O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a golpes e fraudes virtuais.
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Política

Investigado por: 07/11/2025

Vídeo com foto de Lula em pacote de droga é antigo e segue tática comum do tráfico

Política
Filmagem circula desde 2023, mas voltou à tona após megaoperação policial no RJ; imagens de famosos em embalagens de entorpecentes são tática antiga do tráfico e já envolveram nomes como Jair Bolsonaro e Neymar, sem que houvesse comprovação de vínculo.

Circula nas redes sociais um vídeo no qual um homem segura um pequeno pacote de plástico com material análogo a droga embalado com a foto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o escrito “Cpx Catarina Novo”.

Na gravação, o homem afirma que está em São Gonçalo (RJ), próximo ao bairro Jardim Catarina, onde há atuação do tráfico de drogas, e sugere que, pelo fato de a foto do presidente aparecer no pacote, haveria ligação do mandatário com traficantes da região.

A publicação verificada pelo Comprova foi compartilhada em 2 de novembro de 2025, mas já circula pelas redes sociais desde 2023. Isso porque sobre a imagem há um código da plataforma Helo ID, um app da ByteDance, empresa dona do TikTok, que foi descontinuado no fim de junho de 2023. Ou seja, o vídeo foi publicado na plataforma há mais de 2 anos e voltou a ser compartilhado agora, no contexto da megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro.

Como o Comprova já mostrou em outras verificações, o uso da foto de personalidades conhecidas em embalagens de drogas não é recente. Jogadores de futebol, como Neymar e Ronaldinho Gaúcho, já foram alvos de criminosos, assim como artistas como Amy Winehouse (1983 – 2011) e Xuxa. Na política, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) teve a imagem estampada em porções de maconha em Mogi Mirim (SP) e Anápolis (GO), assim como a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro. Em todos esses casos, não houve comprovação de vínculo de quem aparecia na embalagem com o tráfico de entorpecentes.

Em 2022, Lula e o PT foram alvo de uma peça de desinformação semelhante. Na época, o Departamento de Operações de Fronteira (DOF), órgão de segurança do Mato Grosso do Sul, explicou ao Comprova que as inscrições eram aleatórias e serviam somente como código de identificação do proprietário da droga caso ela chegue ao seu destino.

No ano seguinte, a Advocacia Geral da União (AGU) chegou a notificar o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, que compartilhou em suas redes sociais fotos de tijolos de maconha adesivados com imagens em que Lula aparece “fazendo o L”.

Após a notificação, o secretário apagou a publicação e afirmou que em nenhum momento objetivou associar a imagem do presidente ao tráfico de drogas, mas enaltecer o bom trabalho dos agentes públicos no impedimento de que entorpecentes cheguem ao Estado de São Paulo.

O Comprova procurou a Prefeitura de São Gonçalo, a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro, a Polícia Militar e a Polícia Civil, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

A autora da publicação afirma que é advogada e se apresenta em seu perfil como americana e judia, além de “empreendedora patriota a favor da paz”. Em sua conta no X e no Instagram, além de seu canal no YouTube, compartilha vídeos em apoio a Israel e com críticas a Lula e à esquerda.

Até 6 de novembro, o post somava mais de 217 mil visualizações, 10 mil curtidas, 4 mil compartilhamentos e 674 comentários.

A autora do post foi procurada pelo Comprova, mas não retornou à mensagem enviada até a publicação deste texto.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O conteúdo busca gerar desinformação por meio de um conteúdo político e emocional ao associar a imagem de Lula ao tráfico da região, em um momento onde há grande repercussão social devido à megaoperação no Rio de Janeiro.

A principal estratégia utilizada é o apelo à emoção, especialmente por meio de linguagem ofensiva e agressiva, voltada a despertar indignação e repulsa, ao sugerir que o presidente estaria ligado com o tráfico de drogas.

A narração do vídeo e a legenda do post tentam estabelecer uma conexão causal entre o presidente e o tráfico, com base somente na presença de sua imagem em uma suposta embalagem de droga, uma forma clássica de conteúdo enganoso, que manipula a interpretação de um elemento isolado e fora de contexto.

O objetivo é instrumentalizar a imagem do presidente para reforçar a narrativa política de que ele apoiaria traficantes. A peça de desinformação ainda estimula a viralização com um pedido para as pessoas fazerem circular ao máximo o vídeo, buscando alavancar a disseminação sem que haja tempo para verificação ou reflexão crítica.

Fontes que consultamos: Verificações e reportagens sobre o assunto e as ferramentas de busca reversa de imagens Google Lens, TinEye, Yandex.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais, e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Lula e o PT são frequentemente alvos de peças de desinformação que os associam ao tráfico de drogas. O Comprova já mostrou que outra foto de maconha embalada com imagem do petista era verdadeira, mas não tinha ligação com a campanha do PT e que a sigla CPX em boné usado por ele significa complexo e não tem relação com facção.

Notas da comunidade: Não foi inserida nenhuma nota feita pela comunidade no X.

Política

Investigado por: 06/11/2025

Polícia apreendeu fuzis de diversos países em megaoperação no Rio, mas nenhum de Cuba

Contextualizando
Especialistas detalham modelos de armas confiscadas na ação e explicam rotas de origem dos armamentos.

Conteúdo analisado: Posts nas redes sociais usam o vídeo de um delegado da Polícia Civil do Rio, no qual ele detalha os armamentos apreendidos na operação realizada em 28 de outubro nos complexos da Penha e do Alemão. Sobre o vídeo, há um texto segundo o qual fuzis de Cuba e da Venezuela teriam sido encontrados entre as apreensões.

Onde foi publicado: X e Instagram.

Contextualizando: Perfis nas redes sociais repercutiram um vídeo do site Pleno News, que afirma, incorretamente, que fuzis de Cuba foram encontrados na megaoperação de 28 de outubro que deixou 121 mortos na capital fluminense. A gravação original é do delegado Vinícius Domingos, coordenador da Coordenadoria de Fiscalização de Armas e Explosivos do Rio (Cfae). Ele detalha os armamentos confiscados na ação e destaca os seus países de origem, mencionando o próprio Brasil, Peru, Argentina e Venezuela, sem qualquer citação a Cuba.

Após a repercussão, o site fez uma correção e alterou a legenda do vídeo no Instagram, inserindo uma errata: “Não foi encontrado fuzil de Cuba”. Apesar de ter acrescentado a errata no texto, o vídeo continua publicado, com a informação inverídica de que as autoridades do Rio de Janeiro encontraram armas de Cuba nos complexos do Alemão e da Penha. Até a publicação deste texto, o post com a informação errada não tinha sido retirado do ar.

Procurado, o Pleno News reforçou que, além da errata, a página também destacou, na postagem, o comentário do delegado, que reforçou as origens dos armamentos mostrados no vídeo.

De acordo com um comunicado da Polícia Civil, foram confiscadas 120 armas na operação, sendo 93 fuzis. O arsenal tem origem de países diferentes – entre eles Venezuela, Argentina, Peru, Bélgica, Rússia, Alemanha e Brasil – e inclui modelos usados em zonas de conflito, como AK-47, AR-10, G3, FAL e AR-15.

As postagens identificadas pelo Comprova destacam apreensões de fuzis vindos da Venezuela e, falsamente, de Cuba. Nas publicações, internautas tentam estabelecer uma conexão entre os governos desses países — ambos de esquerda — e uma suposta atuação no abastecimento do crime organizado brasileiro.

Características dos fuzis venezuelanos apreendidos

Apesar de o fuzil venezuelano ter sido destacado na postagem analisada, não existe diferença dele para os que vieram de outros países, de acordo com o analista do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Roberto Uchôa.

“Do ponto de vista técnico ou operacional para o criminoso, um FAL venezuelano, argentino ou brasileiro (desviado) são funcionalmente idênticos. Todos são fuzis potentes, robustos e confiáveis, projetados para uso militar”, explicou ao Comprova.

Uchôa também afirma que o diferencial das armas apreendidas é a rota de origem delas. “Fuzis FAL, sejam da Venezuela, Argentina ou Peru, não são armas compradas no mercado civil, como um AR-15 pode ser nos EUA. A sua presença nas mãos de criminosos aponta quase invariavelmente para o desvio das Forças Armadas ou policiais desses países”, disse.

Segundo ele, a menção a armas venezuelanas sugere uma rota de tráfico consolidada pelo Norte do Brasil, enquanto armas argentinas entram pela região Sul/Sudoeste. Ele opina que não é possível afirmar que todos eles são da mesma origem.

Rotas ilegais das armas

No vídeo analisado, o delegado Vinicius Domingos afirma que as armas têm origem na fronteira com a Amazônia, principalmente as que são de outras Forças Armadas e também entram no Brasil por rota terrestre, a maioria delas vindas do Paraguai.

Em outra postagem, do início de outubro, o delegado detalha as origens de armas apreendidas por policiais no Brasil. Segundo ele, apenas 5% dos armamentos confiscados têm fabricação nacional.

“Isso deixa claro que mais de 95% das armas que hoje estão nas mãos dos criminosos que assolam a sociedade carioca foram de fabricação estrangeira e entraram em nosso país por meio das conhecidas rotas que entram não só armas, drogas e materiais contrabandeados”, detalha.

Na opinião do presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina, José Ricardo Bandeira, a grande parte dos fuzis apreendidos terem origem estrangeira indica que o crime organizado no Rio de Janeiro possui uma estrutura logística robusta de tráfico internacional de armas, capaz de contornar as barreiras nacionais de fiscalização.

“A preferência por fuzis de uso militar e estrangeiros, muitas vezes com o número de série raspado ou falsificado, indica o altíssimo poder de investimento das facções”, explicou, ao Comprova. “ Isso demonstra que o Comando Vermelho e outras facções mantêm conexões diretas ou indiretas com redes de contrabando que se estendem pela América do Sul e até pela Europa, provando o caráter transnacional do crime.”

Perfil da apreensão

Ainda conforme José Ricardo, a apreensão de fuzis estrangeiros de alto calibre, como AK-47 e FAL/G3, confirma o perfil de armamento pesado utilizado pelas grandes facções criminosas do Rio de Janeiro ao longo dos anos.

“A novidade, muitas vezes, não está no tipo de arma em si, mas na escala da apreensão em um único dia e nas evidências de ramificações em outros estados, como as inscrições do “CV AM” – Comando Vermelho do Amazonas –, em algumas armas. O que se tem visto é uma modernização e um aumento de poder de fogo que acompanha a expansão das facções, mas os modelos básicos de fuzis táticos continuam a ser o padrão do arsenal do crime”, explicou.

Fontes consultadas: Postagens da Polícia Civil do Rio, do delegado Vinicius Domingos e os especialistas José Ricardo Bandeira e Roberto Uchôa.

Por que o Comprova contextualizou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta, no monitoramento, um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova fez uma verificação sobre a megaoperação, concluindo que o pedido de apoio feito pelo governo do Rio foi anterior à megaoperação e se dirigiu à Defesa, não à Justiça.

Contextualizando

Investigado por: 05/11/2025

Pedido de apoio feito pelo governo do Rio foi anterior à megaoperação e se dirigiu à Defesa, não à Justiça

Contextualizando
O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, não mentiu ao afirmar que não recebeu pedido de ajuda do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), no caso da megaoperação de 28 de outubro. Como o Comprova contextualiza, houve um pedido de Cláudio Castro, feito no início do ano, ao Ministério da Defesa, sem relação direta com a ação recente.

Conteúdo investigado: Posts dizendo que o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, teria mentido ao dizer que não negou pedido de apoio do governo do Rio de Janeiro em relação à megaoperação que deixou 121 mortos na capital fluminense.

Onde foi publicado: X.

Contextualizando: Um post viral combina a fala do ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, com a imagem de uma carta enviada pelo governador Cláudio Castro ao ministro da Defesa, José Múcio, em 28 de janeiro de 2025, e conclui incorretamente que Lewandowski teria “mentido” ao negar ter recebido solicitação do governo fluminense.

Na gravação, Lewandowski declara: “Não recebi nenhum pedido do governador do Rio de Janeiro enquanto ministro da Justiça e Segurança Pública para esta operação. Nem ontem, nem hoje. Absolutamente nada.” A declaração é de 28 de outubro, dia da operação que deixou 121 mortos nos Complexos do Alemão e da Penha.

O documento exibido na postagem é, de fato, uma carta que Cláudio Castro enviou a Múcio em 28 de janeiro de 2025. Nela, o governador solicita “a valiosa cooperação e apoio logístico da Marinha do Brasil, por meio do fornecimento de veículos blindados, com os respectivos operadores e mecânicos”. A carta, porém, se refere à presença de blindados na região de um hospital carioca onde uma médica militar havia morrido após ser atingida por uma bala perdida em dezembro de 2024.

Em nota da Defesa sobre o assunto, enviada ao Comprova, o órgão confirmou ter recebido o documento e informou que foi submetido à análise da Advocacia-Geral da União (AGU). Afirmou que “a Marinha posicionou veículos blindados no perímetro do hospital, respeitando o limite legal de 1.400 metros em torno de instalações militares, medida voltada à segurança da área e dos militares” na época da morte da capitã. E que a “AGU emitiu parecer técnico indicando que a solicitação do governo do Rio de Janeiro somente poderia ser atendida no contexto de uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), o que demandaria decreto presidencial.”

Ou seja, diferentemente do que afirma o post investigado, Lewandowski não mentiu, pois o Ministério da Justiça não recebeu nenhum pedido e, além disso, a carta de Castro não tinha relação com a recente operação.

Contatado pela reportagem, o Ministério da Justiça afirmou que mantém “cooperação contínua” com o governo do Rio de Janeiro desde 2023, por meio da Força Nacional de Segurança Pública, e que todos os pedidos feitos pelo Estado para emprego da Força Nacional foram atendidos.

Quem criou o conteúdo

O perfil reúne cerca de 317 mil seguidores no X. Em sua biografia, o usuário se apresenta como uma “conta de paródias” e afirma publicar uma “sinopse diária dos assuntos políticos, econômicos, sociais e ocorrências mundanas”.

Apesar de se autodefinir como um perfil humorístico ou de sátira, não fica clara a intenção do autor, e muitas pessoas acreditam que os posts contêm verdades. Com frequência, a página publica conteúdos de cunho político e opinativo, com ênfase em temas de segurança pública, economia e gestão federal. As postagens mais recentes mantêm um tom crítico em relação ao governo Lula e aos ministros.

O Comprova tentou contato com o perfil por meio do e-mail informado na biografia, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Por que o Comprova contextualizou este assunto? O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta, no monitoramento, um tema que está sendo descontextualizado, o Comprova coloca o assunto em contexto. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: Lula autorizou a GLO a atuar em áreas nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro em 2023, com validade até maio de 2024. Você pode ler mais sobre o assunto na verificação feita pelo Comprova sobre mudanças na Anatel.

Comprova Explica

Investigado por: 03/11/2025

Perfis viralizam desinformação com vídeos falsos de apresentadores norte-americanos

Comprova Explica
Especialistas alertam sobre estratégias utilizadas por contas que utilizam rostos de pessoas famosas para espalhar notícias falsas.

Conteúdo analisado: Perfis no TikTok utilizam imagens de pessoas famosas, apresentadores e figuras públicas para divulgar vídeos com notícias falsas, principalmente sobre política. Esses conteúdos usam linguagem sensacionalista e aparência de noticiários reais para atrair visualizações e engajamento.

Comprova Explica: A pedido de leitores, o Comprova investigou perfis no TikTok que simulam programas jornalísticos para espalhar desinformação. Esses perfis publicam vídeos com títulos como “URGENTE” e “NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA”, muitas vezes acompanhados de imagens de apresentadores ou políticos conhecidos. Os conteúdos, no entanto, não foram produzidos pelos veículos de imprensa reais.

O Comprova identificou dois perfis com essas características que, juntos, acumulam mais de 173 mil seguidores. Individualmente, cada um obteve mais de 5 milhões de visualizações em seus vídeos. Ambos adotam estratégias semelhantes e utilizam os rostos dos apresentadores norte-americanos Bill Maher e Stephen Colbert para transmitir notícias sobre o governo brasileiro, sem o aviso de que o conteúdo é gerado por inteligência artificial.

Diante desse cenário, este Explica foi produzido para esclarecer como esses vídeos são criados e por que representam um risco à circulação de informações confiáveis.

Os criadores utilizam recursos de inteligência artificial para simular noticiários reais. Segundo Pedro Burgos, consultor em IA e professor do Insper, “há vários modelos de IA disponíveis para vídeo que podem ser usados para esse tipo de falsificação. O que parece estar sendo feito é: os donos dos perfis pegaram trechos dos vídeos dos apresentadores (e há muito material disso no YouTube) e usaram a IA para fazer a sincronização labial, o lip-sync. Você pode ver que eles fazem sempre os mesmos gestos, o olho pisca um pouco estranho, o que indica que são trechos em loop redublados.”

No TikTok, quando um vídeo é feito por IA, existe a opção de marcar “Conteúdo gerado por IA”. No entanto, nos casos analisados, os perfis não utilizam essa marcação, o que pode levar o público a acreditar que tudo o que se diz é real. De acordo com Liz Nóbrega, coordenadora de comunicação estratégica e inovação no Aláfia Lab e pesquisadora na USP, os vídeos podem violar tanto a legislação brasileira quanto as regras das próprias plataformas.

“Então, a plataforma está sendo omissa ao deixar esse conteúdo circular, porque o próprio TikTok tem regras específicas sobre a desinformação e tem regras sobre mídia e conteúdo gerado por IA”, diz Nóbrega.

Esses perfis exploram a confiança que o público deposita em rostos conhecidos e no formato de programas jornalísticos para conferir credibilidade a informações falsas. A ausência de transparência sobre o uso de inteligência artificial e o descumprimento das regras da plataforma aumentam o risco de desinformação e dificultam que o público identifique o que é real e o que foi manipulado digitalmente.

Bill Maher e Stephen Colbert deram poucas declarações sobre a política brasileira ao longo de suas carreiras. Em janeiro de 2024, Maher publicou no Instagram um vídeo de um trecho do seu talk show, afirmando que a Constituição brasileira está funcionando “bem melhor” do que a americana. Ele fez referência à inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e disse que “depois de 8 de janeiro, quase todo o Brasil se voltou contra os golpistas e transformou Bolsonaro em pária”.

Colbert também já falou das invasões de 8 de janeiro em seu programa. Na época, ele postou um vídeo no Facebook, comparando o caso às depredações ao Capitólio, nos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021. Apesar disso, nenhum dos dois aborda com frequência assuntos da política brasileira, o que reforça a hipótese de que as postagens dos perfis analisados foram geradas por IA.

Nas publicações destas contas, internautas deixam comentários indicando que acreditam na veracidade dos vídeos. Na opinião de Nóbrega, a população permanece muito vulnerável no combate à desinformação. “Se a gente analisar os comentários desses vídeos, a gente consegue perceber muita gente perguntando se é real, e não é. Então, a população está muito vulnerável. É uma enxurrada de conteúdos que circula.”

A pesquisadora explica que esse tipo de manipulação já ocorria na internet, mas exigia um conhecimento técnico bem mais especializado. “Hoje em dia, as pessoas conseguem encontrar qualquer ferramenta. É muito simples fazer buscas e encontrar ferramentas que permitem criar, por exemplo, um telejornal em 5 segundos, com apresentadores, você subir o vídeo de alguma pessoa, alguma autoridade pública, político e ter esse vídeo adulterado”, afirmou.

Fontes consultadas: O UOL Confere conversou com duas pessoas especializadas em inteligência artificial, Liz Nóbrega, coordenadora de comunicação estratégica e inovação no Aláfia Lab e pesquisadora na USP e Pedro Burgos, consultor em IA e professor do Insper.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está gerando muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já produziu outras matérias sobre o uso de inteligência artificial e mostrou, por exemplo, uma foto em que Zezé Di Camargo aparecia declarando apoio a Bolsonaro, mas que havia sido editada com inteligência artificial. Na imagem manipulada, o cantor parecia segurar um cartaz com dizeres falsos. O projeto também explicou o que é deepfake, técnica frequentemente utilizada para produzir desinformação.

Comprova Explica

Investigado por: 31/10/2025

Decreto de educação inclusiva não prevê fim das APAEs; entenda

Comprova Explica
Medida prevê integrar estudantes com deficiência ao sistema regular de ensino, mas eles não serão obrigados a deixar escolas especializadas, diferentemente do que sugerem posts nas redes sociais.

Conteúdo analisado: Vídeos que circulam nas redes sociais afirmam que o governo federal “decretou o fim das APAEs” e que todas as crianças com deficiência seriam obrigadas a deixar as escolas especializadas para estudar apenas na rede pública comum. As postagens fazem referência ao Decreto nº 12.686/2025, que institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, publicado em 21 de outubro.

Comprova Explica: Vídeos publicados nas redes sociais afirmam que o governo federal decretou o fim das APAEs (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) e determinou que todas as crianças com deficiência seriam obrigadas a estudar apenas em escolas comuns da rede pública. As postagens fazem referência ao Decreto nº 12.686/2025, que institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva.

Para entender o que o texto oficial realmente diz e esclarecer se a norma prevê o fechamento dessas instituições, o Comprova analisou o decreto e ouviu as partes envolvidas.

O que diz o decreto?

O Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025, institui a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva (PNEEI) e cria a Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva. O objetivo, segundo o texto, é garantir o direito à educação de pessoas com deficiência, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades ou superdotação, com base na igualdade de oportunidades e sem discriminação.

A nova política estabelece que a educação especial deve ser oferecida de forma transversal em todos os níveis e modalidades de ensino. Isso significa que o atendimento a estudantes com deficiência não será separado da estrutura geral da educação, mas integrado ao sistema regular, com apoio pedagógico e recursos específicos. O decreto determina que os estudantes públicos da educação especial devem estar incluídos em classes e escolas comuns, com as condições e adaptações necessárias para garantir a participação, a permanência e o aprendizado.

Entre os princípios definidos estão a promoção da equidade, o combate ao capacitismo, o reconhecimento da diversidade humana como valor educacional e a colaboração entre a União, os estados e os municípios na execução das políticas públicas. O texto também prevê a universalização da matrícula na educação básica para crianças e adolescentes com deficiência, dos 4 aos 17 anos, em classes comuns da rede regular.

Apesar de enfatizar a inclusão, o decreto mantém o Atendimento Educacional Especializado (AEE) — serviço pedagógico destinado a complementar ou suplementar o ensino de estudantes com deficiência. O texto reforça que o AEE não substitui a matrícula na classe comum e que pode ser oferecido, de forma excepcional, em centros da rede pública ou em instituições sem fins lucrativos conveniadas, como as APAEs e outras entidades filantrópicas.

O decreto também regulamenta o profissional de apoio escolar, que passa a ter atribuições e formação mínima definidas. Esse profissional deve ter nível médio e, no mínimo, 80 horas de formação específica em educação especial, enquanto o professor do AEE precisa ter formação docente e, preferencialmente, carga horária mínima de 80 horas na área. A União deve colaborar com os estados e municípios para oferecer formação continuada a esses profissionais.

Outra mudança é a criação da Rede Nacional de Educação Especial Inclusiva, que será responsável por coordenar a implementação da política, promovendo formação continuada, articulação intersetorial, produção de materiais acessíveis, monitoramento de indicadores e apoio técnico às redes de ensino. Além disso, também prevê apoio financeiro da União, por meio de programas como o Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE) e o Plano de Ações Articuladas (PAR). Por fim, o decreto revoga o Decreto nº 7.611, de 2011, que tratava da política anterior de educação especial, e entrou em vigor na data da publicação, 21 de outubro de 2025.

Embora o debate atual concentre-se principalmente no papel das APAEs na educação especial, essas instituições não se limitam à oferta de ensino. De acordo com informações disponíveis no site da APAE Curitiba, por exemplo, as unidades da rede também oferecem atendimentos nas áreas da saúde, assistência social, psicologia, fisioterapia e fonoaudiologia, além de programas voltados à inclusão profissional e à autonomia das pessoas com deficiência.

Essas atividades seguem em funcionamento e não são afetadas pelo decreto, que trata exclusivamente da organização da política nacional de educação especial no sistema de ensino. Ou seja, mesmo que a política pública de educação se concentre em garantir a matrícula na rede comum, as APAEs continuam existindo e prestando outros tipos de serviços fundamentais às pessoas com deficiência e às suas famílias.

O governo quer acabar com as APAEs?

O Comprova entrou em contato, por e-mail, com o Ministério da Educação (MEC) para verificar se o Decreto nº 12.686/2025 prevê o fechamento ou a substituição das APAEs e de outras instituições que atendem pessoas com deficiência.

Em resposta, o MEC encaminhou o link para uma matéria publicada em seu site oficial, com o título “Entenda a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva”, divulgada em 23 de outubro de 2025. No texto, o ministério afirma que o decreto “não interfere nas atribuições e no financiamento das entidades filantrópicas e comunitárias atuantes na educação especial, como as APAEs, Pestalozzis e congêneres, que seguem garantidos”.

Segundo a pasta, o objetivo da nova política é “complementar e fortalecer as políticas públicas existentes, em consonância com os princípios da educação inclusiva e da colaboração federativa”. A secretária de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão do MEC, Zara Figueiredo, também declarou que “todas as garantias relativas à educação especial inclusiva que foram alcançadas ao longo do tempo estão mantidas neste decreto”.

Ela destacou ainda que o texto não altera a existência do Atendimento Educacional Especializado, que poderá continuar sendo oferecido pelos sistemas públicos de ensino ou por instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos, desde que tenham atuação exclusiva na educação especial e sejam conveniadas com o poder público.

O documento publicado no portal do MEC reforça que a política reafirma o compromisso do país com a Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) e a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, buscando garantir educação sem discriminação e com igualdade de oportunidades.

Além disso, o ministério destaca novas medidas previstas no decreto, como a regulamentação da carreira de profissional de apoio escolar, com formação mínima de 80 horas, e o reforço dos investimentos federais em salas de recursos multifuncionais, tecnologias assistivas e capacitação de professores. Ou seja, de acordo com a resposta encaminhada pelo MEC e com o conteúdo oficial do decreto, não há determinação de extinção das APAEs, nem de substituição dessas instituições por escolas públicas. O texto prevê a manutenção dos convênios existentes e a integração das políticas de educação especial ao sistema regular de ensino, com foco em ampliar o atendimento inclusivo.

O que dizem as APAEs?

A Federação Nacional das APAEs (Fenapaes) manifestou-se sobre o decreto de 23 de outubro, por meio de um vídeo no Instagram e da Nota Técnica nº 03/2025. Nas duas comunicações, a entidade demonstra preocupação com a forma como o decreto foi redigido, mas nega que o “movimento apaeano” seja contrário à inclusão escolar.

No vídeo, o presidente da Fenapaes, Jarbas Feldner de Barros, aparece ao lado do coordenador nacional de Educação, professor Luiz Fernando, e afirma que o decreto “pegou a todos de surpresa”. Ele declara que o movimento apoia o direito à inclusão na rede comum de ensino, mas defende a permanência das escolas especializadas, por considerar que parte do público atendido pelas APAEs “não tem condições de estar dentro da rede comum”.

“Todos vocês sabem que o movimento das APAEs e que a nossa gestão frente à Federação Nacional das APAEs é favorável à inclusão escolar. É um direito do aluno, é um direito da família, a inclusão na rede comum. Porém, nós não abrimos mão e defendemos ardentemente a existência da escola especializada, porque nós temos um público, que é o verdadeiro público das APAEs, que não tem condições de estar dentro da rede comum”, afirmou o presidente.

Na gravação, o professor Luiz Fernando acrescenta que o texto do decreto, “na forma como está estabelecido, não representa o movimento apaeano” e defende a suspensão temporária da norma para permitir o diálogo com o MEC e o Congresso Nacional. Segundo ele, a previsão de “universalização da matrícula em classes comuns” pode “colaborar para o esvaziamento das escolas especializadas”, caso seja interpretada como uma obrigatoriedade de migração para a rede regular.

A Nota Técnica nº 03/2025, assinada pela Fenapaes, reforça esse posicionamento. No documento, a federação declara repúdio ao decreto e apoia o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) nº 845/2025, apresentado pelo senador Flávio Arns (PSB-PR), que propõe a suspensão dos efeitos da norma até nova discussão com o setor. O texto argumenta que o decreto “ultrapassa a moldura da Constituição e da LDB ao transformar uma preferência em exclusividade”, ao estabelecer como meta a “universalização da matrícula em classes comuns”.

Além disso, a nota técnica destaca que a diretriz de “universalização” pode acarretar “riscos de exclusão sistêmica” e “retrocesso social”, caso leve ao enfraquecimento da rede de atendimento especializado. O texto conclui que o movimento apaeano “permanece ao lado das famílias”, buscando “garantir direitos, evitar retrocessos e assegurar o acesso, a permanência e a aprendizagem de estudantes com deficiência intelectual, múltipla e TEA em um sistema verdadeiramente inclusivo”.

Em resposta enviada ao Comprova em 3 de novembro, após a publicação desta verificação, a Fenapaes afirmou que o decreto representa “um retrocesso para a educação especial, uma vez que produz exclusão sistêmica”. Segundo a entidade, a norma “pode ser lida e operacionalizada como uma imposição automática, convertendo preferência em exclusividade”, o que “tende a deixar estudantes com maior necessidade de suporte sem acesso educacional algum, caracterizando um grave retrocesso social”.

A federação também destacou que o Decreto nº 12.686/2025 revoga o Decreto nº 7.611/2011, que previa a distribuição de recursos do Fundeb, e que a nova norma “não traz em sua redação afirmações sobre o financiamento das escolas especializadas”. A Fenapaes ressalta que a Lei nº 14.113/2020 (Fundeb permanente) reconhece, no plano do financiamento, a coexistência de diferentes arranjos de educação especial, abrangendo tanto alunos matriculados em classes comuns da rede regular quanto aqueles atendidos em escolas e serviços especializados mantidos por instituições conveniadas.

Ao ser questionada sobre o risco de as APAEs deixarem de atuar ou perderem repasses por causa da norma, a federação respondeu que “o decreto não reconhece a atuação das escolas especializadas na composição de um sistema educacional inclusivo”, e que, em curto prazo, “os estudantes com deficiência intelectual, múltipla e autismo podem ter como única opção de matrícula a escola comum”. A Fenapaes também informou que “a federação e as entidades coirmãs não foram consultadas nem convidadas a colaborar na redação do decreto”, o que, segundo a nota, revela “um debate restrito que excluiu profissionais da educação especial, estudantes com deficiência e suas famílias”.

O que diz a especialista?

Ao Comprova, a professora associada da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Mariangela Lima de Almeida destacou que desde a década de 1990 diversos países têm tentado estabelecer políticas em prol de processos de inclusão nas escolas e nas classes comuns para alunos públicos da educação especial, a partir de normativas internacionais.

Mariangela, que atua na linha de Educação Especial e Processos Inclusivos e é líder do Grupo de Pesquisa “Formação, Pesquisa-ação e Gestão de Educação Especial” na Ufes, ressalta que o documento de 2025 reitera o compromisso do poder público de constituir dispositivos para a inclusão da pessoa com deficiência na escola comum.

“Esse é um movimento que vem se reafirmando ao longo principalmente dos anos 2000 com a Resolução nº 02/2001 que institui as diretrizes nacionais de educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Então o documento agora de 2025 vem nesse movimento de reafirmar esse compromisso com a permanência, aprendizagem e o atendimento necessário para esse grupo de estudantes.”

Sobre os vídeos que sugerem que o decreto colocaria fim às APAEs, a professora manifesta que é importante ler com atenção o texto proposto pelo governo federal, uma vez que não está prevista a alteração das legislações vigentes que tratam dessa oferta de instituições de atuação exclusiva na educação especial, como as instituições conveniadas filantrópicas.

“A partir do movimento mundial em prol da inclusão do direito à educação de todos, a educação pública, a educação com qualidade, a sua permanência e o seu processo de aprendizado, o Brasil, conforme também o movimento internacional, vem estabelecendo uma rede, que agora o decreto traz a perspectiva dessa criação de uma rede articulada para a inclusão desse alunado. Então é importante que não existe o fim dessas escolas. É um movimento que já vem se situando em várias outras legislações e que essas instituições podem sim atuar, como diz aqui no artigo 9 do decreto, no atendimento educacional especial. E é importante que essa criança, esse jovem, esse adolescente, esse adulto esteja também matriculado nas escolas comuns.”

A professora entende, por fim, que o Atendimento Educacional Especializado não pode ser tratado como um “substitutivo”, ou seja, deve ser complementar ou suplementar à escolarização e deverá ocorrer de modo articulado com o ensino comum, premissa que não é de agora e vem desde a década de 90.

Fontes consultadas: Decreto nº 12.686/2025, Ministério da Educação, Federação Nacional das APAEs, Nota Técnica nº 03/2025 e professora Mariangela Lima de Almeida.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está gerando muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: Políticas de educação são alvos frequentes de discussão nas redes sociais. O Comprova já explicou, por exemplo, que a proposta do Programa Pé-de-Meia de pagar R$ 9,2 mil a aluno de baixa renda que fizer o ensino médio e concluir o Enem e mostrou ainda que o Fies foi criado no governo de Fernando Henrique Cardoso e não de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Política

Investigado por: 30/10/2025

Não há evidências de que brasileiros estariam fugindo ‘em massa’ para o Paraguai por ser um país governado pela direita

Política
Estatísticas do Ministério das Relações Exteriores indicam que o fluxo migratório para o país vizinho vem crescendo desde a última década.

Diferentemente do que sugerem publicações na internet, não há uma “fuga em massa” de brasileiros indo morar no Paraguai por ele ser “governado pela direita”. O fluxo migratório entre ambos os países é motivado por diferentes fatores e vem crescendo constantemente nos últimos anos, tanto durante o governo Lula (PT), de esquerda, quanto durante o mandato de Jair Bolsonaro (PL), de direita, entre 2019 e 2022.

A imagem de uma página do Instagram diz: “‘Fuga em massa’: brasileiros deixam o Brasil rumo ao Paraguai governado pela direita”.

O Comprova não localizou a postagem original. No entanto, outros portais publicaram, no início de outubro, textos com o mesmo teor. Um deles aponta que foram concedidas 17.139 residências a cidadãos do Brasil em 2024, o que representa 60,21% do total de imigrantes registrados no Paraguai no ano, informação confirmada pelo Departamento de Migrações do país em comunicado.

A mesma instituição destaca, em outra nota, que no primeiro semestre de 2025, o Brasil se manteve no topo do ranking de solicitações de residência, com um total de 11.723 pedidos.

Entretanto, dados do Ministério das Relações Exteriores indicam que o número de brasileiros vivendo no Paraguai vem crescendo há anos, independentemente da orientação política dos presidentes do Brasil.

Desde 2018, o Itamaraty divulga, em seu site, os Relatórios Consulares Anuais, que destacam o crescimento na quantidade de migrantes no país vizinho de 235.670 para 263.200, um aumento de aproximadamente 11,7%, até 2023, último ano com um levantamento das informações de migração entre Brasil e Paraguai disponível.

Apenas entre 2018 e 2022, período que abrange o fim do governo de Michel Temer até a gestão Bolsonaro, o número de brasileiros morando no Paraguai subiu de 235.670 para 254.000. Veja os dados detalhados a seguir, segundo os Relatórios Consulares Anuais do Itamaraty

 

O presidente do Paraguai é Santiago Peña, do Partido Colorado, identificado com o conservadorismo e o liberalismo econômico. O partido governa o país desde 2013, com os mandatos de Horacio Cartes e de Mario Abdo Benítez até a posse do atual mandatário, em 2023.

Especialistas discordam de ‘fuga em massa’

Ao Comprova, Paulo Illes, diretor executivo da 4Rs Consultoria em Migração e ex-coordenador de Políticas Migratórias do Ministério da Justiça e Segurança Pública, considerou a ideia de “fuga em massa” de brasileiros para o Paraguai uma leitura “muito rasa da realidade”.

“O Paraguai sempre foi um país de destino para brasileiros. Nos últimos anos — e não é de agora, no governo Lula —, o Paraguai vem implementando políticas de atração de investimentos. Um exemplo é a Lei das Maquilas, criada há mais de dez anos, que reduziu impostos e lançou campanhas mostrando que era mais barato produzir no Paraguai e vender no Brasil do que produzir na China e vender no Brasil”, disse.

Ele também esclareceu que o país tem se beneficiado do uso da energia de Itaipu e que vive um verdadeiro ‘boom’ industrial. “Muitas empresas brasileiras têm se instalado lá, aprofundando o processo de integração econômica. Portanto, não se trata de uma descoberta recente nem de um movimento motivado por questões políticas no Brasil, mas sim de uma estratégia de desenvolvimento do próprio Paraguai para atrair investimentos e fortalecer sua indústria.”

Paulo também ressalta que o fluxo migratório do Brasil para o Paraguai vem crescendo desde a década de 1970, sob o governo Médici. “Quando a gente fala que o Paraguai é o país da América do Sul com mais brasileiros, isso tem tudo a ver com aquele grande fluxo migratório das décadas de 1970 e 1980. Foi um período em que os laços entre o Brasil e o Paraguai se restabeleceram. O Brasil devolveu símbolos pátrios paraguaios tomados na Guerra da Tríplice Aliança, foi construída a Ponte da Amizade e surgiu o projeto de Itaipu, a maior obra binacional do continente.”

O especialista enfatiza que diversos brasileiros que migraram para o Paraguai no último século retornaram entre 2000 e 2015, mas muitos permaneceram e se consolidaram como grandes produtores de soja no país. “O que muda agora é que, com a Lei das Maquilas, o Paraguai passou a atrair também mão de obra brasileira, principalmente para o setor industrial. Isso tem gerado novos fluxos migratórios, inclusive com debates sobre as condições de trabalho nessas empresas”, ponderou.

A jornalista Hannah de Moliner, administradora da página Brasileiros em Assunção, destacou que desde a pandemia, o Paraguai tem se tornado um destino atrativo para os brasileiros por uma série de fatores.

“Eu acho que tem uma questão política, mas não sei dizer se todos que estão aqui vieram por esse motivo apenas, da reprovação do governo do Brasil. Se fala muito isso nas redes, mas pelo menos aqui em Assunção, tem muita gente que vem estudar medicina também. Tem gente que saiu do Brasil com uma proposta melhor que encontraram aqui, principalmente na área de tecnologia, porque eles buscam profissionais nessa área, empresas internacionais”, afirmou.

Na opinião de Hannah, o Paraguai possui algumas vantagens em comparação com o Brasil, como impostos menores e um custo de vida mais baixo, dependendo do local onde o residente mora. “O custo de vida é mais baixo, principalmente se você vem de alguma das capitais [do Brasil], em especial falando do eixo São Paulo e Rio de Janeiro. Comparando com esses meios aqui, eu diria que vivemos pelo menos 30% mais barato. Agora, depende muito. Tem gente que vem lá do interior do Maranhão para cá e fala que aqui é mais caro”, opinou.

Qual o tamanho da comunidade brasileira no exterior?

A comunidade brasileira no exterior cresce ano após ano. Ela passou de quase 2,8 milhões de pessoas vivendo em outro país em 2015 para cerca de 4,9 milhões em 2023. Veja os dados, conforme os Relatórios Consulares Anuais (o Ministério não divulgou o número de alguns anos, e em outros, divulgou apenas os números aproximados):

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O autor do conteúdo analisado é um perfil no Instagram que diz ser um veículo de notícias e teria publicado, em suas redes, a manchete “‘Fuga em massa’: brasileiros deixam o Brasil rumo ao Paraguai governado pela direita”. No entanto, o Comprova não conseguiu localizar o texto em questão. Procurado, o “Gospel News”, que tem mais de 19 mil seguidores no Instagram, não respondeu aos nossos questionamentos.

A imagem também foi repostada no X por um perfil com mais de 90 mil seguidores, com a legenda: “A pior coisa que pode acontecer a um cidadão é ter que deixar o seu país para fugir de um desastre econômico”. A descrição da conta indica que ele posta sobre “política e temas aleatórios”, com postagens de teor à direita. O perfil não permite o envio de mensagens diretas e, portanto, não foi possível contatá-lo.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A imagem do post apresenta o presidente paraguaio Santiago Peña e um texto que induz o leitor a acreditar que a motivação de um fluxo migratório intenso de brasileiros para o Paraguai é o fato do país vizinho ser governado pela direita, enquanto Lula (PT) é o mandatário do Brasil.

O post usa uma captura de tela que simula uma notícia, o que dá a sensação de credibilidade para o leitor, mesmo que tudo tenha sido inventado. Pessoas com uma visão mais crítica à esquerda podem acreditar mais facilmente no conteúdo, pois ele se alinha ao que já acreditam. Assim, elas não refletem se o texto faz sentido nem buscam outras fontes.

Fontes que consultamos: Dados do Departamento de Migração do Paraguai [1] [2], Ministério das Relações Exteriores, Paulo Illes e Hannah de Moliner.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já avaliou um post enganoso que tratou a quantidade de brasileiros no exterior como fluxo migratório recente, além de uma publicação sobre uma “fuga recente de venezuelanos” ao Brasil.

Política

Investigado por: 29/10/2025

Vídeo de produtor criticando governo por conta do preço do arroz é de 2018

Política
Gravação voltou a circular; tirada de contexto, sugere erroneamente que homem estaria criticando governo Lula, quando, na verdade, presidente era Michel Temer.

Vídeo que mostra um homem descartando arroz em frente a uma agência do Banco do Brasil enquanto critica o governo está sendo usado fora de contexto. A gravação é verdadeira, mas foi feita em 2018, não em 2025. Ou seja, diferentemente do que os posts atuais sugerem, o protesto, realizado em Querência do Norte, no Paraná, era contra o governo de Michel Temer (MDB), presidente à época, e não contra Lula (PT), o atual chefe do Executivo.

O homem que aparece no vídeo afirma, entre outros pontos, que “não compensa plantar arroz” porque o produto “não tem valor” e que o Brasil está sendo governado “por uma quadrilha”. Ao fazer uma busca no Google com as palavras “produtor”, “arroz”, “banco” e “Paraná”, o Comprova encontrou uma reportagem publicada em 25 de maio de 2018 pela BandNews TV. No YouTube, uma pesquisa por “arroz” e “Querência” mostrou o vídeo publicado dois dias antes.

Segundo o veículo, “entre as principais reivindicações dos rizicultores estão a diminuição dos gastos de produção por meio de cortes de impostos e uma negociação com o Mercosul” para rever acordos sobre a entrada de arroz do Paraguai no Brasil.

No vídeo, o homem também afirma que os produtores vão se juntar aos caminhoneiros “para pedir para esse Brasil um basta”. Ele diz que os caminhoneiros estão parados e critica a alta do preço do combustível. A paralisação começou em 21 de maio de 2018 e durou dez dias.

Coluna da Folha de S.Paulo publicada em 23 de maio daquele ano, mesma data da publicação do vídeo no YouTube, dizia que, segundo Vlamir Brandalizze, analista da Brandalizze Consulting, de Curitiba, a saca de arroz “está sendo vendida entre R$ 35 e R$ 36, um valor que não cobre o custo de produção, próximo de R$ 40”.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

Um dos perfis que publicou o vídeo, retirando-o de contexto, tem apenas sete publicações. Os três primeiros posts são com imagens de crianças, e os quatro mais recentes são sobre política – dois deles contêm desinformação. Além do post verificado aqui, o perfil também desinforma na penúltima publicação, com um vídeo que diz, erroneamente, que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, teria dito que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) teria cobrado poucos impostos dos brasileiros, o que não é verdade, como verificado pelo Comprova.

O post sobre o protesto no Paraná tinha 29,2 mil compartilhamentos e 42,2 mil curtidas até 29 de outubro.

O Comprova tentou contato com o perfil, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Por que as pessoas podem ter acreditado

Ao utilizar um vídeo gravado durante a gestão Temer e apresentá-lo como se fosse um evento atual, o vídeo usa a tática da descontextualização, muito comum entre os desinformadores.

Sem informar a data em que ocorreu, as pessoas — principalmente as que já têm uma visão negativa sobre Lula — logo pensam que as imagens são de agora. E, ao se depararem com algo que confirma o que elas já acreditam, a chance de os internautas verificarem a informação é menor.

Fontes que consultamos: Pesquisa no Google e reportagens sobre produção de arroz e a greve dos caminhoneiros em 2018.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais, e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Estadão Verifica, Reuters e Lupa também verificaram o mesmo conteúdo. Outras publicações que usavam a produção de arroz para desinformar já foram investigadas pelo Comprova, como a que dizia, de forma enganosa, que o arroz chinês era de plástico e seria importado para o Brasil. Na seção Comprova Explica, foi detalhada a medida do governo de zerar taxa de importação do arroz e suas consequências.

Comprova Explica

Investigado por: 27/10/2025

Entenda por que os Correios querem empréstimo de R$ 20 bilhões

Comprova Explica
Com aumento nas despesas e queda nas receitas ao longo dos últimos anos, estatal chegou a um prejuízo de R$ 2,6 bilhões em 2024.

Conteúdo analisado: Publicação que responsabiliza o governo Lula (PT) pela crise nos Correios.

Comprova Explica: Os Correios comunicaram, no dia 15 de outubro, que iniciaram negociações com bancos públicos para obter um empréstimo de R$ 20 bilhões, como parte de um programa de reestruturação financeira da empresa. Para mostrar como a estatal chegou a essa situação, o Comprova explica o caso.

Indicadores dos Correios em baixa em 2024

A crise nos Correios pode ser explicada por diferentes índices que apresentaram desempenho negativo, conforme a última demonstração contábil de 2024, publicada no Diário Oficial da União em 9 de maio de 2025.

Desempenho financeiro: foi registrado prejuízo de R$ 2,6 bilhões, quatro vezes maior do que o registrado em 2023, estimado em R$ 597 milhões. Foi a primeira vez, desde 2016, que os Correios tiveram prejuízo bilionário em suas operações, sendo que, na época, o rombo foi de R$ 1,5 bilhão (R$ 2,3 bilhões em valores atualizados).

Total de ativos: atingiu R$ 16 bilhões, o que representa uma queda de 11,20% em comparação com 2023, devido principalmente à redução de R$ 3 bilhões nas aplicações financeiras.

Patrimônio líquido: estava negativo em R$ 360 milhões em 2023 e passou a um valor negativo de R$ 4,4 bilhões em 2024. Ou seja, os passivos (dívidas totais) superaram os ativos (bens e dinheiro em caixa).

Despesas gerais e administrativas: passaram de R$ 4 bilhões em 2023 para R$ 4,7 bilhões em 2024.

Receita total: houve uma redução de 0,89%, passando de R$ 21,67 bilhões em 2023, para R$ 21,47 bilhões em 2024, sendo que na receita de vendas e serviços foi de 1,74%. De acordo com a estatal, o resultado negativo foi impactado principalmente pelos serviços internacionais e de mensagens, que registraram diminuições de R$ 531 milhões e R$ 157 milhões, respectivamente.

O serviço de encomendas, por sua vez, teve um desempenho positivo, com um aumento de R$ 157 milhões em relação a 2023. As despesas totais apresentaram crescimento de 7,91%, passando de R$ 22,30 bilhões para R$ 24,06 bilhões no período avaliado.

 

Situação permanece ruim em 2025

No dia 5 de setembro, a empresa divulgou as demonstrações contábeis do segundo trimestre deste ano, nas quais registrou queda nas receitas, crescimento das despesas operacionais e aumento dos passivos judiciais.

As receitas totalizaram R$ 8,9 bilhões no primeiro semestre, o que representa uma redução de 9,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. O segmento de encomendas respondeu por R$ 4,7 bilhões do total das receitas de vendas. Já o segmento internacional somou R$ 816 milhões, o que representa uma queda de 61,3% em relação ao primeiro semestre de 2024.

As despesas do período chegaram a R$ 13,4 bilhões, com destaque para os pagamentos de precatórios, que registraram um aumento de 512%. Por outro lado, itens como transporte, serviços de terceiros, aluguéis e utilidades tiveram redução.

Na avaliação do especialista em Direito Empresarial Marcelo Godke, ouvido pelo Comprova, ao longo dos últimos anos, a estrutura da estatal ficou pesada, cara e pouco competitiva.

“Além disso, o mundo mudou. O envio de cartas e boletos caiu drasticamente, enquanto o comércio eletrônico exigiu logística ágil, rastreamento em tempo real e automação. Empresas privadas se modernizaram rapidamente, mas os Correios ficaram presos à burocracia, greves, passivos trabalhistas e decisões políticas. O resultado foi a perda de espaço no mercado e o acúmulo de prejuízos”, disse.

Justificativas dos Correios para a crise

Tanto no balanço financeiro de 2024 quanto no do segundo semestre de 2025, os Correios citam “modificações na regulação dos produtos importados” como justificativa do resultado negativo das receitas, alegando que o setor foi “fortemente afetado por mudanças regulatórias recentes”.

As mudanças na regulação citadas pela empresa dizem respeito ao programa “Remessa Conforme”, criado pelo Ministério da Fazenda em 2023, no qual o governo federal passou a cobrar imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, até então isentas para as empresas. A medida ficou conhecida como “taxa das blusinhas”.

Com esse programa, deixou de ser obrigatório usar os Correios para a distribuição doméstica dessas encomendas, permitindo que outras transportadoras realizassem o serviço.

Os Correios manifestam ainda que o setor privado de logística no Brasil vem passando por uma transformação acelerada, impulsionada pelo crescimento do e-commerce, pela tecnologia e por modelos de entrega cada vez mais rápidos e agressivos. Desta forma, na avaliação da estatal, a ausência de investimentos nos últimos anos aumentou a pressão sobre estruturas operacionais e administrativas mais rígidas e de custo elevado, reduzindo sua competitividade.

A situação do empréstimo

Até o momento, o contrato de crédito ainda não foi fechado e está em fase de negociação, segundo o presidente da companhia, Emmanoel Schmidt Rondon. O modelo proposto é o de um consórcio de bancos, em que instituições financeiras atuam de forma conjunta para ofertar o capital necessário, em termos compatíveis com o mercado de crédito atual.

“Estamos optando por uma operação que os Correios conseguem suportar, à luz dos resultados que esse pacote de reestruturação vai começar a produzir, com técnica e responsabilidade. O setor postal enfrenta desafios no mundo inteiro, mas o caminho é o mesmo em todos os países que conseguiram reagir: gestão e eficiência. O plano dá início a uma agenda de reequilíbrio, com medidas concretas, baseadas em transparência e governança”, afirmou Emmanoel Rondon.

No dia 23 de outubro, o presidente da Caixa Econômica Federal, Carlos Vieira, afirmou à Folha de S.Paulo que o banco vai criar um fundo imobiliário com imóveis dos Correios para ajudar a estatal a obter novas receitas e reequilibrar sua situação financeira. Segundo ele, a medida é complementar à concessão de um empréstimo, na qual a participação da Caixa ainda está em discussão.

Plano de recuperação dividido em três grupos de medidas

O empréstimo bilionário solicitado pela empresa faz parte de um plano de reestruturação mais amplo que inclui três grupos de medidas:

Corte de despesas operacionais e administrativas: a empresa afirmou que realizará um novo Programa de Demissões Voluntárias (PDV), com foco mais amplo, no qual será realizado um diagnóstico da força de trabalho, com um mapa de setores da companhia ou de territórios com desempenho insatisfatório. Empregados nessas situações poderão aderir, reduzindo a pressão na folha de pessoal.

Também está previsto um programa de venda de imóveis da estatal que estejam ociosos, o que possibilita a entrada de capital. Com isso, haverá também a redução de gastos com a manutenção desses espaços. Além disso, a empresa prevê renegociar contratos com seus maiores fornecedores em busca de condições mais vantajosas.

Recuperação da liquidez: busca por um aumento imediato na liquidez da empresa, por meio do empréstimo de R$ 20 bilhões, para dar conta da necessidade de caixa de 2025 e 2026, período no qual a estatal avalia que as demais medidas começarão a gerar resultados.

Diversificação de receitas e recuperação do caixa: a estatal pretende fazer um esforço de reaproximação com grandes clientes, ao mesmo tempo em que estuda experiências internacionais de atividades que possam ser acopladas à rede logística, sobretudo na área de serviços financeiros.

Segundo a estatal, essas medidas serão aprofundadas nas fases posteriores do Plano de Reestruturação, que dependem da empresa retomar sua plena capacidade operacional e sua saúde financeira para que surtam efeito.

O que a estatal pode fazer

Marcelo Godke ressalta que a recuperação judicial não é uma opção para os Correios, uma vez que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que empresas estatais não podem se valer dos benefícios da Lei de Recuperação Judicial e Falências. “Ou seja, ao contrário de companhias privadas, os Correios não podem recorrer ao Judiciário para renegociar dívidas, suspender execuções ou reestruturar contratos nessa via”, explica.

No entendimento dele, a saída da crise passa por discussões sobre privatização ou capitalização com controle privado, com o Estado somente regulando serviços essenciais, e também abrange gestão profissional e metas de desempenho, com fim de indicações políticas e foco em resultados; e parcerias estratégicas e inovação, usando a capilaridade dos Correios para atuar em logística de e-commerce, medicamentos, entregas internacionais, armazenagem e tecnologia.

Fontes consultadas: Demonstrações contábeis, boletins com os resultados financeiros dos Correios, reportagens sobre o tema e o especialista em Direito Empresarial Marcelo Godke.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está gerando muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já explicou que as razões que levaram ao déficit de R$ 2 bilhões nos Correios vão além da “taxa das blusinhas” e já desmentiu uma peça de desinformação envolvendo a estatal, mostrando que a distribuição de material de campanha pela estatal era regular, ao contrário do que dizia homem em vídeo.

Política

Investigado por: 23/10/2025

Foto em que Zezé Di Camargo pede liberdade para Bolsonaro foi gerada por IA

Política
Apesar de já ter se manifestado em favor da anistia aos condenados pelo 8 de janeiro, não há registros de que o cantor tenha levantado cartaz e vestido blusa em apoio ao ex-presidente.

Circula no X uma foto na qual o cantor Zezé Di Camargo aparece supostamente segurando um cartaz pedindo liberdade para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado à prisão por atentar contra a democracia, e vestindo uma camisa escrita “Eu apoio Bolsonaro”. A imagem não é verdadeira e foi gerada por inteligência artificial.

No dia 17 de outubro, o cantor chegou a levantar uma camisa pedindo anista para os presos acusados de participarem dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. No entanto, não estava com a camisa azul nem segurando cartazes, diferentemente do alegado na publicação.

Apesar de ser parecido com o cantor, o rosto na foto do post tem traços um pouco diferentes dos do artista, aparentando ser mais jovem. Além disso, a banda aparece tocando normalmente ao fundo, sem olhar para Zezé. São indicativos de que houve uma mistura de imagens com alterações digitais.

O Comprova submeteu a imagem à ferramenta SynthID, que consegue identificar se uma foto foi feita por humanos ou gerada por inteligência artificial do Google. A plataforma detectou uso de IA na parte central da imagem, onde aparecem o rosto semelhante ao do cantor, a camisa e o cartaz.

Como o Comprova explicou em junho, ferramentas de detecção de inteligência artificial podem falhar em buscas e checagens, mas, neste caso, a plataforma utilizada é do Google e mostrou que a imagem foi feita com outras ferramentas do próprio Google.

| Captura de tela da ferramenta SynthID. Na imagem à direita, é possível ver em azul as partes que foram geradas por IA.

A imagem também foi analisada pelo especialista em Segurança da Informação Gilberto Sudré a partir da ferramenta Foto Forensics. O especialista também encontrou sinais de adulteração (abaixo). “As marcas brancas indicam que esses objetos foram incluídos posteriormente na imagem”, explicou.

Além disso, por meio da busca reversa de imagens, tanto do Google Lens, como de ferramentas como TinEye, Yandex e Bing, não foram encontradas fotos semelhantes com Zezé Di Camargo com o cartaz declarando apoio explícito ao ex-presidente. A busca reversa é uma pesquisa que usa uma imagem em lugar de palavras para localizar imagens semelhantes publicadas na internet. Quando encontradas, elas servem para comparação ou para obter informações de contexto, como local e data de publicação, por exemplo.

Nas redes sociais do cantor e nas de fã-clube do artista também não foram localizados registros. O Comprova entrou em contato com Zezé Di Camargo, por meio da assessoria do cantor, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O perfil que fez a publicação se identifica como de direita e bolsonarista, tendo 78,7 mil seguidores no X. As postagens fazem críticas ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), à esquerda e ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A publicação analisada teve, até o dia 22 de outubro, 38 mil visualizações, seis mil curtidas, mil compartilhamentos e 306 comentários.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O uso de inteligência artificial fez com que o rosto da foto ficasse semelhante ao de Zezé Di Camargo. Somado a isso, o fato do cantor já ter se manifestado politicamente em outras ocasiões a favor de Bolsonaro e de opositores do PT pode ter feito com que as pessoas acreditassem que ele teria declarado apoio novamente ao ex-presidente.

Nas eleições de 2014, o cantor pediu votos para Aécio Neves (PSDB), que disputava a presidência com Dilma Rousseff (PT). Em outubro de 2022, fez parte do grupo de sertanejos que se reuniu com Bolsonaro em Brasília antes do segundo turno das eleições presidenciais daquele ano.

Fontes que consultamos: As ferramentas SynthID, Google Lens, TinEye, Yandex e Bing, além da assessoria do cantor.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O uso de inteligência artificial para manipular imagens é uma tática muito utilizada por desinformadores. A AFP, por exemplo, já mostrou que um vídeo no qual Zezé Di Camargo aparecia declarando apoio a Lula havia sido criado digitalmente.

O Comprova já fez checagens semelhantes e mostrou que o vídeo em que Ivete Sangalo elogia o petista foi criado com IA, assim como a suposta gravação na qual Celso Amorim teria abraçado Nicolás Maduro.

Notas da comunidade: No X, não havia sido incluída nenhuma nota pela comunidade até a publicação desta verificação.

Política

Investigado por: 22/10/2025

Governo dos EUA não cancelou o visto do general Paiva

Política
Não há registros oficiais ou declarações que confirmem a afirmação de uma postagem segundo a qual o visto do comandante do Exército teria sido cancelado pela Casa Branca. Além disso, o Exército afirmou que a informação é falsa.

Diferentemente do que diz um post no X, o visto do general Tomás Paiva não foi cancelado pelo governo dos EUA. O conteúdo verificado mostra uma foto do militar e um texto, com alguns erros de português, alegando que o visto do general foi cancelado pelo atual secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. O Comprova não encontrou nenhuma publicação de Rubio sobre o assunto.

Os EUA cancelaram os vistos dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, de servidores ligados ao Ministério da Saúde e do próprio ministro Alexandre Padilha, e do advogado-geral da União, Jorge Messias. Em todos os casos de cancelamento de vistos, a informação foi divulgada em sites oficiais do governo americano. Não há registros envolvendo o nome de Paiva.

O Comprova também procurou o Centro de Comunicação Social do Exército para verificar se haveria alguma sanção a Paiva. Em resposta, a assessoria declarou que a informação é inverídica e lamentou “publicações especulativas e irresponsáveis” divulgadas nas redes sociais.

Ao checar o site do Departamento de Estado americano, a reportagem constatou que a mais recente nota que cita representantes brasileiros foi divulgada no dia 16 de outubro. Ela trata da reunião entre Marco Rubio, o representante de Comércio dos EUA Jamieson Greer, e o chanceler brasileiro Mauro Vieira.

O ato mais recente do governo dos EUA que envolve sanções a cidadãos do Brasil ocorreu em 22 de setembro, quando a esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, foi adicionada ao rol de afetados pela Lei Magnitsky.

É sabido, contudo, que bolsonaristas fizeram uma articulação política que visava incluir Paiva na relação de pessoas sujeitas à punição com o cancelamento do visto americano, conforme noticiado pelo Estadão em setembro

Foi anunciado, à época, que o procedimento estava sendo analisado pela administração dos EUA. O argumento era que o general teria um vínculo estreito com o ministro Alexandre de Moraes.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O perfil que publicou o conteúdo costuma compartilhar postagens de teor político e provocativo, frequentemente críticas a autoridades e instituições brasileiras. O tom da publicação é sensacionalista e parece buscar engajamento e polarização.

Não foi possível confirmar se o responsável pela publicação é o autor original da imagem ou apenas a republicou de outra fonte. Até o momento, não houve resposta ao contato para verificar as fontes ou as intenções por trás da postagem.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação usa várias táticas para enganar e convencer o público. Ela menciona nomes verdadeiros, como o senador americano Marco Rubio e o general brasileiro Tomás Miguel Ribeiro Paiva, o que dá aparência de credibilidade, mesmo sem apresentar provas. Ao usar figuras conhecidas e cargos reais, o texto faz parecer que a informação veio de uma fonte confiável.

O tom usado é firme e urgente, com frases como “hoje eu cancelo o visto” e “a partir de hoje ele está proibido”, o que passa a ideia de que a decisão já foi tomada e que se trata de um fato confirmado. Essa linguagem enfática reduz a chance do leitor questionar ou buscar uma checagem.

A imagem do general fardado reforça a sensação de seriedade e autoridade, dando ao post aparência de um comunicado oficial. O conteúdo mistura informações verdadeiras (nomes e cargos reais) com uma informação falsa (o suposto cancelamento do visto), o que confunde o público e torna o boato mais convincente.

Em resumo, a publicação é convincente porque combina aparência de autoridade, emoção, repetição e ausência de fontes verificáveis, levando muitas pessoas a acreditar e espalhar uma informação completamente falsa.

Fontes que consultamos: Canais oficiais do Departamento de Estado dos EUA, UOL, G1, Estadão e o Centro de Comunicação Social do Exército.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O projeto Comprova verificou e desmentiu a alegação de que os filhos de Barroso teriam sido deportados dos Estados Unidos ou estariam foragidos. O UOL Confere e o Aos Fatos também publicaram checagens sobre o mesmo tema, concluindo que as informações são falsas.

Notas da comunidade: Não havia notas da comunidade nas postagens no X até o fechamento desta verificação.