da mensagem “apesar das tentativas repetidas”, com a informação de que “o sistema de e-mail do destinatário recusou-se a aceitar uma conexão do seu sistema de e-mail”.

Já a ministra Damares Alves, que compartilhou a publicação associando o número de suicídios ao fechamento de escolas, é uma das figuras centrais do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Embora seja responsável pela pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, frequentemente se posiciona sobre assuntos referentes ao Ministério da Educação. É defensora da aprovação de lei autorizando a prática do ensino domiciliar no Brasil, já assinou nota com críticas e sugestões à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), cujo texto defendia a introdução da teoria criacionista para o estudo da biologia, e anunciou a criação de um canal para que professores fossem denunciados por “atos contra a família”, além de apoiar o projeto “Escola sem Partido”. O Comprova entrou em contato com a assessoria de imprensa da ministra, mas não houve resposta.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre políticas públicas e pandemia de covid-19 que tenham atingido alto grau de viralização. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vêm sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos.

As medidas de distanciamento social, restrição de circulação e lockdown têm sido responsáveis, desde o início da pandemia, por evitar o colapso dos sistemas de saúde de vários países e por diminuir os índices de transmissão e as mortes em decorrência da contaminação pelo coronavírus. Associar essas medidas de forma enganosa aos números de suicídio pode causar pânico nas pessoas e, consequentemente, alimentar atitudes anti-isolamento.

Segundo a ferramenta CrowdTangle, o conteúdo do site recebeu mais de 17 mil interações no Facebook, mais de 1 mil no Twitter e mais de 33 mil no Instagram.A conta que mais contribuiu para a disseminação do conteúdo enganoso foi a da ministra Damares Alves. Todas as interações no Instagram, por exemplo, partiram do perfil dela. No Facebook, apenas o compartilhamento dela somou 7 mil interações. Na plataforma, o conteúdo foi compartilhado também por perfis de apoio ao presidente Bolsonaro.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.