O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Pandemia

Investigado por: 2020-05-22

Médico confunde ao indicar cloroquina e criticar isolamento social e o uso de respiradores

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Enganoso
Homem que aparece em vídeo faz afirmações sobre como lidar com a pandemia de coronavírus que não têm comprovação científica e são questionadas por diversas autoridades de saúde

É enganoso o vídeo no qual um homem, que se identifica como médico, diz que os hospitais públicos estão intubando pacientes para “mostrar trabalho” e justificar a compra de ventiladores e respiradores artificiais. Ele é contra o procedimento e defende o uso de medicamentos, como a cloroquina, como alternativa ao tratamento da covid-19.

O autor do vídeo também afirma que o vírus não mata pessoas fora do grupo de risco e que o uso de alguns medicamentos, na fase inicial da contaminação, pode levar à cura de pacientes em até quatro dias. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), até o momento não existe remédio ou cura comprovados para a doença causada pelo novo coronavírus. Além disso, no Brasil, 25% das pessoas que morreram por covid-19 não tinham comorbidades.

O homem que aparece no gravação é João Carlos Luiz Vaz Marques Leziria, que de fato é médico, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele mistura diferentes tipos de informações, a maioria delas falsas, para confundir e enganar as pessoas. As afirmações que ele faz no vídeo não têm comprovação científica e são questionadas por diversas autoridades de saúde.

De acordo com o médico, o vídeo foi originalmente compartilhado com um grupo de amigos, mas viralizou após ser publicado nas redes sociais. Uma das primeiras publicações foi feita no dia 7 de maio, por um perfil pessoal no Facebook.

Por que investigamos isso?

O Comprova verifica conteúdos de grande repercussão e que atinjam um alto número de interações nas redes sociais. No caso do vídeo em questão, ele foi compartilhado por diversos perfis, atingindo em um deles mais de 49 mil compartilhamentos.

O fato de o autor do vídeo se identificar como médico e fornecer o telefone pessoal para “prestar atendimento” também chama atenção. Ele faz afirmações sobre assuntos amplamente questionados e debatidos por autoridades de saúde, como a eficácia de medicamentos como a cloroquina, além de incentivar a população a voltar a trabalhar. A ideia é contra as orientações do Ministério de Saúde e decretos estaduais.

O autor também fala sobre um tema sensível, que é a aquisição de equipamentos para tratar a covid-19. Com a urgência no tratamento e contenção dos danos da doença, o governo permitiu a compra de respiradores por contratos com dispensa de licitação, e liberou verba para a compra de material necessário. Essa permissão de expandir os gastos públicos deve ser observada para evitar o desvio de verba ou o mau uso do dinheiro público.

Nas últimas semanas, o Comprova verificou diversos conteúdos nessa linha. Um deles foi um vídeo contendo informações enganosas em que uma pessoa, sem formação na área de saúde, sugeria que o uso de determinados medicamentos curariam pacientes com coronavírus sem necessidade de internação. Um outro texto dizia que as mortes na Itália não teriam como causa o coronavírus, mas problemas de trombose, recomendando o uso de coagulantes para cura da doença.

Enganoso para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Apesar de o autor do vídeo não se identificar, alguns perfis que compartilharam a gravação atribuíam ao médico o nome Dr. João Vaz. O Comprova então buscou, no cadastro do Conselho Federal de Medicina, médicos que possuíam os dois nomes. Entre os listados estava João Carlos Luiz Vaz Marques Leziria. Ao verificar o nome completo em sites de pesquisa e redes sociais, foi possível encontrar fotos do médico que aparece no vídeo, confirmando que se tratava da mesma pessoa.

Além disso, o Comprova entrou em contato com o número de telefone disponibilizado no vídeo. O médico não atendeu as ligações, mas respondeu aos questionamentos da equipe com um vídeo, no qual mostrava seu número de inscrição no CRM e fornecia informações pessoais e profissionais.

Nesta investigação foram usadas reportagens sobre o remédio cloroquina e o apoio do presidente Jair Bolsonaro à medicação. A equipe também consultou o site da OMS para entender se o fármaco é recomendado pela instituição.

Quem é o médico?

João Vaz é um médico com número de inscrição regular no Conselho Regional de Medicina. Em vídeo encaminhado ao Comprova, Vaz diz que se formou em dezembro de 1971 na UFRJ e que possui quase 50 anos de profissão. Ele afirma que trabalhou por um período na Alemanha e que está acostumado a lidar com vírus. Ele não menciona sua área de especialidade, e esta também não é informada pelo CRM, mas Vaz diz que isso não faz diferença na Medicina.

No vídeo divulgado nas redes sociais, João Vaz se posiciona contra a intubação de pacientes com a covid-19 e diz que o procedimento é “sinônimo de morte”. Segundo ele, os hospitais públicos no Brasil têm intubado pacientes para justificar os gastos com aparelhos.

Como alternativa à intubação, o médico defende o uso de remédios como a cloroquina associada à azitromicina e também a manipulação de heparina, um anticoagulante. Ele se oferece para tirar as dúvidas das pessoas e se coloca à disposição de quem tem interesse em fazer uso dos remédios.

O médico ainda critica o isolamento horizontal, incentiva as pessoas a voltarem ao trabalho e afirma que apenas pessoas com comorbidades morrem de covid-19.

Como funciona a intubação e quando o paciente deve ser intubado?

A intubação é um procedimento realizado em pacientes em estado de saúde grave para ventilar mecanicamente os pulmões por meio de aparelhos. A dificuldade de respirar é determinante para que os médicos decidam se irão intubar o paciente e usar os respiradores. Eles são um dos últimos recursos para pacientes com insuficiência respiratória grave após infecção pelo novo coronavírus.

Estima-se que aproximadamente 5% dos pacientes com covid-19 sofram a chamada síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) e precisem de respiradores mecânicos. O tratamento utiliza uma reserva de ar e oxigênio que é levada até os pulmões do paciente por meio de um tubo inserido pela boca, nariz ou pela traqueia, através de um corte na garganta.

Estudos recentes, contudo, têm mostrado que a letalidade do novo coronavírus é alta mesmo com uso de respiradores e feito pesquisadores questionarem a eficácia da intubação. Ainda assim, as autoridades de saúde orientam para o uso de ventilação mecânica em casos de insuficiência respiratória.

O que as autoridades dizem sobre os medicamentos indicados?

O uso da cloroquina por pacientes infectados com o novo coronavírus segue sendo estudado por vários países. Nesta sexta-feira (22), uma pesquisa científica publicada pela revista “The Lancet” apontou que o uso da substância não apresenta benefícios no tratamento da covid-19. O estudo foi feito com 96 mil pacientes e os resultados mostram que não há melhora na recuperação de infectados que usaram cloroquina, e que existe risco maior de morte e piora cardíaca durante a hospitalização.

A OMS recomendou que o medicamento não seja usado como tratamento, apenas em testes de ensaios clínicos, e alertou para os efeitos colaterais da cloroquina, que podem levar a disfunções graves dos órgãos e prolongar internações.

O uso da cloroquina foi autorizado para casos leves em novo protocolo assinado pelo Ministério da Saúde na última quarta-feira (20). Para isso, os pacientes ou familiares devem assinar um termo de consentimento, estando cientes dos efeitos colaterais possíveis, como arritmia.

A medida segue parecer do CFM (Conselho Federal de Medicina), que emitiu autorização no fim de abril para que médicos prescrevessem o medicamento para pacientes com sintomas leves e para uso domiciliar, mediante consentimento.

A Sociedade Brasileira de Infectologia se manifestou contra a recomendação médica da cloroquina. A instituição afirmou que não há comprovação da eficácia do medicamento no tratamento do coronavírus, assim como de outras substâncias, como a azitromicina, indicada por Vaz em vídeos nas redes sociais.

Recentemente, um estudo realizado pelo plano de saúde Prevent Senior verificou que o uso da hidroxicloroquina associada a azitromicina foi capaz de reduzir em mais de duas vezes o número de internações, comparado com pacientes que não tomaram os remédios.

A pesquisa, contudo, tem uma série de limitações, como não saber se os pacientes que receberam o tratamento estavam infectados com o novo coronavírus nem ter sido aceita ainda em um periódico científico. Este estudo foi suspenso posteriormente porque os testes com pacientes foram iniciados antes de a empresa receber o aval para realização da pesquisa, o que é contra normas do país.

Apesar de existirem resultados promissores em pesquisas com anticoagulantes como a heparina, mencionada pelo autor do vídeo, no tratamento da covid-19, pesquisadores acreditam que para comprovar a eficácia do medicamento ainda há necessidade de ensaios clínicos. Assim como a cloroquina e a azitromicina, a substância só deve ser ministrada com auxílio e orientação médica, pois pode colocar em risco a vida do paciente.

A OMS e o Ministério da Saúde afirmam que nenhuma cura ou vacina foi encontrada até o momento contra a covid-19, que já matou mais de 330 mil pessoas no mundo.

Isolamento social

Medidas de isolamento social são apontadas pela OMS como a melhor alternativa contra o coronavírus. Um estudo recente feito no Brasil mostra que há uma tendência de diminuição do número de mortes pela covid-19 após a adoção de medidas restritivas à circulação de pessoas.

A maioria dos médicos defende a adoção do isolamento horizontal nos municípios, que reduz ao máximo possível de circulação de pessoas. Isso, segundo cientistas, seria fundamental para achatar a curva de transmissão do coronavírus e diminuir o número de pessoas infectadas que necessitariam de um leito hospitalar. Atualmente, a quantidade de leitos disponíveis para a população tem preocupado os Estados.

Para forçar o isolamento da população, diversos Estados decretaram o fechamento de comércios e suspenderam o funcionamento de atividades não essenciais. A ideia é que o máximo de pessoas fique em casa, saindo apenas para realizar atividades essenciais, reduzindo a propagação do vírus.

A suspensão das atividades, apesar de necessária e recomendada pela OMS, provoca uma recessão na economia e por isso é criticada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Na contramão da maioria dos líderes de outros países, Bolsonaro chegou a sugerir que o Brasil adotasse o método de isolamento vertical, em que apenas idosos e pessoas do grupo de risco ficam isoladas.

A Suécia, citada por Bolsonaro como exemplo, adotou um modelo de isolamento mais relaxado. No país, escolas, restaurantes e bares ficaram abertos, por exemplo. O número de casos de infectados e mortos, no entanto, foi maior do que os registrados nos outros países nórdicos, que estabeleceram medidas mais severas, com confinamento obrigatório e paralisação de atividades econômicas. Esta semana a Suécia tornou-se o país com maior taxa de mortalidade pelo novo coronavírus no mundo.

Contexto

A prescrição livre da cloroquina para qualquer pessoa que esteja com os sintomas da covid-19 é feita por Vaz no momento em que o governo libera um protocolo que autoriza o uso do medicamento em pacientes com sintomas leves da doença. O documento não tem respaldo da OMS e é criticado pela Sociedade Brasileira de Infectologia. Pelo protocolo, o Sistema Único de Saúde (SUS) fica liberado para prescrever o remédio em qualquer fase do tratamento, com os sintomas em qualquer nível – embora ainda precisando da autorização do paciente. Antes, era apenas para casos graves.

As declarações do médico a respeito da letalidade da doença se chocam com os dados divulgados pelo Ministério da Saúde, que mostram que um quarto das pessoas que morreram vítimas do novo coronavírus não possuíam comorbidades. A orientação de Vaz para que as pessoas saiam às ruas, sem medo de se contaminar, é feita em um momento crítico da pandemia na América Latina, considerada pela a OMS como epicentro da doença e tendo o Brasil como caso mais preocupante.

Até a manhã desta sexta-feira (22), a covid-19 já havia contaminado cerca de 315 mil pessoas e sido responsável por mais de 20 mil mortes no país. Nesta semana o Brasil registrou, pela primeira vez, mais de mil mortes em menos de 24 horas.

Alcance

Até esta quinta-feira (21), o vídeo publicado pelo perfil de Paula Silvestre Craveiro, no Facebook, tinha sido compartilhado por mais de 49 mil pessoas.

Pandemia

Investigado por: 2020-05-21

Vídeo engana ao sugerir tratamento “sem internação e sem sofrimento” para covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Em vídeo, pessoa sem formação na área de saúde mistura dados falsos e verdadeiros sobre os remédios atualmente indicados para o tratamento da doença provocada pelo novo coronavírus e divulga informações sem comprovação científica

Um vídeo publicado no YouTube confunde ao dizer que há medicamentos que curam a covid-19 e impedem a evolução da doença para fases mais graves caso sejam receitados no início dos sintomas. O material mistura dados falsos e verdadeiros sobre os remédios atualmente indicados para tratamento e contém informações sem comprovação científica. Há também ataques contra as medidas de isolamento social utilizadas para reduzir a velocidade de contágio da doença.

O conteúdo foi postado por Silvana Conte em seu canal no YouTube e já teve mais de 270 mil visualizações. No vídeo, ela diz fazer um relato pessoal citando uma lista de medicamentos que o marido teria tomado antes mesmo de ter o diagnóstico positivo para covid-19, como antibióticos receitados logo no início dos sintomas. Ela também fala sobre o uso autorizado da hidroxicloroquina por médicos na Itália e ainda afirma que “o isolamento não salva vidas”. Até o momento, não há medicamento que cure a doença. Alguns estão sob testes clínicos, mas ainda não apresentaram eficácia contra o vírus em concentração que não seja prejudicial à saúde.

Além disso, especialistas ressaltam que entre 80% e 85% dos pacientes infectados pela covid-19 serão assintomáticos ou terão sintomas leves —- semelhantes aos de uma gripe —, portanto não precisarão ser submetidos a medicações que podem causar efeitos colaterais. O acompanhamento médico é essencial principalmente para o grupo de risco, aquelas pessoas que podem evoluir para uma forma mais grave da doença e terão de ser submetidas a tratamentos de suporte como o uso de oxigênio.

Silvana diz que mora em Bergamo, na Itália, e que o marido ficou doente após uma viagem ao Rio de Janeiro. Ela, que admite não ser médica, acusa profissionais de saúde e hospitais de serem negligentes “ao orientar a procura de médicos apenas quando a pessoa sentir falta de ar”. Os protocolos de Brasil e Itália para o atendimento de pacientes infectados pelo novo coronavírus recomendam o acompanhamento médico desde os primeiros sintomas, o que não quer dizer que todos precisarão de variados tipos de medicação para superar a doença.

Por que checamos isto?

O Comprova realiza verificações de conteúdos que viralizam nas redes sociais, como é o caso em questão. Esta verificação foi realizada pois o vídeo é um entre vários que apresentam pessoas sem qualificação profissional na área da saúde fazendo recomendações sanitárias para lidar com o novo coronavírus e a covid-19, doença provocada por ele. Tais recomendações são danosas pois poluem o debate público e, no limite, podem ser prejudiciais à saúde das pessoas.

Recentemente, o Comprova verificou, por exemplo, um vídeo no qual uma pessoa argumentava que o uso de máscaras reduziria a imunidade e potencializaria a infecção. Isso não é verdade. Pesquisadores e autoridades sanitárias confirmam que a máscara pode, de fato, proteger as pessoas. Do mesmo modo, o Comprova também verificou conteúdos que afirmavam que medidas de isolamento social seriam inúteis ou prejudiciais.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos

O Comprova entrou em contato com dois especialistas para checar a veracidade das informações técnicas sobre a covid-19 presentes no vídeo. Consultamos o Protocolo de Manejo Clínico do Coronavírus na Atenção Primária à Saúde e questionamos o Ministério da Saúde italiano sobre as práticas e recomendações adotadas no país. O órgão compartilhou um link com dúvidas e respostas mais comuns para a doença na Itália.

Após a publicação desta verificação, Silvana entrou em contato com o Comprova. Suas alegações e nossos comentários estão na seção Atualização (abaixo).

O Comprova ainda acessou os protocolos brasileiro e italiano de prescrição da hidroxicloroquina.

Verificação

Silvana afirma que o vídeo é opinativo e que não é médica. Segundo ela, trata-se da experiência vivenciada pelo marido ao viajar de Bergamo, na Itália, onde moram, para o Rio de Janeiro. Silvana conta que o marido apresentou sintomas de pneumonia e foi atendido por um médico que receitou o antibiótico levofloxacina. Como o marido não melhorou, a família foi submetida a testes de covid-19, e o resultado dele deu positivo. Ele ainda teria tomado, por prescrição médica, o anti-alérgico Allegra e os medicamentos Fluimucil, Deocil e paracetamol.

Silvana compartilhou o tratamento com amigos de Bergamo e teria identificado a capacidade de “cura” desse tratamento aliado a outros medicamentos, como os antibióticos azitromicina e amoxicilina. Ela apresenta um protocolo que diz ter recebido de um médico da Lombardia chamado Marcelo Contini que recomenda o tratamento com os medicamentos usados pelo marido, e ainda sugere a medicação da hidroxicloroquina. Silvana insiste na importância do uso de “medicação forte para bloquear a inflamação” nos primeiros dias de sintomas para impedir a evolução do quadro baseada em fato pessoal.

[Atualizado em 27 de maio de 2020 – O parágrafo acima foi atualizado para corrigir uma informação sobre o protocolo que Silvana Conte disse ter recebido no vídeo. Na verdade, ela se referiu ao médico Marcelo Cotini e não a Stefano Manera, como estava escrito na primeira versão da verificação]

O Comprova ouviu médicos sobre a “necessidade de tratar pacientes leves com medicação para impedir que os sintomas se agravem”. Guilherme Spaziani, médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, explica que as complicações decorrem de uma inflamação exacerbada cujas causas ainda são investigadas. Esse quadro de evolução da doença é observado principalmente nas pessoas do grupo de risco, como idosos, cardiopatas e obesos.

“Cerca de 55% dos infectados pela covid-19 apresentam a forma leve da doença, com sintomas gripais. Outros 30% sequer apresentam sintoma algum. Isto quer dizer que apenas 15% dos doentes evoluem para a forma grave e, destes, um em cada três precisam do tratamento intensivo”, diz Guilherme Spaziani.

“Não há evidência científica sobre a capacidade de nenhuma medicação que possa ser prescrita nos primeiros dias de sintomas para impedir a evolução para a fase inflamatória”, afirma o infectologista.

Gerson Salvador, médico infectologista do Hospital Universitário da USP e associado da Sociedade Paulista de Infectologia, ressalta o perigo de pessoas usarem uma grande quantidade de medicamentos.

“Quando a pessoa usa um número grande de medicamentos de maneira desorganizada, aumentam as chances de efeitos adversos, que podem ser graves dependendo da condição de saúde da pessoa. O que recomendamos é o tratamento sintomático para casos leves e tratamento de suporte para casos graves.”

Protocolo do Ministério da Saúde abrange orientação de atendimento de sintomas mais leves a graves

O Comprova pediu ao Ministério da Saúde explicações mais claras sobre o protocolo de manejo clínico de pacientes com a covid-19 ou de casos suspeitos, que está no site da entidade, mas não teve retorno. Foi questionado quando alguém deve procurar uma Unidade Básica de Saúde, quais medicamentos são indicados e a orientação para o tratamento em casa.

A versão atualizada do documento, disponível no site do Ministério, tem 41 páginas e detalha como deve ser a ação médica e como as Unidades Básicas de Saúde devem trabalhar, dos casos com sintomas leves aos graves.

Diferentemente do que sugere o vídeo de Simone Conte, o Ministério da Saúde não fala em “esperar pela falta de ar” para tratamento. Pelo contrário, ressalta a importância do acompanhamento de quem apresenta os sintomas leves, principalmente pessoas com mais de 60 anos ou com outros fatores de risco. A entidade orienta para o seguimento do tratamento domiciliar com monitoramento médico por telefone a cada 24 ou 48 horas, inclusive para casos não confirmados.

O arquivo traz na página 17 a sugestão de prescrição de dipirona e paracetamol, medicamentos analgésicos que aliviam sintomas como dores no corpo, mal-estar e febre. Eles não têm propriedades de cura. Há ainda o remédio oseltamivir, um antiviral usado para combater o vírus da gripe. Seu uso, porém, é encerrado quando o teste de gripe dá negativo ou quando o da covid-19 dá positivo, já que ele não tem ação comprovada contra o novo coronavírus. São determinadas ainda medidas de suporte e conforto, isolamento domiciliar e monitoramento até a alta médica.

O protocolo de uso da hidroxicloroquina foi acrescentado na quarta, 20, entre os documentos do site do Ministério da Saúde que orientam uso de medicamentos contra a covid-19 no sistema público de saúde. O comunicado está entre as “orientações gerais” de tratamentos da doença e recomenda o remédio inclusive em casos leves.

O documento sobre o uso da hidroxicloroquina diz que, até o momento, não há dados científicos que apontem um determinado tratamento farmacológico e que o uso ou não do remédio está condicionado à decisão do médico e à autorização por escrito do paciente. O protocolo também fala de contra indicação em pacientes com doenças cardíacas, como a comunidade científica vem ressaltando há tempos.

Em 18 de maio, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, divulgaram o documento “Diretrizes para o Tratamento Farmacológico da Covid-19”, contra o uso da hidroxicloroquina. O texto foi produzido por 27 especialistas e ressalta, principalmente, a falta de provas científicas de que o medicamento é eficaz e o perigo dos seus efeitos colaterais.

Depois do novo protocolo divulgado pelo Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Infectologia voltou a se manifestar sobre os riscos associados à utilização de um medicamento que não tem eficácia científica comprovada e pela recomendação de uso apenas para pesquisa clínica.

No mesmo dia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou que a cloroquina e a hidroxicloroquina sejam usadas nos hospitais apenas em estudos clínicos. O diretor-executivo Michael Ryan ressaltou a falta de evidências científicas sobre a eficácia dos remédios e lembrou os efeitos colaterais da droga.

Recomendação na Itália é tratamento de sintomas e cuidado com hidroxicloroquina

O vídeo sugere que médicos italianos que usaram hidroxicloroquina em pacientes no início dos sintomas tiveram sucesso com a redução de internações na Itália.

De fato, o medicamento está entre aqueles com uso autorizado no país, inclusive para pacientes com sintomas leves e em tratamento domiciliar. No entanto, a Agência Italiana de Fármacos alerta para a importância de que a hidroxicloroquina seja receitada por um médico e com autorização do paciente, por se tratar de medicamento sem eficácia científica comprovada. A entidade também alerta para seus efeitos colaterais cardíacos e os perigos de sua utilização em altas doses em cardiopatas.

A principal orientação do Ministério da Saúde italiano sobre o tratamento de covid-19, atualizada em 11 de maio, é similar à feita no Brasil: cuidar dos sintomas apresentados pelos pacientes com terapias de suporte, como uso de oxigênio; descansar; continuar isolado em casa; comer bem e beber bastante água.

Isolamento não salva vidas?

“Isolamento não salva a vida de ninguém. Pode até diminuir o contágio, porém não vai salvar a vida das pessoas”, fala Silvana. Ela acredita que o foco de governos no combate à pandemia de covid-19 não deveria estar no isolamento social, mas sim na prescrição de medicamentos para pacientes ainda na fase inicial da doença.

O infectologista Guilherme Spaziani diz que caso não seja encontrada uma vacina, o mesmo número de pessoas será infectado com ou sem a adoção do isolamento social. No entanto, a medida de distanciamento evita que as pessoas sejam contagiadas em um curto espaço de tempo e, com isso, sejam esgotados os recursos hospitalares, médicos e de insumos necessários a um suporte adequado. Isto é, o isolamento social permite o serviço hospitalar para cada paciente, inclusive aqueles que estiverem em estado grave.

Medicamentos citados não combatem o coronavírus

Especialistas ressaltam não haver um remédio que cure a covid-19. Por isso, é importante o cuidado na divulgação de um determinado tratamento. O vídeo cita diversos remédios que vão de antibióticos (contra bactérias) a remédios usados para tratamentos antiparasitários (contra vermes). A covid-19 é uma doença causada por um vírus.

Gerson Salvador, infectologista do Hospital Universitário da USP, ressalta que o passo a passo de orientação médica depende de cada paciente.

“Antibióticos agem contra bactéria e não têm atividade antiviral. Ivermectina e nitazoxanida são antiparasitários e não têm atividades contra vírus. Os dois últimos apresentaram efeito antiviral in vitro no laboratório, mas isso nunca se reproduziu num organismo vivo. Portanto, seu uso não está liberado. Eles estão sob estudos, mas a possibilidade de funcionar não é elevada”, diz o médico.

Salvador completa: é importante que o médico fique atento principalmente a doentes com fatores de risco. “No caso do coronavírus depende mais da resposta imunológica [de cada um] do que do vírus. Nas pessoas que têm doenças crônicas, quando apresentarem sonolência, desconforto ou incapacidade de realizar suas atividades usuais, é necessário fazer avaliação e tratamento de suporte, oferecendo oxigênio no tempo certo. Também é preciso controlar doenças como diabetes, asma ou doenças cardíacas que podem estar em crise. Por isso é importante fazer esse tipo de suporte médico.”

Atualização

Após a publicação da verificação, o Comprova foi contactado por Silvana Conte, que fez algumas argumentações a respeito do texto. Abaixo, seguem os pontos de contestação levantados por ela que ainda não tinham sido abordados no texto e, na sequência, os comentários do Comprova.

Silvana respondeu ao Comprova no último dia 21 de maio. Desde então, questiona a reportagem sobre a classificação de seu vídeo no site do projeto. O Comprova manteve a etiqueta “Enganoso”, que é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

A partir de agora, o Comprova abre espaço para os pontos questionados por Silvana Conte e os responde.

Silvana: “Meu marido e mais de 30 pacientes do médico Erverton Andrade e mais 28 da médica Alessandra Almeida foram curados sem hospitalização e sem sofrimento”.

Comprova: Ainda não há um tratamento específico para a doença, ou seja, algo que funcione para todas as pessoas infectadas. Assim, não é possível, por enquanto, falar em “cura” de covid-19. Como o Comprova ressaltou através de especialistas ouvidos, apenas 15% dos infectados desenvolvem casos mais graves da doença e precisarão da hospitalização e medicações fortes. Desses 85% que passam tranquilamente pela doença, nem todos vão desenvolver sintomas ou precisar de qualquer tipo de medicação.

É importante ressaltar que todos os remédios usados, quando necessários, são para tratamento de sintomas e infecções paralelas que a pessoa possa vir a ter. Remédios para febre e antibióticos, por exemplo. Alguns pacientes infectados podem desenvolver pneumonia bacteriana e é por isso que é preciso a utilização de antibióticos.

O painel de covid-19 do Ministério da Saúde não utiliza o termo ‘curados’, mas sim recuperados, para informar sobre as pessoas que sobreviveram à doença.

Silvana: “Os protocolos estão sim, em uso na Lombardia e na Toscana e na Itália de forma geral.”

Comprova: Silvana enviou ao Comprova o documento “Indicações terapêuticas para PCS com pneumonia COVID GERIDO EM CASA”. O documento é assinado pelo médico Roberto Moretti. Este documento informa em seu primeiro parágrafo que se trata de “sugestões derivadas da prática hospitalar” uma vez que “não existem LGs validados no tratamento farmacológico e não farmacológico de pacientes com ‘pneumonia’ covid-19”.

Silvana também enviou o documento “Indicazioni per i medici di medicina generale sulle terapie dei pazienti affetti da COVID-19” (“Indicações para clínicos gerais sobre as terapias de pacientes com COVID-19”). Assinado por dez médicos, é datado de 20 de abril de 2020 e, segundo Silvana, seria da Lombardia. Não há no documento, no entanto, nada que confirme essa informação. O documento também não fala que é importante dar os medicamentos na “primeira fase da doença”, apenas fornece um guia de medicamentos para tratar os sintomas da covid-19.

Silvana: “O Dr. Stefano Manera declara a divisão das fases e a Itália recomenda o tratamento na fase viral, que é a primeira.”

Comprova: Os dois médicos especialistas consultados pela reportagem preferem não propor uma divisão de fases, uma vez que uma pequena parcela dos infectados passará por um agravamento dos sintomas. Os outros sequer terão sintomas.

Silvana: “Fui absolutamente surpreendida de vocês, sem falar comigo, retirarem meu vídeo do ar, me declararem enganosa sem ao menos checar as fontes que eu dei”

Comprova: O Projeto Comprova entrou em contato com Silvana Conte pelo Facebook na terça-feira, 19. Como ela é ativa no Facebook e não tínhamos outra forma de contato, achamos que seria a melhor forma de chegar até ela. Silvana respondeu às mensagens da reportagem na quinta-feira, 21, após a publicação da verificação.

O Projeto Comprova ressalta que não tem poder para retirar conteúdos do ar.

Silvana: “Escrevendo um texto com várias informações erradas citando o vídeo, que , pelo jeito, vocês não viram.”

Comprova: O Comprova assistiu ao vídeo várias vezes após receber um pedido de checagem por meio de seus leitores. As afirmações contidas no material foram anotadas e compartilhadas com dois infectologistas. Além disso, os protocolos utilizados no Brasil e na Itália foram consultados.

Silvana: “Essa doença é brutal, mas segundo o meu médico que inclusive pegou covid e usou azitromicina + axetilcefuroxima + ivermectina + zinco e está bem … curado sem sofrimento e sem hospitalização. Temos de 3 a 4 dias para bloquear a infecção. Entre a ciência e a experiência, fico com a experiência”.

Comprova: Nossa reportagem reforça que é preciso apontar quando um determinado tratamento não possui comprovação científica. A azitromicina e a ivermectina são drogas que apresentaram bom resultado em laboratório, isto é, nos testes in vitro, mas ainda não possuem eficácia comprovada em seres humanos. A experiência pessoal de uma pessoa compartilhada como verdade absoluta e sem comprovação científica pode causar danos como a automedicação.

Contexto

Remédios como hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina e remdezivir passam por testes clínicos para averiguar sua eficácia e segurança no combate à covid-19. Embora eles apresentem bons resultados em testes de laboratório — os chamados testes in vitro — o mesmo não ocorreu em seres humanos. Além disso, pesquisas apontam para os riscos à vida de alguns pacientes por causa dos efeitos colaterais, como é o caso já citado da hidroxicloroquina.

Embora faltem pesquisas e estudos científicos que comprovem a eficácia de medicamentos como a hidroxicloroquina e a azitromicina no tratamento de pacientes com a covid-19, prefeituras e empresas já se mobilizam para fornecer os medicamentos. Em Belém, a operadora de planos de saúde Unimed distribuiu gratuitamente um kit com azitromicina, cloroquina e ivermectina aos beneficiários que apresentaram um receituário médico.

No interior de São Paulo, o prefeito de Guaratinguetá, Marcus Soliva (PSB), anunciou que pacientes com sintomas leves da covid-19 serão atendidos em casa com o tratamento de hidroxicloroquina aliada à azitromicina. “Evitamos a ida aos hospitais, já que o tratamento pode ser feito em casa por um profissional da rede de saúde pública”, anunciou o político em seu Facebook.

Mesmo com a falta de eficácia comprovada, a cloroquina se tornou o ponto central da disputa ideológica em torno da pandemia de covid-19. O remédio foi motivo de desgastes que levaram à demissão dos ex-ministros da Saúde Henrique Mandetta e Nelson Teich. Eles se negaram a editar um protocolo de prescrição da cloroquina para pacientes na fase leve da doença, o que acabou ocorrendo sob a gestão do chefe interino da pasta, General Eduardo Pazuello.

Alcance

O vídeo publicado inicialmente no canal do YouTube de Silvana Conte no dia 23 de abril já foi visto mais de 278 mil vezes até 21 de maio. Ele foi compartilhado no Facebook pela página “TV Médica” e foi visto mais de 1,3 milhão de vezes.

Pandemia

Investigado por: 2020-05-20

Polícia dos EUA não vê relação entre morte de cientista chinês e pesquisa sobre mecanismo de infecção pelo novo coronavírus

  • Enganoso
Enganoso
Segundo autoridades americanas, a morte do homem está provavelmente relacionada a uma briga pessoal, envolvendo um caso amoroso. Post investigado pelo Comprova também exagera ao dizer que o cientista “estava prestes a fazer descobertas” sobre o novo coronavírus

Texto do site Conexão Política, publicado no dia 18 de maio, confunde o leitor ao relacionar o assassinato de um cientista sino-americano ao seu trabalho de pesquisa com o novo coronavírus. Segundo autoridades americanas, a morte do homem está provavelmente relacionada a uma briga pessoal, envolvendo um parceiro(a) íntimo(a).

Bing Liu, de 37 anos, foi morto a tiros dentro de casa na cidade de Ross Township, no estado americano da Pensilvânia. Ele era pesquisador do Departamento de Biologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh, tinha pós-doutorado em Ciências da Computação e sua pesquisa se concentrava em sistemas computacionais aplicados à Biologia. O trabalho consistia em desenvolver modelos de simulação e análises técnicas para estudar a dinâmica de processos biológicos. De acordo com um comunicado divulgado pelo Departamento de Biologia da universidade, Liu estava concentrado em entender como o SARS-CoV-2, o novo coronavírus, age para infectar as células e as complicações que causa no organismo.

Liu foi encontrado pela esposa na tarde de 2 de maio, baleado na cabeça, pescoço e tórax. As portas da casa estavam abertas e nada foi levado. Perto dali, o corpo de um engenheiro de software de origem chinesa naturalizado americano, Hao Gu, de 46 anos, foi encontrado dentro de um carro.

As autoridades policiais de Ross Township concluíram que Gu matou Liu e se suicidou em seguida. “Nossa investigação aponta que os acontecimentos de 2 de maio envolvendo as mortes de Bing Liu e Hao Gu são resultado de uma longa disputa entre os dois homens envolvendo um parceiro (a) íntimo (a)”, informa uma declaração publicada na página de Facebook do Departamento de Polícia de Ross Township no dia 6. “Encontramos ‘zero’ evidências de que esse evento trágico tenha alguma relação com o trabalho (de Bing Liu) na Universidade de Pittsburgh, com qualquer pesquisa sendo conduzida na Universidade de Pittsburgh e com a crise sanitária que, no momento, afeta os Estados Unidos e o mundo”, completa o comunicado.

O conteúdo verificado também relembra as mortes de outros profissionais que não têm qualquer ligação com Bing Liu, como o suicídio de uma médica que trabalhava no combate à covid-19 em um hospital de Nova Iorque e acidentes envolvendo três médicos russos.

Por que investigamos isso?

O Comprova verifica conteúdos que tenham grande viralização, caso do texto em questão, que registrou dezenas de milhares de interações desde a sua publicação. Esse conteúdo se insere em uma lista com diversas teorias conspiratórias envolvendo o novo coronavírus, que têm como destaque a China, país onde as primeiras infecções ocorreram.

Desde o início da pandemia, o Comprova verificou postagens que alegavam, falsamente, que as maiores cidades da China não tiveram infecções pelo coronavírus, que o vírus causador da covid-19 seria artificial, que a China teria contaminado máscaras e que essas seriam distribuídas em São Paulo.

O Comprova também verificou uma teoria conspiratória segundo a qual a vacina para o novo coronavírus teria um microchip para rastrear a população. Todos esses conteúdos eram falsos.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Buscamos informações na imprensa local e no Departamento de Polícia de Ross Township para saber se a morte de Bing Liu tinha realmente ocorrido, e em quais circunstâncias. Também entramos em contato, por e-mail, com o detetive que investiga o caso, o Sargento Brian Kohlhepp.

Em seguida, procuramos informações no site da Universidade de Pittsburgh sobre o currículo do cientista e seu trabalho com Ciência da Computação aplicada à Biologia. Também tentamos conversar com a supervisora de Liu na Universidade de Pittsburgh, Ivet Bahar. Até o momento da publicação, nem Bahar e nem o Sargento Kolhepp tinham respondido.

Por último, fomos atrás de detalhes sobre as outras mortes citadas no texto. Encontramos relatos publicados na imprensa americana e entrevista com a família de uma das vítimas, a médica Lorna Breen.

Verificação

O texto publicado pelo site Conexão Política reúne informações coletadas em veículos de imprensa americanos, como a emissora de televisão WTAE, afiliada da ABC para a região de Pittsburgh. Mas traz alguns erros de informação, como a profissão da vítima: ele era formado e tinha doutorado em Ciências da Computação, não em Biologia. O conteúdo ainda confunde o nome da rua em que Liu morava, Elm Court, com a cidade, Ross Township, município residencial perto de Pittsburgh, Pensilvânia. Por fim, o carro com o corpo de Hao Gu não foi encontrado em frente à casa de Liu.

O trecho sobre a pesquisa de Liu veio do comunicado oficial da universidade, mas exagera ao dizer que ele “estava prestes a fazer descobertas” sobre o novo coronavírus.

Quem é Bing Liu?

Pesquisador e professor-assistente do Departamento de Biologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh, Bing Liu era natural da China. Formado em Ciências da Computação e com doutorado (PhD) pela Universidade Nacional de Singapura, fez pós-doutorado no Departamento de Ciência da Computação da Carnegie Mellon University, nos Estados Unidos. Desde 2016, trabalhava na Universidade de Pittsburgh, sob a supervisão de Ivet Bahar.

Liu foi co-autor de mais de 30 artigos, quatro deles só em 2020. Sua pesquisa se concentrava em sistemas computacionais aplicados à Biologia. O trabalho consistia em desenvolver modelos de simulação e análises técnicas para estudar a dinâmica de processos biológicos.

De acordo com Bahar, Liu estava começando a trabalhar em um modelo de computador para entender o comportamento do SARS-CoV-2 no organismo. “Ele começava a ter resultados interessantes, tentando entender o mecanismo da infecção. Vamos continuar o que estava fazendo”, disse em entrevista ao jornal Pittsburgh Post-Gazette.

O que diz a polícia?

A polícia foi chamada pela mulher de Bing Liu, que encontrou o corpo do marido ao voltar para casa na tarde do sábado, 2 de maio. Ele estava sozinho na residência do casal. Fazia um dia ameno de primavera e, por isso, as portas da casa estavam abertas, o que facilitou o acesso do assassino. Não havia sinal de luta e nenhum objeto foi roubado. A autópsia concluiu que Liu havia sido baleado na cabeça, no pescoço e no tórax.

Já o corpo de Hao Gu estava dentro do carro dele, a cerca de 900 metros da casa de Liu. A perícia determinou que Gu havia cometido suicídio. Autoridades policiais concluíram que os dois homens se conheciam e apontam como causa do crime uma disputa amorosa. As autoridades locais informaram o FBI e o consulado chinês sobre o caso por envolver um cidadão estrangeiro.

A polícia de Ross Township é categórica ao afirmar que a morte não tem relação com o trabalho de pesquisa de Bing Liu com o novo coronavírus, tanto na declaração oficial quanto em entrevistas à imprensa local do policial responsável pelo caso, o sargento Brian Kohlhepp. Esta posição aparece, inclusive, na reportagem para a WTAE-ABC citada pelo Conexão Política, mas o texto não informa isso ao leitor em nenhum momento.

Houve outras mortes?

Outras mortes de profissionais da saúde também são citadas no artigo como sendo “misteriosas”.

Uma delas é a da doutora Lorna Breen, 49 anos, médica chefe do pronto-socorro do NewYork-Presbyterian Allen Hospital, em Manhattan, e que tratava de pacientes com o novo coronavírus.

Ela foi encontrada morta na casa onde estava com a família após ter contraído e se recuperado da covid-19. Apesar de trágica, a morte da médica não é misteriosa. Tanto o pai dela quanto a polícia afirmam que ela se suicidou. A família enfatiza, contudo, que foi o estresse relacionado ao trabalho da médica durante a pandemia que a levou a se matar.

Já na Rússia, há dúvida sobre a morte de três profissionais da saúde que “caíram” de janelas desde o início da pandemia. Dois deles morreram e um foi internado em estado grave.

Não há muitas informações sobre a circunstância de cada queda por conta da pouca transparência do governo russo. Por isso, há especulações de que essas pessoas podem ter sido assassinadas por criticar ou discordar da maneira como o governo tem lidado com o novo coronavírus.

Especialistas ouvidos pela CNN e pela Vox ressaltaram que aquelas pessoas estavam sob grande pressão por conta do trabalho durante a pandemia. Todas elas haviam sido diagnosticadas com covid-19 na ocasião do incidente. Por isso, há também a possibilidade de terem se suicidado.

Contexto

O assassinato do pesquisador ocorre em um momento de significativa tensão nas relações entre os Estados Unidos e a China a respeito de responsabilidades sobre a pandemia do novo coronavírus.

A animosidade teve um desdobramento importante na terça-feira, 19 de maio, quando o governo de Donald Trump ameaçou cortar o financiamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) em virtude da acusação de que a entidade teria favorecido a China e ignorado alertas a respeito do início da pandemia do novo coronavírus.

Páginas e contas em redes sociais que apoiam Trump têm divulgado teorias conspiratórias sobre o novo coronavírus, o que, como destacado acima, tem fomentado uma série de boatos a respeito da pandemia.

Mesmo com as declarações das autoridades policiais norte-americanas, grande parte dos mais de 113 comentários feitos no post publicado na página do Departamento de Polícia de Ross desconfia da morte de um pesquisador envolvido com estudos sobre o novo coronavírus.

As dúvidas se repetem nos comentários de publicações aqui no Brasil, no momento em que a pandemia alimenta um debate político sobre a necessidades de políticas de distanciamento social e o uso de medicamentos, como a cloroquina.

Soma-se à discussão o racismo que envolve muito do que é dito a respeito do novo coronavírus. O Comprova já desmentiu boatos de que o vírus teria sido fabricado por laboratórios na China em mais de uma ocasião. Como no caso de Liu vítima e assassino são de origem chinesa, as especulações sobre a “morte misteriosa” aumentam. Ao se referir ao SARS-CoV-2 como “coronavírus chinês”, o texto publicado pelo site Conexão Política reforça esse viés preconceituoso.

Alcance

O texto foi publicado pelo Conexão Política e divulgado pelas redes sociais do site de direita. Até o dia 20 de maio, data de publicação desta verificação, o conteúdo teve 2,7 mil interações. No Twitter, foram 6,1 mil curtidas. Um dos editores da página, Davy Albuquerque, também divulgou o link para o texto em seu perfil pessoal no Twitter, com 5,6 mil curtidas.

O maior engajamento aconteceu no Instagram, com mais de 21,3 mil curtidas. O perfil Direita Oficial também compartilhou uma imagem com o título do texto no Instagram e teve 1,7 mil curtidas.

Pandemia

Investigado por: 2020-05-20

Texto engana ao afirmar que autópsias na Itália teriam indicado que ‘problema principal não era o coronavírus’

  • Enganoso
Enganoso
Estudos em hospitais de Bérgamo e Milão sugerem terapia adicional com anticoagulantes para evitar trombose, mas não há comprovação de que esta seja a única causa de morte e nem que tratamento possa ser feito em casa

Texto em circulação nas redes sociais engana ao afirmar que autópsias realizadas em Bérgamo, na Itália, teriam indicado que “o problema principal não era o coronavírus”, em referência à causa da morte dos pacientes por covid-19. A publicação diz também que “a cura já foi encontrada”. O conteúdo mistura informações verdadeiras com outras falsas ou sem sustentação científica para sugerir aos leitores que os óbitos estariam relacionados apenas com um distúrbio na circulação sanguínea, a ser tratado em casa.

O conteúdo foi publicado pelo site Oriundi.net e é a tradução de um texto em italiano assinado por Cesare Sacchetti em blog pessoal. O autor afirma que “a comunidade médico-científica” chegou a essas conclusões após serem realizadas 50 autópsias no Hospital Papa Giovanni XXIII, em Bérgamo, e 20 no Hospital Luigi Sacco, em Milão.

Com base em declarações de um médico chamado Giampaolo Palma em post no Facebook, o texto expõe a teoria de que a covid-19 mata em razão da “microtrombose venosa” no organismo — obstrução de veias por pequenos coágulos que se formam em resposta à infecção — e que só depois o vírus agrediria os pulmões. Por esse ponto de vista, tanto o diagnóstico quanto o tratamento da doença estariam errados. Esse não é o entendimento dos órgãos de saúde até o momento.

Apesar de existirem resultados promissores em pesquisas com anticoagulantes no tratamento de pacientes com covid-19, ainda não é possível dizer que essa é a “cura”, como aponta o texto, nem que os pacientes podem ser tratados em casa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde afirmam que ainda não há medicamento com eficácia comprovada para tratamento ou prevenção da doença. Pacientes com sintomas graves devem receber suporte médico em hospitais.

O próprio diretor do departamento de anatomia patológica do Papa Giovanni XXIII, Andrea Gianatti, responsável pelas autópsias no hospital de Bérgamo, afirma que esse tipo de terapia “parece absolutamente útil” como complemento a outras, mas é cauteloso ao analisar os resultados. “Estamos ainda na fase de definição, isto é, ainda não existem certezas”, comentou em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, publicada em 7 de maio.

Gianatti também contrapõe o argumento presente no texto de que “o coronavírus não ataca os pulmões primeiro, mas afeta principalmente os vasos sanguíneos, impedindo o fluxo regular de sangue” e de que bastaria resolver o problema para prevenir a letalidade. Ao Corriere della Sera, o patologista relatou que a trombose nos pacientes analisados “geralmente ocorreu após a fase mais aguda da pneumonia, isto é, depois dos sintomas mais típicos causados pelo coronavírus”. Ou seja, mesmo quando a anomalia está presente, os pacientes ainda precisam de outros cuidados, considerando que a trombose não é a única complicação possível da doença.

O Comprova pediu a opinião de outros dois especialistas sobre o assunto. Para a pneumologista do Hospital Sírio-Libanês e livre docente da Universidade de São Paulo (USP) Elnara Marcia Negri, a formação descontrolada de coágulos que podem obstruir as veias e levar à morte está associada a uma “tempestade inflamatória” no organismo, causada após a entrada do vírus pelo sistema respiratório e a sua agressão a estruturas dos pulmões. A médica afirma que, em alguns casos, a causa da morte realmente é a insuficiência respiratória em razão da trombose, mas esta não é a única causa, nem a principal.

Pedro Silvio Farsky, cardiologista do Hospital Albert Einstein e do Instituto Dante Pazzanese, relata o mesmo mecanismo de ação, mas faz a ressalva: “Tudo isso é objeto de grande pesquisa, e os mecanismos exatos ainda estão por ser elucidados”. Quanto à hipótese de que a incidência de trombose nos pacientes seria anterior a complicações como a pneumonia — e que resolvê-la “curaria” os pacientes — o médico considera a teoria ainda “pouco provável”. “Não me parece lógico, especialmente porque vemos alterações radiológicas acometendo o pulmão sem que tenha aumento no dímero D (resultado da degradação de fibrina, um marcador de trombose)”.

O Comprova também entrou em contato, por e-mail, com Andrea Gianatti, do Papa Giovanni XXIII. Gianatti respondeu que eram “apenas boatos” e que as informações corretas constam em relatório preliminar (preprint) que está sendo revisado para publicação na revista Lancet.

O texto do Oriundi.net ainda traz uma série de afirmações duvidosas, como a de que os ventiladores mecânicos “pioraram as coisas”, e insinuações de que a pandemia seria uma “operação de terrorismo psicológico” motivada por interesses políticos. Em outro trecho, o boato alega que a imunização contra o novo coronavírus “seria completamente desnecessária e potencialmente prejudicial”, ao distorcer resultados de estudo científico anterior à pandemia de covid-19.

Por que checamos isto?

O Comprova faz verificações que atinjam grande número de compartilhamentos nas rede sociais, caso deste conteúdo, que registrou mais de 33 mil interações no Facebook. Esta verificação foi realizada pelo Comprova pois ela se insere na disputa política que se instalou no Brasil diante da pandemia. Sites e pessoas apoiadores do presidente da República, Jair Bolsonaro, têm utilizado diferentes artifícios para tentar minimizar os problemas provocados pelo novo coronavírus, bem como para propagar a ideia de que uma cura para a doença é iminente.

Nas últimas semanas, o Comprova verificou diversos conteúdos nessa linha, como o boato de que caixões vazios estavam sendo enterrados em Manaus e outro segundo o qual os números de óbitos registrados em cartório colocariam em dúvida o número de mortes divulgadas. Também circulou a mensagem de que a rotina de enterros em um cemitério de São Paulo estava normal, o que não é verdade.

O Comprova também mostrou que uma descoberta de pesquisadores israelenses não significa, ao menos por enquanto, a cura para a covid-19 e que informações sobre um protocolo de tratamento no Piauí foram deturpadas para insuflar a ideia de que curar a doença é simples.

A distribuição desse tipo de conteúdo é um desdobramento da disputa a respeito das medidas de isolamento social. Bolsonaro é contrário a essas medidas, enquanto os governadores, que seguem as recomendações das autoridades sanitárias e da Organização Mundial da Saúde, continuam impondo tais ações.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

O Comprova realizou essa checagem por meio de pesquisas a artigos científicos e outras fontes confiáveis da área médica, leitura de reportagens jornalísticas e entrevistas com especialistas.

A primeira ação foi identificar a origem do boato. O texto no site Oriundi.net tinha a indicação de autoria de “Cesare Sacchetti” com o nome do blog “La cruna dell’ago” (“O olho da agulha”, em tradução livre) no rodapé da página. Ao encontrar o texto na internet, observamos que o artigo em português era apenas uma tradução do conteúdo e que o boato já circulava na Itália antes de chegar a sites brasileiros.

Feita a leitura do texto, o Comprova elencou uma série de informações duvidosas presentes e pesquisou sobre cada uma delas, incluindo as supostas declarações dos médicos Giampaolo Palma e Cameron Kyle-Sidell. A reportagem encontrou post no Facebook de Giampaolo Palma, publicado em 9 de abril, e vídeo no YouTube de Cameron Kyle-Sidell, de 31 de março, sobre o assunto.

Ao buscar informações sobre autópsias de pacientes de covid-19 na Itália, o Comprova chegou a artigo da Nature que apontava o médico Andrea Gianatti como uma das lideranças da área no Hospital Papa Giovanni XXIII. A reportagem encontrou o e-mail do médico em um artigo divulgado na plataforma medRxiv e entrou em contato pedindo esclarecimentos.

Em meio a pesquisa pelo nome, também foi analisada reportagem do jornal Corriere della Sera com declarações de Gianatti, que informava sobre preprint em análise pela Lancet. O Comprova encontrou o relatório preliminar e verificou os resultados obtidos.

Por fim, o Comprova pediu a opinião de dois médicos brasileiros que já haviam comentado sobre o aumento de coágulos em pacientes com covid-19 em reportagem e verificação recentes. A conversa ocorreu por mensagens e telefone.

Qual a relação da covid-19 com a trombose?

Uma série de estudos científicos vêm alertando para o risco de pacientes de covid-19 desenvolverem trombose, problema que consiste na formação de coágulos que obstruem os vasos sanguíneos. A situação motivou médicos do mundo inteiro a introduzirem terapia com anticoagulantes, além de estudos clínicos e in vitro com medicamentos como a heparina.

Uma das pesquisas, feita no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, foi abordada em artigo recente da Science. Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) descobriram, em outra experiência, que a heparina reduziu em 70% a infecção de células provenientes do rim do macaco-verde africano em laboratório.

No entanto, a relação entre a covid-19 e a trombose ainda não está clara para os cientistas. Uma das possibilidades levantadas é de que, para entrar no corpo humano, o novo coronavírus utiliza receptores chamados de ACE2, que geralmente são encontrados no endotélio, espécie de tecido que reveste vasos sanguíneos e a parte interna do coração que influencia o controle da coagulação no sangue.

Outra teoria afirma que o aumento da coagulação pode ser resultado de uma resposta inflamatória excessiva do organismo à infecção. Ela ocorreria a partir de uma “tempestade de citocinas”, proteínas conhecidas por enviarem mensagens às células e modularem o ataque organizado pelo sistema imunológico ao vírus.

Autópsias de Bérgamo

O texto enganoso de Cesare Sacchetti afirma, por outro lado, que autópsias realizadas na Itália apontam para a “cura” da doença e que a periculosidade do novo coronavírus “basicamente desapareceu” com a descoberta, o que não é verdade, segundo instituições de referência como a OMS. O autor também sugere que a principal causa de morte dos pacientes “não é o coronavírus” — o que é impreciso, no mínimo, diante do fato de que é a infecção viral que gera as complicações nos pacientes.

Apoiado na opinião do médico cardiologista italiano Giampaolo Palma em post no Facebook, o autor afirma que os pacientes devem ser tratados em casa, com remédios, dispensando suporte hospitalar. Porém, a tromboembolia não é a única complicação presente nos casos graves de covid-19 que necessita de tratamento. “Essa doença pode atacar quase tudo no corpo com consequências devastadoras”, disse o cardiologista da Universidade de Yale Harlan Krumholz à revista científica americana Science.

O Comprova encontrou dois artigos científicos com resultados de autópsias nos hospitais Papa Giovanni XXIII, de Bérgamo, e Luigi Sacco, de Milão. O primeiro foi publicado em 22 de abril na plataforma medRxiv (sem revisão por pares) e apresenta relatório de 38 casos. O segundo é de 6 de maio e foi baseado na análise de 35 pessoas que morreram no Papa Giovanni XXIII — é este que está com revisão pendente para publicação na Lancet.

A primeira pesquisa mostra que 33 vítimas (86%) nesses dois hospitais apresentaram coágulos em pequenos vasos sanguíneos nos pulmões, o que poderia explicar a falta de oxigênio no sangue dos pacientes. “Nossos dados apoiam fortemente a hipótese proposta por estudos clínicos recentes de que a covid-19 é complicada ou está, de alguma forma, estritamente relacionada com coagulopatia (distúrbios na coagulação) e trombose”, escrevem os pesquisadores. “Por essas razões, o uso de anticoagulantes foi recentemente sugerido como potencialmente benéfico para pacientes em quadros graves, ainda que a eficácia e segurança ainda não esteja demonstrada.”

Já o segundo artigo aponta que foram feitas 75 autópsias em pacientes com covid-19 no Papa Giovanni XXIII entre 19 de março e 9 de abril. Foram considerados 35 análises para o estudo. Destes, 10 (29%) foram diagnosticados com eventos tromboembólicos ainda no hospital durante o tratamento. Na autópsia, todos apresentavam tromboses em três ou mais órgãos, principalmente pulmões, coração, rins e fígado.

O preprint destaca que esse problema pode ser ocasionado por diferentes processos patológicos, como a coagulação intravascular disseminada (CID), mas todas as hipóteses propostas foram descartadas com base no histórico hospitalar ou em testes posteriores. Os autores concluem que é difícil categorizar esses eventos trombóticos em doenças convencionais, mas que a condição pode estar sendo subestimada nos hospitais.

No entanto, em nenhum momento, nos dois artigos, os pesquisadores afirmam que encontraram a “cura” da covid-19 ou que os resultados mostram que o perigo da doença não está mais presente. Tampouco apontam que os pacientes poderiam ser tratados em casa, sem a necessidade de internações, como defende o boato.

Respiradores são inúteis?

Em outro trecho, o texto argumenta que o uso de respiradores artificiais é inútil e prejudicaria os pacientes, citando declarações do médico Cameron Kyle-Sidell, do Maimonides Medical Center, de Nova York. No entanto, apesar de realmente estar ocorrendo uma discussão sobre a eficácia do equipamento, não é possível afirmar que os itens são dispensáveis. Em muitos casos, são a única maneira de manter vivo um paciente com perda da função respiratória.

De fato, Kyle-Sidell afirmou, em vídeo no YouTube, que os ventiladores mecânicos poderiam “estar causando mais danos do que ajudando os pacientes de covid-19” e que acreditava estar “tratando a doença errada” nas unidades de tratamento intensivo. O texto omite, porém, que o médico declarou a seguir que não é possível abrir mão dos respiradores no suporte aos pacientes em estado crítico. “Nós, com certeza, precisamos de ventiladores. Eles são a única maneira, até o momento, de dar um pouco mais de oxigênio para aqueles pacientes que precisam”, afirma.

De acordo com reportagem da revista Time, existe um “debate acalorado” sobre a utilização de respiradores artificiais na comunidade médica, que está ligado a dados de eficiência do método. Enquanto para outras síndromes respiratórias graves a taxa de recuperação após esse tipo de suporte invasivo está em torno de 50%, estudos na China, em Nova York e no Reino Unido apontam que a covid-19 leva a óbito de 66% a 80% dos pacientes que passam pelo procedimento.

Por outro lado, alguns especialistas acreditam que esses percentuais podem estar sendo afetados por outros fatores, como a pressão sobre as unidades hospitalares. A ventilação mecânica pode estar sendo utilizada muito cedo, quando outros métodos menos invasivos poderiam funcionar, ou os hospitais podem estar destinando profissionais menos treinados para a função diante do cenário caótico, por exemplo. Outro apontamento diz respeito aos grupos de risco da doença, como idosos, que tendem a reagir pior a esse tipo de procedimento.

Vacinas aumentam o risco de infecção?

No final do texto, Sacchetti afirma que um “estudo científico do Pentágono relatou que as vacinas aumentam o risco de infecção por coronavírus em 36%” para dizer que não há mais necessidade de vacina contra o Sars-Cov-2 e que esta seria “potencialmente prejudicial”. Esse boato foi desmentido recentemente pelo FactCheck.org, projeto do Centro de Políticas Públicas Annenberg da Universidade da Pensilvânia.

De acordo com a verificação, o boato começou a circular após uma postagem da organização Children’s Health Defense, fundada por Robert F. Kennedy Jr., conhecido pelo ceticismo sobre vacinas. O estudo citado foi realizado pelo setor de vigilância das Forças Armadas dos Estados Unidos e traz dados de 2017 e 2018, portanto, antes do surgimento do novo coronavírus.

A tese é que a vacinação contra a influenza pode aumentar o risco de infecção por outros vírus respiratórios, em um processo chamado de “interferência viral”. Porém, não há consenso entre o meio científico, pois outras pesquisas indicaram que essa relação não existe. De qualquer forma, não é correto estender as conclusões para o Sars-Cov-2 — a pesquisa envolveu outros tipos de coronavírus.

Em resposta ao FactCheck.org, o Sistema de Saúde Militar dos Estados Unidos declarou que estudo utiliza informações coletadas dois anos antes do surgimento da covid-19 e que a pesquisa “não mostra ou sugere que a vacinação contra a influenza predispõe, de qualquer maneira, o potencial para infecções por formas mais severas de coronavírus, como a covid-19”. Para a instituição, “continua sendo essencial que as pessoas obtenham a vacina sazonal contra a gripe a cada ano, assim que ela se torna disponível”.

Origem do boato

O texto original foi publicado, em italiano, no blog “La cruna dell’ago” (“O olho da agulha”, em tradução livre), no dia 25 de abril. O autor é Cesare Sacchetti, que se descreve no Twitter como um “jornalista politicamente incorreto”. O blog tem como proposta publicar “notícias e opiniões” que desviem “da linha de mídia dominante em favor da ideologia globalista e imigratória”. O conteúdo enganoso passou a circular no Brasil após ser traduzido e divulgado pelo site Oriundi.net, lançado em 2003. O site se apresenta como uma “revista digital sobre a Itália e a cultura italiana”.

Contexto

Conteúdos que tentam minimizar os efeitos da pandemia de covid-19 têm sido compartilhados à exaustão por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Esses textos, fotos e imagens são parte da disputa política entre Bolsonaro e os governadores estaduais a respeito de como lidar com o novo coronavírus. O grande ponto de contenção são as medidas de isolamento social, aplicadas pelos governos, mas criticadas por Bolsonaro. Assim como os conteúdos que minimizam a pandemia, têm circulado diversos materiais que apontam para uma suposta ineficácia de medidas de distanciamento.

Recentemente, o Comprova verificou, por exemplo, um texto que afirmava, enganosamente, que dados de Nova York apontariam para riscos maiores de infecção caso as pessoas cumprissem as medidas. Também foram verificados um artigo que exagerava as falas de um médico alemão e um vídeo que inventava uma crítica do médico David Uip às políticas de isolamento social aplicadas em São Paulo.

Alcance

O link do site verificado pelo Comprova teve, até 20 de maio, mais de 36 mil interações no Facebook de acordo com a ferramenta de monitoramento de redes sociais CrowdTangle. O link foi postado pela página Aliança pelo Brasil e em um grupo que homenageia Alexandre Garcia.

Pandemia

Investigado por: 2020-05-18

Site exagera falas de médico alemão sobre medidas rígidas contra o novo coronavírus

  • Enganoso
Enganoso
Frase atribuída a médico alemão em site brasileiro não foi dita de forma literal pelo pesquisador. Ele fala, na verdade, sobre como as medidas mais rígidas de contenção à doença afetam outros setores da vida da sociedade, mas também não diz ser contra a quarentena

O título de um artigo publicado no site Conexão Política com a tradução de uma entrevista do médico alemão Gérard Krause tem confundido as pessoas ao atribuir a frase “Medidas de bloqueio matam mais que o próprio coronavírus” ao especialista sem considerar o contexto em que ela foi dita. O conteúdo viralizou no Facebook na última semana.

O texto publicado no dia 13 de maio é baseado em entrevista dada por Gérard Krause em 29 de março ao canal de televisão alemão ZDF. No conteúdo original, o médico falou sobre o combate à covid-19 na Alemanha, dizendo que as medidas prolongadas de isolamento rígido podem causar outras doenças, como as mentais, e mortes na população.

“Temos que manter essas medidas sociais sérias o mais curtas e menores possível, porque elas podem causar mais doenças e mortes do que o próprio coronavírus”, disse Krause, ressaltando que é preciso considerar o impacto da covid-19 em outras áreas da sociedade e não apenas nas vítimas do novo coronavírus.

Na entrevista original, Krause defende que as medidas de isolamento sejam empregadas pelo menor tempo possível, considerando atenção especial ao grupo de risco e a outras áreas da sociedade, como a área econômica. No entanto, não se diz contra a quarentena. O médico alemão propõe uma organização “para que aconteça um afrouxamento cedo e com cautela ao mesmo tempo”.

O Comprova tentou contato com Gérard Krause por e-mail, mas o médico não retornou até a publicação do texto.

Por que investigamos isso?

O Comprova fez esta verificação porque ela diz respeito a um dos temas que tem gerado mais comoção durante a pandemia: a aplicação e a extensão das medidas de isolamento social como forma de mitigar os efeitos do novo coronavírus.

No Brasil, este debate tem sido protagonizado pelo presidente Jair Bolsonaro, que defende firmemente a retomada de diversas atividades econômicas. Essa proposta é rechaçada por autoridades sanitárias, uma vez que poderia ampliar a contaminação pelo vírus e levar ao colapso dos sistemas de saúde. Assim, governos estaduais estão adotando o isolamento social como uma medida central nas políticas públicas contra a pandemia.

O conteúdo sobre as falas do médico alemão se junta a diversos outros que têm sido espalhados para reforçar o posicionamento de Bolsonaro. São, muitas vezes, textos que trazem frases ou fatos fora de contexto ou deturpados para criticar as políticas de isolamento social.

Foi o caso, por exemplo, de um texto que, enganosamente, tentou fazer o público crer que a Organização Mundial da Saúde (OMS) era contrária ao isolamento, o que não é verdade. Foi, também, o caso de um vídeo com declarações do governador de Nova Iorque , nos Estados Unidos, que tentava indicar que o distanciamento social seria prejudicial por, supostamente, facilitar infecções – isso também não é verdade.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.

Como verificamos?

Acessamos a entrevista original, concedida por Krause ao canal ZDF, para comparar com a versão em português publicada pelo site Conexão Política.

Em seguida, buscamos notas técnicas e estudos divulgados pelos pesquisadores do Centro de Pesquisas de Infecções Helmholtz, onde Krause trabalha, e pela Organização Mundial da Saúde.

Matérias jornalísticas publicadas desde o início da pandemia também serviram de base para a apuração do Comprova.

Verificação

O médico Gérard Krause concedeu entrevista ao canal alemão ZDF, em 29 de março, sobre as medidas de combate ao novo coronavírus no país, e se mostrou a favor de que as medidas rígidas de isolamento social, adotadas para diminuir a taxa de transmissão da doença e não sobrecarregar hospitais, sejam coordenadas para que possam durar o menor tempo possível, de modo que áreas como a economia não sejam tão afetadas.

A Alemanha adotou o lockdown em 22 de março e começou, nas últimas semanas, uma reabertura cautelosa do isolamento obrigatório. O país tem um dos números de mortes mais baixos entre os locais com mais casos confirmados de covid-19, 7.988 até o dia 18 de maio. Inclusive menor que o do Brasil, com 16.196 em 18 de maio.

A entrevista foi parcialmente traduzida para o português pelo site Conexão Política e publicada com um título mais incisivo do que o tom adotado pelo médico alemão. A frase “medidas de bloqueio matam mais que o próprio coronavírus” não foi dita de forma literal pelo médico, que fala, na verdade, sobre como as medidas mais rígidas de contenção à doença afetam outros setores da vida da sociedade.

Krause não se mostra a favor de medidas rígidas de isolamento, mas também não diz ser contra a quarentena. Ele defende um “afrouxamento precoce”, porque acredita que essas restrições por um período muito longo podem gerar impactos que vão além dos causados pela própria doença.

Ao longo da entrevista original, Krause ressaltou que é necessário ter cautela ao mesmo tempo em que as medidas são afrouxadas e admite que, mesmo protegendo grupos de risco, “ainda haverá doenças e mortes entre os jovens”. Também afirmou que é preciso continuar estudando a doença paralelamente às medidas de isolamento porque “isso ajudará a reduzir essas medidas muito gerais e a fortalecer e manter as medidas focadas e direcionadas”.

Segundo ele, a preocupação vai além da área da saúde. Para o médico, entre as outras consequências preocupantes, está a crise econômica e doenças mentais que podem ser causadas pelo isolamento prolongado.

“Sabemos que o desemprego, por exemplo, causa doenças e até aumento da mortalidade. Também pode levar as pessoas ao suicídio. Restringir a liberdade de circulação provavelmente terá um impacto negativo adicional para a saúde pública. Não é tão fácil calcular essas consequências diretamente, mas elas ainda acontecem e podem ser mais graves do que as consequências das próprias infecções”, falou na entrevista.

Quem é Gérard Krause

O médico Gérard Krause ocupa, há 20 anos, o cargo de chefe do Departamento de Epidemiologia do Centro de Pesquisas de Infecções Helmholtz, uma das maiores instituições acadêmicas direcionadas exclusivamente a pesquisas de infecções da Alemanha. De acordo com o currículo de Krause apresentado na ResearchGate, uma rede social de pesquisadores e profissionais da área da ciência, sua pesquisa é focada no desenvolvimento da cibermedicina e estudos de eficácia para intervenções de saúde pública na área de doenças infecciosas.

Para Krause, as medidas de isolamento social adotadas por países atingidos pela pandemia devem ser eficazes e impostas com menor duração possível para que os impactos em outras áreas, como a econômica, sejam minimizados. Ele ressalta, no entanto, que é preciso preparar o sistema de saúde e ficar atento aos grupos de risco. Sua visão é totalmente focada no caso da Alemanha.

O Helmholtz, no entanto, publicou um pronunciamento em 13 de abril, no qual afirma que as medidas rígidas de distanciamento social adotadas na Alemanha desde março foram determinantes para a diminuição das taxas de transmissão do novo coronavírus no país e que é preciso cautela no processo de reabertura.

O Comprova escreveu e-mails para Krause e para a assessoria de imprensa do Helmholtz, mas não teve retorno.

Gérard Krause coordena três projetos de combate à pandemia. O primeiro, e o mais conhecido, trata de testes de anticorpos para detectar quem já foi infectado e possui defesa contra a covid-19 e, por isso, pode voltar a exercer suas atividades normalmente. A ideia do projeto é que as pessoas, principalmente os profissionais essenciais como médicos e enfermeiros, retornem o mais rápido possível à linha de frente de combate após terem adquirido a doença, com uma espécie de “passaporte de imunidade”. Ele propõe uma testagem em massa para detectar quem já tem anticorpos, para que essas pessoas sejam liberadas das medidas restritivas. Atualmente, a Alemanha registra mais de 150 mil recuperados de covid-19.

O segundo projeto é a utilização de um aplicativo criado em 2014, chamado de SORMAS, para controle de doenças e avaliação de riscos. No caso da pandemia, o aplicativo permite a detecção precoce de casos e monitoramento das pessoas infectadas e daquelas que tiveram contato com elas. O aplicativo gera dados em tempo real para que sejam avaliados os riscos nas regiões onde está sendo usado.

Por fim, o médico faz parte do projeto de cooperação europeu para aumentar a comunicação entre países no que se refere a informações clínicas, epidemiológicas e imunológicas sobre a pandemia. A iniciativa também tem pesquisadores da Holanda, Suíça e países de fora da Europa como a China. O foco é colher dados para que sejam avaliadas as medidas tomadas contra o novo coronavírus e sua disseminação.

O “passaporte de imunidade” e o que pensa o centro de pesquisas do qual ele faz parte

A ideia de um “passaporte de imunidade”, concedido às pessoas que já se infectaram pelo novo coronavírus e possuem, depois de curadas, anticorpos contra a doença, começou a ser discutida no mundo no final de março. Na época, foi lançado na Alemanha, pelo instituto Helmholtz, um estudo sobre a abrangência da imunização ao novo coronavírus. O Dr. Gérard Krause estava entre os participantes da pesquisa.

Em 23 de abril, o Instituto publicou uma atualização das ações que estavam sendo realizadas naquele momento pelos pesquisadores, e a imunidade de quem já teve covid-19 é um dos objetos de estudo. Segundo a publicação, uma das ideias seria identificar indivíduos para quem as restrições a viagens e atividades poderiam ser suspensas — basicamente o que propõe o chamado “passaporte de imunidade”.

A Organização Mundial da Saúde publicou, em 24 de abril, um comunicado sobre os tais passaportes. Para a OMS, não existem evidências suficientes para garantir que as pessoas que se recuperaram da infecção pelo novo coronavírus e possuem anticorpos estão imunes a uma segunda contaminação.

“Muitos países estão agora testando para os anticorpos da SARS-CoV-2 em toda a população ou grupos específicos, como profissionais da saúde […]. A OMS apoia esses estudos, que são cruciais para o entendimento da extensão — e os fatores de risco associados — da infecção. Esses estudos vão fornecer dados sobre porcentagem de pessoas com anticorpos detectáveis da covid-19, mas a maioria não foi criada para determinar se essas pessoas são imunes a infecções secundárias”, diz o comunicado, em tradução livre.

Em meio ao anúncio de gradual reabertura da Alemanha nas últimas semanas, o Centro de Pesquisas Helmholtz, do qual Gérard Krause é pesquisador, soltou um posicionamento em 13 de maio juntamente com o Ifo Institute, que gerencia pesquisas na área econômica, defendendo a abertura limitada do país após o sucesso das medidas de isolamento. Ou seja, oficialmente, a entidade é cautelosa sobre o relaxamento das medidas restritivas em favor da economia e alerta que uma abertura rápida no curto prazo pode aumentar custos gerais e prolongar a fase de restrições.

É do interesse comum de nossa saúde e da economia ser cautelosos em relaxar as restrições e monitorar de perto como as taxas de infecção se desenvolvem”, diz um trecho do comunicado, se referindo ao número R, que determina o potencial de propagação do novo coronavírus. Se o número foi superior a um, significa que cada contaminado é capaz de transmitir a doença para pelo menos mais uma pessoa.

“Se as restrições em vigor até 20 de abril de 2020 forem mantidas, o número previsto de mortes adicionais será de 5 mil. Esse número diminui apenas um pouco em um número baixo de reprodução, mas aumenta acentuadamente a uma taxa de 0,9 ou mais, atingindo mais de 20.000 mortes adicionais a 1,0”, ressalta o texto.

Contexto

O texto sobre o médico alemão circula em meio à crescente tensão entre Jair Bolsonaro e os governadores a respeito do isolamento social. O presidente da República tem defendido de maneira enfática o fim das medidas e a abertura da economia. Na quinta-feira 14, Bolsonaro reafirmou sua posição em um encontro com empresários. “O governo federal, se depender de nós, estava tudo aberto com isolamento vertical e ponto final”, afirmou Bolsonaro.

O “isolamento vertical” citado por Bolsonaro consiste na estratégia de resguardar apenas as pessoas mais suscetíveis ao coronavírus, liberando todas as outras para o trabalho: países como Holanda e o Reino Unido chegaram a implantar essas medidas, mas desistiram diante de estudos que indicam a possibilidade de essa medida ter efeitos catastróficos.

Na mesma reunião com empresários, Bolsonaro afirmou que a disputa a respeito do isolamento social “é guerra” e que o setor empresarial precisa “jogar pesado” com os governadores para reabrir todas as atividades econômicas.

Alcance

Publicado no dia 13 de maio, o texto enganoso a respeito das declarações do médico alemão teve mais de 87 mil interações no Facebook de acordo com a ferramenta de análise de dados CrowdTangle.

Pandemia

Investigado por: 2020-05-15

Infectologista David Uip apoia políticas de distanciamento social do governo paulista

  • Falso
Falso
Ao contrário do que afirma um youtuber, o infectologista David Uip não deixou o governo paulista por discordar das políticas de isolamento social, mas por problemas de saúde. As informações publicadas no vídeo sobre transferências de pacientes para o interior também não são verdadeiras

É falsa a declaração de um youtuber de que o infectologista David Uip deixou o governo paulista por não concordar com as políticas de isolamento social estabelecidas pelo governador João Doria (PSDB). O vídeo foi postado na última segunda-feira, dia 11 de maio, três dias depois do anúncio do afastamento do médico.

No vídeo, o youtuber Fabiano Guiguet afirma que o médico era o secretário da Saúde do Estado e que foi afastado por não concordar com a quarentena decretada pelo governo. Essas informações são falsas. O secretário estadual da Saúde é o médico José Henrique Germann Ferreira. Uip coordenava o Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo, criado em fevereiro para desenvolver ações contra a propagação da covid-19. Foi o próprio comitê que recomendou as medidas de isolamento social adotadas pelo Estado.

Na semana passada, Uip alegou problemas cardíacos em uma carta endereçada ao governador e encaminhada para a imprensa. No texto, afirmou que voltará às atividades quando estiver restabelecido. O médico foi substituído pelo infectologista Dimas Covas.

O youtuber também alega que pacientes com a covid-19 estão sendo levados da capital para o interior do estado, por ordem do governador, para “aumentar os números e ele poder dar a desculpa de continuar na quarentena”. Mas os dados de transferência de pacientes desmentem essa afirmação.

Por que checamos isto?

O Comprova verificou este conteúdo porque ele se insere no contexto de crescente tensão entre o governo federal e os governos estaduais a respeito de como lidar com a pandemia do novo coronavírus. O presidente Jair Bolsonaro é contrário às medidas de distanciamento social, enquanto os governadores, João Doria entre eles, têm imposto essas medidas, seguindo orientações de suas respectivas autoridades sanitárias, do Ministério da Saúde e da OMS.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original ou que tenha sido divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

Procuramos o doutor David Uip para esclarecer as afirmações do vídeos. Desde que deixou o governo, no dia 8 de maio, o médico parou de dar entrevistas e respondeu, apenas, através da assessoria de imprensa.

Também entramos em contato com as assessorias de comunicação do governo de São Paulo e da Secretaria Estadual da Saúde para esclarecer o afastamento de David Uip e entender as políticas de transferência de pacientes com covid-19 no Estado. Buscamos dados de infecção pelo novo coronavírus com a prefeitura de São José do Rio Preto, cidade que é citada no vídeo.

Por fim, tentamos contato com o youtuber Fabiano Guiguet para entender as razões que o levaram a gravar e publicar o vídeo.

Verificação

No dia 8 de maio, o médico infectologista anunciou que se afastaria temporariamente do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo após sentir um mal-estar, com alterações cardiológicas e clínicas. Ele tem histórico de problemas cardíacos.

Dentro do governo, Uip era um dos principais apoiadores da quarentena imposta pelo governo estadual. Na carta em que anunciou o afastamento, disse que estava entristecido por não estar fisicamente presente neste momento. “No entanto, tenho a plena convicção de que São Paulo está no caminho certo. E está salvando vidas”, escreveu. Uip ainda garante que a saída não é definitiva: “Fico temporariamente afastado e espero estar recuperado, para retomar minha contribuição ao Centro de Contingência do Coronavírus”.

Na entrevista coletiva em que anunciou a saída de Uip, o governador João Doria lamentou e agradeceu aos profissionais de saúde: “Em respeito, principalmente, à medicina, aos médicos, aos paramédicos, aos enfermeiros, àqueles que atuam na saúde como o doutor David Uip, que têm sacrificado a sua vida, têm sacrificado parte da sua saúde para ajudar milhões de brasileiros em São Paulo”. No mesmo evento, Doria anunciou a prorrogação da quarentena no Estado até o dia 31 de maio.

Quem é David Uip?

David Uip tem 67 anos e é médico especialista em doenças infecciosas. Ele trabalha em dois dos maiores hospitais particulares da capital paulista, o Sírio-Libanês e o Hospital Israelita Albert Einstein. Uip foi secretário Estadual da Saúde na gestão de Geraldo Alckmin (PSDB), de 2013 a 2018, e desde o dia 26 de fevereiro coordenava o Comitê de Saúde do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo.

Em 23 março, Uip foi diagnosticado com a covid-19. “Foram duas semanas de agonia”, disse ao descrever os sintomas. Permaneceu duas semanas afastado das atividades do comitê, mas não chegou a ser internado. E, diferentemente do que afirma o vídeo verificado, ele não confirmou se foi tratado com a cloroquina, medicamento defendido, sem comprovação científica, pelo presidente Bolsonaro e seus apoiadores como a “cura” para a covid-19.

Uip não acredita que os problemas cardíacos que levaram ao seu afastamento no dia 8 de maio tenham relação com eventuais sequelas deixadas pelo novo coronavírus. “É muito mais pelos meus antecedentes, três stents no coração. (…) Tem que investigar para ver o que é.” O médico passou mal no dia 6 de maio e, orientado pelo cardiologista Roberto Kalil, decidiu deixar as atividades no comitê.

Qual é a situação em São José do Rio Preto?

No vídeo, o youtuber Fabiano Guiguet ainda acusa o governo estadual de transferir pacientes com covid-19 para inflar o número de casos no interior. E dá o exemplo de São José do Rio Preto, onde os casos teriam sido multiplicados por dez em apenas dois dias. A informação não é verdadeira. No dia 11 de maio, data da publicação do vídeo, a cidade registrava 308 casos confirmados de covid-19, com dez mortes, segundo dados da prefeitura. Três dias antes, no dia 8 de maio, eram 236 casos, com as mesmas dez mortes. O secretário Municipal de Saúde, Aldenis Borim, atribuiu o crescimento no número de pessoas infectadas na cidade ao desrespeito à quarentena. “Nas duas últimas semanas essa curva se coloca quase vertical, ou seja, o aumento de casos está muito preocupante para a Secretaria de Saúde. Se deve, na maioria das vezes, devido ao isolamento que não está sendo cumprido adequadamente. Se isso continuar dessa maneira, no futuro próximo poderá inclusive apertar este isolamento”, disse.

Questionamos a política de gestão de pacientes da Secretaria Estadual de Saúde. Por e-mail, a assessoria explicou que as transferências entre hospitais e municípios “serão feitas se e quando houver necessidade, pela Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde (Cross), sistema online que funciona 24 horas por dia e verifica vagas disponíveis em hospitais do SUS em São Paulo”. Até o momento não houve transferências para São José do Rio Preto.

Quem é o youtuber?

O vídeo foi publicado no canal de YouTube Pais e Filhos, mantido por Fabiano Guiguet desde 2017. Os primeiros vídeos eram sobre produtos que ele comprava, como capas de piscina e relógios. Em 2018, o youtuber postou um vídeo criticando o jornal Folha de S. Paulo e, desde então, quase todas as publicações têm conteúdo político, com apoio declarado ao presidente Jair Bolsonaro e ataques a tudo e todos que as redes bolsonaristas enxergam como “inimigos”: o governador João Doria, a Rede Globo, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), e, mais recentemente, o ex-ministro da Justiça Sergio Moro (que tinha sido chamado de “o maior ministro que o Brasil já teve” no começo do canal).

Os vídeos são monetizados, o que significa que Guiguet recebe um valor do YouTube a cada visualização. Ele ganhou uma placa comemorativa do site quando chegou a 100 mil seguidores (até o dia 14 de maio esse número já chegava a 396 mil) e agradeceu o presidente Bolsonaro pela conquista.

O Comprova tentou contato com Guiguet para esta verificação através do e-mail que ele disponibiliza no canal de Youtube. Mas, até a data da publicação, não houve resposta.

Contexto

Como destacado acima, esse vídeo foi publicado em meio à contínua tensão entre o presidente Jair Bolsonaro e os governadores, em especial João Doria, percebido por Bolsonaro como um adversário político para 2022.

Na quinta-feira, 14, Bolsonaro aproveitou uma conferência com grandes empresários para estimular que eles pressionem os governadores a reabrir o comércio. “Os senhores, com todo o respeito, têm que chamar o governador e jogar pesado. Jogar pesado, porque a questão é séria, é guerra”, afirmou Bolsonaro. Doria rebateu: “O presidente Jair Bolsonaro despreza vidas. Ele prefere fazer comícios, andar de jet ski, treinar tiros e fazer churrasco. Enquanto isso, milhares de brasileiros estão morrendo todos os dias”, disse.

Com isso, apoiadores do presidente elegeram Doria como alvo preferencial durante a pandemia do novo coronavírus. O governador de São Paulo foi um dos primeiros a colocar em vigor medidas severas de distanciamento social, como a quarentena, decretada no dia 22 de março e prorrogada até o dia 31 de maio. Desde 7 de maio os paulistas também são obrigados a usar máscaras em lugares públicos para tentar reduzir a contaminação. A informação falsa a respeito de David Uip é relevante, pois o médico é uma figura estratégica na política de isolamento adotada pelo Estado.

Alcance

O vídeo com informações falsas publicado no canal de YouTube Pais e Filhos teve 139 mil visualizações até a publicação desta verificação.

Pandemia

Investigado por: 2020-05-14

Nem todos pacientes de covid-19 de hospital do Piauí receberam alta após tratamento com cloroquina

  • Enganoso
Enganoso
Textos omitem que ainda há pacientes em tratamento domiciliar e também em leitos ambulatoriais no hospital e o próprio médico que aparece no vídeo diz que as informações foram distorcidas. Além disso, não existe nenhum registro científico ou comparativo de que a melhora clínica dos pacientes foi exclusivamente por conta das medicações

Faltam informações nas publicações que dizem que um hospital no Piauí curou pessoas com covid-19 e esvaziou UTIs com uso da medicação cloroquina. O conteúdo usa um vídeo verdadeiro, gravado pelo médico oncologista Saba Vieira em 8 de maio, no qual ele relata um protocolo adotado pelo médico Justino Moreira, diretor clínico do Hospital Regional Tibério Nunes, em Floriano, para o tratamento precoce de pacientes com o novo coronavírus.

Mas os textos omitem que ainda há pacientes em tratamento domiciliar e também em leitos ambulatoriais no hospital. Além disso, não existe nenhum registro científico ou comparativo de que a melhora clínica dos pacientes foi exclusivamente por conta das medicações.

No vídeo, Vieira diz que no tratamento oferecido pelo hospital há “duas janelas de oportunidade” para quem contraiu a doença. A primeira é a aplicação de cloroquina com azitromicina em pacientes que apresentaram sintomas de um a sete dias. A segunda é o uso de corticoides em pacientes que apresentam sintomas depois de sete a doze dias. Com a repercussão do vídeo, o médico que fez a gravação compartilhou em seu Facebook uma das publicações e escreveu que “o conteúdo e o título estão distorcidos”. Ele não atendeu às solicitações de entrevista feitas pelo Comprova.

Justino confirmou que desde 2 de maio vem adotando essas duas abordagens para pacientes que estão com comprometimento pulmonar e não têm comorbidades. Ao todo, 15 pessoas foram submetidas ao protocolo, com prognóstico positivo, mas ainda não há evidências suficientes para dizer que estão curadas. Isso porque, apesar de os pacientes terem apresentado melhora clínica, apenas cinco já tiveram alta. Quatro ainda estão em tratamento domiciliar e os outros seis seguem internados em leitos clínicos. Nem todos passaram pelos exames necessários de radiografia para receber o laudo de alta da covid-19. A OMS (Organização Mundial da Saúde) também não reconhece nenhum medicamento ou vacina para a covid-19.

Justino afirmou que reavaliaria o caso das pessoas tratadas nesta quinta-feira, 14, último dia do tratamento experimental. Também é importante destacar que a experiência no hospital do Piauí não tem um grupo de controle. Ou seja, não há pacientes que não fizeram uso do tratamento para fins científicos de comparação. O próprio Justino ressalva que o número de pessoas tratadas em Floriano é pequeno e ainda não serve como evidência científica para a eficácia da cloroquina ou do corticoide contra a covid-19.

De acordo com o médico, as publicações que divulgaram o uso de cloroquina não citam que pacientes ainda estão em tratamento e que há ao menos seis pessoas internadas com covid-19 nos leitos ambulatoriais. Justino afirmou que o uso de corticoide é o que mais tem dado resultado. “Não gosto da forma com que foi colocada [na notícia] a cloroquina como solução. O foco é a corticoterapia”, disse ao Comprova.

A medicação, segundo afirma Justino, tem evitado que a doença se agrave a ponto de necessitar de intubação e, consequentemente, internação na UTI. O Hospital Regional Tibério Nunes, localizado no interior do Piauí, tem 10 leitos de Unidade de Terapia Intensiva e 15 leitos de ambulatório destinados à covid-19.

Até esta quinta-feira, 14, não havia pacientes em estado grave na UTI. No ambulatório há pacientes internados, mas nem todos têm indicação para receber o tratamento, por estarem em fases diferentes da infecção ou apresentarem outras doenças prévias.

Apesar de o tratamento estar em curso, até agora, o governo do Piauí não divulgou nenhum protocolo público para adoção dessa modalidade para pacientes com a doença. O hospital também não têm evidências científicas que comprovem a “cura”, como afirmam as publicações, por conta exclusivamente dos medicamentos.

Apenas nesta quarta-feira, 13, o governo do Piauí anunciou a criação de um comitê médico para estudar, avaliar e definir o uso de cloroquina, hidroxicloroquina e corticoides, entre outros medicamentos que auxiliem no tratamento. O Comprova questionou o governo do Estado sobre o tratamento adotado e a falta de acompanhamento técnico dos protocolos, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem.

Os protocolos que têm sido utilizados no Hospital Regional Tibério Nunes foram estabelecidos por uma médica que nasceu em Floriano, no Piauí, mas atualmente trabalha no hospital HM Puerta del Sur, localizado em Madrid, na Espanha. Ela compartilha documentos e vídeos em seu Instagram sobre as dicas para o uso do corticoide contra a covid-19.

Recentemente, o YouTube retirou do ar um de seus vídeos indicando a medicação. O Comprova confirmou em mensagem enviada ao Twitter do hospital espanhol que ela é funcionária, mas não obteve resposta sobre os protocolos de tratamento utilizados.

Por que investigamos isso?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos compartilhados nas redes sociais sobre o novo coronavírus e a covid-19 que tenham grande viralização. O conteúdo desta verificação foi sugerido por dezenas de leitores que receberam o link por WhatsApp ou se depararam com ele em redes sociais. Um único link foi compartilhado no Facebook mais de 500 vezes.

Muitas das informações enganosas que o Comprova tem verificado estão relacionadas a tratamentos com drogas que ainda estão em fase de testes sem que haja consenso sobre benefícios no combate à covid-19. Boatos e informações descontextualizadas sobre medicamentos podem levar à automedicação e provocar danos à saúde ou relaxamento dos cuidados com a higiene pessoal e isolamento social recomendadas pelas autoridades de saúde como medidas essenciais para diminuir a velocidade de transmissão do novo coronavírus.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor, que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

O Comprova entrou em contato com o governo do Piauí para chegar ao diretor clínico do Hospital Regional Tibério Nunes, Justino Madeiro. Em conversa por telefone, o médico explicou como tem sido o tratamento de pacientes em Floriano, interior do Estado. A equipe também consultou a Secretaria de Saúde da cidade.

Além disso, entrevistamos Gerson Salvador, infectologista associado da Sociedade Paulista de Infectologia e médico do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP).

Verificação

Após a repercussão do vídeo de Sabas Vieira, o Ministério Público Federal do Piauí cobrou que o governo do Estado e a prefeitura da capital, Teresina, adotassem o protocolo aplicado no hospital de Floriano. Vieira é citado pelo MPF como um dos principais defensores do tratamento.

Corticoides são potentes anti-inflamatórios e são muito usados para tratamento de doenças autoimunes, aquelas em que o próprio corpo produz uma resposta contra o organismo, como lúpus.

O uso dos corticoides para pneumonias virais, no entanto, não se mostrou eficaz em estudos anteriores à pandemia do novo coronavírus. Para a covid-19 ainda não há nenhum estudo científico comprovado que possa ser usado para defender ouso, como explica Gerson Salvador, infectologista associado da Sociedade Paulista de Infectologia e médico do Hospital Universitário da USP.

“Os corticoides foram estudados e estão em estudo na covid-19, mas em estudos de pneumonias virais (influenza e outras causadas por outros tipos de coronavírus) anteriores foram vistos dois efeitos: alguns aumentam mortalidade, após altas doses por tempo prolongado, e também aumenta o tempo em que a carga viral é detectável, o vírus fica mais tempo no organismo”, explica.

O infectologista alerta, ainda, para efeitos colaterais vistos em pacientes com pneumonias virais tratados com corticoides, tais como: hiperglicemia e psicose (alterações psiquiátricas).

O especialista ressalta que para a covid-19 ainda não há uma conclusão sobre o uso dos corticoides. “O médico que quer fazer esse estudo tem que submeter ao Comitê de Ética primeiro”, completa.

O uso de corticoides também está sendo testado em pacientes do Vila Nova Star, hospital de São Paulo. Ainda não foi publicado estudo que comprove a eficácia deste tratamento. Recentemente, o Hospital Sírio Libanês também iniciou protocolo de pesquisa com o medicamento dexametasona, um tipo de corticoide.

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) recomenda cuidado para pessoas que já se medicavam com corticoides e apresentam sintomas da covid-19. Para os pacientes que usam a substância como terapia anti-inflamatória e imunossupressora, é recomendado avaliar com o médico a redução no uso.

Contexto

A cloroquina tem sido citada em vários conteúdos enganosos online como a cura para a covid-19. No entanto, o Ministério da Saúde e a Organização Mundial de Saúde esclarecem que ainda não há um tratamento comprovadamente eficaz contra a doença causada pelo novo coronavírus.

A cloroquina e a hidroxicloroquina passaram a protagonizar desinformação nas redes sociais após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apontar o medicamento como possível cura da covid-19. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores também têm insistido na eficácia do remédio contra a doença, sem comprovação científica.

Uma análise do site de checagem Aos Fatos mostrou que vários congressistas da base de apoio de Bolsonaro divulgaram informações incorretas sobre o medicamento — o principal deles foi o ex-ministro Osmar Terra (MDB-RS).

Alcance

O conteúdo verificado pelo Comprova foi sugerido pelos leitores. Ele foi publicado em sites e compartilhado em diversas páginas de redes sociais e em aplicativos de mensagens. Apenas uma dessas postagens foi compartilhada no Facebook mais de 500 vezes e somava 436 mil interações até esta quinta-feira, 14 de maio.

 

Pandemia

Investigado por: 2020-05-14

Sepultamentos cresceram 47% no cemitério Vila Formosa em São Paulo entre março e abril

  • Falso
Falso
Homem que aparece em vídeo que viralizou no Facebook mostrando covas vazias e dizendo que o número de sepultamentos está normal não é funcionário do governo. As imagens foram captadas em uma das unidades do cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, em um dia em que não havia sepultamentos no local

Em um vídeo compartilhado nas redes sociais, um homem que se apresenta como funcionário do governo diz que o cemitério da Vila Formosa tem covas abertas, mas não está realizando mais sepultamentos do que antes da pandemia do novo coronavírus. O Comprova apurou que o vídeo foi realmente gravado no Complexo Cemiterial Vila Formosa, na zona leste de São Paulo, mas traz informações erradas.

O complexo é dividido em dois cemitérios – Vila Formosa I e Vila Formosa II – e as duas unidades alternam os dias de enterros. Assim, enquanto em uma unidade estão sendo feitos os sepultamentos, na outra são realizados somente os serviços de limpeza e de exumação de corpos. O vídeo foi gravado no cemitério da Vila Formosa l em um dia em que os sepultamentos estavam sendo feitos na segunda unidade.

Além disso, o homem que aparece dando informações não é funcionário do Serviço Funerário, que é de responsabilidade da Prefeitura Municipal de São Paulo.

Ao contrário do que afirma o narrador do vídeo, houve 47% de aumento no número de pessoas enterradas de março a abril deste ano. Ou seja, depois que o país começou a lutar contra a pandemia de covid-19 – doença causada pelo novo coronavírus.

Por que checamos isto?

No monitoramento que faz de mensagens suspeitas que circulam em redes sociais e aplicativos de mensagens sobre o novo coronavírus e a covid-19, o Comprova vem observando um crescimento na circulação de boatos sobre números de mortes causadas pela doença, falseamento de atestados de óbitos e conteúdos falsos sobre caixões e sepultamentos.

Tais boatos tentam minimizar os efeitos da pandemia e podem fazer com que as pessoas que neles creem relaxem os cuidados com a higiene pessoal e o distanciamento social, ações de contenção do espalhamento do vírus recomendadas pelas autoridades de saúde.

O cemitério de Vila Formosa se transformou em um dos principais alvos desses boatos depois que a prefeitura da capital paulista anunciou a abertura de 8 mil novas valas.

Como verificamos?

Procuramos pela publicação original usando a plataforma de monitoramento de conteúdo Crowdtangle e chegamos a um perfil pessoal no Facebook. Entramos em contato com o usuário em um número de telefone disponível em seu feed de notícias. Perguntamos sobre a autoria do vídeo e ele negou. Informou que recebeu o vídeo em um grupo de WhatsApp e o publicou no Facebook.

Entramos em contato com a assessoria de comunicação da Secretaria Municipal das Subprefeituras da Cidade de São Paulo (SMSUB), responsável pelo Serviço Funerário Municipal. Também consultamos o Plano de Contingenciamento Funerário para confirmar as informações prestadas.

Verificação

O vídeo que circula pelas redes sociais mostra um homem vestido com o que parece um uniforme falando com outro, que está dentro de um carro e que grava a conversa. Não é possível ler as informações do crachá, mas o homem que grava a cena o identifica como “funcionário do governo” e diz que ele trabalha no cemitério, onde não estariam ocorrendo mais enterros que o normal.

A Prefeitura de São Paulo, responsável pelo Complexo Cemiterial Vila Formosa, nega que ele seja funcionário do Serviço Funerário e afirma que houve aumento no número de sepultamentos em toda a cidade.

Na conversa, o autor do vídeo pergunta qual a média de enterros por dia. O homem responde: “Até agora não vi nenhum (…) As covas estão abertas, mas não tem ninguém morrendo nem enterrando ninguém. É uma jogada política. O que morre de gente é o dia-a dia normal e as covas estão todas abertas sem ninguém. Todas abertas para deixar o pessoal em pânico”, disse na conversa.

A assessoria de comunicação da Secretaria Municipal das Subprefeituras da Cidade de São Paulo (SMSUB), da Prefeitura de São Paulo, nega a falta de enterros. O órgão, responsável pelo Serviço Funerário Municipal, explicou ao Comprova que o Complexo Cemiterial Vila Formosa é o maior da América Latina e é dividido em Vila Formosa I e Vila Formosa II.

De acordo com a Secretaria, o vídeo foi gravado no cemitério da Vila Formosa l, em frente à área onde ocorrem os velórios.

Ainda segundo a assessoria, os sepultamentos são feitos em dias alternados em Vila Formosa I e II. Isto quer dizer que todo dia um dos cemitérios fica sem sepultamentos para que sejam realizados os serviços de limpeza e de exumação de corpos.

Além disso, afirmou que houve aumento de enterros. Em março deste ano foram registrados 1.131 e em abril foram 1.668 — crescimento de 47%. Pensando na maior demanda de sepultamentos durante a pandemia da covid-19, a prefeitura elaborou um Plano de Contingenciamento Funerário para garantir o funcionamento adequado do Serviço Funerário Municipal.

Entre as medidas do Plano, anunciadas em 23 de abril, estavam a abertura de 8 mil valas no cemitério da Vila Formosa, 3 mil no São Luiz e 2 mil no Vila Nova Cachoeirinha. São essas valas anunciadas no cemitério que aparecem abertas no vídeo.

Contexto

O vídeo foi publicado em um momento em que há divergência de opiniões sobre o isolamento social. O presidente da República, Jair Bolsonaro, defende a retomada das atividades econômicas, assim como muitos dos seus apoiadores. Essa visão contraria as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, que recomendam políticas de distanciamento social para evitar a disseminação do novo coronavírus e, consequentemente, o aumento do número de casos da covid-19.

Os governos estaduais mantêm o isolamento em seus Estados. De acordo com a Constituição Federal, em casos de saúde pública, como a pandemia de covid-19, não há hierarquia entre os entes da federação. Ou seja, um decreto federal não vale mais que um estadual. Cabe ao Poder Judiciário decidir qual política pública obedece melhor às leis.

Contestar os números oficiais de óbitos é uma das táticas utilizadas por disseminadores de desinformação para causar indignação na população. Uma corrente falsa de whatsapp utilizou dados falsos de óbitos por covid-19 para erroneamente dizer que teriam morrido menos pessoas no começo de 2020 em comparação ao mesmo período de 2019.

Já no Amazonas, onde foi preciso adotar os sepultamentos coletivos para atender à demanda de enterros, o governo foi acusado de enterrar caixões vazios para causar pânico na população. No mesmo estado, um boato nas redes sociais dizia que o número de mortes teria caído depois de uma visita do ministro da Saúde Nelson Teich.

Alcance

O vídeo ganhou grande repercussão com a sua postagem numa conta pessoal no Facebook. A publicação, do dia 2 de maio, já passa de 62 mil compartilhamentos e teve aproximadamente 620 mil visualizações até o dia 12 de maio.

O conteúdo foi republicado por páginas como “Metralhando a Corrupção” e “Nas Ruas”.

Pandemia

Investigado por: 2020-05-13

É falso que máscaras reduzam imunidade e potencializem a proliferação de bactérias

  • Falso
Falso
Ao contrário do que diz um vídeo publicado no YouTube e verificado pelo Comprova, tanto máscaras cirúrgicas quanto artesanais, feitas de pano, dispõem de filtros que permitem a passagem do oxigênio e filtram partículas que possam estar infectadas pelo novo coronavírus. Usadas em acordo com as recomendações médicas, as máscaras são recomendadas para reduzir as taxas de transmissão do novo coronavírus

São falsas as informações divulgadas em um vídeo no YouTube segundo o qual as máscaras de proteção de pano e de uso profissional recomendadas por autoridades sanitárias prejudicam a imunidade dos usuários. As máscaras são classificadas pelos órgãos de saúde como importantes instrumentos para diminuir as taxas de transmissão do novo coronavírus.

O vídeo de oito minutos foi gravado e divulgado por Daniél Rocha em seu canal no YouTube no dia 6 de maio e teve mais de 33 mil visualizações. Nas imagens, Rocha faz diversas afirmações contra o uso de máscaras, como a de que o aparato diminui a imunidade, aumenta a inspiração de dióxido de carbono e potencializa a proliferação de bactérias. Nenhuma das alegações é verdadeira.

Por que checamos isto?

O Comprova fez essa verificação pois o conteúdo do vídeo é potencialmente danoso à saúde pública, tendo em vista que diversas autoridades sanitárias têm recomendado o uso das máscaras para reduzir a possibilidade de contaminação pelo novo coronavírus.

Em circulação desde o fim de 2019, o novo coronavírus já matou mais de 290 mil pessoas no mundo, segundo a Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos.

Como verificamos?

O Comprova selecionou afirmações do vídeo sobre o uso das máscaras para o combate ao novo coronavírus e questionou três médicos infectologistas sobre o assunto. A reportagem ainda tentou falar com Daniél Rocha, mas não obteve retorno. Também consultamos a Organização Mundial de Saúde (OMS), citada no vídeo.

O que dizem os especialistas

O Comprova questionou três infectologistas sobre as afirmações do vídeo e a eficácia do uso de máscaras contra o novo coronavírus: Jean Gorinchteyn e Guilherme Spaziani, do Instituto de Infectologia Hospital Emílio Ribas, de São Paulo; e Antonio Carlos Bandeira, integrante da diretoria da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Primeiro, a filmagem afirma que “se você usa máscara, você vai respirar menos oxigênio ainda, você vai respirar mais dióxido de carbono”. Segundo os três especialistas, isso é falso.

Gorinchteyn explica que as máscaras têm pequenos filtros, que impedem a passagem de gotículas e partículas maiores, mas permitem a troca do ar. Segundo o infectologista, o grau de proteção depende do material utilizado na produção do equipamento de proteção. Mas, tanto as máscaras cirúrgicas quanto as artesanais, feitas de pano, não impedem a respiração. “Os poros não evitam a passagem do ar, são filtros, filtram partículas. Os gases têm tamanho muito menor e conseguem passar”, ressaltou o médico.

Antonio Carlos Bandeira destaca que os tecidos habitualmente usados nas máscaras artesanais não impedem a respiração. Ele recomenda que a confecção seja com algodão: “Tem que ter cuidado de não usar um tecido com gramatura tão alta que impeça o indivíduo de respirar. Se for de algodão, ou com a gramatura adequada, são mais fáceis de ventilar porque as aberturas são maiores. Só teria uma situação assim (de dificuldade de respirar) se for um tecido super fechado. Mas não é o que a gente vê que está sendo usado”.

O vídeo também diz que “pessoas que usam máscara terão mais bactérias na boca, mais bactérias na gengiva, mais bactérias atacando seus dentes, no trato respiratório e, consequentemente, nos pulmões”.

Guilherme Spaziani explicou que o ser humano já tem bactérias próprias da mucosa e de outros lugares do corpo, mas que o uso da máscara de proteção não aumenta o número desses organismos. “Não é porque tem o anteparo na frente do rosto que vamos ter mais bactérias. Essas bactérias precisam estar lá no nosso organismo e ficam na mesma quantidade”, disse.

Gorinchteyn lembra que, apesar de as máscaras não aumentarem a quantidade de bactérias na boca, é preciso trocá-las em um intervalo regular: de 2 h para máscaras cirúrgicas e de 1h30 para equipamentos de pano. “Elas ficam úmidas, pelo ato de falar, transpirar e acabam perdendo o papel de proteção”, completou.

Por fim, os três especialistas destacam que o uso de máscara não diminui a imunidade. “A imunidade é composta por proteínas que são anticorpos e não vai ser prejudicada por usar um objeto na frente do rosto, seja de pano ou hospitalar”, comentou Spaziani.

Jean Gorinchteyn ressaltou que a máscara protege de infecções. “A máscara vai evitar que você esteja exposto aos agentes infecciosos”.

Os três médicos reforçam a importância do uso de máscaras para as pessoas que precisam sair de casa, mas ressaltam que são necessárias outras medidas para evitar o contágio pelo novo coronavírus. “A máscara não é um passaporte para andar na rua, até porque tem outros tipos de contágio, como pelo toque. É preciso lavar sempre as mãos”, completou o doutor Spaziani.

A Sociedade Brasileira de Infectologia criou programas de conscientização sobre a importância do uso de máscaras por quem precisa sair de casa. O “Máscara para Todos” é um deles.

“A gente tem procurado estimular o uso de máscaras pela população para que as pessoas saiam de máscara e voltem de máscara, usando continuamente e respeitando o tempo de uso. A ideia é que isso, somado ao distanciamento social e outras medidas, ajude a reduzir as taxas de transmissão do coronavírus”, finalizou Antonio Carlos Bandeira.

Quem é Daniél Rocha?

Daniél Rocha é o dono do canal do YouTube “Daniél Rocha – Alkaline Man”, com 120 mil seguidores.

Não há indicação no canal ou em seu site oficial sobre a formação profissional de Rocha. No site, Daniél vende livros e seminários sobre emagrecimento com saúde. Ele se descreve como “difusor da Alimentação Alcalina no Brasil”. No texto de apresentação, o youtuber diz ser “referência em Emagrecimento, sem intervenções cirúrgicas, pesquisador empírico, renomado como Mestre do Emagrecimento e Desintoxicação no Brasil”.

No YouTube, Daniél Rocha publica conteúdos sobre alimentação e, mais recentemente, sobre o novo coronavírus. Um deles, publicado há três meses, com o título “A farsa do coronavírus”, tem 159 mil visualizações.

O Comprova entrou em contato com Daniél por e-mail, questionando quais eram as fontes das afirmações do vídeo, mas não obteve resposta.

George Soros não comanda a OMS

No vídeo, Rocha afirma, ainda, que o megainvestidor George Soros, fundador da organização filantrópica Open Society Foundation, “comanda a OMS (Organização Mundial da Saúde) e tem interesse na redução populacional”.

Ao Comprova, a OMS informou que Soros não tem qualquer relação com a entidade, seja como empregado ou como embaixador. A reportagem não encontrou indícios de que o bilionário húngaro-estadunidense tenha relação com a instituição.

A OMS é parte do complexo de agências das Nações Unidas e foi criada pela Conferência Internacional de Saúde, realizada em 22 de julho de 1946, após o fim da Segunda Guerra Mundial, com a chancela de 61 países. A entidade começou a funcionar em 7 de abril de 1948. O diretor-geral da OMS, atualmente, é o etíope Tedros Adhanom.

Soros anunciou que doará US$ 130 milhões para o combate à pandemia, principalmente em regiões mais afetadas nos Estados Unidos, como o Estado de Nova Iorque.

Segundo reportagem da BBC Brasil de 2018, Soros é criticado pela direita por financiar ONGs de defesa de direitos humanos. O bilionário é personagem frequente de boatos falsos online, como o que ele é avô da ativista Greta Thunberg, que investiu na “destruição” do presidente Jair Bolsonaro e que empregava o presidente do partido Novo, João Amoêdo.

As orientações da OMS para o uso de máscaras estão neste link.

Contexto

Vários Estados e municípios tornaram obrigatório o uso de máscaras de proteção em ambientes públicos a partir de abril, seguindo recomendação do Ministério da Saúde. O aparato passou a ser considerado importante para prevenção, mesmo entre pessoas sem sintomas da covid-19. Em São Paulo, por exemplo, Estado com o maior número de casos do novo coronavírus, o item é obrigatório para quem sai na rua desde o dia 7 de maio.

A recomendação mudou após especialistas identificarem grande transmissão da doença entre pessoas assintomáticas. A máscara funciona, segundo especialistas, como uma barreira física. “O uso da máscara de pano de algodão de duas camadas é recomendado a todo momento na rua. Ela não vai te proteger, ela vai proteger o outro”, explicou o médico Guilherme Spaziani.

Alcance

O vídeo publicado no canal do Youtube de Daniél Rocha teve 33 mil visualizações com mais de 800 comentários sobre o tema.

 

Pandemia

Investigado por: 2020-05-13

Cloroquina não é alvo de conspiração a favor do remdesivir

  • Enganoso
Enganoso
Há estudos em andamento para verificar a eficiência de ambas as drogas no tratamento de pacientes com covid-19 e governantes que defendem abertamente o uso de cloroquina, caso de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Além disso, não há registro de que o homem que aparece no vídeo verificado pelo Comprova esteja envolvido no tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus

Em um vídeo que circula na internet, um homem que se identifica como médico especialista em ortopedia afirma que a cloroquina é alvo de uma conspiração, por parte de governos e da indústria farmacêutica, que teriam interesse na utilização de uma droga chamada remdesivir – muito mais cara – no tratamento dos pacientes com a covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus.

Na postagem, que é o trecho de uma transmissão ao vivo de mais de uma hora de duração, Cláudio Agualusa afirma que a cloroquina já é usada sem restrições há anos, no tratamento de outras doenças, e que a relutância na adoção de um protocolo que inclua a substância é uma tentativa de ampliar a comercialização de uma droga desenvolvida por um laboratório americano, que custaria “milhões”.

As alegações são enganosas. Primeiro, há governantes que defendem abertamente o uso da cloroquina, casos de Donald Trump e Jair Bolsonaro. Segundo, o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com a covid-19 ainda é objeto de estudos clínicos em todo o mundo, inclusive em uma iniciativa liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, a coordenação é da Fiocruz. Do mesmo modo, o remdesivir ainda está sendo avaliado no combate à doença.

Por que checamos isto?

O Comprova monitora conteúdos duvidosos sobre o novo coronavírus e sobre a covid-19 compartilhados nas redes sociais e aplicativos de mensagens que tenham grande alcance nas redes sociais. O vídeo investigado pelo Comprova alcançou 44 mil compartilhamentos em somente uma das publicações encontradas.

A cloroquina e a hidroxicloroquina têm estado no centro de inúmeros rumores que circulam, em especial, nos Estados Unidos e no Brasil. Muitos desses boatos dizem que essas substâncias seriam a “cura” para a covid-19, o que poderia desmobilizar a sociedade no enfrentamento da pandemia. Além disso, a cloroquina e a hidroxicloroquina só podem ser usadas sob orientação médica, pois têm efeitos colaterais significativos.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Para esta verificação, buscamos dados da Food and Drug Administration (FDA), órgão sanitário dos Estados Unidos, estudos recentes envolvendo o tratamento da covid-19 com hidroxicloroquina e contatamos um especialista em infectologia.

Buscamos o vídeo original com as falas de Agualusa, publicado originalmente numa transmissão ao vivo no Facebook dele e entramos em contato com os municípios onde o médico diz atuar e com o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro.

Também foram consultadas matérias jornalísticas, de veículos nacionais e internacionais, com informações sobre o tema.

Verificação

No vídeo, que circula pelas redes sociais e pelo Youtube, o médico Cláudio Agualusa defende a utilização de um protocolo barato para o tratamento de pacientes com a covid-19: administração do antibiótico azitromicina, de cloroquina ou hidroxicloroquina e de sulfato de zinco.

Apesar do baixo custo, o médico afirma que o tratamento não é adotado porque “eles” estão aguardando a possibilidade de utilização de um medicamento muito mais caro, o remdesivir.

A conspiração, segundo o médico, não é política, mas sim em prol do lucro da indústria farmacêutica, já que cada dose do medicamento custaria “milhões de dólares”.

O remdesivir

Trata-se, realmente, de um tratamento antiviral em investigação, administrado por infusão diária. Segundo anúncio do governo americano, no último dia 29, é o primeiro remédio capaz de melhorar a situação dos doentes de covid-19.

O FDA, que regula os medicamentos nos Estados Unidos, autorizou o uso de remdesivir em emergências, o que possibilita entrada da droga no mercado americano sem a exigência de dados completos sobre segurança e eficácia.

A droga, até então era classificada como uma “medicação órfã”, assim como apontado por Agualusa. Essa é uma forma de elencar fármacos destinados ao diagnóstico, prevenção e tratamento de uma doença rara ou negligenciada, cuja produção não é economicamente viável. Há dentro do FDA, o órgão instituído para promover a pesquisa e o desenvolvimento de drogas órfãs é o Office of Orphan Products Developement (OOPD).

Segundo o laboratório Gilead Science, que é responsável pelo desenvolvimento do remdesivir, a droga é fruto de uma pesquisa desenvolvida há mais de uma década e sua aplicação já foi testada em doenças como a Ebola, por exemplo. Em entrevista à NPR, National Public Radio, organização de mídia parcialmente financiada pelo governo dos EUA, uma representante do laboratório disse que o medicamento ainda não tem um preço definido, mas que um suprimento inicial, de 1,5 milhão de doses da droga, foi doado para o tratamento de pacientes com covid-19.

Em um modelo apresentado pelo Institute for Clinical and Economical (ICER) – entidade voltada para a precificação e análise da efetividade clínica de medicamentos, localizada em Boston (EUA) –, o tratamento com o remdesivir deve custar entre 10 e 4,5 mil dólares. A estimativa leva em conta o custo de produção e a efetividade do medicamento. Apesar do valor máximo ser alto – mais de R$ 26 mil, considerada a cotação do dólar americano no dia 12 de maio –, a quantia está bem distante dos “milhões de reais” a que Agualusa se refere no vídeo.

Sobre a utilização do medicamento no Brasil, que, segundo Claudio Agualusa, só começaria depois de um número muito maior de mortes, o ministro da Saúde, Nelson Teich, disse, na segunda-feira, 11 (portanto, depois da realização da live), que está condicionada à realização de estudos clínicos que comprovem a sua eficácia nos casos do novo coronavírus.

A cloroquina

O vídeo de Claudio Agualusa sugere a existência de campanha contra a hidroxicloroquina e a cloroquina, realizada pela indústria farmacêutica e governos, por conta do custo baixo do medicamento e do tratamento com seu uso associado.

As pesquisas mais recentes, publicadas em periódicos médicos importantes como o Journal of the American Medical Association e o The New England Journal of Medicine, não encontraram redução de mortalidade por covid-19 entre pessoas que foram medicadas com hidroxicloroquina.

O uso do medicamento em pacientes com o novo coronavírus, portanto, apesar de autorizado no Brasil, não é uma unanimidade. O Comprova entrou em contato com Estevão Urbano, presidente da Sociedade Mineira de Infectologia e Membro do Comitê de Enfrentamento à covid-19 de Belo Horizonte, que disse que não procede a crença de Agualusa na existência de uma conspiração contra a cloroquina. “Não existe nenhuma normatização ainda. Existem pouco remédios cientificamente testados, os usos empíricos são baseados em trabalhos muito frágeis”, afirmou.

Segundo Urbano, “a cloroquina está muito longe de ser comprovada como uma droga efetiva, e é por isso que ela não é, ainda, um consenso. Embora possa ter também seu papel, não é mais do que uma inferência, ainda, muito frágil.”

O tratamento sugerido por Cláudio Agualusa, inclusive, é o mesmo sugerido por um médico de Nova Iorque, e, como apurado pelo Comprova, ainda não tem comprovação científica.

Cláudio Agualusa

O homem que aparece no vídeo é o médico fluminense Cláudio Agualusa. Ele possui registro ativo junto ao Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro, e aparece em catálogos online, como o Doctoralia, e o CatálogoMed como especialista em Ortopedia e Traumatologia. Na live, aliás, ele também se identifica como ortopedista, diz já ter receitado cloroquina e hidroxicloroquina a pacientes com “artrites severas”. Não há qualquer indicação de que Agualusa esteja atuando diretamente no tratamento de pacientes com a covid-19.

Agualusa foi candidato a Deputado Estadual, no Rio de Janeiro, em 2018, pelo PRB. Em 2016, já havia se candidatado a prefeito de Búzios, pelo PRP. Não se elegeu em nenhuma das duas ocasiões.

O médico mantém um perfil ativo e uma fanpage no Facebook, onde publica vídeos e textos sobre o novo coronavírus e a covid-19. Ele também já realizou várias transmissões ao vivo — de mais de uma hora de duração — sobre o tema. Nas postagens, Agualusa defende a importância do isolamento social, fala sobre a higienização das mãos e de produtos e, principalmente, trata dos benefícios do tratamento realizado com a cloroquina.

O Comprova tentou entrar em contato com Agualusa, por meio de seu perfil no Facebook, mas não recebemos uma resposta. Na página oficial dele, não há a possibilidade de envio de mensagens privadas.

Contexto

Desde março, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem incentivando o uso da cloroquina e a hidroxicloroquina, normalmente prescritas no tratamento de doenças como malária, artrite e lúpus.

No mesmo mês, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, também passou a fazer o mesmo. Bolsonaro anunciou o aumento da produção da droga no país em 21 de março, e sua campanha em favor da substância foi um dos pontos de desentendimento com o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que não recomendava o uso indiscriminado do medicamento.

Desde então, apoiadores de Trump e Bolsonaro passaram a defender firmemente o uso das substâncias, cuja eficácia continua sob análise.

Alcance

Até as 16h30 do dia 12 de maio, o vídeo havia sido assistido 936 mil vezes vezes na página “Muda Ibertioga”, no Facebook, e 94 mil vezes no canal do YouTube associado à mesma página.