O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhados nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Investigado por: 2022-06-08

Vacina de spray nasal ainda em teste é diferente de remédio defendido por Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o post que relaciona uma reportagem de 2021 do UOL sobre ineficácia de spray nasal defendido por Jair Bolsonaro (PL) contra a covid-19 e outra do programa Fantástico, de junho de 2022, afirmando que, segundo especialistas, uma vacina de spray nasal "é o caminho" para o fim da pandemia. Além de ainda não ter comprovação contra o coronavírus, o medicamento citado pelo presidente não era um imunizante.

Conteúdo investigado: Post unindo títulos de duas reportagens para afirmar, erroneamente, que Bolsonaro estava certo sobre aposta em remédio nasal contra o coronavírus. A primeira chamada, publicada pelo UOL em março de 2021, diz: “Com spray, Bolsonaro insiste em medicamento sem eficácia contra covid-19”. A segunda, que foi ao ar no programa “Fantástico”, da Globo, em 5 de junho de 2022, informa: “Vacina de spray nasal é o caminho para o fim da pandemia de covid, apontam especialistas”.

Onde foi publicado: Facebook, Twitter e WhatsApp.

Conclusão do Comprova: É enganoso post que usa a hashtag #Bolsonarotemrazão ao comparar uma reportagem do UOL, de março de 2021, com outra do Fantástico, de junho de 2022. A primeira informa que o spray nasal, aposta do presidente Jair Bolsonaro, não tem eficácia comprovada contra a covid-19. A do programa dominical da Globo afirma que especialistas apontam vacina de spray nasal como “caminho” para o fim da pandemia. A relação, porém, não pode ser feita, porque se tratam de medicamentos diferentes.

O que o presidente defendia é um remédio em desenvolvimento em Israel para tratar pessoas já infectadas pelo coronavírus; já o citado na reportagem do Fantástico é um imunizante.

Sobre o spray que trata a doença, o EXO-CD24, Nadir Arber, um dos cientistas que participa das pesquisas, disse ao Comprova que ainda não há resultados que comprovem sua eficácia – exatamente como informa a reportagem do UOL usada no conteúdo enganoso.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. O post da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) no Facebook recebeu 2,5 mil comentários e foi compartilhado mais de 15 mil vezes até 8 de junho. Outros políticos divulgaram as mesmas alegações em seus perfis do Facebook após a postagem da parlamentar. Até a mesma data, a publicação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tinha 3,3 mil compartilhamentos e 966 comentários. Já o conteúdo propagado pela deputada federal Bia Kicis (PL-DF) teve 3,3 mil compartilhamentos e 496 comentários.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com Carla Zambelli, Bia Kicis e Flávio Bolsonaro para esclarecer questões referentes às postagens enganosas. Em resposta, Zambelli questionou o trabalho do Comprova, disse que as duas substâncias são parecidas por serem sprays nasais e afirmou que não teceu “qualquer opinião sobre a eficácia do imunizante proposto”. Os outros políticos não responderam.

Como verificamos: Com a ferramenta TweetDeck, foi possível encontrar as primeiras postagens de Bolsonaro relacionadas ao spray nasal. A equipe também buscou as reportagens cujos títulos são citados na peça de desinformação e outras relacionadas ao spray contra a covid.

A partir de reportagem da Folha de S.Paulo sobre o spray que citava o Clinical Trials, site que reúne informações sobre testes de medicamentos, o Comprova buscou o estudo relacionado ao EXO-CD24 e os nomes dos responsáveis. Via pesquisa no Google, foi possível encontrar seus e-mails e contatá-los. Quem respondeu o contato foi Nadir Arber, professor de medicina e gastroenterologia e diretor do Centro Integrado de Prevenção do Câncer do Centro Médico Sourasky – Hospital Ichilov, em Tel Aviv, em Israel.

Também foram entrevistados Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), e a professora Anamélia Lorenzetti Bocca, coordenadora do Laboratório de Imunologia Celular no Instituto de Biologia da Universidade de Brasília (UnB).

Primeiras menções

Bolsonaro começou a falar sobre um spray nasal contra a covid-19, de acordo com a Folha, em fevereiro de 2021, após o jornal israelense Times of Israel publicar que o remédio EXO-CD24 havia curado 29 dos 30 casos moderados a graves de covid-19.

Em 12 de fevereiro de 2021, em seu Twitter, o presidente afirmava ter conversado com o então primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, sobre o medicamento, que vinha “obtendo grande sucesso no tratamento” da doença em casos graves, como ele escreveu. Três dias depois, ele publicou que “brevemente” enviaria o pedido de análise para seu uso emergencial à Anvisa, mostrando interesse em comprá-lo.

Cerca de um mês depois, de acordo com a reportagem do UOL, cujo título é usado na peça de desinformação, Bolsonaro defendeu o remédio insistindo em outra aposta sem eficácia comprovada, a hidroxicloroquina. “Você tem um pai, irmão ou amigo que está ali: Olha, vai ser intubado. Você vai dar um spray no nariz dele ou não? Ou vai tratar isso como uma hidroxicloroquina, porque também não tem comprovação científica?”, questionou em live no Facebook.

Em março de 2021, o governo federal enviou uma comitiva de dez pessoas a Israel para conhecer o spray nasal. A viagem, que custou ao menos R$ 100 mil, segundo a Folha –, não resultou em nenhum contrato.

Mas, diferentemente do que o presidente disse e do que o conteúdo investigado aqui leva a crer, o EXO-CD24 é um medicamento que estava em teste para ser usado em pessoas infectadas pelo vírus, não um imunizante.

A vacina citada no post enganoso, inclusive, ainda nem está disponível. Como informa o Fantástico na reportagem cujo título é usado no conteúdo verificado aqui, “grupos pelo mundo estão na busca de uma vacina que ataque o vírus logo de cara, que não deixe que ele se multiplique” – o que seria feito via nasal. Ainda de acordo com a atração da Globo, desta forma “a pessoa vacinada não se contamina, e nem dá tempo de transmitir o vírus” e o micróbio finalmente para de circular e a pandemia pode chegar ao fim”.

Remédio israelense

O uso original do EXO-CD24 é para tratamento de câncer de ovário, conforme matéria da Folha.

Quando Bolsonaro começou a falar sobre o spray, ele estava em fase inicial de testes clínicos e não tinha dados publicados, ainda de acordo com a Folha. Entre 35 pesquisas em humanos com drogas via nasal que havia na época, a do EXO-CD24 era uma das mais incipientes.

Nota técnica do Ministério da Saúde de fevereiro de 2021 concluía que a droga “aponta para uma melhora clínica importante dos pacientes hospitalizados com covid-19 moderada a grave”, mas que “os resultados ainda não foram publicados e as informações disponíveis não oferecem dados suficientes sobre os desfechos de segurança e eficácia obtidos e as características dos pacientes incluídos”.

nota da mesma época do Observatório de Tecnologias Relacionadas ao Covid-19, do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, usa trechos da reportagem do jornal Times of Israel para descrever o EXO-CD24. O texto afirma que “o medicamento combate a tempestade de citocinas, que se acredita ser responsável por muitas das mortes associadas à doença” e que “ele usa exossomos – pequenos sacos transportadores que transportam materiais entre as células – para entregar uma proteína chamada CD24 aos pulmões, que o grupo de estudo (do Centro Médico Ichilov de Tel Aviv) está pesquisando há décadas”.

Ainda de acordo com a nota, “essa proteína ajuda a acalmar o sistema imunológico e conter a tempestade” e, por ser administrado localmente no nariz, não tem efeitos colaterais, “ao contrário de outras fórmulas, (o spray é) direcionado diretamente para os pulmões”.

Ao Comprova, o professor Nadir Arber, um dos responsáveis pela pesquisa do EXO-CD24 contra o coronavírus, contou que ainda não há resultados do teste clínico com a metodologia de estudo duplo-cego, quando o voluntário não sabe se está tomando remédio ou placebo, substância sem efeito no corpo. “A última fase da pesquisa está sendo realizada, mas, atualmente, não há pacientes com covid, então, planejamos ter outros dois estudos”, disse ele.

Questionado se o medicamento é eficaz contra a covid, ele respondeu que “parece ser muito eficaz; no entanto, nada pode ser reivindicado até o compararmos com o placebo.”

Vacinas por via intranasal

Anamélia Lorenzetti Bocca, professora de Imunologia Celular na UnB, explica que as vacinas contra o coronavírus podem ser administradas por vias variadas, gerando diferentes respostas imunológicas. A forma de aplicação também pode mudar, podendo ser formuladas por partículas em uma solução ou uma preparação que adere na mucosa do nariz e passa para os outros tecidos do corpo.

A cientista considera que os imunizantes aplicados no nariz são importantes para uma resposta mais robusta localmente, com o aumento de anticorpos, assim como as vacinas por via intramuscular, e a geração dos linfócitos T e B, que são células de memória imunitária.

De acordo com Bocca, a vacina intranasal possui uma resposta mais robusta na mucosa nasal, com produção de anticorpos e células de memória nos linfonodos ao redor da mucosa nasal. Já a vacina intramuscular faz uma resposta mais sistêmica, com produção de anticorpos na mucosa nasal, mas em outras mucosas também, e a geração de células de memória em outros tecidos. Para ela, a utilização de uma ou outra depende do tipo de resposta imune que se pretende para o indivíduo.

Sobre a vacina produzida pelo Dr. Jorge Kalil, citada na matéria do Fantástico, a especialista afirma se tratar de uma proteção profilática, usada na prevenção da doença. “Seria mais uma vacina disponível com a possibilidade de apresentar uma resposta mais robusta na via de entrada do vírus, o que impediria a sua disseminação para outros tecidos”, declara.

“A vacina intranasal de tecnologia nacional não tem qualquer relação com a EXO-CD24 porque uma induz uma resposta imune protetora e a outra trata um sintoma da doença. A atual do Brasil (vacina intranasal) está pronta para iniciar os ensaios clínicos de fase I, aguardando autorização da Anvisa para tal. Ainda não tem parceria com indústrias farmacêuticas para o seu escalonamento. O investimento no Brasil é muito baixo para esta etapa”, esclarece Anamélia Lorenzetti Bocca.

Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), fala que o desenvolvimento desse tipo de vacina é muito procurado para combater os vírus que têm entrada pelas vias respiratórias. Para ele, entretanto, é um caminho mais difícil já que o custo financeiro e tecnológico é maior, demandando laboratórios de biossegurança maiores.

“Até agora, a gente só conseguiu a gripe, que não existe aqui no Brasil, mas muitos países têm a vacina de gripe nasal com vírus influenza vivo, mas enfraquecido”, diz o imunologista.

O diretor da SBIm não acredita que tenhamos essa forma de imunizante em um período de curto prazo. Apesar disso, considera necessário criar vacinas mais modernas que sejam mais eficazes na prevenção de formas leves da doença e que sejam voltadas para as novas formas do coronavírus. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente existem 361 vacinas em teste contra a covid (163 em estágio clínico e 198 em estágio não-clínico). Do total, há oito imunizantes intranasais sendo desenvolvidos.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais ou aplicativos de mensagem sobre a pandemia, eleições e políticas públicas do governo federal. Bolsonaro vem desacreditando as vacinas e defendendo medicamentos sem eficácia comprovada, como o spray nasal, desde o início da pandemia, e conteúdos que fazem o mesmo colocam a saúde da população em risco.

Outras checagens sobre o tema: A Covid-19 dominou a quarta fase do Projeto Comprova, encerrada em dezembro de 2021. Mais de cem conteúdos foram verificados, sobretudo os relacionados a vacinas e tratamentos sem eficácia comprovada contra a doença. Em junho do ano passado, por exemplo, o Comprova mostrou ser enganoso conteúdo que comparava spray nasal patenteado com tratamento precoce. Ainda sobre a covid, a equipe publicou, mais recentemente, ser falso que imunizantes de mRNA são terapia genética e causam a doença e que era enganoso que estudo feito em Itajaí prova eficácia de ivermectina.

Eleições

Investigado por: 2022-06-08

Post exagera importância de convite ao Brasil para a Cúpula das Américas

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso um tuíte alegando que o convite do governo dos Estados Unidos ao Brasil para participar da Cúpula das Américas significa que "o mundo se rende à importância do Brasil". Embora o post acerte em dizer que o governo norte-americano chamou Jair Bolsonaro (PL) para o evento, o convite não denota prestígio porque o Brasil é membro da Organização dos Estados Americanos (OEA), o que já garantiria a participação na Cúpula.

Conteúdo investigado: Tuíte traz uma montagem com imagens dos rostos dos presidentes Jair Bolsonaro e Joe Biden, uma ao lado da outra. O conteúdo é acompanhado da legenda: “Biden pede pinico (sic) e convida Bolsonaro a ir à Cúpula das Américas. O mundo se rende à importância do Brasil”.

Onde foi publicado: Twitter.

Conclusão do Comprova: É enganosa uma publicação no Twitter que afirma que “o mundo se rende à importância do Brasil”, fazendo referência ao convite feito pelo governo dos Estados Unidos a Bolsonaro para participar da Cúpula das Américas.

Apesar de Biden, de fato, ter chamado o presidente brasileiro para o evento que reúne periodicamente os líderes das Américas do Norte, do Sul, Central e do Caribe, o convite não pode ser considerado notável porque, sendo um país membro da OEA, o Brasil teria participação garantida.

Comentários no post indicam que muitas pessoas entenderam que o convite seria importante. “Estão respeitando o Brasil como merece e deve. O capitão é duro e o Brasil agora tem dono, nós patriotas e comandados por um grande brasileiro”, escreveu um dos usuários. “Falaram que o líder Bolsonaro estava isolado e agora imploram a ida dele!”, “Biden só chamou o Bolsonaro para ajudar porque sabe que ele vence as eleições no Brasil e irá precisar do Brasil lá na frente”, disseram outros.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 8 de junho, a publicação teve mais de 2,6 mil interações entre comentários, curtidas e compartilhamentos.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com o autor do tuíte por meio de uma comentário na rede social, uma vez que seu perfil não autoriza o envio de mensagens diretas; o autor, no entanto, não respondeu ao nosso contato.

Como verificamos: O Comprova buscou informações sobre o funcionamento e o objetivo da Cúpula das Américas em sites oficiais como o da OEA, do Departamento de Estado dos Estados Unidos, da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, além de notícias da imprensa brasileira (Folha de S.Paulo, G1, Correio Braziliense, Estadão).

A equipe também buscou a OEA, o Departamento de Estado dos Estados Unidos e a Casa Branca a fim de entender como é realizado o processo de convocação dos países que participam da reunião.

Por fim, a equipe conversou com a coordenadora do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP), Fernanda Magnotta, que fez uma análise sobre a participação do Brasil no encontro deste ano.

A Cúpula das Américas

O evento é uma reunião periódica entre 35 governantes de países da América e do Caribe, que tem como objetivo a discussão de questões políticas comuns e a construção de uma visão compartilhada para enfrentar os desafios enfrentados pelos países da região.

A cúpula ocorre aproximadamente uma vez a cada três anos e é a única reunião de todos os líderes da América e Caribe.

Além dos governantes, cada encontro é formado pelo Grupo de Revisão da Implementação de Cúpulas (Gric), pelo Grupo de Trabalho Conjunto de Cúpulas – composto por 13 instituições regionais e internacionais que fornecem assistência técnica durante a negociação dos temas da Cúpula -, por organizações da sociedade civil, representantes de comunidades indígenas, líderes cívicos, empresários e jovens empreendedores.

A nação que sedia a reunião atua como presidente do processo das Cúpulas e o anfitrião anterior atua como vice-presidente.

De acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, a primeira Cúpula das Américas foi convocada pelo então presidente americano Bill Clinton e ocorreu em dezembro de 1994, em Miami, na Flórida. O propósito da reunião era criar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

Desde então, sucederam-se oito edições: Santiago, Chile (1998); Cidade de Quebec, Canadá (2001); Mar del Plata, Argentina (2005); Port of Spain, Trinidad e Tobago (2009); Cartagena, Colômbia (2012); Cidade do Panamá, Panamá (2015) e Lima, Peru (2018).

Conforme consta no site da OEA, que atua como secretária técnica da Cúpula, alguns temas já discutidos em reuniões anteriores foram educação, o problema das drogas nas Américas, sustentabilidade ambiental, segurança energética, discriminação e criminalidade.

Participação do Brasil na Cúpula de 2022

Em 2022, a Cúpula das Américas está sendo sediada em Los Angeles, nos Estados Unidos, entre os dias 6 e 10 de junho. O tema desta nona edição é “Construindo um futuro sustentável, resiliente e equitativo”.

Ao Comprova, a OEA e o Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmaram que é o país anfitrião, neste caso os Estados Unidos, que emite os convites para a Cúpula.

A única informação verdadeira do post aqui verificado é que, de fato, o governo norte-americano convidou Jair Bolsonaro para participar da reunião, como consta na declaração do assessor especial da Casa Branca: “Nesta manhã, em meu encontro com o presidente Bolsonaro, reiterei o nosso desejo de que o Brasil seja um participante ativo da Cúpula, pois reconhecemos a responsabilidade coletiva de avançar para um futuro mais inclusivo e próspero”.

Em 26 de maio, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) informou que Bolsonaro aceitou comparecer na reunião. O presidente brasileiro deve chegar aos Estados Unidos na quinta-feira, dia 9 de junho.

No entanto, na análise da coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e consultora da Comissão de Relações Internacionais da OAB/SP, Fernanda Magnotta, o convite feito pelo governo dos Estados Unidos a Bolsonaro não é significativo porque o Brasil é um país membro da OEA, o que assegura participação na Cúpula.

“O Brasil ser convidado não representa muito, porque é uma praxe. Me parece que a expressão ‘o mundo se rende à importância do Brasil’ é uma tentativa de capitalizar politicamente, no contexto das eleições. O governo Bolsonaro tenta há tempos descolar um encontro bilateral com Biden, entre outras razões, para tentar contestar a ideia de que o país é um pária internacional e está isolado. Há uma lógica política doméstica”, afirma Magnotta.

Ainda de acordo com a especialista, o encontro deste ano é bastante simbólico e esperado por dois motivos. O primeiro é que os Estados Unidos não sediavam a Cúpula desde a sua primeira edição e o segundo é que a última reunião foi considerada um fiasco diante da ausência de diversos líderes, como o próprio Donald Trump, então presidente dos Estados Unidos.

Ausências no evento

Segundo informações divulgadas na imprensa (CNN Brasil, CNN, Agência Reuters, Poder360) em 6 de junho, primeiro dia da Cúpula, o país anfitrião não convidou Cuba, Venezuela e Nicarágua por considerar que os países não possuem regimes democráticos.

A ausência dos convites gerou instabilidade diplomática e líderes de algumas nações confirmaram que não estarão presentes no evento. Conforme noticiou o G1, os presidentes do México, Andrés Manuel López Obrador, de Honduras, Xiomara Castro, e da Guatemala, Alejandro Giammattei, anunciaram que recusaram o convite para participar do encontro.

O presidente da Bolívia, Luis Arce, anunciou que não irá a Los Angeles se todos os outros líderes do hemisfério não forem ao evento, e o chefe de Estado do Uruguai, Luis Lacalle Pou, cancelou a viagem após testar positivo para a covid-19.

A Casa Branca foi procurada pelo Comprova, mas não retornou até o fechamento desta checagem.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos sobre pandemia, eleições e políticas públicas que atinjam grau de viralização nas redes sociais. Ao ser compartilhada por perfis que apoiam o presidente, a publicação investigada ajuda a promover a ideia de que a repercussão global do governo federal é de aclamação, sem informações que sustentem essa percepção.

Outras checagens sobre o tema: Anteriormente, o Projeto Comprova mostrou que era enganoso post comparando falas de Biden e Bolsonaro sobre uso de máscaras e que uma enquete popular não oficializava Jair Bolsonaro como Personalidade do Ano na revista Time.

Eleições

Investigado por: 2022-06-07

É falso post que afirma que Veja cortou mão de Lula em foto

  • Falso
Falso
É falso o post que afirma ter havido montagem em foto de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante evento em Porto Alegre (RS), em publicação na revista Veja. A mesma imagem foi encontrada em canais oficiais do ex-presidente. Ao Comprova, a Veja afirmou não ter feito qualquer edição na imagem.

Conteúdo investigado: Tuíte traz uma captura de tela da reportagem da revista Veja intitulada “O que pode impedir uma vitória de Lula no primeiro turno”, que tem como imagem de capa uma foto do ex-presidente em evento. Lula está com o braço direito levantado, segurando o microfone, enquanto caminha em direção ao fotógrafo. Na legenda, a autora do post afirma que a foto não é real porque a Veja teria cortado a mão esquerda do petista por meio de edição.

Onde foi publicado: Twitter.

Conclusão do Comprova: É falsa a postagem que afirma ter havido montagem em foto de Lula publicada pela revista Veja. A autora da publicação se baseia no fato de a mão esquerda do ex-presidente estar encoberta pela manga do paletó para fazer tal alegação.

No entanto, a mesma foto foi encontrada em canais oficiais de Lula, exatamente com as mesmas características. E a Veja, procurada, negou ter editado a imagem.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado, ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original, e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 7 de junho, a publicação atingiu mais de 10 mil curtidas e 2 mil compartilhamentos.

O que diz o autor da publicação: A autora do post viral é de Minas Gerais e possui um canal no YouTube com 1,6 milhão de inscritos no qual publica vídeos comentando episódios da política brasileira. No geral, são conteúdos que enaltecem pautas bolsonaristas.

Diante da impossibilidade de contato pelo Twitter, a autora foi procurada por e-mail, disponível no canal do YouTube, e mensagem no Instagram. Mas não houve resposta até a publicação desta verificação. Ao Comprova, ela afirmou que a intenção do tuíte foi “zoar a foto do Lula sem mão”.

Como verificamos: O primeiro passo da verificação foi acessar a matéria da revista Veja, a partir da qual identificamos o fotógrafo responsável pela imagem, além do local e data em que a foto foi feita.

Fazendo uma busca pelas palavras-chave “Lula”, “Porto Alegre” e “junho” no Google, a equipe encontrou uma reportagem do portal Poder360 sobre o evento do qual o ex-presidente participou e que traz um vídeo do discurso do petista.

Além disso, a busca reversa da fotografia pelo Google Lens levou a uma publicação no site oficial do ex-presidente em que há uma imagem semelhante. É possível afirmar que ambas as fotografias foram feitas no mesmo local e data pela correspondência de personagens, roupas, faixas, bandeiras e decoração do palco.

O Comprova também analisou as redes sociais de Lula e encontrou a mesma imagem utilizada pela Veja na capa de um vídeo postado no Instagram do ex-presidente, além de uma gravação, publicada no Twitter, que mostra o momento exato registrado pela fotografia.

Por fim, entramos em contato com a revista para entender se houve alguma edição na fotografia.

 

Contexto da foto

A foto que ilustra a reportagem de Veja foi feita por Ricardo Stuckert, fotógrafo de Lula há quase 20 anos, no dia 1º de junho de 2022, em Porto Alegre (RS), na casa de shows Pepsi on Stage.

Na ocasião, o ex-presidente participava de um ato em defesa da soberania nacional, que contou com a presença de Fernando Haddad, Dilma Rousseff, Roberto Requião, Geraldo Alckmin, Gleisi Hoffmann, além de lideranças nacionais e estaduais do PT, PSB, PCdoB, PSOL, PV, Solidariedade, da Rede e de movimentos sociais.

Reportagem do Poder360 sobre o evento traz um vídeo em que é possível ver, na parte final, a partir de 2h36, o exato momento em que a foto é feita por Ricardo Stuckert, que está posicionado no palco, de frente para Lula e para a plateia.

Outros veículos de imprensa também cobriram o evento, como o Brasil de Fato, Revista Fórum e Valor Econômico.

Foto não foi editada

A mesma foto usada na postagem falsa pode ser vista na capa de um vídeo postado na conta do Instagram oficial de Lula:

A imagem também aparece no Flickr oficial de Lula:

Na versão original da imagem no Flickr, em alta resolução, é possível ver que a mão esquerda do ex-presidente está sendo encoberta pelo paletó, provavelmente em razão do movimento ascendente do outro braço, o que causa inclinação na posição da roupa:

O Comprova obteve o arquivo original da foto, cujos metadados, ao serem analisados clicando com o botão direito do mouse, mostram a data do registro, dia 1º de junho, dia do evento em Porto Alegre, e características da câmera utilizada:

As informações são as mesmas que também aparecem no Flickr oficial de Lula:

No site oficial de Lula, o Comprova encontrou uma foto semelhante à utilizada pela Veja. A correspondência de personagens, roupas, faixas, bandeiras e decoração do palco, permite confirmar que a cena foi registrada no mesmo momento da foto publicada pela revista. Na imagem semelhante, a mão esquerda do ex-presidente também aparece encoberta pela manga do paletó:

| Foto semelhante à usada pela Veja também foi registrada por Ricardo Stuckert e mostra mão de Lula escondida pelo paletó.

Já um vídeo publicado na conta oficial de Lula no Twitter mostra o mesmo momento registrado pela foto de Stuckert. Novamente, desta vez com a imagem em movimento, vemos a mão esquerda do ex-presidente encoberta pela manga do paletó.

Ao Comprova, o editor da Veja, José Benedito da Silva, que publicou a reportagem, garantiu que não houve nenhum tipo de edição na imagem e que a “foto foi divulgada pela assessoria do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seus canais oficiais”.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. O post aqui verificado cita um ex-presidente e pré-candidato à reeleição. Conteúdos falsos ou enganosos que envolvem atores políticos trazem prejuízos ao processo democrático e atrapalham a decisão do eleitor, que deve ser tomada com base em informações verdadeiras.

Outras checagens sobre o tema: Em verificações anteriores envolvendo o ex-presidente Lula, o Comprova mostrou que post usa áudio com imitação de Lula para confundir sobre acusações de corrupção, que não há evidências de que Lula pediu para Bolívia reduzir fornecimento de gás ao Brasil, que Lula não afirmou que implantará restrições religiosas no Brasil caso reeleito, e que é falso que Lula tenha roubado 350 mil toneladas de ouro de Serra Pelada e dado dinheiro para Venezuela.

Eleições

Investigado por: 2022-06-06

Áudio sobre fraudes em pesquisas é de comediante, não de ex-diretor do Datafolha

  • Falso
Falso
Vídeo mente ao atribuir a Mauro Paulino, ex-diretor do Instituto Datafolha, declarações sobre supostas fraudes em pesquisas eleitorais e manipulação de votos nas urnas eletrônicas. A voz que aparece nos vídeos é de um humorista.

Conteúdo investigado: Áudio de um homem apontado como sendo o diretor do Instituto Datafolha, Mauro Paulino, em que ele fala de uma conspiração para fraudar pesquisas eleitorais e manipular votos nas urnas eletrônicas em favor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No YouTube, há apenas o áudio sobreposto com os seguintes dizeres: “Áudio vazado do diretor do Datafolha”, acompanhado de uma manchete do G1, de maio de 2022, com o petista liderando pesquisa eleitoral realizada pelo instituto. No Twitter, o mesmo áudio foi divulgado, mas com a imagem de um homem gravado ao nível da cintura enquanto bebe um café, como se tivesse sido filmado com uma câmera escondida.

Onde foi publicado: Twitter, Kwai e YouTube.

Conclusão do Comprova: É falso um áudio que circula nas redes sociais atribuindo ao ex-diretor do instituto Datafolha Mauro Paulino declarações sobre supostas fraudes em pesquisas eleitorais e manipulação de votos nas urnas eletrônicas. O áudio em questão não foi gravado por Paulino.

Na verdade, o material foi produzido por Warley Alberto Clauhs, que se apresenta como um humorista e que interpreta um personagem chamado Dr. Avacalho Ellys. O áudio foi recortado e editado, sendo então atribuído a Mauro Paulino. No vídeo original de Warley Alberto, o conteúdo se apresenta como uma esquete de humor. Contudo, nos comentários nas redes sociais, muitas pessoas demonstram acreditar que o homem seria o diretor do Datafolha.

Warley já disputou duas eleições, nos anos de 2016 e 2020, e saiu derrotado em ambas. Ele tentou se eleger vereador nos municípios de Açailândia (MA) e Rondon do Pará (PA).

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade. Embora o conteúdo original seja de um humorista, ele foi editado de modo a atribuir informações falsas a outra pessoa, no caso o ex-diretor de um instituto de pesquisa.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. No YouTube, o conteúdo alcançou mais de 1,7 mil visualizações e 122 curtidas. Contudo, durante a checagem, foi verificado que a publicação foi deletada do canal em 3 de junho, antes mesmo de o Comprova tentar contato com o autor. No Twitter, o vídeo foi visualizado mais de 450 vezes.

O que diz o autor da publicação: No Twitter, a pessoa que compartilhou o conteúdo diz ser enfermeira e se descreve como “patriota e 100% Bolsonaro”. O Comprova não conseguiu contato com a autora.

Como verificamos: Por conta da voz que consta no vídeo investigado e do teor da frase, nossos verificadores constataram se tratar de um conteúdo que já viralizou em outras ocasiões, inclusive já apurado pelo Comprova. Naquela ocasião, o áudio era atribuído a um suposto advogado do PT.

Assim, iniciamos a checagem buscando verificações sobre o tema e localizamos registros do Boatos.org, do G1 e da Lupa.

Também entramos em contato com o Datafolha, por telefone e e-mail, para saber se Mauro Paulino ainda é um dos diretores, além de buscar um posicionamento da empresa. O Instituto confirmou que ele deixou o cargo de direção e negou que ele seja o autor do conteúdo. Mauro Paulino também foi procurado, via Twitter, para se manifestar sobre o assunto.

O Comprova ainda checou junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informações relativas às disputas eleitorais das quais Warley Alberto já participou.

Vídeo é de personagem humorístico

O homem que aparece no conteúdo verificado é Warley Alberto Clauhs, que dá vida ao personagem de humor Dr. Avacalho Elhys. O ator mantém o canal “Nana Arroba e Dr. Avacalho” no YouTube, que conta com 755 inscritos.

Na descrição, ele se apresenta como “ator, poeta, professor, locutor e imitador”. O vídeo alvo desta checagem está disponível no canal do comediante e circulou em abril de 2022 como se fosse de um advogado do PT. O conteúdo, apresentado originalmente como um quadro de humor, foi verificado pelo Comprova. O mesmo personagem aparece em vários outros vídeos do comediante.

Em 2016, Warley Alberto tentou se eleger vereador na cidade de Açailândia (MA), disputando a eleição pelo Progressistas. Quatro anos depois, nas eleições de 2020, foi candidato ao mesmo cargo, mas em Rondon do Pará (PA), desta vez, pelo Republicanos. Nos dois pleitos não conseguiu se eleger, ficando na condição de suplente.

De acordo com informações declaradas para o TSE, Warley é natural de Teófilo Otoni (MG) e tem 42 anos.

Mauro Paulino não é mais diretor do Datafolha

O Comprova entrou em contato com o Datafolha e foi informado que Mauro Paulino não é mais diretor do instituto. Ele deixou o cargo após 35 anos, substituído pela executiva Luciana Chong.

Em abril deste ano, a GloboNews anunciou a contratação de Paulino, que passou a integrar a equipe de comentaristas da emissora. Ele analisa os resultados das pesquisas eleitorais que tratam, sobretudo, da disputa à presidência e também da corrida eleitoral nos governos, no Senado e na Câmara Federal.

Tentamos contato com Paulino, mas não obtivemos resposta até a publicação deste conteúdo.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos sobre pandemia, eleições e políticas públicas que atinjam grau de viralização nas redes sociais. Com a proximidade do período eleitoral, cresce o número de conteúdos divulgados nas redes sociais tentando desacreditar as pesquisas de opinião e o voto eletrônico no país. Informações enganosas ou falsas que colocam as urnas eletrônicas sob suspeita prejudicam a confiança sobre o sistema eleitoral brasileiro e podem influenciar pessoas a desistirem de votar. O conteúdo do vídeo aqui verificado também cita o pré-candidato à presidência Lula. Informações falsas que envolvem atores políticos trazem prejuízos ao processo democrático e atrapalham a decisão do eleitor, que deve ser tomada com base em informações verdadeiras.

Outras checagens sobre o tema: Anteriormente, o Comprova também mostrou que “advogado do PT” em vídeo do Kwai é personagem de humor, que vídeo que cita falhas já corrigidas nas urnas volta a circular fora de contexto e que o sistema de votação eletrônica pode ser auditado.

Eleições

Investigado por: 2022-06-03

Post usa áudio com imitação de Lula para confundir sobre acusações de corrupção

  • Falso
Falso
Uma montagem falsa em vídeo mostra trecho de uma entrevista com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), um depoimento em que o ex-ministro Antonio Palocci diz que Lula recebeu dinheiro e imóveis para sua "aposentadoria" e, por último, um áudio em que o ex-presidente supostamente estaria irritado com as declarações de Palocci no Jornal Nacional. Os dois vídeos estão fora de contexto e o áudio já foi verificado como falso no passado. O texto que acompanha a montagem também diz que "não adiantou o TSE apagar o vídeo", mas não há registro de que o tribunal tenha emitido decisões sobre o conteúdo do vídeo.

Conteúdo investigado: Postagem no Twitter reúne três conteúdos sobre o ex-presidente Lula. No primeiro momento, aparece o político perguntando sobre o que teria “roubado”. Depois, há um vídeo da delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci Filho citando um suposto envolvimento de Lula em crimes de corrupção. Por último, o vídeo inclui uma gravação que atribui a Lula, com o que pode ser interpretado como uma sugestão ao assassinato de Palocci.

Onde foi publicado: Twitter.

Conclusão do Comprova: É falsa uma montagem de vídeos e áudios que circula no Twitter em que o ex-presidente Lula supostamente ameaça o ex-ministro Antonio Palocci. O áudio aparece na montagem após vídeos que mostram uma entrevista com Lula e um depoimento de Palocci no qual ele acusa o ex-presidente de receber dinheiro e imóveis para sua “aposentadoria”.

O vídeo, além de utilizar um áudio falso, retira de contexto outros conteúdos para induzir a uma interpretação enganosa sobre acusações ao ex-presidente Lula sem mencionar o desfecho das denúncias realizadas, que já foram arquivadas pela Justiça ou tiveram a condenação anulada. Em um dos processos, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu excluir o depoimento de Palocci dos autos.

Para o Comprova, Falso é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até a tarde do dia 3 de junho, a postagem no Twitter tinha 8,907 retweets e 13,4 mil curtidas.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com o autor da publicação por meio do Instagram, mas não houve resposta até a publicação desta checagem.

Como verificamos: Usamos palavras-chaves ditas em cada uma das partes do vídeo para verificar a originalidade das imagens. Pesquisando a frase “Diga, diga o que que eu roubei?”, relatada por Lula no início, fomos direcionados à entrevista do ex-presidente ao podcast Podpah, em que ele pronuncia os termos no minuto 1:23:40.

A segunda parte do vídeo mostra o ex-ministro Antonio Palocci Filho durante a sua delação premiada à Polícia Federal, em 2018, quando era acusado por corrupção e lavagem de dinheiro na Operação Lava Jato. Utilizando a expressão “Recebeu seu sítio, que foi feito combinado para o seu uso“, dita pelo ex-ministro, encontramos um texto do jornal O Globo, que reproduz o vídeo original. Outras matérias jornalísticas com as imagens também foram achadas.

Por último, para verificar o áudio atribuído a Lula, procuramos as palavras-chaves “Lula”, “Palocci” e “Áudio” no Google. Outras checagens já foram feitas sobre o conteúdo (Fato ou Fake, Estadão Verifica, Aos Fatos) em 2017 e em 2019, quando o áudio voltou a circular. Além disso, fizemos uma pesquisa por gravações de Lula que foram divulgadas oficialmente pela Operação Lava Jato com autorização da Justiça.

Para esclarecer questões sobre a postagem, o Comprova entrou em contato com o Instituto Lula, Partido dos Trabalhadores (PT), Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e com a Polícia Federal.

Entrevista ao podcast

A resposta do ex-presidente foi dada durante uma entrevista ao podcast Podpah, quando o ex-presidente se referia ao juiz Sergio Moro e às condenações na Lava Jato que foram anuladas. Ao ser perguntado (1:20:20) sobre a possibilidade de evitar sua prisão em 2018, Lula comenta que jamais imaginou que sofreria acusações de corrupção, mesmo “essa gente, esses bandidos sabendo que não tinha feito”.

Relatou que poderia ter saído do país, mas tomou a decisão que tinha que ir para a prisão da Polícia Federal para provar que “Moro era mentiroso, que a força-tarefa de Curitiba era uma quadrilha”.

“Tô até hoje perguntando para esse Moro: “Diga, diga o que que eu roubei?”. A sentença que ele deu para mim, sabe qual foi o crime que eu cometi? Fato indeterminado. Eu fui condenado por um fato indeterminado”, afirmou o político.

Depoimento de Palocci

Antonio Palocci Filho foi ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula. Com a 35ª fase da Operação Lava Jato, em 2016, o ex-ministro foi preso e foi condenado a 12 anos de prisão, em junho de 2017, pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Entretanto, a execução da pena foi suspensa em 2021 porque, segundo parecer do Superior Tribunal de Justiça (STJ), as condenações da operação realizadas em Curitiba deveriam ser anuladas e o processo ser enviado para a Justiça Eleitoral (G1; Veja; Poder360).

O vídeo de Palocci mostrado na postagem é do depoimento realizado através de sua delação premiada, que foi assinada com a Polícia Federal e homologada pelo ministro do STF Edson Fachin. As falas foram compartilhadas por veículos de imprensa, como o jornal O Globo e o canal televisivo da Record News, em outubro de 2019.

Nele, o ex-ministro apresenta detalhes do que seria um enriquecimento ilícito de Lula por meio do pagamento de propinas de empreiteiras, sobretudo da Odebrecht. Antonio Palocci menciona as denúncias relativas ao sítio de Atibaia, ao triplex do Guarujá e ao apartamento em São Bernardo do Campo. Além disso, Palocci cita que o ex-presidente teria recebido dinheiro em espécie por meio de propinas pagas por construtoras envolvidas na Operação Lava Jato.

Em nota, o Partido dos Trabalhadores classificou as falas como mentirosas e “que ficam ainda mais evidentes os crimes e armações dos procuradores e do ex-juiz Moro contra Lula e o PT”. O texto ainda afirmou que “a farsa foi denunciada nos autos, comprovada pelas mensagens dos procuradores e confessada em detalhes pelo ex-procurador-geral Rodrigo Janot”. O Comprova entrou em contato com a Polícia Federal para esclarecer questões sobre o vídeo da delação, mas o órgão informou que não presta informações acerca de eventuais envolvidos em suas atividades.

Em agosto de 2020, a 2ª turma do STF decidiu retirar o depoimento de Palocci da ação que investigava a doação de imóveis em São Bernardo do Campo, São Paulo, a Lula. As propriedades, segundo Palocci, seriam uma forma da Odebrecht compensar contratações irregulares da Petrobras.

Segundo Ricardo Lewandowski, a ordem do juiz Sergio Moro de suspender o sigilo da delação de Palocci às vésperas da eleição de 2018 teve quebra da imparcialidade. Gilmar Mendes afirmou que a demora em juntar o acordo de delação premiada aos autos da ação penal “parece ter sido cuidadosamente planejada” para gerar “verdadeiro fato político na semana que antecedia o primeiro turno das eleições presidenciais de 2018″.

Em relação ao sítio de Atibaia, em São Paulo, Lula foi acusado de receber R$ 1,26 milhão das empreiteiras OAS e Odebrecht. A origem do dinheiro teria sido disfarçada através de obras na residência. Em 2019, o Tribunal Regional Federal da Quarta Região (TRF-4) condenou o ex-presidente a 17 anos pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, mas a sentença foi anulada pelo STF por entender que o juiz Sergio Moro, responsável pelo caso, foi parcial na condução do processo.

O processo foi transferido para a Justiça do Distrito Federal. Em agosto de 2021, a 12ª Vara da Justiça Federal em Brasília rejeitou a denúncia contra Lula por considerar que as provas eram insuficientes e porque parte dos supostos crimes já estavam prescritos.

O Ministério Público Federal acusou, em 2016, o ex-presidente de ter recebido propina da OAS por meio de reformas em um triplex da cidade do Guarujá, São Paulo. A sentença inicial, realizada por Moro, condenou o político, mas também foi anulada pelo STF por conta da parcialidade do juiz. O processo da mesma forma foi movido para o Distrito Federal e, em janeiro deste ano, foi arquivado por prescrição do caso.

Áudio com suposta gravação de Lula

O áudio que supostamente mostraria a reação do ex-presidente Lula a um depoimento de Palocci não é novo. Ele circulou pela primeira vez em setembro de 2017. À época, veículos de imprensa como Veja, G1 e a agência de checagem Aos Fatos já apontavam a gravação como falsa. O Instituto Lula, à época, também disse que a gravação era falsa. O áudio não contém a voz de Lula, e sim uma imitação, o que fica claro na comparação com outras gravações do ex-presidente – inclusive as que foram autorizadas pela Justiça e divulgadas oficialmente pela força-tarefa da Operação Lava Jato em 2016.

Na primeira vez em que circulou, segundo as primeiras checagens do conteúdo, ele foi compartilhado no aplicativo WhatsApp e era acompanhado de uma mensagem de texto que afirmava tratar-se de um grampo e que Lula conversava, naquela ocasião, com o ex-presidente do PT Rui Falcão. No entanto, ao contrário das gravações reais divulgadas por autoridades, é possível ouvir apenas uma voz (nas gravações autorizadas pela Justiça, os dois lados da linha telefônica são gravados). Em 2017, o texto também afirmava que Lula estava reagindo à notícia da “delação” de Palocci, mas naquele ano o ex-ministro ainda não havia fechado delação premiada com autoridades. Isso só ocorreu em 2018.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. O conteúdo cita informações sobre Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à Presidência da República pelo PT, e pode influenciar a decisão de indivíduos nas eleições federais deste ano, prejudicando o processo democrático como um todo. Além disso, as acusações ao ex-presidente são mencionadas sem o contexto devido e sem as atualizações dos processos legais, que não sentenciam o político como culpado.

Outras checagens sobre o tema: Em relação ao áudio atribuído a Lula, as agências de checagem Fato ou Fake, Estadão Verifica e Aos Fatos classificaram o conteúdo como falso.

Recentemente, o Projeto Comprova mostrou que vídeo mente ao afirmar que Lula tenha roubado 350 mil toneladas de ouro de Serra Pelada e dado dinheiro para Venezuela; que postagem mostra imagens de imóvel de luxo no Ceará como sendo residência alugada por Lula em São Paulo e que declarações “vazadas” de Lula sobre crise econômica são públicas e foram feitas em 2016.

 

Eleições

Investigado por: 2022-06-03

Post no Facebook engana ao divulgar atos pró-Bolsonaro de 2021 como se fossem atuais

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa uma postagem que reúne três fotos de manifestações a favor de Jair Bolsonaro (PL). Intitulada “Se a mídia te corrompe, a gente mostra o resumo do mês”, e com legenda “as verdadeiras pesquisas são as ruas”, a publicação sugere que o público se reuniu em maio de 2022, após divulgação de pesquisas eleitorais desfavoráveis ao presidente, pré-candidato à reeleição. No entanto, as imagens são de atos realizados em maio de 2021.

Conteúdo investigado: Postagem com três fotos de manifestações favoráveis a Jair Bolsonaro com a alegação de que seria um resumo dos atos pró-governo no mês de maio de 2022.

Onde foi publicado: Facebook.

Conclusão do Comprova: É enganoso o post no Facebook que reúne três fotos de manifestações a favor do governo de Jair Bolsonaro. Intitulada “Se a mídia te corrompe, a gente mostra o resumo do mês”, a postagem foi feita no dia 31 de maio de 2022, porém as imagens foram captadas um ano antes.

Na legenda do post, a autora menciona que “as verdadeiras pesquisas são as ruas”, numa tentativa de contrapor as pesquisas eleitorais oficiais que, nos últimos dias, têm apontado a ampliação da vantagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra Bolsonaro e a possibilidade de vitória no 1º turno.

Nos comentários da postagem, a maioria declara apoio ao presidente e muitos demonstram acreditar que as fotos são registros recentes, como a apoiadora de Bolsonaro que diz: “Isso sim é a verdadeira pesquisa. Ele está eleito no primeiro turno.”

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. O post aqui investigado teve mais de 21 mil compartilhamentos e outros 5 mil comentários até o dia 3 de junho.

O que diz o autor da publicação: Com perfil no Facebook todo dedicado a publicações sobre Jair Bolsonaro, a autora foi procurada via mensagem da plataforma, mas não deu retorno.

Como verificamos: O primeiro passo da equipe do Comprova foi separar as três fotos que foram publicadas juntas e pesquisá-las isoladamente. Com a ferramenta de busca reversa do Google, em que uma imagem é inserida no buscador para verificar se já foi publicada, foi possível identificar uma a uma. Para tanto, na seção imagens do Google, a reportagem clicou no símbolo de uma câmera e fez o upload de cada foto.

Com as imagens reproduzidas em alguns sites em maio de 2021, o Comprova também consultou conteúdos jornalísticos daquele período (G1, Folha de S.Paulo, G1) para confirmar a realização das manifestações.

O Comprova ainda fez contato com a autora da postagem viral, que não respondeu até a publicação da verificação.

Manifestações pró-Bolsonaro

As três imagens inseridas na montagem publicada na internet são do mês de maio, mas do ano passado. A sequência inicia no dia 1º, segue para o dia 9 e termina no dia 15 daquele período de 2021. A maneira como as fotos foram posicionadas não obedecem a sequência cronológica dos fatos.

A imagem superior é do dia 15 de maio de 2021. A foto foi feita durante manifestações pró-governo Bolsonaro promovidas por religiosos e por ruralistas, em Brasília. Naquele sábado, o ato ocorreu na Esplanada dos Ministérios e teve a presença do presidente e de integrantes do governo, embora o período ainda exigisse protocolos mais rígidos de prevenção à covid-19 como o distanciamento social e o uso de máscaras.

Bolsonaro chegou de helicóptero ao local do evento e em seguida desfilou a cavalo. Sem máscara, ele cumprimentou e discursou para apoiadores aglomerados no gramado da Esplanada.

Os manifestantes, em trajes verde e amarelo, portavam cartazes e faixas com intuito de criminalizar o comunismo e o voto impresso. Eles também fizeram ataques ao trabalho dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Apesar de inconstitucional, uma faixa, em inglês, pedia intervenção militar.

Motociata

Na montagem, a foto na parte inferior à esquerda é do dia 9 de maio de 2021. Ela foi produzida na motociata realizada por Bolsonaro, numa manhã de domingo, e divulgada por ele mesmo em post no seu Twitter, com a seguinte mensagem: “Que desistam todos os que querem ver o povo distante de mim, ou que esperam me ver distante do povo. Estou e estarei com ele até o fim. Boa noite a todos!”, tuitou.

A concentração do passeio teve início em frente ao Palácio da Alvorada por volta das 8h30. A partir das 9h, o grupo iniciou o deslocamento, passando pela Esplanada dos Ministérios e percorrendo a área central de Brasília.

O general Braga Netto, ministro da Defesa, também participou do ato. Seguranças e bombeiros acompanharam os participantes da motociata. Alguns pontos do trânsito foram interditados pela Polícia Militar para a passagem do grupo.

| Print de tuíte de Jair Bolsonaro no dia 9 de maio de 2021

Dia do Trabalho

A terceira e última imagem, à direita da parte inferior da montagem, é da manifestação ocorrida na avenida Paulista, em São Paulo, no dia 1º de maio de 2021, Dia do Trabalho. A foto mostra simpatizantes pró-Bolsonaro na altura da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Foi lá a concentração principal do movimento. No local, um carro de som ficou estacionado com uma faixa que pedia a reabertura econômica no estado de São Paulo durante a pandemia e também se posicionava contra o STF.

Os manifestantes carregavam bandeiras do Brasil e cartazes contra o ex-presidente Lula e que incluíam também pedidos de intervenção militar e fechamento do Congresso Nacional.

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) divulgou que bloqueou quatro quarteirões da via, da Alameda Campinas até a Alameda Ministro Rocha Azevedo.

Pesquisas eleitorais

As pesquisas eleitorais com intenção de voto para a Presidência da República indicam, neste momento, vantagem do ex-presidente Lula ante Bolsonaro. As consultas mais recentes apontam, inclusive, a possibilidade de vitória no primeiro turno do pré-candidato petista.

O resultado desfavorável alimenta uma narrativa de grupos bolsonaristas que não acreditam nas pesquisas oficiais, alegando que o “Data Povo”, isto é, a mobilização das ruas é que demonstraria que Bolsonaro vai se reeleger.

A legenda da postagem aqui verificada e alguns dos comentários trazem um recorte dessa narrativa, como a internauta que diz: “Isso sim é a verdadeira pesquisa. Ele está eleito no primeiro turno.”

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A postagem aqui investigada menciona um suposto resumo de atos pró-Bolsonaro no mês de maio, mas não cita o ano em que aconteceram os movimentos.

Além de produzir notícia enganosa sobre o presidente e pré-candidato à reeleição, conteúdos de desinformação são prejudiciais ao processo democrático e retiram da população o direito de fazer suas escolhas com base em fatos, não em boatos.

Outras checagens sobre o tema: O período eleitoral de 2022 está sendo permeado por desinformação. O Comprova demonstrou, recentemente, que é falso que Lula roubou 350 mil toneladas de ouro da Serra Pelada, que foto de Bolsonaro com Elon Musk em lancha é montagem e que capa da revista Time com Lula é autêntica.

Também já mostrou outros conteúdos que usam imagens antigas, como o dos vídeos para enganar sobre adesão a atos pró-Bolsonaro, e inúmeros que tratam sobre as consultas eleitorais, a exemplo da matéria que sustenta que nenhuma pesquisa aponta 70% de votos para Bolsonaro ou a que mostra que enquete em restaurante não pode ser considerada pesquisa.

Eleições

Investigado por: 2022-06-02

Não há evidências de que Lula pediu para Bolívia reduzir fornecimento de gás ao Brasil

  • Enganoso
Enganoso
Não há evidências de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha pedido ao presidente da Bolívia para cortar 30% do gás fornecido ao Brasil. Posicionamentos da Petrobras e da sua contraparte boliviana indicam que a medida foi motivada por interesses comerciais.

Conteúdo investigado: Vídeo com uma inscrição que diz que o ex-presidente Lula pediu para o presidente da Bolívia cortar 30% do gás fornecido para o Brasil.

Onde foi publicado: Kwai e TikTok.

Conclusão do Comprova: É enganoso um vídeo nas redes sociais que diz que o ex-presidente Lula teria pedido para o presidente da Bolívia reduzir em 30% o fornecimento de gás natural para o Brasil. A redução, de 20 milhões de m³/dia para 14 milhões de m³/dia, realmente foi feita e de forma unilateral pela estatal boliviana Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB). Porém, posicionamentos da YPFB e da Petrobras apontam que a medida teria sido motivada por questões comerciais.

O vídeo se baseia em uma fala do presidente Jair Bolsonaro (PL) na qual ele sugere uma suposta operação contra o seu governo que foi posteriormente repercutida pela emissora Jovem Pan. Os dois citam o caso como uma possibilidade e não apresentam nenhuma evidência de sua veracidade. Já a postagem analisada faz a alegação como se fosse fato comprovado.

Além disso, não há nenhum registro público de contato recente de Lula com o presidente da Bolívia. O ex-presidente também não fez visita recente ao vizinho latino-americano. Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos e que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. No Facebook, até o dia 2 de junho de 2022 o conteúdo analisado recebeu 602 reações. No Kwai, 20,3 mil. O vídeo no TikTok foi visto 111 mil vezes antes de ser excluído.

O que diz o autor da publicação: Os autores das postagens mais virais foram procurados, mas não responderam até a publicação desta verificação.

Como verificamos: O Comprova iniciou a checagem procurando a gravação original do programa da Jovem Pan que aparece nos vídeos que viralizaram no Kwai Video e no TikTok. O primeiro passo foi identificar a apresentadora do jornal para saber em quais dos programas da emissora ela aparecia. Após uma busca rápida no Google pelos âncoras da Jovem Pan, encontramos a foto da apresentadora em questão, Adriana Reid. Ela apresenta o Jornal da Manhã 1ª edição da emissora.

Como os vídeos foram publicados no dia 31 de maio de 2022 e as notícias sobre o corte de fornecimento de gás da Bolívia ao Brasil foram amplamente divulgadas em meados de maio, a busca foi feita no YouTube da emissora analisando as edições do Jornal da Manhã de 20 a 31 de maio. Nessa busca, encontramos a matéria que foi colocada no vídeo na edição de 26 de maio de 2022, que pode ser vista a partir de 2 horas 17 minutos e 40 segundos de programa.

Consultamos notas nos sites da Petrobras (aqui e aqui) e da YPFB (aqui e aqui) para saber o motivo da redução no fornecimento de gás. A Petrobras também foi procurada por e-mail para um posicionamento.

Procuramos notícias na imprensa profissional (Veja) para saber se houve recentemente algum contato público entre Lula e o presidente da Bolívia, Luis Arce. Também pesquisamos quais foram as últimas viagens internacionais do ex-presidente brasileiro (Correio Braziliense, BBC, Metrópoles, G1).

Por fim, entramos em contato com o perfil que publicou a gravação no Kwai Video, mas não houve retorno. Não conseguimos entrar em contato com o usuário que divulgou o vídeo no TikTok, pois o aplicativo permite que apenas amigos enviem mensagens entre si. Não havia nenhuma foto ou outra informação que revelasse quem é a pessoa, então não conseguimos falar com ela.

Estatal boliviana reduziu unilateralmente o fornecimento de gás

Como o Comprova já mostrou, a compra de gás boliviano começou no governo FHC, com um acordo para fornecimento de 30 milhões de metros cúbicos/dia (m³/dia). O investimento na geração de termelétricas alimentadas por gás foi uma aposta para combater a crise energética do início dos anos 2000. Naquela época, a matriz energética brasileira era muito dependente das hidrelétricas e sofreu com um período de longa estiagem.

Em 2020, a Petrobras celebrou um acordo com a estatal YPFB para reduzir esse fornecimento de 30 para 20 milhões m³/dia. A diferença de 10 milhões m³/dia deveria ser comprada por empresas privadas. Essa medida visava ampliar a livre concorrência no mercado de gás natural.

A YPFB firmou, em abril de 2022, um acordo com a Argentina para o fornecimento adicional de 4 milhões m³/dia durante o inverno a um custo de US$ 20 por milhão de BTU (unidade térmica). No mesmo mês, informou à Petrobras que reduziria, na mesma proporção, a quantidade de gás fornecido ao Brasil. Segundo a petrolífera brasileira, a média de fornecimento em maio foi de 14 milhões m³/dia, 6 milhões m³/dia a menos do que o acordado.

Em nota, a Petrobras afirma que prestou os esclarecimentos às instâncias governamentais cabíveis e que adotou medidas para assegurar o fornecimento aos seus clientes. Também disse que o contrato com a YPFB prevê consequências ao fornecedor em caso de falha de fornecimento e que tomará as medidas cabíveis para o cumprimento do contrato.

O Ministro de Hidrocarbonetos e Energia da Bolívia, Franklin Molina, disse em um pronunciamento à imprensa que não há problemas em fornecer gás ao Brasil, mas busca uma melhora nos preços. Segundo ele, a Petrobras paga entre US$ 6 e US$ 7 por milhão de BTU, quando haveria empresas privadas brasileiras dispostas a pagar de US$ 15 a US$ 18.

Molina alega que o presidente da YPFB, Armin Dorgathen, veio ao Brasil renegociar os preços praticados, mas que não ficou satisfeito com o resultado das tratativas. “Diante dessa situação, evocamos uma cláusula do contrato que diz que uma das partes pode solicitar uma renegociação se ela não estiver satisfeita com os preços praticados.”

O pronunciamento do ministro boliviano tem um contexto político. O contrato mais recente foi assinado, em 2020, sob o mandato da presidente Jeanine Áñez. Ela se autoproclamou presidente interina quando o então presidente Evo Morales e aliados na linha sucessória deixaram os cargos em decorrência de protestos de rua contra seu governo. A turbulência política e social ocorreu depois de denúncias de irregularidades nas eleições.

Atualmente, o presidente da Bolívia é Luis Arce, que foi ministro do ex-presidente Morales. Tratam-se, assim, de grupos políticos rivais. O governo Arce questiona a validade do acordo firmado com a Petrobras em 2020, por considerar que o país sofreu um golpe de estado e que o governo de Áñez seria ilegítimo. O Brasil reconheceu o governo dela.

A Petrobras foi procurada por e-mail e repetiu os argumentos expostos em sua nota.

Não há evidência de participação de Lula

A postagem se baseia em uma fala de Jair Bolsonaro a apoiadores gravada em vídeo e publicada nas redes sociais (Twitter, 37 mil reações; TikTok, 3 milhões de visualizações). O presidente relata o corte no fornecimento do gás e diz que a Petrobras precisa comprar o combustível de outros países, o que aumenta o seu custo. Isso afetaria a sua popularidade. “É um negócio que parece, parece, orquestrado para beneficiar você sabe quem”, falou o presidente, dando ênfase para o verbo “parecer”. Ele não dá nenhuma prova da alegação que faz.

O programa da Jovem Pan que é utilizado no conteúdo aqui investigado foi ao ar em 25 de maio (YouTube). Nele, a jornalista diz que “o presidente Jair Bolsonaro denunciou em suas redes sociais um possível plano para prejudicá-lo e minar sua reeleição”. Novamente, a fonte é apenas a fala do presidente. O uso do adjetivo “possível” é prova de que não há confirmação.

Tanto o presidente quanto a reportagem estão falando de uma possibilidade, sem comprovação. Mas a inscrição que foi adicionada na postagem investigada afirma como se fosse um fato comprovado: “Lula pede para presidente da Bolívia cortar 30% do gás que vem para o Brasil”. Não há nenhuma evidência concreta disso.

A última vez que se tem notícia de um contato entre Lula e Evo Morales foi em 28 de novembro de 2019. Na ocasião, o ex-presidente brasileiro ligou para o mandatário boliviano quando este renunciou à presidência. Em outubro de 2020, Lula publicou um tuíte parabenizando Luis Arce, apoiado pelo ex-presidente boliviano, pela vitória nas urnas.

Não há registros de que Lula tenha viajado para a Bolívia recentemente. No ano passado, em janeiro, ele passou um mês em Cuba e se encontrou com Raúl Castro. Já em novembro, fez um tour pela Europa e foi recebido por Emmanuel Macron, atual presidente francês, em Paris. Um pouco antes do encontro, o ex-presidente do Brasil recebeu o prêmio da “coragem política” concedido pela revista Política Internacional. Ele também esteve na Argentina, em dezembro de 2021, e participou de ato na Plaza de Mayo ao lado do presidente Alberto Fernández. Em março deste ano, se encontrou com o presidente do México, López Obrador.

Em nota, Lula classificou de “fake news” a alegação de que ele teria algum envolvimento com a negociação do gás boliviano. O ex-presidente acusa Jair Bolsonaro de “tentar culpar Lula pelo desastre da gestão bolsonarista na Petrobras e pelos preços absurdos de gás e combustíveis no Brasil de 2022”, 12 anos após ele deixar o poder.

É falso que Lula tenha dado refinarias para a Bolívia

O UOL Confere e o Estadão Verifica já checaram se o ex-presidente Lula teria dado refinarias da Petrobras para a Bolívia, afirmação que também é feita no vídeo analisado nesta verificação. Os dois veículos de comunicação identificaram algum grau de desinformação na alegação. Em 2007, a Petrobras fechou acordo para vender as duas instalações por US$ 112 milhões (valores da época).

Em 2006, o Exército boliviano tomou instalações de empresas estrangeiras do setor de petróleo e gás, entre elas a Petrobras. A ação ocorreu depois de o presidente da Bolívia, Evo Morales, publicar o Decreto Supremo “Héroes del Chaco” (nº 28.701) que nacionalizou a exploração do petróleo e gás no país. Ficou decidido que a partir de 1º de maio de 2006 as empresas petrolíferas que realizassem atividades de produção de gás e petróleo no território boliviano foram obrigadas a entregar suas propriedades à estatal YPFB.

No ano seguinte, em comunicado aos investidores, a Petrobras informou que a Bolívia aceitou comprar as duas refinarias da empresa no país por US$ 112 milhões.

Por que investigamos: Em sua quinta fase, o Comprova checa conteúdos sobre a pandemia, eleições e políticas públicas do governo federal. O país vive um momento de alta da inflação causada pela retomada no ritmo das atividades econômicas permitida pela vacinação contra a covid-19 e por incertezas com a guerra da Ucrânia. O aumento do preço dos combustíveis é um dos elementos que pressionam a inflação para cima e fonte de descontentamento da população com o governo federal, gerando um ambiente propício para a circulação de desinformação sobre o tema.

Outras checagens sobre o tema: o Comprova já mostrou ser falso que motoristas possam pedir reembolso de imposto federal cobrado ao abastecer o carro. Também checou que os impostos estaduais são a menor parte na composição do preço do botijão de gás.

Eleições

Investigado por: 2022-06-02

Lula não afirmou que implantará restrições religiosas no Brasil caso reeleito

  • Enganoso
Enganoso
Vídeo que circula no Helo passa uma ideia enganosa de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), caso eleito em outubro deste ano, irá implantar restrições religiosas no Brasil, a exemplo do que foi adotado pelo governo da China. Trechos de uma entrevista concedida pelo petista ao portal chinês Guancha foram recortados e manipulados. Na entrevista original, ele não faz menção a questões religiosas.

Conteúdo investigado: Vídeo com trechos de uma reportagem exibida no Jornal da Record que trata da repressão religiosa imposta pelo governo na China seguida por declarações do ex-presidente Lula classificando o país como “um exemplo para o mundo”. O conteúdo é sobreposto com manchetes de noticiários brasileiros em que o petista afirma ser necessário regulamentar a mídia no Brasil. O vídeo encerra com a frase dita por Lula: “Espero que outros países aprendam a lição com a China. Tenho muita fé, muita esperança que vamos conseguir fazer isso a partir de 2022”.

Onde foi publicado: Helo

Conclusão do Comprova: É enganoso um vídeo que circula no aplicativo Helo e que apresenta trechos de uma reportagem do Jornal da Record sobre restrições religiosas impostas na China, acompanhado de recortes de uma entrevista concedida pelo ex-presidente Lula ao portal de notícias chinês Guancha.

A reportagem exibida pela televisão brasileira foi ao ar em 4 março de 2022, enquanto que a entrevista do petista ocorreu em junho de 2021. Ao contrário do que sugere o conteúdo alvo desta checagem, em nenhum momento o ex-presidente faz menção a questões religiosas daquele país, tampouco afirma que poderá implantar restrições autoritárias inspiradas na China, caso eleito presidente do Brasil no pleito de outubro deste ano.

A conversa entre Lula e o entrevistador Eric Li durou pouco mais de 51 minutos. Ao longo da entrevista, o ex-presidente fez elogios à China sobre diversos temas, como o combate à pandemia da covid-19, investimentos na educação e a evolução econômica do país.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. O vídeo publicado no aplicativo Helo teve mais de 7,3 mil compartilhamentos, 2,9 mil curtidas e mais de 400 comentários até o dia 2 de junho.

O que diz o autor da publicação: Uma mensagem foi encaminhada para a pessoa responsável pela publicação no próprio Helo, mas não houve resposta até a conclusão desta checagem. A busca pelo nome da autora em outras redes sociais não retornou resultados.

Como verificamos: O Comprova iniciou a checagem procurando na internet a entrevista concedida pelo ex-presidente Lula ao portal chinês de notícias Guancha, assim como a reportagem original exibida no Jornal da Record, em março de 2022, que trata da proibição do compartilhamento de conteúdos religiosos na internet sem a permissão do governo chinês.

Utilizando as palavras-chave “Lula” e “China”, a busca retornou resultados tanto de outras verificações sobre o tema (Estadão Verifica, AFP Checamos e Boatos.org), quanto de reportagens jornalísticas relatando as falas do ex-presidente sobre a China (Folha de S.Paulo e Poder360).

Também procuramos pela dona do perfil no Helo que compartilhou o conteúdo, mas não houve resposta.

A entrevista

Em junho de 2021, o ex-presidente Lula concedeu uma entrevista ao portal chinês Guancha, na qual fez elogios à China sobre diversos temas, como o combate à pandemia do coronavírus, investimentos na educação e a evolução econômica do país.

As declarações do petista, na época, foram noticiadas pela imprensa brasileira (Folha de S.Paulo e Poder360) e estão disponíveis, na íntegra, neste link.

A conversa entre Lula e o entrevistador Eric Li durou pouco mais de 51 minutos e também foi compartilhada no canal do YouTube do ex-presidente.

Em nenhum momento Lula comenta sobre as restrições impostas pela China a respeito do compartilhamento de conteúdos religiosos na internet, assim como também não diz que pretende implantar esse controle no Brasil caso seja eleito no pleito de 2022.

A reportagem sobre o tema que aparece no vídeo viral foi exibida no Jornal da Record em 4 de março deste ano, ou seja, nove meses após a entrevista de Lula ao Guancha.

Trechos foram recortados e retirados do contexto original

No vídeo que circula nas redes sociais, Lula elogia a China por ser um país “que tem o Estado forte, que toma decisões e que as pessoas cumprem”, conduta que, segundo ele, não ocorre no Brasil. Logo em seguida, o ex-presidente enaltece a China pelo combate à pandemia de covid-19: “A China só conseguiu combater o coronavírus com a rapidez que combateu porque tem um partido forte, um Estado forte. Porque tem pulso, tem voz de comando, nós não temos isso aqui no Brasil.”

Lula também diz que “pensava muito grande” na relação com a China e que acreditava que os dois países deveriam ter construído uma parceria estratégica. O que o conteúdo investigado deixa de exibir, porém, é que nesse momento o ex-presidente falava também sobre a Índia, África do Sul e Rússia, países emergentes que formam o Brics.

“Eu sonhava muito com os Brics. Eu pensava muito grande na minha relação com a China. Na minha relação com a Índia, com a África do Sul e com a Rússia. Eu achava que a gente deveria ter construído uma parceria estratégica para que a gente, sendo metade da humanidade, não ficasse dependendo da política do dólar. A gente não precisasse do dólar para a gente fazer nosso comércio exterior”, diz Lula, na entrevista original entre os minutos 00:19:08 e 00:19:44.

O próximo segmento da fala do ex-presidente que está fora de contexto é a seguinte frase: “A China é um exemplo para o mundo. E eu espero que outros países aprendam a lição com a China. Tenho muita fé, muita esperança, que vamos conseguir fazer isso, a partir de 2022.” Esta frase foi editada de modo a dar a entender que Lula desejaria implantar no Brasil o sistema autoritário chinês.

Neste trecho final, na verdade, Lula enaltece o desenvolvimento econômico da China nos últimos 20 anos. “Eu acho que a China é um exemplo de desenvolvimento para o mundo. E eu espero que outros países aprendam a lição com a China para que a gente possa ser mais rico, ser mais forte, ter mais distribuição de riqueza e ter um mundo mais humano.”

Por fim, quando afirma que tem “muita fé, muita esperança, que vamos conseguir fazer isso, a partir de 2022”, Lula se refere à independência dos países do sul global, que são nações em desenvolvimento, em relação à política cambial influenciada pelo dólar.

“Eu trabalhei muito com o Hu Jintao [ex-presidente da China] a necessidade de uma relação Sul-Sul. Não ficar dependendo do Norte como nós estamos dependendo. Lamentavelmente, a gente não conseguiu chegar lá, mas eu tenho muita fé, muita esperança que nós vamos conseguir fazer isso a partir de 2022.”

Esse trecho final pode ser conferido entre os minutos 00:20:55 e 00:22:06 da entrevista original.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. O conteúdo do vídeo aqui verificado cita o pré-candidato à presidência Lula. Informações falsas que envolvem atores políticos trazem prejuízos ao processo democrático e atrapalham a decisão do eleitor, que deve ser tomada com base em informações verdadeiras. No vídeo postado no Helo, por exemplo, há comentários afirmando que “Lula é satanista”, e que o ex-presidente “quer calar o povo de Deus”.

Outras checagens sobre o tema: A mesma entrevista presente no vídeo verificado pelo Comprova já foi deturpada e utilizada em peças de desinformação semelhantes que foram alvo de checagens do Estadão Verifica, da AFP Checamos e do site Boatos.org.

Em verificações anteriores envolvendo o nome do ex-presidente, o Comprova mostrou que é falso que Lula tenha roubado 350 mil toneladas de ouro de Serra Pelada e dado dinheiro para Venezuela; que vídeo mostra imagens de imóvel de luxo no Ceará como sendo residência alugada por Lula em São Paulo e que declarações “vazadas” de Lula sobre crise econômica são públicas e foram feitas em 2016.

Eleições

Investigado por: 2022-06-02

É uma sátira imagem da torcida do Liverpool atribuída a encontro do PT

  • Sátira
Sátira
O Comprova classificou como sátiras publicações feitas no Facebook e no Twitter que utilizam uma imagem da torcida do time inglês de futebol Liverpool, na França, para dizer que a multidão estava reunida, em Recife, em apoio ao ex-presidente e pré-candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Comparação grosseira e publicação em grupos de humor deixam clara a intenção das postagens.

Conteúdo investigado: Postagens no Facebook e no Twitter apresentam uma foto da torcida do time de futebol Liverpool e legendas dão a entender que trata-se de manifestação a favor de Lula, no Brasil. Em algumas publicações foram acrescidas imagens da bandeira do Partido dos Trabalhadores, com acusações a petistas de terem propagado fake news.

Onde foi publicado: Facebook, Twitter e WhatsApp.

Conclusão do Comprova: São sátiras as postagens que tiram de contexto uma foto da torcida do time inglês de futebol Liverpool, em Paris, no último sábado (28), e afirmam tratar-se de manifestação a favor de Lula, em Recife. A afirmação se torna absurda em relação às características da imagem, o que indica conteúdo humorístico. Na ocasião, o Liverpool disputou a decisão da Liga dos Campeões da Europa contra o Real Madrid.

O Comprova localizou três postagens – as três em grupos de humor – que compartilharam a mesma imagem e texto, e fez contato com os perfis que fizeram a publicação. Um deles respondeu afirmando que se trata de sátira.

Ainda no dia do jogo, a mesma foto foi manipulada com a inserção de bandeiras do PT e postada nas redes sociais com acusações de que membros do partido teriam feito a montagem com a intenção de propagar fake news. A primeira publicação localizada pelo Comprova foi feita também em grupo de humor, de apoio ao presidente Bolsonaro.

No dia seguinte, a imagem foi compartilhada em postagem no Twitter por uma advogada de Goiás, cujas publicações a favor de Bolsonaro são amplamente compartilhadas nas redes sociais. Mais uma vez, acusações de que petistas teriam feito a montagem.

A imagem manipulada, no entanto, não foi localizada em qualquer página ou perfil de apoio ao PT, nem mesmo em postagens em tom de sátira. A usuária, procurada pela reportagem, afirmou ter recebido a imagem via grupos no WhatsApp e no Telegram, mas relatou ter apagado as conversas e garantiu não ter criado a montagem com as bandeiras do PT.

Como as duas imagens da torcida do Liverpool em Paris, com e sem a bandeira do PT, foram postadas inicialmente em páginas de humor, e por ser grosseira a relação entre texto e imagem, o Comprova classificou o conteúdo como sátira.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. O tuíte que aponta o conteúdo como desinformação por parte do PT somou mais de 29 mil interações até o dia 2 de junho.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com seis perfis que compartilharam publicações que tiram do contexto uma foto da torcida do time Liverpool. Quatro deles não chegaram a visualizar as mensagens. Entre os que responderam, um afirmou ter feito o post com finalidade humorística. O outro respondeu ter recebido as imagens em grupos de WhatsApp e do Telegram, e então elaborado uma postagem comparando as duas imagens lado a lado, com e sem a inserção de bandeiras do PT.

Como verificamos: Utilizando as ferramentas Google Lens e Google Imagens, o Comprova realizou a busca reversa das imagens e localizou as publicações iniciais em grupos de humor que apontavam se tratar de sátira. Também foi localizada a foto original da torcida do Liverpool, postada em uma reportagem do veículo portugês JN e creditada à conta Uefa Champions League no Twitter, onde ela também foi identificada.

Em seguida, foram consultadas reportagens sobre o jogo ocorrido no final de semana e presença da torcida do Liverpool em Paris, assim como foram realizadas pesquisas sobre encontros recentes do PT no Brasil.

Por fim, entramos em contato com os autores das postagens.

 

Foto tirada de contexto

A partida final da Liga dos Campeões da Europa, no último sábado, 28, entre Real Madrid e Liverpool, no Stade de France, em Paris, gerou postagens na internet relacionadas às eleições presidenciais. Inicialmente, foi utilizada foto publicada na conta do Twitter da UEFA Champions League, às 12h58, que mostra a área dedicada a torcedores do Liverpool na Rua Cours de Vincennes, em Paris, a cerca de 12 km do estádio.

A primeira postagem localizada pelo Comprova usa a imagem com o seguinte texto: “Ainda dizem que Lula está sozinho. Aconteceu hoje, em Recife”. A foto foi postada no sábado, às 14h47, em grupo do Facebook com conteúdo de humor. A característica da página, juntamente com o perfil do autor da postagem, que não costuma se manifestar politicamente e sim postar conteúdo de humor e de futebol, e a total discrepância da comparação, indicam para a intenção de sátira.

Nos comentários, não há internautas que acreditam tratar-se de uma manifestação pró-Lula em Recife. O mesmo se percebe em outras duas postagens que compartilharam a foto e mesmo texto, também no Facebook, às 19h43 e 20h18. Juntas, as três postagens somaram 2.369 curtidas, 555 compartilhamentos e 1.155 comentários até o dia 31.

O Comprova buscou contato com os três perfis. Um deles confirmou que trata-se de uma sátira.

Segundo o perfil, a ideia foi satirizar a esquerda que, conforme afirmou, “muitas das vezes usa esse tipo de manifestações envolvendo torcidas que tenham a mesma semelhança de cores para propagar postagens afirmando que foi um comício petista ou esquerdista”.

Entre as postagens, outras surgiram sugerindo que a esquerda ou o PT usariam as imagens da torcida do Liverpool para dizer que se trata de manifestação política. Os tuítes também foram postados no dia 28, às 12h59, 15h16 e 18h.

No entanto, o Comprova não localizou qualquer postagem que atribuísse de forma não satírica a imagem da torcida do Liverpool a uma manifestação pró-Lula.

Bandeira inserida na foto

Ainda no dia 28, foram feitas as primeiras postagens com a inserção de uma única foto de bandeira do PT várias vezes na mesma foto publicada na conta do Twitter da UEFA Champions League. Elas acusam petistas de terem feito a montagem e de estarem propagando fake news.

A primeira localizada pelo Comprova foi numa página do Facebook de apoio ao presidente Bolsonaro que se autodefine como “sátira/paródia”.

Em resposta às duas postagens com a bandeira inserida, usuários acreditaram na afirmação, o que resultou em ataques ao PT. Outros, no entanto, a questionaram.

O Comprova fez buscas na internet e redes sociais pela foto manipulada, inclusive com o uso de ferramentas de busca reversa de imagens, e não encontrou postagens que afirmam se tratar de manifestação petista, nem mesmo em tom de sátira.

Postagem de advogada viraliza e políticos compartilham

O tuíte que viralizou e foi compartilhado inclusive por políticos apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) traz duas imagens: a foto original da torcida do Liverpool e o mesmo arquivo acrescido de imagens da bandeira do Partido dos Trabalhadores.

A primeira foto traz a legenda “original” e a segunda “fake”. A autora da postagem afirma que “petistas editaram a imagem da Torcida do Liverpool em Paris (Final da Liga dos Campeões) e espalharam nas redes, como se fosse imagem de manifestação de apoio a Lula”, concluindo com “O PT é uma Fraude!”

O Comprova a identificou como sendo uma advogada registrada em Goiás e entrou em contato via WhatsApp. A usuária confirmou ter juntado as duas imagens – original e com as bandeiras – após receber a adulterada no domingo (29), via grupos de WhatsApp e Telegram.

A advogada sustenta, ainda, ter realizado uma busca no Twitter e encontrado outras pessoas postando a imagem, inclusive em grupos que ela diz participar e serem de esquerda. De fato, a imagem já circulava no dia anterior, sábado (28). A usuária chegou a enviar ao Comprova links destas postagens. Porém, todas indicam conteúdo satírico. Em uma delas, o próprio autor afirma tratar-se de meme nos comentários.

A usuária negou ter feito a montagem com as bandeiras do PT: “Eu não tenho tempo pra isso. Não sou ‘memeira’, sou advogada, exerço minha profissão e de fato eu faço parte de alguns grupos e eu recebi essa mensagem. (…) Não tenho intenção nenhuma de estar publicando fake news, principalmente porque eu sei das consequências. Eu mais do que ninguém tenho consciência das consequências disso”, declarou.

Por fim, afirmou não ter como encaminhar prints do recebimento da imagem, pois costuma deletar as conversas.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais.

Ainda que a primeira publicação aqui investigada tenha sido utilizada como um meme, os conteúdos analisados indicam uma tentativa de culpabilizar o PT pela criação de notícias falsas e foram lidos desta maneira por vários usuários, que expressaram comentários como “método comuno-stalinista de lidar com a realidade”. “Altera-se a fotografia. Comunismo continua o mesmo, agora usando photoshop” e “verdade, esses petistas tão editando tudo, até as intenções de votos para presidente”.

Esse tipo de publicação pode ser mal interpretada e influenciar o voto do eleitor, o que prejudica o processo democrático.

Outras checagens sobre o tema: Em outras checagens, o Comprova já verificou que vídeos com ataques de Putin a Bolsonaro são humorísticos; que suposta imagem de apoio a Bolsonaro é um meme com ator pornô; e que advogado do PT’ em vídeo do Kwai é personagem de humor.

Eleições

Investigado por: 2022-05-30

É falso que Lula tenha roubado 350 mil toneladas de ouro de Serra Pelada e dado dinheiro para Venezuela

  • Falso
Falso
Homem em vídeo diz que 350 mil toneladas de ouro de Serra Pelada foram parar nas mãos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas a quantidade citada é maior do que as estimativas de todo o ouro já minerado no mundo, somado ao que ainda há para minerar. Além disso, não houve extração do metal precioso em Serra Pelada durante todo o governo do petista.

Conteúdo investigado: Vídeo do TikTok mostra homem falando que Lula “comeu” ouro e diamantes de Serra Pelada junto de uma firma do Canadá, que esta empresa e a Vale tiraram 350 mil toneladas de ouro do local e que este minério foi parar nas mãos do ex-presidente, que passou R$ 200 milhões para a Venezuela no primeiro mandato. Lula ainda teria sido pego em um roubo de R$ 11 bilhões. O mesmo conteúdo é utilizado em um vídeo no YouTube, onde foi acrescentada uma narração afirmando que a fala do homem está repleta de informações verdadeiras publicadas na imprensa.

Onde foi publicado: TikTok e YouTube.

Conclusão do Comprova: É falso um vídeo publicado no TikTok em que um homem acusa o ex-presidente Lula de ter roubado, junto com a Vale e a mineradora canadense Colossus, 350 mil toneladas de ouro e diamantes retirados de Serra Pelada, na Província Mineral dos Carajás, em Curionópolis, no Pará. Ainda de acordo com o homem que aparece no vídeo, o minério “foi para a mão de Lula”, que mandou “R$ 200 milhões para a Venezuela”. Entretanto, não houve no local retirada de ouro ou mesmo diamantes durante o governo Lula, nem depois dele, de acordo com a Agência Nacional de Mineração (ANM). Além disso, todo ouro retirado de Serra Pelada desde que o metal precioso foi descoberto no garimpo, em 1979, não chega a 1% do que o autor do vídeo alega ter sido roubado pelo petista.

De acordo com dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) publicados em 2020 pela BBC, o estoque subterrâneo de ouro ainda existente no mundo é estimado em 50 mil toneladas, enquanto outras 190 mil toneladas já teriam sido extraídas de todo o planeta. Para que a alegação do vídeo fosse verdadeira, o ex-presidente Lula precisaria ter roubado em Serra Pelada todo o ouro já extraído em minas do mundo inteiro, mais as 50 mil toneladas que ainda restam, somadas a outras 110 mil toneladas do metal precioso.

O auge da extração de ouro em Serra Pelada ocorreu na década de 1980. Em 1979, um trabalhador de uma fazenda local descobriu uma pepita de ouro e a informação se espalhou rapidamente. Ao longo de toda a década de 1980, segundo dados divulgados em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), foram extraídas 42 toneladas de ouro de Serra Pelada. A retirada caiu consideravelmente em 1990, quando apenas 250 quilos foram garimpados. Em 1991, um decreto do então presidente Fernando Collor de Mello determinou o fechamento da mina de Serra Pelada, considerado o maior garimpo a céu aberto do mundo, a partir de fevereiro de 1992. O decreto foi revogado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) em agosto de 2020.

Ao longo do vídeo no TikTok, o homem não explica de onde tirou os números mencionados, nem apresenta provas das acusações. Um canal no YouTube usou o mesmo material e tentou “provar” as acusações com prints de reportagens publicadas na imprensa, mas nenhuma delas de fato prova que Lula, a Vale ou a empresa canadense tenham desaparecido com 350 mil toneladas de ouro e diamantes. Sobre os R$ 200 milhões enviados para a Venezuela, o canal usa informações sobre débitos do governo venezuelano ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), sem relação com o ouro de Serra Pelada.

Ele também usa informações enganosas sobre um “roubo” de R$ 11 bilhões e mente ao afirmar que pesquisas eleitorais não falam a verdade, uma vez que enquetes on-line apontam a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022.

O Comprova classificou este conteúdo como falso porque ele foi inventado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. O post feito no TikTok em 14 de maio registrou, até o dia 30 do mesmo mês, 19,7 mil curtidas, 1.733 comentários e 16,3 mil compartilhamentos. No YouTube, onde o vídeo foi postado no dia 23, havia 15,15 mil visualizações, 2,9 mil curtidas e 115 comentários até a mesma data.

O que diz o autor da publicação: No TikTok não é possível contato com os usuários, mas o Comprova localizou o perfil do autor no Instagram e enviou mensagem direta, que não foi respondida. No YouTube, o responsável pela postagem não se identifica. Na aba “sobre”, há links para duas contas, uma no Twitter que está suspensa, e outra de uma usuária do Facebook. O Comprova enviou mensagens para ela, questionando se possui ligação com a página no YouTube, mas também não houve resposta.

Como verificamos: Para fazer esta checagem, o Comprova pesquisou sobre o garimpo de ouro em Serra Pelada, a quantidade do metal já retirado de lá e a situação atual do garimpo no local. Também foram feitas buscas envolvendo os valores citados no vídeo, o nome do ex-presidente Lula, da Vale, da cooperativa de garimpeiros de Serra Pelada, a Coomigasp, e de uma “mineradora canadense”, o que levou à Colossus Minerals, empresa que chegou ao Sul do Pará em 2007, pouco depois de ter sido criada, em 2006.

As pesquisas por publicações na imprensa levaram a pelo menos duas grandes reportagens – um especial de 2017 da Folha de S.Paulo com fotografias de Sebastião Salgado e dados sobre a mineração no local, e uma denúncia de 2010 do Estadão que mostrou um esquema liderado pelo ex-senador e ex-ministro de Minas e Energia Edison Lobão para reabrir a mina com a participação da canadense Colossus Minerals. Lobão, que foi ministro de Lula, negou ter feito um esquema. A reportagem, publicada ao longo de algumas edições de julho de 2010, cita o ex-presidente Lula apenas duas vezes: uma para dizer que ele desmarcou duas visitas ao local por entender que o projeto era desfavorável aos garimpeiros e deixava praticamente todo o ouro nas mãos da empresa canadense, e outra para afirmar que ele disse ser questão de honra para seu governo autorizar a reabertura da mina.

Também foram consultados órgãos oficiais, como a Agência Nacional de Mineração (ANM), o Serviço Geológico Brasileiro, ligado à Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (SGB/CPRM), e o Ministério das Relações Exteriores. Foram contatadas a Vale, a Colossus Minerals, a Coomigasp, a Sedeme e o Ibram. Por fim, foram acessados relatórios técnicos oficiais da Colossus enviados à Bolsa de Valores de Toronto em 2007 e 2010, além de artigos científicos que tratam da exploração de ouro em Serra Pelada e imagens de satélite da mina entre 1985 e 2021. A reportagem procurou, ainda, o Serviço Geológico dos Estados Unidos e o Conselho Mundial do Ouro.

Os autores dos vídeos postados no TikTok e no YouTube foram procurados, mas não responderam até a publicação desta checagem.

 

Mineração em Serra Pelada

A descoberta do ouro em Serra Pelada é atribuída a um peão conhecido apenas como Aristeu, segundo explica um artigo intitulado ‘Ouro, empresas e garimpeiros na Amazônia: o caso emblemático de Serra Pelada’, publicado em 2010. Enquanto trabalhava, Aristeu encontrou uma pepita de ouro na Fazenda Três Barras, de propriedade de Genésio Ferreira da Silva. O dono da propriedade teria tentado deixar o caso em segredo, mas a notícia logo se espalhou e os garimpeiros foram chegando às centenas, depois aos milhares. Em março de 1980, 5 mil homens já trabalhavam na chamada Grota Rica.

O governo militar, então, mandou o Major Sebastião de Moura Curió, que havia dizimado alguns anos antes a Guerrilha do Araguaia, para “cuidar” do garimpo no local. O Major Curió loteou a mina e a distribuiu entre os garimpeiros. Durante uma década, estima-se que foram extraídos artesanalmente de Serra Pelada algo entre 37 e 50 toneladas de ouro, mas o volume pode ser maior por conta dos desvios. O ano com maior volume de extração foi 1983, quando saíram de lá mais de 13 toneladas de ouro, oficialmente, como mostra o artigo já citado e também esta reportagem do Estadão. Na época, havia 67 mil garimpeiros no local.

A partir de 1990, a retirada foi caindo consideravelmente e, em setembro de 1991, o então presidente Fernando Collor de Mello publicou um decreto determinando o dia 11 de fevereiro de 1992 como o prazo máximo para o fim dos trabalhos de garimpagem em Serra Pelada. O sonho de reabrir a mina continuou por muitos anos, até que, em 2007, o senador Edison Lobão começou as articulações para a reabertura.

O Estadão denunciou em 2010 como Lobão negociou a cessão das áreas da Vale para a cooperativa de garimpeiros e articulou também a formação de uma empresa entre a Coomigasp e a suposta gigante da mineração no Canadá Colossus Minerals. A entrada de uma mineradora era necessária à reabertura da mina porque o local onde antes era feito o garimpo havia se transformado em uma cratera de 200 metros de profundidade e estava cheia de água. Com a mina transformada em lagoa, era impossível aos garimpeiros minerarem de maneira artesanal.

Os trabalhos de pesquisa foram autorizados e a mineradora chegou a anunciar que havia encontrado depósitos de ouro em Serra Pelada, mas os documentos enviados à Bolsa de Valores de Toronto, também em 2010, mostram que a empresa não chegou a extrair nada – pelo contrário, foi informada a necessidade de mais dinheiro para, de fato, conseguir minerar em Serra Pelada.

O papel da Vale e da canadense Colossus

Conforme informou a Agência Nacional de Mineração (ANM), a mineradora Vale não tem mais qualquer atuação em Serra Pelada. No passado, a mineradora chegou a realizar pesquisas na área e obteve concessão de lavra, mas esta foi repassada à Coomigasp e à empresa Colossus, que posteriormente desistiu do projeto.

A Vale, também procurada pelo Comprova, confirmou não ter qualquer participação na Colossus e nunca ter chegado a exercer qualquer atividade de lavra minerária em Serra Pelada, seja para ouro ou diamante (identificado em quantidades irrelevantes). A mineradora afirma ter cedido a área de jazida à Coomigasp em março de 2007 e acrescenta manter no município de Curionópolis apenas a unidade Serra Leste, de exploração exclusiva de minério de ferro.

Em 2013, a Colossus, que desde então vinha realizando pesquisas no local e foi contratada pelos garimpeiros para explorar o ouro, realizou demissões em massa e comunicou a paralisação das atividades alegando ter encontrado desafios técnicos para o controle da quantidade de água no solo onde o projeto estava sendo desenvolvido, o que teria provocado um desequilíbrio orçamentário. As atividades nunca mais foram retomadas e o projeto acabou abandonado pela mineradora.

Atualmente, há uma briga judicial entre o Governo do Pará e a Serra Pelada Companhia de Desenvolvimento Mineral – formada pela Colossus e pela Coomigasp – em decorrência do abandono da área. Em março deste ano, a Vara Única de Curionópolis chegou a deferir parte de medida liminar na qual o estado afirma ter sido construída uma estrutura de contenção para receber rejeito de mineração, entretanto o projeto nunca entrou em operação.

A parte autora da ação sustenta que em vistoria técnica foi constatado que a barragem está “apresentando trincas e erosão significativas, recalques e galgamentos, não possuindo nenhuma instrumentação para monitoramento e drenagem superficial” e que a existência de uma comunidade próxima pode ser afetada pelo rompimento da estrutura.

| Ação movida pelo Estado do Pará contra Serra Pelada Companhia de Desenvolvimento Mineral, Colossus Geologia e Participações Ltda e Coomigasp – Cooperativa dos Garimpeiros da Serra Pelada.

A justiça determinou que a empresa implante um sistema de monitoramento da barragem, apresente ao órgão federal minerário e ao órgão ambiental licenciador, para aprovação, Plano de Contingência atualizado da Mina, visando prevenir qualquer desastre; Plano de Segurança de Barragens; e Plano de Fechamento da Mina atualizado, acompanhado do respectivo Plano de Recuperação de Área Degradada – PRAD.

O Comprova procurou duas vezes a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia (Sedeme) do Pará solicitando informações detalhadas sobre a atual situação da mina e andamento do processo, mas não recebeu retorno. A Colossus também não respondeu e a Coomigasp preferiu não se posicionar por telefone ou meio eletrônico.

Não houve retirada de minério no governo Lula

Apesar do anúncio de que havia ouro a ser minerado em Serra Pelada, a empresa Colossus foi embora da região sem extrair nada. Em um comunicado de imprensa feito em 2014 – o último disponível entre os documentos apresentados à Bolsa de Valores de Toronto, a empresa trata do imbróglio com a Coomigasp e afirma que chegou a investir no local R$ 300 milhões. Em outro documento que discute as condições financeiras, apresentado em 2015, a empresa diz que já em janeiro de 2014 havia decidido colocar o programa de Serra Pelada “em manutenção” e não mais investir na mina, uma vez que corria uma disputa na Justiça com a cooperativa de garimpeiros e que isso vinha impedido a empresa de obter financiamento.

O Comprova consultou a ANM e questionou se houve extração e quanto de ouro foi retirado de Serra Pelada nos últimos 20 anos – desde 2003, o primeiro ano do governo Lula. Por e-mail, a agência informou que nada foi extraído nas últimas duas décadas. O Serviço Geológico Brasileiro também foi consultado, mas não respondeu até a publicação deste texto.

Um indício de que nada foi mesmo retirado são imagens de satélite do local do garimpo. A reportagem buscou imagens no Google Earth e encontrou registros de 1985 até 2021. O primeiro, de 1985, não possui boa resolução e, por isso, não é possível ver a situação da mina em pleno funcionamento. A próxima imagem disponível é de 2006, antes das articulações para a chegada da Colossus Minerals e 14 anos após o fechamento do garimpo.

Nas imagens a seguir é possível ver como a cratera (na parte inferior) permaneceu cheia durante todo o período que compreendeu os governos de Lula, Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), até 2021. As únicas mudanças são a instalação da sede da Colossus e a abertura de uma barragem de rejeitos, que também acabou cheia de água (ela fica visível, já com água, a partir de 2016).

Além disso, a quantidade de ouro que o homem diz ter ido parar nas mãos de Lula é irreal. Em setembro de 2020, a BBC publicou uma reportagem falando sobre a quantidade de ouro que ainda havia no mundo. O texto apresenta dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) que estima ainda haver cerca de 50 mil toneladas de ouro no planeta. O USGS também estima que, até então, haviam sido extraídas 190 mil toneladas de ouro. Ou seja, é irreal imaginar que em apenas uma mina no Brasil seria possível desviar mais ouro do que já foi minerado até hoje no mundo inteiro. As estimativas estão disponíveis no site do USGS.

A maior fonte de ouro da história foi a bacia Witwatersrand, na África do Sul, responsável por algo entre 30% e 40% de todo o ouro já extraído no mundo. Na mesma região fica a mina mais profunda do planeta, a de Mponeng, com mais de 4,5 mil metros de profundidade. Mas é a China o país com a maior produção de ouro do mundo. Dados de 2020 do Conselho Mundial do Ouro estimam a produção chinesa em 368,3 toneladas do metal precioso por ano. O Brasil produz, em média, 107 toneladas anualmente.

Dinheiro para a Venezuela?

No vídeo original, postado no TikTok, o homem que aparece nas imagens afirma que o minério retirado de Serra Pelada foi parar nas mãos de Lula e que ele mandou R$ 200 milhões para a Venezuela apenas no primeiro mandato. Não há qualquer explicação sobre como esse ouro saiu de Serra Pelada, foi parar nas mãos do ex-presidente Lula e se transformou em dinheiro entregue à Venezuela. No entanto, o mesmo vídeo foi reproduzido em um canal do YouTube, separado em parte e comentado por um narrador não identificado que tentou “provar”, por meio de textos publicados na imprensa, que o homem que aparece nas imagens fala a verdade.

Acerca do trecho em que o homem do vídeo original fala sobre o ouro “comido” por Lula, a Vale e a empresa canadense, o narrador apresenta uma reportagem da Agência Brasil. Publicado em 2008, o texto informava, apenas, que 14 anos após ser fechado, o garimpo de Serra Pelada poderia ter a extração de ouro retomada após o Departamento Nacional de Pesquisas Minerais (DNPM) autorizar a empresa canadense Colossus Minerals a pesquisar quanto ouro ainda existia no local. O texto não afirma ter sido retirado minério do local.

Em seguida, o narrador apresenta outro trecho onde o homem diz que Lula enviou R$ 200 milhões para “Venezuela e não sei pra onde” e que o valor foi retirado de Serra Pelada. Sobre o assunto, o vídeo do YouTube mostra um texto do colunista José Benedito da Silva publicado pela revista Veja. O texto é de fevereiro de 2022 e trata de empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para países como Cuba e Venezuela, mas em nenhum momento é feita qualquer referência a Serra Pelada.

O dinheiro do BNDES na Venezuela e em outros países não é necessariamente um empréstimo ao país. Há alguns anos, o banco brasileiro fez financiamentos à exportação de bens e serviços de engenharia brasileiros no exterior. O dinheiro era entregue a empresas brasileiras e o pagamento do financiamento, com juros e em dólar, feito pelos países que haviam contratado os bens e serviços. Para a Venezuela, o parcelamento foi feito em 639 parcelas, das quais 598 já venceram sem pagamento e outras 41 estão para vencer. O país deve US$ 160 milhões ao Brasil, em dados atualizados pelo BNDES até março de 2022.

Roubo de R$ 11 bilhões e pesquisas eleitorais

Outro trecho do vídeo fala que Lula foi “pego no roubo de R$ 11 bilhões”. O narrador no YouTube apresenta mais uma coluna da Veja, desta vez assinada por Jorge Pontes, falando sobre os R$ 14 bilhões identificados pela Operação Lava Jato no exterior. A operação, contudo, é alvo de críticas pelos métodos empregados ao longo das investigações e o ex-juiz Sergio Moro, que coordenou a ação, neste mês, se tornou réu em Ação Popular movida pelo Partido dos Trabalhadores por dano ao erário em decorrência da operação.

Conforme apresentado em reportagem de outubro de 2021 da Folha de S. Paulo, uma série de fatores contribuiu para a Lava Jato perder força, incluindo uma sequência de decisões judiciais que a esvaziou, dentre elas, a anulação de processos contra Lula. O Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu, por 7 votos a 4, que o ex-juiz Moro foi parcial ao julgar o ex-presidente no processo do tríplex de Guarujá (SP), invalidando as provas colhidas no caso. Antes, o Supremo já havia decidido anular as condenações de Lula sentenciadas pela Justiça Federal de Curitiba.

Por fim, é utilizado o último trecho do vídeo do TikTok, em que o homem nas imagens afirma que Bolsonaro vencerá Lula nas eleições de 2022 com 30 milhões de votos a mais. O narrador diz, então, que a pessoa se equivocou apenas nesta “notícia”. Ele apresenta o print de uma suposta pesquisa definida por ele como “ao vivo, online, no Google”. O levantamento aponta mais de 3 milhões de votos, sendo 58,7% deles para Bolsonaro.

Em seguida, ele desqualifica as pesquisas oficiais, afirmando que elas ouvem pouco mais de 2 mil pessoas, e não levantam dados reais de que Bolsonaro vai vencer com mais de 60 milhões de votos no primeiro turno. O material utilizado pelo homem é uma enquete do site Eleições ao Vivo. Ele não explica que o próprio site alerta que enquetes não têm valor científico e omite que, neste site, uma mesma pessoa pode votar diversas vezes – basta informar um número de DDD.

O Comprova já demonstrou em verificação anterior que enquetes em redes sociais não têm valor científico e não substituem pesquisas eleitorais registradas nos tribunais eleitorais. Da mesma forma, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já explicou a diferença entre enquete e pesquisa eleitoral. No segundo modelo, que é legalizado, devem ser registradas informações relacionadas ao contratante da pesquisa; o valor e a origem dos recursos gastos; a metodologia e o período de sua realização; o questionário aplicado ou a ser aplicado; o nome do estatístico responsável; e a indicação do estado em que será realizado o levantamento.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. O conteúdo do vídeo aqui verificado cita dois pré-candidatos à presidência do país, Lula e Bolsonaro. Informações falsas que envolvem atores políticos trazem prejuízos ao processo democrático e atrapalham a decisão do eleitor, que deve ser tomada com base em informações verdadeiras. No vídeo postado no YouTube, por exemplo, há comentários afirmando que o homem que aparece nas imagens é “bem informado”, quando, na verdade, as alegações feitas por ele são falsas, enganosas ou estão fora de contexto.

Outras checagens sobre o tema:

Anteriormente, o Comprova já verificou que uma linha de trem que liga a região de Serra Pelada, no Pará, ao Maranhão existe há 36 anos e não é obra do governo Bolsonaro e ser enganosa publicação que associa, sem evidências, ONGs da Amazônia à exploração de riquezas minerais.