O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 41 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Eleições

Investigado por: 2020-11-23

Diferença entre resultados de pesquisa e de eleição não implica fraude

  • Enganoso
Enganoso
Embora o resultado da eleição não tenha confirmado os índices de uma pesquisa feita para a Prefeitura de Porto Alegre em 14 de novembro, a consulta confirmou os dois nomes que já vinham liderando as pesquisas anteriores. Além disso, a desistência de um dos candidatos na semana da eleição pode ter provocado mudanças nas intenções de voto
  • Conteúdo verificado: Tuíte sugere que pesquisa eleitoral em Porto Alegre é falsa porque percentuais estimados foram diferentes dos resultados das urnas

É enganoso o tuíte do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) sugerindo ser falsa pesquisa eleitoral em Porto Alegre ao comparar o percentual apontado pelo estudo com o resultado das urnas. O atual presidente do PTB escreve ainda, na rede social, que “algo tem que ser feito contra pesquisas fake”, mas a análise prévia sobre intenção de votos é válida e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), passando por todos os ritos legais.

O resultado da votação ficou realmente fora da margem de erro do levantamento feito pelo Ibope e divulgado em 14 de novembro, um dia antes do pleito. No entanto, segundo especialistas consultados para esta verificação, essa variação é sempre uma possibilidade e não prova que houve erro, tampouco intenção de fraude.

Além disso, o cenário projetado pelo Ibope desde 5 de outubro, data da primeira pesquisa tornada pública, se confirmou: decisão no segundo turno entre Manuela D’Ávila (PCdoB) e Sebastião Melo (MDB). Este último apresentava intenção de votos crescente nos últimos levantamentos do Instituto.

A renúncia de um candidato poucos dias antes da votação é outro fator que pode ter alterado o cenário. Bem como a questão de Porto Alegre ter a maior taxa de abstenção entre municípios com mais de 200 mil eleitores — um a cada três votantes não compareceu às urnas.

Apesar de não serem comuns, discrepâncias assim podem ocorrer. Não apenas em outras cidades, mas em outros países. É o caso da eleição de 2016 nos Estados Unidos.

Jefferson também menciona o DataFolha, mas o instituto não realiza pesquisas na capital gaúcha. Pelo Twitter, ele afirmou que “uma pesquisa assim, na véspera, não pode ser considerada séria”. Também disse que os membros do Comprova, “em vez de se preocuparem em comprovar a pesquisa, atacam quem critica”. Só depois respondeu ao contato direto da reportagem, acrescentando que a pesquisa não pode ser considerada séria: “não por ser divulgada na véspera, mas por produzir números tão discrepantes“.

Posteriormente, o tuíte que originou esta verificação foi deletado.

Como verificamos?

A reportagem comparou percentuais citados no tuíte com o indicado na pesquisa do Ibope e os resultados do 1º turno do site do TSE. Também verificamos as informações da pesquisa no site do Tribunal para atestar a veracidade do levantamento.

O Ibope foi questionado sobre a discrepância entre o resultado da pesquisa e o percentual observado nas votação em si. O Comprova também consultou Marcelo Tokarski, sócio-diretor do FSB Pesquisas, e Paulo Peres, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os dois especialistas explicaram a dinâmica de pesquisas eleitorais e os fatores específicos do cenário de Porto Alegre que podem justificar porque a pesquisa divulgada na véspera das eleições não refletiu com precisão a escolha dos eleitores.

A reportagem buscou outros exemplos de diferença entre pesquisas de intenção de votos e os resultados reais para determinar se o fenômeno pode ser considerado incomum ou indicativo de fraude.

Por fim, também fizemos contato com o autor da postagem.

Verificação

Credibilidade da pesquisa

Roberto Jefferson usou seu perfil no Twitter em 17 de novembro, dois dias após a votação em primeiro turno, escrevendo que “algo tem que ser feito contra pesquisas fake”. Porém, não há provas de que a pesquisa a qual ele se refere seja falsa. O ex-deputado menciona Ibope e DataFolha, no entanto, somente o primeiro fez estudos sobre intenção de votos na capital gaúcha.

Em resposta ao Comprova, o Datafolha destacou que “não fez pesquisas eleitorais em Porto Alegre este ano.”

Já o Ibope retornou ao nosso contato por e-mail justificando a diferença entre a previsão e o resultado final com o argumento de que “eleições municipais, especificamente, são bastante dinâmicas, pois lidam com assuntos que impactam diretamente o eleitor e ele deixa para decidir seu voto na última hora”.

O instituto também alegou que trabalha dentro de trâmites legais para garantir idoneidade. Em posicionamento enviado ao Comprova, afirmou que “a empresa tem suas normas certificadas e cumpre rigorosamente os códigos de autorregulação e ética da Esomar (associação mundial de profissionais de pesquisa)”.

Em consulta ao registro de pesquisas eleitorais no site do TSE, pode-se acessar os dados da análise sobre intenção de votos em Porto Alegre — registrada sob o código RS-02998/2020 — e conferir o questionário aplicado, metodologia e outros detalhes.

O TSE informou que não divulga os resultados das pesquisas em seu portal, apenas informações metodológicas.

Os números

As porcentagens apontadas no tuíte de Roberto Jefferson são verdadeiras, tanto as que fazem referência à pesquisa quanto à apuração que levou ao segundo turno.

“Pesquisas do Ibope e do DataFolha no sábado mostravam Manuela D’Ávila com 40% e Sebastião Melo com 25%. Aí sai o resultado e dá Melo com 31% e Manuela com 29%. Onde foram parar ”os votos descritos por Ibope e DataFolha um dia antes?”, escreveu o ex-deputado.

Ele não menciona, contudo, que as três pesquisas divulgadas pelo Ibope (em 5 e 29 de outubro, e em 14 de novembro, respectivamente) sempre apontaram Manuela D’Ávila e Sebastião Melo como principais concorrentes ao segundo turno. Esse cenário aparece tanto nas avaliações que consideram votos totais (usam o total de menções aos candidatos e também brancos, nulos e os indecisos) e votos válidos (corresponde à proporção de votos do candidato sobre o total de votos, excluídos os votos brancos, nulos e indecisos).

Jefferson lançou dúvida sobre a pesquisa com as intenções de votos válidos. Nesse ponto, Paulo Peres, professor de Ciência Política da UFRGS faz uma observação: “A outra pesquisa, com todas as informações (a referente aos votos totais), dava Manuela com 35%. Não ficou muito fora da margem de erro, portanto.”

O Ibope considera como margem de erro três pontos percentuais para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra. Neste caso, realmente houve discrepância de dois pontos percentuais em relação ao resultado do pleito para Manuela D’Ávila e de seis pontos percentuais para Sebastião Melo.

O instituto alega que a diferença pode ter ocorrido porque pesquisas mostram “a movimentação das intenções de voto e, não raro, os candidatos podem subir ou descer na reta final da eleição. Para fazer uma comparação direta com os resultados das urnas seria necessário uma pesquisa de boca de urna, que não foi realizada na cidade.”

Paulo Peres indica razões que podem ter levado à disparidade: “Tais falhas podem envolver problemas operacionais e conjunturais, sem ter nenhuma relação com manipulações ou desonestidade por parte dos institutos de pesquisa. Uma coisa é dizer que houve erros nas projeções, outra coisa é supor que tais erros tenham sido intencionais para favorecer candidaturas, e outra, ainda, é supor que esses erros, sejam intencionais ou não, causaram, de maneira isolada, a eleição de alguém.”

O sócio-diretor da FSB Pesquisas, Marcelo Tokarski, concorda. Ele considera que, quando os resultados ultrapassam a margem de erro, “houve uma discrepância”. Mas acrescenta: “não necessariamente porque houve uma discrepância, significa que houve erro na pesquisa. Ainda mais hoje, com as redes sociais. A população muda muito rapidamente de opinião, e uma eleição municipal mobiliza menos que uma nacional”.

A disparidade entre projeção de uma pesquisa e o resultado das urnas já ocorreu, inclusive, nos Estados Unidos. Em 2016, a democrata Hillary Clinton era apontada como favorita em praticamente todos os levantamentos de intenção de voto e nas projeções feitas por institutos e pela imprensa. Porém, quem venceu a corrida para assumir a Casa Branca foi o republicano Donald Trump.

Em Vila Velha (ES), neste ano, porcentagem apontada por pesquisa também não bateu com a quantidade de votos no pleito. O primeiro colocado na eleição foi Arnaldinho Borgo (Podemos), com 36%, seguido de Max Filho (PSDB) com 22,9%. No estudo de intenção de votos Borgo aparecia na terceira colocação, com 20%, e Max liderava com 30% — empatado com Neucimar Fraga (PSD).

Possíveis justificativas

Neste caso da capital gaúcha, dois fatores são apontados como preponderantes para que os números da pesquisa pré-eleição sejam diferentes dos confirmados pela urna: a desistência do candidato do PTB (mesmo partido de Roberto Jefferson) à prefeitura e o alto índice de abstenção.

O petebista José Fortunati, que já foi prefeito de Porto Alegre, fez sua renúncia oficial em 11 de novembro, a quarta-feira que antecedeu o domingo de eleições. Após sair da disputa pela prefeitura, ele anunciou apoio a Sebastião Melo.

“Certamente, a saída de Fortunati da competição, em especial, às vésperas da eleição, provocou um rearranjo no quadro eleitoral. Melo foi favorecido, como mostraram os resultados do primeiro turno. Em primeiro lugar, Melo se descolou do bloco de centro-direita, que estava embolado na corrida pela segunda vaga ao segundo turno”, avalia o professor Paulo Peres.

Tokarski observa que Sebastião Melo já vinha ganhando espaço nas últimas pesquisas e que a escalada do candidato do MDB “não é surpreendente”. Ele acrescenta que, caso houvesse tempo para outra pesquisa antes do pleito, a tendência é que a migração de votos fosse melhor assimilada e que os percentuais ficassem mais próximos aos das urnas.

Em sua resposta, o Ibope lembra que Fortunati deixou a disputa um dia antes do início da última pesquisa e que “seu eleitorado teve pouco tempo para rever sua intenção de voto”. O instituto enfatiza também que “27% dos entrevistados afirmavam que ainda podiam mudar de voto”.

Marcelo Tokarski recorda ainda que é comum que os votos sejam decididos tardiamente, sem que as pesquisas possam mensurar as escolhas de último momento. Em 2018, 20% dos eleitores decidiram o voto para deputado estadual e federal nas últimas 24 horas. “A pesquisa é a fotografia de um momento. Para fazer um filme você tem que fazer várias”, observa o pesquisador. “Só pesquisas diárias poderiam refletir com mais precisão a opinião do eleitorado”.

Porto Alegre também apresentou outro fator atípico no 1º turno: Mais de 1/3 dos eleitores de Porto Alegre não compareceram às urnas no domingo (15). É a maior taxa de abstenção entre as cidades com mais de 200 mil votantes. Segundo reportagem de GZH, a pandemia e a descrença na política seriam as razões para que mais de 358 mil eleitores não fossem às urnas (33% da população votante).

Os dois especialistas consultados pelo Comprova acreditam que o alto índice de abstenções pode ter influenciado o resultado. O Ibope afirmou que “não é possível compreender o impacto do perfil do eleitor que deixou de comparecer às urnas, em função da pandemia, nos índices dos candidatos”.

“Você tem algum indicativo de informações sobre renda pelas zonas eleitorais. Mas não há como saber as abstenções por sexo ou etnia”, pontua o sócio-diretor do FSB. “Se mais mulheres deixaram de votar, podemos imaginar, por exemplo, que uma candidata mulher seria mais prejudicada”.

Tokarski observa ainda que é difícil prever o nível de abstenção no Brasil: “Nos Estados Unidos, os institutos trabalham com o que chamam de likely voter. Aqui no Brasil, o voto é obrigatório, embora tenha abstenção média de 16%”.

Peres ressalta que, apesar da diferença dos percentuais além da margem de erro, a pesquisa do Ibope projetou corretamente o cenário do segundo turno: “O que sempre esteve claro, desde o início da campanha, era que Manuela teria uma vaga. Inclusive, as pesquisas mostraram isso em todas as suas ondas de coleta de dados. As pesquisas também mostraram, corretamente, que havia uma disputa acirrada pelo segundo lugar, até a saída de Fortunati. Manuela recebeu uma proporção de votos menor do que o previsto, e Melo ficou à sua frente. No caso de Manuela, sua votação ficou próxima à margem de erro da última pesquisa do Ibope. No caso de Melo, a diferença foi maior. Mas, esse pequeno erro não alterou a projeção principal, ou seja, Manuela e Melo foram ao segundo turno“.

Roberto Jefferson

O advogado Roberto Jefferson é o atual presidente do PTB, sigla da qual faz parte desde o começo dos anos 1980 (antes, integrou PMDB e PP). Exerceu seis mandatos como deputado federal pelo Rio de Janeiro. Só deixou a vaga na Câmara, ocupada desde 1983, em 2005, quando foi cassado no episódio do Mensalão, no qual foi delator.

Ao tuitar sobre a verificação – antes de responder diretamente à equipe —, Jefferson disse que o Comprova não atestou a veracidade da pesquisa e sugeriu que a margem de erro foi desconsiderada. As declarações são anteriores à publicação desta reportagem.

O presidente do PTB só retornou ao contato do Comprova no fim da tarde de 20 de novembro, por meio de assessoria de imprensa, sem responder à maioria das perguntas da reportagem.

Em maio, Roberto Jefferson foi alvo de mandados de busca e apreensão referentes a inquérito de fake news conduzido pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Roberto Jefferson também é pai da deputada federal Cristiane Brasil (PTB), que figurou em checagem recente do Comprova que relaciona, sem provas, suposto vazamento de dados administrativos do Tribunal Superior Eleitoral que poderiam transformar as justificativas dos eleitores ausentes de seus domicílios eleitorais em votos válidos. O conteúdo foi classificado como falso.

Por que investigamos?

O Projeto Comprova está em sua terceira fase, em que verifica conteúdos que viralizam nas redes sociais ligados às eleições municipais, às políticas públicas do governo federal e à pandemia.

Ao comparar uma pesquisa devidamente registrada e dentro dos procedimentos legais com o resultado da votação e sugerir que “algo tem que ser feito contra pesquisas fake”, Roberto Jefferson estimula desconfiança na democracia brasileira.

Ao levantar dúvidas sem apresentar provas, ele dá seguimento à agenda do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de duvidar do resultado das urnas.

Até 20 de novembro, o tuíte com conteúdo verificado aqui tinha mais de 2,7 interações (entre curtidas, comentários e republicações). Posteriormente, a postagem foi deletada.

O Comprova já averiguou outros conteúdos que colocam em xeque o processo eleitoral, como o que atestou que o ataque de hackers no sistema do TSE não viola a segurança da eleição (produzido em parceria com a agência Aos Fatos), o que mostra que a apuração é aberta a qualquer cidadão, o que mostra ser falso que votos recebidos por candidata a vereadora no Tocantins tenham reduzido durante apuração e o indicando que a Votação estável ao longo da apuração não configura fraude em São Paulo.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos; que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano; ou que é retirado de seu contexto original e usado em outro, de modo que seu significado sofra alterações.

Eleições

Investigado por: 2020-11-20

É falso que Boulos tenha falado em obrigar paulistano a receber morador de rua na pandemia

  • Falso
Falso
Postagem foi feita por perfil que tentava copiar a página real do político e foi suspenso pelo Twitter
  • Conteúdo verificado: Perfil no Twitter que tenta se passar pelo candidato à Prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos escreveu que decretaria um lockdown diferente no qual os paulistanos deveriam abrir suas casas para receber moradores de rua

É falso que Guilherme Boulos, candidato do PSOL à Prefeitura de São Paulo, tenha tuitado sobre abrigar pessoas em situação de rua em quartos vagos nas casas de paulistanos. O perfil @boulos50, que tentava copiar a página real do político e foi suspenso pelo Twitter, publicou em 18 de novembro que o candidato faria um lockdown “diferente”, decretando que cidadãos com um ou mais quartos vazios em casa teriam que abrigar moradores de rua em seus imóveis, “pela segurança de todos”.

Não é verdade. Ele trata sobre a população de rua e a pandemia em seu programa de governo, publicado antes do primeiro turno das eleições. Entre as propostas apresentadas, estão o “reforço nas medidas de prevenção em ambientes públicos e coletivos” e a “instituição da Renda Solidária para cerca de um milhão de pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade”.

Contatamos a equipe do candidato, que afirmou: “Infelizmente, nossa campanha tem sido alvo de inúmeras fake news. Não podemos permitir que mais uma eleição seja marcada por elas”. Não conseguimos contatar o autor do tuíte falso pois, como afirmado anteriormente, sua conta havia sido suspensa.

Como verificamos?

Primeiramente, buscamos no Twitter o nome de usuário que aparece no print que viralizou, o @Boulos50. Na data da nossa busca, a conta já estava suspensa.

Depois, entramos em contato com a assessoria de campanha do PSOL, partido de Guilherme Boulos, que nos disse que a conta dele na rede social é @GuilhermeBoulos, que inclusive tem o selo de verificação do Twitter. Por WhatsApp, nos enviaram uma nota sobre o caso.

Também pesquisamos o plano de governo do candidato e afirmações que ele já fez em sua conta oficial no Twitter e em reportagens sobre pessoas em situação de rua, invasões e pandemia.

Verificação

Perfil

No Twitter, o nome dos usuários faz parte do link de acesso ao perfil. Portanto, a conta que postou aparece no print que viralizou, @Boulos50, deveria estar disponível no endereço twitter.com/boulos50. O link, porém, mostra que ela foi suspensa, por violar regras da rede social.

No perfil, não há detalhes sobre quais regras teriam sido violadas, mas, no Twitter, há regras ligadas à autenticidade das contas: “não é permitido assumir a identidade de indivíduos, grupos ou organizações com a intenção de iludir, confundir ou enganar.”

Buscando pelo nome de Guilherme Boulos no Twitter, fomos direcionados a outra conta, @GuilhermeBoulos, que possui o selo de autenticidade concedido pela própria rede social. Segundo o Twitter, o selo azul “informa às pessoas que uma conta de interesse público é autêntica”.

Na conta verdadeira de Boulos, não encontramos nenhuma postagem com o mesmo conteúdo do print que viralizou, e a grafia equivocada da palavra “lockdown” – que no tuíte aparece como “lookdow” é mais um elemento que indica a inautenticidade da publicação.

Moradores em situação de rua e invasões

Além de falar sobre moradores em situação de rua em seu plano de governo, no dia 1ª de novembro, Boulos abordou o assunto em seu Twitter, afirmando: “nos primeiros 180 dias, vamos implantar o Plano Vida e Renda SP, com combate de verdade à pandemia”. E, em 19 de novembro, na mesma rede, escreveu que “se houver uma segunda onda (da covid-19), para evitar o contágio em casas com muita gente, onde o isolamento é impraticável, podemos acolher familiares provisoriamente em equipamentos da Prefeitura”.

Por ser coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e uma das principais lideranças da esquerda no país, Boulos costuma ter seu nome ligado a esse tipo de conteúdo falso e já tratou em um vídeo no YouTube sobre desinformação. Ele afirma que atua em movimentos sociais há 20 anos e que “o MTST, ao contrário do que diz a fake news, nunca invadiu casa de ninguém”. “O que ele faz é identificar imóveis (em situação irregular, como os que estão abandonados há mais de uma década, sem pagar imposto) e ocupar, junto com as pessoas, para pressionar o poder público para cumprir o seu papel”, diz ele.

Por que investigamos?

O Projeto Comprova, em sua terceira fase, verifica conteúdos que viralizam nas redes sociais ligados às políticas públicas do governo federal, à pandemia do novo coronavírus e às eleições municipais.

A desinformação é sempre perigosa, mas, quando envolve candidatos às eleições, ela se torna ainda mais problemática pois pode alterar o resultado das urnas com base em mentiras. No geral, concorrentes a cargos públicos têm qualidades, mas também defeitos, e não é necessário inventar histórias para que eles sejam descredibilizados.

O tuíte verificado, que atribui falsamente uma postagem polêmica a um dos candidatos que concorrem no segundo turno à prefeitura da maior cidade do país, teve mais de 1.500 interações só no grupo Aliança pelo Brasil, formado por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) – embora tenha o mesmo nome do partido em processo em formação no TSE, o grupo não tem ligação formal com a associação política. O conteúdo também foi replicado por vários outros perfis no Facebook e no próprio Twitter. A agência Aos Fatos também verificou o conteúdo, classificando-o como falso.

O Comprova já verificou outros conteúdos ligados às eleições, como os que mostraram que um recente ataque hacker ao STJ não era ameaça à segurança das eleições e que o sistema de voto eletrônico brasileiro pode ser auditado, ao contrário do que afirmava um post nas redes sociais.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2020-11-20

É falso que o TSE atualizou apuração baseado em informações de site de notícias

  • Falso
Falso
É o TSE que fornece informações da apuração aos sites de notícias e não o contrário, como afirma um vídeo publicado no Facebook. Também são falsas as afirmações de que “o resultado pode ser modificado após a votação” e que “os votos nulos e abstenções podem ser distribuídos para candidatos”
  • Conteúdo verificado: Vídeo publicado no Facebook sugere fraude ao afirmar que o portal de notícias G1 divulgou resultado das eleições antes do TSE. Além disso, o vídeo afirma que urnas são inauditáveis e o voto de um candidato pode ser dado para outro

São falsas as afirmações de um vídeo publicado no Facebook alegando que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atualizou os dados das eleições municipais de 2020 conforme os números eram antecipados pelo portal de notícias G1. No dia da votação, o G1 divulgou a apuração a partir de dados informados pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral.

Segundo o TSE, empresas jornalísticas não conseguem exibir dados da apuração antecipadamente. De acordo com o tribunal, os arquivos para divulgação dos resultados disponibilizados para as empresas jornalísticas são os mesmos acessíveis para qualquer cidadão, que são liberados à medida que o TSE consegue somá-los. Ainda segundo a Justiça Eleitoral, só é possível ter acesso a um resultado antes do TSE através dos boletins de urna impressos em todas as sessões quando a votação se encerra.

Também são falsas as afirmações de que “o resultado pode ser modificado após a votação” e que “os votos nulos e abstenções podem ser distribuídos para candidatos”. O próprio TSE esclarece em seu portal e em seu canal oficial no YouTube que a urna eletrônica possui diversas barreiras de segurança e que “tanto o voto nulo como o voto em branco não são considerados na soma dos votos válidos”.

Entrevistado pelo Comprova, Paulo Lício de Geus, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e representante da Sociedade Brasileira de Computação nos testes do TSE como avaliador, ressaltou que “a quantidade de obstáculos e o grau de dificuldade para ultrapassá-los impossibilitam a violação das urnas tanto para a alteração de votos entre candidatos quanto a direcionar votos brancos, nulos e abstenções”.

Também é falso dizer que “a urna é inauditável”, pois, de acordo com o artigo 66 da lei nº 9.504/1997, que estabelece normas para as eleições, “os partidos e coligações poderão fiscalizar todas as fases do processo de votação e apuração das eleições e o processamento eletrônico da totalização dos resultados”.

Contatamos o responsável pela página e pela postagem no Facebook, mas até a publicação não recebemos resposta.

Como verificamos?

Para esta verificação, consultamos a legislação eleitoral brasileira, mais especificamente a resolução N° 23.603, que versa sobre os procedimentos de fiscalização e auditoria do sistema eletrônico de votação, e a lei nº 9.504/1997, que estabelece normas para as eleições.

Entramos em contato com o Tribunal Superior Eleitoral para entender a situação dos votos nulos e brancos, a falha que ocorreu no “supercomputador” comprado pela corte e a centralização da totalização dos votos. A assessoria do tribunal encaminhou links das notas emitidas pela corte e a coletiva de imprensa concedida pelo ministro Luís Roberto Barroso sobre os temas. O TSE também enviou uma nota explicando como é feita a divulgação dos resultados pelas empresas de imprensa.

Também entramos em contato com um especialista em computação que participou dos testes regularmente realizados pelo TSE, para saber sobre a possibilidade de alteração dos votos já computados nas urnas.

Realizamos pesquisas em ferramentas de buscas na internet (Bing, Google, DuckDuckGo) e redes sociais, mas não encontramos nenhuma informação que indicasse que o portal de notícias G1 teve acesso às informações das apurações antes do Tribunal Superior Eleitoral.

Verificação

Divulgação não ocorreu antes

Em nota enviada ao Comprova, o TSE disse ser falso que empresas jornalísticas conseguiram exibir dados da apuração do primeiro turno, em 15 de novembro, antecipadamente. “Os arquivos para divulgação de resultados, disponibilizados a empresas jornalísticas, são os mesmos do site de resultados acessíveis por qualquer cidadão e são liberados somente após o TSE totalizar (somar) os votos” explica o tribunal.

Televisões, sites e a imprensa em geral recebem os arquivos através de uma rede de distribuição chamada CDN, uma técnica para enviar grandes quantidades de dados através de uma rede de computadores. A CDN a que os veículos de imprensa têm acesso “replica o site de resultados para impedir sobrecarga e garantir que mais pessoas tenham acesso”, explicou o tribunal.

Segundo o TSE, a única forma de ter acesso aos resultados da eleição antes da Justiça Eleitoral é através dos boletins de urna. Quando a votação é encerrada, os boletins são emitidos em todas as sessões eleitorais, para garantir a transparência do resultado, e podem ser utilizados para auditar a apuração feita pelo próprio tribunal.

Na nota enviada ao Comprova, a Justiça Eleitoral também explicou que, no último domingo, devido a uma lentidão enfrentada na divulgação pelo site que ocorreu por causa do atraso na totalização dos resultados, o TSE disponibilizou o acesso ao sistema interno de contagem dos votos em um telão posicionado no Centro de Divulgação das Eleições (CDE), que fica no térreo do prédio do TSE, em Brasília.

G1 usou dados do TSE

No link de divulgação dos resultados de todos os municípios, o G1 informa que “a fonte das informações desta página é o Tribunal Superior Eleitoral”.

Os veículos de imprensa que acompanham a corrida da apuração, porém, não tiram os dados do aplicativo do TSE, mas sim de um data center (centro de processamento de dados) disponível na nuvem, ou seja, que pode ser acessado remotamente. Assim, emissoras de TV, rádio e portais de internet podem desenvolver suas próprias plataformas de divulgação dos números, desde que atendam às regras do TSE.

Os artigos 210 a 213 da Resolução 23.611/2019 determinam as regras para que os veículos de imprensa façam a divulgação desses dados. Uma delas é que “é vedado às entidades envolvidas na divulgação oficial dos resultados promover qualquer alteração de conteúdo dos dados produzidos pela Justiça Eleitoral”.

Em 2020, o TSE disponibilizou no YouTube um vídeo de uma hora e 11 minutos explicando o passo a passo de como essas informações podem ser acessadas. Também foram feitos dois simulados, em outubro e novembro, para que cada veículo pudesse testar se os seus programas de captação e divulgação dos dados estavam funcionando corretamente.

Dia da Eleição

Durante a apuração do primeiro turno das eleições, em 15 de novembro, houve uma falha em um dos computadores da rede do TSE que fez o sistema ficar lento e sem atualizar por algumas horas. Consequentemente, os portais de notícias ficaram sem reportar a atualização dos votos, e as notícias que circularam foram justamente sobre a demora do sistema de votação. Para portais como UOL e BBC, o Tribunal Superior Eleitoral admitiu a demora na apuração do resultado das eleições, mas garantiu que os dados chegaram normalmente aos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs).

Em coletiva de imprensa ainda na manhã do dia 15, o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do TSE, fez um balanço das primeiras horas das eleições. Segundo ele, houve um ataque ao site do TSE, com milhares de acessos simultâneos, para tentar retirar a página do ar, mas a área de tecnologia do tribunal e empresas de telefonia conseguiram solucionar o problema.

Auditorias

O TSE realiza testes públicos permanentes (que acontecem regularmente todos os anos, não apenas próximo do período eleitoral) que buscam aprimorar os sistemas eleitorais. Esses testes contam com a participação de especialistas, que buscam identificar problemas e fragilidades que serão resolvidas antes da realização das eleições. De acordo com Paulo Lício de Geus, professor da Unicamp, a possibilidade de alteração do voto na urna “é tarefa dificílima”.

O professor explica que o teste é feito por investigadores tentando comprometer o sistema de votação. Posteriormente, a comissão avaliadora do TSE analisa o resultado dos investigadores, faz críticas e estuda as consequências e soluções. “Em geral contamos com os apontamentos da equipe “moderadora” e com os desenvolvedores do TSE para explicar pontos ou responder perguntas nossas. Ao final geramos um relatório sintetizando tudo que foi obtido e respectivos impactos, assim como possíveis soluções e recomendações em geral”, complementa.

Legislação

As audiências de auditoria das urnas são públicas e podem ser realizadas por técnicos dos partidos políticos e por entidades fiscalizadoras dispostas no artigo 5º da Resolução do TSE 23.603/2019. A lei nº 9.504/1997, que estabelece normas para as eleições, em seu artigo 66 também afirma que “os partidos e coligações poderão fiscalizar todas as fases do processo de votação. A urna é um arquivo histórico que mudou o sistema eleitoral brasileiro e evita fraudes e manipulações”.

Voto nulo e voto em branco

Um texto no site do TSE explica que, após o encerramento da votação, “os dados são assinados digitalmente, gravados em uma mídia de resultado, destacando-se que o boletim de urna (BU), além de assinado, é criptografado”. Feito isso, “as mídias de resultado são encaminhadas ao local próprio para transmissão”.

O texto também explica que, no caso dos locais de difícil acesso, como aldeias indígenas e certas comunidades ribeirinhas, “a transmissão é feita via satélite para o respectivo tribunal ou zona”. De posse dos dados, os TREs “dão início ao procedimento de totalização dos votos (soma de todos os boletins de urna) e, em seguida, à divulgação dos resultados”.

O TSE enfatiza que “tanto o voto nulo como o voto em branco não são considerados na soma dos votos válidos”.

Nessas eleições municipais, como medida de segurança, ocorreu a centralização dos votos no TSE. Isso se deu por recomendação da Polícia Federal, como explicou em entrevista coletiva o presidente do TSE, o ministro Luís Roberto Barroso.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos que viralizam nas redes sociais ligados às eleições municipais, às políticas públicas do governo federal e à pandemia.

É o caso deste vídeo que foi publicado no Facebook, um dia após o primeiro turno das eleições municipais, e já contabilizou mais de 7,8 mil interações.

O autor do vídeo traz uma série de comentários colocando em dúvida a lisura do processo eleitoral brasileiro, dentre eles, ele diz, sem provas, que “o resultado pode ser modificado após a votação”, “os votos nulos e abstenções podem ser distribuídos para candidatos”, “a urna é inauditável” e, que no domingo, “o TSE atualizou os dados conforme o G1”.

Nesta semana o Comprova verificou que o sistema de voto eletrônico brasileiro pode ser auditado, ao contrário do que afirmava um post nas redes sociais e, que a votação estável ao longo da apuração não indica fraude em São Paulo. E também no 15, dia da votação, o Comprova verificou, em parceria com a agência Aos Fatos, que um ataque de hackers no sistema do TSE não viola a segurança da eleição.

A Agência Lupa também fez a checagem do vídeo investigado pelo Comprova.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2020-11-20

É possível, sim, auditar e realizar recontagem dos votos, ao contrário do que afirma vídeo

  • Enganoso
Enganoso
Ao contrário do que afirma youtuber, existem várias formas de auditar o processo eleitoral brasileiro, antes, durante e após o pleito e a recontagem de votos é prevista no Código Eleitoral
  • Conteúdo verificado: Vídeo publicado no YouTube no qual um homem diz que o sistema eleitoral no Brasil é fraudulento, que não há como fazer recontagem ou auditoria e que a Smartmatic está envolvida no processo eleitoral.

Um vídeo publicado no YouTube engana ao dizer que não há como fazer recontagem e auditoria nas eleições brasileiras para tentar sustentar argumento de que a votação em São Paulo foi fraudada. Existem várias formas de auditar o processo eleitoral brasileiro, antes, durante e após o pleito, estabelecidas na Resolução 23.603/19. A recontagem de votos é prevista no Código Eleitoral, porém, sob circunstâncias específicas. Em seu portal, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esclarece e disponibiliza informações sobre as auditorias e o funcionamento das urnas eletrônicas.

A publicação também engana ao falar sobre a centralização da totalização e divulgação dos votos. Em entrevista coletiva, o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, e o secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal, Giuseppe Janino, explicaram que a concentração dos dados se tratou de uma ação estratégica de segurança. “A centralização, no TSE, da totalização dos votos foi adotada a partir de uma recomendação da Polícia Federal para reduzir a quantidade de superfícies de ataque”, disse o ministro Barroso.

O autor do vídeo também afirma, sem apresentar provas, que “todo o sistema é fraudado”. De acordo com o TSE, nenhum caso de fraude foi identificado e comprovado no sistema eleitoral eletrônico desde que ele foi adotado, em 1996.

Também é enganoso afirmar que a Smartmatic está envolvida no processo eleitoral brasileiro. O Comprova já verificou isso e constatou que a Smartmatic, que forneceu urnas para a Venezuela, nunca vendeu aparelhos para o Brasil.

Como verificamos?

Para essa verificação, o Comprova entrou em contato com o Tribunal Superior Eleitoral, que respondeu por e-mail enviado pela assessoria de comunicação com alguns links do site do órgão sobre como funcionam as auditorias e recontagem de votos. Também buscamos informações com o secretário de tecnologia da informação e comunicação no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE), George Maciel, e o advogado especialista em direito eleitoral Hugo Souza.

Também procuramos reportagens sobre a contagem e divulgação dos votos no primeiro turno, que explicam a lentidão e as falhas no sistema do TSE. Fez parte ainda da verificação a busca de checagens anteriores do Comprova sobre a empresa Smartmatic.

Contatamos ainda a plataforma YouTube a fim de entender por que o canal envolvido nesta verificação foi desmonetizado, informação que o próprio criador menciona ao longo do vídeo verificado.

Tentamos contato com o youtuber, mas até o fechamento desta verificação não obtivemos retorno.

Verificação

Auditoria e recontagem de votos podem ser realizadas

Há várias formas de fazer auditoria no processo eleitoral brasileiro, previstas na Resolução 23.603/19 e realizadas antes, durante e após o pleito. De acordo com o TSE, é possível auditar sob oito aspectos: verificação do resumo digital (hash); reimpressão do boletim de urna; comparação entre o boletim impresso e o recebido pelo sistema de totalização; verificação de assinatura digital; comparação dos relatórios e das atas das seções eleitorais com os arquivos digitais da urna; auditoria do código-fonte lacrado e armazenado no cofre do TSE; recontagem dos votos por meio do Registro Digital do Voto (RDV); e comparação da recontagem do RDV com o boletim de urna (formato PDF).

Os dois principais sistemas são a auditoria de funcionamento das urnas eletrônicas em condições normais de uso (conhecidas antes como “votação paralela”) e a auditoria de verificação da autenticidade e da integridade dos sistemas instalados nas urnas eletrônicas. “Todas as cerimônias de preparação de urna são públicas. A gente divulga um edital e tem dia, local e hora para acontecer, para que os interessados possam participar. Convocamos partidos, Ministério Público e outras entidades interessadas. Toda cerimônia tem a presença do juiz e do MP, às vezes a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Polícia Federal também comparecem. Acontece em todo o Brasil”, explica o secretário de tecnologia da informação e comunicação no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco, George Maciel.

No dia anterior às eleições, tanto para primeiro quanto para segundo turno, uma comissão realiza um sorteio das seções eleitorais que serão submetidas às auditorias, que pode ser acompanhado por qualquer cidadão.

No caso da auditoria de funcionamento das urnas eletrônicas em condições normais de uso, as urnas sorteadas são submetidas a uma votação simulada – respeitando as mesmas condições de uma seção eleitoral oficial. São usadas cédulas de papel, preenchidas por representantes de partidos e entidades públicas. Cada voto é registrado na urna eletrônica e em um computador à parte, com outro sistema. Ao final da votação (no mesmo horário do pleito oficial), são comparados os dois resultados. O processo é filmado e acompanhado por uma empresa de auditoria externa contratada pelo TSE.

Já na auditoria de verificação da autenticidade e integridade dos sistemas, são analisadas se as assinaturas digitais dos sistemas instalados nas urnas eletrônicas são iguais aos sistemas lacrados em cerimônia pública realizada anteriormente pelo TSE. Essa auditoria é realizada no dia da votação, antes do início oficial, em seções eleitorais sorteadas na véspera, também em audiência pública.

Cada urna emite um relatório de resumos digitais dos arquivos instalados nela, que podem ser conferidos a qualquer momento pelos fiscais dos partidos, representantes da Ordem dos Advogados do Brasil e do Ministério Público.

“Além disso, no ano anterior à eleição, a gente chama a comunidade científica para tentar hackear a urna. A gente coloca ela à prova, para corrigir eventuais falhas a tempo, mas até hoje ninguém conseguiu vulnerabilizá-la”, acrescenta George Maciel, do TRE-PE. A Justiça Eleitoral divulga detalhes sobre esse teste em um site.

Além das auditorias, é possível pedir recontagem dos votos. Desde 2004, a urna eletrônica tem um dispositivo, o Registro Digital do Voto (RDV), que guarda as informações dos votos dos eleitores de forma aleatória. Por meio dele, é gerado um boletim de urna, um relatório com a apuração dos votos da seção, que fica à disposição para consulta dos representantes dos partidos. Com o RDV, é possível fazer a recontagem, a apuração e totalização dos votos.

A recontagem é prevista no Código Eleitoral, porém sob circunstâncias específicas. Pode ser solicitada por partidos, coligações ou candidatos por meio de requerimentos aos tribunais regionais ou superior ou por uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije). “A Aije é uma ação judicialmente legal, prevista na legislação eleitoral, em que o partido, a coligação ou o candidato podem entrar com o pedido de revisão, desde que comprovem o tipo de abuso que está ensejando a ação”, explica o advogado especializado em direito eleitoral Hugo Souza. O TSE divulga os pedidos de recontagem já realizados no país.

Centralização dos votos

Nessas eleições, pela primeira vez, a contagem dos votos de todas as regiões brasileiras foi centralizada no TSE, o Tribunal Superior Eleitoral.

Em eleições anteriores, o Tribunal Regional Eleitoral de cada estado e do Distrito Federal era responsável pelo processo de envio dos votos da região para serem somados nacionalmente pelo TSE e, posteriormente, realizar a divulgação dos votos. Neste ano, o próprio TSE fez toda a soma antes da divulgação dos votos.

A centralização no TSE gerou atraso de mais de duas horas na totalização dos votos. De acordo com esclarecimentos do TSE, essa centralização foi uma recomendação da Polícia Federal, visando, de maneira estratégica, reduzir a possibilidade de ataques ao sistema eleitoral.

Em entrevista coletiva, o ministro Luís Roberto Barroso explicou que “um supercomputador foi fornecido pela empresa Oracle para computar, de forma centralizada, os dados provenientes das urnas eletrônicas de todo o país”.

Na mesma coletiva, o secretário de Tecnologia da Informação, Giuseppe Janino, assegurou que “os peritos da Polícia Federal trataram a totalização da distribuição, no âmbito dos 27 Tribunais Regionais Eleitorais, como uma tática chamada de redução de superfície de ataque”.

Janino disse também que “quando se têm 27 pontos, em tese, você teria o mesmo número de chances de pontos para atacar. Mas quando você concentra em um ponto e, nesse ponto, se concentram vários requisitos de segurança, como uma sala cofre de segurança, além de vários softwares, gestão e um serviço de vigilância 24 horas por sete dias na semana, se tem uma possibilidade menor de ataques”.

Sobre a lentidão e falhas no sistema utilizado pelo TSE, o presidente do Tribunal disse, também em coletiva, publicada em texto no site do órgão, que “em razões de limitações nos testes prévios, no dia da eleição a inteligência artificial do equipamento demorou a realizar o aprendizado para processar os dados num volume e velocidade com que chegavam, daí sua lentidão e travamento que exigiu que a totalização fosse interrompida e reiniciada”.

No Brasil nunca foi comprovada fraude no sistema eleitoral

O Comprova não encontrou nenhum indício de que existam provas de fraude no sistema eleitoral brasileiro. Segundo o TSE, desde implantado, em 1996, o sistema nunca foi fraudado.

Em vídeo publicado no Youtube, no canal da Justiça Eleitoral, em 31 de agosto deste ano, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Luís Roberto Barroso, enfatiza que o sistema eletrônico de votação é seguro e que no Brasil nunca foram constatadas fraudes que interfiram no resultado das eleições. “A votação por meio da urna eletrônica, que já vigora no Brasil há mais de duas décadas, já passou por diversas auditorias nos últimos anos e jamais foi constatada qualquer fraude”.

O ministro pontua ainda que “tudo que é humano está sujeito ao aperfeiçoamento, mas nunca se documentou nenhum tipo de fraude relevante que pudesse comprometer o resultado das eleições”.

Em outro vídeo, também disponível no canal da Justiça Eleitoral, o TSE traz de uma maneira didática, em menos de um minuto, informações sobre a segurança da urna, destacando que “a urna eletrônica tem mais de 30 barreiras de segurança”, “todos os programas utilizados na urna ficam disponíveis e são lacrados em uma cerimônia específica”, e que “não é possível mudar os dados que estão nela [urna] após a lacração”.

Autor do vídeo e desmonetização do canal

Renato Barros é um youtuber declaradamente apoiador da direita. Ele é criador de alguns canais disponíveis na plataforma YouTube.

Em julho de 2019, Renato e outros youtubers de direita se encontraram com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), como mostra esta matéria de “O Globo”.

O canal verificado pelo Comprova está desmonetizado há pouco mais de três meses. De acordo com explicações dadas pelo youtuber no próprio canal, a plataforma Youtube classificou o conteúdo como nocivo.

Sobre a questão, o YouTube afirmou que “para que um canal gere receita, ele primeiro precisa ser aceito no Programa de Parcerias do YouTube (YPP, na sigla em inglês)” e atender alguns critérios. A empresa afirmou que “todos os canais no Programa de Parcerias da plataforma são revisados por um ser humano para garantir que atendem os critérios de aprovação. Além disso, passam por revisão periódica, podendo ser removidos do programa”. A remoção pode acontecer, entre outras questões, por tentar gerar receita com vídeos que não são próprios ou não atendem às diretrizes de conteúdo adequado para publicidade.

Sobre conteúdos nocivos, a empresa afirmou que opera com diretrizes da comunidade, ou seja, políticas que descrevem qual conteúdo não é aceitável na plataforma. “Trabalhamos para remover rapidamente material que viola nossas políticas. Usamos uma combinação de pessoas e aprendizado de máquina para detectar, em escala, conteúdo potencialmente problemático”, diz o YouTube, em nota.

Por que investigamos?

Na terceira fase, o Projeto Comprova investiga conteúdos suspeitos relacionados à pandemia da covid-19, a políticas públicas e às eleições. No dia do primeiro turno deste ano, viralizaram postagens a respeito de possíveis fraudes, usando como argumento o atraso que ocorreu na totalização dos votos. As postagens não tinham provas concretas sobre a acusação.

Embora o autor enfatize no vídeo que não tem provas quanto às questões que traz e que se trata da sua opinião, o conteúdo investigado é perigoso pois levanta diversas questões para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro e confirmar uma eventual fraude nas eleições de São Paulo. A publicação no YouTube teve mais de 155 mil visualizações. O Comprova já mostrou, neste ano, que o sistema eletrônico de votação pode ser auditado e checou boatos sobre a possibilidade de a apuração dos votos ser secreta, sobre violação da segurança da eleição por hackers e sobre a transformação da justificativa em votos válidos.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos; que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano; ou que é retirado de seu contexto original e usado em outro, de modo que seu significado sofra alterações.

Eleições

Investigado por: 2020-11-19

Sistema usado em vídeo para simular fraude não é o mesmo de urnas eletrônicas

  • Falso
Falso
Equipamento usado para simulação de fraude em um vídeo antigo que voltou a circular nas redes sociais não é uma urna eletrônica. É também falsa a informação de que três venezuelanos e um português seriam os responsáveis pela elaboração do código-fonte das urnas eletrônicas do Brasil
  • Conteúdo verificado: Vídeo afirma que urnas eletrônicas seriam fáceis de serem fraudadas por meio do código-fonte e que este seria elaborado por estrangeiros que não estariam preocupados com a segurança e confiabilidade do processo eleitoral do Brasil.

São falsas as informações veiculadas em um vídeo no YouTube, insinuando que as urnas eletrônicas usadas nas eleições brasileiras são fáceis de serem fraudadas por meio de alterações no código-fonte. Na filmagem, o autor se apresenta como desenvolvedor de sistemas operacionais e mostra o que seria uma simulação computadorizada da urna.

No entanto, de acordo com o próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e um especialista em tecnologia ouvido pelo Comprova, o programa que é utilizado no vídeo como simulador da urna eletrônica é muito mais simples que o equipamento em si, que conta com inúmeros dispositivos de segurança que impedem que ela funcione com um arquivo modificado.

Além disso, é falsa a informação de que três venezuelanos e um português seriam os responsáveis pela elaboração do código-fonte das urnas eletrônicas do Brasil. Essa responsabilidade é de apenas um grupo restrito de servidores públicos da Justiça Eleitoral, no qual não há estrangeiros.

Vale ressaltar que este vídeo foi originalmente postado por outro canal no Youtube, entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2018. A página que o publicou desta vez posta apenas conteúdos de cunho conservador e de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O Comprova fez contato com o canal, mas não obteve retorno.

Como verificamos?

Para esclarecer quem são os responsáveis pela elaboração do código-fonte das urnas eletrônicas usadas no Brasil, averiguar a possibilidade dele ser alterado e saber quais os mecanismos de segurança existentes, o Comprova acessou documentos elaborados e publicados no site oficial do Tribunal Superior Eleitoral, incluindo uma nota de esclarecimento sobre o vídeo verificado.

Além disso, a equipe também entrevistou Paulo Lício de Geus, professor do Instituto de Computação e diretor de informática (CIO) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que também é representante da Sociedade Brasileira de Computação nos testes públicos de segurança do sistema eletrônico de votação do TSE. Ele detalhou o que seria necessário para alterar o código-fonte e como o trabalho seria complexo.

Já para explicar qual a origem da falsa informação de que três venezuelanos e um português estariam por trás da elaboração do código-fonte das urnas eletrônicas, foi feita inicialmente uma pesquisa no Google com essa associação de palavras que resultou em diversas verificações realizadas há dois anos. Em busca reversa no Google Images, com um frame do vídeo, o Comprova também chegou à publicação original, de 2018.

Verificação

TSE é o responsável pelo código-fonte das urnas

Conforme indica o próprio Tribunal Superior Eleitoral, responsável pelas eleições, as urnas brasileiras têm código-fonte. De acordo com o órgão, “somente um grupo restrito de servidores e de colaboradores do Tribunal Superior Eleitoral tem acesso ao repositório de código-fonte e está autorizado a fazer modificações no software (…) que é o mesmo em todo o Brasil”.

No documento Sistema Eletrônico de Votação: Perguntas Mais Frequentes, o TSE também esclarece que “a Justiça Eleitoral utiliza ferramentas modernas de controle de versão do código-fonte dos sistemas eleitorais” e que por meio delas “é possível acompanhar toda modificação feita sobre o código-fonte, o que foi modificado e por quem”.

Outro mecanismo de segurança se dá com a segregação dentro do Tribunal. “A equipe responsável pelo software da urna não é a mesma que cuida do sistema de totalização”, exemplifica. “A quantidade de sistema eleitorais envolvidos na realização de uma eleição é tão grande que se torna impraticável a um agente interno ter grau de conhecimento do todo que lhe permita realizar algum tipo de ataque”, garante.

Em uma nota de esclarecimento publicada no dia 17 de novembro de 2020 sobre as falsas informações veiculadas pelo vídeo em questão, o TSE ainda afirma que na filmagem “é exposta, de forma didática, uma maneira de se fazer uma urna usando um kit simples, como é o caso de placas com processador Arduino (plataforma de prototipagem)” e que “uma urna eletrônica não é tão simples”.

Sem estrangeiros

Diferentemente do que afirma o autor do vídeo, o código-fonte utilizado nas urnas eletrônicas das eleições brasileiras não é elaborado por “três venezuelanos e um português, pessoas que não têm obrigação nenhuma com a política brasileira”. Essa responsabilidade, na verdade, é exclusiva do próprio TSE, que garantiu ao Comprova que “não há estrageiro na equipe, formada por servidores públicos da Justiça Eleitoral”.

A informação falsa tem origem provável em outro vídeo, que circulou na internet em 2018, ano de Eleições Gerais. Na época, esse conteúdo foi verificado por diversos veículos de comunicação como UOL Confere, Agência Lupa, Boatos.org e Aos Fatos. Em todos, ele foi classificado como falso, distorcido ou boato.

A afirmação distorcia uma fala do então professor Pedro Antônio Dourado de Rezende, que atuava no Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Brasília (UnB) até 2019. Durante uma audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), ele criticou o resultado do edital nº 106 de 2017, que visava a contratação de módulos impressores para as urnas.

Na ocasião, em meio às críticas, o professor afirmou que a empresa vencedora da licitação “pertencia a três venezuelanos e um português”. Embora tenha venezuelanos entre os fundadores, a empresa Smarmatic é estadunidense e acabou desclassificada após uma análise técnica do TSE, que chegou a emitir uma nota na qual esclareceu nunca ter entregue o código-fonte da urna eletrônica para qualquer empresa privada, nacional ou estrangeira.

Vale lembrar que em junho de 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a regra da chamada Minirreforma eleitoral que previa a impressão do voto eletrônico. O plenário entendeu o dispositivo como inconstitucional por colocar em risco “o sigilo e a liberdade do voto, contrariando a Constituição Federal”. Neste ano, uma decisão unânime reafirmou o posicionamento.

O parecer do último mês de setembro, aliás, foi distorcido por um tuíte que dizia que o voto impresso era inconstitucional. O que, por sua vez, foi verificado pelo Comprova e classificado como enganoso. Recentemente, outra verificação também mostrou ser falsa a informação de que a empresa Smarmatic, que forneceu urnas eletrônicas para a Venezuela, tinha vendido os equipamentos ao Brasil.

Os mecanismos de segurança das urnas

Ainda de acordo com a nota de esclarecimento do TSE, cada urna é identificada de forma única e protegida contra tentativas de invasão que, se forem tentadas, serão evidenciadas. Para a identificação são gerados parâmetros criptográficos ainda na fabricação, que nunca são expostos. Como essa identidade é conferida antes e depois da votação, se a urna não for exatamente aquela que foi carregada, há meios para que ela não seja considerada válida.

O TSE também explica que as urnas eletrônicas têm firmwares – classificações de softwares – que iniciam operacionalmente a urna e softwares básicos que carregam o sistema operacional. Porém, de forma diferente dos computadores comuns, cada urna conta com uma “cadeia de confiança” que verifica a autenticidade e a integridade de cada componente. Ou seja, impede que softwares alheios à Justiça Eleitoral sejam carregados e executados na urna.

Além disso, “os códigos-fonte dos softwares e dos firmwares são abertos à consulta durante seis meses antes das eleições, para qualquer pessoa que queria encontrar algum mecanismo malicioso e comunicar sua existência à Justiça Eleitoral”, seja ele na geração de mídias, na votação, na apuração, na transmissão ou no recebimento de arquivos. É o chamado Teste Público de Segurança (TPS).

Para atestar a idoneidade do sistema e descartar a possibilidade de uma alteração no período entre a realização desta consulta pública e o início da votação, o TSE também realiza um procedimento que pode ser acompanhado pelos próprios eleitores, chamado de “cerimônia de votação paralela”.

“Na véspera da eleição, em audiência pública, são sorteadas urnas para verificação. Estas urnas, que já estavam instaladas nos locais de votação, são conduzidas ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e substituídas por outras, preparadas com o mesmo procedimento das originais. No dia da votação, em cerimônia pública, às urnas sorteadas são submetidas à votação nas mesmas condições em que ocorreria na seção eleitoral, mas com registro, em paralelo, dos votos que são depositados na urna eletrônica. Cada voto é registrado em uma cédula de papel e, em seguida, replicado na urna eletrônica. Tudo é registrado em vídeo. Ao final do dia, no mesmo horário em que se encerra a votação, são feitas a apuração das cédulas de papel e a comparação do resultado com o boletim da urna”, explica o TSE.

Desde a implementação das urnas eletrônicas nas eleições brasileiras, em 1996, o TSE garante que foram frequentes os casos de suspeita de fraude, mas que “nenhum caso até hoje foi identificado e comprovado”. A conclusão de que a urna é segura é também de outros órgãos que têm a prerrogativa de investigar o processo eleitoral brasileiro e já realizaram auditorias independentes na urna eletrônica, como o Ministério Público e a Polícia Federal”.

Especialista: “urna não roda com bit modificado”

O Projeto Comprova consultou o professor do Instituto de Computação e CIO da Universidade Estadual de Campinas, Paulo Lício de Geus, que esclarece não ser possível programar votos como mostra o vídeo. Segundo o especialista, as imagens foram usadas para enganar pessoas que não entendem de computação por meio de um programa de demonstração, mas que não têm relação com o sistema do TSE, exceto a aparência do painel.

O autor do vídeo afirma que o Linux, um dos sistemas operacionais mais conhecidos no mundo, é o mesmo usado pelo TSE. Entretanto, Paulo Lício, que também é representante da Sociedade Brasileira de Computação nos testes públicos de segurança do sistema eletrônico de votação do Tribunal Superior Eleitoral, nega a informação e comenta que mesmo com a eficiência desta tecnologia, ela apresenta vulnerabilidades que poderiam comprometer seu uso nas urnas, não fossem outros mecanismos.

“A urna só roda programas criados dentro do TSE, graças a um dispositivo de hardware chamado de HSM (hardware security module), embutido em todas as urnas. A criptografia garante que só os programas criados lá – assinados com a chave privada que fica trancada na sala forte do Tribunal – sejam aceitos para execução”. O especialista aponta que, mesmo que nenhum sistema computacional seja 100% seguro, criar um procedimento interno reduz a possibilidade de alteração dos votos das urnas no Brasil. “A urna sequer roda se tiver qualquer um de seus arquivos modificados por um bit sequer (a menor unidade de informação, dentre gigabytes de código)”, garante.

No vídeo, o autor também sugere que seria possível “driblar” a auditoria – uma verificação dos arquivos de programas presentes nas urnas – com o código já alterado, mas Paulo explica que a auditoria, por si só, não garante segurança à urna, sendo essencial também para a confiabilidade do sistema, a arquitetura interna dos sistemas de software e hardware.

E, diferentemente da simplicidade sugerida pelo vídeo, alterar o código para comandar uma fraude nas eleições exige alta complexidade. “Para se ter alguma chance de alterar a contagem de votos é necessária uma quantidade de recursos de todos os tipos muito grande, especialmente de tempo. Não é uma empreitada para amadores. Teria que ser algo feito por equipes especialistas que hoje só se encontram em exércitos de países líderes mundiais. E não sei se teriam sucesso dentro do tempo de uma eleição (um ano)”, afirma.

Vale lembrar que, de acordo com o TSE, “a urna eletrônica não é vulnerável a ataques externos”. “Ela é um equipamento que funciona de forma isolada. Ou seja, não possui nenhum mecanismo que possibilite sua conexão a redes de computadores, como a internet. Além disso, não possui o hardware necessário para se conectar a uma rede ou mesmo a qualquer forma de conexão com ou sem fio.”

Vídeo de 2018 republicado

Apesar de ter sido publicado no dia 11 de novembro deste ano, exatamente quatro dias antes da eleição, na qual os brasileiros votaram para prefeitos e vereadores, o vídeo “DENÚNCIA GRAVE! Veja como são feita as fraudes nas urnas eletrônicas do Brasil” foi publicado originalmente em 16 de outubro de 2018, entre o primeiro e segundo turno das eleições para presidente.

O próprio homem que aparece no vídeo – e se apresenta como Jeterson, desenvolvedor de sistemas – usa como exemplo a votação para presidente no simulador simplificado da urna eletrônica e fala, por volta do minuto oito, que “as pessoas vão ficar mais atentas no próximo dia de votar, no dia 28”. Dia 28 de outubro foi a data do segundo turno das últimas eleições de 2018.

Com o título “Explicação simples da fraude das eleições 2018”, ele também foi publicado no YouTube pelo canal de Ana Calheiros. Nele já foram publicados dezenas de vídeos, mas o mais recente já tem mais de dois anos. Entre os conteúdos, destacam-se outros que apontam supostas fraudes em eleições ou que criticam membros do PT ou são favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O perfil da página

Criado em 20 de junho deste ano, o canal Geração Patriotas já publicou 77 vídeos no YouTube. De forma geral, os conteúdos apoiam politicamente a direita, os militares e o presidente Bolsonaro, que já afirmou ter havido fraudes nas eleições brasileiras sem apresentar qualquer prova e se declara a favor da volta do voto impresso.

Conforme links nas descrições dos vídeos, o Geração Patriotas tem grupos no WhatsApp e no Telegram; e perfis no Instagram e no Twitter, criados em setembro deste ano. Há ainda um grupo público no Facebook que é descrito como “grupo de direita em apoio ao nosso governo conservador” e cita o lema de campanha de Bolsonaro: “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”. O único moderador e administrador da página é Ivan Souza.

O Comprova entrou em contato com ele por meio de uma mensagem privada no Facebook e enviou outra no perfil do Instagram do Geração Patriotas, ambas enviadas na manhã do dia 19 de novembro. Porém, até o momento em que esta verificação foi publicada, a equipe não tinha recebido qualquer retorno.

Por que investigamos?

Na terceira fase, o Comprova verifica conteúdos duvidosos que estejam viralizando nas redes sociais e que trate de políticas do governo federal, da pandemia ou das eleições de 2020. Até a data de publicação deste texto, o vídeo verificado tinha mais de 2.800 compartilhamentos apenas no YouTube.

Conteúdos falsos, como esse, colaboram para que as pessoas fiquem em dúvida sobre a segurança e a confiabilidade das urnas eletrônicas utilizadas nas eleições do Brasil há mais de 20 anos, prejudicando o processo eleitoral e colocando em xeque um dos mecanismos mais importantes da nossa democracia.

Falso, para o Comprova, é qualquer conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2020-11-18

Apuração da eleição brasileira é aberta a qualquer pessoa, ao contrário do que afirma post

  • Falso
Falso
Post sugere que apuração das eleições municipais deste ano foi secreta e que isso configura fraude, mas o processo é aberto e qualquer cidadão tem acesso aos resultados das seções eleitorais
  • Conteúdo verificado: Postagem no Facebook sugere que apuração dos votos foi realizada de forma secreta no primeiro turno das eleições deste ano e afirma que isso configuraria fraude

É falsa a afirmação, em um post no Facebook, de que houve “apuração secreta” dos votos nas eleições municipais e que isso configuraria fraude. Na verdade, a apuração não é secreta, já que, quando encerrado o horário de votação, os mesmos dados que são transmitidos ao sistema de totalização são impressos na forma de boletins de urna e podem ser conferidos por qualquer pessoa.

Neste ano, houve atraso na divulgação dos resultados das eleições municipais, mas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a apuração ocorreu normalmente e o atraso ocorreu por lentidão no sistema responsável pela totalização dos votos, que é a soma da apuração de cada urna.

Como verificamos?

Entramos em contato com o Tribunal Superior Eleitoral, para saber como funcionam os sistemas de apuração e totalização dos votos. A corte respondeu por e-mail, por meio da assessoria de imprensa, e encaminhou um vídeo que explica a diferença entre os dois procedimentos.

Também consultamos reportagens com detalhes sobre o tema e sobre o atraso na totalização dos votos que ocorreu neste ano, no primeiro turno.

Contatamos a página do Movimento Avança Brasil, responsável pela postagem no Facebook, mas não tivemos resposta até a publicação deste texto. O post, de 16 de novembro, já não estava disponível no dia seguinte, mas não conseguimos confirmar se foi retirado do ar pelo Facebook ou pelos donos da página. O conteúdo ainda está disponível em outras publicações compartilhadas.

Verificação

A apuração de domingo foi secreta?

Apesar de o voto ser secreto, a apuração é feita de forma transparente, em tempo real, e a contabilização é passível de auditoria. Antes do início da votação, informa o TSE, o chefe de cada seção eleitoral emite um boletim chamado zerésima, que assegura que nenhum voto foi computado ali antes da abertura do processo.

Qualquer cidadão, inclusive representantes de partidos e do poder público, pode participar de duas auditorias que são feitas nas urnas imediatamente antes da votação – uma de funcionamento, que simula uma votação, e outra de verificação de autenticidade, que permite conferir as assinaturas digitais.

Quando a votação chega ao fim, o chefe da seção digita uma senha na urna eletrônica que impede que novos votos sejam computados ali. O equipamento emite o Boletim da Urna, com o total de votos recebidos naquele aparelho por cada candidato, partido político, votos brancos, nulos, número da seção, identificação da urna e a quantidade de eleitores que votaram naquela seção. Esse boletim é impresso e fixado na porta da seção. Assim, qualquer pessoa que queira conferir o resultado daquela urna tem acesso ao material.

Outras cópias desse boletim são entregues pelo chefe da seção a pessoas que acompanham a votação no local: os representantes dos partidos políticos e o Ministério Público, por exemplo. Os votos de cada urna são gravados num arquivo chamado Registro Digital de Voto (RDV) e enviados a um ponto de acesso, mas não antes de receber uma assinatura digital, um ato público. Os boletins de urna estão, também, disponíveis no site oficial do TSE.

Em termos práticos, portanto, a apuração dos votos é feita na própria seção, a partir do boletim emitido pela urna. Já a divulgação oficial é parte do processo de totalização dos votos – a soma dos votos apurados em cada seção e zona eleitoral. Neste ano, pela primeira vez, a totalização foi centralizada pelo TSE. Antes, cada Tribunal Regional Eleitoral (TRE) fazia esse processo e enviava os dados ao Tribunal Superior.

Reportagem publicada pela BBC Brasil, em 13 de novembro deste ano – dois dias antes da votação – mostra que uma série de procedimentos é feita pelo TSE para garantir a segurança no processo de votação e que a maior parte dos especialistas concorda que a segurança das votações aumentou desde a adoção da urna eletrônica no país.

Qual a diferença entre totalização e apuração?

Em um vídeo postado em seu canal oficial do YouTube em 26 de outubro deste ano, o TSE explica a diferença entre apuração e totalização dos votos. Após encerrada a votação, a urna eletrônica faz a apuração dos votos e emite o chamado boletim de urna. “Depois de receber os dados enviados pelas zonas eleitorais ou diretamente via satélite, os TREs dão início ao processo de totalização dos votos”, diz um trecho do vídeo.

Neste ano, no entanto, o processo de totalização foi feito pelo próprio TSE, em uma tentativa de gerar mais economia, segundo o tribunal. “A mudança é justamente a centralização desse processo. Foi formada uma nuvem computacional e essa nuvem permite a chamada elasticidade ou o compartilhamento de recursos em termos de processamento. Isso significa que todos têm as mesmas condições e capacidade e recebem o potencial de processamento à medida em que houver a demanda”, explica Giuseppe Janino, secretário de TI do TSE.

Para somar os votos, a informação armazenada na urna – a mesma que foi impressa no boletim ao final da votação – é gravada na mídia de resultados, assinada digitalmente e criptografada. Essa mídia, então, é levada a um ponto de transmissão, conectada via rede privativa. Lá, as informações são transferidas para o TSE. À medida que esses resultados vão chegando, eles são captados pelo sistema de divulgação de resultados, que é quem faz a divulgação para a população através do aplicativo Resultados TSE.

Demora

Nos últimos anos, a totalização dos votos foi concluída rapidamente e, cerca de duas horas após ser encerrada a votação, os brasileiros já sabiam quem eram os eleitos no pleito. Neste ano, no entanto, houve um atraso na divulgação. A cidade de São Paulo, por exemplo, levou algumas horas até que a totalização saísse de 0,39% das urnas e chegasse até 37,77%, o que aconteceu somente por volta das 22h20. Um pouco mais tarde, a totalização chegou a 57,77%.

Ainda na noite do último domingo (15), por volta das 19h30, o TSE informou, em nota, que uma lentidão na totalização dos votos estava provocando uma demora na divulgação dos resultados por meio do site e aplicativo do Tribunal. O TSE informou ainda que o problema não era nos tribunais regionais, que estavam remetendo os dados normalmente para a nuvem, mas no banco de totalização, que estava fazendo a soma com lentidão. Segundo o TSE, o atraso não tinha a ver com a tentativa de ataque cibernético sofrida durante a manhã de domingo, que foi neutralizada e não comprometeu a segurança das eleições, como mostrou esta verificação do Comprova.

Na segunda-feira (16), o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, informou que contratou uma empresa, a Oracle, para fornecer um supercomputador para desempenhar a tarefa da totalização de votos – como mostrou esta outra verificação do Comprova. No entanto, devido à pandemia, houve demora na entrega do equipamento — a compra ocorreu em março e o supercomputador só chegou em agosto. Por isso, a equipe técnica do tribunal diz não ter conseguido fazer testes prévios suficientes. Barroso informou que parte dos testes foram feitos por videoconferência, o que prejudicou a organização.

Por que investigamos?

Na terceira fase, o Projeto Comprova investiga conteúdos suspeitos relacionados à pandemia da covid-19, a políticas públicas e às eleições. No dia do primeiro turno deste ano, viralizaram postagens a respeito de possíveis fraudes, usando como argumento o atraso que ocorreu na totalização dos votos. As postagens não tinham provas concretas sobre a acusação.

O post investigado sugere problemas na contabilização dos votos no pleito deste ano, e desinforma ao falar em “apuração secreta”. A publicação alcançou mais de 11 mil interações no Facebook. O discurso que tenta desacreditar o sistema eletrônico de votação usado no Brasil é frequente, e adotado inclusive pelo presidente Jair Bolsonaro. Nos meses anteriores à eleição, o Comprova já checou boatos sobre a suposta procedência venezuelana das urnas eletrônicas, sobre um documento que, ao contrário do que afirmava o autor de um vídeo, não comprova irregularidades nas eleições presidenciais de 2018, e já esclareceu que o sistema de votação pode sim ser auditado.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

 

Saúde

Investigado por: 2020-11-18

É enganoso que laudo do IML descarte suicídio de voluntário da CoronaVac

  • Enganoso
Enganoso
A hipótese de suicídio foi levantada pela Polícia Civil desde o início do caso, por conta de indícios coletados no local onde o corpo foi encontrado. O exame do IML detectou a presença de opióides, sedativos e álcool no sangue da vítima
  • Conteúdo verificado: Postagem no Twitter afirma que o laudo do IML mostrando que um voluntário da CoronaVac morreu por “intoxicação por agentes químicos”, o que apontaria que o caso não foi um suicídio, como registrou a polícia

É enganoso o tuíte segundo o qual um laudo do Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo havia demonstrado que a morte de um dos voluntários que participava dos testes da CoronaVac, uma das vacinas contra a covid-19, não foi decorrência de um suicídio. O laudo deixa evidente que a pessoa não morreu por conta do imunizante.

A postagem verificada descartava a possibilidade de suicídio ao enfatizar que o laudo apontava morte por “intoxicação exógena”, em uma tentativa de atribuir a morte à vacina. Esse tipo de intoxicação, porém, é compatível com a possibilidade de suicídio e não tem nenhuma relação com a aplicação da vacina.

A hipótese de suicídio foi levantada pela Polícia Civil desde o início do caso, por conta de indícios coletados no local onde o corpo foi encontrado. O exame do IML detectou a presença de opióides, sedativos e álcool no sangue da vítima, como confirmou ao Comprova a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.

Também ouvidos pela reportagem, o médico perito legista José Mário de Lima Júnior e o médico e diretor científico da Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas (ABMLPM), Jozefran Berto Freire, esclarecem que esse resultado apenas determina o que causou a morte de uma pessoa. Somente a investigação da Polícia Civil, que considera outros elementos da ocorrência, pode indicar, de fato, se uma intoxicação química ocorreu por tentativa suicida, acidente ou homicídio.

O Comprova também tentou contato, por e-mail, com o blogueiro Oswaldo Eustáquio, que publicou o conteúdo verificado, mas não teve retorno até a publicação deste texto.

Como verificamos?

Para essa verificação, o Comprova procurou por matérias na imprensa a respeito do boletim de ocorrência sobre o falecimento do voluntário e os laudos produzidos pelo IML e pelo Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo. Em seguida, buscamos a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo, que confirmou o conteúdo dos documentos, e o 93º Distrito Policial, responsável pelo caso. A Delegacia informou que a investigação segue em andamento.

Para entender como os laudos são usados na investigação e se eles podem descartar a hipótese de suicídio, entrevistamos o médico José Mário de Lima Júnior, integrante da Associação dos Médicos Peritos Legistas do Ceará (Ampelce), e Jozefran Berto Freire, diretor científico da Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas. Por fim, buscamos a posição do Instituto Butantan, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) sobre a retomada dos testes com a CoronaVac, na verificação publicada pelo Comprova em 13 de novembro.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 18 de novembro de 2020.

Verificação

Investigação e laudo

A Polícia Civil de São Paulo registrou como suicídio a morte do voluntário que participava dos testes da vacina CoronaVac, como noticiaram, no dia 10 de novembro, O Estado de S. Paulo, UOL e Rede Globo, veículos que tiveram acesso ao boletim de ocorrência número 2.460/2020, registrado pelo 93º Distrito Policial. De acordo com as reportagens, o boletim de ocorrência foi registrado às 16h02 do dia 29 de outubro na delegacia da Zona Oeste de São Paulo. Trechos do documento foram exibidos pela Globo, mostrando que os policiais encontraram uma seringa e diversas ampolas de remédio próximas ao braço da vítima.

No dia 12 de novembro, o UOL e a GloboNews noticiaram que os laudos do IML e do IC apontaram, segundo o exame toxicológico, que o voluntário de 32 anos faleceu por consequência de uma intoxicação aguda por agentes químicos. No sangue da vítima foram detectados álcool, uma grande quantidade de sedativos e um analgésico usado em procedimentos cirúrgicos.

A ocorrência com o voluntário fez a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspender, no dia 9 de novembro, temporariamente os testes da CoronaVac. Após uma ampla repercussão do caso e algumas manifestações públicas das entidades envolvidas no processo de teste da vacina no Brasil, a Anvisa afirmou ter recebido detalhes sobre o caso, fornecidos pelo Instituto Butantan e pelo Comitê Independente de Monitoramento e Segurança da vacina e, no dia 11 de novembro, determinou a retomada dos testes.

O que dizem as autoridades

Em nota enviada ao Comprova, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo confirmou que a morte do voluntário ocorreu por uma “intoxicação exógena”, isto é, causada por substâncias químicas externas ao corpo e que nada têm a ver com a vacina CoronaVac, cujo voluntário participava dos testes. Segundo a secretaria, “foram constatadas a presença de opióides, sedativos e álcool no sangue na vítima”.

Por telefone, o escrivão do 93º Distrito Policial, no Jaguaré, em São Paulo, disse que o inquérito segue em andamento. O delegado responsável pelo caso não foi localizado. Legalmente, o prazo para a conclusão do inquérito é de 30 dias, a contar da data da instauração do procedimento.

Avaliação de peritos

Por e-mail, o médico perito legista, integrante da Associação dos Médicos Peritos Legistas do Ceará (Ampelce), José Mário de Lima Júnior, explicou que o laudo cadavérico só aponta a causa da morte e o instrumento ou meio que levou ao falecimento. “Essa conclusão, porém, não significa, nem reforça necessariamente, que houve suicídio. Tampouco descarta esta hipótese: tudo dependerá da análise de todas as informações produzidas na investigação do caso, bem como das perícias feitas no local de encontro do corpo”, exemplificou. Portanto, ao contrário do que alega a postagem verificada, o laudo não indica se a ocorrência foi um suicídio ou um homicídio, por exemplo.

Segundo Lima Júnior, a diferenciação entre as diversas hipóteses pode ser feita analisando imagens de circuitos de segurança, registros de entrada e saída da portaria, impressões digitais, entre outras possibilidades. O perito afirma que uma série de elementos pode levar à conclusão de que a causa da morte foi suicídio, como a ausência de vestígios de violação do domicílio, de sinais de luta corporal ou a falta de indícios sobre a presença de terceiros no local da morte.

“Caso haja suspeita de morte provocada por uso de agentes químicos, faz-se necessário confirmar a presença de vestígios destas substâncias no local da morte ou no organismo, além da confirmação da presença destes agentes em níveis letais nas amostras biológicas recolhidos do corpo durante a necropsia”, lembra Lima Júnior.

Por telefone, o médico Jozefran Berto Freire, diretor científico da Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas (ABMLPM), reiterou que, ao indicar que uma morte foi provocada por intoxicação química, o laudo pericial não descarta, nem reforça, que foi suicídio. O que vai apontar isso é a investigação, assegura ele.

O médico também explicou que, em situações semelhantes ao caso do voluntário da vacina, quando um corpo é encontrado, o primeiro passo é acionar a polícia, responsável por chamar o serviço de perícia criminal. “Depois que tudo é feito no local, esse corpo é transportado para o IML, onde é feita a necropsia”, informa. No local da ocorrência vão os peritos criminais. No IML, o trabalho fica a cargo do médico legista. Ambos emitem laudos a serem considerados pela autoridade policial que investiga o caso.

O médico reforça que quem estabelece essa relação entre as provas e a causa da morte são os investigadores da polícia. “Tem que haver uma relação que se faz tecnicamente para dizer da possibilidade disso ou daquilo, a partir da prova constituída por exames que justifiquem. A prova é o meio que a gente usa em busca da verdade. A prova tem que ser científica, consistente. Não é por opinião: ‘eu acho que’. O delegado tem elementos técnicos, tem laudos, para concluir a investigação”, afirma. O mais comum é que, durante o inquérito, a autoridade policial chame os peritos que estiveram no local da ocorrência para conversar e orientar a investigação.

Retomada dos testes

No dia 13 de novembro, o Instituto Butantan afirmou ao Comprova ser inverídico que a morte do voluntário tenha sido causada pela CoronaVac. De acordo com o órgão de pesquisa, já foi esclarecido amplamente que o evento adverso grave ocorrido com um participante dos estudos clínicos não teve qualquer relação com a vacina, “como já chancelado pelo órgão regulador e comitês internacional e nacional que acompanham os estudos”. Testes feitos com 50 mil voluntários na China mostraram que apenas 5,36% deles tiveram reações adversas de grau baixo, como dor no local a aplicação, fadiga, estado febril e perda de apetite.

No mesmo dia, a Conep, entidade que acompanha os testes de vacinas contra a covid-19 no país, disse que, até o momento, em nenhum dos “eventos adversos graves” ocorridos durante os testes dos quatro imunizantes em curso no Brasil, houve a confirmação de que a vacina teria sido o causador do evento. “Ao contrário, nos casos estudados sempre foram encontrados outros elementos relacionados com os indivíduos vacinados, que explicariam a ocorrência do problema com mais argumentos do que pela vacinação”, assegura.

Na ocasião, a Anvisa informou ao Comprova que “teve subsídios suficientes para permitir a retomada da vacinação” no caso da CoronaVac, embora lembre que a medida não dispensa o aprofundamento da investigação sobre a morte pautada pelos protocolos de segurança e eficácia de vacinas.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, as políticas públicas do governo federal ou as eleições municipais de 2020. Quando a publicação envolve tratamentos e vacinas contra o novo coronavírus, a checagem se torna ainda mais importante, já que a informação equivocada pode levar pessoas a não se protegerem ou a adotarem tratamentos sem comprovação científica. O conteúdo verificado pelo Comprova teve 29,4 mil interações no Twitter e 2,8 mil interações no Facebook.

À medida em que avançam os testes de eficácia e segurança de vacinas contra o novo coronavírus, peças de desinformação têm tido amplo alcance, principalmente após a suspensão temporária de testes pela Anvisa, prática comum no processo de testagem de imunizantes. Na última semana, o Comprova mostrou que a CoronaVac não matou um voluntário; que a morte do homem não está relacionadas a alterações neurológicas e que o Instituto Butantan informou o evento às autoridades, ao contrário do que circulou na Internet. O Comprova também mostrou que um voluntário da vacina de Oxford morreu após contrair a covid-19, não por efeitos adversos do imunizante.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos, que é retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações ou que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2020-11-18

É falso que votos recebidos por candidata a vereadora no Tocantins tenham reduzido ao longo da apuração

  • Falso
Falso
Imagem que circula em publicações e vídeos em redes sociais foi manipulada digitalmente para representar uma votação que a candidata a vereadora em Palmas, no Tocantins, na realidade não obteve
  • Conteúdo verificado: Vídeo que alega que uma candidata a vereadora de Palmas começou a apuração das urnas com 1.111 votos e terminou com 58, sugerindo fraude no pleito.

É falsa a denúncia sobre uma suposta fraude nas eleições municipais de Palmas presente em um vídeo baseado em duas capturas de tela do aplicativo Resultados, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na primeira imagem, feita durante a apuração das urnas, a candidata a vereadora pelo Republicanos Rose Ribeiro parece estar com 1.111 votos. Na segunda, do resultado final do pleito, Rose tem apenas 58. A primeira imagem foi, contudo, alterada digitalmente e não representa a votação da candidata, que não foi eleita.

A manipulação pode ser percebida ao comparar a captura de tela viralizada com a interface do aplicativo do TSE em diferentes sistemas operacionais. Como verificado pelo Comprova, qualquer número superior a 999 aparece com um ponto de separação de milhar no aplicativo da corte, ao contrário do que é visto na captura de tela dos supostos votos iniciais de Rose Ribeiro. O padrão pode ser visto na captura de tela abaixo.

No Twitter, o Comprova também localizou dois registros de como estava a apuração de votos em Palmas em horários próximos ao da captura de tela compartilhada nas redes. Nenhum dos dois mostrava Rose com 1.111 votos.

Em nota oficial, o Tribunal Regional Eleitoral de Tocantins (TRE-TO) negou a alegação viralizada, afirmando não ser possível “alterar os dados inseridos nas urnas eletrônicas pelos eleitores”.

Como verificamos?

Para analisar a veracidade das capturas de tela, consultamos o portal de resultados do Tribunal Superior Eleitoral, confirmando que Rose Ribeiro terminou a votação do último dia 15 de novembro com 58 votos.

Em seguida, comparamos a captura de tela na qual Rose parecia ter 1.111 votos com a interface do aplicativo em diferentes sistemas operacionais: iOS, da Apple, Android, do Google, e a versão para desktop.

Para consultar como ocorreu a distribuição de votos ao longo da apuração das urnas na capital do Tocantins, buscamos no Twitter por publicações feitas no próprio dia 15 de novembro com as palavras-chave “Palmas + vereadores”. Essa pesquisa permitiu localizar dois registros de como estava a apuração às 17h37 e às 18h04 do dia do primeiro-turno.

Também consultamos o posicionamento oficial do TRE de Tocantins, publicado em seu site e, por fim, procuramos a candidata a vereadora Rose Ribeiro por e-mail e mensagem no Facebook, mas não obtivemos retorno até a publicação deste artigo.

Verificação

Em um vídeo de 35 segundos, um homem é ouvido dizendo: “Esse é o print da candidata Rose Ribeiro […] onde mostra que, antes da paralisação do sistema, ela tinha 1.111 votos e, quando o sistema voltou, ela ficou com apenas 58 votos. Então, o TSE tem por obrigação de responder essa pergunta: para onde foram os votos da candidata a vereadora Rose Ribeiro?”.

Ao longo da gravação, são exibidas duas capturas de tela do aplicativo do TSE: uma, das 17h39, em que Rose parece ter 1.111 votos, e outra do resultado da eleição, que ela terminou com 58 votos.

Em um segundo vídeo também compartilhado nas redes, uma mulher que se identifica como Rose Ribeiro aparece junto a um grupo de pessoas em frente a uma unidade da Polícia Federal e afirma ter sido responsável por fazer o print viralizado.

“Às 17h39, eu estava com 1.111 votos. Finalizou a eleição eu estou com 58 votos. Então, nós, que estamos aqui, nós queremos saber o que aconteceu. Nós queremos saber onde estão esses votos, não só o meu. O meu caso é o caso que eu consegui, por Deus, ter tirado o print no momento que eu vi a quantidade de votos”, diz.

A captura foi, no entanto, alterada digitalmente.

Como demonstrado na comparação abaixo, qualquer número superior a 999 aparece com um ponto de separação de milhar no aplicativo Resultados do TSE, independentemente do sistema operacional utilizado. Isso não ocorre, contudo, com os supostos “1111” votos atribuídos a Rose na captura de tela compartilhada nas redes.

Publicações localizadas no Twitter fornecem mais um indício de que Rose Ribeiro não contabilizava 1.111 votos às 17h39 de 15 de novembro.

Após o fechamento das urnas do primeiro turno, um usuário publicou no Twitter uma captura de tela do aplicativo do TSE, feita apenas dois minutos antes do horário citado no vídeo – às 17h37 – na qual é possível ver a quantidade de votos dos candidatos a vereadores em Palmas.

Listado em primeiro lugar, com 1.042 votos, estava Marilon Barbosa (DEM). Como explicou a assessoria do TSE ao Comprova, durante a apuração das urnas o aplicativo da corte exibe os candidatos por ordem decrescente de votos. Ou seja: se Rose estivesse com 1.111 votos naquele momento, ela apareceria em primeiro lugar na lista.

Nesta captura, como nos testes realizados pelo Comprova, o número de votos superior a 999 também aparece com o ponto de separação de milhar.

Às 18h04, uma outra usuária compartilhou no Twitter capturas de tela de como estava a apuração de votos da cidade, segundo o Jornal do Tocantins. Como é possível verificar em seu site, este periódico também exibe os candidatos por ordem decrescente de votos.

Nos prints, Marilon Barbosa aparece em primeiro lugar, com os mesmos 1.042 votos. Da mesma maneira, Rose não aparece antes de Barbosa, ou mesmo figura na lista que apresentava os 25 candidatos mais votados naquele momento.

Em posicionamento oficial, o TRE de Tocantins negou que os votos de Rose Ribeiro tenham diminuído durante a apuração das urnas.

“O Tribunal Regional Eleitoral do Tocantins esclarece que o processo eleitoral é totalmente transparente e que não há como alterar os dados inseridos nas urnas eletrônicas pelos eleitores. Para conferir a lisura do processo, basta comparar a soma dos resultados dos boletins de urna, impressos na frente dos fiscais de partidos, ainda na seção eleitoral, com os dados disponibilizados pelo sistema da Justiça Eleitoral”, diz a nota, publicada neste dia 18 de novembro.

O vídeo viralizado nas redes possui uma marca d’água do usuário do TikTok “meupartidoeobrasil”. Uma busca na rede social de vídeos por esse nome mostra, contudo, que o perfil não está mais disponível.

O Comprova entrou em contato com a Polícia Federal em Tocantins para saber se o órgão apura alguma irregularidade no pleito, mas não obteve retorno até a publicação deste artigo.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos que viralizam nas redes sociais ligados às eleições municipais, às políticas públicas do governo federal e à pandemia, como, por exemplo, o tuíte que afirmava que as justificativas de eleitores estavam sendo transformadas em votos válidos e a postagem que dizia que a votação estável ao longo da apuração em São Paulo era indício de fraude.

Apesar de apresentar uma denúncia local, o vídeo aqui verificado reflete um movimento amplo de descrédito de instituições eleitorais, que coloca em crédito a confiança dos brasileiros no sistema de votação como um todo e, por consequência, na democracia.

Em poucas horas, o vídeo foi visualizado dezenas de milhares de vezes no Twitter e sua alegação central foi replicada em diversas outras publicações no Facebook, YouTube e Instagram.

Esse conteúdo também foi verificado pelo site de checagem e-Farsas.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu conteúdo original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2020-11-17

Votação estável ao longo da apuração não indica fraude em São Paulo

  • Enganoso
Enganoso
As porcentagens de votos válidos para cada candidato permaneceram estáveis durante a apuração porque não houve grande variação nos votos de cada zona eleitoral, como mostra a apuração do Comprova
  • Conteúdo verificado: Post no Facebook usa os resultados das apurações parciais da eleição na capital paulista para afirmar que houve fraude no primeiro turno

Um post no Facebook afirma, sem evidências, que o resultado das parciais de votação das eleições à Prefeitura de São Paulo aponta para uma fraude eleitoral – o mesmo conteúdo está se espalhando em correntes no WhatsApp. O texto lista as porcentagens de votos dos quatro primeiros concorrentes a prefeito na capital paulista em diferentes momentos da apuração e argumenta que seria impossível que os porcentuais para cada candidato permanecessem os mesmos durante toda a noite. Não há nenhuma prova para essa alegação.

As porcentagens de votos válidos para cada candidato permaneceram estáveis durante a apuração porque não houve grande variação nos votos de cada zona eleitoral. O postulante à reeleição, Bruno Covas (PSDB), venceu em todas as regiões da cidade. Guilherme Boulos (PSOL) ficou em segundo lugar em quase todas as zonas eleitorais – exceto em Parelheiros e no Grajaú, na zona sul paulistana, onde Jilmar Tatto (PT) conquistou essa colocação.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) explicou que “a estabilidade no percentual de votos em candidatos durante a totalização não constitui indício de fraude e indica apenas homogeneidade nos votos recebidos durante a totalização”. O tribunal comunicou ainda que “os resultados da totalização das eleições são completamente transparentes e podem ser verificados por qualquer cidadão”.

Como verificamos?

Buscamos os resultados parciais do primeiro turno em reportagens sobre a marcha da apuração publicadas em diferentes veículos de imprensa e também utilizamos informações de outras verificações feitas pelo Comprova sobre temas relacionados a supostas fraudes nas eleições.

Entrevistamos, por telefone, o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, coordenador do curso de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP), e contatamos, por e-mail, o TSE. Reforçamos a checagem com declarações que o presidente do órgão, ministro Luís Roberto Barroso, fez em coletivas de imprensa nos últimos dias.

Verificação

Números do post

Os dados dos resultados parciais divulgados no post estão corretos. O TSE confirmou que a votação foi mesmo homogênea, e também foi possível verificar os números comparando-os com notícias publicadas ao longo do dia do primeiro turno. O UOL informou que a primeira parcial divulgada pelo TRE-SP foi às 17h32, com 0,39% das urnas apuradas. Os resultados são iguais aos informados no post verificado aqui.

Por volta das 22h15, Jovem Pan e Estadão reportaram os resultados com 37,7% das urnas apuradas e a porcentagem de votos dos quatro primeiros candidatos bate com o informado nas redes. Cerca de 20 minutos depois, a CNN informou a atualização, com 57,7% das urnas apuradas e os números também são os mesmos dos do post.

Para o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, coordenador do curso de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, “a explicação é que os eleitores da cidade tiveram a mesma percepção dos candidatos”. Segundo ele, a população votou “independentemente da classe social ou do território”.

“Não tivemos aquela história de que, ao entrar as urnas da Capela do Socorro, tal candidato vai ser mais beneficiado; ou que com as urnas de Itaquera, tal candidato vai ter mais votos e pode virar o jogo”, diz ele. Para Teixeira, “ao que parece”, foi a primeira vez que a votação ocorreu de forma tão estável em uma grande capital brasileira.

“Talvez uma das razões seja o fato de que não houve uma discussão acalorada em que a dimensão ideológica, classista, separou muito as pessoas. O primeiro turno não foi pautado pela opção por esse ou aquele candidato porque ele representa melhor determinada região. Pode ser que o segundo turno promova isso.”

O porcentual de votos de Covas variou entre 44,52% (Jardim Paulista) e 25,39% (Valo Velho). No total, o tucano conquistou 32,85% dos votos válidos. Os votos para Boulos variaram de 31,89% (Pinheiros) a 15,85% (Vila Maria). O candidato do PSOL obteve 20,24% dos votos válidos.

TSE teve dificuldades técnicas na divulgação dos resultados

Na noite deste domingo, 15, o TSE admitiu ter tido dificuldades técnicas na divulgação dos resultados, por causa de uma lentidão no processo de totalização dos votos. O TSE afirmou que os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) remetiam normalmente os dados, e que o banco de totalização do Tribunal recebia essas informações. No entanto, esse banco somava os totais de votação de forma mais lenta que o previsto.

São Paulo foi uma das cidades em que a divulgação de resultados demorou mais do que em anos anteriores. A apuração ficou estacionada em 0,39% das urnas totalizadas durante o início da noite. Em 2016, às 20h40 todos os votos já tinham sido apurados, e João Doria (PSDB) foi eleito prefeito da capital. Neste ano, a apuração só foi concluída por volta de 0h20.

O processo de totalização dos votos foi feito de forma diferente neste ano. Essa etapa passou a ser concentrada no centro de dados do TSE. Nas eleições passadas, o processamento desses dados era feito pelos TREs. Ou seja, houve uma redução de 27 pontos de totalização para um. De acordo com o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, a mudança foi adotada por recomendação de segurança da Polícia Federal.

Em coletiva de imprensa nesta segunda-feira, 16, Barroso explicou que o TSE contratou a empresa Oracle para fornecer um supercomputador para desempenhar a tarefa da totalização de votos. No entanto, devido à pandemia de covid-19 houve demora na entrega do equipamento — a compra ocorreu em março e o supercomputador só chegou em agosto. Dessa forma, a equipe técnica do tribunal não conseguiu fazer testes prévios suficientes. Barroso informou que parte dos testes foram feitos por videoconferência, o que prejudicou a organização.

O atraso no processamento de dados foi de 2 horas, informou Barroso. “Em razão das limitações dos testes prévios, a inteligência artificial do equipamento demorou a aprender como processar os dados no volume e velocidade. Daí a lentidão, que exigiu que a totalização fosse reiniciada”, afirmou o ministro.

O presidente do TSE voltou a afirmar que a segurança da votação não foi comprometida. “Em nenhum momento a integridade do sistema esteve em risco. O que houve foi um atraso na totalização”, disse.

Ataque hacker não comprometeu segurança da votação

No domingo da votação, um grupo hacker disse ter obtido acesso a dados do TSE. Especialistas em segurança digital ouvidos pelo Comprova e pelo site de fact checking Aos Fatos foram unânimes ao avaliar que as informações vazadas não têm qualquer relação com as eleições 2020 – eram documentos administrativos e antigos.

Na noite do domingo, Barroso descartou que o ataque hacker tenha tido alguma influência no processo de totalização de votos. “Esse sistema de onde se teriam extraído esses dados dos velhos funcionários é um sistema antigo e que não tem nenhuma relação com os servidores onde são processados os dados do sistema eleitoral”, disse ele em coletiva.

As urnas eletrônicas não funcionam em rede e não podem ser acessadas pela internet. Só depois que a votação termina, quando o boletim de urna é impresso, é que a memória em que os votos são salvos é conectada a um sistema para que os votos sejam totalizados pela Justiça Eleitoral. Um sistema de criptografia impede que dados falsos sejam inseridos no momento em que os votos são somados. As várias cópias do boletim de urna, registradas em cartório, permitem que o resultado seja auditado, se necessário.

Os resultados dos boletins de urna ficarão disponíveis neste link a partir da próxima quarta-feira (18), segundo o TSE. Para acessá-los, é preciso selecionar “Boletins de Urna” em “Tipo de Consulta”. O Tribunal explica como ler os dados dos boletins neste artigo.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos que viralizam nas redes sociais ligados às eleições municipais, às políticas públicas do governo federal e à pandemia.

Ao afirmar que houve fraude na contagem dos votos, o post segue a campanha que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem feito, questionando a lisura do sistema de urnas eletrônicas. Isso coloca em risco a credibilidade do resultado das eleições.

O post, que teve mais de 550 compartilhamentos até 17 de novembro, é apenas uma das publicações que estão viralizando na rede, na contramão do fato de que o Brasil usa as urnas eletrônicas há 24 anos e nunca houve nenhum caso de fraude comprovado, segundo o TSE.

O Comprova já verificou conteúdos semelhantes, em artigos como o que checou que o ataque de hackers no sistema do TSE não viola a segurança da eleição (produzido em parceria com a agência Aos Fatos) e o que mostrou que o sistema de voto eletrônico brasileiro pode ser auditado, ao contrário do que afirmava um post nas redes sociais.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos; que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano; ou que é retirado de seu contexto original e usado em outro, de modo que seu significado sofra alterações.

Eleições

Investigado por: 2020-11-16

CoronaVac não matou voluntário nem Doria anunciou aplicação da vacina em novembro

  • Falso
Falso
Morte não teve relação com a vacina e o que o governador de São Paulo anunciou foi a chegada de um lote de vacinas em 20 de novembro, não o início da vacinação
  • Conteúdo verificado: Texto cujo título afirma que a CoronaVac teria causado a morte de um homem e cujo conteúdo diz que a suspensão dos testes da vacina pela Anvisa teria acontecido um dia após o governo de São Paulo anunciar a aplicação das primeiras 120 mil doses para o dia 20 de novembro.

É falso que a CoronaVac teria causado a morte de um homem e que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), tenha anunciado a aplicação das primeiras doses da vacina para 20 de novembro. A afirmação consta em um texto do site Estudos Nacionais publicado em 10 de novembro, dia seguinte ao da suspensão dos testes do imunizante pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A interrupção realizada pela Anvisa aconteceu por causa de um evento adverso grave, que depois ficou claro ser um óbito ocorrido no final de outubro, em decorrência de uma morte que está sendo investigada como suicídio por intoxicação de um dos voluntários da vacina. Nenhuma outra morte foi verificada. A paralisação durou dois dias e os testes no Brasil já foram retomados, após ficar comprovado que o óbito não tinha relação com a CoronaVac. Apesar disso, a Anvisa informou que seguirá acompanhando o desfecho do caso “para que seja definida a possível relação de causalidade entre o EAG [evento adverso grave] inesperado e a vacina”.

Nesse período, a Anvisa e o Instituto Butantan concederam entrevistas coletivas e documentos oficiais da Polícia Militar e da Polícia Civil vieram a público com esclarecimentos sobre o caso. O episódio se tornou mais um da politização da pandemia, inclusive com o presidente Jair Bolsonaro comemorando que “teria ganhado mais uma”.

Reportagens que cobriram o avanço da vacina no Brasil e o próprio Instituto Butantan afirmaram que, por enquanto, apenas a compra das doses do imunizante foi realizada e que a aplicação depende da aprovação da Anvisa, que ainda está em análise e sem data para ocorrer. O acordo é entre o Governo de São Paulo e o laboratório Sinovac.

Como verificamos?

Para verificar a causa da morte do voluntário da CoronaVac e elucidar a suspensão feita pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o Comprova procurou no Google por notícias divulgadas em veículos de imprensa que acompanharam o caso de perto. Também procuramos as notas oficiais publicadas pela Anvisa e acionamos o Instituto Butantan.

Com o objetivo de esclarecer se a interrupção dos testes da vacina teria se dado de maneira correta e entender como funcionam as etapas anteriores à aprovação e à comercialização de imunizantes no Brasil, a equipe também entrevistou Valéria Vianna, coordenadora de Pesquisa Clínica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ), por telefone.

Por fim, para analisar o autor e a página do texto verificado, o Comprova recorreu às informações que constam no próprio site que publicou o conteúdo, às reportagens de outros veículos, encontradas por meio de uma pesquisa no Google com os respectivos nomes, e à consulta da lista de mestres da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 16 de novembro de 2020.

Verificação

Suspensão dos testes da CoronaVac: causas e desdobramentos

Em nota publicada no dia 9 de novembro, a Anvisa informou ter interrompido os estudos clínicos da CoronaVac “após a ocorrência de um evento adverso grave” em 29 de outubro. O objetivoera “avaliar os dados observados até o momento e julgar o risco/benefício da continuidade do estudo”. Por medidas de segurança, durante esse período, nenhum voluntário novo poderia ser vacinado.

De acordo com a Resolução da Diretoria Colegiada nº 9 de 2015 do Ministério da Saúde, são considerados eventos adversos graves: óbito, evento potencialmente fatal, incapacidade ou invalidez persistente ou significativa, exigência de internação hospitalar ou prolongamento da internação, anomalia congênita ou defeito de nascimento, suspeita de transmissão de agente infeccioso por meio de dispositivo médico e evento clinicamente significante.

Neste caso específico, trata-se da morte de um voluntário de 32 anos. Durante a manhã do dia 10 de novembro, Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, parceiro da fabricante chinesa Sinovac para produzir o imunizante no Brasil, afirmou, em entrevista coletiva, que era “impossível que haja relacionamento desse evento com a vacina”, sem detalhar por qual motivo ou qual havia sido a causa do óbito.

Embora a suspensão dos testes da vacina tenha gerado grande repercussão no mundo político, o diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, alegou que a medida foi técnica, devido às informações insuficientes repassadas pelo Instituto Butantan. A declaração foi dada durante outra entrevista coletiva, também no dia 10 de novembro.

Durante a tarde do dia 10, UOL e Estadão reveleram que o óbito era tratado como suicídio pelas autoridades. De acordo com o registrado pela Polícia Militar, o voluntário foi encontrado morto no chão do apartamento, com uma seringa no braço. Para o Estadão, a Polícia Civil de São Paulo afirmou não ter dúvidas de que foi um suicídio, mas esclareceu que ainda aguarda o exame toxicológico.

Além do Brasil e da China, a CoronaVac é testada na Turquia e na Indonésia. Veículos de imprensa mostraram que nesses outros países não houve interrupção dos testes. Responsável pela avaliação ética das pesquisas envolvendo humanos no Brasil, a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) também foi comunicada sobre o óbito e recomendou a continuidade do estudo.

Já na manhã do dia 11 de novembro, menos de 48 horas depois do anúncio da suspensão, a Anvisa autorizou a retomada dos estudos da CoronaVac. De acordo com a agência, a mudança foi possível graças a novas informações enviadas pelo Instituto Butantan, como a provável causa da morte, o boletim de ocorrência e o parecer do Comitê Independente de Monitoramento de Segurança.

“Após avaliar os novos dados apresentados pelos patrocinador depois da suspensão do estudo, a Anvisa entende que tem subsídios suficientes para permitir a retomada da vacinação (…) É importante esclarecer que uma suspensão não significa necessariamente que o produto sob investigação não tenha qualidade, segurança ou eficácia”, afirma o texto.

Depois, no dia 12 de novembro, a GloboNews teve acesso ao laudo do exame toxicológico do Instituto Médico Legal (IML), no qual consta que o voluntário morreu por intoxicação aguda causada por agentes químicos. Foi detectada a presença de álcool, grande quantidade de sedativos e um analgésico cirúrgico cem vezes mais potente que a morfina

CoronaVac não matou voluntário e Doria não anunciou a aplicação da vacina

Diferentemente do que afirma o título do texto “Vacina chinesa mata homem após Doria gastar meio milhão em doses”, não é possível afirmar que a CoronaVac foi a causa da morte do voluntário e nenhuma autoridade chegou a dizer isso. Pelo contrário, as informações indicam que não há relação.

Publicado no dia 10 de novembro, dia da suspensão dos testes da CoronaVac pela Anvisa, o texto verificado até cita que as causas da morte ainda eram investigadas e que o Instituto Butantan afirmou que não era um óbito relacionado à vacina. No entanto, nas publicações nas redes sociais da página, apenas o título fica disponível para os internautas, que acabam recebendo uma informação distorcida.

Aliás, no post no Facebook, o único trecho citado do texto diz respeito a um anúncio que teria sido feito pelo governador João Doria da “aplicação do primeiro lote de 120 mil doses, que são parte de um acordo firmado pelo governador com o governo chinês, em 2019”. Essa informação também está incorreta.

Na verdade, o governador de São Paulo anunciou que as primeiras 120 mil doses da CoronaVac chegarão ao estado no dia 20 de novembro. No entanto, a aplicação delas depende da aprovação da Anvisa.

Por outro lado, corretamente, o texto afirma que essas 120 mil doses fazem parte da aquisição anterior de 46 milhões de doses, com custo de U$ 90 milhões. Na época, o valor equivalia a cerca de R$ 505 milhões. Porém, a assinatura do contrato se deu entre o governo de São Paulo e a Sinovac (não o governo chinês) e ocorreu em setembro deste ano, e não em 2019 – antes da pandemia – como afirma o texto.

Por meio de nota, o Instituto Butantan reforçou que é “totalmente inverídica a informação de óbito de voluntário em decorrência da vacina CoronaVac” e que “em nenhum momento o Governo de São Paulo ou o Instituto Butantan confirmaram a vacinação sem a aprovação e registro da Anvisa”. Assim como detalhou os eventos adversos leves mais comuns e esclareceu que “a parceria efetiva para produção e testes em estágio avançado de uma vacina contra o coronavírus foi firmada somente em junho de 2020, entre o Governo de São Paulo, por meio do Instituto Butantan, e a farmacêutica chinesa Sinovac”.

O Comprova enviou questionamentos sobre o conteúdo ao site Estudos Nacionais no dia 12 de novembro pelo e-mail disponível na página de contato. Embora não tenha obtido retorno, parte do texto passou a ficar disponível apenas para assinantes. Até a data, ele não havia sido atualizado nenhuma vez com as novas informações. No período, o site apenas publicou novos textos relacionados ao caso, mas ainda tratando a morte como “misteriosa”.

Conhecendo o autor e a página

Autor do texto verificado e editor-chefe do site Estudos Nacionais, Cristian Derosa é mestre em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e “aluno do seminário de filosofia de Olavo de Carvalho”.

Em entrevista à Folha de S.Paulo em julho do ano passado, Cristian Derosa afirmou que a editora catarinense foi criada em 2016 e “tem como como principal foco a produção de pensamentos alinhados a valores conservadores”.

Na mesma época, ele publicou um texto que leva a um documento com produções que receberam recurso da Agência Nacional do Cinema (Ancine), mas que “não deviam ter sido aprovadas”. Dois dias depois, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) declarou o desejo de mudar a política do patrocínio federal.

Cristian Derosa também distorceu uma notícia da BBC News sobre mentiras a respeito das vacinas contra a covid-19, como o suposto uso de células de fetos abortados em imunizantes. Ao contrário do que afirma o autor, o Comprova conseguiu mostrar que era falsa a afirmação de que as vacinas serão capazes de provocar danos genéticos e vão monitorar a população.

Segundo a revista Carta Capital, o site Estudos Nacionais teria sido um dos portais que impulsionou uma antiga notícia falsa que relacionava a esquerda política à tentativa de descriminalizar a pedofilia. Em 2018, o Comprova já havia mostrado ser inverídico que um projeto de lei queria tornar legal o abuso sexual de crianças.

Politização da pandemia e visão do especialista

Desde o início, com a recomendação do uso de máscara e do distanciamento social até a defesa ou não de remédios como cloroquina e ivermectina, a pandemia passou por um processo de politização no Brasil, dos quais os protagonistas foram o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o governador de São Paulo, João Doria. No próprio dia da suspensão dos testes da CoronaVac pela Anvisa, o presidente escreveu no Facebook que “ganhou mais uma”.

Apesar de fazer a ressalva de que a emergência sanitária global obriga os pesquisadores a abrirem mão de parte das exigências científicas – como encurtamento de prazos e aceleração de análises, por exemplo, Valéria Vianna, coordenadora de Pesquisa Clínica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que a interrupção dos estudos decretada pela agência se deu dentro deste cenário politizado.

“Eu entendo que o Butantan, com o respeito e prática que eles têm, tenha reportado dentro do intervalo de tempo exigido para o laboratório; e não acredito. Ao longo de todos os meus anos de pesquisa clínica, nunca passei pela situação da Anvisa suspender um estudo por conta de um evento, até porque esse evento, pelo que a mídia publicou, foi um suicídio”, comentou.

Para Valéria Vianna, “a gente ficou no meio de uma briga política, porque a vacina deixou de ser contra a covid-19, deixou de ser uma vacina conduzida por pesquisadores, por um instituto muito sério, que é o Butantan, e outros hospitais da rede, para se tornar a vacina do governador X que é contra o presidente Y. Eu vejo muito mais como uma questão política”, opinou.

Por que investigamos?

Na terceira fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos relacionados a políticas públicas do governo federal ou à pandemia. Neste caso, a divulgação de informações enganosas ou falsas é ainda mais grave, porque pode colocar a saúde das pessoas em risco. Nesta verificação, o texto falso contribui para o descrédito das vacinas contra a covid-19, apontadas por especialistas como o meio mais promissor controlar à doença que já tirou a vida de mais de 165 mil brasileiros, de acordo com os dados do Ministério da Saúde.

Até o dia 13 de novembro, o texto publicado no site Estudos Nacionais tinha mais de 47 mil interações no Facebook e mais de 1.500 compartilhamentos, principalmente em grupos ou páginas de apoio ao presidente Jair Bolsonaro. De acordo com a ferramenta CrowdTangle, também tiveram compartilhamentos menos numerosos no Twitter e na rede social Reddit.

Recentemente, o Comprova já mostrou ser falso que um médico morreu por efeitos adversos da vacina de Oxford; já esclareceu não ser necessário dez anos de pesquisa para que uma vacina seja segura; e já provou que a CoronaVac não matou mais de 2 mil voluntários e que as vacinas não causam danos neurológicos ou de DNA.

Falso, para o Comprova, é qualquer conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.