O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Eleições

Investigado por: 2022-06-29

Post engana ao usar caso no RN para tirar credibilidade de pesquisas eleitorais

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o post que usa a relação entre um integrante do Partido dos Trabalhadores (PT) no Rio Grande do Norte e um instituto de pesquisa local para desacreditar todas as pesquisas de intenção de voto para a presidência da República. O caso envolve Antônio Leonilde de Oliveira, que já foi candidato pelo PT em eleições passadas, e o Instituto de Pesquisa Sensatus, e já foi remetido ao Ministério Público. Oliveira solicitou seu desligamento do instituto em janeiro de 2022 e deixou oficialmente a empresa em maio. A postagem reforça uma prática recorrente de alguns grupos de tentar tirar a credibilidade de pesquisas eleitorais.

Conteúdo investigado: Post no TikTok em apoio a Jair Bolsonaro (PL) traz vídeo com a frase “Agora tá explicado porque nas pesquisas o ladrão está na frente”. As imagens mostram trechos de dois programas nos quais os apresentadores criticam um caso ocorrido no Rio Grande do Norte, afirmando que o presidente de um diretório municipal do PT naquele estado é também dirigente de instituto de pesquisa que apontou vantagem do partido em consulta recente à população sobre a disputa eleitoral de outubro.

Onde foi publicado: TikTok e WhatsApp.

Conclusão do Comprova: É enganoso o post publicado no TikTok que usa a relação do presidente do PT de Itaú, município do Rio Grande do Norte, com o instituto de pesquisa Sensatus para desacreditar as pesquisas eleitorais realizadas no Brasil.

O caso em questão envolve Antônio Leonilde de Oliveira, que foi apontado em reportagens de veículos locais como o indivíduo ligado, simultaneamente, ao PT e ao Instituto Sensatus. Ao Comprova, o instituto confirmou que a polêmica se refere a Oliveira e que ele, de fato, foi um dos fundadores do instituto de pesquisa, ainda que já tenha se desligado da sociedade.

O PT, por sua vez, confirmou que Oliveira é dirigente do partido no município de Itaú. Em cidades pequenas, informou a assessoria, o endereço da legenda é o mesmo da presidência. Conforme cadastro interno do partido, o endereço de Oliveira coincide com a localização da sede da Sensatus que consta no site, embora hoje a área jurídica da empresa aponte em documentos outra numeração. Na internet, o endereço do instituto de pesquisa está com dados desatualizados, segundo a Sensatus.

A pesquisa de opinião que colocou em evidência a relação de Oliveira com o PT e o Sensatus foi feita entre os dias 28 e 31 de maio de 2022 e consultou a população sobre candidatos à presidência da República, governo do estado, Câmara Federal, Senado e Assembleia Legislativa.

Até aqui, não há comprovação de que tenha havido ilegalidade na coleta dos dados e nas informações registradas pelo Instituto Sensatus no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Mas o conteúdo investigado, que manifesta apoio a Jair Bolsonaro (PL), explora o episódio para questionar a credibilidade das pesquisas eleitorais de uma forma geral, sem citar outros casos específicos ou apresentar provas. Há uma referência à liderança do “ladrão” nas pesquisas, o que indica ser uma alusão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma vez que apoiadores de Bolsonaro costumam se referir a ele desta forma.

Consultado, o Ministério Público Federal (MPF) informou sobre a existência de um pedido de investigação envolvendo este caso, já remetido à promotoria eleitoral estadual. O MP estadual, por sua vez, confirmou que vai apurar a situação mencionada no vídeo.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: Até o dia 23 de junho, quando foi removido, o post já havia somado mais de 165 mil visualizações, 13,9 mil curtidas e 1,3 mil comentários.

O que diz a autora da publicação: A autora respondeu inicialmente ao Comprova, mas ao ser questionada sobre o vídeo, bloqueou a reportagem e apagou a publicação. O perfil dela não foi identificado em outras plataformas.

Como verificamos: Primeiramente, a reportagem assistiu ao vídeo aqui investigado e, na sequência, buscou a identificação dos trechos reproduzidos na postagem. Com a observação de detalhes dos vídeos, como o nome dos programas, as vestimentas dos participantes e o ambiente de fundo, a equipe encontrou, no YouTube, o original dos programas da rádio 96 FM e do canal ‘Todo poder emana do povo’.

Considerando essas alegações, o Comprova fez pesquisas através do Google, com as palavras “presidente”, “PT”, “Itaú”, “Rio Grande do Norte”, “Sensatus”, “pesquisa”, porém a consulta não retornou nenhum material produzido por veículos profissionais da imprensa nacional. Foi utilizado ainda o recurso do Google Street View para conferir o endereço.

A reportagem também consultou o TSE e o Ministério Público, tanto Federal quanto Estadual, para saber sobre a legalidade de suposto acúmulo de função de dirigente partidário e presidente de instituto de pesquisa, além de verificar se existe alguma investigação em curso sobre o que foi alegado no vídeo.

A equipe ainda procurou a direção do PT do Rio Grande do Norte, o governo do estado e o Instituto Sensatus, bem como tentou contato com a autora da publicação. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e a TV Bandeirantes do estado, que contratou a pesquisa, também foram consultados.

Vídeo reproduz trechos de programas na internet

O vídeo investigado apresenta um trecho do Jornal da Noite, publicado pelo canal do YouTube Todo Poder Emana do Povo no dia 9 de junho de 2022. Nele, o jornalista Gustavo Reis mostra parte do programa Meio Dia, da rádio 96 FM de Natal, veiculado dia 3 de junho e no qual o apresentador Bruno Giovanni trata sobre a suposta relação entre o presidente do PT em Itaú (RN) e o Instituto Sensatus.

Após o trecho da rádio ser exibido, Gustavo comenta o caso juntamente com o convidado Alan Lopes, que diz: “canalhas, pilantras, cafajestes, bandidos é o que eles são”. Ele ainda sugere que o PT deveria ter seu registro de candidatura cassado, acrescentando que “não é um partido, é uma facção criminosa, a gente precisa acabar com essa esquerda nojenta, asquerosa, comunista, assassinos.”

O vídeo foi apresentado no conteúdo investigado com a legenda “Atenção! Agora tá explicado porque nas pesquisas o ladrão tá na frente”. No texto do post, aparecem as tags “bolsonaro”, “mito”, “capitao” e “eleicoeslimpas”, ecoando o discurso de apoiadores de Bolsonaro segundo o qual as pesquisas que mostram Lula à frente nas intenções de voto são fraudadas. Há ainda dois emojis verdes que caracterizam uma pessoa sentindo náuseas.

Pesquisa está registrada na Justiça Eleitoral

A pesquisa que gerou o debate usado como base para o post investigado está registrada no TSE sob o número RN-02196/2022. No resumo do documento, constam consultas à população potiguar, no fim de maio, para os cargos de governador do Rio Grande do Norte e dos representantes do Legislativo – deputados estaduais, federais e senadores. Mas o questionário traz ainda perguntas sobre a disputa presidencial.

A advogada do instituto, Maria Paula Melo, e a chefia de jornalismo da TV Bandeirantes Natal confirmaram que a pesquisa também apontou a preferência do eleitorado para a presidência da República. O levantamento foi feito a pedido da afiliada da emissora no estado.

A emissora não exibiu, entretanto, os resultados para o cargo presidencial durante a transmissão de seus programas, pois, segundo a empresa, o foco do jornalismo local são as eleições estaduais. Os resultados completos da pesquisa de maio do Instituto Sensatus também não foram divulgados no portal ibandnr, site oficial da Band RN.

Ao Comprova, o TSE disse que a Justiça Eleitoral apenas registra as pesquisas realizadas, mas que não é sua atribuição divulgar o conteúdo.

Entretanto, conforme previsto no artigo 15 da Resolução 23.600/2019, a Justiça Eleitoral pode agir quando provocada pelas partes legitimadas – Ministério Público, candidatos, partidos, coligações e federações – a impugnar o registro e/ou a divulgação das pesquisas. Não houve nenhuma solicitação de impugnação para este caso, segundo o TSE.

O instituto e o PT

A direção do PT no Rio Grande do Norte também foi procurada, por e-mail e por telefone, mas não se manifestou sobre o caso. Mensagens foram enviadas para o endereço eletrônico do partido no estado e não foram respondidas. Em ligação para o diretório estadual, o presidente, identificado no contato apenas como Júnior, não estava. Foram três tentativas de falar com ele na sede, até que passaram o número do celular. O dirigente foi procurado por mensagem de texto e em ligações, porém não deu retorno.

Entre as perguntas enviadas para o partido desde o dia 20 de junho estão se Oliveira é mesmo presidente do diretório do PT em Itaú ou ocupa alguma outra função de dirigente do partido no Rio Grande do Norte, se é sócio da Sensatus e se a sede do instituto é a mesma do diretório petista. Também houve questionamentos sobre a compatibilidade do exercício das duas funções. Nada foi respondido pela direção.

Por fim, também consultada, a assessoria do partido no Rio Grande do Norte confirmou que Oliveira é presidente do PT de Itaú e, em cidades pequenas, disse que é comum que o endereço do partido seja o mesmo do seu dirigente.

No cadastro do partido, consta como endereço a mesma rua e numeração da Sensatus, considerando as informações do site da empresa até 29 de junho. Isto é: Oliveira é presidente do PT de Itaú e a localização da sua casa e diretório é igual ao endereço da empresa registrado no site. No entanto, documentos indicam que a empresa já não opera neste local.

A partir de pesquisas na internet, a equipe ainda identificou que Oliveira já disputou eleições pelo partido. Em 2004, concorreu a uma vaga na Câmara Municipal de Vereadores de Itaú e, em 2008, foi candidato a vice-prefeito numa chapa com o antigo PMDB na mesma cidade. Na urna, era identificado como Léo Basílio e não foi eleito em nenhuma das duas disputas.

Em 2019, Oliveira foi designado para uma função comissionada no governo do Rio Grande do Norte, comandado por Fátima Bezerra (PT). Ele é diretor regional de Alimentação Escolar de Pau dos Ferros, conforme consta na página 6 do Diário Oficial do dia 9 de março daquele ano. Uma busca por seu nome no Diário Oficial do Rio Grande do Norte não retorna nenhum informe sobre eventual exoneração, um indicativo de que ele permanece no cargo.

A assessoria do governo do estado foi questionada sobre a nomeação de Oliveira a uma função de confiança e se há compatibilidade com outras atividades, como a ligação com o instituto de pesquisa até o mês passado, mas não houve resposta.

Sociedade foi desfeita no mês passado

Procurado pelo Comprova, o Instituto Sensatus afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que Antônio Leonilde de Oliveira foi, no ano 2000, sócio-fundador da empresa que, na época, levava o nome de A Leonilde de Oliveira ME. Entretanto, em 2016, a razão social foi alterada para Sensatus Pesquisa e Consultoria.

Em relação ao desligamento de Oliveira do quadro societário da empresa, a advogada do Instituto Sensatus, Maria Paula Melo, informou à reportagem que ele requereu sua saída em janeiro de 2022, mas, devido a questões fiscais e administrativas, a homologação saiu apenas no mês passado.

Maria Paula acrescentou que, desde o requerimento de saída, Antônio não tem nenhuma função ou ligação com o instituto. Ao consultarmos a ficha do CNPJ do instituto no portal do governo federal, pudemos conferir o quadro societário, no qual só aparece o nome de Edson Alves de Lima Junior (sócio-administrador).

A advogada disse que o endereço Rua Joaquim André, 39, no Centro de Itaú, no Rio Grande do Norte, é “100% do Instituto Sensatus e não existem residentes no local.” A equipe também usou o Google Street View para localizar o endereço, porém as imagens são de 2012, quando ainda havia poucas construções no local e nenhuma referência ao instituto ou diretório do PT (imagem abaixo).

 

No site da Sensatus, porém, até o dia 29 de junho aparecia outra numeração no endereço da empresa. Ao ser questionada sobre essa situação, Maria Paula explicou que a Sensatus não possui mais domínio deste site. Segundo a advogada, a última movimentação foi em 2018 e, por isso, está desatualizado. Também esclareceu que o imóvel foi dividido e, desde 2020, o instituto tem uma nova numeração, conforme aparece na foto enviada ao Comprova pela assessoria da empresa.

A assessoria do instituto também mencionou que os resultados das pesquisas realizadas nos últimos anos correspondem aos resultados das urnas, demonstrando, em sua avaliação, o trabalho zeloso e responsável da empresa na coleta de dados.

Ministério Público vai apurar existência de ilegalidade

Podendo ser uma das partes a impugnar registro ou divulgação de pesquisas, o Ministério Público Federal informou, em áudio da assessoria por aplicativo de mensagem, que não havia até a última quinta-feira (23) investigação em curso para apurar suposta ilegalidade na pesquisa realizada pelo Instituto Sensatus, ou por acúmulo de atribuições de Oliveira, no PT e na empresa.

“Não tem nenhum procedimento na procuradoria regional eleitoral sobre isso, não foi registrada representação, nada.”

No dia seguinte, porém, a própria comunicação do MPF fez contato com o Comprova para informar sobre a chegada de um pedido de apuração sobre o caso, mas o órgão declinou e encaminhou o requerimento ao Ministério Público Estadual, que ainda vai averiguar as alegações apresentadas.

Tentativa de desacreditar pesquisas

O caso aqui investigado se soma a outros cinco verificados pelo Comprova somente neste mês (1, 2, 3, 4, 5), todos com conteúdos de desinformação para tentar desacreditar as pesquisas eleitorais.

O Comprova já explicou que a pesquisa é feita com uma amostra cientificamente calculada, a fim de representar o grupo como um todo e eliminar vieses. Também já esclareceu que o levantamento é uma representação do momento em que foi realizado, e não uma previsão do futuro. Até as eleições, mudanças podem ocorrer no cenário eleitoral e um candidato, que hoje aparece na preferência, pode deixar essa posição.

Além disso, segundo a legislação brasileira, todas as pesquisas devem ser registradas na Justiça Eleitoral, com detalhes sobre o método científico empregado, o plano de amostragem, os dados do profissional responsável, questionário completo a ser aplicado, entre outros. Essas informações estão disponíveis para consulta no site do TSE.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Embora não haja menção explícita ao ex-presidente e candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o vídeo traz ataques à esquerda e, particularmente, ao partido, tentando imputar atitudes suspeitas a seus dirigentes. Além disso, faz insinuações para desqualificar as pesquisas eleitorais que colocam candidatos petistas à frente nas consultas, seguindo a linha do presidente Bolsonaro, que também ataca as consultas. Essa prática é danosa ao processo democrático, pois confunde o eleitor, que tem direito a fazer suas escolhas baseadas em conteúdos verdadeiros.

Outras checagens sobre o tema: Com as eleições se aproximando, o tema tem sido pauta de desinformação frequentemente. Em muitos casos, tentando tirar a credibilidade das pesquisas eleitorais, como demonstrado pelo Comprova que um post trocou local de atos contra Lula para desacreditar pesquisas; que um vídeo faz alegações enganosas também pela mesma razão; e que entrevista sobre voto foi feita por humorista, não pelo Datafolha. O Comprova também já explicou a diferença de pesquisa, que usa métodos científicos, e enquete.

Eleições

Investigado por: 2022-06-28

É falso que PT seja responsável por drone que lançou produtos químicos em Minas Gerais

  • Falso
Falso
É falso que drone que lançou produtos químicos em evento de Lula e Alexandre Kalil em Minas Gerais foi contratado pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Em vídeo, pastor diz que investigação da Polícia Civil apontou que equipamento pertencia a uma empresa de propaganda e que operador disse à polícia que imagens seriam usadas na propaganda petista. O caso é apurado pelo Ministério Público Federal (MPF), que desmentiu a versão.

Conteúdo investigado: Vídeo em que pastor evangélico do Paraná afirma que drone usado para lançar fezes e urina em público de evento com Lula em Minas Gerais foi contratado pelo próprio PT, que pretendia usar imagens em propaganda eleitoral.

Onde foi publicado: YouTube

Conclusão do Comprova: É falso o conteúdo de um vídeo publicado no YouTube por um pastor evangélico do Paraná em que ele afirma que o drone usado para jogar fezes e urina no público de um evento com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PSD) em Uberlândia (MG), no dia 15 de junho, foi contratado pelo próprio PT. O Ministério Público Federal (MPF), que investiga o caso, desmentiu a fala e disse que, “segundo o apurado até o momento, não há nenhuma indicação que sustente tais ilações”. O drone foi usado para lançar agrotóxico no local, e não fezes e urina.

A fala do pastor Sandro Rocha, que já teve outro conteúdo verificado pelo Comprova, foi feita durante uma live transmitida em 22 de junho passado. Em meio a outras declarações, Rocha usou menos de dois minutos para afirmar que foi o próprio PT quem contratou o drone “para se fazer de vítima, para fazer propaganda política contra o Bolsonaro”. Ele atribui a falsa informação à Polícia Civil de Minas Gerais, que teria prendido o operador do drone e este, por sua vez, teria dito que recebeu ordens de lançar excrementos para que o ato fosse filmado e as imagens fossem usadas na propaganda política petista.

O Comprova procurou a Polícia Civil. A corporação respondeu que, na verdade, quem investiga o caso é o Ministério Público Federal. O MPF disse que a investigação está em fase inicial, mas adiantou que a fala do pastor não se sustenta. O PT denunciou o caso ao Ministério Público Estadual em Minas Gerais e o procurador-geral, Jarbas Soares Junior, também desmentiu a falsa acusação pelo Twitter.

Fotos feitas no local no momento da prisão dos três operadores do drone mostram que o equipamento estava em uma caminhonete Hilux branca, na qual havia um adesivo do atual presidente Jair Bolsonaro (PL). As imagens foram feitas pelo fotógrafo freelancer Wladimir Raeder no momento em que a Polícia Militar de Minas Gerais prendeu os três suspeitos.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O vídeo no YouTube que contém a declaração falsa tinha 115 mil visualizações até o final da manhã desta terça-feira (28).

O que diz o autor da publicação: O autor da publicação, o pastor evangélico Sandro Rocha, foi procurado através do e-mail oficial da Igreja do Porto de Cristo, que ele coordena, em Guaratuba, no Paraná, mas não houve resposta até a publicação desta checagem.

Como verificamos: Primeiro, buscamos no Google pelas palavras “drone”, “PT”, “Lula”, “Kalil”, “Minas Gerais”, “Polícia Civil” e “presos”. O resultado levou a reportagens sobre o ataque feito com o lançamento de um produto químico agrícola com o uso de um drone durante um evento com a participação de Lula e de Kalil. Dentre as publicações, as da CNN, G1, O Tempo, Estadão, Folha, Yahoo e Valor.

Inicialmente, acreditava-se que fezes e urina tinham sido jogadas no público, por conta do odor. Depois, se descobriu que o drone havia jogado um agrotóxico no público. Três pessoas foram presas em flagrante pela Polícia Militar de Minas Gerais, mas foram liberadas após assinarem um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO).

O Comprova, então, passou a buscar reportagens sobre os presos na ocasião. Foram três homens: Rogério Luiz Parreira, Charles Wender Oliveira Souza e Daniel Rodrigues de Oliveira. Nenhuma das matérias citava participação do PT ou mencionava que eles eram apenas operadores do drone por trás de uma empresa de propaganda.

Uma das matérias, publicada pelo Diário do Centro do Mundo (DCM), mostra uma fotografia de uma caminhonete Hilux branca com drones na carroceria e um adesivo do presidente Bolsonaro na parte de trás, pouco abaixo do nome e do modelo do carro – do lado direito.

O Comprova, então, buscou informações sobre o carro e procurou por outras imagens do evento que também mostrassem o mesmo veículo, o que levou a fotos feitas pelo fotógrafo freelancer Wladimir Raeder. A reportagem entrou em contato com o fotógrafo, que enviou três fotos feitas no local durante a prisão em flagrante do suspeito – uma mostra o adesivo e outra mostra a placa do carro.

Foram procuradas ainda as polícias Civil e Militar de Minas Gerais, o Ministério Público Federal em Minas, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) – que regulamenta os drones –, o PT e acessado o perfil no Twitter do procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, Jarbas Soares Junior, além do autor do vídeo.

O ataque com drone

O lançamento de um produto químico com drone durante um evento político em Minas Gerais aconteceu no dia 15 de junho deste ano, na Universidade do Triângulo Mineiro (UniTri), na cidade de Uberlândia. O evento de Lula como pré-candidato à presidência da República contou também com a participação de Alexandre Kalil, que é pré-candidato ao governo do estado de Minas e tem apoio do petista. A princípio, as pessoas atingidas gritavam que estavam jogando fezes e urina, mas a Polícia Militar informou se tratar de um produto agrícola.

Três homens foram presos em flagrante no local pela PM. Eles estavam em uma caminhonete Hilux branca com drones na carroceria e disseram que tinham jogado veneno no público. Um vídeo publicado nas redes sociais mostra as mãos de um homem operando o drone, enquanto eles conversam e dão risada sobre o ato. Em dado momento, um deles diz para aumentar a vazão do produto, enquanto o outro responde que está no máximo e que só jogou dois litros. Eles riem ao constatarem que as pessoas estão gritando. Um dos homens diz para jogar o produto no palco e na arquibancada.

Uma foto divulgada pela Polícia Militar de Minas Gerais foi usada pela imprensa local, mas não mostra informações como a placa do carro, apenas a cor. O drone está na carroceria do veículo que, segundo mostram a foto publicada pelo DCM e as outras, feitas pelo fotógrafo Wladimir Raeder, tem placa de Itumbiara (GO), cidade a 133 quilômetros de Uberlândia. A informação foi acessada pelo Comprova através do aplicativo Sinesp Cidadão, do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Preso por estelionato

Um dos suspeitos presos em flagrante no local se chama Rodrigo Luiz Parreira, de 38 anos. Agropecuarista, ele é conhecido como “Rodrigão Treta” e já possui passagens pela polícia, inclusive uma condenação em primeira instância por estelionato em Minas Gerais e outra por roubo em Goiás, onde nasceu.

Pelo crime de estelionato, Parreira foi condenado a dois anos e seis meses de prisão, mas a pena foi convertida em alternativa. Ele foi acusado de integrar uma quadrilha de desvio de cargas. Durante o processo, disse que era “perseguido” pela polícia. À Folha e ao Estadão, o advogado de Parreira não se manifestou sobre a prisão por estelionato, disse que o cliente é réu primário e que já foi absolvido de uma condenação.

Ele se refere, provavelmente, a uma ação em que o Ministério Público de Minas Gerais denunciou o cliente, junto com outras pessoas, de intermediar a venda de uma carga roubada de uma grande loja de roupas em um posto de combustíveis de Jaraguá (GO). O juiz que o absolveu, Márcio José Tricotti, de Uberlândia, disse que as provas eram frágeis. A sentença ainda pode ser alvo de recurso.

Investigação do MPF e MP-MG

No vídeo aqui investigado, o pastor evangélico atribui à Polícia Civil de Minas Gerais a informação de que o drone teria sido contratado pelo próprio PT para “se fazer de vítima”. Contudo, não é a Polícia Civil que investiga o caso, e sim o Ministério Público Federal, já que o caso, a princípio, envolve drone, que é regulamentado pela Anac, na esfera federal.

Mesmo assim, o Comprova consultou a Polícia Civil sobre as declarações do pastor. A corporação respondeu por e-mail que “a investigação ficou a cargo do Ministério Público Federal por se tratar, a matéria, de competência da Justiça Federal”.

Também por e-mail, o MPF em Minas respondeu que, “até o momento, não há nenhuma indicação que sustente tais ilações”, em referência às afirmações feitas pelo pastor.

O Partido dos Trabalhadores, acusado pelo autor do vídeo de ter contratado uma empresa de propaganda para lançar o produto por meio de drone e usar as imagens em peças de campanha, negou as acusações. “O PT não contratou as pessoas, a acusação é caluniosa. As pessoas que operavam o drone foram presas no dia e o PT acompanha o caso para que elas sejam punidas”, disse o partido, através da assessoria de imprensa.

Na ocasião, o PT acionou o Ministério Público Estadual (MPMG), que também investiga o episódio. No Twitter, o procurador-geral de Justiça no Estado, Jarbas Soares Junior, também desmentiu a acusação feita no vídeo.

A denúncia ao MPMG foi feita pelo deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG) no dia 20 de junho. Segundo o procurador-geral, o caso foi sorteado para o promotor Marco Aurélio Nogueira, que está apurando a denúncia.

A Anac informou que, até o momento, não foi acionada pelos investigadores do caso, mas que “está à disposição para prestar os esclarecimentos necessários, caso seja demandada”.

Foto mostra adesivo de Bolsonaro

O Diário do Centro do Mundo, um portal digital que se identifica como sendo de esquerda, publicou com exclusividade uma imagem da picape onde estava o drone usado na ação. O carro possui um adesivo com o rosto do presidente Jair Bolsonaro. O site atribuiu a informação e a fotografia em que aparece nitidamente o adesivo a um dos policiais que participou da abordagem e que pediu para não ser identificado.

O Comprova consultou a Polícia Militar sobre a alegação do vídeo. Depois, solicitou informações também sobre eventuais fotografias feitas pela corporação que mostrassem o adesivo. Em nota, a PM respondeu apenas que o caso foi encaminhado ao MPF em Uberlândia, mas não respondeu sobre imagens.

Entretanto, uma matéria publicada pelo G1 Triângulo e Alto Parnaíba usava uma fotografia do momento da prisão, creditada ao fotógrafo Wladimir Raeder.

| Polícia Militar de Minas Gerais prendeu em flagrante três suspeitos de operar o drone. Crédito: Wladimir Raeder

A reportagem entrou em contato com o fotógrafo e solicitou imagens feitas no local no dia do ato. Raeder as enviou à equipe, junto com os metadados. As fotos foram feitas no dia 15 de junho de 2022 às 16:23:38 e às 16:23:56, como mostram os metadados abaixo:

O fotógrafo explicou que aguardava o início do evento quando notou uma movimentação e correu para ver o que estava acontecendo. Foi quando ele subiu num muro de um condomínio fechado e conseguiu registrar o momento em que policiais a bordo de duas viaturas da PM de Minas Gerais prenderam em flagrante três suspeitos de operar o drone.

Mesmo com baixa nitidez por causa do zoom máximo, é possível observar em duas das imagens enviadas pelo fotógrafo tanto a placa do carro quanto o adesivo de Bolsonaro que aparecem na foto publicada pelo DCM (clique para comparar as fotos). A marca de poeira que aparece um pouco acima do nome do carro também é similar.

| Uma das fotos enviadas por Wladimir Raeder mostra placa do veículo e marca de poeira, que também aparecem na imagem do DCM. A outra mostra partes do drone. Crédito: Wladimir Raeder

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e as eleições presidenciais de 2022 que viralizaram nas redes sociais. O vídeo aqui verificado traz informações falsas a respeito de um ataque real feito em um evento de um pré-candidato à presidência da República e, sem provas, atribui a ação ao próprio PT. Ao dizer que a informação veio da Polícia Civil, o que não é verdade, o autor passa aos seus espectadores a falsa sensação de que a acusação tem base em fatos, o que não é a realidade aqui.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já mostrou como um vídeo antigo foi usado para afirmar que Lula e Alckmin foram hostilizados em Porto Alegre, que um protesto de indígenas na Bahia era por melhorias na educação, e não por verba para ato contra Bolsonaro, e que pessoas gritavam a favor de Lula e não contra ele em vídeo na Sapucaí. O mesmo conteúdo aqui verificado já foi checado pelo Boatos.Org, pela agência Aos Fatos e pela AFP Checamos.

O autor do vídeo já foi verificado pelo Comprova. Em outro vídeo, ele disse que “a maior reserva de gás natural do mundo” foi encontrada no Paraná durante o governo Lula, mas que o ex-presidente criou o Parque Nacional do Iguaçu no local para impedir a exploração da commodity e privilegiar a compra de gás da Bolívia, em benefício do ex-presidente boliviano Evo Morales. O Comprova mostrou que a afirmação era falsa e que o Parque Iguaçu, além de não ter reserva de gás, foi criado por Getúlio Vargas, não por Lula.

Eleições

Investigado por: 2022-06-28

Lula faz crítica a políticos que veem pobres como números; vídeos enganam ao mudar contexto

  • Enganoso
Enganoso
Vídeos enganam ao usar um trecho fora de contexto de discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para sugerir que o petista teria comparado pessoas pobres a papel higiênico e dito que elas "são apenas números". Na fala, realizada durante um evento sobre a fome no Brasil, em outubro de 2021, Lula reprova a atitude de alguns políticos que, segundo ele, só pensam na população que tem pouco recurso em épocas de eleição.

Conteúdo investigado: Dois vídeos exibem o mesmo trecho de uma fala de Lula em que o ex-presidente diz que pessoas pobres só são lembradas por políticos em época de eleição. Uma das publicações tem a tela dividida em duas partes: à esquerda, o autor do post reage desaprovando a fala do ex-presidente, enquanto à direita é mostrado o vídeo do petista.

Onde foi publicado: Kwai.

Conclusão do Comprova: São enganosos os vídeos que circulam no Kwai que sugerem que o ex-presidente Lula, durante um discurso, teria menosprezado a população pobre ao compará-la com papel higiênico.

A fala do petista, que durou cerca de 43 minutos, foi retirada de contexto. Na ocasião, Lula discursou no Encontro dos Movimentos do Campo, das Florestas e das Águas, em 15 de outubro de 2021, que tinha como objetivo promover uma discussão sobre o combate à fome no Brasil.

Os vídeos aqui verificados não exibem a fala completa de Lula que, na realidade, critica a postura, atribuída por ele a outros líderes, de lembrar das pessoas pobres apenas em período de campanha eleitoral.

O Comprova classifica como enganoso todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações e que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Juntos, os vídeos publicados no Kwai alcançaram mais de 906 mil interações, sendo 28,2 mil curtidas, mais de 7 mil comentários, 40,9 mil compartilhamentos e 830,4 mil visualizações até o dia 28 de junho.

O que dizem os autores das publicações: O Comprova entrou em contato com os responsáveis pelas publicações por meio de mensagens na rede social Kwai. No entanto, não houve retorno até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: O Comprova iniciou a checagem fazendo a transcrição da fala de Lula exibida pelos vídeos verificados. A partir disso, utilizando um trecho do discurso, fez uma busca no Google, que resultou em um vídeo mais completo, publicado no perfil do ex-presidente no Facebook, com a íntegra do discurso.

Com a gravação, que tem 42 minutos e 59 segundos de duração, o Comprova pôde investigar o contexto e o teor da fala completa de Lula, além da data e local onde foi realizada.

Os vídeos verificados

As peças de desinformação verificadas pelo Comprova foram publicadas no dia 24 de junho por dois perfis diferentes na rede social Kwai, um aplicativo móvel de compartilhamento de vídeos. Ambos utilizam trecho de um discurso feito por Lula, pré-candidato à presidência da República pelo PT. Um dos vídeos leva o título de “Lula diz: ‘Pobre é só um número’. Lula e a esquerda contra o povo”; o outro é intitulado “É um número Lula? Pobre é papel higiênico Lula?”.

No conteúdo alvo da verificação, Lula aparece dizendo: “O pobre é um número. Às vezes, um número bonito para se utilizar em campanha. Eu, há 20 anos atrás, dizia: ‘Pobre, sabe, é utilizado como se fosse papel higiênico. Ah, tem uma baita utilidade na época de eleição, mas depois joga ele fora, esquece’”.

A declaração, retirada de seu contexto original, sugere, de forma enganosa, que Lula considera o pobre “um número bonito para se utilizar em campanha. Na verdade, o ex-presidente faz uma crítica a essa postura, atribuída por ele a outros políticos.

Fala completa

Ao buscar por um trecho da declaração no Google, a equipe de verificadores chegou a outro vídeo, mais completo, publicado na página oficial de Lula no Facebook, com duração de 42 minutos e 59 segundos. A partir desse conteúdo, foi possível identificar o contexto e a data em que o discurso foi feito.

A manifestação ocorreu no Encontro dos Movimentos do Campo, das Florestas e das Águas com Lula, em 15 de outubro de 2021, véspera do Dia Mundial da Alimentação. Um vídeo, ainda mais extenso, desse mesmo encontro está publicado no canal oficial de Lula no YouTube. No evento, o ex-presidente afirmou que a volta da fome estaria relacionada à ausência de um projeto que coloca os pobres no orçamento do país: “A gente pode produzir o que quiser, mas se o povo não tiver dinheiro, ele vai passar fome.”

O trecho utilizado pelos autores dos vídeos verificados pode ser encontrado entre os minutos 00:34:59 e 00:35:18 (link do Facebook). A ideia completa parte do minuto 00:33:45 e se estende ao 00:35:59, confira:

“Então, nós estamos falando de fome de comida, mas nós temos muitas outras fomes, gente. Muitas outras fomes tão duras ou tão fortes quanto a comida. Nós temos fome de política ambiental e preservação das nossas águas, e preservação das nossas florestas, dos nossos animais, da nossa fauna. E de um animal, que, se a gente não tomar cuidado, ele está morrendo muito fortemente, que é o ser humano. Uma das grandes desgraças é que o ser humano, os mais pobres, não estão morrendo só na Amazônia por causa do desmatamento, do desemprego e da fome. Morre no mundo inteiro pelo esquecimento daqueles que deveriam ter responsabilidade de lembrar. Nenhum presidente de nenhum país do mundo se esquece do orçamento das Forças Armadas, nenhum país do mundo se esquece dos orçamentos do Itamaraty, do orçamento do Ministério Público, do orçamento da Polícia Federal, do orçamento da Receita, mas esquece de colocar o pobre no orçamento. Porque o pobre não é levado em conta. O pobre é um número. Às vezes, um número bonito para se utilizar em campanha. Eu, há 20 anos atrás, dizia: ‘Pobre, sabe, é utilizado como se fosse papel higiênico. Ah, tem uma baita utilidade na época de eleição, mas depois joga ele fora, esquece.’ Eu estou falando isso, coisa que eu já falei 30 anos atrás, eu sou velho, eu estou falando do passado. Eu deveria falar do futuro, mas essa gente que cassou a Dilma, fez o impeachment da Dilma, fazendo a ponte para o futuro, olha a ponte que eles nos deram: o purgatório. Essa gente faz autocrítica? Não. Essa gente quer a continuidade disso. Porque esse país nunca foi governado para 100% do seu povo. Esse país sempre foi governado para uma minoria privilegiada.”

Ao analisar o discurso, é possível perceber que Lula critica, inicialmente, o posicionamento de presidentes ao redor do mundo que se esquecem de “colocar o pobre no orçamento” e que os mais pobres estão morrendo “pelo esquecimento daqueles que deveriam ter responsabilidade de lembrar”. Ao mencionar que “o pobre é um número”, “um número bonito para se utilizar em campanha”, Lula não está expressando a própria opinião, mas buscando exemplificar como esses presidentes, cujos nomes não são citados, enxergam o pobre.

Na sequência, o presidenciável faz referência a “essa gente que cassou a Dilma (PT), fez o impeachment da Dilma”. Cita que deveria estar falando do futuro, mas que há décadas segue insistindo no mesmo tema (a “utilização” do pobre em época de eleição por interesse) por entender que a questão não foi superada.

Lula, em seguida, menciona que, em vez de “ponte para o futuro”, “olha a ponte que eles nos deram: o purgatório” – fazendo uma clara crítica ao programa de governo batizado de ”Uma Ponte para o Futuro”, que pavimentou as ações do presidente Michel Temer após a queda da ex-presidente Dilma Rousseff.

Os autores dos vídeos

Um dos perfis que postou o vídeo checado aqui tinha, até dia 27 de junho, 5,2 mil seguidores no Kwai e 523 conteúdos postados. A maior parte das publicações é contrária a Lula e ao PT e favorável ao presidente Jair Bolsonaro (PL). O autor também possui um canal no YouTube, com 462 seguidores, e um perfil no Twitter, em que consta que é de Minas Gerais.

O outro vídeo verificado foi publicado por um perfil intitulado Sou contra o PT e você? (Celso 5692). O perfil tem 48,9 mil seguidores e 634 postagens; a maioria delas contra Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e as eleições presidenciais que viralizaram nas redes sociais. Os vídeos aqui verificados tiram de contexto a fala de um pré-candidato ao Planalto. Isso pode confundir e influenciar a decisão de voto dos eleitores, o que é prejudicial para o processo democrático.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou outras peças de desinformação a respeito de figuras políticas que podem interferir na escolha dos eleitores. Recentemente, o Comprova mostrou que Lula não tem conta no banco do Vaticano; que post adulterou áudio e mentiu ao afirmar que Lula foi xingado em Caruaru (PE) e que post trocou local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas.

Eleições

Investigado por: 2022-06-24

Lula não tem conta no banco do Vaticano; falsa denúncia já foi contestada pela instituição

  • Falso
Falso
É falso vídeo em que homem afirma que "Lula tem 250 milhões de euros no Banco do Vaticano". A fonte da informação foi uma entrevista no YouTube, de um canal boliviano, com um suposto diácono que já havia sido desmentido pelo Vaticano em 2019. Ao Comprova, a assessoria de Lula confirmou que o ex-presidente nunca teve conta no banco do Vaticano ou em qualquer outro no exterior.

Conteúdo investigado: Vídeo em tom de denúncia afirma que o ex-presidente Lula teria 250 milhões de euros escondidos no Banco do Vaticano. O autor do conteúdo exibe trecho de uma entrevista no YouTube com um homem que diz ser diácono e possuir documento mostrando os dados da conta do petista e de outros líderes da América Latina.

Onde foi publicado: Kwai e Facebook.

Conclusão do Comprova: É falso vídeo que circula nas redes sociais em que homem diz fazer uma denúncia e afirma que o ex-presidente e pré-candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria 250 milhões de euros no Banco do Vaticano, cujo nome oficial é Istituto per le Opere di Religione (IOR) ou Instituto para as Obras de Religião, em português. O apresentador usa como fonte do conteúdo falso uma entrevista de um suposto diácono ao canal de uma apresentadora boliviana no YouTube. O vídeo foi publicado há dois anos.

O primeiro registro do tal clérigo fazendo acusações infundadas não só contra Lula como contra outros líderes da América Latina foi em um jornal colombiano, em janeiro de 2019. Na época, o Vaticano logo desmentiu o conteúdo. “Nenhuma das pessoas mencionadas (…) jamais teve uma conta bancária na IOR, nem tem atualmente uma, nem tem uma assinatura de delegação de contas a terceiros, nem teria – com base nas novas regras adotadas pelo Instituto – qualquer título para acessar qualquer operação lá. Os documentos apresentados como prova são falsos. A IOR se reserva o direito de tomar medidas legais””, disse Alessandro Gisotti, então diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé. Procurada pelo Comprova, a assessoria de imprensa do petista também negou a informação.

Além disso, não há provas que confirmem a posição de diácono do homem que faz as supostas denúncias e os documentos apresentados por ele já foram verificados como falsos pela agência de checagem colombiana Colombia Check.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. No Facebook, o vídeo compartilhado em grupo bolsonarista teve 374 interações, entre comentários, curtidas e compartilhamentos até o dia 24 de junho. No Kwai, o conteúdo alcançou 1,5 mil interações.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com o autor do vídeo verificado aqui e com os responsáveis pelas publicações no Kwai e no Facebook, mas não houve retorno até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: A partir da busca no Google pelas palavras-chave “Lula” e “Banco do Vaticano”, o Comprova encontrou diversas checagens sobre o tema de outras agências como Aos Fatos, Lupa e Estadão Verifica. Assim, foi possível buscar o vídeo original da entrevista em que o suposto diácono acusa líderes da América Latina de manterem contas secretas no Banco do Vaticano.

O próximo passo foi verificar as informações a respeito do IOR, seu funcionamento e quem são os clientes do banco. Isso foi feito por meio de consultas ao site da instituição e ao relatório de atividades de 2021.

O Comprova também reuniu dados sobre o homem que aparece no vídeo verificado, professor Emílio, apresentador da TV Nossa Senhora de Fátima.

Por fim, a equipe tentou contato, sem sucesso, com o Banco do Vaticano, a TV Nossa Senhora de Fátima, o professor Emílio, o suposto diácono Jorge Sonnante e o Arcebispado de Buenos Aires. A assessoria do ex-presidente Lula também foi procurada.

O vídeo

“Denúncia. Lula teria € 250 milhões no Banco do Vaticano” começa o vídeo verificado aqui, de 4 minutos e 59 segundos. O homem que traz a falsa denúncia diz que é por isso que “você não vê foto do [papa] Francisco com Bolsonaro, mas vê com Lula, Dilma, Evo Morales e Maduro”. Dirigindo-se ao presidente do Brasil, ele, que se apresenta como professor Emílio, da TV Nossa Senhora de Fátima, afirma “então, Bolsonaro, é por isso que você não recebe cartinha do papa quando você é operado nem a benção do Francisco, tá bom? Matamos a charada, tá?”.

Depois de exibir um trecho de 19 segundos da entrevista com o suposto diácono (a entrevista completa, no Ahora con Roxana, tem pouco mais de uma hora; a parte de Lula é a partir dos 46 minutos e 33 segundos), o apresentador diz que, para as “pessoas de esquerda”, a relação “nunca é por amizade, nunca é por fidelidade, é só dinheiro e corrupção”. No final, ele pede que a Polícia Federal investigue o caso, com a Interpol e a Agência Central de Inteligência (CIA).

O professor Emílio, segundo o site da TV Nossa Senhora de Fátima, é professor e catequista. No LinkedIn, ele se apresenta como Emílio Carlos, “diretor no Apostolado de Evangelização Nossa Senhora de Fátima”, em Taubaté, no interior paulista. Ainda nesta rede, ele afirma que “o apostolado evangeliza pela internet através da web TV Criança Católica e da web TV Nossa Senhora de Fátima”.

Contas inexistentes

O trecho da entrevista usada no vídeo verificado aqui foi retirado do canal Ahora con Roxana no YouTube, com 10,3 mil inscritos. A apresentadora é Roxana Lizárraga, que, no Twitter, se descreve como “jornalista, advogada, política e guerreira da democracia e da liberdade de expressão”. Entre 2019 e 2020, foi ministra das Comunicações da Bolívia – em um episódio que ficou conhecido, ameaçou jornalistas enquanto ocupava o cargo.

Em 2019, ela publicou em seu canal uma entrevista com Jorge Sonnante, apresentando-o como diácono. Na gravação, intitulada “Contas socialistas no Vaticano”, ele mostra papéis que afirma serem documentos oficiais do Vaticano. O suposto diácono mostra os documentos como provas da existência de contas bancárias dos presidentes e ex-presidentes da América Latina Cristina Kirchner (presidente da Argentina de 2007 a 2015; atual vice), Juan Manuel Santos (Colômbia, de 2010 a 2018), Evo Morales (Bolívia, de 2006 a 2019) Rafael Correa (Equador, de 2007 a 2017), Raúl Castro (Cuba, de 2006 a 2018), Daniel Ortega (Nicarágua, de 1979 a 1990 e desde 2007), Nicolás Maduro (Venezuela, desde 2013) e Lula (Brasil, 2003 a 2011).

No post verificado aqui, o homem que aparece no vídeo usa apenas o trecho em que Roxana e o entrevistado falam de Lula.

Antes de Roxana, a primeira reportagem sobre os documentos de Sonnante que comprovariam essas contas foi publicada pelo site colombiano El Expediente, em 9 de janeiro de 2019.

Porém, no mesmo mês, o Vaticano desmentiu as alegações. “Depois de verificar com as autoridades competentes, posso afirmar que nenhuma das pessoas mencionadas no artigo jamais teve uma conta bancária no IOR, nem a possui atualmente, nem possui assinaturas de delegados em nome de terceiros, nem teria algum título para realizar alguma operação”, afirmou Alessandro Gisotti, então diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé. “Os documentos apresentados como evidência são falsos. O IOR se reserva o direito de tomar medidas legais”, terminava o comunicado oficial.

Outros casos

O conteúdo apresentado no canal Ahora com Roxana não foi o primeiro a afirmar que Lula tem fortunas em bancos fora do Brasil. Em 2018, por exemplo, o Comprova verificou um texto sobre o petista ser dono de uma poupança de US$ 108 milhões depositada em Luxemburgo – não havia nenhuma evidência do caso.

Procurada pela reportagem para comentar o post verificado aqui, sobre o Banco do Vaticano, a assessoria de imprensa de Lula também negou a informação. “O ex-presidente nunca teve conta nem no Banco do Vaticano nem em nenhum banco do exterior. Lula já foi extensamente investigado, já teve todos os seus sigilos fiscais e bancários quebrados e não foi encontrada nenhuma irregularidade”, afirmou.

Banco do Vaticano

Diferentemente do que o post insinua, não é qualquer pessoa que pode ter uma conta no Banco do Vaticano, fundado em 1942. Apenas instituições credenciadas à Santa Sé e entidades ou pessoas jurídicas ligadas ao Vaticano.

Como informa seu site, o IOR “realiza atividades financeiras autorizadas pela Autoridade de Supervisão e Informação Financeira (ASIF) e oferece os seguintes serviços: recebimento de depósitos, administração de ativos, determinadas funções de custódia, transferências internacionais de pagamentos por meio de bancos correspondentes e manutenção de contas de salários e pensões de funcionários da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano”.

Ainda de acordo com a página, “a missão do instituto envolve assegurar a custódia e administração dos bens transferidos ou confiados ao instituto por pessoas físicas ou jurídicas, e destinados para obras de religião ou caridade”.

No final de 2020, o Banco do Vaticano gerenciava cerca de 5 bilhões de euros (31 bilhões de reais, aproximadamente) em depósitos de clientes e administrava uma carteira de ativos de 649,9 milhões de euros (cerca de 4 bilhões de reais), segundo matéria do UOL.

Até o dia 31 de dezembro de 2021, o IOR tinha 14.519 clientes, divididos da seguinte forma: ordens religiosas (50%), departamentos da Cúria Romana, escritórios da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano e nunciaturas apostólicas – missões diplomáticas da Santa Sé – (23%), conferências episcopais, dioceses e paróquias (9%), cardeais, bispos e clero (8%), funcionários e aposentados do Vaticano (7%); fundações e outras entidades de Direito Canônico (3%). As informações constam no site da instituição.

Quem é Jorge Sonnante

O suposto diácono nasceu na cidade de Bahía Blanca, na Argentina. Ele tem 43 anos, é casado e tem duas filhas.

Sonnante é presidente da União para o Partido da República da Argentina e, conforme consta no site do partido, já teria sido “membro da Secretaria de Estado na Santa Sé como conselheiro pontifício de vários papas e como analista de campo na área de inteligência”.

Embora ele se apresente como diácono da Igreja Católica, não há provas que confirmem a função. Como mostrou a Agência Aos Fatos, documentos postados por Sonnante no Twitter que comprovariam seu trabalho na Cúria Romana de 2013 a 2015 têm ao menos dois erros. Em vez de “Segreteria di Stato“, grafia correta do nome do órgão em italiano, o selo e o carimbo dizem: “Secretaria de Estado” e “Secretaria di Stato”, respectivamente.

Além disso, Rodriguez Carballo, arcebispo espanhol que teria assinado o documento do suposto diácono em 12 de abril de 2013, só foi ordenado para o cargo em 18 de maio de 2013.

Sonnante também tem uma empresa de análise de informação e inteligência chamada Dark Falcon SRL e mantém uma plataforma online para divulgar conteúdos que, segundo ele, não são noticiados pela mídia. Por meio de seu site, Sonnante comercializa quatro itens: duas conferências, um equipamento de respiração “para o usuário sobreviver a qualquer ataque bacteriológico” e um livro escrito por ele, intitulado “Trump: a marca do anticristo”.

O argentino já foi alvo de verificações em outros países como Colômbia e Bolívia.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e as eleições presidenciais de 2022 que viralizaram nas redes sociais. O vídeo aqui verificado traz informações falsas a respeito de um pré-candidato ao Planalto que podem confundir e influenciar a decisão de voto dos eleitores.

Outras checagens sobre o tema: A mesma peça de desinformação já foi verificada pela Aos Fatos, Agência Lupa e Estadão Verifica. Além disso, os documentos utilizados pelo homem que aparece no vídeo foram comprovados como falsos pela agência de fact-checking colombiana Colombia Check.

Em verificações anteriores envolvendo o ex-presidente Lula, o Comprova mostrou que post troca local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas; que post engana ao omitir que protesto contra Lula em Bagé é de 2018; e que Lula não foi expulso de Niterói como afirma vídeo.

Eleições

Investigado por: 2022-06-24

Post adultera áudio e mente ao afirmar que Lula foi xingado em Caruaru

  • Falso
Falso
É falso conteúdo publicado no Facebook afirmando que Lula foi hostilizado ao participar da festa junina em Caruaru, Pernambuco. A publicação sofreu edição com a introdução de um áudio com gritos de “ladrão”. No conteúdo original, o ex-presidente é aplaudido durante um ato político de um aliado em Uberlândia, Minas Gerais. No post, é tocado um jingle de pré-campanha eleitoral.

Conteúdo investigado: Vídeo no Facebook mostra Lula caminhando em um palco ao lado do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil. O ex-presidente segura uma bandeira do Brasil nas mãos. No conteúdo, são ouvidos gritos de: “ladrão, ladrão”. A legenda ironiza: “O líder das pesquisas foi na festa junina de Caruaru-PE e foi extremamente aclamado pelo povo”.

Onde foi publicado: Facebook.

Conclusão do Comprova: É falso um vídeo compartilhado no Facebook afirmando que o ex-presidente e pré-candidato à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi vaiado e xingado de ladrão durante uma festa junina em Caruaru (PE). O vídeo que circula na rede social é, na verdade, uma montagem. O áudio com os xingamentos foi inserido posteriormente por meio de edição.

As imagens foram feitas no dia 15 de junho em um evento político em Uberlândia (MG), em que Lula participou ao lado do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PSD-MG). Não há registros de que o petista tenha participado de festa junina em Caruaru.

O post também questiona a credibilidade das pesquisas de intenção de voto ao ironizar: “O líder das pesquisas foi na festa junina de Caruaru-PE e foi extremamente aclamado pelo povo”. A alegação sugere que o ex-presidente tem baixa popularidade, o que não procede. Ele aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para presidente, que utilizam métodos científicos para apurar o quadro do momento.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: No Facebook, o post acumulava até o dia 24 de junho, mais de 1,3 mil compartilhamentos, 138 comentários e 351 curtidas. A postagem já foi sinalizada como “informação falsa” pela plataforma.

O que diz o autor da publicação: No Facebook, o post foi feito por uma usuária que costuma publicar conteúdos em apoio a Jair Bolsonaro. Na imagem do perfil, inclusive, ela divulga o número 22, em alusão ao PL, partido ao qual o presidente é filiado. O mesmo conteúdo foi compartilhado por um seguidor em um grupo denominado Dr Damares eu apoio a ministra dos Direitos Humanos. Ambos foram procurados pelo Comprova, mas não responderam.

Como verificamos: A publicação analisada pelo Comprova já foi alvo de checagens de outras agências como Aos Fatos, Boatos.org e AFP Checamos, que serviram como base para o início desta verificação. A partir daí, foi possível encontrar o vídeo original publicado no TikTok.

Neste conteúdo, foi possível escutar um trecho do que parece ser um jingle de campanha e que traz os seguintes dizeres: “Eu sou de Minas Gerais, coração do Brasil…”. Em busca no Google por esse trecho, encontramos um vídeo no YouTube, no canal de Lucas Rodrigues, que detalhou a informação de que este, de fato, é um jingle da pré-campanha do ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD) ao governo de Minas Gerais, nas eleições de 2022.

A partir daí, em uma busca no Google com as palavras “Lula”, “Minas Gerais” e “Kalil”, encontramos o registro do evento, que teve transmissão ao vivo no YouTube.

O Comprova ainda buscou matérias publicadas na imprensa a respeito do ato político, como as do Poder 360 e Estado de Minas. Também entramos em contato com dois perfis que compartilharam o conteúdo falso no Facebook.

Vídeo com Lula sendo hostilizado é montagem

O vídeo que mostra o ex-presidente Lula sendo recebido com vaias e gritos de “ladrão”, na verdade, é uma montagem, e os xingamentos foram inseridos por meio de edição.

Originalmente, a gravação foi feita em Uberlândia (MG), no dia 15 de junho, e postada no TikTok pelo sindicalista Gil Carteiro, durante um evento político.

O trecho do vídeo que viralizou, com edições, foi feito no fim do ato, quando Lula e o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil dividiram o palanque e apareceram juntos segurando a bandeira do Brasil.

No vídeo original, é possível ouvir o ex-presidente sendo recebido com palmas ao som do jingle de Alexandre Kalil, que também é pré-candidato ao governo de Minas Gerais nas eleições estaduais deste ano. A montagem ainda tenta esconder com stickers a marca d’água do verdadeiro autor da gravação das imagens, que segue parcialmente visível.

| Sticker tenta cobrir a marca d’água do verdadeiro autor da gravação das imagens. (Foto: Reprodução / Facebook)

Lula esteve em Natal (RN), Maceió (AL) e Aracaju (SE) no fim de semana dos dias 18 e 19 de junho, mas não participou das festividades de São João em Caruaru, conforme informado por sua assessoria de imprensa.

Protesto antes do evento

O evento político aqui checado marcou a primeira vez em que Lula e Kalil compartilharam palanque nesta pré-campanha de 2022. O evento foi realizado no Centro Universitário do Triângulo (Unitri). O episódio ganhou repercussão na imprensa por conta de um incidente provocado por pessoas que teriam colocado um drone para espalhar fezes e urina sobre o público. Os dejetos foram jogados antes que o evento começasse.

Embora os atingidos tenham relatado ter sofrido ataque com fezes, a Polícia Militar de Minas Gerais disse se tratar de produto biológico usado para atrair moscas em lavouras.

No dia 20 de junho, o G1 revelou que o Ministério Público Estadual de Minas Gerais (MPE-MG) vai apurar o caso. Os operadores do drone que jogaram produto químico nos apoiadores foram denunciados ao MPE pelo deputado federal Reginaldo Lopes (PT). O documento foi entregue ao procurador-geral Jarbas Soares Júnior. Segundo o procurador, é necessária a devida apuração dos fatos com a realização de prova pericial no drone e no produto pulverizado.

Pesquisas de intenção de voto

A legenda do post investigado também questiona a credibilidade das pesquisas de intenção de voto: “O líder das pesquisas foi na festa junina de Caruaru-PE e foi extremamente aclamado pelo povo”. Diversos seguidores endossam o questionamento com comentários que desqualificam o trabalho de institutos, como o Datafolha; entre eles: “Olha aí o data povo”. “Acho que aí ele subiu mais um pouco nas pesquisas”, digitou outro.

A mais recente pesquisa realizada pelo grupo Folha, publicada em 23 de junho, mostra Lula com 19 pontos de vantagem sobre o atual presidente, marcando 47% das intenções de voto no primeiro turno. Bolsonaro tem 28%.

Ainda que o post aqui verificado fosse verdadeiro, um eventual episódio isolado não seria suficiente para configurar uma amostra de baixa popularidade de determinado candidato. Como o Comprova mostrou recentemente, as pesquisas eleitorais utilizam métodos científicos para apurar a realidade do momento junto a segmentos que possam ser representativos do eleitorado brasileiro de uma forma geral.

As críticas aos institutos de pesquisas seguem a linha de Bolsonaro, que já chamou de “canalhice” dados do Datafolha sobre a intenção de votos dos eleitores evangélicos.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições que viralizaram. O conteúdo aqui checado trata de uma suposta manifestação contra Lula, pré-candidato à Presidência da República. Conteúdos enganosos prejudicam a decisão de eleitores durante as votações, atrapalhando o processo democrático. Além disso, pesquisas eleitorais são ferramentas essenciais para a análise do contexto político do país. A tentativa de descredibilizá-las diminui a confiança das pessoas sobre os institutos de pesquisa, atrapalha a percepção da realidade e influencia o voto de forma equivocada.

Outras checagens sobre o tema: O conteúdo desta checagem foi verificado também por Boatos.org, Yahoo, Terra e Aos Fatos.

Recentemente, o Comprova mostrou que post troca local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas, que post engana ao omitir que protesto contra Lula em Bagé (RS) é de 2018 e que vídeo antigo engana ao afirmar que Lula e Alckmin foram hostilizados em Porto Alegre.

Eleições

Investigado por: 2022-06-23

Post usa vídeo antigo para enganar sobre adesão a ato pró-Bolsonaro em Orlando

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a postagem no Facebook que compartilha vídeo de motociata em homenagem ao presidente Jair Bolsonaro (PL), em São Paulo, em 12 de junho de 2021, como se fosse um registro de Orlando, nos Estados Unidos, em 11 de junho deste ano. A motociata em Orlando realmente aconteceu na data sinalizada, mas teve uma adesão menor do que o evento realizado em São Paulo, no ano passado.

Conteúdo investigado: Vídeo no Facebook mostra comboio de motos em uma estrada. A publicação utiliza imagens de post no Kwai e insere os termos “USA” e “Horlando 11/06/2022” para fazer menção à motociata realizada pelo presidente Jair Bolsonaro em Orlando, nos Estados Unidos.

Onde foi publicado: Facebook e Kwai.

Conclusão do Comprova:

É enganoso o vídeo que mostra imagens de comboio de motos como se fossem de motociata realizada em apoio ao presidente Jair Bolsonaro em Orlando, nos Estados Unidos, em junho deste ano. A gravação, na verdade, foi feita durante uma outra motociata, realizada na cidade de São Paulo, em junho de 2021.

Além de o ato ter sido realizado em outra cidade que não a informada no vídeo, o autor do post também engana ao escrever que “Segundo a data foice foram 47 motos”, referindo-se ao Datafolha. Não foram encontradas publicações do instituto de pesquisa referentes ao evento nos Estados Unidos.

Entretanto, de acordo com publicação da Folha de S.Paulo, o evento em Orlando reuniu cerca de 350 motociclistas. Já na motociata na cidade paulista – a que aparece no vídeo verificado aqui – passaram pelo pedágio 6,6 mil veículos (Poder 360).

O Projeto Comprova considera enganoso qualquer conteúdo retirado do contexto original e usado em outro modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: Até o dia 23 de junho de 2022, a postagem do Facebook alcançou 675 compartilhamentos, 243 comentários e 1,2 mil interações. Já a publicação do Kwai teve 2,9 mil visualizações, 246 curtidas e 725 compartilhamentos.

O que diz o autor da publicação: O Comprova procurou os autores da publicação no Facebook e no Kwai. Não houve respostas até a publicação da checagem.

Como verificamos: O vídeo compartilhado na postagem enganosa traz, na tela, a indicação do perfil no aplicativo Kwai de onde o material foi baixado. Com o auxílio do site Save from Net, o Comprova baixou o vídeo do Kwai e fez o upload do material no programa Adobe Premiere Pro, onde foi possível capturar frames da imagem.

Ao submetê-los à ferramenta de busca reversa de imagens Google Lens, foi possível localizar reportagens e outras postagens com o mesmo vídeo – uma delas feita por Jair Bolsonaro – que esclareceram tratar-se de uma motociata realizada em São Paulo, em junho de 2021.

O Comprova também fez buscas na internet por reportagens sobre a motociata realizada no início deste mês em Orlando, por ocasião da passagem de Bolsonaro pelos EUA para participar da Cúpula das Américas. E buscou contato com o autor da postagem enganosa aqui verificada.

Imagens são de motociata em São Paulo

A motociata que aparece no vídeo da postagem não foi realizada em Orlando, e sim em São Paulo, no dia 12 de junho de 2021. O mesmo vídeo foi localizado em postagens da época. Uma delas feita pelo próprio presidente Jair Bolsonaro:

 

O mesmo registro antigo também aparece nesta postagem no Twitter e nesta outra no YouTube, no canal do portal de notícias Poder360. Capturas de tela abaixo:

São diversas as correspondências nas imagens que permitem afirmar tratar-se do mesmo vídeo atribuído pela postagem investigada à motociata de Orlando. Nas capturas de tela, percebe-se, por exemplo, nas marcações em vermelho, mesma placa e poste que aparecem na publicação enganosa, feita em 16 de junho deste ano:

| Imagem do post enganoso, investigado nesta verificação

A motociata em São Paulo, do dia 16 de junho de 2021, foi realizada na Rodovia dos Bandeirantes. Segundo estimativa da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), concessionária que administra a pista, houve registro, na ocasião, da passagem de 6.661 motos na Praça de Pedágio de Campo Limpo. Essas informações constam em reportagens publicadas na época (Carta Capital, Folha de S.Paulo, Poder360).

Motociata em Orlando

Jair Bolsonaro realizou uma motociata com apoiadores em Orlando, nos Estados Unidos, no dia 11 de junho de 2022. O grupo se reuniu na frente de uma igreja, onde o presidente discursou antes de seguir pelas ruas da cidade americana. Vídeos publicados pela imprensa (SBT e Poder360) mostram o evento. Além disso, Bolsonaro também compartilhou imagens da reunião em seu Twitter.

A agenda oficial do presidente confirma que o político se encontrou com a comunidade brasileira em Orlando entre 10h40 e 12h40 do dia 11 de junho. Após a motociata, às 15h30, Bolsonaro retornou para o Brasil. Ele estava nos Estados Unidos para participar da Cúpula das Américas e chegou a se encontrar com o presidente norte-americano, Joe Biden. De acordo com matéria do Poder360, a motociata foi coordenada pelo grupo Yes Brazil USA.

O blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, considerado foragido após ter sua prisão decretada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento no inquérito das “fake news” e de atos antidemocráticos, participou da motociata em Orlando (Metrópoles). Imagens mostram Santos na garupa de um homem, próximo da moto do presidente.

Críticas a instituto de pesquisa

A legenda do post no Facebook faz referência ao Datafolha. Com o intuito de descredibilizar o instituto de pesquisa, o autor menciona, de forma enganosa e irônica, que o número de motos estimadas pelo Datafolha seria notavelmente menor: “Segundo a data foice foram 47 motos”.

Não foram encontradas publicações do Datafolha sobre a motociata realizada em Orlando. Entretanto, a Folha de S.Paulo, principal empresa do grupo ao qual o instituto de pesquisa pertence, afirma que o evento reuniu cerca de 350 motos e, segundo estimativas da igreja, mais de 2 mil pessoas esperavam o presidente.

Como citado anteriormente, o número de veículos participantes da motociata de São Paulo, compartilhada de forma enganosa pela publicação, foi de 6,6 mil. Os números mostram que a adesão do evento de Orlando foi 94% menor do que o da cidade brasileira.

Conteúdos que atacam institutos de pesquisa são frequentes. O Comprova mostrou recentemente que um post troca local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas e que vídeo faz alegações enganosas para colocar em dúvida credibilidade de pesquisas eleitorais.

Mesmo vídeo em outras postagens enganosas

O vídeo da motociata de 16 de junho de 2021 em São Paulo vem sendo compartilhado em diversas postagens enganosas sobre supostos atos em homenagem a Bolsonaro no Brasil e no mundo.

A própria postagem de Jair Bolsonaro foi sinalizada como informação falsa pelo Facebook por ter aparecido em checagem da Agência Lupa sobre conteúdo que compartilhava o mesmo vídeo afirmando tratar-se de motociata na Bahia, em 26 de fevereiro deste ano.

O vídeo utilizado na postagem aqui verificada foi baixado originalmente do Kwai e depois compartilhado no Facebook – a informação aparece na imagem, que traz a indicação do perfil que inicialmente postou o vídeo no aplicativo. Na postagem no Kwai, a afirmação é de que a motociata ocorreu em Porto Alegre (destaque abaixo, em vermelho):

No exterior, o vídeo da motociata em São Paulo também apareceu em postagem falsa na Alemanha, em fevereiro deste ano. Na ocasião, a afirmação era de que se tratava de um evento em homenagem a uma criança alemã, de 6 anos, que estava em tratamento de câncer e, segundo sua mãe, adorava motos.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos sobre pandemia, eleições e políticas públicas que viralizaram nas redes sociais. A publicação cria uma percepção enganosa do apoio popular e das manifestações favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro, pré-candidato à reeleição. As informações retiradas do contexto verdadeiro confundem e podem induzir a opiniões irreais sobre o político e seus apoiadores.

Outras checagens sobre o tema: Anteriormente, o Comprova já mostrou que post no Facebook engana ao divulgar atos pró-Bolsonaro de 2021 como se fossem atuais; que é uma sátira imagem da torcida do Liverpool atribuída a encontro do PT e que vídeo antigo engana ao afirmar que Lula e Alckmin foram hostilizados em Porto Alegre.

 

 

Eleições

Investigado por: 2022-06-22

Atividades de Bruno Pereira e Dom Phillips eram legais, ao contrário do que diz post

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a sequência de tuítes que alega que o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips estavam na Amazônia realizando atividades extremistas e ilegais. Pereira tinha autorização da Fundação Nacional do Índio (Funai) e Phillips não entrou em terras indígenas. O indigenista realizava um trabalho de proteção da área e orientação de sustentabilidade ambiental com o povo do Vale do Javari, e o jornalista fazia uma reportagem sobre o uso de tecnologia pelos indígenas para vigiar e denunciar invasões aos territórios.

Conteúdo investigado: Sequência de tuítes afirmando que após uma pesquisa sobre Bruno Pereira e Dom Phillips, assassinados no Vale do Javari, na Amazônia, chegou-se à conclusão que eles realizavam atividades extremistas e ilegais.

Onde foi publicado: Twitter.

Conclusão do Comprova: É enganosa a publicação que afirma que Bruno Pereira e Dom Phillips, cujos assassinatos foram confirmados pela Polícia Federal em 17 e 18 de junho, realizavam atividades extremistas e ilegais na Amazônia. Pereira foi à região, com autorização, para participar de reuniões em aldeias na área da calha do rio Curuçá, enquanto Phillips estava escrevendo sobre uma equipe de vigilância criada pelos povos originários para documentar e denunciar as invasões e crimes em seu território. A atuação do jornalista, no entanto, foi fora da área indígena.

O conteúdo questiona a credibilidade do trabalho dos dois profissionais, dando a entender que eles realizavam atividades ilegais. “Tinha vários inimigos na região, não só por questões legais, mas também por questões pessoais”, diz um trecho em referência ao indigenista, sem apresentar provas.

Para o Comprova, enganoso é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações, que induz a uma interpretação equivocada e confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 22 de junho, o tuíte teve mais de 8 mil curtidas e 3,1 mil compartilhamentos.

O que diz o autor da publicação: A autora do post verificado é apoiadora do presidente Jair Bolsonaro (PL) e costuma publicar conteúdos enaltecendo pautas defendidas por ele. O Comprova entrou em contato com a autora via mensagem no Twitter, mas não obteve resposta até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: O primeiro passo foi buscar informações a respeito do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, do trabalho que estavam desenvolvendo no Vale do Javari (AM) e se eles teriam autorização para estar no local.

Para isso, foram consultadas reportagens jornalísticas (BBC News Brasil, G1, Estado de Minas, CNN Brasil, UOL Notícias, Globo) e entidades como a Funai, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

O Comprova também procurou por notícias sobre a destruição de balsas citada pelo post aqui verificado (Folha, Estadão, UOL, Veja) e contactou a assessoria da Polícia Federal (PF) no Amazonas para esclarecimentos acerca do episódio.

Bruno Pereira tinha autorização para atuar no Vale do Javari

Em 8 de junho, três dias depois do desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips, o presidente da Funai, Marcelo Xavier, disse em entrevista à Empresa Brasil de Comunicação (EBC) que os homens não teriam comunicado aos órgãos sobre a viagem ao Vale do Javari. No entanto, documentos oficiais obtidos pela TV Globo apontam que o indigenista cumpriu os protocolos legais e que Phillips não entrou em terras indígenas.

Conforme o documento emitido pela Funai, Bruno Pereira foi autorizado a entrar no Vale do Javari e participar de reuniões em cinco aldeias na região da calha do rio Curuçá para conversar sobre o território e estratégias para protegê-lo entre os dias 17 e 30 de maio. Ele entrou no dia 21, mas não estava acompanhado do jornalista Dom Phillips.

A família do jornalista disse ao Jornal Nacional que ele só encontrou o indigenista no dia 1º de junho, em Atalaia do Norte, após Pereira ter visitado as aldeias indígenas.

Apesar de a autorização possuir vigência apenas até o dia 30 de maio, o local em que o indigenista e o jornalista foram vistos pela última vez, no dia 5 de junho, não exigia qualquer documentação para acesso, como noticiou o jornal CNN Brasil.

Além disso, Bruno Pereira e Dom Phillips poderiam ter entrado no Vale do Javari a convite dos indígenas, mesmo sem autorização da Funai, de acordo com a assessora jurídica da Univaja e do Observatório dos Povos Isolados, Carolina Santana.

“A lei brasileira garante sobretudo a autonomia dos povos indígenas sobre seus territórios. As leis e normativas internacionais também. O Brasil é signatário das normativas que garantem a autonomia. O próprio regulamento da Funai coloca a autonomia indígena como condição sine qua non para autorização do ingresso”, disse Santana ao Jornal Nacional.

A Funai foi procurada a respeito da autorização, mas não respondeu até o fechamento da verificação.

Dom Phillips fazia reportagem fora de terras indígenas

Ao contrário do que alega a postagem, Dom Phillips não fazia reportagem sem autorização da Funai e do Ibama, e sem o conhecimento dos governos estadual e federal. Na realidade, o jornalista estava escrevendo sobre uma equipe de vigilância criada pelos povos originários para documentar e denunciar as invasões e crimes em seu território. Tudo fora da área indígena.

Em entrevista ao UOL Notícias, o indigenista Leonardo Lennin, do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato, disse que, com a viagem, Phillips queria entender como a Univaja estava usando tecnologia, como drones e imagens de satélite, para documentar invasões e denunciá-las às autoridades.

Além do trabalho como jornalista, Dom Phillips estava escrevendo um livro sobre a floresta amazônica. Como noticiaram o G1 e o jornal britânico The Guardian, do qual Phillips era um colaborador de longa data, o projeto teria apoio da Fundação Alicia Patterson, instituição sem fins lucrativos que concede bolsas a jornalistas que trabalham para a realização de projetos independentes.

Queima de balsas no Amazonas

O conteúdo investigado acusa especificamente Bruno Pereira de atividades “extremistas” e cita “o episódio da queima das balsas”. Ao contrário do que sugere a autora do post, de que a ação teria sido irregular, as balsas foram destruídas por autoridades brasileiras com amparo na legislação, uma vez que eram estruturas utilizadas para o cometimento de crimes ambientais na região.

Em novembro de 2021, centenas de balsas de dragagem operadas por garimpeiros empreenderam uma corrida por ouro no rio Madeira, importante afluente do rio Amazonas. A ação ilegal deflagrou a operação Uiara, realizada pela Polícia Federal, Ibama e Forças Armadas.

Na primeira fase da intervenção foram presas três pessoas e destruídas 131 balsas apreendidas.

Ao UOL, o superintendente da PF no Amazonas, Leandro Almada, disse que não houve nenhum registro de violência, uso de força ou disparo de arma de fogo.

O que se pretendia com a destruição dos equipamentos era inviabilizar o maquinário utilizado para a prática do crime ambiental. A ação tem previsão legal e é regulamentada pelas Leis 9605/98 (Lei de Crimes Ambientais), e 8176/91 (Usurpação de bens da União).

Ainda conforme a matéria do UOL, a queima é feita com o próprio combustível encontrado nas estruturas, que normalmente carregam grandes tanques de plástico com centenas de litros de gasolina.

De acordo com matéria da Veja, em setembro de 2019, Bruno Pereira teria conduzido a operação Korubo, que terminou na destruição de 60 balsas usadas por garimpeiros ilegais no Vale do Javari. Por este motivo teria sido exonerado do cargo de coordenador de povos isolados da Funai.

O indigenista foi demitido do cargo 15 dias após a operação, que envolveu cerca de 60 agentes da Funai, da Polícia Federal e do Ibama. Segundo o UOL, após a Korubo, os garimpeiros teriam aumentado a pressão sobre a Funai pedindo pela demissão de servidores que estavam comandando ações desse porte na Amazônia – o que incluía Bruno Pereira.

Conforme o G1, a exoneração do indigenista veio “após pressão de setores ruralistas ligados ao governo do presidente Jair Bolsonaro”.

Desde a operação Korubo, a Funai não realizou mais nenhuma grande ação na região, que sofre também com a invasão de caçadores e pescadores ilegais.

Depois disso, em janeiro de 2020, Pereira pediu licença para atuar na proteção de indígenas fora do órgão e passou a atuar junto da Univaja para ensinar os povos originários a monitorar suas terras com o uso de tecnologias como drones.

Ao Comprova, a assessoria da PF no Amazonas informou que “as informações solicitadas fazem parte de investigação policial que tem o andamento totalmente sigiloso.”

A Funai, a Univaja e o Ibama foram procurados, mas não houve retorno.

Quem eram Bruno Pereira e Dom Phillips

Bruno da Cunha de Araújo Pereira era indigenista e um dos maiores especialistas em indígenas que vivem em isolamento no Brasil. Pereira estava licenciado da Funai e trabalhava como assessor da Univaja. Nascido no Recife, tinha 41 anos e deixa esposa e três filhos.

O jornalista Dom Phillips colaborava com diversos jornais no exterior, como o The New York Times, The Guardian e The Washington Post. Ele realizou diversas viagens para a Amazônia, onde fez reportagens sobre desmatamento e crimes. Ele vivia no Brasil há 15 anos e era casado com uma brasileira.

Phillips e Pereira já haviam viajado juntos para a Amazônia e, nesta ocasião, o jornalista estava acompanhado do indigenista brasileiro para coletar dados para um livro que estava escrevendo sobre como salvar a floresta.

No dia 5 de junho, o indigenista e o jornalista desapareceram a poucos quilômetros do Vale do Javari, que é a segunda maior reserva indígena do Brasil. Na última vez que foram vistos, eles pararam na comunidade de São Rafael, às 6h, onde tinham uma reunião marcada com o líder pescador Manoel Vitor Sabino da Costa, conhecido como “Churrasco”.

A dupla deveria ter chegado à Atalaia do Norte duas horas depois, mas isso nunca aconteceu. Os indígenas da Univaja foram os primeiros a alertar sobre o desaparecimento e começaram as buscas às 14h.

Em 15 de junho, um dos principais suspeitos pelo desaparecimento, Amarildo Oliveira da Costa, conhecido como “Pelado”, confessou ter participado do assassinato da dupla. Entre os dias 17 e 18, a PF confirmou o reconhecimento dos restos mortais pertencentes ao indigenista e ao jornalista.

De acordo com a perícia, eles foram assassinados com armas de caça. Bruno Pereira foi atingido por três tiros, enquanto Dom Phillips foi morto com um tiro.

Até o momento, a PF do Amazonas identificou oito suspeitos de terem ajudado a ocultar os corpos de Pereira e Phillips. Três suspeitos foram presos: Amarildo da Costa de Oliveira, conhecido como “Pelado”; Oseney da Costa de Oliveira, o “Dos Santos”; e Jeferson da Silva Lima, chamado de “Pelado da Dinha”.

Resposta do governo brasileiro

Além de críticas a falas do presidente Bolsonaro, que disse que a viagem dos dois era uma “aventura não recomendável” e que Phillips era “malvisto” na região, o governo brasileiro foi criticado por não agir rapidamente nas buscas.

No dia seguinte ao desaparecimento, o Comando Militar da Amazônia, do Exército, emitiu nota afirmando que estava “em condições de cumprir missão humanitária de busca”, mas que a ação só seria tomada “mediante acionamento por parte do Escalão Superior”.

No dia 10 de junho, a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos criticou a lentidão das buscas e pediu que o governo brasileiro redobrasse os recursos e esforços disponibilizados nas buscas.

Nos últimos dias, diante da repercussão internacional do caso, políticos, organizações e artistas também denunciaram a atuação dos órgãos públicos e lamentaram a morte de Pereira e Phillips.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A peça de desinformação checada tenta desqualificar a atuação de dois profissionais que lutavam pelos direitos e proteção dos povos originários do Brasil enquanto ainda se investiga os assassinatos. O crime se tornou pauta eleitoral uma vez que colocou em evidência as políticas públicas do governo Bolsonaro para a região amazônica.

Outras checagens sobre o tema: Em 14 de junho, o site Boatos.org checou a mesma peça de desinformação verificada pelo Comprova e concluiu que Bruno Pereira e Dom Phillips tinham autorização para estar no Vale do Javari.

Em verificações anteriores, o Comprova mostrou que protesto de indígenas na Bahia era por melhoria na educação e não por verba para ato contra Bolsonaro; que a Polícia Federal negou que ONGs que atuam na Amazônia transportaram ouro ilegalmente e que vídeo distorce dados sobre queimadas na Amazônia.

Eleições

Investigado por: 2022-06-21

Post troca local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas

  • Enganoso
Enganoso
Vídeo engana ao mostrar protesto contra Lula afirmando que moradores de condomínio de luxo onde ele foi morar estão querendo expulsá-lo de lá. De fato, o protesto ocorreu, mas não na casa de Lula, e sim em frente ao condomínio em que mora o cientista brasileiro Rogério Cerqueira Leite, onde o ex-presidente esteve no dia 5 de maio, pouco antes de um evento na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Conteúdo investigado: Vídeo publicado no Kwai e compartilhado em outras redes sociais mostra um grupo de manifestantes contrários a Lula cercando um carro preto, onde estaria o ex-presidente. As publicações indicam que o local do protesto seria a nova residência do político, na cidade de São Paulo. A postagem aqui verificada utiliza as imagens para questionar a credibilidade das pesquisas eleitorais, que apontam Lula em primeiro lugar nas intenções de voto para as eleições presidenciais de outubro.

Onde foi publicado: Twitter, Facebook e Kwai.

Conclusão do Comprova: É enganoso o vídeo que mostra um protesto contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com a legenda “olha o Lula saindo de casa” no alto da gravação. O conteúdo de desinformação foi compartilhado com legenda afirmando que “moradores de condomínio de luxo aonde Lula foi morar estão querendo expulsá-lo de lá”. Mas as imagens são de um protesto contra o petista ocorrido na cidade paulista de Campinas, durante visita à casa do cientista brasileiro Rogério Cerqueira Leite.

Lula, como publicou a revista Veja, se mudou de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, para o bairro Alto de Pinheiros, na capital paulista, em dezembro do ano passado.

O post também questiona a credibilidade das pesquisas de intenção de voto ao afirmar “Esse é o líder das pesquisas”, insinuando que Lula tem baixa popularidade, o que não procede. O petista aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para presidente, que utilizam métodos científicos para apurar o quadro do momento.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: Até o dia 21 de junho, o vídeo original, compartilhado no Kwai, alcançou 6.752 curtidas, 2.561 comentários e 1.598 compartilhamentos. Já a postagem no Twitter teve 1.473 retweets, 5.180 curtidas e 126 interações.

O que diz o autor da publicação: Por meio das redes sociais, o Comprova procurou o autor do post original do Kwai para esclarecer questões referentes ao vídeo enganoso, mas ele não respondeu até a publicação desta verificação.

O lutador de jiu-jitsu Renzo Gracie, que compartilhou as imagens em seu Twitter, também foi consultado, mas não houve resposta. Ele é apoiador do presidente Jair Bolsonaro (PL). Em 2019, foi nomeado embaixador do turismo brasileiro pela Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur). Gracie costuma compartilhar informações duvidosas em suas redes sociais e já teve postagens classificadas como falsas por agências de checagem.

Como verificamos: O Comprova analisou comentários de internautas e fez buscas na internet, que levaram a reportagens de veículos de imprensa e publicações nas redes sociais sobre o episódio. Também foi utilizado o Google Street View para esclarecimento do local em que o vídeo foi gravado e feito contato com os autores dos posts.

O local da manifestação

Em certo momento do vídeo, as imagens mostram uma placa com os dizeres “Sociedade Alto das Palmeiras, 616”. Trata-se de um condomínio residencial localizado no bairro das Palmeiras, na cidade de Campinas, em São Paulo. Outros elementos presentes na publicação são os mesmos do condomínio.

| Captura da postagem do Kwai

| Captura do Google Street View

Comentários na publicação do Twitter apontam para o fato de que as imagens aconteceram em Campinas, e não na residência de Lula. Diante da informação, uma busca com as palavras-chaves “Lula”, “Manifestação” e “Campinas”, levou a notícias (O Globo, Folha de S.Paulo, Band e Hora Campinas) que repercutem o protesto e exibem o mesmo vídeo compartilhado nas postagens enganosas. As reportagens afirmam que o episódio ocorreu no dia 5 de maio.

As notícias afirmam que, na ocasião do protesto, Lula deixava a casa do cientista brasileiro Rogério Cézar de Cerqueira Leite, onde esteve antes de seguir para um evento de sua agenda oficial na Unicamp.

Casa de Lula

O conteúdo investigado aqui traz a seguinte legenda: “Moradores do condomínio de luxo aonde Lula foi morar estão querendo expulsá-lo de lá!”. Como mostrado anteriormente, o político não mora no local exibido no vídeo.

Lula se mudou em dezembro de 2021 de seu apartamento em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, para uma casa no bairro de Alto de Pinheiros, na Zona Oeste da capital paulista, como publicou a revista Veja.

O imóvel, de cerca de 700 metros quadrados, tem quatro suítes, oito banheiros, piscina e sala de ginástica. Ainda de acordo com a Veja, “no ano passado, uma imobiliária oferecia a casa por exatos R$ 20,5 mil de aluguel por mês” e, “caso o interessado quisesse comprar o imóvel, o valor de venda era de R$ 5 milhões”.

Outra reportagem da Veja mostra que até 30 de maio, quando foi publicada, não havia ocorrido nenhum protesto no novo endereço do pré-candidato. A discussão causada por sua chegada foi em relação a um “projeto que atende a uma demanda antiga dos residentes e que visa restringir o acesso de carros às ruas da região, com a instalação de cancelas e portarias”.

Outras reportagens também afirmam ser na Zona Oeste da capital paulista a nova casa de Lula (Metrópoles, UOL, Terra).

Pesquisas de intenção de voto

O tuíte aqui investigado, ao escrever “Esse é o líder das pesquisas!!”, questiona a credibilidade das pesquisas de intenção de voto. Diversos seguidores fazem comentários desqualificando o trabalho de institutos como Datafolha, que mostram o petista em primeiro lugar na disputa presidencial, com Jair Bolsonaro em segundo.

“Vê-se a tranquilidade do líder das pesquisas! Não acredito em nenhuma”, escreve uma seguidora. “Grande líder de pesquisa em Datafolha”, digita outro.

O episódio, no entanto, não é suficiente para configurar uma amostra de baixa popularidade de Lula na sociedade brasileira. Como o Comprova mostrou recentemente, as pesquisas eleitorais utilizam métodos científicos para apurar a realidade do momento junto a segmentos que possam ser representativos do eleitorado brasileiro de uma forma geral.

Além disso, se Lula foi atacado por manifestantes na saída do condomínio Alto das Palmeiras, em Campinas, em 5 de maio, no fim daquele mesmo dia ele “foi recebido por uma grande quantidade de pessoas” na Unicamp, como afirma reportagem de O Globo:

“Parte dos estudantes não conseguiu entrar no anfiteatro, onde o petista discursou e precisou acompanhar a fala do ex-presidente por telões do lado de fora”.

No último levantamento realizado pelo instituto do Grupo Folha, publicado em 26 de maio, Lula aparece 21 pontos à frente do atual presidente no primeiro turno. No segundo turno, o petista aparece com 58% das intenções de voto e, Bolsonaro, com 33%.

As críticas aos institutos de pesquisas seguem a linha de Bolsonaro, que já chamou de “canalhice” dados do Datafolha sobre a intenção de votos dos eleitores evangélicos.

 

 

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições que viralizaram. Informações enganosas acerca de Lula, pré-candidato à Presidência da República, prejudicam a decisão de eleitores durante as votações, atrapalhando o processo democrático. Além disso, pesquisas eleitorais são ferramentas essenciais para a análise do contexto político do país. A tentativa de descredibilizá-las diminui a confiança das pessoas sobre os institutos de pesquisa, atrapalha a percepção da realidade e influencia o voto de forma equivocada.

Outras checagens sobre o tema:

O AFP Checamos também verificou a postagem e a definiu como falsa.

Recentemente, o Comprova mostrou que post engana ao omitir que protesto contra Lula em Bagé (RS) é de 2018; que vídeo antigo engana ao afirmar que Lula e Alckmin foram hostilizados em Porto Alegre e que publicação mostra imagens de imóvel de luxo no Ceará como sendo residência alugada por Lula em São Paulo.

Eleições

Investigado por: 2022-06-21

Post mente ao afirmar que Anitta foi vaiada após críticas a Bolsonaro

  • Falso
Falso
É falso o conteúdo de um vídeo que circula no TikTok e no WhatsApp afirmando que a cantora Anitta foi vaiada após gritar “fora Bolsonaro” e falar “que Bolsonaro não seria reeleito” durante um show. O vídeo mostra ainda que o público reagiu jogando objetos no palco. Na verdade, a cantora que aparece nas imagens é a franco-espanhola La Zowi, que discutiu com a plateia durante uma apresentação na Europa.

Conteúdo investigado: Um vídeo que circula no TikTok e no WhatsApp diz que durante um show a cantora Anitta “foi gritar fora Bolsonaro” e falar “que Bolsonaro não seria reeleito”, o que gerou uma reação negativa do público, que jogou objetos contra ela no palco. O conteúdo insinua que o episódio ocorreu em Goiás.

Onde foi publicado: TikTok e WhatsApp.

Conclusão do Comprova: É falso o vídeo que circula em redes sociais mostrando uma cantora irritada após ser xingada e ser alvo de objetos jogados no palco. O conteúdo afirma que a artista é a brasileira Anitta e que teria sido alvo da irritação do público por ter falado mal do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Levantamento do Comprova mostra que o vídeo foi gravado em maio deste ano, na Espanha, durante apresentação da cantora La Zowi, que se desentendeu com a plateia. A artista xingou o público e, em seguida, atirou um objeto contra os participantes de um festival. Em noticiários espanhóis do período é possível visualizar o vídeo original, bem como informações sobre o evento. Não há relação com Anitta ou com a política no Brasil.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 21 de junho, a postagem falsa teve quase 36 mil curtidas no TikTok e foi compartilhada mais de 6,1 mil vezes.

O que diz o autor da publicação: Como a plataforma do TikTok restringe o contato por mensagem direta apenas entre pessoas que se seguem, a interação com o autor do conteúdo foi feita via Instagram. O Comprova não obteve um retorno até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: A partir de buscas por meio do Google, o Comprova teve acesso a conteúdos de sites com descrições sobre o vídeo da cantora La Zowi. A pesquisa também possibilitou acesso a notícias e vídeos do período em que o show foi realizado.

A apresentação de La Zowi

Alguns sites espanhóis noticiaram a performance de La Zowi. O portal Ideal destacou o problema ocorrido entre a cantora e o público. O site chegou a descrever o que a artista teria falado antes de “agredir” o público com um pedestal.

“Isqueiros, canetas…, já faço [show] há alguns anos e nunca me aconteceu. Não sei quem deixa entrar, não sei que tipo de animal [quem atirou objetos]…”, divulgou o site.

O Ideal citou ainda que as reações nas redes sociais foram imediatas e a maioria criticou quem lançou os objetos contra a cantora.

“Os artistas vêm à cidade e quatro imbecis matam a chance de termos um festival de referência. La Zowi, nós te amamos e sentimos muito”, diz trecho de perfil publicado na reportagem.

O perfil no Facebook Jaén Noticias também publicou informação sobre o episódio. Na postagem, um vídeo de outro ângulo mostra o momento em que a artista discute com a plateia e depois atira o equipamento musical.

Os comentários de seguidores se dividem entre críticas e elogios à cantora.

“Mas que pouca civilidade. Se você não gostar vai embora, ponto final. Mas respeite a garota e também respeite as pessoas que querem vê-la”, diz um comentário.

“Não se justifica o que fizeram, mas a garota desceu ao mesmo nível que eles [jogando o pedestal]”, interagiu outra seguidora.

Post TikTok

A publicação falsa foi feita a partir de um vídeo que mostra a cantora espanhola Zoe Jeannau Canto, conhecida pelo nome artístico de La Zowi, se apresentando em um show no dia 13 de maio de 2022, no Auditório de La Alameda, no município de Jaén, na Espanha. Em determinado momento, espectadores começaram a atirar objetos na direção da artista. A motivação não foi identificada pelo Comprova, e os comentários da postagem original sugerem que quem estava presente no evento também não conseguiu contextualizar os ataques.

Em resposta, ainda no palco, a cantora espanhola disse que algumas pessoas haviam jogado canetas e isqueiros, e que esse tipo de episódio nunca havia acontecido em sua carreira. Incomodada com a situação, La Zowi pega o que parece ser um pedestal para microfone e o atira no público. Logo em seguida, interrompe a sua apresentação e deixa o palco. A performance fazia parte da programação do festival Primavera Jaén, cuja proposta musical era levar atrações ao público jovem da cidade espanhola entre março e julho deste ano.

| Foto: Twitter/@koumntbf – Imagem de outro ângulo mostra La Zowi jogando pedestal no público

As críticas de Anitta a Bolsonaro

Ainda no período de campanha eleitoral em 2018, a cantora Anitta começou a ser cobrada pelos seus fãs para que se posicionasse em relação aos candidatos à presidência da República naquele ano, sobretudo em relação a Jair Bolsonaro.

Em setembro de 2020, em entrevista ao jornal O Globo, Anitta disse que não se posicionou politicamente quando foi cobrada pelos seus fãs porque “não iria dar voz a algo que não entendia”. Alguns meses antes dessa entrevista, em julho, a artista já havia criticado a maneira de Bolsonaro lidar com a pandemia de covid-19.

Novos embates aconteceram em diversos momentos de 2021. Em abril do ano passado, a cantora compartilhou no Twitter um vídeo que pedia que o presidente americano, Joe Biden, não fizesse um acordo climático com o líder brasileiro. O pedido de Anitta estava alinhado a uma carta assinada por cerca de 200 entidades brasileiras que argumentaram que a política de Bolsonaro “desmontou órgãos de fiscalização, promoveu o enfraquecimento da legislação e incentivou invasões de territórios indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e áreas protegidas”. Além da questão ambiental, a cantora já criticou Bolsonaro pelo número de mortos no Brasil devido à covid-19 e também pelo aumento de preços de bens e serviços.

Em 3 de maio de 2022, Anitta postou no Twitter que teve uma conversa com o ator americano Leonardo DiCaprio “sobre a importância dos jovens tirarem seu título de eleitor”. No mesmo tuíte, ela escreveu: “Vocês sabiam que ele sabe mais sobre a importância da nossa floresta amazônica do que o presidente do Brasil?”. Isso fez com que Bolsonaro respondesse às críticas da cantora com uma série de tuítes.

Em entrevista à revista americana Interview Magazine, em 27 de maio, Anitta disse: “Eu só quero garantir que eu chamo a atenção para as coisas importantes. Então, se eu precisar brigar com o presidente, eu vou brigar“. Morando em Miami, nos Estados Unidos, desde 2021, a cantora expressou na mesma entrevista que colocou a sua vida em risco ao se posicionar politicamente: “Fui ao Brasil esta semana e não avisei às pessoas que estava lá por causa de algumas ameaças que estava recebendo”.

La Zowi

A cantora La Zowi tem como nome de batismo Zoe Jeanneau Canto. Ela nasceu em 1993 na França, em Paris, mas cresceu em Granada, na Espanha.

La Zowi é filha de artistas. A mãe é poetisa, e o pai, Patrice Jean Marcel Jeanneau, um guitarrista de flamenco conhecido como El Yerbita.

O gênero musical de La Zowi é o trap. Trata-se de um subgênero do rap que surgiu nos anos 2000.

| Foto: Instagram/ @lazowi – Cantora La Zowi

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos sobre pandemia, eleições e políticas públicas que atinjam grau de viralização nas redes sociais. Com a proximidade das eleições presidenciais, cresce o número de conteúdos enganosos nas redes sociais para tentar favorecer determinado candidato. Informações desse tipo também prejudicam o contexto dos fatos e criam mentiras a respeito de pessoas públicas, o que tumultua o processo eleitoral.

Outras checagens sobre o tema: Em outras verificações, o Comprova já mostrou que Zeca Pagodinho não recebeu milhões de reais pela Lei Rouanet por musical e que vídeo de protesto contra Lula em show de Marina Sena é falso.

Comprova Explica

Investigado por: 2022-06-17

Entenda projeto do governo federal que permite a penhora de casas por bancos

  • Comprova Explica
Comprova Explica
Projeto de autoria da presidência da República, já aprovado na Câmara dos Deputados e agora sob análise do Senado Federal, cria o Marco Legal das Garantias de Empréstimos. Na prática, o texto altera aspectos previstos na Lei da Impenhorabilidade do bem de família (Lei 8009/1990), que impede que o imóvel próprio do casal ou da entidade familiar seja penhorado desde que quitado. O novo marco legal cria a possibilidade de que as famílias tenham seu único imóvel penhorado, se ele for dado como garantia para tomar financiamento em um banco. O governo federal argumenta que o texto tem o potencial de estimular a redução das taxas de juros, elevar o número de alternativas de crédito e diminuir os custos operacionais para as instituições financeiras. Já para a oposição, contrária à medida, o projeto cria o risco de uma “bolha” com o excesso de empréstimos.

Conteúdo analisado: Um vídeo divulgado no perfil Nova Ordem Mundial, no Facebook, faz críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro (PL), especialmente ao projeto recém-aprovado na Câmara dos Deputados – de autoria da presidência – instituindo o Marco Legal das Garantias de Empréstimos. O autor do vídeo critica o fato de que bancos e outras instituições financeiras poderão penhorar o único imóvel de uma família que esteja em dívida.

Conclusão: Em 1º de junho de 2022, a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei (PL) 4.188/21, que institui um marco legal para o uso de garantias destinadas à obtenção de crédito. Se aprovado, o texto vai permitir, entre outros pontos, que um imóvel dado como garantia de uma dívida seja penhorado, mesmo que seja o único bem da família – hoje, existe a impenhorabilidade desse tipo de bem.

Conteúdos que circulam nas redes sociais sobre o projeto de lei, como o vídeo publicado no perfil Nova Ordem Mundial que teve mais de 8,6 mil visualizações no Facebook , afirmam que “os bancos poderão tomar as casas de endividados”.

A gravação começa com uma ilustração de uma chamada “corrida dos ratos”, indicando que o brasileiro “trabalha para ganhar dinheiro, pagar contas, até ficar sem dinheiro e trabalhar novamente”, o que o autor classifica como um “ciclo vicioso”. Após a introdução, o autor chega a sugerir que o presidente Jair Bolsonaro (PL) “não só deve perder as eleições, como ser preso” para, em seguida, passar a falar do projeto de lei apresentado pelo governo. Ele também critica governos de esquerda.

Os bancos vão mesmo poder tomar as casas dos brasileiros? Em quais situações? Isso já pode acontecer? Foi o governo que criou a lei? Diante dos questionamentos, o Comprova decidiu explicar os pontos levantados no conteúdo.

Projeto de lei e autoria

O projeto de lei 4188/2021 é de autoria do Executivo, como mostra o site do Congresso Nacional. Esse Poder, de acordo com a Constituição em seu capítulo 76, “é exercido pelo presidente da República, auxiliado pelos ministros de Estado”.

Também conhecido como Novo Marco de Garantias, o texto foi apresentado no dia 25 de novembro de 2021. O PL foi aprovado pela Câmara dos Deputados na forma do substitutivo no início de junho de 2022. Agora, a proposta deve ser votada pelo Senado Federal.

O texto propõe um novo Marco de Garantias, o que, na visão do Ministério da Economia, faz com que “o cenário de crédito brasileiro” seja “aprimorado”. Ao justificar a proposta, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que ela “tem o potencial de estimular a redução das taxas de juros, elevar o número de alternativas de crédito e diminuir os custos operacionais para as instituições financeiras”. Já para a oposição, contrária ao projeto, ele cria o risco de uma “bolha” com o excesso de empréstimos. Bolha, no setor imobiliário, é quando ocorre um aumento do preço dos imóveis que “não condiz com os valores reais dos bens” – esse aumento pode ser resultado da alta procura, o que tende a ocorrer com juros mais baixos. O termo remete à crise financeira de 2008.

A versão original do governo federal passou por algumas alterações feitas pelo relator, o deputado federal João Maia (PL-RN). O parlamentar incluiu, por exemplo, a adoção de procedimentos de execução extrajudicial de bens. Isso significa que uma pessoa que, voluntariamente, colocar sua casa como garantia de uma dívida no contrato poderá perder o imóvel caso fique devendo.

“Hoje, isso não é permitido. Se o texto for aprovado no Senado, isso vai ser permitido”, explica o advogado Guilherme Botelho, professor da graduação e pós-graduação em Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Ainda de acordo com o Ministério da Economia, “o Novo Marco de Garantias faz parte do programa Mais Garantias Brasil”, que prevê a modernização dos cartórios e o aprimoramento de garantias rurais, entre outros pontos.

Na abertura do ano legislativo, Bolsonaro citou o Marco Legal das Garantias como uma das prioridades para 2022 ao ler mensagem para o Congresso Nacional. Ainda segundo o Ministério da Economia, o PL facilita as garantias de crédito, reduz custos e juros de financiamentos e aumenta a concorrência.

I Legenda: Ilustração sobre o PL retirada do site da Câmara I

 

Governo propôs, mas não aprovou projeto

Em um trecho do conteúdo aqui analisado, o autor afirma, de forma equivocada, que o governo Bolsonaro foi o responsável pela aprovação do projeto de lei. Na sequência, ainda emenda: “então, quando eu digo que o Bolsonaro é o maior cúmplice do PT e merece ir para a cadeia, não é à toa, meus irmãos”.

O projeto, de fato, foi apresentado pelo Executivo – que detém prerrogativa para adotar essa medida, assim como qualquer deputado, senador, comissão da Câmara, do Senado ou do Congresso, além do procurador-geral da República, o Supremo Tribunal Federal, os tribunais superiores e cidadãos.

Os projetos começam a tramitar na Câmara, à exceção dos apresentados por senadores, que começam no Senado. O Senado funciona como Casa revisora para os projetos iniciados na Câmara e vice-versa. Se o texto da Câmara for alterado no Senado, volta para análise dos deputados. Da mesma forma, se um projeto do Senado for mudado pelos deputados, ele retorna aos senadores. A Casa onde o projeto se iniciou dá a palavra final sobre seu conteúdo, podendo aceitar ou não as alterações feitas na outra Casa.

Após aprovação nas duas Casas (Câmara e Senado), os projetos são enviados ao presidente da República para sanção ou veto.

No caso do Marco Legal das Garantias, o texto já aprovado na Câmara seguiu para o Senado, sem previsão para ser analisado.

Principais mudanças em relação aos imóveis

Frederico Henrique Viegas de Lima, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB), explica que o projeto de lei não modifica os financiamentos em si, mas as garantias possíveis para o fornecimento de crédito.

Sobre a possibilidade de instituições financeiras tomarem a casa própria de pessoas endividadas, o especialista afirma que o texto aprovado muda a lei sobre a impenhorabilidade de imóvel (Lei 8.009/90), que coloca a salvo a casa própria de uma família.

Atualmente, o imóvel de família só pode ser usado como garantia do financiamento do próprio imóvel e leiloado se o financiamento imobiliário não for pago. Outros casos dependem de decisão judicial.

Com o PL, os bancos poderão tomar casas próprias em situações como: quando for demonstrado que a família se beneficiou ao colocar o imóvel como garantia ou quando restar caracterizada a vontade do proprietário em dar a casa como garantia, assumindo os riscos.

“Daí, altera-se a lei da impermeabilidade do bem de família para estabelecer que, de qualquer forma, sendo o estabelecimento da garantia um ato de vontade do titular do imóvel, caso ele dê esse bem de garantia, não importa qual é o motivo, aquele imóvel pode ser penhorado mesmo sendo onde reside a família”, continua.

O especialista em direito imobiliário comenta que outra das principais alterações, caso o texto venha a ser aprovado, é que um imóvel poderá ser dado como garantia em vários financiamentos diferentes, tendo como limite o próprio valor. Atualmente, imóveis só podem ser dados como garantia em uma única operação e de quantia menor.

Por que explicamos: O Comprova investiga conteúdos sobre pandemia, eleições e políticas públicas que atinjam alto grau de viralização nas redes sociais. Já o “Comprova Explica” serve como instrumento para que os leitores entendam um conteúdo que está viralizando e causando confusão, caso do vídeo analisado aqui. O post checado cita o presidente e pré-candidato à reeleição, Jair Bolsonaro. Conteúdos falsos ou enganosos que envolvem atores políticos oferecem prejuízos ao processo democrático e atrapalham a decisão do eleitor, que deve ser tomada com base em informações verdadeiras.

Outras publicações sobre o tema: Em meio às dúvidas relativas ao assunto, o novo Marco Legal das Garantias foi tema de uma reportagem do Valor Econômico que responde se o banco poderá tomar casa de devedor.