O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Saúde

Investigado por: 2022-03-03

Não há comprovação que morte de menino em Arujá (SP) tem relação com vacina

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o vídeo que atribui a morte de um adolescente de 12 anos à vacinação contra a covid-19. O caso está sob investigação do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) do Estado de São Paulo. Além disso, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não há até o momento confirmação de mortes de crianças associadas a eventos adversos pós-vacinação da covid-19.
  • Conteúdo verificado: Um vídeo publicado no Instagram e em grupos de WhatsApp atribui a morte de um adolescente de 12 anos à vacinação contra a covid-19.

É enganoso um vídeo que circula no Instagram e no WhatsApp e que relaciona a morte de um adolescente de 12 anos em Arujá (SP), no dia 3 de fevereiro de 2022, à vacinação contra covid-19. O médico legista responsável pela necropsia informou ao Comprova que o óbito ocorreu devido a uma malformação vascular. Já a Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo comunicou que a investigação ainda está em andamento, não sendo possível associar o óbito à imunização.

O vídeo traz imagens da criança e uma narração feita pelo pai. Ele afirma que o menino sofreu um infarto fulminante enquanto andava de bicicleta. O homem também diz que foi questionado pelos médicos e pelo perito do Instituto Médico Legal (IML) se o filho havia sido vacinado contra a covid-19. Nas imagens são mostrados um atestado de óbito e uma carteira de vacinação.

A Secretaria Municipal de Saúde de Arujá disse que só será possível atestar a causa do óbito após a conclusão do exame necropsia emitido após cerca de 40 dias da morte.

O Comprova falou com Luciley Cavalcante, mãe do adolescente, por mensagens em uma rede social. Ela informou que o menino nunca foi ao cardiologista, mas que fazia consulta de rotina com o médico da família a cada seis meses.

Segundo Luciley, a desconfiança deles quanto à vacina se deu pelas perguntas que os profissionais do IML fizeram sobre a vacinação do menino quando o corpo foi liberado.Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, responsável pelo IML, não existe um protocolo de questionamento quanto à vacinação nessas situações.

Os familiares foram procurados pela Secretaria Estadual de Saúde. A mãe confirmou que os médicos que atenderam o menino mencionaram doenças cardíacas pré-existentes como causa da morte.

O perfil que publicou o vídeo também foi procurado pela equipe, e respondeu que deveríamos procurar a mãe da vítima e nos encaminhou um link com a postagem dela para um vídeo muito semelhante, mas com a narração dela.

O conteúdo foi classificado como enganoso porque usa informações ainda em apuração para divulgar material antivacina.

Como verificamos?

No vídeo, localizamos a imagem do cartão de vacinação. No documento há o nome, local e dados das vacinas aplicadas. Em outro trecho da gravação, há uma imagem da certidão de óbito.

A resolução do vídeo é baixa e dificultou o entendimento de algumas das informações, porém conseguimos confirmar o nome da vítima, da mãe e do pai e o endereço residencial.

Pesquisamos no Instagram e através do nome, localizamos o perfil do adolescente.

Ao pesquisar as pessoas que ele seguia, localizamos o perfil da mãe. Como estava bloqueado, buscamos o mesmo nome no Facebook e encontramos a conta dela, Luciley Cavalcante, e do pai, Renildo Alves. A mãe também está divulgando o vídeo em suas redes sociais afirmando que a morte teria sido causada pela vacinação contra covid.

Entramos em contato com a família através das redes sociais.

No cartão de vacinação consta que o garoto foi imunizado na Unidade Básica de Saúde Municipal Parque Rodrigo Barreto, em Arujá/SP. A primeira dose foi administrada em 9 de setembro de 2021 e a segunda em 6 de dezembro de 2021, ambas da Pfizer.

Enviamos e-mail solicitando informações sobre o caso para a Secretaria Municipal de Saúde de Arujá, Secretaria de Estado da Saúde, Ministério da Saúde, Anvisa, Pfizer e Polícia Civil de SP.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis até o dia 3 de março de 2022.

Verificação

Causa da morte

O pai do menino, Renildo Alves da Silva, conta no áudio que o garoto passou mal em frente ao portão de casa. Ele foi encontrado caído e com o rosto roxo. Segundo a mãe, Luciley Cavalcante, o menino foi levado para a UPA Barreiro, mesma unidade onde foi vacinado. Ele faleceu no local em 3 de fevereiro.

A família relata que o corpo foi levado ao IML e que o laudo ainda não foi disponibilizado a eles. Ainda no vídeo, o pai conta que o menino era saudável e realizava exames regulares. Ao Comprova, no entanto, a mãe relatou que a criança nunca foi atendida por um cardiologista.

O médico chegou a afirmar que “não foi constatada nenhuma relação com a vacinação”, mas não deu detalhes, e também não comentou sobre a condição prévia de saúde do adolescente.

A certidão de óbito também afirma que a morte foi provocada por causas cardíacas. O documento descreve: choque cardiopático, infarto agudo do miocárdio, arritmia cardíaca e miocardiopatia hipertrófica.

Mesmo assim, a Secretaria Municipal de Saúde de Arujá e a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo ainda apuram se há relação da morte com a vacinação. Em nota ao Comprova, a pasta estadual classificou como “precipitado e irresponsável afirmar, neste momento, que o caso está relacionado à vacinação”.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Saúde não foram notificados sobre a morte em Arujá.

Brasil não tem mortes de crianças pelas vacinas

Não há registro de mortes de crianças relacionadas à vacinação contra o coronavírus. A informação foi divulgada pelo presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, em entrevista à Agência Senado no dia 16 de fevereiro deste ano. De acordo com Barra Torres, apenas dez crianças nos Estados Unidos tiveram efeitos adversos graves após a vacina, mas todas tiveram alta médica.

A vacinação de adolescentes contra a covid-19 no Brasil é feita com a Pfizer e a Coronavac. O grupo de 12 a 17 anos, do qual o menino fazia parte, passou a ser vacinado em setembro de 2021, após recomendação do Ministério da Saúde.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos suspeitos que circulam nas redes sociais ou aplicativos de mensagem sobre a pandemia do coronavírus, eleições e políticas públicas. O conteúdo verificado teve mais de 61 mil interações apenas no Instagram. Também é possível localizar o vídeo enganoso no Facebook e ele circula também no WhatsApp.

Não há até momento a confirmação de que a morte do menino tenha sido causada pela vacina da Pfizer. Assim, o conteúdo compartilhado contribui para a disseminação de notícias falsas sobre a vacinação contra o coronavírus.

Em outras verificações, o Comprova já mostrou ser enganoso, um post que relacionava a morte de uma criança com CoronaVac e que não há registro de mortes de crianças causadas por vacinas contra a covid-19 no Brasil.

Enganoso para o Comprova é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2022-03-03

Post tira dados de contexto para sugerir que vacinados são mais vulneráveis à covid

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso um tuíte que usa dados de mortes por covid-19 no Distrito Federal referentes a um único dia para sugerir que pessoas vacinadas são mais vulneráveis à doença. O tuíte omite informações importantes e dá destaque a um conjunto de dados muito pequeno, que não é representativo da atual fase da pandemia.
  • Conteúdo verificado: Tuíte apresenta dados de um boletim diário de óbitos por covid-19 no DF, referente a 15 de fevereiro de 2022. O tuíte dá destaque ao fato de todas as oito mortes serem de pessoas que receberam ao menos duas doses da vacina, enquanto nenhuma pessoa não vacinada morreu naquele dia.

É enganoso um post no Twitter que usa dados de mortes por covid-19 no Distrito Federal referentes a um único dia para sugerir que pessoas vacinadas são mais vulneráveis à doença. O tuíte omite informações importantes e dá destaque a um conjunto de dados muito pequeno, que não é representativo da atual fase da pandemia.

Os dados citados na publicação foram extraídos da “Síntese diária de óbitos notificados em 15 de fevereiro”, um documento produzido pela Diretoria de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (Divep/SVS). Segundo o informe, foram notificadas oito mortes por covid-19 no DF em 15 de fevereiro de 2022.

O autor do post ressalta que todas as oito vítimas haviam recebido ao menos duas doses da vacina contra a covid-19; quatro delas também tinham recebido a dose de reforço. “NENHUM ÓBITO DE NÃO VACINADO”, destaca o tuíte, induzindo à conclusão de que pessoas vacinadas são mais vulneráveis ao coronavírus, como mostram comentários feitos no post original (1 e 2).

A realidade do atual momento da pandemia, no entanto, é a oposta. Dados divulgados em fevereiro pelas secretarias de Saúde de estados como Amazonas, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo mostram que pessoas não vacinadas ou que não completaram o esquema vacinal, ou seja, não receberam as três doses, têm mais chances de morrer pela doença.

No Distrito Federal, dos 93 idosos acima de 60 anos que morreram entre 1º de janeiro e 7 de fevereiro, período analisado por um estudo feito pela Secretaria de Saúde, 79 (82,3%) não haviam recebido três doses da vacina. As informações foram divulgadas em 11 de fevereiro, portanto, estavam disponíveis quando o post investigado foi publicado. Não há informações sobre quantos estavam apenas com uma, duas ou nenhuma dose da vacina. O estudo leva em consideração que a população vacinada é aquela que completou o esquema básico (duas doses) e reforço.

Especialistas consultados pelo Comprova alertam que outras informações são relevantes ao se analisar dados de óbitos por covid-19. O tuíte aqui verificado diz que todas as oito vítimas notificadas no boletim de 15 de fevereiro do DF tinham mais de 60 anos. No entanto, o autor não menciona outros fatores de risco que constam no boletim e podem estar relacionados aos óbitos. Por exemplo, entre as oito mortes, cinco eram de pessoas com mais de 80 anos. Cinco delas também tinham comorbidades.

A Secretaria de Saúde do DF informou ao Comprova que está “em processo de revisão” do formato dos informes sobre covid-19, “no intuito de mitigar possíveis equívocos” e “interpretações errôneas” dos dados. Anteriormente, a secretaria já havia emitido um comunicado contextualizando as informações de um post parecido da deputada federal Bia Kicis (União Brasil-DF), que isolou dados do dia 14 de fevereiro de 2022.

O autor do tuíte aqui verificado também foi procurado pela equipe do Comprova, mas se recusou a comentar sobre o post.

O conteúdo foi considerado enganoso porque usa dados incompletos e omite informações importantes, induzindo a uma conclusão errada.

Como verificamos?

O tuíte aqui verificado apresenta um link para o informe da Divep/SVS com dados de mortes por covid-19 no DF no dia 15 de fevereiro. Por meio de uma consulta no site oficial da Secretaria de Saúde do DF, foi possível constatar que o documento linkado era legítimo. O Comprova também entrou em contato com o órgão para verificar se os dados que constavam no boletim estavam corretos e se havia mais informações sobre os óbitos notificados naquele dia.

Em seguida, buscamos especialistas que pudessem explicar o que os dados apresentados no post indicam sobre a eficácia das vacinas. Entrevistamos Breno Adaid, coordenador e professor de estatística no mestrado em administração do Centro Universitário IESB, e Julival Ribeiro, infectologista e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

A equipe ainda fez uma busca por informações oficiais divulgadas recentemente para entender o contexto da atual fase da pandemia de covid-19. Procuramos dados de estados brasileiros que informaram a situação vacinal das vítimas do coronavírus.

Por fim, o Comprova entrou em contato com o autor do tuíte.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 3 de março de 2022.

Verificação

Dados descontextualizados

No post, o autor cita um boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal no dia 15 de fevereiro de 2022. O informe traz uma síntese dos óbitos por covid-19 notificados naquele dia. Uma tabela mostra a situação vacinal das vítimas. Foram oito mortes: quatro pessoas haviam tomado duas doses da vacina contra a covid-19, e outras quatro haviam recebido também uma dose de reforço.

O boletim aponta ainda que todas as vítimas tinham mais de 60 anos de idade; cinco tinham mais de 80. Cinco delas também tinham comorbidades. O relatório traz tabelas separadas de acordo com as características gerais dos casos, como gênero, faixa etária, região administrativa, tipos de comorbidade e situação vacinal. Porém, não detalha o perfil individual de cada paciente, de forma que não há como saber se as pessoas que estavam vacinadas com a dose de reforço eram as mesmas que tinham comorbidades ou outros fatores de risco, por exemplo.

Breno Adaid, pesquisador de dados de covid-19, afirma que informações divulgadas dessa forma podem contribuir para o surgimento de comparações que geram desinformação, como no post investigado. “Cientificamente falando, o correto é comparar grupos mais homogêneos possíveis. No caso, taxa de mortalidade antes e depois da vacina”, explica. “Quando você pega casos isolados, corre o risco de, sem querer ou intencionalmente, pegar dados com particularidades”, completa.

Adaid ressaltou que a melhor forma de tratar os dados seria colocá-los dentro de um contexto maior. Por exemplo, junto às comorbidades, faixa etária e outros fatores que podem ter contribuído para o agravamento dos casos.

Ao Comprova, a SES-DF informou que está em processo de revisão do método de divulgação dos dados sobre a situação vacinal dos óbitos. A mudança ocorre justamente para evitar interpretações equivocadas. Recentemente, o órgão desmentiu uma publicação da deputada federal Bia Kicis, que também usava dados do boletim epidemiológico para questionar a eficácia das vacinas.

Vacinados x Não vacinados

Além de apresentar os dados fora de contexto, a publicação também confunde ao afirmar que houve “100% de óbitos de vacinados”, colocando pessoas que haviam recebido duas e três doses do imunizante em um grupo só. Indivíduos que receberam uma, duas ou três doses da vacina têm diferentes níveis de proteção, que variam com o tempo após a imunização, como explica Julival Ribeiro, infectologista e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia: “Somente após quinze dias da [aplicação da] segunda dose a gente começa a ter imunoproteção. Hoje, já sabemos que depois de quatro meses [da segunda dose], nós devemos tomar o reforço. Justamente porque ao longo do tempo cai essa proteção.”

O médico também esclarece que a vacinação diminui, mas não exclui totalmente o risco de morte pela covid-19. Fatores como idade e comorbidades podem contribuir para um agravamento do quadro. “Essas pessoas têm mais chance de virem a complicar e resultar em óbito. Isso é esperado. Agora, o que não se pode fazer é uma análise mostrando que não vacinados são mais protegidos. Isso não existe”, afirma.

Ribeiro ressalta que, apesar disso, a vacinação teve um impacto positivo também sobre essa população mais vulnerável. No Distrito Federal, os dados de 2022 mostram que a taxa de mortalidade por covid-19 de idosos com ciclo vacinal incompleto (que não receberam três doses) foi 33 vezes maior. Em 25 de janeiro, a Secretaria de Saúde do DF informou que 90% das pessoas hospitalizadas naquele momento não haviam completado o esquema vacinal.

Contexto nacional

Até o momento, não há um levantamento nacional para avaliar o impacto da vacinação nos óbitos e hospitalizações. Porém, dados oficiais divulgados por diferentes estados brasileiros mostram um cenário semelhante àquele registrado no DF. Um estudo da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (DIVE/SC), da Secretaria de Saúde de Santa Catarina, divulgado no início de fevereiro, mostrou que a taxa de óbitos de idosos não vacinados ou com vacinação incompleta foi 47 vezes maior do que daqueles que receberam a dose de reforço. Entre adultos (de 18 a 59 anos), a taxa foi 39 vezes superior no grupo de não vacinados e sem dose de reforço. O levantamento foi feito com dados de novembro de 2021 a janeiro de 2022.

A taxa de hospitalização de indivíduos não vacinados ou com vacinação incompleta também se manteve superior em Santa Catarina. No mesmo período, o índice de internações foi 31 vezes maior entre idosos que não completaram o esquema vacinal. Já entre adultos, a taxa foi 20 vezes maior do que entre aqueles que não receberam a dose de reforço.

No Rio Grande do Sul, dados do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs) apontam que a dose de reforço reduziu em 95% a incidência de óbito em idosos no período de agosto a novembro de 2021. Entre as pessoas com mais de 20 anos com esquema vacinal completo, o risco de morte foi reduzido em 87%.

| Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs). Dados mostram o impacto da vacinação em hospitalizações e óbitos por covid-19 no Rio Grande do Sul

Outro estado que apresenta taxas de hospitalização e óbito superiores entre não vacinados é o Amazonas. No último boletim sobre a situação epidemiológica da covid-19, pacientes sem nenhuma dose da vacina apresentaram um risco 4,3 vezes maior de hospitalização do que indivíduos com esquema vacinal completo. Em relação aos óbitos, o risco foi 2,5 vezes maior. O boletim compila dados de 1º de janeiro a 8 de fevereiro.

Um levantamento feito pelo G1, com índices do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, além dos estados já citados na verificação, mostra um cenário semelhante: de que os não vacinados são os que mais morrem. Os dados reforçam o que especialistas e organizações nacionais e internacionais defendem: as vacinas contra a covid-19 são eficazes e a dose de reforço é fundamental para reduzir o risco de internação e óbito.

O autor

O post do Twitter foi feito pelo jornalista e advogado Paulo Cesar Rodrigues de Faria. Na rede social, ele tem publicado diversos conteúdos contrários à vacinação, entre eles, teses que o Comprova já desmentiu, como a de que as vacinas são “experimentais”.

Faria foi um dos responsáveis pela defesa do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), que em fevereiro de 2021 teve prisão determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, após publicar vídeo ofendendo juízes do tribunal, defendendo a sua destituição, e elogiando o Ato Institucional nº5, instrumento legal de repressão da ditadura militar brasileira (1964-1985).

O Comprova entrou em contato com o advogado, que respondeu em tom agressivo, crítico do trabalho de agências de verificação de fatos. Afirmou que projetos como o Comprova “adotaram a mentira, deturpação dos fatos, violações de honras e intimidades de quem pensa dissonante da ideologia progressista, como máxima de suas atuações”.

Em seguida, fez uma série de questionamentos sobre a verificação e disse que “medidas judiciais” seriam tomadas contra os jornalistas envolvidos na checagem e os veículos para os quais trabalham, caso fossem feitas publicações de caráter “não-jornalístico” e “viés político-ideológico” que atingissem sua “honra e dignidade”.

A equipe do Comprova então respondeu algumas das perguntas levantadas por Faria, informando quais especialistas foram consultados na verificação. Também deixamos links para matérias dos sites Metrópoles e G1, que trazem dados oficiais sobre a situação vacinal de vítimas da covid-19. Em resposta, o advogado voltou a fazer ataques à imprensa e ameaçou tomar medidas judiciais contra “todos os envolvidos”, em caso de violação à sua honra.

Por que investigamos?

O Comprova tem como escopo a investigação de conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais e estão relacionados a pandemia, eleições e políticas públicas do governo federal. Até o dia 2 de março de 2022, a publicação aqui verificada teve mais de 2.000 interações no Twitter.

Conteúdos que trazem desinformação sobre as vacinas contra a covid-19 podem provocar dúvidas e desestimular a população a aderir a campanha de vacinação em curso no Brasil. A eficácia e segurança das vacinas são temas constantes nas verificações do Comprova.

Já mostramos que um post que relacionava a morte de uma criança à CoronaVac era enganoso; que vacinas não criaram novas cepas ou mais casos de covid em Israel; e que o leite materno não substitui vacinação de crianças contra a covid-19, como sugeriu o ex-senador Magno Malta.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2022-02-22

Post engana ao relacionar morte de criança com CoronaVac; investigação segue em aberto

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso um post no Twitter que relaciona a morte de um menino de 10 anos no Rio de Janeiro à vacinação com a CoronaVac. Procurada pelo Comprova, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro informou que a investigação sobre o caso ainda está em aberto, de modo que não é possível afirmar, com as informações ora disponíveis, que a morte foi causada pela vacina. Os exames laboratoriais realizados até o momento afastam essa possibilidade.
  • Conteúdo verificado: Um post no Twitter traz imagens do relato de uma mãe que afirma que seu filho morreu dias após receber a primeira dose da CoronaVac. A autora do tuíte comenta: “CORONAVAC 10 anos! ASSASSINOS!”, insinuando que a vacina contra a covid-19 teria sido responsável pela morte do menino de 10 anos.

É enganoso um post no Twitter que relaciona a morte de um menino de 10 anos no Rio de Janeiro à vacinação com a CoronaVac, imunizante contra a covid-19 produzido no Brasil pelo Instituto Butantan. A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informaram ao Comprova que a investigação sobre o caso segue em aberto, de modo que não é possível afirmar, com as informações ora disponíveis, que a morte foi causada pela vacina.

O tuíte traz imagens de um relato da mãe da criança, Shirlene Souza Trindade, no Facebook. Ela afirma que seu filho recebeu a primeira dose da CoronaVac em 27 de janeiro. Depois, teria começado a apresentar sintomas como febre e dor na coluna. A mãe diz que o braço direito do menino, no qual recebeu a vacina, ficou inchado, “umas cinco vezes maior”. Após fazer consultas no Hospital Municipal Rocha Faria e em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), ele teria sido internado no Hospital Municipal Pedro II, onde morreu de parada cardíaca em 6 de fevereiro. Segundo Shirlene, os médicos do Pedro II trataram o caso do paciente “o tempo todo como suspeita da vacina”.

Procurada pelo Comprova, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio informou que uma investigação foi aberta sobre o caso, mas garantiu que “em nenhum momento, durante o atendimento no HMP II, os médicos tenham relatado tratar-se de caso de efeito adverso à vacina”. O órgão informa que o diagnóstico do menino foi de choque séptico de foco cutâneo devido a artrite séptica ou uma celulite no braço esquerdo — não no braço direito, no qual foi aplicada a vacina em no menino.

Ainda de acordo com a secretaria, um exame de antibiograma feito na véspera da morte, em 5 de fevereiro, registrou a presença no sangue do menino do microrganismo Staphylococcus aureus (MRSA+). “Trata-se de uma bactéria resistente a vários antibióticos e que, infelizmente, causou o quadro de sepse”, diz a nota do órgão. Embora a investigação ainda esteja em andamento, “todos os exames laboratoriais até o momento afastam a possibilidade de reação vacinal”, afirma a secretaria.

A Anvisa também informou, em nota ao Comprova, que “a investigação segue em andamento, não sendo possível confirmar a causalidade com a vacinação”.

O Comprova entrou em contato com Shirlene, a mãe do menino, por meio do Facebook e do Instagram, mas não obteve resposta. Depois disso, ela excluiu o post com o relato sobre a morte do filho do Facebook.

O Comprova também tentou contatar a autora do post aqui verificado, feito no Twitter, que se identifica como ChrisF. A conta, porém, até o dia 21 de fevereiro de 2022, não permitia o envio de mensagens privadas. Sem o sobrenome da autora, não foi possível encontrá-la em outras redes sociais.

O conteúdo foi classificado como enganoso porque usa informações imprecisas sobre um caso real para chegar a uma conclusão que, por ora, não tem sustentação.

Como verificamos?

Começamos a verificação fazendo contato com a Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro e com a Anvisa. Questionamos se as autoridades de saúde tinham conhecimento sobre o caso, se as informações divulgadas pela mãe eram verdadeiras, se existia alguma investigação sobre a morte do menino, se a apuração já havia sido finalizada e qual sua conclusão. Por fim, se houve relação da morte com a vacina contra a covid-19.

O Comprova também procurou o Instituto Butantan, responsável pela produção da CoronaVac no país.

Em seguida, tentamos contato diretamente com os hospitais em que o menino foi atendido, mas, por serem municipais, as instituições se manifestam somente via Secretaria Municipal de Saúde. Enviamos mensagem a um dos médicos que atendeu a criança, mas o profissional informou que, por orientação do hospital e de seu advogado, não iria se manifestar sobre o caso.

Conversamos com o pediatra e infectologista Daniel Jarovsky, da Santa Casa de São Paulo, para entender o que é o microrganismo Staphylococcus aureus (MRSA+), como se manifesta, que tipo de sintomas provoca e se pode levar à morte.

A mãe do paciente, Shirlene Souza Trindade, foi contatada pelo Comprova pelo Facebook e também em seu perfil no Instagram, mas não deu retorno.

Não conseguimos contato com a autora do post aqui verificado, que compartilha no Twitter imagens do relato de Shirlene, uma vez que o envio de mensagens privadas não está habilitado em sua conta. A autora também não inclui seu sobrenome, intitulando-se apenas como “Chris F”. Analisamos as postagens mais recentes feitas pela conta em questão no Twitter. Os conteúdos, em sua maioria, são contrários à vacinação contra a covid-19.

Foi feita ainda uma busca no Google, no dia 20 de fevereiro de 2022, por palavras-chave como “morte”, “menino”, “rj”, “vacina”, “covid” e pelo nome do menino. Entre os 10 primeiros links encontrados, dois eram sobre o caso verificado nesta checagem. O primeiro, uma peça de desinformação publicada em um site de “conteúdo conservador”, que apenas reproduz o relato da mãe, sem citar outras fontes; o segundo, um vídeo no YouTube, também reproduzindo o relato da mãe, publicado no canal Patriota Brasil, que costuma veicular conteúdos em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL). Não foram encontradas reportagens jornalísticas sobre o caso.

Os demais links encontrados durante a pesquisa foram reportagens com o serviço de vacinação de crianças contra a covid-19, uma matéria sobre o caso de outro menino, investigado em Minas Gerais, cuja conclusão das autoridades de saúde descartou a relação entre óbito e vacina, e outro caso desmentido pela Agência Lupa associado ao mesmo tema.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 22 de fevereiro de 2022.

Verificação

Hospitalização e morte da criança

O menino foi vacinado no dia 27 de janeiro de 2022, com a primeira dose da CoronaVac. Uma foto da caderneta de vacinação, compartilhada pela mãe, informa que a segunda aplicação estava prevista para o dia 24 deste mês. No relato, ela afirma que a imunização aconteceu em uma unidade da Clínica da Família, local similar a um posto de saúde. O endereço exato não foi divulgado.

Ainda de acordo com a mãe, dias depois da vacinação, o menino foi levado duas vezes ao Hospital Municipal Rocha Faria. Ela publicou uma foto com o receituário prescrito na primeira consulta, que ocorreu no dia 31 de janeiro. Quem assina o documento é um médico ortopedista e traumatologista. Procurado, ele preferiu não se manifestar sobre o caso.

Foi receitado ao menino Nimesulida (anti-inflamatório), Dipirona (analgésico e antipirético) e uso de gelo na região em que a criança estava com dor. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, ele procurou atendimento com dores na lombar.

A mãe relata que, no segundo atendimento no Hospital Rocha Faria, a recomendação médica foi de seguir com a administração dos remédios. A data em que esse atendimento aconteceu não foi informada.

O terceiro atendimento, segundo o relato da mãe, ocorreu em uma Unidade de Pronto Atendimento. De acordo com ela, o estado de saúde da criança foi considerado muito grave pela equipe da unidade. Foi solicitada transferência, e o menino foi levado ao Hospital Municipal Pedro II. Isso teria ocorrido no dia 3 de fevereiro.

Conforme a mãe, a criança ficou internada por dias na unidade e teve febre, dor e bolhas de água pelo corpo, falta de ar e hemorragia no pulmão. Apenas a febre foi confirmada pela Secretaria de Saúde, que se limitou a informar que o menino teve piora no quadro e aparecimento de mais sintomas, sem especificá-los.

A mãe diz que os médicos do Hospital Pedro II trataram o caso como suspeita de reação à vacina, o que é negado pela Secretaria de Saúde e pela Prefeitura do Rio de Janeiro. As falas da pasta e da administração também contestam a versão da mãe do menino sobre as dores no braço direito, local onde a vacina foi aplicada. No texto, ela diz que esse membro inchou, ficando cinco vezes maior que o tamanho normal. Em nota, a prefeitura informou que, durante a internação, o menino foi diagnosticado com uma celulite no braço esquerdo, que seria uma infecção das partes mais profundas da pele.

O paciente teve uma sequência de paradas cardíacas no dia 6 e acabou morrendo. Um dia antes, foi feita uma coleta de sangue e, após exame, foi identificada a bactéria causadora da sepse. A informação é da prefeitura. Por não se tratar de morte violenta, o corpo não foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML).

No relato, a mãe diz que procurou a Clínica da Família para avisar sobre a morte e as reações que acreditava terem sido causadas pela vacina. De acordo com a secretaria, a investigação sobre a suposta relação começou nesta data.

Ao Comprova, a Anvisa informou que investiga o caso e que, neste momento, não é possível confirmar a vacinação como causa da morte. O Instituto Butantan também respondeu aos questionamentos da equipe dizendo que, até então, não há indícios de que o óbito tenha relação com a CoronaVac.

Infecção por bactéria

A bactéria Staphylococcus aureus, identificada no menino a partir de exame de sangue, é considerada comum, afirmou ao Comprova o pediatra e infectologista Paulo Daniel Jarovsky, da Santa Casa de São Paulo. De acordo com o médico, ela é geralmente encontrada na pele ou em regiões como nariz e garganta.

“A bactéria convive com o ser-humano nesses lugares, pele, garganta, nariz. E, basicamente, ela não causa infecção, a não ser que ocorra alguma ruptura da pele ou algum desbalanço do equilíbrio das bactérias”, explica.

Conforme Jarovsky, a contaminação ocorre quando a bactéria presente na superfície da pele entra no organismo, o que pode acontecer por meio de uma queimadura ou de infecções respiratórias, como resfriado e covid-19. Se a área não for esterilizada, até mesmo a perfuração de uma agulha ou outro objeto poderia ser um caminho para a bactéria entrar no organismo – não há provas de que esse tenha sido o caso do menino.

Os sintomas dependem de onde ela se aloja. No pulmão, por exemplo, pode causar pneumonia. Já no cérebro, meningite. Qualquer um desses casos, explica Jarovsky, pode levar a sepse. “Sepse é o quadro mais dramático, severo, mais grave de uma infecção, em que você tem um desarranjo de vários órgãos do corpo, em decorrência dessa infecção, que leva a uma inflamação generalizada e, se a sepse não for tratada adequadamente, ela pode evoluir para um choque séptico, falência de múltiplos órgãos e morte”, detalha o médico.

No caso do menino, a Secretaria Municipal da Saúde usou a sigla MRSA+ para descrever a bactéria encontrada. Jarovsky afirma que isso significa “resistente a meticilina”, antibiótico tipicamente usado no tratamento dessa infecção. O tratamento neste caso exigiria o uso de antibióticos mais “amplos e/ou potentes” para dar conta de vencer a bactéria.

A celulite infecciosa, também citada no laudo do menino, é uma infecção das partes mais profundas da pele. Já a artrite séptica, esclarece o especialista, caracteriza-se pelo alojamento da bactéria no líquido das articulações, principalmente de joelho e quadril.

“A bactéria [Staphylococcus aureus] é compatível tanto com uma celulite, quanto com uma artrite séptica, tem uma plausibilidade, sim, e poderia levar à morte se não tratado adequadamente. Não só adequadamente, mas prontamente”, conclui o pediatra.

Mortes por vacinas contra a covid-19

Não há registros de mortes de crianças devido à aplicação de vacinas contra a covid-19 no Brasil. A informação, constatada em checagem recente do Comprova, foi reafirmada na última semana pelo diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres.

O Instituto Butantan, responsável pela produção da CoronaVac, também afirmou ao Comprova, em nota enviada por e-mail, que não foram confirmados óbitos de crianças por reação do imunizante nas mais de 300 milhões de doses aplicadas ao redor do mundo.

A vacina já está em uso em crianças de 5 a 11 anos em 30 países. Somente nos Estados Unidos e no Canadá, aproximadamente 10 milhões de doses foram aplicadas.

Conforme Barra Torres, nos EUA, apenas dez crianças tiveram efeitos adversos mais graves após a vacina, mas todas elas já receberam alta médica.

Autoria do post

A conta no Twitter responsável pela publicação do conteúdo checado, identificada como “ChrisF”, foi criada em 2019 e possui mais de 37 mil tweets. No topo do perfil, a usuária, que, pela foto, parece ser uma mulher, fixou uma imagem com uma frase em inglês que põe em dúvida a existência da pandemia. Em tradução livre: “Uma pandemia real não precisaria de uma campanha de marketing.”

A conta costuma publicar e compartilhar conteúdos contrários à vacinação e à exigência de passaporte vacinal. As publicações também questionam a existência de mudanças climáticas e colocam em cheque outras informações já comprovadas cientificamente. Alguns conteúdos apoiam o presidente Jair Bolsonaro e criticam políticos de esquerda.

Até a manhã do dia 22 de fevereiro de 2022, a conta era seguida por mais de 4,8 mil pessoas.

Por que investigamos?

O Comprova atua na verificação de conteúdos suspeitos sobre a pandemia do coronavírus, políticas públicas e eleições que tenham viralizado nas redes sociais. No caso da covid-19, informações falsas ou enganosas prejudicam o combate à doença porque podem levar a população a deixar de adotar medidas preventivas e de proteção — como a vacinação e uso de máscaras.

O post aqui verificado teve mais de 8 mil interações no Twitter. A mensagem enganosa também foi reproduzida por outras páginas conhecidas por compartilhar conteúdos antivacina.

Verificações recentes do Comprova constataram que as vacinas são seguras e não criam novas cepas da covid-19, e que máscaras impedem a proliferação do coronavírus e não atrapalham a respiração.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2022-02-22

TV australiana admite erro em imagem de ivermectina usada em reportagem sobre a Rainha Elizabeth II

  • Enganoso
Enganoso
São enganosos os posts que afirmam que a Rainha Elizabeth II, do Reino Unido, esteja tomando ivermectina como tratamento para a covid-19. A afirmação se baseia em um trecho de uma reportagem de TV sobre a rainha que exibiu uma imagem de uma caixa de um medicamento que contém ivermectina enquanto um médico falava sobre possíveis tratamentos para Elizabeth II. A própria emissora de televisão admitiu o erro causado pela inclusão indevida da imagem do medicamento e já retirou o conteúdo do ar.
  • Conteúdo verificado: Vídeos postados no Twitter compartilham trecho de uma reportagem do programa de TV australiano A Current Affair sobre o estado de saúde da rainha Elizabeth II, que está com covid-19. Enquanto um médico é entrevistado e fala sobre formas de tratar a doença, é exibido uma imagem rápida de uma caixa do medicamento Stromectol, que contém ivermectina.

São enganosas as postagens que circulam no Twitter que afirmam que a Rainha Elizabeth II estaria sendo tratada da covid-19 com ivermectina. As postagens usam um trecho de uma reportagem do programa australiano A Current Affair sobre a infecção da rainha em que aparece a embalagem do remédio Stromectol, que tem em sua composição a ivermectina.

O programa emitiu nota assumindo que a imagem foi inserida na reportagem por erro e o vídeo foi deletado. Além disso, em nenhum momento durante a exibição do programa é dito que a rainha estaria tomando ivermectina ou qualquer outro remédio para tratamento da covid-19. O médico entrevistado na matéria também negou que tenha insinuado que a rainha estivesse recebendo o remédio.

Dois perfis que publicaram o conteúdo foram procurados. A coordenadora do Movimento Advogados do Brasil e da Associação Mães do Brasil, Flávia Ferronato, respondeu que o post foi uma piada. “Não posso me responsabilizar pela falta de humor e de compreensão de algumas pessoas. Muitos entenderam a piada”, explicou. O outro perfil não retornou até o fechamento desta checagem.

Para o Comprova, é considerado enganoso o conteúdo que retira informações de seu contexto original e omite informações, de forma deliberada ou não, para provocar uma interpretação que difere da realidade dos fatos.

Como verificamos?

No vídeo que está sendo compartilhado no Twitter, é possível ler na parte inferior os dizeres A Current Affair. Uma pesquisa com a expressão no Google nos indicou que trata-se de um programa da emissora de televisão australiana Nine Network.

Ao consultar a página oficial do A Current Affair no Facebook, foi possível assistir à reportagem original completa, que foi postada na manhã da última segunda-feira (21). Horas depois, o conteúdo foi retirado do ar pela própria página do programa de TV, e, em seguida, a mesma reportagem foi postada novamente, porém sem a imagem da caixa do medicamento com ivermectina.

Pelo vídeo, foi possível também identificar que o médico que fala sobre possíveis tratamentos para a rainha Elizabeth chama-se Mukesh Hawikerwa e trabalha na Austrália. Uma pesquisa nos buscadores de internet com este nome nos levou ao perfil do Twitter do médico. Na bio da rede social, o médico mantém um link de uma clínica australiana, a Cirqit Health.

O Comprova tentou contato com a emissora de televisão Nine Network, pedindo esclarecimentos sobre a reportagem, mas não houve retorno até o fechamento da checagem. A clínica em que trabalha o médico australiano também foi procurada e não houve retorno.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 22 de fevereiro de 2022.

Verificação

Rainha usou ivermectina?

A Rainha Elizabeth II, monarca do Reino Unido e da Austrália, testou positivo para a covid-19 no domingo (20/2). O rumor de que a rainha estaria tomando ivermectina começou depois que o programa australiano A Current Affair, do canal Nine Network, fez uma reportagem sobre o diagnóstico da monarca.

O programa foi exibido na manhã de segunda-feira (21/2), no horário de Brasília. Durante a reportagem, é entrevistado o médico australiano Mukesh Hawikerwal que fala sobre remédios já aprovados contra a covid-19 e que poderiam ser usados no tratamento da rainha. Em nenhum momento, ele afirma que a monarca estaria tomando algum desses medicamentos e nem cita a ivermectina, que não tem aprovação para ser usada contra a covid-19.

Porém, na versão original da reportagem, enquanto ele fala sobre os medicamentos que poderiam ajudar no tratamento da rainha, é exibida a imagem da embalagem do Stromectol, antiparasitário que tem ivermectina em sua composição.

Após a repercussão do trecho da reportagem, o programa emitiu uma nota em que diz que a inserção da imagem na reportagem foi causada por um erro humano e que, em nenhum momento, houve a intenção de sugerir que a rainha estivesse fazendo uso do medicamento. A nota ainda acrescenta que o programa já fez diversas reportagens ressaltando que não há comprovação de eficácia da ivermectina contra a covid-19. “Ontem à noite, a nossa reportagem sobre a rainha continha uma foto que não deveria ter sido incluída. A foto foi incluída por um erro humano. Estávamos destacando um medicamento de infusão aprovado chamado Sotrovimab e o relatório acidentalmente cortou para uma foto de Stromectol – um produto que contém ivermectina. Como programa, fizemos inúmeras histórias destacando as preocupações em relação ao uso de ivermectina como tratamento para o covid-19. Não pretendíamos sugerir que o Dr. Mukesh Hawikerwal endossou o Stromectol. Pedimos desculpas a ele esta manhã e ele aceitou esse pedido de desculpas. Não sugerimos que a rainha esteja usando ivermectina”, diz a nota. O vídeo original da reportagem foi excluído das redes sociais do canal.

Em seguida, a mesma reportagem foi novamente postada na página do Facebook do A Current Affair, porém, agora sem a imagem do medicamento com ivermectina. O trecho foi substituído por imagens da embalagem do Sotrovimab.

O Sotrovimab está entre os medicamentos recentemente aprovados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o tratamento da covid-19. O remédio tem sido indicado para evitar que casos moderados da doença evoluam para quadros mais graves, e vem sendo utilizado em países como o Reino Unido. Reportagem publicada pela BBC Brasil sobre o medicamento afirma que especialistas definem o Sotrovimab como “anticorpo monoclonal que é administrado como transfusão para receptores de transplantes, pacientes com câncer e outros grupos de alto risco”. Ainda segundo reportagem da BBC, o medicamento deve ser administrado em pacientes que apresentem comorbidades como diabetes ou problemas respiratórios, e que podem ser mais gravemente afetados pelo coronavírus.

O médico Mukesh Hawikerwal também negou que tivesse falado que a rainha estaria usando ivermectina contra a covid-19. Pelo Twitter, ele compartilhou a lista de medicamentos aprovados na Austrália contra a covid-19, que não inclui a ivermectina, e ressaltou a importância da vacinação. “Aviso que a imagem no @Channel9 @ACurrentAffair9 está sendo atualizada. Agradeço pela diligência e vigilância de boas pessoas que alertaram para isso quando acordamos. A #CovidVaccine [vacina contra a covid] reduz drasticamente a gravidade da doença. Infusões em pessoas elegíveis melhoram os resultados”, destacou.

Em matéria desta terça-feira (22) do jornal The Guardian sobre o erro da emissora australiana, Hawikerwal também afirmou que a “ivermectina não foi mencionada na entrevista” e que ele jamais recomendaria ivermectina para tratamento da covid-19.

Em nota, o Palácio de Buckingham informou que a rainha estava com sintomas leves de resfriado e que ela está sendo acompanhada por uma equipe médica. O comunicado não informa se a monarca está fazendo uso de algum medicamento. “A rainha testou hoje positivo para covid. Sua Majestade está com sintomas leves de resfriado, mas espera continuar com tarefas leves em Windsor na próxima semana. Ela continuará recebendo atendimento médico e seguirá todas as orientações apropriadas”, diz a nota divulgada à imprensa no domingo.

Ivermectina não funciona contra a covid-19

Desde o início da pandemia, várias pesquisas já foram feitas com a ivermectina para saber se o antiparasitário funciona contra a covid-19. Porém, até o momento não há evidências da eficácia do remédio contra a doença.

Um estudo publicado em junho do ano passado na revista científica EClinical Medicine, publicação que faz parte da The Lancet, mostrou que não houve diferença na redução da carga viral entre os grupos que utilizaram a ivermectina e os que não.

A orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que o remédio só seja usado em estudos clínicos. A Agência de Medicamentos Europeia (EMA), a Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não recomendam o uso do medicamento para tratamento da doença. As agências ressaltam que não há estudos que comprovem a eficácia do medicamento e que altas dosagens podem fazer mal à saúde.

Desde o ano passado, a Administração de Produtos Terapêuticos (TGA, na sigla em inglês), equivalente à Anvisa na Austrália, passou a orientar que médicos só podem prescrever a ivermectina para os casos especificados na bula. “A ivermectina não está aprovada para uso contra a covid-19 na Austrália ou em outros países desenvolvidos, e seu uso pelo público em geral para covid-19 é atualmente fortemente desencorajado pela National COVID Clinical Evidence Taskforce, a Organização Mundial da Saúde e pela Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos”, diz o comunicado.

O laboratório Merck, fabricante do remédio nos Estados Unidos, disse em fevereiro de 2021 que analisou os estudos disponíveis sobre o remédio e que, até o momento, não há base científica que aponte um efeito terapêutico do uso da ivermectina contra a covid-19.

Por que investigamos?

O Comprova verifica informações suspeitas com grande circulação nas redes sociais ou aplicativos de mensagem sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e as eleições presidenciais de 2022. O conteúdo que foi objeto desta verificação foi compartilhado em diversos perfis do Twitter e, somados, os posts acumulavam mais de 80 mil interações até o dia 22 de fevereiro de 2022.

Não há estudos que comprovem a eficácia de tratamentos como o uso da ivermectina para combater a covid-19. A própria farmacêutica que produz o medicamento nos Estados Unidos também admitiu que não há comprovação da eficácia do medicamento para combater o novo coronavírus.

O mesmo conteúdo aqui checado também foi marcado como falso pelo Fato ou Fake do G1 e pelo UOL Confere.

Em 2021 o Comprova já realizou checagens que mostraram que, além de não fazer efeito no tratamento para a covid-19 a ivermectina pode trazer riscos quando administrada em altas doses; que não há relação entre regiões que conseguiram conter o avanço do novo coronavírus e a distribuição do medicamento e que antivirais desenvolvidos para o tratamento da doença não possuem ivermectina em sua fórmula.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Política

Investigado por: 2022-02-18

Cinco governadores compraram vacinas contra a covid-19, ao contrário do que diz Magno Malta

  • Falso
Falso
É falso que todas as vacinas contra a covid-19 disponíveis no Brasil tenham sido adquiridas pelo governo federal e que nenhum estado tenha comprado doses. Ao menos cinco governadores fizeram um acordo de aquisição direta no total de 2,5 milhões de doses da CoronaVac, incluindo o Espírito Santo, estado do ex-senador Magno Malta (PL), autor da afirmação falsa feita em vídeo publicado no Facebook.
  • Conteúdo verificado: Vídeo no Facebook em que o ex-senador Magno Malta afirma que “nenhum governador comprou uma gota de vacina” e “todas as vacinas no Brasil foram compradas por Jair Messias Bolsonaro”.

É falso que nenhum governador tenha comprado vacinas contra a covid-19 e que todos os imunizantes disponíveis no Brasil tenham sido adquiridos pelo governo federal, como afirma o ex-senador Magno Malta em um vídeo que viralizou no Facebook. Em setembro de 2021, cinco estados firmaram acordo com o Instituto Butantan para fornecimento direto, sem passar pela União, de 2,5 milhões de doses da CoronaVac: Ceará, Mato Grosso, Pará, Piauí e Espírito Santo. Este último é o estado de Malta. O governo capixaba gastou R$ 26,5 milhões na aquisição imediata de 500 mil doses da vacina. Pará e Piauí confirmaram, em seus sites, terem recebido as vacinas. Mato Grosso desistiu da aquisição por já ter imunizantes enviados pelo Ministério da Saúde.

O próprio estado de São Paulo anunciou o recebimento de 4 milhões de doses da CoronaVac por meio da Secretaria Estadual de Saúde, após acordo realizado diretamente com a Sinovac, biofarmacêutica chinesa responsável pela produção do imunizante.

O Brasil também recebeu doação de vacinas dos Estados Unidos, o que não configura uma compra por parte do Governo Federal.

O Supremo Tribunal Federal (STF) já havia autorizado em fevereiro de 2021 que os governos locais pudessem comprar imunizantes caso o governo federal descumprisse o Plano Nacional de Imunizações (PNI) ou que as doses disponibilizadas pela União fossem insuficientes para atender a população. No mês seguinte, o presidente Jair Bolsonaro sancionou uma lei que permitia a aquisição por estados e pelo setor privado, desde que todas as doses fossem doadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) enquanto estivesse em andamento a imunização dos grupos prioritários. A vacinação de grupos não prioritários teve início em maio de 2021.

Ao todo, o governo federal já comprou 564,7 milhões de doses de vacina, das quais 407,4 milhões foram distribuídas até o dia 28 de janeiro deste ano. Ao menos 352 milhões já foram aplicadas, de acordo com os dados do Ministério da Saúde. O Comprova tentou contato com Magno Malta pelo WhatsApp e pelo Twitter, mas não teve retorno do político. O vídeo foi considerado falso porque o conteúdo é inventado e foi divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

O Comprova verificou as páginas oficiais dos estados em busca de notícias acerca da aquisição de vacinas, além de realizar a verificação, nos respectivos portais, de contratos e licitações que pudessem indicar a compra direta dos imunizantes.

Uma vez que o Instituto Butantan está vinculado ao Governo de São Paulo, tomamos o site desse estado como ponto de partida. Encontramos uma notícia tratando especificamente do acordo com outros estados para compra da CoronaVac, sendo mencionada a celebração de contrato com Ceará, Piauí, Pará e Espírito Santo. Verificamos a existência de notícias, documentos e contratos em cada um dos portais das unidades, a fim de confirmar a efetivação das compras.

O Comprova teve acesso, pelo Portal da Transparência, aos contratos efetivados pelo Ceará, pelo Espírito Santo e pelo Pará. Não encontramos documentos nos portais do Piauí, contudo, verificamos a existência de notícias referentes à compra.

Também entramos em contato com as empresas Pfizer, AstraZeneca e Johnson & Johnson, para solicitar informações sobre a compra de vacinas por estados e municípios. Só a AstraZeneca respondeu.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 18 de fevereiro de 2021.

Verificação

Estados compraram vacinas

Segundo o Governo do Estado de São Paulo, em 22 de setembro de 2021, foi feito um acordo com outros estados para o fornecimento de vacinas. Após a conclusão do envio da CoronaVac para o Ministério da Saúde, o Instituto Butantan fechou contrato diretamente com as unidades da federação para a entrega de 2,5 milhões de doses, em cerimônia que contou com a presença dos governadores Camilo Santana (do Ceará), Wellington Dias (do Piauí), Helder Barbalho (do Pará), e Renato Casagrande (do Espírito Santo). Os representantes foram recebidos pelo governador de São Paulo, João Doria, e pelo presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, na sede da instituição.

O atraso, por parte do governo de Jair Bolsonaro, em adquirir os imunizantes, motivou a ação de governadores para que pudessem garantir a distribuição de vacinas à população de seus respectivos estados.

A página do Instituto Butantan apontou, em fevereiro de 2021, que a demora por parte do Ministério da Saúde para comprar a vacina chegou a afetar os prazos para envio de matéria-prima pela farmacêutica chinesa. . O presidente do Instituto relatou esse problema também em sua oitiva na CPI da Pandemia. De acordo com Covas, em julho de 2020 o Butantan já havia ofertado a CoronaVac ao Ministério.

A demora nas tratativas para aquisição da vacina foi igualmente apontada pelo ex-Secretário de Comunicação da Presidência da República Fábio Wajngarten, que em depoimento à CPI, disse ter havido demora de dois meses até que o Palácio do Planalto respondesse à oferta pala Pfizer.

Os portais de diversos estados também noticiaram a intenção de compra, o contrato e o recebimento de vacinas adquiridas com o Butantan. Por exemplo, na página da Agência Pará, portal de comunicação oficial do estado, em 27 de setembro de 2021, uma notícia sobre o recebimento de um lote de doses dá ênfase à aquisição direta, sem envolvimento do Ministério da Saúde.

Em 8 de outubro do ano passado, o Portal Saúde do governo do Piauí noticiou a entrega de duzentas mil doses referentes à primeira remessa da CoronaVac comprada pelo estado diretamente do Instituto Butantan. Na ocasião, a Secretaria de Saúde emitiu um convite à imprensa para que estivesse presente no aeroporto, no horário de chegada dos imunizantes.

O Mato Grosso, embora tenha assinado no ano passado o protocolo de intenção para a compra da CoronaVac diretamente ao Butantan, confirmou em e-mail ao Comprova que não fez a aquisição devido à oferta de imunizantes em larga escala pelo Ministério da Saúde.

Por e-mail, a AstraZeneca, Janssen e Pfizer nos informaram que todas as vendas de vacinas são realizadas para o governo federal.

O autor do vídeo

O Comprova entrou em contato com Magno Malta, autor da declaração, por WhatsApp e Twitter, mas não obteve retorno. Magno Malta é político pelo estado do Espírito Santo e, atualmente, não ocupa cargos eletivos após a derrota nas urnas em 2018. Durante sua carreira, foi vereador, deputado estadual e federal e senador.

Simpatizante do presidente Jair Bolsonaro (PL), Malta desempenha grande influência no governo federal. O Comprova já verificou outras informações compartilhadas pelo político, como a alegação falsa que leite materno substitui a vacina contra a covid-19 em crianças e uma montagem que colocava o agressor de Bolsonaro ao lado do ex-presidente Lula.

Magno Malta também é conhecido por ter uma forte ligação religiosa, sendo formado em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil. Em 2002, o político lançou o livro “Deus tem um trato comigo”, biografia que narra a sua trajetória até a CPI do Narcotráfico.

Por que investigamos?

O Comprova efetua a verificação de conteúdos suspeitos relacionados à pandemia de covid-19, às políticas públicas do governo federal e eleições que tenham viralizado nas redes sociais. O ex-senador Magno Malta é uma figura pública e o vídeo em que faz a afirmação falsa, de que nenhum estado adquiriu vacinas, alcançou 253 mil visualizações no Facebook e conta com 68 mil curtidas.

Outras checagens realizadas pelo Comprova já mostraram que vacinas não criaram novas cepas do coronavírus ou mais casos de covid em Israel, e que uma postagem citando aumento de doenças entre militares dos EUA após serem vacinados utilizou dados incorretos. O projeto também já demonstrou ser falsa a alegação de que a Universidade Johns Hopkins teria comprovado, por meio de estudo, que lockdowns tiveram pouca efetividade na contenção da covid-19.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Esta verificação foi feita por jornalistas que participam do Programa de Residência no Comprova.

Saúde

Investigado por: 2022-02-18

Vídeo de Eduardo Paes em festa sem máscara é antigo e não foi gravado no Complexo da Maré

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso um vídeo que mostra o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), sem máscara em uma festa de rua, supostamente feita no Complexo da Maré. A publicação, feita em 8 de fevereiro de 2022, sugere que as imagens são atuais, em meio às restrições impostas na cidade para conter a pandemia, mas o vídeo circula na internet ao menos desde julho de 2020, antes de Paes ser eleito. O prefeito diz que a festa ocorreu, na verdade, no bairro de Magalhães Bastos, em meados de 2019. O Comprova conseguiu confirmar o local do evento, mas não a data.
  • Conteúdo verificado: Vídeo que mostra Eduardo Paes dançando na rua, enquanto pessoas festejam, foi publicado no Twitter acompanhado de um texto afirmando que o prefeito estava sem máscara, no Complexo da Maré, na “farra” com “passe livre” dado pelo tráfico de drogas.

É enganoso um vídeo que viralizou no Twitter supostamente mostrando o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, festejando sem máscara no meio da rua no Complexo da Maré após ser autorizado pelo tráfico de drogas a estar na comemoração. A postagem sugere que o vídeo é atual e que o prefeito estaria descumprindo regras sanitárias impostas pelo próprio município. O Comprova descobriu, porém, que a gravação circula na internet desde julho de 2020, em um canal do YouTube que o associa a uma festa junina em uma “favela”, sem especificar o local exato. Paes só seria eleito prefeito em novembro daquele ano.

Após a viralização do conteúdo verificado aqui, o político disse no Twitter que as imagens mostram uma festa junina no bairro de Magalhães Bastos, que fica a mais de 24 quilômetros da Maré. Em contato com o Comprova, o prefeito disse que a gravação é de meados de 2019, antes da pandemia, e ocorreu na rua Arquimedes. A reportagem conseguiu confirmar que o local é o mesmo que aparece na gravação através de imagens do Google Street View de julho de 2019.

Um sinal de que o vídeo não é recente é que, no áudio, entre 14 e 17 segundos, é possível ouvir uma mulher pedindo a Eduardo Paes para “voltar para a prefeitura”, o que aponta que ele foi filmado entre 2017 e 2020, período entre os mandatos do prefeito, que já havia ocupado o mesmo cargo entre 2009 e 2016.

A reportagem procurou a conta que replicou o vídeo recentemente, mas não teve retorno até o fechamento desta verificação. O Comprova também entrou em contato com o administrador da conta do YouTube onde o vídeo foi postado em julho de 2020, mas ele disse que não sabia quando as imagens foram gravadas.

A postagem foi considerada enganosa porque o vídeo que associaria o prefeito a uma festa em plena pandemia foi retirado do seu contexto original e utilizado em outro de modo a alterar o seu significado.

Como verificamos?

Primeiro, assistimos ao vídeo em busca de informações que pudessem indicar onde e quando ele foi gravado. Fizemos uma busca reversa de imagem com frames da gravação. Procuramos no Twitter por palavras-chaves como “Eduardo Paes” e “Maré” e identificamos outras versões do mesmo vídeo publicadas em novembro de 2020. Também encontramos um tuíte de 8 de fevereiro, mesma data em que o conteúdo verificado foi publicado, em que o próprio prefeito diz que o vídeo é antigo e retrata uma festa junina no bairro de Magalhães Bastos.

A partir daí, incluímos nas buscas também os termos “festas juninas” e “São João”, e achamos a mesma gravação no Youtube, com data de postagem de julho de 2020, versão mais antiga que conseguimos identificar desse conteúdo na rede. Comentando no vídeo publicado mais recentemente, pedimos o e-mail do administrador do canal. Através da troca de e-mails, ele disse não saber quando e onde a gravação foi realizada.

Procuramos a assessoria de imprensa da Prefeitura do Rio por e-mail e por WhatsApp. No aplicativo, a gestão disse que não ia emitir nota por se tratar de “uma questão pessoal do prefeito que ele respondeu na conta pessoal dele”. Por causa disso, enviamos mensagem diretamente para o prefeito Eduardo Paes pelo WhatsApp, perguntando quando a festa teria ocorrido. Ele respondeu que as imagens são de “meados” de 2019 e que foram feitas na rua Arquimedes. Recorrendo a imagens de julho daquele ano no Google Street View, conseguimos confirmar que a via é a mesma que aparece na gravação.

Usamos o TweetDeck para tentar encontrar postagens desse evento no Twitter de Paes na época. Fizemos a busca ainda na página dele no Facebook. Não tivemos sucesso em nenhuma das pesquisas. Através do Google Maps, calculamos a distância entre o Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, e o bairro de Magalhães Bastos, na Zona Oeste. Por fim, buscamos reportagens sobre o contexto do tráfico em Magalhães Bastos e sobre as medidas tomadas pelo político na prefeitura do Rio para conter a disseminação do Sars-CoV-2.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 17 de fevereiro de 2022.

Verificação

O vídeo em que Eduardo Paes aparece em uma festa na rua sem máscara é antigo, de antes do atual mandato dele na cidade. Fazendo uma busca por palavras-chave, o Comprova descobriu que o vídeo já circula há quase dois anos na Internet. Várias postagens com as imagens foram feitas no final de novembro de 2020, na semana do segundo turno das eleições cariocas. Todas associam a celebração ao Complexo da Maré e, assim como o conteúdo verificado agora, dizem que a festa teria sido autorizada pelo tráfico.

A gravação, porém, não é desta época, visto que ela já estava no YouTube desde julho de 2020, no canal “Cirão da Massa”, que dizia que Paes participava de uma festa de São João. Em e-mail enviado ao Comprova, o administrador da página diz que não sabe a data em que as imagens foram feitas porque ele as teria pego das redes sociais, mas afirmou que o vídeo é antigo.

No próprio conteúdo publicado, há uma indicação de que a gravação é antiga, já que entre 14 e 17 segundos é possível ouvir a voz de uma mulher afirmar: “Qual é Eduardo, volta pra prefeitura, por favor”. Outra voz, então, responde: “Não volta não”. A conversa indica que a festa ocorreu após o político deixar a Prefeitura do Rio pela primeira vez, em janeiro de 2017, e antes de ser eleito para retornar à gestão do município, em novembro de 2020. Naquele ano, Paes só lançou oficialmente sua candidatura à prefeitura em setembro, quando o vídeo já circulava na Internet.

Outro sinal de que o vídeo teria sido feito antes da pandemia é que, não apenas o político, mas nenhuma das pessoas que aparecem nas imagens utiliza máscaras.

Segundo afirmou o próprio prefeito no Twitter, as imagens foram gravadas durante uma festa junina no bairro de Magalhães Bastos, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e não no Complexo da Maré, na Zona Norte da mesma cidade. Em conversa com o Comprova por WhatsApp, o político disse que as imagens são de meados de 2019 e foram feitas na rua Arquimedes. Como a publicação mais antiga que a reportagem encontrou foi feita em julho de 2020 e o responsável pelo canal no YouTube não sabia onde a gravação foi realizada, não foi possível apontar com precisão a data da festa.

Com o nome da rua, nós fizemos uma busca no Google Street View por elementos que aparecem no vídeo, para tentar confirmar se a via era a mesma indicada pelo político. No ponto onde a gravação que viralizou começa, Paes está próximo a um poste com uma pintura, na frente de dois estabelecimentos com toldos de plástico. Os mesmos elementos podem ser vistos nas imagens do Google feitas na rua Arquimedes.

Por volta de seis segundos no vídeo, quando o político começa a andar pela rua, é possível ver uma lombada com uma pintura em forma de listra em frente ao poste; o que também conseguimos encontrar na rua Arquimedes.

No segundo 14 do vídeo, Paes está atravessando a rua e, ao fundo, há uma casa de primeiro andar com um ar condicionado e algumas marcas de pinturas na parede logo abaixo do equipamento. Encontramos o mesmo imóvel no Google Street View, em frente à lombada.

Por fim, a partir de 21 segundos no vídeo verificado, o político está diante de uma casa de esquina, com um portão azul, e o número indicado na parede tem um “7” e a letra “B”. Encontramos o mesmo local na rua Arquimedes.

Depois de julho de 2019, o Google Street View só tem imagens para a via a partir de agosto de 2021, portanto, não é possível usar a ferramenta para saber exatamente quando os imóveis perderam essas características da fachada, determinando a data da festa. Mas a comparação das imagens confirma que o evento ocorreu em Magalhães Bastos, bairro separado do Complexo da Maré por um trajeto de cerca de 24 quilômetros, segundo o Google Maps.

De acordo com o Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro, há uma área do bairro de Magalhães Bastos, a favela de Curral das Éguas, que está sob o comando da facção Amigos dos Amigos. Mas a rua Arquimedes não fica dentro do perímetro apontado no mapa. O grupo tem perdido controle de áreas da cidade. O mapa é feito em parceria pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GEN) da Universidade Federal Fluminense (UFF); pelo datalab Fogo Cruzado; pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP); pela plataforma digital Pista News e pelo Disque-Denúncia.

Desde que voltou para a prefeitura, Eduardo Paes tem adotado medidas para contenção da covid-19 que o colocaram na mira de grupos negacionistas, como a adoção de medidas restritivas. Com o avanço da imunização contra a doença, a cidade também passou a exigir passaporte vacinal para que as pessoas tenham acesso a alguns serviços e estabelecimentos. O prefeito também tem criticado publicamente pais que não levam seus filhos para se vacinar contra o coronavírus. Decisões como estas já levaram um grupo a queimar uma foto de Paes junto com máscaras na cidade.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre a pandemia, as políticas públicas do governo federal, e a eleição deste ano que tenham viralizado nas redes sociais. Quando esse conteúdo trata da covid-19, sua checagem é ainda mais necessária, uma vez que informações incorretas podem levar as pessoas a deixarem de seguir as recomendações das autoridades sanitárias e se exporem a riscos. É exatamente o que o tuíte verificado faz ao sugerir que o prefeito do Rio estava festejando sem máscara no meio da rua.

O post em questão teve 6,9 mil visualizações no Twitter e mais de mil interações na mesma rede social. Desde que voltou para a prefeitura, o político tomou decisões que o colocaram na mira de negacionistas, como a adoção de medidas restritivas, a exigência de passaporte de vacinação e a defesa da imunização de crianças.

Recentemente, o Comprova mostrou que a cena de uma reportagem em que homem finge estar morto é de ato pelo meio ambiente, sem relação com a pandemia; que um artigo contrário à adoção de lockdowns não foi feito pela Universidade Johns Hopkins; e que os médicos reafirmam que máscaras impedem a proliferação da covid-19 e não atrapalham a respiração. Além disso, o Comprova também explicou porque eventos adversos graves pós-vacinação contra a covid-19 são raros e os benefícios da imunização superam os riscos.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Esta verificação foi feita por jornalistas que participam do Programa de Residência no Comprova.

Saúde

Investigado por: 2022-02-16

Vacinas não criaram novas cepas ou mais casos de covid em Israel, como sugere postagem no Telegram

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa uma postagem no Telegram que sugere interpretações sobre o efeito da aplicação da terceira e quarta doses da vacina contra a covid-19 em Israel. A postagem reproduz um gráfico sobre internações no país e, com a inserção de marcações e texto, sugere que as doses extras foram ineficazes contra as novas variantes do coronavírus, ou ainda que a vacinação teria contribuído para o surgimento e avanço das cepas. Dados do governo e da imprensa local mostram que as vacinas foram aprovadas para conter o aumento de contágio e internações diante das variantes delta e ômicron, que já estavam em circulação, e que a maioria dos casos graves verificados são de pessoas não vacinadas.
  • Conteúdo verificado: Uma postagem no canal do Telegram do grupo “Médicos pela Vida” insere marcações e texto em gráfico de internações semanais por covid-19 em Israel, para apontar que as datas de início da vacinação da terceira e da quarta dose no país precedem o crescimento de hospitalizações. O texto que acompanha o gráfico sugere que a vacina seria a causadora desse aumento ou ineficaz diante das variantes do coronavírus.

Uma montagem divulgada no canal do Telegram do grupo “Médicos Pela Vida” faz intervenções no gráfico de novas internações por covid-19 em Israel, abrindo margem às seguintes interpretações: que a terceira e quarta doses foram a causa ou teriam contribuído para o avanço de novas variantes do coronavírus, ou que elas teriam sido ineficazes diante do aumento de contágio provocado pelas cepas.

Conforme demonstram as informações oficiais do governo de Israel, ambas leituras são incorretas. A vacinação não causou o surgimento das variantes: as cepas delta e ômicron já estavam em circulação no país quando a aplicação das doses de reforço foi aprovada, justamente para conter o aumento de casos da doença.

Apesar do crescimento no número de hospitalizações, o reforço ofereceu uma proteção importante. Os dados demonstram que a maioria dos internados na segunda onda da ômicron não estavam vacinados. Além disso, comparando as datas de aprovação das doses com as curvas do gráfico original utilizado na postagem, é possível notar que o efeito seguinte é o de queda nas internações.

As explicações de virologistas e epidemiologistas, dadas ao Comprova, também contribuíram para descartar a veracidade das interpretações sugeridas pela postagem.

O Comprova classificou como enganosa a publicação por distorcer dados com o objetivo de induzir o leitor a um erro de interpretação com relação às vacinas e a sua eficácia.

O grupo de Telegram que publicou a mensagem não disponibiliza outros meios de contato além do próprio chat, assim como os administradores não são identificados. O Comprova tentou entrar em contato pelo Telegram e até o momento não teve nenhuma resposta.

Como verificamos?

Por meio de uma busca pelas palavras-chaves indicadas na montagem, foi possível constatar que o gráfico utilizado como base é o do Our World in Data, plataforma mantida por pesquisadores da Universidade de Oxford e que coleta dados globais da pandemia.

Uma pesquisa nas publicações no site do Ministério da Saúde de Israel e em reportagens locais e internacionais trouxe as datas de início da terceira e quarta doses no país, e o contexto em que foram aprovadas: quando as variantes delta e ômicron já estavam em circulação e as curvas de infecção e internações, ascendentes.

O Comprova encaminhou e-mails para diferentes endereços encontrados no site do governo de Israel, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

A equipe também fez contato com o virologista Amilcar Tanuri, chefe do Laboratório de Virologia Molecular do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e com o médico sanitarista Gonzalo Vecina, ex-diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para que explicassem o comportamento do vírus e da vacina no organismo.

A reportagem também buscou os autores da postagem, sem sucesso. O Comprova contatou um grupo de nome semelhante, mas este esclareceu não ser o autor da postagem.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 16 de fevereiro de 2021.

Verificação

O gráfico oficial e as inserções

O gráfico original do site Our World in Data mostra o número de internações semanais em leitos de UTI por covid-19 em Israel, por milhão de pessoas, com curvas ascendentes por volta de agosto de 2021 e fevereiro de 2022. A visualização dos dados não traz qualquer menção à vacinação. Somente no conteúdo replicado no Telegram são inseridas, na imagem, as setas com as inscrições “3ª dose” e “4ª dose”, pouco antes de as curvas crescerem.

Essas inscrições dão a entender que a aplicação das terceiras e quartas doses da vacina foram a causa ou teriam contribuído para o avanço de novas variantes do coronavírus, ou que elas seriam ineficazes diante do aparecimento das mutações do vírus. As interpretações são sugeridas pelo seguinte texto que acompanha o gráfico:

“Uma imagem vale mais que mil palavras! Talvez desenhando fique mais fácil de entender a relação de eficácia das diversas doses de vacinas x avanço das novas cepas… Dados de Israel, um dos países que mais vacinaram sua população em todo o mundo.”

No entanto, as interpretações não encontram respaldo nos dados oficiais disponíveis no site do governo de Israel, nas informações consultadas na imprensa local e internacional e nas avaliações dos pesquisadores ouvidos nesta verificação.

Vacinas para conter variantes

Segundo conteúdo disponível na página de notícias do Ministério da Saúde de Israel, a terceira e a quarta doses da vacina contra a covid-19 foram aprovadas para conter as ondas de contaminação, já em curso, provocadas pelas variantes delta e ômicron.

Nesta notícia, de 5 de agosto de 2021, o Ministério da Saúde de Israel recomenda a vacinação de adolescentes diante da prevalência e alta transmissibilidade da delta, que foi identificada no país em abril. A terceira dose foi aprovada em 30 de julho (pessoas acima de 60 anos), 13 de agosto (50 anos ou mais), 24 de agosto (acima de 30 anos) e 29 de agosto (acima de 12 anos). Ou seja, quando a variante delta já estava em circulação. Ao observar essas datas no gráfico, é possível perceber queda na curva de internações na sequência.

O mesmo se dá em relação à onda de contaminação da ômicron. Segundo o gráfico abaixo, extraído do site do Ministério da Saúde de Israel (boletim de 10 de janeiro, pág. 3), a predominância da variante tem início no país em meados de dezembro de 2021, com a indicação próxima do dia 18. As quartas doses em Israel foram aprovadas em 2 de janeiro (pessoas com 60 anos ou mais) e em 26 de janeiro (acima de 18 anos). Portanto, após a prevalência da ômicron.

Ainda no site do Ministério da Saúde de Israel, na página de informações sobre as vacinas, consta que a quarta dose foi aprovada diante da onda de contaminação provocada pela variante ômicron, como destacado abaixo:

| Tradução do texto marcado em azul: Diante da atual onda de infecção provocada pela variante Omicron, a quarta dose para públicos adicionais foi aprovada

Mais uma vez, ao se observar a segunda curva de aumento de internações do gráfico, é possível constatar a queda de internações após as datas de aprovação da quarta dose.

Outro dado que afasta as interpretações sugeridas pela postagem são os estudos de efetividade divulgados pelo Ministério da Saúde de Israel.

Sobre a terceira dose, pesquisadores da pasta e de universidades locais apontaram defesa imunológica 10 vezes maior contra infecção e forma grave da covid-19 após a terceira dose (de reforço) da Pfizer do que em pessoas que foram vacinadas com duas doses há cinco meses ou mais.

“Especialistas de todo o mundo estão tentando descobrir se o motivo da recorrência da doença se deve a alterações no vírus e, principalmente, à entrada da cepa Delta, erosão na eficácia das vacinas ou uma combinação dos dois”, diz trecho da notícia.

Nesta outra publicação, de 25 de janeiro, o Ministério da Saúde de Israel recomenda a quarta dose para pessoas entre 18 e 60 anos. A decisão foi tomada com base em estudo que aponta de três a cinco vezes mais proteção contra formas graves da doença após a quarta dose e duas vezes mais proteção para quem tomou a terceira dose.

Não vacinados são maioria dos internados

O gráfico acima, do governo de Israel, mostra aumento de internações em período que coincide com a segunda curva ascendente do gráfico do Our World in Data, reproduzido, com inserções, na postagem do Telegram ora verificada. A imagem do boletim do governo de Israel traz uma informação adicional: a grande maioria dos hospitalizados são de pessoas não vacinadas.

A informação foi repercutida pela mídia local. Em 8 de fevereiro, o site The Times of Israel publicou reportagem em que o ministro da Saúde de Israel culpa os não vacinados pela alta pressão no sistema hospitalar do país.

A reportagem informa que, de acordo com estatísticas do Ministério da Saúde, as pessoas acima de 60 anos não vacinadas com dose de reforço têm 12 vezes mais chances de adquirir uma forma grave da covid-19 do que as imunizadas na mesma faixa etária.

Dois dias antes, o mesmo veículo de Israel publicou matéria reforçando a informação: em 6 de fevereiro, havia, entre pessoas com 60 anos ou mais, 415,6 casos graves por 100 mil habitantes entre não vacinados, contra 35,9 entre os vacinados.

Israel tem 9,217 milhões de habitantes. As vacinas aprovadas no país são Pfizer, Moderna e Astrazeneca. Foram vacinadas 4.457.409 pessoas com a terceira dose e 704.017 com a quarta, até 16 de fevereiro. Os dados constam em painel do governo de Israel, reproduzido abaixo, com destaque para o quadro ‘Vacinados’ (tradução do hebraico), e o detalhamento por número de doses.

O que dizem os especialistas

Os especialistas procurados pelo Comprova são categóricos ao afirmar que as vacinas não causam ou favorecem o surgimento de novas variantes. Pelo contrário, as doses fortalecem a imunidade contra o coronavírus.

“A vacina dá uma proteção para as pessoas. Ela diminui a carga viral, faz com que a contaminação não seja tão grave e não leve as pessoas à morte. Essa é a coisa mais importante da vacina”, explica Gonzalo Vecina, médico sanitarista e ex-diretor presidente da Anvisa.

O virologista e professor da UFRJ, Amilcar Tanuri, pondera ainda que a eficiência da vacina é maior do que a proteção causada pela contaminação natural. “A vacina cria o que chamamos de célula de memória e elas são melhores no combate às mutações do que os anticorpos criados pela infecção natural”.

Com o início da aplicação da terceira dose da vacina contra o coronavírus para a população em geral a partir do dia 30 de agosto, Israel viu os novos casos de infecções caírem no dia 13 de setembro.

Os dois profissionais, especialistas em vírus e suas propriedades e em contaminações em grande escala, explicam que a natureza do organismo do vírus é se modificar para sobreviver, e as vacinas dificultam essas modificações e não as estimulam.

“As mutações ocorrem de forma natural. As moléculas do vírus estão sempre em mutação, independente de vacina ou mesmo de infecção. O vírus está sempre mudando”, diz o professor Tanuri.

Para Gonzalo Vecina, professor da Universidade de São Paulo (USP), os dados do gráfico mostram impacto positivo das vacinas no controle do coronavírus, justamente devido à queda das curvas após a aprovação das doses extras em Israel:

“A vacina então faz esse combate ao vírus de maneira mais inteligente. Ela protege o corpo inclusive de algumas mutações dependendo de como ela ocorre. Diminui a carga viral e faz os efeitos serem menos agressivos ou danosos”.

Por que investigamos?

O Comprova verifica informações suspeitas que tenham viralizado nas redes sociais ou aplicativos de mensagem sobre políticas públicas do governo federal, eleições presidenciais e a pandemia da covid-19. A publicação checada teve mais de 54 mil interações depois de compartilhada em um canal do Telegram com 110 mil inscritos.

Outras checagens feitas pelo Comprova já mostraram que a vacina não gera câncer, HPV ou HIV, que a segurança que a vacina traz supera os riscos de miocardite e que estudos foram distorcidos na tentativa de sugerir a ineficiência dos imunizantes. A Agência Lupa também fez uma checagem mostrando que a mortalidade por covid não aumentou depois da vacinação em Israel.

Para o Comprova, enganoso é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2022-02-15

Cena de reportagem em que homem finge estar morto é de ato pelo meio ambiente

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa postagem no Facebook que usa o vídeo de uma reportagem sobre um protesto de ativistas pelo clima para dizer que a mídia está “corrompida”. No ato, os manifestantes simularam a morte de pessoas que são afetadas pela falta de medidas para reduzir as emissões de CO2,. Deitados ao chão, como cadáveres, um deles levanta e é impedido por outra pessoa. Não há relação com vítimas da covid-19 ou com qualquer iniciativa do próprio repórter ou jornal.
  • Conteúdo verificado: Um vídeo publicado em um grupo do Facebook mostra o trecho de uma reportagem com imagens de pessoas deitadas no chão sob sacos plásticos, como cadáveres. Um dos “defuntos” começa a se levantar, mas é impedido por outra pessoa. Na legenda, o post afirma que a mídia está “corrompida”, sugerindo que o jornal teria montado a cena para noticiar mortes que não aconteceram.

É enganoso um post no Facebook que usa o trecho de uma reportagem para afirmar que a mídia está “corrompida”. O vídeo exibe imagens de um grupo de pessoas deitadas no chão sob sacos plásticos, como se fossem cadáveres. Um dos “defuntos” tenta se levantar, mas é impedido por outra pessoa. O post sugere que o jornal teria montado a cena para noticiar mortes que não ocorreram, passando a ideia de que se trata de algo que ocorreu durante a pandemia. Na verdade, trata-se da cobertura de um protesto de rua organizado por ativistas do clima — não houve mortes nem qualquer tentativa de enganar a respeito disso por parte da mídia.

A cobertura foi feita pelo repórter Marvin Bergauer, do jornal austríaco OE24 e foi exibida no dia 4 de fevereiro de 2022. O ato foi organizado pelo grupo Fridays For Future e ocorreu em frente ao escritório do chanceler austríaco, Karl Nehammer. A ideia era fazer alusão ao número de pessoas que diariamente morrem vítimas de emissão de CO2 e cobrar a aprovação de uma política de proteção climática no país.

Além das 49 pessoas deitadas, outras também estavam vestidas de “morte”, com foices na mão e cartazes. Em um dos cartazes exibidos, havia a frase: “Klimaschutzgesetz rettet leben” (“Lei de proteção climática salva vidas”, em tradução livre).

A postagem feita no Facebook distorce as informações e dá a entender que os jornalistas teriam fabricado a cena. “Falhou! Um defunto ressuscitou antes de terminar a reportagem. A mídia está corrompida no mundo todo”, diz a publicação. O repórter Marvin Bergauer, autor da matéria compartilhada na publicação, rebateu as acusações, em nota publicada no seu perfil do Facebook, e explicou que estava de fato cobrindo um protesto.

A autora do post original deletou a publicação após ser questionada pela equipe do Projeto Comprova.

O conteúdo foi classificado como enganoso, pois foi retirado do contexto original e teve seu significado original alterado, o que induziu a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.

Como verificamos?

Começamos a nossa verificação buscando no Google a origem do vídeo. Ao observar a imagem, conseguimos identificar o nome do repórter Marvin Bergauer e chegamos ao site austríaco Österreich. Em uma pesquisa mais detalhada pelo portal, encontramos a reportagem com o título: “Schock-Protest: 49 Aktivisten im Leichensack” (“Protesto de choque: 49 ativistas em sacos para corpos”).

Utilizamos o Google Tradutor para entender o conteúdo da reportagem. Trata-se de um protesto pela falta de uma política para redução de emissões de CO2 na atmosfera na Áustria.

Realizamos uma busca no Facebook para tentar contato com o repórter Marvin Bergauer. Depois disso, conseguimos localizar o autor original do vídeo no TikTok, através de postagem feita pelo repórter, que se pronunciou sobre o caso. O vídeo reúne mais de 1,7 milhão de visualizações na rede até 14 de fevereiro. Ele não relaciona o conteúdo a mortes pela covid-19 e apenas ironiza a falha da organização.

Também procuramos mais imagens desse mesmo dia e encontramos publicações na página do Facebook da Fridays for Future de Vienna.

Verificação

O grupo em que a publicação foi feita é usado para fazer propagandas de ações do governo federal e do presidente Jair Bolsonaro. Nele, há postagens contra a vacina da covid-19, que é uma medida comprovadamente eficaz para reduzir mortes e casos graves da doença.

Após as tentativas de contato com a autora original, a publicação no grupo foi deletada e não houve retorno de respostas.

A manifestação que de fato ocorreu e foi organizada pela Fridays For Future menciona um estudo publicado na Revista Nature. De acordo com a pesquisa, para cada 4.434 toneladas de emissões de dióxido de carbono, uma pessoa morrerá como resultado da crise climática neste século na Áustria.

Eles cobram que uma política climática seja estabelecida no país, porque a última venceu no final de 2020. Um dos representantes, Michael Spiekermann, também fez publicação em seu perfil no Instagram, explicando as motivações do ato. “Cada melhoria na lei de proteção climática reduz nossas emissões e salva milhares de vidas”, disse.

O repórter

O repórter Marvin Bergauer se pronunciou através das redes sociais e explicou que havia sido procurado por pessoas do Brasil, Canadá, Polônia, Rússia e Espanha, entre outros países, após a sua reportagem ter sido tirada do contexto. Ele criticou o uso do conteúdo para desacreditar a imprensa e acusá-la de manipular as informações sobre mortes causadas pela covid-19. Segundo ele, os termos mais usados foram “manipulador” e “mentiroso”.

Por fim, ele escreveu: “Por favor, não acreditem em tudo que lêem nas redes sociais […] Repostar tudo cegamente sem sequer questionar o que poderia realmente ser, só leva a mais teorias da conspiração, insultos desnecessários e uma distorção da realidade”.

Marvin foi procurado pela equipe do Projeto Comprova, mas não retornou as mensagens.

Sobre Fridays for Future

A Fridays for Future é uma organização não governamental formada por jovens e estudantes da Áustria que realizam manifestações para cobrar que políticos cumpram o acordo climático de Paris, compromisso firmado entre 200 países para conter a elevação das temperaturas globais a 1,5°C em relação à média pré-industrial.

Para isso, a ONG se divide em diversas regiões do país e realiza atos de forma individualizada, mas também em conjunto. A organização não tem filiação com partidos políticos e aceita o ingresso de qualquer pessoa que se interessar.

O grupo foi inspirado pela adolescente e ativista Greta Thunberg, que ficou conhecida por fazer protestos todas as sextas-feiras em frente ao parlamento sueco. Além dos atos de rua, eles também fazem oficinas e workshops em escolas, empresas e organizações. Um dos princípios para os protestos é que sejam pacíficos, sem ações que envolvam qualquer violência.

Por que investigamos?

O Comprova verifica informações suspeitas que tenham viralizado nas redes sociais ou aplicativos de mensagens sobre políticas públicas do governo federal, eleições presidenciais e a pandemia da covid-19. O conteúdo verificado teve mais de 2.500 interações no Facebook e mais de 1,6 milhão de visualizações no Tik Tok.

O grande número de mortes por covid-19 já foi evidenciado por órgãos sanitários, governos e jornais diversas vezes. De acordo com dados do Ministério da Saúde, já foram registrados 637.152 óbitos desde o início da pandemia.

O Projeto Comprova já mostrou em outros momentos que a pandemia de fato causou muitas mortes no país. Em agosto de 2020 um post distorceu dados para negar o número de óbitos. Depois, o Projeto Comprova também mostrou que a média de mortes em 2020 foi maior do que em 2019, em decorrência da pandemia.

Além disso, essa verificação também foi feita pelo Fato ou Fake, que conversou com o repórter autor da matéria distorcida.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2022-02-15

Artigo que condena lockdowns não é da Universidade Johns Hopkins

  • Enganoso
Enganoso
São enganosos posts no Facebook que afirmam que a Universidade Johns Hopkins realizou um estudo que demonstra a efetividade baixa do lockdown como medida de prevenção contra a disseminação da covid-19. Um dos três autores da pesquisa é professor da universidade, mas a instituição não deu aval para nenhum estudo. O trabalho citado na postagem não passou por etapas técnicas recomendadas, nem foi submetido a avaliações de outros pesquisadores.
  • Conteúdo verificado: Postagens no Facebook afirmam que a Universidade Johns Hopkins realizou um estudo que concluiu que lockdowns tiveram pouca efetividade na contenção da covid-19.

Postagens nas páginas do Facebook do site Brasil Sem Medo e do deputado federal Filipe Barros (PSL-PR) afirmam erroneamente que um estudo da Universidade Johns Hopkins teria comprovado que o lockdown teve baixa efetividade como medida de contenção da covid-19. Embora um dos três autores da pesquisa seja professor da universidade, a instituição não contribuiu para o estudo.

O artigo citado não passou pelos protocolos básicos para ser definido como um estudo acadêmico científico, como a submissão aos comentários e observações de colegas da área.

Procurado pelo Comprova, o deputado federal disse que ele e sua equipe apenas publicaram uma matéria de uma revista. Já a página Brasil Sem Medo não respondeu aos nossos questionamentos por e-mail até a publicação desta verificação.

O Comprova classificou a postagem como enganosa por atribuir de forma incorreta dados sem comprovação a uma instituição renomada, com a intenção de distorcer a realidade e levar o leitor a uma conclusão equivocada.

Como verificamos?

O primeiro passo da checagem feita pelo Comprova foi atestar se o estudo citado realmente existia, por meio de uma busca por palavras-chaves na internet. Depois de encontrado, verificamos quais eram as relações dos autores com a universidade citada e qual era o conteúdo do artigo. Também foram pesquisadas as qualificações acadêmicas e profissionais dos autores, assim como as suas publicações em redes sociais e entrevistas anteriores ao trabalho divulgado.

O Comprova buscou a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), especialistas em pesquisas científicas, para analisar a maneira como o estudo foi produzido e também dados oficiais sobre os resultados de medidas sanitárias divulgados.

Verificação

Universidade não fez estudo sobre lockdown

O primeiro ponto que chama a atenção é o fato de a postagem atribuir o estudo à Universidade Johns Hopkins, que faz uma contagem dos casos e mortes por covid-19 no mundo todo. O próprio estudo e a universidade, contatada por e-mail, afirmam que o material divulgado não tem relação com a instituição.

“As opiniões expressas neste documento são dos autores e não necessariamente das instituições às quais os autores são filiados”, diz a abertura do artigo. Dos três autores, apenas um, Steve Hanke, tem relação com a universidade como professor de economia. Os outros dois, Jonas Herby e Lars Jonung, também economistas, são membros de instituições na Suécia e Dinamarca sem relação com a universidade Johns Hopkins.

O fato de um autor trabalhar para uma instituição de ensino não garante que esta apoie todo e qualquer material que ele venha a produzir, como explica o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Renato Janine Ribeiro. “Para você dizer que é um estudo de uma determinada universidade você tem que ter o aval dessa universidade. Não basta apenas ter alguma relação com essa universidade.”, afirma o professor.

Material publicado tem falhas técnicas e distorções

Além de pouca ou nenhuma experiência na área de saúde, os três professores de economia autores do documento em que se baseia a postagem checada não cumpriram os passos técnicos para que o trabalho fosse considerado como um estudo científico, podendo ser descrito como um artigo apenas.

“Você faz um estudo, ele é proposto a alguma revista ou algum periódico, depois ele é avaliado, eventualmente surgem críticas, pedem para o autor refazer ou analisar e responder as críticas e somente depois, no final disso, o estudo é publicado. E somente nessa altura você pode dizer que o estudo está terminado e que é efetivamente um estudo terminado e publicado”, como explica o professor Renato Janine.

Mesmo descrevendo o artigo como um “trabalho em andamento”, os autores foram criticados por pesquisadores cujos estudos serviram como base para a pesquisa. Proposto como uma meta-análise, ou revisão de literatura, onde o autor se propõe a condensar uma grande quantidade de dados e informações coletados por outros autores a fim de obter um dado definitivo, ou pelo menos fazer uma análise dos dados coletados em comparação aos demais estudos, o trabalho citado na postagem tem pouca amplitude e diversidade. Dos 34 estudos usados como base, 12 têm o mesmo status de “trabalho não finalizado”, 14 foram feitos também por economistas sobre um tema de saúde pública e sete usam a mesma base de dados. O principal artigo usado na pesquisa, na verdade, aponta benefícios para o lockdown.

Nas redes sociais, a autora desse estudo base principal disse que os três “já tinham a tese pronta” e que apenas colocaram dados e pesquisas para confirmar essa tese sem realmente ir a fundo nos trabalhos.

Outro problema apontado nas redes sociais por especialistas em análises de dados é a forma como os autores da pesquisa usaram tabelas e dados. Economista da Universidade de Munique, Andreas Backhaus escreveu que “deram peso desproporcional aos trabalhos com o resultado que eles queriam” distorcendo o número final, informação que o próprio autor reconhece nesse documento com respostas sobre questionamentos que ele publicou em suas redes.

A exclusão de dados sem um critério técnico claro também chamou a atenção do epidemiologista da Universidade de Wollogong, na Austrália, Gideon Meyerowitz. Ele trabalha com doenças crônicas em Sydney e ponderou que os autores “excluíram todos os trabalhos robustos conhecidos sobre lockdown, deixando apenas trabalhos obscuros”, o que também mostra uma disposição dos autores em usar números que chegassem a um resultado determinado antes da análise.

Medidas sanitárias foram efetivas contra a covid

Diferentemente do que sugere o artigo checado, diversas pesquisas apontam como bem sucedidas, se bem aplicadas, medidas de contenção ao coronavírus. Além do lockdown, o distanciamento social, o uso de máscaras e a higiene das mãos foram apontadas como medidas positivas no combate à disseminação da doença.

Um estudo de 2020 do Imperial College, de Londres, já apontava que cerca de 120 mil vidas haviam sido salvas com as medidas de restrição na Europa. No mesmo ano, a Organização Mundial da saúde também divulgou um estudo com os benefícios do lockdown em todo o mundo.

Já a revista Nature publicou um extenso material em que aponta que os lockdowns reduziram em média 80% das transmissões do vírus. Dois professores de matemática da Universidade de Barcelona estimaram uma queda no número de casos e de hospitalização como efeito das medidas restritivas, incluindo o lockdown. Produzido por especialistas de diversas áreas, este estudo calculou o impacto do lockdown dependendo da intensidade e da duração. Todas as publicações foram submetidas aos pares e somente depois de revisadas foram publicadas.

Em uma carta conjunta, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e a Associação Médica Brasileira (AMB) abordaram a efetividade das medidas restritivas impostas em outros países e a necessidade de se repetir no Brasil. Já o International Journal of Infectious Diseases, publicou um estudo mostrando a redução no números de casos graças ao uso de máscaras, ao distanciamento social e o lockdown.

Por que investigamos?

O Comprova faz a checagem de conteúdos suspeitos relacionados às políticas públicas do governo federal, pandemia e eleições que tenham viralizado nas redes sociais. O conteúdo verificado, que postava dados incorretos sobre a pandemia para tentar desacreditar as medidas sanitárias, tinha quase 15 mil interações nas duas publicações no Facebook em apenas três dias.

Em outras oportunidades, o Comprova mostrou como as medidas sanitárias foram efetivas no combate a proliferação do coronavírus, como ao mostrar que video usava informações falsas sobre lockdown, ou quando verificou vídeo divulgado que atribuiu falsamente suicídio ao lockdown. Também checamos informações sobre o distanciamento social e a efetividade das máscaras aqui, e também nesta e nesta checagem do Comprova sobre o uso e eficiência das máscaras.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2022-02-11

Postagem que cita aumento de doenças entre militares dos EUA após a vacinação usou dados incorretos

  • Falso
Falso
É falso um post no Twitter da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) que cita uma base de dados militar dos EUA para afirmar que houve um “aumento alarmante de doenças graves em decorrência da picadinha”, em alusão à vacina contra a covid-19. Os dados no sistema americano estavam incorretos entre setembro de 2021 e janeiro de 2022, devido a um erro no código de programação que foi posteriormente corrigido.
  • Conteúdo verificado: Um tuíte de uma deputada faz referência a um banco de dados militar dos EUA para afirmar que houve um “aumento alarmante” de doenças graves entre membros da Forças Armadas americanas após a vacinação obrigatória contra a covid-19. Acompanha o post uma imagem que reúne porcentagens do suposto aumento de diferentes problemas de saúde, como ataque cardíacos e abortos.

São falsas as alegações em um post no Twitter da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) que faz referência a um banco de dados militar dos EUA para afirmar que houve um “aumento alarmante” de doenças graves após a vacinação contra a covid-19, obrigatória para membros da Forças Armadas americanas. Acompanha o post uma imagem que reúne porcentagens do suposto aumento de diferentes problemas de saúde, como ataque cardíacos e abortos.

O tuíte traz um link a um blog americano de extrema-direita, conhecido por disseminar desinformação, de onde os dados foram obtidos. O texto no blog, por sua vez, menciona uma base de dados interna às Forças Armadas dos EUA, a Defense Medical Epidemiology Database (DMED). O site afirma que as informações sobre as doenças foram vazadas por um advogado que disse representar três “delatores” em um painel no Senado dos Estados Unidos chamado “Covid-19: a second opinion”, organizado pelo senador republicano Ron Johnson, em 24 de janeiro de 2022.

Para determinar que houve um “aumento alarmante” de doenças entre os militares após a vacinação, foram comparados dados dos primeiros 10 meses de 2021 com uma média dos casos registrados anualmente entre 2016 e 2020.

Os dados disponíveis na DMED, no entanto, estavam errados. Peter Graves, um porta-voz do órgão de vigilância sanitária das Forças Armadas dos EUA, afirmou ao site de checagem de fatos PolitiFact que as informações que constavam no sistema sobre os anos de 2016-2020 “representavam uma fração pequena dos diagnósticos médicos reais.” Os dados de 2021, entretanto, estavam corretos — o que causou a impressão de um salto na ocorrência de doenças. Ainda segundo a apuração do PolitFact, a base de dados foi tirada do ar para que fosse identificada a causa do erro.

Procurado pelo Comprova, Graves afirmou que um erro no código de programação da plataforma causou a distorção nos dados entre setembro de 2021 e janeiro de 2022. Devido ao erro, profissionais da saúde militares dos EUA que acessaram a plataforma nesse período viram “um aumento incorreto em uma variedade de diagnósticos”. Segundo o representante do órgão, a falha na programação já foi corrigida.

O Comprova entrou em contato com a deputada federal Bia Kicis, mas não obteve resposta até a publicação desta verificação.

O conteúdo foi classificado como falso, porque se apoia em dados incorretos, que já foram desmentidos, para causar incerteza quanto à segurança das vacinas contra a covid-19.

Atualização: Esta verificação foi atualizada em 14 de fevereiro de 2022 para incorporar informações enviadas pelo Defense Health Agency’s Armed Forces Surveillance Division e recebidas pelo Comprova após a publicação.

Como verificamos?

O tuíte da deputada Bia Kicis traz o link de um blog de extrema-direita, que, por sua vez, menciona os nomes da base de dados militar americana (a DMED) e do advogado que teria vazado as informações em um evento de discussão sobre a pandemia no Senado dos Estados Unidos.

Buscando no Google por termos como “DMED data covid”, encontramos a checagem do site PolitiFact sobre o caso. O Comprova entrou em contato com o órgão do governo americano responsável pela base de dados, o Health Military System, por meio de um endereço de e-mail disponível no seu site oficial. Não tivemos resposta até a publicação da verificação.

Fizemos contato então com a equipe do PolitiFact para perguntar por qual canal haviam se comunicado com o órgão. O repórter que assina a verificação, Jeff Cercone, nos disse que havia usado o mesmo e-mail listado no site e que, cerca de um dia depois, havia recebido uma resposta do porta-voz Peter Graves. Ele compartilhou com o Comprova o endereço de e-mail de Graves. 

Realizamos outras buscas no Google para encontrar mais informações sobre o advogado que vazou os dados da DMED, o painel no Senado do Estados Unidos do qual ele participou, a obrigatoriedade da vacinação de militares nos EUA, e o blog de extrema-direita que publicou os dados. A equipe do Senador Ron Johnson, que organizou a audiência, também foi procurada.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 11 de fevereiro de 2021.

Verificação

A falha no sistema

Segundo o site oficial do Health Military System, a DMED é uma plataforma que confere acesso remoto a um conjunto de dados pertencentes ao sistema Defense Medical Surveillance System (DMSS). Esse sistema reúne “dados atualizados e históricos sobre doenças e eventos médicos (ex: hospitalizações, visitas ao ambulatório, etc.)” de todos os membros ativos e de reserva das Forças Armadas dos EUA.

A DMED pode ser acessada apenas por usuários autorizados, como “profissionais médicos das Forças Armadas dos EUA, epidemiologistas, pesquisadores médicos, oficiais de segurança ou de operações médicas/apoio clínico à vigilância de condições sanitárias nas Forças Armadas dos EUA”.

Os dados da plataforma para os anos de 2016-2020 estavam incorretos, de acordo com o Defense Health Agency’s Armed Forces Surveillance Division, um órgão de vigilância sanitária das Forças Armadas dos EUA. “Os dados cobrindo os anos de 2016 a 2020 estavam corrompidos devido a um erro de programação quando acessados no período entre setembro de 2021 e janeiro de 2022” , afirmou Peter Graves, porta-voz da instituição, em e-mail enviado à equipe do Comprova no dia 14 de fevereiro.

“Quem acessou o sistema para examinar dados entre 2016 e 2021 viu um aumento incorreto em uma variedade de diagnósticos no Military Health System quando comparou os dados de 2021 com o dos cinco anos anteriores”, acrescentou Graves. Na checagem publicada pelo PolitFact, ele ainda informou que, durante o período em que houve o erro de programação, os dados de 2016 a 2020 representavam “apenas uma fração pequena” dos números reais. Os dados de 2021, no entanto, estavam alinhados às informações atualizadas do sistema DMSS — por isso parecia haver um salto na ocorrência de doenças após a vacinação. 

Origem dos números

Os dados foram mencionados pela primeira vez pelo advogado Thomas Renz, durante sua participação no painel “Covid-19: a second opinion” (“covid-19: uma segunda opinião”, em português), organizado pelo senador republicano Ron Johnson, em 24 de janeiro de 2022 no Senado dos Estados Unidos. De acordo com a descrição do vídeo de um trecho do evento postado no canal oficial do Youtube do Senador, o painel reuniu “um grupo de doutores e especialistas médicos” para “trazer uma perspectiva de resposta diferente à pandemia global de covid-19 em relação ao que se sabe sobre tratamento precoce e hospitalar, eficácia e segurança da vacina, o que deu certo, o que deu errado e o que deve ser feito a partir de agora visando o longo prazo”.

O painel teve mais de 5 horas e meia de duração e a íntegra da transmissão está disponível apenas no site Rumble. Popular entre grupos conservadores dos EUA, a plataforma tem se apresentado como uma concorrente ao YouTube com diretrizes mais flexíveis de regulação de conteúdo. Um levantamento do site Wired mostrou que o Rumble recomenda aos usuários vídeos com desinformação sobre a covid-19.

Durante sua fala, Renz se apresenta como representante de três “delatores” do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que teriam tido acesso aos dados. No painel, Renz afirma que possui “dados substanciais” que comprovam o aumento no número de diagnósticos das doenças. Os números apresentados por ele na ocasião estão entre os citados nas notícias dos sites norte-americanos que repercutiram o fato.

No mesmo dia da realização do painel, notícias repercutindo os dados apresentados por Renz começaram a circular em sites conservadores dos Estados Unidos. Renz voltou a discutir os dados em 29 de janeiro, como convidado do podcast Bannon’s War Room. O programa é apresentado por Steve Bannon, ex-estrategista-chefe do ex-presidente dos EUA Donald Trump, também conhecido por disseminar desinformação sobre a covid-19.

Após a realização do painel “Covid-19: a second opinion”, o senador Ron Johnson divulgou em seu site que havia enviado uma carta ao Departamento de Defesa dos EUA pedindo esclarecimentos a respeito dos números que foram apresentados por Renz. Em 10 de fevereiro, o Comprova entrou em contato com a assessoria do congressista, que afirmou ainda não ter recebido uma resposta do Departamento de Defesa.

Quem é Thomas Renz

Thomas Renz se apresenta como advogado dos funcionários do Departamento de Defesa dos Estados Unidos que levantaram os dados da DMED. Durante a pandemia, ele esteve repetidamente envolvido em peças de desinformação e ações judiciais que contestam a eficácia e segurança das vacinas contra a covid-19.

Por exemplo, em outubro de 2021, Renz abriu um processo contra o Departamento de Saúde do governo americano em nome da organização America’s Frontline Doctors — conhecida por disseminar desinformação sobre a covid-19. A ação citava um “delator” que teria descoberto registros de mais de 45 mil pessoas que teriam morrido 14 dias após tomar o imunizante contra a covid-19. As alegações foram desmentidas por autoridades sanitárias em verificações de veículos como a Reuters e a USA Today.

Um perfil de Thomas Renz no jornal The Washington Post afirma que ele se tornou advogado poucos meses antes do início da pandemia, em novembro de 2019, após prestar o Bar Exam (equivalente ao exame da Ordem dos Advogados do Brasil) pela quinta vez no estado de Ohio. A reportagem destaca que ele passou a ter muita visibilidade durante a crise sanitária, ganhando seu próprio talk show e fazendo mais de 100 aparições em veículos de mídia conservadores dos EUA, até outubro de 2021. Renz também fundou uma ONG que tem coletado doações em prol da “luta pela liberdade médica”.

Sobre o blog de extrema-direita

O tuíte da deputada Bia Kicis apresenta um link para o blog americano The Conservative Treehouse, que é conhecido por disseminar desinformação e já foi classificado como pouco confiável por uma série de organizações dedicadas à checagem de fatos e transparência.

O site consta em um diretório de portais que publicam conteúdo enganoso, elaborado pela FactCheck.org. Segundo a AdFonts Media, o blog tem um viés de “direita hiper-partidária” e é “problemático” e “não confiável”. A NewsGuard deu nota 30 (de 100) à confiabilidade do Conservative Treehouse, alertando que o site “publica conteúdo falso de forma recorrente”, inclusive sobre a pandemia de covid-19.

O blog foi banido da plataforma de sites WordPress em novembro de 2020, por violar os Termos de Serviço. O próprio Conservative Treehouse afirma ter questionado o WordPress sobre quais regras foram violadas. Em resposta, a plataforma teria apontado para regras contra a incitação ao ódio e para o item 5 das diretrizes aos usuários, que detalha outros “conteúdos proibidos”.

Uma reportagem do site The Daily Beast descreve o Conservative Treehouse como o “paciente-zero” de uma série de teorias da conspiração que circulam na mídia de extrema-direita. O fundador do blog publica sob o pseudônimo Sundance, mas já foi identificado como Mark Bradman, um morador do estado da Flórida. Segundo o Daily Beast, Bradman teria ganhado notoriedade por volta de 2012, por sua defesa de George Zimmerman, homem que matou a tiros o jovem negro Trayvon Martin.

Quem é Bia Kicis

A deputada federal Bia Kicis é presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara e uma das principais aliadas do presidente Jair Bolsonaro (PL) no Congresso Nacional, onde já ocupou o cargo de vice-líder do governo.

Kicis é conhecida por disseminar desinformação sobre a covid-19 pelas redes sociais. No início de fevereiro de 2021, o Instagram suspendeu, temporariamente, transmissões ao vivo na conta da deputada federal. A rede social afirmou que a medida foi tomada devido a “repetidas violações às diretrizes e comunidades do Instagram”.

Em janeiro de 2022, a parlamentar confessou ter vazado, em um grupo de WhatsApp, dados pessoais de médicos que defendem a imunização de crianças contra a covid-19 em uma audiência pública do Ministério da Saúde sobre o tema. Partidos de oposição solicitaram que a Procuradoria-Geral da República investigue a conduta.

A CPI da Covid conduzida pelo Senado imputou à parlamentar incitação ao crime por meio de divulgação de desinformação em suas redes sociais. O intuito seria incentivar a população a desrespeitar as medidas determinadas pelo poder público para conter a pandemia.

O Comprova já verificou outros conteúdos divulgados pela deputada. Foi classificado como enganoso um post no Facebook em que Kicis misturava dois conteúdos sem relação para mentir sobre a segurança das máscaras de proteção individual contra a covid-19.

Por que investigamos?

O Comprova verifica informações suspeitas que tenham viralizado nas redes sociais ou aplicativos de mensagens sobre políticas públicas do governo federal, eleições presidenciais e a pandemia da covid-19. O conteúdo aqui verificado reuniu mais de 10 mil interações no Twitter até o dia 10 de fevereiro de 2022.

A eficácia e a segurança dos imunizantes já foram amplamente defendidas e comprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelo Ministério da Saúde. Além de prevenir quadros graves da doença, as vacinas reduzem as chances de contaminação e transmissão do vírus. Publicações que mentem sobre isso podem gerar confusão e hesitação quanto à importância da vacinação, colocando vidas em risco.

Recentemente, o Comprova mostrou que a maioria dos infectados pela variante ômicron do novo coronavírus não foram vacinados e desmentiu um conteúdo falso que afirmava que a vacinação causou “milhares de mortes” ao redor do mundo. Um material elaborado para a sessão “Comprova Explica”, também demonstrou porque as vacinas contra a covid-19 são consideradas seguras e seus benefícios superam eventuais riscos da imunização.

Para o Comprova, é falso o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.