O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 41 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Comprova Explica

Investigado por: 2023-06-22

Tarifação em Pix para empresas é facultativa e existe desde 2020

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Comprova Explica
A Caixa anunciou na segunda-feira, 19 de junho, que passaria a cobrar uma tarifa para transações de Pix feitas por contas de pessoas jurídicas – medida autorizada pelo Banco Central desde 2020. A oposição no Congresso compartilhou postagens em que dizia que “o PT vai taxar o Pix”. A repercussão negativa levou o banco a suspender temporariamente a medida. A politização do tema e o vai e vem do banco geraram dúvidas nas redes sociais e motivaram o compartilhamento de peças de desinformação.

Conteúdo analisado: Postagens nas redes sociais repercutem a notícia de que a Caixa Econômica Federal passará a aplicar uma tarifa sobre contas de empresas que usarem o Pix. As peças afirmam que “o PT taxará o Pix”.

Comprova Explica: Na segunda-feira, 19, a Caixa anunciou que passaria a cobrar uma tarifa sobre transações Pix feitas por clientes pessoa jurídica privada a partir de julho. O banco destacou que pessoas físicas, microempreendedores individuais (MEI) e beneficiários de programas sociais não seriam afetados. Empresas individuais, embora não tenham sido citadas na nota, seguem as mesmas regras das pessoas físicas.

A partir de então, deputados e senadores da oposição ao governo passaram a repercutir a notícia alegando que “o PT vai taxar o Pix”. A repercussão negativa levou o banco público a suspender temporariamente a medida. Em nota, a Caixa afirmou que a suspensão serve “para que os clientes possam se adequar e receber amplo esclarecimento do banco sobre o assunto”. Sites de notícias informaram que a pressão para reverter a implementação da tarifa teria saído do próprio Palácio do Planalto (Estadão, Metrópoles).

O vai e vem do banco, bem como a exploração política do fato, deixaram muitas dúvidas na população. O Comprova decidiu explicar o que de fato aconteceu e o que seria essa “taxa sobre o Pix”.

Como verificamos: É possível consultar as normas referentes ao Pix no site do Banco Central (aqui e aqui). Já as informações sobre o anúncio da cobrança de contas de pessoas jurídicas foram encontradas no site da Caixa (aqui e aqui). Mais informações foram solicitadas por e-mail à assessoria de comunicação do banco. Entrevistamos Mareska Tiveron, especialista em direito bancário e Rafael Gomes Gobbi, especialista em direito tributário.

Quais as regras de tarifação do Pix

Pessoas físicas, MEIs e empresas individuais (EIs) não podem ser tarifadas quando fazem um pagamento via Pix – exceto quando o fazem por canais presenciais ou por telefone. Por isso, há uma ideia equivocada de que o Pix não seria tarifado em nenhuma hipótese.

Pessoas físicas podem ter o Pix tarifado quando:

  • Recebem o dinheiro com fins comerciais, isto é, como pagamento por uma atividade comercial ou serviço.
  • Recebem mais de 30 Pix por mês.
  • Recebem com QR Code dinâmico ou QR Code estático.

Também é possível ser tarifado no recebimento em uma conta definida em contrato como de uso exclusivamente comercial.

Já as contas de pessoas jurídicas podem ser tarifadas tanto no pagamento quanto no recebimento de Pix. Se ela receber o Pix de pessoa física, MEI, EI ou de outra empresa por QR Code, também pode ser tarifada.

Alguns dos maiores bancos do país já cobram a tarifa pelo uso do pagamento Pix por empresas jurídicas (InfoMoney, Estadão): Banco do Brasil, Santander, Bradesco e Itaú. O MercadoPago cobra a depender da modalidade como, por exemplo, por meio de QR Code. Nubank, Inter e C6 não cobram. Na Caixa, antes de ser suspensa, a cobrança seria de 0,89% do valor da operação, com limite de tarifa de R$ 8,50 para modalidade de transferência e de R$ 130 para modalidade de compra.

Qual a diferença entre tarifa e imposto?

Mareska Tiveron, especialista em direito bancário, explica que tarifa é a cobrança pelo uso de serviços não essenciais, feita indiretamente pelo estado por meio de empresas privadas de prestação de serviço em nome do estado. “A empresa pode ou não usar o Pix e, portanto, somente pagará a tarifa se efetivamente usar o serviço ou se o banco escolher cobrar tal valor.”

O imposto, por outro lado, é cobrado diretamente pelo governo sem a intermediação das empresas e sem a possibilidade de dizer que o serviço prestado é facultativo.

Rafael Gomes Gobbi, especialista em direito tributário, concorda que a cobrança anunciada seria uma tarifa, e não um imposto. “Trata-se de um serviço não essencial, cabendo a cada empresa a decisão pela utilização ou não do serviço.”

Por que explicamos: O Comprova Explica esclarece temas importantes para que a população compreenda assuntos em discussão nas redes sociais que podem gerar desinformação. O Pix é uma forma de pagamentos nova que ganhou alta adesão e popularidade. Desde a eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi alvo de boatos que o acusavam de querer acabar com o Pix.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou ser falso que o plano de governo de Lula, durante a campanha eleitoral, incluiria a tarifação do Pix. Também mostrou que o Pix estava em discussão no Banco Central desde 2018.

Comprova Explica

Investigado por: 2023-06-20

Entenda o que é e como atua o Foro de São Paulo

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A proximidade do 26º encontro do Foro de São Paulo, que será realizado em Brasília no final de junho, tem gerado críticas de políticos de direita e um crescimento da circulação de conteúdos de desinformação nas redes sociais. Este Comprova Explica tem o objetivo de esclarecer o que é o Foro de São Paulo, como atua o grupo formado por partidos de esquerda da América Latina e sua influência política na região.

Conteúdo analisado: O Foro de São Paulo é frequentemente citado em conteúdos de desinformação, principalmente aqueles produzidos por grupos de direita e extrema-direita. O grupo já foi acusado, por exemplo, de ser uma “organização terrorista”, de ser o elo de ligação entre o narcotráfico colombiano e o PT e de causar desestabilização política durante a pandemia de coronavírus. O 26º encontro do Foro, que acontecerá em Brasília, tem sido criticado por cobrar a inscrição dos participantes em dólar, mas também gerado desinformação, como em uma postagem que afirma ser o encontro a prova de que o grupo existe, ao contrário do que teria a “contra-informação petista” e a mídia.

Comprova Explica: Com a proximidade do 26º Encontro do Foro de São Paulo, que ocorrerá em Brasília entre os dias 29 de junho e 2 de julho deste ano, a existência da entidade e sua maneira de atuação foram alvo de críticas e de desinformações. Políticos de direita, como os deputados federais Bia KicisGustavo Gayer e os senadores Flavio Bolsonaro e Eduardo Girão, reforçaram o tom contrário ao evento que volta a ocorrer de forma presencial pela primeira vez desde 2019.

O Foro de São Paulo não é uma entidade política, como um partido. Mas reúne diversos partidos do Brasil e de outros países latino-americanos. Dessa forma, mesmo que indiretamente, o Foro tem alguma influência política. É importante lembrar que, atualmente, o Brasil é governado por um dos fundadores do Foro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O grupo é uma organização de partidos e entidades de esquerda de países da América Latina e do Caribe fundada pelo presidente Lula e pelo ex-presidente de Cuba Fidel Castro, em 1990. O primeiro encontro do grupo aconteceu na cidade de São Paulo, em julho daquele ano, e reuniu 48 partidos e organizações.

Nesse encontro foi formulada a Declaração de São Paulo, que registra alguns dos princípios e objetivos da organização. Entre eles estão a defesa da democracia, defesa da integração e soberania dos países latino-americanos e o combate ao imperialismo e ao neoliberalismo. O Foro se encontra anualmente para debater a atuação do grupo e delibera, ao final e em consenso, uma carta com as diretrizes definidas.

Esse Comprova Explica tem o objetivo de esclarecer o que é o Foro de São Paulo e a sua influência e importância política para a América Latina, sobretudo no Brasil.

Como verificamos: Pesquisamos reportagens, entrevistas, documentos e artigos científicos sobre o Foro de São Paulo, sua criação e atuação. Também encontramos atas dos últimos encontros do grupo, assim como as cartas assinadas pelos membros ao final das reuniões, que ocorriam anualmente até 2019. Os encontros foram suspensos em razão da pandemia de covid-19 e serão retomados neste ano, em Brasília.

Também entrevistamos o professor de economia política internacional Valter Pomar, que já foi secretário-executivo do grupo entre 2005 e 2013, sobre como o Foro se organiza e atua. Por fim, pedimos confirmações aos partidos políticos do Brasil que constam como integrantes do Foro de São Paulo sobre se a situação permanece atual.

Como surgiu o Foro de São Paulo

Em julho de 1990, a partir de uma convocatória de Lula e do ex-presidente de Cuba Fidel Castro (Partido Comunista de Cuba) para o “Encontro de Partidos e Organizações de Esquerda da América Latina”, 48 entidades se reuniram em São Paulo. Nesse encontro foi formulada a Declaração de São Paulo, que registra alguns dos princípios e objetivos da organização ali criada e faz nova convocação para o ano seguinte, no México. Nesse novo encontro foi consagrado o nome do grupo como Foro de São Paulo (FSP).

A declaração com os princípios e objetivos do FSP trata da defesa da democracia, da integração e soberania dos países latino-americanos e do combate ao imperialismo e ao neoliberalismo. Segundo a própria entidade, sua existência se deu em um contexto dos anos 1990 em que os partidos de esquerda buscavam dialogar na América Latina e no Caribe para “resistir às políticas ortodoxas do modelo neoliberal e estabeleceram interlocuções importantes junto aos movimentos sociais, sindicais e populares, no bojo das campanhas contra a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e de construção do Fórum Social Mundial”.

A dissertação do mestre em Integração da América Latina Ricardo Abreu de Melo, intitulada “O Foro de São Paulo: uma experiência internacionalista de partidos de esquerda latinos-americanos”, ressalta que a entidade surge “em meio ao processo que resultou na dissolução da União Soviética e no fim dos regimes aliados a ela no Leste Europeu, que causou perplexidade e crise na esquerda em todas as partes do mundo”. Melo complementa que nos anos anteriores à criação do FSP muitos países latino-americanos passaram por ditaduras militares de direita e com o insucesso de experiências socialistas.

Havia, na época, conforme o texto de Ricardo Abreu de Melo, a intenção de pluralizar a discussão na esquerda, sem que se tivesse um partido único ou a criação de uma nova Internacional Comunista. O FSP, portanto, correspondia a uma necessidade de unir esforços comuns de reflexão teórica e política e de coordenação de partidos e movimentos de esquerda. Nesta perspectiva, ele se caracteriza como espaço plural e unitário de partidos de “esquerda”, no sentido mais amplo do termo.

Em seu discurso no 17º Encontro do FSP, na Nicarágua, em 2011, Lula afirmou que no surgimento da entidade “ainda não havíamos aprendido uma lição básica que permitiria à esquerda chegar ao poder: é preciso unir as diferenças para derrotar os antagônicos”, citando o pedagogo Paulo Freire. Segundo o site da organização, atualmente são membros do FSP 134 partidos de 28 países. No Brasil, são membros os partidos:

  • Partido Comunista Brasileiro (PCB)
  • Partido Comunista do Brasil (PCdoB)
  • Partido dos Trabalhadores (PT)

Embora o Partido Popular Socialista (antigo PPS, hoje Cidadania) conste no site como membro do Foro, a sigla esclarece que, desde 2004, não integra mais o grupo. Em comunicado no site do partido, o Cidadania afirma que o afastamento se deu “por discordarem dos rumos que o Foro tomou e que se refletiu na supressão cada vez maior do debate e do pluralismo de ideias no campo das esquerdas latino-americanas com o hegemonismo das concepções bolivarianas antidemocráticas e populistas e com um excessivo, e para nós abusivo, protagonismo do Trio Fidel Castro-Hugo Chavez-Lula”.

O partido diz ainda que já solicitou a formalização de sua saída, inclusive com a retirada do nome do site do Foro, mas o pedido ainda não foi atendido.

O PDT, que também está na lista do site como membro, negou que faça parte do Foro. O Comprova entrou em contato com o PCdoB e com o PCB por email e telefone para confirmar a ligação deles com o grupo, mas não houve retorno.

Atuação

De acordo com o professor de economia política internacional no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Valter Ventura da Rocha Pomar, o FSP realiza reuniões periódicas. “As gerais são os encontros, dos quais participam todos os partidos integrantes. O próximo encontro será no fim de junho, início de julho deste ano, em Brasília”, afirma. Pomar foi secretário de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores (2005-2010) e secretário executivo do Foro de São Paulo (2005-2013).

O professor explica que também há reuniões chamadas de Grupo de Trabalho, nas quais participam um número menor de partidos e que funcionam como uma espécie de coordenação. “Há também reuniões regionais: mesoamérica e caribe, andino amazônica e cone sul. E há a secretaria executiva, sob o encargo do Partido dos Trabalhadores (PT)”, diz. Segundo ele, os gastos do FSP são apenas com suas reuniões, em que “cada partido financia sua participação”.

Pomar ressalta que o FSP funciona por consenso. “E não é uma organização centralizada, ou seja, ninguém é obrigado a cumprir as decisões que constem da Declaração, que tem, portanto uma força moral”, diz. Segundo o mestre em História Yuri Soares Franco, em sua dissertação de mestrado, “A Influência do Foro de São Paulo nas estratégias políticas das esquerdas latino-americanas (1990-2019), o FSP “não centraliza nem se propõe a centralizar o posicionamento interno dos partidos. Portanto, conclui-se que é exagerada a imputação ao Foro das mudanças realizadas nos partidos de esquerda do continente”.

Franco considera que a história do FSP foi marcada por três momentos. O primeiro vai desde a sua fundação até o ciclo de vitórias eleitorais do início do século XXI; o segundo se inicia com as vitórias de seus partidos no início do século XXI; e o terceiro, em que novamente a maioria dos seus partidos integrantes estão na oposição. No entanto, o historiador disserta que isso não alterou os métodos da entidade, que continua agindo sob “os mesmos programas e as mesmas alianças decididas nos anos 1990 e aprofundados nos anos 2000”.

Importância

No final da década de 1990 e no começo dos anos 2000, muitos partidos integrantes do Foro de São Paulo assumiram, pela primeira vez, os governos de países das regiões, como ocorreu, por exemplo, no Brasil, com Lula (2003), na Venezuela, com Hugo Chávez (1999), na Bolívia, com Evo Morales (2006), e Uruguai, com José Mujica (2010). O movimento passou a ser chamado de “Guinada à Esquerda” e, atualmente, com vitórias eleitorais de partidos de esquerda, há discussão sobre uma “Nova Guinada à Esquerda” na América Latina (Open Democracy e Folha de S.Paulo).

A partir dos anos 2000, o Foro passou a ser descrito não só como responsável pela Guinada à Esquerda, mas também como uma “organização criminosa” pelo escritor Olavo de Carvalho, influenciador da direita e do bolsonarismo. Em 2007, em seu livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, Carvalho afirmou que o “Foro de São Paulo é a mais vasta organização política que já existiu na América Latina e, sem dúvida, uma das maiores do mundo. Dele participam todos os governantes esquerdistas do continente. Mas não é uma organização de esquerda como outra qualquer”.

Carvalho afirma, sem qualquer documento comprobatório, que o FSP “reúne mais de uma centena de partidos legais e várias organizações criminosas ligadas ao narcotráfico e à indústria dos sequestros, como as Farc e o MIR chileno, todas empenhadas numa articulação estratégica comum e na busca de vantagens mútuas”. O Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR, em espanhol) faz parte do FSP, embora a organização, desde o fim da ditadura militar no Chile, rechaça a continuação da luta armada que ocorreu entre 1973 e 1988.

Com relação às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), nunca houve participação oficial no grupo, que deixou de existir oficialmente em 2016, após acordo de paz com o governo colombiano. Porém, o ex-grupo guerrilheiro ingressou na política partidária, com atuação legal e espaço no congresso nacional, como Força Alternativa Revolucionária do Comum. Em 2021, o grupo mudou novamente de nome, para Comunes, na tentativa de se dissociar da imagem da Farc. O Comunes é integrante do FSP.

Em 2019, chegou a circular uma desinformação na internet de que a agência de inteligência dos Estados Unidos, a CIA, teria colocado o FSP em uma lista de organizações terroristas, o que foi desmentido pelo G1 e UOL Confere. No mesmo ano, a BBC publicou reportagem na tentativa de explicar o motivo da direita dar mais importância ao FSP do que a esquerda.

Nela, o professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e fundador do Instituto Millenium, que atua na defesa de pautas liberais, Denis Rosenfield, afirmou que “o Foro de São Paulo hoje é muito mais uma necessidade da extrema-direita do que da esquerda”. “Olavo de Carvalho e sua turma vão brigar com quem? Com o Rodrigo Maia? O pensamento deles funciona com base nessa conspiração, em que há um grande projeto de dominação das esquerdas cujo centro de comando é o Foro. É contra esse inimigo que essas pessoas se orientam e se unem”, disse.

Para Rosenfield, na ocasião, o FSP serviu para retroalimentar as ideologias dos governos de esquerda, mas que perdeu qualquer importância com a derrota dos mesmos, o que ocorreu no final da década de 2010. O jornalista e escritor Felipe Moura Brasil, que organizou a obra de Olavo de Carvalho, chegou a descrever em 2020 o FSP como o maior inimigo do Brasil. Para Valter Pomar, episódios como esse indicam que “de fato, a extrema-direita brasileira dá muita importância para o Foro. Nem mesmo o Foro se dá tanta importância”.

Pomar explica que o FSP “foi um dos espaços onde se articulou a resistência contra a onda neoliberal que varreu a região na década dos 1990”. Mais recentemente, ele serviu para articulação dos partidos contra a nova onda de governos de direita na América Latina, a partir de 2008. “Agora, cabe ao Foro, na minha opinião, ser um dos espaços para rearticular a integração regional e uma política comum de desenvolvimento”, considera o professor e ex-secretário-geral do FSP.

O historiador Yuri Soares Franco, em sua dissertação de mestrado, estudou a influência do FSP nos governos de esquerda do século XXI. “As fontes aqui pesquisadas indicam que essa influência se deu de forma indireta. O Foro não era o único espaço de troca de opiniões em que as estratégias eram discutidas, tampouco o único lugar no qual as políticas públicas de maior sucesso eram divulgadas. As formulações nestas áreas eram oriundas de cada país, e mesmo quando havia influências externas, ocorria uma adaptação às realidades nacionais antes de sua implementação”, escreveu.

No Brasil, segundo o estudo “O Foro de São Paulo e a Política Externa do Partido dos Trabalhadores: convergências ou divergências nos governos Lula da Silva e Dilma Rousseff”, alguns traços da política externa dos governos petistas se assemelham, pelo menos em discurso, com as resoluções anuais do FSP. “Dentre eles, podemos citar a importância aos processos de integração regional como conditio sine qua non para favorecer a diminuição da desigualdade socioeconômica entre os países e a defesa em uníssono de políticas públicas que refutem o modelo neoliberal.”

“Ao mesmo tempo, a ampla variedade da composição dos partidos políticos integrantes do Foro, somados a distinções gritantes entre os países partícipes, acabou por conferir um caráter muito mais idealizado do que efetivo das resoluções. Ainda que haja uma convergência em torno de temas gerais que podemos caracterizar como progressistas, a realidade de cada país, com suas lutas políticas domésticas singulares, acabaram por conferir um traço muito mais discursivo do que efetivo às decisões”, afirma o trabalho.

26º Encontro do FSP

Entre os dias 29 de junho e 2 de julho acontece em Brasília o 26º encontro do Foro de São Paulo. Segundo o Correio Braziliense, este será um dos maiores encontros desde que o grupo foi criado, em 1990. O jornal apurou que confirmaram presença membros de governo, partidos políticos e organizações de esquerda de 23 países. É possível acessar a programação completa aqui.

O presidente Lula foi convidado a participar, mas ainda não confirmou, oficialmente, participação no evento. Também é esperada a presença de representantes de países de fora da América Latina e do Caribe, como Estados Unidos e Arábia Saudita. Também foi alvo de crítica a suposta contradição do FSP ao cobrar sua inscrição em dólar, moeda dos EUA, visto se tratar de uma entidade anti-imperialista.

Segundo a página do evento, ele tem o objetivo de discutir “a necessidade de construir a integração de nossos países, proteger nossa natureza, povos e soberania, além de lutar contra os efeitos do neoliberalismo em nossa região, convoca forças progressistas, populares e de esquerda a se reunirem novamente para refletir e debater nossos desafios e direções”. Em abril, um Grupo de Trabalho foi realizado na Colômbia como preparação para o 26º Encontro.

O último encontro realizado pelo FSP foi em 2019, em Caracas (Venezuela), e a declaração final foi no sentido de enfrentar o avanço dos governos de direita na América Latina, como o do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PL). Outro ponto foi um pedido para a libertação de Lula, que ainda se encontrava preso em decorrência dos processos da Operação Lava Jato. Em anos anteriores, a declaração final já manteve pedidos diversos, como, por exemplo, a independência de Porto Rico em relação aos EUA e a devolução do território de Guantánamo a Cuba.

Por que explicamos: O Comprova Explica tem a função de esclarecer temas importantes para que a população compreenda assuntos em discussão nas redes sociais que podem gerar desinformação. Conhecer a origem e a atuação do Foro de São Paulo, neste caso, permite entender qual a importância do grupo perante as políticas públicas e desdobramentos internacionais com relação às entidades que o compõem. Além disso, tenta evitar que desinformações e conspirações sejam propaladas a partir da existência do Foro.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova e outras iniciativas de checagem verificaram conteúdos sobre o Foro de São Paulo ou que citavam a organização. Um dos conteúdos analisados usava a participação de representantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em algumas reuniões do Foro para supostamente embasar uma ligação do PT com narcotraficantes. Outra checagem do Comprova demonstrou que o Foro não estava na lista de entidades que recebiam financiamento do bilionário George Soros.

Peças de desinformação que citam a organização também já foram checadas pelo Estadão, Aos Fatos, Agência Lupa e AFP (aqui e aqui).

Política

Investigado por: 2023-06-19

Vídeo de pole dance com Jesus crucificado foi gravado nos Estados Unidos, e não no Brasil

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso um post que associa uma performance de pole dance em uma cruz à Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo e ao governo federal. As imagens foram gravadas durante o evento Easter Sunday (Domingo de Páscoa, em tradução livre do inglês), realizado em São Francisco, nos Estados Unidos, em abril deste ano.

Conteúdo investigado: Post no TikTok mostra vídeo no qual um homem aparece representando Jesus crucificado, enquanto outro faz pole dance na cruz com o homem preso a ela. As imagens são apresentadas após o tiktoker afirmar que não concorda com o atual governo e que apoiadores da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) “estão brincando com a crença do povo brasileiro, com o evangelho, com nosso Deus, com nosso Jesus”. A publicação foi feita um dia após a realização da 27ª edição da Parada do Orgulho LGBT+, em São Paulo.

Onde foi publicado: TikTok.

Conclusão do Comprova: É enganoso post que associa uma performance de pole dance em uma cruz registrada em São Francisco, na Califórnia, estado norte-americano, ao governo brasileiro e à Parada do Orgulho LGBT+, realizada em 11 de junho em São Paulo.

As imagens, na verdade, foram gravadas na Páscoa deste ano, em 9 de abril, durante o evento anual Easter Sunday (Domingo de Páscoa, em tradução livre do inglês), quando são realizados os concursos de fantasia Hunky Jesus (Jesus Bonitão, em tradução livre do inglês) e Foxy Mary (Maria Sexy, também em tradução livre do inglês). A ação é organizada desde 1979 pelo grupo Sisters of Perpetual Indulgence, um coletivo composto por pessoas LGBT+.

Uma busca no Google pelas palavras “cruz”, “dança” e “Jesus”, em português e inglês, levou a notícias sobre o evento e a posts contendo vídeos e fotos da mesma apresentação. Estes conteúdos viralizaram e renderam protestos de grupos católicos.

| É possível ver as mesmas pessoas no vídeo utilizado na postagem verificada e em outro, disponível no YouTube desde maio.

Imagens da performance chegaram a ser utilizadas pelo jornal Daily Mail, ao noticiar, em 24 de maio, que a equipe de beisebol LA Dodgers se desculpou com o coletivo Sisters of Perpetual Indulgence por ter desconvidado-o, em 17 de maio, para uma premiação. O time havia desistido da homenagem após a polêmica em decorrência de imagens oriundas do evento realizado na Páscoa. Ao final, voltou atrás e a homenagem aconteceu no último dia 16.

Uma reportagem do noticiário San Francisco Chronicle também apresenta uma foto da performance e informa que ela foi realizada pelos artistas Bob Exothermal e Aurora Rose. Uma busca pelos dois nomes no Instagram levou aos perfis de ambos, onde foram feitas postagens (Bob e Aurora) sobre a apresentação.

Em seu site, o grupo Sisters of Perpetual Indulgence afirma usar de “humor e sagacidade irreverente para expor as forças da intolerância, complacência e culpa que acorrentam o espírito humano”.

No Brasil, a 27ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ ocorreu em 11 de junho, em São Paulo, com o tema “Políticas sociais para LGBT+: Queremos por inteiro, não pela metade”.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. O post aqui verificado teve 30,8 mil visualizações, além de 2,1 mil curtidas, 205 comentários e 363 compartilhamentos no TikTok até o dia 19 de junho.

Como verificamos: Fizemos uma busca no Google por combinações de palavras-chave, como “cruz”, “dança” e “Jesus”, em português e inglês, que nos levaram a notícias e posts sobre o assunto. Também pesquisamos informações sobre a Parada do Orgulho LGBT+ no Brasil. Foram consultadas verificações de outras agências sobre o fato, que estão citadas ao fim deste texto. Por fim, procuramos o autor do post.

O que diz o responsável pela publicação: Procurado, o perfil @isacfaris não respondeu até a publicação desta checagem. Esta não é a primeira vez que um post feito por ele é alvo de checagem do Comprova. Anteriormente, ele espalhou de forma falsa que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, teria convocado o Congresso norte-americano por falas de Lula em apoio à Venezuela.

O que podemos aprender com esta verificação: Imagens relacionadas ao movimento LGBT+ fora de contexto podem incentivar ataques de ódio contra a comunidade, que já é alvo frequente de condenações morais e violências. Como é comum o aumento de desinformação circulando nas redes sociais durante e após a realização de eventos da comunidade, é importante o usuário estar atento àquilo que é ou não verdadeiro. Imagens podem ser consultadas com o uso de ferramentas de busca reversa, como a que o Google disponibiliza. Também é possível usar o mesmo buscador para combinar palavras-chave e procurar por notícias publicadas pela imprensa sobre o assunto, como foi feito pelo Comprova.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O mesmo conteúdo foi checado por Estadão Verifica, Aos Fatos, Reuters, AFP Checamos e UOL Confere. Já o Comprova demonstrou recentemente ser enganoso um post que associa uma foto de uma criança interagindo com homens com máscara de cachorro, registrada em 2019, no Canadá, à Parada LGBT+ de São Paulo.

Comprova Explica

Investigado por: 2023-06-19

Entenda a crise humanitária na Terra Indígena Yanomami

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Comprova Explica
Após o agravamento da crise humanitária na Terra Indígena Yanomami, no Norte do Brasil, durante os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro (PL), a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou ações emergenciais que incluem atendimentos em saúde, distribuição de alimentos e combate ao garimpo ilegal na região. Em relação à saúde dos indígenas, contudo, a recuperação é complexa e lenta devido aos casos severos de desnutrição, que podem necessitar meses de tratamento médico. De acordo com o último informe semanal de saúde do Centro de Operação de Emergências (COE) Yanomami, publicado em 16 de junho, já foram registradas 129 mortes neste ano na terra indígena, a maior parte (43,4%) entre crianças de até quatro anos. A principal causa das mortes são doenças infecciosas, em especial pneumonia, agravadas pelos quadros de desnutrição. O Ministério da Saúde pontua que esses dados ainda estão em processo de revisão.

Conteúdo analisado: Após o informe publicado em 22 de maio pelo Centro de Operação de Emergências (COE) Yanomami relatar a ocorrência de 122 mortes entre os yanomamis nos quatro primeiro meses de 2023 (o número subiu para 129 em junho), um site publicou a informação acrescentando, ao título, a pergunta: “Quem é o genocida?”. O comentário faz uma crítica ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), cuja gestão é alvo de investigação por suspeita de prática de genocídio, por determinação do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), devido à crise na comunidade indígena. Em função disso, o Comprova decidiu explicar a crise humanitária dos yanomamis.

Comprova Explica: Há décadas, as comunidades que vivem na Terra Indígena Yanomami, no Norte do Brasil, sofrem com a interferência de não indígenas na região, principalmente devido ao garimpo ilegal, que aumentou consideravelmente os índices de violência, degradação ambiental – impactando diretamente na alimentação – e doenças.

Contudo, ao término do mandato de Bolsonaro, em dezembro de 2022, o cenário estava agravado pela desestruturação de órgãos de fiscalização e de saúde e pelo desmonte de políticas públicas ambientais e indigenistas, associados à gestão da pandemia de covid-19.

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou, em janeiro deste ano, que a Procuradoria-Geral da República (PGR) investigue suspeitas da prática de genocídio e de outros crimes por parte de autoridades do governo de Bolsonaro, devido à situação enfrentada pela comunidade Yanomami.

No mesmo mês, ao assumir o governo, o presidente Lula anunciou uma série de medidas que visam socorrer os povos que vivem na área Yanomami. Os quadros de subnutrição severos são difíceis de serem revertidos e levam meses de tratamento.

De acordo com o último informe semanal de saúde do Centro de Operação de Emergências (COE) Yanomami, de janeiro a 7 de junho foram registradas 129 mortes na área, a maioria (43,4%) entre crianças de até quatro anos. A principal causa das mortes são doenças infecciosas, principalmente pneumonia.

O Ministério da Saúde pontua que esses dados estão em processo de revisão e que o número de óbitos representa o acumulado de registros, visto que existe um represamento dos dados do território. Dessa forma, não é possível apresentar o cálculo mensal de óbitos.

Esse Comprova Explica tem o objetivo de informar sobre o agravamento da crise Yanomami e quais ações estão sendo tomadas para mudar a realidade dos indígenas.

Como verificamos: Inicialmente, consultamos a base de dados Terras Indígenas no Brasil para realizarmos um resgate histórico sobre como a situação do povo se agravou. Em seguida, buscamos notícias em diferentes veículos que denunciaram o agravamento da crise nos últimos anos. Consultamos, por fim, quais ações foram anunciadas pelo atual governo e o que foi executado até o momento.

O que é o território Yanomami?

Com uma área de mais de 9 milhões de hectares, em um perímetro de 3.370 km, a Terra Indígena Yanomami está localizada na Amazônia Legal e ocupa parte dos estados de Roraima e Amazonas, na região Norte do Brasil, fazendo fronteira com a Venezuela. O território, homologado por decreto presidencial em 1992, sobrepõe três unidades de conservação: o Parque Nacional Pico da Neblina, o Parque Estadual Serra do Aracá e a Floresta Nacional Amazonas.

O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) informou ao Comprova que a população atual é estimada em 27 mil indígenas vivendo do lado brasileiro, segundo dados preliminares do Censo 2023. Há yanomamis também na Venezuela.

A Terra Indígena abriga oito povos diferentes, incluindo indígenas considerados isolados, ou seja, que não mantêm relações permanentes com não indígenas. Ocupam o território os Isolados da Serra da Estrutura, Isolados do Amajari, Isolados do Auaris/Fronteira, Isolados do Baixo Rio Cauaburis, Isolados Parawa u, Isolados Surucucu/Kataroa, Yanomami e Ye’kwana.

Ao longo dee décadas, a invasão das terras, em especial por garimpeiros ilegais, afetou a população yanomami em vários aspectos, principalmente pela escalada da violência no território, o aliciamento dos jovens, a contaminação dos rios e a intoxicação de pessoas, animais e plantios pelos dejetos do garimpo ilegal. Também foi registrado aumento significativo dos casos de malária, infecções sexualmente transmissíveis e outras doenças.

Os primeiros contatos entre os yanomamis e não indígenas ocorreram entre 1910 e 1940, e foram intensificados a partir da instalação permanente de missões religiosas e postos do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Na década de 1970, houve outra fase de contato, com o início dos projetos de desenvolvimento do governo federal no âmbito do Plano de Integração Nacional (PIN), incluindo a abertura da Rodovia Perimetral Norte (BR-210), o que começou a afetar a saúde da população indígena devido ao contato com os trabalhadores da obra.

No mesmo período, o Projeto Radar na Amazônia (Radam) – Brasil revelou a existência de um grande potencial mineral estratégico de cassiterita, nióbio, ouro e outros metais no território Yanomami. Entre 1975 e 1976, garimpeiros invadiram a Serra de Surucucus e, em 1980, ocorreu outra invasão, desta vez no Furo Santa Rosa do Rio Uraricoera.

Na segunda metade da década de 1980, a invasão garimpeira aumentou consideravelmente na área e as rotas dos garimpeiros intensificaram as epidemias, provocando grave degradação sanitária, ambiental e social. Desde então, ocorreram operações para a retirada dos garimpeiros, que sempre acabam retornando.

O agravamento da crise no governo Bolsonaro

Embora a Terra Indígena Yanomami já apresentasse problemas na assistência de saúde e com o avanço do garimpo ilegal, a situação se agravou durante a gestão de Bolsonaro, eleito em 2018. Ele é apontado como responsável pela desestruturação de órgãos de fiscalização e saúde e pelo desmonte de políticas públicas ambientais e indigenistas, que, junto da má gestão da pandemia de covid-19, resultou no aprofundamento da crise. Bolsonaro é investigado por suposta prática de genocídio contra a população.

De acordo com o Instituto Socioambiental (ISA), agravadas ao longo dos últimos cinco anos, as razões da crise humanitária Yanomami são a “desestruturação da assistência à saúde indígena e a invasão garimpeira, responsável por uma série de impactos sanitários, ambientais, socioculturais e econômicos sobre as comunidades”.

A crise humanitária dos yanomamis foi noticiada pela imprensa nacional, sobretudo por Sumaúma, que, em 20 de janeiro de 2023, divulgou que 570 crianças de até cinco anos morreram de doenças evitáveis, entre 2019 e 2022, na terra indígena. Elas foram mortas principalmente pela contaminação por mercúrio, desnutrição e fome. O número é 29% maior do que nos quatro anos anteriores, dos governos de Dilma Rousseff (PT) e de Michel Temer (MDB), conforme informações de Sumaúma.

Garimpo ilegal

Em abril de 2022, a ONG Hutukara Associação Yanomami (HAY) divulgou o relatório “Yanomami Sob Ataque: Garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami e propostas para combatê-lo”, mostrando que, em 2021, o garimpo ilegal havia avançado 46% em comparação a 2020. Entre 2016 e 2020, a região registrou crescimento de 3.350% da prática. A atividade afeta diretamente 273 comunidades, somando mais de 16 mil pessoas, ou seja, 56% da população total. Conforme o relatório, a malária aumentou em zonas de forte atuação garimpeira, como nas regiões do Uraricoera, Palimiu e Waikás. No Palimiu, em 2020, houve mais de 1.800 casos.

No início do monitoramento, em outubro de 2018, a área total da Terra Indígena Yanomami destruída pelo garimpo somava pouco mais de 1.200 hectares. Em dezembro de 2021, a superfície impactada atingiu 3.272 hectares.

Conforme levantamento do MapBiomas, a área do garimpo no Brasil passou de 99 mil hectares para 196 mil hectares entre 2010 e 2021. A expansão garimpeira na Amazônia foi mais intensa em áreas protegidas, como territórios indígenas e unidades de conservação. No mesmo período, as áreas de garimpo em terras indígenas cresceram 632%, ocupando quase 20 mil hectares em 2021. A mais explorada foi a Kayapó, no Pará, com 11.542 hectares tomados pelo garimpo. Em seguida vem o território Munduruku, no mesmo estado, com 4.743 hectares; a terra Yanomami, com 1.556 hectares; a Tenharim do Igarapé Preto, no Amazonas, com 1.044 hectares; e o território Apyterewa, também no Pará, com 172 hectares.

No final de 2020, somava-se 2,4 mil hectares de área degradada pelo garimpo ilegal na terra Yanomami. Desse total, 500 hectares foram registrados entre janeiro e dezembro daquele ano. Os dados são do relatório “Cicatrizes na floresta: evolução do garimpo ilegal na TI Yanomami em 2020“, da HAY.

Como mostrou o Estadão, o garimpo ilegal na região contaminou afluentes, e garimpeiros impediram o acesso de serviços de saúde às comunidades isoladas. Em dezembro de 2022, um posto de saúde chegou a ser queimado na região do Homoxi, em Roraima.

A atividade garimpeira, inclusive ilegal, é defendida por Bolsonaro desde antes de ter se tornado presidente. Em fevereiro do ano passado, o ex-presidente editou um decreto para instituir o Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Mineração Artesanal e em Pequena Escala (Pró-Mapa), para estimular o garimpo e direcionar as ações à região da Amazônia Legal.

Em 2020, o governo Bolsonaro foi informado sobre a destruição de uma comunidade Yanomami por garimpeiros, mas nenhuma ação efetiva foi tomada, conforme noticiou Sumaúma.

Pandemia e desmonte de estruturas de saúde

Em 2022, durante a pandemia de covid-19, o Ministério da Saúde deixou faltar cloroquina para atender os casos de malária entre indígenas da Amazônia. A falta do medicamento, conforme noticiou a Folha, ocorreu depois de Bolsonaro ter colocado em prática o plano de usar o remédio para o combate à covid-19, o que não possui sustentação científica.

Entre 2019 e 2020, a taxa de óbitos evitáveis de crianças com menos de cinco anos no Brasil foi cerca de 165 a cada 100 mil habitantes, de acordo com informações obtidas pela Agência Pública no DataSUS. Na Terra Indígena Yanomami, no mesmo período, a taxa foi de 2.275 mortes a cada 100 mil habitantes. São 13,7 vezes mais crianças que perderam a vida.

A partir de 2020, o governo Bolsonaro passou a ignorar decisões judiciais do STF e da Justiça Federal de Roraima para garantir o atendimento aos indígenas yanomamis na pandemia (como garantir a vacinação e a presença de profissionais da saúde no local, enviar medicamentos, insumos e cestas básicas e implantar barreiras sanitárias). Segundo o The Intercept, foram ignorados, também, 21 ofícios com pedidos de ajuda dos Yanomami em 2021.

Júnior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami, disse nas redes sociais que denuncia a situação há cinco anos e que o governo Bolsonaro ignorou pelo menos 50 ofícios enviados.

Dados publicados em setembro de 2022 por Sumaúma mostram que, desde julho de 2020, os cerca de 20 mil garimpeiros que invadiram o território Yanomami obrigaram polos de saúde que atendem os indígenas a fecharem por 13 vezes.

Desnutrição e malária nas crianças yanomamis

Nos três primeiros anos do governo Bolsonaro (2019-2021), ao menos 14 crianças menores de cinco anos morreram em decorrência de malária, segundo dados obtidos pela Agência Pública junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Considerando apenas 2019 e 2020, os últimos anos em que há dados nacionais disponíveis, foram oito mortes por malária na Terra Indígena Yanomami, o equivalente a dois terços do total de óbitos nessa faixa etária em todo o Brasil, onde 12 crianças faleceram por complicações da doença.

Em 2021, cerca de 56% das crianças da Terra Indígena Yanomami tinham quadro de desnutrição aguda (peso baixo ou baixíssimo para a idade), conforme dados da Sesai fornecidos à Agência Pública.

Em setembro de 2021, a Pública também revelou que o índice de mortes por desnutrição na infância da Terra Indígena Yanomami era o maior do país, com 24 mortes por desnutrição entre 2019 e 2020, na faixa etária de até cinco anos.

Números atualizados mostram um cenário ainda pior: foram 29 óbitos, o que representa 7,7% do total de 374 mortes no país, mesmo com os yanomamis sendo cerca de 30 mil – apenas 0,013% da população brasileira. Quando se considera o índice por 100 mil habitantes, as mortes por desnutrição na infância entre os yanomamis ocorreram 191 vezes mais do que a média nacional. A Terra Indígena Yanomami contabiliza também pelo menos 14 crianças em 2021, ano que ainda não tem dados disponíveis em nível nacional.

No ano seguinte, de acordo com o G1, quase 100 crianças entre um e quatro anos morreram na Terra Indígena Yanomami, segundo dados do MPI divulgados em janeiro de 2023. As causas das mortes são, em sua maioria, desnutrição, pneumonia e diarreia.

Ainda segundo a notícia, foram confirmados 11.530 casos de malária no Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami, distribuídos entre 37 Polos Base, no ano passado. As faixas etárias mais afetadas são as maiores de 50 anos, seguida pela faixa etária de 18 a 49 e 5 a 11 anos.

Segundo Sumaúma, em 2019, ao menos 2.875 crianças yanomamis de até 5 anos (49% do total) tinham peso abaixo do esperado para a idade – sendo 1.601 delas com peso muito abaixo, a forma mais severa de desnutrição. No mesmo ano, 90% das crianças do território eram monitoradas, e os dados de desnutrição foram os maiores já detectados desde 2015, quando o sistema atual de armazenamento de dados começou a ser usado.

Em 2020, o número de crianças yanomamis acompanhadas passou a diminuir. Em 2022, a proporção de crianças de até 5 anos acompanhadas caiu para 75%.

Entre o primeiro e o último ano da gestão de Bolsonaro, pelo menos 876 crianças a menos foram acompanhadas regularmente. Em 2022, 2.205 dos 5.861 yanomamis de até 5 anos tinham peso abaixo do adequado, sendo 1.239 deles peso muito inferior do ideal. No entanto, pela falta de acompanhamento, o governo não sabe a situação nutricional de 1.494 crianças.

Como explicou reportagem do G1, os buracos que os garimpeiros abrem nos rios para a extração do ouro se tornam focos de água parada, ideais para a proliferação dos mosquitos que transmitem os parasitas causadores da malária.

Em 2022, quase 15 mil casos foram notificados, segundo dados do Sistema de Informações da Atenção à Saúde Indígena. Isso num universo de cerca de 30 mil indígenas. Neste ano, até março, já eram mais de 3,4 mil casos, conforme o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Malária.

Como é a recuperação do quadro de saúde dos yanomamis?

Em entrevista ao Jornal da USP, a professora Primavera Borelli, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Universidade de São Paulo (USP), explica que não só no caso dos yanomamis, mas em toda situação de fome, a recuperação da desnutrição é lenta, principalmente quando considerada crônica e severa, na qual houve restrição total de macronutrientes, como é o caso de muitos indígenas da área.

As complicações disso são a anemia e consequente comprometimento da função dos órgãos e da imunidade, o que aumenta o risco de infecções e a morbidade. Conforme a professora, perde-se gordura e a pessoa emagrece, havendo também a perda de músculos e, em estados mais graves, até de órgãos internos. “Isso, associado às infecções e à anemia, leva ao colapso final, à morte”, diz.

De maneira geral, a desnutrição afeta mais as crianças, principalmente abaixo de cinco anos, idade na qual a taxa de mortalidade é maior, o que aparece nas estatísticas yanomamis.

Conforme a professora, a reversão desses quadros depende da gravidade de cada caso e não é rápida. Nos hospitais é realizada alimentação parenteral, com hidratação, tratamento das comorbidades e recuperação nutricional com proteínas, macro e micronutrientes.

“Esse processo tem etapas que podem levar meses porque a recuperação do organismo leva tempo e as consequências dessas sequelas terão que ser avaliadas, pois podem ser duradouras, como a baixa estatura. Outras, como alterações funcionais, talvez não tão evidentes, podem levar a alterações cognitivas, cardiopatias, nefropatias e alterações de imunidade”, explica a professora, destacando que a diarreia e a pneumonia são as principais causas de mortes entre pessoas desnutridas.

Em relação aos povos originários, destaca, há o agravante de outras infecções porque eles não têm proteção contra doenças comuns entre não indígenas. Como a imunidade está alterada, a resposta desses organismos à vacinação também é menor, o que agrava o quadro no curto, médio e longo prazo.

O que o governo Lula fez até agora a respeito da situação?

Ainda em janeiro, quando foi empossado presidente, Lula esteve em Boa Vista, onde visitou a Casa de Saúde Indígena Yanomami (Casai Yanomami), acompanhado das ministras Sonia Guajajara (Povos Indígenas) e Nísia Trindade (Saúde). À época, o governo anunciou uma série de medidas de socorro diante da grave crise de desassistência sanitária e nutricional na região.

A primeira medida adotada foi a instalação do Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública. Lula também editou decreto criando o Comitê de Coordenação Nacional para Enfrentamento à Desassistência Sanitária das populações em território Yanomami e o Ministério da Saúde declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional diante da necessidade de ação urgente frente à crise. Entre as ações emergenciais, estavam o envio imediato de cestas básicas e suplementos alimentares para crianças de várias idades, bem como medidas de atenção à saúde.

Em abril, Lula assinou a Medida Provisória (MP) que liberou R$ 640 milhões para ações de proteção da vida, da saúde e da segurança das comunidades indígenas, especialmente dos yanomamis. A medida atendeu a decisão do ministro Luís Roberto Barroso, do STF, que determinou à União uma série de medidas emergenciais de assistência e proteção a povos indígenas, incluindo os yanomamis.

Os recursos foram repassados à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), vinculada ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI), para regularização, demarcação, fiscalização de terras indígenas e proteção de povos isolados; para o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), para distribuição de alimentos a grupos populacionais tradicionais e a famílias em situação de insegurança alimentar e nutricional temporária; para o Ministério da Defesa para apoiar ações emergenciais em terras indígenas; para o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima para ações de fiscalização e de gestão de unidades de conservação em terras indígenas; e para o Ministério da Justiça e Segurança Pública, para cobrir gastos diversos, incluindo deslocamento de policiais federais e rodoviários federais.

Na área da saúde, conforme o último informe de saúde do COE Yanomami, com dados de janeiro a 7 de junho, foram mobilizados até a data 707 profissionais de saúde, incluindo enfermeiros, médicos, agentes de combate a endemias, microscopistas e nutricionistas. Também foram enviadas à região mais de 3 milhões de unidades de medicamentos e insumos, contendo, entre outros, remédios para malária e influenza.

Em Roraima, a Casai atendeu 1.544 pessoas e concedeu 1.2631 altas. Foram atendidas mais 296 no hospital geral, 1.984 no Hospital de Campanha, que teve atividades encerradas em 21 de abril, 5.769 em polos bases e 6.895 no hospital da criança.

Em abril, foi inaugurado o Centro de Referência de Saúde em Saúde Indígena, na região de Surucucu, para atendimentos de urgência, consultas, exames e o tratamento de malária e desnutrição.

Um relatório da segunda quinzena de maio, fornecido pelo MPI ao Comprova, destaca que, até o início daquele mês, foram recuperadas 78 crianças que se encontravam em grave condição nutricional. Seis crianças continuavam com desnutrição grave e outras 23 estavam em tratamento.

Em relação à expulsão de garimpeiros da região, desde fevereiro são realizadas operações interagências com a participação de militares das Forças Armadas e de agentes do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Funai, das polícias civil e federal, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e da Sesai.

A força-tarefa do governo federal tem o propósito de combater o garimpo ilegal, além do tráfico de drogas e realizar ações de caráter humanitário. Até o início de junho, haviam sido apreendidos 1.644 kg de drogas e inutilizadas oito aeronaves e 122 embarcações, entre dragas e balsas. Também foram transportadas 575 toneladas de material e entregues 23.702 cestas básicas às comunidades indígenas.

Outras ações também são desenvolvidas, como o fortalecimento do fornecimento de energia elétrica nas unidades de saúde do território e realização do censo na área pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com o objetivo de se pensar e propor políticas públicas. Os dados serão anunciados no dia 28 de junho.

Lula pediu, ainda, a retirada de tramitação do Projeto de Lei (PL) 191/2020 da Câmara dos Deputados. De autoria do governo Bolsonaro, o PL pretendia liberar a mineração, a geração hidrelétrica, a exploração de petróleo e gás e a agricultura em larga escala nas Terras Indígenas.

No começo de junho, mais de quatro meses depois da declaração do estado de emergência sanitária na reserva indígena, a ministra da Saúde, Nísia Trindade, disse que a situação melhorou, mas segue sendo preocupante. Conforme ela, houve recuperação nas taxas de desnutrição, mas ainda há grande número de casos de malária: 6.735 neste ano, com oito óbitos.

Por que explicamos: A questão Yanomami é complexa e tem servido para alimentar desinformação. A seção Comprova Explica foi criada para contextualizar e explicar temas complexos que envolvam políticas públicas no âmbito federal e que geram confusão e desinformação. 

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou outras alegações que desinformam sobre a atuação do governo federal em áreas de preservação. Foi demonstrado, por exemplo, que a retirada de produtores de arroz de terras indígenas não foi determinação de Lula, que terras indígenas em Rondônia não foram vendidas a empresa irlandesa e que vídeo engana ao dizer que o presidente vendeu floresta a mineradora em troca de dinheiro para o Fundo Amazônia.

Política

Investigado por: 2023-06-16

Vídeo de plantação destruída na Bahia é de 2019 e não mostra ação do governo federal

  • Enganoso
Enganoso
Não é verdade que um vídeo que mostra uma plantação destruída seja de 2023 e que a destruição tenha acontecido por ordem do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A gravação que viralizou agora é de 2019 e, de fato, mostra um bananal desmatado. A ação foi resultado de uma reintegração de posse nas cidades baianas de Juazeiro e Casa Nova, em área pertencente à Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), que havia sido ocupada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em 2012.

Conteúdo investigado: Vídeo que circula nas redes sociais mostra um homem, não identificado, denunciando a destruição, pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), de 1,7 mil hectares de que pertenceriam ao assentamento do MST Abril Vermelho, na Bahia.

Onde foi publicado: Telegram e WhatsApp.

Conclusão do Comprova: Não foi o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que ordenou, juntamente com a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), a destruição de plantação no assentamento Abril Vermelho, em Juazeiro, na Bahia. O vídeo em que um homem faz tal afirmação e viralizou agora é de 2019, ou seja, foi gravado durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas, circulando em posts nas redes sociais em junho de 2023, sugere ser uma ação do atual governo.

A gravação exibe um homem não identificado caminhando entre bananeiras no chão. “Uma situação dessa, as máquinas passando por cima, derrubando a planta do povo. Isso é uma injustiça, Brasil. Quem mandou fazer isso não tem coração, não é um ser humano. É um bandido”, diz ele.

A destruição não é uma operação do governo federal, mas determinação do Judiciário, em uma ação de reintegração de posse de terras pertencentes à Codevasf, uma empresa pública vinculada ao Ministério da Integração do Desenvolvimento Regional. A área havia sido ocupada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em 2012.

Em contato com o Comprova, a Codevasf afirmou que “as áreas que à época foram objeto de reintegração são destinadas à regular operação de empreendimentos de agricultura irrigada e à reserva legal”.

A reportagem também procurou o MST, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. No Telegram, ele havia sido visualizado ao menos 3,2 mil vezes até 16 de junho.

Como verificamos: O primeiro passo foi buscar no Google por algumas expressões mencionadas pelo homem que aparece no vídeo, como “assentamento Abril Vermelho” e “Codevasf”. A pesquisa trouxe como resultado reportagens sobre a ação de reintegração de posse e um vídeo publicado na época pela Mídia Ninja.

A partir daí, o Comprova entrou em contato com a Codevasf e com o MST.

O vídeo

O vídeo foi gravado no final de 2019, no acampamento do MST Abril Vermelho, em Juazeiro na Bahia.

De acordo com matéria publicada à época pelo portal G1, foi realizada no local uma reintegração de posse, em 25 de novembro, de terras ocupadas pelo movimento nas cidades de Juazeiro e Casa Nova, no norte da Bahia. Elas eram de propriedade da Codevasf. Os mandados foram cumpridos pela Polícia Federal. Expedida pela Justiça Federal de Juazeiro, a decisão também determinou ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) o assentamento das pessoas que ocupavam irregularmente a área.

Segundo o MST, cerca de 700 famílias moravam na área desocupada, de aproximadamente 1,7 mil hectares. Conhecidas como acampamentos Irani I, Irani II e Abril Vermelho, as terras da Codevasf foram ocupadas pelo movimento em 2012, quando a companhia, segundo a PF, já havia decidido destinar o espaço a projetos de irrigação.

Já o MST afirmou, na ocasião, em comunicado, que as terras estavam ocupadas desde 2007, mediante acordo entre os governos federal e estadual, o Incra, a Ouvidoria Agrária, a Codevasf e o Ministério Público.

O que diz o responsável pela publicação: O perfil Selva Brasil, que já disseminou desinformação outras vezes, como verificou o Comprova, não respondeu à tentativa de contato da reportagem.

O que podemos aprender com esta verificação: É tática comum dos desinformadores tirarem conteúdos reais de contexto, como neste caso. O vídeo é verdadeiro, mas, ao ser publicado em 2023, sem a informação de que é antigo, deixa a entender que é atual. Então, é importante sempre buscar informações em outras fontes quando se deparar com posts assim. Neste caso, uma busca rápida por algumas expressões citadas pelo homem que aparece na gravação, como Codevasf e Abril Vermelho, já seriam suficientes para saber que o caso não ocorreu agora.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O mesmo conteúdo foi checado por Aos Fatos e Boatos.org. O Comprova já verificou outros posts enganosos envolvendo o presidente Lula. Recentemente, mostrou que ele não foi hostilizado em visita a polo automotivo de Goiana nem dentro do Bahia Farm Show e quetrecho do Eixo Norte da transposição do São Francisco não foi fechado por seu governo.

Política

Investigado por: 2023-06-16

Ministro Fachin não é dono de prédio em Penha (SC)

  • Falso
Falso
É falso que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin seja dono de empreendimento imobiliário em Santa Catarina. Na verdade, o prédio pertence à construtora Santer Empreendimentos. O STF afirmou que o ministro não tem qualquer relação com o imóvel.

Conteúdo investigado: Vídeo gravado por um homem mostra prédio em Penha (SC), que, segundo o autor do registro, pertenceria ao ministro do STF Edson Fachin.

Onde foi publicado: TikTok.

Conclusão do Comprova: O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin não é dono de um prédio na cidade de Penha, em Santa Catarina, como afirma vídeo no TikTok. O imóvel residencial, que ainda está em construção, é de propriedade da empresa Santer Empreendimentos. Tanto a construtora quanto o STF negam a informação divulgada nas redes sociais.

O empreendimento fica na rua Joaquim Antônio Simão, no centro de Penha, a cerca de 30 quilômetros da cidade de Balneário Camboriú.

Na narração do vídeo, um homem diz que Fachin é dono do prédio e ainda afirma que o ministro teria cometido “falcatrua e roubalheira” para bancar o empreendimento.

Em nota publicada no site oficial, o STF afirma: “Trata-se de conteúdo completamente fantasioso e de desinformação sem escrúpulo. A autoria do vídeo já está sob apuração dos órgãos competentes.”

A construtora reitera que a informação de que Fachin é o dono do prédio é falsa e que a empresa é a única responsável pelo empreendimento. Segundo nota enviada pela empresa, com exceção do banco contratado, não há participação de terceiros no investimento, “notadamente nenhuma autoridade federal”.

De acordo com a Receita Federal, o nome do ministro Fachin não consta entre os sócios da Santer Empreendimentos.

Usando a plataforma CruzaGrafos, o Comprova também não encontrou conexões entre os sócios da Santer e Edson Fachin. A ferramenta da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) consegue identificar ligações entre empresas e pessoas e apresenta a relação na forma de uma linha, o que não apareceu quando analisados os nomes dos sócios da construtora e do ministro: Mari Deisi Stringari da Silva, São Miguel Participações, Capri Participações e SS Participações, que aparece com o nome de EMC Participações.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 16 de junho, o vídeo teve 210 mil visualizações, 11,1 mil curtidas e 9,1 mil compartilhamentos.

Como verificamos: Procuramos pelo termo “Fachin”, “prédio” e “Penha” e encontramos checagens feitas sobre o tema pelo G1 e pela Reuters. Pesquisamos o endereço do imóvel no Google Maps e também entramos em contato com o STF e com a Santer Construtora, responsável pelo imóvel. Procuramos junto a Receita Federal quem são os sócios da construtora e cruzamos os nomes deles com o do ministro na plataforma CruzaGrafos. Por fim, entramos em contato com o perfil que publicou o vídeo.

O que diz o responsável pela publicação: O Comprova entrou em contato com o perfil do TikTok que divulgou a desinformação, mas não obteve retorno até a conclusão dessa checagem.

O que podemos aprender com esta verificação: No conteúdo analisado, o homem que narra o vídeo não fala qual é a origem da suposta informação de que o ministro Fachin seria dono do imóvel. Também não apresenta prova para tal afirmação e nem indica de onde ela teria saído. Assim, quando confrontado com conteúdos sem indicação de fonte ou que não apresentam provas do que estão afirmando, é importante desconfiar. Uma pesquisa no Google usando palavras-chave ajuda a descobrir que se trata de desinformação.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O mesmo vídeo desinformativo foi checado pelo G1, pela Reuters e pela AFP. O STF e seus ministros são constantemente citados em conteúdos desinformativos. Recentemente, o Comprova desmentiu que uma carta endereçada a um ministro da Corte teria sido escrita por um traficante. O próprio ministro Edson Fachin já foi acusado de ser advogado do MST, o que também não é verdade.

Política

Investigado por: 2023-06-14

Foto de menina interagindo com homens fantasiados de cães é de Parada LGBT+ de Montreal, em 2019

  • Enganoso
Enganoso
Post engana ao sugerir que foto de criança interagindo com homens com máscara de cachorro e sem camisa é da Parada LGBT+ de São Paulo, realizada em 11 de junho. A imagem, que mostra homens praticando "puppy play", um tipo de fetiche em que os participantes se passam por cachorro ou gato, é da Parada de Montreal, no Canadá, em 2019.

Conteúdo investigado: Post publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em 11 de junho, data da Parada LGBT+ de São Paulo, com foto de uma garota segurando bandeira de arco-íris ao lado de três homens com máscara de cachorro, ajoelhados no chão – dois deles sem camisa. Na legenda, ele escreveu: “Vestir uma criança de policial e levar pro 7 de Setembro é extremismo. Levá-la pra igreja é fundamentalismo religioso. Levar uma criança pra parada LGBT é belo e moral”.

Onde foi publicado: Twitter.

Conclusão do Comprova: É enganoso post do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) que usa foto de menina interagindo com homens com máscara de cachorro – dois deles sem camisa e com acessório de fetiche sexual no peito –, sugerindo que a cena ocorreu na Parada LGBT+ de São Paulo. Na publicação, feita em 11 de junho, dia do evento paulistano, ele escreveu: “Vestir uma criança de policial e levar pro 7 de Setembro é extremismo. Levá-la pra igreja é fundamentalismo religioso. Levar uma criança pra parada LGBT é belo e moral”. A foto é, na realidade, da edição de 2019 da Parada LGBT+ de Montreal, em Québec, no Canadá.

O comunicador Felipe Neto tuitou sobre o post de Nikolas e, em resposta, o deputado afirmou não ter mencionado que a foto teria sido tirada na capital paulista. Mas não foi o que muitos de seus seguidores entenderam, como mostram os comentários de pessoas que compartilharam o conteúdo. Veja abaixo a reprodução de duas dessas postagens. 

Em uma busca rápida pela imagem no Google foi possível descobrir tratar-se de outro evento, pois os posts mais antigos usando a mesma foto eram de 2019. Assistindo a vídeos de 2019 da Parada de Montreal, chamada de Fierté Montréal, foi possível ver os mesmos homens que aparecem na foto com máscara de cachorro. Eles praticam “puppy play”, ou “pet play”, um tipo de fetiche em que os participantes se passam por cachorro ou gato.

A reportagem contatou a organização da Fierté Montréal, mas eles responderam que não comentariam o caso.

Enganoso, para o Comprova, é todo o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. O tuíte de Nikolas foi compartilhado mais de 8,1 mil vezes e teve quase 44 mil curtidas até 14 de junho.

Como verificamos: O primeiro passo foi fazer uma busca reversa da foto no Google Imagens. O resultado trouxe um tuíte de 22 de agosto de 2019 em que o usuário refere-se a paradas do Orgulho LGBT+ e diz que a imagem é em Montreal, em 2019, dando a primeira dica para a equipe do Comprova.

A reportagem, então, buscou vídeos do evento no YouTube e assistiu à parada daquele ano, conseguindo identificar os homens-cães. Nesta gravação, eles aparecem a partir dos 28’40”. Uma busca mais detalhada no Google, com termos como “Pride”, “Montreal 2019” e “pups” (cachorrinhos, em inglês), trouxe um outro tuíte, de abril de 2023, em que o autor, @lorgair, faz uma verificação da foto, dizendo não se tratar da Folsom Street, rua famosa de San Francisco, nos Estados Unidos. No fio, ele também diz que a foto foi feita na Parada LGBT+ de Montreal.

A partir daí, a reportagem contatou o perfil Pup Montreal no Facebook e conversou com Sillas Grey, dono da página e um dos membros do grupo que esteve na Parada fazendo “puppy play”. Ele colocou a reportagem em contato com um dos homens que aparecem na foto do post de Nikolas. O Comprova conversou com ele, mas não usou suas declarações pois ele não quis ter seu nome publicado por medo de retaliações.

Lendo a marca d’água de uma foto semelhante à do post de Nikolas publicada na verificação do perfil @lorgair (reprodução abaixo), a reportagem conversou com a fotógrafa Cat Myth – que registrou o momento – por mensagem privada no Instagram.

Cães-humanos

Os homens que aparecem na foto fazem parte do grupo WoofMTL (“woof” é a expressão em inglês para a onomatopeia de latido de cachorro), de Montreal. Eles são praticantes do “puppy play”.

De acordo com Sillas Grey, um dos membros do WoofMTL, o grupo é “uma reunião de seguidores de brincadeiras de cachorrinhos”. Nem ele nem os perfis do grupo cita práticas sexuais, mas, segundo reportagem do The New York Times, os praticantes do “puppy play” “fazem parte de uma comunidade maior que se interessa por bondage, dominação, submissão, sadismo e masoquismo, conhecidos coletivamente como BDSM”.

A prática existe em vários locais do mundo, inclusive em São Paulo, onde, em 2021, um casal de mulheres foi visto fazendo puppy play em um shopping da cidade.

Segundo Grey, atualmente, o puppy play possui diversas definições. “Alguns apreciam o carinho, a brincadeira e a parte carinhosa, o lado mais leve. Alguns buscam o domínio e o controle, o lado mais sombrio. Alguns vão procurar um pouco de ambos”, diz ele, explicando que a teoria mais aceita é a de que a prática surgiu a partir do BDSM.

Puppy play em Montreal

Na Parada LGBT+ de Montreal, o grupo WoofMTL organiza um ponto de encontro para “os adeptos do ‘puppy play’ e de outras brincadeiras antropomórficas e seus amigos para se juntar como um grupo de cachorros”, diz Sillas Grey.

Nos vídeos do evento de 2019 no YouTube, o público que está assistindo recebe o grupo de forma calorosa quando eles desfilam.

“A Parada LGBT+ tem tudo a ver com expressão, aceitação e diversidade”, afirma Grey. “Naquele dia, todos estavam sorrindo e tirando fotos. Do meu ponto de vista, parecia um momento lindo. Uma garotinha que queria acariciar um homem em uma ‘fantasia de cachorro’, pela perspectiva dela. Parecia assim, como uma criança abraçaria um personagem da Disney.”

Cat Myth, fotógrafa canadense que esteve na Parada de Montreal em 2019 e fez clique semelhante ao do post de Nikolas, contou ao Comprova não ter visto nada inapropriado ao ver uma garota brincando com os homens-cães. “Quanto às reações, não houve nada de negativo quando postei a imagem em minhas plataformas de mídia social”, disse.

Conservadorismo

Além do post de Nikolas Ferreira, outros políticos criticaram a presença de crianças na 27ª Parada LGBT+, ligando o fato à esquerda. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) tuitou uma foto de uma criança segurando um estandarte com a inscrição “Crianças trans existem”. Na legenda, escreveu: “A esquerda tenta empurrar sua agenda justamente na infância para que o estrago introduzido seja de difícil reversão”. Ele ainda diz que, no futuro, “podem retirar sua autoridade sobre seus próprios filhos e fazerem uma cirurgia ou tratamento hormonal para mudança de sexo”.

Como mostra reportagem do Poder360, a deputada estadual suplente Amanda Vettorazzo (União Brasil-SP) agiu de forma semelhante. Postou um vídeo da passagem do bloco Crianças e Adolescentes Trans Existem e questionou: “Qual a tara dessas pessoas com crianças? Eu não acho certo. E vocês?”.

A ONG Minha Criança Trans, que organizou o bloco, se pronunciou sobre os ataques em seu perfil no Instagram. “Não vamos nos intimidar e tomaremos medidas legais contra a propagação de fake news e crimes de injúria, calúnia, difamação, transfobia e incitação ao ódio e violência”, afirmou a entidade.

Parada do Orgulho LGBT+

A Parada do Orgulho LGBT+, que acontece em diversos países ao redor do mundo, partiu de um confronto entre policiais e manifestantes nos Estados Unidos, em 28 de junho de 1969, em defesa do clube gay Stonewall Inn, de Nova York.

A data do conflito se transformou na ocasião em que se comemora o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. Os desfiles, por sua vez, começaram no mesmo dia em 1970.

O intuito dessas paradas, segundo o site oficial do evento de São Paulo, é de se manifestar socialmente, reivindicar direitos, promover a visibilidade e celebrar a diversidade, com ações políticas e afirmativas.

O que diz o responsável pela publicação: A reportagem tentou contato com Nikolas Ferreira por e-mail e telefone, mas não houve retorno até a publicação deste texto.

O que podemos aprender com esta verificação: O post checado apela para a sugestão de que a imagem teria sido tirada na Parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo e deixa a desinformação, de fato, circular a partir dos posts causados pela própria indignação dos seguidores do perfil.

Com isso, podemos aprender que é sempre importante desconfiar de conteúdos vagos e que apelem para despertar sentimentos fortes no leitor. Dito isso, diante de qualquer assunto na internet, é importante buscar sempre fontes confiáveis (como de veículos de informação profissionais) antes de propagá-lo. Quando isso não é possível, vale sempre a busca por conteúdos similares em mais de uma fonte de informação.

Também vale ressaltar que a foto foi usada por conservadores em outros países, ou seja, uma mesma imagem pode ser usada em diferentes contextos.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: A 27ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo foi alvo de várias desinformações. Entre elas, durante essa semana, circulou que um homem vestido de Jesus teria feito pole dance em uma cruz no evento (checado pela Agência Lupa, AFP Checamos e Aos Fatos) e que um outro teria usado uma camiseta com a frase “trans kids are sexy” (crianças trans são sexy, em português) (checado por Aos Fatos e Reuters).

Política

Investigado por: 2023-06-14

Lula não foi hostilizado em visita a polo automotivo de Goiana nem dentro do Bahia Farm Show

  • Enganoso
Enganoso
São enganosos dois vídeos que associam imagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a um áudio com gritos de “vergonha” e “ladrão”. Ambos os conteúdos foram editados e circulam com áudio diferente do original. Em uma das gravações, o presidente participa da abertura da feira Bahia Farm Show, em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia. Houve protesto, mas do lado de fora do evento, diferentemente do que sugere o vídeo editado. Na outra filmagem, Lula visita o polo automotivo de Goiana, em Pernambuco, ocasião em que o presidente foi ovacionado por funcionários, sem registros de manifestações agressivas.

Conteúdo investigado: Dois vídeos de ocasiões diferentes com o mesmo áudio, em que pessoas gritam “vergonha” e “ladrão”. No primeiro, Lula está em um grupo com outras autoridades em frente a um banner em que está escrito “Agricultura familiar e inovação”. No outro, o presidente aparece em um veículo, transitando dentro de uma fábrica de automóveis enquanto é aplaudido e filmado por funcionários.

O tuíte com o primeiro vídeo cita de forma irônica: “Lula sendo homenageado em feira do Agro na Bahia”. Já o segundo vídeo compartilhado leva a seguinte legenda: “O ladrão sendo recepcionado magnificamente ontem na fábrica da Jeep. Merecido e a cara de merda é impagável…”.

Onde foi publicado: Twitter.

Conclusão do Comprova: São enganosos dois vídeos que usam áudio com gritos de “vergonha” e “ladrão” sobre imagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na feira Bahia Farm Show e em polo automotivo em Pernambuco. Os dois vídeos circulam com o mesmo áudio, que não é o original em nenhum dos casos: tratam-se de montagens.

O evento na Bahia, realizado em junho, que contou com a participação do presidente na abertura, teve, de fato, manifestação contra o petista, mas ela aconteceu do lado de fora da feira, distante cerca de 500 metros de onde estavam Lula e sua comitiva. A informação foi confirmada pelo diretor-executivo da feira, que acompanhou a comitiva na ocasião, pela assessoria de imprensa do Bahia Farm Show e por três jornalistas que trabalharam na cobertura do evento.

Também é corroborada por vídeos publicados pela imprensa da visita do presidente à feira (SBT News) e por registros do protesto do lado de fora (Poder360). A partir de elementos comuns identificados nas imagens, o Comprova conseguiu mapear os locais dos acontecimentos e constatar, por meio do mapa da feira, que o ponto em que Lula aparece no vídeo enganoso não corresponde ao local onde foi registrado o coro de “ladrão”.

É o que informa também a Folha de S.Paulo em reportagem: “Não houve protestos ou hostilidades contra o petista dentro da feira. Do lado de fora, contudo, apoiadores de Bolsonaro se reuniram e fizeram coro de ‘ladrão’, mas não cruzaram com o presidente”.

Em relação ao segundo vídeo, as imagens foram gravadas durante visita de Lula ao Polo Automotivo Stellantis de Goiana, em Pernambuco, na mesma data da abertura da feira. Ao contrário do que leva a crer a montagem, em vez de ser hostilizado, Lula foi ovacionado por funcionários da fábrica, que gritavam “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”.

Para chegar a essa conclusão, o Comprova comparou o vídeo investigado com outros do mesmo momento gravados pelo prefeito de Recife (PE), João Campos (PSB), e pelo deputado federal Túlio Gadêlha (Rede), que acompanhavam o presidente na visita. O evento também foi acompanhado pela TV Brasil, que fez, inclusive, uma transmissão ao vivo.

Em nota enviada ao Comprova, a assessoria de imprensa da Stellantis reforça que “em momento algum houve vaias ou manifestações agressivas ao presidente. Ao contrário: as manifestações foram extremamente afetuosas” e acrescenta: “O vídeo, portanto, sofreu edição de áudio que o alterou sua essência, manipulando a realidade dos fatos”.

A Secretaria de Comunicação Social do Presidente da República também desmentiu o conteúdo do vídeo.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 13 de junho, o tuíte com o primeiro vídeo acumulava 296,8 mil visualizações; já o tuíte com o segundo vídeo alcançava 556,4 mil visualizações.

Como verificamos: Primeiramente, buscamos identificar o local em que o primeiro vídeo – no qual Lula aparece de boné em frente ao banner sobre agricultura familiar – havia sido gravado. A partir das pistas apresentadas pelo próprio vídeo, fizemos uma pesquisa no Google pelos termos “Lula”, “agricultura familiar e inovação” e “boné do Banco do Brasil”. Ao clicar na seção “imagens”, encontramos uma notícia publicada pela Folha de S. Paulo a respeito da presença do presidente no Bahia Farm Show. Procuramos, então, outras notícias a respeito.

Nesta reportagem do SBT News, é possível acompanhar imagens de Lula no evento no mesmo ponto em que o vídeo investigado foi gravado. Para identificar o local exato em que o presidente estava no momento da gravação do vídeo editado, procuramos novas pistas nas imagens feitas pela emissora.

O banner que aparece no vídeo enganoso atrás de Lula com a frase “Agricultura familiar e inovação” também pode ser encontrado na gravação feita pelo SBT. Como o ângulo é mais aberto, é possível observar que a tenda sob a qual está o presidente fica posicionada entre o espaço na feira destinado à Iropel e ao Centro de Treinamento da Abapa. Veja:

| Print do vídeo investigado (Reprodução).

| Print do vídeo gravado pelo SBT (Reprodução/YouTube).

| Print do vídeo gravado pelo SBT (Reprodução/YouTube).

Depois, fizemos uma busca no Google e no Twitter por “Lula Bahia Farm Show” e “ladrão” na tentativa de encontrar imagens de protestos contra o presidente na ocasião. Deparamo-nos com outros vídeos publicados em redes sociais, nos quais o presidente não aparece, mas com gritos de “ladrão”, como sendo no mesmo evento. Alguns chegaram a ser publicados pela imprensa (Poder 360) como sendo autênticos, sendo que um deles leva o mesmo áudio usado nos dois vídeos aqui verificados, com os termos “vergonha” e “ladrão”.

Nesses outros vídeos, é possível constatar que o protesto ocorreu em outro espaço, junto a uma das bilheterias do evento, ao lado do Centro Administrativo do Expositor – CAEX:

| Print de vídeo de manifestação publicado pelo Poder360 (Reprodução).

Com essas pistas, buscamos pelo mapa da feira, disponibilizado no site oficial do evento, para conferir se o local em que estava o presidente era próximo ao local onde houve a manifestação.

O quadrado para o qual a seta está apontada no mapa abaixo representa o estande em que o presidente Lula foi filmado, já a bilheteria onde aconteceu a manifestação contra ele fica do lado de fora do evento, junto ao CAEX; confira:

 

Em seguida, fizemos contato com três jornalistas que cobriram o evento. Também procuramos a assessoria de imprensa do Bahia Farm Show para confirmar o que constatamos na verificação do vídeo, além do responsável pela publicação do post enganoso.

Depois, partimos para a investigação do segundo vídeo, em que Lula aparece visitando uma fábrica de automóveis.

Uma busca nas redes sociais por vídeos postados entre os dias 6 e 7 de junho com as palavras “Stellantis”, “Goiana”, “Jeep”, “Lula” resultou em publicações feitas de outros ângulos que mostram que, ao contrário do que o vídeo investigado faz parecer, a reação dos funcionários à presença de Lula na fábrica foi de exaltação.

Nas gravações do fotógrafo de Lula Ricardo Stuckert, do prefeito de Recife (PE), João Campos (PSB), do deputado federal Túlio Gadêlha (Rede) e nas que foram postadas por usuários do Twitter e Facebook (aqui e aqui), é possível ouvir as pessoas gritando “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”. Isso fez com que a equipe do Comprova desconfiasse que a versão original do vídeo era aquela que encontramos em postagens do Twitter (aqui e aqui) que não viralizaram, mas que continham no áudio a mesma frase.

Conseguimos provar essa hipótese ao comparar o vídeo investigado com um dos feitos por João Campos e por outro feito por Túlio Gadêlha. As gravações ocorreram no mesmo momento, mas de diferentes ângulos.

Também fizemos contato com a assessoria de imprensa do Polo Stellantis de Goiana, com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e com o responsável pela publicação do post enganoso.

Manifestação contra Lula foi do lado de fora do Bahia Farm Show

O primeiro vídeo verificado pelo Comprova foi gravado no dia 6 de junho de 2023, na 17ª edição da feira de tecnologia agrícola e negócios Bahia Farm Show, realizada na cidade de Luís Eduardo Magalhães. Na ocasião, o presidente Lula esteve no evento pela manhã para participar da abertura da feira.

Segundo reportagem do portal G1, Lula chegou à Bahia às 9h50, no aeródromo da cidade, acompanhado da primeira dama, Janja Lula da Silva, e de seis ministros. Depois, seguiu para a feira. Um vídeo da comitiva, ao lado de outras autoridades e organizadores do evento, foi gravado sob uma tenda montada no Bahia Farm Show, ao lado do Centro de Treinamento da Abapa – Associação Baiana dos Produtores de Algodão.

Um áudio falso foi inserido sobre as imagens para sugerir que, durante a visita, manifestantes teriam gritado “vergonha” e “ladrão” diante do presidente, mas isso não é verdade. O diretor-executivo do evento, Alan Malinski, afirma ter acompanhado a comitiva de Lula e garante que o áudio é falso. “Não tinha público próximo.”

A assessoria de imprensa do Bahia Farm Show confirmou que a feira ficou fechada durante todo o evento de abertura, por uma questão de segurança, por determinação do governo federal – o que também ocorreu na edição anterior durante a visita do então presidente Jair Bolsonaro.

Segundo a assessoria, houve, sim, uma “pequena manifestação” na data, mas ela aconteceu do lado de fora da feira, no acesso do CAEX – entrada exclusiva para expositores –, a cerca de 500 metros da área onde ocorreu a abertura oficial do evento. “Portanto, as pessoas que estavam na entrada do CAEX não tiveram nenhum contato com a comitiva do presidente ou com o local de abertura”, diz a nota.

A informação também foi checada pelo Comprova a partir da comparação de vídeos nas redes sociais com imagens da cobertura jornalística da feira e o mapa do Bahia Farm Show, conforme informado acima.

Três jornalistas que trabalharam na cobertura da visita de Lula à feira negaram ter presenciado qualquer protesto diante do presidente dentro do Bahia Farm Show. Eles confirmam que houve manifestação do lado de fora do evento.

Um dos profissionais estava na sala de imprensa, montada perto do acesso dos expositores, e diz ter ouvido os gritos de “ladrão”. “Por conta da chegada do presidente da República ao evento, a organização da feira demorou para abrir os portões de acesso aos expositores”, relata. “Foi na entrada dos expositores que esse áudio (inserido em vídeo de Lula na feira) foi registrado. Existia uma aglomeração, eles estavam um pouco irritados porque estavam demorando para entrar na feira. Foi quando alguém gritou ‘Bolsonaro’ e depois vieram os gritos de ‘Lula ladrão’”, afirma Vinicius Ramos, repórter do Canal Rural Bahia.

O mesmo relato foi publicado pela Folha de S. Paulo nesta reportagem. “Não houve protestos ou hostilidades contra o petista dentro da feira. Do lado de fora, contudo, apoiadores de Bolsonaro se reuniram e fizeram coro de ‘ladrão’, mas não cruzaram com o presidente.”

Ainda conforme reportagem do G1, Lula deixou Luís Eduardo Magalhães por volta das 13h30 com destino ao Recife (PE), para visitar as instalações do Polo Automotivo de Goiana.

Lula foi ovacionado por funcionários em visita a polo automotivo

O segundo vídeo de Lula, que circula com gritos de “ladrão”, também foi feito no dia 6 de junho, no Polo Automotivo Stellantis, em Goiana (PE), durante visita do presidente ao local. Trata-se do mesmo áudio usado na montagem anterior sobre as imagens do presidente na feira Bahia Farm Show.

Na verdade, os funcionários da fábrica estavam gritando “Olê, olê, olê, olá, Lula Lula”. Isso fica evidente ao comparar o vídeo investigado com um dos vídeos gravados por João Campos. O prefeito de Recife (PE) estava no terceiro e Lula no primeiro carrinho do cortejo das autoridades dentro da fábrica, como mostra este vídeo

O momento do vídeo investigado foi capturado por Campos, no entanto, de outro ângulo, visto que ele estava mais atrás. Portanto, o coro de exaltação ao presidente que se escuta no vídeo do prefeito prova que a versão original do vídeo investigado é aquela na qual se ouve as pessoas gritando “Olê, olê, olê, olá, Lula Lula” (aqui e aqui) e que a versão que viralizou nas redes sociais, na qual os funcionários supostamente chamaram lula de ladrão, teve áudio inserido posteriormente, de forma enganosa.

As comparações feitas a seguir mostram que o vídeo investigado e o de João Campos capturaram o mesmo momento.

Comparação 1:

| Captura de tela do vídeo investigado. Detalhe para a palavra Schuler inscrita na parede e o homem de camisa branca que segura o celular com o braço estendido. O homem é o deputado federal Túlio Gadêlha (Reprodução).

| Captura de tela do vídeo de João Campos. É possível ver os mesmos elementos da imagem anterior: a palavra Schuler inscrita na parede e o deputado federal Túlio Gadêlha com o braço estendido e o celular na mão (Reprodução).

Comparação 2:

| Captura de tela do vídeo investigado. Detalhe para a mulher de boné azul, a primeira funcionária da esquerda para a direita, e seu colega (Reprodução).

| Captura de tela do vídeo de João Campos. Os mesmos funcionários destacados acima aparecem aqui (Reprodução).

Comparação 3:

| Captura de tela do vídeo investigado. Detalhe para o funcionário de barba (Reprodução).

| Captura de tela do vídeo de João Campos. O mesmo funcionário da imagem acima aparece aqui (Reprodução).

O Comprova também solicitou ao deputado federal Túlio Gadêlha, que, no vídeo enganoso, aparece sentado na parte de trás do mesmo veículo do presidente com o celular em mãos, a gravação feita por ele naquele momento.

Comparando as imagens enviadas pela assessoria de imprensa do parlamentar, foi possível constatar objetos em comum na cena, o que nos permite afirmar que as gravações, de ângulos diferentes, foram feitas no mesmo momento. Confira:

Comparação 1:

| Print do vídeo investigado / Print do vídeo gravado por Túlio Gadêlha.

Comparação 2:

| Print do vídeo investigado / Print do vídeo gravado por Túlio Gadêlha.

Comparação 3:

| Print do vídeo investigado / Print do vídeo gravado por Túlio Gadêlha.

A própria assessoria de imprensa da Stellantis desmentiu o áudio do vídeo enganoso, assim como a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

O que diz o responsável pela publicação: A equipe do Comprova mandou uma mensagem privada no Twitter para o perfil que obteve milhares de visualizações nas postagens dos vídeos enganosos, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem.

O que podemos aprender com esta verificação: Algumas pistas no próprio vídeo podem indicar quando um conteúdo sofreu esse tipo de manipulação. Procure observar com atenção. Por exemplo, nos vídeos verificados, Lula agia naturalmente e estava sorrindo, reação diferente da esperada caso o presidente estivesse mesmo sendo alvo de xingamentos.

Ao suspeitar do vídeo compartilhado, busque informações sobre o evento em questão, caso ele seja citado no post. Confira a cobertura feita pela imprensa e acesse os canais oficiais do governo ou dos políticos que aparecem na cena.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Aos Fatos a AFP também constataram que Lula não foi hostilizado durante visita à fábrica automotiva em Pernambuco.

O Comprova já checou outros conteúdos que viralizaram nas redes sociais envolvendo o presidente. Recentemente, mostrou ser falso que Biden tenha convocado Congresso por falas de Lula em apoio à Venezuela e que o petista tenha reconduzido Nestor Cerveró a cargo na Petrobras.

Política

Investigado por: 2023-06-14

Trecho do Eixo Norte da transposição do São Francisco não foi fechado pelo governo Lula

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o vídeo que afirma que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fechou um trecho do Eixo Norte da transposição do Rio São Francisco, beneficiando donos de carros-pipa. As imagens mostram as cascatas da Barragem de Jati (CE) em dois momentos, com e sem água. Atualmente, as cascatas estão secas por conta da interrupção no fluxo de água da Estação de Bombeamento de Salgueiro (PE), equipamento que apresentou defeito ainda na gestão de Jair Bolsonaro (PL).

Conteúdo investigado: Vídeo que compara momentos diferentes das cascatas da Barragem de Jati, no Ceará, alegando que o equipamento tinha água na gestão de Jair Bolsonaro e não tem mais no governo Lula, que teria fechado a transposição do São Francisco para beneficiar donos de carros-pipa.

Onde foi publicado: TikTok e Twitter.

Conclusão do Comprova: É enganoso o vídeo que compara dois momentos das cascatas da Barragem de Jati (CE), no Eixo Norte da transposição do Rio São Francisco – com água e sem água –, e atribui ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o fechamento do equipamento para beneficiar donos de carros-pipa e prejudicar a população.

A primeira imagem do vídeo viral mostra água vertendo pelas cascatas da barragem e teria sido feita, segundo a legenda, em novembro de 2022, no governo de Jair Bolsonaro (PL). A segunda, sem água, seria de junho de 2023, na gestão Lula. Não é possível afirmar com segurança quando as imagens foram feitas, mas não é correto dizer que o atual governo tenha desligado deliberadamente o equipamento com a intenção de prejudicar a população.

A Barragem de Jati fica cerca de 60 quilômetros após a Estação de Bombeamento EBI-3, em Salgueiro (PE), que teve o funcionamento interrompido em janeiro deste ano pelo Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional (MIDR) para a realização de reparo de um problema nas motobombas detectado em novembro do ano passado, ainda no governo Bolsonaro. A previsão de retomada da operação normal é na segunda quinzena de julho, disse o ministério ao Comprova.

Além disso, há registros em vídeos na internet feitos por moradores que mostram as cascatas com água corrente em janeiro deste ano, já no governo Lula, e sem água em outros momentos do governo Bolsonaro, como em outubro e novembro do ano passado, quando o vídeo supostamente teria sido feito.

Atualmente, segundo dados divulgados no dia 1º de junho pelo Governo do Ceará, o aporte hídrico do estado é o melhor desde dezembro de 2012, com 9,49 bilhões de metros cúbicos (51,2% da capacidade total) distribuídos em 157 reservatórios estratégicos.

A EBI-3 atende Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. O MIDR garante que não há desabastecimento em nenhum dos estados e lembra que a oferta de água pelo Projeto de Integração do São Francisco (PISF) é intencionalmente flexível para harmonizar as necessidades da bacia doadora e otimizar o funcionamento, não havendo necessidade de bombeamento contínuo.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Em perfil no TikTok, até o dia 13 de junho, o vídeo analisado tinha 291,6 mil visualizações, 24,1 mil curtidas e 6,1 mil compartilhamentos. No Twitter, o conteúdo possuía 23,4 mil visualizações, 1,1 mil compartilhamentos e 1,8 mil curtidas até a mesma data.

Como verificamos: Para identificar o local onde o vídeo foi feito, realizamos buscas no Google, no YouTube e fizemos uma busca reversa usando a ferramenta TinEye. Também consultamos uma checagem feita anteriormente pelo Estadão Verifica. Por fim, entramos em contato com o MIDR, com a Secretaria dos Recursos Hídricos do Ceará, com a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará e com um morador da região onde fica a barragem e que costuma postar vídeos do local em um canal no YouTube.

Cascatas da Barragem de Jati

As duas cenas que aparecem no vídeo viral mostram as cascatas da Barragem de Jati (CE), a 60 quilômetros de distância da Estação de Bombeamento EBI-3 do Eixo Norte da Transposição do São Francisco, na cidade de Salgueiro (PE). Segundo a legenda do vídeo viral, a primeira imagem seria de novembro de 2022, mostrando a barragem vertendo água pelas cascatas no governo Bolsonaro. Já a segunda seria de junho de 2023, com as cascatas secas no governo Lula.

Não foi possível identificar as datas exatas das imagens, mas é possível que as primeiras não sejam de novembro de 2022. Isso porque, segundo um morador local identificado como Erivando, responsável pelo canal Erivando Aventuras e Pescarias, não havia água nas cascatas naquele mês, depois de o fluxo ser interrompido em 14 de outubro e ser retomado apenas em 27 de dezembro. Um vídeo publicado no dia 21 de novembro de 2022, por exemplo, mostra que não havia água correndo pelas cascatas.

Aquela não foi a única vez em que o fluxo de água foi interrompido – a presença e a falta de água no local vêm se alternando desde fevereiro de 2021, como mostra vídeo publicado por Erivando. Em fevereiro do ano passado, por exemplo, Bolsonaro esteve em Salgueiro para inaugurar a EBI-3 e depois foi a Jati acompanhar a chegada das águas na barragem. As imagens feitas na época mostram que havia água no local.

| Cascatas da Barragem de Jati com água em fevereiro de 2022, no governo Bolsonaro

Por outro lado, imagem de outubro do ano passado, registrada pelo Google Street View, mostra as cascatas secas, assim como a segunda imagem que aparece no vídeo viral. Outro conteúdo, publicado em dezembro do ano passado por um youtuber local, mostra o homem comemorando a volta das águas.

| Imagem do Google Street View mostra cascatas sem água em outubro de 2022, também no governo Bolsonaro

Já este ano, no governo Lula, um registro feito por um morador da região mostra que havia bastante água nas cascatas do vertedouro da barragem no dia 10 de janeiro. O vídeo foi publicado no dia seguinte.

| Em janeiro de 2023, no início do terceiro mandato de Lula, havia água nas cascatas da Barragem de Jati

Outras imagens feitas nos meses seguintes (abril, maio e junho) mostram as cascatas secas. Isso acontece porque a estação EBI-3, de Salgueiro, teve o funcionamento interrompido no final de janeiro para que um problema detectado ainda em novembro do ano passado – no governo Bolsonaro – seja reparado. Ou seja, não é correto afirmar que sempre houve água no governo passado e que as cascatas tenham ficado secas apenas no atual governo para prejudicar a população.

| Em junho deste ano, também no governo Lula, imagem volta a mostrar cascatas sem água

Defeito na EBI-3

O MIDR explicou ao Comprova que a EBI-3 está desativada desde o início do ano, em função de uma vibração excessiva de uma de suas motobombas, o que ocasionou um desgaste relevante e prematuro dos rolamentos.

A EBI-3 é um conjunto de motobombas, válvulas e acessórios interligados. A estrutura foi projetada para oito conjuntos motobombas e conta hoje com dois conjuntos motobombas instalados (25% da capacidade projetada).

O MIDR afirmou que a contratação da duplicação da capacidade de bombeamento (50% da capacidade projetada) está prevista para ocorrer em 2024, em função do acréscimo de demanda dos estados beneficiados, principalmente com a implantação dos Ramais do Apodi e do Salgado.

“Vitória” dos carros-pipa?

O vídeo que viralizou no TikTok e no Twitter fala em vitória dos carros-pipa diante da falta de água nas cascatas da barragem, mas não é o que vem acontecendo. No último dia 1º de junho, o Governo do Ceará divulgou o balanço da quadra chuvosa deste ano, que vai de fevereiro a maio. De um modo geral, o cenário, em termos de aporte hídrico nos reservatórios, é o melhor desde dezembro de 2012.

Os dados apresentados mostram que, no início de 2023, o volume nos reservatórios era de 31,4%. Esse volume chegou a 51,2% no final da quadra chuvosa, o que significa um acumulado de 9,49 bilhões de metros cúbicos (m³) de água distribuídos em 157 reservatórios estratégicos. A região onde fica a Barragem de Jati faz parte do Cariri, que integra a Bacia do Salgado. Esta, por sua vez, se encontra em situação considerada “confortável”, com mais de 50% de reserva hídrica acumulada.

Já a Operação Carro-Pipa é executada pelo Exército Brasileiro e, atualmente, atende 21 dos 184 municípios cearenses. Nenhum deles fica a menos de 200 quilômetros de distância da Barragem de Jati. Dos 28 municípios beneficiados que ainda aparecem listados pelo Exército no site oficial da operação, sete tiveram o fornecimento de água por carros-pipa suspenso temporariamente.

Segundo o Exército, o objetivo da operação é realizar “ações complementares de apoio às atividades de distribuição de água potável às populações atingidas por estiagem e seca na região do semiárido nordestino e região norte dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo”.

O que diz o responsável pela publicação: O vídeo foi publicado no TikTok por uma usuária cujo perfil não permite o envio de mensagens por perfis que não a seguem.

O que podemos aprender com esta verificação: Os desinformadores também utilizam vídeos na internet para explorar assuntos de grande repercussão, como é o caso dos serviços na transposição do Rio São Francisco. Por questões de segurança, diante de qualquer assunto na internet, é importante buscar fontes confiáveis, conteúdos produzidos, por exemplo, pela imprensa profissional. Quando isso não é possível, vale sempre a busca por conteúdos similares e pesquisa de mais de uma fonte de informação.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Sobre a situação na Barragem de Jati, o Estadão realizou checagem em abril deste ano. A transposição também foi alvo de checagem recente do Comprova. O projeto explicou como funciona a obra que leva água a casas do Nordeste brasileiro. A apuração também investigou conteúdos que desinformam sobre crise hídrica e fechamento de comportas.

Saúde

Investigado por: 2023-06-09

É enganoso relacionar indenização britânica por danos causados por vacinas às mortes pela covid

  • Enganoso
Enganoso
Texto e post do site Brasil sem Medo (BSM) enganam ao relacionar indenização paga pelo governo britânico por danos causados por qualquer vacina a número de mortos por covid-19, afirmando, de maneira distorcida, que números oficiais mostram que pessoas vacinadas são as que mais morreram pela doença. A indenização é paga pelo menos desde 1997 para "casos extremamente raros" e que envolvam qualquer uma das vacinas em uso no Reino Unido. O conteúdo verificado tenta descredibilizar os imunizantes contra a covid-19, mas o órgão de saúde britânico os defende no texto que o BSM usa como fonte – o site omite esta informação. Além disso, o relatório usado pela página considera números de óbitos absolutos para fazer comparações, o que não é a maneira correta. É natural que haja mais mortes entre vacinados em uma população que já foi majoritariamente imunizada, informou a autoridade de saúde do Reino Unido ao Comprova.

Conteúdo investigado: Texto intitulado “Governo britânico anuncia indenização de 120 mil euros para vítimas de vacinas” que diz que “em março deste ano, um relatório publicado pela Agência de Saúde do Reino Unido apontou que os vacinados são maioria entre as mortes por covid-19”. O conteúdo foi replicado no Twitter.

Onde foi publicado: Site Brasil sem Medo, Instagram e Twitter.

Conclusão do Comprova: É enganoso post que relaciona o fato de o governo britânico ter publicado em seu blog informações sobre o esquema de pagamento por danos causados ​​por vacinas a um relatório da UK Health Security Agency (UKHSA), a autoridade de saúde britânica, segundo o qual “os vacinados são maioria entre as mortes por covid-19”. O post desinforma ao sugerir que as vacinas contra o novo coronavírus não são seguras. A indenização existe pelo menos desde 1997 (muito antes da pandemia) e não foi anunciada recentemente, como algumas pessoas que compartilharam a desinformação acreditaram.

O texto leva a uma interpretação errada dos dados ao dar destaque a número mais alto de mortes entre vacinados quando a maior parte da população já se imunizou. “Não é que as pessoas vacinadas tenham maior probabilidade de morrer, é porque há mais pessoas vacinadas do que não vacinadas. Sempre haverá algumas infecções que levam à morte porque nenhuma vacina é 100% eficaz, mas uma pequena proporção de uma população muito grande (vacinada) é geralmente maior do que uma proporção maior de uma população menor (não vacinada)”, explicou a UKHSA ao Comprova.

Conteúdos fazendo esta afirmação enganosa – a de que os vacinados morreram mais do que os não vacinados – circulam desde o ano passado e um deles já foi verificado pelo Comprova.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Publicado pelo site Brasil sem Medo, o post foi visualizado mais de 13,8 mil vezes no Twitter e compartilhado 178 vezes até 9 de junho. Um dos perfis que compartilhou o conteúdo enganoso no Instagram teve mais de 19,4 mil interações até a data.

Como verificamos: Utilizando o Google, fizemos uma pesquisa pela principal alegação do post (Reino Unido anunciou pagamento de indenizações por danos causados por vacina) e localizamos uma publicação recente sobre o modelo de pagamento por danos causados ​​por vacinas. Em seguida, buscamos saber como funciona a política e desde quando ela existe. O próximo passo foi descobrir quando o imunizante contra a covid-19 foi inserido no sistema. Partimos então para a segunda alegação (dados de março apontam que maioria dos mortos por covid no país é vacinada) e consultamos os relatórios recentes da UK Health Security Agency sobre vacinação. Também entramos em contato com a agência, via e-mail, para solicitar mais detalhes sobre os dois assuntos. Por fim, procuramos os autores dos posts.

Reino Unido já pagava a indenização antes da covid-19

Apesar de ter sido publicado um comunicado recente sobre como funciona o esquema de pagamento por danos causados por vacinas no blog do Departamento de Saúde e Assistência Social, a política não é uma novidade para os britânicos. Existe notícia de 2005 informando os pagamentos a pacientes incapacitados por vacinas pelo menos desde 1997.

O comunicado ao qual os posts verificados se referem explica que é fornecido um pagamento único, isento de impostos, no valor de 120 mil libras, em “ocasiões muito raras” de uma vacina ter causado uma incapacidade grave. Logo no início do informativo é destacado que todas as vacinas usadas no país passaram por testes clínicos robustos e atenderam aos rígidos padrões de segurança, eficácia e qualidade da Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA, na sigla em inglês) .

Isso inclui a vacina contra a covid-19, acrescentada ao programa em dezembro de 2020, antes mesmo de o uso ser aprovado no país. À época, o governo informou que os imunizantes só seriam implantados quando atendessem a padrões rígidos de segurança, eficácia e qualidade e fossem aprovados pelo órgão regulador.

O governo britânico mantém duas páginas oficiais (1 e 2) sobre os pagamentos, informando, inclusive, que eles podem ser feitos para danos causados por outras 18 vacinas, além da que combate o coronavírus. Entre elas, estão imunizantes comumente aplicados ao longo da vida das pessoas, como os que previnem contra influenza, sarampo, poliomielite, varíola e tétano.

Morrem mais vacinados porque o número de imunizados é maior

O texto compartilhado no Twitter cita que um relatório publicado pela Agência de Saúde do Reino Unido apontou que os vacinados são maioria entre as mortes ocorridas por covid-19 durante o mês de março deste ano. A publicação acrescenta que o período analisado foi de 28 de fevereiro até 27 de março, mas essa afirmação é incorreta.

A agência informou ao Comprova que desde o relatório publicado em 6 de abril – que traz dados do mês anterior – não é mais incluída a seção com registros sobre status vacinal dos casos, mortes e hospitalizações com covid-19. O órgão explicou que isso ocorre porque em 1º de abril de 2022 o governo do Reino Unido encerrou o fornecimento de testes gratuitos para o público em geral e a mudança afetou a capacidade de monitorar de forma robusta os casos de covid por status de vacinação.

Um comunicado sobre o assunto foi postado no blog da agência. Nele, é informado que os dados dos relatórios anteriores mostram que as taxas de hospitalização e mortes são substancialmente mais baixas em pessoas totalmente vacinadas, em todas as faixas etárias, sendo claro que as vacinas fornecem alto nível de proteção contra efeitos mais graves da doença.

A reportagem consultou o relatório publicado em abril e confirmou a informação fornecida pela agência. O documento cita dados coletados entre 27 de fevereiro e 26 de março – data próxima à citada pelo site –, porém eles não são referentes a mortes de pessoas com covid, mas sim a taxas de hospitalização pela doença entre pessoas vacinadas.

A agência britânica destacou que, no contexto da cobertura vacinal muito alta na população, mesmo com uma vacina altamente eficaz, é natural que uma grande proporção de casos, internações e mortes ocorra em indivíduos vacinados, isso porque é maior a proporção da população vacinada.

Onde a desinformação surgiu

O perfil que disseminou a desinformação nas redes foi o do site Brasil sem Medo. A página conservadora publicou em 5 de junho um texto intitulado “Governo britânico anuncia indenização de 120 mil euros para vítimas de vacinas”. A desinformação começa no título, pois o valor é de 120 mil libras, e não euros.

Ao compartilhar o texto no Twitter, o perfil relacionou a indenização à vacinação contra a covid-19 ao incluir a legenda “Em março deste ano, um relatório publicado pela Agência de Saúde do Reino Unido apontou que os vacinados são maioria entre as mortes por covid-19”. Aqui, novamente, há outro erro: o texto linkado sobre as mortes é do próprio Brasil sem Medo, de 14 de abril de 2022, e não deste ano.

Não é a primeira vez que o site espalha desinformação. O Comprova já verificou outros cinco conteúdos disseminados por eles (1, 2, 3, 4 e 5) – destes, quatro negam medidas comprovadamente eficazes contra a disseminação da covid-19.

Na aba “Sobre” do site, cujo logo é Novo BSM, não há nenhuma informação a respeito da publicação. Em verificação de 2021, o Comprova afirmou que a plataforma se identificava como “o maior jornal conservador do Brasil”. Em redes como Twitter e Instagram, a página se define como “o único streaming de notícias e análises sobre política e cultura, declaradamente conservador”.

Ainda no site, na aba “Autores” aparece o nome de Olavo de Carvalho, que ficou conhecido como guru bolsonarista e morreu no ano passado. O site republica textos antigos dele.

O que diz o responsável pela publicação: O Brasil Sem Medo foi procurado, mas não respondeu até a publicação desta verificação. Um perfil no Instagram que usou o material e viralizou também não retornou o contato.

O que podemos aprender com esta verificação: É possível observar indícios de desinformação quando um texto parece evitar apresentar detalhes do assunto abordado. No caso aqui verificado, o conteúdo não contextualiza as informações referentes às políticas britânicas de vacinação e no âmbito da covid-19.

Primeiro, o site causa alarde ao noticiar que o Reino Unido divulgou estar indenizando vítimas de efeitos colaterais causados por vacinas e ao associar essa informação às mortes causadas pelo novo coronavírus. O texto omite que esses pagamentos existem há pelo menos 20 anos e são disponibilizados também para outros imunizantes. O texto também ignora a informação da agência de saúde britânica de que os casos de efeitos colaterais graves são raros.

Em seguida, o autor da publicação cita dados sobre mortes entre vacinados ignorando a orientação da fonte das informações de que eles devem ser lidos respeitada a proporcionalidade entre vacinados e não vacinados no país.

Desde o início da pandemia de covid-19, tanto a doença quanto as vacinas desenvolvidas para o combate a ela têm sido alvos de desinformação, portanto, é importante redobrar a atenção para conteúdos que abordem esses dois temas. Informações seguras podem ser consultadas junto às agências reguladoras, órgãos de saúde e imprensa profissional.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já checou diversas alegações que tentam descredibilizar a eficácia das vacinas contra a covid-19, associando-as a mortes. Já foi demonstrado, por exemplo, que a proporção de óbitos pela doença é maior entre não vacinados no Reino Unido, diferentemente do que insinua post, que site engana leitores ao usar título sensacionalista sobre morte de imunizados e ser enganoso que imunizante contra a covid-19 tenha provocado aumento de mortes entre crianças.