O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 41 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Pandemia

Investigado por: 2022-04-06

Máscaras ajudam a proteger contra transmissão e contaminação por covid-19

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Enganoso
Ao contrário do que afirma postagem no Twitter, o uso de máscaras serve tanto para que pessoas contaminadas com a covid-19 não transmitam a doença quanto para que pessoas saudáveis se protejam da contaminação.

Conteúdo investigado: Imagem publicada no Twitter mostra uma interação entre dois usuários da rede, na qual um deles afirma que máscaras não seriam eficazes para impedir a contaminação pelo novo coronavírus. “A máscara protege de não transmitir. De pegar, ela não protege”, escreveu o empresário e youtuber Peter Jordan, autor do post inicial que originou a interação.

Onde foi publicado: Twitter

Conclusão do Comprova: É enganosa postagem que circula pelo Twitter que afirma que as máscaras não protegem da infecção pelo coronavírus, e que o uso do item serviria apenas para impedir que infectados transmitam a doença. A afirmação foi feita pelo empresário e youtuber Peter Jordan. No dia 26 de março, ele fez um tuíte se queixando de que foi infectado pela covid-19 após circular com máscara por um shopping, onde poucas pessoas utilizavam o item.

Um usuário questionou como era possível ele ter pegado a doença, uma vez que as máscaras deveriam conferir proteção. “A máscara protege de não transmitir. De pegar, ela não protege”, escreveu Jordan. Uma imagem da sequência desses três tuítes foi postada por um outro usuário, no dia seguinte, 27 de março.

O post do youtuber em que ele relata a ida ao shopping foi apagado, mas a sequência do diálogo continua publicada. Na conversa, um quarto usuário pediu explicação sobre o argumento de Peter, mas o empresário apenas respondeu que não sabia como explicar e atribuiu a informação ao seu médico, mas não citou o nome do profissional. “Eu não sei explicar Rael (nome do usuário), foi meu médico que me disse. Eu geralmente confio nele”, escreveu Peter.

De acordo com autoridades sanitárias de todo o mundo, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e especialistas ouvidos pelo Comprova, o uso de máscaras é uma das principais medidas de combate à pandemia de covid-19, e serve para ambas as situações (evita que infectados transmitam a doença e que pessoas saudáveis sejam infectadas).

Ou seja, quando pessoas com covid-19 e pessoas saudáveis estão dividindo um mesmo ambiente, os riscos de contaminação podem ser muito reduzidos, desde que todos estejam usando máscaras de qualidade. O distanciamento social, a higienização das mãos e a ventilação em ambientes internos também são medidas importantes para diminuir o risco de contaminação.

A efetividade do uso das máscaras também depende do tipo de objeto utilizado e da forma que o item está colocado no rosto. Utilizar a mesma máscara por muito tempo ou de maneira incorreta contribui para a perda da efetividade. Máscaras do tipo PFF2 ou N95 asseguram um grau de filtragem das partículas externas de até 95%, que é maior do que as máscaras cirúrgicas (89%) de TNT (78%) e de algodão ou pano (40%).

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

O que diz o autor da publicação: A reportagem entrou em contato com Peter Jordan por meio de e-mail disponível em suas redes sociais. Inicialmente, não houve retorno, mas após a publicação da verificação ele se manifestou, afirmando ser defensor do uso das máscaras. Não foi possível entrar em contato com o responsável pela postagem do print com a sequência do diálogo porque o envio de mensagens diretas em seu perfil no Twitter é bloqueado.

Como verificamos: Como a postagem verificada foi feita no Twitter e traz o print de outra publicação na mesma plataforma, o primeiro passo da verificação foi buscar o post original. Neste procedimento, a equipe constatou que Jordan apagou a postagem em que relata ter ido ao shopping e, em seguida, ser diagnosticado com covid-19. No entanto, a resposta a um outro usuário – em que o youtuber afirma “A máscara protege de não transmitir. De pegar, ela não protege” – continua publicada.

Para entender se há base científica na afirmação de Jordan, o Comprova entrevistou os infectologistas Raphael Guimarães, do Observatório covid-19 da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e Boaventura Braz, do Hospital Estadual de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad (HDT), de Goiânia.

Além disso, a equipe também fez pesquisa em publicações oficiais da OMS em busca do histórico de recomendações da instituição sobre o uso de máscaras. Também realizamos um levantamento sobre outras verificações realizadas pelo Comprova sobre o tema.

Por fim, buscamos informações sobre as atuais regras de uso de máscara no Brasil e entramos em contato com Peter Jordan e o usuário do Twitter que publicou o print da postagem do youtuber.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 5 de abril de 2022.

 

Máscaras são importantes para proteger contra covid-19 e evitar transmissão

Desde que passou a recomendar o uso de máscaras como forma de prevenção à covid-19, em junho de 2020, a OMS destaca que a utilização do item serve tanto para evitar que o portador infectado transmita o vírus a terceiros, quanto para oferecer proteção contra a infecção ao usuário da máscara que esteja saudável. Atualmente, a OMS mantém o uso de máscaras listado no seu site como uma das formas de prevenção à covid-19, ao lado de diversas outras medidas, e ressalta que, dependendo do tipo, as máscaras “podem ser usadas para proteção de pessoas saudáveis, prevenir a transmissão, ou ambos”.

Ao longo de toda a pandemia, foram realizados diversos estudos e experimentos apontando a eficiência do uso das máscaras, alguns deles citados em checagens recentes do Comprova (1, 2 e 3). De acordo com artigo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), de dezembro de 2021, uma pessoa não vacinada sem máscara a uma distância de até três metros de outra, infectada pela covid-19 e também sem máscara, leva menos de cinco minutos para se infectar com o novo coronavírus, o que reforça a importância do uso do item. Segundo a mesma publicação, em situação idêntica, mas com ambas as pessoas com máscaras do tipo PFF2 ou N95, as chances de infecção pela doença são de apenas 0,1% e em um tempo de exposição quatro vezes maior (cerca de 20 minutos).

A importância do uso da máscara, independentemente de a pessoa estar infectada ou não, também é corroborada por especialistas ouvidos pelo Comprova. Para o infectologista Raphael Guimarães, as máscaras são eficientes tanto para pessoas não serem contaminadas, quanto para que os infectados deixem de transmitir o vírus, mas desde que seu uso seja feito da maneira correta.

“Alguns detalhes precisam ser observados. Por exemplo, o uso de uma mesma máscara por muito tempo, inevitavelmente, leva à sua perda de efetividade. Quanto mais tempo uma máscara é utilizada, mais úmida ela fica, por conta da respiração e da fala da pessoa, e a umidade faz o material perder efetividade”, explica o pesquisador, que ainda cita outros aspectos que podem contribuir para o mau funcionamento das máscaras: “O grau de vedação é um segundo ponto importante, porque não deve haver nenhum espaço ou buracos entre a máscara e o rosto. Assim, é importante observarmos se o elástico ao redor da orelha não está muito frouxo, ou se o clipe nasal está mal ajustado”, acrescenta Guimarães. “Não se trata apenas de usar máscara, mas de utilizá-la da forma correta”, pondera.

Por fim, Guimarães comenta que em um ambiente fechado em que há circulação de pessoas infectadas pela covid-19 e sem máscara (como provavelmente era o caso do shopping mencionado na postagem), qualquer descuido com o item, por mais breve que seja, pode resultar na infecção. “Tirar a máscara, que seja por poucos segundos para comer ou beber algo, por exemplo, pode ser o suficiente para entrar em contato com partículas contaminadas”.

O infectologista Boaventura Braz também afirma que estudos científicos mostram, até o momento, que o uso de máscara é eficaz para evitar transmitir e ser contaminado com covid-19. “Quando você está usando máscara, principalmente do tipo N95, pois estou falando das melhores máscaras para proteção, você consegue se proteger, sim”, afirma o médico.

A atual flexibilização do uso de máscaras

Nas últimas semanas, estados e prefeituras têm publicado decretos liberando a população da obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes abertos e fechados, sob o argumento de que há melhora no cenário epidemiológico. Dados do consórcio de veículos de imprensa, coletados a partir de informações das secretarias estaduais de Saúde, mostram que a média móvel de mortes pela covid-19 no Brasil é de 196. Entre os estados, 20 registram queda, cinco estão com dados estáveis e um, o Amazonas, tem alta.

Em relação à vacinação, 81,95% da população recebeu a primeira dose contra a covid-19. Já a segunda dose foi aplicada em 75,12%. Os dados foram atualizados no dia 5 de abril de 2022.

Na visão de Braz, a máscara deve continuar a ser usada em situações de aglomeração, tanto em ambientes fechados quanto abertos. Além disso, ele recomenda que pessoas com imunodepressão continuem fazendo o uso regularmente. “Em ambientes hospitalares, os profissionais com certeza devem manter uso de máscara, até para proteger pessoas que já estão com a saúde debilitada”, afirmou.

No dia 1º de abril, os ministérios do Trabalho e Previdência e da Saúde publicaram portaria com flexibilização do uso de máscaras em ambientes de trabalho. De acordo com o documento, fica dispensado o uso e fornecimento do objeto em estados ou municípios que deixaram de exigir a máscara em ambientes fechados. Em caso de aumento de casos de covid-19 localmente, a medida pode ser reavaliada.

A OMS já mudou seu posicionamento sobre uso de máscaras?

Embora o uso de máscaras seja hoje defendido por especialistas e autoridades sanitárias de todo o mundo, no início da pandemia, o entendimento não era exatamente o mesmo. Foi só em junho de 2020 que a OMS, por exemplo, passou a recomendar o uso das máscaras pela população em geral como forma de prevenção ao novo coronavírus.

Em um comunicado de abril de 2020, a OMS reconheceu que as máscaras eram uma forma de conter a disseminação do novo coronavírus, mas que o uso do item deveria ser direcionado para pessoas com sintomas ou já diagnosticadas com a doença. “No momento não há evidência de que o uso de uma máscara (seja cirúrgica ou de outros tipos) por pessoas saudáveis na comunidade em geral, incluindo o uso universal de máscara na comunidade, possa prevenir uma infecção por vírus respiratórios, inclusive a covid-19”, escreveu a entidade.

Na época, a OMS frisou ainda que o uso de máscara pela população saudável poderia criar uma “falsa sensação de segurança”, fazendo com que as pessoas negligenciassem outras medidas essenciais, como as práticas de higienização das mãos e o distanciamento físico. A organização citou ainda que o uso universal de máscaras poderia acarretar na falta do item para profissionais da saúde.

Dois meses depois, após novos estudos sobre o comportamento e as características de transmissão da covid-19, a OMS apresentou novos direcionamentos em relação às máscaras, passando a recomendar a utilização do item por toda a comunidade. “Para prevenir a transmissão da covid-19 com eficácia em zonas de transmissão comunitária, os governos devem encorajar o público em geral a usar máscaras em situações e ambientes específicos, como parte de uma abordagem abrangente para suprimir a transmissão do SARS-CoV-2”, escreveu a OMS. De acordo com a entidade, a recomendação do uso de máscaras por toda a população tinha como objetivo “evitar que o portador infectado transmita o vírus a terceiros, e/ou oferecer proteção contra a infecção ao utilizador [da máscara] saudável”. Ao longo de toda a pandemia, a OMS manteve essa recomendação.

Quem é Peter Jordan?

Peter Jordan é um empresário e produtor de conteúdo digital que atua no segmento geek. Ele é o fundador do site Ei Nerd, dedicado à cobertura de cinema, TV, games e histórias em quadrinhos. O canal do Youtube do Ei Nerd, onde Jordan apresenta vídeos sobre o universo geek e cultura pop, conta com mais de 12 milhões de inscritos. De acordo com informações da descrição do próprio canal, desde 2018 o Ei Nerd é eleito pelo Youtube como um dos 50 canais da plataforma mais influentes do Brasil.

Jordan também é dono de outros dois canais no Youtube: Nerds de Negócio e Peter Aqui, e é CEO da empresa de inovação digital e desenvolvedora de sites Pentaxxon. Ele possui cerca de 2 milhões de seguidores no Instagram e pouco mais de 520 mil no Twitter, onde o post sobre as máscaras foi feito.

Atualização em 7 de abril de 2022: Após a publicação desta checagem, a assessoria de Peter Jordan procurou o Comprova na manhã de quinta-feira, 7 de abril, para prestar esclarecimentos sobre o post. A assessoria alegou que não havia recebido o e-mail enviado pela equipe do Comprova inicialmente. No esclarecimento, Jordan afirmou que no dia seguinte à postagem, constatou que estava apenas com um resfriado, e não com covid-19, e que por isso o tuíte original foi deletado. A respeito da afirmação de que “máscaras não protegem contra a contaminação”, ele disse que se baseou em reportagens publicadas pela imprensa e “conversas informais com médicos”.

“No caso do post, não foi a minha intenção causar uma discussão, apenas compartilhei o que li: que algumas máscaras protegem a saída e não a entrada do vírus. Como já havia deletado o post principal e este era somente uma resposta isolada a uma pergunta de um seguidor, que também já tinha sido excluído, não me posicionei mais sobre o assunto, exatamente por não ter sido intencional nenhum tipo de questão além do post”, explicou Jordan.

Em relação à conclusão feita pela checagem do Comprova, Jordan disse que sempre usou e continuará usando e apoiando publicamente a utilização do item. “Por fim, reforço que posso ter me expressado mal mas, este post que mencionam, iniciou-se basicamente porque respondi uma pessoa que não defendia o uso de máscaras. Tentei com a resposta defender o uso e sua importância, como sempre farei! Além disso, aproveito para reforçar também, para quem não é profissional da saúde como eu, que sempre busquem sanar dúvidas com fontes oficiais e médicas. Estudar é sempre a melhor escolha”, acrescentou.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A divulgação de conteúdo falso relacionado ao uso de máscaras por causa da covid-19 pode levar a população a deixar de usar o objeto mesmo em situações de aglomeração, o que pode provocar o aumento de casos da doença.

Alcance da publicação: Até o dia 6 de abril de 2022, a postagem teve 7,7 mil interações no Twitter.

Outras checagens sobre o tema: Em reportagens publicadas recentemente, o Comprova mostrou que é falso que o Brasil tenha sido escolhido pela OMS como um dos três países que melhor atuaram no combate à pandemia. O projeto também já verificou que um texto no Telegram espalha teoria conspiratória sobre tratado internacional da OMS e que vacinas de mRNA não são terapia genética e não causam covid-19.

 

 

Política

Investigado por: 2022-04-05

Polícia Federal nega que ONGs que atuam na Amazônia transportaram ouro ilegalmente como afirma publicação

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Enganoso
São enganosas as publicações nas redes sociais que atribuem transporte ilegal de barras de ouro a ONGs que atuam na Amazônia. As publicações usam o vídeo de uma abordagem policial que encontrou barras de ouro dentro de peças de carro. A ação ocorreu em Goiás e acarretou na prisão de contrabandistas que faziam a extração de ouro de forma irregular no interior do Pará.

Conteúdo investigado: Vídeo publicado nas redes sociais mostra um militar abrindo uma peça de motor e encontrando dentro dele uma grande quantidade de envelopes com barras de ouro. Na legenda, os autores das publicações afirmam ser uma investigação do Exército brasileiro, que desconfiava da quantidade de motores enviados por ONGs que atuam na Amazônia para fora do país para conserto.

Onde foi publicado: Facebook, Telegram e Youtube

Conclusão do Comprova: São enganosas as publicações que usam vídeo de uma apreensão de ouro para culpar ONGs que atuam na Amazônia. Essas publicações associam indevidamente uma ação da Polícia Militar – que acarretou em uma apreensão de ouro escondido dentro de peças de carros – a uma investigação do Exército brasileiro sobre o envio para conserto no exterior de motores de veículos de ONGs que atuam na Amazônia. Ao Comprova, a Polícia Militar e a Polícia Federal negaram a participação de ONGs no caso.

O vídeo mostra na verdade uma apreensão feita pela Polícia Militar do estado de Goiás durante uma abordagem na cidade de Montes Claros de Goiás, no Centro-Oeste. Os policiais apreenderam 19 barras, com mais de 11 quilos ao todo, e que somavam mais de R$ 4 milhões. Os dois ocupantes do veículo foram presos. Conforme a Polícia Militar, o ouro seria oriundo de garimpos ilegais no interior do estado do Pará.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos, que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

O que diz o autor da publicação: Os autores das publicações foram procurados pelas redes sociais e até o momento não retornaram os questionamentos do Comprova.

Como verificamos: Com a utilização do Youtube DataViewer e do InVid, ferramentas gratuitas que permitem a análise de vídeos, foi possível fazer a busca reversa no Google e nas redes sociais usando frames, imagens congeladas do vídeo, e encontrar outras publicações semelhantes.

Entre as opções destacadas pelas ferramentas estavam vídeos com descrições iguais ao vídeo investigado e matérias dos sites Metrópoles e Jornal Opção, ambas com data de publicação anterior aos vídeos afirmando ser uma operação do exército contra ONGs, que mostravam uma abordagem policial que tinha apreendido cerca de 11 quilos de ouro em uma cidade no interior de Goiás.

O Comprova procurou a Polícia Militar de Goiás e a Polícia Federal sobre o caso.

 

Ouro foi apreendido em Goiás

Em 18 de fevereiro deste ano, a Polícia Militar de Goiás, por meio do Comando de Operações de Divisas (COD), apreendeu 19 barras de ouro durante a abordagem de uma caminhonete em Montes Claros de Goiás, distante 270 quilômetros de Goiânia. A ocorrência foi descrita pela própria corporação em seu site oficial (veja aqui).

Conforme a polícia, a presença de uma peça de câmbio avulsa na carroceria do carro chamou atenção. Ao abrir a peça, a equipe encontrou o ouro. Ao todo foram localizadas 19 barras com tamanhos e pesos diversos. O material apreendido totalizou 11,3kg.

Ainda de acordo com a nota da polícia, o metal precioso era proveniente de garimpos e explorações ilegais. Os dois ocupantes do veículo foram presos em flagrante e conduzidos para a Polícia Federal de Goiânia.

O ouro e o carro foram apreendidos. O prejuízo calculado pelos polícias com a ação era de R$ 4 milhões.

Vídeo da apreensão foi divulgado por jornais

O Metrópoles divulgou em seu canal no Youtube um vídeo da apreensão. As imagens são as mesmas que foram usadas na publicação verificada. Além do vídeo, o portal publicou matéria sobre o caso.

A ação policial também foi noticiada pelo Jornal Opção. A matéria ainda divulga o vídeo do momento da apreensão.

O Estadão Verifica também apurou o conteúdo no último mês de março e chegou à mesma conclusão de que o vídeo de apreensão de ouro em peça mecânica não tem relação com ONGs da Amazônia.

Polícia Militar e Polícia Federal negam envolvimento de ONGs

A Polícia Militar de Goiás confirmou ao Comprova o caso e as circunstâncias. A corporação afirmou que nenhuma relação com ONG foi feita durante o trabalho dos PMs.

Já a Polícia Federal revelou que o ouro apreendido foi apresentado e que duas pessoas foram presas. A investigação da PF não determinou nenhuma relação entre o ouro e ONGs.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais.

Sobre o conteúdo aqui investigado, o Comprova apurou postagens que estão desinformando sobre a operação da PM de Goiás que prendeu dois suspeitos de transportarem minério extraído de garimpo ilegal. O boato amplamente divulgado em redes sociais e aplicativos insinua que ONGs que atuam na Amazônia seriam as responsáveis pelo ouro encontrado escondido em peça mecânica e que as organizações também estariam praticando crimes ambientais na Amazônia.

Alcance da publicação: No Facebook, até 4 de abril de 2022, a postagem teve 1,1 mil visualizações e 468 interações. No Twitter, até 4 de abril, a publicação alcançou 1.998 views.

Outras checagens sobre o tema: Em outras verificações, o Comprova já mostrou que um vídeo de protesto contra Lula em show de Marina Sena é falso e que um tuíte distorceu fatos sobre redução de preços de gasolina em ano eleitoral.

Eleições

Investigado por: 2022-04-05

Dívida de Lula com a União é real, mas questionada na Justiça após anulação de processos da Lava Jato

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Comprovado
É verdade que tanto Lula quanto o Instituto Lula têm dívidas com a União. A cobrança em relação ao ex-presidente é referente às multas impostas pelas condenações aplicadas pela operação Lava Jato -- que posteriormente foram anuladas. Já o instituto teve sua isenção de impostos retirada e o valor devido se refere a multas e ao total dos impostos equivalentes ao período de existência do instituto. Nos dois casos, as cobranças estão sendo questionadas na Justiça.

Conteúdo investigado: Uma postagem questiona se as pessoas sabem que Lula e o Instituto que leva o seu nome têm dívidas com a União de mais de R$ 18 milhões.

Onde foi publicado: Twitter

Conclusão do Comprova: É verdadeira a informação de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem o nome inscrito na dívida ativa da União por um débito de mais de R$ 1,3 milhão, como informa uma publicação feita no Twitter. Também está correta a informação de que o Instituto Lula possui uma dívida superior a R$ 18 milhões com a União.

Os valores devidos pela entidade são decorrentes da revogação de isenção por desvio de finalidade. No caso de Lula, os valores estão relacionados a duas condenações, que posteriormente foram anuladas.

O Comprova considera comprovados os fatos verdadeiros; eventos confirmados; cuja localização foi comprovada; ou conteúdo original publicado sem edição.

O que diz o autor da publicação: Procurado por meio de suas redes sociais, o perfil FamíliaDireitaBrasil, que publicou a postagem, não respondeu aos questionamentos do Comprova.

Como verificamos: Pelo nome completo do ex-presidente Lula, amplamente divulgado e passível de confirmação no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Comprova fez uma busca no site do Governo Federal, que disponibiliza uma área com os contribuintes que estão inscritos em dívida ativa da União e do FGTS. Nele, consta o nome de Luiz Inácio Lula da Silva e um saldo de mais de R$ 1,3 milhão.

Procuramos a assessoria do ex-presidente, que confirmou a informação e explicou que se trata de uma dívida decorrente das condenações aplicadas pela 13ª Vara da Justiça Federal no âmbito da operação Lava Jato.

Lula teve duas condenações, em primeira e segunda instância. As sentenças foram consultadas tanto no site da Justiça Federal do Paraná, como no site do Tribunal Federal da 4ª Região. Além da pena aplicada em tempo de reclusão, foi aplicada uma multa ao ex-presidente.

Já a dívida do Instituto Lula é decorrente da retirada da isenção de impostos da instituição, publicada no Diário Oficial da União em 2016.

 

Dívida de Lula

O ex-presidente teve duas condenações no âmbito da operação Lava Jato. A primeira, em julho de 2017, foi referente ao que ficou conhecido como o caso do triplex do Guarujá. Nessa ação, o então juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba Sergio Moro sentenciou Lula por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a acusação, o ex-presidente teria recebido vantagens indevidas do Grupo OAS, responsável pela reforma do apartamento no litoral de São Paulo, e também teria ocultado a verdadeira titularidade do mesmo apartamento.

Como pena foram aplicados 9 anos e seis meses de reclusão em regime fechado e ainda uma multa de 212 dias-multa, sendo cada dia-multa equivalente a 5 salários mínimos vigentes em dezembro de 2014. Assim, essa condenação, além da prisão, rendeu uma dívida ao ex-presidente de R$767.440,00. Essa sentença foi reformada pelos juízes no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), que passaram a pena para 12 anos e um mês de reclusão em regime fechado e a multa para 280 dias-multa. Assim, a dívida subiu para R$ 1.013.600,00. Em abril de 2019, os ministros do STJ mantiveram a condenação de Lula, mas reduziram a pena para 8 anos, 10 meses e 20 dias e estabeleceram 175 dias-multa. Dessa maneira, a dívida a ser paga passou a ser de R$ 633.500,00.

Em fevereiro de 2019, Lula foi condenado pela segunda vez, também referente às investigações da operação Lava Jato. A juíza Gabriela Hardt, substituta de Sergio Moro, já ministro da Justiça nessa época, aplicou uma pena de 12 anos e 11 meses de reclusão em regime fechado pelos crimes de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva. A acusação é de que o ex-presidente tenha favorecido a empreiteira Odebrecht em contratos e, em troca, tenha recebido vantagens em forma de reformas em um sítio que ele frequentava em Atibaia, interior de São Paulo.

Além da prisão, a juíza estabeleceu 212 dias-multa como sanção econômica, sendo cada dia-multa fixado em 2 salários mínimos. Essa sentença também foi reformada pelo TRF-4, que passou a pena para 17 anos e 1 mês de prisão e estabeleceu 422 dias-multa como penalidade econômica. Convertida em valores, a multa estabelecida ficou em R$ 611.056,00.

Lula não chegou a pagar nenhuma das multas, que foram somadas e corrigidas, chegando ao valor de R$ 1.306.955,05. Em junho de 2021, o STF declarou o ex-juiz Sergio Moro parcial ao condenar Lula e decidiu anular as sentenças dadas. Dessa maneira, a defesa do ex-presidente entende que as multas também devem ser anuladas. Os advogados já entraram com uma representação junto à Receita Federal.

Dívida do Instituto Lula

O Instituto Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Instituto Lula, foi criado em 2011 pelo ex-presidente com o propósito de ser um espaço de interação e diálogo para aqueles que compartilham as ideias defendidas por ele. O instituto tem seu CNPJ inscrito em atividades de associações de defesa de direitos sociais, atividades de organizações associativas ligadas à cultura e à arte e atividades de defesas de minorias, meio ambiente e apoio a serviços educacionais em nível municipal.

Durante a operação Lava Jato, o instituto foi alvo dos investigadores. As palestras do ex-presidente e as doações feitas ao instituto foram questionadas e até denunciadas pelos procuradores do Ministério Público Federal. As informações obtidas foram compartilhadas com a Receita Federal que decidiu, em dezembro de 2016, multar o instituto.

Segundo os auditores, houve simulações de prestações de serviço por algumas empresas, entre elas de Fábio Luís, filho de Lula, como forma de mascarar a transferência de recursos da entidade para o ex-presidente e parentes. Enquadrado como desvio de finalidade, o Instituto teve revogada a isenção de impostos a que era submetida e ainda aplicada uma multa de cerca de R$ 2 milhões.

Assim como no caso de Lula, o Instituto entende que com a anulação das sentenças imposta pelo STF as multas e a dívida devem ser anuladas. Em ação para recorrer da punição, o instituto também defende que cumpre com sua missão estatutária e que foram comprovados inclusive os gastos que estão sendo questionados.

Pagamento de multa

De acordo com o Código Penal, no artigo 50, o dia-multa é o valor unitário a ser pago pelo réu a cada dia de multa determinado pelo magistrado. A quantia é recolhida ao Fundo Penitenciário Nacional e deve ser de, no máximo, 360 dias-multa, sendo o valor máximo por dia de 5 salários mínimos. O mínimo aplicado é de 10 dias-multa e o valor unitário de um dia-multa de um trigésimo do salário mínimo.

A multa deve ser paga em até dez dias depois do trânsito em julgado da ação. O pagamento pode ser parcelado e, se o réu não pagar, será inscrito entre os devedores da Fazenda Pública, o que ocorreu com Lula.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A divulgação de conteúdo falso ou enganoso em relação a um pré-candidato à Presidência da República pode levar o eleitor a definir seu voto com base em uma desinformação, o que prejudica o processo democrático.

Alcance da publicação: A postagem feita no Twitter dia 29 de março teve mais de 10 mil interações em apenas 3 dias, alcançando uma grande quantidade de pessoas em pouco tempo. No dia 5 de abril apenas essa postagem tinha sido publicada novamente por outros usuários mais de 2 mil vezes.

Outras checagens sobre o tema: O portal UOL publicou reportagem sobre a dívida de Lula com a União, já o jornal Folha de SP fez uma explicação de como está a situação jurídica do ex-presidente depois das decisões do STF.

Eleições

Investigado por: 2022-04-04

Fala de Lula sobre negros foi retirada de contexto e era uma crítica à elite brasileira

  • Enganoso
Enganoso
Vídeo que mostra fala do ex-presidente Lula sobre negros e escravos é enganoso. O trecho apresentado foi retirado de uma entrevista e está editado, sem contexto. A mensagem de Lula era justamente uma crítica aos que pensam da maneira retratada.

Conteúdo investigado: Vídeo em que o ex-presidente Lula supostamente diz que negros deixaram de ser escravos para “virar vagabundo”.

Onde foi publicado: Kwai

Conclusão do Comprova: É enganoso o vídeo que circula no Kwai em que o ex-presidente Lula (PT) e pré-candidato ao Planalto em 2022 supostamente reproduz falas racistas. O trecho foi recortado de uma entrevista e publicado fora de contexto. A fala é uma crítica ao que Lula afirma ser o pensamento da elite brasileira em relação à população mais pobre e negra.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.

O que diz o autor da publicação: Procurados por meio das redes sociais, os autores das publicações não responderam aos questionamentos.

Como verificamos: O Comprova usou o mecanismo de busca reversa do Google, que permite procurar a partir de uma imagem publicações visualmente semelhantes ao vídeo investigado. A partir disso, a equipe chegou ao vídeo original, publicado no canal do portal Diário do Centro do Mundo, mais conhecido como DCM.

Em buscas por palavras-chave das falas foi possível chegar até verificações feitas anteriormente pelo Estadão Verifica e pela Agência Lupa.

Contexto da declaração de Lula

A declaração que viralizou foi retirada de uma entrevista do ex-presidente ao portal DCM. No trecho investigado, Lula diz que “os negros não foram libertados para virar cidadãos ou cidadãs. Eles deixaram de ser escravos para virar vagabundos.” No entanto, dentro do contexto, é possível atestar que a fala não exprime a opinião de Lula sobre essa população e, sim, o que o ex-presidente afirma ser o pensamento da elite brasileira em relação às pessoas mais pobres e negras.

“Aqui no Brasil tem uma classe que é originária do escravagismo neste país que ela acha que é o seguinte: só tem que ter 35% da população deste país que come, que viaja, que vai para Miami, que vai para Bariloche, que vai ver museu na Europa, vai ver museu nos Estados Unidos. O restante tem que se lascar. É assim. Desde a Proclamação da República, desde o fim da escravidão, eles pensam assim.”

Em seguida, vem a fala que é reproduzida no vídeo investigado. “Os negros não foram libertados para virar cidadãos ou cidadãs. Eles deixaram de ser escravos para virar vagabundos. É assim que a elite tratava eles e continua tratando até hoje”, disse.

A declaração foi dada em entrevista a Kiko Nogueira, fundador do DCM, aos também jornalistas Vinícius Segalla e Pedro Zambarda, em 8 de abril de 2021. A entrevista também está disponível no canal oficial do ex-presidente. Conteúdos de mesmo teor do vídeo investigado nesta verificação começaram a circular pouco tempo depois da conversa ir ao ar. Em maio do mesmo ano, o portal DCM publicou uma matéria desmentindo as publicações enganosas propagadas nas redes sociais.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A divulgação de conteúdo enganoso em relação a um pré-candidato à Presidência da República pode levar o eleitor a definir seu voto com base em uma desinformação, o que prejudica o processo democrático.

Alcance da publicação: Os vídeos, publicados na plataforma de vídeo Kwai, alcançaram quase 100 mil visualizações em apenas 3 dias. Foram publicadas por perfis com quase 500 mil seguidores somados.

Outras checagens sobre o tema: Outras verificações foram feitas com o mesmo vídeo. O Estadão mostrou que o vídeo foi editado, já a agência Lupa explicou que a fala foi tirada de contexto. Em outra verificação do Projeto Comprova foi mostrado que um outro vídeo de Lula foi editado com a intenção de modificar a mensagem transmitida.

Eleições

Investigado por: 2022-04-04

Apreensão de droga atribuída a Bruno Maranhão ocorreu quatro anos após sua morte

  • Falso
Falso
É falso que Bruno Maranhão, líder do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), tenha sido um dos presos em uma operação feita pela Polícia Federal, em Paraguaçu Paulista (SP), em 2018. Um vídeo antigo dessa ação voltou a circular. Apontado como um dos detidos, Maranhão morreu quatro anos antes da filmagem.

Conteúdo investigado: Publicações acompanhadas por um vídeo mostram uma operação da Polícia Federal, em 2018. Nas imagens, dois homens aparecem deitados no chão e um terceiro está sentado em uma cadeira, com as mãos para trás, aparentemente algemado. A postagem acompanha um texto que atribui a ação policial à prisão de Bruno Maranhão.

Onde foi publicado: Facebook e Twitter

Conclusão do Comprova: É falso o conteúdo de posts segundo os quais um aliado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), chamado Bruno Maranhão, foi preso acusado de tráfico de drogas. O vídeo que circula nas redes sociais mostra, na realidade, uma operação da Polícia Federal (PF) realizada em 2018, em Paraguaçu Paulista (SP), quatro anos depois da morte de Maranhão.

Naquela ação da PF, os agentes apreenderam 900 quilos de maconha, um avião agrícola e outros 400 quilos da mesma droga escondidas no hangar. Uma reportagem da TV Record veiculada na ocasião mostra, a partir de 1 minuto e 40 segundos, o nome dos acusados de envolvimento no crime e não há qualquer menção a Maranhão. A matéria apresenta as mesmas imagens mostradas no vídeo verificado.

Bruno Maranhão não poderia ter sido relacionado pela polícia neste caso porque morreu em 2014. Outro boato da postagem é a participação dele no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na verdade, Maranhão era liderança em outro grupo, o Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST).

Para o Comprova, falso é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

O que diz o autor da publicação: O Comprova tentou contato com os três perfis em que o vídeo viralizou. O primeiro, Informe Amapaense, é identificado como um blog pessoal no Facebook e tem mais de 51 mil seguidores. O contato foi feito por e-mail e pela plataforma. Nela, em troca de mensagem, foi informado um celular para contato diretamente com o editor. Procurado pelo Comprova, o editor do Informe Amapaense não respondeu aos questionamentos e disse apenas que “o assunto já está encerrado.”

Uma usuária do Twitter identificada como Nalva compartilhou a publicação naquela rede social. Com mais de 5,8 mil seguidores, ela se declara apoiadora do presidente Jair Bolsonaro e frequentemente publica conteúdos em defesa do presidente. A autora também não respondeu a mensagem.

O terceiro perfil que publicou o vídeo no Twitter não tem canal para mensagem direta e não foi possível o contato.

Como verificamos: Por ser um conteúdo já investigado em outras ocasiões, começamos essa apuração recorrendo a materiais publicados por agências e seções de checagem sobre o mesmo assunto. Também buscamos reportagens para explicar quem foi Bruno Maranhão, sua atuação em movimentos sociais e sua morte.

O Comprova ainda procurou os responsáveis pelas publicações que, embora já desmentidas algumas vezes, voltaram a viralizar nas redes sociais.

Operação mirou tráfico de drogas

A apreensão mencionada nos vídeos ocorreu em março de 2018. Segundo o portal G1, a investigação apurava um caso de tráfico de drogas no interior de São Paulo. Os policiais federais interceptaram o avião carregado de maconha e contaram com a ajuda da Polícia Militar para realizar as prisões.

No dia da operação, três pessoas foram presas. A aeronave estava no aeroclube de Paraguaçu Paulista, cidade distante 117 quilômetros de São Paulo. Segundo os policiais, os criminosos adaptaram o tanque do avião para conseguir transportar a droga.

Vinte dias após essa apreensão, a PF deflagrou a operação “Voo Cego”, como desdobramento das investigações. Nesta ocasião, foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão também na cidade de Paraguaçu Paulista, além dos municípios de Cornélio Procópio e Londrina – ambos no Paraná. Nesta ação, uma segunda aeronave foi apreendida.

Em nenhuma das reportagens sobre a operação, o MST ou Maranhão são citados.

Quem é Bruno Maranhão

Filho de usineiros de Pernambuco, o engenheiro mecânico Bruno Maranhão defendia a reforma agrária no país. Uma reportagem do Estadão sobre sua morte, que aconteceu em 25 de janeiro de 2014, ressalta sua última ação pública, três anos antes, na Marcha da Reforma Agrária do Século XXI, realizada pelo MLST, uma dissidência do MST.

Maranhão foi militante do Partido Comunista Revolucionário Brasileiro (PCBR) e, após voltar do exílio na França imposto pela ditadura militar, ajudou a fundar o PT. Ele morreu de falência múltipla dos órgãos, aos 74 anos. Na ocasião, o Instituto Lula divulgou uma nota de pesar, assinada pelo ex-presidente e pela ex-primeira-dama Marisa Letícia. No documento, Maranhão foi destacado como um companheiro de luta.

Relacionamento com Lula

Natural de Pernambuco, assim como Lula, Maranhão e o ex-presidente se aproximaram no processo de fundação do PT, partido do qual o líder do MLST quase foi expulso após participar de um ato no Congresso Nacional que acabou em quebra-quebra, em junho de 2006. O episódio chegou a ser cogitado como um risco à campanha de reeleição do ex-presidente naquele ano.

Membro da Executiva nacional do PT, Maranhão tinha a função de mobilizar os movimentos sociais em apoio a Lula, conforme uma reportagem da Folha de S. Paulo em que traçava o seu perfil. Com a vitória de Lula nas eleições de 2006, em janeiro de 2007, Maranhão foi um dos convidados especiais, como dirigente petista, a integrar a comitiva na posse do ex-presidente.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos sobre políticas públicas, pandemia e as eleições presidenciais de 2022 que viralizam na internet. As postagens sobre Bruno Maranhão, falsamente associado ao tráfico de drogas e indicado como braço direito de Lula nos vídeos aqui investigados, podem distorcer a percepção das pessoas sobre o ex-presidente petista que é, hoje, pré-candidato à Presidência da República. A decisão da população no momento de votar deve ser baseada em fatos, e não em boatos. Mentiras enfraquecem o processo eleitoral e democrático.

Alcance da publicação: Até o dia 1º de abril, a publicação tinha mais de 1,1 mil visualizações no Facebook e mais de 580 visualizações em um perfil do Twitter. Após contato do Comprova, a postagem no Facebook foi deletada.

Outras checagens sobre o tema: Esta não é a primeira vez que o nome de Bruno Maranhão é associado, indevidamente, ao tráfico de drogas. O boato já havia circulado em 2019 e foi desmentido pelo G1, e, em 2020, foi contestado pela Aos Fatos. O Estadão Verifica também apontou que se tratava de boato a prisão por tráfico de Maranhão, que já havia morrido na época da operação policial. Em outra reportagem, ressaltou que fotos de drogas e armas não foram tiradas em acampamento do MST.

Conteúdos falsos e enganosos relacionados a eleições e candidatos estão frequentemente circulando nas redes sociais. O Comprova já mostrou que vídeo engana ao dizer que pesquisas eleitorais foram forjadas na eleição de Bolsonaro em 2018 e também que Parque do Iguaçu não foi criado por Lula.

Eleições

Investigado por: 2022-04-01

Vídeo de protesto contra Lula em show de Marina Sena é falso

  • Falso
Falso
É falso um vídeo publicado no TikTok que mostra o público do festival Lollapalooza Brasil 2022 entoando um coro de xingamentos ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante uma apresentação da cantora Marina Sena. É possível constatar pela própria postagem que o áudio não é autêntico e que uma ferramenta do TikTok foi usada para incorporar o som de outro vídeo à filmagem do festival, publicada originalmente no perfil do canal Multishow, sem o áudio de protesto.

Conteúdo investigado: Vídeo de uma apresentação da cantora Marina Sena no festival Lollapalooza em que o público teria xingado o ex-presidente Lula, entoando um coro de “ei, Lula, vai tomar no **”.

Onde foi publicado: TikTok

Conclusão do Comprova: É falso um vídeo publicado no TikTok que mostra o público do festival Lollapalooza de 2022, durante uma apresentação da cantora Marina Sena, e, ao fundo, um áudio com xingamentos ao ex-presidente Lula.

O post usa uma ferramenta da plataforma que permite reaproveitar os sons originais de publicações anteriores em outros conteúdos. Essa é uma função popular em vídeos de dublagem de músicas (ou lip-syncing) que fazem sucesso na rede social. O TikTok informa de onde o som original foi retirado.

Nesse caso, o áudio vem de um vídeo da torcida do Flamengo publicado por outro perfil no dia 13 de fevereiro de 2022 — embora essa gravação possa ter sido editada antes de ser postada na plataforma. O mesmo áudio também foi inserido por um terceiro perfil em um vídeo do rapper Matuê se apresentando no Lollapalooza, com o texto “cantor tenta Lacrar e é humilhado junto com seu lula ladrão #Bolsonaro2022”.

Ambos os vídeos do festival traziam ainda marcas d’água com os nomes dos perfis que originalmente os publicaram — as gravações de Marina Sena e Matuê foram feitas pelo canal Multishow e por um cinegrafista amador, respectivamente. Visitando esses perfis, foi possível encontrar as filmagens originais (1 e 2), que não trazem o coro de xingamentos ao ex-presidente.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

O que diz o autor da publicação: O autor da publicação foi procurado, mas, até o momento, não respondeu aos questionamentos do Comprova.

Como verificamos: O primeiro indício de que o áudio do vídeo havia sido editado veio do próprio TikTok, que mostra ao usuário quando o som de uma publicação teve origem em outra. O aplicativo permite acessar uma página com todas as postagens que usaram o mesmo áudio.

| No TikTok, é possível identificar que o som usado em uma publicação teve origem em outra postagem. Para isso, basta observar a indicação de “som original” na parte inferior da tela. Ao clicar, o usuário tem acesso à lista de postagens já feitas com o mesmo som.

A gravação verificada também trazia o logotipo do canal Multishow, a hashtag #LollaBRnoMultishow e a marca d’água do perfil do Multishow no TikTok, indicando que o vídeo original havia sido publicado pelo canal na plataforma. A equipe, então, pôde encontrar o mesmo vídeo, sem som de protesto, na página da emissora.

Uma busca no Google pelo usuário que publicou o vídeo editado retornou com verificações das agências Boatos.org, AFP Checamos e Estadão Verifica sobre outro conteúdo falso de teor similar, publicado pelo mesmo perfil no TikTok. Também fizemos pesquisas em buscadores por notícias sobre o Lollapalooza, para reunir informações de contexto sobre protestos políticos realizados no festival.

Por fim, tentamos contato com a organização do evento e com o autor do post verificado, mas não houve resposta de ambos.

Festival e censura

O Lollapalooza Brasil 2022 foi realizado em São Paulo, nos dias 25, 26 e 27 de março. O vídeo do show de Marina Sena com áudio editado viralizou no contexto de polêmica envolvendo protestos de artistas no festival contra o atual presidente Jair Bolsonaro (PL).

No primeiro dia do evento (25), a cantora Pabllo Vittar desceu do palco e levantou uma toalha com o rosto e o nome do ex-presidente Lula. Depois do show, a artista também fez sinal de “L” com a mão, em outro gesto de apoio ao petista. Já a cantora britânica Marina Diamandis xingou Bolsonaro e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante sua apresentação.

No domingo (27), o ministro Raul Araújo, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), classificou manifestações políticas de cantores como propaganda eleitoral e determinou multa de R$ 50 mil ao festival em caso de novos atos. A decisão liminar atendeu parcialmente pedido do PL, partido de Bolsonaro, e proibia manifestações favoráveis ou contrárias a qualquer candidato.

Mesmo com a decisão do TSE, artistas continuaram fazendo as manifestações. Marina Sena não citou Bolsonaro diretamente, mas fez discurso pedindo que fãs maiores de 16 anos tirem o título de eleitor para que possam votar no pleito deste ano. A cantora também fez sinal de “L” com a mão.

Raul Araújo derrubou sua própria liminar na segunda-feira (28), após o PL desistir da ação. Nos bastidores, a informação é de que o partido tomou a decisão após Bolsonaro se irritar com a repercussão negativa do caso.

Outros vídeos falsos

Verificações dos sites Boatos.org, AFP Checamos e Estadão Verifica investigaram outros conteúdos publicados pelo mesmo perfil responsável pelo vídeo editado do show da Marina Sena. Nestes casos, a ferramenta de dublagem do TikTok também foi usada para inserir um áudio inautêntico de xingamento ao ex-presidente em um vídeo da torcida em uma partida da seleção do Brasil contra o Chile, realizada em 24 de março de 2022.

Conforme mostrou a AFP Checamos, esse mesmo áudio foi usado em sete vídeos diferentes do perfil; quatro vezes sobreposto a imagens de torcidas em estádios. O TikTok aponta que o som original vem de uma gravação de torcedores do Flamengo, mas é possível que o vídeo tenha sido editado antes de ser publicado na plataforma.

O Boatos.org afirma ter encontrado em um post no Twitter a gravação original, na qual a torcida não faz xingamentos contra o ex-presidente, e sim canta uma música de apoio ao Flamengo. A página que o publicou se encontra fora do ar atualmente.

Já o Estadão Verifica mostrou o caso em que áudio com xingamentos a Lula foi incluído em edição de vídeo gravado no Maracanã durante o jogo entre Brasil e Chile, que ocorreu em março deste ano.

Em 2021, o Comprova investigou outro conteúdo com o coro contra Lula, dessa vez em um vídeo da torcida do Atlético Mineiro. Nesse caso, a gravação era real, mas não recente: foi feita em 2016, durante um jogo contra o time chileno Colo-Colo. Posts falsos afirmavam que o protesto teria acontecido em uma partida à qual o ex-presidente Lula teria comparecido, e com isso tentavam descreditar as pesquisas eleitorais, que mostram o petista à frente das intenções de voto para a Presidência em 2022.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A divulgação de conteúdo falso em relação a críticas a um pré-candidato à Presidência da República – como no caso do vídeo aqui verificado – pode levar o eleitor a definir seu voto com base em uma desinformação, o que prejudica o processo democrático.

Alcance da publicação: Até o dia 31 de março, a publicação no TikTok alcançou 2,4 mil visualizações, além de 123 curtidas e 28 comentários.

Outras checagens sobre o tema: Em outras verificações, o Comprova já mostrou que um vídeo engana ao dizer que pesquisas foram forjadas na eleição de Bolsonaro em 2018 e que o parque do Iguaçu não possui reserva de gás e foi criado por Vargas, não por Lula. O projeto também publicou recentemente conteúdo explicando que pesquisas eleitorais seguem métodos científicos, ao contrário de enquetes.

Eleições

Investigado por: 2022-04-01

Suposta imagem de apoio a Bolsonaro é um meme com ator pornô

  • Sátira
Sátira
O Comprova classifica como sátira uma imagem que circula no Facebook mostrando, supostamente, uma mulher ao lado do filho após este ter tirado o título de eleitor para votar em Jair Bolsonaro (PL). A foto original foi publicada na internet há pelo menos quatro anos e mostra, na verdade, os atores pornô Jordi El Niño Polla e Eva Notty. A frase "Bolsonaro 2022", escrita no boné do jovem, foi inserida através de edição, substituindo o símbolo de uma marca de artigos esportivos.

Conteúdo investigado: Imagem publicada no Facebook mostra uma montagem que imita uma captura de tela do Twitter, com a legenda “Meu filho Lucas tirou o título de eleitor para eleger o #Bolsonaro2022”. O post traz a foto de uma mulher acompanhada de um jovem que aparenta ser adolescente e usa um boné com a inscrição: “Bolsonaro 2022”.

Onde foi publicado: Facebook

Conclusão do Comprova: Trata-se de uma sátira a imagem que circulou na internet em que, supostamente, uma mãe aparece ao lado do filho e afirma: “Meu filho Lucas tirou o título de eleitor para eleger o #Bolsonaro2022”.

A imagem original circula há pelo menos quatro anos na internet. Nela, aparecem os atores pornô Jordi El Niño Polla, espanhol, e Eva Notty, americana.

A foto original é idêntica em quase todos os aspectos à imagem que ilustra a sátira. A única diferença é a inserção dos dizeres “Bolsonaro 2022” em substituição ao logotipo da Adidas no boné usado por Jordi.

Jordi El Niño Polla tem ilustrado uma série de conteúdos falsos na internet, em diferentes circunstâncias e países.

O Comprova classificou a imagem como sátira. Conteúdos satíricos são verificados quando se percebe que há pessoas tomando-os por verdadeiros. Pelos comentários da publicação investigada, é possível perceber que alguns usuários (post 1, post 2, post 3) acreditam que se trata de uma foto verdadeira.

O que diz o autor da publicação: A imagem foi compartilhada por um grupo de apoiadores do presidente Bolsonaro no Facebook. Não há opção para envio de mensagem, nem informação de perfis de administradores. Porém, há o endereço para uma conta do Instagram no menu ‘Sobre’. O Comprova mandou mensagem para o perfil, mas não obteve resposta até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: O primeiro passo foi procurar o perfil do Twitter que aparece na montagem. A equipe também usou o mecanismo de busca reversa do Google, Yandex e TinEye para encontrar imagens semelhantes publicadas anteriormente. A ferramenta permite que a pesquisa seja feita a partir de fotos e pode trazer pistas sobre o real contexto da imagem investigada.

Com a busca, encontramos os nomes das pessoas que aparecem na foto. Com isso, procuramos notícias e verificações que envolviam os atores.

Além disso, o Comprova consultou artigos (G1, Poder360, CNN Brasil e Metrópoles) sobre a mobilização de críticos e apoiadores de Bolsonaro para incentivar jovens a tirarem o título de eleitor.

A equipe também buscou contato com o grupo do Facebook que fez a postagem.

 

A imagem

A foto verificada pelo Comprova é uma montagem que utiliza uma selfie dos atores pornô Jordi El Niño Polla e Eva Notty em cima de uma publicação feita por um perfil no Twitter.

Os atores foram identificados através de mecanismos de busca reversa do Google, Yandex e TinEye, que encontraram imagens semelhantes à verificada em matérias internacionais.

Além da montagem, a foto contém edição dos dizeres “Bolsonaro 2022” inscrito no boné usado por Jordi. Na foto original, que está na internet há pelo menos quatro anos, há o logotipo da marca Adidas.

| Imagem da esquerda foi editada para sugerir apoio a Bolsonaro. A imagem da direita foi encontrada pelo Comprova em diversas publicações feitas nos últimos 4 anos.

Quem são os atores

Jordi El Niño Polla é produtor e ator pornô espanhol nascido em 11 de setembro de 1994. Conhecido como Jordi ENP, ele ganhou o Prêmio PornHub de Estrela Pornô Masculina Mais Popular em 2018, 2019 e 2020. No Twitter, Jordi tem mais de 900 mil seguidores, enquanto seu canal no Youtube possui mais de 4 milhões de inscritos. Na rede social, ele faz entrevistas e compartilha bastidores dos vídeos que produz.

A mulher que aparece ao lado de Jordi na foto é Eva Notty, atriz pornô americana. No Instagram, Eva conta com 165 mil seguidores, e também tem um canal no Youtube com 10,6 mil inscritos. A partir de uma busca no Yandex foi possível encontrar uma imagem de outro ângulo. A foto foi retirada de um vídeo adulto em que os dois participam.

| Na imagem, Jordi e Eva aparecem com as mesmas roupas da foto usada na postagem. Foto: Reprodução

Outras sátiras envolvendo Jordi El Niño Polla

O ator pornô espanhol ilustra outras notícias falsas na internet, em diferentes circunstâncias e países. Na Colômbia, um site de checagem de notícias esclareceu ser falsa a postagem que traz a imagem do ator pornô como sendo um jovem médico colombiano integrante de uma comissão da Organização Mundial da Saúde (OMS) que atua no desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19.

Outras associações do ator a profissionais da saúde também já foram desmentidas em Madrid e Buenos Aires.

Em outra postagem, Jordi também aparece como sendo um brasileiro chamado José Manuel Velazquez, que teria ganhado o concurso nacional de física quântica. O site Boatos.org e o Estadão Verifica desmentiram a informação, que também circulava na Argentina e no México.

Uma matéria do jornal chileno La Tercera mostra que o ator espanhol virou um meme em que as pessoas usam fotos dele acompanhadas de informações falsas. A reportagem cita o caso ocorrido em junho de 2019, no qual a prefeitura de La Florida, região localizada em Santiago, no Chile, fez uma postagem desmentindo um dos memes que dizia que Jordi era parente do prefeito Rodolfo Carter e funcionário do governo.

Sátira semelhante à que envolve Jordi também relaciona a atriz pornô libanesa Mia Khalifa às eleições presidenciais deste ano no Brasil. Segundo a sátira, ela também seria uma jovem brasileira e teria tirado o título de eleitor para votar em Bolsonaro. Outra publicação, que foi verificada pela Agência Lupa, também utilizava uma foto de Mia Khalifa para afirmar que ela era uma brasileira medalhista em Matemática.

Mobilização para impulsionar a participação dos jovens na eleição

Em março deste ano, diante da baixa procura de jovens na eleição de 2022, diversos artistas como Anitta, Juliette, Zeca Pagodinho, Whindersson Nunes, Luíza Sonza e o ator americano Mark Ruffalo começaram uma campanha nas redes sociais para incentivar adolescentes de 16 e 17 anos a tirar o título de eleitor. Grande parte das publicações defendem a saída do presidente Bolsonaro.

Com a mobilização das personalidades e um tuitaço promovido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com a #RolêDasEleições, um analista do TSE afirmou à CNN Brasil que o número de jovens que procuraram a Justiça Eleitoral nos últimos meses aumentou.

A mobilização também ocorreu por parte dos apoiadores do presidente, que iniciaram uma campanha no Twitter com a #SouJovemSouBolsonaro22. Nas postagens há textos semelhantes ao presente na sátira verificada pelo Comprova: “Meu filho tirou o título para votar em Bolsonaro”.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos relacionados à pandemia de coronavírus, eleições e políticas públicas do governo federal. Publicações falsas que endossam a candidatura de presidenciáveis, mesmo que em forma de piada, podem prejudicar o processo de escolha do cidadão. Verificar esse tipo de conteúdo ajuda a manter o debate saudável em torno das eleições.

Alcance da publicação: Até o dia 30 de março, a publicação alcançou 3 mil interações no Facebook. Em seguida, a postagem foi excluída.

Outras checagens sobre o tema: Em verificações anteriores sobre conteúdos relacionados à pauta eleitoral, o Comprova classificou como sátira os vídeos com ataques de Putin a Bolsonaro, como enganoso o vídeo que afirma que pesquisas foram forjadas na eleição de Bolsonaro em 2018 e como falso que o Parque Nacional do Iguaçu tenha sido criado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Comunicados

Investigado por: 2022-03-30

Projeto Comprova lança minicurso sobre desinformação voltado para maiores de 50 anos

  • Minicurso
Minicurso
Curso gratuito via WhatsApp para adultos maiores de 50 anos é a versão em português do programa MediaWise for Seniors do Poynter Institute em parceria com o Comprova. Lillian Witte Fibe e Boris Casoy são os embaixadores do projeto no Brasil.

O Projeto Comprova, coalizão liderada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e formada por 40 veículos de mídia que trabalham colaborativamente para verificar desinformação, está lançando no Brasil neste dia 30 de março a versão em português do MediaWise for Seniors – um programa de educação midiática desenvolvido para adultos, especialmente os maiores de 50 anos, pela iniciativa de educação midiática digital voltada às redes sociais MediaWise, da organização sem fins lucrativos Poynter Institute. O minicurso por WhatsApp foi criado para ajudar as pessoas nessa faixa etária a distinguir fatos de boatos e a lidar com a desinformação compartilhada nas redes sociais.

O curso é gratuito e qualquer pessoa que tenha uma conta no WhatsApp pode se inscrever.

As inscrições podem ser feitas pelo site do Comprova ou em um único clique acessando este link e a qualquer momento, pelos próximos 12 meses. A partir da inscrição, e pelos 10 dias seguintes, os participantes receberão vídeos e mensagens de texto pelo aplicativo com instruções e técnicas simples para detectar conteúdos suspeitos e fazer verificações básicas. Essas lições diárias duram de 5 a 7 minutos.

As aulas são conduzidas pelos jornalistas Lillian Witte Fibe e Boris Casoy, embaixadores do programa no Brasil. O conteúdo foi produzido em conjunto pelo MediaWise e pelo Projeto Comprova e é distribuído por WhatsApp a partir da plataforma Arist. Nos Estados Unidos, uma versão do curso foi conduzida por Christiane Amanpour, âncora da CNN Internacional, e Joan Lunden, ex-apresentadora do Good Morning America, da rede ABC.

Com o slogan “Não passe vergonha nos grupos – Aprenda a identificar boatos nas redes”, o minicurso ajudará esse público a entender como funcionam os algoritmos, como detectar golpes e teorias conspiratórias, ensinará a buscar fontes confiáveis e orientará os participantes sobre como falar com amigos e familiares para evitar a disseminação de conteúdos falsos e enganosos.

Para a presidente da Abraji, Natalia Mazotte, a educação midiática se tornou um foco de atuação relevante para a entidade. “A desinformação é pervasiva e atinge pessoas com diferentes níveis de letramento digital, gerando impactos negativos nas nossas relações e instituições. Estamos animados com a possibilidade de ajudar um público mais amplo a refletir sobre o seu consumo de informação digital”, diz.

Alex Mahadevan, gerente do programa MediaWise, pontua que o programa já teve versões em espanhol, inglês e francês. “Tenho família do Brasil, com laços estreitos com o país. Por isso, essa parte da nossa expansão internacional me agrada muito. Estou entusiasmado por oferecer esse curso gratuito aos brasileiros, porque cidadãos, comunidades e países prosperam quando todos fazem a sua parte para promover a verdade”.

O minicurso é apoiado pela Meta.

“Nossa prioridade é contribuir para uma internet aberta, transparente e segura. A desinformação provoca o contrário”, afirma Murillo Laranjeira, diretor de Políticas Públicas da Meta no Brasil. “Por isso, ficamos tão felizes em apoiar um projeto educativo nessa área. Nosso objetivo é que esse programa tenha o maior impacto possível e que ajude a nossa comunidade a olhar para informação na internet com forte senso crítico.”

Mais detalhes sobre o programa estão disponíveis em projetocombrova.com.br/minicurso.

Sobre o Projeto Comprova

O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos criada em 2018 que reúne jornalistas de 40 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. O Comprova é liderado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo – Abraji e financiado por Meta Journalism Project e Google News Initiative.

Sobre o MediaWise

MediaWise é uma iniciativa de alfabetização em mídia digital do Poynter Institute criada em 2018 para capacitar os cidadãos a encontrar fontes confiáveis ​​e lidar com a grande quantidade de informações ao seu alcance. É uma organização apartidária e sem fins lucrativos que opera em cinco países, orientando as pessoas a distinguir o que é real e o que é ficção e fornecendo instrumentos para que todos possam fazer sua parte para reduzir o compartilhamento de desinformação e valorizar a verdade.

Sobre o Poynter Institute

O Poynter Institute for Media Studies é líder global em educação jornalística e um centro estratégico que reflete excelência no jornalismo, na mídia e no discurso público do século 21. Os professores do Poynter promovem seminários e oficinas na sede do Instituto em São Petersburgo, Flórida, e em redações, conferências e organizações ao redor do mundo. Sua área de e-learning, a News University, oferece o maior currículo de jornalismo online do mundo, com centenas de cursos interativos e dezenas de milhares de usuários internacionais registrados. O site do Instituto promove cobertura 24 horas sobre mídia, ética, tecnologia e negócios em jornalismo. O Poynter é o lar do Centro Craig Newmark de Ética e Liderança, do PolitiFact (vencedor do Prêmio Pulitzer), da International Fact-Checking Network e do MediaWise, projeto de educação midiática digital para jovens, eleitores de primeira viagem e idosos. Os principais jornalistas e empreendedores da mídia do mundo confiam no Poynter para aprender e ensinar novas gerações de repórteres, designers, inovadores de mídia, infografistas, documentaristas e apresentadores. Esse trabalho promove consciência pública sobre jornalismo, mídia, a Primeira Emenda dos EUA e discursos que servem à democracia e ao bem público. Saiba mais em poynter.org.

Eleições

Investigado por: 2022-03-29

Ponte sobre o Rio das Mortes em Mato Grosso é obra do estado e não do governo federal

  • Falso
Falso
Vídeo mente ao atribuir ao governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) a responsabilidade da execução da obra de uma ponte sobre o Rio das Mortes, na rodovia MT-326, em Mato Grosso. A obra é executada pelo governo do estado, sem investimentos do governo federal.

Conteúdo investigado: Vídeo que circula no WhatsApp, Helo e Facebook mostra a travessia feita em uma balsa sobre o Rio das Mortes, entre os municípios de Cocalinho e Nova Nazaré, em Mato Grosso. Na gravação, o autor critica os valores cobrados pela empresa que administra a balsa e mostra a construção de uma ponte que atribui ao governo federal.

Onde foi publicado: WhatsApp, Helo e Facebook.

Conclusão do Comprova: É falso que a construção da ponte sobre o Rio das Mortes, na rodovia MT-326, entre os municípios de Cocalinho e Nova Nazaré, região do Médio-Araguaia de Mato Grosso, esteja sob responsabilidade do governo federal.

A obra pertence ao Governo de Mato Grosso e foi iniciada a partir de um contrato assinado em 2013, com financiamento da Caixa Econômica Federal e tendo como executora a construtora Rivoli SPA. O pagamento é feito com recursos do Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab). A ponte de cerca de 483 metros de extensão está orçada em R$ 52,3 milhões e, de acordo com o governo do estado, será concluída em julho de 2022. As balsas que operam a travessia de veículos pertencem a uma empresa particular que tem autorização do Governo de Mato Grosso para realizar o transporte e definir os valores cobrados.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

O que diz o autor da publicação: Os autores foram procurados pelo Comprova, mas não responderam até a publicação desta verificação.

Como verificamos: Iniciamos a verificação pedindo informações à Secretaria de Estado de Infraestrutura de Mato Grosso (Sinfra-MT) a respeito da obra.

Também entramos em contato com o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT) para saber se o órgão tem alguma responsabilidade em relação à obra.

Fizemos contato, ainda, com a empresa Salazar Transportes Fluvial, que detém a autorização para cobrar o transporte dos veículos que fazem a travessia do trecho pela balsa “Salazar” que opera na região. Por fim, procuramos as prefeituras dos municípios de Cocalinho e Nova Nazaré.

 

Ponte sobre o Rio das Mortes em Mato Grosso

Está em execução no estado de Mato Grosso, uma ponte sobre o Rio das Mortes, na rodovia MT-326. A estrutura terá 483 metros de extensão e, segundo o governo local, será a maior já construída no estado. A obra está orçada em pouco mais de R$ 52,3 milhões e tem previsão de ser concluída no mês de julho deste ano.

De acordo com a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT), a ponte faz parte de um contrato assinado ainda no ano de 2013, sob a gestão do então governador Silval Barbosa (sem partido).

O empreendimento é custeado pela Caixa Econômica Federal, por meio do Financiamento à Infraestrutura e ao Saneamento voltado ao Setor Público (FINISA), destinado a municípios, estados e Distrito Federal.

| Placa de identificação da obra sobre o Rio das Mortes | Foto/Marcos Vergueiro – Secom MT

| Obra sobre o Rio das Mortes MT 326 entre Nova Nazaré e Cocalinho | Foto/Secom MT

| Reprodução da Imagem divulgada no vídeo que circula nas redes sociais

De acordo com o Governo de Mato Grosso, o financiamento está sendo pago com recursos do Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab). Não há, neste caso, qualquer investimento de recursos por parte do governo federal.

Outros vídeos semelhantes ao apurado nesta verificação também já circularam nas redes sociais. Em julho do ano passado, o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil), desmentiu as alegações dando conta de que a ponte teria execução do governo federal.

“Essa ponte é uma obra 100% com recurso do Governo do Estado de Mato Grosso. Do governo federal não existe nenhuma ponte”, disse Mendes naquela ocasião.

Segundo a Sinfra-MT, a obra ajudará o desenvolvimento da região do Araguaia, que ainda depende exclusivamente das balsas para fazer o trajeto na MT-326. O trecho é uma importante via de escoamento da produção agrícola da região e interliga vários municípios do Araguaia.

O que é o Fethab

O Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab) foi criado pela lei 7882, de 30 de dezembro de 2002, e atualizado como Novo Fethab pela Lei 10.353/2015 e tem o objetivo de financiar o planejamento, execução, acompanhamento, bem como a avaliação dos serviços nos setores de transporte e habitação em todo o Estado de Mato Grosso.

A contribuição é cobrada sobre o valor do óleo diesel, frete, produção agrícola e pecuária mato-grossense. A arrecadação é administrada pela Sinfra-MT e supervisionada pelo Conselho do Fethab, que é formado por secretários de diversas pastas, além de representantes de sindicatos e entidades da classe.

A quem compete a operação das balsas e quais os valores cobrados

Ao Comprova, o representante da empresa Salazar Transportes Fluvial informou que, diariamente, cerca de 300 veículos fazem a travessia. As balsas operam das 5 às 22 horas.

Os valores informados no vídeo estão corretos: R$ 35 para a travessia de carro utilitário, R$ 95 para caminhões e R$ 50 para caminhonetes. [Veja abaixo uma tabela com os valores cobrados dos demais veículos].

Conforme a empresa, os preços foram reajustados em fevereiro deste ano, em razão da alta do diesel.

| Foto: Divulgação

Por que investigamos: O Comprova checa conteúdos com alto grau de viralização sobre pandemia, eleições e políticas públicas do governo federal. O vídeo analisado atribui ao governo do presidente Jair Bolsonaro a execução da obra de uma ponte no Rio das Mortes, na rodovia MT-326, em Mato Grosso. A obra, na verdade, é realizada pelo estado, sem qualquer investimento do governo federal. Conteúdos desse tipo podem influenciar a decisão dos eleitores e distorcer a visão que eles possuem dos principais candidatos à presidência da República.

Alcance da publicação: No Helo, o vídeo teve 6,9 mil curtidas e mais de 600 comentários até 29 de março. No Facebook, a postagem analisada com o mesmo conteúdo possui 130 compartilhamentos.

Outras checagens sobre o tema: O mesmo conteúdo foi checado pelo MonitoR7 que classificou como fake news a informação de que o presidente Bolsonaro financiou a ponte.

Eleições

Investigado por: 2022-03-29

Vídeo engana ao dizer que pesquisas foram forjadas na eleição de Bolsonaro em 2018

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o vídeo que circula nas redes sociais que mostra montagens e segmentos do Jornal Nacional com pesquisas de opinião de 2018 e o posterior resultado das eleições para presidente. Por editar trechos de diferentes datas e não mostrar a íntegra e a sequência das pesquisas com o resultado correto, o conteúdo leva o público a acreditar que institutos erraram na divulgação das previsões sobre o final do pleito daquele ano.

Conteúdo investigado: Vídeo publicado nas plataformas TikTok e Facebook contém trechos selecionados e editados que mostram o presidente Jair Bolsonaro (PL) atrás nas pesquisas eleitorais de 2018, dando a impressão que os levantamentos erraram na projeção do resultado final do pleito.

Onde foi publicado: TikTok e Facebook.

Conclusão do Comprova: Ao contrário do que afirma um vídeo que circula nas redes sociais, as principais pesquisas eleitorais de 2018 acertaram nos prognósticos sobre as eleições presidenciais. Ao longo daquele ano, levantamentos feitos por institutos como Ibope e Datafolha mostraram o aumento da intenção de voto em Jair Bolsonaro (então PSL) e, nas últimas pesquisas antes do primeiro e do segundo turnos, divulgaram resultados próximos dos verificados na votação final.

O conteúdo investigado aqui é uma montagem com trechos de telejornais que omite a existência de certas pesquisas, fazendo com que o leitor seja induzido a acreditar que os institutos erraram nas previsões do resultado final da eleição. Nos minutos finais, o vídeo em questão mostra as pesquisas feitas em 2022, que mostram Bolsonaro atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em uma tentativa de deslegitimar os levantamentos deste ano.

O Comprova classifica como enganosos conteúdos que retiram informações de seu contexto original e omitem informações, de forma deliberada ou não, para provocar uma interpretação que difere da realidade dos fatos.

O que diz o autor da publicação: O Comprova solicitou esclarecimentos ao perfil que publicou o vídeo no Facebook, mas não obteve resposta até a publicação desta verificação. Não foi possível entrar em contato com a conta responsável pela divulgação do conteúdo no TikTok. A busca pelo nome do canal em outras redes sociais não alcançou resultado.

Como verificamos: Por se tratar de uma montagem, a primeira etapa da verificação foi destrinchar o vídeo a fim de identificar as pesquisas abordadas na gravação. Em seguida, a equipe comparou os dados exibidos pelo vídeo com os números reais obtidos pelas amostras em relação às eleições presidenciais de 2018.

O Comprova também buscou todas as pesquisas realizadas pelo Datafolha e pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), que deixou de existir em janeiro de 2021, até a concretização do segundo turno, com o objetivo de verificar se as previsões das pesquisas ficaram próximas ao resultado da eleição.

Por fim, a equipe procurou o perfil que publicou o vídeo no Facebook, que se identifica como Edna M de Queiroz. Não foi possível entrar em contato com o canal que divulgou o conteúdo no TikTok pois a plataforma não oferece opção para iniciar uma conversa.

 

O vídeo

O vídeo investigado aqui é uma montagem que intercala trechos de reportagens sobre as pesquisas eleitorais realizadas em 2018 e 2021 com imagens do presidente Jair Bolsonaro dando risadas.

Com cerca de três minutos de duração, o material pode ser dividido em quatro principais partes: a primeira e a segunda são referentes a reportagens que mostram pesquisas do Datafolha e do Ibope, respectivamente, apresentando uma simulação do resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2018.

O terceiro segmento é uma edição de falas do apresentador do Jornal Nacional William Bonner que induz o telespectador a acreditar que o jornalista teria chorado ao anunciar a vitória de Bolsonaro. O trecho, na verdade, é de uma reportagem do Jornal Nacional de 7 de agosto de 2003 sobre a morte do fundador da Globo, Roberto Marinho.

| À esquerda, imagem da reportagem original de 7 de agosto de 2003, em que Bonner lamenta a morte de Roberto Marinho. À direita, imagem editada utilizada pelo vídeo verificado pelo Comprova

Em seguida, o vídeo segue mostrando a imagem da reportagem de 2003 sobre a morte de Marinho, mas com a narração de Bonner em uma matéria do Jornal Nacional do dia 28 de outubro de 2018, anunciando que Bolsonaro seria o próximo presidente do Brasil.

Por fim, a quarta parte do vídeo reproduz uma reportagem sobre uma pesquisa realizada pelo Ipec, em 2021, que mostra que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceria a disputa pela presidência no primeiro turno das eleições deste ano.

As pesquisas de 2018

No total, o vídeo exibe três pesquisas eleitorais. Duas delas são referentes ao processo eleitoral de 2018, enquanto a terceira, realizada em 2021, analisa o cenário das eleições presidenciais deste ano.

A primeira é uma pesquisa do Datafolha divulgada no dia 10 de setembro de 2018, que foi realizada com 2.804 eleitores em 197 municípios do Brasil. A margem de erro para o total da amostra era de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

Apesar de exibir os números corretos, o conteúdo verificado pelo Comprova não reproduz a pesquisa completa ao telespectador, mostrando apenas o trecho que trata do resultado da simulação do segundo turno. Entre as combinações feitas pelo instituto, Bolsonaro perdia em todos os possíveis cenários de segundo turno.

No entanto, além desses dados, a pesquisa analisou a intenção de voto dos eleitores e a rejeição dos candidatos. Como primeira opção de escolha, oscilando de 22% em agosto para 24% em setembro, estava Bolsonaro. Ciro Gomes (PDT) aparecia em segundo lugar (saiu de 10% para 13%) e Marina Silva (Rede) em terceiro (caiu de 16% para 11%). Fernando Haddad (PT) cresceu de 4% para 9% das intenções de voto.

Isso significa que Bolsonaro estava na liderança, com o dobro de intenções de voto do adversário mais próximo, e seus quatro principais concorrentes empatados na disputa pelo 2º lugar.

A segunda pesquisa foi realizada pelo Ibope entre os dias 22 e 23 de setembro de 2018, ouvindo 2.506 pessoas, em 178 municípios. O nível de confiança da pesquisa foi de 95% e a margem de erro era de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. Assim como na primeira amostra, o vídeo também oculta parte do estudo do Ibope, expondo apenas a simulação do segundo turno.

De acordo com a pesquisa, embora Bolsonaro perdesse para Ciro, Haddad e Geraldo Alckmin (PSDB) e empatasse com Marina Silva na simulação do segundo turno, o presidente estava em primeiro lugar no ranking de intenção de voto (28%), seguido por Haddad (22%) e Ciro Gomes (11%). O Ibope também analisou a rejeição dos candidatos, mostrando que 46% da população não votaria de jeito nenhum em Bolsonaro e 30% não escolheria Haddad para a presidência.

Este cenário era válido para aquele momento e sofreu alterações em favor de Bolsonaro, como demonstraram os institutos de pesquisa ao longo das semanas seguintes (ver abaixo).

Pesquisas acertaram nas previsões dos dois turnos

Conforme apontou o Datafolha, Bolsonaro se manteve em primeiro lugar no ranking das intenções de voto no primeiro turno desde a prisão de Lula, em maio de 2018, episódio que anulou a candidatura do petista.

Em 17 de setembro de 2018, Bolsonaro contava com 26% das intenções de voto, enquanto Ciro e Haddad, na época candidato a vice-presidente pelo PT e possível substituto de Lula na chapa, empatavam com 13%. No dia 3 de outubro, Bolsonaro liderava com 32%, enquanto no dia 6, véspera do primeiro turno, chegou a 40% das intenções de voto. Haddad aparecia em segundo lugar com 25% dos votos válidos.

O primeiro turno, que ocorreu em 7 de outubro de 2018, terminou com Bolsonaro com 46,03% dos votos, o que equivale a 49.276.990 dos 107.050.673 votos válidos no país, e Haddad com 29,28%.

| Print de arquivo do portal Folha de São Paulo sobre intenção de voto no primeiro turno prevista pelo Datafolha de 10 de setembro de 2018 a 6 de outubro de 2018.

Em 11 de outubro de 2018, quatros dias depois do primeiro turno, o levantamento do Datafolha mostrou que Jair Bolsonaro largava com ampla vantagem para o segundo turno da disputa, computando 58% dos votos válidos, contra 42% de Fernando Haddad.

Em 26 de outubro, dois dias antes da realização do segundo turno, Bolsonaro contabilizava 56% dos votos válidos contra 44% de Haddad. A última pesquisa do Datafolha afirmou que Bolsonaro chegava à véspera da eleição com 55% dos votos válidos, com vantagem de 10 pontos percentuais sobre Fernando Haddad, que tinha 45%.

O resultado do segundo turno, em 28 de outubro, mostrou que Bolsonaro foi eleito presidente com 55,13% dos votos, o que equivale a 57.797.847 dos 104.838.753 votos válidos no país. Haddad ficou em segundo lugar, com 44,87% dos votos.

| Print de arquivo do portal Folha de São Paulo sobre intenção de voto no segundo turno prevista pelo Datafolha nos dias 10, 17, 18, 24 e 25 de outubro de 2018.

Conforme divulgado pelo portal G1 no dia 1º de outubro de 2018, as pesquisas realizadas pelo Ibope obtiveram um resultado semelhante às feitas pelo Datafolha. Jair Bolsonaro se manteve em primeiro lugar no ranking de intenção de voto desde o início dos levantamentos, em agosto de 2018, até o resultado final do pleito.

O levantamento mostra que entre 20 de agosto e 1º de outubro de 2018, a intenção de voto em Bolsonaro variou de 20% para 31%, enquanto Haddad oscilou de 4% para 21%, e Ciro Gomes de 9% para 11%. Esses dados se referem ao primeiro turno da eleição presidencial.

Em relação ao segundo turno, de acordo com a pesquisa do Ibope divulgada em 27 de outubro, a intenção de voto em Bolsonaro variou de 52% em 15 de outubro para 47% no dia 27. Haddad foi de 37% para 41% no mesmo período.

Dessa forma, ao omitir dados das pesquisas exibidas e não incluir no vídeo as pesquisas posteriores que mostraram o avanço de Bolsonaro, o vídeo investigado se constituiu como um conteúdo enganoso.

 

Levantamentos sobre o cenário eleitoral de 2022

A terceira pesquisa que aparece no vídeo investigado, ao contrário das anteriores, é referente ao cenário eleitoral de 2022, não de 2018. Ela foi realizada pelo Ipec entre 17 e 21 de junho de 2021 e ouviu 2.002 pessoas em 141 municípios. A margem de erro é de 2 pontos para mais e para menos, e o nível de confiança é de 95%.

Conforme o levantamento, que levou em consideração cinco pré-candidatos – Lula, Bolsonaro, Ciro Gomes, João Doria (PSDB) e Luiz Henrique Mandetta (DEM) – Lula venceria a eleição para a presidência no primeiro turno se a disputa ocorresse no dia 25 de junho de 2021, quando a pesquisa foi divulgada. Naquele dia, o ex-presidente tinha 49% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro contabilizava 23% e Ciro Gomes, 7%.

O último estudo divulgado pelo instituto foi realizado entre os dias 9 e 13 de dezembro de 2021, com 2.002 eleitores, em 144 municípios brasileiros. Conforme a pesquisa, Lula ainda aparece à frente com 48% das intenções de voto, seguido por Bolsonaro, com 21%. Sergio Moro (Podemos) é apontado por 6% dos eleitores, Ciro Gomes por 5%, enquanto João Doria por 2%.

O Ipec, no entanto, alerta que os dados do recente levantamento não podem ser comparados com pesquisas anteriores em razão da mudança dos nomes dos pré-candidatos analisados.

| Print da pesquisa realizada pelo Ipec em dezembro de 2021 sobre a sucessão presidencial deste ano.

A pesquisa também analisou a intenção de voto dos eleitores por segmento, intenção de voto espontânea (sem a apresentação dos nomes dos candidatos), taxa de rejeição dos políticos e a avaliação da gestão do governo Bolsonaro.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Pesquisas eleitorais podem influenciar a decisão de voto dos eleitores em determinado candidato. Desmentir conteúdos enganosos ou falsos sobre esses estudos é fundamental pois, do contrário, eles podem espalhar desinformação e descredibilizar o processo eleitoral, o que é prejudicial à democracia.

Alcance da publicação: Até o dia 29 de março, a publicação do TikTok alcançou mais de 88 mil visualizações e 14 mil interações, entre curtidas, comentários e compartilhamentos. No Facebook, a postagem teve 241 interações.

Outras checagens sobre o tema: Em verificações anteriores, o Comprova mostrou que é falso que apresentador americano tenha rido de pesquisa eleitoral do Brasil e que site omitiu que pesquisa com vantagem para Bolsonaro foi feita apenas em Santa Catarina. Além disso, em um material didático, o Comprova explicou que pesquisas eleitorais seguem métodos científicos, ao contrário de enquetes nas redes sociais.