Pandemia

Investigado por:2020-12-28

Mensagem tira de contexto dados sobre sintomas adversos da vacina Pfizer

  • Enganoso
Enganoso
Mensagem que circula no WhatsApp usa informações descontextualizadas de um aplicativo para monitoramento de sintomas adversos que registra dados dos próprios pacientes e que ainda não foram checados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano.
  • Conteúdo verificado: Mensagem que circula no WhatsApp e afirma que vacina da Pfizer/BioNTech causou efeitos colaterais em 5% dos vacinados e reações graves em 1%.

Não é verdade que a vacina da Pfizer/BioNTech tenha causado efeitos colaterais em 5% e reações graves em 1% das pessoas vacinadas nos EUA, ao contrário do que afirma uma mensagem que circula no WhatsApp e nas redes sociais. A mensagem tira de contexto dados divulgados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano (CDC). No sábado (19), o órgão divulgou que 112 mil pessoas que se vacinaram se cadastraram em um aplicativo do governo para monitoramento de sintomas adversos após a aplicação da 1ª dose. Desse total, 3.150 (2,7%) disseram ter tido algum tipo de efeito que atrapalhou o trabalho ou atividades diárias.

O médico Tom Clark, que apresentou esses dados ao Comitê Consultivo em Práticas de Imunização (ACIP) do CDC, disse que o órgão está estudando os relatos de sintomas para obter mais detalhes. Clark afirmou ainda que a maioria não requer cuidados médicos. Foram identificados também seis casos de anafilaxia, uma reação alérgica severa, mas o CDC ainda avalia se há relação com o imunizante.

O CDC desenvolveu a ferramenta V-Safe para que pessoas que tomaram vacinas contra covid-19 façam check-ups diários sobre sua saúde. Como o próprio paciente relata seus sintomas, as estatísticas ainda necessitam de confirmação. Uma reportagem do jornal The Washington Post do início deste mês questionou a segurança do app, que segundo o texto poderia ser manipulado pelo movimento anti-vacina ou outros atores maliciosos.

O governo americano tem outros dois sistemas de monitoramento de reações adversas após vacinas: o Vaccine Adverse Event Reporting System (VAERS) e o Vaccine Safety Datalink (VSD), que usam dados enviados pelas unidades de saúde.

Como verificamos?

Acessamos documentos do CDC sobre o V-Safe e sobre a vacinação contra covid-19. Também procuramos reportagens na imprensa que ajudassem a contextualizar a imunização nos EUA.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 28 de dezembro de 2020.

Verificação

De onde são os números citados na mensagem?

A mensagem afirma que, em três dias de vacinação nos EUA, foram “272.000 doses aplicadas até o dia 19/12. 112.800 relatos de efeitos colaterais. Mais de 3.000 ficaram incapacitados de realizar atividades diárias. Com 5% de efeitos colaterais, sendo 1% de efeitos graves, talvez mande tanta gente quanto o vírus para os hospitais.” No entanto, os números estão apresentados de forma equivocada e fora de contexto.

Os dados estão em um documento, parte de uma apresentação em slides utilizada em uma reunião emergencial do Comitê Consultivo em Práticas de Imunização (ACIP), ligado ao CDC. Os encontros foram realizados nos dias 19 e 20 de dezembro. O PDF que está incluído no texto que viralizou trata, especificamente, das informações sobre os casos de anafilaxia (uma reação alérgica grave) em pacientes vacinados com os imunizantes que usam tecnologia de RNA mensageiro (dos laboratórios Pfizer/BioNTech e Moderna). Os slides são assinados pelo médico Thomas Clark, que faz parte do corpo técnico do CDC.

Os números que aparecem no texto são desta tabela, que está no documento, mas foi interpretada de maneira equivocada:

O que a tabela registra são os dados colhidos por meio de um aplicativo, lançado pelo governo norte-americano para monitorar de forma ativa quem tomou a vacina. Pelo chamado V-Safe, as pessoas que receberam as doses podem registrar qualquer tipo de efeito colateral que tenham sentido. O número que o texto menciona, 112.807, trata-se, na verdade, do número de pessoas que baixaram e se registraram no aplicativo até o dia 18 de dezembro, após receberem a primeira dose da vacina.

Segundo a mesma tabela, entre esse total, o número de casos registrados por meio do aplicativo de pessoas com algum impacto na saúde foi de 3.150, ou 2,7% — sendo que esses efeitos não têm indicação de gravidade, e podem ser o impedimento para realizar algum tipo de atividade do dia a dia, ter que faltar ao trabalho ou precisar se consultar com um médico ou profissional de saúde. O texto que viralizou fala em mais de 3 mil casos de pessoas “incapacitadas de realizar atividades diárias”, mas o número, na verdade, se refere a qualquer tipo de consequência.

O mesmo documento também informa que, até o dia 18 de dezembro, o CDC havia identificado seis casos de anafilaxia em pacientes que receberam as doses da Pfizer-BioNTech. Todos ainda serão analisados pelos órgãos competentes dos EUA.

Até o dia 21 de dezembro foram aplicadas 614.117 doses do imunizante Pfizer/BioNTech. Ou seja, o número de reações graves registradas até agora representa 0,0009% dos vacinados.

Quais as reações adversas mais comuns ao imunizante Pfizer/BioNTech?

Segundo o CDC, as reações adversas mais frequentes são dor, inchaço e vermelhidão no local de aplicação da vacina, além de calafrios, cansaço e dor de cabeça. São considerados efeitos leves, parecidos com uma gripe. O órgão americano diz que os sintomas podem começar em até dois dias após a primeira dose e podem atrapalhar o trabalho ou atividades diárias.

De acordo com a Pfizer, o porcentual de pessoas que tiveram esses sintomas durante os ensaios clínicos foi: dor local (84.1%), cansaço (62.9%), dor de cabeça (55.1%), dor muscular (38.3%), calafrios (31.9%), dor articular (23.6%), febre (14.2%), inchaço local (10.5%), vermelhidão local (9.5%), náusea (1.1%), mal-estar (0.5%), e linfonodos aumentados (0.3%).

Autoridades britânicas e americanas recomendam que a vacina não seja administrada a pessoas com histórico de anafilaxia. Mas essa reação é raríssima. O The New York Times informa que uma a cada 1 milhão de pessoas vacinadas nos EUA tem reação anafilática. Um documento do Food and Drug Administration (FDA), agência análoga à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), informa que 0,63% dos participantes do ensaio clínico da Pfizer que receberam a vacina tiveram alguma reação alérgica, comparado a 0,51% de reação no grupo de placebo. Na fase três dos testes, um dos 18.801 participantes que recebeu o imunizante teve anafilaxia.

Reação alérgica grave foi causada pela vacina?

Isso ainda não foi confirmado. O Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH) vai fazer um estudo para descobrir por que algumas raras pessoas desenvolvem reação anafilática. De acordo com o The Washington Post, pesquisadores vão analisar se algum componente da vacina causa a alergia e esperam ter resultados em algumas semanas. No entanto, a pesquisa é de difícil realização pois é preciso recrutar participantes extremamente alérgicos.

O principal suspeito para os cientistas é o Polietilenoglicol, uma substância largamente utilizada em remédios e cosméticos. As reações alérgicas graves a esse composto são extremamente raras.

Os especialistas ouvidos pelo Post afirmam que as reações anafiláticas registradas não devem impedir as pessoas de tomarem a vacina. Americanos que tomarem a primeira dose são instruídos a esperar 15 a 30 minutos antes de ir para casa, no caso improvável de uma reação desse tipo. A anafilaxia é facilmente revertida com doses de epinefrina e outros remédios.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus. Informações falsas sobre as vacinas em desenvolvimento contra a covid-19 podem interferir na confiança das pessoas para serem submetidas aos imunizantes quando eles estiverem disponíveis no país, o que por consequência pode atrapalhar a estratégia de usar as vacinas para conter a disseminação do SARS-CoV-2 e reduzir os efeitos da pandemia. O texto verificado foi compartilhado em um tuíte com seis mil interações.

O Comprova já verificou outros conteúdos falsos sobre vacinas contra covid-19 em fase de desenvolvimento, como a verificação que apontou que testes de um imunizante contra o coronavírus na Austrália não infectaram os voluntários com HIV, que não há comprovação de que a vacina da Pfizer tenha causado paralisia de Bell em voluntários e a que as vacinas para covid-19 não são capazes de provocar danos genéticos.

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