O Projeto Comprova reúne jornalistas de 33 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas, processo eleitoral e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vem sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
Filtro:

Políticas públicas

Investigado por:2021-02-26

É falso que ‘novo presidente’ da Petrobras tenha demitido 300 funcionários da companhia

  • Falso
Falso
O general Joaquim Silva e Luna ainda não assumiu o comando da petroleira, uma vez que sua indicação deve passar pela análise de órgãos internos da empresa. Ele não teria como, portanto, ter demitido ninguém.
  • Vídeo no Facebook com a tarja “Faxina na Petrobras” faz várias afirmações sobre a empresa e diz que o “novo presidente” já teria demitido 300 funcionários.

É falso que o general Joaquim Silva e Luna, novo indicado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para o comando da Petrobras, tenha demitido mais de 300 funcionários do prédio central da companhia, como sugere vídeo viral no Facebook. O conteúdo mistura trechos de uma reportagem veiculada no Jornal Nacional e um áudio inverídico que circula no WhatsApp.

A matéria original não menciona demissões de funcionários da Petrobras e destaca que o nome de Silva e Luna ainda precisa ser “referendado” pelo conselho administrativo da estatal. O general ainda não assumiu o comando da petroleira, uma vez que sua indicação deve passar pela análise de órgãos internos da empresa. Ele não teria como, portanto, ter demitido ninguém. 

O vídeo verificado também apresenta um boato infundado de que 3,2 mil funcionários ligados ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu (2003-2005), do PT, teriam criado empresas paralelas para revender o combustível da Petrobras a preços elevados no Brasil. Não há registros públicos ou notícias na imprensa profissional que sustentem essa alegação.

Em nota ao Comprova, a Petrobras negou que as afirmações contidas no post sejam verdadeiras. A empresa ainda desmentiu mensagens semelhantes segundo as quais o general Silva e Luna desocupou um andar inteiro do edifício da Petrobras e empregou a inteligência do Exército e a Polícia Federal na companhia. A PF disse em nota que a corporação não havia sido informada sobre esse tipo de operação. 

Além disso, o post confunde a localidade do edifício-sede da Petrobras, que fica no Rio de Janeiro, e não em Brasília. 

Como verificamos?

O Comprova entrou em contato por e-mail e telefone com a assessoria de imprensa da Petrobras, que nos informou que as alegações do vídeo eram falsas. A reportagem também conversou com a assessoria da Polícia Federal para esclarecer se de fato a corporação foi acionada para ocupar um andar do prédio da estatal. 

Buscamos por notas oficiais da Petrobras para entender o patamar do processo de indicação do general Silva e Luna ao comando da companhia. No site da empresa também acessamos conteúdos com explicações sobre a composição do preço dos combustíveis e acerca da possibilidade da prática de valores mais baixos em outros países.

A fim de confirmar a localização do edifício sede da Petrobras, o Comprova buscou pelo estabelecimento na ferramenta Google Maps e verificou que a central da empresa está no Rio de Janeiro. Também buscamos por notícias ou artigos que pudessem sustentar a acusação sobre o uso de empresas estrangeiras por funcionários da Petrobras, mas não encontramos qualquer registro que comprovasse o boato.

Verificação

O vídeo mostra inicialmente um trecho de uma reportagem ao vivo do Jornal Nacional. O repórter lê uma nota à imprensa do Ministério das Minas e Energia sobre a indicação do general Joaquim Silva e Luna ao comando da Petrobras, reproduzida pelo presidente Jair Bolsonaro em suas redes sociais.

Na sequência, o clipe emenda um trecho em que o repórter descreve o currículo do militar, mas suprime uma parte anterior com a informação de que o nome de Silva e Luna ainda seria analisado por um conselho da empresa. Então entra a voz do autor do áudio falso que diz ter recebido informações de que “o negócio está fervendo em Brasília com o negócio da Petrobras”.

“Botaram o presidente novo, um general. Disse que até 11 horas da manhã, ele tinha demitido, do prédio central da Petrobras, 300 fucionários”, afirma a gravação. Indicado na sexta-feira, 18, porém, o general Joaquim Silva e Luna ainda não assumiu a presidência da companhia. 

Nesta terça-feira, 23, o Conselho de Administração da Petrobras autorizou a convocação de uma assembleia para substituir o atual diretor da empresa, Roberto Castello Branco. Em nota, a Petrobras afirma que a indicação de Silva e Luna ainda “será submetida ao processo de análise de gestão e integridade da companhia” e ao Comitê de Pessoas da empresa. O artigo lembra ainda que o mandato do conselho hoje presidido por Castello Branco perdura até o dia 20 de março de 2021. 

Não há evidências sobre ‘maracutaia’ de funcionários

O autor afirma que Bolsonaro teria descoberto uma rede de 3,2 mil funcionários “ligados” a José Dirceu responsáveis por uma “maracutaia” para aumentar o preço da gasolina. Segundo o boato enganoso, esses funcionários usam empresas estrangeiras para comprar o petróleo brasileiro no exterior e revender mais caro no Brasil. 

A assessoria da Petrobras disse ao Comprova que as “as informações das mensagens não procedem, não possuem qualquer fundamento”. Também não havia registros na imprensa ou em canais oficiais sobre esse suposto esquema até o fechamento desta reportagem. Os recentes reajustes no preço dos combustíveis se devem ao alinhamento da política de preços da empresa ao mercado internacional. 

Desde dezembro, o barril de petróleo acumula alta de 35%. De acordo com a estatal, esse alinhamento é “fundamental para garantir que o mercado brasileiro siga sendo suprido sem riscos de desabastecimento pelos diferentes atores responsáveis pelo atendimento às diversas regiões brasileiras: distribuidores, importadores e outros refinadores, além da Petrobras.”.

A companhia ressalta ainda que a cotação do combustível vendido às refinarias representa apenas uma parcela do preço cobrado nas bombas de abastecimento. Como mostra figura publicada no site da empresa, a política da Petrobras incide em cerca de 34% do preço que chega ao consumidor. O restante reflete impostos federais e estaduais, assim como custos de distribuição e revenda. 

Combustível é mais barato no Paraguai?

A gravação alega ainda que o novo presidente da Petrobras teria revisado as notas fiscais de todos os produtos exportados para o Paraguai, Argentina e Uruguai. A mensagem exagera ao insinuar que a gasolina chegaria aos consumidores desses países pelo preço de R$ 1,62.

Uma reportagem do Estado de Minas, publicada em 2017, mostra que o litro do combustível chegou a ser comercializado no Paraguai por R$ 2,62. O site da filial paraguaia da Petrobras, porém, mostra que o preço recomendado da gasolina da empresa atualmente varia de 4700 a 7950 guaranis, o equivalente a R$ 3,87 e R$ 6,54 em conversão direta. Em 2019, a Petrobras licenciou o uso da sua marca pela empresa Nextar.

Apesar do tom alarmista do vídeo, a própria Petrobras explica que o valor do combustível da empresa praticado no Brasil pode ser maior do que em outros países. “O preço cobrado no Brasil pela gasolina que sai da refinaria equipara-se aos preços de outros países que possuem mercados de derivados abertos e competitivos. No entanto, há uma grande variação na lógica de formação de preços de bomba em cada país”, justifica.

De acordo com a companhia, além de diferenças nos preços de produtores, distribuidores e revendedores, o ambiente regulatório de cada nação, como impostos e subsídios, também impactam no preço dos produtos. 

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos duvidosos sobre Covid-19 e políticas públicas do governo federal que tenham grande potencial de viralização.

O vídeo verificado foi publicado em 23 de fevereiro de 2020 por um perfil no Facebook e, até a publicação da reportagem, acumulava 99 mil compartilhamentos e 72 mil reações na plataforma. O conteúdo circula também nos formatos de imagem, texto e áudios nas redes sociais e, segundo verificações de outros veículos, é amplamente difundido no Whatsapp. 

A Agência Lupa, o Aos Fatos e o site Boatos.org também desmentiram os boatos. 

O Comprova já fez verificações anteriores que miravam a Petrobras. Em 2019, desmentimos que um leilão entregaria metade do petróleo brasileiro a estrangeiros e mostramos que contratos do presidente da OAB com a empresa eram regulares.

Falso, para o Comprova, é conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

 

Esta verificação contou com apoio do programa de estágio em jornalismo firmado entre o Comprova e a FAAP.

Políticas públicas

Investigado por:2021-02-25

Vídeo atribui a Bolsonaro obras em estradas no MT feitas também por outros governos

  • Enganoso
Enganoso
Vídeo atribuiu exclusivamente ao governo Bolsonaro atos que também são da gestão estadual. E credita ao governo federal obras de pavimentação realizadas em governos anteriores.
  • Conteúdo verificado: Vídeo publicado no Facebook que atribui a pavimentação de uma estrada que liga cinco municípios no Mato Grosso ao governo do presidente Bolsonaro.

Em vídeo publicado no Facebook, um caminhoneiro diz que está numa estrada asfaltada que liga Comodoro, no Mato Grosso, a outros quatro municípios do estado e que isso seria obra do governo Bolsonaro. Ele diz também que os caminhoneiros precisam propagar, porque “a mídia não vai divulgar o que o presidente está fazendo”. O vídeo, que já foi compartilhado 56 mil vezes desde sua publicação em 29 de agosto de 2020 no perfil de uma pastora da Assembleia de Deus que mora no Pará, é enganoso.

O trajeto mencionado pelo narrador tem cerca de 582 km e usa três rodovias, somente uma delas federal, a BR-364. E, embora alguns trechos tenham recebido obras de restauração durante o governo Bolsonaro, a pavimentação já havia sido feita bem antes do atual presidente ser empossado.

Procurado pelo Comprova, o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT) informou que, em 2020, foram restaurados 78,8 quilômetros da BR-364/MT, com investimento de R$ 37 milhões, mas não precisou quando os trechos mencionados no vídeo foram pavimentados. O órgão argumentou que, como uma rodovia nunca é entregue ao tráfego de uma só vez, não tem o histórico. “Os trechos são pavimentados ao longo de muitos anos. Esta rodovia, especificamente, tem 4.141,5 km de extensão, com início em Limeira (SP) e final na fronteira com o Peru”, descreveu o órgão, na nota.

O Comprova encontrou registros da pavimentação nos trechos mencionados no vídeo. O Diário de Cuiabá já mencionava obras de pavimentação da BR-364 na região em 2001. Outra notícia, publicada em 2006 no site do governo de Mato Grosso, relata a inauguração de três trechos da estrada, entre Comodoro e Diamantino, da qual participaram o então presidente Lula e o governador do MT à época, Blairo Maggi.

As rodovias MT-170 e MT-235, que estão no trajeto entre Comodoro e Juína, são estaduais. O governo do Mato Grosso afirmou que realizou obras de restauração de 75,5 quilômetros entre o entroncamento da MT-249 até o município de Campo Novo do Parecis.

O Comprova entrou em contato com a pastora Agricola Neta de Aquino Carrera, autora da primeira postagem do vídeo no Facebook. Ela reside na cidade paraense de Ananindeua, localizada ao norte de Belém. Em entrevista por WhatsApp, ela contou que recebeu o vídeo de um caminhoneiro que conheceu em um grupo de Facebook e que ele seria o autor. Agricola, no entanto, diz não lembrar do nome, que já teria apagado o registro e a gravação de seu celular e que não tem certeza da veracidade do conteúdo, pois apenas compartilhou o vídeo.

Como verificamos?

Entramos em contato com as prefeituras das cidades citadas, com o governo do estado do Mato Grosso e com o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT).

Analisamos as imagens para verificar se as placas poderiam auxiliar  na identificação dos trechos mostrados da gravação, com ajuda do Google Maps e outras ferramentas.

Utilizamos o Google Maps para ver se os trechos citados no vídeo conferiam com o posicionamento do governo de Mato Grosso.

Com os locais informados e identificando alguns elementos no vídeo que pudessem auxiliar na localização em que a gravação foi realizada, como a ponte com placas pela qual o motorista passa, próximo a um campo aberto, chegou-se a um possível local no Google Maps e confirmando que o vídeo foi gravado na BR-364.

Captura de um trecho do vídeo 

Captura do Google Maps da ponte sobre o Rio Juína, na BR-364

Captura de um trecho do vídeo, após o motorista passar pela ponte

Captura do Google Maps do trecho logo após a ponte sobre o Rio Juína, na BR-364

Verificação

O vídeo verificado mostra um homem dirigindo e exibindo uma estrada à sua frente. Ele afirma que a rodovia é obra da administração de Jair Bolsonaro e faz agradecimentos à gestão, citando também o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas. O homem menciona ainda que a estrada garante acesso do município de Comodoro até Campos de Júlio, Sapezal, Campo Novo e Juína, todos no estado do Mato Grosso. Na legenda, o post critica a imprensa por não mostrar a obra, e reforça que Bolsonaro está garantindo auxílio e fortalecendo o agronegócio.

As estradas

Para ir de Comodoro a Juína, passando por Campos de Júlio, Sapezal e Campo Novo, municípios citados no vídeo, é necessário utilizar três rodovias, uma delas federal e as outras duas, estaduais.

O trajeto entre Comodoro e Campos de Júlio é feito pela BR-364 e tem 74 km.

Para ir de Campos de Júlio a Sapezal são 57 km, também pela BR-364.

De Sapezal a Campo Novo do Parecis são 108 km feitos pela MT-235.

De Campo Novo a Juína são 344 km e para fazer esse trajeto, o motorista deve transitar por 242 km da MT-170 e outros 103 km da BR-364.

O que dizem os governos

Em contato com os governos estadual e federal, o Comprova confirmou que houve obra de recuperação em 2020 em trechos citados no vídeo, mas as intervenções não foram feitas exclusivamente pela administração de Bolsonaro.

O DNIT informou, em nota, que o trecho da BR-364 tem um serviço de manutenção contratado por licitação, que realiza as obras à medida que surgem demandas para garantir condições de trafegabilidade e segurança. E que, quando o contrato está próximo de ser encerrado, é realizado outro processo de licitação para sempre ter uma empresa responsável pelos trechos das rodovias sob sua administração. A rodovia federal é uma das estradas que liga as cidades de Comodoro, Campos de Júlio, Sapezal, Campo Novo e Juína, citadas no vídeo. Em 2020, foram realizadas obras de restauração de 78,8 km da BR-364/MT, com investimentos de R$ 37 milhões.

Questionado sobre a pavimentação da estrada, o DNIT informou que, como uma rodovia nunca é entregue ao tráfego de uma só vez, não tem o histórico. “Os trechos são pavimentados ao longo de muitos anos. Esta rodovia, especificamente, tem 4.141,5 km de extensão, com início em Limeira [SP] e final na fronteira com o Peru”, descreveu o órgão, na nota.

Já entre Sapezal e Campo Novo do Parecis a rodovia é a MT-235, sob responsabilidade do governo de Mato Grosso. A administração estadual afirmou em nota, que nessa rodovia foi realizada a restauração de 75,5 km do entroncamento da MT-249 até o município de Campo Novo do Parecis. Os serviços foram entregues em maio de 2020, com investimento de  R$ 4,34 milhões. A MT-235 foi pavimentada em 2009, na gestão do então governador Blairo Maggi (2003-2010).

Quem é a autora da publicação

Agricola Neta de Aquino Carrera tem 47 anos, é pastora da Assembleia de Deus no Pará e foi candidata a vereadora em 2020 pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB),  do vice-presidente Hamilton Mourão, na cidade de Ananindeua, no Pará.

Em entrevista por WhatsApp, ela contou ao Comprova que um caminhoneiro em um grupo de Facebook do Mato Grosso do Sul pediu apoio para compartilhar o vídeo. A pastora garante que foi o próprio autor quem enviou o vídeo para o seu celular. Mas ela não lembra o nome do homem e apagou os registros do aparelho.

Perguntada se poderia confirmar a veracidade do conteúdo que publicou, ela disse não ter certeza, pois apenas compartilhou o vídeo.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos duvidosos sobre Covid-19 e políticas públicas do governo federal que tenham grande potencial de viralização.

O vídeo verificado pelo Comprova foi publicado em agosto de 2020 por um perfil pessoal no Facebook. Desde então foi compartilhado 56 mil vezes. Recentemente foi compartilhado pelo grupo de Facebook Fechados com Bolsonaro 2022 e nele alcançou 5,8 mil curtidas e 3,2 compartilhamentos na rede social.

O Comprova já fez verificações anteriores a respeito de publicações sobre obras e outros possíveis feitos por parte do governo federal, como sobre uma obra na rodovia Transamazônica durante o governo Bolsonaro, imagens antigas com obras atribuídas ao presidente e fotos fazendo uma comparação da situação da rodovia BR-163 nos governos petistas e no atual.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Políticas públicas

Investigado por:2021-02-23

Foto de ciclovia construída em 2016 circula fora de contexto para promover Tarcísio Gomes de Freitas

  • Falso
Falso
Montagem publicada no Twitter compara imagens de duas ciclovias. A imagem de uma ciclovia danificada, atribuída ao ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad é verdadeira e é de 2015. A segunda é de 2016 e sua construção foi falsamente atribuída ao ministro da Infraestrutura de Bolsonaro, Tarcísio Gomes de Freitas.
  • Conteúdo verificado: Tuíte compara a gestão Tarcísio Freitas à frente do Ministério da Infraestrutura, no governo Bolsonaro, com a gestão Haddad na prefeitura de São Paulo, por meio de duas imagens de ciclovias supostamente construídas por cada um.

É falsa a informação compartilhada no Twitter que atribui ao atual ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, a execução de uma ciclovia em Boa Vista, capital de Roraima. O post utiliza duas fotografias de ciclovias diferentes: a primeira, tomando os dois lados do canteiro central de uma grande avenida, fica em Boa Vista. Já a segunda, entre um canal e uma avenida, fica em São Paulo.

O autor do tuíte diz que a primeira é a “magnífica ciclovia” do ministro Tarcísio. Sobre a segunda imagem, diz que é a ciclovia do “Poste”, se referindo ao ex-prefeito de São Paulo e ex-candidato à Presidência da República Fernando Haddad (PT), e acrescenta que comparar as duas é uma “humilhação”. A segunda imagem é, de fato, de uma ciclovia de São Paulo durante a gestão de Fernando Haddad, mas a primeira ciclovia não tem qualquer relação com o ministro Tarcísio Gomes de Freitas, nem foi inaugurada por ele.

A ciclovia de Boa Vista foi inaugurada em 1º de abril de 2016 pela Prefeitura Municipal da cidade em um convênio firmado com a Caixa Econômica Federal por intermédio do Ministério das Cidades. Na época – tanto da assinatura do contrato, em 2015, quanto da inauguração da obra, em 2016 -, o ministro das Cidades era Gilberto Kassab, do governo Dilma Rousseff (PT).

Já Tarcísio Gomes de Freitas foi nomeado ministro da Infraestrutura em dezembro de 2018 pelo presidente Jair Bolsonaro. De setembro de 2011 até janeiro de 2015, ele era diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), então vinculado ao Ministério dos Transportes.

Como verificamos?

Utilizamos o mecanismo de busca reversa do Google para achar a origem das duas fotos. Uma delas de fato mostra uma ciclovia em São Paulo, e foi publicada inicialmente pelo jornal Folha de S. Paulo, em 7 de julho de 2015. Segundo a legenda da imagem, que é de Luiz Carlos Marauskas, o trecho é na Avenida do Estado, próximo ao shopping Central Plaza, no bairro Bom Retiro.

A outra foto que está no tuíte foi publicada inicialmente pela comunicação social da Prefeitura de Boa Vista, na conta da gestão no Flickr, na inauguração do trecho da ciclovia, no dia 1º de abril de 2016.

Antes de localizar a foto original, ampliamos a imagem do post e conseguimos identificar uma placa no canteiro central, entre os dois ciclistas, com o nome de Boa Vista. Também ampliando a imagem, identificamos uma placa vertical vermelha do Roraima Garden Shopping.

Então, buscamos seu endereço no Google Maps e pudemos confirmar que a ciclovia citada pela prefeitura é a mesma utilizada no tuíte viral.

Em seguida, buscamos informações sobre a ciclovia na Avenida Ville Roy e encontramos uma publicação da prefeitura da cidade com uma fotografia do mesmo local, mas de um ângulo diferente. Em seguida, procuramos por fotos de ciclovias no Flickr oficial da prefeitura de Boa Vista e localizamos a mesma imagem utilizada no tuíte. As informações da foto mostram que ela foi feita no dia 1º de abril de 2016.

Entramos em contato com a prefeitura por e-mail, para confirmar a data da foto e saber se o Ministério da Infraestrutura, chefiado por Tarcísio Gomes de Freitas, teria alguma relação com a construção da ciclovia – fato negado pela prefeitura.

Também entramos em contato com o perfil MITO2022, que publicou o tuíte, mas não obtivemos resposta até a publicação desta checagem.

Verificação

A Ciclovia de Boa Vista

A ciclovia que é creditada no tuíte ao ministro Tarcísio Gomes de Freitas fica na Avenida Ville Roy, em Boa Vista, Roraima.

A Secretaria Municipal de Comunicação explicou ao Comprova que a obra foi finalizada e inaugurada em abril de 2016, e que ela fez parte do projeto de Mobilidade Urbana de Boa Vista. Além do trecho em questão, a iniciativa – custeada por meio de um convênio com a Caixa Econômica Federal, intermediado pelo então Ministério das Cidades – incluiu a construção de 40 quilômetros de ciclovias na capital roraimense.

O município, na época, era governado pela prefeita Teresa Surita (PMDB), enquanto o ministro das Cidades era, até meados de abril de 2016, Gilberto Kassab, escolhido pela então presidente Dilma Rousseff.

Ministro Tarcísio Gomes de Freitas

Uma busca com a palavra-chave “ciclovia” na conta oficial do Twitter do ministro Tarcísio Gomes de Freitas mostrou que no mesmo dia da postagem viral, 11 de fevereiro, ele compartilhou um vídeo divulgando a “restauração da travessia urbana de Itaperuna”, no Rio de Janeiro. Esta obra foi feita pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT, vinculado ao Ministério da Infraestrutura) e conta com uma ciclovia de 2,4 km. Tarcísio compareceu à cerimônia de inauguração, informou a Agência Brasil.

Ciclovia da gestão Haddad em São Paulo

O petista Fernando Haddad foi prefeito de São Paulo de 2013 a 2016. Um dos marcos de sua gestão na área de mobilidade foi a implantação de ciclofaixas. O balanço final do plano de metas da prefeitura aponta que foram implantados 447,4 km de ciclovias (pista segregada fisicamente do restante da via) e ciclofaixas (sem segregação física do restante da via).

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova checa conteúdos virais sobre a pandemia de covid-19 ou sobre políticas públicas do governo federal. Este tuíte teve 6.936 reações e foi compartilhado ao menos 1.543 vezes.

Tarcísio Gomes de Freitas é um dos ministros mais badalados pelo presidente Jair Bolsonaro e a execução de obras de infraestrutura se tornou uma das principais bandeiras do governo federal. O Comprova já desmentiu que um vídeo de vagões com contêineres empilhados seria do primeiro trem no trajeto do MT ao porto de Santos, como informavam diversas postagens.

Falso, para o Comprova, é conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original.

Políticas públicas

Investigado por:2021-02-18

Projeto de autonomia do Banco Central não prevê indicação de diretores pelo mercado financeiro

  • Enganoso
Enganoso
Autor do tuíte que relaciona autonomia aprovada para o Banco Central à indicação dos diretores pelo mercado financeiro disse ao Comprova que a afirmação é uma interpretação e não deve ser entendida literalmente.
  • Conteúdo verificado: Tuíte diz que a autonomia aprovada para o Banco Central significa que “diretores indicados pelo mercado financeiro vão decidir o destino da economia”.

Ao contrário do que sugere um tuíte verificado pelo Comprova, o projeto de autonomia do Banco Central, recentemente aprovado no Congresso Nacional, não prevê indicação de diretores do BC pelo mercado financeiro. O próprio autor do tuíte, o ex-candidato à Prefeitura de São Paulo em 2020, pelo PSOL, e coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MTST), Guilherme Boulos, afirmou ao Comprova que ela é uma interpretação e que não deve ser entendida literalmente. Essa verificação foi feita atendendo a solicitação de leitores.

Especialistas ouvidos pelo Comprova explicaram que a diretoria do Banco Central – órgão responsável pela emissão de moeda, definição da taxa de juros e fiscalização do sistema financeiro no país – vai continuar sendo indicada pelo presidente da República, mas, agora, terá que passar pelo crivo do Senado, e só poderá ser removida do cargo com a anuência do Legislativo. Isso, segundo o economista Hélio Berni, da faculdade IBMEC de Belo Horizonte, significa que o órgão terá mais espaço para implementar políticas mais duradouras.

Além disso, o professor Flávio Constantino, do Departamento de Economia da PUC Minas, lembra que a possibilidade de pressão do mercado financeiro sobre o Banco Central já existia, independentemente da aprovação do projeto de autonomia. “Se o sistema financeiro cobrar do presidente da República, e se o presidente da República ceder a essas pressões, aí corremos o risco, sim, do Banco Central fazer políticas voltadas para o mercado, que vão beneficiar instituições financeiras, por exemplo”, pondera.

Contatado pelo Comprova, Guilherme Boulos disse que a postagem tem caráter de análise política, e não é literal. “É uma análise dessa relação já existente das nomeações no banco com os interesses do mercado, com as vontades do mercado, ela só vai se aprofundar, porque você vai reduzir os mecanismos de controle democrático”, afirmou.

Como verificamos?

Procuramos Guilherme Boulos, e pedimos uma explicação mais detalhada sobre o que ele quis dizer com o tuíte. 

Para entender melhor o funcionamento do Banco Central e como funciona o projeto de autonomia, entrevistamos o professor Flávio Constantino, do Departamento de Economia da PUC Minas, e o professor Hélio Berni, do IBMEC-BH.

Também buscamos informações nos sites oficiais da Câmara e do Senado, sobre a tramitação do texto aprovado pelos parlamentares, e consultamos matérias publicadas em diversos veículos de imprensa sobre a iniciativa e a relação dela com o governo Bolsonaro.

Verificação

O que prevê o projeto de Autonomia do BC

O PL 19/2019, de autoria do Senador Plínio Valério (PSDB-AM) foi aprovado na Câmara dos Deputados, em segundo turno, neste mês de fevereiro. Até a publicação desta verificação, o texto aguardava apenas a sanção presidencial para entrar em vigor.

A principal mudança prevista no texto é na forma de indicação dos diretores e da presidência do Banco Central – que passa a ocorrer a partir do terceiro ano de mandato do presidente da República. Os nomes devem passar por uma sabatina no Senado, e tem um período fixo no comando do BC, de quatro anos. Atualmente, o cargo é de livre nomeação do chefe do executivo. O presidente do banco já precisa ser aprovado pelo Senado, mas pode ser escolhido pelo governo federal em qualquer ponto do mandato, e também pode ser demitido sem restrições.

O professor Flávio Constantino, do Departamento de Economia da PUC Minas, ouvido pelo Comprova, explica que o Banco Central tem como atribuições cuidar da moeda, da taxa de juros e da supervisão do mercado financeiro. As políticas decididas pelo órgão, segundo o professor, precisam levar em consideração a possibilidade de aumento da inflação ou de criação de uma recessão econômica, caso sejam equivocadas, e ainda lidam com as expectativas e pressões do governo – que controla o Ministério da Economia (ou Fazenda, em gestões anteriores) – e da sociedade.

A ideia de ampliar a autonomia do Banco Central existe no Brasil desde os anos 1970, e se respalda, entre seus apoiadores, em experiências adotadas em outros países. Segundo Flávio Constantino, nações como Reino Unido, Estados Unidos, Nova Zelândia e Alemanha realmente conseguiram, por exemplo, reduzir a inflação no longo prazo, com a adoção dos modelos de independência. Isso não significa, porém, que o mesmo resultado será alcançado no Brasil, já que toda a conjuntura econômica é relevante. “Esses países não tinham uma preocupação, como temos no Brasil, de um quadro de forte desigualdade – a diferença de quem é mais rico no Brasil supera mais de vinte vezes [em renda] quem é mais pobre, enquanto nesses países isso não passa de oito, nove vezes – então é um quadro social diferente do que nós temos no nosso país”, explica.

Crítica Política

Segundo o autor do post, Guilherme Boulos (PSOL), o post tem caráter de análise política das consequências da autonomia do Banco Central. “Na prática, hoje, os diretores do Banco Central já são indicados pelo mercado financeiro, obviamente não é indicação formal, não vai existir nunca lei como atribuição para o mercado financeiro indicar os diretores. Então, não dá pra ler com literalidade aí”, explica.

O ex-candidato avalia que na atual conjuntura da autarquia já há uma ‘tradição dos presidentes serem indicados numa porta giratória pelo financeiro e de boa parte da diretoria também’, usando como exemplo o atual presidente Roberto Campos Neto, que teve passagem pelo Banco Santander.

O Banco Central no governo Bolsonaro

A intenção de ampliar a independência do Banco Central foi manifestada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) logo no primeiro ano de mandato à frente do Executivo, e o governo chegou a enviar um projeto de lei ao Congresso Nacional sobre o tema.

Recentemente, o presidente disse que o projeto – que faz parte da pauta liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes – era importante, mas que iria analisar o texto final, acordado entre os congressistas durante a tramitação, e que poderia vetar parte do conteúdo aprovado.

O autor do post

O autor do tuíte verificado, Guilherme Boulos, é integrante do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), e foi candidato, pela legenda, à prefeitura de São Paulo, nas eleições de 2020. Boulos também é o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST).

No dia 15 de fevereiro, Boulos reiterou as críticas ao projeto de autonomia do BC em um artigo publicado na Folha de S. Paulo. 

Durante a campanha política, no ano passado, ele foi alvo de boatos que diziam que ele obrigaria moradores de São Paulo a receber moradores de rua em casa e que ele sairia do país, se não fosse eleito. Os dois conteúdos foram checados pelo Comprova, e classificados como falsos.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus que têm grande alcance nas redes sociais. A postagem de Guilherme Boulos alcançou 14 mil curtidas e 2.119 compartilhamentos até o fechamento desta checagem, e a verificação do conteúdo foi sugerida por leitores ao Comprova.

Apesar de ser uma análise política, não é possível avaliá-la como informação precisa, e alguns leitores entenderam o tuíte de forma literal.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-02-18

Vídeo manipulado deturpa entrevista de presidente da Anvisa para sugerir “risco sanitário grave” na vacinação

  • Falso
Falso
Em vídeo postado no Twitter, Antônio Barra Torres aparece dizendo que a população “corre risco sanitário grave”, mas as imagens foram editadas para fazer parecer que ele se referia às vacinas já aprovadas.
  • Conteúdo verificado: vídeo publicado no Twitter, em que o presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antônio Barra Torres, aparece dizendo que a vacina contra a covid-19 não é segura e que a população está correndo um “risco sanitário grave”.

É falso o conteúdo de um post publicado no Twitter segundo o qual a população brasileira “corre risco grave ao tomar a vacina” contra covid-19. O tuíte traz uma informação inverídica e, para embasá-la, utiliza-se de um vídeo manipulado de uma entrevista de Antônio Barra Torres, presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As vacinas aprovadas pela Anvisa até aqui – a de Oxford em parceria com a AstraZeneca e a CoronaVac – são seguras e eficazes para lidar com a pandemia.

O Comprova concluiu que o vídeo postado no Twitter foi editado e retirado do contexto. O conteúdo faz parte de uma entrevista concedida à emissora CNN Brasil, em 10 de fevereiro de 2021, dentro da programação do jornal matinal Novo Dia, apresentado por Rafael Colombo, Elisa Veeck e Luciana Barreto.

No vídeo, Barra Torres aparece dizendo que a população “corre risco sanitário grave”, mas as imagens foram montadas de tal modo a fazer parecer que ele se referia às vacinas. Na realidade, o presidente da Anvisa estava, naquele trecho, descrevendo sua preocupação em relação a um artigo incluído à Medida Provisória (MP) 1.003/2020, que reduz a autonomia da Anvisa sobre a análise e aprovação de novas vacinas.

O vídeo foi organizado de maneira que a real motivação das falas fosse ocultada. Dessa forma, quem assiste ao vídeo sem saber o contexto em que a entrevista foi concedida é induzido à ideia de que a emenda à MP já está em vigor, quando na realidade ela ainda não havia sido sancionada pelo presidente no momento em que foi feita a gravação.

Além disso, da maneira como foi montado, o vídeo pode sugerir que as vacinas em uso hoje no Brasil, que passaram por análise técnica e pela aprovação emergencial da Anvisa, não são seguras. Mas na realidade a fala do presidente da Agência indica para uma situação futura, ou seja, o que Antônio Barra Torres queria dizer é que caso a Medida Provisória seja sancionada na íntegra pelo presidente, os brasileiros correm um “risco sanitário grave”, já que as novas vacinas não passariam por uma avaliação técnica tão criteriosa como a que é feita atualmente.

Como verificamos?

Primeiro, pesquisamos no canal do YouTube da CNN Brasil, programas apresentados pelos jornalistas que aparecem no vídeo (Rafael Colombo, Elisa Veeck e Luciana Barreto), para identificar de qual programa jornalístico o vídeo poderia ter sido retirado.

Após identificarmos o jornal Novo Dia, consultamos as edições exibidas antes da data da postagem feita no Twitter, com intuito de confirmar se a entrevista feita com o presidente da Anvisa havia realmente sido realizada pela emissora CNN Brasil.

Ao chegarmos na edição do dia 10 de fevereiro, constatamos que a entrevista havia sido realizada ao vivo, durante a exibição do jornal matinal. Ao encontrar o material com a reportagem oficial, assistimos aos dois vídeos, – a entrevista completa da CNN Brasil e o vídeo postado no Twitter – comparando trecho a trecho até que fosse possível identificar todos os pontos editados da versão original.

Também consultamos o site do Congresso Nacional para acompanhar a tramitação da Medida Provisória, e constatamos que, após a aprovação do texto pelo Senado Federal para transformá-la em lei, a proposta foi encaminhada para a sanção presidencial, o que até o fechamento desta reportagem não ocorreu.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 18 de fevereiro de 2021.

Verificação

O vídeo verificado inicia com uma fala do presidente da Anvisa, afirmando que, se a MP for aprovada com o texto atual, a agência não fará mais a análise dos pedidos de aprovação de vacinas, mas irá apenas conceder a liberação, deixando assim de exercer o seu papel técnico.

O Comprova verificou que a primeira parte da entrevista, concedida em 10 de fevereiro de 2021 para a CNN, foi excluída da versão publicada no Twitter, o que pode comprometer o entendimento sobre o conteúdo originalmente apresentado.

A reportagem original começa com o âncora do jornal matinal Novo Dia, Rafael Colombo, falando sobre a decisão da Anvisa de liberar as vacinas distribuídas pelo consórcio da OMS, o Covax Facility, sem a necessidade de nenhum registro ou aprovação emergencial específica para uso no Brasil. Na sequência, o jornalista chama a analista política Basília Rodrigues para uma entrada ao vivo com Antônio Barra Torres para falar sobre uma reunião que o entrevistado havia acabado de ter com o presidente Jair Bolsonaro. O encontro teve como pauta a Medida Provisória, que foi modificada pelo Congresso Nacional para incluir no texto a redução do tempo de análise da agência para liberação de vacinas contra a covid-19. A reunião se deu porque o trecho ainda pode ser vetado pelo presidente.

Na sequência, no vídeo original, o presidente da Anvisa explica que foi chamado por Bolsonaro para apresentar seus argumentos, para que o chefe do executivo pudesse compreender a necessidade do veto no texto da MP. O vídeo publicado no Twitter começa no meio da fala de Antônio Barra Torres, ou seja, a parte introdutória foi ocultada nessa versão.

Também foi verificado um corte no vídeo publicado no Twitter, no segundo 57, que excluiu a pergunta da repórter – o que novamente pode provocar erro de entendimento.

No trecho retirado, a jornalista pergunta: ”Por que o senhor tem essa avaliação de que a Medida Provisória tira a competência de análise da Anvisa? O senhor explicou isso para o presidente?”

A resposta de Antônio Barra Torres também foi editada no vídeo postado no Twitter, inclusive o trecho em que ele diz:

“(…) E não é possível, os nossos servidores concursados eles têm essa capacidade de trabalho e é pra isso que eles estão lá. Então não é razoável, diante de uma pandemia, onde medicamentos estão sendo desenvolvidos, inclusive em moldes especiais, não haja uma análise de quem tem competência para isso. Foi esse o nosso assessoramento, e o senhor presidente ele reiterou mais uma vez aquilo que tem dito sempre à imprensa, de que o Ministério da Saúde não comprará produtos que não sejam analisados pela Anvisa. Então eu entendo isso como uma sinalização bastante significativa. É claro que eu não vou ser antiético de antecipar qualquer tipo de decisão, até porque essa decisão é do presidente da República e ele tem o seu prazo para fazê-lo. Agora ele mais uma vez reiterou o que vem dizendo, que aquisição de vacinas se dará desde que haja aprovação da Anvisa. A aprovação, é claro, mediante a análise, não uma aprovação tácita ou automática”.

Após um grande corte, a entrevista prossegue com a pergunta da apresentadora Luciana Barreto, trecho que também foi manipulado. Na pergunta completa, a jornalista diz:

“Queria que o senhor explicasse para quem está nos vendo agora e nos ouvindo agora e tentando entender o que realmente está acontecendo. Todos nós desejamos a chegada da vacina, mais doses da vacina com mais celeridade, mas há o risco desse artigo 5º que o senhor falou agora e da retirada da autonomia da Anvisa, na prática a população corre algum risco?”

Na sequência, o presidente da Anvisa afirma que sim, a população corre “risco sanitário grave”, mas a afirmativa, que também aparece no vídeo publicado no Twitter, está relacionada diretamente à aprovação integral do texto da MP e não às vacinas já aprovadas.

O Comprova concluiu que o vídeo postado no Twitter foi montado apenas com trechos de falas que descrevem a preocupação do presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, em relação a uma possível sanção do presidente Jair Bolsonaro sobre a MP, que foram organizadas de maneira em que a real motivação das falas fosse ocultada.

Dessa forma, quem assiste ao vídeo sem saber o contexto em que a entrevista foi concedida pode ter a impressão de que a lei que reduz a autonomia da Agência reguladora na análise para aprovação de novas vacinas já está em vigor, quando na realidade o presidente tem até o dia 1º de março para dar seu parecer de veto ou sanção para converter a MP em lei.

Medida Provisória

Apesar de as Medidas Provisórias (MPs) serem editadas pelo presidente da República, e terem efeitos imediatos quando publicadas, elas precisam ser apreciadas pelo Congresso Nacional para que sejam convertidas em leis. O prazo de vigência da MP é de 60 dias, podendo ser prorrogado por igual período. Do contrário, perdem a validade.

No caso da MP 1.003/2020, a que se refere o presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, a aprovação do texto pelo Senado Federal ocorreu no dia 4 de fevereiro. No texto original, publicado em 24 de setembro de 2020 e que ainda está em vigor, não consta o artigo 5º que foi apresentado como emenda, em plenário, também no dia 4 de fevereiro pelo senador Rodrigo Cunha (PSDB/AL).

A movimentação mais recente é do dia 9 de fevereiro, quando foi encaminhada à secretaria-geral da Presidência da República a mensagem para sanção presidencial do Projeto de Lei de Conversão 43/2020 (derivado da MP 1.003/2020).

Liberação das vacinas do Covax Facility

O texto do Projeto de Lei de Conversão 43/2020 trata da autorização para o governo federal aderir ao Instrumento de Acesso Global de Vacinas Covid-19 (Covax Facility), além de estabelecer diretrizes para imunização da população.

O trecho que causa preocupação ao presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, e que foi motivo de audiência com Jair Bolsonaro, conforme registrado na reportagem da CNN, está contido no artigo 5º.

Nele, além de estabelecido o período de cinco dias para análise de novas vacinas pela agência – um prazo reduzido, na avaliação de Barra Torres – um termo denota que a Anvisa perderia a sua atribuição técnica.

O texto diz que a “Anvisa concederá autorização temporária de uso emergencial”. Para Barra Torres, isso significaria que a agência teria apenas uma função cartorária, de checagem de documentos, em vez de efetivamente fazer uma análise técnica.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o projeto Comprova verifica conteúdos duvidosos que viralizaram na internet relacionados a políticas do governo federal, à pandemia ou às eleições municipais de 2020.

Apesar de o vídeo verificado ter sido postado por um perfil com menos de 2 mil seguidores, ele foi visualizado 24,8 mil vezes. Dessa forma, por se tratar de um conteúdo importante, ligado diretamente à confiança das pessoas em relação às vacinas contra a covid-19 e por conta da grande repercussão, a verificação se torna fundamental para esclarecer dúvidas relacionadas ao trabalho da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e também essencial para reforçar sobre a eficácia e segurança das vacinas já aprovadas para uso emergencial no Brasil.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por:2021-02-17

É enganoso post no Facebook sobre morte de médico por covid-19 após tomar a vacina

  • Enganoso
Enganoso
Publicação no Facebook de um link que exibe apenas foto, título e uma linha de texto induz a interpretações erradas ao atrelar a morte de um médico à vacina contra covid-19.
  • Conteúdo verificado: Post em uma página no Facebook sobre a morte de diretor de hospital municipal em João Pessoa, na Paraíba, sugere na chamada da notícia que a morte por covid-19 ocorreu mesmo após o médico tomar a vacina.

Publicação feita na página do Facebook do site Pleno News induz a um engano ao atrelar a morte de um médico à vacina contra covid-19. No Facebook, o post traz apenas uma foto, o título e uma linha de texto que coloca em dúvida a eficácia da vacina. Nos comentários do post, diversos leitores interpretaram a publicação como uma evidência de que as vacinas não funcionam, o que não é verdade.

O post em questão se refere ao caso do médico Fernando Ramalho Diniz, diretor do Hospital Santa Isabel, na cidade de João Pessoa, na Paraíba. Ele morreu em 13 de fevereiro, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em decorrência da covid-19. O cirurgião-geral tomou apenas a primeira dose da CoronaVac no dia 20 de janeiro. A aplicação da segunda dose em profissionais de saúde no hospital em que ele trabalhava estava prevista para os dias 15 e 16 de fevereiro, seguindo as recomendações da bula da CoronaVac.

O fato de Diniz ter tomado uma dose da vacina e ter sido vítima de covid-19 não significa que a vacina não funcione. Especialistas procurados pelo Comprova reiteram que a CoronaVac precisa de uma segunda dose e destacam que, mesmo assim, é preciso manter as medidas de proteção até que haja a imunização coletiva, ou de rebanho, da população. Com apenas uma dose, portanto, o médico não estava protegido.

Após a aplicação da primeira dose, a produção de anticorpos no organismo é mais intensa a partir do décimo-quarto dia e, após a segunda dose, o auge dessa produção é atingida também depois de 14 dias, totalizando, em média, 36 dias para a proteção primária contra a covid-19. Mesmo depois da vacinação é, no entanto, necessário manter o distanciamento físico, o uso de máscaras e a higienização frequente das mãos. Isso porque a imunização contra uma doença como a covid-19 se dá de maneira coletiva e não individual.

Confusões como a causada pela postagem verificada são comuns nas redes sociais. Elas ocorrem quando os títulos não são fiéis ao conteúdo de notas e reportagens ou quando valorizam apenas uma parte do conteúdo, provocando interpretações erradas ou enviesadas especialmente naqueles leitores que não acessam os links para obter informação mais detalhada e o devido contexto.

Como verificamos?

Procuramos informações sobre a morte de Fernando Ramalho Diniz em portais como G1 e Paraíba Online, além do site da prefeitura de João Pessoa (PB), que confirmam a causa como AVC em decorrência da covid-19, bem como a internação do médico pela doença 10 dias antes do falecimento. Consultamos o Vacinômetro da cidade paraibana, que confirmou que Fernando Ramalho recebeu a primeira dose da vacina em 20 de janeiro.

Por WhatsApp, entramos em contato com o Pleno News. Os responsáveis pelo site fizeram diversos comentários sobre iniciativas de verificação de informações, mas não entraram no mérito do post verificado.

Retomamos verificação anterior do Comprova e falas de especialistas sobre a necessidade de tomar os cuidados de prevenção contra o coronavírus antes da segunda dose e até que se atinja a imunidade de rebanho.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 17 de fevereiro de 2021.

Verificação

AVC em decorrência da covid-19

O médico Fernando Ramalho Diniz faleceu no dia 13 de fevereiro, vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em decorrência da covid-19. Segundo o jornal Paraíba Online, o médico ficou internado durante 10 dias no Hospital Unimed, após ser diagnosticado com covid-19. O mesmo veículo afirma que ele recebeu a primeira dose da CoronaVac em janeiro.

Primeira dose da CoronaVac

A prefeitura de João Pessoa disponibiliza no portal de transparência um “Vacinômetro”, com dados dos vacinados no município. Os dados confirmam que Fernando Ramalho Diniz recebeu a primeira dose da vacina no dia 20 de janeiro no Hospital Santa Isabel.

Outra matéria no site da Prefeitura de João Pessoa confirma que o Hospital Santa Isabel, do qual Fernando era diretor, recebeu doses da vacina CoronaVac nos dias 20 e 21 de janeiro para aplicação nos profissionais de saúde. O texto fala ainda da importância de não “baixar a guarda” após a vacinação.

A segunda dose da CoronaVac começou a ser aplicada em João Pessoa no dia 15 de fevereiro, conforme o cronograma de vacinação do município. Segundo a Secretaria de Saúde de João Pessoa, a previsão para administração da segunda dose no Hospital Santa Isabel ocorre entre 16 e 17 de fevereiro. O cronograma segue as recomendações da bula da CoronaVac, que indica que a segunda dose pode ser aplicada entre 2 e 4 semanas após a primeira.

Imunização individual e coletiva

Segundo publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma vacina tem o papel de reduzir o risco de contágio de uma doença por meio da indução de uma defesa natural do corpo humano. A partir do momento em que a vacina é aplicada, inicia-se um ciclo de imunização que passa por três etapas principais: o reconhecimento do antígeno, podendo ser um vírus ou uma bactéria; a produção de anticorpos para atacar o corpo estranho; e o desenvolvimento de uma memória celular no sistema imunológico que seja capaz de inocular a doença da próxima vez em que o indivíduo seja exposto àquele vírus ou bactéria.

Isso acontece porque o sistema de defesa humano trabalha com mecanismos de memória celular. Uma vez expostos a uma ou mais doses de uma vacina, uma pessoa pode, a depender da vacina, ficar protegida contra uma doença durante anos, décadas ou mesmo uma vida inteira. No lugar de tratar os sintomas de uma doença após sua ocorrência, as vacinas impedem que o corpo adoeça. Esse procedimento é válido para todas as vacinas, e não somente contra a covid-19.

As células que indicam essa proteção são chamadas de IgG (imunoglobulina G). Trata-se de uma classe de anticorpos que, quando detectados, indicam contato prévio com o micro-organismo em algum momento da vida, mas não permite dizer se é recente ou antigo. Em alguns casos, sua presença pode significar proteção se houver novo contato. No caso do coronavírus, pode aparecer tardiamente ou nem aparecer, segundo informações de Weissmann.

Somente a partir do décimo-quarto dia da aplicação da primeira dose da vacina contra a covid-19, o organismo começa com mais intensidade o anticorpo IgG. No caso da CoronaVac, ministrada no médico Fernando Ramalho Diniz, a segunda dose é aplicada com intervalo de 2 a 4 semanas da primeira dose, conforme a bula do fabricante disponível no site do Ministério da Saúde . Após esse período, a produção de IgG também terá seu auge a partir do décimo quarto dia. O processo completo de imunização dura 36 dias, em média, a partir da aplicação da primeira dose.

De acordo com Alberto Chebabo, diretor médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ), “a imunidade primária só ocorre após a segunda dose. Mas já há uma proteção parcial após duas semanas da primeira dose”, explica. Essa proteção primária não exclui a necessidade de se manter as medidas de prevenção, seja durante a imunização individual, ou durante a imunização coletiva.

Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), também afirma que a imunização está relacionada a uma proteção individual e coletiva. “Nenhuma vacina tem 100% de eficácia e protege todas as pessoas”, afirmou ele em uma verificação publicada pelo Comprova neste mês. Deste modo, uma parte das pessoas vacinadas não desenvolverá a proteção individual e só estará protegida com o acúmulo de pessoas vacinadas, o que, com o passar do tempo, reduzirá a circulação do vírus. Por isso, ele recomenda manter as demais regras de prevenção enquanto não se alcança a imunidade coletiva (ou de rebanho): distanciamento físico, uso de máscara e higienização frequente das mãos.

Weissmann explica ainda que a imunidade coletiva é configurada quando um grande percentual de uma população se torna imune a um determinado agente infeccioso. Tradicionalmente, isso ocorre através de vacinação.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados a informações sobre a pandemia do novo coronavírus, principalmente as que têm grande alcance nas redes sociais. A publicação analisada teve mais de 800 compartilhamentos e 600 comentários, a maioria colocando em dúvida a eficácia da vacina.

Os imunizantes e a vacinação contra a covid-19 são alvos frequentes de desinformação. Compartilhamentos como este visam desacreditar a estratégia de imunização e colocar em xeque a eficácia das vacinas, algumas cientificamente comprovadas, como a CoronaVac.

O Comprova já desmentiu um post que afirmava haver risco da imunogenicidade da CoronaVac, e um outro que utilizava vídeo de 2018 para enganar sobre morte de idosa após vacinação.

Enganoso para o Comprova é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-02-15

Medidas de proteção contra a covid-19 ainda deverão ser mantidas após o recebimento das doses da vacina

  • Comprovado
Comprovado
É correta a afirmação de um médico cujo vídeo viralizou no Instagram de que as medidas protetivas, como uso de máscara, lavagem das mãos e distanciamento social devem ser mantidas depois do recebimento da primeira dose, mas elas se referem à proteção individual. Especialistas alertam que esses cuidados devem ser tomados por todos os vacinados até que o país alcance a imunização coletiva.
  • Conteúdo verificado: Em vídeo reproduzido no Instagram, um médico afirma que uma única dose da vacina contra covid-19 não é suficiente para assegurar a exposição em atividades e locais com ampla circulação de pessoas e aglomerações em geral.

É verdade que as pessoas imunizadas apenas com a primeira dose das vacinas contra covid-19 não estão totalmente imunes contra a doença. A afirmação consta em um vídeo do infectologista Marcius Burgarelli, que viralizou nas redes sociais e foi objeto de questionamento por parte de leitores do Comprova. No vídeo, Burgarelli explica que uma única dose da vacina não é suficiente para assegurar a exposição a atividades e locais com ampla circulação de pessoas e aglomerações em geral, e recomenda que sejam mantidas as medidas de proteção contra o vírus, como uso de máscara e de álcool.

No mesmo vídeo, Burgarelli sugere ainda que as pessoas devem manter as condutas de proteção “até pelo menos 14 dias depois da segunda dose”. Na realidade, os especialistas alertam que as medidas de proteção devem ser mantidas até que grande parte da população esteja imunizada com as duas doses da vacina.

O vídeo foi publicado por Burgarelli em seu perfil no Instagram em 3 de fevereiro deste ano e compartilhado no perfil do homeopata Alberto Almeida em 7 de fevereiro. Nele, o médico explica que o processo de produção de anticorpos, chamados IgG, só é iniciado 14 dias após a primeira dose, mas que ainda não se pode considerar uma imunidade, já que esse ciclo de imunização só é completo depois de passados mais 14 dias depois da aplicação da dose de reforço – geralmente aplicada 21 dias depois da primeira dose, a depender da vacina.

Logo, o processo completo levaria em torno de 36 dias. Antes desse período, é possível que a pessoa vacinada com a primeira dose ainda seja contaminada com o coronavírus e transmita para outras pessoas que ainda não foram imunizadas.

O Comprova ouviu dois especialistas, além da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que confirmaram a veracidade das informações expostas no vídeo, mas reforçaram que os períodos de proteção podem variar de acordo com cada fabricante.

Como verificamos?

Primeiro, encontramos por meio de busca no Google o vídeo original publicado no perfil do instagram do médico Marcius Kleber Nunes Burgarelli, e pesquisamos seu registro no Conselho Federal de Medicina (CRM), que consta com as especialidades de psiquiatria e infectologia, conforme informado em seu instagram.

Entramos em contato com a assessoria de imprensa da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e com a assessoria do Grupo de Trabalho (GT) Multidisciplinar de enfrentamento à covid-19 da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para solicitar a avaliação de um infectologista sobre as afirmações contidas no vídeo investigado pela reportagem.

Em resposta, o GT encaminhou contato do infectologista e professor Alberto Chebabo, diretor médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF/UFRJ) e integrante do grupo, e a SBI respondeu aos questionamentos com base na análise do infectologista e consultor Leonardo Weissmann.

A reportagem também procurou o autor do vídeo por meio do Facebook para esclarecer se o vídeo trata de algum imunizante em específico ou de todos até o momento aprovados pela Anvisa, e se teria interesse em comentar essa demanda de verificação recebida pelo Comprova e sua veracidade. Por fim, fizemos contato por telefone com seu consultório, em Uberlândia, Minas Gerais, onde atende como psiquiatra, infectologista e imunologista, conforme informações de sua secretária. Até o fechamento da reportagem não obtivemos retorno.

Também enviamos email para a assessoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para mais esclarecimentos sobre a especificações de cada vacina já aprovada no Brasil e o impacto destas na imunização coletiva (de rebanho).

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 15 de fevereiro de 2021.

Verificação

Vacinas aprovadas no Brasil

Até a publicação desta reportagem, apenas duas vacinas receberam autorização da Anvisa para a campanha de imunização no Brasil: a CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, e a Covishield, produzida pela Universidade de Oxford e laboratório Astrazeneca em parceria com a Fiocruz.

O Comprova procurou a Anvisa para esclarecer a importância da aplicação da segunda dose da vacina como garantia de uma proteção eficaz contra a covid-19.

A agência explicou que a aprovação dos imunizantes no Brasil é baseada nos estudos de eficácia apresentados pelas fabricantes, que alcançaram a proteção contra a covid-19 após as duas dosagens. “A bula aprovada para as vacinas em uso emergencial indica a administração de duas doses e a aprovação da Anvisa está baseada nos dados dos estudos apresentados”, afirma. O órgão ainda reforça: “a Anvisa recomenda que o intervalo aprovado seja seguido”.

A agência informou ainda que os estudos disponíveis trazem resultados de eficácia para os intervalos disponíveis nas bulas, e que não foi apresentada nenhuma pesquisa divergente que trate de outros intervalos. Abaixo, segue a descrição enviada pela Anvisa sobre a aplicação das duas vacinas aprovadas para uso emergencial no Brasil:

  • Bula do Butantan (CoronaVac): O esquema de imunização contra covid é de 2 doses de 0,5 mL com intervalo de 2-4 semanas entre as doses.
  • Bula da Fiocruz (Covishield/Oxford): A segunda dose deve ser administrada entre 4 e 12 semanas após a primeira dose.

Outras informações sobre as vacinas como características e as bulas completas podem ser encontradas no site do Ministério da Saúde.

Como funcionam as vacinas?

Segundo publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma vacina tem o papel de reduzir o risco de contágio de uma doença por meio da indução de uma defesa natural do corpo humano.

A partir do momento em que a vacina é aplicada, é iniciado um ciclo de imunização que passa por três etapas principais: o reconhecimento do antígeno, podendo ser um vírus ou uma bactéria; a produção de anticorpos para atacar o corpo estranho; e o desenvolvimento de uma memória celular no sistema imunológico que seja capaz de inocular a doença da próxima vez em que o indivíduo seja exposto àquele vírus ou bactéria.

Isso acontece porque o sistema de defesa humano trabalha com mecanismos de memória celular. Uma vez expostos a uma ou mais doses de uma vacina, uma pessoa pode, a depender da vacina, ficar protegida contra uma doença durante anos, décadas ou mesmo uma vida inteira. No lugar de tratar os sintomas de uma doença após sua ocorrência, as vacinas impedem que o corpo adoeça. Esse procedimento é válido para todas as vacinas, e não somente contra a covid-19.

As células que indicam essa proteção são chamadas de IgG (imunoglobulina G). Trata-se de uma classe de anticorpos que, quando detectados, indicam contato prévio com o micro-organismo em algum momento da vida, mas não permite dizer se é recente ou antigo. Em alguns casos, sua presença pode significar proteção se houver novo contato. No caso do coronavírus, pode aparecer tardiamente ou nem aparecer.

O consultor da SBI Leonardo Weissman explica que a  detecção de anticorpos protetores acontece entre 2 a 4 semanas após a vacinação.

“Quando se fala em imunização, pensa-se na proteção individual e coletiva. Nenhuma vacina tem 100% de eficácia e protege todas as pessoas. Por esse motivo, orienta-se manter as demais regras de prevenção enquanto não se alcança a imunidade coletiva (ou de rebanho): distanciamento físico, uso de máscaras, higienização frequente das mãos”, afirma Weissman.

No vídeo, Bugarelli concentra sua fala na importância da segunda dose para assegurar a imunização contra a covid-19 e na necessidade de se manter as medidas de proteção nesse período. “Tome a vacina, mas continue suas condutas de proteção, até pelo menos 14 dias após a segunda dose. A vacina funciona e precisa ser feita”.

De forma didática, Bugarelli apresenta no vídeo um gráfico desenhado por ele para explicar como funciona a produção de anticorpos IgG e a imunização no indivíduo, da primeira à segunda dose, com uma escala crescente. Apontando para a ilustração, ele diz: “se eu tomar a vacina hoje e for para uma festa e pegar o vírus da covid, eu vou ter a doença. Não quer dizer que a vacina não funcionou. Quer dizer que você não deixou a vacina funcionar”.

Ele reforça que é preciso aguardar mais 14 dias, após a segunda dose, que dura, em média, 36 dias,  desde a primeira dose.  “Não se exponham antes de ter resposta à vacina”, afirma Bugarelli.

Alberto Chebabo, diretor médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCHH/UFRJ), reitera a informação, destacando que “a imunidade primária só ocorre após a segunda dose. Mas já há uma proteção parcial após 2 semanas da primeira dose”. O autor do vídeo verificado afirma que a partir do primeiro dia o corpo já inicia a produção de anticorpos, mas que o auge é somente em 14 dias. Nesse período, há risco de contaminação.

Weissman atenta que após a vacinação não é recomendado fazer sorologia ou qualquer exame, “pois isso pode causar somente mais confusão”. Isso porque, de acordo com Bugarelli, somente no 14º dia depois da aplicação da primeira dose, o organismo começa a produzir anticorpos IgG (imunoglobulina G). “Quando detectado, indica contato prévio com o micro-organismo em algum momento da vida, mas não permite dizer se recente ou antigo. Em alguns casos, sua presença pode significar proteção se houver novo contato. No caso da covid-19, pode aparecer tardiamente ou nem aparecer”, explica Weissman, da SBI.

Imunidade de rebanho

De acordo com Leonardo Weissman, a imunidade coletiva ou de rebanho é configurada quando um grande percentual de uma população se torna imune a um determinado agente infeccioso. Tradicionalmente, isso ocorre através de vacinação.

O assunto já foi tratado em outras verificações. Em artigo publicado em outubro de 2020, o professor Fernando Barros, da UFPel, explicou ao Comprova que a imunidade coletiva ocorre “quando o vírus já não consegue mais circular em uma comunidade porque faltam pessoas suscetíveis” a ele.

Segundo Barros, essa terminologia deriva de processos imunizadores que envolvem vacinações em massa. “A imunidade de rebanho se dá quando os níveis de imunização chegam em uma determinada proporção na população; por exemplo, em torno de 90% no caso do sarampo”, diz. “Diante disso, esses 10% das crianças que não estão vacinadas com frequência não se contaminam porque o vírus deixa de circular”, afirma.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o projeto Comprova verifica conteúdos duvidosos que viralizaram na internet relacionados a políticas do governo federal e à pandemia de covid-19.

O Comprova recebeu de leitores solicitação para verificar a veracidade do vídeo publicado originalmente pelo médico Marcius Kleber Nunes Burgarelli em seu perfil pessoal do Instagram. O vídeo foi posteriormente reproduzido pelo médico homeopata Alberto Almeida, também no Instagram, sendo visualizado mais de 16 mil vezes até a publicação desta verificação.

Comprovado para o Comprova é um fato verdadeiro ou conteúdo original publicado sem edição.

Políticas públicas

Investigado por:2021-02-15

Vídeo engana ao comparar dois trechos diferentes da Transamazônica para elogiar governo Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
Montagem de vídeo usa imagens de dois trechos diferentes da rodovia, um asfaltado e outro por pavimentar, como se fossem registros de um mesmo local em momentos diferentes. Na realidade, o trecho que aparece no vídeo como um lamaçal continua sem pavimentação e o outro já estava asfaltado quando o governo Bolsonaro tomou posse.
  • Conteúdo verificado: vídeo com uma estrada não asfaltada seguido de um vídeo de uma estrada asfaltada indica que o mesmo trecho mudou radicalmente após a eleição de Bolsonaro

É enganosa uma montagem de vídeos que circula nas redes sociais com uma suposta comparação de um mesmo trecho da rodovia Transamazônica, a BR-230, durante o período dos governos do PT com os primeiros meses do governo Bolsonaro.

A montagem usa duas gravações, feitas em locais diferentes.

Na primeira parte do vídeo, que seria dos governos do PT, motoristas e motociclistas tentam ultrapassar um lamaçal em uma rodovia. A gravação mostra a região de Ladeira da Onça, em Brasil Novo, no Pará, que ainda não foi asfaltada.

Na segunda parte, um motorista trafega por uma estrada asfaltada e em boas condições. Ao contrário do que diz o vídeo, esse trecho da BR-230/PA que aparece em boas condições não foi asfaltado durante o governo Bolsonaro, mas antes de 2019.

Como verificamos?

Em uma busca reversa de imagens com prints do vídeo, encontramos o vídeo original, gravado em 2018. O vídeo viralizou como peça de humor em diversas páginas (veja abaixo), algumas alegando ter sido gravado em locais diferentes.

Em uma das buscas, encontramos a reportagem do Bom Dia Pará, jornal da Rede Liberal (afiliada à Globo), que veiculava o nome do local do primeiro vídeo como “Ladeira da Onça”, no município de Brasil Novo (PA). Buscamos o local nas ferramentas de geolocalização Google Maps e Google Street View. Nas imagens, é possível ver a mesma cerca azul e branca, confirmando que o vídeo realmente foi gravado na Rodovia Transamazônica, na altura do km 48. Entramos em contato com Valdemídio Silva, morador de Brasil Novo, que confirmou o local do primeiro vídeo como a Ladeira da Onça.

A imagem do Google Street View é de 2019 e é possível ver que a estrada não havia sido asfaltada naquele ano. Já a foto de satélite do Google Maps é de 2021, e indica que o trecho da Ladeira da Onça ainda é de estrada de terra.

Entramos em contato com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) para obter informações sobre o km 110 da rodovia Transamazônica, mas não tivemos resposta até a publicação. Consultamos notícias no portal do Governo Federal sobre o asfaltamento da BR-230 confirmadas por verificações da Agência Lupa, Estadão e Aos Fatos sobre o mesmo vídeo, verificando que o trecho km 110 foi asfaltado anos atrás, antes do governo Bolsonaro.

Contatamos o deputado Anderson Moraes (PSL- RJ) para obter informações sobre a fonte do vídeo, mas não tivemos resposta.

Verificação

O vídeo que viralizou é formado por duas partes. No primeiro trecho, motociclistas e caminhoneiros tentam subir uma ladeira de lama. No segundo, um motorista dirige por uma estrada asfaltada, alegando ser o km 110 da Transamazônica. A união dos vídeos dá a entender que o motorista está andando pelo mesmo trecho que antes era cheio de lama, o que não é verdade.

Ladeira da onça

Em uma reportagem do Bom Dia Pará, de dezembro de 2018, há a informação de que a primeira parte do vídeo foi gravada na altura do km 48 da Transamazônica (BR-230) no Pará, local conhecido como Ladeira da Onça, no município de Brasil Novo (PA). A localização é incompatível com o km 110 da Transamazônica, como afirma o autor do segundo vídeo, na estrada asfaltada.

O Comprova entrou em contato com o repórter e locutor Valdemídio Silva, morador da cidade de Brasil Novo (PA) há 36 anos, que confirmou que o primeiro vídeo foi gravado na Ladeira da Onça, e circula há cerca de 2 anos. Outros vídeos da mesma época mostram o sofrimento dos usuários da via.

Vídeo bloqueado em perfil de deputado

O vídeo que viralizou foi publicado originalmente pelo deputado Anderson Moraes (PSL-RJ) no Facebook em 17 de janeiro de 2020, e contém a marca d’água com nome e foto do deputado na parte inferior. O Facebook classificou o vídeo como “Informação Falsa” e bloqueou sua exibição na plataforma. Recentemente, o vídeo foi compartilhado por uma usuária no Twitter e voltou a circular. O Comprova entrou em contato com o deputado, que não retornou.

O governo atual fez obras na Transamazônica?

A rodovia Transamazônica é a terceira maior do Brasil, com 4260 km de extensão implantada, cortando os estados da Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazonas.

Em nota à agência Lupa, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) informou que o km 110 da BR-230/PA não foi asfaltado em 2019, como sugere o vídeo, mas “anos antes”. O DNIT também informou que em 2019, durante o governo Bolsonaro, foi concluída e inaugurada a pavimentação entre os km 0 e 12,1 da Transamazônica no Pará.

Em maio de 2020, o Governo Federal informou que concluiu a pavimentação de 32 quilômetros, entre o km 235 e o km 267 da rodovia. A nota promete a pavimentação de 101,9 quilômetros da rodovia federal, com investimento de R$ 219 milhões. Segundo o balanço anual do Ministério de Infraestrutura do Governo Federal, a pavimentação de 32 km entre Itupiranga e Novo Repartimento, no Pará, e 3 pontes de concreto foram as únicas obras na Transamazônica em 2020.

Em apresentação sobre as obras da BR-230/PA no ano de 2015, o então secretário de Gestão dos Programas de Transportes do Governo Dilma Rousseff, Miguel de Souza, informou que o segmento entre os km 12 e 134,9 da Transamazônica no Pará foi pavimentado durante a gestão petista.

Por que investigamos?

Atualmente em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos que dizem respeito a políticas públicas do governo federal e à pandemia de covid-19. As verificações são feitas em conteúdos que viralizam de forma significativa, caso do vídeo investigado aqui.

A postagem falsa referenciada teve quase 3 mil interações no Twitter no mês de fevereiro e o conteúdo já viralizou por publicações de outros autores uma dezena de vezes desde 2019, incluindo pelo deputado citado na verificação. Supostas realizações do governo Bolsonaro na área de infraestrutura têm sido objeto de desinformação.

Agência Lupa, Estadão e Aos Fatos já verificaram o conteúdo.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

 

Esta verificação contou com o apoio de estudantes de jornalismo do programa de estágio firmado com a FAAP.

 

Pandemia

Investigado por:2021-02-12

É enganoso post que atribui morte de idoso à CoronaVac

  • Enganoso
Enganoso
A pessoa que morreu tinha covid-19, havia sido hospitalizada e, como a vacina é de vírus inativado, ela não poderia ter desencadeado a doença
  • Conteúdo verificado: em um post no Facebook, um homem dizia que seu pai, um idoso, teria morrido por conta da CoronaVac

É enganoso um post no Facebook em que um usuário alega que a CoronaVac, vacina de covid-19 produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, tenha provocado a morte de seu pai. Publicada no dia 6 de fevereiro, a mensagem já havia sido compartilhada mais de 25 mil vezes na plataforma até esta quinta-feira, 11, antes de ser removida da rede social.

Conforme apurou o Comprova, a publicação se refere ao óbito de um idoso de 76 anos na cidade de Guaratinguetá, no interior de São Paulo. Por telefone, o autor do post, Samuel Abreu Batista, afirmou que seu pai recebeu a primeira dose da vacina em 25 de janeiro, posteriormente apresentou sintomas semelhantes aos da covid-19 e faleceu no sábado, 6.

Segundo ele, na certidão de óbito consta morte por choque séptico com suspeita de covid-19. A prefeitura de Guaratinguetá confirmou à reportagem as datas de vacinação e falecimento do idoso.

A relação do óbito com a vacina, porém, foi descartada pela administração municipal após exames de diagnóstico confirmarem que o pai de Samuel apresentava quadro de infecção de covid-19 no dia anterior ao óbito, posteriormente à vacinação. Porém, ao passo que a CoronaVac é um imunizante de vírus inativado, a vacina não poderia ter desencadeado a doença.

Além disso, uma apuração da prefeitura indicou um surto de infecções pelo novo coronavírus na casa de repouso Lar dos Velhinhos São Francisco de Assis, onde o idoso morava.

Como verificamos?

O Comprova acessou o perfil de Samuel Batista, autor do post, no Facebook e verificou que o usuário era pastor na Comunidade Evangélica Projeto Vida em Cunha, São Paulo. A reportagem obteve o número de telefone de Batista e entrou em contato com ele por chamada telefônica e WhatsApp.

A partir do relato do pastor, apuramos o nome do idoso e a cidade em que morava. O passo seguinte foi questionar a Prefeitura Municipal de Guaratinguetá e o Instituto Butantan para averiguar mais informações sobre o caso. A administração da cidade retornou ainda na segunda-feira, 8. Já o Instituto Butantan ainda não havia sido notificado naquela data.

A reportagem ainda consultou o virologista da Universidade Federal de Minas Gerais Flavio Fonseca Guimarães para confirmar se o exame positivo de covid-19 do idoso de fato exclui a possibilidade de efeitos adversos da vacina. Também entramos em contato com a Santa Casa Guaratinguetá para confirmar as datas do envio de resultados dos exames do idoso.

Ainda tentamos conversar com representantes da instituição de longa permanência em que o falecido residia, mas não conseguimos nos comunicar com representantes da entidade beneficente, que também não responderam aos e-mails enviados pela reportagem.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 12 de fevereiro de 2020.

Verificação

De acordo com a prefeitura municipal de Guaratinguetá, um exame RT-PCR coletado no dia 5 de fevereiro, cujo resultado foi confirmado à pasta no dia 9, apontou que o pai do autor da publicação investigada pelo Comprova estava infectado com a doença quando ocorreu o óbito.

O filho revelou à reportagem que o idoso era residente do Lar dos Velhinhos São Francisco de Assis de Guaratinguetá, onde recebeu a primeira dose da CoronaVac em 25 de janeiro. A instituição de longa permanência consta no cadastro estadual de entidades do estado de São Paulo.

Um comunicado da prefeitura atualizado no dia 10 de fevereiro afirma que a apuração da equipe técnica da secretaria de saúde do município constatou que o idoso foi hospitalizado com sintomas de covid-19 e que o mesmo ocorreu com outros idosos que moravam na mesma instituição.

“Durante a investigação também recebemos informações de que funcionários da instituição estavam afastados por suspeita de contaminação pelo covid-19, sendo que já foi possível constatar que três dos funcionários afastados testaram positivo recentemente, o que possibilitou estabelecer uma linha do tempo de contágio e vínculo epidemiológico e consequentemente resultou na abertura de um registro de surto por covid-19 na referida instituição”, diz o comunicado.

Com o diagnóstico de covid-19 confirmado, a prefeitura descartou as hipóteses de um evento adverso da vacina, “pois caso fosse reação vacinal não haveria presença de vírus na amostra coletada, uma vez que a vacina CoronaVac é inativada e não pode causar a doença”.

Ao Comprova, o virologista do Centro de Tecnologia de Vacinas da UFMG Flávio Fonseca afirmou que a nota da prefeitura é precisa. Ele explica que o teste RT-PCR detecta o RNA do vírus na amostra do paciente, mas o vírus inativo aplicado na vacina não contém o RNA viral. Dessa forma, a inoculação do imunizante não permitiria ao exame detectar o material do coronavírus.

Imunidade não é imediata

Fonseca ainda destaca que somente a primeira dose não confere imunidade. Ele alerta que após vacinadas as pessoas ainda precisam manter a “guarda elevada” contra o vírus e seguir regras de prevenção, como o uso de máscaras e a prática do distanciamento social.

O site do Instituto Butantan também ressalta que, mesmo após a segunda aplicação, a imunidade contra o novo coronavírus não é desencadeada imediatamente. “Caso uma pessoa tenha covid-19 logo após se imunizar, isso não significa que a vacina não funcionou, mas que seu o sistema imunológico ainda não teve tempo para criar a resposta imune”, diz o instituto paulista.

A página reafirma a necessidade de manter medidas de segurança, como o uso de máscara e a higienização constante das mãos. Nesta quarta-feira, 10, o Butantan também emitiu uma nota destacando que a morte do idoso ocorrida em Guaratinguetá não tem relação com a CoronaVac.

Resultado

No primeiro contato com a reportagem, no dia 8 de fevereiro, embora já tivesse publicado o post, Samuel Batista afirmou que ainda aguardava os resultados do exame de covid-19 e que a depender do apontamento pretendia ingressar com uma ação judicial para suspender a vacinação de idosos.

Segundo ele, a Santa Casa de Guaratinguetá havia dado um prazo de dez dias para informar a conclusão dos exames.

Em nota ao Comprova enviada na quinta-feira, 11, o hospital afirmou que envia as amostras a um laboratório parceiro credenciado. O prazo médio de resultado, segundo a instituição, corresponde a quatro dias, “a depender da demanda do prestador do serviço”.

A Santa Casa disse ainda que o resultado do exame de covid-19 do idoso foi notificado ao hospital e repassado aos familiares na quarta-feira, dia 10. A prefeitura, no entanto, já havia confirmado o diagnóstico positivo à reportagem na tarde do dia 8 e novamente em nota no dia 9 de fevereiro, conforme mostra o e-mail abaixo.

A assessoria de imprensa justificou que o laboratório responsável pela análise enviou o resultado do exame diretamente à Secretaria Municipal de Saúde.

Em novo contato com Samuel Batista nesta sexta-feira, 12, o pastor disse que foi notificado sobre o exame.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados a informações sobre a pandemia do novo coronavírus, principalmente as que têm grande alcance nas redes sociais. A publicação investigada nesta reportagem alcançou mais de 25 mil compartilhamentos, quase 10 mil interações e foi replicada em outras páginas na rede social.

Os imunizantes e a vacinação contra a covid-19 são alvos frequentes de desinformação. O comprova já desmontou um boato enganoso que usava vídeo de 2018 para afirmar que idosa morreu após tomar vacina, outro afirmava que a imunogenicidade da CoronaVac apresentava riscos à saúde de pacientes. Também desmentimos uma mensagem enganosa repercutida por um assessor da Presidência da República com informações incorretas sobre a eficácia do imunizante.

Enganoso, para o Comprova é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2021-02-09

É falso que EUA estejam distribuindo ivermectina e leite condensado a vacinados

  • Falso
Falso
Vídeo que circula pelas redes sociais foi gravado em Miami Beach, mas a prefeitura da cidade norte-americana informou que não existe distribuição desses itens. Além disso, protocolos oficiais nos EUA não incluem o medicamento como tratamento contra a covid-19.
  • Conteúdo verificado: Em vídeo compartilhado nas redes sociais, um homem exibe um kit que teria recebido nos EUA, após ser vacinado, e que continha uma marmita, uma caixa de ivermectina e uma lata de leite condensado Ele diz que essa seria uma nova política de Biden.

Em vídeo compartilhado em grupos de WhatsApp e no Facebook, um homem, que se apresenta como um brasileiro de mais de 50 anos que acabara de se vacinar, afirma que o governo de Joe Biden está distribuindo ivermectina e leite condensado para quem for vacinado contra a covid-19 nos EUA. Essa afirmação é falsa.

Usando ferramentas de verificação de imagens, o Comprova descobriu o lugar onde foi realizada a gravação, um condomínio em Miami Beach, e entrou em contato com a prefeitura de Miami, responsável pela vacinação no local. A administração da cidade norte-americana informou que o vídeo se trata de uma farsa, que não há distribuição de ivermectina ou leite condensado e que a faixa etária para grupo de risco é acima de 65 anos.

O Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, em suas diretrizes sobre o tratamento da covid-19, não recomenda o uso de agentes como a hidroxicloroquina e a ivermectina contra a doença e informa que ainda não há dados suficientes para a recomendação do uso da ivermectina no tratamento da doença.

A agência reguladora dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), equivalente à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), informa em seu site que embora existam usos aprovados para ivermectina, a droga não foi aprovada para a prevenção ou tratamento da covid-19.

No final do vídeo, de quase seis minutos, o homem diz “desculpa aí a brincadeira”, dando a entender que se trata de uma peça de humor. Mas como o Comprova não conseguiu contato com o autor do vídeo e muitas das páginas que o reproduziram levaram o conteúdo a sério, consideramos o conteúdo como falso.

Como verificamos?

Inicialmente, buscamos informações sobre o autor da postagem no Facebook e o homem que aparece no vídeo.

Para identificar o local onde o video foi gravado, foi feita uma captura de tela do vídeo verificado para começar a busca do local de gravação. Depois, utilizamos o aplicativo do Google Fotos e uma das ferramentas disponíveis para o usuário, o Google Lens, que oferece a possibilidade de selecionar um pedaço da foto para fazer uma busca mais detalhada.

Utilizando essa ferramenta, chegamos ao campo de pesquisa do Google Imagens, que trouxe uma foto que se assemelhava muito ao local onde fora feito o vídeo verificado.

O resultado da busca era uma imagem com o detalhe da fachada do prédio que nos permitiu identificar a construção.

Abaixo da imagem, havia o nome do lugar – North Beach Senior Center / Unidad of Miami Beach – com um link que nos levou para um site que exibia novamente a mesma fachada, mas agora ampliada. A foto trazia, no entanto, a inscrição “ em breve” (coming soon em inglês), o que poderia indicar se tratar apenas de uma imagem feita no computador.

Uma busca semelhante no Google retornava, no entanto, um texto informando sobre a inauguração deste centro, em julho de 2010.

Na sequência, tomamos dois caminhos. Primeiro, buscamos no Google Maps o endereço disponível na imagem: 7251 Collins Ave, Miami Beach, FL 33141, EUA. Utilizando a ferramenta do Google Street View, encontramos o prédio, mas a partir de um local mais distante.

Fotos do local disponíveis no Google Street View traziam, no entanto, indícios de que realmente era esse o prédio.

O Google Street View mostrou, também, que havia uma longa faixa de areia bem à frente do condomínio. Isso era consistente com o reflexo nos óculos escuros do homem responsável pelo vídeo, que aparentava mostrar areia.

Em paralelo, jogamos no Google o nome do local e chegamos ao site da Plaza Constructions, uma construtora com sete escritórios nos Estados Unidos. No site da construtora é possível ver uma série de imagens do empreendimento, mas de ângulos que não permitiam uma confirmação com certeza a respeito do local da gravação.

O site da construtora trazia, no entanto, uma outra informação importante, o nome do escritório responsável pelo projeto – Rene Gonzalez Architects. No Google, encontramos a página do escritório no Instagram e, buscando nas imagens disponíveis, encontramos uma imagem do local publicada em 13 de março de 2020, que mostra a fachada e traz elementos que permitem a confirmação do prédio como sendo aquele em que a pessoa no vídeo estava.

A imagem abaixo mostra as diversas imagens que encontramos e a comparação com as capturas de tela do vídeo verificado:

Consultamos também o site da Itambé, marca do leite condensado exibido no vídeo, e entramos em contato com o departamento de marketing da indústria, para confirmar se o produto é exportado para os Estados Unidos.

Por fim, entramos em contato com o departamento de comunicação e marketing da prefeitura de Miami, que nos retornou informando que o vídeo se trata de uma farsa, que não há distribuição de ivermectina e que a faixa etária para grupo de risco é acima de 65 anos.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 9 de fevereiro de 2020.

Verificação

Houve vacinação no local em que o vídeo foi gravado?

Apesar do local não fazer parte da lista de postos de vacinação informados pelo governo da Flórida, uma busca no Instagram revelou que o prédio da uma localização nomeada como “UNIDAD of Miami Beach (Senior Employment Program) realmente foi usado para essa finalidade pela prefeitura de Miami.

Nas imagens mais recentes, é possível encontrar uma foto que mostra bombeiros de Miami vacinando pessoas. A imagem foi postada por Michael C. Gongora, commissioner (o equivalente a vereador, representa um distrito determinado nas comissões que administram os condados nos Estados Unidos) de Miami Beach.

Ao divulgar a mesma coleção de fotos, o Twitter de Gongora, marcou diversas contas que divulgam notícias de Miami. Uma delas era a @MiamiBeachNews, conta oficial da cidade de Miami Beach. Um dos tweets divulgados por esta conta nos levou a um vídeo de 6 minutos postado em 1º de fevereiro por Dan Gelber, prefeito da cidade. Aos 2min40s, Gelber destaca que o posto de vacinação no “Unidad” foi montado pela prefeitura comandada por ele.

Por email, Melissa Berthier, uma das responsáveis pelo departamento de comunicação e marketing da prefeitura de Miami Beach, confirmou que a cidade está realizando a vacinação, com o imunizante da Moderna, e informou que não há distribuição de ivermectina ou leite condensado pela prefeitura da cidade. Além disso, ela destacou que o suprimento de vacinas é limitado e que, portanto, apenas pessoas com mais de 65 anos estão sendo vacinadas no momento.

Os EUA com Biden anunciaram o chamado “tratamento precoce” com ivermectina e cloroquina?

Segundo as últimas atualizações das diretrizes do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos publicadas no dia 14 de janeiro de 2021, sobre o uso de ivermectina para o tratamento da covid-19, os estudos realizados com a ivermectina em pacientes infectados se mostraram inconclusivos e foi determinado que não há dados suficientes para recomendar a favor ou contra o uso de ivermectina para o tratamento da doença.

Assim como a FDA avisa em seu site que “embora existam usos aprovados para a ivermectina em pessoas e animais, ela não está aprovada para a prevenção ou tratamento de covid-19. Você não deve tomar nenhum medicamento para tratar ou prevenir covid-19, a menos que tenha sido prescrito por seu médico e obtido de uma fonte legítima”.

No site criado especificamente para informar sobre a pandemia, o estado da Flórida também não indica a ivermectina ou qualquer outro medicamento como tratamento precoce em caso de infecção pelo vírus. O medicamento sequer é mencionado na página.

Leite condensado, kiwi e uvas

No vídeo o homem afirma que o “novo protocolo do novo presidente dos EUA, que é o Biden” inclui a entrega de um kit com uma marmita com camarão, além de frutas como kiwi e uva. Na sequência, o homem mostra a marmita, sem mostrar seu conteúdo, e diz que, com a marmita, veio uma caixinha do “ivermedicina, o remédio do Bolsonaro”. A caixa do remédio é, no entanto, um genérico de fabricação brasileira.

O homem diz que, após receber a vacina, foi chamado por um oficial das Forças Armadas (ele menciona que havia militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica na sala de vacinação) que lhe entregou o brinde. Ele exibe também, como sendo um dos itens do kit, uma lata de leite condensado da Itambé com rótulo bilíngue, com inscrições em português e em inglês. Segundo o site da Itambé, a marca exporta o produto regularmente para os Estados Unidos e pode ser comprado com facilidade pela Amazon ou em lojas especializadas em produtos brasileiros.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus, que tenham alcançado grande repercussão nas redes sociais.

O vídeo sobre o suposto kit de ivermectina e leite condensado, oferecido após a vacinação em um posto de Miami, nos Estados Unidos, foi compartilhado no WhatsApp e em milhares de páginas, grupos e perfis do Facebook. Segundo a ferramenta de monitoramento CrowdTangle, o vídeo teve mais de 736 mil visualizações até o dia 9 de fevereiro. Uma das páginas que publicou o vídeo, cujo post foi compartilhado 24 mil vezes, acrescentou um texto fazendo referência ao presidente Jair Bolsonaro: “veja nesse vídeo pq o homem (presidente) mais uma vez tem razão!!”

Apesar do conteúdo apresentar elementos de uma sátira, o vídeo foi compartilhado por muitas páginas como informação verdadeira. E como o Comprova não localizou o homem que aparece na gravação para apurar a intenção do autor, considerou as informações apresentadas na gravação como falsas.

Falso, para o Comprova, é um conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

 

Esta verificação contou com o apoio de estudantes de jornalismo do programa de estágio Comprova/FAAP.