O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Eleições

Investigado por: 2022-02-21

Imagem de apoio a Bolsonaro em prédio de Belo Horizonte é montagem

  • Falso
Falso
É falso que o prédio da empresa Localiza, em Belo Horizonte (MG), tenha recebido a projeção de uma mensagem de apoio ao presidente da República, Jair Bolsonaro (PL). A autora da publicação confirmou ao Comprova que o vídeo se trata de uma montagem.
  • Conteúdo verificado: Um vídeo publicado na rede social TikTok exibe um prédio localizado na Avenida Bernardo Vasconcelos, em Belo Horizonte. Na fachada, projeta-se uma animação da bandeira do Brasil e de imagens do presidente Jair Bolsonaro, com a mensagem: “BH é Bolsonaro”.

É falso que um prédio localizado em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, tenha recebido a projeção de uma propaganda favorável ao presidente da República, Jair Bolsonaro (PL). Um vídeo publicado no TikTok mostra a Avenida Bernardo Vasconcelos, no bairro Cachoeirinha, com um prédio ao fundo. Sobreposta ao edifício está a frase “BH é Bolsonaro”, acompanhada por uma bandeira do Brasil. Duas fotos do presidente também aparecem no prédio ao longo do vídeo de 14 segundos. O edifício tem parte das janelas iluminadas, que juntas formam um coração.

A autora da publicação confirmou ao Comprova que o vídeo foi editado para incluir a mensagem favorável a Bolsonaro. Ela afirmou que usa o perfil no TikTok para divulgar sua marca de camisetas, e a primeira coleção teve o tema “Bolsonaro/Brasil”, e que, por isso, fez a montagem. A verificação do conteúdo foi sugerida por um leitor do Comprova.

Comentários feitos na postagem indicam que há usuários da plataforma que acreditam que a propaganda é verdadeira. “Que lindooo parabéns BH tenho orgulho de ver esse rosto sincerio (sic) do nosso presidente estampado em todos lugares que eu vou tamos juntos Capitão”, escreveu uma pessoa. Em outro caso: “agora sim me orgulhei de BH”, disse um internauta.

O prédio que aparece na publicação aqui verificada é da empresa de aluguel de carros Localiza, que, em nota, negou ter realizado qualquer homenagem a Bolsonaro no local ou que a fachada tenha sido usada para projeção envolvendo política.

O professor da área de audiovisual da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) Maurício Gomes da Silva Fonteles analisou o vídeo e disse que diferenças de foco e qualidade de imagem demonstram que a propaganda favorável a Bolsonaro não estava presente no conteúdo original e foi inserida por meio de edição.

O Comprova classificou o conteúdo como falso porque cria uma situação que não existiu.

Como verificamos?

O leitor do Comprova, que enviou o vídeo para a equipe sugerindo a investigação, disse que o prédio que aparece na imagem pertence à empresa Localiza, que fica na Avenida Bernardo Vasconcelos, em Belo Horizonte. Nosso primeiro passo foi verificar essa informação, que foi confirmada em pesquisa no Google Street View (1 e 2). Posteriormente, a Localiza também atestou que o vídeo mostrava sua sede em Belo Horizonte.

| Captura de tela do Google Street View. Imagens correspondem aos elementos que aparecem no vídeo, como as luzes em formato de coração e a placa de sinalização.

O Comprova buscou o nome do perfil do TikTok em outras redes sociais e encontrou a conta de uma empresa de marketing digital localizada em Ipatinga (MG). No perfil, foi possível obter o número de WhatsApp pelo qual entramos em contato com a autora, que confirmou ter feito a montagem.

Em seguida, a equipe procurou por especialistas que pudessem analisar o tipo de edição realizada no vídeo. Entrevistamos o professor da UnB Maurício Fonteles.

Por fim, consultamos a legislação sobre eleições e perguntamos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se a publicação poderia ser considerada propaganda antecipada.

Verificação

Análise do vídeo

Professor da UnB, Maurício Fonteles avalia que a edição no vídeo é grosseira. De acordo com ele, observando a imagem é possível perceber que há desconexão entre o prédio e a propaganda com referência a Bolsonaro, pois há diferença de qualidade entre as duas imagens, com o edifício mais desfocado que a imagem sobreposta a ele. “Não tem como você ter o prédio desfocado e o que está projetado nele estar completamente focado”, explica o professor.

Segundo Fonteles, outro elemento relevante é a comparação entre a velocidade dos carros que passam na via e o movimento da bandeira que aparece na imagem sobreposta ao prédio. É possível constatar que o vídeo original foi acelerado. Os veículos passam rápido demais pelas ruas, todos em velocidade semelhante. Por outro lado, a bandeira projetada no edifício se move “em tempo real”.

É possível ver também no vídeo uma outra bandeira menor, que está localizada ao lado esquerdo do prédio em destaque. Neste caso, o objeto se move rapidamente, no mesmo ritmo que os carros, o que demonstra que ele faz parte da composição original. “Existem vários elementos que provam tranquilamente que aquilo ali (a propaganda a Bolsonaro) é uma sobreposição de imagem em um vídeo que já estava pronto”, afirma Fonteles.

| Captura de tela do vídeo publicado no TikTok. Em destaque estão a bandeira ao lado do prédio e carros em alta velocidade por causa do vídeo acelerado.

O professor afirma que alguns pontos simples podem ser analisados para verificar se um vídeo ou foto passou por edição. Entre eles estão qualidade, foco e proporções e distorções da imagem. Se for possível perceber diferentes elementos com qualidade mais alta ou mais baixa na mesma composição, pode ser indício de que houve edição em um produto.

Segundo Fonteles, o foco é outro ponto que chama atenção em imagens que passaram por mudanças. “As câmeras têm o foco em um lugar específico. Se tenho um foco na frente, com uma pessoa em primeiro plano, e lá atrás estou vendo outra coisa que está completamente focada, tem alguma coisa errada. Normalmente esse foco variaria, com o fundo desfocado. Se tenho um texto ao fundo, por exemplo, ele também deveria estar desfocado. Se existir uma sobreposição grosseira, ela fica bem latente”, explica.

O que diz a autora

O Comprova entrou em contato com a autora do post, que se identificou apenas como Jaqueline, por meio do WhatsApp. A mulher confirmou que o vídeo é uma montagem feita com o intuito de divulgar os serviços de animação da empresa, mas negou que haja motivação política. Questionamos o porquê das publicações serem focadas em Bolsonaro, uma vez que não há intenção partidária. Ela afirmou que começou a publicar as montagens usando imagens de grandes cidades após pedido dos seguidores. No perfil da loja, há vídeos editados de forma semelhante ao caso aqui verificado, com referências a outras cidades como Goiânia, São Paulo e Curitiba.

“Fiz um (vídeo) de Ipatinga e os seguidores pediram de outros estados. Vendo camisas e a primeira coleção era o tema ‘Bolsonaro/Brasil’. Abrimos o TikTok e deu essa repercussão. Mas não fazemos só desse tema, outras coleções serão divulgadas também. Só não deu tempo ainda”, explicou.

Jaqueline afirmou que não vai mais usar fotos ou nomes de candidatos em suas publicações, exceto na divulgação das camisas, que fazem parte do seu trabalho.

Iluminação do prédio

Em abril de 2020, a empresa de marketing ABC da Comunicação repercutiu que a Localiza iluminou a fachada de sua sede com o formato de coração, em ato relacionado aos desafios criados pela pandemia. Imagens divulgadas na época são semelhantes àquelas usadas na base do vídeo verificado.

Procurada pelo Comprova, a Localiza confirmou que o prédio mostrado no vídeo é a sede da empresa em Belo Horizonte. Porém, negou que tenha sido feita homenagem a Bolsonaro no local. “A Localiza esclarece que é uma empresa apartidária e que não houve qualquer projeção em sua sede em Belo Horizonte alusiva a questões envolvendo política ou políticos”, informou.

O vídeo pode ser considerado propaganda eleitoral antecipada?

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem regras claras que fazem a diferenciação da propaganda partidária para a propaganda eleitoral, bem como estipula eventuais penalidades para quem descumprir as normativas.

A resolução 23.610 do TSE de dezembro de 2019 trata das eventuais condutas ilícitas no que diz respeito à propaganda eleitoral, que só é permitida a partir de 16 de agosto do ano da eleição.

Considera-se propaganda antecipada passível de multa aquela divulgada extemporaneamente cuja mensagem contenha pedido explícito de voto ou que veicule conteúdo eleitoral em local vedado.

Não é permitida, por exemplo, a veiculação de material de propaganda eleitoral em bens públicos ou particulares, exceto em alguns casos. São eles: bandeiras ao longo de vias públicas, desde que móveis e que não dificultem o bom andamento do trânsito de pessoas e veículos; além de adesivo plástico em veículos e janelas residenciais, desde que não exceda a 0,5m² (meio metro quadrado).

O material analisado não é considerado propaganda antecipada, uma vez que não envolve pedido explícito de voto, tampouco faz menção à pretensa candidatura.

Portanto, o material analisado pelo Comprova – ainda que seja uma montagem – não configura propaganda eleitoral antecipada.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições. O projeto observa os dados de viralização e o impacto desses conteúdos para decidir pela verificação. Nos últimos anos, tem se tornado comum a circulação de mensagens e informações falsas com o intuito de descredibilizar e tumultuar o processo eleitoral no país.

A publicação analisada nesta checagem do Comprova foi publicada na rede social TikTok e, até o dia 18 de fevereiro, tinha mais de 11,4 mil visualizações. A situação traz à tona a falsa impressão de que uma empresa, a Localiza, estaria fazendo uma homenagem e, por conseguinte, uma demonstração de apoio ao presidente Jair Bolsonaro.

Conteúdos como esse podem passar a impressão entre usuários das redes sociais que um setor da economia, o empresariado, estaria apoiando um determinado candidato.,

O conteúdo investigado pelo Comprova foi alvo também de apuração do Boatos.org, Lupa e Aos Fatos, sendo classificado como falso nas três situações.

O Comprova investigou recentemente que um post engana ao confundir resultado fiscal com crescimento do PIB em 2021 e o caso de uma empresa que foi multada por pagar propinas, mas publicações enganosas nas redes sociais afirmavam que a instituição estava envolvida em fraude de urnas eletrônicas usadas em eleições brasileiras.

Para o Comprova, falso é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2022-02-15

Empresa foi multada por pagar propinas, não por fraudar urnas eletrônicas

  • Enganoso
Enganoso
São enganosas publicações nas redes sociais que sugerem que a empresa norte-americana Diebold foi multada por fraudar urnas eletrônicas usadas no processo eleitoral brasileiro. Ela foi realmente multada em 2013 nos Estados Unidos, mas as penalidades aplicadas originam-se de acordos para resolver acusações de suborno e falsificação de contratos na China, Indonésia e Rússia. Nenhuma delas tem relação com a fabricação das urnas eletrônicas usadas nas eleições do Brasil, mas com outros equipamentos fornecidos pela empresa, como caixas eletrônicos.
  • Conteúdo verificado: Publicações no Facebook e WhatsApp com link para um texto de 2014 que afirma que a empresa Diebold Nixdorf, que fabricava urnas eletrônicas para o Brasil, foi multada nos Estados Unidos por fraude.

São enganosas as publicações que afirmam que a empresa Diebold Nixdorf foi multada nos Estados Unidos por fraudar a programação de urnas eletrônicas. As postagens tomam por base um texto publicado em 2014 e que voltou a circular entre apoiadores do presidente Jair Bolsonaro no Facebook e em aplicativos de mensagens e tem sido usado para questionar a segurança das urnas. Entre 1999 e 2016 a empresa foi responsável por fabricar os modelos utilizados nas eleições brasileiras.

O Comprova encontrou publicações em sites oficiais do governo americano (Departamento de Justiça e FBI) e um artigo da Reuters que tratam das acusações de fraude envolvendo a empresa. Nenhuma cita irregularidades relacionadas às urnas eletrônicas, mas com outros equipamentos fornecidos pela empresa, como caixas eletrônicos. As duas multas aplicadas — no valor de US$ 25,2 milhões e US$ 22,97 milhões — originam-se de acordos com a Justiça para resolver acusações de suborno e falsificação de contratos na China, Indonésia e Rússia.

A equipe entrou em contato com a Diebold Nixdorf e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para questionar sobre as multas, a relação da empresa com o processo eleitoral brasileiro e a possibilidade de fraude nas urnas eletrônicas. A Diebold não respondeu às perguntas, mas declarou que “toda e qualquer informação relacionada às eleições deverá ser tratada junto ao TSE”.

O TSE afirmou que, à época dos fatos, pediu esclarecimentos à empresa e recebeu a informação de que estariam contribuindo com a justiça americana e entrariam em um acordo financeiro. Questionado, informou que não acompanhou o decorrer do processo, pois a empresa estava aderente à legislação brasileira e aos termos firmados no contrato. O TSE também ressaltou que o caso não representou uma preocupação do ponto de vista técnico, porque a arquitetura da urna e dos sistemas eleitorais é de total responsabilidade da Justiça Eleitoral. Dessa forma, não seria possível a Diebold ou qualquer outra empresa fraudar o processo. O órgão detalhou para o Comprova como é feito o processo de auditoria.

O Comprova também entrou em contato com o autor de uma das publicações de maior alcance, que aponta a multa da empresa por suposta fraude nas urnas eletrônicas. Ele disse ser contra a divulgação de notícias falsas e afirmou ter verificado o conteúdo antes de compartilhar.

Por fim, entramos em contato com a Rádio Planalto, uma emissora de Passo Fundo no Rio Grande do Sul. O link que circula junto das postagens levava a uma notícia publicada no site da rádio em 2014. A publicação realmente afirmava que a Diebold havia sido multada “por subornar funcionários na Rússia, na Indonésia e na China e fraudar a programação das urnas eletrônicas e de caixas eletrônicos”. Depois do contato, a emissora emitiu uma nota sobre o caso e deletou o conteúdo. No comunicado, a Rádio Planalto informou que o responsável pela publicação não faz mais parte da equipe e que, ao longo dos anos, o veículo tem feito publicações salientando a segurança das urnas eletrônicas.

O Comprova considera que o conteúdo é enganoso porque usa dados imprecisos e por ser um conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano eleitoral.

Como verificamos?

Em conteúdos compartilhados no Facebook e recebidos pelo WhatsApp do Comprova, os autores alegam que a afirmação de que a Diebold foi multada é verdadeira, pois “está no site do FBI, saiu na Reuters e na Nasdaq”. O primeiro passo, então, foi buscar pelas publicações citadas. A partir do mecanismo de busca avançada do Google, encontramos as matérias da Reuters e do FBI que tratavam sobre o acordo entre a Diebold e a Justiça Americana. Também foi encontrado um comunicado do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o mesmo assunto.

Nenhuma das publicações cita qualquer relação entre as multas e fraude na programação das urnas eletrônicas, como alega o texto que viralizou.

Além disso, entramos em contato com a empresa Diebold, via e-mail, para questioná-la acerca das investigações de fraude. A princípio, se mostrou acessível para esclarecer qualquer dúvida, mas posteriormente preferiu não se manifestar sobre o assunto. O Comprova também entrou em contato com o TSE, que negou qualquer possibilidade de fraude na fabricação das urnas eletrônicas e explicou como é feito o processo de auditagem. Por fim, procuramos a Rádio Planalto, cujo link para uma publicação de 2014 acompanha parte das publicações investigadas.

Verificação

As multas

Segundo o site do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a Diebold concordou em pagar 25,2 milhões de dólares para resolver acusações de suborno. A empresa era investigada por oferecer vantagens para funcionários de bancos privados e estatais em troca de favorecimento nos negócios.

Além disso, também teria falsificado contratos com um distribuidor na Rússia que, por sua vez, teria pagado propina a clientes da Diebold para obter contratos relacionados a caixas eletrônicos.

Ainda segundo o Departamento, anteriormente, a Diebold havia firmado um acordo semelhante no valor de 22,97 milhões de dólares com a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA. As multas, portanto, não têm relação com fraude em urnas eletrônicas.

O Comprova entrou em contato com a Diebold e questionou sobre a investigação, contudo, a empresa não quis se manifestar sobre o assunto e alegou que “toda e qualquer informação relacionada às eleições deverá ser tratada junto ao TSE”.

Por sua vez, o TSE afirmou que questionou a empresa na época dos fatos e foi informado que a Diebold estava colaborando com as investigações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que fecharia um acordo financeiro. O Comprova questionou se o Tribunal acompanhou o desenrolar do processo. Em resposta, o órgão informou que a empresa estava aderente à legislação brasileira e aos termos firmados no contrato, por isso não acompanhou o decorrer da ação.

O TSE também esclareceu que toda a engenharia e o projeto de arquitetura da urna, assim como o processo de votação são de total responsabilidade da Justiça Eleitoral. Portanto, não haveria a possibilidade da empresa agir de má fé para causar dano ou fraudar o processo eleitoral. O caso, então, não representava uma preocupação do ponto de vista técnico, segundo o órgão.

Diebold e a relação com as eleições

A empresa Diebold, citada na publicação, é uma multinacional norte-americana especializada na fabricação, venda e instalação de serviços de autoatendimento. Ela foi contratada pela Justiça eleitoral para fabricar nove projetos de urnas eletrônicas, entre os anos de 1999 a 2016. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os modelos são 2000, 2004, 2006, 2008, 2009, 2010, 2011, 2013 e 2015. Atualmente, presta serviços apenas na manutenção de cerca de 473 mil urnas.

Para prestar serviços ao TSE, as empresas precisam passar por um processo licitatório minucioso de ampla concorrência. Além disso, as vencedoras das licitações não fabricam os projetos das urnas a esmo, mas sim, precisam desenvolvê-las usando o projeto de arquitetura de segurança do TSE, por sua vez coordenado e auditado por uma equipe técnica do órgão.

O Tribunal esclareceu que a Diebold era responsável somente pela confecção da urna, “como ocorre com qualquer outro equipamento eletrônico, em que os componentes são reunidos em uma fábrica e a partir disso é montada a urna para que esteja pronta e apta para o uso do eleitorado brasileiro.”

Toda a engenharia e o projeto de arquitetura é totalmente concebido, coordenado, supervisionado e auditado pela Justiça Eleitoral. Dessa forma, segundo o TSE, a segurança do equipamento é preservada, independentemente de quem a fabrique. “Importante deixar claro que os processos exigidos pelo Tribunal no edital de licitação impedem que a fabricante engane a segurança da urna”, pontuou, em nota.

Além disso, o sistema eletrônico de votação não utiliza rede de internet, mas sim, possui os próprios meios criptografados de comunicação e transmissão de dados. Isso dificulta a atuação de invasores ou roubo de informações.

“Em mais de 20 anos de trajetória, o sistema foi reiteradamente testado e comprovadamente isento de quaisquer formas de manipulação, de fraude na totalização de votos ou de quebra do sigilo do voto”, reforçou o órgão público.

Sendo assim, a Diebold não seria capaz de fraudar o processo eleitoral brasileiro.

Auditoria das urnas

Como explica o TSE, são 30 camadas ao todo que protegem as urnas eletrônicas de qualquer tipo de invasão. Para hackear o sistema, seria necessário ultrapassar todas essas barreiras no momento da votação. Mesmo que fossem violadas, a inteligência do sistema bloqueia o acesso às informações quando identifica um invasor e a urna trava.

O processo de auditagem começa um mês antes das eleições. Os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) de cada estado nomeiam uma Comissão de Auditoria de Funcionamento das Urnas Eletrônicas em uma sessão pública.

A Comissão precisa ser composta por um juiz de direito e seis servidores da Justiça Eleitoral, no mínimo. Depois, o procurador regional indica ainda para compor a equipe um representante do Ministério Público; dos partidos políticos; coligações; Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); Congresso Nacional; Supremo Tribunal Federal (STF); Controladoria-Geral da União (CGU); Departamento de Polícia Federal; Sociedade Brasileira de Computação (SBC); Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea). Por fim, representantes de departamentos de Tecnologia da Informação de universidades também podem ser indicados para acompanhar o grupo.

A 20 dias para o pleito, os TREs informam, tanto à população quanto aos partidos, o local onde será feita a auditoria das urnas na véspera das eleições. Aos partidos, também é encaminhado ofício com horário e o local da auditoria no dia da eleição, informando sobre como seus representantes podem participar.

Um dia antes das votações, a Justiça Eleitoral sorteia de três a cinco seções eleitorais em cada estado, durante audiência pública. Então, as urnas sorteadas são substituídas, e depois instaladas nos TREs em salas monitoradas por câmeras.

A Comissão distribui cédulas para simular uma “votação paralela” no domingo, que são preenchidas por representantes dos partidos políticos e coligações, e devem ser completadas com os números dos candidatos, votos nulos, votos de legenda, além de cédulas com votos em branco. A quantidade de cédulas corresponde entre 75% e 82% do número de eleitores registrados em cada seção eleitoral sorteada.

Já no dia da eleição, a votação de auditagem começa no mesmo horário da votação oficial. Todos os votos preenchidos pelos representantes dos partidos no dia anterior são digitados nas urnas e em um sistema paralelo, enquanto as câmeras filmam todo o processo.

Quando a votação acaba, a urna imprime um Boletim de Urna (BU), e o sistema auxiliar também emite um boletim. Ambos os dados são conferidos pela Comissão, assim é possível verificar se a urna apresentou falhas e se computou exatamente todos os votos registrados nas cédulas.

Esse processo é acompanhado pela equipe nomeada em audiência pública, mas também pode ser acessado por qualquer pessoa interessada em checar a veracidade do processo eleitoral. Em alguns estados, inclusive, a auditagem é transmitida pelos canais oficiais dos TREs no YouTube.

As publicações

Inicialmente, o Comprova identificou três postagens que compartilhavam um texto publicado em 2014 no site da Rádio Planalto, intitulado “EUA multa empresa das urnas eletrônicas usadas no Brasil por fraude”. No início de fevereiro, a publicação voltou a circular entre apoiadores do presidente Jair Bolsonaro no Facebook.

A publicação, que citava como fonte o site Folha Centro Sul, afirmava que a Diebold havia sido multada “por subornar funcionários na Rússia, na Indonésia e na China e fraudar a programação das urnas eletrônicas e de caixas eletrônicos”. Depois do contato do Comprova, a emissora emitiu uma nota de esclarecimento. Na nota, o departamento de jornalismo da rádio informa que o conteúdo “foi retirado do ar e que o colaborador, na época, responsável pela publicação em nossas plataformas não integra atualmente a equipe das nossas emissoras”. A nota diz também que ao longo dos últimos anos várias publicações foram feitas nas mídias sociais da emissora salientando a segurança das urnas eletrônicas.

Uma das publicações investigadas é de Ranieri Marchioro, cirurgião dentista e militar da reserva do Exército. Nas eleições de 2020, ele foi candidato à prefeitura de Foz do Iguaçu pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB). Outra postagem foi compartilhada em uma página de apoiadores de Bolsonaro no Facebook. O Comprova também recebeu pedidos de leitores, por meio do WhatsApp, para verificação do conteúdo.

Todas as publicações levam a mesma legenda em tom de cobrança ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso.

O Comprova entrou em contato com Raniere Marchiori, autor de uma publicação realizada em 11 de janeiro deste ano, que aponta a multa da empresa por suposta fraude nas urnas eletrônicas. A postagem, com 410 compartilhamentos e quase mil interações em um todo, afirma que a notícia não é falsa.

“E agora Ministro BARROSO, justifique-se! ‘Em 2014 o Governo Americano multou a empresa DIEBOLD fornecedora das urnas eletrônicas usadas no Brasil por fraude.’ Não adianta falar que é Fake, está no site do FBI, saiu na Reuters e na Nasdaq”.

Questionado sobre sua publicação, Marchiori disse ser contra a divulgação de notícias falsas e afirmou ter verificado o conteúdo antes de compartilhar.

“Sou totalmente contra a divulgação de notícias falsas tanto quanto tentar ocultar as notícias verdadeiras do público”, informou

Por que investigamos?

O Comprova tem o compromisso de investigar conteúdos suspeitos que tenham relação com a pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. A equipe tem como foco as publicações virais, que tiveram grande alcance nas redes sociais e podem causar desinformação.

O post desta reportagem teve quase mil interações no Facebook e trouxe à tona uma informação antiga, de 2014, como se fosse atual. Em ano eleitoral, é comum surgirem ataques à veracidade das urnas eletrônicas, informações falsas que comprometem a integridade do processo eleitoral brasileiro.

O conteúdo investigado pelo Comprova foi alvo também de uma verificação do MonitorR7, publicada em 15 de janeiro, e que apresenta a mesma conclusão.

O Comprova já desmentiu anteriormente que urnas eletrônicas seriam fáceis de serem fraudadas por meio do código-fonte, ou ainda que as eleições de 2020 no Brasil usaram o mesmo software utilizado no pleito presidencial norte-americano, conforme afirma uma jornalista em um vídeo publicado no YouTube.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2022-02-11

Post engana ao confundir resultado fiscal com crescimento do PIB em 2021

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a postagem no Facebook que cita notícia de um jornal televisivo para afirmar que o Brasil teve o segundo melhor resultado fiscal do mundo em 2021, “com crescimento positivo do PIB”. De fato, o resultado fiscal foi positivo, conforme mostram os dados do Banco Central e melhores do que outros países, em comparação com a projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI), como divulgado pelo jornal. Isso não significa, no entanto, que houve forte crescimento do PIB - este dado ainda não foi divulgado oficialmente.
  • Conteúdo verificado: Post que circula no Facebook traz uma imagem do Jornal da Band transmitido em 1º de fevereiro de 2022, com dados do FMI e do Banco Central sobre o resultado fiscal de diferentes países em 2021. O texto destaca que o Brasil teve o segundo melhor resultado na lista, “com crescimento positivo do PIB”, e afirma que isso deve ser celebrado.

É enganoso um post no Facebook segundo o qual o resultado fiscal obtido pelo governo brasileiro em 2021 gerou “crescimento positivo” do Produto Interno Bruto (PIB) naquele ano. O dado sobre o resultado fiscal está correto, mas o PIB de 2021 ainda não foi divulgado.

A base do post verificado é uma imagem congelada de um telejornal da Band, no qual duas jornalistas mostram uma tabela de países listados conforme seu resultado fiscal. O Brasil aparece em segundo lugar, atrás do Egito. O texto que acompanha a imagem na postagem afirma que “apenas três países apresentaram resultado fiscal positivo” em 2021 e que “nosso Brasil foi o segundo lugar, com crescimento positivo do seu PIB”.

O resultado fiscal é o saldo do fluxo de caixa dos governos municipais, estaduais e federal e ele não tem interferência no PIB. Na tabela mostrada pela Band, o número está relacionado ao PIB porque esta é uma forma corriqueira de comparar dados de países diferentes, com diferentes moedas.

O Comprova classificou a publicação como enganosa porque mistura informações sugerindo um resultado que não é verdadeiro.

Como verificamos?

O primeiro ponto a ser investigado foi buscar o dia e o jornal em que a tabela aparecia para, na sequência, identificar o conteúdo completo da reportagem e todas as informações inseridas nela. O Comprova fez uma busca no Google usando termos que apareciam na tabela, como “resultado fiscal”, “FMI” e “Banco Central”.

Os resultados remeteram a notícias que repercutiram uma nota informativa da Secretaria de Política Econômica, do Ministro da Economia. A nota foi publicada no dia 1º de fevereiro e trazia dados sobre o desempenho fiscal do Brasil em 2021. Em seguida, a equipe buscou no Youtube a edição do Jornal da Band exibida dia 1º e encontrou a tela que aparece na postagem.

Depois de identificado o teor da reportagem, fomos buscar com especialistas e fontes oficiais o que era resultado fiscal, como ele era medido, quem divulgava e calculava e quais fatores poderiam interferir no resultado final.

Por fim, fomos atrás dos últimos dados disponíveis sobre o PIB e o crescimento econômico do país, o que dizem os especialistas e como ele estava ligado ao resultado fiscal positivo.

O Comprova também procurou o responsável pelo post verificado, mas não obteve resposta até a publicação desta verificação.

Verificação

Resultado fiscal positivo

A publicação checada pelo Comprova apresenta uma tabela com os resultados fiscais de diversos países e associa a segunda colocação do Brasil nesse ranking ao crescimento do PIB. A informação é enganosa porque o que é chamado de resultado fiscal não tem relação com o PIB. Em 2021, as contas públicas tiveram um superávit de R$ 64,7 bilhões, o que equivale a 0,75% do PIB acumulado do ano (ainda não consolidado, portanto) — dado que é mostrado na imagem. Mas as contas isoladas do governo federal tiveram déficit de 35 bilhões de reais. A soma de todos os bens, serviços e riquezas do país, o chamado Produto Interno Bruto, é utilizado apenas como parâmetro para comparações, seja com outros países ou com anos anteriores, como explica o professor Joelson Sampaio, da FGV, doutor em finanças corporativas e mercado financeiro.

“A relação do resultado primário com o PIB é mais de comparação entre os países do que um resultado final para avaliar se a economia vai bem ou mal. Porque, em termos de desempenho econômico, é importante sim olhar outras métricas de desempenho. E a principal delas é o crescimento do PIB. Então, quando você olha o crescimento econômico, ele te dá uma medida importante para combater o desemprego, por exemplo.”

Doutor em teoria econômica pela USP, o professor Joelson também ressalta que o Brasil atingiu esse resultado devido a algumas ações que deverão ter consequências no futuro.

“Ter um superávit primário é um resultado positivo. Ele é, claro, um mérito do governo, mas não só: quando você tem um período de crise, você tem um congelamento de salário dos servidores públicos que contribui muito nesse papel, porque eles têm um peso importante no orçamento público. Então, provavelmente, em algum momento futuro, isso vai ter que ser revertido. E vai ter impactos também no resultado primário.”

Analisando os dados das contas públicas brasileiras em 2021 é possível ver que os responsáveis pelo resultado positivo foram os estados e municípios que terminaram com saldo positivo. Enquanto estados e municípios terminaram com 97 bilhões e 694 milhões de reais em caixa, o governo federal terminou com um saldo negativo de 35 bilhões e 872 milhões de reais. A soma de todos esses dados é um fluxo positivo nas contas públicas brasileiras de 64 bilhões e 727 milhões de reais em 2021, dado apresentado na reportagem utilizada na postagem checada pelo Comprova.

“O protagonista desse superávit primário foi, claramente, o conjunto dos governos subnacionais, estados e municípios, os quais ao longo de 2021 puderam arrecadar mais recursos, especialmente por meio de ICMS associado aos combustíveis. Estes, por sua vez, como sabemos, tiveram um aumento ao redor de 50% ao longo do ano em valor”, ressalta Fernando Ribeiro Leite, professor do Insper com experiência em macroeconomia da América Latina.

Resultado fiscal x PIB x crescimento econômico

A postagem checada faz uma analogia equivocada entre resultado fiscal, PIB e crescimento econômico. Apesar de todas serem importantes parâmetros da economia elas não são interligadas e dependentes umas das outras.

“O resultado fiscal considera as receitas e despesas primárias do governo. Basicamente é arrecadação contra despesa orçamentária. Ele é importante para o país porque dá uma ideia se o quanto o governo conseguiu gerar de receita foi suficiente para arcar com as suas despesas”, explica o professor Joelson Sampaio.

Já o PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos em uma determinada região ou país. E o crescimento econômico é medido pelo aumento no PIB ou, para comparações com outros países, mede-se o poder de compra do cidadão. Quando é feita a análise do resultado do crescimento econômico na qualidade de vida das pessoas, temos o chamado desenvolvimento econômico.

“O resultado fiscal é mais uma questão de finanças públicas, que é importante no sentido de equilíbrio das contas, mas o que a gente precisa mesmo é ter mais crescimento econômico para combater o desemprego, que está bem alto e tem afetado milhões de famílias. Melhorar a renda também, houve uma perda de renda na crise. Todos esses aspectos acabam afetando o bem-estar das famílias. E uma variável importante para combate ao desemprego e melhoria de renda é o crescimento econômico, do PIB”, explica o professor Joelson Sampaio.

Desempenho das contas ao longo dos anos

O ano de 2021 foi o primeiro com superávit das contas públicas, ou resultado fiscal positivo, desde 2013. Nos sete anos anteriores o resultado foi o chamado déficit primário, quando sai mais dinheiro das contas dos governos municipais, estaduais e federal juntas do que entra.

Já o PIB de 2021 ainda não foi divulgado, mas a projeção é que tenha um pequeno crescimento depois de uma queda acentuada no ano anterior. Assim como no resultado fiscal, estados e municípios têm importante papel no crescimento do produto interno bruto.

“A recuperação da atividade econômica em 2021 — ainda que o PIB cresça 0,3% e é pouco, ele se recupera de um tombo de 4,5% em 2020. Então, há uma retomada do crescimento econômico e há um processo inflacionário que ajuda os governos subnacionais a alcançarem o superávit primário. O governo federal registrou déficit.”, coloca o professor Fernando Ribeiro.

Dívidas e juros

Além do fluxo de caixa, outro problema nas contas públicas são as dívidas e os juros. Se o ano fechou com um saldo em conta equivalente a 0,75% do PIB acumulado do ano até aquele momento, ou 64 bilhões e 727 milhões de reais, o país ainda teve de pagar os chamados juros nominais da dívida pública equivalentes a 5,17% do PIB, ou 448 bilhões e 391 milhões de reais, deixando um saldo negativo, o chamado nominal, de 383 bilhões e 664 milhões de reais, ou 4,42% do PIB.

Por que investigamos?

O Comprova faz checagem de conteúdos suspeitos relacionados às políticas públicas do governo federal, pandemia e eleições que tenham viralizado nas redes sociais. O conteúdo verificado teve mais de 7 mil interações no Facebook em apenas 3 dias..

São comuns as postagens que usam informações enganosas para favorecer o governo Bolsonaro. O Comprova já verificou que uma tabela sobre pagamento do Bolsa Família foi editada e retirada de contexto e que um boato usa pesquisa falsa para dizer que Bolsonaro lidera em todos os estados. Também foi comprovado que obras nas pontes na BR-158 foram feitas durante o governo atual.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2022-02-07

Boato usa pesquisa falsa para dizer que Bolsonaro lidera em todos os estados

  • Falso
Falso
É falso que um levantamento atribuído ao instituto Paraná Pesquisas e feito em janeiro deste ano tenha apontado o presidente Jair Bolsonaro (PL) liderando a corrida eleitoral para presidente em todos os estados. A única pesquisa da empresa feita em 2022 foi divulgada em 2 de fevereiro e mostra o ex-presidente Lula (PT) com 40,1% das intenções de voto, contra 29,1% de Bolsonaro e 20,5% de outros sete pré-candidatos. O pré-candidato do PT lidera no Nordeste e no Sudeste, segundo os resultados.
  • Conteúdo verificado: Texto que viralizou no Facebook e no WhatsApp diz que um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas com 25 mil pessoas aponta a vitória do presidente Jair Bolsonaro em todas as 27 unidades federativas na eleição presidencial de 2022.

É falso que o Instituto Paraná Pesquisas tenha feito uma pesquisa eleitoral ouvindo 25 mil pessoas no dia 13 de janeiro deste ano e que o resultado tenha apontado o atual presidente, Jair Bolsonaro (PL), liderando as intenções de voto para 2022 em todos os estados. Conforme mostram os sites do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do próprio instituto, a empresa só realizou uma pesquisa em 2022, ouvindo 2.020 entrevistados entre os dias 27 de janeiro e 1.º de fevereiro. O texto tem sido compartilhado em grupos de WhatsApp e no Facebook.

Os resultados da pesquisa verdadeira foram divulgados no dia 2 de fevereiro e mostram o ex-presidente Lula (PT) na frente, com 40,1% das intenções de voto. Bolsonaro fica em segundo, com 29,1%. Outros sete pré-candidatos somam 20,5%. São eles: o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro (Podemos); o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT); o governador de São Paulo, João Dória (PSDB); o deputado federal André Janones (Avante); e os senadores Simone Tebet (MDB), Rodrigo Pacheco (PSD) e Alessandro Vieira (Cidadania).

O Paraná Pesquisas diz que o levantamento foi feito em 162 municípios dos 26 estados e no Distrito Federal. Mas o resultado por estado não é divulgado. O detalhamento geográfico se restringe a quatro regiões: Nordeste; Sudeste; Sul; e Centro-Oeste e Norte, que são analisadas em conjunto. Por esse critério, Lula aparece na frente no Nordeste e Sudeste. Bolsonaro lidera no Sul e no Centro-Oeste e Norte.

Em novembro de 2021, em nota enviada ao Estadão Verifica, a empresa negou que tenha feito pesquisas por estado com números quase idênticos aos verificados agora pelo Comprova.

Outras pesquisas recentes também mostram Lula na frente, com Bolsonaro em segundo. É o caso dos levantamentos dos institutos Datafolha, Ipec, PoderData e Ipespe. Conteúdos similares ou idênticos ao verificado aqui circulam desde 2018 e já foram desmentidos pelo Comprova e por outras agências de checagem.

O texto investigado foi considerado falso por ser um conteúdo inventado e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

Primeiro, o Comprova realizou uma consulta no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para averiguar as pesquisas eleitorais registradas pelo Paraná Pesquisas no período de 1º de janeiro a 4 de fevereiro de 2022. A consulta encontrou um único item.

A fim de verificar outros levantamentos realizados pela instituição, visitamos sua página oficial, na qual há uma seção em que estão registrados todos os estudos conduzidos. A listagem destaca as pesquisas mais recentes, sendo a primeira delas a Pesquisa Nacional com registro no TSE de número BR-09055/2022.

Seguimos a lista, passando por todos os itens que apontam, especificamente, a “Situação Eleitoral para o Executivo Federal”, visitando tanto os informes dedicados a pesquisas nacionais como aqueles voltados para estados. Ao todo, passamos pelas dez primeiras páginas contendo a listagem das pesquisas, correspondentes aos anos de 2021 e 2022.

O Comprova entrou em contato por e-mail com a Paraná Pesquisas, por meio do endereço indicado na página oficial do instituto, mas não obteve resposta até o fechamento desta verificação.

Também buscamos informações sobre as pesquisas eleitorais mais recentes nos sites de outros quatro institutos: Datafolha, Ipec, PoderData e Ipespe. Por fim, usamos buscas no Google para consultar verificações parecidas publicadas pelo Comprova e por outras agências de checagem.

Verificação

Instituto mostra Lula na frente

O levantamento mais recente do Paraná Pesquisas foi publicado em 2 de fevereiro deste ano. De acordo com o relatório disponível no site, a pesquisa teve uma amostra de 2.020 eleitores, entrevistados pessoalmente em 26 estados e no Distrito Federal. Os indivíduos estão distribuídos em 162 municípios brasileiros e o período de realização das entrevistas foi de 27 de janeiro a 1.º de fevereiro.

Na modalidade espontânea da pesquisa, em que a pergunta é feita sem a indicação de nomes de candidatos ao entrevistado, 26% das pessoas consultadas disseram que votariam em Lula para presidente, enquanto Bolsonaro foi citado em 21,7% das respostas.

Quando são apresentados nomes dos candidatos, Lula também aparece à frente em todos os cenários. No levantamento com nove pré-candidatos, Lula foi escolhido em 40,1% dos casos, ao passo que Bolsonaro apareceu como opção de 29,1% dos entrevistados.

A pesquisa apresenta os resultados dessa segunda modalidade em cada região do país. Lula aparece como candidato favorito nas regiões Nordeste (com 52,7% das intenções de voto, contra 22% de Bolsonaro) e Sudeste (com 39,8%, contra 28,1% para o atual presidente). Jair Bolsonaro, por sua vez, lidera as intenções de voto nas regiões Norte e Centro-Oeste (com 36,8%, contra 32,6% para Lula) e no Sul (com 36,8%, contra 25,8% para Lula).

| Fonte: Relatório disponível na página da Paraná Pesquisas, página 6.

Em um segundo cenário, com apenas cinco pré-candidatos, Lula apareceu com 41% das intenções, e Bolsonaro, com 29,6%.

Nesse cenário, assim como no anterior, Lula é o favorito nas regiões Nordeste (53,2% contra 22,4% de Bolsonaro) e Sudeste (41% para o petista e 28,5% para Bolsonaro). Já o atual presidente tem a preferência de eleitores das regiões Norte e Centro-Oeste (37,8% contra 33,9% para Lula) e Sul (37,1% contra 26,5% para Lula).

| Fonte: Relatório disponível na página da Paraná Pesquisas, página 8.

Em um eventual segundo turno disputado entre Lula e Bolsonaro, o primeiro teria 48,8% das intenções de voto, enquanto o atual presidente aparece com 34,4%, segundo a pesquisa.

O documento traz ainda um comparativo entre o levantamento deste ano e a última pesquisa realizada em 2021, com dados de novembro.

| Fonte: Relatório disponível na página da Paraná Pesquisas, página 7.

É importante ressaltar que o relatório do cenário nacional disponibilizado em fevereiro de 2022 não contém um detalhamento das intenções de voto por estado.

Em novembro de 2021, o Estadão Verifica fez a checagem de uma imagem com resultados falsos do Paraná Pesquisas quase iguais aos do post que viralizou agora. Por email, a empresa negou que eles fossem verídicos. “A imagem enviada não corresponde a pesquisa realizada pelo nosso instituto. Trata-se de uma notícia falsa”, afirmou na época. O Estadão é um dos veículos que fazem parte do Comprova.

Ao longo do ano de 2021, foram realizadas pesquisas nacionais nos meses de maio, junho, julho e novembro. Em maio e junho, Bolsonaro ainda aparecia à frente de Lula, situação que mudou a partir de julho. Bolsonaro também estava à frente na pesquisa de dezembro de 2020, cujo relatório foi publicado em janeiro do ano seguinte.

Além disso, a vantagem de Lula nas pesquisas tem aumentado gradativamente. Em julho, o petista aparecia com 33,7% das intenções de voto; chegou a 34,9%, em novembro; e, finalmente, a 40,1% das intenções de votos em fevereiro de 2022. Novamente, observamos que os relatórios disponibilizados não oferecem um detalhamento por estado.

Ao procurar por pesquisas estaduais, não é possível encontrar documentos referentes a todas as unidades da federação. Para os estados com relatórios disponibilizados na página, chama a atenção o fato de as pesquisas terem sido realizadas em meses diferentes.

Em pesquisa de julho de 2021, Bolsonaro teve o melhor desempenho em São Paulo, com 34% dos votos, contra 29,3% de Lula. No Rio de Janeiro, em junho, o atual presidente aparece com 34,2% da preferência, contra 30% para Lula. No entanto, Lula saiu à frente em São Paulo em um levantamento de dezembro de 2021, com 32% das intenções contra 27,9% dos votos para Bolsonaro (não foi encontrada pesquisa deste mesmo mês para o estado do Rio de Janeiro).

A pesquisa disponível para Santa Catarina, de julho de 2021, indica que Bolsonaro seria o mais votado, com 52% dos votos, contra 24,2% de Lula. No Rio Grande do Sul, a consulta é de maio do mesmo ano, indicando 30% de preferência para Bolsonaro, enquanto 24,9% dos entrevistados escolheriam Lula. Em Tocantins, o levantamento foi feito em agosto, com Bolsonaro sendo o candidato preferido de 37,6% dos entrevistados Lula foi a escolha de 28,8% das pessoas questionadas. Em Minas Gerais, a pesquisa feita em novembro indicou 33,9% das intenções de voto para o atual presidente, contra 31,9% de Lula.

Contudo, mesmo nesses estados em que Bolsonaro aparece como o candidato preferido, as porcentagens estão bem distantes daquela apresentada na mensagem que vem sendo compartilhada pelo WhatsApp.

Outras pesquisas

Para ter um panorama das pesquisas eleitorais, o Comprova também consultou os levantamentos mais recentes feitos pelo Datafolha, Ipec, PoderData e Ipespe sobre a intenção de voto para presidente em 2022. Nesses quatro institutos, apesar de haver variações nas porcentagens, Lula aparece liderando a disputa presidencial, com Jair Bolsonaro em segundo lugar. Todos os levantamentos aqui citados consideram os votos em todo o Brasil, não separados por estado.

A pesquisa mais recente entre os quatro institutos é a do PoderData, divulgada em 2 de fevereiro. O levantamento aponta o ex-presidente Lula na liderança, com 41% das intenções de voto, contra 30% do presidente Jair Bolsonaro. Em comparação com o levantamento anterior do PoderData, a vantagem do petista sobre o atual presidente caiu de 14 para 11 pontos. Em terceiro lugar, aparecem Ciro Gomes e Sergio Moro, ambos com 7%.

Já o levantamento mais atual do Ipespe foi divulgado no dia 27 de janeiro deste ano, também apontando o ex-presidente Lula na liderança da disputa presidencial, com 44% das intenções de voto. Jair Bolsonaro aparece em segundo lugar, com 24%. Sergio Moro e Ciro Gomes estão empatados em terceiro lugar, com 8%. No segundo turno, a pesquisa aponta que Lula venceria em todos os cenários testados.

O mais recente levantamento do Datafolha foi divulgado em 16 de dezembro de 2021. Nele, o ex-presidente Lula lidera a disputa com 48%, seguido por Jair Bolsonaro, com 22%, e pelo ex-juiz Sergio Moro, que aparece com 9%, empatado tecnicamente com Ciro Gomes, com 7%.

O Ipec, que divulgou o último levantamento em 14 de dezembro de 2021, mostra um cenário muito semelhante. Lula tem 48% das intenções de voto, enquanto Jair Bolsonaro tem 21%, Sergio Moro, 6%, e Ciro Gomes, 5%. Mesmo na modalidade espontânea (quando não são apresentados os nomes dos candidatos), Lula aparece na frente, com 40%, e Jair Bolsonaro na sequência, com 20%.

Desinformação circula desde 2018

Informações falsas sobre o cenário eleitoral presidencial circulam na web há muito tempo, sendo investigadas por diferentes agências de checagens. Em 2018, o Comprova identificou como falsa uma pesquisa em que Jair Bolsonaro supostamente aparecia vencendo em todos os estados. Em nota, o Instituto Paraná, identificado como fonte da informação, afirmou que não publicou pesquisa com resultados para todos os estados brasileiros e orientou as pessoas a desconsiderarem o conteúdo. Em outubro do mesmo ano, a Agência Pública também verificou a informação, identificando como falso um conteúdo similar.

Em 2021, peças de desinformação com esse conteúdo voltaram a circular na web. A Agência Lupa (em abril), o site Boatos.org (em setembro) e Aos Fatos (em novembro) verificaram que essa informação é falsa.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre as eleições de 2022, a pandemia de covid-19, e as políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. A verificação de conteúdos ligados às eleições é importante para que o eleitor possa tomar decisões de voto baseado em informações verídicas. A desinformação em questão é recorrente desde 2018, o que mostra a importância dessa verificação.

O conteúdo verificado aqui foi sugerido por vários leitores do Comprova através do WhatsApp, onde circulou. Sugestões como esta podem ser encaminhadas pelo número (11) 97045-4984, ou clicando neste link. O texto também foi publicado em pelo menos dois grupos do Facebook, mas teve pouca viralização nesta rede.

Em relação às eleições deste ano, o Comprova já mostrou que mesmo sem biometria o eleitor poderá votar; que um vídeo engana ao dizer que o Facebook restringiu o compartilhamento de conteúdo pró-Bolsonaro; que o texto com críticas a Moro no New York Times é de um cientista político e não representa a opinião do jornal; e que o vídeo em que torcedores do Atlético Mineiro xingando Lula é de 2016, não atual.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Esta verificação foi feita por jornalistas que participam do Programa de Residência no Comprova.

Eleições

Investigado por: 2022-01-27

Mesmo sem biometria, eleitor poderá votar em 2022

  • Falso
Falso
É falsa a afirmação de que será exigido cadastro de biometria para votar nas eleições gerais de 2022. Publicações com variações dessa mesma mensagem têm sido divulgadas por perfis pró-Bolsonaro no Facebook, Twitter e WhatsApp, alertando para um suposto prazo para realizar o cadastramento, que se encerraria em 4 de maio. A data, na verdade, refere-se ao prazo para regularizar o título de eleitor. Um texto no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esclarece que o cadastro biométrico está suspenso desde 2020 devido à pandemia de covid-19, e que “nenhuma eleitora ou eleitor que não realizou o cadastramento será proibido de votar”.
  • Conteúdo verificado: Postagem no Facebook afirma que o prazo para registrar biometria para as eleições de 2022 se encerra em 4 de maio. O texto sugere que o cadastro é obrigatório para poder votar, e afirma que a informação não tem sido divulgada para barrar apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL). O autor pede que a publicação seja compartilhada “para alcançar o maior número possível de eleitores da direita”.

É falsa a afirmação de que será exigido cadastro de biometria para votar nas eleições gerais de 2022. Publicações com variações dessa mesma mensagem têm sido divulgadas por perfis pró-Bolsonaro no Twitter, no Facebook e também por WhatsApp, sugerindo a existência de um “complô” do TSE com a mídia tradicional para ocultar essa informação dos apoiadores do atual presidente, impedindo que votem por sua reeleição.

As postagens alertam que em 4 de maio se encerraria o suposto prazo para registrar a biometria. A data, na verdade, refere-se ao prazo para regularizar o título de eleitor.

Um texto sobre o boato no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informa que o cadastro biométrico está suspenso desde 2020 devido à pandemia de covid-19, e que “nenhuma eleitora ou eleitor que não realizou o cadastramento será proibido de votar”.

O Comprova procurou o autor de uma postagem com mais de 4 mil interações no Twitter por e-mail, WhatsApp e perfis no Facebook, mas não obteve resposta até a publicação desta verificação.

O conteúdo foi classificado como falso porque apresenta uma mentira, sem fundamento na realidade, para gerar confusão sobre o processo eleitoral.

Como verificamos?

O Comprova iniciou esta checagem buscando as informações em canais oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) de diferentes estados brasileiros a respeito do processo de cadastramento biométrico. O sistema foi um mecanismo criado pela Justiça Eleitoral para tornar o processo eleitoral brasileiro ainda mais seguro.

Conforme o TSE, a adoção da biometria — usada pela primeira vez na eleição de 2008, em três cidades brasileiras — reduziu significativamente a intervenção humana no processo de votação. A urna só é liberada para votação quando o leitor biométrico identifica as impressões digitais do eleitor, as quais são verificadas eletronicamente a partir do banco de dados unificado da Justiça Eleitoral.

Por causa da pandemia da covid-19, o processo de cadastramento biométrico no país precisou ser suspenso. A medida foi determinada pelo TSE, por meio da Resolução nº 23.615/2020, para prevenir a infecção pelo vírus.

O Comprova verificou também os prazos estipulados no calendário eleitoral de 2022 e as datas que devem ser observadas pelos partidos, candidatos e eleitores. A data mencionada na publicação alvo desta checagem [4 de maio] diz respeito ao prazo limite para que eleitores realizem operações de transferência do local de votação e revisão de qualquer informação constante do Cadastro Eleitoral.

Nessa segunda-feira (24 de janeiro), pela viralização de conteúdos com mesmo teor do post checado nesta verificação, o TSE e outros TREs de todo o país divulgaram informações em seus canais oficiais (site e redes sociais como o Facebook), classificando como falsas as alegações de que o eleitor que não realizar o cadastramento biométrico até 4 de maio estará impedido de votar na eleição, seja em primeiro (2 de outubro) ou segundo turno (30 de outubro).

O projeto de checagens também conversou com a advogada atuante em direito público e defesa de mulheres Maíra Recchia.

Verificação

Biometria suspensa

O texto verificado pelo Comprova, compartilhado por um perfil pessoal no Facebook, e propagado no WhatsApp e outras redes sociais, afirma que o cadastro eleitoral encerra em 4 de maio de 2022 e, de forma equivocada, aponta que quem não tiver registrado a biometria até esta data não poderá votar.

No entanto, o próprio TSE, em um release publicado na tarde de segunda-feira (24), informou que o eleitor sem biometria não será impedido de votar em 2022. Reiterou, ainda, que o cadastro biométrico continua suspenso em todo o país.

Além disso, todas as informações relativas à biometria, assim como a suspensão do cadastramento em função da pandemia da covid-19 foram divulgadas pelo TSE em seus canais oficiais (site e redes sociais). As mesmas informações também foram publicadas por Tribunais Regionais Eleitorais de diferentes partes do país.

Impressão digital

A advogada atuante em direito público e defesa de mulheres Maíra Recchia explicou ao Comprova que a biometria é uma forma de identificar o eleitorado pela impressão digital. “[A biometria] veio para conferir maior agilidade no processo de identificação daquele(a) que irá votar. Nesse formato, a urna só é liberada para votação quando o leitor biométrico identifica as impressões digitais da eleitora ou do eleitor, após o competente cadastramento biométrico na Justiça Eleitoral”, esclareceu.

Recchia enfatiza, assim como os órgãos eleitorais, que em virtude da pandemia da covid-19 o cadastramento biométrico foi suspenso, mas que aqueles que não se cadastraram continuam aptos a votar conforme a resolução do TSE número 23.669/2021.

“Essa resolução trata dos atos gerais do processo eleitoral, e dispõe que a carteira de identidade, identidade social, passaporte ou outro documento de valor legal equivalente, inclusive carteira de categoria profissional reconhecida por lei, certificado de reservista; carteira de trabalho e carteira nacional de habilitação são documentos suficientes para comprovar a identidade do(a) eleitor(a) e permitir o exercício do voto. Ou seja, quem ainda não se cadastrou biometricamente basta (portar um desses documentos)”, disse.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições. O projeto observa os dados de viralização e o impacto desses conteúdos para decidir pela verificação. Nos últimos anos, tem se tornado comum a circulação de mensagens e informações falsas com o intuito de descredibilizar e tumultuar o processo eleitoral no país.

A mesma publicação analisada nesta checagem do Comprova teve variações divulgadas por perfis pró-Bolsonaro no Facebook, Twitter e WhatsApp. Todas sugerem a existência de um “complô” entre o TSE e a mídia tradicional para ocultar uma suposta obrigatoriedade de realização de cadastramento biométrico para participação no processo eleitoral deste ano.

O suposto “complô” teria o objetivo de afastar das urnas apoiadores do presidente Bolsonaro, impedindo uma possível reeleição. Uma das postagens teve mais de 4.000 interações.

A segurança no sistema eleitoral é um dos principais alvos de desinformação hoje nas redes sociais. O conteúdo aqui verificado também foi investigado pelo Boatos.org, G1, Agência Lupa e desmentido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Para o Comprova, falso é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2022-01-21

Vídeo engana ao dizer que Facebook restringiu compartilhamento de conteúdo pró-Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso vídeo em que um homem alega que o Facebook não permite o compartilhamento de uma gravação que mostra o presidente Jair Bolsonaro (PL) no Pará. A visita ocorreu em agosto de 2020 e a imagem mostra o presidente sendo recebido por um grupo de apoiadores. O autor do vídeo, que circula no TikTok e no próprio Facebook, acusa a empresa americana de boicote. No entanto, a publicação tem a visualização limitada para os usuários que são amigos do responsável por postar as imagens do presidente no Facebook. Isso inviabiliza o compartilhamento e não há o suposto boicote.
  • Conteúdo verificado: Um vídeo no qual um homem alega que o Facebook não permite o compartilhamento de uma gravação mostrando o presidente Jair Bolsonaro (PL) em uma visita a Belém do Pará. No vídeo, o homem filma a tela de um celular e mostra uma publicação na linha do tempo do Facebook sem o botão de compartilhamento. O conteúdo circula no TikTok.

É enganosa a afirmação feita em vídeo que viralizou no TikTok, em que o autor diz que o Facebook censurou o compartilhamento de imagens que mostram o presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), cumprimentando apoiadores durante uma visita a Belém do Pará no dia 13 de agosto de 2020. O vídeo segue circulando nas redes sociais até hoje.

O autor grava a tela de um celular e mostra um vídeo publicado na linha do tempo do Facebook, destacando que não há botão de compartilhamento. Então, ele copia o link da publicação, afirmando que esta é uma outra forma de divulgar a postagem. Neste ponto, é possível perceber – por causa dos ícones que aparecem abaixo do nome dos donos dos perfis – que o vídeo que o autor tenta compartilhar foi publicado de forma restrita a amigos (por isso, a ausência da opção direta de compartilhamento).

Em seguida, ainda gravando a tela do celular, ele mostra ter compartilhado a postagem (de forma pública, modalidade que confere acesso a todos os usuários do Facebook) usando o link para o conteúdo. Então, o autor grava a tela de outro celular, que estaria, supostamente, logado no perfil do Facebook de sua esposa, e diz que não consegue abrir o mesmo conteúdo neste aparelho.

Vale lembrar que o vídeo compartilhado estava disponível apenas para amigos do responsável pela primeira publicação. Ou seja, não estará disponível caso pessoas que não estejam nesta lista tentem clicar.

No vídeo, é possível ver apenas a mão do autor e ouvir sua voz. Além disso, a imagem não permite confirmar que o link do vídeo compartilhado em seu celular é o mesmo que ele tenta abrir no aparelho da suposta esposa.

Pela imagem, não é possível ter certeza sobre quais perfis são responsáveis pelas postagens. A equipe entrou em contato com páginas semelhantes (nome e foto) às que aparecem no vídeo, mas os donos não responderam ou afirmaram não conhecer o conteúdo. Em nota, o Facebook informou que o vídeo da visita de Bolsonaro ao Pará está disponível na rede social e pode ser compartilhado.

Para o Comprova, enganoso é todo conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Inicialmente, a equipe do Comprova tentou localizar a publicação citada pelo autor do vídeo no Facebook. Isso foi feito por meio de busca na própria rede social e também escrevendo a URL que aparece na filmagem. No entanto, por causa da falta de qualidade da imagem, a URL não está completamente legível.

No vídeo é possível ver o nome de três pessoas — autor do vídeo, sua esposa e a pessoa que fez a publicação original. O Comprova tentou localizar as três.

Na sequência, a equipe analisou o vídeo e conferiu o que diz a Política de Conteúdo da rede social para verificar quando uma publicação pode ter o compartilhamento limitado.

Outra ação foi compartilhar uma publicação no Facebook para verificar se algo semelhante ao mostrado no vídeo acontece.

A equipe também questionou o Facebook sobre a publicação citada no vídeo. Em paralelo, confirmou com base na agenda oficial e em imagens publicadas por veículos de imprensa (aqui) que o presidente Jair Bolsonaro de fato esteve no Pará na data citada.

Verificação

O vídeo

Na gravação aqui verificada, é possível identificar no Facebook algumas informações da publicação original do vídeo em que Bolsonaro aparece. A postagem contém, por exemplo, a legenda “Chupa Petralhas e Globolixo… O Mito em Belém”. O Comprova tentou localizar o conteúdo por meio da busca pela palavra “Globolixo” no perfil identificado pela equipe como possível responsável pela publicação e também escrevendo o que parece ser a URL que aparece na filmagem, mas não encontrou nenhum resultado. A URL, inclusive, não está completamente legível.

Seleção de público

A postagem inicial que divulga a filmagem do presidente está com o marcador “seus amigos”, identificado pelo ícone de duas figuras humanas em preto (veja abaixo). Isso significa que a publicação só está disponível para ser compartilhada por pessoas que estão adicionadas na rede do perfil responsável pelo post.

Depois de mostrar a publicação sem a opção do botão compartilhar, o autor do vídeo aqui verificado exibe a postagem anterior feita pelo perfil que divulgou a gravação de Bolsonaro no Pará. Esta, ao contrário da filmagem do presidente, mostra a opção de compartilhamento porque está com o marcador “público”, identificado pelo ícone de um globo terrestre, significando estar disponível para qualquer pessoa dentro ou fora do Facebook.

| A publicação original do vídeo tem visualização restrita aos amigos do usuário. Já o compartilhamento, feito pelo autor do vídeo, tem permissão de visualização para todos.

Publicações diferentes

Sem a opção de compartilhar o vídeo de Bolsonaro diretamente, o autor opta por copiar o link da publicação original e postar em sua timeline. Ao fazer isso, o homem mostra o post com o link e o marcador “público”. O Comprova tentou encontrar a postagem pela URL, mas ela não estava completamente legível por causa da qualidade do vídeo.

Em seguida, o autor desbloqueia o segundo celular — também com sistema operacional Android — e abre a conta do Facebook da suposta esposa. O homem então expõe uma publicação diferente daquela mostrada no primeiro aparelho.

Essa segunda postagem é uma publicação feita pelo autor do vídeo na timeline da esposa, e não um compartilhamento de vídeo em seu próprio perfil. É possível ver que o marcador desta segunda publicação é o de “seus amigos”, limitando assim quem pode ter acesso ao conteúdo.

Além disso, essas duas postagens, que o homem cita como sendo a mesma, têm horários de publicação diferentes. A primeira é mostrada como compartilhada há quatro minutos. Já a segunda, na timeline da esposa, foi publicada 12 minutos antes da gravação dele.

| As publicações têm horários diferentes. Na imagem da esquerda, o conteúdo aparece como publicado há 4 minutos. Já a da direita, aparece como publicada há 12 minutos.

Sendo assim, não é possível afirmar que o conteúdo que o homem mostra no celular da esposa é de fato o vídeo de Bolsonaro no Pará.

O Comprova também fez um teste de compartilhamento público no Facebook de um outro vídeo da visita de Bolsonaro ao Pará na mesma data e não encontrou obstáculos para finalizar o processo ou visualizar a postagem.

Os perfis

No vídeo são reconhecidos nomes de três pessoas: o autor do vídeo aqui verificado, sua suposta esposa e a pessoa que fez a publicação original. Fazendo uma busca na rede social, o Comprova localizou perfis de pessoas com os mesmos nomes e fotos semelhantes às que aparecem no vídeo, mas não é possível confirmar que são as mesmas páginas que aparecem no conteúdo aqui verificado.

A equipe entrou em contato com os perfis encontrados, mas os donos das páginas não responderam ou afirmaram não conhecer o conteúdo.

O que diz o Facebook

Procurado pelo Comprova, o Facebook afirmou que um vídeo do presidente Bolsonaro em Belém do Pará está disponível e pode ser compartilhado na rede.

A postagem a que a rede se refere é de outro perfil, este não mencionado no vídeo do TikTok. A data de publicação é do dia 13 de agosto de 2020.

Questionado sobre a publicação citada no vídeo do TikTok, a empresa americana afirmou que, por questões de privacidade, não poderia comentar ou dar detalhes. Ou seja, não é possível dizer se a postagem original do vídeo em que Bolsonaro aparece foi deletada pelo perfil responsável, se está restrita a amigos ou se o Facebook a removeu por alguma razão.

Bolsonaro no Pará

O presidente Bolsonaro de fato esteve em Belém do Pará no dia 13 de agosto de 2020. Ele participou da inauguração do Parque Urbano Belém Porto Futuro e aparece discursando em um vídeo publicado no canal do Poder 360 no YouTube. A visita também consta na agenda oficial do presidente e reportagem publicada pelo portal G1 Pará registrou a passagem do presidente pelo estado.

Limitação de conteúdo no Facebook

O Facebook tem uma série de regras a respeito da limitação de conteúdos que circulam na rede social. De acordo com os “Padrões da Comunidade”, as publicações que podem sofrer limitação devem se enquadrar em uma das seguintes categorias: conteúdos que não são permitidos; que requerem mais informação ou contexto para a tomada de providências (que passam a conter um aviso); ou que são permitidos, mas apenas maiores de 18 anos de idade podem vê-los.

Segundo a política do Facebook, conteúdos podem violar as normas da rede social se inseridos em cinco principais temas: violência e comportamento criminoso; segurança; conteúdo questionável; integridade e autenticidade, e respeito à propriedade intelectual.

Caso o conteúdo publicado na rede se enquadre em uma dessas violações, o Facebook toma providências, que, a depender do caso, podem ser: remoção do conteúdo; contabilização de advertências; restrição da conta; restrição da conta de uma figura pública durante agitações civis; desativação da conta e remoção de página e/ou grupo.

Nas regras da rede, no entanto, não há menção à uma restrição somente do compartilhamento de conteúdo.

Por que investigamos?

O Comprova tem o compromisso de investigar conteúdos suspeitos que tenham viralizado na internet sobre pandemia, políticas públicas e eleições. Neste caso, o post teve mais de 10,1 mil interações no TikTok, entre curtidas e comentários. Além disso, o conteúdo foi compartilhado 3,2 mil vezes para outras redes sociais e aplicativos de mensagens como Twitter, Facebook e WhatsApp.

Jair Bolsonaro é pré-candidato à reeleição. Publicações enganosas relacionadas a política prejudicam a democracia. Os eleitores não devem tomar decisões sobre em quem votar com base em conteúdo de desinformação.

O Comprova também verificou outras postagens relacionadas à eleição, como sobre uma enquete popular que não oficializou Bolsonaro como Personalidade do Ano da Time e outra sobre o caso de músicos que não ofenderam Lula ao recebê-lo em uma instituição francesa.

Para o Comprova, enganoso é conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2021-12-10

Enquete popular não oficializa Bolsonaro como Personalidade do Ano da Time

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso que Jair Bolsonaro (PL) tenha sido eleito Personalidade do Ano pela revista Time. O presidente venceu votação popular na internet, o que é diferente da escolha feita pelos editores, que determina o título oficial. Capas da revista que circulam nas redes com a suposta conquista são falsas.
  • Conteúdo verificado: Vídeos no Facebook expõem montagens de capas da Time com imagens de Jair Bolsonaro como Personalidade do Ano. Uma das gravações traz um compilado de publicações anteriores da revista e finaliza com uma foto do presidente. Em outra, autor questiona a ausência da notícia no Jornal Nacional.

É enganoso que o presidente Jair Bolsonaro (PL) tenha sido eleito a Personalidade do Ano pela revista Time, ao contrário do que afirmam postagens no Facebook. O resultado citado pelos autores e divulgado em 7 de dezembro se refere à enquete feita anualmente pela publicação na internet, o que não representa o resultado final. A escolha definitiva virá a público em 13 de dezembro. Uma votação não tem relação direta com a outra, embora os editores possam concordar com o resultado da enquete.

Bolsonaro recebeu 24% dos 9 milhões de votos totais computados de forma online. Na sequência, aparecem o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, com 9%, e, em terceiro, com 6,3% dos votos, profissionais de serviços de saúde que atuaram contra a covid-19. Na matéria sobre os primeiros colocados da enquete, a revista destaca que a escolha da personalidade de maior influência no ano é feita “para o bem ou para o mal”.

O Comprova entrou em contato com os perfis que publicaram informações enganosas, mas não obteve retorno até a publicação desta investigação. Enganoso, segundo o Comprova, é todo conteúdo retirado do seu contexto original de modo que seu significado sofra alterações.

Como verificamos?

Inicialmente, realizamos busca no Google com as palavras-chave que envolvem o tema: Bolsonaro, Time e personalidade.

Uma matéria do Estadão sobre o assunto, publicada no último dia 8, diferencia a votação popular da escolha feita pelos editores da revista norte-americana, esta, sim, definitiva. Outro texto consultado, do site alemão DW, estabelece a mesma distinção entre as duas etapas.

A reportagem também recorreu ao banco de dados da própria revista Time para esclarecer fatos históricos sobre as edições da revista.

De quatro publicações com mesmo teor investigadas pelo Comprova, duas são marcadas como inverídicas pelo Facebook. A reportagem entrou em contato com os autores dos posts que contêm desinformação, mas não teve retorno até a publicação deste texto.

Verificação

Enquete popular

A votação vencida por Bolsonaro foi aberta ao público e apoiadores do presidente se articularam em grupos no Telegram para incentivar a participação. “Vote em Bolsonaro na enquete da revista americana e faça o Bonner chorar dando a notícia da vitória do presidente”, escreveu um usuário no grupo “Bolsonaro Presidente”, que contabiliza 10.276 membros.

Outro membro do mesmo grupo compartilhou uma capa falsa, com uma montagem da imagem de Bolsonaro em um fundo neutro da revista, com o título, em inglês, “Person of the Year”. Há ainda uma legenda ao lado da foto com os dizeres “Jair Bolsonaro, presidente do Brasil e líder do mundo livre”.

Diferentemente de apoiadores, o perfil do presidente no Twitter reconheceu que Bolsonaro não foi escolhido oficialmente. O mandatário agradeceu os votos recebidos e manifestou o desejo de que a revista conceda a ele o prêmio final.

Antes disso, em uma live semanal transmitida em 25 de novembro, Bolsonaro chegou a comentar a abertura da enquete popular. “A revista Time está fazendo aí uma enquete, como faz há décadas, personalidade do ano. São cem pessoas. Eu estive entre as cem pessoas em 2019 e em 2020. E, agora em 21, estamos liderando. Então, eu agradeço quem votou em mim. Quem não votou, eu peço que entre no site da Time e vote. Você vota nos cem se você aprova ou não.”

O presidente segue: “O voto, pessoal, é se você achar se aquela pessoa te agrada ou não. E a gente está disparado nisso aqui. Espero que ganhe, né? Espero que ganhe. Se ganhar, se merecer, até agradeço quem votou em mim. Quem não votou tem a oportunidade aí de votar nessa possível personalidade do ano”.

Capas históricas

Um dos vídeos aqui verificados mostra uma linha do tempo com imagens de pessoas que, de fato, estamparam a capa da revista como Personalidades do Ano, como o pacifista indiano Mahatma Gandhi (1930), o ex-líder da antiga União Soviética Josef Stalin (1939), os ex-presidentes dos Estados Unidos Barack Obama (2008-2012) e Donald Trump (2016). O post foi feito em um grupo público, com apoiadores de Bolsonaro, que soma mais de 95 mil membros. Ao final do vídeo, Bolsonaro aparece em uma capa falsa, como se fizesse parte da sequência de pessoas que verdadeiramente receberam o destaque.

A tradição da Personalidade do Ano começou em 1927, quando o pioneiro da aviação nos Estados Unidos, Charles Lindbergh, foi escolhido o homem mais influente. De acordo com a revista, a escolha surgiu por acaso. As capas da época haviam acabado de adquirir a emblemática borda na cor vermelha e priorizavam retratos de figuras que se destacavam nos eventos da semana. Mas, naquele fim de ano, os editores não chegaram a um consenso sobre quem deveria levar o título.

Foi aí, então, que nasceu a ideia de reconhecer uma Personalidade do Ano, e não apenas da semana, segundo um editorial publicado em 1945. O texto pondera, no entanto, que a escolha por Lindbergh foi também uma espécie de retratação da revista por não ter dado destaque, até então, a um dos heróis da época. Na semana em que se noticiou o feito histórico do aviador, que realizou o primeiro voo transatlântico sem escalas, a Time optou por estampar uma imagem do Rei Jorge V e da Rainha Maria, do Reino Unido.

Desde o início da publicação da revista, em 1923, quatro brasileiros foram retratados na capa da revista norte-americana em edições semanais. São eles: o advogado e político Julio Prestes (1930), o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek (1956), o também ex-presidente da República Jânio Quadros (1961) e o ex-líder do regime militar Costa e Silva (1967).

Segundo matéria do site alemão DW, a eleição popular realizada atualmente sobre a Personalidade do Ano não tem influência sobre a escolha feita por profissionais do periódico. O principal objetivo da enquete é gerar engajamento no site do veículo.

Em 2019 e 2020, Bolsonaro foi incluído na lista das 100 pessoas mais influentes daqueles anos, também elaborada pela revista Time. O documento inclui figuras de artistas, empresários, empreendedores e líderes mundiais. No ano passado, o youtuber Felipe Neto também foi um dos agraciados. Agora, em 2021, a única brasileira na lista é a empresária Luiza Trajano.

Essas escolhas também ficam a cargo dos editores da revista. Os nomes são selecionados de acordo com o grau de influência, não importando o mérito das ações de cada um dos ali citados. As fotos dos escolhidos também são acompanhadas de um texto com uma breve descrição feita não apenas por jornalistas, mas também por autoridades e outras figuras públicas.

Mais peça de desinformação

Outro vídeo que circula no Facebook, intitulado “globo lixo é assim mesmo, lixo 💆‍♀️ 💆‍♂️ 💆‍♂️ 💆‍♀️ 💆‍♂️ 💆‍♂️ 💆‍♀️ de mentiras… ”, resgata uma gravação do Jornal Nacional de dezembro de 2019, quando foi noticiada a escolha da ativista Greta Thunberg como Personalidade do Ano pela Time. Neste caso, a eleição foi feita pelos editores da revista e, portanto, se trata de um resultado oficial.

A mesma peça compila outro momento do jornal, de dezembro deste ano, em que os âncoras William Bonner e Renata Vasconcellos anunciaram a conquista de dois Prêmios Caboré por profissionais da Globo. A cerimônia é realizada anualmente desde 1980 pelo Grupo Meio & Mensagem, e reconhece funcionários, agências e empresários ligados ao setor de propaganda no Brasil.

O vídeo, que teve mais de 19 mil visualizações até a publicação desta reportagem, inclui uma montagem do autor, que, com tom de ironia, questiona o motivo de os jornalistas não terem noticiado a conquista de Jair Bolsonaro como Personalidade do Ano, como fez com Greta Thunberg. A afirmação é enganosa, pois, como já explicado, o presidente levou o título apenas na votação online, e isso não fica claro no vídeo. Há ainda uma capa falsa, em que o autor coloca outra montagem da imagem de Bolsonaro na revista.

Em determinado momento do vídeo, o autor desdenha do Prêmio Caboré e faz críticas à imprensa: “(…) É o presidente da República, o presidente do país, e eles não deram uma nota, uma notinha sequer, mas deram 5 minutos para duas maritacas deles que ganharam o Prêmio Caboré não sei das quantas, coisinha deles lá. O presidente do Brasil ganhou a Celebridade do Ano da revista Time, a revista mais importante do mundo, e essa ‘rede Goebbels’ [referência a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda na Alemanha nazista] não deu uma nota. É esse o nível de jornalismo que temos aqui, principalmente o da Rede Globo”.

Depois, conclui: “Não é lixo, não é lavagem de esgoto, é muito abaixo disso. É uma coisa deprimente, deplorável, e um desrespeito à classe deles, que se julgam jornalistas. Parabéns, presidente Bolsonaro, o Brasil está com o senhor. Mais um gol de placa para o nosso País e para o senhor também. Fiquem com Deus.”

O perfil do responsável por compartilhar o material no Facebook traz uma série de outros vídeos com críticas ao Supremo Tribunal Federal, à imprensa e a partidos políticos.

O que diz a Time

Na primeira vez em que Bolsonaro foi escolhido uma das 100 pessoas mais influentes do ano pela Time, em 2019, o editor Ian Bremmer definiu o presidente como um “personagem complexo”. O texto coloca que o político representava a “melhor chance em uma geração de ordenar as reformas econômicas” e que sua eleição marcava uma “quebra brusca em décadas de corrupção de alto nível”.

O editor também diz que Bolsonaro é um “garoto propaganda de masculinidade tóxica, um ultraconservador homofóbico” e um propulsor de uma guerra cultural que poderia se estender para um “revés no progresso do Brasil com as mudanças climáticas”. A mesma descrição defende que o país vive uma democracia dinâmica, com instituições robustas, e que o presidente teria que “aprender a trabalhar com o sistema” para avançar na agenda.

No ano seguinte, o editor internacional da revista Dan Stewart ficou responsável pelo breve contexto negativo que levou Bolsonaro a ser incluído, pela segunda vez, na lista dos 100 mais influentes. O jornalista destacou o números de mortos pela covid-19 (à época, 137 mil), os efeitos negativos da pandemia na economia, as exonerações de cinco ministros da alta cúpula do governo federal, e as queimadas na Amazônia.

Depois, define o presidente como um “homem teimoso e cético”, cuja aprovação, até então, era de 37% da população brasileira. O editor argumenta que parte desse apoio se deve ao pagamento do auxílio emergencial aos mais pobres, mas pondera que, na visão dele, há também uma “espécie de culto ao comando” de Bolsonaro.

O último texto faz parte da matéria que traz o resultado da enquete popular. O site descreve o cenário com o qual ele tentará novo mandato: “O polêmico líder, que será candidato à reeleição em 2022, está enfrentando uma desaprovação crescente sobre seu manejo da economia e enfrentou críticas generalizadas de políticos, tribunais e especialistas em saúde pública por minimizar a gravidade da covid-19 e exibir ceticismo em relação à vacina”.

A publicação cita também dois episódios recentes envolvendo Bolsonaro: os pedidos de indiciamento feitos pela CPI da Pandemia e o inquérito no Supremo Tribunal Federal que apura a declaração do presidente relacionando vacinas ao desenvolvimento de Aids.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas e eleições. As postagens aqui investigadas, juntas, contabilizam mais de 28 mil interações, incluindo curtidas, compartilhamentos e visualizações no Facebook.

Os conteúdos foram compartilhados por perfis de apoiadores do presidente para promover a falsa compreensão de que o mandatário realiza um governo reconhecido como positivo por uma influente revista estrangeira.

Para isso, os posts partem da premissa enganosa de que as tradicionais capas da Time têm como finalidade prestar homenagens. A escolha de Personalidade do Ano, como mostrado nesta checagem, é o reconhecimento de nomes que tenham exercido influência positiva ou negativa. O tom dos comentários no Facebook é de comemoração.

“Ele fez por merecer, por mais que a esquerdalha o bata, ele mais vai crescendo mundo afora. Viva o nosso presidente que Deus continue abençoando, vamos firmes pra 2022”, escreveu um usuário. “Que orgulho ter esse homem como presidente”, celebrou outra.

O conteúdo aqui verificado também foi investigado pelo UOL Confere, pela AFP Checamos e pelo Estadão Verifica.

Para o Comprova, enganoso é todo conteúdo retirado do seu contexto original de modo que seu significado sofra alterações.

Eleições

Investigado por: 2021-12-10

Músicos não ofenderam Lula ao recebê-lo em instituição francesa

  • Falso
Falso
Vídeo tem áudio alterado para parecer que grupo de percussão recebeu o ex-presidente Lula (PT) na Sciences Po, tradicional instituição de ensino de Paris, chamando-o de "filha da puta" durante apresentação. Os músicos entoam, em francês, "C'est la Batuka", que significa "É a Batuka", referindo-se ao nome do coletivo.
  • Conteúdo verificado: Vídeo com trechos da apresentação de percussão feita para a chegada de Lula (PT) à Sciences Po, em Paris. A gravação teve áudio adulterado, fazendo parecer que músicos chamam o ex-presidente de “filha da puta”.

É falso que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha sido recebido por músicos entoando “filha da puta” em sua chegada à Sciences Po, instituição pública de ensino superior em Paris, em 16 de novembro, durante sua última viagem à capital francesa.

Um vídeo que viralizou no Facebook teve o áudio adulterado, com o xingamento incluído. A gravação original, sem a montagem, foi postada pelo perfil oficial de Lula naquele mesmo dia, e é possível perceber que o grupo de percussão não canta a expressão “filha da puta”.

“É fake news. Nós estamos dizendo ‘C’est la Batuka’, que significa ‘É a Batuka'”, disse o grupo musical à reportagem.

A assessoria do ex-presidente também classificou o conteúdo como mentira. Em nota, disse que “grupos políticos que usam de fake news contra Lula produziram uma mentira com uma manifestação de carinho de jovens brasileiros e franceses em Paris”.

Também contatado, o autor do vídeo, Luan Amâncio, afirmou que poderia estar errado e, após receber a explicação sobre o áudio verdadeiro, apagou o vídeo de seus canais.

O Comprova classificou o conteúdo como falso porque ele sofreu edições para mudar o seu significado original e foi divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

O primeiro passo foi pesquisar se Lula havia postado o vídeo em suas redes sociais. Fazendo uma busca filtrando pelo perfil do ex-presidente e pelo nome “Sciences Po” no TweetDeck, foi possível encontrar a postagem. Isso foi o primeiro indício de que o vídeo verificado aqui continha desinformação – se realmente tivesse sido ofendido, Lula dificilmente compartilharia a gravação.

Os comentários de seguidores ajudaram na apuração. Um deles escreve que não consegue entender o que os músicos entoam, e outro responde: “De la Batuka, é o nome do grupo“.

Pesquisando no Google pelo nome “La Batuka”, os resultados trazem um tuíte do perfil oficial da Science Po sobre a recepção de Lula pelos estudantes que formam o grupo Batuka.

Buscando por Batuka nas redes sociais, foi possível chegar ao Instagram dos músicos. Então, a reportagem enviou uma mensagem privada perguntando o que eles cantaram na recepção ao petista.

A assessoria de Lula também foi procurada e, em mensagem de texto, negou que o ex-presidente tenha sido hostilizado.

Em seguida, a reportagem contatou, via mensagem privada no Facebook e também via Instagram, Luan Amâncio, autor do vídeo. O grupo Movimento do Povo Brasileiro no Facebook, que compartilhou a gravação falsa, foi procurado por e-mail, mas não respondeu até a publicação deste texto.

Por último, foram feitas buscas em veículos da mídia tradicional para esclarecer como foi a visita de Lula aos países europeus.

Verificação

O vídeo

Em novembro, Lula fez um tour por países europeus. No dia 16 daquele mês, quando chegou a Paris, foi à escola de ciências políticas Sciences Po, onde recebeu o título de honoris causa há dez anos, para proferir a conferência “Qual lugar para o Brasil no mundo de amanhã”.

O vídeo verificado aqui mostra a recepção feita por estudantes da instituição que participam do grupo de percussão Batuka. Em um saguão, os jovens tocam pandeiros, tambores e outros instrumentos musicais. A maioria se apresenta de máscara de proteção contra a covid-19. No centro, uma mulher organiza as batucadas com um apito.

Lula, que passava por uma área comum do prédio da instituição de ensino, foi conduzido por uma pessoa da comitiva para o local em que os jovens se apresentavam, informado de que se tratava de um grupo de batucada da cidade francesa.

O ex-presidente permaneceu assistindo à apresentação por alguns instantes, e depois se retirou, sem demonstrar nenhuma contrariedade como poderia ser esperado em caso de xingamentos. O petista estava acompanhado por dezenas de pessoas, entre as quais a socióloga Rosângela da Silva, a Janja, sua namorada.

No vídeo com o áudio distorcido, legendas foram criadas para justificar uma suposta recepção mal-sucedida, primeiramente chamando a atenção para o grupo de batucada, de modo que, no momento em que os percussionistas gritam “C’est la Batuka”, parecesse “filha da puta”, no ritmo da música.

O xingamento foi reproduzido na legenda, seguido de “kkkkk”, para caracterizar uma gargalhada. Na sequência, o autor escreveu que Lula retirou-se, decepcionado.

Lula na Europa

A passagem de Lula pela Sciences Po foi apenas uma etapa de sua visita a Paris, na França, e a outros países europeus. Em todas as cidades por onde circulou cumprindo agendas políticas, o ex-presidente foi bem recebido.

A primeira parada foi na Alemanha, onde o petista desembarcou em 11 de novembro, quando esteve com lideranças sindicais. No dia seguinte, encontrou-se com o social-democrata Olaf Sholz que, na ocasião, ainda não havia sido conduzido como o chanceler a suceder Angela Merkel.

Em Bruxelas, capital da Bélgica, Lula chegou em 14 de novembro e o primeiro encontro, com direito a foto, foi com apoiadores. No dia 15, um dos pontos altos do tour pela Europa, foi o discurso no Parlamento Europeu. O ex-presidente foi aplaudido de pé pelos eurodeputados após, entre outras declarações, dizer que o Brasil tem jeito e que é possível construir uma economia justa.

Da Bélgica, o petista partiu para a França onde, no dia 16, se encontrou com a prefeita de Paris, a socialista Anne Hidalgo. Foi nessa mesma data que o ex-presidente esteve na Sciences Po.

No outro dia, Lula foi recebido pelo presidente Emmanuel Macron em um encontro que durou mais de uma hora no Palácio do Eliseu, em Paris, e cuja pauta foi a geopolítica. Desde a eleição do francês, em 2017, ele não recebeu nenhum presidente brasileiro – nem Jair Bolsonaro (PL), com quem já se desentendeu, nem Michel Temer (MDB).

No mesmo dia, Lula foi agraciado com o prêmio de “coragem política” concedido pela revista Política Internacional, honra conferida apenas outras três vezes em 40 anos da publicação a dois ex-presidentes, Anuar Sadat (Egito) e Frederik de Klerk (África do Sul), e ao papa João Paulo II.

Em 19 de novembro, já em Madri, o petista se reuniu com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez.

Foi na capital espanhola que Lula encerrou sua turnê pela Europa. Análise de dados nas redes sociais aponta que a viagem do ex-presidente teve aprovação de 80% da opinião pública não militante.

Pesquisas de intenção de voto

Autor do vídeo com conteúdo falso, Luan Amâncio inicia a gravação dizendo que “parece que os institutos de pesquisa, mais uma vez, estão errados”, referindo-se ao fato de o presidente Bolsonaro aparecer atrás de Lula nas últimas pesquisas eleitorais.

Levantamento da Genial/Quaest divulgado em 10 de novembro mostra o petista com 48% das intenções de voto e, Bolsonaro, com 21%.

Em setembro, Lula tinha 44% dos votos contra 26% de Bolsonaro, conforme revelou o Datafolha.

O autor do vídeo

Em seu canal no YouTube, onde chama quem se considera “patriota e conservador” para se inscrever, Luan Amâncio tem 289 mil seguidores. No Facebook, rede em que compartilha os mesmos vídeos, são 211,4 mil seguidores. Nesta rede, ele se apresenta como “jornalista” e como “advogado, criador de conteúdo de Youtube e residente de Curitiba”.

Os vídeos são, em sua maioria, de apoio a Bolsonaro e contrários a Lula. Um deles foi alvo de uma checagem do Estadão Verifica, em junho deste ano. À época, Amâncio retirou de contexto um trecho de um documentário dizendo que era uma “reunião vazada” da cúpula do PT.

O Comprova entrou em contato com ele via Instagram, questionando-o sobre o vídeo adulterado. “Pode ser, então, que esteja errado mesmo”, disse ele, que apagou a publicação após a troca de mensagens com o Comprova.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Projeto Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre pandemia, governo federal e eleições. A publicação aqui verificada foi visualizada mais de 125 mil vezes no Facebook até o dia 10 de dezembro.

Ao divulgar um vídeo com áudio adulterado, o conteúdo cria a falsa impressão de que Lula teria sido mal recebido na instituição que o convidou, quando, na verdade, foi o contrário. Qualquer cidadão tem o direito de apoiar o político que quiser, mas é perigoso para a democracia quando a opinião é formada com base em conteúdos falsos, como este verificado aqui.

O conteúdo também se torna perigoso quando critica os institutos de pesquisa, importante ferramenta para a sociedade em períodos pré-eleitorais.

O mesmo vídeo foi verificado pela Lupa e AFP Checamos.

O Comprova já concluiu ser falso que o Washington Post tenha publicado manchete com elogios a Bolsonaro, que jogadores de times europeus tenham dedicado gols a ele e que torcedores do Atlético Mineiro tenham xingado Lula em partida recente.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2021-12-07

Vídeo de torcedores do Atlético Mineiro xingando Lula é de 2016

  • Falso
Falso
Vídeo da torcida do Atlético Mineiro xingando Lula voltou a viralizar em novembro de 2021, após uma partida entre o Galo e o América, no dia 7 do mês passado, no Mineirão, em Belo Horizonte. No entanto, as imagens foram gravadas em 2016, na Arena Independência, em jogo contra o Colo-Colo, do Chile.
  • Conteúdo verificado: Post alegando que o ex-presidente Lula (PT) compareceu ao jogo do Atlético Mineiro contra o América, em novembro deste ano, e acabou sendo xingado por torcedores do Galo.

Para colocar em descrédito pesquisas de opinião que mostram Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como líder nas intenções de voto para presidente nas eleições de 2022, grupos nas redes sociais espalham um vídeo de 2016 em que torcedores do Atlético Mineiro insultam o político momentos antes de uma partida de futebol. A legenda inventa que Lula teria ido a um jogo do Galo contra o América, em novembro deste ano, no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte, e presenciado os xingamentos, o que não é verdade.

O Comprova encontrou a mesma gravação circulando desde março de 2016 e constatou que ela foi feita durante uma partida do Galo contra o clube chileno Colo-Colo, pela Copa Libertadores da América. O jogo foi disputado na Arena Independência, que também fica na capital mineira.

Na época, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) enfrentava protestos e havia acabado de nomear Lula para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil, o que foi interpretado pela Justiça como uma tentativa de conferir foro privilegiado ao colega de partido. Outro assunto em evidência era uma conversa grampeada de Lula com Dilma, tornada pública naquela noite pelo ex-juiz Sergio Moro.

Já a partida do Atlético contra o América, citada no post, ocorreu no Estádio Mineirão — e não na Arena Independência — no dia 7 de novembro deste ano. Não há registro de que Lula tenha comparecido a nenhum desses eventos.

O autor da postagem foi procurado, mas não se manifestou. O Comprova classificou o conteúdo como falso porque ele sofreu edições para mudar o seu significado original e foi divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

O Comprova iniciou a checagem procurando por informações no vídeo que pudessem indicar onde e quando ele foi feito e dividiu o conteúdo em vários frames com ajuda da ferramenta InVID.

As camisetas dos torcedores confirmam que se tratava de um jogo do Clube Atlético Mineiro, e a estrutura do estádio era semelhante ao Independência, em Belo Horizonte, que pertence ao América Futebol Clube.

| Captura de tela do vídeo checado pelo Comprova.

| Imagem disponibilizada no site da Arena Independência.

Apesar da baixa resolução do vídeo, é possível visualizar rapidamente o telão do estádio durante o movimento da câmera. O escudo do Atlético Mineiro aparece primeiro, indicando que era o mandante da partida, enquanto o segundo se assemelha com o do clube chileno Colo-Colo.

| Captura de tela do vídeo mostrando o telão do estádio com Atlético mandante e escudo do Colo-Colo.

| Print de transmissão ao vivo do Fox Sports, recuperada por canal do YouTube.

Com essa dica, o Comprova pesquisou por palavras-chave no Google e encontrou um texto publicado em um blog da revista Veja que continha um link para um vídeo no YouTube, de 2016, que mostra torcedores do Galo insultando o ex-presidente Lula, mais de cinco anos atrás, em um ponto diferente do estádio.

Entre os resultados sugeridos pelo YouTube, estava outra gravação, idêntica à da postagem analisada e com data de 18 de março de 2016.

A reportagem também encontrou o mesmo vídeo publicado no Facebook um dia antes, em 17 de março de 2016, mas não conseguiu determinar a autoria da filmagem.

Por fim, o Comprova procurou informações sobre as partidas do Atlético Mineiro contra o Colo-Colo, em 2016, e o contexto da época em notícias. Também pesquisou sobre os jogos do Galo contra o América, em 2021, e o que dizem as pesquisas eleitorais até o momento.

A reportagem contatou a assessoria de comunicação do ex-presidente Lula, que respondeu por mensagem de texto. O mesmo foi feito com o perfil que espalhou o conteúdo falso na internet, mas este não retornou os questionamentos do Comprova.

Verificação

Gravação antiga

O vídeo que está sendo compartilhado nas redes sociais como se fosse recente foi gravado em 2016 e circula na internet desde aquela época.

Atlético Mineiro e Colo-Colo se enfrentaram em 16 de março daquele ano, na Arena Independência, pela fase de grupos da Copa Libertadores da América, com vitória do time brasileiro por 3 a 0. As cores dos uniformes são compatíveis com as mostradas no vídeo — o Atlético jogou de branco e o Colo-Colo, de preto.

Outro indício de que se trata daquele jogo do Atlético contra a equipe chilena é uma notícia do jornal O Tempo, de Belo Horizonte. “O início do jogo entre Atlético e Colo-Colo, na noite desta quarta-feira, pela Copa Libertadores, foi marcado por gritos de protesto contra o PT, a presidente Dilma e o ex-presidente Lula”, informa a publicação, destacando o fato de que um deputado estadual foi hostilizado por torcedores antes de começar o evento.

No início da transmissão da partida pelo Fox Sports, reproduzida por um canal do YouTube, ouve-se um coro de xingamentos, executado por uma parte da torcida do Galo.

Contexto

Na data da partida entre o Atlético e o Colo-Colo, a então presidente Dilma Rousseff (PT) havia anunciado a nomeação do ex-presidente Lula para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil.

O Planalto alegou que o objetivo da medida era ajudar a recompor a base política no Congresso e barrar o processo de impeachment, mas opositores viram no movimento uma forma de conferir foro privilegiado ao político, com o intuito de escapar da alçada da força-tarefa da Lava Jato, em Curitiba.

Lula ainda não era réu em nenhuma ação penal da Lava Jato, mas estava definitivamente sob a mira da operação. No início do mês, o ex-juiz Sergio Moro havia autorizado uma condução coercitiva da Polícia Federal para colher depoimento do ex-presidente em meio às investigações.

No mesmo dia da nomeação de Lula para a Casa Civil, na noite de 16 de março, Moro derrubou o sigilo e divulgou grampo de uma conversa telefônica entre Lula e Dilma. Na gravação, Dilma avisa a Lula que mandaria um “termo de posse” para que o líder petista usasse “em caso de necessidade”.

Esses episódios estimularam uma nova onda de protestos pelo País contra o PT. Alguns deles foram registrados em estádios de futebol — além de parte da torcida do Galo, outra que registrou manifestações foi a do Athletico Paranaense, com alguns torcedores levando máscaras e faixas em apoio a Moro, na mesma semana.

A decisão do magistrado em dar publicidade a uma gravação não autorizada da presidente da República gerou polêmica e foi contestada pelo Planalto. Posteriormente, ele se desculpou com o Supremo Tribunal Federal (STF), em pedido de esclarecimento da Corte. Por outro lado, Moro já declarou publicamente que não se arrepende da decisão por considerar que as conversas vazadas não eram “republicanas”.

Lula chegou a tomar posse no cargo de ministro-chefe da Casa Civil, mas a nomeação foi suspensa em menos de dois dias pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, que entendeu que houve desvio de finalidade na medida. O petista depois foi condenado pela Justiça nos casos do sítio de Atibaia e do triplex do Guarujá e ficou preso por 580 dias.

Lula foi solto com a decisão do Supremo que proibiu a prisão após segunda instância, em novembro de 2019, e teve as sentenças anuladas quando a Corte declarou que a 13ª Vara Federal em Curitiba não era competente para investigá-lo, em abril deste ano. Dessa forma, o petista voltou a ser elegível.

Atlético x América

As postagens mostrando insultos contra Lula em jogo do Atlético Mineiro começaram a viralizar novamente em novembro deste ano, pegando carona com a partida mais recente entre o Galo e o América, adversário de Minas Gerais. A versão de maior alcance foi compartilhada no dia 15, e alegava que a gravação teria sido feita quando Lula “arriscou e foi assistir Atlético MG X América, domingo último em BH”.

Neste ano, Galo e Coelho se enfrentaram cinco vezes:

A única partida que poderia se encaixar na descrição seria a mais recente, pela 30ª rodada do Campeonato Brasileiro. Acontece que o jogo foi disputado no Estádio Mineirão, e não no Independência.

Ambos ficam em Belo Horizonte, mas a estrutura é bem diferente. O Independência apresenta um formato retangular, com cantos bem marcados e um lado vazio, sem arquibancadas atrás do telão, e tem capacidade para 23 mil torcedores. O Mineirão traz um desenho mais clássico, oval e abriga até 62 mil pessoas.

Ao contrário do que alega o boato, não há qualquer registro de que Lula tenha assistido ao jogo entre Atlético e América, no dia 7 de novembro, em Belo Horizonte. As redes sociais do petista (Facebook, Instagram e Twitter) não mencionaram nenhuma agenda naquela data, apenas divulgaram um vídeo sobre fatos da semana.

O Comprova entrou em contato com a assessoria de comunicação do ex-presidente por WhatsApp, que respondeu: “Infelizmente grupos políticos têm usado fake news e desinformação contra o ex-presidente Lula, não contribuindo para um debate público democrático”. Para as agências de checagem Lupa e Aos Fatos, que investigaram o mesmo conteúdo antes, a assessoria também negou que ele tenha comparecido ao evento.

Pesquisas

Desde que recobrou os direitos políticos, Lula tem aparecido na dianteira em sucessivas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, que será disputada em 2022. Em 10 de novembro deste ano, o petista totalizou 48% da preferência de 2.063 pessoas entrevistadas pela Genial/Quaest, contra 21% obtidos pelo atual presidente, Jair Bolsonaro (PL).

O ex-presidente foi vitorioso em duas simulações de segundo turno realizadas, uma contra Bolsonaro; outra frente ao ex-juiz Sergio Moro, pré-candidato pelo Podemos. A pesquisa foi realizada entre 3 e 6 de novembro, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

O último levantamento Datafolha, divulgado em 17 de setembro de 2021, também mostrou o líder do PT à frente de Bolsonaro, com 44% a 26%, respectivamente. Nesta pesquisa, feita entre 13 e 15 de setembro, com participação de 3.667 pessoas de 190 municípios brasileiros, Lula apareceu em primeiro nas simulações de segundo turno.

De acordo com o Datafolha, Lula somou 56% da preferência do eleitorado na simulação da segunda etapa da disputa, contra 31% do atual mandatário. Esse é o percentual ironizado na postagem falsa checada pelo Comprova.

A divisão de pesquisas eleitorais e de opinião do Poder360, o PoderData, reflete cenário similar ao apresentado pelo Datafolha. O último levantamento, feito de 22 a 24 de novembro, mostra que Lula e Jair Bolsonaro seguem isolados em 1º e 2º lugar em eventual 1º turno para 2022. Dependendo do cenário testado, o petista pontua de 34% a 36% das intenções de voto. Já Bolsonaro marca de 27% a 29%. As entrevistas foram realizadas por telefone.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Projeto Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre pandemia, governo federal e eleições. A publicação aqui verificada foi compartilhada 33 mil vezes no Facebook, contabilizando 6,3 mil reações, e o vídeo atingiu sozinho 415 mil visualizações em cerca de um mês. No Brasil e no mundo, é comum que estádios de futebol e outras praças esportivas ressoem os humores políticos do momento.

Ao reproduzir um vídeo de 2016 e afirmar se tratar de um conteúdo de 2021, o autor do post induz outros usuários a uma percepção falsa do que ocorre no período que antecede um ano de disputa presidencial.

A peça de desinformação cita o Datafolha num panorama em que o instituto de pesquisa vinculado à Folha de S. Paulo — jornal constantemente atacado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) — é um dos que mostra o ex-presidente à frente em intenções de voto na corrida ao Palácio do Planalto.

O Comprova já concluiu ser falso que o Washington Post tenha publicado manchete com elogios a Bolsonaro; e verificou que um texto de opinião com críticas ao ex-juiz Sergio Moro foi assinado por um cientista político, sem que tenha representado a opinião do The New York Times. Explicou ainda como uma foto foi retirada de contexto para sugerir aliança entre o senador Renan Calheiros e o ministro da Suprema Corte, Alexandre de Moraes.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Eleições

Investigado por: 2021-11-26

Texto com críticas a Moro é de cientista político e não representa a opinião do New York Times

  • Enganoso
Enganoso
São enganosas as postagens compartilhadas no Facebook segundo as quais o jornal norte-americano The New York Times teria dito que o ex-juiz federal Sergio Moro corrompeu o sistema judicial brasileiro. O texto com críticas à Operação Lava Jato é de autoria de um cientista político e não representa a posição institucional do periódico.
  • Conteúdo verificado: Duas publicações feitas no Facebook criticam o ex-ministro da Justiça alegando que o “New York Times diz que Moro corrompeu o sistema judicial e é responsável direto pelo caos que o Brasil vive hoje”.

São enganosas as publicações segundo as quais o jornal norte-americano The New York Times teria feito críticas ao ex-juiz federal Sergio Moro, acusando-o de corromper o sistema judicial e ser responsável pelo caos do Brasil.

Em fevereiro deste ano, o jornal publicou um artigo do cientista político Gaspard Estrada com críticas à Operação Lava Jato, inclusive afirmando que ela se tornou um escândalo judicial e que contribuiu para o caos no Brasil. O texto representa, no entanto, a opinião pessoal do especialista, e não a posição institucional do Times. Apesar do artigo citar Moro como responsável por “iniciar” a Lava Jato, ele não é individualmente responsabilizado no texto pelos atos criticados.

Especialistas em redação jornalística entrevistadas pelo Comprova dizem que, ao contrário de uma notícia, que tem a função principal de informar, um texto de opinião busca defender um posicionamento. O gênero, porém, tem duas vertentes.

A primeira é o artigo de opinião, em que uma pessoa física emite uma opinião sobre algum tópico importante para a sociedade. Esse tipo de texto é assinado, indicando quem está emitindo aquela opinião, e frequentemente é escrito por pessoas que não trabalham para o jornal. Já a segunda é o editorial, não assinado ou assinado pelo próprio veículo, e representa as posições e visões institucionais do jornal.

No caso do NYT, o Comprova identificou que o jornal já publicou três editoriais mencionando Sergio Moro, sendo o primeiro deles de junho de 2016 e o último de janeiro de 2020. A visão do jornal norte-americano sobre o ex-juiz mudou com o tempo. Inicialmente tratado como um juiz que corajosamente enfrentou a corrupção no Brasil, o jornal diz que o vazamento de mensagens dos bastidores da operação mostram o que parece ser um “conluio ilegal” entre Moro e os integrantes da força-tarefa da Lava Jato do Ministério Público Federal. Mas não diz que o ex-juiz “corrompeu o sistema judicial” ou o responsabiliza “pelo caos que o Brasil vive”.

O Comprova tentou ouvir os dois perfis que publicaram o conteúdo verificado por meio do Facebook, mas nenhum deles respondeu até a publicação desta checagem. Um dos perfis fez uma postagem em um grupo público do Facebook de apoio ao ex-presidente Lula e o outro é uma postagem de uma página de apoio ao petista.

As postagens foram consideradas enganosas por retirarem o conteúdo de seu contexto original e usá-lo em outro, de modo que seu significado fosse modificado.

Como verificamos?

Primeiramente, buscamos no site do The New York Times todos os editoriais e artigos de opinião que o jornal publicou que tenham mencionado o ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro. Na mesma página, buscamos entender como o jornal explica a diferença entre esses dois tipos de texto.

A partir daí, lemos o artigo do cientista político Gaspard Estrada, usado por um dos perfis para afirmar que o jornal americano teria dito que “Moro corrompeu o sistema judicial” brasileiro. Também lemos todos os editoriais citando o ex-ministro para saber o que o Conselho Editorial do Times escreveu sobre o ex-ministro da Justiça.

Por fim, entrevistamos duas especialistas para explicar a diferença entre editorial, artigo de opinião e notícia: Isaltina Gomes, doutora em Linguística e professora de Redação Jornalística da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e Marcelle Chagas, jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Verificação

Menções a Moro no NYT

Uma busca na seção de Opinião do jornal The New York Times mostrou que eles publicaram três editoriais e nove ensaios de convidados (guest essays, no termo original) com os termos de busca “Sergio Moro”. Os editoriais que citam o ex-ministro foram publicados em 6 de junho de 2016 (A medalha de ouro do Brasil em corrupção, na versão traduzida para o português), em 12 de abril de 2018 (‘Lula’ está na prisão e a democracia brasileira está em perigo) e, o mais recente deles, em 21 de janeiro de 2020 (Brasil chama reportagem de Glenn Greenwald de crime).

Já os artigos de opinião saíram nos dias 23 de janeiro de 2018 (A democracia do Brasil empurrada para o abismo, por Mark Weisbrot); 10 de abril de 2018 (Testando a democracia do Brasil, por Carol Pires); 5 de julho de 2019 (Para onde você vai quando os cruzados anticorrupção estão sujos?, por Vanessa Barbara); 14 de agosto de 2018 (Lula: Há um golpe de direita em andamento no Brasil, por Luiz Inácio Lula da Silva); 26 de dezembro de 2019 (Por que as ruas do Brasil estão tão calmas?, por Vanessa Barbara); 24 de janeiro de 2020 (A guerra contra a verdade de Bolsonaro, por Petra Costa); 4 de agosto de 2020 (Exército de trolls vai às ruas no Brasil, por Patrícia Campos Mello); 21 de agosto de 2018 (Por que Lula deveria ter a chance de concorrer à Presidência, por Jorge G. Castañeda); e 26 de fevereiro de 2021 (A Operação Lava Jato não foi uma bala de prata, por Gaspard Estrada).

Segundo o próprio jornal, os ensaios de convidados são artigos de opinião para defender uma ideia, em busca de enriquecer o debate público e ajudar os leitores a entender o mundo. O Times descreve a seção como “um espaço para pessoas que não são jornalistas e que não têm nenhuma ligação institucional frequente com o Times falarem diretamente com os leitores”. Qualquer pessoa pode submeter textos para serem publicados como ensaios. O jornal promete ler e revisar todos os textos submetidos.

Os artigos publicados nessa seção trazem a palavra “opinião” escrita no topo da página. O nome e a profissão do autor também são mostrados antes do texto. Já os editoriais trazem o termo “editorial” no cabeçalho e são assinados pelo Conselho Editorial do jornal.

O atual conselho editorial do New York Times é formado por 13 jornalistas. Três deles são especialistas em assuntos internacionais: Alex Kingsbury, Serge Schmemann e Farah Stockman. “O conselho não fala pela redação ou pelo Times como um todo. Em vez disso, em meio às vozes individuais conflitantes da editoria de Opinião, visa a fornecer uma visão consistente e independente do mundo com base em valores institucionais testados pelo tempo”, descreve o próprio veículo.

Texto lincado

Uma das postagens verificadas pelo Comprova traz o link para o artigo mais recente com menção a Moro publicado pelo jornal, em fevereiro de 2021. Nele, o cientista político Gaspard Estrada, diretor-executivo do Observatório Político da América Latina e do Caribe da universidade francesa Sciences Po, especializado em América Latina, diz que a Lava Jato “se vendia como a maior operação anticorrupção do mundo, mas se tornou o maior escândalo judicial da história do Brasil”.

Ele também diz que “o imenso capital político e social acumulado por Sergio Moro, o célebre juiz que iniciou a Lava Jato, e pelos procuradores tem se evaporado nos últimos anos”. Além disso, também afirma que “em vez de ajudar a erradicar a corrupção, conseguir maior transparência na política e fortalecer a democracia, a famosa operação contribuiu para o caos que o Brasil vive hoje”.

Em resumo, o artigo diz que a Operação Lava Jato contribuiu para o caos, se tornou o maior escândalo judicial do país, e sinaliza que Moro iniciou a operação, mas não diz diretamente que foi o ex-juiz o responsável por corromper o sistema judicial ou instalar o caos.

No texto, o autor fala em violações do processo judicial cometidas pelos promotores e “violação do princípio jurídico de não ser juiz e parte ao mesmo tempo”, cometida por Moro, ao afirmar que ele julgou e construiu a acusação contra o ex-presidente Lula.

Estrada diz ainda que, após a divulgação das conversas via Telegram entre Moro e os procuradores da Lava Jato, a força tarefa da operação passou a apresentar números no intuito de defender seus resultados, mostrando quantas pessoas foram presas ou condenadas, por exemplo. “No entanto, para conseguir isso, os promotores caíram em violações do devido processo sem reduzir a corrupção”, afirma.

O autor do artigo acrescenta ainda que, mesmo após a revisão pela Polícia Federal de parte dos diálogos divulgada pela imprensa, a mando de Moro, as conversas “confirmam que essa operação perverteu a Justiça, violou o estado de direito no Brasil e foi fator fundamental na construção da distopia que o país vive, com uma crise política exacerbada e com o segundo lugar mundial de mais mortes pela pandemia”.

Diferença de editorial, artigo de opinião e notícia

Em entrevista ao Comprova, a professora de jornalismo Isaltina Gomes explica que a diferença entre editoriais e artigos de opinião está ligada a quem é a pessoa que emite aquela posição. Segundo ela, não há diferenças estruturais de texto. “A diferença fundamental é em termos de assinatura. O editorial é a opinião formal do jornal. Em geral, não é assinado e a responsabilidade pelo que é dito é do jornal, enquanto empresa. O artigo é assinado e representa a opinião daquela pessoa física”, detalha.

A professora ainda chama atenção para o fato de que, enquanto alguns colunistas são pessoas contratadas pelo jornal para emitir opiniões e análises, outros artigos são escritos por autores externos, que publicam de forma voluntária, sem ter nenhum vínculo com o veículo. Isaltina diz não acreditar que um jornal publicaria um artigo de opinião que fosse frontalmente contra os seus valores.

Segundo a professora da UFPE, a notícia busca relatar fatos e, ainda que ela possa demonstrar um viés, na escolha de entrevistados ou na abordagem de um determinado assunto, seu objetivo é trazer informações. Já o texto opinativo relaciona essas informações em busca de defender uma posição.

Ao Comprova, a jornalista Marcelle Chagas também explicou a diferença entre artigo e notícia. “O artigo de opinião expressa, como o próprio nome diz, a opinião de alguém sobre um determinado assunto”, disse. “Já a notícia é produzida através da apuração de fatos que podem ter mais de um relato sobre o mesmo acontecimento. Garantido assim que a notícia seja divulgada da forma mais isenta possível”.

Segundo Marcelle, o artigo de opinião e a notícia jornalística, por estarem dentro de um espaço consolidado como produtor de fonte de informação confiável, impactam o leitor e ajudam a moldar a opinião da sociedade.

Ela pondera, no entanto, sobre a ausência de uma educação midiática que ensine sobre os diversos meios de informação. “Ainda existem poucas atividades de letramento midiático para auxiliar os atores sociais a entenderem essas mensagens informacionais transmitidas em diferentes formatos”, analisa.

O que o NYT realmente falou sobre Moro?

A leitura sobre os três editoriais publicados pelo New York Times com citações a Sergio Moro mostra que o olhar do jornal sobre a figura do hoje ex-juiz mudou substancialmente com o passar dos anos.

O primeiro editorial foi ao ar em 6 de junho de 2016, logo após Michel Temer (MDB) assumir a presidência do Brasil interinamente, depois do afastamento da então presidente Dilma Rousseff (PT). Naquela época, Moro foi citado no texto porque o jornal decidiu destacar dois trechos de um artigo que ele havia escrito em maio de 2016 para a revista Americas Quarterly. O juiz foi citado porque supervisionava as investigações do caso da Petrobras, que, segundo o editorial, havia acabado de culminar no afastamento de Dilma.

“‘Esquemas de corrupção sistêmica são prejudiciais porque afetam a confiança no Estado de Direito e na democracia’, escreveu Sergio Moro, o juiz federal que supervisionou a investigação da Petrobras, em um ensaio no Americas Quarterly no mês passado, acrescentando: ‘Crimes que são descobertos e comprovados devem, respeitando o devido processo, ser punidos'”, destacou o NYT.

O segundo editorial a mencionar Moro é de 12 de abril de 2018, cinco dias após o ex-presidente Lula se entregar à Polícia Federal para cumprir pena por sua condenação na Operação Lava Jato. Embora o editorial afirme que Lula está na prisão e a democracia brasileira está em perigo, o juiz da Lava Jato não é tratado com suspeição. Para o jornal, ele liderou corajosamente a operação contra o petista.

“Juízes como Sergio Moro, que corajosamente liderou a acusação na Operação Lava Jato, demonstraram que o Brasil tem instituições e meios para enfrentar até os mais poderosos – e mais populares – dos malfeitores”, diz um trecho do editorial.

o terceiro editorial a mencionar o ex-juiz foi publicado em 21 de janeiro de 2020 e dá outro tratamento a Moro. O texto critica como no Brasil o trabalho de jornalismo investigativo de Glenn Greenwald e da equipe do The Intercept Brasil — que denunciou as trocas de mensagens entre Moro e os promotores da Operação Lava Jato – foi tratado como se fosse crime.

Para o NYT, o país decidiu atacar o mensageiro, em vez da mensagem. O editorial menciona as suspeitas de corrupção do próprio ex-juiz na condução da operação. Isso aparece no texto quando o editoral diz que as mensagens vazadas “pareciam mostrar um conluio ilegal” entre Moro e os promotores e que elas sugeriam que Moro tinha violado a lei brasileira.

O texto diz que os artigos de Greenwald” revelaram uma verdade dolorosa sobre os que estão no poder” e que “perfurar a imagem heroica do Sr. Moro foi obviamente um choque para os brasileiros e prejudicial para o Sr. Bolsonaro”.

Por que investigamos?

Atualmente, em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre as eleições de 2022, as políticas públicas do governo federal e a pandemia que tenham viralizado nas redes sociais. Juntos, os conteúdos verificados tiveram mais de 1,1 mil interações no Facebook.

As publicações se enquadram no tema eleições, já que Moro, recém-filiado ao Podemos, é um dos pré-candidatos à Presidência da República em 2022. Segundo as pesquisas de intenção de voto, a corrida presidencial está sendo liderada pelo ex-presidente Lula (PT), cuja condenação por Moro na primeira instância foi posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por ver indícios de parcialidade no julgamento, e pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), de quem Moro foi ministro da Justiça até deixar o governo acusando o atual chefe do Planalto de tentar intervir na Polícia Federal.

O Projeto Comprova mostrou recentemente ser falso que o Washington Post tenha publicado uma manchete elogiando o presidente Jair Bolsonaro e também que o surfista brasileiro Italo Ferreira tenha pedido a prisão de Lula em entrevista ao New York Times.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.