O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Investigado por: 2022-05-05

Protesto de indígenas na Bahia era por melhoria na educação e não por verba para ato contra Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a publicação que alega que um grupo de indígenas cobrou dinheiro do Partido dos Trabalhadores (PT) pela realização de uma passeata contra o presidente Jair Bolsonaro (PL), em Porto Seguro, na Bahia. O grupo, na realidade, reivindicava ações em favor da educação escolar indígena e o ato fez parte do 4º Acampamento dos Povos Indígenas da Bahia, que ocorreu em Salvador entre os dias 25 e 29 de abril.

Conteúdo investigado: Vídeo de cerca de dois minutos que circula nas redes sociais mostra protesto de indígenas em frente ao Centro Administrativo da Bahia (CAB), em Salvador. A legenda insinua que o grupo foi ao local cobrar dinheiro que teria sido prometido pelo governo baiano para que eles participassem de manifestação contra o presidente Bolsonaro em Porto Seguro, quatro dias antes.

Onde foi publicado: Facebook e Twitter.

Conclusão do Comprova: Posts no Facebook e Twitter enganam sobre o objetivo de uma manifestação indígena realizada em 26 de abril, em frente ao CAB, complexo público no qual está localizada parte considerável das secretarias e órgãos do Governo da Bahia. As postagens trazem um vídeo do ato e afirmam que os indígenas estariam cobrando dinheiro prometido pelo governo estadual do PT para a realização de uma passeata contra o presidente Bolsonaro.

Na verdade, o grupo reivindicava ações em favor da educação escolar indígena. O protesto aconteceu em Salvador e fazia parte do 4º Acampamento dos Povos Indígenas da Bahia, realizado na capital entre os dias 25 e 29 de abril.

O encontro é organizado pelo Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba) e, este ano, promoveu o debate a respeito de questões territoriais, violência contra indígenas e acesso à saúde e à educação.

Quatro dias antes desse ato, outro protesto ocorreu em Porto Seguro, quando o presidente Bolsonaro estava na cidade para as comemorações de 22 de abril. Esta manifestação foi motivada pelo que os indígenas dizem ser o sucateamento da Fundação Nacional do Índio (Funai), pela invasão e pela falta de demarcação de terras indígenas.

Ao Comprova, a assessoria do PT da Bahia afirmou que o partido não participou nem organizou o protesto dos povos indígenas em Porto Seguro.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. No Twitter, até o dia 5 de maio, o vídeo teve 5,8 mil interações. Já no Facebook, que classificou o conteúdo como informação falsa, a publicação gerou 116 interações.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com o autor do post pelo Twitter e aguarda o retorno. O perfil que publicou o conteúdo no Facebook foi procurado por e-mail e WhatsApp, mas não houve retorno até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: O Comprova buscou, em sites e nas redes sociais, outras publicações que traziam vídeos da manifestação feitos em ângulos diferentes deste aqui verificado. A pesquisa levou a reportagens de veículos jornalísticos, como o G1, ao site do governo baiano e da Assembleia Legislativa da Bahia, com informações que coincidiram e esclareceram o contexto do ato.

O mesmo foi feito em relação ao protesto de grupos indígenas contra Bolsonaro em Porto Seguro. A fim de checar a motivação e as circunstâncias do ato, foram consultadas reportagens do Mídia Ninja, Hora do Povo, G1 e Giro Ibirataia, além de vídeos compartilhados no Instagram e no Twitter (1, 2, 3, 4, 5, 6).

O local do protesto em Salvador foi confirmado através de uma comparação entre trechos do vídeo aqui verificado, uma publicação no Facebook feita pelo Mupoiba e uma imagem do Google Maps do endereço do CAB. As imagens mostram os mesmos elementos: uma placa vermelha próxima a uma placa de pare, três bandeiras e uma estrutura cinza (este último não aparece no vídeo do Mupoiba).

| Captura de tela do minuto 1:28 do vídeo verificado pelo Comprova.

| Captura de tela da imagem do endereço do CAB no Google Maps. Disponível aqui 

| Captura de tela do minuto 0:07 do vídeo publicado pelo Mupoiba no Facebook.

Já para comprovar que Bolsonaro esteve em Porto Seguro na referida data, foram consultadas matérias do site do governo federal e da imprensa, assim como a agenda oficial do presidente.

A assessoria de imprensa do PT da Bahia foi procurada, assim como um dos manifestantes indígenas que aparece no protesto em Porto Seguro. Este último não respondeu até o fechamento desta publicação.

 

Indígenas protestavam para cobrar demandas educacionais

Ao contrário do que afirma o post verificado, indígenas não cobraram pagamentos do PT por passeata contra Bolsonaro em manifestação que ocorreu no dia 26 de abril em frente ao Centro Administrativo da Bahia (CAB), na cidade de Salvador. A informação foi desmentida pelo governo baiano.

O ato, na verdade, fez parte do 4º Acampamento dos Povos Indígenas da Bahia, realizado na capital entre os dias 25 e 29 de abril deste ano. A iniciativa é promovida pelo Mupoiba e tem como objetivo criar um espaço de diálogo entre as populações originárias e os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do Estado.

Em uma publicação no Facebook, o Mupoiba criticou a reação violenta da polícia e agentes de segurança com os cerca de 300 indígenas que participaram do ato e assegurou que o objetivo do protesto era cobrar demandas relacionadas à educação, como a construção de escolas e transportes escolares.

Protesto contra Bolsonaro em Porto Seguro (BA) ocorreu quatro dias antes

No dia 22 de abril deste ano, Bolsonaro esteve em Porto Seguro para participar de eventos em homenagem aos 522 anos da chegada dos portugueses ao Brasil. A visita consta na agenda oficial do presidente, que registrou a viagem no Twitter.

Como noticiado pelo G1, no mesmo dia, pela manhã, indígenas de 15 aldeias pataxós fizeram um protesto pelas ruas de Porto Seguro motivado pelo sucateamento da Fundação Nacional do Índio (Funai), pela invasão de terras indígenas e a não demarcação de terras.

Em vídeos postados na internet sobre a manifestação, eles criticam o atual governo e empunham cartazes “Fora Bolsonaro”.

Durante o ato, que teve participação de cerca de 200 indígenas, os manifestantes pintaram com tinta vermelha uma estátua de Pedro Álvares Cabral, localizada no centro histórico da cidade.

A manifestação também foi noticiada pelo site Hora do Povo, que mostrou um vídeo do momento em que os indígenas entraram na área destinada ao discurso de Bolsonaro.

Já o portal local Radar 64 publicou matéria anterior à realização do evento, informando que, além dos povos originários, sindicatos, partidos políticos e entidades populares iriam se manifestar contra os escândalos de corrupção no MEC, as “rachadinhas” e o aumento de preços dos alimentos e combustíveis. Os indígenas teriam pauta de reivindicações próprias.

Nenhum dos diversos vídeos do protesto dos indígenas publicados nas redes sociais (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7) mostra bandeiras de partidos políticos ou centrais sindicais.

Procurada pelo Comprova, a assessoria do PT da Bahia afirmou que o partido não participou nem organizou o protesto dos povos indígenas em Porto Seguro.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. O vídeo alvo desta verificação cita o presidente Jair Bolsonaro, provável candidato à reeleição, e o PT, partido de outro pré-candidato ao Planalto. Publicações enganosas que mencionam presidenciáveis podem induzir interpretações equivocadas da realidade e influenciar eleitores no momento da votação, o que é prejudicial ao processo democrático.

Outras checagens sobre o tema: O mesmo vídeo foi verificado por outras agências de checagem como a Lupa e a Aos Fatos, além do site Boatos.org. Todos chegaram à conclusão de que não se tratava de uma manifestação para cobrar suposto dinheiro prometido na passeata contra Bolsonaro, em Porto Seguro.

Em verificações anteriores, o Comprova mostrou que pessoas gritavam a favor de Lula, e não contra ele em vídeo na Sapucaí; que vídeos de manifestação contra Lula em Passo Fundo são de 2018; que é enganosa postagem afirmando que lançamento da campanha de Bolsonaro reuniu multidão em Brasília e que vídeo de abordagem da PM a torcedores do Sport não tem relação com Lula.

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Investigado por: 2022-05-04

Vídeos antigos são usados para enganar sobre adesão a atos pró-Bolsonaro em 1º de Maio

  • Enganoso
Enganoso
São enganosas publicações nas redes sociais que mostram vídeos de manifestações de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL) em São Paulo, Rio de Janeiro e em Brasília, dando a entender que os atos ocorreram em 1° de maio deste ano com a intenção de questionar a credibilidade de pesquisas eleitorais, que mostram uma menor popularidade de Bolsonaro. Na verdade, as gravações foram feitas nos atos de 7 de setembro de 2021.

Conteúdo investigado: Vídeos mostram milhares de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) em atos na Avenida Paulista, em São Paulo, em Copacabana, no Rio de Janeiro, e na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. As publicações dão a entender que as gravações foram feitas em 1° de maio deste ano. “1° de maio dia do trabalho, o povo brasileiro saiu às ruas para mostrar de qual lado ele está!”, diz a legenda de uma delas.

Onde foi publicado: Facebook, Instagram, Kwai e Twitter.

Conclusão do Comprova: São enganosas postagens que mostram vídeos de manifestações de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL) e dão a entender que os atos ocorreram em 1º de maio de 2022, no Dia do Trabalhador. Um dos vídeos mostra uma manifestação com milhares de pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo, outra em Copacabana, no Rio de Janeiro, e outra na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Os vídeos foram originalmente gravados nos atos convocados pelo presidente Bolsonaro em 7 de setembro de 2021, no Dia da Independência do Brasil.

No dia 1° de maio de 2022 também houve manifestações pró-Bolsonaro, porém, com menos pessoas do que os atos do feriado da Independência, como repercutido pela imprensa.

Enganoso para o Comprova é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações ou que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Em dois posts diferentes no Kwai, o vídeo com imagens do Rio de Janeiro teve 78,9 mil e 130,9 mil visualizações até 4 de maio. No Facebook, uma das postagens com este vídeo tinha 5,5 mil curtidas, 936 comentários e 44 mil visualizações. Outra tinha 10 mil compartilhamentos. Até a mesma data, no Facebook, uma publicação referente ao protesto realizado na Avenida Paulista tinha 1 mil curtidas, 242 comentários e 1,8 mil compartilhamentos e a outra chegou a 7,7 mil curtidas e 3,3 mil compartilhamentos. Juntos, os posts somam mais de 226 mil interações.

O que diz o autor da publicação: O Comprova fez contato, mas não obteve retorno dos autores dos posts até a publicação desta reportagem.

Como verificamos: Para começar, o Comprova procurou pelos vídeos nas redes sociais, o que nos levou até a publicação do assessor especial para Assuntos Internacionais do Presidente da República, Filipe Martins, no Twitter em 7 de setembro, com o vídeo de São Paulo. Para encontrar o vídeo de Brasília, procuramos no Google publicações sobre o caminhão com a bandeira do Brasil, que é visto no centro do vídeo. Por meio da busca, encontramos o perfil do dono do caminhão que tem o mesmo vídeo salvo nos destaques do Instagram. Nas buscas, usamos palavras-chave como “São Paulo”, “manifestação”, “Bolsonaro”, “7 de setembro”, “avenida paulista”, “Brasília”, “Esplanada dos Ministérios”, “caminhão”, “bandeira do Brasil”. O vídeo do Rio de Janeiro, compartilhado no Facebook, tem a logo do perfil do Kwai que postou o vídeo com a data original de 7 de setembro.

 

Vídeos não são do Dia do Trabalhador

As gravações atribuídas ao Dia do Trabalhador podem ser encontradas circulando na internet desde 7 de setembro de 2021, quando o presidente Jair Bolsonaro convocou atos em apoio ao governo pelo país. Só em São Paulo, a Secretaria de Segurança Pública do estado estima que mais de 125 mil pessoas participaram daquele ato. Números extraoficiais da Polícia Militar do Distrito Federal apontaram que havia pelo menos 400 mil pessoas na manifestação de Brasília. O Rio de Janeiro não apresentou estimativa de público.

São Paulo

O vídeo que mostra a Avenida Paulista foi compartilhado no Twitter pelo assessor especial para Assuntos Internacionais do Presidente da República, Filipe Martins, em 7 de setembro do ano passado.

Em um vídeo publicado pelo UOL, também é possível ver que os manifestantes estenderam uma longa faixa verde e amarela, como a que aparece no vídeo enganoso, que também pode ser observada em outras gravações feitas no Dia da Independência. 

| Frame de video publicado pelo UOL mostrando a faixa verde e amarela

| Vídeo enganoso

Brasília

Já no vídeo que mostra a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, uma das pessoas que aparece na filmagem narra que é “7 de setembro, 10h30 da manhã”.

Além disso, no vídeo, é possível ver um caminhão com a bandeira do Brasil que aparece em outras publicações da manifestação de 7 de setembro.

O vídeo em questão pode ser visto no perfil do dono do caminhão que compartilhou a gravação no dia 7 de setembro e deixou salvo por meio da ferramenta ”Destaques’”, no Instagram.

| Captura de tela de publicação no Instagram  

Rio de Janeiro

O vídeo que mostra o Rio de Janeiro foi publicado na rede social Kwai no dia 7 de setembro de 2021, quando houve uma manifestação de apoio ao presidente Bolsonaro na praia de Copacabana. No canto inferior direito do vídeo, compartilhado no Facebook, é possível ver a identificação de um usuário do Kwai, que postou o vídeo com a data da gravação.

O próprio Facebook, no grupo onde o vídeo foi postado como tendo sido feito no dia 1º de maio de 2022, aponta o conteúdo do post como “informação parcialmente falsa”. Ainda assim, a publicação, até o dia 3 de maio, já havia ultrapassado a marca de 5,4 mil curtidas.

Manifestações 1° de maio x 7 de setembro

Tanto no feriado do Dia do Trabalhador de 2022 quanto no da Independência de 2021, foram registradas manifestações favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro (PL) pelo Brasil.

No entanto, como registrado pela mídia, os atos de 1° de maio tiveram menos aderência do que os de 7 de setembro.

Nos atos do Dia da Independência, o presidente Bolsonaro discursou em Brasília e em São Paulo. Durante a fala, o chefe do Executivo atacou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Neste dia 1° de maio, Bolsonaro também participou do ato em Brasília, mas não discursou para os apoiadores, somente fez um post nas redes sociais. “Vim cumprimentar o pessoal que está aqui nessa manifestação pacífica em defesa da Constituição, da democracia e da liberdade”, disse.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Sobre o conteúdo aqui apurado, o Comprova investigou postagens que estão usando imagens de manifestações antigas para desinformar sobre protestos a favor do presidente Jair Bolsonaro no dia 1º de maio deste ano e questionar a credibilidade de pesquisas eleitorais, o que pode comprometer o processo democrático.

Outras checagens sobre o tema: O mesmo conteúdo também foi verificado por outras iniciativas de checagem como o Aos Fatos e a Agência Lupa. Todos chegaram à conclusão de que os vídeos não têm relação com as manifestações do Dia do Trabalhador.

Em verificações anteriores, o Comprova mostrou que vídeo de Neymar com apoio a Aécio em 2014 foi editado para parecer atual e em favor de Bolsonaro; que vídeos de manifestação contra Lula em Passo Fundo são de 2018; que é enganosa postagem afirmando que lançamento da campanha de Bolsonaro reunião multidão em Brasília e que vídeo de Bolsonaro é de inauguração de trecho do VLT na Grande Natal e não de ferrovia que liga o Pará ao Maranhão.

Eleições

Investigado por: 2022-05-03

Antes de ser preso, João de Deus compareceu à posse de Rosa Weber no TSE

  • Comprovado
Comprovado
É verdadeiro que o médium João de Deus tenha comparecido à solenidade de posse da ministra Rosa Weber na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O evento ocorreu meses antes de ele ser preso por crimes sexuais.

Conteúdo investigado: Tuíte mostra uma foto de João de Deus assistindo à posse da ministra Rosa Weber na presidência do Tribunal Superior Eleitoral.

Onde foi publicado: Twitter.

Conclusão do Comprova: É verdadeiro um tuíte que mostra o médium João de Deus assistindo à cerimônia de posse da ministra Rosa Weber na presidência do TSE, em agosto de 2018. A solenidade ocorreu quatro meses antes de surgirem as primeiras denúncias de abuso sexual contra pacientes em Abadiânia, Goiás, onde ele atuava.

Antes de o escândalo ser revelado, João de Deus tinha uma lista de pacientes famosos como as apresentadoras Xuxa Meneghel e Oprah Winfrey, o ex-presidente Lula (PT) e a modelo Naomi Campbell.

Comprovado, para o Comprova, é o fato verdadeiro ou evento confirmado.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 2 de maio, o post tinha 2.637 retweets, 158 comentários e 8.393 curtidas.

Como verificamos: Procuramos a íntegra da solenidade de posse de Rosa Weber no canal do YouTube da Justiça Eleitoral. Também consultamos notícias na imprensa sobre a cerimônia (aqui) e sobre as condenações de João de Deus (aqui, aqui, aqui e aqui).

Por fim, consultamos o TSE para saber o motivo da presença do médium na solenidade, mas não tivemos resposta.

Verificação

A ministra Rosa Weber assumiu a presidência do Tribunal Superior Eleitoral, em 14 de agosto de 2018, para comandar o plenário da Corte no biênio 2018-2020. A solenidade de posse – que contou com a presença de ministros ativos e aposentados do Supremo Tribunal Federal (STF) – foi transmitida pelo canal oficial da Justiça Eleitoral no YouTube e, após mais de três anos, o vídeo ultrapassa a marca de 2.950 visualizações.

Rosa Weber permaneceu no cargo de presidente do TSE por um ano e nove meses. Durante esse período, a ministra comandou as eleições gerais de 2018, incentivou a participação feminina na política, intensificou o combate à desinformação no processo eleitoral, investiu no processamento eletrônico, implantou o julgamento virtual e conduziu as sessões jurisdicionais e administrativas no plenário da Corte.

João de Deus na solenidade de posse em 2018

Na transmissão da solenidade de posse, em agosto de 2018, é possível ver na plateia o médium João Teixeira de Faria, popularmente conhecido como João de Deus. Meses após a solenidade, em 16 de dezembro daquele ano, ele foi preso por crimes de estupro contra centenas de mulheres. As violências sexuais atreladas ao curandeiro eram praticadas durante atendimentos espirituais na Casa Dom Inácio Loyola, em Abadiânia (GO). Os crimes vieram à tona após depoimentos das vítimas no programa Conversa com Bial, da Globo.

João de Deus era um médium de fama internacional. Entre as personalidades que tiveram sessões com ele antes dos escândalos virem à tona estão as apresentadoras Xuxa Meneghel e Oprah Winfrey, o ex-presidente Lula e a modelo Naomi Campbell, mostrou o Correio Braziliense. Entre os ministros do STF, o Estadão apurou que Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Luís Roberto Barroso já teriam se consultado com ele.

Condenações

A primeira condenação do médium por estupro ocorreu logo após a prisão dele completar um ano, em 19 de dezembro de 2019. Na ocasião, João de Deus foi condenado a 19 anos e quatro meses de reclusão, em regime fechado, por quatro estupros praticados contra mulheres.

Em janeiro de 2020, o médium recebeu uma nova condenação, desta vez a 40 anos de reclusão, em regime fechado, por ter estuprado cinco mulheres durante os atendimentos espirituais em Abadiânia. Já em 2021, João de Deus foi condenado a 44 anos de prisão também por estupros de mulheres praticados em Goiás.

A condenação mais recente de João de Deus é de janeiro de 2022. O médium foi condenado a mais quatro anos de prisão por violação sexual mediante fraude. Ainda de acordo com a sentença do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJ-GO), João de Deus terá que indenizar uma mulher em R$ 20 mil por danos morais.

O médium também possui condenação a quatro anos de prisão pelo crime de posse ilegal de arma de fogo. Somadas, as penas ultrapassam 100 anos de prisão.

Por que investigamos: O Comprova checa postagens nas redes sociais sobre a pandemia, eleições e políticas públicas do governo federal. O TSE é a autoridade responsável por organizar as eleições no país. Conteúdos sobre ele podem influenciar o nível de confiança dos eleitores no processo eleitoral.

Outras checagens sobre o tema: Já mostramos que era sátira um vídeo no qual um homem se apresentava como advogado do PT e sugeria uma fraude nas urnas. Também desmentimos que um ex-ministro da Suíça tenha feito piada do contexto político brasileiro.

Eleições

Investigado por: 2022-05-03

É falso que Elon Musk tenha citado as motociatas de Bolsonaro em entrevista na Alemanha

  • Falso
Falso
É falso um vídeo de Elon Musk publicado no TikTok com legendas inventadas que fazem elogios a uma motociata em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL). Na ocasião, o empresário falava sobre o abastecimento de água na região de Gruenheide, na Alemanha, onde ocorre a construção de uma fábrica da Tesla. Em nenhum momento ele fez menção a Bolsonaro ou à política brasileira.

Conteúdo investigado: Uma montagem no TikTok mostra uma entrevista do bilionário Elon Musk com legendas falsas, dando a entender que o empresário teria elogiado as motociatas do presidente Jair Bolsonaro.

Onde foi publicado: TikTok e Twitter

Conclusão do Comprova: É falsa a publicação no TikTok que coloca legendas inventadas em um vídeo do bilionário Elon Musk durante uma coletiva de imprensa sobre a nova fábrica de carros elétricos da Tesla, na Alemanha. O post dá a entender que o empresário estava elogiando as motociatas do presidente Jair Bolsonaro no Brasil.

Na verdade, Musk estava respondendo a questionamentos sobre um possível risco de desabastecimento de água por conta da abertura da fábrica da Tesla. O empresário ri algumas vezes e discorda que a empresa dele causaria tal problema.

Alcance da publicação: Até a publicação desta verificação, o vídeo teve 113 mil visualizações, 8.717 curtidas e 1.013 compartilhamentos.

O que diz o autor da publicação: O Comprova não conseguiu contato com o autor do vídeo.

Como verificamos: Por meio do Google e do YouTube, o Comprova realizou busca de vídeos e fotos similares e acessou conteúdo sobre a entrevista coletiva concedida por Elon Musk em agosto de 2021, período em que visitou as futuras instalações de sua fábrica de carros na Alemanha.

Sites internacionais de notícias como Bloomberg foram visitados para comprovação de notícias envolvendo a Tesla na Alemanha.

Também foi possível verificar a autenticidade das legendas por meio da tradução das falas do empresário com o apoio do tradutor online do Google.

Verificação

Legendas falsas

A tradução dos diálogos do vídeo revela que as legendas são falsas. A análise do mesmo vídeo publicado em diferentes plataformas possibilita entendimento sobre o que de fato Elon Musk dizia naquele momento.

Nas legendas do vídeo que viralizou no TikTok, Musk elogia Bolsonaro e seus “milhões de seguidores nas ruas”. A edição do conteúdo também utiliza trechos do evento Acelera para Cristo, do dia 15 de abril de 2022, quando Bolsonaro desfilou de moto ao lado de apoiadores. A motociata reuniu cerca de 3 mil pessoas, número 44% menor que em um evento anterior, que contou com 6.661 participantes. As motocicletas partiram da cidade de São Paulo rumo ao município de Americana, no interior do estado.

 

Diálogo falso vídeo TikTok

Repórter: Você viu que quase não tem moto na motociata de hj?

Musk: haha.. você tá doida? Tá lotado de motos! Hahaha.

Olhe à sua volta, haha.

Repórter: tem poucas motos e poucos apoiadores.

Musk: Nãnaninanãumm…Vc está completamente errada! Haha

Tá parecendo um deserto pra vc?

Repórter: não tem nada senhor!

Musk: Isto é ridículo! Hahaha

Repórter: Tá abarrotado o evento!

Musk: Sim! Tá lotado de motos!!

 

Diálogo vídeo original

Repórter: críticos dizem que a Tesla esgotará a água da região.

Musk: esta região tem tanta água, olhe à sua volta.

Repórter: a companhia de água local diz que não há mais água suficiente aqui.

Musk: não, isso está completamente errado.

Tem água em todos os lugares aqui.

Isso parece um deserto para você?

Isso é ridículo, chove muito.

 

Contexto do vídeo

O vídeo original de Elon Musk foi feito em 13 de agosto de 2021, na ocasião do encontro entre o CEO da Tesla e Armin Laschet, então candidato a primeiro-ministro da Alemanha pela União Democrata Cristã (CDU). Os dois visitaram as obras que ocorriam na fábrica da empresa, que fica no município de Grünheide, próximo a Berlim. Armin publicou fotos do encontro no Twitter.

Dias antes dessa entrevista de Musk, a Tesla divulgou um relatório anual de impacto, no qual sinalizou preocupações de que a água está se tornando cada vez mais escassa devido às mudanças climáticas.

A empresa alegou que consome menos do recurso por veículo produzido do que a maioria das demais montadoras estabelecidas em instalações dedicadas à fabricação de veículos.

Ambientalistas têm criticado a Tesla e dizem que a fábrica sendo construída na Alemanha aumentará os problemas locais de mudança climática.

Logo após a visita às instalações, na coletiva de imprensa, uma repórter questiona Musk se a fábrica vai prejudicar o abastecimento de água na região. Elon Musk respondeu rindo.

“Esta região tem tanta água, olhe ao seu redor. Não, não, isso está completamente errado. Isso parece um deserto para você? É ridículo. Chove muito”.

Bolsonaro e Elon Musk

Em novembro de 2021, o ministro das Comunicações de Bolsonaro, Fábio Faria, se reuniu com Elon Musk para tratar sobre as parcerias da Starlink e a SpaceX, ambas empresas do bilionário, com o governo brasileiro.

De acordo com a pasta, durante o encontro foram discutidos o “uso da tecnologia para preservação da floresta amazônica, para monitoramento de desmatamentos e incêndios ilegais, além de projetos de conectividade para escolas e unidades de saúde em áreas rurais, comunidades indígenas e locais remotos.”

Nova empresa

Recentemente, Musk adquiriu o Twitter por U$ 44 bilhões, equivalente a R$ 223 bilhões, na cotação de 2 de maio. A aquisição foi comemorada por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em razão da posição do empresário em defender restrições à exclusão de contas em razão do conteúdo publicado”.

Durante live realizada por Jair Bolsonaro, em seu canal próprio, no dia 28 de abril, o presidente comentou sobre a compra do Twitter feita por Elon Musk. Segundo ele, o acontecimento “mudou o humor do brasileiro”. Bolsonaro também comentou sobre o aumento de seguidores que “pessoas de direita” tiveram após a aquisição da rede social.

Logo após o anúncio da compra, diversos perfis bolsonaristas apontaram um aumento no número de seguidores. O presidente ganhou mais de 60 mil seguidores. Em nota ao TecMundo, a rede social informou que o movimento é orgânico.

Por que investigamos: O Comprova checa conteúdos suspeitos que viralizaram a respeito das eleições presidenciais, políticas públicas do governo federal e pandemia de covid-19.

Vídeos de personalidades mundiais também são utilizados para desinformar. Esses conteúdos estrangeiros enganosos ou falsos levam a interpretações erradas de quem não conhece o idioma de outro país.

Dessa forma, o público acaba acreditando que uma pessoa fala algo totalmente diferente do contexto original. Isso induz a avaliações e entendimentos errados sobre assunto específico, possibilitando a viralização de uma mentira.

Outras checagens sobre o tema: Conteúdos de desinformação têm sido disseminados com mais frequência em anos eleitorais. As informações falsas ou imprecisas podem mudar a opinião dos eleitores sobre determinado partido ou político, gerando impactos nos resultados. Recentemente, o Comprova demonstrou que eram enganosas a postagem que cita dados sobre invasões de fazendas no Brasil e a publicação que afirma que, em seu último dia de governo, o ex-presidente Lula concedeu indulto ao italiano Cesare Battisti.

A postagem analisada nesta verificação também foi examinada por outras agências de checagem. A Agência Lupa, a AFP Checamos e o Estadão Verifica consideram a publicação como falsa e ressaltam que as informações foram disseminadas em perfil satírico.

Eleições

Investigado por: 2022-04-28

Post confunde dados e engana sobre conflitos no campo no governo Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa uma postagem que cita dados sobre invasões de fazendas no Brasil com o intuito de desacreditar uma notícia sobre o aumento de conflitos por terra durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Os dois indicadores usam critérios distintos e não podem ser equiparados.
Conteúdo investigado: Postagem que descreve como “fake news” uma notícia que repercute um relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre o aumento de conflitos por terra no Brasil durante o governo Bolsonaro. O autor diz “derrubar” a suposta mentira, citando indicadores favoráveis à atual gestão. Onde foi publicado: Twitter Conclusão do Comprova: É enganoso o post que descreve como “fake news” uma reportagem do site UOL em que são apresentados dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) indicando aumento de conflitos por terra no Brasil no governo de Jair Bolsonaro (PL). O autor do post diz “derrubar” a suposta mentira, citando dados que apontam para uma redução no número de invasões na gestão do atual presidente. Não há indicação de fonte, mas, pesquisando na internet, é possível encontrar a referida série histórica em um artigo publicado no site da revista Veja, em dezembro do ano passado, que utilizou números coletados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Entretanto, os dois conteúdos jornalísticos têm como base indicadores distintos e que não podem ser comparados, embora ambos tratem de questões agrárias. O balanço publicado pela CPT inclui ocorrências relacionadas às temáticas fundiária, indígena, ambiental, de trabalho análogo à escravidão e outras situações. Já no levantamento do Incra, órgão vinculado ao Ministério da Agricultura, são levadas em consideração apenas ocorrências classificadas como invasões coletivas de imóveis rurais. Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano. Alcance da publicação: O Comprova investiga conteúdos suspeitos com alto grau de viralização nas redes sociais. O perfil que publicou o post aqui verificado se identifica com o viés de direita na política e tem quase 268 mil seguidores. Até o dia 28 de abril, a publicação recebeu mais de 500 interações. O que diz o autor da publicação: O autor da publicação foi procurado por mensagem direta no Twitter, mas, após o contato, bloqueou a reportagem, impedindo qualquer interação, e não respondeu os questionamentos. Como verificamos: A equipe do Comprova entrou em contato com o Incra, autarquia federal que levanta dados sobre a ocupação de terras no país. A reportagem também procurou a CPT, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) — a maior representação da Igreja Católica no país — para se informar sobre os dados atribuídos à comissão. O Comprova ainda buscou o autor da postagem, mas não obteve retorno.

Comissão diz que dados não podem ser comparados

A Comissão Pastoral da Terra confirmou, ao Comprova, a veracidade dos dados publicados no portal UOL, mas fez a ressalva de que a reportagem considerou como conflitos por terra os números de ocorrências de violência contra as famílias, sem incluir acampamentos, ocupações e retomada de territórios. Nesse recorte do UOL com base na tabela divulgada pela entidade (abaixo), o governo Bolsonaro soma, entre 2019 e 2021, 4.078 situações do tipo. No balanço geral, considerando a ressalva feita pela CPT, os conflitos por terra sobem para 5.725 no mesmo período. Ainda de acordo com o relatório divulgado pela CPT em abril, os números de conflitos por terra vêm subindo nos últimos anos. O levantamento inclui ocupações, retomadas e acampamentos, questões trabalhistas (escravo rural, superexploração) e disputa por água registrados no campo, alguns dos quais resultaram em assassinatos. No governo Dilma Rousseff, a média anual foi de 1.349 conflitos; no governo Michel Temer, 1.526; na gestão Jair Bolsonaro, ainda incompleta, 1.908. Segundo a comissão, esse aumento observado a partir de 2019 pode ter uma série de explicações, como “o desmonte dos órgãos de fiscalização do trabalho, do desmatamento, da mineração ilegal, do meio ambiente, das atividades predatórias da natureza.”
A Comissão explica que os termos usados para definir as ações no campo também podem ter diferentes interpretações. Enquanto há movimentos que consideram as ocupações de camponeses como invasão, a CPT utiliza o termo para classificar ações de grupos ou indivíduos (grileiros, fazendeiros, mineradoras, madeireiras) contra territórios tradicionalmente ocupados. Pela metodologia da CPT, assim são definidas as ocupações e demais conflitos: Conflitos por terra: ações de resistência e enfrentamento pela posse, uso e propriedade da terra e pelo acesso aos recursos naturais, tais como: seringais, babaçuais ou castanhais, dentre outros (que garantam o direito ao extrativismo), quando envolvem posseiros, assentados, quilombolas, geraizeiros, indígenas, pequenos arrendatários, camponeses, sem-terra, seringueiros. As ocupações/retomadas e os acampamentos também são classificados no âmbito dos conflitos por terra. Ocupações e/ou retomadas: são ações coletivas das famílias sem-terra, que por meio da entrada em imóveis rurais, reivindicam terras que não cumprem a função social, ou ações coletivas de indígenas e quilombolas que reconquistam seus territórios, diante da demora do Estado no processo de demarcação das áreas que lhe são asseguradas por direito. Acampamentos: são espaços de luta e formação, fruto de ações coletivas, localizados no campo ou na cidade, onde as famílias sem-terra organizadas reivindicam assentamentos. Além disso, os povos indígenas e comunidades tradicionais também formam acampamentos na luta pela retomada de seus territórios. Na pesquisa da CPT, registra-se somente o ato de acampar. Não se faz o acompanhamento do número de famílias acampadas no país. Conflitos Trabalhistas: compreendem os casos em que a relação trabalho-capital indicam a existência de trabalho escravo e superexploração. As greves também integram o conjunto dos conflitos trabalhistas. Na compreensão do que é trabalho escravo, a CPT segue o definido pelo artigo 149, do Código Penal Brasileiro, atualizado pela Lei nº 10.803, de 11.12.2003, que o caracteriza por submeter alguém a trabalhos forçados ou à jornada exaustiva; ou por sujeitá-lo a condições degradantes de trabalho; ou quando se restringe, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto; ou quando se cerceia o uso de qualquer meio de transporte por parte do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho; ou quando se mantém vigilância ostensiva no local de trabalho ou se apodera de documentos ou objetos pessoais do trabalhador, com o fim de retê-lo no local de trabalho. As situações de superexploração acontecem na esfera salarial e dizem respeito às ocorrências em que as horas de trabalho não pagas excedem a taxa normal de exploração do trabalho. Geralmente, estes casos estão ligados a precárias condições de trabalho e moradia. Conflitos pela Água: são ações de resistência, em geral coletivas, que visam garantir o uso e a preservação das águas; contra a apropriação privada dos recursos hídricos; contra a cobrança do uso da água no campo; e de luta contra a construção de barragens e açudes. Este último envolve os atingidos por barragem, que lutam pelo seu território, do qual são expropriados. Envolve ainda a luta dos povos e comunidades frente à mineração. Os dados com os quais a CPT trabalha não são os dados do Incra, mas aqueles obtidos por outros documentos e por pessoas que acompanham as comunidades. “Assim, não é possível fazer uma comparação entre os dados das duas matérias, já que as fontes são diferentes”, prossegue a entidade. A Comissão confirma que registrou uma diminuição no número de ocupações e acampamentos, sempre ressaltando que a base de dados é diferente da apresentada pelo Incra, mas acrescenta que a redução seria reflexo do medo da violência e também da crise sanitária. “Analisamos que essa diminuição se dá muito em vista do primeiro ano do governo Bolsonaro ter vindo com muita promessa de violência contra os povos do campo, e nos dois anos subsequentes o contexto da pandemia fez com que as ocupações diminuíssem também”, sustenta a entidade. Questionada se os dados da CPT foram compartilhados com órgãos governamentais, como o Incra, a Comissão afirma que a atual gestão não mantém as audiências que antes eram realizadas para apresentação dos indicadores. “Porém, os dados e tabelas são públicos, estão no nosso site, toda a divulgação chega até os órgãos e sempre estamos abertos em enviar e oferecer os dados e pesquisas, caso sejam solicitados, tanto pelos órgãos do governo quanto outras entidades.” O trabalho desenvolvido pela CPT tem mais de 40 anos. A comissão surgiu em 1975 devido às condições vividas pelos trabalhadores rurais no período. Originalmente, é ligada à Igreja Católica, mas hoje considera-se de caráter ecumênico, tanto por atender pessoas de diversas religiões quanto pelo apoio de outras igrejas cristãs.

O que diz o Incra

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária é uma autarquia federal ligada ao Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento que tem por objetivo coordenar o acesso à terra no país. Segundo o órgão, os dados divulgados anualmente pela CPT não são usados de forma oficial pelo Incra. O Incra considera os dados da Ouvidoria Agrária Nacional do extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário (1995 a 2016), da Ouvidoria Agrária (2017 a 2019) e da Câmara de Conciliação Agrária (2020 a 2022). “Referem-se a situações informadas às citadas unidades, não sendo descartada a possibilidade de haver casos não comunicados”, esclarece o órgão. No levantamento enviado ao Comprova (abaixo), o Incra contabiliza 28 invasões de terra entre 2019 e 2021, mais 12 em 2022, totalizando 40 sob a gestão de Jair Bolsonaro. Isso significa que o ponto levantado pelo tuíte investigado se sustenta – é o menor número de invasões de terra desde 1995 – mas isso não serve para desmentir a reportagem em questão. Ao Comprova, o Incra esclareceu que atua em disputas, tensões e conflitos fundiários que envolvam terras públicas do instituto ou da União, mas não em situações de terras indígenas, unidades de conservação e áreas públicas estadual, distrital e municipal, como faz a Comissão Pastoral da Terra. A comparação feita pelo tuíte investigado, portanto, não é cabível.
De 2019 a março de 2022, o Incra emitiu mais de 337 mil documentos de titulação em assentamentos da reforma agrária e áreas públicas na sua atribuição. Para o instituto, “a regularização dessas áreas é importante para evitar conflitos fundiários”. O trabalho envolve a mediação junto a representantes de diferentes órgãos públicos, do Ministério Público e do Judiciário. Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A postagem faz referência a Jair Bolsonaro, provável candidato à reeleição, e a desinformação sobre o político e sua gestão pode influenciar eleitores de maneira equivocada. Em um processo democrático, a população deve fazer sua escolha baseada em fatos, não em conteúdos enganosos. Outras checagens sobre o tema: Em ano eleitoral, conteúdos de desinformação têm sido disseminados com mais frequência. Recentemente, o Comprova demonstrou que eram falsos vídeos em que pessoas gritavam contra Lula na Sapucaí e indicou que era enganoso post ironizando Sergio Moro sobre livro de sua infância e que vídeo de Neymar apoiando Aécio Neves foi editado para parecer atual e de apoio a Bolsonaro.

Eleições

Investigado por: 2022-04-27

Lula não deu indulto a Cesare Battisti, ao contrário do que afirma tuíte

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso um post publicado no Twitter e TikTok que afirma que, em seu último dia de governo, o ex-presidente Lula concedeu indulto ao italiano Cesare Battisti, assim como fez o presidente Jair Bolsonaro com o deputado Daniel Silveira. Lula não concedeu perdão, mas negou a extradição de Battisti à Itália, onde era condenado à prisão perpétua. Em ambos os casos, a oposição criticou os benefícios por afinidade política.

Conteúdo investigado: Um post diz que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria concedido indulto a Cesare Battisti, em 2010. A postagem ainda alega que a “graça” é a mesma concedida pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) ao deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ), em abril deste ano.

Onde foi publicado: Twitter e TikTok.

Conclusão do Comprova: Postagens enganam ao afirmar que o ex-presidente Lula teria concedido indulto a Cesare Battisti, condenado na Itália pelo assassinato de quatro pessoas. O petista, na verdade, negou a extradição solicitada pelo país europeu. A postagem equipara ao ato de perdão da pena do presidente Jair Bolsonaro no caso do deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), mas as situações são distintas.

O indulto é a extinção da pena de um condenado. O que Lula fez foi negar uma extradição, ou seja, o envio de uma pessoa para cumprir uma pena em outro país. No Brasil, ambos são prerrogativas do presidente da República.

“Está havendo uma confusão”, diz Danilo Berger, mestre em Ciências Criminais, sobre a postagem. Quando se diz que os dois casos são a mesma coisa, não quer dizer que os dois sejam classificados como indulto, mas sim que ambos mostram “favorecimento de uma pessoa por questões políticas”.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor, e que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. No TikTok, o vídeo foi visualizado 14,9 mil vezes. Já no Twitter, a postagem de maior repercussão teve 7,1 mil interações até a publicação desta verificação.

O que diz o autor da publicação: Os perfis que fizeram as postagens no Twitter e no TikTok não permitem o envio de mensagem direta e não informam outro ponto de contato.

Como verificamos: Consultamos o decreto presidencial do presidente Jair Bolsonaro com o indulto a Daniel Silveira no Diário Oficial da União de 21 de abril de 2022. Também solicitamos à Advocacia-Geral da União (AGU) o parecer AGU/AG-17/2010, sobre o processo de extradição de Cesare Battisti.

Para confirmar as informações oficiais do andamento do julgamento, foram acessados os processos no site do Supremo Tribunal Federal (aqui e aqui). Para este fim, também foram consultadas reportagens na mídia profissional (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Por fim, três especialistas em Direito foram entrevistados para dar um parecer sobre a comparação entre indulto e recusa de extradição. Foram ouvidos Daniel Gerber, advogado criminalista especialista em Direito Penal Econômico e mestre em Ciências Criminais; Leonardo Magalhães Avelar, advogado criminalista; e Diego Henrique, advogado criminalista.

 

Indulto x recusa de extradição

Especialistas ouvidos pelo Comprova afirmam que o indulto e a recusa de uma extradição são situações distintas e não podem ser confundidas.

A extradição ocorre quando um país entrega uma pessoa à Justiça de outro país no qual ela foi condenada por um delito. Por exemplo, o Ministério Público da Itália recentemente pediu ao Ministério da Justiça que solicitasse ao governo brasileiro a extradição do jogador de futebol Robinho. O ex-atacante do Santos foi condenado em última instância no país europeu por violência sexual em grupo contra uma mulher de origem albanesa. O pedido não deve ser atendido porque a legislação não permite a extradição de brasileiros. A defesa do ex-jogador afirma que a relação sexual foi consensual.

Já o indulto é o perdão e a extinção de uma pena, explica o advogado criminalista Leonardo Magalhães Avelar. Segundo ele, a negativa de extradição está relacionada à soberania nacional e é “absolutamente distinta”, do ponto de vista jurídico, da concessão de indulto. Avelar ainda lembra que a recusa de extradição pode ser revista quando há uma mudança de governo, como aconteceu no caso de Battisti (saiba mais abaixo), o que não ocorre com indulto. “Em razão da não retroatividade de decisão que seja mais gravosa à pessoa acusada, dificilmente a concessão do indulto poderia ser revista por um novo presidente da República.”

Daniel Gerber, especialista em Direito Penal, concorda que as duas medidas não são equiparáveis. Ele diz que há uma confusão em torno do caso porque tanto na situação envolvendo Daniel Silveira quanto na de Cesare Battisti, houve favorecimento por identificação ideológica. “Se (a oposição) reclamar sob o argumento de afinidade política, receberá de volta a acusação de que o ex-presidente Lula fez a mesma coisa com Battisti. Não é a mesma coisa (que) indulto, é a mesma coisa (no sentido de) favorecimento de uma pessoa por questões políticas.”

O advogado criminalista Diego Henrique concorda que o indulto e o ato de negar uma extradição são “institutos absolutamente distintos e em nenhuma medida equivalentes”, embora ambos estejam sujeitos à discricionariedade do presidente da República. Ele diz, ainda, que, enquanto o indulto extingue a punibilidade da pessoa, o mesmo não ocorre quando o presidente nega a extradição. “Igualmente, não tem o condão de impedir o desencadeamento do processo-crime que corre em outro país em face do extraditando, tampouco de extinguir sua punibilidade.”

O caso de Cesare Battisti

Cesare Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália pelo assassinato de quatro pessoas na década de 1970. As mortes foram atribuídas ao grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), do qual ele fazia parte. Para fugir da prisão, Battisti primeiro se refugiou na França e, depois, no Brasil.

No Brasil, foi preso no Rio de Janeiro, em 2007, por falsificação de passaporte. Foi levado para Brasília enquanto aguardava uma decisão sobre sua extradição. Em 2009, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, acatou o argumento de que Battisti sofreria perseguição política e lhe concedeu o status de refugiado.

Em novembro de 2009, o STF considerou ser ilegal o status de refugiado, o que abriu a possibilidade da extradição. No entanto, no mesmo julgamento, os ministros entenderam que cabia apenas a Lula decidir pela extradição.

Em seu último dia de mandato, no ano de 2010, o ex-presidente Lula decidiu rejeitar a extradição de Cesare Battisti para a Itália, baseando-se em um parecer da Advocacia-Geral da União que alegava que o preso poderia sofrer “perseguição política” em sua terra natal. A decisão gerou protestos do país europeu. A oposição no Congresso brasileiro criticou as decisões a favor de Battisti.

Battisti viveu no Brasil até 2017, quando foi preso pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) tentando entrar ilegalmente na Bolívia. O presidente Michel Temer assinou sua extradição para a Itália em 2018. Ele atualmente cumpre a pena no país europeu.

O caso de Daniel Silveira

Ex-policial militar, Daniel Silveira foi eleito em 2018 para seu primeiro mandato como deputado federal pelo Rio de Janeiro, com 31 mil votos. Ele disputou as eleições pelo Partido Social Liberal (PSL), mesmo partido ao qual Jair Bolsonaro estava filiado na época.

Daniel Silveira ganhou notoriedade no período eleitoral de 2018 quando, em uma manifestação no Rio de Janeiro, quebrou uma placa de homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada a tiros em março daquele ano. O crime completou quatro anos sem a descoberta de seus mandantes.

O deputado passou a ser investigado em 2020 nos inquéritos que apuram ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e a disseminação de fake news. Em fevereiro de 2021, o aliado de Bolsonaro publicou um vídeo nas redes sociais, com pautas inconstitucionais, no qual defendeu o Ato Institucional número 5 (AI-5), instrumento de repressão mais duro aplicado durante o regime militar (1964-1985), e a destituição de ministros do STF. Daniel Silveira foi preso em flagrante por determinação do ministro Alexandre de Moraes.

Em 20 de abril de 2022, o deputado – filiado atualmente ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) – foi condenado pelo STF a oito anos e nove meses de prisão, em regime fechado, por estímulo a atos antidemocráticos e ataques às instituições.

Um dia após a condenação do deputado federal pelo STF, o presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto de indulto a Daniel Silveira. Em uma live, Bolsonaro anunciou a concessão de perdão da pena imposta ao parlamentar.

Em seu discurso, Bolsonaro usou o artigo 734 do Código de Processo Penal (CPP), segundo o qual o presidente da República pode conceder “espontaneamente” a graça presidencial, uma forma de indulto (perdão) individual. Ao menos quatro partidos de oposição já entraram com ações no STF para questionar a constitucionalidade do benefício .

Por que investigamos: O Comprova checa conteúdos sobre a pandemia, as eleições e políticas públicas do governo federal. O conteúdo analisado envolve decisões tomadas por Bolsonaro e Lula, atualmente apontados pelas pesquisas eleitorais como os dois candidatos principais ao Planalto. Os eleitores precisam ter acesso a informações apuradas corretamente para tomar sua decisão nas urnas.

Outras checagens sobre o tema: Já explicamos que um homem que viralizou nas redes sociais sugerindo fraude eleitoral não é advogado do PT, partido de Lula, mas sim um comediante. Também já mostramos que Bolsonaro não se beneficiou de fraude eleitoral em 1994.

Eleições

Investigado por: 2022-04-26

Pessoas gritavam a favor de Lula, e não contra ele em vídeo na Sapucaí

  • Falso
Falso
É falso vídeo que mostra pessoas gritando “Globo lixo” e “Lula ladrão” na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro; áudio foi inserido sobre imagens feitas durante ensaio técnico, em 27 de março, e esconde que os gritos, na verdade, eram de apoio ao ex-presidente.

Conteúdo investigado: Vídeo na Marquês de Sapucaí que mostra pessoas nas arquibancadas gritando “Globo lixo” e “Lula ladrão”.

Onde foi publicado: Helo, Facebook, Twitter e TikTok.

Conclusão do Comprova: São falsos os vídeos que circulam nas redes sociais e que, supostamente, mostram pessoas gritando “Globo lixo” e “Lula ladrão” durante os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro na Marquês de Sapucaí entre os dias 22 e 23 de abril de 2022. O vídeo original utilizado nos posts foi feito em 27 de março, durante um ensaio técnico, e mostra, na verdade, pessoas cantando um jingle em apoio ao ex-presidente Lula, que é pré-candidato à Presidência da República pelo PT. Os áudios com os ataques à Rede Globo e ao ex-presidente foram inseridos digitalmente sobre as imagens originais.

Além do Facebook e Twitter, o vídeo com o áudio adulterado também foi parar no TikTok e no app Helo. A maior parte do material editado utiliza um vídeo postado no dia 30 de março por um usuário do Helo identificado como Matheus Winicius. É possível identificar o vídeo dele pela ID do usuário disponível em seu perfil e que também fica visível no arquivo salvo no celular quando o vídeo é baixado direto da plataforma. No vídeo postado em sua conta, Matheus Winicius escreveu: “É Lula Lá no ensaio técnico da Sapucaí”.

O vídeo de Winicius não contém texto ou outros elementos inseridos diretamente na imagem, como os que viralizaram. Outro indício de que as pessoas realmente cantavam o jingle lulista, e não palavras contra ele e contra a Globo, está no fato de haver mais vídeos do mesmo dia, feitos em pontos diferentes, que também mostram as pessoas entoando o jingle de apoio ao ex-presidente. Os metadados de pelo menos um dos vídeos mostram que as imagens foram feitas às 22h08 de 27 de março de 2022.

Durante os desfiles, nos dias 23 e 24 de abril, o público também gritou palavras em apoio a Lula e contra Bolsonaro nas arquibancadas, enquanto o ex-presidente foi xingado nos camarotes.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. No Facebook e no TikTok, até o dia 26 de abril, posts semelhantes acumulam pelo menos 22 mil interações.

O que diz o autor da publicação: O Comprova solicitou esclarecimentos aos responsáveis pelas publicações do conteúdo no Facebook e no Helo, mas não obteve resposta até o fechamento desta checagem.

Como verificamos: O primeiro passo foi identificar o vídeo que deu origem aos posts verificados. Em todos eles aparece, em determinado momento, a logomarca da rede social Helo e um número de ID: 887877477. Esse número levou a um usuário da rede chamado Matheus Winicius, que postou o vídeo no dia 30 de março de 2022 com a legenda “É Lula Lá no ensaio técnico da Sapucaí #FluEliminadoLibertadores”.

O áudio original mostra pessoas cantando um jingle petista: “Ole ole olá, Lula, Lula”. É possível baixar o vídeo direto para o celular e o arquivo baixado passa a exibir, assim como os vídeos aqui verificados, a logomarca do Helo e a ID de Matheus Winicius.

Em seguida, através de uma busca reversa de imagens, foi possível identificar outros vídeos em redes sociais com imagens do mesmo momento, de ângulos diferentes. Postadas entre os dias 27 e 28 de março de 2022, elas mostram os mesmos elementos que aparecem nos vídeos verificados, mas com o áudio semelhante ao do vídeo postado no Helo: gritos de apoio ao ex-presidente Lula.

O Comprova, então, passou a buscar em redes como o TikTok, o Facebook e o Twitter pelas palavras “sapucaí e lula”. Os resultados mostraram mais vídeos do mesmo momento, feitos de pontos diferentes da mesma arquibancada, todos eles com o áudio sinalizado como “original” e em apoio ao petista.

Já uma busca pelas palavras “sapucaí e globo lixo” ou “sapucaí e lula ladrão” retornou vídeos iguais aos verificados, com a marca e a ID do usuário do Helo, o que indica que todos eles tiveram a mesma origem. Apesar de as imagens serem iguais, o áudio é diferente e mostra gritos de “Globo lixo” e “Lula ladrão”. Uma evidência de que eles foram adulterados e inseridos posteriormente é a falta de continuidade, uma vez que é clara a transição artificial entre o suposto protesto contra a Globo e os xingamentos contra o ex-presidente Lula.

Por fim, o Comprova entrou em contato com os usuários que postaram os vídeos de ângulos diferentes nas redes sociais e solicitou que eles enviassem os metadados dos arquivos – apenas a equipe do Mais Carnaval, onde trabalha o jornalista Rangel Andrade, respondeu. Também foram consultadas outras checagens e procurados os responsáveis pelos posts com o áudio adulterado, mas não houve resposta.

Verificação

Ensaio técnico

Os posts aqui verificados foram feitos entre os dias 23 e 24 de abril de 2022, sugerindo que as imagens foram gravadas durante os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, que aconteceram na Marquês de Sapucaí nos dias 22 e 23 deste mês. As imagens originais, no entanto, são de quase um mês atrás, dia 27 de março de 2022, quando aconteceu um dos ensaios técnicos para os desfiles, também na Sapucaí.

É o que mostram vídeos postados nas redes sociais na noite do dia 27, madrugada de 28 e até poucos dias após o ensaio. Além disso, os gritos entoados em apoio ao ex-presidente Lula foram noticiados aqui, aqui e aqui.

O ensaio do dia 27 foi o antepenúltimo antes do desfile oficial. No dia 27 de março, o ensaio contou com a presença das escolas Unidos da Tijuca, Salgueiro e Beija-Flor – é possível ver uma faixa da Torcida Soberanos Beija Flor na arquibancada que aparece em todos os vídeos feitos no local.

| Captura de tela extraída pelo Comprova do vídeo original postado por Matheus Winicius no Helo

Outros vídeos

A ID de um usuário da rede social Helo aparece nos vídeos que tiveram o áudio adulterado, o que indica que todos eles tiveram a mesma origem. No entanto, há mais vídeos publicados nas redes, feitos de ângulos diferentes, que mostram gritos de apoio ao ex-presidente Lula, e não xingamentos contra ele e a Rede Globo. Um desses vídeos foi publicado no Twitter ainda na noite de 27 de março, às 22h08, pelo jornalista Rangel Andrade, do site Mais Carnaval. Diferente dos vídeos verificados, ele foi feito na horizontal, mas aparecem nas imagens os mesmos elementos do vídeo do Helo, usado nos posts falsos.

| Captura de tela do vídeo publicado no Facebook por Fernando Can (minuto: 0:08)

| Print do vídeo publicado no Twitter por Rangel Andrade

O Comprova entrou em contato com a equipe do site, que enviou o arquivo original e destacou que os vídeos com os gritos de “Globo lixo” e “Lula ladrão” foram editados: “Esse vídeo do Facebook não procede, é uma montagem. O vídeo publicado pelo nosso jornalista, Rangel Andrade, foi feito por nós do Mais Carnaval, no dia 27 de março, durante o ensaio técnico da Beija-Flor”.

Com o vídeo original em mãos, o Comprova o submeteu à plataforma InVid, onde foi possível extrair os metadados que indicam o dia e a hora em que foram feitas as imagens.

Também no Twitter foi encontrado um vídeo postado às 2h50 de 28 de março pela usuária @thata_macedo. As imagens foram feitas do alto da arquibancada, e não no chão, e também mostram as pessoas gritando o jingle do ex-presidente Lula. É possível ver, mesmo que de longe, uma pessoa vestindo amarelo caminhando no meio da Sapucaí, a faixa da torcida da Beija Flor e um grupo de pessoas com camisas laranja de pé na lateral da avenida.

| Print do vídeo publicado no Twitter por Tata Macedo (minuto 0:07)

No Facebook, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) postou um vídeo de 20 segundos às 9h56 de 28 de março com a legenda “⭐ Ontem, na Sapucaí, no Rio, Lula sendo ovacionado durante os ensaios técnicos”. Também é possível identificar todos os elementos na imagem.

| Print de vídeo publicado pela CUT no Facebook (minuto 0:08)

Foram localizados, ainda, dois vídeos no TikTok, do mesmo momento, mas de ângulos diferentes, em que as pessoas se manifestam em apoio a Lula, e não contra ele ou a Globo. O post da usuária Marli Pero foi feito no dia 28 de março e na legenda ela informou que as imagens eram de “8 horas atrás”. Assim como o vídeo de Tata Macedo no Twitter, as imagens de Marli foram feitas do alto da arquibancada, mas desta vez um pouco mais perto da faixa da torcida da Beija-Flor.

| Print de vídeo publicado por Marli Pero no TikTok (minuto 0:02)

Por fim, foi encontrado um vídeo postado em 28 de março pelo usuário Euclides Netto. As imagens foram gravadas do chão e, logo nos primeiros segundos, é possível ver a pessoa que aparece nos outros vídeos andando pelo meio do sambódromo usando uma camiseta amarela. Além de o áudio mostrar gritos em apoio a Lula, é possível fazer a leitura labial de dois homens que aparecem nas imagens a partir do segundo 0:04 – um rapaz de camisa azul com o braço esquerdo erguido e outro, ao lado dele, usando um boné com a aba para trás. Fica claro pelas imagens como eles cantam “Ole ole olá, Lula, Lula”.

| Print do vídeo publicado no TikTok por Euclides Netto (minuto 0:02)

Protestos durante o Carnaval

O Carnaval de 2022 foi marcado por manifestações políticas nas avenidas tanto do Rio de Janeiro quanto de São Paulo. No primeiro dia de desfiles na Marquês de Sapucaí, o público nas arquibancadas protestou contra o presidente Jair Bolsonaro e entoou gritos favoráveis a Lula, enquanto as pessoas no camarote foram contra o petista.

As manifestações foram noticiadas pelo UOL Notícias, Poder360, O Povo. No entanto, não foram encontrados registros de que o público tenha feito críticas à Rede Globo em nenhuma das reportagens.

Neste ano, diversos sambas-enredo se posicionaram contra o racismo, a homofobia, a intolerância religiosa e a desigualdade social, e fizeram críticas ao governo de Jair Bolsonaro.

No Rio de Janeiro, a Unidos da Tijuca utilizou um dos carros alegóricos para criticar o Projeto de Lei 191, do governo federal, que visa liberar a mineração em terras indígenas. No desfile, indígenas seguravam cartazes com palavras contrárias à proposta.

Em São Paulo, a escola Rosas de Ouro transformou um personagem que representava Bolsonaro em um jacaré após receber a vacina contra a covid-19, em referência a uma fala do presidente contra a imunização. A Gaviões da Fiel se manifestou contra o fascismo e o racismo trazendo um casal com faixa presidencial na ala de militares, representando o “presidente fascista”.

Por que investigamos: O Comprova tem o escopo de investigar conteúdos suspeitos que viralizaram a respeito da pandemia de covid-19, eleições presidenciais e políticas públicas do governo federal. Publicações que usam de informações enganosas para favorecer ou prejudicar pré-candidatos à presidência podem afetar diretamente a escolha do eleitor. O debate sobre projetos e propostas dos pré-candidatos deve ser feito com base em informações confiáveis e, não, em desinformação.

Outras checagens sobre o tema: O mesmo conteúdo também foi verificado por outras agências de checagem como a Lupa, Aos Fatos, AFP Checamos, além do site Boatos.org. Todos chegaram à conclusão de que o áudio do vídeo foi adulterado.

Em verificações anteriores que tratam sobre manifestações políticas envolvendo pré-candidatos à presidência, o Comprova mostrou que é falso o vídeo de protesto contra Lula em show de Marina Sena, que vídeo de Neymar com apoio a Aécio em 2014 foi editado para parecer atual e em favor de Bolsonaro e que vídeo de ex-ministro da Suíça é de 2010 e não tem relação com o contexto político brasileiro.

 

 

Eleições

Investigado por: 2022-04-25

Dendeleão, livro da infância de Moro, estava disponível no Brasil desde a década de 70

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a publicação que diz que o livro “Dendeleão”, que marcou a infância de Sergio Moro, é de 1995. A primeira edição da obra foi lançada no Brasil na década de 1970, mesmo período em que o ex-juiz nasceu.

Conteúdo investigado: Tuíte cita publicação de Sergio Moro em homenagem ao Dia do Livro Infantil na qual o ex-juiz afirma que o livro “Dendeleão” marcou sua infância e o ajudou na alfabetização. O post do Twitter diz que a primeira edição em português da obra foi lançada em 1995, quando Moro tinha 23 anos.

Onde foi publicado: Twitter

Conclusão do Comprova: É enganosa a publicação que afirma que a primeira edição em português do livro “Dendeleão” é de 1995. O post usa a informação para rebater a fala do ex-juiz Sergio Moro de que a obra marcou sua infância. Na data referida, Moro tinha 23 anos.

Na realidade, em 1995 ocorria o lançamento da 5ª edição da obra no Brasil, publicada pela editora Ediouro. O livro, voltado para o público infantojuvenil, foi escrito por Don Freeman e lançado nos Estados Unidos em 1964. Uma reportagem do Jornal do Brasil, de 1971, já citava a obra como parte da coleção “Pingos de Ouro”, publicada no Brasil pela editora Edições de Ouro — antiga Ediouro.

Em resposta ao Comprova, a editora afirmou que comprou os direitos da obra e fez sua tradução na década de 1970, o que leva a crer que o livro foi lançado nessa época, embora não tenha sido possível encontrar registros para determinar a data exata. Já sobre a versão de 1995, a empresa informou que contratou “ilustrações para uma nova edição e a obra voltou a circular nesse momento.”

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Em 25 de abril, a publicação alcançou cerca de 19 mil interações no Twitter.

O que diz o autor da publicação: O perfil do Twitter não permite o envio de mensagens, portanto, não foi possível entrar em contato com o autor.

Como verificamos: O Comprova fez consultas a partir da palavra-chave “Dendeleão” no acervo digital da Biblioteca Nacional (1 e 2), na Agência Brasileira de ISBN e no site da editora Ediouro. A equipe ainda procurou informações sobre o número de identificação da obra (ISBN) no site da Amazon.

Também foram buscadas informações gerais sobre o livro — como o autor, data de lançamento — e sobre o ex-juiz Sergio Moro. Por fim, o Comprova solicitou esclarecimentos à editora e procurou por outras verificações sobre o assunto.

 

Dendeleão não é de 1995

O livro Dendeleão foi escrito pelo norte-americano Don Freeman e lançado nos Estados Unidos em 1964. A versão em português foi traduzida por Stella Leonardos, poetisa nascida em 1923, no Rio de Janeiro, que atuou como tradutora entre 1942 e 1971.

Em uma busca na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, o Comprova encontrou uma edição do Jornal do Brasil, datada em 18 de dezembro de 1971, que falava sobre o lançamento da coleção infantil “Pingos de Ouro”, da editora Edições de Ouro — antiga Ediouro. Entre as obras, a reportagem cita Dendeleão como parte do catálogo da editora naquele ano.

Outra consulta no acervo da Biblioteca Nacional retornou quatro resultados, nos quais uma edição não consta data e o restante se refere às versões de 1995, 1997 e 2000, as últimas têm a mesma capa.

Referências à obra traduzida ao português por Stella Leonardos, no entanto, já podiam ser encontradas desde a década de 1970, como mostrou o site Boatos.org. Na página 473 do livro “Resumo Bibliográfico da Biblioteca Nacional” consta a edição de 1974 de “Dendeleão”, da Ediouro, antiga editora Edições de Ouro.

Além disso, como mostra uma publicação no Twitter, um trecho do livro “Dicionário crítico da literatura infantil/juvenil brasileira 1882-1982”, de Nelly Novaes Coelho, conta que, durante os anos 1970, Stella Leonardos traduziu uma série de obras para crianças em processo de alfabetização, incluindo “Dendeleão”.

Procurada, a editora Ediouro informou que de fato foi contratada uma versão da obra na década de 1970, mas não soube precisar a data. Em relação à edição de 1995, trata-se de uma publicação repaginada com novas ilustrações.

A editora também não soube informar quantas edições e os respectivos anos de lançamento. “Como esse título é bem antigo, o registro mais confiável seria o do nosso arquivo, que atualmente está em processo de mudança de endereço e levantamento de inventário”, informou.

Resposta de Moro

Após a viralização do tuíte, Sergio Moro se manifestou novamente em rede social. “Sobre o livro infantil Dendeleão: Tinha fixação por leões. Pedia a minha mãe que lesse o livro a toda hora. Um dia me disse: aprenda a ler se gosta tanto. Daí aprendi. Matéria abaixo confirma que ele já estava disponível na década de 70. Chega de fake news.” A publicação tem o link para uma verificação feita pelo Boatos.org.

O ex-juiz nasceu em 1º de agosto de 1972. Conforme as informações levantadas pelo Comprova sobre a data provável da primeira publicação, em 1971, o livro estava disponível no Brasil quando Moro era criança.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre as eleições de 2022, as políticas públicas do governo federal e a pandemia que tenham viralizado nas redes sociais. Conteúdos que contêm informações enganosas sobre possíveis presidenciáveis, como no caso de Sergio Moro, podem influenciar no processo de escolha dos candidatos. Esse tipo de prática é prejudicial à democracia e polui o debate em torno das eleições.

Outras checagens sobre o tema: O site Boatos.org, a agência Lupa e o Monitor7 também checaram o conteúdo e chegaram à mesma conclusão do Comprova de que a obra não foi lançada em 1995. Em verificações anteriores sobre as eleições, o Comprova mostrou que vídeo de Neymar com apoio a Aécio em 2014 foi editado para parecer atual e em favor de Bolsonaro, que foto de Bolsonaro ao lado de André Mendonça é de 2019, anterior à nomeação como ministro do STF e que vídeos de manifestação contra Lula em Passo Fundo são de 2018.

Eleições

Investigado por: 2022-04-22

‘Advogado do PT’ em vídeo do Kwai é personagem de humor

  • Sátira
Sátira
O Comprova classificou como sátira um vídeo apontado como uma gravação vazada do “líder dos advogados do PT, Dr. Avacalho Elhys”. O conteúdo foi publicado nas redes sociais pelo próprio “Dr. Avacalho”, que é um personagem humorístico criado pelo comediante mineiro Warley Alberto Clauhs, e não um advogado real.

Conteúdo investigado: Em vídeo publicado no Kwai e no YouTube, um homem apontado como “líder dos advogados do PT” é gravado ao nível da cintura enquanto bebe um café, como se tivesse sido filmado com uma câmera escondida. Ele alega que haveria uma conspiração para fraudar pesquisas eleitorais e manipular votos nas urnas eletrônicas em favor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Onde foi publicado: Kwai e YouTube. Também circula no WhatsApp e no Facebook

Conclusão do Comprova: Não é verdade que um “líder dos advogados do PT” tenha dito em um vídeo que existe uma conspiração para fraudar pesquisas eleitorais e manipular votos em favor do ex-presidente Lula. O homem que aparece na gravação é um comediante, e o conteúdo foi publicado originalmente no Kwai e no YouTube como piada.

O autor da peça é Warley Alberto Clauhs, também conhecido como Nana Arroba. Na legenda, ele se identifica como “Dr. Avacalho Ellhys” — um personagem fictício de “advogado pilantra”, cujo nome é um trocadilho com a expressão “avacalho eles”.

Em material divulgado no site oficial de Lula, o PT negou que o “Dr. Avacalho” seja advogado do partido ou do ex-presidente. Ao Comprova, a assessoria de comunicação de Lula afirmou que “o vídeo não tem nenhuma veracidade e infelizmente faz parte de uma campanha da extrema-direita brasileira contra a democracia e o debate público honesto”.

O Comprova classificou o material como sátira porque se trata de uma publicação que foi compartilhada com o intuito de fazer humor, ainda que parte dos usuários nas redes sociais tenha interpretado erroneamente o conteúdo como verídico. Perfis que replicaram o conteúdo no Kwai e no WhatsApp também ocultaram o nome do personagem, amplificando a desinformação.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até 22 de abril, o vídeo checado teve mais de 16 mil visualizações no Kwai e 51 mil no YouTube, além de viralizar no WhatsApp, para o qual não há métricas de compartilhamento disponíveis.

O que diz o autor da publicação: Procurado por e-mail, Warley Alberto Clauhs confirmou ser o homem que aparece no vídeo e que o conteúdo é uma sátira. Ele afirmou que todas as suas contas nas redes sociais “têm uma descrição do autor e a modalidade de material criado”.

Como verificamos: O Comprova começou a verificação a partir da análise do conteúdo original e do perfil do autor no Kwai. Ao pesquisar pelo nome do personagem “Dr. Avacalho Ellhys” e por palavras-chaves sobre o conteúdo no Google, a reportagem chegou a um canal no YouTube que informa que o homem que aparece nas imagens é o “humorista mineiro Warley Clauhs”.

Essa informação foi usada em novas buscas, que revelaram que o comediante havia se lançado como candidato a vereador nas eleições municipais de 2016 e 2020. Foi então possível encontrar os registros das candidaturas (1 e 2) no site de divulgação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A assessoria de comunicação do ex-presidente Lula foi procurada e respondeu por mensagem de texto. O site do político publicou uma nota a respeito do assunto no dia 20 de abril.

Sobre o perfil

O nome verdadeiro do autor da peça é Warley Alberto Clauhs, que se apresenta em seu perfil do Kwai como “professor, ator, poeta, locutor, comediante, imitador e político”. Ele foi candidato a vereador nas duas eleições municipais mais recentes.

Em 2016, concorreu pelo Progressistas na cidade de Açailândia (MA). Quatro anos depois, nas eleições de 2020, foi candidato em Rondon do Pará (PA), pelo Republicanos. Nas duas ocasiões, classificou-se como vereador suplente. De acordo com informações declaradas para o TSE, Warley é natural de Teófilo Otoni (MG) e tem 42 anos.

O personagem do “Dr. Avacalho Elhys” aparece em vários outros vídeos do comediante. Além de “líder dos advogados do PT”, já foi apresentado também como advogado “dos grandes políticos” — são citados João Doria (PSDB), Flávio Dino (PSB), Helder Barbalho (MDB) e Ruy Costa (PT), entre outros — e “das empresas fabricantes de vacina contra a covid-19”. O comediante também interpreta uma drag queen chamada Nana Arroba e já fez vídeos em que as duas personagens interagem.

Por que investigamos: O Comprova checa conteúdos suspeitos que viralizaram a respeito de eleições, políticas públicas e pandemia de covid-19. Apesar de ter sido publicado originalmente como sátira, o vídeo aqui verificado levou alguns usuários nas redes sociais a acreditarem nas declarações falsas feitas pelo comediante acerca da confiabilidade do processo eleitoral e de pesquisas de intenção de voto.

O vídeo deu origem a comentários como “essa tática dos corruptos do PT é muito preocupante”, “isso é muito sério, crime envolvendo o nome de pessoas do STF” e “essas pessoas perderam toda ética profissional”. No Facebook, perfis conservadores repercutem o material agradecendo ao “petista traíra” que fez a gravação e alegando que a fala supostamente confirma “o que todos nós já sabíamos” sobre pesquisas eleitorais e urnas eletrônicas.

O Comprova também recebeu o vídeo como sugestão de checagem pelo WhatsApp. No aplicativo de mensagens, o vídeo é acompanhado por legendas como “querem entender o que se passa? É preciso coragem para ver o incontestável (vídeo/áudio) do advogado do PT orientando como continuar a fraudar as eleições” e “esse é advogado do PT ou uma montagem?”.

Outras checagens sobre o tema: O vídeo analisado pelo Comprova também foi checado pela agência Lupa, pelo site Boatos.org e pela AFP. A AFP e a Lupa classificaram o conteúdo como falso, destacando que ele foi criado em tom humorístico, mas desinforma a respeito do processo eleitoral e das pesquisas de intenção de voto para presidente. O Boatos.org esclareceu que se trata de uma peça humorística.

Esse é mais um exemplo de desinformação acerca das eleições presidenciais de 2022, que se tornou um dos principais focos de teorias conspiratórias e falsidades a favor ou contra determinados políticos. Recentemente, o Comprova mostrou que nenhuma pesquisa eleitoral aponta 70% de votos para o presidente Jair Bolsonaro (PL), que uma enquete feita em restaurante de Minas Gerais não pode ser considerada pesquisa eleitoral e que um texto anônimo alegando que o ministro Luís Roberto Barroso teria prometido atuar contra reeleição de Bolsonaro é falso.

Eleições

Investigado por: 2022-04-20

Vídeo de ex-ministro da Suíça é de 2010 e não tem relação com o contexto político brasileiro

  • Falso
Falso
É falso que o ex-ministro de Finanças da Suíça Hans-Rudolf Merz teria rido dos acontecimentos envolvendo o ex-presidente Lula (PT) e o ex-procurador da República Deltan Dallagnol durante um discurso. Um vídeo de Merz voltou a circular nas redes sociais com legendas em português incorretas. Na verdade, a gravação foi feita em 2010 e mostra o político tendo uma crise de riso ao ler um texto sobre normas para importação de carnes temperadas.

Conteúdo investigado: Trata-se de um vídeo de dois minutos que mostra o ex-ministro de Finanças da Suíça Hans-Rudolf Merz tendo um ataque de riso enquanto discursa no parlamento. A gravação é acompanhada de legendas em português que dão a entender que o político estaria debochando da política e das eleições brasileiras.

Onde foi publicado: TikTok e Facebook.

Conclusão do Comprova: Não é verdade que o ex-ministro Hans-Rudolf Merz riu ao falar sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante um discurso no parlamento suíço. O vídeo da fala do político foi gravado em 20 de setembro de 2010 e o ataque de riso ocorreu quando Merz falava sobre a burocracia para a importação de carnes temperadas. Na época, ele admitiu não ter entendido a linguagem empregada no texto.

O vídeo circula com legendas que alteram o contexto da fala do político pelo menos desde 2014. Em diferentes versões, o ex-ministro teria debochado de supostas promessas feitas pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT) para a Copa do Mundo de 2014 e de um pedido feito pela deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) para homenagear Lula.

Todos os acontecimentos do cenário político brasileiro falsamente associados à fala de Merz, no entanto, ocorreram anos depois da gravação do discurso do ex-ministro. Não há menção alguma ao nome de Lula ou qualquer tema envolvendo a política brasileira, como atesta o vídeo original e a transcrição da declaração, disponíveis no site do parlamento suíço.

O Comprova classifica como falso conteúdos inventados ou que tenham sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgados de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. No TikTok, o vídeo teve 88 mil visualizações, mais de 3 mil curtidas e compartilhamentos, e 497 comentários. No Facebook foram 22 mil visualizações, 109 curtidas e 37 comentários até o dia 20 de abril.

O que diz o autor da publicação: Ao Comprova, o autor do post no Facebook afirmou que sua conta foi hackeada e que conseguiu retomá-la apenas no dia 19 de abril. Como o TikTok não oferece opção para envio de mensagens e não há informações de contato no perfil, não foi possível conversar com o responsável pela postagem.

Como verificamos: Como as imagens do conteúdo verificado pelo Comprova circulam há vários anos e já foram alvo de outras checagens (Estadão Verifica, Fato ou Fake, Boatos.org, Aos Fatos, Lupa e AFP Checamos), foi comprovado que se tratava de fato de um discurso do ex-ministro suíço Hans-Rudolf Merz, realizado em 2010.

A partir da análise do vídeo, o Comprova constatou que o idioma falado é alemão e que a gravação se refere a uma sessão do Conselho Federal da Suíça.

O Comprova também buscou reportagens jornalísticas (G1, The Guardian, BBC News) que trataram do tema na época, assim como o vídeo original do discurso no site do parlamento suíço.

Por fim, foram solicitados esclarecimentos aos responsáveis pelas publicações do vídeo no TikTok e no Facebook.

Verificação

Discurso de Hans-Rudolf Merz foi feito em 2010 no Parlamento da Suíça

A partir das verificações anteriores realizadas por outras agências de checagem, foi possível confirmar que o homem que aparece no vídeo é o ex-ministro do Departamento de Finanças da Suíça Hans-Rudolf Merz.

Na gravação, é possível ver duas palavras que indicam que o idioma falado pelo político é alemão, uma das línguas oficiais da Suíça (assim como o italiano e o francês) e que se tratava de uma sessão do Conselho Federal da Suíça.

Tagesschau” é o nome de um serviço de notícias de televisão nacional e internacional alemão produzido pela equipe editorial da ARD-aktuell. Já “Bundesrat” é uma palavra em alemão que significa “Conselho Federal”.

Na época do discurso, Merz era membro do Conselho Federal da Suíça, que é formado por sete chefes de departamentos do país. Quem elege os conselheiros é a Assembleia Federal (Parlamento).

As legendas

Assim como em outras versões do vídeo, as legendas em português que foram inseridas no conteúdo aqui verificado não têm relação com a fala original do político. Em nenhum momento o nome de Lula ou qualquer assunto referente à política brasileira são mencionados.

Além de não corresponderem ao discurso de Merz, as legendas também trazem informações mentirosas a respeito da atual composição do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável por anular quatro processos movidos contra o ex-presidente Lula a partir das investigações da Operação Lava Jato.

Apenas três dos 11 magistrados que compõem o órgão foram indicados por Lula: Ricardo Lewandowski, Cármen Lúcia e Dias Toffoli.

As legendas colocadas no vídeo fazem menção às condenações sofridas por Lula no âmbito da Operação Lava Jato, investigação realizada na 13ª Vara da Justiça Federal do Paraná que tinha como juiz titular Sergio Moro e como coordenador dos procuradores do Ministério Público Federal Deltan Dallagnol.

O ex-presidente teve os quatro processos criminais da Operação Lava Jato anulados pelo STF em abril de 2021. Os ministros entenderam que era competência da Justiça Federal do DF julgar os processos, e não a do Paraná.

Com essa decisão, e a que declarava o ex-juiz Sergio Moro suspeito para julgar o caso, todos os processos foram reiniciados em outras varas da primeira instância, com nova fase de captação de provas, oitivas com testemunhas e defesa das partes envolvidas.

Em março deste ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou o ex-procurador Deltan Dallagnol a indenizar Lula em R$ 75 mil. Os ministros entenderam que Dallagnol extrapolou os limites de sua função ao utilizar qualificações que feriam a honra do ex-presidente quando deu uma entrevista coletiva utilizando uma montagem com diversas acusações a Lula.

O discurso

A crise de riso durante o discurso de Merz no dia 20 de setembro de 2010 foi noticiada internacionalmente (G1, The Guardian, BBC News). Conforme as publicações dos veículos, o político admitiu ter achado engraçada a linguagem burocrática empregada no texto que falava sobre a importação de carnes.

O vídeo completo da declaração, assim como a transcrição da fala do ex-ministro, está disponível no site do parlamento suíço, em alemão.

Legenda: Transcrição do discurso de Merz no site do parlamento da Suíça. O trecho da fala que viralizou nas redes sociais está sublinhado em vermelho.

A partir de ferramentas e sites de tradução online como Happy Scribe e DeepL, o Comprova obteve o trecho do discurso de Merz que viralizou na internet.

“Seguindo a nota 6ª do capítulo 2 da CN, a Administração Aduaneira publicou adicionalmente (risos) as chamadas ‘Notas Explicativas sobre a Tarifa Aduaneira Suíça’ (muitos risos, aplausos). De acordo com estas explicações, certos produtos ainda são classificados no Capítulo 2 aos quais foram adicionados temperos durante o processo de fabricação, desde que o caráter de um produto deste Capítulo não seja alterado (por exemplo, Bündnerfleisch [um tipo de carne]), (muitos risos). Entretanto, a carne em que os temperos são distribuídos em todas as superfícies do produto e são visíveis a olho nu está excluída deste capítulo (risos).”

Quem é Hans-Rudolf Merz

Hans-Rudolf Merz é um político de 79 anos e antigo membro do Conselho Federal Suíço pelo Partido Liberal, o Free Democratic Party (FDP), em inglês. Ele foi eleito em 10 de dezembro de 2003 e renunciou um mês após o discurso sobre a importação de carnes viralizar na internet, em 31 de outubro de 2010, por motivos de saúde.

Doutor em Ciência Política pela Universidade São Galo, ou University of St. Gallen, Merz também foi presidente da Suíça em 2009 e chefe do Departamento Federal de Finanças do país entre 2004 e 2010.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. O conteúdo analisado nesta checagem é prejudicial porque traz informações enganosas que envolvem um pré-candidato à presidência em 2022 e isso pode influenciar na escolha dos eleitores. É importante que a população decida sobre o voto com base em conteúdos verdadeiros, e não em mentiras.

Outras checagens sobre o tema: As mesmas imagens do ex-ministro circulam fora de contexto pelo menos desde 2014. Diversas agências de checagem como Estadão Verifica, Fato ou Fake, Boatos.org, Aos Fatos, Lupa e AFP Checamos já desmentiram versões diferentes do vídeo que alegavam que o político estaria rindo do pedido de homenagem a Lula feito pela deputada federal Gleisi Hoffmann ou das supostas promessas feitas pela ex-presidente Dilma Rousseff para a Copa do Mundo realizada no Brasil em 2014.

Anteriormente, o Comprova já verificou conteúdos semelhantes, como os vídeos que mostram supostamente o presidente da Rússia, Vladimir Putin, atacando Jair Bolsonaro. As gravações, na verdade, são humorísticas.