O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 41 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Saúde

Investigado por: 2021-06-17

Vacinas contra a covid-19 usadas no Brasil passaram por testes de segurança, ao contrário do que diz deputado

  • Falso
Falso
É falsa uma postagem no Facebook do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) afirmando que as vacinas contra a covid-19 não seguiram os protocolos normais de desenvolvimento. Todos os imunizantes passaram por fases de testes, cujos dados são públicos, e, antes de serem aplicados, suas segurança e eficácia são analisadas pela autoridade sanitária de cada país.
  • Conteúdo verificado: Publicação do deputado Eduardo Bolsonaro no Facebook afirma que as vacinas contra o novo coronavírus não seguiram os protocolos de desenvolvimento e que reações adversas têm ocorrido nas pessoas imunizadas. Ele também critica a adoção de um “passaporte de imunização” no Brasil.

É falso que as vacinas para prevenção da covid-19 não tenham seguido os protocolos e que, por isso, reações adversas ocorreram, como afirma o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em uma postagem no Facebook em que critica a possível adoção pelo Brasil de um “passaporte de imunização”, documento que permitiria às pessoas frequentar locais e eventos públicos após a vacinação.

Todas as vacinas em uso no Brasil passaram por diversas fases de teste, em laboratórios e em humanos, para verificar se elas eram seguras e eficazes. O formato dos testes e seus resultados são publicados na internet pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e acompanhados por cientistas do mundo todo. Além disso, toda essa documentação é avaliada pela equipe técnica e pela diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que também vistoria as sedes dos laboratórios, antes de autorizar o uso das vacinas no Brasil.

Em entrevista ao Comprova, o infectologista David Urbaez explicou que a rapidez no desenvolvimento dos imunizantes ocorreu por causa do grande investimento da indústria farmacêutica, por se tratar de uma pandemia. Ele também explica que reações leves são comuns em todas as vacinas e não significa que elas não passaram pelas etapas corretas de testagem. Qualquer suspeita de reação grave é comunicada pelos médicos às autoridades de saúde e acompanhada de perto pela Anvisa.

A adoção de um documento similar a um “passaporte de imunidade”, em discussão no Congresso Nacional, também tem ocorrido em outros países para permitir a retomada da circulação de pessoas e das atividades econômicas ou o turismo e viagens internacionais. Esse tipo de estratégia é criticada pela OMS, que alerta para dúvidas sobre a duração da imunidade após a vacinação e a possibilidade de isso aprofundar desigualdades no mundo por causa da falta de imunizantes em países de renda baixa e média. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), pai de Eduardo Bolsonaro, prometeu vetar a lei, caso ela seja aprovada.

Como verificamos?

Procuramos informações da OMS e da Anvisa sobre o processo de desenvolvimento das vacinas e para entender se houve reações adversas e se elas estão relacionadas ao descumprimento de algum protocolo de criação dos imunizantes.

Entrevistamos o médico David Urbaez, presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, sobre as reações que algumas pessoas sentem após serem vacinadas.

Também pesquisamos informações sobre a proposta de criação de um “passaporte de imunização” no Brasil, se há modelos similares sendo adotados em outros países e sobre o que foi a Revolta da Vacina, citada na publicação.

Procuramos a assessoria de Eduardo Bolsonaro por WhatsApp e e-mail disponível no site da Câmara, mas não tivemos resposta.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 17 de junho de 2021.

Verificação

O desenvolvimento das vacinas

Todas as vacinas em desenvolvimento ou aprovadas contra a covid-19 passam por uma série de etapas antes de serem autorizadas para uso humano; incluindo testes em laboratório e ao menos três fases de testes clínicos. A configuração desses testes e seus resultados são compilados e disponibilizados publicamente pela OMS, inclusive para que outros cientistas possam avaliar a segurança e a eficácia dos imunizantes.

Desde o início da pandemia, 287 vacinas já foram desenvolvidas, de acordo com o banco de dados da OMS. Dessas, 185 ainda estão em estágio pré-clínico, enquanto 102 já avançaram para pesquisas em humanos. Até o dia 3 de junho de 2021, a OMS havia avaliado e aprovado a segurança e eficácia de seis imunizantes: AstraZeneca/Oxford; Janssen; Moderna; Pfizer/BionTech; Sinopharm; e CoronaVac.

Mesmo com esse processo internacional público de desenvolvimento de vacinas, antes de serem aplicadas nos cidadãos, elas precisam ainda ser aprovadas pelos órgãos de vigilância sanitária competentes em cada país. No Brasil, a responsabilidade é da Anvisa, que segue uma série de critérios para garantir que os imunizantes aplicados em território nacional sejam seguros e eficazes.

Segundo a agência, as diversas fases de teste servem para avaliar, gradualmente, se a vacina é segura, se ela provoca reações no corpo humano, qual a dose indicada e qual a capacidade dela de gerar anticorpos, além de comprovar se ela é, realmente, capaz de proteger as pessoas do vírus.

A documentação detalhada de cada etapa é analisada pelo corpo técnico da agência e seu uso só é autorizado após ser votado pela diretoria da Anvisa, que é um órgão colegiado, em reuniões públicas (inclusive com transmissão ao vivo pela Internet). O órgão também inspeciona as fábricas e laboratórios para ter certeza de que o imunizante pode ser produzido seguindo os critérios de segurança e confiabilidade.

Atualmente, o Brasil tem duas vacinas registradas para uso geral: da AstraZeneca e da Pfizer. Outras três são aprovadas para uso emergencial: CoronaVac, Covishield e Janssen. É possível conferir o status da documentação, a bula e as últimas notícias sobre cada imunizante no site da Anvisa.

Segundo o infectologista David Urbaez, a única razão para a vacina da covid-19 ter sido desenvolvida de forma mais rápida do que habitualmente ocorre é pelo alto investimento que foi feito. “A velocidade desse processo foi diretamente explicada pelo volume de investimentos como nunca antes ocorreu, motivado pela emergência mundial de grande porte, junto a um número muito significativo de grupos de pesquisa que se dedicam exclusivamente ao assunto”, explica. Além do que as novas plataformas, como RNAm e/ou vetores virais, são tecnologias que já se encontravam maduras e tinham sido previamente testadas para outras infecções como SARS e para outros fins em termos de imunoterapia”.

Reações

Segundo a Anvisa informa nas bulas das vacinas autorizadas no Brasil, os imunizantes, como qualquer outro medicamento, podem apresentar efeitos colaterais. As diferentes fases de testes antes da autorização servem justamente para garantir que eles não provoquem reações graves, que possam prejudicar a saúde das pessoas.

Mesmo após autorizadas, as vacinas são acompanhadas pela Anvisa e pelos seus fabricantes por meio de um processo chamado farmacovigilância. Reações adversas suspeitas são notificadas pelos profissionais de saúde que trataram o paciente para os órgãos competentes, incluindo a Anvisa.

Se a agência identificar um uso de algum medicamento ou vacina que não siga o que determina a bula ou que possa causar algum risco à saúde das pessoas, ela pode determinar a suspensão total ou parcial (apenas para alguns grupos) do seu uso.

Isso ocorreu, por exemplo, no dia 10 de maio, quando a Anvisa suspendeu o uso em gestantes da vacina da AstraZeneca produzida pela Fiocruz, após o registro de “uma suspeita de evento adverso grave”. A aplicação desse imunizante em mulheres grávidas não era prevista pela bula.

De acordo com David Urbaez, os efeitos adversos são comuns em todas as vacinas contra qualquer doença e nada têm a ver com a forma como ela foi desenvolvida. Isso ocorre porque os imunizantes têm a capacidade de estimular o sistema imune. “O sistema imune estimulado gera uma série de substâncias biológicas, que em mais ou menos proporção, geram os efeitos adversos sistêmicos como febre, dores musculares, indisposição, etc”, disse.

Segundo o especialista, em mais de 99% das vezes, essas reações são leves, isto é, não geram nenhuma ameaça ao estado de saúde do indivíduo. “Rarissimamente podem acontecer efeitos adversos mais sérios, sempre menos de 1% das ocorrências. Sempre lembrando, todas as vacinas em uso não têm vírus vivos, pelo que sua segurança é garantida após as fases de ensaio clínico”, afirma.

O certificado nacional de imunização

Existe uma proposta em tramitação no Congresso Nacional para criar um certificado nacional de imunização. O documento apresentaria “informações sobre vacinação, testagem e recuperação de doença infectocontagiosa de seu portador”. A ideia é que ele fosse usado para permitir que as pessoas já imunizadas pudessem abrandar (ou até suspender) as medidas restritivas para enfrentamento da covid-19.

Segundo o site do Senado Federal, o certificado “poderá ser utilizado para autorizar a entrada em locais e eventos públicos, o ingresso em hotéis, cruzeiros, parques e reservas naturais, entre outras possibilidades”. Isso porque, na visão dos senadores, pessoas já vacinadas ou que tenham testado negativo para o Sars-CoV-2 representariam “risco não elevado de propagação do vírus”. O controle do acesso a serviços com base no documento seria feito pelos estados.

O texto original é de autoria do senador Carlos Portinho (PL-RJ), mas sofreu algumas alterações com um substitutivo proposto pelo relator Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB) – uma dessas mudanças foi a troca do nome “passaporte” para “certificado”. A proposta foi aprovada pelo Senado no último dia 10, com 72 votos favoráveis e nenhum voto contrário. O texto agora está em tramitação na Câmara dos Deputados.

No dia 15, o presidente Jair Bolsonaro disse que vetaria a lei, caso ela fosse aprovada no Congresso. “Se passar, eu veto, e o Parlamento vai analisar o veto. Se derrubar, aí é lei”, ele afirmou a apoiadores, em frente ao Palácio da Alvorada.

Passaporte de imunização no mundo

O Green Pass de Israel é um modelo parecido com o que está em discussão no Brasil porque, ao contrário de outros passaportes de imunização em debate ou implementação, ele é voltado para o público interno que poderá acessar estabelecimentos cadastrados no sistema se estiver vacinado, tiver se recuperado da covid-19 ou tiver feito um teste RT-PCR negativo nas últimas 72 horas.

Em abril, o governo do Reino Unido começou a testar a adoção de um passaporte covid para permitir o acesso de pessoas a eventos de grandes públicos, como partidas esportivas, shows e casas noturnas. A promessa do governo britânico é que o passaporte, se implementado, não poderá ser exigido em alguns serviços, como transporte público e lojas essenciais, como supermercados. O primeiro-ministro Boris Johnson também já afirmou que restaurantes e pubs podem começar a pedir uma prova do status vacinal das pessoas a partir do final de julho, quando o país espera que todos os adultos sejam liberados para vacinação.

Em outra frente, um aplicativo do sistema de saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês) tem sido utilizado pelo governo como opção para cidadãos ingleses que queiram viajar ao exterior. O programa mostra se a pessoa já tomou as duas doses. Crianças e jovens com menos de 16 anos não receberão um status. Por enquanto, ainda há dúvidas sobre quais países aceitam o certificado como alternativa aos testes negativos.

A União Europeia formalizou a adoção de um Certificado Digital Covid-19 no último dia 14. Ele poderá ser emitido por qualquer um dos 27 países membros e entrará em vigor a partir de julho. O documento trará dados sobre vacinação, testes e recuperação do novo coronavírus e poderá ser usado para que as pessoas possam voltar a circular livremente dentro do bloco; pois as exigências de medidas sanitárias como testes e quarentenas na chegada a outro país da UE podem ser retiradas para quem tiver o certificado.

Em janeiro deste ano, o arquipélago de Seychelles, no Oceano Índico, já havia adotado uma regra similar, permitindo que turistas que trouxessem um certificado de seus países atestando a vacinação não precisassem se submeter a quarentena ao entrar no país. Mesmo pessoas imunizadas precisariam levar um teste RT-PCR negativo realizado ao menos 72 horas antes do embarque.

OMS critica os passaportes

Desde abril de 2020, a OMS se posicionou contrária à possibilidade de criação de passaportes de imunidade, sejam eles aplicados a viagens ou ao retorno dos trabalhos e atividades normais. “Atualmente, não há evidências de que as pessoas que se recuperaram da covid-19 e possuem anticorpos estejam protegidas contra uma segunda infecção”, afirmou a entidade, na ocasião.

Em agosto de 2020, o primeiro caso confirmado de reinfecção pelo Sars-CoV-2 foi registrado em Hong Kong. Em dezembro do mesmo ano, foi a vez do Brasil identificar seu primeiro episódio confirmado de reinfecção. No início de abril de 2021, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontou que os sintomas podem ser mais fortes quando a pessoa contrai o vírus pela segunda vez. No mesmo mês, o Brasil teve a primeira morte por uma pessoa que, mesmo tendo se recuperado da doença na primeira vez, acabou sendo reinfectada por uma nova variante.

Em fevereiro de 2021, a OMS voltou a se manifestar contra a adoção de certificados de vacinação para liberar viagens internacionais. Embora os imunizantes protejam contra a infecção pela covid-19, ainda há dúvidas envolvendo a capacidade das vacinas em reduzir a transmissão do vírus, incluindo o surgimento de novas variantes, e o tempo de duração da proteção oferecido pelos imunizantes.

A entidade também teme que a priorização de viajantes no processo vacinal possa prejudicar a imunização de populações prioritárias, inclusive aquelas com maior risco de desenvolver a forma grave da doença. “Atualmente, há limitação de acesso às vacinas contra a covid-19 no mundo todo, particularmente em países de baixa e média renda. (…) A OMS expressa preocupação de que a distribuição desigual de vacinas possa aprofundar desigualdades que já existem e criar novas formas de desigualdade”, afirma o relatório.

A Revolta da Vacina

A Revolta da Vacina, citada por Eduardo Bolsonaro na postagem, ocorreu no Rio de Janeiro no início do século XX. Na época, a rejeição era à vacina da varíola – as pessoas acreditavam que poderiam ficar com feições bovinas, já que o imunizante era feito com pústulas, nódulos que contém pus, de vacas doentes. O produto se tornou obrigatório no Brasil em 1904.

A obrigatoriedade fez com que as pessoas fossem às ruas protestar. Na ocasião, 945 pessoas foram presas, 461 deportadas, 110 feridas e 30 mortas em menos de duas semanas de conflitos. A obrigatoriedade da vacina foi retirada. Na época, o Brasil tinha 3.500 mortes por varíola. Dois anos depois, este número subiu para 6.500. A doença só foi erradicada no Brasil em 1971 após uma nova campanha de vacinação chamada de Campanha de Erradicação da Varíola (CEV).

Vacina traz proteção individual?

De acordo com o infectologista David Urbaez, não adianta ter imunizações individuais. É preciso que a população como um todo seja vacinada para barrar a proliferação do vírus da covid-19. Ele ainda destaca que, apesar de dificultarem que o indivíduo fique doente, as vacinas não têm a capacidade de evitar que uma pessoa vacinada transmita a covid-19 para uma que não esteja imunizada.

“A vacina tem eficácia somente como estratégia coletiva, pois do ponto de vista individual pouco faz se estamos em uma situação epidemiológica de alta transmissão. Temos que alcançar 75%-85% da população geral vacinada, territorialmente de forma homogênea para conseguirmos a imunidade coletiva, dispositivo que consegue controlar a transmissão. Daí porque todas as pessoas são importantes nesse processo”, destaca.

Essa meta de que 60% a 80% da população precisa ser vacinada para que a pandemia seja controlada é esperada pela maioria dos modelos epidemiológicos. Para que este número seja atingido, praticamente toda a população adulta precisaria ser vacinada, já que ainda não há uma indicação para vacinação de crianças contra a covid-19. No Brasil, somente o imunizante da Pfizer tem autorização da Anvisa para ser aplicada em menores de 18 anos.

Nesse mesmo sentido, um estudo feito pelo Instituto Butantan em Serrana, São Paulo, concluiu que a vacinação de 95% da população adulta com a CoronaVac é capaz de criar a imunidade de grupo e controlar a pandemia.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre a pandemia e as políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. Publicações que tratam da vacinação contra o novo coronavírus merecem atenção especial, visto que a desinformação sobre esse tema pode fazer com que pessoas evitem se imunizar, o que é a principal forma de proteção contra o vírus.

A postagem em questão teve 62 mil curtidas, 5,1 mil comentários e 14 mil compartilhamentos entre os dias 15 e 17 de junho. Ela recebeu um aviso do Facebook afirmando que “as vacinas contra a covid-19 passam por vários testes de segurança e eficácia e são, então, monitoradas com atenção”, tendo como fonte a OMS.

Recentemente, o Comprova mostrou que a vacina contra a covid-19 não tem efeito magnético; que agências reguladoras negam o risco de infertilidade em vacinados; e que um ranking usado por Bolsonaro não representa a realidade da imunização no país.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

 

Saúde

Investigado por: 2021-06-17

É enganoso post que compara falas de Biden e Bolsonaro sobre dispensa do uso de máscara

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o vídeo que combina declarações de Joe Biden e Jair Bolsonaro sobre a liberação do uso de máscaras. O americano anunciou a dispensa da proteção facial em casos específicos e com o país vendo cair drasticamente o número de casos e internações por covid, diferentemente do que ocorre no Brasil.
  • Conteúdo verificado: Vídeo no Instagram compara anúncio do presidente americano Joe Biden e uma fala de Bolsonaro sobre uso de máscaras. O trecho de Biden é acompanhado por legenda em português com um corte de parte da declaração.

É enganoso um vídeo que viralizou nesta semana no Instagram comparando declarações dos presidentes Joe Biden e Jair Bolsonaro (sem partido) sobre a dispensa do uso de máscaras. No trecho publicado, o americano fala que a proteção não é mais necessária para quem estiver totalmente vacinado e em locais abertos, longe de aglomerações. Já a gravação de Bolsonaro mostra-o dizendo que o ministro da Saúde vai concluir um parecer desobrigando o uso da proteção por pessoas já vacinadas.

Inicialmente, o post, que acusa a mídia de tratar os dois mandatários de forma diferente, engana ao não traduzir com fidelidade a fala de Biden, legendando apenas: “Se você já foi vacinado, não precisa usar máscara”. Ou seja, ignorando condições específicas citadas acima, como manter o distanciamento social.

A postagem também desinforma ao desconsiderar os contextos da pandemia de cada país. A declaração de Biden foi feita em 27 de abril, quando os Estados Unidos tinham aplicado 215 milhões de doses em sua população, de 328 milhões de pessoas, desde o início da campanha de imunização. Segundo o monitor Our World in Data, da Universidade de Oxford, 96,7 milhões de americanos estavam totalmente vacinados — cerca de 30% da população. A fala de Bolsonaro foi em 10 de junho, dia em que o Brasil tinha 23,4 milhões de seus 211 milhões de cidadãos totalmente imunizados, ou 11% de seus habitantes, também de acordo com o painel.

Outro dado importante para entender as declarações é o número de casos e óbitos por covid em cada país. Em 27 de abril, dia da fala de Biden, os Estados Unidos registraram 40,4 mil casos de coronavírus e 485 mortes nas últimas 24 horas, segundo relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas. Já em 10 de junho, quando Bolsonaro falou em desobrigar o uso de máscara, o Brasil registrou 2.344 novas mortes e 89.802 novos casos da doença.

Para especialistas ouvidos pelo Comprova, o Brasil só poderá seguir o exemplo dos Estados Unidos quando mais gente estiver totalmente vacinada e os números de casos e óbitos tiverem caído.

Como verificamos?

Inicialmente, transcrevemos o trecho da fala de Biden no vídeo e fizemos uma busca no Google, que resultou em reportagens sobre o fim da obrigatoriedade de máscaras em casos específicos em veículos nacionais e internacionais, informando o contexto e a data em que o discurso foi feito. Ao buscar a fala com o nome “White House”, encontramos a transcrição do discurso completo no site da Casa Branca.

Também transcrevemos e pesquisamos no Google a declaração de Bolsonaro; a busca resultou em matérias de sites nacionais repercutindo a fala.

Pesquisamos os números de vacinados no site Our World in Data e contatamos, por e-mail, órgãos oficiais, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Saúde, para levantar dados sobre o uso de máscaras. Este último não respondeu, mas a reportagem pesquisou documentos no site da instituição.

Para comentar os cenários dos dois países, entrevistamos Raquel Stucchi, infectologista da Universidade de Campinas (Unicamp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, e o pesquisador Daniel Mansur, professor de imunologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia.

Enviamos mensagens privadas para o perfil @acordabrasil38, onde o vídeo viralizou, mas não recebemos resposta até a publicação deste texto. Também tentamos contatar a página @cristianocjs_br2, citada como provável fonte do conteúdo pelo @acordabrasil38. Um dia depois do contato da reportagem, o perfil estava fora do ar.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 17 de junho de 2021.

Verificação

Vídeos sem contexto

No trecho de nove segundos do vídeo de Biden, publicado no post verificado aqui, ele diz: “Se você foi totalmente vacinado e está ao ar livre, você precisa… e se você não está em uma grande aglomeração, você não precisa usar máscara”.

A declaração foi dada em 27 de abril, durante uma coletiva de imprensa nos jardins da Casa Branca, em Washington. Ele abre o evento com um discurso sobre a luta que o país trava contra a covid-19 para conseguir chegar bem ao 4 de julho, feriado nacional do Dia da Independência.

Diferentemente do que a postagem faz crer ao comparar as afirmações de Biden com as de Bolsonaro – “a mesma informação, presidentes diferentes” –, são contextos completamente distintos.

Em seu discurso, o americano fala sobre as pessoas mais velhas, explicando que, quando assumiu o cargo, em janeiro, o país perdia dezenas de milhares de idosos todas as semanas. “Naquela época, menos de 1% dos idosos estavam totalmente vacinados. Hoje, em menos de cem dias, mais de 67%, dois terços de nossos idosos, estão, e mais de 80% já receberam pelo menos uma injeção”, diz ele, acrescentando que esse esforço “resultou em uma queda de 80% nas mortes entre os idosos americanos e uma queda de 70% nas hospitalizações”.

Outro dado que ele dá antes de anunciar que pessoas imunizadas e longe de aglomerações podem ficar sem máscara ao ar livre é que desde sua posse, em 20 de janeiro, o país, de 328 milhões de habitantes, havia aplicado 215 milhões de doses.

Segundo o monitor Our World in Data, 96,7 milhões estavam totalmente vacinados, ou quase 30% dos americanos.

Relatório de 27 de abril da OPAS mostra que os Estados Unidos registraram 40,4 mil casos de coronavírus e 485 mortes nas últimas 24 horas.

Já o trecho seguinte do vídeo verificado mostra o presidente brasileiro dizendo: “Ministro da Saúde, ele vai ultimar um parecer visando a desobrigar o uso de máscara por parte daqueles que estejam vacinados”. A declaração foi feita no dia 10 de junho, em um evento no Planalto sobre medidas para o setor de turismo, e não terminava aí. Além de falar em desobrigar o uso da proteção para vacinados, Bolsonaro também disse que o parecer valeria para aqueles que “já foram contaminados para tirar este símbolo que, obviamente, tem a sua utilidade para quem está infectado”.

No dia da declaração, 23,4 milhões dos 211 milhões de cidadãos estavam totalmente vacinados, ou 11% da população, também de acordo com o Our World in Data. Ainda em 10 de junho, o país registrou 2.344 novas mortes por Covid-19 e 89.802 novos casos da doença em 24 horas, chegando a um total de 482.135 mortes e 17.215.159 casos desde o início da pandemia.

O que dizem os especialistas

Para a infectologista Raquel Stucchi, diferentemente do que Bolsonaro afirma no vídeo do post verificado aqui, o Brasil não está no momento de liberar o uso de máscaras. “Nós temos quase 12% da população vacinada apenas e um número ainda muito expressivo de casos. A taxa de ocupação de leitos de hospital na maior parte dos estados ultrapassa 80%, muitos acima de 90%, e temos uma mortalidade ainda muito alta, então, nada disso faz com que nós possamos desobrigar o uso de máscaras”, diz ela.

Em contrapartida, ela destaca que os Estados Unidos cumpriram quesitos importantes: vacinaram com duas doses parte significativa da população com imunizantes de alta eficácia e viram uma queda drástica no número de hospitalizações e óbitos. “Portanto, eles podem, sim, tentar abolir o uso de máscaras em locais abertos e sem aglomerações.”

Opinião semelhante tem o pesquisador Daniel Mansur. “Para aliviar as medidas, só quando o número de casos estiver bem baixo”, afirma. “As situações dos Estados Unidos e do Brasil não são comparáveis. Aqui, o pessoal não foi vacinado ainda (em larga escala).”

Ele cita como exemplo Florianópolis, onde vive. Em levantamento publicado pela Folha em 9 de junho, a taxa de ocupação de leitos de UTI na cidade havia subido de 67% para 89% em uma semana. Em Santa Catarina, foi de 91% para 95%.

Uso de máscara

“As pessoas que já foram vacinadas com as duas doses não podem abrir mão da máscara no Brasil pelos motivos já falados: número de casos muito grande, alta taxa de ocupação hospitalar e alta mortalidade”, diz Raquel Stucchi. Ela ressalta que, mesmo vacinadas, elas podem se infectar e transmitir o vírus, já que nenhum imunizante garante 100% de proteção.

Stucchi lembra ainda que, ao contrário do que Bolsonaro afirma (que, além dos vacinados, o governo dispensaria o uso de máscara por pessoas que já se contaminaram), “a reinfecção existe”.

Como reforça Daniel Mansur, já foi comprovado que mesmo uma pessoa sem sintomas pode transmitir o coronavírus, por isso, o uso da máscara continua sendo essencial no Brasil. “A máscara é importante porque protege quem usa e também evita que os outros peguem”, diz ele. “Acho que a parte mais difícil é colocar na cabeça das pessoas que não é só por elas, é pelo próximo também.”

Em verificação publicada pelo Comprova em 11 de junho, a OPAS afirmou que “as evidências científicas mostraram que máscaras são uma medida fundamental para suprimir a transmissão da covid-19 e salvar vidas. Devem ser usadas como parte de uma abordagem abrangente de ‘Faça tudo’, incluindo manter distanciamento físico de um metro ou mais de outras pessoas, evitar locais com aglomeração e contato próximo, garantir boa ventilação, limpar frequentemente as mãos e cobrir o espirro e a tosse com o cotovelo dobrado”.

Procurada pelo Comprova, a Anvisa enviou informações a respeito da resolução nº 456/2021, sobre medidas de proteção contra o vírus apenas “em aeroportos e aeronaves”. A instituição afirmou que as definições sobre uso de máscaras pela população partem do Ministério da Saúde, que não respondeu ao contato da reportagem.

Em seu site, a pasta recomenda a utilização “para toda a população em ambientes coletivos, em especial no transporte público e em eventos e reuniões, como forma de proteção individual, reduzindo o risco potencial de exposição do vírus especialmente de indivíduos assintomáticos”.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia ou sobre políticas públicas do governo federal. Quando esse conteúdo envolve medidas contra o coronavírus, sua checagem se torna ainda mais necessária, porque informações incorretas podem levar as pessoas a colocarem a saúde em risco.

Além de tentar desmoralizar a imprensa, o post verificado aqui, que teve 8.327 visualizações no Instagram até 17 de junho, distorce informações para fazer crer que o Brasil pode seguir o exemplo dos Estados Unidos e desobrigar o uso de máscaras em determinadas ocasiões, o que ainda não é recomendado por autoridades sanitárias.

Neste mês, o Comprova publicou outros conteúdos semelhantes, como um que enganava ao afirmar que estudo provava a ineficácia das máscaras contra a covid e outro que tirava de contexto e-mails de Anthony Fauci sobre a proteção facial.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2021-06-16

Ao contrário do que afirma post, ivermectina em altas doses pode causar até convulsão

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa postagem de médico no Twitter e no Instagram afirmando que a ivermectina é um remédio seguro em altas doses e com estudos comprovados de sua ação antiviral. O profissional defende o uso da substância no "tratamento precoce" contra a covid-19, porém não há, até o momento, estudo que comprove a eficácia do antiparasitário neste sentido e o uso é desaconselhado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela farmacêutica Merck, que produz a droga nos Estados Unidos. Especialistas também afirmam que nenhum medicamento é seguro em doses excessivas.
  • Conteúdo verificado: Postagens no Instagram e no Twitter de um médico defendendo que ivermectina é um remédio “enviado por Deus”, seguro em altas doses e com estudos já comprovados de sua ação antiviral.

É enganoso o conteúdo de postagens feitas pelos perfis de um médico no Twitter e no Instagram em que ele afirma que a ivermectina é um “remédio enviado por Deus”, barato, seguro em altas doses, pouco metabolizado no fígado e não filtrado nos rins e que sua ação antiviral já foi comprovada em estudos. O medicamento, de fato, é barato, mas ele não é seguro em altas doses, não tem eficácia antiviral comprovada e deve ser utilizado apenas como antiparasitário, como indica a bula. Doses além do recomendado podem provocar intoxicação e reações que vão desde urticária até convulsão.

Além disso, segundo especialistas ouvidos pelo Comprova, o teor de metabolização do medicamento no fígado ou de filtragem pelos rins não é, por si só, um indicativo de que ele seja seguro e que possa ser tomado em altas doses. Isso porque, ainda que um medicamento tenha baixa toxicidade, não quer dizer que ele não possa fazer mal. A ivermectina tem muitas interações medicamentosas e seu uso é recomendado em dose única, e não diária ou semanalmente, como vem sendo prescrita pelos defensores do “kit covid” e do “tratamento precoce”.

De acordo com a bula do medicamento, a ingestão de altas doses pode provocar intoxicação e, nestes casos, o paciente deve procurar assistência médica imediatamente levando, se possível, a bula ou a embalagem do medicamento. São relatados com maior frequência lesões cutâneas até urticária, inchaço, dor de cabeça, tontura, falta de disposição, náusea, vômitos, dor abdominal, diarreia, convulsões, alteração do equilíbrio, falta de ar e alterações na sensibilidade. A Food and Drug Administration (FDA) alerta para a possibilidade de coma e até morte em caso de overdose.

Como verificamos?

Primeiramente, buscamos informações profissionais do usuário @CanaldoFalcao1 em seu perfil no Twitter e encontramos o registro profissional de Marcos Falcão Farias Monte, sob o número 8608-AL, no Conselho Regional de Medicina do Estado de Alagoas. Também analisamos um canal do Telegram mantido pelo médico, por meio do qual encontramos um estudo envolvendo a ivermectina como potencial profilático para covid, compartilhado por ele. O material foi publicado no periódico Journal of Clinical and Diagnostic Research, considerado de média relevância, sem ser de excelência nacional ou internacional.

Em seguida, a partir de postagens em que o médico defendia e prescrevia a ivermectina e outros medicamentos do chamado “kit covid”, entramos em contato com especialistas para falar sobre os efeitos da droga e o impacto de altas doses. Para isso, ouvimos o infectologista Fábio Amorim, médico do Instituto Couto Maia, em Salvador, unidade de referência para doenças infectocontagiosas, e também o hepatologista Raymundo Paraná, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador do núcleo de pesquisa em Hepatologia do Complexo Hospitalar Universitário Professor Edgard Santos (HUPES/UFBA).

Buscamos informações sobre o uso da ivermectina para pacientes com covid-19 junto à Organização Mundial de Saúde (OMS) e sobre os efeitos do medicamento em reportagens, como esta, publicada pelo CORREIO, e esta outra, do UOL.

Por fim, também entramos em contato por meio de um número de celular disponível na conta do Twitter de Marcos Falcão.Ele respondeu por outro número de telefone, exigindo o número de registro do jornalista e não respondendo às questões propostas. Também tentou intimidar o profissional, ameaçando denunciá-lo, processar o Comprova e, ao fim, compartilhou trechos da conversa nas redes sociais, desmerecendo o trabalho da checagem.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 16 de junho de 2021.

Verificação

O que diz a bula da ivermectina

Disponível no bulário eletrônico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a bula da ivermectina recomenda a ingestão de uma dose única do medicamento para tratar doenças causadas por vermes ou parasitas. Na maior parte das doenças – estrongiloidíase, filariose, ascaridíase, escabiose e pediculose –, a dosagem recomendada é de 200 mcg por quilo de peso corporal. Uma pessoa que pesa entre 66 kg e 79 kg, por exemplo, deve tomar dois comprimidos e meio. Acima desse peso, o paciente deve calcular a quantidade de mcg por kg para tomar a dosagem correta.

No caso do tratamento para oncocercose, a dose oral única deve ser de 150 mcg/kg de peso corporal. Uma pessoa que pesa entre 65 kg e 84 kg deve tomar dois comprimidos.

A bula esclarece que a dose não deve ser repetida, a menos que haja recomendação médica e após a realização de exames laboratoriais. Também informa que, “em caso de intoxicação acidental ou na exposição significativa a quantidades desconhecidas de formulações veterinárias de ivermectina em humanos, seja por ingestão, inalação, injeção ou exposição de áreas do corpo”, o paciente deve procurar assistência médica imediatamente levando, se possível, a bula ou a embalagem do medicamento.

A bula da ivermectina informa que foram relatados alguns sintomas após a ingestão de dose acima da recomendada. Com maior frequência aparecem lesões cutâneas até urticária, inchaço, dor de cabeça, tontura, falta de disposição, náusea, vômitos, dor abdominal, diarreia, convulsões, alteração do equilíbrio, falta de ar e alterações na sensibilidade.

Problemas no fígado e nos rins

No post verificado aqui, Marcos Falcão afirma que a ivermectina é um “remédio enviado por Deus”, que é “apenas 8% metabolizado no fígado” e que “a molécula é grande e portanto não é filtrada nos rins”. Ele também afirma haver estudos comprovados de sua ação antiviral e que a medicação é “segura em altas doses”.

Médicos ouvidos pelo Comprova, contudo, refutam a informação publicada por Falcão. Tanto o infectologista Fábio Amorim, do Instituto Couto Maia, em Salvador, quanto o hepatologista Raymundo Paraná, da UFBA, têm atendido pacientes com problemas relacionados à ingestão de altas doses da ivermectina.

“Não desmerecendo o papel de Deus nisso tudo, mas é, no mínimo, questionável. Não tem nenhum documento, nenhum paper (artigo científico), em nenhum lugar do mundo que prove a eficácia da ivermectina (contra a covid). Eu desconheço. Não tem medicação nenhuma milagrosa. A gente trata as complicações da doença e não tem nada que trate ou amenize a covid”, afirma Fábio Amorim, que atende apenas em ambiente hospitalar pacientes infectados pelo coronavírus.

Ele acrescenta, ainda, que nenhuma medicação é segura em altas doses. “O que diferencia droga de veneno é volume, é quantidade. Nada em excesso ou fora de padrão é benéfico para ninguém. Se você conversar com gastroenterologista, tem pacientes com intoxicação por hipervitaminose, por excesso de vitamina D, e se você não tratar, o paciente pode ter infarto em poucos anos. Nem vitamina é benéfica em altas doses e as pessoas estão fazendo overdose de ivermectina, de hidroxicloroquina, de zinco, de vitamina D. Não tem porque a gente usar medicamento em demasia. Isso é insanidade”, afirma.

Raymundo Paraná, que tem atendido pacientes com lesões no fígado por conta do uso indiscriminado da ivermectina, reforça que a quantidade metabolizada no fígado ou filtrada nos rins não torna o medicamento seguro, ou mesmo eficaz, contra a covid. “Ela tem muitas interações medicamentosas, tem neurotoxicidade e, embora o potencial de toxicidade dela seja muito baixo, não quer dizer que ela não tenha potencial de toxicidade”, explica.

“A medicina tem como princípio primum non nocere – primeiro não faça mal. Para saber se não está fazendo mal, a gente tem que ter noção de que ela faz bem, o quanto faz mais bem do que mal. Se a gente não tiver essa noção, o pouco mal pode se transformar num grande mal se eu não tenho benefício. Como qualquer outra droga, se eu não tenho vantagens com o uso dela, eu só acumulo desvantagens. E, até o momento, a ivermectina é utilizada como antiparasitário e nem o fabricante recomenda que se use em outra coisa”, aponta.

O que dizem as entidades de saúde e o fabricante

A OMS e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço da OMS nas Américas, não recomendam o uso de ivermectina para nenhum propósito que não seja aqueles para os quais o medicamento é autorizado: doenças parasitárias, como oncocercose e sarna.

A revisão dos estudos sobre medicamentos para uso em pacientes com covid-19 identificou “incerteza nos benefícios e danos potenciais”. “Embora estimativas sugiram benefícios com ivermectina, fatores como limitações metodológicas dos estudos apontam que as evidências são insuficientes e que mais pesquisas são necessárias para confirmar ou descartar esses achados”, diz a OMS.

Em 31 de março de 2021, a organização recomendou que a ivermectina fosse usada apenas em ensaios clínicos relacionados à covid-19, tendo em vista que a evidência atual sobre o uso desse medicamento para tratar pacientes com a doença é inconclusiva.

A Food and Drug Administration (FDA), agência de regulação dos Estados Unidos, também não aprova o uso da ivermectina para tratar ou prevenir a covid-19 e alerta que o uso de doses excessivas do medicamento, que não tem efeito antiviral, pode causar danos. A European Medicines Agency (EMA) também desaconselha o uso da ivermectina para pacientes com covid ou para prevenir a doença.

O laboratório Merck, fabricante da ivermectina nos Estados Unidos, afirmou em 4 de fevereiro de 2021 que os cientistas da empresa examinam cuidadosamente todos os estudos disponíveis e emergentes de ivermectina para o tratamento da doença para evidências de eficácia e segurança.

Até o momento, diz, a análise identificou não haver base científica para um efeito terapêutico potencial contra a covid de estudos pré-clínicos; não haver evidência significativa para atividade clínica ou eficácia clínica em pacientes com a doença; e preocupação com a falta de dados de segurança na maioria dos estudos.

“Não acreditamos que os dados disponíveis suportem a segurança e eficácia da ivermectina além das doses e populações indicadas nas informações de prescrição aprovadas pela agência reguladora”, diz o comunicado.

Quem é o autor do post

Marcos Falcão Farias Monte é médico com registro no Conselho Regional de Medicina do Estado de Alagoas, sob o número 8608-AL. O documento foi emitido há seis meses, em 15 de dezembro de 2020, após ele se formar pela Universidade Federal de Alagoas. Não há especialidades registradas.

Ele atende no formato de telemedicina e, tanto no Twitter quanto no Instagram, se apresenta como ativista político de direita, oferecendo tratamento imediato contra a covid. Também mantém um canal no YouTube, que já passou quatro meses desmonetizado como punição aplicada pela plataforma.

Via WhatsApp, o médico oferta serviços de análise clínica, prescrição de remédios, acompanhamento até a cura dos sintomas e solicitação de exames, com direito a quatro retornos por um valor de R$250.

Também pelos perfis, o Comprova localizou um canal do Telegram mantido pelo médico com mais de 5 mil inscritos. Na plataforma, Falcão recomenda – para “ajudar na prevenção da covid” – que todo domingo as pessoas tomem um comprimido de ivermectina para cada 30 kg. “Se tiver num meio-termo, arredonda para mais. Exemplo: 45 kg, toma dois”, diz a publicação, que indica, ainda, a ingestão de outras quatro substâncias também sem comprovação contra a covid em dias alternados, por semana ou diariamente. Em nenhum momento o profissional orienta as pessoas a consultarem um médico antes da ingestão do combo.

Para o hepatologista Raymundo Paraná, essa dosagem não é testada em humanos e não há estudos que comprovem o efeito antiviral da ivermectina, diferente do que diz Falcão. “Já vi pacientes tomando 2 comprimidos por dia, 1 por dia, 1 por semana, 1 a cada 15 dias e já vi 12 comprimidos por dia. É uma loucura. Nunca vi uma prescrição igual à outra porque ninguém sabe qual é a dose e nem o tempo de tratamento. Quando, em medicina, existem propostas muito diferentes, é porque nenhuma presta. Quando tem alguma que presta, todo mundo faz igual”, explica.

Ele destaca que opiniões individuais que defendem o uso da ivermectina contra a covid são frágeis e não há estudos sérios que comprovem sua eficácia, afirmando não fazer sentido que a venda do medicamento tenha crescido vertiginosamente justo no momento em que a pandemia teve mais vítimas.

“Se fosse uma dose tão milagrosa assim, não deveria ter essa coincidência, você deveria ter menos casos graves. Mas, pelo contrário, você teve muito mais casos do que quando não se usava. Obviamente que se fosse demonstrada a eficácia, nenhum médico sério do mundo se recusaria a prescrevê-la”, afirma.

O médico Marcos Falcão, em uma das postagens no Telegram, chega a compartilhar o estudo “Use of Ivermectin as a Potential Chemoprophylaxis for Covid-19 in Egypt: A Randomised Clinical Trial”, publicado no Journal of Clinical and Diagnostic Research, afirmando que ele comprova efeito da ivermectina na proteção contra a covid.

A conclusão do estudo, entretanto, sugere que a ivermectina apresenta eficácia promissora enquanto droga quimioprofilática (uso de medicamento de modo preventivo) contra a covid, acrescentando que trata-se de um primeiro relatório em relação ao uso da substância na profilaxia e que é apropriado se estudar rigorosamente o medicamento.

Conforme consulta na Plataforma Sucupira, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), vinculada ao Ministério da Educação, o periódico no qual o estudo foi publicado é avaliado como B3 na área de Medicina I, ou seja, considerado de média relevância, sem ser de excelência nacional ou internacional.

A cientista Natalia Pasternak, microbiologista da Universidade de São Paulo (USP), ouvida pela Comissão da Pandemia no Senado no dia 11 de junho de 2021, projetou em telão uma série de estudos científicos reconhecidos, de diversas partes do mundo, mostrando que a cloroquina e outros medicamentos do chamado “tratamento precoce”, dentre eles a ivermectina, não funcionam contra a covid-19.

Ela destacou que o chamado ‘kit covid’, que engloba remédios como hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, não tem base científica, argumentando que a hidroxicloroquina, por exemplo, nunca foi testada em conjunto com ivermectina, e, juntas, podem ter interações medicamentosas que podem ser nocivas para os rins, para o fígado e podem levar pessoas à fila do transplante.

Na ocasião, o senador Luis Carlos Heinze defendeu que a ivermectina tem comprovação científica no combate à covid, declarando haver cinco metanálises favoráveis, sendo duas já publicadas (pelos doutores Pierre Kory – já verificado pelo Comprova – e Timotheus). A cientista, entretanto, voltou a negar a eficácia, defendendo que boas metanálises devem incluir “os melhores estudos feitos sobre aquele assunto”.

“Se a gente fizer uma metanálise só com estudos fracos, a gente vai ter uma metanálise fraca, e daí vão poder dizer que algo funciona, quando, na verdade, o conjunto das evidências que foi contemplado naquelas metanálises é um conjunto de evidências fracas. Então precisamos ter metanálises bem feitas”, declarou a especialista, lembrando que o consenso científico é constituído a partir de inúmeras pesquisas, de diferentes níveis de qualidade.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia ou sobre políticas públicas do governo federal. Quando esse conteúdo envolve medicamentos ou tratamentos contra o novo coronavírus, sua checagem se torna ainda mais necessária, porque informações incorretas podem levar as pessoas a colocarem a saúde em risco.

As postagens verificadas aqui tiveram mais de 4,1 mil curtidas, 1,2 mil compartilhamentos e 101 comentários no Twitter, além de 4,7 mil curtidas no Instagram.

Neste ano já foram publicadas checagens informando que a ivermectina não tem eficácia comprovada contra a covid-19 pelas agências Boatos.Org, Aos Fatos e o próprio Comprova.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2021-06-15

Estudo com hidroxicloroquina não comprova eficácia no ‘tratamento precoce’

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa postagem no Twitter que associa um estudo pré-publicado, portanto sem revisão dos pares, com utilização da hidroxicloroquina no tratamento precoce contra a covid-19 defendido por Bolsonaro (sem partido) e apoiadores. Além disso, o estudo em questão foi realizado com pacientes já em estado grave.
  • Conteúdo verificado: Tuíte compartilha postagem de site americano sobre um estudo que chegou à conclusão de que tratamento com hidroxicloroquina pode aumentar as chances de sobrevivência de pessoas com covid-19 em quase 200%. O perfil acrescenta um comentário: “a CPI do circo deveria dar uma lida em estudos assim. O ministro da Saúde idem”. 

Para defender a adoção de um “tratamento precoce” contra a covid-19, um tuíte enganoso divulga texto do site One America News que afirma que hidroxicloroquina pode aumentar chances de sobrevivência de um paciente em 200%. Na verdade, é um estudo sem revisão de pares e que avaliou o uso da droga em pessoas que estavam em estágio avançado da doença, não utilizando, portanto, o medicamento de forma preventiva.

O site afirma que “estudo confirmou que a hidroxicloroquina é eficaz no tratamento de covid-19”, referindo-se a uma pré-publicação que avaliou 255 pacientes infectados que necessitaram de ventilação mecânica invasiva (IMV, na sigla em inglês), ou seja, em estado grave, durante os primeiros dois meses da pandemia nos Estados Unidos.

A plataforma que o publicou destaca que preprints são relatórios preliminares de trabalhos que não foram certificados por uma revisão por pares. O estudo não engloba o que se defende no Brasil, por apoiadores do governo Bolsonaro e pelo presidente, como tratamento precoce contra o vírus.

O especialista Bruno Rezende de Souza, doutor em Farmacologia Bioquímica e Molecular no Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foi consultado pelo Comprova e diz que a amostra utilizada no estudo é pequena, tornando-o fraco, além de ressaltar não ter sido utilizado método eficaz para a análise.

O tuíte da usuária acrescenta o comentário de que “a CPI do circo deveria dar uma lida em estudos assim. O ministro da Saúde idem”, referindo-se à CPI da Pandemia, instaurada no Senado com a finalidade de apurar ações e omissões do governo federal no combate ao coronavírus, e ao depoimento do ministro Marcelo Queiroga aos membros da comissão, durante o qual se posicionou contrário ao “tratamento precoce”, defendendo a vacinação.

O perfil @Clauwild1, que fez a postagem no Twitter, foi procurado, mas não retornou até a publicação dessa verificação.

Como verificamos?

A partir da postagem no Twitter, o Comprova verificou o conteúdo do texto compartilhado e chegou ao estudo, que foi submetido à análise do especialista Bruno Rezende Souza.

Pesquisamos os tipos de estudos e qual o ideal para atestar a eficácia de drogas e tratamentos.

Analisamos uma entrevista de um dos autores do estudo e o procuramos por meio de contato informado no preprint, mas não recebemos retorno.

Também revisitamos checagens e estudos anteriormente publicados sobre o uso da hidroxicloroquina no tratamento contra a covid-19.

Por fim, tentamos conversar com o perfil @Clauwild1, responsável pelo tuíte, sem sucesso.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de junho de 2021.

Verificação

Estudo

O estudo foi publicado pelo site MedRxiv, que se apresenta como um arquivo online gratuito de manuscritos completos, mas não publicados (preprints) nas ciências médicas, clínicas e de saúde relacionadas.

O site destaca, inclusive, que preprints são relatórios preliminares de trabalho que não foram certificados por revisão por pares e que não devem ser usados ​​para orientar a prática clínica ou comportamento relacionado à saúde, nem ser relatados na mídia como informação estabelecida.

Conforme apresentado pelos autores, o estudo avaliou 255 pacientes infectados com covid-19 que necessitaram de ventilação mecânica invasiva durante os primeiros dois meses da pandemia nos Estados Unidos.

Foram examinadas as associações de comorbidades, parâmetros laboratoriais e terapias médicas com mortalidade em todos os pacientes internados em um único hospital no norte de Nova Jersey, durante a primeira onda da pandemia, entre a segunda semana de março e o pico, no início de abril de 2020.

Os pacientes foram analisados no Saint Barnabas Medical Center ao longo de 51 dias, a partir de 12 de março. Os dados dos prontuários foram acrescentados no mesmo banco de dados e analisados ​​de várias maneiras.

“As abordagens incluíram análises de séries temporais de sinais vitais, dados laboratoriais e terapêuticos. Também examinamos o tratamento de uma maneira mais completa e abrangente, que incluiu todos os tratamentos utilizados. Ao fazer isso, fomos capazes de obter novos insights sobre a covid grave, que causa insuficiência respiratória”, diz o estudo.

As conclusões apontam que apenas 3,5% do grupo recebeu alta, mas os autores defendem que vários fatores estão associados ao desfecho em pacientes com covid hospitalizados. “A maioria dos estudos da covid não considerou dias de terapia (período em que pacientes receberam medicação), dose cumulativa ou dosagem ajustada ao peso. Descobrimos que quando as doses cumulativas de dois medicamentos, HCQ [hidroxicloroquina] e AZM [azitromicina], estavam acima de um determinado nível, os pacientes tinham uma taxa de sobrevida 2,9 vezes maior que os outros pacientes”, conclui.

O preprint destaca que esses dados ainda não se aplicam a pacientes hospitalizados que não estejam em IMV, ou seja, que não estejam em estado grave. “Uma vez que aqueles com doses mais altas de HCQ tinham doses mais altas de AZM não podemos atribuir apenas o efeito causal (a sobrevida de alguns pacientes) à terapia combinada de HCQ/AZM”.

É provável, destacam os autores, que a azitromicina contribua significativamente para esse aumento na taxa de sobrevivência. “Uma vez que a terapia com doses mais altas de HCQ/AZM melhora a sobrevida em quase 200% nesta população, os dados de segurança são discutíveis”, destaca.

Tipo de estudo

O artigo trata de um estudo observacional, geralmente utilizado para formular hipóteses, segundo explica o Centro de Apoio à Pesquisa no Complexo de Saúde (CAPCS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Para atestar a eficácia de drogas e tratamentos, o ideal é a realização de um ensaio clínico, como explica um texto de Claudia de Carvalho Falci Bezerra, mestre em Pesquisa Clínica em Doenças Infecciosas pela Fiocruz. O melhor modelo é o duplo-cego randomizado, em que os pacientes são separados em dois grupos: um que receberá o tratamento e outro que receberá placebo. A divisão aleatória ajuda a evitar vieses como idade e condição física, que podem afetar o resultado.

Além disso, nesse tipo de estudo nem médicos, nem pacientes sabem, no momento em que a droga é administrada, quem está recebendo o medicamento e quem está recebendo o placebo. “A justificativa para esta técnica é que quando o paciente sabe que está recebendo um novo tratamento, pode haver um efeito psicológico benéfico no paciente, fazendo-o se sentir melhor mesmo não havendo nenhuma melhora clínica efetiva. E ao contrário, se o paciente souber que está recebendo um tratamento convencional ou nenhum tratamento, pode acontecer um efeito psicológico indesejado. O paciente pode se sentir pior, mesmo que não haja nenhuma piora no quadro”, explica o texto da pesquisadora.

Avaliação

O Comprova pediu ao cientista Bruno Rezende de Souza, da UFMG, para avaliar o estudo.

Conforme o professor, trata-se de estudo observacional e também retrospectivo, tendo peso pequeno como evidência porque é impossível responder se foram os medicamentos que causaram a melhora de pacientes. “Não dá para comparar com os estudos randomizados, duplo-cego e controlados com placebo já publicados”, afirma.

Ainda segundo a análise do especialista, a amostra utilizada é pequena, o que torna o estudo fraco, pois há aumento da chance de resultados falso-positivos e falso-negativos. “É como tirar cara ou coroa e fazer um gráfico depois de jogar a moeda pra cima só três vezes”, diz, lembrando tratar-se de um artigo pré-publicado que precisa ainda passar por revisão por pares.

Rezende chama a atenção sobre um dado específico do estudo, mencionado na tabela 1, que contém valores de apresentação e condições pré-existentes dos pacientes estudados. Conforme o levantamento, no dia da admissão dos pacientes, a maioria já estava sendo medicada com hidroxicloroquina e hidroxicloroquina combinada com azitromicina.

 

“A barra azul mostra para gente que tem muito mais pessoas sendo intubadas que são tratadas (com hidroxicloroquina) do que as que não são tratadas, ou seja, se eu olhasse só esse gráfico eu falaria que esse tratamento está induzindo as pessoas a serem intubadas, está sendo pior”, observa.

Apesar disso, diz, a interpretação está comprometida por falta de dados mais detalhados. “É apenas uma crítica porque não tem os dados que mostram se estava pareado o número de pessoas internadas em tratamento com hidroxicloroquina e azitromicina e pessoas que não estavam sendo tratadas, aí seria um estudo sério, que você pareia, normaliza pela idade, essas coisas todas. E não tem nada”, finaliza.

Hidroxicloroquina

Como o Comprova mostrou em uma verificação recente, o Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes da OMS, formado por especialistas de todo o mundo, concluiu, no dia 1º de março de 2021, que a hidroxicloroquina não deve ser usada para tratar a covid-19 de forma precoce. Para fazer essa recomendação, os especialistas realizaram seis ensaios clínicos randomizados, dos quais participaram 6 mil participantes.

De acordo com esse grupo de especialistas, “o estudo mostrou que a hidroxicloroquina não teve efeito significativo na morte e admissão ao hospital, enquanto a evidência de certeza moderada mostrou que a hidroxicloroquina não teve efeito significativo na infecção por covid-19 confirmada em laboratório e provavelmente aumentava o risco de efeitos adversos”.

Por causa desses achados, os cientistas entenderam que a hidroxicloroquina deve deixar de ser prioridade nas pesquisas em busca de medicamentos para prevenir a infecção pelo novo coronavírus. A pesquisa completa foi publicada no The BMJ.

CPI e o ministro da Saúde

A CPI da Pandemia foi instalada no dia 27 de abril de 2021, com 11 senadores titulares, para apurar, em 90 dias, as ações e omissões do governo federal no enfrentamento da crise sanitária no Brasil e, em especial, no agravamento dela no Amazonas com a ausência de oxigênio para os pacientes internados.

Tem como objetivo, também, investigar possíveis irregularidades em contratos, fraudes em licitações, superfaturamentos, desvio de recursos públicos, assinatura de contratos com empresas de fachada para prestação de serviços genéricos ou fictícios, entre outros ilícitos, se valendo para isso de recursos originados da União, bem como outras ações ou omissões cometidas por administradores públicos federais, estaduais e municipais a partir de recursos repassados pela União.

Citado no post verificado aqui, o ministro da saúde, Marcelo Queiroga, prestou depoimento e se posicionou contra o tratamento precoce, defendendo a vacinação como medida contra a covid-19.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia ou sobre políticas públicas do governo federal. Quando esse conteúdo envolve medicamentos ou tratamentos contra o novo coronavírus, sua checagem se torna ainda mais necessária, porque informações incorretas podem levar as pessoas a colocarem sua saúde em risco.

O tuíte verificado aqui teve 3,9 mil curtidas e 1,5 mil compartilhamentos, além de 71 comentários.

Recentemente, o Comprova mostrou serem enganosos conteúdos virais sobre uma possível indicação do defensor da cloroquina ao Nobel da Paz; sobre a vacinação contra a covid-19; sobre o uso de máscaras; e sobre o chamado “tratamento precoce”.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou ainda que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2021-06-15

É falso que jogador dinamarquês tenha se vacinado antes de sofrer mal súbito

  • Falso
Falso
Tuíte informa como fonte uma entrevista feita para uma rádio italiana, cuja existência a própria emissora nega. O jogador tampouco foi vacinado, segundo o diretor do clube onde atua.
  • Conteúdo verificado: Um tuíte do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos alega que o jogador de futebol Christian Eriksen, vítima de um mal súbito enquanto jogava, teria tomado a vacina da Pfizer contra a covid em 31 de maio. O blogueiro associa o mal-estar com o fato do jogador ter sido supostamente imunizado.

É falso que o jogador dinamarquês Christian Eriksen, que teve um mal súbito no jogo contra a Finlândia no último sábado, 12, já tenha sido vacinado contra a covid-19. Essa alegação foi feita pelo blogueiro Allan dos Santos no Twitter. Dizendo que não haveria “nada ainda confirmado”, ele afirma que “é grande o questionamento” se o mal-estar seria um efeito adverso do imunizante.

Allan diz que “o médico-chefe e cardiologista da equipe italiana confirmou via rádio italiana que Eriksen havia recebido a vacina Pfizer em 31 de Maio”. Apesar disso, a rádio citada negou que tenha veiculado entrevista da equipe responsável pelo jogador.

Giuseppe Marotta, diretor da Inter de Milão, clube pelo qual o jogador atua, também desmentiu os boatos. “Ele (Eriksen) não teve covid e também não foi vacinado. Eu posso dizer que a equipe médica da Inter está em contato com a equipe médica da Dinamarca desde o início”, afirmou Marotta em entrevista ao canal de TV Rai Sport.

O Comprova não conseguiu contato com Allan dos Santos.

Como verificamos?

O primeiro passo foi buscar informações sobre o incidente na mídia nacional e internacional, bem como os desdobramentos do caso. Procurando a suposta entrevista na rádio italiana, encontramos o tuíte informando se tratar de desinformação.

O Comprova não conseguiu entrar em contato com Allan dos Santos. Seu posicionamento será acrescentado caso ele procure a reportagem.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 15 de junho de 2021.

Verificação

Eriksen foi vítima de um mal súbito

Durante a partida entre Dinamarca e Finlândia na Eurocopa neste sábado, 12, o jogador dinamarquês Christian Eriksen sofreu um mal súbito e chegou a ficar inconsciente em campo.

Ele recebeu massagem cardíaca até ser reanimado e ser encaminhado a um hospital. A partida chegou a ser suspensa, mas foi retomada quando todos no estádio receberam a notícia de que ele estava em condição estável.

Ainda não se sabe o que ocorreu com o jogador. Na manhã desta segunda, 14, o empresário de Eriksen, Martin Schoots, disse ao jornal italiano Gazzetta dello Sport: “Todos nós queremos saber o que aconteceu, ele também. Os médicos estão fazendo exames detalhados, vai demorar”, afirmou.

Diretor e rádio negam boatos de vacinação

O caso de Eriksen chamou atenção pois o jogador não tinha problemas de saúde, informação confirmada pelo seu diretor na Inter de Milão e por um ex-cardiologista de quando ele jogava no Tottenham, da Inglaterra. Logo surgiram rumores infundados de que o jogador teria tomado a primeira dose da vacina da Pfizer 12 dias antes e que isso poderia estar associado com o mal súbito.

Como mostrou a agência internacional de notícias Reuters, essa alegação falsa circulou inicialmente em um tuíte em inglês que foi posteriormente apagado. Apesar disso, prints do tuíte continuaram circulando no Facebook e no Instagram. Segundo esses posts, a informação teria sido revelada pela equipe médica da Inter de Milão em entrevista para a rádio italiana Radio Sportiva.

Isso foi desmentido pelo rádio em sua conta no Twitter. “As informações relatadas no tuíte mencionado são falsas. Nunca relatamos qualquer opinião da equipe médica da Inter de Milão sobre a condição de Christian Eriksen”, diz o tuíte da rádio.

Ao comentar o bom quadro clínico de Eriksen, seu ex-cardiologista no Tottenham, Sanjay Sharma, deu uma entrevista ao tabloide inglês Daily Mail na qual levantou a hipótese de que “alguns jogadores podem ter se infectado de forma assintomática com covid-19”, o que poderia “ter deixado sequelas no coração”. No entanto, isso foi apenas uma hipótese aventada, uma vez que ele mesmo estava surpreso com o caso, já que nunca encontrou motivo para alarme quando cuidou da saúde do atleta.

Como mostrado pelo Comprova recentemente, já são bem conhecidos os efeitos do coronavírus sobre o coração. A doença pode causar um grave quadro inflamatório em todo o corpo, o que é propício para o desenvolvimento de problemas cardíacos. Além disso, os pesquisadores já identificaram a presença do coronavírus em células do coração e sua relação com uma inflamação do músculo cardíaco chamada miocardite.

No entanto, não foi este o caso de Eriksen, segundo o diretor da Inter de Milão, Giuseppe Marotta. Ele negou que o jogador já tivesse se infectado com o coronavírus ou mesmo que tenha se vacinado. “Ele não teve covid nem havia se vacinado ainda”, disse Marotta ao canal de TV Rai Sport.

Quem é Allan dos Santos

Allan dos Santos é um blogueiro bolsonarista, criador do site Terça Livre. Ele é investigado no inquérito que apura a organização e o financiamento de atos antidemocráticos ao longo de 2020.

As provas coletadas pela Polícia Federal com a quebra de sigilo do aparelho celular de Allan dos Santos mostram que ele mantinha reuniões com deputados bolsonaristas e servidores do Palácio do Planalto. É dele uma mensagem enviada a um assessor de Bolsonaro no qual defende uma intervenção militar no país. Em julho de 2020, ele afirmou que havia deixado o país.

A Polícia Federal pede a abertura de oito frentes de apuração. Cinco meses depois de ser questionada pelo STF sobre a continuação das investigações, a Procuradoria-Geral da República defendeu o arquivamento do inquérito. Cabe ao ministro Alexandre de Moraes determinar o arquivamento ou a continuidade.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos suspeitos sobre o governo federal e também a pandemia. Damos prioridade para postagens que atingiram alto grau de viralização e assim podem causar mais dano. O tuíte de Allan dos Santos recebeu 12.372 reações, foi retuitado ao menos 1.499 vezes e permanece no ar mesmo após a informação ter sido desmentida por diversos veículos.

As vacinas atualmente disponíveis passaram por várias etapas de testes que garantem sua segurança e eficácia em proteger contra o coronavírus. Conteúdos como o checado lançam dúvidas na população e atrapalham o principal esforço atualmente conduzido pelas autoridades para combater a pandemia.

O Comprova já mostrou que agências regulatórias negam haver risco à fertilidade dos vacinados. Também mostramos ser falso que a Organização Mundial da Saúde recomende uma 3ª dose para a Coronavac.

O boato envolvendo o caso do jogador dinamarquês também foi desmentido pela Reuters, Full Fact, Forbes, Lupa e Fato ou Fake.

Falso, para o Comprova, é conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Saúde

Investigado por: 2021-06-14

Vacina contra covid não tem efeito magnético

  • Falso
Falso
É falso que a vacina contra a covid-19 deixe a pele “magnética”. Ao contrário do que foi sugerido em vídeo divulgado no Facebook, os imunizantes não têm qualquer componente capaz de gerar tal reação, e professores de Física esclarecem que o efeito de adesão é o responsável por permitir que moedas ou ímãs fiquem grudados na pele.
  • Conteúdo verificado: Vídeo divulgado no Facebook mostra uma idosa, que afirma ter sido vacinada com a Coronavac nos dois braços, grudando uma moeda no local onde supostamente teria recebido o imunizante.

É falso que a vacina contra o coronavírus seja capaz de magnetizar a pele no local da aplicação, ao contrário do que alega uma idosa em um vídeo que viralizou no Facebook.

Em vários outros experimentos também publicados na internet, é possível ver que basta um pouco de umidade para que uma moeda, ímã ou qualquer objeto pequeno e leve fique grudado no braço de qualquer pessoa – tendo ela tomado ou não a vacina.

Segundo professores de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que responderam ao boato que circula online, o efeito de adesão, propiciado por forças intermoleculares, é o responsável pelo truque. O princípio científico define a tendência que superfícies e partículas formadas por moléculas diferentes têm de “grudar” uma na outra.

Além disso, o único metal presente na composição das vacinas – em dose baixíssima – é o hidróxido de alumínio, que não tem capacidade magnética nessa proporção.

O Instituto Butantan, responsável pela fabricação da Coronavac, também já desmentiu as alegações.

O Comprova entrou em contato com a mulher que aparece no vídeo e com a autora do post no Facebook, mas não teve retorno até a publicação desta verificação.

Como verificamos?

Tentamos entrar em contato com a idosa que aparece no vídeo que viralizou, para checar se ela fez o “experimento” acreditando mesmo nele ou se, de forma proposital, adotou algum truque. Encontramos o perfil dela no Facebook, com as informações que ela mesma fornece no vídeo, mas ela não respondeu aos nossos contatos por mensagem na rede social. A usuária que publicou o vídeo também foi contatada pela plataforma.

Depois, buscamos outras publicações online sobre o assunto, e encontramos um post do Centro de Referência para o Ensino da Física, publicado em maio, que já explicava a impossibilidade da hipótese de uma “vacina magnética”.

Também encontramos outros vídeos publicados na internet por pessoas que provaram que é possível fazer o truque mesmo sem estar vacinado contra a covid-19.

Buscamos ainda o posicionamento do Instituto Butantan, responsável pela fabricação da Coronavac no Brasil.

Por fim, consultamos outras verificações publicadas por checadores brasileiros e de outros países sobre o assunto.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de junho de 2021.

Verificação

No vídeo que viralizou, a idosa, que se apresenta como Matilde Rodrigues, da cidade de Salto do Pirapora, em São Paulo, diz ter tomado as duas doses da Coronavac – uma em cada braço. Então, ela faz um “experimento”, colocando uma moeda de um real sobre o local onde supostamente foi imunizada. A moeda adere à pele nesses pontos, mas não gruda em outras partes do braço. Por isto, ela afirma que a vacina “deve ter algum ímã”.

Adesão à pele

Em maio, os professores do Centro de Referência para o Ensino da Física, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CREF/URFGS), Fernando Kokobun e Fernando Lang da Silveira, fizeram um post com explicações do que pode provocar a adesão de uma moeda ou outros objetos metálicos ou magnéticos à pele.

Em um vídeo, os professores mostram que uma moeda de 50 centavos adere facilmente ao braço de uma pessoa, em local onde não havia sido aplicada nenhuma vacina. O efeito, segundo eles, é produzido “sem magnetismo algum, apenas com uma leve hidratação do local (caso a pele esteja seca) onde se deseja a adesão da moeda. Se a pele estiver seca, basta passar um pano úmido no local, para que a moeda, levemente pressionada à pele hidratada, tenha aderência suficiente para ali ficar”.

No Twitter, o médico e doutorando da Universidade de Oxford, no Reino Unido, Ricardo Parolin, também publicou um vídeo, mostrando que, mesmo sem ter tomado a vacina, foi capaz de provocar a adesão de uma moeda ao próprio braço, passando antes uma toalha levemente molhada no local.

Para os professores do CREF/UFRGS, todo o boato é uma “teoria conspiratória”, e tudo não passa de um “comum efeito de adesão propiciado por forças intermoleculares”.

Composição da vacina

O único componente metálico da vacina do Butantan e do laboratório Sinovac é o hidróxido de alumínio. De acordo com a instituição brasileira, trata-se de um “componente adjuvante, seguro, aprovado e utilizado há décadas”, que não causa problemas de saúde. Os adjuvantes são compostos que estimulam a produção dos anticorpos e melhoram a resposta imune do organismo após a vacinação.

“Segundo o diretor de ensaios clínicos do Instituto Butantan, Ricardo Palacios, materiais paramagnéticos como o alumínio fazem parte da composição do corpo humano e só podem ser influenciados magneticamente por forças muito potentes, como as usadas nos aparelhos de ressonância magnética nuclear”, diz a publicação no site do Butantan.

E o diretor ainda complementa: “Em situações cotidianas, as pessoas não se expõem a essas grandes forças magnéticas. A quantidade de alumínio existente na composição do corpo humano e a exposição diária por ingestão é muito maior que a administrada na vacina, que não é capaz de alterar significativamente a proporção de alumínio de uma pessoa”.

Kokobun e Lang da Silveira, do CREF/UFRGS, apontam ainda que a quantidade da substância presente em uma dose de vacina é um milésimo da encontrada em comprimidos de antiácido – que não possuem qualquer efeito magnético.

Todos os possíveis efeitos colaterais gerados pela Coronavac, que não incluem magnetismo, estão descritos na bula do imunizante.

Por que investigamos?

O Comprova verifica, em sua quarta fase, conteúdos sobre a pandemia ou políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais.

O vídeo em questão acumula mais de 40 mil interações em um único post no Facebook, e já foi compartilhado diversas outras vezes em outras plataformas, como o Twitter, Youtube, Instagram e Whatsapp. Outros vídeos semelhantes, com as mesmas alegações, também se espalham por todas essas redes, inclusive em outros países, aumentando a desconfiança do público com as vacinas – apontadas por especialistas como a principal medida para solucionar a pandemia.

O Comprova já concluiu que era falso um boato que associava a imunização ao câncer, danos genéticos e ‘homossexualismo’ e que a OMS não recomendou uma terceira aplicação da CoronaVac.

Outros conteúdos sobre a suposta “vacina magnética” — seja a Coronavac ou o imunizante da AstraZeneca — já foram desmentidos no Brasil pelo Estadão, G1, Aos Fatos, AFP e UOL. Fora do país, o tema também foi checado pela BBC, Verifica, Animal Politico, FactCheck.org e Maldita.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Saúde

Investigado por: 2021-06-14

Ranking usado por Bolsonaro não representa a realidade da imunização no país

  • Enganoso
Enganoso
Jair Bolsonaro afirmou no Twitter que o país é o 4º que mais vacina no mundo. O ranking de vacinas usado pelo presidente desconsidera, no entanto, o tamanho da população. E se baseia apenas na quantidade total de doses aplicadas, sem diferenciar primeira e segunda doses, e não apresenta a proporção da população que foi imunizada.
  • Conteúdo verificado: Publicação do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais afirma de forma distorcida que o Brasil é o 4º país que mais vacina no mundo.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) distorceu a posição do Brasil no ranking de vacinação mundial ao dizer, em redes sociais, que o país é o 4º que mais imuniza no mundo. O dado utiliza um ranking do painel Our World In Data, da Universidade de Oxford, que apresenta a quantidade total de vacinas aplicadas, mas sem diferenciar primeira e segunda doses ou indicar qual a proporção da população que foi imunizada.

O critério de total de vacinas é problemático porque a maioria das vacinas necessita de duas doses para garantir a imunização. Além disso, o recorte percentual também é necessário, já que a maioria dos modelos epidemiológicos considera a imunidade coletiva após imunização de ao menos 70% da população. O Brasil é o sexto país mais populoso do mundo e apenas números brutos não indicam o alcance que a vacinação representa no território.

Quando se trata da população vacinada em termos percentuais, o mesmo painel apontava, na sexta-feira (11), o Brasil em 77º na aplicação da primeira dose e em 83º na aplicação da segunda. O presidente já utilizou os números absolutos de vacinação em outras ocasiões, conforme checagens feitas pelo Aos Fatos e pelo UOL Confere.

Na mesma postagem, ele afirma corretamente que mais de 105 milhões de doses foram distribuídas a todos os estados brasileiros e que a Fiocruz assinou contrato de transferência tecnológica para a produção completamente nacional da AstraZeneca.

Como verificamos?

O Comprova consultou o painel de vacinação do Ministério da Saúde para conferir a quantidade de doses distribuídas e entregues aos estados e pesquisou informações sobre a transferência tecnológica no site da Fiocruz e em veículos de imprensa.

A verificação também conferiu o painel de vacinação da Our World In Data para confirmar a quantidade total de doses aplicadas nos países e o percentual relativo às aplicações de primeira e segunda doses nos locais. Os números foram comparados com os apresentados pela agência Bloomberg, dos Estados Unidos, e foi organizada uma planilha para calcular a proporção de vacinados por 100 mil habitantes. Os dados de população foram retirados do portal Worldometer.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 11 de junho de 2021.

Verificação

Distribuição de vacinas

Segundo o painel de vacinação do Ministério da Saúde, até a tarde de sexta-feira (11) foram distribuídas 109.294.468 doses às unidades federativas, das quais 102.698.464 foram efetivamente entregues aos municípios. No entanto, foram aplicadas 75.890.097 doses (sendo 52.429.219 relativas à primeira dose e 23.460.878 à segunda dose).

No Programa Nacional de Imunização (PNI), o governo federal encaminha as doses aos estados, que cuidam da distribuição às cidades. Cabe aos municípios gerenciar a aplicação das doses na população.

O Brasil no ranking de vacinação

O painel Our World In Data, abastecido pela Universidade de Oxford, da Inglaterra, aponta o Brasil como o 4º lugar no ranking de total de vacinas aplicadas, sem diferenciar primeira e segunda doses (75,8 milhões de doses). O país está atrás de China (845,3 milhões), EUA (305,6 milhões) e Índia (240,2 milhões) e à frente de Reino Unido (69,7 milhões), Alemanha (59 milhões) e França (42,5 milhões).

O cálculo não considera o tamanho das populações. Com mais de 212 milhões de habitantes, o Brasil é o sexto país mais populoso do mundo; à frente estão China (1,4 bilhão), Índia (1,3 bilhão), Estados Unidos (331 milhões), Indonésia (273,5 milhões) e Paquistão (220,8 milhões).

Se observado o ranking que mostra a proporção da população que foi vacinada com pelo menos uma dose, contudo, o Brasil aparece apenas em 77º lugar, com 24,7%. Já no ranking que mostra o percentual da população que recebeu a segunda dose, o Brasil é o 83º, com 11%. As duas listas incluem países e territórios, mas não contemplam dados da China, que não divulga a diferença de aplicações entre primeira e segunda doses.

Os cálculos da proporção de doses aplicadas a cada 100 mil habitantes (sem diferenciar primeira e segunda doses) mostram o Brasil em 9º (com média de 35 mil) num levantamento feito entre os 30 países mais populosos do mundo, atrás de nações como Reino Unido (102 mil), EUA (92 mil), Alemanha (70 mil) e Espanha (67 mil).

Em relação às primeiras doses aplicadas a cada 100 mil habitantes, o Brasil fica em 8º (24 mil) e, nas segundas doses, 9º (11 mil).

No ranking da Bloomberg, agência de notícias dos Estados Unidos, o Brasil também aparece em 4º no total de doses aplicadas (sem diferenciar primeira e segunda doses), e em termos de proporção da população, é o 70º tanto na quantidade de primeiras doses aplicadas quanto em segundas doses. A Bloomberg apresenta uma quantidade mais enxuta de territórios em relação à Our World In Data e é atualizada em horários distintos, o que explica a ligeira diferença de cálculos das vacinas aplicadas nos países. A quantidade numérica de primeiras e segundas doses não consta no painel da agência.

Situação do Brasil

O Brasil depende de outros países para seguir adiante com a vacinação, já que importa as doses de laboratórios estrangeiros. Isso também ocorre nas produções nacionais, como a AstraZeneca e a CoronaVac, produzidas respectivamente pela Fiocruz e pelo Butantan, mas que necessitam de insumos vindos do exterior.

Embora a Fiocruz tenha assinado contrato de transferência tecnológica para produzir o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo) no Brasil, o procedimento ainda demora alguns meses e as primeiras doses feitas 100% no país são previstas apenas para outubro.

A dependência de outros países já levou a atrasos na entrega de doses por diversas vezes. Em anúncio feito no dia 2 de junho, o governo reduziu em 3,9 milhões a previsão de vacinas a serem entregues no mês. Um levantamento feito pelo jornal O Globo aponta que do total anunciado pelo Ministério da Saúde em fevereiro deste ano foram entregues apenas 60% das doses.

As falas de Bolsonaro a respeito da vacinação omitem os atrasos nas entregas e outras dificuldades enfrentadas pelo Brasil, como no caso da Janssen, vacina da Johnson e Johson, cujo carregamento é previsto para chegar ao país restando apenas 12 dias para o prazo de validade.

Vice-presidente da CPI da Pandemia no Senado, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) divulgou que o governo federal ignorou 81 tentativas da Pfizer de negociar vacinas contra a covid-19. Além disso, o país ficou de fora da primeira reunião da Covax Facility, consórcio de distribuição de imunizantes organizado pela OMS, e mesmo com a adesão tardia optou pela cobertura mínima de vacinas ofertadas.

Por que investigamos?

Não é a primeira vez que o presidente Jair Bolsonaro menciona a quantidade total de vacinas aplicadas sem um recorte da proporção da população que realmente foi vacinada. Ele menciona os dados desde janeiro deste ano e já os citou em lives semanais de maio e junho, conforme checagens do UOL Confere. O conteúdo também já foi desmentido pela agência Aos Fatos.

Até a tarde de sexta-feira (11), a mensagem publicada pelo presidente no Twitter já contava com mais de 8,6 mil interações e, no Facebook, 117 mil. O contexto epidemiológico do país justifica que a situação vacinal seja devidamente explicada, já que mais de 4 milhões de brasileiros não retornaram aos postos de saúde para tomar a segunda dose da vacina e há registros de atrasos e lentidão nas filas.

O Comprova já desmentiu que o Brasil vacinou 11% da população antes da Alemanha, que Bolsonaro recusou ofertas anteriores da Pfizer por questões estratégicas e que o governador de São Paulo João Doria (PSDB) e o filho do ex-presidente Lula seriam sócios na produção da CoronaVac visando as eleições de 2022.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Política

Investigado por: 2021-06-14

Para exaltar Bolsonaro posts exageram impacto da doação de máquinas israelenses que produzem água

  • Enganoso
Enganoso
Posts enganam ao insinuar que, sob a gestão de Bolsonaro, o sertão brasileiro vai se tornar uma área verde graças à doação de máquinas de produção de água por empresa israelense – contribuição que realmente ocorreu.
  • Conteúdo verificado: Posts circulam no Facebook com a inscrição: “Israel doa ao Brasil 10 máquinas que produzem água potável”. A imagem que ilustra o post é uma montagem que une uma foto de uma vasta plantação com a de Jair Bolsonaro. Entre aspas, vem a frase: “Esse será o nosso sertão”.

São enganosos os posts que circulam no Facebook com uma montagem que une fotos de uma grande área de plantação e do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a legenda “Israel doa ao Brasil 10 máquinas que produzem água potável – ‘Esse será o nosso sertão’”.

De fato, o governo brasileiro recebeu de uma empresa israelense, a Watergen, em fevereiro de 2019, onze máquinas que produzem água potável a partir da umidade do ar, conforme post de Marcos Pontes, ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Dez dos aparelhos recebidos, como informa a postagem, são de médio porte, e um tem capacidade menor. Segundo o site do fabricante, a máquina mediana produz até 800 litros de água pura por dia e, com essa quantidade, é impossível irrigar grandes áreas, como a da foto dos posts verificados ou como o sertão, citado no conteúdo.

Como exemplo, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), são necessários de 10 a 45 litros de água por dia para irrigar uma planta de bananeira no semiárido com o método da microaspersão, um dos que “exigem menor quantidade de água e energia” – a variação de consumo d’água varia segundo a idade da planta e a época do ano. Ou seja, uma máquina irrigaria de 17 a 80 pés diariamente.

Considerando o uso do gotejamento, “sistema de irrigação que reduz em até 10% o consumo de água em relação à microaspersão, no primeiro ciclo de cultivo”, conforme explica Welson Lima Simões, pesquisador da Embrapa Semiárido na área de Irrigação, usando o exemplo acima, cada máquina da Watergen irrigaria de 19 a 88 pés de banana por dia. Para efeito de comparação, um bananal menos denso tem 1.666 plantas por hectare.

Além disso, os aparelhos da Watergen funcionam “em uma ampla gama de condições climáticas: a partir de 15° C e 20% de umidade” e o sertão tem a taxa de umidade mais baixa do país, muitas vezes ficando abaixo deste limite mínimo estabelecido pelo fabricante.

Como verificamos?

Inicialmente, encontramos o post do ministro Marcos Pontes comentando o recebimento das máquinas da Watergen. A informação também foi encontrada no site da empresa, onde foi possível buscar dados sobre o modelo doado para o governo brasileiro.

Pesquisamos em sites oficiais, como o da Embrapa, o que é o sertão brasileiro e quais os tipos de irrigação. Para isso, também falamos com o pesquisador Gilvan Charles Cerqueira de Araújo, pós-doutorando em Geografia pela USP. Para confirmar os cálculos feitos sobre consumo hídrico, conversamos com Welson Lima Simões, pesquisador da Embrapa na área de Irrigação.

Por e-mail, tentamos contatar o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e a Watergen, que afirmou que responderia, mas após uma semana não o fez. Via mensagem privada no Facebook, escrevemos para os autores dos posts, que também não responderam.

Verificação

Máquina que produz água

O aparelho doado pela Watergen para o governo federal que aparece no post de Marcos Pontes é o Gen-M. Segundo o site da fabricante, o equipamento necessita apenas de uma fonte de eletricidade para funcionar e produzir até 800 litros de água segura para beber por dia.

“O Gen-M foi projetado para atender às necessidades de pequenos vilarejos, parques, edifícios residenciais, fazendas, escolas, universidades, equipes de primeiros socorros e outras entidades que buscam fornecer água potável pura e segura para seus usuários”, informa a Watergen. Ainda de acordo com a empresa israelense e como já informado acima, o Gen-M pode produzir água “em uma ampla gama de condições climáticas: a partir de 15°C e 20% de umidade”.

A doação das máquinas foi celebrada pelo ministro Marcos Pontes no Instagram. Segundo ele, o equipamento de menor porte seria utilizado “em atividades educacionais”. Já os de médio porte seriam testados em “escolas, hospitais e algumas comunidades com grandes desafios hídricos”. Não há menção, portanto, de seu uso para agricultura, mas o seu uso em fazendas é considerado pela empresa.

O Comprova questionou o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações se as máquinas estão sendo utilizadas e se elas levaram ao desenvolvimento de alguma política pública ampla, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Sertão

O sertão é um termo que assume diferentes significados na literatura, na geografia e na história. O termo já foi utilizado para se referir a qualquer região não explorada do interior do país.

“Historicamente, ele tem um significado maior, em todo o território do interior do Brasil. Estamos falando do sertão goiano, do de Minas, de Mato Grosso…”, explica Gilvan Charles Cerqueira de Araújo.

O pesquisador ressalta que autores da literatura brasileira usaram esse conceito e moldaram a nossa percepção cultural, como o mineiro Guimarães Rosa (“Grande Sertão: Veredas”) e Euclides da Cunha (“Os Sertões”). Já o cantor paulista Sérgio Reis também mostra um olhar romantizado do interior em sua canção “Assim é meu sertão”.

O post fala que as máquinas trariam solução para os problemas decorrentes da seca. Por isso, é possível entender que esteja falando do sertão nordestino. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não faz esse recorte geográfico; por isso, o Comprova utilizou a definição da Embrapa.

O sertão é uma das quatro sub-regiões do Nordeste e fica entre o agreste e o meio-norte (a outra subdivisão é a zona da mata, beirando o litoral). Segundo a Embrapa, é “a maior sub-região (do Nordeste), corta todo o oeste da Bahia, uma pequena parte de Alagoas e da Paraíba, grande parte de Pernambuco, do Rio Grande do Norte, todo o território do Ceará e o leste do Piauí” e “apresenta solos rasos e pedregosos, com chuvas escassas e mal distribuídas, o que dificulta muito as atividades agrícolas”.

Frequentemente, o sertão é confundido com o Polígono das Secas, pois ambos abrangem os mesmos estados – o Polígono se estende também por Sergipe e Minas Gerais. De qualquer forma, mesmo que os posts verificados aqui se refiram ao Polígono, a afirmação também não faria sentido, como diz o pesquisador Araújo. “A falta de chuva pode ser maior do que as outras áreas do Nordeste, podendo chegar a mais de 9, 10 meses sem chuva.”

O sertão é marcado pelo clima semiárido e a vegetação típica é a caatinga.

Na rede

As duas postagens verificadas aqui foram publicadas em páginas de grupos bolsonaristas no Facebook.

Uma delas foi no perfil Bolsomito, que se define da seguinte maneira: “Este grupo é de total apoio ao presidente Bolsonaro até 31 de dezembro de 2026. Os esquerdistas que continue (sic) chorando! Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. O perfil publicou nos últimos dias conteúdos de apoio à médica Nise Yamaguchi, defensora do tratamento precoce apoiado pelo presidente, e a favor do voto impresso.

O outro perfil se chama Tarcísio G Freitas (Min Infraestrutura), mas não é o perfil oficial do ministro. Ele tem como foco “divulgar a agenda de governança do ministro da Infraestrutura, Sr. Tarcísio G de Freitas, junto com nosso presidente Jair Messias Bolsonaro e demais ministérios”. Recentemente, o perfil publicou posts desacreditando os protestos contra Bolsonaro que ocorreram em diversas cidades e reuniram milhares de manifestantes e também de apoio à Nise Yamaguchi.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova checa conteúdos possivelmente falsos ou enganosos sobre a pandemia ou políticas públicas do governo federal que tenham alcançado alto grau de viralização. É o caso dos posts verificados aqui, que alcançaram, juntos, 20,7 mil interações até 14 de junho.

Os conteúdos, que servem para apoiar Bolsonaro, juntam uma informação verdadeira – a doação das máquinas – com uma enganosa – que elas podem irrigar o sertão e transformá-lo em uma grande área de agricultura. O sertão vive uma situação dramática há décadas e qualquer iniciativa para alterar esse cenário deve ser saudada, mas quando é verdadeira. As máquinas da Watergen podem, sim, ajudar o sertão do Nordeste, mas não tornando-o uma área verde.

Recentemente, o Comprova publicou outra verificação que enganava para elogiar Bolsonaro sobre sua atuação nas obras da transposição do Rio São Francisco. Também checou a informação enganosa de que o presidente teria recusado uma oferta da Pfizer para conseguir mais vacinas.

Enganoso, para o Comprova, é conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2021-06-11

Estudo sem revisão tem falhas e não prova que uso de máscaras é ineficaz contra covid-19

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa publicação em site que afirma que o uso de máscaras faciais não é eficaz para prevenir casos de covid-19. O texto se baseia em dados de um estudo em fase pré-print que não são suficientes para comprovar que o uso de máscaras é ineficaz como medida de combate à covid-19. Especialistas ouvidos pelo Comprova apontam falhas na metodologia utilizada.
  • Conteúdo verificado: Post em um site sobre um estudo feito nos Estados Unidos que teria revelado que 80% dos estados americanos que exigiram o uso de máscaras durante a pandemia provavelmente não conseguiram impedir a disseminação do vírus.

São enganosas as conclusões de um estudo norte-americano sobre a eficácia do uso de máscaras como medida de prevenção à covid-19, publicadas pelo site Crítica Nacional e compartilhadas no Twitter e no Facebook.

Com base no levantamento — que ainda está em fase de pré-print, sem revisão pelos pares –, o site brasileiro afirma que a imposição do uso de máscaras em várias partes dos Estados Unidos não impactou significativamente o número de casos de covid-19 nas mesmas localidades.

Especialistas ouvidos pelo Comprova, porém, alertam que o estudo é limitado, por deixar de analisar variáveis importantes — como a taxa de isolamento da população e a fiscalização do uso de máscaras pelo poder público — e por comparar dados entre grupos heterogêneos.

Atualmente, a utilização de máscaras é recomendada por autoridades sanitárias de todo o mundo como uma das medidas importantes de prevenção à covid-19, além de ventilação adequada e distanciamento físico.

O Comprova entrou em contato com os responsáveis pelo site Crítica Nacional, mas não teve retorno até o término desta verificação.

Como verificamos?

Primeiramente, acessamos a versão integral e original do estudo mencionado pelo site Crítica Nacional, disponível em inglês na plataforma MedRXiv, para comparar o teor da publicação com o texto em português.

Para entender melhor a pesquisa, e a confiabilidade da conclusão apresentada, o Comprova ouviu dois pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e buscou respostas junto à Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), que atua como escritório regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas. Os pesquisadores foram entrevistados por telefone, e o escritório da OPAS em Brasília respondeu ao nosso contato por e-mail.

Consultamos reportagens publicadas na imprensa e diretrizes nos sites de órgãos e autoridades de saúde nacionais e internacionais sobre as formas de contágio do novo coronavírus e as medidas recomendadas para evitar a contaminação.

Por fim, entramos em contato com o site Crítica Nacional, por meio do e-mail disponibilizado na página, mas não tivemos resposta até a publicação deste texto.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 11 de junho de 2021.

Verificação

O estudo citado pelo site Crítica Nacional foi postado pelos autores Damian D. Guerra, do Departamento de Biologia da Universidade de Louisville, nos Estados Unidos, e Daniel J. Guerra, fundador de uma consultoria biomédica. O perfil do primeiro autor, Damian, disponível na plataforma Google Scholar, não o aponta como responsável por nenhuma outra pesquisa relacionada à pandemia da covid-19.

Segundo o texto, publicado no site MedRXiv, que reúne pesquisas ainda sem revisão dos pares, o objetivo do estudo era analisar a eficácia dos decretos e leis que obrigam o uso de máscaras na redução dos casos de covid-19 nas unidades federativas dos Estados Unidos.

Na análise, os estados foram divididos em três grupos. No primeiro, em que houve determinação inicial de uso de máscaras, foram considerados aqueles em que o equipamento de proteção (que poderia ser qualquer tipo de cobertura facial) já era exigido em pelo menos 50% das cidades antes do dia 20 de agosto de 2020. Os pesquisadores incluíram, sem distinção, os decretos que tratavam da obrigatoriedade apenas em lojas e no comércio ou em todos os locais públicos.

Um segundo grupo, de estados onde as mesmas condições passaram a vigorar depois de 20 de agosto, foi considerado como aquele em que as medidas foram adotadas de forma tardia; e um terceiro grupo de estados não adotou nenhum tipo de ação a nível estadual até março deste ano.

Em seguida, foi feita uma comparação do crescimento dos casos de coronavírus em cada localidade, durante os momentos mais e menos graves da pandemia no país.

Com base nesse levantamento, os autores afirmam que o uso de máscaras não impactou significativamente no contágio pela covid-19, e concluem que o uso do equipamento não deveria ser obrigatório.

Estudo limitado

A professora de Imunologia da UnB, Anamelia Bocca, foi consultada pelo Comprova, e, após ler o estudo, afirmou que ele peca ao não comparar dois grupos homogêneos. E chamou a atenção para o fato de que um estado ter leis para o uso de máscara não significa adesão dos habitantes. “No Distrito Federal é obrigatório (uso de máscara) e as pessoas fazem festas clandestinas e aglomeram sem máscaras. O outro ponto é comparar o uso de máscaras diferentes”, cita. Anamelia Bocca finaliza lembrando que, atualmente, a discussão é sobre qual é a melhor máscara.

Também a pedido da nossa reportagem, o professor do Instituto de Física da UnB, Tarcísio Rocha, que faz parte do Comitê Gestor do Plano de Contingência em Saúde da Covid-19 da UnB e trabalha com modelos matemáticos de vacina, avaliou a pesquisa repercutida pelo site Crítica Nacional.

Em resumo, Rocha afirma que o estudo é limitado e, portanto, não oferece elementos para se tirar qualquer conclusão. Ao longo da entrevista, ele fez uma lista de variáveis desconsideradas no artigo e que colocam em xeque a credibilidade. “O artigo ainda está na fase pré-print, ou seja, não passou pelo crivo de pares e não está publicado em revista científica. Quando passa pelo crivo e a comunidade científica analisa, vê se é razoável ou não”, explica.

O primeiro ponto destacado por Rocha é que, para chegar à conclusão de que as máscaras não teriam contribuído para reduzir a propagação do novo coronavírus, o autor levou em consideração apenas uma variável: a taxa de crescimento da disseminação do SARS-CoV-2 em estados onde o uso da máscara era obrigatório e onde não era.

Mas para um estudo dessa natureza, seria necessário muito mais do que isso. “É preciso incluir outras variáveis, como a taxa de isolamento, se a população aderiu ou não (ao uso de máscaras), se teve fiscalização do poder público, que tipo de máscara a população desses estados usou, entre outras”, pontua Tarcísio Rocha.

Além de todas essas lacunas, o professor da UnB ressalta que máscara é uma proteção adicional, que reduz as chances de a pessoa se contaminar. Qualquer análise sobre a eficácia desse equipamento de proteção individual precisa ser cuidadosa e levar em conta todas as variáveis. “Caso contrário, é muito fácil errar”.

O que diz a OPAS?

O Comprova procurou o escritório da Organização Pan-Americana de Saúde -, em Brasília, para saber a posição dela em relação ao estudo. Por meio da assessoria de imprensa, a entidade informou que “não comenta detalhes e nem dá explicações sobre estudos que não foram produzidos por nós”. Disse, porém, que as recomendações da entidade sobre uso de máscaras estão disponíveis neste link.

“As evidências científicas apontadas neste guia mostraram que máscaras são uma medida fundamental para suprimir a transmissão da COVID-19 e salvar vidas. Devem ser usadas como parte de uma abordagem abrangente de ‘Faça tudo’, incluindo manter distanciamento físico de um metro ou mais de outras pessoas, evitar locais com aglomeração e contato próximo, garantir boa ventilação, limpar frequentemente as mãos e cobrir o espirro e a tosse com o cotovelo dobrado”, afirma a entidade, em resposta ao Comprova.

O site que publicou o conteúdo em português não fez nenhuma dessas considerações apontadas pelos especialistas.

Coronavírus no ar

Em fevereiro deste ano, o Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear, que realiza pesquisas dentro da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), conseguiu comprovar que as partículas do novo coronavírus ficam presentes no ar por várias horas, na forma de aerossóis.

Isso significa que, ao contrário do que se pensava nos meses iniciais da pandemia, ainda no ano passado, a maior parte das pessoas é infectada pelas vias respiratórias, quando inala o vírus suspenso no ar. Segundo o Center for Disease Control (CDC), dos Estados Unidos, a possibilidade de contágio por superfícies existe, mas é bem mais baixa. Isso significa que as medidas principais de proteção contra o vírus devem incluir o chamado “tripé de proteção”: distanciamento físico entre as pessoas; ventilação adequada dos ambientes e uso correto de máscaras.

Sobre o último ponto, pesquisadores da USP analisaram diversos tipos de equipamentos de proteção facial, e concluíram que nem todos protegem de forma eficiente contra a covid-19. De acordo com os resultados, publicados na revista científica “Aerosol Science & Technology”, as máscaras mais eficientes, com capacidade de filtrar até 98% das partículas do vírus, se usadas corretamente, são as do tipo PFF2/N95.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre a pandemia da covid-19 ou políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais.

A publicação do site Crítica Nacional teve, segundo a plataforma CrowdTangle, mais de 3.500 interações no Facebook e Instagram, além de mais de 2 mil no Twitter.

O uso de máscaras faciais é apontado como uma das medidas de prevenção à covid-19, e é incentivado pela Organização Mundial da Saúde desde o ano passado. Na ausência de medicamentos eficazes contra o vírus e com o ritmo de vacinação lento observado no Brasil, medidas não farmacológicas como essa são essenciais para tentar conter o avanço da doença, que já matou mais de 480 mil pessoas no país.

Apesar de tal importância, o uso da proteção vem sendo repetidamente atacado pelo Presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Recentemente, inclusive, o chefe do executivo afirmou que pode flexibilizar o uso da proteção no país, mesmo que o cenário epidemiológico ainda não permita uma mudança de recomendação do tipo.

Justamente por causa desse sistemático desincentivo ao uso da proteção, as máscaras faciais têm sido, desde o ano passado, tema de inúmeras afirmações falsas, já checadas pelo Comprova. Em novembro, por exemplo, concluímos que um estudo indiano, ao contrário do que insinuava uma deputada, recomendava o uso da proteção; em agosto, classificamos como falsas as alegações de que as máscaras aumentavam o risco de contaminação pelo novo coronavírus.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; bem como aquele que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2021-06-11

Agências reguladoras negam risco de infertilidade de vacinados

  • Falso
Falso
É falsa a afirmação de que as vacinas de mRNA deixam partículas no organismo dos imunizados e que causam problemas de infertilidade, como afirma site. A página tira de contexto um estudo que, segundo a Agência Europeia de Medicamentos, é da Pfizer. A farmacêutica afirmou que se trata de desinformação e que não há evidências de tais afirmações.
  • Conteúdo verificado: Texto de um site de internet afirma que um estudo realizado no Japão levantou preocupações sobre eventuais riscos reprodutivos que podem ser provocados pelas vacinas de mRNA, como as da Pfizer e Moderna.

É falso que um estudo da Pfizer aponte para risco de infertilidade em pessoas vacinadas. Essa alegação foi feita pelo site Estudos Nacionais e tira de contexto um dos estudos conduzidos pela farmacêutica para averiguar a segurança dos imunizantes.

O conteúdo publica um link para um estudo com a inscrição “Pfizer confidencial”. Apesar de ter respondido ao Comprova, a farmacêutica não comentou sobre a autenticidade do documento presente na página Estudos Nacionais, mas a reportagem encontrou os mesmos dados dele em relatório da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) como sendo realmente da Pfizer. Entretanto, a publicação do Estudos Nacionais omite que o estudo citado foi feito em ratos, não em humanos.

Ao Comprova, a Pfizer, que classificou o conteúdo verificado como desinformação, afirmou que “nenhuma evidência de achados macroscópicos ou microscópicos relacionados à vacina foi encontrada nos ovários nos estudos de toxicidade de dose repetida e nenhum efeito sobre a fertilidade foi identificado nas fases pré-clínicas do desenvolvimento do produto, que foram avaliadas pelas diferentes agências regulatórias no mundo”.

Além disso, órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Food and Drug Administration (FDA), autoridade sanitária dos Estados Unidos, e o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) do mesmo país, atestam a segurança dos imunizantes.

O site Estudos Nacionais foi procurado, mas não respondeu.

Como verificamos?

Buscamos os documentos disponíveis no site das principais agências reguladoras que já deram aprovação para uso emergencial das vacinas de mRNA. Consultamos o relatório de avaliação para uso da vacina Pfizer junto à Agência Europeia de Medicamentos e a análise para uso emergencial do imunizante da Moderna junto à Food and Drugs Administration (FDA), autoridade sanitária dos Estados Unidos.

Também pedimos informações à agência de medicamentos do Japão, que só nos respondeu em 23 de junho, após a publicação deste texto.

Por e-mail, entramos em contato com a Pfizer, Anvisa e Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) para saber sobre a segurança e eficácia dos imunizantes.

Também entrevistamos Celso Amadeo, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, para averiguar a validade científica de alguns comentários sobre coagulação e a covid-19.

Tentamos contato por e-mail com o médico canadense Byram W. Bridle, citado no texto dos Estudos Nacionais – ele enviou apenas uma resposta automática –, e Cristian Derosa, autor do conteúdo –, que não respondeu.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 11 de junho de 2021 e atualizou a publicação no dia 23 de junho de 2021 para incluir uma resposta da agência de medicamentos do Japão , a Pharmaceuticals and Medical Devices Agency.

Verificação

Vacinas de mRNA

É a primeira vez que vacinas gênicas, como a da Pfizer, são distribuídas à população. No entanto, elas eram estudadas há anos. As vacinas de mRNA já eram avaliadas no combate à Zika, raiva e influenza. Atualmente, os imunizantes da Pfizer e da Moderna utilizam essa técnica no combate à covid-19.

O DNA é a molécula que contém toda a informação genética das pessoas e fica protegido no núcleo da célula. Para que haja a produção de proteínas fundamentais para a célula, o DNA é transcrito em RNA, que funciona como uma espécie de mensagem que vai dizer o que deve ser produzido. Essa mensagem vai até as estruturas da célula responsáveis por essa produção.

Quando o coronavírus infecta uma célula, ele sequestra as estruturas celulares para produzirem suas proteínas a partir do seu próprio RNA. As vacinas da Pfizer e da Moderna imitam esse processo, porém determinando exclusivamente a produção da proteína Spike, aquela que o SARS-CoV-2 usa para se conectar às células humanas. O sistema imunológico identifica essa estrutura estranha e a combate.

Assim, quando o corpo for invadido pelo coronavírus inteiro em uma eventual infecção, ele será rapidamente identificado e eliminado. As vacinas de mRNA possuem a molécula de RNA viral transportada dentro de nanopartículas de gordura (lipídios).

O Comprova já mostrou que vacinas de mRNA não possuem a capacidade de interagir com o DNA humano. Isso porque ele fica no núcleo, onde a molécula de RNA da vacina não consegue entrar.

O estudo

O texto do site Estudos Nacionais afirma se basear em uma “nova pesquisa conduzida no Japão” que teria mostrado que “nanopartículas lipídicas (LNPs), contendo o código do mRNA, foram encontradas amplamente pelo corpo após a vacinação”. Afirma ainda que ela “assusta por incluir ovários e testículos, com capacidade para alterações reprodutivas”.

O estudo lincado no texto foi feito para avaliar a biodistribuição dos componentes da Pfizer. Em outras palavras, foi analisado o comportamento dos componentes da vacina em células de laboratório e no organismo de ratos e camundongos. Portanto, é falso que o estudo se refira a humanos vacinados. Este estudo também não faz nenhum alerta sobre riscos à saúde quanto ao uso dessa vacina, ao contrário do que diz o blog.

O texto checado afirma que o estudo teria sido feito por japoneses. O Comprova encontrou o mesmo documento, em japonês, disponível no site da agência regulatória japonesa Pharmaceuticals and Medical Devices Agency.

Ao Comprova, a agência não comentou a veracidade do documento presente no Estudos Nacionais. A PMDA nos enviou o relatório de avaliação para concessão do uso emergencial da vacina da Pfizer, solicitado pela empresa no país.

No relatório, eles afirmam que a Pfizer submeteu o resultado de estudos de toxicidade em ratos que avaliaram o impacto da vacina para a reprodução dos animais e para o desenvolvimento dos filhotes. Não foi encontrado risco para a fertilidade dos animais.

“Com base nos dados fornecidos, PMDA concluiu que não problemas de toxicidade com a Cominarty (vacina da Pfizer)”, diz o documento. O PMDA acabou concluindo pela aprovação emergencial da vacina.

Continuamos buscando a origem do estudo e chegamos ao relatório de avaliação da EMA para comercialização da vacina da Pfizer. Na página 45, os técnicos discutem a farmacocinética do imunizante. Eles citam o mesmo estudo com ratos e afirmam que foi conduzido pela Pfizer em julho de 2020. Os técnicos ressaltam que não foram detectados impactos na fertilidade.

Perguntamos à Pfizer sobre a autenticidade do documento publicado no Estudos Nacionais, mas a empresa não respondeu essa questão. Afirmou que “nenhum efeito sobre a fertilidade foi identificado nas fases pré-clínicas do desenvolvimento do produto, que foram avaliadas pelas diferentes agências regulatórias no mundo”.

Agências aprovam segurança das vacinas

De fato, nenhuma das principais agências regulatórias do mundo levantou suspeitas sobre a segurança da vacina.

Procurada pelo Comprova, a Anvisa afirmou não haver indicativo de que as vacinas contra a covid-19 autorizadas no Brasil apresentem risco à fertilidade ou toxicidade. “Todas as vacinas avaliadas pela Anvisa apresentaram dados de segurança de pesquisa clínica que permitem o seu uso pela população dentro dos limites e indicações definidos para cada produto”, explica ainda o órgão brasileiro.

A Opas também afirmou ao Comprova que não há evidências que sugiram que as vacinas contra o SARS-CoV-2 provoquem infertilidade. Segundo a entidade, esse boato já circulou no mundo todo sobre muitas vacinas diferentes, mas não existem vacinas licenciadas de qualquer tipo que causem infertilidade.

“Quando qualquer vacina é autorizada, a evidência vem principalmente de ensaios clínicos controlados e randomizados em dezenas de milhares de participantes. Após a introdução de uma vacina, um monitoramento próximo continua a ocorrer para detectar quaisquer efeitos colaterais adversos inesperados e avaliar a eficácia entre um número ainda maior de pessoas”, explica a Opas.

A entidade também destaca que nenhuma vacina pré-qualificada ou aprovada para a lista de uso emergencial pela OMS possui componentes tóxicos para o ser humano.

A FDA diz, em seu site, que “não há evidência científica de que a vacina da Pfizer cause infertilidade em mulheres”. Na época, circulava uma desinformação pelas redes sociais afirmando que a proteína Spike era similar a uma proteína encontrada na placenta. Segundo a FDA, essa informação é falsa. O órgão americano também lembra que, até onde se sabe, a infertilidade não é um resultado da infecção à covid-19. Logo, “a resposta imune ao vírus, seja causado por uma infecção natural ou pela vacina, não é uma causa de infertilidade”.

O CDC, centro de controle de doenças dos EUA, também diz que a vacina da Pfizer é segura e recomendada para pessoas a partir dos 12 anos.

A Therapeutic Goods Administration (TGA), equivalente da Anvisa no governo da Austrália, afirma que nenhuma das vacinas contra o novo coronavírus em uso no país causa esterilização ou infertilidade. Atualmente, os australianos utilizam os imunizantes da Pfizer e da AstraZeneca. Segundo a TGA, não há evidência científica que indique esse efeito após o uso das vacinas avalizadas pelo país. O órgão também reitera que a proteína Spike não é igual a nenhuma proteína encontrada na placenta.

“Não há evidências de que os anticorpos formados na vacinação contra a covid-19 causem qualquer problema com gravidez, inclusive no desenvolvimento da placenta. Além disso, não há evidências sugerindo que problemas de fertilidade sejam um efeito colateral de nenhuma vacina”, afirma a TGA.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que a vacina da Pfizer é segura e eficaz e recomenda o seu uso para pessoas acima de 16 anos.

Segundo a entidade, existem poucos dados sobre a segurança do uso do imunizante em mulheres que já estejam grávidas. No entanto, elas podem ser vacinadas se o benefício da vacinação superar eventuais riscos. Por isso, grávidas com alto risco de exposição ao SARS-CoV-2, como profissionais de saúde, ou que tenham comorbidades que aumentem os riscos de um quadro grave de covid-19, podem se vacinar, seguindo a orientação do seu médico.

A OMS também diz que, embora a vacina não tenha sido estudada ainda em mulheres lactantes, ela não é feita a partir do vírus e o mRNA não entra no núcleo das células, sendo destruído rapidamente, portanto, ele não interfere no funcionamento das células humanas. O grupo de especialistas em imunização que assessorou a OMS não recomenda a suspensão da amamentação após a vacinação.

Sobre as vacinas de mRNA de modo geral, a OMS informa que essa tecnologia foi “rigorosamente avaliada quanto à segurança” e que os ensaios clínicos demonstram que ela promove uma resposta imune de longa duração. “As vacinas de mRNA têm sido estudadas por várias décadas, incluindo no contexto da gripe, raiva e Zika vírus. Elas não são produzidas a partir do vírus vivo e não interferem no DNA humano”, explica a entidade.

O site

Segundo a aba “Quem somos”, o Estudos Nacionais é um site que “busca aprofundar as reflexões utilizando o jornalismo em sua missão informativa e contestadora da atual situação, oferecendo um contraponto exigente à situação de dúvida e incerteza gerada pelo atual modelo informativo”.

Na reportagem “A rede de fake news que ajudou a derrubar Mandetta, publicada pela Agência Pública em abril de 2020, o site é citado como um dos que “começaram a pôr em dúvida os dados de mortos por covid-19”, sem nenhuma evidência.

Quem assina o conteúdo verificado aqui é Cristian Derosa, editor e colunista do site que se apresenta como mestre em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e escritor. Seus títulos são “A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda” (2016), “Fake news: quando os jornais fingem fazer jornalismo” (2019) e “Fanáticos por poder: esquerda, globalistas, China e as reais ameaças além da pandemia” (2020).

De acordo com sua apresentação no site, ele também é aluno do Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho, guru do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O site Estudos Nacionais já foi alvo de outras verificações sobre vacina feitas pelo Comprova, sempre classificadas como enganosas. Em novembro do ano passado, a página desinformou ao escrever que morte de voluntário estava relacionada a alterações neurológicas causadas por vacina e, antes, em abril, afirmou erroneamente que as vacinas contra a covid-19 usam células de fetos abortados.

O texto sobre a vacina de mRNA checado aqui é baseado em uma publicação do site americano Natural News, que, em sua descrição, diz que “critica fortemente” alguns temas como “medicamentos, cirurgia e vacinas”. A plataforma também já apareceu no Comprova. Em novembro de 2020, ao afirmar que a CoronaVac matou voluntários e que vacinas causaram danos neurológicos ou de DNA, e, em abril, dizendo que a vacina teria microchip para rastrear a população – os dois conteúdos são falsos.

Quem é Byram W. Bridle

O texto do Estudos Nacionais ainda traz a transcrição em português de uma entrevista do médico canadense Byram W. Bridle. Dando o alerta de que “a história que estou prestes a contar é assustadora”, ele relaciona a proteína Spike a uma série de problemas de saúde, como sangramentos e coágulos sanguíneos. Também questiona se elas não estariam tornando os vacinados inférteis.

Byram W. Bridle é um doutor em imunologia viral e professor associado da University of Guelph, em Ontário, no Canadá. Seu trabalho de pesquisa tem dois focos: bioterapia contra o câncer, buscando uma forma do sistema imunológico atacar as células cancerígenas, e a resposta do hospedeiro a vírus e outros estímulos inflamatórios.

Após o lançamento das vacinas, Bridle levantou dúvidas sobre elas, questionando o tempo recorde em que foram desenvolvidas, o que segundo ele impediu o estudo de impactos de longo prazo. Também questionou o tempo de intervalo entre as aplicações de doses das vacinas da Pfizer e da Moderna.

Enviamos perguntas para Bridle por e-mail, e na sequência chegou uma resposta automática. Nela, o pesquisador afirma que mesmo em seu local de trabalho está sendo alvo de ataques após a entrevista para o podcast On Point, e indica um relatório curto escrito por ele mesmo para a Canadian Covid Care Alliance, entidade que diz ser “uma aliança de médicos canadenses independentes tentando reduzir hospitalizações e salvar vidas através da ciência baseada em evidências”. Apesar disso, a CCCA publicou um vídeo de um médico defendendo o uso da ivermectina como tratamento contra a covid-19 e diz estar filiada a duas outras organizações que pedem o uso do medicamento, ineficaz contra o coronavírus.

No relatório escrito por Bridle, o pesquisador cita estudos que apontariam a presença da proteína spike no sangue e riscos trazidos por ela e pede mais pesquisas. Também apela para que crianças e adolescentes não sejam vacinados com os produtos da Pfizer/Biontech e da Moderna.

Bridle afirma que um estudo mostrou que a proteína Spike, aplicada pela vacina da Moderna, foi encontrada no corpo de jovens até 28 dias após a vacinação. A pesquisa, que é um manuscrito e ainda não foi revisada por pares, identifica que a presença de antígenos (como a proteína Spike) cai conforme aumenta a presença de anticorpos. Ou seja, que a vacina é eficaz ao gerar resposta imunológica.

Além disso, é falso que a proteína Spike tenha sido encontrada 28 dias após a vacinação. Na verdade, dos 13 participantes, 12 não tinham nenhum antígeno no corpo mesmo após a segunda dose. Apenas um deles apresentou a proteína Spike no dia 29 – isto é, no dia seguinte à segunda dose – que foi eliminada dois dias depois.

A outra pesquisa citada por Bridle é uma revisão literária que relaciona a proteína Spike com quadro de hipertensão arterial pulmonar. Ela foi publicada no MDPI, periódico que recebe críticas pela baixa qualidade da revisão de seus artigos.

Coágulos no sangue

Depois que um imunizante começa a ser aplicado na população, permanece sob observação dos órgãos reguladores para detectar eventos adversos muito raros que não seria possível de serem observados em estudos clínicos. Alguns casos de coágulos pós-vacinação com as vacinas da Astrazeneca, na Europa, e da Johnson & Johnson, nos Estados Unidos, levaram à suspensão temporária de sua aplicação até que os casos fossem averiguados.

Em março, alguns países europeus suspenderam temporariamente a aplicação da vacina da Astrazeneca após dezenas de relatos de coágulos no sangue pós-vacinação. A suspensão foi feita enquanto se averiguava a possível relação com o imunizante. Após investigação, a Agência Europeia de Medicamentos concluiu que os coágulos deveriam ser considerados “efeitos colaterais muito raros da vacina”. Mesmo assim, a EMA disse que os benefícios conhecidos da vacina superam os riscos conhecidos, por isso manteve a recomendação de aplicação do imunizante. Até abril, 19 pessoas haviam morrido por essa causa dentre os 20 milhões de vacinados. Ou seja, a ocorrência desse evento adverso grave era de 1 a cada 1 milhão de vacinados.

Situação parecida ocorreu nos Estados Unidos. Após a aparição de seis casos de coágulos, a agência regulatória FDA determinou a suspensão temporária da aplicação do imunizante da Johnson & Johnson. Após a análise caso a caso, concluiu-se que os coágulos também são um efeito adverso “extremamente raro” desta vacina. Até 13 de abril, 6 casos foram observados dentre os mais de 6,8 milhões de doses aplicadas – ocorrência de menos de 1 a cada 1 milhão. A FDA manteve a consideração de que a vacina é segura e protege contra o coronavírus, por isso determinou a retomada de seu uso.

Tanto as vacinas da Astrazeneca/Oxford quanto a da Johnson & Johnson possuem tecnologia de adenovírus. Elas utilizam um vírus incapaz de infectar os seres humanos (chamado adenovírus), modificado geneticamente para conter a proteína Spike, característica do SARS-CoV-2. Assim, quando o corpo for infectado pelo coronavírus, ele será identificado e combatido por causa dessa proteína.

Até o momento, não houve casos de coágulos envolvendo vacinas de mRNA, caso da Pfizer e da Moderna.

Problemas cardiovasculares na covid-19

Como vimos acima, problemas de coágulos e trombose em vacinados são extremamente raros e foram observados em 1 a cada 1 milhão de vacinados (0,0001%). Por isso, as agências regulatórias consideraram que os benefícios conhecidos da vacina superam os seus riscos conhecidos.

Para se fazer uma comparação, um estudo pequeno publicado no jornal científico Jama Cardiology monitorou os efeitos da covid-19 em cem pacientes dois meses após a cura. 78% deles ainda tinham anomalias cardíacas e 60% foram diagnosticados com inflamação do músculo cardíaco. Ou seja, a possibilidade de desenvolver problemas cardiovasculares é muito maior sendo infectado pelo coronavírus do que tomando as vacinas atualmente aprovadas.

Isso ocorre porque a covid-19 causa uma intensa atividade inflamatória em todo o organismo, o que está intimamente ligado ao surgimento de doenças do coração, explica Celso Amadeo, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia. “A covid-19 pode provocar efeitos imediatos sobre o coração, como a miocardite, ou efeitos mais tardios como atividade trombótica, levando ao desenvolvimento de quadros de arritmia, insuficiência cardíaca e doença arterial coronariana.”

O médico canadense Byram W. Bridle cita uma pesquisa, de setembro de 2020, que relaciona os problemas cardiovasculares especificamente com a proteína Spike. O estudo, no entanto, traz a observação de que ainda era preciso mais pesquisas e investigações para se comprovar esta teoria.

Amadeo diz que essa hipótese é discutida, mas que ainda não foi bem esclarecida. “O que está bem esclarecido é o ‘estrago’ que esse vírus faz no sistema cardiovascular”, falou. Por isso, ele reforça a recomendação para que todas as pessoas elegíveis se vacinem.

“Mesmo quando questionamos as vacinas mais modernas, como a da Pfizer, temos que olhar os dados. Ela tem 98% de proteção contra a infecção. Então, não há argumento. Independentemente da proteína Spike, eu olho as evidências. E elas mostram que as vacinas são bastante efetivas na proteção”, aconselha.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre políticas públicas do governo federal e a pandemia de covid-19 que se tornaram virais nas redes e aplicativos de mensagens. O texto do blog Estudos Nacionais recebeu 3,3 mil compartilhamentos e 3,3 mil reações no Facebook. Um tuíte com link para o texto recebeu 7,5 mil interações.

A pandemia de coronavírus traz muitas dúvidas para a população e isso facilita a disseminação de conteúdos falsos ou imprecisos sobre o novo coronavírus. Além disso, a covid-19 também trouxe muito medo, sentimento que pode ser instrumentalizado no ambiente politizado em que vivemos.

As vacinas são a principal estratégia atualmente disponível para controle da pandemia e a desinformação sobre os imunizantes enfraquece os esforços de autoridades de saúde. O Comprova já mostrou ser falso que vacinas causariam câncer, danos genéticos e até ‘homossexualismo’.

O Boatos.org também checou a desinformação verificada neste texto.

Falso, para o Comprova, é conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.