O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Eleições

Investigado por: 2022-06-28

Lula faz crítica a políticos que veem pobres como números; vídeos enganam ao mudar contexto

  • Enganoso
Enganoso
Vídeos enganam ao usar um trecho fora de contexto de discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para sugerir que o petista teria comparado pessoas pobres a papel higiênico e dito que elas "são apenas números". Na fala, realizada durante um evento sobre a fome no Brasil, em outubro de 2021, Lula reprova a atitude de alguns políticos que, segundo ele, só pensam na população que tem pouco recurso em épocas de eleição.

Conteúdo investigado: Dois vídeos exibem o mesmo trecho de uma fala de Lula em que o ex-presidente diz que pessoas pobres só são lembradas por políticos em época de eleição. Uma das publicações tem a tela dividida em duas partes: à esquerda, o autor do post reage desaprovando a fala do ex-presidente, enquanto à direita é mostrado o vídeo do petista.

Onde foi publicado: Kwai.

Conclusão do Comprova: São enganosos os vídeos que circulam no Kwai que sugerem que o ex-presidente Lula, durante um discurso, teria menosprezado a população pobre ao compará-la com papel higiênico.

A fala do petista, que durou cerca de 43 minutos, foi retirada de contexto. Na ocasião, Lula discursou no Encontro dos Movimentos do Campo, das Florestas e das Águas, em 15 de outubro de 2021, que tinha como objetivo promover uma discussão sobre o combate à fome no Brasil.

Os vídeos aqui verificados não exibem a fala completa de Lula que, na realidade, critica a postura, atribuída por ele a outros líderes, de lembrar das pessoas pobres apenas em período de campanha eleitoral.

O Comprova classifica como enganoso todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações e que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Juntos, os vídeos publicados no Kwai alcançaram mais de 906 mil interações, sendo 28,2 mil curtidas, mais de 7 mil comentários, 40,9 mil compartilhamentos e 830,4 mil visualizações até o dia 28 de junho.

O que dizem os autores das publicações: O Comprova entrou em contato com os responsáveis pelas publicações por meio de mensagens na rede social Kwai. No entanto, não houve retorno até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: O Comprova iniciou a checagem fazendo a transcrição da fala de Lula exibida pelos vídeos verificados. A partir disso, utilizando um trecho do discurso, fez uma busca no Google, que resultou em um vídeo mais completo, publicado no perfil do ex-presidente no Facebook, com a íntegra do discurso.

Com a gravação, que tem 42 minutos e 59 segundos de duração, o Comprova pôde investigar o contexto e o teor da fala completa de Lula, além da data e local onde foi realizada.

Os vídeos verificados

As peças de desinformação verificadas pelo Comprova foram publicadas no dia 24 de junho por dois perfis diferentes na rede social Kwai, um aplicativo móvel de compartilhamento de vídeos. Ambos utilizam trecho de um discurso feito por Lula, pré-candidato à presidência da República pelo PT. Um dos vídeos leva o título de “Lula diz: ‘Pobre é só um número’. Lula e a esquerda contra o povo”; o outro é intitulado “É um número Lula? Pobre é papel higiênico Lula?”.

No conteúdo alvo da verificação, Lula aparece dizendo: “O pobre é um número. Às vezes, um número bonito para se utilizar em campanha. Eu, há 20 anos atrás, dizia: ‘Pobre, sabe, é utilizado como se fosse papel higiênico. Ah, tem uma baita utilidade na época de eleição, mas depois joga ele fora, esquece’”.

A declaração, retirada de seu contexto original, sugere, de forma enganosa, que Lula considera o pobre “um número bonito para se utilizar em campanha. Na verdade, o ex-presidente faz uma crítica a essa postura, atribuída por ele a outros políticos.

Fala completa

Ao buscar por um trecho da declaração no Google, a equipe de verificadores chegou a outro vídeo, mais completo, publicado na página oficial de Lula no Facebook, com duração de 42 minutos e 59 segundos. A partir desse conteúdo, foi possível identificar o contexto e a data em que o discurso foi feito.

A manifestação ocorreu no Encontro dos Movimentos do Campo, das Florestas e das Águas com Lula, em 15 de outubro de 2021, véspera do Dia Mundial da Alimentação. Um vídeo, ainda mais extenso, desse mesmo encontro está publicado no canal oficial de Lula no YouTube. No evento, o ex-presidente afirmou que a volta da fome estaria relacionada à ausência de um projeto que coloca os pobres no orçamento do país: “A gente pode produzir o que quiser, mas se o povo não tiver dinheiro, ele vai passar fome.”

O trecho utilizado pelos autores dos vídeos verificados pode ser encontrado entre os minutos 00:34:59 e 00:35:18 (link do Facebook). A ideia completa parte do minuto 00:33:45 e se estende ao 00:35:59, confira:

“Então, nós estamos falando de fome de comida, mas nós temos muitas outras fomes, gente. Muitas outras fomes tão duras ou tão fortes quanto a comida. Nós temos fome de política ambiental e preservação das nossas águas, e preservação das nossas florestas, dos nossos animais, da nossa fauna. E de um animal, que, se a gente não tomar cuidado, ele está morrendo muito fortemente, que é o ser humano. Uma das grandes desgraças é que o ser humano, os mais pobres, não estão morrendo só na Amazônia por causa do desmatamento, do desemprego e da fome. Morre no mundo inteiro pelo esquecimento daqueles que deveriam ter responsabilidade de lembrar. Nenhum presidente de nenhum país do mundo se esquece do orçamento das Forças Armadas, nenhum país do mundo se esquece dos orçamentos do Itamaraty, do orçamento do Ministério Público, do orçamento da Polícia Federal, do orçamento da Receita, mas esquece de colocar o pobre no orçamento. Porque o pobre não é levado em conta. O pobre é um número. Às vezes, um número bonito para se utilizar em campanha. Eu, há 20 anos atrás, dizia: ‘Pobre, sabe, é utilizado como se fosse papel higiênico. Ah, tem uma baita utilidade na época de eleição, mas depois joga ele fora, esquece.’ Eu estou falando isso, coisa que eu já falei 30 anos atrás, eu sou velho, eu estou falando do passado. Eu deveria falar do futuro, mas essa gente que cassou a Dilma, fez o impeachment da Dilma, fazendo a ponte para o futuro, olha a ponte que eles nos deram: o purgatório. Essa gente faz autocrítica? Não. Essa gente quer a continuidade disso. Porque esse país nunca foi governado para 100% do seu povo. Esse país sempre foi governado para uma minoria privilegiada.”

Ao analisar o discurso, é possível perceber que Lula critica, inicialmente, o posicionamento de presidentes ao redor do mundo que se esquecem de “colocar o pobre no orçamento” e que os mais pobres estão morrendo “pelo esquecimento daqueles que deveriam ter responsabilidade de lembrar”. Ao mencionar que “o pobre é um número”, “um número bonito para se utilizar em campanha”, Lula não está expressando a própria opinião, mas buscando exemplificar como esses presidentes, cujos nomes não são citados, enxergam o pobre.

Na sequência, o presidenciável faz referência a “essa gente que cassou a Dilma (PT), fez o impeachment da Dilma”. Cita que deveria estar falando do futuro, mas que há décadas segue insistindo no mesmo tema (a “utilização” do pobre em época de eleição por interesse) por entender que a questão não foi superada.

Lula, em seguida, menciona que, em vez de “ponte para o futuro”, “olha a ponte que eles nos deram: o purgatório” – fazendo uma clara crítica ao programa de governo batizado de ”Uma Ponte para o Futuro”, que pavimentou as ações do presidente Michel Temer após a queda da ex-presidente Dilma Rousseff.

Os autores dos vídeos

Um dos perfis que postou o vídeo checado aqui tinha, até dia 27 de junho, 5,2 mil seguidores no Kwai e 523 conteúdos postados. A maior parte das publicações é contrária a Lula e ao PT e favorável ao presidente Jair Bolsonaro (PL). O autor também possui um canal no YouTube, com 462 seguidores, e um perfil no Twitter, em que consta que é de Minas Gerais.

O outro vídeo verificado foi publicado por um perfil intitulado Sou contra o PT e você? (Celso 5692). O perfil tem 48,9 mil seguidores e 634 postagens; a maioria delas contra Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e as eleições presidenciais que viralizaram nas redes sociais. Os vídeos aqui verificados tiram de contexto a fala de um pré-candidato ao Planalto. Isso pode confundir e influenciar a decisão de voto dos eleitores, o que é prejudicial para o processo democrático.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou outras peças de desinformação a respeito de figuras políticas que podem interferir na escolha dos eleitores. Recentemente, o Comprova mostrou que Lula não tem conta no banco do Vaticano; que post adulterou áudio e mentiu ao afirmar que Lula foi xingado em Caruaru (PE) e que post trocou local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas.

Eleições

Investigado por: 2022-06-24

Lula não tem conta no banco do Vaticano; falsa denúncia já foi contestada pela instituição

  • Falso
Falso
É falso vídeo em que homem afirma que "Lula tem 250 milhões de euros no Banco do Vaticano". A fonte da informação foi uma entrevista no YouTube, de um canal boliviano, com um suposto diácono que já havia sido desmentido pelo Vaticano em 2019. Ao Comprova, a assessoria de Lula confirmou que o ex-presidente nunca teve conta no banco do Vaticano ou em qualquer outro no exterior.

Conteúdo investigado: Vídeo em tom de denúncia afirma que o ex-presidente Lula teria 250 milhões de euros escondidos no Banco do Vaticano. O autor do conteúdo exibe trecho de uma entrevista no YouTube com um homem que diz ser diácono e possuir documento mostrando os dados da conta do petista e de outros líderes da América Latina.

Onde foi publicado: Kwai e Facebook.

Conclusão do Comprova: É falso vídeo que circula nas redes sociais em que homem diz fazer uma denúncia e afirma que o ex-presidente e pré-candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria 250 milhões de euros no Banco do Vaticano, cujo nome oficial é Istituto per le Opere di Religione (IOR) ou Instituto para as Obras de Religião, em português. O apresentador usa como fonte do conteúdo falso uma entrevista de um suposto diácono ao canal de uma apresentadora boliviana no YouTube. O vídeo foi publicado há dois anos.

O primeiro registro do tal clérigo fazendo acusações infundadas não só contra Lula como contra outros líderes da América Latina foi em um jornal colombiano, em janeiro de 2019. Na época, o Vaticano logo desmentiu o conteúdo. “Nenhuma das pessoas mencionadas (…) jamais teve uma conta bancária na IOR, nem tem atualmente uma, nem tem uma assinatura de delegação de contas a terceiros, nem teria – com base nas novas regras adotadas pelo Instituto – qualquer título para acessar qualquer operação lá. Os documentos apresentados como prova são falsos. A IOR se reserva o direito de tomar medidas legais””, disse Alessandro Gisotti, então diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé. Procurada pelo Comprova, a assessoria de imprensa do petista também negou a informação.

Além disso, não há provas que confirmem a posição de diácono do homem que faz as supostas denúncias e os documentos apresentados por ele já foram verificados como falsos pela agência de checagem colombiana Colombia Check.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. No Facebook, o vídeo compartilhado em grupo bolsonarista teve 374 interações, entre comentários, curtidas e compartilhamentos até o dia 24 de junho. No Kwai, o conteúdo alcançou 1,5 mil interações.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com o autor do vídeo verificado aqui e com os responsáveis pelas publicações no Kwai e no Facebook, mas não houve retorno até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: A partir da busca no Google pelas palavras-chave “Lula” e “Banco do Vaticano”, o Comprova encontrou diversas checagens sobre o tema de outras agências como Aos Fatos, Lupa e Estadão Verifica. Assim, foi possível buscar o vídeo original da entrevista em que o suposto diácono acusa líderes da América Latina de manterem contas secretas no Banco do Vaticano.

O próximo passo foi verificar as informações a respeito do IOR, seu funcionamento e quem são os clientes do banco. Isso foi feito por meio de consultas ao site da instituição e ao relatório de atividades de 2021.

O Comprova também reuniu dados sobre o homem que aparece no vídeo verificado, professor Emílio, apresentador da TV Nossa Senhora de Fátima.

Por fim, a equipe tentou contato, sem sucesso, com o Banco do Vaticano, a TV Nossa Senhora de Fátima, o professor Emílio, o suposto diácono Jorge Sonnante e o Arcebispado de Buenos Aires. A assessoria do ex-presidente Lula também foi procurada.

O vídeo

“Denúncia. Lula teria € 250 milhões no Banco do Vaticano” começa o vídeo verificado aqui, de 4 minutos e 59 segundos. O homem que traz a falsa denúncia diz que é por isso que “você não vê foto do [papa] Francisco com Bolsonaro, mas vê com Lula, Dilma, Evo Morales e Maduro”. Dirigindo-se ao presidente do Brasil, ele, que se apresenta como professor Emílio, da TV Nossa Senhora de Fátima, afirma “então, Bolsonaro, é por isso que você não recebe cartinha do papa quando você é operado nem a benção do Francisco, tá bom? Matamos a charada, tá?”.

Depois de exibir um trecho de 19 segundos da entrevista com o suposto diácono (a entrevista completa, no Ahora con Roxana, tem pouco mais de uma hora; a parte de Lula é a partir dos 46 minutos e 33 segundos), o apresentador diz que, para as “pessoas de esquerda”, a relação “nunca é por amizade, nunca é por fidelidade, é só dinheiro e corrupção”. No final, ele pede que a Polícia Federal investigue o caso, com a Interpol e a Agência Central de Inteligência (CIA).

O professor Emílio, segundo o site da TV Nossa Senhora de Fátima, é professor e catequista. No LinkedIn, ele se apresenta como Emílio Carlos, “diretor no Apostolado de Evangelização Nossa Senhora de Fátima”, em Taubaté, no interior paulista. Ainda nesta rede, ele afirma que “o apostolado evangeliza pela internet através da web TV Criança Católica e da web TV Nossa Senhora de Fátima”.

Contas inexistentes

O trecho da entrevista usada no vídeo verificado aqui foi retirado do canal Ahora con Roxana no YouTube, com 10,3 mil inscritos. A apresentadora é Roxana Lizárraga, que, no Twitter, se descreve como “jornalista, advogada, política e guerreira da democracia e da liberdade de expressão”. Entre 2019 e 2020, foi ministra das Comunicações da Bolívia – em um episódio que ficou conhecido, ameaçou jornalistas enquanto ocupava o cargo.

Em 2019, ela publicou em seu canal uma entrevista com Jorge Sonnante, apresentando-o como diácono. Na gravação, intitulada “Contas socialistas no Vaticano”, ele mostra papéis que afirma serem documentos oficiais do Vaticano. O suposto diácono mostra os documentos como provas da existência de contas bancárias dos presidentes e ex-presidentes da América Latina Cristina Kirchner (presidente da Argentina de 2007 a 2015; atual vice), Juan Manuel Santos (Colômbia, de 2010 a 2018), Evo Morales (Bolívia, de 2006 a 2019) Rafael Correa (Equador, de 2007 a 2017), Raúl Castro (Cuba, de 2006 a 2018), Daniel Ortega (Nicarágua, de 1979 a 1990 e desde 2007), Nicolás Maduro (Venezuela, desde 2013) e Lula (Brasil, 2003 a 2011).

No post verificado aqui, o homem que aparece no vídeo usa apenas o trecho em que Roxana e o entrevistado falam de Lula.

Antes de Roxana, a primeira reportagem sobre os documentos de Sonnante que comprovariam essas contas foi publicada pelo site colombiano El Expediente, em 9 de janeiro de 2019.

Porém, no mesmo mês, o Vaticano desmentiu as alegações. “Depois de verificar com as autoridades competentes, posso afirmar que nenhuma das pessoas mencionadas no artigo jamais teve uma conta bancária no IOR, nem a possui atualmente, nem possui assinaturas de delegados em nome de terceiros, nem teria algum título para realizar alguma operação”, afirmou Alessandro Gisotti, então diretor interino da Sala de Imprensa da Santa Sé. “Os documentos apresentados como evidência são falsos. O IOR se reserva o direito de tomar medidas legais”, terminava o comunicado oficial.

Outros casos

O conteúdo apresentado no canal Ahora com Roxana não foi o primeiro a afirmar que Lula tem fortunas em bancos fora do Brasil. Em 2018, por exemplo, o Comprova verificou um texto sobre o petista ser dono de uma poupança de US$ 108 milhões depositada em Luxemburgo – não havia nenhuma evidência do caso.

Procurada pela reportagem para comentar o post verificado aqui, sobre o Banco do Vaticano, a assessoria de imprensa de Lula também negou a informação. “O ex-presidente nunca teve conta nem no Banco do Vaticano nem em nenhum banco do exterior. Lula já foi extensamente investigado, já teve todos os seus sigilos fiscais e bancários quebrados e não foi encontrada nenhuma irregularidade”, afirmou.

Banco do Vaticano

Diferentemente do que o post insinua, não é qualquer pessoa que pode ter uma conta no Banco do Vaticano, fundado em 1942. Apenas instituições credenciadas à Santa Sé e entidades ou pessoas jurídicas ligadas ao Vaticano.

Como informa seu site, o IOR “realiza atividades financeiras autorizadas pela Autoridade de Supervisão e Informação Financeira (ASIF) e oferece os seguintes serviços: recebimento de depósitos, administração de ativos, determinadas funções de custódia, transferências internacionais de pagamentos por meio de bancos correspondentes e manutenção de contas de salários e pensões de funcionários da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano”.

Ainda de acordo com a página, “a missão do instituto envolve assegurar a custódia e administração dos bens transferidos ou confiados ao instituto por pessoas físicas ou jurídicas, e destinados para obras de religião ou caridade”.

No final de 2020, o Banco do Vaticano gerenciava cerca de 5 bilhões de euros (31 bilhões de reais, aproximadamente) em depósitos de clientes e administrava uma carteira de ativos de 649,9 milhões de euros (cerca de 4 bilhões de reais), segundo matéria do UOL.

Até o dia 31 de dezembro de 2021, o IOR tinha 14.519 clientes, divididos da seguinte forma: ordens religiosas (50%), departamentos da Cúria Romana, escritórios da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano e nunciaturas apostólicas – missões diplomáticas da Santa Sé – (23%), conferências episcopais, dioceses e paróquias (9%), cardeais, bispos e clero (8%), funcionários e aposentados do Vaticano (7%); fundações e outras entidades de Direito Canônico (3%). As informações constam no site da instituição.

Quem é Jorge Sonnante

O suposto diácono nasceu na cidade de Bahía Blanca, na Argentina. Ele tem 43 anos, é casado e tem duas filhas.

Sonnante é presidente da União para o Partido da República da Argentina e, conforme consta no site do partido, já teria sido “membro da Secretaria de Estado na Santa Sé como conselheiro pontifício de vários papas e como analista de campo na área de inteligência”.

Embora ele se apresente como diácono da Igreja Católica, não há provas que confirmem a função. Como mostrou a Agência Aos Fatos, documentos postados por Sonnante no Twitter que comprovariam seu trabalho na Cúria Romana de 2013 a 2015 têm ao menos dois erros. Em vez de “Segreteria di Stato“, grafia correta do nome do órgão em italiano, o selo e o carimbo dizem: “Secretaria de Estado” e “Secretaria di Stato”, respectivamente.

Além disso, Rodriguez Carballo, arcebispo espanhol que teria assinado o documento do suposto diácono em 12 de abril de 2013, só foi ordenado para o cargo em 18 de maio de 2013.

Sonnante também tem uma empresa de análise de informação e inteligência chamada Dark Falcon SRL e mantém uma plataforma online para divulgar conteúdos que, segundo ele, não são noticiados pela mídia. Por meio de seu site, Sonnante comercializa quatro itens: duas conferências, um equipamento de respiração “para o usuário sobreviver a qualquer ataque bacteriológico” e um livro escrito por ele, intitulado “Trump: a marca do anticristo”.

O argentino já foi alvo de verificações em outros países como Colômbia e Bolívia.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e as eleições presidenciais de 2022 que viralizaram nas redes sociais. O vídeo aqui verificado traz informações falsas a respeito de um pré-candidato ao Planalto que podem confundir e influenciar a decisão de voto dos eleitores.

Outras checagens sobre o tema: A mesma peça de desinformação já foi verificada pela Aos Fatos, Agência Lupa e Estadão Verifica. Além disso, os documentos utilizados pelo homem que aparece no vídeo foram comprovados como falsos pela agência de fact-checking colombiana Colombia Check.

Em verificações anteriores envolvendo o ex-presidente Lula, o Comprova mostrou que post troca local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas; que post engana ao omitir que protesto contra Lula em Bagé é de 2018; e que Lula não foi expulso de Niterói como afirma vídeo.

Eleições

Investigado por: 2022-06-24

Post adultera áudio e mente ao afirmar que Lula foi xingado em Caruaru

  • Falso
Falso
É falso conteúdo publicado no Facebook afirmando que Lula foi hostilizado ao participar da festa junina em Caruaru, Pernambuco. A publicação sofreu edição com a introdução de um áudio com gritos de “ladrão”. No conteúdo original, o ex-presidente é aplaudido durante um ato político de um aliado em Uberlândia, Minas Gerais. No post, é tocado um jingle de pré-campanha eleitoral.

Conteúdo investigado: Vídeo no Facebook mostra Lula caminhando em um palco ao lado do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil. O ex-presidente segura uma bandeira do Brasil nas mãos. No conteúdo, são ouvidos gritos de: “ladrão, ladrão”. A legenda ironiza: “O líder das pesquisas foi na festa junina de Caruaru-PE e foi extremamente aclamado pelo povo”.

Onde foi publicado: Facebook.

Conclusão do Comprova: É falso um vídeo compartilhado no Facebook afirmando que o ex-presidente e pré-candidato à presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi vaiado e xingado de ladrão durante uma festa junina em Caruaru (PE). O vídeo que circula na rede social é, na verdade, uma montagem. O áudio com os xingamentos foi inserido posteriormente por meio de edição.

As imagens foram feitas no dia 15 de junho em um evento político em Uberlândia (MG), em que Lula participou ao lado do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PSD-MG). Não há registros de que o petista tenha participado de festa junina em Caruaru.

O post também questiona a credibilidade das pesquisas de intenção de voto ao ironizar: “O líder das pesquisas foi na festa junina de Caruaru-PE e foi extremamente aclamado pelo povo”. A alegação sugere que o ex-presidente tem baixa popularidade, o que não procede. Ele aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para presidente, que utilizam métodos científicos para apurar o quadro do momento.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: No Facebook, o post acumulava até o dia 24 de junho, mais de 1,3 mil compartilhamentos, 138 comentários e 351 curtidas. A postagem já foi sinalizada como “informação falsa” pela plataforma.

O que diz o autor da publicação: No Facebook, o post foi feito por uma usuária que costuma publicar conteúdos em apoio a Jair Bolsonaro. Na imagem do perfil, inclusive, ela divulga o número 22, em alusão ao PL, partido ao qual o presidente é filiado. O mesmo conteúdo foi compartilhado por um seguidor em um grupo denominado Dr Damares eu apoio a ministra dos Direitos Humanos. Ambos foram procurados pelo Comprova, mas não responderam.

Como verificamos: A publicação analisada pelo Comprova já foi alvo de checagens de outras agências como Aos Fatos, Boatos.org e AFP Checamos, que serviram como base para o início desta verificação. A partir daí, foi possível encontrar o vídeo original publicado no TikTok.

Neste conteúdo, foi possível escutar um trecho do que parece ser um jingle de campanha e que traz os seguintes dizeres: “Eu sou de Minas Gerais, coração do Brasil…”. Em busca no Google por esse trecho, encontramos um vídeo no YouTube, no canal de Lucas Rodrigues, que detalhou a informação de que este, de fato, é um jingle da pré-campanha do ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD) ao governo de Minas Gerais, nas eleições de 2022.

A partir daí, em uma busca no Google com as palavras “Lula”, “Minas Gerais” e “Kalil”, encontramos o registro do evento, que teve transmissão ao vivo no YouTube.

O Comprova ainda buscou matérias publicadas na imprensa a respeito do ato político, como as do Poder 360 e Estado de Minas. Também entramos em contato com dois perfis que compartilharam o conteúdo falso no Facebook.

Vídeo com Lula sendo hostilizado é montagem

O vídeo que mostra o ex-presidente Lula sendo recebido com vaias e gritos de “ladrão”, na verdade, é uma montagem, e os xingamentos foram inseridos por meio de edição.

Originalmente, a gravação foi feita em Uberlândia (MG), no dia 15 de junho, e postada no TikTok pelo sindicalista Gil Carteiro, durante um evento político.

O trecho do vídeo que viralizou, com edições, foi feito no fim do ato, quando Lula e o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil dividiram o palanque e apareceram juntos segurando a bandeira do Brasil.

No vídeo original, é possível ouvir o ex-presidente sendo recebido com palmas ao som do jingle de Alexandre Kalil, que também é pré-candidato ao governo de Minas Gerais nas eleições estaduais deste ano. A montagem ainda tenta esconder com stickers a marca d’água do verdadeiro autor da gravação das imagens, que segue parcialmente visível.

| Sticker tenta cobrir a marca d’água do verdadeiro autor da gravação das imagens. (Foto: Reprodução / Facebook)

Lula esteve em Natal (RN), Maceió (AL) e Aracaju (SE) no fim de semana dos dias 18 e 19 de junho, mas não participou das festividades de São João em Caruaru, conforme informado por sua assessoria de imprensa.

Protesto antes do evento

O evento político aqui checado marcou a primeira vez em que Lula e Kalil compartilharam palanque nesta pré-campanha de 2022. O evento foi realizado no Centro Universitário do Triângulo (Unitri). O episódio ganhou repercussão na imprensa por conta de um incidente provocado por pessoas que teriam colocado um drone para espalhar fezes e urina sobre o público. Os dejetos foram jogados antes que o evento começasse.

Embora os atingidos tenham relatado ter sofrido ataque com fezes, a Polícia Militar de Minas Gerais disse se tratar de produto biológico usado para atrair moscas em lavouras.

No dia 20 de junho, o G1 revelou que o Ministério Público Estadual de Minas Gerais (MPE-MG) vai apurar o caso. Os operadores do drone que jogaram produto químico nos apoiadores foram denunciados ao MPE pelo deputado federal Reginaldo Lopes (PT). O documento foi entregue ao procurador-geral Jarbas Soares Júnior. Segundo o procurador, é necessária a devida apuração dos fatos com a realização de prova pericial no drone e no produto pulverizado.

Pesquisas de intenção de voto

A legenda do post investigado também questiona a credibilidade das pesquisas de intenção de voto: “O líder das pesquisas foi na festa junina de Caruaru-PE e foi extremamente aclamado pelo povo”. Diversos seguidores endossam o questionamento com comentários que desqualificam o trabalho de institutos, como o Datafolha; entre eles: “Olha aí o data povo”. “Acho que aí ele subiu mais um pouco nas pesquisas”, digitou outro.

A mais recente pesquisa realizada pelo grupo Folha, publicada em 23 de junho, mostra Lula com 19 pontos de vantagem sobre o atual presidente, marcando 47% das intenções de voto no primeiro turno. Bolsonaro tem 28%.

Ainda que o post aqui verificado fosse verdadeiro, um eventual episódio isolado não seria suficiente para configurar uma amostra de baixa popularidade de determinado candidato. Como o Comprova mostrou recentemente, as pesquisas eleitorais utilizam métodos científicos para apurar a realidade do momento junto a segmentos que possam ser representativos do eleitorado brasileiro de uma forma geral.

As críticas aos institutos de pesquisas seguem a linha de Bolsonaro, que já chamou de “canalhice” dados do Datafolha sobre a intenção de votos dos eleitores evangélicos.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições que viralizaram. O conteúdo aqui checado trata de uma suposta manifestação contra Lula, pré-candidato à Presidência da República. Conteúdos enganosos prejudicam a decisão de eleitores durante as votações, atrapalhando o processo democrático. Além disso, pesquisas eleitorais são ferramentas essenciais para a análise do contexto político do país. A tentativa de descredibilizá-las diminui a confiança das pessoas sobre os institutos de pesquisa, atrapalha a percepção da realidade e influencia o voto de forma equivocada.

Outras checagens sobre o tema: O conteúdo desta checagem foi verificado também por Boatos.org, Yahoo, Terra e Aos Fatos.

Recentemente, o Comprova mostrou que post troca local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas, que post engana ao omitir que protesto contra Lula em Bagé (RS) é de 2018 e que vídeo antigo engana ao afirmar que Lula e Alckmin foram hostilizados em Porto Alegre.

Eleições

Investigado por: 2022-06-23

Post usa vídeo antigo para enganar sobre adesão a ato pró-Bolsonaro em Orlando

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a postagem no Facebook que compartilha vídeo de motociata em homenagem ao presidente Jair Bolsonaro (PL), em São Paulo, em 12 de junho de 2021, como se fosse um registro de Orlando, nos Estados Unidos, em 11 de junho deste ano. A motociata em Orlando realmente aconteceu na data sinalizada, mas teve uma adesão menor do que o evento realizado em São Paulo, no ano passado.

Conteúdo investigado: Vídeo no Facebook mostra comboio de motos em uma estrada. A publicação utiliza imagens de post no Kwai e insere os termos “USA” e “Horlando 11/06/2022” para fazer menção à motociata realizada pelo presidente Jair Bolsonaro em Orlando, nos Estados Unidos.

Onde foi publicado: Facebook e Kwai.

Conclusão do Comprova:

É enganoso o vídeo que mostra imagens de comboio de motos como se fossem de motociata realizada em apoio ao presidente Jair Bolsonaro em Orlando, nos Estados Unidos, em junho deste ano. A gravação, na verdade, foi feita durante uma outra motociata, realizada na cidade de São Paulo, em junho de 2021.

Além de o ato ter sido realizado em outra cidade que não a informada no vídeo, o autor do post também engana ao escrever que “Segundo a data foice foram 47 motos”, referindo-se ao Datafolha. Não foram encontradas publicações do instituto de pesquisa referentes ao evento nos Estados Unidos.

Entretanto, de acordo com publicação da Folha de S.Paulo, o evento em Orlando reuniu cerca de 350 motociclistas. Já na motociata na cidade paulista – a que aparece no vídeo verificado aqui – passaram pelo pedágio 6,6 mil veículos (Poder 360).

O Projeto Comprova considera enganoso qualquer conteúdo retirado do contexto original e usado em outro modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: Até o dia 23 de junho de 2022, a postagem do Facebook alcançou 675 compartilhamentos, 243 comentários e 1,2 mil interações. Já a publicação do Kwai teve 2,9 mil visualizações, 246 curtidas e 725 compartilhamentos.

O que diz o autor da publicação: O Comprova procurou os autores da publicação no Facebook e no Kwai. Não houve respostas até a publicação da checagem.

Como verificamos: O vídeo compartilhado na postagem enganosa traz, na tela, a indicação do perfil no aplicativo Kwai de onde o material foi baixado. Com o auxílio do site Save from Net, o Comprova baixou o vídeo do Kwai e fez o upload do material no programa Adobe Premiere Pro, onde foi possível capturar frames da imagem.

Ao submetê-los à ferramenta de busca reversa de imagens Google Lens, foi possível localizar reportagens e outras postagens com o mesmo vídeo – uma delas feita por Jair Bolsonaro – que esclareceram tratar-se de uma motociata realizada em São Paulo, em junho de 2021.

O Comprova também fez buscas na internet por reportagens sobre a motociata realizada no início deste mês em Orlando, por ocasião da passagem de Bolsonaro pelos EUA para participar da Cúpula das Américas. E buscou contato com o autor da postagem enganosa aqui verificada.

Imagens são de motociata em São Paulo

A motociata que aparece no vídeo da postagem não foi realizada em Orlando, e sim em São Paulo, no dia 12 de junho de 2021. O mesmo vídeo foi localizado em postagens da época. Uma delas feita pelo próprio presidente Jair Bolsonaro:

 

O mesmo registro antigo também aparece nesta postagem no Twitter e nesta outra no YouTube, no canal do portal de notícias Poder360. Capturas de tela abaixo:

São diversas as correspondências nas imagens que permitem afirmar tratar-se do mesmo vídeo atribuído pela postagem investigada à motociata de Orlando. Nas capturas de tela, percebe-se, por exemplo, nas marcações em vermelho, mesma placa e poste que aparecem na publicação enganosa, feita em 16 de junho deste ano:

| Imagem do post enganoso, investigado nesta verificação

A motociata em São Paulo, do dia 16 de junho de 2021, foi realizada na Rodovia dos Bandeirantes. Segundo estimativa da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), concessionária que administra a pista, houve registro, na ocasião, da passagem de 6.661 motos na Praça de Pedágio de Campo Limpo. Essas informações constam em reportagens publicadas na época (Carta Capital, Folha de S.Paulo, Poder360).

Motociata em Orlando

Jair Bolsonaro realizou uma motociata com apoiadores em Orlando, nos Estados Unidos, no dia 11 de junho de 2022. O grupo se reuniu na frente de uma igreja, onde o presidente discursou antes de seguir pelas ruas da cidade americana. Vídeos publicados pela imprensa (SBT e Poder360) mostram o evento. Além disso, Bolsonaro também compartilhou imagens da reunião em seu Twitter.

A agenda oficial do presidente confirma que o político se encontrou com a comunidade brasileira em Orlando entre 10h40 e 12h40 do dia 11 de junho. Após a motociata, às 15h30, Bolsonaro retornou para o Brasil. Ele estava nos Estados Unidos para participar da Cúpula das Américas e chegou a se encontrar com o presidente norte-americano, Joe Biden. De acordo com matéria do Poder360, a motociata foi coordenada pelo grupo Yes Brazil USA.

O blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, considerado foragido após ter sua prisão decretada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por envolvimento no inquérito das “fake news” e de atos antidemocráticos, participou da motociata em Orlando (Metrópoles). Imagens mostram Santos na garupa de um homem, próximo da moto do presidente.

Críticas a instituto de pesquisa

A legenda do post no Facebook faz referência ao Datafolha. Com o intuito de descredibilizar o instituto de pesquisa, o autor menciona, de forma enganosa e irônica, que o número de motos estimadas pelo Datafolha seria notavelmente menor: “Segundo a data foice foram 47 motos”.

Não foram encontradas publicações do Datafolha sobre a motociata realizada em Orlando. Entretanto, a Folha de S.Paulo, principal empresa do grupo ao qual o instituto de pesquisa pertence, afirma que o evento reuniu cerca de 350 motos e, segundo estimativas da igreja, mais de 2 mil pessoas esperavam o presidente.

Como citado anteriormente, o número de veículos participantes da motociata de São Paulo, compartilhada de forma enganosa pela publicação, foi de 6,6 mil. Os números mostram que a adesão do evento de Orlando foi 94% menor do que o da cidade brasileira.

Conteúdos que atacam institutos de pesquisa são frequentes. O Comprova mostrou recentemente que um post troca local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas e que vídeo faz alegações enganosas para colocar em dúvida credibilidade de pesquisas eleitorais.

Mesmo vídeo em outras postagens enganosas

O vídeo da motociata de 16 de junho de 2021 em São Paulo vem sendo compartilhado em diversas postagens enganosas sobre supostos atos em homenagem a Bolsonaro no Brasil e no mundo.

A própria postagem de Jair Bolsonaro foi sinalizada como informação falsa pelo Facebook por ter aparecido em checagem da Agência Lupa sobre conteúdo que compartilhava o mesmo vídeo afirmando tratar-se de motociata na Bahia, em 26 de fevereiro deste ano.

O vídeo utilizado na postagem aqui verificada foi baixado originalmente do Kwai e depois compartilhado no Facebook – a informação aparece na imagem, que traz a indicação do perfil que inicialmente postou o vídeo no aplicativo. Na postagem no Kwai, a afirmação é de que a motociata ocorreu em Porto Alegre (destaque abaixo, em vermelho):

No exterior, o vídeo da motociata em São Paulo também apareceu em postagem falsa na Alemanha, em fevereiro deste ano. Na ocasião, a afirmação era de que se tratava de um evento em homenagem a uma criança alemã, de 6 anos, que estava em tratamento de câncer e, segundo sua mãe, adorava motos.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos sobre pandemia, eleições e políticas públicas que viralizaram nas redes sociais. A publicação cria uma percepção enganosa do apoio popular e das manifestações favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro, pré-candidato à reeleição. As informações retiradas do contexto verdadeiro confundem e podem induzir a opiniões irreais sobre o político e seus apoiadores.

Outras checagens sobre o tema: Anteriormente, o Comprova já mostrou que post no Facebook engana ao divulgar atos pró-Bolsonaro de 2021 como se fossem atuais; que é uma sátira imagem da torcida do Liverpool atribuída a encontro do PT e que vídeo antigo engana ao afirmar que Lula e Alckmin foram hostilizados em Porto Alegre.

 

 

Eleições

Investigado por: 2022-06-22

Atividades de Bruno Pereira e Dom Phillips eram legais, ao contrário do que diz post

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a sequência de tuítes que alega que o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips estavam na Amazônia realizando atividades extremistas e ilegais. Pereira tinha autorização da Fundação Nacional do Índio (Funai) e Phillips não entrou em terras indígenas. O indigenista realizava um trabalho de proteção da área e orientação de sustentabilidade ambiental com o povo do Vale do Javari, e o jornalista fazia uma reportagem sobre o uso de tecnologia pelos indígenas para vigiar e denunciar invasões aos territórios.

Conteúdo investigado: Sequência de tuítes afirmando que após uma pesquisa sobre Bruno Pereira e Dom Phillips, assassinados no Vale do Javari, na Amazônia, chegou-se à conclusão que eles realizavam atividades extremistas e ilegais.

Onde foi publicado: Twitter.

Conclusão do Comprova: É enganosa a publicação que afirma que Bruno Pereira e Dom Phillips, cujos assassinatos foram confirmados pela Polícia Federal em 17 e 18 de junho, realizavam atividades extremistas e ilegais na Amazônia. Pereira foi à região, com autorização, para participar de reuniões em aldeias na área da calha do rio Curuçá, enquanto Phillips estava escrevendo sobre uma equipe de vigilância criada pelos povos originários para documentar e denunciar as invasões e crimes em seu território. A atuação do jornalista, no entanto, foi fora da área indígena.

O conteúdo questiona a credibilidade do trabalho dos dois profissionais, dando a entender que eles realizavam atividades ilegais. “Tinha vários inimigos na região, não só por questões legais, mas também por questões pessoais”, diz um trecho em referência ao indigenista, sem apresentar provas.

Para o Comprova, enganoso é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações, que induz a uma interpretação equivocada e confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 22 de junho, o tuíte teve mais de 8 mil curtidas e 3,1 mil compartilhamentos.

O que diz o autor da publicação: A autora do post verificado é apoiadora do presidente Jair Bolsonaro (PL) e costuma publicar conteúdos enaltecendo pautas defendidas por ele. O Comprova entrou em contato com a autora via mensagem no Twitter, mas não obteve resposta até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: O primeiro passo foi buscar informações a respeito do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, do trabalho que estavam desenvolvendo no Vale do Javari (AM) e se eles teriam autorização para estar no local.

Para isso, foram consultadas reportagens jornalísticas (BBC News Brasil, G1, Estado de Minas, CNN Brasil, UOL Notícias, Globo) e entidades como a Funai, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

O Comprova também procurou por notícias sobre a destruição de balsas citada pelo post aqui verificado (Folha, Estadão, UOL, Veja) e contactou a assessoria da Polícia Federal (PF) no Amazonas para esclarecimentos acerca do episódio.

Bruno Pereira tinha autorização para atuar no Vale do Javari

Em 8 de junho, três dias depois do desaparecimento de Bruno Pereira e Dom Phillips, o presidente da Funai, Marcelo Xavier, disse em entrevista à Empresa Brasil de Comunicação (EBC) que os homens não teriam comunicado aos órgãos sobre a viagem ao Vale do Javari. No entanto, documentos oficiais obtidos pela TV Globo apontam que o indigenista cumpriu os protocolos legais e que Phillips não entrou em terras indígenas.

Conforme o documento emitido pela Funai, Bruno Pereira foi autorizado a entrar no Vale do Javari e participar de reuniões em cinco aldeias na região da calha do rio Curuçá para conversar sobre o território e estratégias para protegê-lo entre os dias 17 e 30 de maio. Ele entrou no dia 21, mas não estava acompanhado do jornalista Dom Phillips.

A família do jornalista disse ao Jornal Nacional que ele só encontrou o indigenista no dia 1º de junho, em Atalaia do Norte, após Pereira ter visitado as aldeias indígenas.

Apesar de a autorização possuir vigência apenas até o dia 30 de maio, o local em que o indigenista e o jornalista foram vistos pela última vez, no dia 5 de junho, não exigia qualquer documentação para acesso, como noticiou o jornal CNN Brasil.

Além disso, Bruno Pereira e Dom Phillips poderiam ter entrado no Vale do Javari a convite dos indígenas, mesmo sem autorização da Funai, de acordo com a assessora jurídica da Univaja e do Observatório dos Povos Isolados, Carolina Santana.

“A lei brasileira garante sobretudo a autonomia dos povos indígenas sobre seus territórios. As leis e normativas internacionais também. O Brasil é signatário das normativas que garantem a autonomia. O próprio regulamento da Funai coloca a autonomia indígena como condição sine qua non para autorização do ingresso”, disse Santana ao Jornal Nacional.

A Funai foi procurada a respeito da autorização, mas não respondeu até o fechamento da verificação.

Dom Phillips fazia reportagem fora de terras indígenas

Ao contrário do que alega a postagem, Dom Phillips não fazia reportagem sem autorização da Funai e do Ibama, e sem o conhecimento dos governos estadual e federal. Na realidade, o jornalista estava escrevendo sobre uma equipe de vigilância criada pelos povos originários para documentar e denunciar as invasões e crimes em seu território. Tudo fora da área indígena.

Em entrevista ao UOL Notícias, o indigenista Leonardo Lennin, do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato, disse que, com a viagem, Phillips queria entender como a Univaja estava usando tecnologia, como drones e imagens de satélite, para documentar invasões e denunciá-las às autoridades.

Além do trabalho como jornalista, Dom Phillips estava escrevendo um livro sobre a floresta amazônica. Como noticiaram o G1 e o jornal britânico The Guardian, do qual Phillips era um colaborador de longa data, o projeto teria apoio da Fundação Alicia Patterson, instituição sem fins lucrativos que concede bolsas a jornalistas que trabalham para a realização de projetos independentes.

Queima de balsas no Amazonas

O conteúdo investigado acusa especificamente Bruno Pereira de atividades “extremistas” e cita “o episódio da queima das balsas”. Ao contrário do que sugere a autora do post, de que a ação teria sido irregular, as balsas foram destruídas por autoridades brasileiras com amparo na legislação, uma vez que eram estruturas utilizadas para o cometimento de crimes ambientais na região.

Em novembro de 2021, centenas de balsas de dragagem operadas por garimpeiros empreenderam uma corrida por ouro no rio Madeira, importante afluente do rio Amazonas. A ação ilegal deflagrou a operação Uiara, realizada pela Polícia Federal, Ibama e Forças Armadas.

Na primeira fase da intervenção foram presas três pessoas e destruídas 131 balsas apreendidas.

Ao UOL, o superintendente da PF no Amazonas, Leandro Almada, disse que não houve nenhum registro de violência, uso de força ou disparo de arma de fogo.

O que se pretendia com a destruição dos equipamentos era inviabilizar o maquinário utilizado para a prática do crime ambiental. A ação tem previsão legal e é regulamentada pelas Leis 9605/98 (Lei de Crimes Ambientais), e 8176/91 (Usurpação de bens da União).

Ainda conforme a matéria do UOL, a queima é feita com o próprio combustível encontrado nas estruturas, que normalmente carregam grandes tanques de plástico com centenas de litros de gasolina.

De acordo com matéria da Veja, em setembro de 2019, Bruno Pereira teria conduzido a operação Korubo, que terminou na destruição de 60 balsas usadas por garimpeiros ilegais no Vale do Javari. Por este motivo teria sido exonerado do cargo de coordenador de povos isolados da Funai.

O indigenista foi demitido do cargo 15 dias após a operação, que envolveu cerca de 60 agentes da Funai, da Polícia Federal e do Ibama. Segundo o UOL, após a Korubo, os garimpeiros teriam aumentado a pressão sobre a Funai pedindo pela demissão de servidores que estavam comandando ações desse porte na Amazônia – o que incluía Bruno Pereira.

Conforme o G1, a exoneração do indigenista veio “após pressão de setores ruralistas ligados ao governo do presidente Jair Bolsonaro”.

Desde a operação Korubo, a Funai não realizou mais nenhuma grande ação na região, que sofre também com a invasão de caçadores e pescadores ilegais.

Depois disso, em janeiro de 2020, Pereira pediu licença para atuar na proteção de indígenas fora do órgão e passou a atuar junto da Univaja para ensinar os povos originários a monitorar suas terras com o uso de tecnologias como drones.

Ao Comprova, a assessoria da PF no Amazonas informou que “as informações solicitadas fazem parte de investigação policial que tem o andamento totalmente sigiloso.”

A Funai, a Univaja e o Ibama foram procurados, mas não houve retorno.

Quem eram Bruno Pereira e Dom Phillips

Bruno da Cunha de Araújo Pereira era indigenista e um dos maiores especialistas em indígenas que vivem em isolamento no Brasil. Pereira estava licenciado da Funai e trabalhava como assessor da Univaja. Nascido no Recife, tinha 41 anos e deixa esposa e três filhos.

O jornalista Dom Phillips colaborava com diversos jornais no exterior, como o The New York Times, The Guardian e The Washington Post. Ele realizou diversas viagens para a Amazônia, onde fez reportagens sobre desmatamento e crimes. Ele vivia no Brasil há 15 anos e era casado com uma brasileira.

Phillips e Pereira já haviam viajado juntos para a Amazônia e, nesta ocasião, o jornalista estava acompanhado do indigenista brasileiro para coletar dados para um livro que estava escrevendo sobre como salvar a floresta.

No dia 5 de junho, o indigenista e o jornalista desapareceram a poucos quilômetros do Vale do Javari, que é a segunda maior reserva indígena do Brasil. Na última vez que foram vistos, eles pararam na comunidade de São Rafael, às 6h, onde tinham uma reunião marcada com o líder pescador Manoel Vitor Sabino da Costa, conhecido como “Churrasco”.

A dupla deveria ter chegado à Atalaia do Norte duas horas depois, mas isso nunca aconteceu. Os indígenas da Univaja foram os primeiros a alertar sobre o desaparecimento e começaram as buscas às 14h.

Em 15 de junho, um dos principais suspeitos pelo desaparecimento, Amarildo Oliveira da Costa, conhecido como “Pelado”, confessou ter participado do assassinato da dupla. Entre os dias 17 e 18, a PF confirmou o reconhecimento dos restos mortais pertencentes ao indigenista e ao jornalista.

De acordo com a perícia, eles foram assassinados com armas de caça. Bruno Pereira foi atingido por três tiros, enquanto Dom Phillips foi morto com um tiro.

Até o momento, a PF do Amazonas identificou oito suspeitos de terem ajudado a ocultar os corpos de Pereira e Phillips. Três suspeitos foram presos: Amarildo da Costa de Oliveira, conhecido como “Pelado”; Oseney da Costa de Oliveira, o “Dos Santos”; e Jeferson da Silva Lima, chamado de “Pelado da Dinha”.

Resposta do governo brasileiro

Além de críticas a falas do presidente Bolsonaro, que disse que a viagem dos dois era uma “aventura não recomendável” e que Phillips era “malvisto” na região, o governo brasileiro foi criticado por não agir rapidamente nas buscas.

No dia seguinte ao desaparecimento, o Comando Militar da Amazônia, do Exército, emitiu nota afirmando que estava “em condições de cumprir missão humanitária de busca”, mas que a ação só seria tomada “mediante acionamento por parte do Escalão Superior”.

No dia 10 de junho, a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos criticou a lentidão das buscas e pediu que o governo brasileiro redobrasse os recursos e esforços disponibilizados nas buscas.

Nos últimos dias, diante da repercussão internacional do caso, políticos, organizações e artistas também denunciaram a atuação dos órgãos públicos e lamentaram a morte de Pereira e Phillips.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A peça de desinformação checada tenta desqualificar a atuação de dois profissionais que lutavam pelos direitos e proteção dos povos originários do Brasil enquanto ainda se investiga os assassinatos. O crime se tornou pauta eleitoral uma vez que colocou em evidência as políticas públicas do governo Bolsonaro para a região amazônica.

Outras checagens sobre o tema: Em 14 de junho, o site Boatos.org checou a mesma peça de desinformação verificada pelo Comprova e concluiu que Bruno Pereira e Dom Phillips tinham autorização para estar no Vale do Javari.

Em verificações anteriores, o Comprova mostrou que protesto de indígenas na Bahia era por melhoria na educação e não por verba para ato contra Bolsonaro; que a Polícia Federal negou que ONGs que atuam na Amazônia transportaram ouro ilegalmente e que vídeo distorce dados sobre queimadas na Amazônia.

Eleições

Investigado por: 2022-06-21

Post troca local de ato contra Lula para desacreditar pesquisas

  • Enganoso
Enganoso
Vídeo engana ao mostrar protesto contra Lula afirmando que moradores de condomínio de luxo onde ele foi morar estão querendo expulsá-lo de lá. De fato, o protesto ocorreu, mas não na casa de Lula, e sim em frente ao condomínio em que mora o cientista brasileiro Rogério Cerqueira Leite, onde o ex-presidente esteve no dia 5 de maio, pouco antes de um evento na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Conteúdo investigado: Vídeo publicado no Kwai e compartilhado em outras redes sociais mostra um grupo de manifestantes contrários a Lula cercando um carro preto, onde estaria o ex-presidente. As publicações indicam que o local do protesto seria a nova residência do político, na cidade de São Paulo. A postagem aqui verificada utiliza as imagens para questionar a credibilidade das pesquisas eleitorais, que apontam Lula em primeiro lugar nas intenções de voto para as eleições presidenciais de outubro.

Onde foi publicado: Twitter, Facebook e Kwai.

Conclusão do Comprova: É enganoso o vídeo que mostra um protesto contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com a legenda “olha o Lula saindo de casa” no alto da gravação. O conteúdo de desinformação foi compartilhado com legenda afirmando que “moradores de condomínio de luxo aonde Lula foi morar estão querendo expulsá-lo de lá”. Mas as imagens são de um protesto contra o petista ocorrido na cidade paulista de Campinas, durante visita à casa do cientista brasileiro Rogério Cerqueira Leite.

Lula, como publicou a revista Veja, se mudou de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, para o bairro Alto de Pinheiros, na capital paulista, em dezembro do ano passado.

O post também questiona a credibilidade das pesquisas de intenção de voto ao afirmar “Esse é o líder das pesquisas”, insinuando que Lula tem baixa popularidade, o que não procede. O petista aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para presidente, que utilizam métodos científicos para apurar o quadro do momento.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: Até o dia 21 de junho, o vídeo original, compartilhado no Kwai, alcançou 6.752 curtidas, 2.561 comentários e 1.598 compartilhamentos. Já a postagem no Twitter teve 1.473 retweets, 5.180 curtidas e 126 interações.

O que diz o autor da publicação: Por meio das redes sociais, o Comprova procurou o autor do post original do Kwai para esclarecer questões referentes ao vídeo enganoso, mas ele não respondeu até a publicação desta verificação.

O lutador de jiu-jitsu Renzo Gracie, que compartilhou as imagens em seu Twitter, também foi consultado, mas não houve resposta. Ele é apoiador do presidente Jair Bolsonaro (PL). Em 2019, foi nomeado embaixador do turismo brasileiro pela Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur). Gracie costuma compartilhar informações duvidosas em suas redes sociais e já teve postagens classificadas como falsas por agências de checagem.

Como verificamos: O Comprova analisou comentários de internautas e fez buscas na internet, que levaram a reportagens de veículos de imprensa e publicações nas redes sociais sobre o episódio. Também foi utilizado o Google Street View para esclarecimento do local em que o vídeo foi gravado e feito contato com os autores dos posts.

O local da manifestação

Em certo momento do vídeo, as imagens mostram uma placa com os dizeres “Sociedade Alto das Palmeiras, 616”. Trata-se de um condomínio residencial localizado no bairro das Palmeiras, na cidade de Campinas, em São Paulo. Outros elementos presentes na publicação são os mesmos do condomínio.

 

| Captura da postagem do Kwai

 

| Captura do Google Street View

Comentários na publicação do Twitter apontam para o fato de que as imagens aconteceram em Campinas, e não na residência de Lula. Diante da informação, uma busca com as palavras-chaves “Lula”, “Manifestação” e “Campinas”, levou a notícias (O Globo, Folha de S.Paulo, Band e Hora Campinas) que repercutem o protesto e exibem o mesmo vídeo compartilhado nas postagens enganosas. As reportagens afirmam que o episódio ocorreu no dia 5 de maio.

As notícias afirmam que, na ocasião do protesto, Lula deixava a casa do cientista brasileiro Rogério Cézar de Cerqueira Leite, onde esteve antes de seguir para um evento de sua agenda oficial na Unicamp.

Casa de Lula

O conteúdo investigado aqui traz a seguinte legenda: “Moradores do condomínio de luxo aonde Lula foi morar estão querendo expulsá-lo de lá!”. Como mostrado anteriormente, o político não mora no local exibido no vídeo.

Lula se mudou em dezembro de 2021 de seu apartamento em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, para uma casa no bairro de Alto de Pinheiros, na Zona Oeste da capital paulista, como publicou a revista Veja.

O imóvel, de cerca de 700 metros quadrados, tem quatro suítes, oito banheiros, piscina e sala de ginástica. Ainda de acordo com a Veja, “no ano passado, uma imobiliária oferecia a casa por exatos R$ 20,5 mil de aluguel por mês” e, “caso o interessado quisesse comprar o imóvel, o valor de venda era de R$ 5 milhões”.

Outra reportagem da Veja mostra que até 30 de maio, quando foi publicada, não havia ocorrido nenhum protesto no novo endereço do pré-candidato. A discussão causada por sua chegada foi em relação a um “projeto que atende a uma demanda antiga dos residentes e que visa restringir o acesso de carros às ruas da região, com a instalação de cancelas e portarias”.

Outras reportagens também afirmam ser na Zona Oeste da capital paulista a nova casa de Lula (Metrópoles, UOL, Terra).

Pesquisas de intenção de voto

O tuíte aqui investigado, ao escrever “Esse é o líder das pesquisas!!”, questiona a credibilidade das pesquisas de intenção de voto. Diversos seguidores fazem comentários desqualificando o trabalho de institutos como Datafolha, que mostram o petista em primeiro lugar na disputa presidencial, com Jair Bolsonaro em segundo.

“Vê-se a tranquilidade do líder das pesquisas! Não acredito em nenhuma”, escreve uma seguidora. “Grande líder de pesquisa em Datafolha”, digita outro.

O episódio, no entanto, não é suficiente para configurar uma amostra de baixa popularidade de Lula na sociedade brasileira. Como o Comprova mostrou recentemente, as pesquisas eleitorais utilizam métodos científicos para apurar a realidade do momento junto a segmentos que possam ser representativos do eleitorado brasileiro de uma forma geral.

Além disso, se Lula foi atacado por manifestantes na saída do condomínio Alto das Palmeiras, em Campinas, em 5 de maio, no fim daquele mesmo dia ele “foi recebido por uma grande quantidade de pessoas” na Unicamp, como afirma reportagem de O Globo:

“Parte dos estudantes não conseguiu entrar no anfiteatro, onde o petista discursou e precisou acompanhar a fala do ex-presidente por telões do lado de fora”.

No último levantamento realizado pelo instituto do Grupo Folha, publicado em 26 de maio, Lula aparece 21 pontos à frente do atual presidente no primeiro turno. No segundo turno, o petista aparece com 58% das intenções de voto e, Bolsonaro, com 33%.

As críticas aos institutos de pesquisas seguem a linha de Bolsonaro, que já chamou de “canalhice” dados do Datafolha sobre a intenção de votos dos eleitores evangélicos.

 

 

 

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições que viralizaram. Informações enganosas acerca de Lula, pré-candidato à Presidência da República, prejudicam a decisão de eleitores durante as votações, atrapalhando o processo democrático. Além disso, pesquisas eleitorais são ferramentas essenciais para a análise do contexto político do país. A tentativa de descredibilizá-las diminui a confiança das pessoas sobre os institutos de pesquisa, atrapalha a percepção da realidade e influencia o voto de forma equivocada.

Outras checagens sobre o tema:

O AFP Checamos também verificou a postagem e a definiu como falsa.

Recentemente, o Comprova mostrou que post engana ao omitir que protesto contra Lula em Bagé (RS) é de 2018; que vídeo antigo engana ao afirmar que Lula e Alckmin foram hostilizados em Porto Alegre e que publicação mostra imagens de imóvel de luxo no Ceará como sendo residência alugada por Lula em São Paulo.

 

 

Eleições

Investigado por: 2022-06-21

Post mente ao afirmar que Anitta foi vaiada após críticas a Bolsonaro

  • Falso
Falso
É falso o conteúdo de um vídeo que circula no TikTok e no WhatsApp afirmando que a cantora Anitta foi vaiada após gritar “fora Bolsonaro” e falar “que Bolsonaro não seria reeleito” durante um show. O vídeo mostra ainda que o público reagiu jogando objetos no palco. Na verdade, a cantora que aparece nas imagens é a franco-espanhola La Zowi, que discutiu com a plateia durante uma apresentação na Europa.

Conteúdo investigado: Um vídeo que circula no TikTok e no WhatsApp diz que durante um show a cantora Anitta “foi gritar fora Bolsonaro” e falar “que Bolsonaro não seria reeleito”, o que gerou uma reação negativa do público, que jogou objetos contra ela no palco. O conteúdo insinua que o episódio ocorreu em Goiás.

Onde foi publicado: TikTok e WhatsApp.

Conclusão do Comprova: É falso o vídeo que circula em redes sociais mostrando uma cantora irritada após ser xingada e ser alvo de objetos jogados no palco. O conteúdo afirma que a artista é a brasileira Anitta e que teria sido alvo da irritação do público por ter falado mal do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Levantamento do Comprova mostra que o vídeo foi gravado em maio deste ano, na Espanha, durante apresentação da cantora La Zowi, que se desentendeu com a plateia. A artista xingou o público e, em seguida, atirou um objeto contra os participantes de um festival. Em noticiários espanhóis do período é possível visualizar o vídeo original, bem como informações sobre o evento. Não há relação com Anitta ou com a política no Brasil.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 21 de junho, a postagem falsa teve quase 36 mil curtidas no TikTok e foi compartilhada mais de 6,1 mil vezes.

O que diz o autor da publicação: Como a plataforma do TikTok restringe o contato por mensagem direta apenas entre pessoas que se seguem, a interação com o autor do conteúdo foi feita via Instagram. O Comprova não obteve um retorno até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: A partir de buscas por meio do Google, o Comprova teve acesso a conteúdos de sites com descrições sobre o vídeo da cantora La Zowi. A pesquisa também possibilitou acesso a notícias e vídeos do período em que o show foi realizado.

A apresentação de La Zowi

Alguns sites espanhóis noticiaram a performance de La Zowi. O portal Ideal destacou o problema ocorrido entre a cantora e o público. O site chegou a descrever o que a artista teria falado antes de “agredir” o público com um pedestal.

“Isqueiros, canetas…, já faço [show] há alguns anos e nunca me aconteceu. Não sei quem deixa entrar, não sei que tipo de animal [quem atirou objetos]…”, divulgou o site.

O Ideal citou ainda que as reações nas redes sociais foram imediatas e a maioria criticou quem lançou os objetos contra a cantora.

“Os artistas vêm à cidade e quatro imbecis matam a chance de termos um festival de referência. La Zowi, nós te amamos e sentimos muito”, diz trecho de perfil publicado na reportagem.

O perfil no Facebook Jaén Noticias também publicou informação sobre o episódio. Na postagem, um vídeo de outro ângulo mostra o momento em que a artista discute com a plateia e depois atira o equipamento musical.

Os comentários de seguidores se dividem entre críticas e elogios à cantora.

“Mas que pouca civilidade. Se você não gostar vai embora, ponto final. Mas respeite a garota e também respeite as pessoas que querem vê-la”, diz um comentário.

“Não se justifica o que fizeram, mas a garota desceu ao mesmo nível que eles [jogando o pedestal]”, interagiu outra seguidora.

Post TikTok

A publicação falsa foi feita a partir de um vídeo que mostra a cantora espanhola Zoe Jeannau Canto, conhecida pelo nome artístico de La Zowi, se apresentando em um show no dia 13 de maio de 2022, no Auditório de La Alameda, no município de Jaén, na Espanha. Em determinado momento, espectadores começaram a atirar objetos na direção da artista. A motivação não foi identificada pelo Comprova, e os comentários da postagem original sugerem que quem estava presente no evento também não conseguiu contextualizar os ataques.

Em resposta, ainda no palco, a cantora espanhola disse que algumas pessoas haviam jogado canetas e isqueiros, e que esse tipo de episódio nunca havia acontecido em sua carreira. Incomodada com a situação, La Zowi pega o que parece ser um pedestal para microfone e o atira no público. Logo em seguida, interrompe a sua apresentação e deixa o palco. A performance fazia parte da programação do festival Primavera Jaén, cuja proposta musical era levar atrações ao público jovem da cidade espanhola entre março e julho deste ano.

| Foto: Twitter/@koumntbf – Imagem de outro ângulo mostra La Zowi jogando pedestal no público

As críticas de Anitta a Bolsonaro

Ainda no período de campanha eleitoral em 2018, a cantora Anitta começou a ser cobrada pelos seus fãs para que se posicionasse em relação aos candidatos à presidência da República naquele ano, sobretudo em relação a Jair Bolsonaro.

Em setembro de 2020, em entrevista ao jornal O Globo, Anitta disse que não se posicionou politicamente quando foi cobrada pelos seus fãs porque “não iria dar voz a algo que não entendia”. Alguns meses antes dessa entrevista, em julho, a artista já havia criticado a maneira de Bolsonaro lidar com a pandemia de covid-19.

Novos embates aconteceram em diversos momentos de 2021. Em abril do ano passado, a cantora compartilhou no Twitter um vídeo que pedia que o presidente americano, Joe Biden, não fizesse um acordo climático com o líder brasileiro. O pedido de Anitta estava alinhado a uma carta assinada por cerca de 200 entidades brasileiras que argumentaram que a política de Bolsonaro “desmontou órgãos de fiscalização, promoveu o enfraquecimento da legislação e incentivou invasões de territórios indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e áreas protegidas”. Além da questão ambiental, a cantora já criticou Bolsonaro pelo número de mortos no Brasil devido à covid-19 e também pelo aumento de preços de bens e serviços.

Em 3 de maio de 2022, Anitta postou no Twitter que teve uma conversa com o ator americano Leonardo DiCaprio “sobre a importância dos jovens tirarem seu título de eleitor”. No mesmo tuíte, ela escreveu: “Vocês sabiam que ele sabe mais sobre a importância da nossa floresta amazônica do que o presidente do Brasil?”. Isso fez com que Bolsonaro respondesse às críticas da cantora com uma série de tuítes.

Em entrevista à revista americana Interview Magazine, em 27 de maio, Anitta disse: “Eu só quero garantir que eu chamo a atenção para as coisas importantes. Então, se eu precisar brigar com o presidente, eu vou brigar“. Morando em Miami, nos Estados Unidos, desde 2021, a cantora expressou na mesma entrevista que colocou a sua vida em risco ao se posicionar politicamente: “Fui ao Brasil esta semana e não avisei às pessoas que estava lá por causa de algumas ameaças que estava recebendo”.

La Zowi

A cantora La Zowi tem como nome de batismo Zoe Jeanneau Canto. Ela nasceu em 1993 na França, em Paris, mas cresceu em Granada, na Espanha.

La Zowi é filha de artistas. A mãe é poetisa, e o pai, Patrice Jean Marcel Jeanneau, um guitarrista de flamenco conhecido como El Yerbita.

O gênero musical de La Zowi é o trap. Trata-se de um subgênero do rap que surgiu nos anos 2000.

| Foto: Instagram/ @lazowi – Cantora La Zowi

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos sobre pandemia, eleições e políticas públicas que atinjam grau de viralização nas redes sociais. Com a proximidade das eleições presidenciais, cresce o número de conteúdos enganosos nas redes sociais para tentar favorecer determinado candidato. Informações desse tipo também prejudicam o contexto dos fatos e criam mentiras a respeito de pessoas públicas, o que tumultua o processo eleitoral.

Outras checagens sobre o tema: Em outras verificações, o Comprova já mostrou que Zeca Pagodinho não recebeu milhões de reais pela Lei Rouanet por musical e que vídeo de protesto contra Lula em show de Marina Sena é falso.

Eleições

Investigado por: 2022-06-15

Vídeo faz alegações enganosas para colocar em dúvida credibilidade de pesquisas eleitorais

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa uma publicação no Facebook e YouTube que reúne trechos de dois vídeos para defender a tese de que as pesquisas eleitorais não são confiáveis. Entre as alegações, o autor considera que o tamanho da amostragem - número de eleitores entrevistados - é pequeno para representar a opinião da população. O Comprova já explicou que a pesquisa é feita com uma amostra cientificamente calculada da população, a fim de retratar o grupo como um todo e eliminar vieses.

Conteúdo investigado: Vídeo em que autor reúne duas gravações para levantar suspeitas sobre a credibilidade das pesquisas eleitorais. No primeiro, ele mostra imagens de uma consulta feita em 2018, em frente a um presídio, e, no segundo, gravação feita em abril de 2022, de uma mulher que, segundo a postagem, teria se recusado a continuar a pesquisa quando o entrevistado manifestou apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL).

Onde foi publicado: YouTube e Facebook. Na plataforma de vídeo, ficou indisponível após o início da verificação.

Conclusão do Comprova: É enganoso o vídeo em que o autor reúne duas gravações para levantar suspeitas sobre a credibilidade das pesquisas eleitorais. Durante a exibição das imagens, ele faz comentários que sugerem manipulação de dados e de entrevistas para favorecer candidatos do PT em detrimento de Bolsonaro.

O autor do vídeo aqui investigado faz inferências sobre o método utilizado pelos institutos oficiais de pesquisa, sugerindo vieses, e questiona o tamanho das amostras da população nos levantamentos realizados.

No início deste ano, em um Comprova Explica, especialistas esclareceram que a pesquisa é feita com uma amostra cientificamente calculada da população, a fim de representar o grupo como um todo e eliminar vieses. Para montar essa amostra, diferentemente do apontado pelo autor do vídeo, é considerada uma série de critérios para aproximar o grupo de entrevistados da composição real da população, tais como raça, gênero, escolaridade e ocupação.

As consultas ao eleitorado registram um recorte do momento em que as entrevistas foram feitas. É o que justifica o fato de Fernando Haddad ter aparecido em primeiro lugar em algumas pesquisas de 2018, e não que houve má condução das entrevistas como insinuado pelo autor do vídeo. Os últimos levantamentos feitos antes do segundo turno, porém, apontaram a vitória de Jair Bolsonaro.

Além disso, segundo a legislação brasileira, todas as pesquisas eleitorais devem ser registradas na Justiça Eleitoral, com detalhes sobre o método científico empregado, o plano de amostragem, os dados do profissional responsável, questionário completo a ser aplicado, entre outros. Essas informações estão disponíveis para consulta no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 13 de junho, o vídeo teve mais de 80 mil visualizações e 20 mil curtidas no YouTube. Após o contato do Comprova, no entanto, o conteúdo foi removido da plataforma. Já no Facebook, o vídeo alcançou 85 mil visualizações, 9,8 mil curtidas e 897 comentários até o dia 15 de junho.

O que diz o autor da publicação: Olimpio Araujo Junior mantém um canal no YouTube com 625 mil inscritos descrito como “conservador de direita focado em notícias sobre política, economia e atualidades” e que mostraria “a verdade que a mídia e as instituições de ensino não mostram”.

Procurado por e-mail, Olimpio Araujo afirmou que o vídeo é opinativo e que apenas fez uma “análise” da metodologia dos institutos de pesquisa. Na mensagem ao Comprova, ele reafirma suas opiniões sobre a credibilidade das pesquisas.

Como verificamos: Para fazer esta checagem, o Comprova consultou materiais explicativos disponíveis no site do TSE a respeito das pesquisas eleitorais de 2022 e do processo de auditoria das eleições.

Além disso, foram feitas pesquisas com base em reportagens jornalísticas de veículos profissionais (BBC News Brasil, Folha de S.Paulo, Agência Brasil e G1) e verificações realizadas pelo Comprova e outras agências sobre o tema.

Por fim, a equipe procurou o TSE para esclarecer como funcionam a amostragem e a auditoria das pesquisas eleitorais.

Pesquisas eleitorais são retratos do momento

As pesquisas eleitorais são ferramentas de opinião pública utilizadas por institutos ou entidades para verificar a preferência do eleitorado nos meses que antecedem um pleito. De acordo com o TSE, os estudos utilizam métodos científicos para “apurar a realidade do momento junto a segmentos representativos do eleitorado”.

Isso significa que, na semana em que a pesquisa foi realizada, por exemplo, pode ser que as pessoas estivessem mais propensas a votar em um determinado candidato. Na semana seguinte, a intenção de voto pode ter mudado dependendo da campanha eleitoral, debates, notícias, postagens em redes sociais, entre outros fatores, conforme apontou o G1.

Em entrevista à Agência Brasil, a diretora-executiva do Ipec (ex-Ibope Inteligência), Marcia Cavallari, explicou que “o objetivo de uma pesquisa eleitoral não é o de antecipar os resultados da eleição, mas sim o de mostrar o cenário no momento em que foi realizada.”

Segundo Cavallari, “a pesquisa é uma fotografia do momento e não tem o poder e nem a intenção de prever o resultado de uma eleição. Por isso, seus resultados não podem ser usados para prever o resultado das urnas.”

Mesmo assim, nas mais recentes eleições presidenciais no Brasil, os principais institutos de pesquisa chegaram perto do resultado das urnas, como já mostrou o Comprova em duas ocasiões (1 e 2). Na última pesquisa publicada em 2018, o Ibope apontava que Jair Bolsonaro teria 36% dos votos; Fernando Haddad, 22%; Ciro Gomes, 11%; e Geraldo Alckmin, 7%. Já o instituto Datafolha apontava os mesmos números para Bolsonaro, Haddad e Alckmin, mudando apenas as intenções de voto de Ciro Gomes para 13%. Depois de fechadas as urnas do primeiro turno, Bolsonaro teve 46% dos votos válidos; Fernando Haddad, 29%; Ciro Gomes, 12%; e Geraldo Alckmin, 4%.

No segundo turno, a última pesquisa divulgada pelo Ibope apontava 54% de intenções de voto para Bolsonaro e 46% para Haddad. Já o Datafolha mostrava 55% para Bolsonaro e 45% para Haddad. No resultado final, Bolsonaro teve 55% dos votos válidos e Haddad, 44%.

Um levantamento do site Jota reuniu dados de todas as eleições para governador e presidente no Brasil realizadas entre 1998 e 2018 e das pesquisas divulgadas pelo Datafolha, Ibope, Vox Populi e Sensus para avaliar a influência do tempo que separa a realização da consulta e o dia da eleição. A conclusão foi a de que pesquisas feitas mais próximas das eleições têm maior grau de acerto dos resultados. As pesquisas realizadas até 80 dias antes da eleição variaram 9 pontos percentuais do resultado real. Depois de 80 dias, esse número caiu progressivamente até 5 pontos percentuais, nos últimos dias antes da eleição.

Amostragem

A amostra é o grupo de entrevistados em uma pesquisa de opinião. A ideia é escolher um número limitado de pessoas, cujas características sejam parecidas com a do grupo maior que se queira pesquisar.

Para que essa amostra seja representativa, os institutos de pesquisa seguem critérios do perfil da população (escolaridade, gênero, idade, renda familiar, profissão, etc), seja do país ou apenas de um município, por exemplo. Isso permite a realização de uma análise que considere a proporção dessas diferentes variáveis na composição da população.

Esses critérios são variados e podem diferir de acordo com o método do levantamento, que pode ser quantitativo (quando o objetivo é coletar dados e apontar preferências eleitorais) ou qualitativo (quando há intenção de compreender fenômenos e motivações individuais que não são mensuráveis).

“[A amostragem é feita] a partir de técnicas que vêm da análise estatística, da probabilística, que garantem que aquele número de eleitores entrevistados é capaz de dar uma representação relativamente fiel, dentro de uma margem de erro e um índice de confiança, da opinião da população como um todo”, disse ao Comprova, em março, o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop-Unicamp), Oswaldo Amaral.

Ele explicou que as pesquisas eleitorais entrevistam um grupo reduzido, porém representativo, para inferir a opinião de milhões. Por exemplo, os dados mais recentes do TSE, de maio de 2022, mostram que 52,8% dos 152,3 milhões de eleitores brasileiros são mulheres. Isso significa, portanto, que uma amostra de 2 mil eleitores deverá ter 52,8% de mulheres (1.056 eleitoras).

Pelo site do TSE, o público pode conferir o relatório das pesquisas para avaliar se a amostragem usada pelos institutos foi bem construída, “para avaliar se as pesquisas foram construídas sem defeitos amostrais que possam enviesar os resultados”, conforme Amaral.

Dados de pesquisa são registrados pela Justiça Eleitoral

Ao contrário do que é difundido por grupos que questionam a credibilidade de pesquisas de institutos profissionais, a legislação eleitoral permite a verificação de dados referentes às consultas feitas com a população.

No artigo 33 da Lei 9.504/1997 está expresso que as entidades e empresas que realizarem pesquisas de opinião pública relativas às eleições ou aos candidatos, para conhecimento público, são obrigadas, para cada pesquisa, a registrar, junto à Justiça Eleitoral, até cinco dias antes da divulgação, as seguintes informações:

 

  • quem contratou a pesquisa;
  • valor e origem dos recursos despendidos no trabalho;
  • metodologia e período de realização da pesquisa;
  • plano amostral e ponderação quanto a sexo, idade, grau de instrução, nível econômico e área física de realização do trabalho a ser executado, intervalo de confiança e margem de erro;
  • sistema interno de controle e verificação, conferência e fiscalização da coleta de dados e do trabalho de campo;
  • questionário completo aplicado ou a ser aplicado;
  • nome de quem pagou pela realização do trabalho e cópia da respectiva nota fiscal.

Além disso, segundo o TSE, entre essas informações necessárias para o registro está o nome do profissional de Estatística responsável pela pesquisa, acompanhado de assinatura com certificação digital e o número do registro no Conselho Regional de Estatísticas competente.

O mesmo dispositivo legal diz ainda que as informações relativas às pesquisas serão registradas nos órgãos da Justiça Eleitoral aos quais compete fazer o registro dos candidatos, e que a divulgação de pesquisa sem o prévio registro de todas essas informações sujeita os responsáveis ao pagamento de multa.

Além disso, a legislação ressalta que a divulgação de pesquisa fraudulenta é crime, que pode ser punida com prisão e também multa. A divulgação de pesquisa sem o prévio registro das informações previstas no normativo sujeita as pessoas responsáveis à multa que varia de R$ 53.205 a R$ 106.410.

O artigo 34 prevê, ainda, que mediante requerimento à Justiça Eleitoral, os partidos poderão ter acesso ao sistema interno de controle, verificação e fiscalização da coleta de dados das entidades que divulgaram pesquisas de opinião relativas às eleições, incluídos os referentes à identificação dos entrevistadores e, por meio de escolha livre e aleatória de planilhas individuais, mapas ou equivalentes, confrontar e conferir os dados publicados, preservada a identidade dos respondentes.

Até o dia 9 de junho, o portal do TSE contabilizava 660 pesquisas eleitorais relativas às eleições gerais de 2022. Desse total, mais de 170 se referem aos cargos de presidente e vice-presidente da República.

Vídeos compartilhados na postagem

No conteúdo aqui investigado, o autor divulga trechos de dois vídeos. O primeiro, registrado em 2018, mostra uma pesquisadora conversando com uma mulher diante de um presídio na cidade de Corumbaíba, em Goiás. É apenas uma parte do que circulou naquele ano, quando um agente de segurança aborda a entrevistadora, dizendo que ela não poderia estar naquele lugar para fazer seu trabalho. Na ocasião, a profissional cancelou a entrevista e, segundo o Datafolha, o procedimento foi correto, porque todos são orientados a encerrar as perguntas se, porventura, forem filmados, o que não é permitido.

O caso foi noticiado pela Folha, que confirmou que o vídeo é verdadeiro, mas esclareceu que a região também tem supermercados, igrejas, agências bancárias e um hospital, com grande circulação de pessoas, apresentando-se como local ideal para esse tipo de entrevista.

No segundo vídeo, de abril deste ano, o enfoque é na entrevistadora do instituto Quaest, que trabalhava em Nova Porteirinha, Minas Gerais. O homem que faz a gravação a interpela diversas vezes, dizendo que ela teria que ser imparcial ao fazer as perguntas para o entrevistado, que não é a mesma pessoa que faz a filmagem.

Ela tenta se justificar, afirmando que só havia abordado o homem perguntando se ele poderia dar entrevista, porém o autor da filmagem é incisivo ao dizer que ela havia parado as perguntas porque o candidato à entrevista havia declarado voto em Bolsonaro e, ela, teria mostrado posicionamento pessoal diferente.

O vídeo não mostra o que alega o autor da filmagem, mas, sim, a entrevistadora tentando argumentar, perguntando se era ele quem havia sido entrevistado e, por fim, tentando retomar o trabalho. Com a divulgação das imagens, o instituto Quaest emitiu nota de esclarecimento no dia 2 de abril, apontando que a entrevistadora não atuou conforme as normas de neutralidade orientadas pela empresa e que ela foi desligada. Além disso, as entrevistas realizadas pela pesquisadora seriam refeitas.

Por que investigamos: O Comprova verifica conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas e as eleições presidenciais deste ano. Conteúdos enganosos sobre pesquisas eleitorais podem prejudicar o processo democrático uma vez que confundem a população na tentativa de descredibilizar as amostras. É importante, portanto, que os eleitores tenham acesso a informações verídicas sobre as pesquisas, que seguem um método científico e buscam eliminar possíveis distorções e vieses.

Outras checagens sobre o tema: Em abril deste ano, o Estadão Verifica checou outra peça de desinformação que também utiliza os vídeos apresentados no conteúdo verificado pelo Comprova e concluiu que as alegações da peça eram enganosas.

Anteriormente, o Comprova já mostrou que pesquisas eleitorais seguem métodos científicos, ao contrário de enquetes, que nenhuma pesquisa eleitoral aponta 70% de votos para Bolsonaro, que áudio sobre fraudes em pesquisas é de comediante, não de ex-diretor do Datafolha e que vídeo engana ao dizer que pesquisas foram forjadas na eleição de Bolsonaro em 2018.

 

Pandemia

Investigado por: 2022-06-14

Não é verdade que vacina da covid fez ‘explodir’ doenças cardíacas em crianças

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a postagem que repercute a capa de um jornal impresso irlandês na qual a manchete afirma, de forma equivocada, que doenças cardíacas em crianças têm explodido desde o início da vacinação contra a covid. O conteúdo do impresso atribui ao Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) e ao Escritório Nacional de Estatísticas Britânico supostos dados de mortes e sequelas em crianças pós-imunização. Mas nenhuma das instituições reconhece as informações como verdadeiras. O órgão britânico alerta ainda que o jornal faz uma “interpretação enganosa dos dados”.  

Conteúdo investigado: Imagem da capa de um jornal irlandês impresso na qual a manchete traduzida afirma que doenças cardíacas em crianças têm explodido desde a vacinação contra a covid.

Onde foi publicado: Twitter.

Conclusão do Comprova: É enganoso um post no Twitter que reproduz a imagem da capa de um jornal impresso irlandês, na qual a manchete traduzida afirma que “doença cardíaca em crianças explode desde a vacina”. A capa é a 11ª edição do jornal que tem publicado conteúdo antivacina. 

A manchete investigada atribui ao Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos e ao Escritório Nacional de Estatísticas Britânico supostos dados sobre mortes e sequelas em crianças pós-vacinação da covid. Contudo, nenhuma das instituições reconhece as informações publicadas no texto como verdadeiras. 

Ambas as instituições têm monitorado e divulgado pesquisas e dados sobre o assunto, mas nenhuma delas identificou a disparada de óbitos ou efeitos graves em crianças por conta da vacinação da covid. O órgão britânico alerta, inclusive, que o jornal faz uma “interpretação enganosa dos dados”. Já o centro norte-americano, dentre outras informações, ressalta que as vacinas da covid “estão passando pelo monitoramento de segurança mais intenso da história dos Estados Unidos”. 

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação : O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 13 de junho, o post verificado teve mais de 7 mil interações no Twitter.

O que diz o autor da publicação: Entramos em contato com a autora da postagem identificada como Karina Michelin via Instagram e também pela aba de contato do site que consta no perfil dela no Twitter. Mas até a publicação da checagem, não houve retorno. 

Como verificamos: Inicialmente, o Comprova procurou o site do jornal irlandês para confirmar a existência do veículo e se a capa que consta na imagem realmente corresponde à publicação original. 

A equipe do Comprova também manteve contato, por e-mail, com o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos e o Instituto Nacional de Estatísticas Britânico para conferir a veracidade dos dados divulgados que foram atribuídos às duas instituições. 

A reportagem ainda buscou informações junto à Pfizer no Brasil e consultou publicações anteriores do Comprova com verificações sobre a vacina da farmacêutica. 

Também ouviu Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), e Renato Kfouri, presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), sobre os efeitos adversos da vacina em crianças. O mesmo tema foi abordado com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que ainda foi questionada sobre a autorização concedida no país para imunização contra a covid-19.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de junho de 2022.

 

Jornal irlândes e publicações antivacina

Em tradução livre, o nome do jornal The Irish Light, na qual a foto da capa circula no Twitter, é “A Luz Irlandesa”. O jornal impresso é distribuído de forma independente na Irlanda e publicado, segundo o próprio site, em conjunto com o The Light Paper no Reino Unido. Em maio de 2022, o Comprova também checou uma publicação do jornal inglês que atacava a segurança das vacinas da Pfizer. O conteúdo foi classificado como enganoso. A mesma publicação consta em uma das capas do The Irish Light da Irlanda. 

No site, o jornal da Irlanda disponibiliza para consulta as capas de 11 edições. Mas o Comprova verificou que a da publicação sobre a vacinação em crianças (11ª edição), publicada no site (imagem à direita), não é idêntica à imagem que circula no Twitter (imagem à esquerda).

No entanto, a chamada da capa tem teor praticamente igual, com dois pequenos destaques: a capa publicada no site especifica “vacinas da Covid” e menciona “após a vacina”; já aquela que a imagem circula no Twitter consta “vacina” e “desde a vacina”. Além disso, os layouts das capas são distintos. Mas os textos das matérias, nos dois casos, são os mesmos. 

Também não constam os textos – em formato digital e por escrito – das edições impressas. Há  somente  imagens das capas. Das 11 edições publicadas, em seis a chamada e o conteúdo da capa são antivacina.  

Órgão norte americano desmente dados

No texto da imagem investigada, cujo título em tradução livre é “Doença cardíaca em crianças explode desde a vacina”, o jornal afirma que “dados oficiais publicados pelo Centro de Controle de Doenças dos EUA revelaram que 106 crianças morreram após a vacinação”. O CDC é um órgão de saúde do governo dos Estados Unidos. 

O Comprova consultou o CDC que, por e-mail, informou que “até o momento, o CDC não observou nenhum relato de morte após a vacinação com mRNA Covid-19 em que o curso clínico ou os achados da autópsia fornecem evidências claras de que a morte pode ser atribuída à miocardite associada à vacina mRNA Covid-19”. Logo, o dado utilizado na matéria não procede. 

A matéria diz ainda que em “22 de abril de 2022, houve 48.033 reações adversas às injeções de covid-19 em crianças, das quais 12.548 foram consideradas graves, resultando em hospitalização, invalidez permanente ou morte. Infelizmente, 106 crianças perderam a vida”.

Ao ser questionado, o CDC informou que, em 2 de junho de 2022, havia 997 relatórios não verificados registrados no Vaccine Adverse Event Reporting System (VAERS), em tradução livre, “Sistema de Relatório de Eventos Adversos de Vacinas” de casos potenciais de miocardite e pericardite entre pessoas com menos de 18 anos. Destes, 259 estão em análise no momento. 

Já outros 647 relatórios foram verificados por meio da confirmação de sintomas e diagnósticos por entrevista com o provedor ou revisão de registros médicos, para atender à definição de caso de trabalho do CDC para miocardite. Assim, as contagens de relatos verificados de miocardite por faixa etária foram as seguintes: 


  • 5 -11 anos: 21 relatos verificados de miocardite após 18.905.428 doses administradas;
  • 12-15 anos: 337 relatos verificados de miocardite após 23.502.803 doses administradas;
  • 16-17 anos: 289 relatos verificados de miocardite após 12.796.521 doses administradas;

É importante reiterar que os dados são até o dia 2 de junho. O CDC informa ainda que qualquer pessoa pode consultar os dados sobre Eventos Adversos Selecionados Relatados pós-vacinação covid no site disponibilizado pelo órgão. Outro destaque, segundo o CDC, é que as vacinas contra a covid estão passando pelo monitoramento de segurança mais intenso da história dos Estados Unidos.

A instituição afirma ainda que houve relatos raros de morte para o Sistema de Notificação de Eventos Adversos da Vacina em pessoas que desenvolveram miocardite após a vacinação da covid com mRNA, e o CDC analisa esses relatórios da seguinte forma: tenta fazer o acompanhamento para obter registros médicos ou confirmar informações com profissionais de saúde ou departamentos de saúde. 

Escritório Britânico alerta para interpretação enganosa

A matéria investigada também menciona que “o Escritório Britânico de Estatísticas revelou que as crianças têm até 52 vezes mais chances de morrer após a vacina do que aquelas que não a tomaram”. A informação foi repassada pelo Comprova à instituição, via e-mail, bem como o link da publicação. Em resposta, a entidade britânica ressaltou que “essa interpretação dos dados é altamente enganosa”.

O Escritório explicou que “as taxas de mortalidade devem ser interpretadas com cuidado para crianças devido à forma como as crianças em risco foram priorizadas no lançamento da vacina”. 

Outro ponto, diz a instituição, é que “relativamente poucas crianças teriam sido vacinadas triplamente no momento do nosso último estudo (o Escritório disponibilizou o link) e algumas dessas categorias de idade têm relativamente poucas mortes, então as taxas variam consideravelmente”.

O Escritório também indicou um artigo publicado pela instituição em março de 2022 sobre vacinação e mortalidade envolvendo jovens. Dentre os pontos principais destacados, constam: 

  • Atualmente, não há evidências de mudança no número de mortes relacionadas a doenças cardíacas ou mortes ocorridas por qualquer causa após a vacinação contra o coronavírus em jovens de 12 a 29 anos na Inglaterra;
  • Mais mortes foram registradas em jovens de 15 a 29 anos na Inglaterra em 2021 do que o número médio registrado em 2015 a 2019; mas, não houve excesso em 2021 para óbitos por doenças do aparelho circulatório;
  • Ainda não temos um quadro completo de como a pandemia de coronavírus afetou o número de óbitos entre jovens, porque leva muito tempo para investigar as mortes por causas externas. 

Eventos adversos 

No texto há também a afirmação que a Pfizer teria divulgado um documento listando mais de nove páginas de mais de 1.200 eventos adversos de interesse especial. Esta informação tem sido motivo de diferentes checagens no Brasil desde 2021. No Comprova, a informação foi esclarecida em uma verificação sobre vacinas da Pfizer de dezembro de 2021 e outra de maio de 2022

O conteúdo do jornal irlândes não menciona um documento específico.

A verificação do Comprova em 2021 diz que o documento da Pfizer é um pedido de licença biológica enviado à Agência de Medicamentos e Alimentos dos Estados Unidos (FDA, sigla em inglês). Este documento tem 38 páginas, das quais nove (16 a 25) tratam, em tradução livre, sobre a “Revisão de Eventos Adversos de Interesse Especial”, cuja sigla é EAIE, em português, e AESIs, em inglês. 

Além disso, da página 30 a 38 há um apêndice com uma lista dos chamados EAIE. Esses eventos são aqueles pré-especificados clinicamente significativos que podem ser causados por uma vacina. Logo, a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que eles devem ser monitorados de perto e, em caso de suspeita, precisam de estudos especiais adicionais. 

Na pandemia de covid, a OMS, junto com o Grupo Brighton Collaboration (organização sem fins lucrativos com sede na Suíça que agrega especialistas em segurança de vacinas), estabeleceu uma lista de EAIE recomendados para a vigilância ativa de vacinas da covid. No documento da Pfizer, a empresa afirma que leva em consideração, dentre outras listas, a de EAIE da Brighton Collaboration. 

Na prática, a lista Eventos Adversos de Interesse Especial (que consta no documento) é um rol de eventos graves que já ocorrem em outras imunizações; que podem estar atrelados às novas plataformas de vacinas; relacionados à falha da imunogenicidade da vacina (doença intensificada) ou eventos que são potencialmente específicos para populações especiais. 

A lista, na qual consta, dentre outros, arritmia, erupção cutânea, convulsões e insuficiência renal, é uma espécie de panorama sobre os diversos tipos de eventos adversos possíveis. Mas não significa que eles foram constatados na análise da Pfizer ou que todos irão ocorrer na vacinação contra covid, mas, sim, que todos são considerados no monitoramento dos registros da imunização. 

O Fato ou Fake do G1 também checou essa informação, em maio de 2022, e a classificou como fake news. 

Riscos cardiológicos da covid-19 X Vacinação 

O presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Renato Kfouri, alerta que pacientes infectados pelo Sars-Cov-2 têm apresentado várias complicações posteriores ao contágio, na chamada covid longa. Adultos com infarto agudo do miocárdio e arritmias, crianças com miocardite (inflamação do músculo cardíaco) e também arritmias são vistos, segundo ele, com alguma frequência. 

Em relação ao efeito adverso da vacina, Kfouri afirma que não há risco cardiológico que não seja a miocardite, um evento associado à vacina de RNA mensageiro que, no Brasil, é a tecnologia da Cominarty, produzida pela Pfizer. O risco estimado, aponta o pediatra, é de 30 a 50 casos para cada um milhão de doses aplicadas. A incidência é maior em meninos do que em meninas, e os casos são mais frequentes entre adolescentes do que em crianças. 

“Mas o risco da doença covid levar à miocardite é maior que isso. Tanto é que, mesmo conhecendo esse risco atribuído à vacina, o benefício da vacinação, o número de mortes evitadas, de hospitalizações e a própria miocardite evitada é muito superior a esses quadros de miocardite desenvolvidos pós-vacina”, atesta Kfouri, acrescentando que, após a imunização, os poucos quadros registrados foram leves e não houve mortes de crianças relacionadas à vacina. 

O pediatra ressalta que a segurança comprovada do imunizante tem garantido a imunização de crianças e adolescentes contra a covid-19 pelo mundo. “Nenhum país retirou a vacinação com a Pfizer”, observa. 

O presidente da SBIm, Juarez Cunha, reforça que todos os dados disponíveis atualmente demonstram um impacto muito positivo na utilização das vacinas na faixa etária pediátrica.

“Os dados do Brasil são muito tranquilizadores, tanto para crianças quanto para adolescentes e adultos jovens em relação a eventos adversos mais relacionados a risco cardiológico. A doença covid causa muito mais alterações cardiológicas, inclusive miocardite e pericardite, do que os raríssimos eventos adversos pós vacinais. Todas as agências regulatórias mundiais continuam colocando benefício muito superior das vacinas comparado aos raros eventos adversos, quer dizer, aos raros riscos.”

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em nota da assessoria, acrescenta que, desde o início do uso das vacinas contra a covid-19 no país e, particularmente, da aplicação em crianças, os imunizantes têm sido monitorados com rigor pelo sistema de farmacovigilância que envolve, além da agência, o Ministério da Saúde, empresas, profissionais e serviços de saúde. 

“Até o momento, não há alterações no perfil de segurança destas vacinas e não há alterações nas suas indicações para uso nas faixas etárias infantis. A relação benefício-risco mantém-se favorável para todas as vacinas autorizadas pela Anvisa, de acordo com aspectos dos textos de bula de cada imunizante”, ressalta a agência, em sua resposta por e-mail. 

Renato Kfouri lembra ainda que a Sociedade de Pediatria, junto ao Departamento de Cardiologia Pediátrica, emitiu uma nota para tranquilizar os pais de crianças com cardiopatias sobre a imunização, informando que não há contraindicações na imunização desse público.  

“As crianças com doença crônica do coração têm o risco aumentado de desenvolver complicações da covid. Essas precisam ser vacinadas mais do que crianças que não têm nenhuma doença crônica.”

Vacinação de crianças no Brasil 

Atualmente, há duas vacinas autorizadas pela Anvisa para crianças no Brasil: a Cominarty, da Pfizer, com uso indicado para a faixa etária de 5 a 11 anos; e a Coronavac, do Butantan, a partir dos 6 anos. 

O Butantan deseja estender o público atendido, incluindo crianças de 3 a 5 anos, e o pedido está em discussão na Anvisa. Na última quarta-feira (8), houve encontro de representantes do instituto, com a agência e especialistas para mais uma etapa da análise. 

“É importante destacar que, para a avaliação de vacinas para o público infantil, a Anvisa tem contado com a colaboração de especialistas externos das mais importantes sociedades médicas das áreas de pediatria, infectologia e imunização”, afirma a agência.

Em maio deste ano, o Ministério da Saúde divulgou a conclusão de uma investigação sobre 38 mortes de crianças e adolescentes após a vacinação. Nenhuma delas estava ligada ao imunizante.

Vacina em bebês

O Comprova procurou a Pfizer no Brasil para saber se há pedido de autorização da farmacêutica para vacinar bebês e se a solicitação já foi liberada em algum país.

Por meio de nota, Pfizer/BioNTech informaram que no dia 23/05/22 os resultados de estudos apontaram eficácia de 80,3% da vacina em crianças de 6 meses a menos de 5 anos de idade, após 3 doses da vacina ComiRNAty.

Segundo a empresa, a terceira dose foi bem tolerada em 1.678 crianças menores de 5 anos com perfil de segurança semelhante ao placebo. O nível de dose, que é um décimo da dose para adultos, foi selecionado para crianças menores de 5 anos com base na segurança, tolerabilidade e imunogenicidade.

A partir disso e seguindo a ordem cronológica de processos de submissões anteriores, primeiramente, os dados são enviados para a análise das agências internacionais FDA e EMA (agências regulatórias de saúde dos EUA e União Europeia). Na sequência, começaremos às submissões para outras agências regulatórias do mundo, incluindo a ANVISA, no Brasil.

Campanha de desinformação afeta a vacinação 

Juarez Cunha analisa que publicação como a irlandesa, reproduzida no conteúdo aqui investigado, causa impacto significativo à saúde pública, não apenas relacionada à prevenção contra a covid-19. 

Ele diz que as campanhas de desinformação, que não refletem a realidade e visam apenas abalar a confiança das pessoas nas vacinas, contribuem para o reaparecimento de doenças que já tinham sido eliminadas e para o escape daquelas controladas.

 “É o que temos observado no país, em especial neste um ano e meio de uso das vacinas (contra a covid). Os grupos antivacina estão tendo espaço, inclusive em audiências públicas para discutir coberturas vacinais. Esses espaços foram dados, infelizmente, por governantes e pelas nossas instituições como o Ministério da Saúde.”

Juarez Cunha sustenta que, a partir do momento que foi dada voz a esses movimentos contra a imunização, o impacto tem sido negativo em todas as coberturas vacinais, de todas as faixas etárias. 

“O risco é de retorno de doenças eliminadas, como foi o caso do sarampo, que retornou por causa de baixas coberturas vacinais. Há um risco importante da pólio (poliomielite), no momento que continua circulando no mundo e as nossas coberturas nos deixam numa vulnerabilidade muito grande; e todas as outras eliminadas, como a rubéola congênita e tétano neonatal; as controladas, como coqueluche e as meningites. Todas as doenças a gente diminuiu muito a incidência com as vacinas e há o risco de elas retornarem agora”, alerta.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Mais de dois anos após a decretação da pandemia pela OMS, as campanhas de desinformação persistem, agora com foco maior para as vacinas. 

Essa prática é danosa à saúde pública porque, se as pessoas não se imunizam, o controle da covid torna-se mais complexo. Além disso, a desinformação afeta a confiança da população nos imunizantes de maneira geral, contribuindo para o reaparecimento de doenças já eliminadas. 

Outras checagens sobre o tema: Desde o início da pandemia, o Comprova rebate conteúdos falsos e enganosos sobre a covid-19 nas redes sociais. Os imunizantes são, atualmente, o alvo preferencial de desinformação e a equipe já demonstrou que um post usa texto que manipula dados para atacar a segurança das vacinas e que outra postagem tira documentos da Pfizer de contexto para enganar que imunidade natural é suficiente para combater a doença.  

A autora do conteúdo agora checado já foi investigada anteriormente pelo Comprova, também pela criação de postagens antivacina. A reportagem apontou que vídeo compara erroneamente pesquisadores que estudam covid-19; que é falso que órfãos da Polônia são usados em experimentos de vacina da Pfizer e da Moderna; que para atacar vacinas, post mente ao dizer que OMS apontou dano ao sistema imunológico; e que é impossível que vacinas causem alterações genéticas. 

Pandemia

Investigado por: 2022-06-14

Post engana ao relacionar mortes no esporte à vacinação contra a covid-19

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso post que sugere que a vacinação contra a covid-19 aumentou o número de mortes súbitas entre atletas e que já há 673 óbitos após 16 meses do início da aplicação dos imunizantes; os dados apontados pelo post utilizam casos em que não há relação com a vacina, mortes de pessoas que não eram atletas e até de quem não foi vacinado. Para especialistas, casos suspeitos de terem relação com a vacina são muito raros, o que é insuficiente para apontar uma relação de causalidade.

Conteúdo investigado: Post no Twitter que afirma que 673 atletas tiveram morte súbita em 16 meses de vacinação contra o coronavírus, número proporcionalmente superior a todas as mortes deste tipo registradas entre 1966 e 2004.

Onde foi publicado: Twitter e sites de grupos antivacina.

Conclusão do ComprovaÉ enganoso o conteúdo de um tuíte viral que atribui à vacinação contra a covid-19 um suposto aumento no número de casos de mortes súbitas entre atletas. O tuíte, escrito em francês, afirma que 673 atletas morreram num acumulado de 16 meses após o início da vacinação – até abril de 2022 –, enquanto o número total de mortes deste tipo entre atletas, de 1966 até 2004, foi de apenas 1.101 casos no mundo. A fonte dos dados é um post em constante atualização em um site com conteúdo antivacina.

Contrariando a afirmação feita no tuíte, não existe nenhum dado estatístico oficial que aponte que mortes súbitas de atletas foram de fato associadas à vacinação contra a covid-19. Além disso, segundo especialista ouvido pelo Comprova, não é possível comparar casos recentes de morte súbita com um levantamento em um recorte temporal tão amplo, uma vez que a metodologia de coleta dos dados e as formas de notificação mudaram muito nas últimas décadas – sem contar que, no passado, havia uma subnotificação maior do que existe hoje.

O tuíte aqui verificado não cita a fonte dos dados apontados, mas o Comprova localizou os números em um site com conteúdo antivacina. A página lista uma sequência de casos com nome das pessoas, idade, circunstância em que morreram e alguma frase que especula uma relação entre o óbito e a vacinação, como um intervalo de tempo entre a aplicação do imunizante e o mal súbito. Em muitas situações, há links para “notícias” sobre os falecimentos. Contudo, são contabilizados entre os óbitos atribuídos à vacina mortes de pessoas que não foram vacinadas, vítimas de acidentes, pessoas com histórico de doenças cardiovasculares e até algumas que morreram em decorrência de complicações da covid-19.

O Comitê Olímpico Internacional (COI), que adota um protocolo de segurança para casos de morte súbita cardíaca, não possui dados sobre esses eventos em atletas durante a pandemia ou após o início da vacinação, nem a Federação Internacional de Futebol (FIFA). De acordo com a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE), embora haja casos que levantem uma possibilidade de associação entre mal súbito e as vacinas contra o Sars-CoV-2, os casos são “muito raros e insuficientes para sustentar uma suficiente relação de causalidade”.

A fotografia utilizada no post, que mostra um jogador de futebol caído no campo enquanto um profissional tenta reanimá-lo, é antiga e não pode ser associada à pandemia: ela circula pela internet pelo menos desde novembro de 2013 e faz parte de uma peça de publicidade de uma marca de desfibriladores cujo público-alvo são equipes de futebol.

Para o Comprova, enganoso é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: Juntos, o tuíte original, em francês, e o compartilhado, em português, somavam mais de 9 mil interações até o final da manhã de 13 de junho de 2022.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com o site que publicou a lista de casos de morte súbita no esporte supostamente relacionados à vacinação, mas não obteve resposta até a publicação desta checagem.

Como verificamosO primeiro passo foi tentar localizar, por meio de busca reversa de imagens, a fotografia utilizada no post. Ela mostra um jogador caído em um gramado, cercado por outros atletas e sendo atendido por um socorrista. De acordo com registros da ferramenta TinEye, a imagem já circula pela internet desde dezembro de 2013. A mesma fotografia com recorte parecido foi usada em um blog britânico sobre atividade física em 18 de novembro de 2013, ou seja, bem antes da pandemia.

| Reprodução do blog Physical-sports. Imagem capturada em 14 de junho de 2022.

Em seguida, a reportagem buscou por publicações que eventualmente associassem casos de morte súbita entre atletas e vacinas contra a covid-19. Apenas páginas na internet com conteúdo antivacina mostravam listas com nomes, datas e locais dos supostos óbitos. Uma dessas páginas continha exatamente os mesmos dados citados no tuíte. O levantamento foi feito com base na comunicação de casos a partir de postagens e notícias na internet.

O Comprova buscou, então, números oficiais em revistas e grupos científicos e em entidades ligadas ao esporte: a American College of Cardiology (ACC), a Sociedade Brasileira de Cardiologia (Sobrac), a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, a Federação Internacional de Medicina Esportiva (FIMS), o Comitê Olímpico Internacional e a Federação Internacional de Futebol.

Também foram consultadas outras checagens e notícias na imprensa sobre morte súbita de atletas, além de acionados os responsáveis pelos dados utilizados nos tuítes.

Lista atribui à vacina morte de pessoas não imunizadas

Os números compartilhados no Twitter são os mesmos que aparecem em um site que afirma publicar conteúdos sobre ciência, mas que costuma questionar a eficácia, segurança e até a necessidade de se tomar a vacina contra a covid-19. O autor do post atualiza a lista de “casos” mês a mês, desde o início da vacinação. No entanto, não há referências científicas para as ocorrências, que são noticiadas em sites especializados em esportes, na imprensa profissional ou até em redes sociais. Em muitas situações, não há sequer menção ao fato de a pessoa ter recebido a vacina ou de o óbito ser associado a uma reação pelo imunizante.

É o caso, por exemplo, do primeiro atleta listado pelo site, o jogador de futebol brasileiro Alex Apolinário. Ele tinha 24 anos e jogava em Portugal, quando sofreu uma parada cardiorrespiratória em campo no dia 3 de janeiro de 2021 e acabou morrendo num hospital quatro dias depois. Alex não havia sido vacinado ainda, o que automaticamente exclui a possibilidade de o imunizante ter provocado a parada. Outro caso parecido é o da tenista italiana Cloe Giani Giavazzi, de apenas 12 anos, que sofreu um mal súbito em Milão, na Itália, em junho de 2021. Ela também não estava vacinada e a academia de tênis onde ela jogava informou que a associação entre a morte e o imunizante é infundada.

Pelo menos três mortes de atletas por covid-19 foram listadas pelo site como óbitos relacionados à vacina: a do jogador de hóquei russo Vladislav Yegin, que morreu aos 32 anos em maio do ano passado; a do patinador bielorusso Igor Zhelezovski, de 57; e a do jogador de futebol brasileiro Waldir Lucas Pereira, de 39, que morreu em junho de 2021. 

O site também atribui à vacina mortes cuja associação faz pouco ou nenhum sentido. O jogador americano de beisebol Sang Ho Baek morreu aos 20 anos. Ele tinha tomado a vacina, mas foi vítima de complicações durante uma cirurgia no cotovelo. O jogador de handebol macedônio Nikola Danilovski, de 24, morreu afogado enquanto pescava com o pai. Já a piloto de motovelocidade russa Tatiana Igushina, de 31 anos, morreu em um trágico acidente de carro, o mesmo que também vitimou o piloto russo Ivan Kurenbin, 31. Ele também foi listado como uma possível vítima de morte súbita provocada pela vacina.

Há, por fim, casos de pessoas que morreram em decorrência de doenças cardíacas pré-existentes, como foi o caso do jogador americano de futebol Ivan Hicks, 16, que tinha uma doença cardiovascular; do jogador de basquete espanhol Juan Manuel Nuñez Martín, 16, que morreu quando estava internado para tratar de uma doença cardíaca; e do ex-jogador americano de beisebol, Hank Aaron, que tinha 86 anos e morreu de causas naturais.

Há até “não atletas” entre os profissionais listados pelo site: a escocesa Laura Henderson, 42 anos, morreu quando corria num parque com duas amigas. O garoto brasileiro Brian Saes, 15, não era ciclista – ele apenas estava andando de bicicleta quando sofreu uma parada cardíaca em Santa Catarina. A irlandesa Catharine Keane, 31, era publicitária e praticava ginástica – ela morreu durante o sono. 

Casos são muito raros e não há dados que indiquem causalidade

O cardiologista Marcelo Leitão, diretor científico da SBMEE explica que casos de morte súbita, mesmo subnotificados, são raros. Ele também afirma que os registros não aumentaram durante a pandemia, o que desmente a tese de que houve aumento significativo após a vacinação: “Nós não temos nenhum dado estatístico oficial que diga que isso aconteceu de fato”, afirma o especialista, que também assinou uma nota técnica da SBMEE de janeiro de 2022.

Na época, a SBMEE se pronunciou porque o mesmo site que serve de fonte para o tuíte aqui verificado vinha levantando essa suposta relação. A nota dizia que, “embora existam relatos, em publicações científicas, levantando a possibilidade de associação entre morte súbita e vacinas contra a Sars-COV-2, estes são muito raros e insuficientes para sustentar uma consistente relação de causalidade”. A nota também afirma não haver “nenhuma evidência científica mostrando qualquer tipo de elevação no número de casos de morte súbita em atletas, acima dos índices habituais”.

Marcelo Leitão observa que há efeitos adversos nestas e em outras vacinas, contra outras doenças. Quando os malefícios superam os benefícios, vacinas ou medicamentos são retirados de circulação, mas isso não se aplica aos imunizantes contra a covid, afirma. “Pelo menos até o momento, em relação às vacinas de covid, apesar de haver relatos de efeitos secundários com todas elas, os efeitos secundários acontecem em incidências muito baixas e os benefícios da vacinação são absolutamente consistentes, fazendo com que se mantenha a recomendação da vacinação”, pontua.

Ele destaca, ainda, que efeitos adversos como as miocardites, por exemplo, são mais comuns em pessoas que tiveram a covid-19 do que em pessoas que tomaram a vacina. “Reduzir a gravidade, o número de infecções pela vacina, é algo que traz uma proteção inclusive no que diz respeito às eventuais miocardites que podem acontecer. Então, é muito mais arriscado não se vacinar, pegar covid e ter miocardite do que se vacinar e ter uma miocardite como efeito adverso porque a frequência é muito maior nas situações pós-covid”, alerta.

Comparação com casos de 1966 a 2004

O site que lista as supostas mortes de atletas decorrentes da vacinação faz uma comparação infundada: a de que entre 1966 e 2004 foram registradas apenas 1.101 mortes súbitas de atletas com menos de 35 anos – 29 mortes por ano –, enquanto ocorreram 673 óbitos de atletas em 16 meses de vacinação contra a covid, uma média de 42 por mês, ou 504 por ano. 

Os números apontados entre 1966 e 2004 constam em um levantamento publicado em 2006 no European Journal of Preventive Cardiology. O estudo leva em conta números de eventos de morte súbita cardíaca no esporte relatados na literatura médica entre 1966 e 2004 e busca chegar a um protocolo de triagem de pré-participação (PPSP) para ser aplicado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Para o cardiologista Marcelo Leitão, contudo, mesmo que os dados sejam reais, a comparação com supostos casos na atualidade é inadequada, tendo em vista que a subnotificação era maior décadas atrás, e a metodologia de notificação também mudou. Muitas pessoas morriam praticando exercícios, mas os casos não eram relatados como morte súbita no esporte.

“É muito complicado você fazer uma comparação de dados estatísticos que falam de eventos de morte súbita numa época em que a capacidade de se identificar e se fazer esse tipo de levantamento era muito menos eficiente do que ela é hoje, apesar de nos dias de hoje a gente saber que ela não é 100% eficiente. Tem que se tomar muito cuidado quando se faz esse tipo de comparação em períodos distintos para avaliar se a metodologia, se as características dos levantamentos eram semelhantes e seguramente isso não acontece”, explica.

Outro empecilho à comparação é a faixa etária: o artigo que levanta os dados de 1966 a 2004 leva em conta mortes súbitas em atletas com menos de 35 anos, enquanto a lista que serviu de base para o tuíte verificado contabiliza mortes de pessoas com mais de 80 anos. 

Marcelo destaca que esse tipo de comparação aparece muito em sites que usam uma nomenclatura relacionada à ciência, mas que não seguem um método científico, justamente como o que serviu de fonte para o tuíte aqui verificado. “Muitas vezes, usam levantamentos inapropriados, inserem entre as mortes súbitas relacionadas à vacina indivíduos que, por exemplo, não se vacinaram, mas há uma tendência de associar isso à vacinação. A metodologia e o cuidado, o rigor do levantamento desses dados é muito questionável, então a gente não pode aceitar essa informação”, alerta.

FIFA não registrou nenhum caso associado à vacina

Procurada, a Federação Internacional de Futebol informou por e-mail que “não está ciente de um aumento nos episódios de paradas cardíacas” e “nenhum caso foi assinalado em relação a indivíduos que receberam uma vacina de covid-19”. A entidade máxima do futebol também informou que mantém contato constante com diversos centros de pesquisa para acompanhar uma variedade de tópicos médicos. Os casos de morte súbita, especificamente, são acompanhados desde janeiro de 2014 através do Registro de Morte Súbita (SRD), em parceria com a Universidade de Saarland, na Alemanha.

“A morte súbita (SD) de um atleta aparentemente saudável é um evento trágico raro que atrai a atenção da mídia, especialmente quando estão envolvidos atletas de elite. O esforço vigoroso aumenta de três a quatro vezes o risco de eventos cardíacos fatais, já que atua como um gatilho para arritmias malignas na presença de doenças cardiovasculares subjacentes. Entretanto, em geral, a atividade física regular está associada a um efeito protetor, mesmo quando se considera os riscos temporários experimentados durante a atividade atlética”, diz a nota.

Em 2020, pesquisadores da Universidade de Saarland, liderados por Florian Egger, do Instituto de Esportes e Medicina Preventiva da instituição, publicaram um artigo com base em dados da FIFA entre 2014 e 2018. Os resultados apontaram 617 casos de morte súbita cardíaca entre jogadores de futebol profissionais em 67 países. Uma vez que a morte súbita pode ser revertida, o estudo aponta que 142 jogadores sobreviveram. A principal causa de mortes súbitas entre jogadores com mais de 35 anos foi doença arterial coronariana, enquanto nos menores de 35, a maioria dos casos teve causa inexplicada. 

Atletas são 100% saudáveis?

Há um discurso comum entre as publicações que tentam associar mortes súbitas de atletas à vacinação contra a covid-19: a ideia de que atletas são pessoas totalmente saudáveis e que, portanto, não deveriam estar sujeitos a mortes súbitas. Isso não é verdade. “A morte súbita em atletas sempre foi uma coisa que chamou muita atenção. O que nós temos que lembrar é que atletas, embora de um modo geral sejam pessoas muito saudáveis – porque a gente sabe que pessoas que são fisicamente ativas têm um risco menor de problemas de saúde, de morte por problemas cardiovasculares – isso não confere imunidade completa a essas pessoas”, diz Marcelo Leitão.

Ele alerta que muitos atletas podem ter problemas silenciosos, que não foram detectados previamente. Nesses casos, o exercício físico, sobretudo o exercício intenso, pode ser um gatilho que desencadeia um evento de morte súbita. “Ele não sentia nada até ter o evento de morte súbita ou ele sentia alguma coisa, mas ele não informou a seu médico, ou ele fez uma avaliação e ainda assim a avaliação não conseguiu identificar algumas situações que a gente sabe que são muito difíceis de ser identificadas”, afirma o cardiologista.

Em novembro de 2019, a cardiologista Alinne Katienny Lima Silva Macambira fez uma apresentação durante o XXXVI Congresso Brasileiro de Arritmias Cardíacas falando justamente sobre mortes súbitas no esporte. Entre as razões para a morte de um atleta estão a alta exigência física, o aumento excessivo da função cardíaca, o aumento da ventilação pulmonar, desidratação, alteração eletrolítica, elevado consumo energético, diminuição da imunidade e, como mencionou Marcelo Leitão, por um gatilho para uma doença pré-existente.

Foto utilizada é parte de ação publicitária

A busca reversa pela imagem usada no post mostrou que ela circula pela internet há quase nove anos. Mas o fato de ela não poder ser associada à vacinação não é o único problema: é que a imagem não registra um atendimento a um atleta que sofreu um mal súbito de verdade – ela foi produzida para divulgar um produto, um modelo de desfibrilador para ser usado por equipes de futebol.

O primeiro sinal de que a foto é produzida, e não um registro jornalístico, é a organização da imagem, além das reações dos atletas: a fotografia é muito limpa e os jogadores estão dispostos na cena de modo que o atendimento fique em primeiro plano. Não há qualquer sinal genuíno de que os outros jogadores ao redor do atleta caído no chão estivessem minimamente assustados com a situação.

Outro indício de que a foto foi produzida é o fato de que muitos sites que a utilizavam no passado salvaram o arquivo com o nome “Zoll-futebol.jpg”.

Outra busca pela imagem associada a essas palavras levou a uma fotografia da mesma sequência que mostra o socorrista chegando ao campo carregando uma espécie de maleta em que aparece o nome de uma marca de desfibriladores, a Zoll, e o modelo AED Plus. O Comprova entrou em contato com os representantes da marca no Brasil, que confirmaram que a imagem não é jornalística e faz parte de um material de marketing.

Por que investigamosO Comprova investiga postagens que viralizam na internet com conteúdo envolvendo as eleições presidenciais deste ano, a realização de obras públicas e a pandemia. Conteúdos como este aqui verificado, que colocam em dúvida a vacinação contra a covid-19 e atribuem a ela mortes quando não há uma relação cientificamente comprovada, são perigosos porque podem influenciar pessoas no mundo inteiro a não tomarem a vacina, o que causa um impacto negativo direto no sucesso do combate à pandemia.

Outras checagens sobre o temaO Comprova já mostrou que não havia relação entre casos de mal súbito em atletas e vacinas contra covid e também já desmentiu que jogador dinamarquês tenha se vacinado antes de sofrer mal súbito em campo.