O Projeto Comprova reúne jornalistas de 33 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas, processo eleitoral e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vem sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
Filtro:

Pandemia

Investigado por:2020-06-12

OMS não se desculpou por reviravoltas com hidroxicloroquina

  • Enganoso
Enganoso
Texto distorce declarações de representantes da OMS para dar a entender que a entidade se arrependeu de ter interrompido as pesquisas com o medicamento
  • Conteúdo verificado: post do site Jornal da Cidade Online, de 7 de junho, com o título “OMS pede desculpa pelo erro na controvérsia sobre a hidroxicloroquina”

Um texto do Jornal da Cidade Online engana o leitor ao distorcer declarações de representantes da Organização Mundial de Saúde (OMS). O artigo afirma que o diretor-executivo do Programa de Emergências em Saúde da OMS, Mike Ryan, “pediu desculpas pelo erro na controvérsia sobre a hidroxicloroquina”, dando a entender que a entidade se arrependeu de ter interrompido as pesquisas com o medicamento. Não foi isso que Ryan disse.

Em uma entrevista coletiva na sede da organização, no dia 5 de junho, o diretor-executivo foi questionado sobre a polêmica envolvendo a paralisação e subsequente retomada de pesquisas da OMS com hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19. Ele respondeu que “isso é ciência bem feita”.

Ryan acredita que o enorme interesse público por assuntos relacionados à pandemia de covid-19 faz que com os desdobramentos sejam noticiados 24 horas por dia. E, para o público leigo, avanços e retrocessos normais no processo científico acabam parecendo confusos. “Eu sei que, às vezes, pode passar a impressão de que a comunidade científica está confusa ou que está mandando sinais conflitantes e, por isso, nós pedimos desculpas a todos vocês. Mas nós precisamos seguir a ciência”, disse.

O Comprova considerou o texto verificado enganoso porque em nenhum momento um representante da OMS pediu desculpas por ter paralisado temporariamente os estudos com hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a covid-19 que tenham alcançado grande viralização. A postagem verificada foi compartilhada mais de 500 vezes superando 400 mil interações de acordo com o CrowdTangle, uma ferramenta de monitoramento de conteúdos compartilhados em redes sociais.

Desde os primeiros casos de covid-19 no Brasil, os temas relacionados à pandemia têm sido usados para reforçar narrativas que se alinham ou contrariam o discurso do presidente da República, Jair Bolsonaro. A contrariedade do presidente às medidas mais restritivas de isolamento adotadas por governadores e prefeitos, o questionamento às medidas sugeridas pela OMS e o incentivo ao uso de medicamentos de eficácia ainda não comprovada são alguns dos temas recorrentes em páginas e perfis em redes sociais que apoiam Bolsonaro.

O conteúdo verificado pelo Comprova se insere nesse contexto. A polarização dos discursos em defesa do uso de medicamentos sem eficácia comprovada pode servir de incentivo à automedicação e causar efeitos colaterais danosos.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor ou que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

O primeiro passo foi encontrar a declaração original de Mike Ryan, feita em uma entrevista coletiva no dia 5 de junho. A partir de 19 minutos e 47 segundos, o diretor-executivo responde sobre as “mensagens conflitantes” que a mudança de postura da entidade pode passar ao público leigo. A cientista chefe da entidade, Soumya Swaminathan, fala logo em seguida, a partir de 23 minutos e 45 segundos. Ela explica que as idas e vindas são normais no processo de pesquisa científica. A transcrição do áudio, em inglês, está disponível no site da OMS.

Procuramos a assessoria de imprensa da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço da OMS para as Américas. Por e-mail, solicitamos informações sobre as credenciais de Mike Ryan e de Soumya Swaminathan e pedimos esclarecimentos sobre as diretrizes da entidade para o uso de cloroquina e de hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. Também questionamos se a organização tem alguma relação com o estudo realizado com dados da empresa americana Surgisphere e retirado do ar pelo periódico científico “The Lancet”.

Em seguida, conversamos com pesquisadores da área médica para explicar como funciona o processo de pesquisa de um novo medicamento ou vacina. Em entrevista concedida ao Comprova, o médico Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), afirmou que se trata de um procedimento longo, com várias etapas e que é comum ocorrerem retratações de pesquisas após novas checagens serem realizadas por outros pesquisadores.

Por fim, realizamos uma pesquisa sobre o site que publicou o texto verificado, o Jornal da Cidade Online e sua relação com a disseminação de desinformação.

Verificação

A polêmica começou por causa de um estudo, publicado no dia 22 de maio, afirmando que a cloroquina e a hidroxicloroquina não mostravam eficácia no combate ao novo coronavírus e alertando para os riscos de arritmia cardíaca trazidos pelos medicamentos. A publicação levou a OMS a suspender os testes clínicos que a entidade já realizava com hidroxicloroquina. Mas no dia 2 de junho a “The Lancet” publicou uma “nota de preocupação” em relação ao estudo. No novo texto, 150 pesquisadores levantaram questões sobre a metodologia e de integridade dos dados. As informações são de uma empresa de saúde norte-americana, a Surgisphere. O dono da companhia, Sapan Desai, foi um dos autores do artigo. Desde então, surgiram evidências de que os dados foram manipulados.

As críticas levaram a “The Lancet” a retirar o estudo do ar. O “New England Journal of Medicine” também retratou um estudo sobre covid-19 com base em dados da Surgisphere.

Depois da retratação, a OMS resolveu retomar sua pesquisa com hidroxicloroquina. O “Estudo Solidariedade” é um ensaio clínico, lançado pela organização em março de 2020, para investigar um tratamento eficaz para a covid-19. Uma das drogas pesquisadas é a hidroxicloroquina, mas outros medicamentos — como Remdesivir, Lopinavir/Ritonavir e Lopinavir/Ritonavir combinado com Interferon beta-1a — são analisados.

O grupo tinha resolvido fazer uma pausa temporária no braço de hidroxicloroquina do estudo em 23 de maio por causa de preocupações sobre a segurança do medicamento. Os dados de mortalidade disponíveis foram revisados pelo Comitê de Segurança e Monitoramento de Dados do Estudo Solidariedade. Os membros não encontraram motivos para modificar o protocolo do estudo, que foi retomado em 3 de junho.

Por e-mail, a OPAS — braço pan-americano da organização — afirmou que “a OMS não tem histórico de colaboração com a Surgisphere”. E completou: “A prioridade da OMS é focar nas evidências geradas por ensaios clínicos randomizados de última geração”.

No dia 5 de junho, durante entrevista coletiva, uma repórter da revista norte -americana “Politico” perguntou ao diretor-executivo do Programa de Emergências em Saúde da OMS, Mike Ryan, sobre as “mensagens conflitantes” que essas mudanças de posição passam ao público. Ryan explicou que a decisão de paralisar os estudos com hidroxicloroquina foi tomada para não colocar os pacientes em risco. Mas, ao contrário do que afirma o texto verificado, o diretor-executivo não se desculpou pela paralisação — e nem pela retomada da pesquisa com a hidroxicloroquina. “Nós precisamos seguir a ciência. Precisamos seguir as evidências e estamos totalmente dedicados a garantir que as pessoas que participam de testes clínicos estão entrando em testes seguros e planejados com o seu bem estar em mente”. Ryan defende que “isso é ciência bem feita”. Foi nesse momento que fez o “pedido de desculpas” a que o texto verificado se refere. “Eu sei que às vezes pode passar a impressão de que a comunidade científica está confusa e, por isso, pedimos desculpas a todos vocês.”

A declaração foi acompanhada pela cientista chefe da OMS, a pediatra Soumya Swaminathan. “É um processo normal na ciência”, garantiu. “É bastante normal ter resultados um pouco diferentes vindos de estudos diferentes é por isso que o mundo científico normalmente exige mais de um teste para que o efeito de qualquer droga ou vacina seja realmente confirmado. (…) É nossa responsabilidade explicar para o público que cada um dos resultados não significa que estamos mudando as recomendações ou nos contradizendo. Porque é assim que a ciência progride.”

Esta resposta foi questionada no texto do “Jornal da Cidade Online”: “Normal??? Parece que a OMS deve novo pedido de desculpas…”.

O médico Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), afirmou ao Comprova, em entrevista por telefone, que retratações em pesquisas científicas são comuns e que existe uma base de dados mundial, chamada Retraction Watch, onde é possível consultá-las.

“Alguém, não sei realmente quem foi, analisou novamente os dados que levaram a OMS a dizer que [a hidroxicloroquina] não era eficaz e encontrou algum tipo de problema. Na verdade, o que a OMS fez foi retirar a recomendação até que isso se esclareça”, afirmou o médico.

Para entender o porquê de um estudo ser retratado, Guimarães explica que é necessário entender como ele é feito. Uma medicação só pode ter a eficácia comprovada após cumprir um longo processo. O desenvolvimento se inicia em laboratório, após uma série de estudos, com resultados feitos in vitro, ou seja, num ambiente controlado. Se a eficácia funcionar ali, a etapa seguinte envolve testes em animais e, depois, testes em humanos.

Na etapa de testagem entre humanos, são três fases: a primeira em indivíduos saudáveis, a segunda em pequenos grupos de pacientes e a terceira em quantidade maior. Nessa fase, os estudos são feitos de forma que metade dos pacientes faz uso da medicação e a outra metade recebe um placebo, substância que não causa reações no organismo. A escolha de quem toma o quê é aleatória. Os pacientes não sabem se receberam o medicamento ou o placebo e os médicos que aplicam as substâncias também não são informados sobre qual paciente recebeu qual elemento. Este processo é chamado duplo cego randomizado.

A partir da aprovação de todas essas etapas, a medicação deve ser encaminhada para uma agência reguladora, que recebe do fabricante um dossiê completo e o analisa. Caso o documento seja considerado satisfatório, o medicamento recebe um registro para ser comercializado no país da dita agência — no caso do Brasil, os remédios devem ser registrados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Se um medicamento for indicado para o tratamento de outra doença, ele deve ser reavaliado pela agência e ter a bula modificada.

“O que aconteceu com a retratação dos estudos sobre cloroquina é que todas as informações que chegavam à OMS eram relativas a ensaios clínicos, que são os testes feitos em seres humanos. As informações que foram chegando à OMS diziam que a cloroquina não era eficaz. Particularmente, quando essas informações vinham a partir dos estudos clínicos randomizados [ou seja, na terceira fase de testes com humanos]”, explicou Guimarães. “O estudo retratado é um estudo publicado que levou a uma recomendação, mas foi retirado porque havia lá um problema qualquer que eles estão continuando a estudar”, resumiu.

Pesquisas com cloroquina

A cloroquina — e sua versão menos tóxica, a hidroxicloroquina — é um medicamento usado para o tratamento de malária e lúpus. Seu uso para o combate ao novo coronavírus começou a ser defendido em fevereiro pelo pesquisador francês Didier Raoult, diretor do Instituto Mediterrâneo de Infecções em Marselha com base em estudos realizados na China. Desde então o estudo de Raoult foi desacreditado, mas a propaganda para o uso da cloroquina permaneceu. Ela foi impulsionada, principalmente, pela propaganda feita pelo presidente norte-americano Donald Trump, que declarou tomar hidroxicloroquina para evitar a covid-19.

O desdobramento mais recente foi um novo estudo da Universidade de Minnesota, nos EUA, divulgado pelo New England Journal of Medicine no dia 03 de junho. Os pesquisadores acompanharam 821 norte-americanos e canadenses com risco de alto a moderado de contrair covid-19. De acordo com padrões científicos internacionais, parte dos voluntários recebeu uma dose diária de hidroxicloroquina ao longo de cinco dias. Outro grupo recebeu placebo. A conclusão foi de que a hidroxicloroquina não foi eficiente para prevenir a infecção pelo novo coronavírus. “Foi decepcionante, mas não surpreendente”, declarou em entrevista o pesquisador responsável pelo estudo, David Boulware.

Orientações para o uso da cloroquina

A OMS não recomenda o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus. Ainda por e-mail, representantes da organização lembraram que “não há evidência científicas que os medicamentos sejam eficazes e seguros no tratamento de covid-19”. E lembram: “A maioria das pesquisas até agora sugere que não há benefício e já foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais do medicamento”. Para a OPAS e a OMS, as drogas só podem ser usadas apenas “no contexto de estudos devidamente registrados, aprovados e eticamente aceitáveis”.

Aqui no Brasil, os Conselhos Federais de Medicina (CFM) e de Enfermagem (Cofen) e a Associação Médica Brasileira (AMB) publicaram orientações e recomendações reforçando que ainda não há evidências que comprovem a eficácia do medicamento.

O Ministério da Saúde lançou um protocolo para o manuseio de medicamentos para pacientes com covid-19 na rede pública desde os casos com sintomas mais leves. O documento sugere o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina associadas ao antibiótico azitromicina desde o primeiro dia, com doses que aumentam de acordo com a gravidade e com o tempo de infecção. Há uma série de exames que precisam ser realizados antes que as drogas sejam indicadas, como eletrocardiograma e diagnóstico para covid-19. O texto também ressalta que faltam estudos para embasar o uso dos medicamentos. “Não há meta-análises de ensaios clínicos multicêntricos [testes em humanos feitos em mais de um centro de estudos], controlados, cegos e randomizados que comprovem o benefício inequívoco dessas medicações para o tratamento da covid-19”, diz. Por fim, o protocolo é claro ao deixar a decisão final sobre o uso da cloroquina nas mãos do médico e do paciente, que precisa assinar um Termo de Ciência e Consentimento.

Contexto

Mesmo sem eficácia comprovada, o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina tem sido defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores desde o começo da epidemia, alinhados com o discurso do presidente Donald Trump.

A insistência de Bolsonaro para a recomendação do uso da cloroquina levou à demissão de dois ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em 16 de abril, e Nelson Teich, em 15 de maio. Desde então, a pasta está nas mãos do general Eduardo Pazuello, promovido de secretário-executivo a ministro interino no dia 3 de junho. Foi sob o comando dele que o Ministério da Saúde publicou o protocolo para uso da cloroquina no combate ao novo coronavírus.

Os Estados Unidos lideram as estatísticas de covid-19, com 2.031.173 casos confirmados e 114.065 mortes até o dia 12 de junho, de acordo com levantamento da Universidade Johns Hopkins. O presidente Trump passou a antagonizar a OMS e, em 29 de maio, anunciou que o país estava deixando a organização. Ele disse que a “China tem controle total da OMS” e criticou a organização por dar “direcionamentos errados” ao mundo sobre o novo coronavírus.

A OMS é uma das agências da Organização das Nações Unidas (ONU), criada em em 1948 para dar atenção a questões relativas à saúde. O Brasil é um dos membros fundadores da organização. Inspirado no discurso de Trump, o presidente Bolsonaro também passou a fazer críticas e disse que a entidade “perdeu a credibilidade”. O presidente brasileiro defende o uso da cloroquina e insiste em minimizar os efeitos da pandemia e estimular a reabertura de país, contrariando governadores e prefeitos. O Brasil é o segundo país com maior número de casos confirmados de covid-19, com 802.828. Foram 40.919 mortes até o dia 12 de junho, também de acordo com levantamento da Universidade John Hopkins.

Alcance

O texto foi publicado pelo Jornal da Cidade Online em 7 de junho. Até o dia 12 já tinham sido registradas mais de 97,4 mil interações no site. A página de Facebook também repercutiu o texto, com 55 mil compartilhamentos e 5,7 mil comentários.

Alguns seguidores repassaram o texto pelo Twitter. A postagem que teve mais viralização teve 1,7 mil curtidas até o dia 12.

Pandemia

Investigado por:2020-06-12

Post distorce informações sobre eficácia da ivermectina

  • Enganoso
Enganoso
Médico defende uso do medicamento em pacientes com a covid-19 mas diz que é irresponsável post em grupo de Facebook que afirma que ele descobriu a cura para a doença
  • Conteúdo verificado: Publicação feita em 6 de junho por uma usuária no grupo de Facebook Aliança pelo Brasil independente

É enganosa a afirmação que a combinação de ivermectina e azitromicina é a cura para a covid-19, conforme post do dia 6 de junho que viralizou no Facebook. A autora da postagem em um grupo chamado Aliança pelo Brasil independente escreve “Temos outro remédio contra covid-19! Ivermectina + azitromicina e tchau coronavírus! Definitivamente, Deus é brasileiro!” ao comentar um texto do site Terra Brasil Notícias. A publicação não menciona a azitromicina, mas, afirma, no título: “Medicamento ivermectina elimina 97% do covid-19 dentro da célula em 48h, diz infectologista”.

O médico a que se refere a publicação é Fernando Suassuna, “um dos entusiastas do uso do medicamento” que, no texto, sugere o uso da droga como medida profilática. Em entrevista ao Comprova, Suassuna confirmou que realiza um estudo com o medicamento, mas disse que a pesquisa ainda está em fase preliminar. Declarou ainda que sua fala foi deturpada por alguns blogueiros.

Procuradas pelo Comprova, as autoridades da área da saúde não reconhecem o uso do medicamento para prevenção ou tratamento da covid-19. Por e-mail, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que a ivermectina “não está registrada contra essa doença, portanto não é reconhecida pela agência como eficaz contra ela”. Também por e-mail, o Conselho Federal de Medicina (CFM) esclareceu que “não existem evidências robustas de alta qualidade que possibilitem a indicação de uma terapia farmacológica específica para a covid-19”. Em pesquisa no site do Food and Drug Administration (FDA), autoridade sanitária americana, o Comprova encontrou a recomendação de que pessoas não devem tomar ivermectina para prevenir ou tratar a covid-19.

Até a publicação desta verificação, o Comprova não conseguiu entrevistar Dedez Amaral, autora do post. Sua publicação foi na página Aliança pelo Brasil Independente, que se define como um “grupo oficial de apoio ao novo partido do Presidente Jair Messias Bolsonaro”.

Por que investigamos?

Posts e vídeos com link para reportagens com conteúdo que distorcem a realidade viralizam rapidamente nas redes sociais e trazem risco à população. Este post, leva a uma matéria que afirma que a “ivermectina elimina 97% do covid-19 dentro da célula em 48h”, desinforma ao fazer com que os leitores acreditem que a doença causada pelo novo coronavírus possa ser curada por uma droga cuja eficácia não está cientificamente comprovada.

No dia 9 de junho, a publicação, feita três dias antes, já tinha mais de 9.330 compartilhamentos e 576 comentários. Alguns internautas escreveram que já haviam comprado o remédio na farmácia e, outros, estavam perguntando onde achar. São pessoas que podem acreditar na cura, se automedicar e achar que não precisam mais se proteger do vírus.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

A verificação foi realizada em várias etapas. Primeiro, o Comprova tentou apurar quem é a autora do post, se ela de fato trabalha para o Ministério da Saúde e se é possível identificar em seu perfil no Facebook alguma interação com páginas e conteúdos duvidosos sobre a pandemia.

Na sequência, o Comprova investigou se a associação dos medicamentos ivermectina e azitromicina é realmente eficaz para o tratamento de pacientes com a covid-19. Buscamos estudos científicos e opiniões de especialistas que pudessem revelar os possíveis benefícios desses medicamentos. Foram consultados, também, o Conselho Federal de Medicina e autoridades sanitárias do Brasil e dos Estados Unidos.

Em um terceiro momento, a investigação do Comprova se debruçou sobre a figura do médico Fernando Suassuna, apontado pela reportagem como entusiasta e defensor do uso da ivermectina para o tratamento da covid-19. Investigamos se ele realmente disse ter tido resultados promissores com o uso do medicamento em um lar de idosos localizado em Natal e se esse protocolo estaria de acordo com as orientações dos órgãos de saúde da cidade e do Rio Grande do Norte.

Por fim, a verificação se ateve ao portal que publicou a notícia veiculada no post do Facebook, a fim de verificar sua veracidade. Analisamos se o portal já havia publicado outros conteúdos sobre a pandemia e qual o tom das reportagens. Investigamos, também, as redes sociais e o canal de YouTube do portal.

Verificação

Quem é a autora do post

Segundo o perfil da autora do post no Facebook, ela é funcionária do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro. O Comprova enviou mensagem privada pedindo o contato, mas não teve resposta. Dedez Amaral respondeu a um comentário em um post recente, mas, depois, não retornou. Também encontramos um perfil no Instagram, mas está fechado e sem atividade.

Mesmo sem saber se o nome é verdadeiro (ou se “Dedez” é um apelido), entramos em contato por e-mail com o Ministério da Saúde, que respondeu não ter autorização para “informar sobre servidores” (print abaixo).

No perfil da autora do post no Facebook, é possível descobrir que ela apoiou Jair Bolsonaro durante a eleição presidencial. Em um outro post, em março do ano passado, se solidarizou quando o ex-presidente Lula perdeu o neto.

A ivermectina

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a ivermectina está registrada como “medicamento contra infecções causadas por parasitas”. A Food and Drug Administration (FDA), órgão de vigilância sanitária dos Estados Unidos, libera o uso da ivermectina para o tratamento de vermes intestinais e de parasitas tópicos, como piolho e rosácea. Também é usada para o tratamento de parasitas em animais.

A primeira publicação sobre o uso da droga no tratamento de pacientes com covid-19 ocorreu na Austrália. A Universidade de Monash publicou um artigo no dia 3 de abril mostrando que a droga poderia eliminar o Sars-CoV-2, em uma cultura de células in vitro, dentro de 48 horas. O próprio estudo já ressalva, porém, que esse resultado não prova a eficácia da medicação contra a infecção em humanos pelo novo coronavírus e que era preciso aguardar novos testes.

Em e-mail enviado ao Comprova no dia 4 de junho, o Departamento de Medicina, Enfermagem e Ciências da Saúde da instituição explicou que o estudo apenas mostrou que a ivermectina tem efeito em eliminar o vírus em laboratório. E foi taxativo: “a ivermectina não pode ser usada em pacientes com covid-19 até que outros testes tenham sido conclusivos em estabelecer a eficácia do medicamento em níveis seguros para dosagem em humanos”.

Até o início de junho, havia um único estudo clínico sobre o uso da ivermectina para tratar pacientes com o novo coronavírus. O artigo tinha como autor principal o médico Amit Patel, então vinculado ao Departamento de Bioengenharia da Universidade de Utah. O estudo administrou em 704 pacientes com covid-19 (outros 704 foram selecionados como grupo de controle) em 169 hospitais na América do Norte, Europa e Ásia. Mas a pesquisa foi retirada do ar porque os dados foram coletados pela empresa Surgisphere; a mesma cuja metodologia de coleta dos dados levou a retratação de um estudo sobre a segurança da hidroxicloroquina publicado pela The Lancet. Em sua conta no Twitter, o médico Amit Patel disse não ter mais vinculação com a Universidade de Utah e não saber o que aconteceu com a Surgisphere.

Quem é Fernando Suassuna

Segundo os sites do Conselho Federal de Medicina e do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte, Fernando Suassuna é médico inscrito desde 1978 com especialidade nas áreas de infectologia e de alergia e imunologia. De acordo com a plataforma de currículos acadêmicos Lattes, mantida pelo CNPq, Suassuna é formado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e mestre pela Universidade Federal de Pernambuco. Em 1983, fez um intercâmbio de três meses na Université Laval, em Quebec, no Canadá. Foi professor da UFRN, da Universidade Potiguar (UnP) e de cursos pré-vestibulares. Também trabalhou como infectologista no Hospital Giselda Trigueiro, no Rio Grande do Norte, e em clínicas privadas.

Suassuna defendeu o uso da ivermectina para tratar pacientes com covid-19 em entrevistas aos sites Tribuna do Norte, no dia 06 de junho, e Agora RN, no dia 08.

Na pesquisa do Google, o Comprova encontrou o site do infectologista Fernando Suassuna, que mora em Natal. No Facebook, o Comprova localizou o perfil o médico. As duas páginas apontavam para o mesmo número de contato da clínica.

Por telefone, o médico Fernando Suassuna confirmou ao Comprova que tem conduzido um estudo sobre o uso da ivermectina para tratar pacientes com covid-19, mas afirmou estar em fase observacional e que nenhum artigo foi publicado até o momento. Ele disse desconhecer o site Terra Brasil Notícias. Mas contou que, após ter dado entrevista à Tribuna do Norte, viu que alguns blogueiros haviam “deturpado” a fala dele, como se a cura da doença tivesse sido descoberta; o que o médico classificou de “irresponsável”.

Segundo Suassuna, ele ministrou a ivermectina em 116 idosos de três asilos de Natal: o Lar Jesus Misericordioso, o Instituto Juvino Barreto e o Lar do Ancião Evangélico, conhecido como LAE. Nos três locais, o medicamento teria sido prescrito após a confirmação de um primeiro caso de paciente com o novo coronavírus. Segundo o médico, não houve óbitos. Um idoso foi internado e 24 desenvolveram a doença na forma leve. “A gente tem mais 17 asilos para continuar o trabalho. Quando aparece um caso, a gente toma conta. A gente faz o tratamento, acompanha. E espera que esse seja o modelo para grupos de risco. Para evitar que eles vão para o hospital e levem ao colapso do sistema”, afirmou.

Fernando Suassuna disse que o estudo tem sido acompanhado por seis infectologistas do comitê municipal para enfrentamento da pandemia. Mas negou que seus estudos comprovem a cura da covid-19 porque ainda estão em fase inicial.

Além disso, o médico disse ter conhecimento de que o estudo clínico americano está sendo contestado. Mas afirmou que os resultados positivos em Natal estão sendo verificados in loco.

O uso da ivermectina em Natal

O Comprova procurou, então, a Prefeitura de Natal e o Governo do Rio Grande do Norte para saber se a ivermectina está sendo adotada no estado para o tratamento de pacientes com covid-19. Por email, a Secretaria Municipal de Saúde enviou uma cópia do protocolo de manejo para síndromes gripais frente à pandemia do novo coronavírus, que foi publicado no Diário Oficial do Município no dia 03 de junho.

O protocolo da Prefeitura de Natal prevê o uso da ivermectina em dois contextos. O primeiro é o tratamento de pacientes que, em função de questões alérgicas ou de possíveis efeitos colaterais, não possam fazer uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina como tratamento para a covid-19.

O segundo é como medida profilática destinada a profissionais com elevado nível de exposição ao Sars-CoV-2 (como profissionais de saúde, policiais, bombeiros) ou indivíduos com fatores de risco para desenvolver a forma grave da covid-19 (portadores de síndrome metabólica, obesos, diabéticos, HAS isolada ou idosos).

Se a ivermectina for usada para profilaxia, o protocolo recomenda o acompanhamento médico da função hepática. A medicação não pode ser adotada por nutrizes e gestantes. O documento também desestimula o uso profilático em pacientes jovens saudáveis “para que se alcance a imunidade de rebanho [coletiva] progressivamente”.

Também por e-mail, a Secretaria Estadual de Saúde enviou uma nota ao Comprova. O Estado “não prevê o uso de Ivermectina no tratamento da covid-19 por não existir recomendação científica e não ter uma eficácia comprovada em vivo”. Além disso, o governo estadual “não recomenda nem sugere a utilização no tratamento até que esta droga se mostre comprovada cientificamente eficaz”.

A Secretaria Estadual de Saúde afirma ainda que a adoção da ivermectina pelo município de Natal foi feita “sem evidência científica nem recomendação do Ministério da Saúde”. O governo do Estado diz que pode rever sua posição se algum dos estudos em andamento comprovar a eficácia da ivermectina no combate ao novo coronavírus.

Em uma das entrevistas, Fernando Suassuna afirma que o Conselho Regional de Medicina vinha debatendo o uso da ivermectina. No dia 20 de maio, o Conselho lançou as recomendações para o uso de medicamentos para tratamento do novo coronavírus. Todos os medicamentos citados no documento exigem o consentimento do paciente para serem ministrados. O texto cita a ivermectina como uma das substâncias estudadas para combater a covid-19. Mas a droga só é opção para pacientes que estejam em tratamento hospitalar. O Comprova ligou para a entidade para entender mais sobre as orientações e a recepcionista pediu que a demanda fosse encaminhada por e-mail. Não houve resposta até o fechamento da verificação.

O que dizem as autoridades?

No dia 05 de junho, o Comprova consultou autoridades sanitárias sobre o uso da ivermectina em pacientes com covid-19 como parte de outra verificação sobre a droga. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirma que a ivermectina “não está registrada contra essa doença, portanto não é reconhecida pela agência como eficaz contra ela”.

No dia 10 de abril, a Food and Drug Administration (FDA), autoridade sanitária dos Estados Unidos, divulgou uma carta aberta em que alerta as pessoas a não usar remédios à base de ivermectina destinados a animais como tratamento contra a covid-19 (print abaixo). Segundo a FDA, as pessoas não devem tomar ivermectina para prevenir ou tratar a doença. Também não há nenhuma autorização da FDA para o uso emergencial da droga nos Estados Unidos em função da pandemia.

O site do National Center for Biotechnology Information, vinculado à US National Library of Medicine, afirma que a nota da FDA foi publicada porque o estudo da Austrália vinha sendo “difundido com grande interesse em sites voltados amédicos e veterinários”. O texto é assinado por Mike Bray, editor da Antiviral Research.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) não comenta casos específicos, mas, por e-mail, afirmou ao Comprova que “não existem evidências robustas de alta qualidade que possibilitem a indicação de uma terapia farmacológica específica para a covid-19” e que “muitos medicamentos têm sido promissores em testes através de observação clínica, mas nenhum ainda foi aprovado em ensaios clínicos com desenho cientificamente adequado, não podendo, portanto, serem recomendados com segurança”. Acrescenta ainda que os médicos “devem observar o Código de Ética Médica”, segundo o qual devem evitar o sensacionalismo, entendido como “utilização da mídia, pelo médico, para divulgar métodos e meios que não tenham reconhecimento científico”.

Contexto

Mesmo sem eficácia comprovada, a ivermectina vem sendo defendida por médicos em conteúdos que costumam viralizar nas redes sociais. Muitos desses materiais contêm informações distorcidas, dando a impressão de que existe uma cura para a covid-19, contrariando o que dizem autoridades de saúde, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O órgão afirmou ao Comprova que a ivermectina “não está registrada contra essa doença, portanto não é reconhecida pela agência como eficaz contra ela”. O Conselho Federal de Medicina (CFM) disse que não comenta casos específicos, mas afirmou ao Comprova que “não existem evidências robustas de alta qualidade que possibilitem a indicação de uma terapia farmacológica específica para a Covid-19“.

Grande parte dos brasileiros já completou mais de três meses em casa e não vê a hora de sair. Ao ler que há uma cura, essas pessoas podem relaxar o isolamento, apontado como a única medida capaz de frear o avanço da doença até o momento – estimuladas pelo presidente, que descumpre as regras de distanciamento social e pelos governos estaduais, que começam a reabrir o comércio em algumas cidades.

No momento em que cientistas do mundo inteiro correm contra o tempo para descobrir a cura da covid-19 e controlar o novo coronavírus, alguns sites tentam se destacar usando informações enganosas sobre curas milagrosas, que atrapalham o processo.

Isso tudo no momento em que o Brasil registrou 802.828 casos confirmados e 40.919 óbitos por covid-19 até a tarde de 11 de junho, de acordo com informações do Ministério da Saúde. Até a data, 311.064 pessoas haviam se recuperado e 390.033 estavam em acompanhamento.

Alcance

A postagem original foi compartilhada por mais de 9.600 pessoas no Facebook. Havia 586 comentários e 2.700 reações (apenas uma negativa).

Por meio da busca de imagem reversa do Google, foi possível encontrar o link replicado em outros sites, como Agora RN, Blog do BG e Blog Max Bezerra. E, de acordo com a ferramenta CrowdTangle, no total, o texto teve 55.960 interações na internet.

Pandemia

Investigado por:2020-06-11

Vídeo de aglomeração em Genebra é real, mas não prova que pandemia é farsa

  • Enganoso
Enganoso
Ao relacionar as imagens da reabertura em Genebra com o fato de a sede da OMS estar na mesma cidade e argumentar que isso revelaria uma “manipulação”, youtuber omite duas questões importantes. A primeira é que a pandemia está sob controle na Suíça depois de oito semanas de medidas restritivas de isolamento social. A segunda é que a OMS não tem poder para emitir ordens, nem mesmo na cidade onde fica a sua sede

É enganoso o vídeo publicado em 4 de junho pelo canal “Seu Mizuca”, no Youtube, que traz imagens sobre a situação em Genebra, na Suíça, e aponta que a pandemia de coronavírus “é uma farsa”.

Antes de exibir uma gravação – narrada em espanhol e que mostra pessoas interagindo na cidade suíça sem máscaras e sem levar em conta o distanciamento social – o responsável pelo canal afirma que tais cenas, que teriam sido gravadas em 1º de junho na cidade-sede da Organização Mundial de Saúde (OMS), revelariam uma “manipulação” do cenário da pandemia. O mesmo vídeo foi publicado um dia antes na página do empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, no Facebook.

O Comprova não conseguiu identificar o autor do vídeo utilizado por “Seu Mizuca” e nem confirmar se as imagens foram realmente captadas em 1º de junho, mas verificou que a gravação foi, de fato, feita em Genebra. Além disso, foi possível confirmar com pessoas que trabalham na região que a cidade suíça retomou suas atividades de forma praticamente normal.

Ao relacionar as imagens da reabertura em Genebra com o fato de a sede da OMS estar na mesma cidade e argumentar que isso revelaria uma “manipulação”, o youtuber omite duas questões importantes. A primeira é que a pandemia atingiu a Suíça antes do Brasil e que o país europeu passou por oito semanas de medidas restritivas de isolamento social. Depois disso, o governo local vem conseguindo manter a pandemia sob controle. O vídeo foi publicado pela primeira vez no Facebook, na página Proyecto Segunda República Río Cuarto y Sur de Córdoba, e no YouTube, no canal Miralo antes que lo censuren, em 1º de junho, data em que Genebra estava havia três dias sem novos casos de infecção pelo novo coronavírus registrados.

Em segundo lugar, o youtuber não menciona que a OMS faz apenas recomendações aos países e não emite ordens, nem mesmo para Genebra, onde está sediada.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos que tenham grande viralização e repercussão nas redes sociais. É o caso do vídeo em questão, que foi visto, apenas no YouTube, mais de 270 mil vezes.

Este vídeo se junta a uma série de outros conteúdos que têm como objetivo minimizar a extensão da pandemia de covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus. Recentemente, o Comprova mostrou que eram enganosos conteúdos que falavam sobre enterros falsos ou supernotificação de casos.

A denúncia de uma suposta “farsa” pode ter como resultado uma desmobilização da sociedade diante das medidas necessárias para conter a pandemia, o que pode provocar comportamentos danosos.

No caso do vídeo verificado aqui, o responsável por sua divulgação não explica ao público que o papel da OMS se restringe a fazer recomendações às autoridades, mas que elas não são obrigadas a seguir tais sugestões. Isso vale, também, para a Suíça, onde está sediada a organização. O governo suíço é, inclusive, exemplo de um país que não seguiu todas as recomendações da OMS.

Para o Comprova, o conteúdo enganoso é aquele retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Para realizar esta verificação, o Comprova utilizou a ferramenta InVid; o aplicativo desmembra o vídeo em frames e permite que se faça uma busca no Google em cima das imagens congeladas. Assim, é possível encontrar outras publicações com imagens similares, que nos levaram à mesma gravação em outros locais. Essa busca levou os verificadores a sites e perfis argentinos e espanhóis. Alguns deles foram contactados, mas não responderam aos pedidos de informação.

O Comprova também realizou buscas por palavras-chave no YouTube e no Facebook para tentar identificar a origem do vídeo. Em um dos comentários feitos no YouTube, um usuário citou como local da gravação o “Bains des Paquis”, atração turística em Genebra, na Suíça. Essa informação foi confirmada por meio de imagens encontradas no Google Maps e também por meio do contato com dois recepcionistas de hotéis da região. Ambos atestaram a movimentação intensa na área e o funcionamento normal de estabelecimentos e passeios de barco.

Também utilizamos ferramentas que nos ajudaram a comprovar que o clima e as sombras que aparecem no vídeo são compatíveis com os registrados em Genebra no dia em que o vídeo teria sido gravado. Utilizando o WolframAlpha, recuperamos os dados e verificamos as condições climáticas da cidade. De acordo com as informações da ferramenta, o dia teve uma temperatura média de 18ºC, chegando a 25ºC perto das quatro horas da tarde. A incidência de luz solar esteve alta o dia todo, enquanto poucas nuvens estavam no céu. Todas as informações batem com o que é possível observar no vídeo e condizem com uma movimentação de pessoas ao ar livre.

Com a SunCalc, uma ferramenta que ajuda a encontrar a posição do sol em determinado momento do dia, foi possível simular o posicionamento solar durante todo o dia 1º de junho. Podemos observar que as sombras das pessoas que caminham na orla e da lixeira são quase perpendiculares à fachada dos prédios nas ruas. Para as sombras serem exibidas desta maneira, o sol precisaria estar atrás dos prédios. Segundo a ferramenta, o sol estava em uma posição compatível com as sombras nessa posição no período compreendido entre as 17h e as 19h (nesta época do ano, o sol se põe em Genebra depois das 21 horas). É difícil cravar o momento exato em que o vídeo foi feito, já que o ângulo da filmagem não permite descobrir o quanto as sombras estão perpendiculares em relação aos prédios do fundo, mas, com as imagens existentes, comparando com a posição solar do SunCalc, é possível estimar que o vídeo tenha sido gravado perto das 18h.

[Atualização em 22 de junho de 2020 – o parágrafo acima foi atualizado para corrigir a estimativa do horário em que o vídeo deve ter sido feito. É provável que tenha sido perto das 18h e não perto das 13h, como publicado originalmente. A imagem da interface da ferramenta SunCalc, abaixo, também foi trocada.]

O Comprova também entrou em contato com a assessoria de imprensa do empresário Luciano Hang, cuja logomarca aparece no vídeo compartilhado, e o questionou sobre a origem das imagens. Publicações com o vídeo foram postadas, em 3 de junho, nas redes sociais de Hang (Twitter, Facebook e Instagram); nas legendas, ele afirma se tratar de uma gravação feita por um argentino que vive em Genebra. A assessoria do empresário disse por mensagem que Hang apenas compartilhou o vídeo que recebeu em um grupo do WhatsApp. O nome do grupo não foi mencionado.

Além disso, buscamos no site da Universidade Johns Hopkins, que agrega números mundiais de covid-19, a quantidade de casos e mortes pelo novo coronavírus na Suíça na época do vídeo. Também levantamos que o país foi o primeiro na Europa a flexibilizar o isolamento social, reabrindo restaurantes e bares em 11 de maio.

Por fim, verificamos que a cidade de Genebra abriga, de fato, a sede da Organização Mundial de Saúde (OMS). No entanto, o órgão internacional não possui jurisdição sobre qualquer cidade, estado ou país — incluindo a região onde está localizada.

Verificação

No conteúdo verificado pelo Comprova, o youtuber Seu Mizuka introduz um vídeo em seu canal alegando se tratar de um “choque de realidade” sobre a situação em Genebra, na Suíça, sede da OMS. “Talvez esse vídeo seja um dos vídeos mais importantes do século, para que as pessoas possam enxergar não seguiu todas as recomendações da OMS o quão manipulado é (sic) as coisas no Brasil e no mundo”, diz ele.

O vídeo em questão mostra um cais lotado de pessoas, a maioria sem máscaras, sentadas em mesas de restaurantes e circulando ao som de música alta. A narração do vídeo, feita em espanhol por um interlocutor que não aparece, afirma que as imagens foram gravadas em Genebra em 1º de junho.

“Aqui está a sede da OMS, essa mesma que manda em todos os lugares do mundo”, diz o narrador, em espanhol, em um dos trechos do vídeo.

Publicação no exterior

O Comprova utilizou a ferramenta InVid, que busca no Google frames do vídeo, para tentar encontrar outras postagens. A primeira delas foi feita no canal “Proyecto Segunda República Río Cuarto y Sur de Córdoba”, no Facebook. Restringimos nossa busca a veículos que republicaram postagens feitas na data em que o vídeo teria sido gravado – não encontramos nenhuma feita antes de 1º de junho.

A maioria das publicações encontradas consta em canais do YouTube e portais argentinos e espanhóis, incluindo dois veículos da Argentina: El Entre Ríos e Crónica TV. Ambos os sites alegam que o vídeo foi feito por um argentino que vive em Genebra, repetindo afirmação de Hang nas redes sociais. Enviamos e-mails para as duas redações questionando onde conseguiram o vídeo e não recebemos nenhum retorno até a publicação do texto.

Entramos em contato com um perfil no Facebook de uma mulher chamada Liliana Dayan, que diz viver em Buenos Aires, e publicou o vídeo em 1º de junho – mesma data em que supostamente foi gravado. Ela não nos retornou.

O vídeo também viralizou ao ser compartilhado pelo cantor espanhol Miguel Bosé, em 4 de junho. O músico disse que a pandemia é uma farsa. A fala de Bosé repercutiu em veículos como o Record (Portugal), El Periódico (Espanha) e até em portais esportivos espanhóis como Marca e Mundo Deportivo. Em março deste ano, a atriz Lucia Bosé, mãe do cantor, morreu em decorrência de uma pneumonia. Inicialmente foi divulgado que ela teria falecido pelo novo coronavírus, mas depois o diagnóstico foi descartado.

Narração real?

Alguns dos comentários feitos em canais do YouTube questionam se a narração é original ou se foi enxertada por cima do vídeo. “Pode ser uma gravação por cima do vídeo. Muito ruim publicarem assim”, escreveu o usuário identificado como Juan Pignata. Acima, o comentário do internauta Simon Gatti questiona a veracidade do vídeo: “Preciso de um indício, qualquer um, que me diga que a afirmação é atual. Simples assim”.

O Comprova não conseguiu descobrir se o vídeo foi modificado antes de ir ao ar.

Imagens são de Genebra

Outro comentário feito em um dos canais do Youtube indica que as imagens foram feitas na praça “Bains des Paquis”, um dos pontos turísticos de Genebra.

O Comprova conseguiu confirmar a informação verificando a localidade citada no Google Maps. No vídeo, várias vezes, o narrador afirma que ali se encontra a sede da OMS, o que pode induzir o espectador ao erro. O prédio da organização fica mesmo em Genebra, mas não no local onde foram feitas as filmagens.

Também pelo Google Maps, verificamos que a distância entre o “Bains des Paquis” e a sede da OMS é de 3,8 km.

Conforme esta reportagem da CNNMoney Suíça, os bares, restaurantes e cafés do país foram autorizados a reabrir no dia 11 de maio, depois de oito semanas de restrição no funcionamento. Diante da flexibilização da quarentena, perguntamos a dois funcionários de hotéis próximos ao “Bains des Paquis” se havia movimentação na data dos vídeos.

O Comprova conversou por telefone com o recepcionista Florence, do hotel President Wilson, em frente à Bains des Paquis, que relatou que “está tudo funcionando. Tudo aberto mesmo. É como se não tivesse nada.”

Em outra ligação, desta vez com a recepcionista Charla, do hotel Le Richemond, também próximo ao local, a informação foi similar: “Tem gente, sim, nas ruas. Os restaurantes estão abertos, mas alguns fechados porque não quiseram abrir”. Questionada se há orientação do governo suíço para que bares e restaurantes se mantenham fechados, ela respondeu: “Não, no momento, não! Tudo está aberto e tudo está bem”.

Segundo a página do ponto turístico no Facebook, os únicos serviços que ainda não haviam retornado, de saunas e massagens, voltaram a funcionar no dia 6 de junho.

OMS não pode dar ordens

No vídeo, o narrador acusa a OMS de ser a responsável pelas medidas adotadas para tentar conter o vírus. “Aqui está a sede da OMS, essa mesma que manda o mundo todo usar máscaras (…), que nos obriga a manter distanciamento de um metro entre as pessoas”, diz.

No entanto, não é função do órgão dar ordens. A OMS pode recomendar diretrizes, mas não possui poder de fiscalização.

A entidade pode alertar os países dos riscos do novo coronavírus (e diversas outras questões de saúde), apresentar dados consolidados sobre a situação da pandemia no mundo e até orientar quais ações podem ser tomadas no combate à doença. Mas ela não tem poder para aplicar multas ou interferir em um país que não cumprir as recomendações.

Isso se aplica também à cidade de Genebra e à Suíça. Mesmo sediando o órgão, nem a prefeitura e nem o país têm a obrigação de seguir com os protocolos recomendados pelo órgão internacional.

Situação da Covid-19 na Suíça

A Suíça registrou o primeiro caso do novo coronavírus no dia 25 de fevereiro, no cantão (uma das unidades da federação) de Ticino, que faz fronteira com a Itália. Três dias depois, em 28 de fevereiro, o Conselho Federal (o Poder Executivo do país) classificou a situação como “especial”, com base em uma legislação voltada para períodos de epidemia, e passou a tomar decisões que, normalmente, caberiam aos governos regionais. Na mesma data, passou a ser proibida a realização de grandes eventos, com mais de mil pessoas. A 43ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, prevista para ocorrer no começo de março, em Genebra, acabou sendo cancelada.

A partir de 13 de março, o país passou a adotar uma série de medidas para prevenir a ampliação da epidemia no território nacional, impedir a entrada de estrangeiros que pudessem estar contaminados e melhorar a estrutura de atendimento e tratamento aos doentes. As determinações vão do fechamento das fronteiras e espaços de lazer, como cinemas, teatros e boates, à paralisação das aulas presenciais dos estudantes de nível fundamental e médio.

As restrições impostas pelo governo suíço começaram a ser relaxadas no dia 27 de abril, conforme decisão do dia 16. Na data da reabertura, o país ainda tinha um total de 5.299 casos ativos da covid-19, com 22.200 pessoas recuperadas da doença, e 1.665 mortes, segundo o monitoramento realizado pela Universidade Johns Hopkins.

O processo de reabertura e retomada das atividades econômicas foi feito de forma gradual e coordenada pelo governo central do país. Os bares, cafés e restaurantes, como os que aparecem no vídeo, foram autorizados a reabrir no dia 11 de maio, em uma segunda fase da flexibilização da quarentena.

Também passou a ser permitido praticar esportes — tudo com a garantia da adoção de medidas de higiene e um mínimo distanciamento social. A partir desta data, quando o país registrava 1.699 casos ativos da doença, as autoridades passaram a traçar as origens e contatos de todos os novos casos registrados da covid-19.

No dia 30 de abril, a campanha nacional de prevenção ao novo coronavírus mudou o nível de alerta para o “rosa”’, que indicava a atenção ao distanciamento social e às medidas de higiene – sobretudo lavar as mãos, mas o país não adotou o uso obrigatório de máscaras nos espaços públicos.

A reabertura das fronteiras com a Alemanha, Áustria e França, bem como a permissão de entrada de estrangeiros da União Europeia e Reino Unido está prevista para o próximo dia 15.

Situação em Genebra

O cenário do país e da cidade é bem parecido. Segundo o monitoramento publicado pelo Google, consultado no dia 10 de junho, a curva epidemiológica está praticamente estabilizada, depois de uma forte queda no registro diário de novos casos.

Ao todo, a cidade registra 5.142 casos do novo coronavírus, e contabilizou, até 10 de junho, 259 mortes. Na comparação com o restante do país, o único dado que chama a atenção é o número de casos registrados por milhão de habitantes: proporcionalmente, Genebra teve bem mais casos (10.295) do que o país como um todo (3.612). A Suíça também está bem acima da média global, que é de 905 casos a cada um milhão de pessoas.

Considerando que o vídeo verificado tenha sido realmente gravado no dia 1º de junho, a cidade já não tinha novos casos há três dias. O último registro de novas infecções em maio (e não há dados disponíveis sobre junho) ocorreu no dia 27, quando 3 casos foram confirmados.

No dia 10 de junho, se subtraídos os casos de pessoas recuperadas e os de óbitos, a Suíça ainda registrava 377 casos ativos do novo coronavírus, segundo o mapa global da Johns Hopkins.

Contexto

O questionamento das orientações dadas pela OMS no combate à pandemia da covid-19 tem sido uma constante nos discursos que tentam minimizar a doença. Nos Estados Unidos, Donald Trump já acusou o braço da ONU na saúde de estar ligado à China, e o país norte-americano chegou a romper com o órgão.

No Brasil, os ataques de Jair Bolsonaro à Organização Mundial da Saúde são frequentes, e o presidente, nesta semana, insinuou que a intenção das recomendações seja “quebrar os países”.

Frequentemente, os apoiadores de Bolsonaro e Trump acusam a OMS de contradições nas medidas recomendadas e dão a entender que o órgão não está seguindo as próprias orientações — o que não condiz com a verdade, já que, como apontado nesta verificação, a organização atua apenas de forma recomendatória.

Alcance

Até o dia 10 de junho, todas as páginas mantiveram os respectivos conteúdos no ar. O vídeo de Seu Mizuka apresentava, no YouTube, 277.616 visualizações, 56 mil curtidas e 625 descurtidas. No Twitter, foram 21 retuítes e 68 curtidas.

Somando todos os outros compartilhamentos, até 10 de junho o YouTube registrou 365.483 visualizações, 6.025 curtidas e 379 descurtidas. No Facebook, as postagens somam 26.824 interações e 3,1 mil compartilhamentos. Já no Twitter, foram 16,5 mil visualizações, 2.381 retuítes e 5.200 curtidas. No Instagram, o vídeo teve 350.818 visualizações.

Pandemia

Investigado por:2020-06-10

É verdade que criança com suspeita de covid-19 foi colocada em caixão lacrado e, mais tarde, testou negativo

  • Comprovado
Comprovado
O procedimento de lacrar o caixão é padrão em casos de óbitos confirmados ou com suspeitas de coronavírus, como é o caso da morte de uma menina cujo caixão aparece em vídeo publicado nas redes sociais sendo aberto pela família. O resultado do exame foi divulgado somente uma semana depois e o teste deu negativo

É verdadeira a história que circula nas redes sociais de que uma criança com suspeita de covid-19 foi colocada, sem limpeza, dentro de caixão lacrado. Ela, contudo, não havia sido infectada pelo novo coronavírus, de acordo com resultado do exame divulgado uma semana depois. Um vídeo, que mostra o momento que a família abre a urna e se depara com a menina suja de sangue, viralizou na internet.

O caso ocorreu na cidade de Touros, no Rio Grande do Norte, no dia 19 de maio. A menina seria enterrada com a urna lacrada por suspeita de covid-19, mas a família abriu o caixão e descobriu que a limpeza do corpo não havia sido realizada para o sepultamento. O procedimento de lacração é padrão em casos de suspeita de contaminação pelo novo coronavírus, de acordo com o Guia para o Manejo de Corpos no Contexto do Novo Coronavírus – COVID-19 do Ministério da Saúde.

A Prefeitura de Touros abriu um processo administrativo para investigar o que ocorreu. E informou, uma semana após o fato, que o resultado do teste da criança deu negativo para o novo coronavírus e que o óbito não foi contabilizado nas estatísticas do estado de mortes relacionadas à pandemia.

Por que investigamos?

O Comprova monitora conteúdos sobre o novo coronavírus compartilhados em redes sociais e aplicativos de mensagens que tenham grande alcance e repercussão. No caso do vídeo investigado, em uma publicação no Facebook, no dia 22 de maio, ele foi visto por cerca de 8,4 milhões de pessoas.

Além disso, a história é compartilhada em um contexto em que mensagens tentam minimizar os efeitos da pandemia e questionam informações fornecidas por órgãos oficiais, alegando uma suposta supernotificação de casos contabilizados de mortes causadas pela covid-19 no Brasil.

Em maio, o Comprova fez uma verificação de uma publicação enganosa a partir de um post que continha a foto de um caixão aberto com um travesseiro dentro. A alegação era de que caixões vazios estariam sendo enterrados no estado do Amazonas. A imagem era, na realidade, de 2017 e foi publicada em uma reportagem que denunciava um golpe para resgate de seguro de vida.

O selo comprovado, para o Comprova, é fato verdadeiro, evento confirmado, localização comprovada ou conteúdo original publicado sem edição.

Como verificamos?

Para verificar a origem do vídeo, o Comprova utilizou busca reversa de imagens, a partir do Google Imagens, quando retratos paralisados do vídeo são usados para achar outras publicações da mesma gravaçã,. Também foi usada a pesquisa avançada em buscadores para encontrar registros do caso.

O sepultamento teve cobertura local do portal “Agora RN” e do programa “Primeiro Impacto”, do SBT. Nas redes sociais da prefeitura do município de Touros também foram encontrados comentários sobre o acontecimento.

O Comprova entrou em contato com a prefeitura por telefone. A Polícia Civil do Rio Grande do Norte também foi procurada e não retornou. Já a funerária que prestou o serviço disse que não iria se pronunciar sobre o assunto. O Comprova não conseguiu contato com a família.

Verificação

Segundo informações da Secretaria Municipal de Saúde, a criança de 9 anos deu entrada no Hospital de Touros com falta de ar, às 21h30 do dia 18 de maio. O caso se agravou e a menina morreu. Na declaração emitida pela unidade, o motivo da morte era “insuficiência respiratória aguda e suspeita de covid-19”. O diagnóstico, contudo, foi contestado pela família, segundo a própria prefeitura.

O serviço funerário foi realizado com auxílio da prefeitura. Como havia suspeita de infecção pelo novo coronavírus, o caixão foi lacrado, conforme orientação do Ministério da Saúde.

No dia do sepultamento, familiares da menina, que contestavam o diagnóstico, resolveram abrir o caixão. O vídeo que circula na internet mostra o momento em que a urna é aberta e a criança aparece morta apenas com um pedaço de pano cobrindo o corpo, sem a devida limpeza. Nas imagens é possível ver sangue escorrendo do nariz da menina.

Revoltada, a mãe da criança diz que jogaram a menina como um bicho dentro do caixão e que esse teria sido o motivo para lacrar a urna. Em entrevista ao SBT, ela informou que tinha certeza de que a filha não estava com o novo coronavírus e que os médicos sabiam que esta não era a causa.

O vídeo da família abrindo o caixão viralizou nas redes sociais. Em um canal do Youtube ele havia sido visualizado mais de 75 mil vezes até a noite desta segunda-feira, dia 8 de junho. Os comentários acusavam a prefeitura de esconder o verdadeiro motivo da morte.

O secretário de Saúde do município, Higor Andrade, se manifestou no dia 20 de maio numa rede social. Ele informou que o hospital seguiu todos os protocolo do Ministério da Saúde e que aguardava o resultado do teste de covid-19 realizado na criança após o óbito. Disse também que a prefeitura havia aberto um processo administrativo para apurar o que aconteceu e porque a limpeza do corpo não foi feita. Segundo o órgão, apesar de o auxílio funerário ser concedido pela Secretaria de Assistência Social, o serviço é terceirizado.

Cinco dias depois, a prefeitura voltou a se manifestar nas redes sociais. Por meio de nota, o órgão informou que o resultado do exame da criança era negativo para o novo coronavírus e que a causa da morte da menina seria alterada no sistema de informação de mortalidade do município.

O Comprova entrou em contato com o Secretário de Saúde de Touros, Higor Andrade, por telefone. Ele confirmou a abertura do processo administrativo e disse que o caso da criança nunca foi contabilizado nas estatísticas do novo coronavírus divulgadas pelo município. Contudo, havia suspeita de covid-19 na declaração de óbito e por isso o caixão foi lacrado. A funerária também foi procurada. Uma funcionária informou que os proprietários não iriam se manifestar.

Verificação do Comprova mostrou que as mortes por covid-19 só são incluídas nas estatísticas oficiais após a realização de exames.

O caso também é investigado pela Polícia Civil do estado, mas a Secretaria de Segurança do Rio Grande do Norte não retornou aos pedidos de comentário feitos pelo Comprova.

Contexto

Touros é uma cidade no interior do Rio Grande de Norte com aproximadamente 33 mil habitantes, segundo dados do IBGE. Até esta terça-feira, 09 de maio, o município registrava 118 casos confirmados de covid-19 e seis óbitos causados pela doença, segundo boletim divulgado pela Prefeitura.

No Rio Grande do Norte, 153 dos 167 municípios possuem casos confirmados do novo coronavírus. Ao todo, 11.027 pessoas já foram contaminadas e 459 já morreram no Estado, de acordo com dados do Ministério da Saúde..

Os números divulgados pelos Estados foram foco de polêmica recentemente. O empresário Carlos Wizard, que estava cotado para assumir a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, informou que o governo iria recontar as mortes no Brasil, pois os dados atuais seriam “fantasiosos ou manipulados”.

Wizard afirmou que os números estavam sendo inflados e que muitos gestores públicos, por interesse em ter um orçamento maior, estavam notificando todos os casos de morte como covid-19.

A fala do empresário gerou revolta entre governadores estaduais e foi repudiada pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). Wizard desistiu do cargo no Ministério e disse que havia sido mal interpretado.

Na última sexta-feira, 5 de junho, o governo tirou do ar o painel da covid-19 do site do Ministério da Saúde. Ao retornar com o portal, a pasta passou a divulgar apenas os dados das últimas 24 horas, sem dados acumulados de mortes e pessoas contaminadas pelo novo coronavírus. Após decisão do Supremo Tribunal Federal, o governo teve que voltar a divulgar o total de números nesta terça-feira.

Alcance

Até esta terça-feira (9), uma publicação no Facebook com o vídeo tinha 8,4 milhões de visualizações. Postada no dia 22 de maio, a legenda que acompanha a gravação não possui nenhuma informação falsa, mas está desatualizada: o teste com o resultado negativo ainda não havia sido divulgado. No YouTube, uma postagem de 20 de maio havia sido visualizada por 75 mil pessoas.

Comunicados

Investigado por:2020-06-10

Projeto Comprova inicia terceira fase com 28 veículos de comunicação

  • Fase 3
Fase 3
Ação colaborativa de combate à desinformação e a conteúdos enganosos na internet agora conta com veículos de todas as regiões do Brasil

Depois de um expediente especial de 75 dias dedicado exclusivamente à verificação de conteúdos suspeitos sobre o novo coronavírus e a covid-19, o Projeto Comprova começa nesta quarta-feira, 10 de junho, a terceira fase de suas operações de combate à desinformação e a conteúdos enganosos na internet.

Coordenada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a coalizão, que tem apoio do Facebook e do Google News Initiative, foi ampliada em 2020 para 28 organizações de mídia de todo o Brasil. Seis novos veículos de comunicação ingressam no projeto: Gazeta do Sul (RS), Correio do Estado (MS), Correio de Carajás (PA), Diário do Nordeste (CE), Estado de Minas (MG) e O Popular (GO).

O material produzido pelo Projeto Comprova pode ser republicado também por organizações que não façam parte da coalizão, já que os conteúdos têm licença Creative Commons, ou seja, podem ser republicados por qualquer veículo interessado, desde que haja atribuição ao Comprova e o conteúdo não seja alterado.

Nesta terceira fase, o Comprova vai retomar o monitoramento e a verificação de conteúdos suspeitos sobre políticas públicas do governo federal e eleições municipais, além de continuar investigando boatos sobre a pandemia de covid-19.

As equipes do Comprova vão checar textos, imagens e áudios compartilhados nas diversas plataformas de redes sociais e em aplicativos de mensagens seguindo metodologias desenvolvidas pela First Draft, organização internacional que pesquisa desinformação e oferece treinamento para jornalistas que atuam no combate ao fenômeno.

O objetivo dessa iniciativa é engajar cidadãos no combate à desinformação e limitar a circulação de boatos infundados sobre políticas públicas e de teor eleitoral em redes sociais e aplicativos de mensagens. A coalizão do Comprova verifica conteúdos suspeitos que se tornaram virais ou que tenham grande potencial de disseminar informações enganosas ou falsas.

O público pode denunciar conteúdos suspeitos ou falsos relacionados aos temas que estão no escopo do projeto e sugerir verificações por meio de um número de WhatsApp – (11) 97795-0022 – e por um um formulário no site projetocomprova.com.br.

Para Marcelo Träsel, presidente da Abraji, “o ingresso de novos integrantes no Comprova reforça o espírito colaborativo do projeto, um esforço de cooperação entre redações inédito na história do jornalismo brasileiro”. Ele acrescenta: “No atual contexto de guerrilha política baseada em desinformação e retrocessos na transparência, contar com parceiros em todo o Brasil para verificar conteúdo sobre políticas públicas e eleições municipais é fundamental.”

Claire Wardle, diretora e cofundadora da First Draft, saudou o retorno do projeto. “Estamos muito entusiasmados ao ver a continuidade do Comprova. Houve muitas iniciativas colaborativas de verificação de informações falsas relacionadas a eleições, mas o Comprova foi o primeiro a mostrar que as informações enganosas on-line não cessam com o fechamento das urnas e que projetos mais perenes são necessários. O Comprova confirma também por que os jornalistas, neste momento da história, precisam fazer o máximo possível para ajudar o público a navegar no poluído ambiente da informação”.

As organizações de mídia envolvidas na terceira fase do Comprova são: A Gazeta, Gazeta do Sul, AFP, Band News, Band TV, Band.com.br, Canal Futura, Correio (da Bahia), Correio de Carajás, Correio do Estado, Correio do Povo, Diário do Nordeste (CE), Estado de Minas, Exame, Folha de S.Paulo, GaúchaZH, Jornal do Commercio, Metro Brasil, Nexo Jornal, NSC Comunicação, O Estado de S. Paulo, O Popular, O Povo, Poder360, Rádio Band News FM, Rádio Bandeirantes, revista piauí, SBT e UOL.

Google News Initiative e Facebook Journalism Project ajudaram a financiar a terceira fase do projeto, e ambas as empresas estão fornecendo suporte técnico e treinamento para as equipes envolvidas.

O Comprova é uma iniciativa da First Draft, liderada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), e tem como parceiros institucionais a ANJ (Associação Nacional de Jornais no Brasil), o Projor, a Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), a agência Aos Fatos e a RBMDF Advogados.

Os parceiros de tecnologia são CrowdTangle, NewsWhip, Torabit, Twitter e WhatsApp.

MAIS INFORMAÇÕES:

WhatsApp: (11) 97795-0022
Site: projetocomprova.com.br
Facebook: facebook.com/ComprovaBR
Twitter: twitter.com/comprova
YouTube: youtube.com/comprova
Linkedin: linkedin.com/company/projetocomprova

Pandemia

Investigado por:2020-06-09

Imagem mostra boneco de plástico em protesto, e não corpo carregado só por uma mão

  • Enganoso
Enganoso
Post usou uma foto feita em um ato realizado nos Estados Unidos para minimizar a extensão da pandemia do novo coronavírus

Uma fotografia que mostra uma pessoa carregando o que seria uma figura humana envolta em um saco plástico preto está sendo compartilhada nas redes sociais com o objetivo de desacreditar o número de mortes pela covid-19. A legenda da imagem diz que as pessoas estariam “levando o corpo só com uma mão” e afirma que deveriam “tentar disfarçar melhor”.

A fotografia original não mostra corpos de verdade e não foi tirada em um enterro. Ela foi registrada pelo fotógrafo Cristobal Herrera no dia 27 de maio, durante uma manifestação na cidade de Miami, nos Estados Unidos. O protesto fez um funeral simbólico, no qual os sacos plásticos representavam pessoas que haviam morrido de covid-19 no passado. Ou seja, a fotografia não mostra pessoas levando um corpo só com uma das mãos.

Até o dia 27 de maio, quando a fotografia foi feita, os Estados Unidos tinham confirmado mais de 100 mil mortes e 1,69 milhão de infecções pelo novo coronavírus de acordo com o painel mantido pela Universidade Johns Hopkins.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdo suspeito que tem grande alcance nas redes sociais. Vídeos e fotografias desacreditando a ciência e a gravidade da pandemia do novo coronavírus têm circulado nas redes trazendo desinformação para a população e dificultando o controle da doença.

Nesta verificação, a publicação analisada infere que o corpo mostrado na fotografia seria falso e utiliza essa afirmação para desacreditar o número de mortos pela pandemia. De fato, como mostramos na verificação, é um corpo “falso” – mas que não serve para provar nenhum ponto em relação ao número de mortos. O “corpo” foi feito com sacos plásticos e utilizado para representar pessoas reais que morreram por conta da covid-19 nos Estados Unidos.

Para o Comprova, o conteúdo enganoso é aquele retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

O Comprova fez uma busca reversa de imagem no Google e encontrou a mesma fotografia publicada em centenas de sites. As publicações mais antigas foram encontradas no site da Agência Lusa e da Agência EPA. As duas são agências de jornalismo que vendem fotografias e outros conteúdos para jornais ao redor do mundo. Em ambos os casos, a imagem estava creditada ao fotógrafo Cristobal Herrera e continha mais algumas informações — teria sido tirada no dia 27 de maio de 2020 no parque Torch of Friendship.

A partir destas informações, pesquisamos no Google sobre o evento e encontramos imagens da fotógrafa Chandan Khanna, da Agência AFP, mostrando outros ângulos do que parecia ser o mesmo evento. De acordo com a legenda, as fotografias eram de um protesto organizado pela New Florida Majority (NewFM) e os sacos plásticos pretos estariam representando corpos em um funeral simbólico. Pesquisamos nas redes sociais da NewFM e encontramos outros vídeos e fotografias dos atos realizados no dia 27 de maio. Também encontramos uma transmissão ao vivo feita neste dia a partir do parque Torch of Friendship — que, posteriormente, ficou salva como um vídeo.

Entramos em contato e conversamos com o fotógrafo Cristobal Herrera via Instagram e Facebook. Também procuramos a NewFM por Instagram e por e-mail, mas até a publicação desta verificação não recebemos resposta.

Verificação

A legenda que acompanha a fotografia afirma que a pessoa estava “levando o corpo só com uma mão”. Também diz que “podiam tentar disfarçar melhor” — esse comentário foi feito com o intuito de desacreditar a pandemia e o número de mortos pela covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Uma busca reversa da imagem no Google mostrou que a fotografia original foi capturada pelo fotógrafo Cristobal Herrera no dia 27 de maio de 2020 no parque Torch of Friendship, na cidade de Miami, na Florida, nos Estados Unidos.

Neste dia, o movimento estadunidense New Florida Majority (NewFM) organizou um protesto contra a reabertura da economia no estado da Flórida. Os manifestantes organizaram um funeral simbólico e colocaram sacos plásticos pretos para representar os corpos de pessoas que morreram pela covid-19. Durante o evento, eles fizeram uma transmissão ao vivo que, posteriormente, ficou salva no Facebook como um vídeo. Nela, é possível perceber que se trata do mesmo local — o parque Torch of Friendship — em que a fotografia foi tirada.

Por mensagem, o fotógrafo Cristobal Herrera confirmou que a imagem foi feita durante o protesto. “São corpos falsos. A legenda das fotografias é bem clara sobre a imagem. Mas algumas vezes isso [a confusão em relação à imagem] acontece porque as pessoas não leem as legendas”, afirmou Herrera. “Eles [os manifestantes] me disseram que foi um longo processo para fazer os corpos simbólicos”, complementou.

Em outros vídeos e fotografias feitos no mesmo dia, publicados pela NewFM e também pela Agência AFP, é possível observar os mesmos “corpos simbólicos” retratados na fotografia de Herrera.

Contexto

Desde o começo da pandemia do novo coronavírus, circulam nas redes sociais diversas narrativas que têm como objetivo negar ou relativizar os efeitos da covid-19. O Comprova já verificou publicações que, supostamente, mostravam covas abertas sem enterros, redução no número de mortes depois de operação policial e número de casos menor que o oficial.

Desta vez, a publicação verificada infere de maneira equivocada, a partir de uma fotografia verdadeira, que estariam enterrando “corpos falsos”. No começo de maio, diversas publicações que mostravam caixões vazios ou “cheios de pedras” foram checadas por agências independentes. O objetivo é desacreditar o número de mortos divulgados pelo Ministério da Saúde. Até o dia 8 de junho, o Brasil já tinha 37.134 mortos pela covid-19.

Alcance

O usuário responsável pelo post enganoso apagou a publicação, mas até isso ocorrer o conteúdo já tinha sido compartilhado mais de 10 mil vezes no Facebook.

Pandemia

Investigado por:2020-06-08

Protocolo de uso da cloroquina não aumentou o número de pacientes recuperados de covid-19 no Brasil

  • Enganoso
Enganoso
Post que viralizou nas redes sociais afirma que depois da adoção do “protocolo da cloroquina” o Brasil passou a ter o “número de curados quase duplicado”, mas o Comprova verificou que a porcentagem de pessoas recuperadas da covid-19 ante o número de casos da doença provocada pelo novo coronavírus se mostra estável

É falsa a afirmação de que o número de pacientes recuperados de covid-19 no Brasil aumentou depois que o Ministério da Saúde passou a recomendar o uso de cloroquina em casos leves de covid-19. O Projeto Comprova verificou o texto publicado no dia 29 de maio no site “Agora Paraná”, assinado por Oswaldo Eustáquio. O autor diz que depois da adoção do “protocolo da cloroquina” o Brasil passou a ter o “número de curados quase duplicado”. Mas os dados do Ministério da Saúde desmentem essa alegação.

O blogueiro, conhecido defensor do presidente Jair Bolsonaro, comemora que o Brasil tinha o segundo maior número de pacientes curados até um dia antes da publicação — ou seja, 28 de maio — e que havia ultrapassado a Alemanha. Em entrevista por telefone, ele disse que se baseou em dados da Universidade Johns Hopkins para chegar a essa conclusão. “Minha matéria é muito específica e clara. A fonte é uma instituição reconhecida mundialmente como a maior faculdade de ciências do mundo, e isso está no ranking [da John Hopkins], e a minha matéria não diz sobre estatística, sobre porcentagens, é sobre números [absolutos]“, afirmou.

De fato, os dados da universidade informam que, na data, o Brasil tinha o segundo lugar em quantidade de pacientes recuperados, 177.604 (veja mais detalhes abaixo). Mas a forma como Eustáquio usou a informação é enganosa já que, naquele momento, o país também era medalha de prata em infecções: 438.238 casos confirmados. Uma taxa de recuperação de 40,5%. No mesmo dia, a Alemanha registrou 163.360 pacientes livres da covid-19, mas sobre um universo de infectados muito menor: 182.196. No caso dos alemães, a taxa de recuperação mais que dobra, chegando a 89%.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos sobre o novo coronavírus, e a covid-19, doença provocada por ele, que tenham grande viralização. É o caso da reportagem do site Agora Paraná.

Esses conteúdos são relevantes pois se inserem em uma lista de materiais que circulam com o intuito de minimizar a pandemia de covid-19. O potencial negativo desses conteúdos é significativo, pois eles podem ter como resultado uma desmobilização da sociedade em praticar o isolamento social e adotar medidas de higiene necessários para combater a proliferação do vírus, para o qual não há cura ou vacina.

No Brasil, após o presidente Jair Bolsonaro defender a tese de que a pandemia não é grave e de que a cloroquina é uma alternativa para a doença, páginas conhecidas por apoiá-lo adotaram esse discurso. Nas últimas semanas, o Comprova verificou, por exemplo, conteúdos que levantavam dúvidas sobre o número de mortes por covid-19 e os registros de óbitos em cartórios.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

A equipe do Comprova foi atrás de dados sobre infecção, óbito e recuperação de pacientes de covid-19 no Ministério da Saúde e nos arquivos da Universidade John Hopkins. Com eles foi possível calcular as taxas de recuperação dos pacientes infectados aqui no Brasil e na Alemanha na data de publicação do texto verificado.

Também buscamos as diretrizes para o tratamento medicamentoso de pacientes com covid-19, divulgadas pelo Ministério da Saúde no dia 20 de maio. Esse protocolo trata do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes mesmo que estejam com sintomas leves. Determina como deve ser feita a aplicação e a dosagem. O doente deve autorizar o uso do medicamento.

Também procuramos a assessoria de imprensa do ministério, para entender se há relação entre a publicação das diretrizes e um aumento na média de pacientes recuperados de covid-19.

Ainda sobre o uso de cloroquina, buscamos as pesquisas mais recentes sobre o medicamento em todo mundo. E questionamos o Conselho Federal de Medicina para saber se é possível falar em “cura” quando se trata de covid-19.

Por fim, o Comprova entrou em contato com o autor do texto, o blogueiro Oswaldo Eustáquio. Inicialmente, o Comprova enviou um Whatsapp questionando o texto escrito por ele, que respondeu com prints de números de recuperados. Perguntado sobre a fonte dos dados, ele ligou para o Comprova.

Verificação

Não é possível afirmar que há uma relação direta entre o uso da cloroquina e a recuperação de pacientes de covid-19. No texto verificado, o autor comemora “a marca de 177 mil pessoas curadas” até o dia 28 de maio e afirma que após a “prescrição e o uso deste medicamento (cloroquina), o Brasil começou a ter o número de curados praticamente duplicado”. Os números oficiais divulgados pelo Ministério da Saúde não confirmam a afirmação. Cruzamos o número de casos confirmados até o dia da postagem (28 de maio), 438.238, com o de pacientes recuperados na mesma data, 177.604, e chegamos a uma taxa de recuperação de 40,5%. Esse índice pouco variou depois da adoção do protocolo. Era de 38,4% no dia 16 de maio e 40% no dia em que o documento entrou em vigor, 20 de maio. No dia 03 de junho era de 40,8%. Veja a variação nos gráficos abaixo.

O blogueiro diz ainda que temos “oito mil curados, em média, por dia”. De fato, nos oito dias entre as diretrizes entrarem em vigor e a publicação do texto no “Agora Paraná” a média de pacientes recuperados, ainda segundo os dados do ministério, foi de 7,8 mil por dia. Mas o número de “curados” não foi “duplicado”, como ele alega. Nos oito dias que antecederam o protocolo a média foi de 4,9 mil pacientes recuperados por dia.

Calculamos também o número de óbitos em relação ao total de infecções. Essa taxa sofre uma pequena variação depois da adoção do protocolo. Era de 6,7% em 16 de maio, dia em que foram registradas 15.633 mortes. No dia 20 de maio foram 18.859, 6,4% do total. No dia da publicação do texto verificados, 28 de maio, o registro foi de 26.754 mortes, 6,1% do total de casos confirmados. Confira o gráfico.

Quem é Oswaldo Eustáquio

Filho de pai militar e mãe paraguaia, Eustáquio se define no Twitter como “jornalista investigativo, apaixonado pela verdade, inimigo da corrupção. Conservador”. Ele assina textos no site “Agora Paraná” que publica conteúdos enviesados e distorcidos, como o publicado no dia 3 de junho que informa que Eustáquio teria sido arrastado pelo carro da reportagem do “Estadão”. Segundo nota da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), “a versão do vídeo divulgada por militantes bolsonaristas não (…) inclui o momento em que Eustáquio tenta impedir a equipe do ‘Estadão’ de deixar o local, ao manter sua mão na porta do carro”.

Em fevereiro deste ano, Eustáquio foi condenado pela Justiça a pagar R$ 15 mil por publicar uma informação falsa envolvendo o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, do site The Intercept Brasil.

Em uma reportagem da TVCI, de Paranaguá (PR), publicada em maio de 2019 no YouTube, Eustáquio se diz “amigo pessoal” da ministra Damares Alves e conta que trabalhou na comunicação da pasta durante a transição, no início do governo Bolsonaro. A matéria é sobre a saída de Eustáquio da emissora, onde ele ficou por oito anos no comando do jornalismo, e sua mudança para Brasília. “Fiquei de dezembro até fevereiro na condução da comunicação do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, da ministra Damares Alves, minha amiga pessoal. Fiz toda essa transição. Agora vou a Brasília trabalhar com comunicação”, ele diz na reportagem.

Ainda sobre a relação de Eustáquio com o governo federal, sua mulher, a indígena Sandra Terena, é secretária nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Mais recentemente, em maio, ajudou a criar o acampamento “Os 300 do Brasil”, em Brasília. Segundo a ativista de grupo de extrema direita Sara Winter contou em uma Live com o blogueiro, foi ele quem teve a ideia: “O Oswaldo falou assim, ‘acho que a gente tinha que chamar todo mundo para acampar aqui em Brasília; a gente tinha que fazer um acampamento, se mobilizar’”.

Existe cura para a covid-19?

Um paciente que foi diagnosticado com covid-19 é considerado “recuperado” depois de dois resultados negativos em exames laboratoriais para SARS-CoV-2. Isso costuma acontecer 14 dias depois da infecção inicial. O Ministério da Saúde brasileiro segue esta orientação.

Para o Conselho Federal de Medicina, ainda não há medicamentos capazes de “curar” a covid-19. Por e-mail, o CFM disse que “até o momento, não existem evidências robustas de alta qualidade que possibilitem a indicação de uma terapia farmacológica específica para a covid-19”. Para o Conselho, há justificativas para o uso de a cloroquina e a hidroxicloroquina no tratamento de covid-19 por causa da ação anti-inflamatória, do baixo custo e dos efeitos colaterais conhecidos dos medicamentos. Mas ressalva: “não existem até o momento estudos clínicos de boa qualidade que comprovem sua eficácia em pacientes com covid-19. Esta situação pode mudar rapidamente, porque existem dezenas de estudos sendo realizados ou em fase de planejamento e aprovação”.

Eficácia em xeque

Um estudo sobre a eficácia da cloroquina foi divulgado pelo New England Journal of Medicine no dia 3 de junho. Realizado por pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos EUA, com 821 norte-americanos e canadenses risco alto a moderado de contrair covid-19. O teste foi planejado de acordo com padrões científicos internacionais. Parte dos voluntários recebeu uma dose diária de hidroxicloroquina — forma menos tóxica da cloroquina — ao longo de cinco dias. Outro grupo recebeu placebo. A conclusão foi de que a hidroxicloroquina não foi eficiente para prevenir a infecção pelo novo coronavírus. “Foi decepcionante, mas não surpreendente”, declarou em entrevista o pesquisador David Boulware.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), a Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e a Associação Médica Brasileira (AMB) são algumas das organizações científicas e profissionais que publicaram orientações e recomendações reforçando que ainda não há evidências que comprovem a eficácia do medicamento, e que sua eventual aplicação seja feita conforme a situação ou protocolo determinado.

Protocolo para uso da cloroquina

A partir de maio, o Ministério da Saúde passou a orientar a prescrição da cloroquina e da hidroxicloroquina já a partir de sintomas leves. O protocolo sugere o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina associadas ao antibiótico azitromicina desde o primeiro dia, com doses que aumentam de acordo com a gravidade e com o tempo de infecção. Por e-mail, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde ressaltou que “o Sistema Único de Saúde (SUS) é tripartite e funciona com a articulação das ações entre Governo Federal, estados e municípios. Sendo que cada esfera tem autonomia para tomar decisões que estão sob a sua gestão”, inclusive sobre o uso do medicamento.

No protocolo, há uma série de exames que precisam ser realizados antes que a cloroquina seja indicada, como eletrocardiograma e diagnóstico para covid-19. O texto também ressalva que faltam estudos para embasar o uso dos medicamentos. “Não há meta-análises de ensaios clínicos multicêntricos, controlados, cegos e randomizados que comprovem o benefício inequívoco dessas medicações para o tratamento da covid-19”, diz. Por fim, o protocolo é claro ao deixar a decisão final sobre o uso da cloroquina nas mãos do médico e do paciente, que precisa assinar um Termo de Ciência e Consentimento.

Ainda por e-mail, a assessoria do Ministério da Saúde informou que “não possui o levantamento de pacientes que adotaram o protocolo de uso de cloroquina no tratamento para a covid-19 nem o número de pacientes recuperados que fizeram o uso deste medicamento”.

Contexto

Mesmo sem eficácia comprovada, o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina tem sido defendido pelo presidente Jair Bolsonaro desde o começo da pandemia. Não há nenhum estudo internacional que reconheça a eficiência do medicamento. Ainda assim, Bolsonaro e seus seguidores insistem em defender a prescrição, alinhados ao discurso do presidente norte-americano Donald Trump.

A polêmica sobre o uso da cloroquina foi pivô da demissão de dois ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em 16 de abril, e Nelson Teich, em 15 de maio. Desde então, a pasta está nas mãos do general Eduardo Pazuello, promovido de secretário-executivo a ministro interino pelo presidente Jair Bolsonaro, no dia 03 de junho. Foi sob o comando dele que o Ministério da Saúde publicou o protocolo de uso da cloroquina no combate ao novo coronavírus.

Críticas ao distanciamento social

As críticas às medidas de distanciamento social são outro lugar-comum entre os apoiadores de Jair Bolsonaro, e Oswaldo Eustáquio não é diferente. O blogueiro acredita governadores e prefeitos vão manter as populações isoladas “enquanto houver dinheiro público para gastar sem licitação”. Essa ideia aparece com frequência em boatos sobre a pandemia, numa tentativa de enfraquecer as políticas de isolamento que vão contra as ideias do presidente. O Comprova já verificou desinformação sobre desvios de dinheiro público.

No texto verificado Eustáquio afirma, sem provas, que o número de “curados” é uma informação “escondida a sete chaves pela grande mídia” para “assustar e enganar a população através dos meios de comunicação de massa para legitimar os governos estaduais e a manterem o lockdown”. Na contramão desse raciocínio, as políticas de isolamento têm sido afrouxadas pelos estados nas últimas semanas, depois que o protocolo foi publicado.

Alcance

Os dados coletados até o dia 08 de junho mostram que o texto de Oswaldo Eustáquio teve bastante alcance nas redes sociais, embora nem sempre associado ao nome do blogueiro. O texto original, publicado no site “Agora Paraná” teve 28,1 mil interações. O link foi reproduzido pelo perfil de Twitter de Eustáquio, alcançando 5,4 mil likes e 2,5 retweets.

O site “Canal Gama” reproduziu o texto na íntegra e, embora tenha dado crédito ao “Agora Paraná”, não usou o nome de Oswaldo Eustáquio. Nessa página foram 10,6 mil interações. Já no perfil de Facebook ligado ao site foram mil compartilhamentos.

Pandemia

Investigado por:2020-06-06

Hospitais não estão “provocando a morte” de pacientes

  • Enganoso
Enganoso
Vídeo que circula nas redes sociais afirmando que hospitais estariam “provocando a morte” de pessoas com outras doenças para poder registrá-las com covid-19 tem informações enganosas com o objetivo de desacreditar a gravidade da pandemia do novo coronavírus

É enganoso um vídeo publicado no Facebook afirmando que hospitais estariam “provocando a morte” de pessoas com outras doenças para poder registrá-las com covid-19.

No vídeo, uma mulher afirma que durante a internação no Hospital Casa Italiano, no Rio de Janeiro, foi submetida a procedimentos que não havia autorizado e que também recebeu medicamentos que não poderia tomar porque era alérgica. Ela ainda diz que foi privada de higiene, de contato com a família e que foi isolada em uma área destinada para pacientes com covid-19 mesmo sem ter diagnóstico da doença. Por fim, sugere que as pessoas que tenham sintomas e complicações da covid-19 não procurem hospitais e se tratem em casa.

Em nota, o diretor médico do Hospital Casa Italiano, Vitor Luiz Ferreira Gomes, informou que “as alegações que a paciente passa no vídeo em questão são mentirosas e falsas”. De acordo com o hospital, a mulher do vídeo realmente esteve internada no hospital entre os dias 12 e 19 de maio. Ela teve diagnóstico de covid-19 confirmado por exame RT-PCR e tomografia.

Ainda segundo o hospital, a mulher deixou o local sem ter recebido alta. A instituição alega não poder enviar os exames por se tratar do sigilo médico, apenas a paciente poderia fazer tal solicitação.

Na gravação, a mulher conta que, após deixar o hospital, recebeu a visita de um médico em casa, e que, dias depois, estava bem. O profissional é Raul de Amoedo Monteiro, que confirma o atendimento. Ele diz que não viu exames nessa visita e que não achou que os sintomas de febre e tosse pudessem ser de covid-19. Diagnosticou-a com resfriado e, por conta da idade da paciente, receitou antibióticos e expectorante.

De acordo com Monteiro, ela relatou que havia ficado nervosa no hospital porque viu pessoas passando muito mal e não estava se sentindo da mesma forma. “Ela estava muito ansiosa, e juntou com a perda da filha”, disse o médico. Ele refere-se à morte da filha de Luzia no dia 10 de maio por um infarto, um dia antes de ser internada – fato que ela conta no vídeo. A equipe assistencial do Hospital Casa Italiano também ressaltou que ela parecia nervosa por causa da perda da filha.

Ainda segundo Monteiro, dez dias depois de consultá-la em casa, Luzia foi a sua clínica, em uma consulta de retorno, e estava bem.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos suspeitos que circulam nas redes sociais e alcançam grande audiência. Vídeos e declarações desacreditando a medicina e a ciência têm circulado nas redes, trazendo desinformação para a população e dificultando o controle do novo coronavírus. No vídeo em questão, há uma grave denúncia de que profissionais da saúde estariam “provocando a morte” de pessoas com outras doenças para diagnosticar de forma adulterada com covid-19″.

Além disso, Luzia Maria Medeiros Menezes, a senhora que aparece na gravação, é clara ao dizer que as pessoas não devem ir ao hospital: “Quem tiver seus parentes, não vá para o hospital. O hospital está matando do nada. Eu vi com esses olhos que a terra há de comer um dia, eu vi. Muita gente morrer sem ter nada”. A declaração vai contra recomendação médica e pode levar pessoas que estejam com sintomas a interpretarem que não devem buscar ajuda médica em hospitais – o que pode levar a complicações em caso de covid-19 e à morte.

Como afirmou por WhatsApp o Hospital Casa Italiano, que Luzia acusa de maus-tratos, “este tipo de postagem acaba por afastar as pessoas dos hospitais, e muitos poderão vir a óbito em casa como vem acontecendo, ao ficarem com medo de irem aos hospitais”.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos

Utilizando a ferramenta InVID, foi possível dividir o vídeo analisado em diversas fotografias. Em um determinado momento da filmagem, a mulher mostra uma pasta de exames que contém um nome. Utilizando um software simples de edição, como o Microsoft Paint, foi possível aproximar a imagem e identificar o nome dela. A legibilidade não era a adequada e não era possível compreende todos os sobrenomes da mulher, mas foi possível ler “Luzia Maria”.

Em uma busca simples na plataforma Twitter com os dizeres “Luzia Maria” foi possível encontrar o mesmo vídeo publicado por uma conta com apenas cinco seguidores. No texto do tuíte, constava que o nome da paciente era “Luzia Maria Medeiros Meneses”. Depois disso, uma busca no Google mostrou uma reportagem do jornal Extra, de 2016, que entrevistava uma “Luzia Maria Medeiros Menezes”, com a letra “z” no lugar da “s” no último sobrenome. A fotografia da reportagem era de uma mulher muito parecida com a que gravou o vídeo analisado.

Entramos em contato com a jornalista que escreveu a reportagem para o Extra para tentar obter mais informações, mas a repórter informou que não possuía mais detalhes sobre a mulher entrevistada. A partir deste ponto, como os indicativos mostravam que existia uma grande chance de as duas mulheres serem a mesma pessoa, partimos para uma busca manual no Facebook. Como o hospital em que ela se consultou ficava localizado no Rio de Janeiro, delimitamos a busca por pessoas que tinham marcado na rede social que viviam na capital fluminense.

Encontramos diversos perfis e, entre eles, um com uma fotografia com enorme similaridade com a Luzia que gravou o vídeo. Ao pesquisar nas publicações recentes, pudemos nos certificar que o vídeo pertence realmente à Luzia Menezes. Em 28 de maio, ela publicou o vídeo com a legenda: “Gente por favor me ajude a compartilhar esse meu testemunho até chegar em alguma autidsde (sic) [autoridade]

Paralelamente, procuramos os hospitais que Luzia cita no vídeo.

Entramos em contato com o Hospital São Vicente de Paulo por meio de sua assessoria de imprensa. A equipe de comunicação nos enviou resposta por meio de e-mail.

Conversamos por telefone com o diretor médico Vitor Luiz Ferreira Gomes, do Hospital Casa Italiano. Também ligamos para o médico Raul de Amoedo Monteiro, que atendeu Luzia em casa depois que ela deixou o Hospital Casa Italiano.

Ainda consultamos o protocolo de manejo clínico do Ministério da Saúde para verificar se as práticas descritas à reportagem condizem com as recomendações oficiais.

Verificação

Hospital São Vicente de Paulo

Luzia Maria Medeiros Menezes afirma, na filmagem, que foi atendida primeiramente no Hospital São Vicente de Paula. Na verdade, ela foi atendida no Hospital São Vicente de Paulo — e não Paula. Por e-mail, o hospital confirmou que ela esteve na instituição no dia 11 de maio. “Após exame clínico e alguns exames iniciais, ela ficou em observação em nossa emergência. Devido às suas queixas, a paciente foi submetida a exames complementares e nossa equipe recomendou internação para investigação da covid-19”, afirma o hospital. Como não existia vaga para internação na unidade, foi recomendado que ela procurasse outro hospital. Luzia foi, então, ao Hospital Casa Italiano.

Acusações contra o Hospital Casa Italiano

Na filmagem, Luzia Menezes faz diversas acusações contra o Hospital Casa Italiano, no Rio de Janeiro. Ela afirma que foi internada no isolamento como se tivesse covid-19. Em nota, o Hospital Casa Italiano afirmou que Luzia foi submetida ao teste para confirmar a presença do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e o resultado foi positivo pelo método RT-PCR. O diretor médico da instituição, Vitor Luiz Ferreira Gomes, afirmou que o exame foi coletado no dia 12 de maio e que o resultado demorou seis dias para ficar pronto. Ainda de acordo com o médico, Luiza Menezes tinha uma saturação de oxigênio em torno de 60% (quando níveis normais são superiores a 95%) quando chegou ao hospital e exames realizados em outra instituição mostravam um comprometimento de 25% do pulmão — sinais compatíveis com a covid-19, que posteriormente foi confirmada.

No vídeo, Luiza Menezes ainda afirma que foi “cortada” e “retalhada” no pescoço, peito, virilha e braço. Em nota, o hospital afirmou que “os pacientes não são cortados como alegado” e que “pacientes graves necessitam de monitorização da pressão arterial (PAM), feitas por punção com critérios específicos pela equipe médica para controle do quadro, assim como medicações venosas, todos prescritos individualmente a critério médico no prontuário do doente”.

Luzia também acusa o hospital de falta de higiene, afirmando que ficou dias sem tomar banho e lavar a boca. Em nota, o hospital negou todas as acusações e afirmou que tem “cirurgiãs dentistas que visitam os pacientes para higiene oral reduzindo as infecções orais e pulmonares. Os pacientes recebem roupas adequadas para internação, banhos diários usando Drybath, além de lençóis e cobertores da hotelaria”, afirma a nota.

Na filmagem, Luzia ainda acusa o hospital de aplicar dois medicamentos (AAS e Berotec) mesmo com recusas e avisos de que seria alérgica. Em entrevista por telefone, o diretor médico da instituição afirmou que ela deixou de tomar dois medicamentos que constam do protocolo de atendimento porque se recusou. “Os medicamentos que ela informou serem alérgicos não foram ministrados. Isso está tudo no prontuário”, afirmou Vitor Luiz Ferreira Gomes.

A mulher também diz que o hospital “não tinha médicos, só enfermeiros” e que ficou isolada. Em resposta, o hospital disse que possui “médicos em todos os turnos que não saem do setor”. Também explicou que faz parte do protocolo o isolamento dos pacientes diagnosticados com covid-19 e que uma médica designada atualiza os pacientes diariamente com a evolução do quadro de saúde dos pacientes. O Protocolo de Manejo Clínico da covid-19 na Atenção Especializada orienta as instituições com pacientes infectados pelo novo coronavírus que suspendam as visitas.

Por fim, ela afirma que o hospital estaria “provocando a morte” de pessoas. Em nota, o Hospital Casa Italiano informou que foram registradas 14 internações, 7 altas e 3 óbitos por covid-19 no centro de tratamento intensivo (CTI) no período em que Luzia esteve internada.

O hospital afirmou, por telefone, que Luzia Menezes não teve alta médica e deixou o local à revelia, após assinar juntamente com o marido um termo de autorização.

Visita médica em casa

Na filmagem, Luzia Menezes afirma que conseguiu sair do Hospital Casa Italiano e foi para casa. De acordo com ela, o marido chamou um médico para consultar Menezes em casa. Em contato via WhatsApp, Luzia informou que o médico se chamava Raul Monteiro e atendia na clínica Promed, no Rio de Janeiro.

Por telefone, Monteiro confirmou que foi à casa da paciente, mas não achou que ela poderia estar com covid-19. Para ele, era um resfriado mas, por ser mais velha, achou melhor recomendar tratamento para pneumonia, receitando antibióticos e expectorante – “é melhor pecar por excesso do que por falta”. Segundo o médico, Luzia respondeu bem à medicação e foi à clínica dele para um retorno dez dias depois.

Confronto de versões

Ao ser questionada com as versões médicas, Luzia Menezes disse não concordar com nenhuma argumentação do Hospital Casa Italiano. “Não concordo com nada deles, vou morrer com a minha versão pois é real. Tenho a minha consciência limpa que tudo que falei é verdade”, afirmou por mensagem no WhatsApp. Luzia ainda disse que vai entrar em contato com uma advogada.

Voltamos a falar com o Hospital Casa Italiano depois de falar com Luzia e a instituição negou todas as acusações feitas pela mulher. Disse que elas “são mentirosas e falsas”. De acordo com a assessoria de imprensa do hospital, a instituição está estudando as medidas legais cabíveis e possui o prontuário médico como provas.

Estados recebem dinheiro por cada paciente diagnosticado com covid-19?

O vídeo com as queixas de Luzia viralizou e recebeu comentários adicionais. Uma mulher compartilhou o vídeo no Facebook e escreveu: “Eles querem números? Lembrem-se que cada paciente na UTI o estado recebe 4,5 mil (reais). Para políticos corruptos o dinheiro vale mais que a sua vida!”

A Portaria nº 568 do Ministério da Saúde, de 26 de março de 2020, autorizou a habilitação temporária de leitos de UTI para tratamento da covid-19 em estados e municípios pelo prazo inicial de três meses. A medida permite o repasse pelo governo federal de R$ 1,6 mil diários para pagar luz, serviço, pessoal, manutenção entre outros itens.

O Hospital Casa Italiano, no entanto, é uma instituição particular e não recebe esta compensação federal.

Contexto

Narrativas que contestam a real dimensão da pandemia são utilizadas para atacar medidas políticas de lockdown, isolamento social e fechamento do comércio. O Projeto Comprova já checou vídeos que mostravam covas abertas e nenhum enterro em um cemitério da capital paulista.

Outro boato utilizou o vídeo do corredor vazio de um hospital para dizer que o local não estaria atendendo pacientes com a covid-19. Um vídeo compartilhado para causar confusão falsamente afirmava que uma enfermeira teria sido demitida na Bahia por denunciar a falta de pacientes em seu local de trabalho.

Conteúdos que contestam as mortes por causa do novo coronavírus viralizam facilmente por conta da indignação e do medo da população. Uma corrente falsa de whatsapp utilizou dados falsos de óbitos por covid-19 para erroneamente dizer que teriam morrido menos pessoas no começo de 2020 em comparação ao mesmo período de 2019.

Alcance

O vídeo foi compartilhado na quinta-feira, 28, pelo perfil pessoal de uma, amiga de Luzia e foi visto mais de 112 mil vezes até a publicação dessa verificação. Outra postagem do vídeo um dia depois foi compartilhada 67 mil vezes e foi visto mais de 1,2 milhão de vezes.

Pandemia

Investigado por:2020-06-05

Publicação distorce informações sobre protocolos para uso de medicamentos contra a covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Post usa vídeo de uma médica que explica o protocolo adotado pela Prefeitura de Porto Seguro para o tratamento de casos de covid-19. Em nenhum momento a médica “desmascara” políticos ou faz referência ao presidente Jair Bolsonaro

É enganosa a publicação feita no Facebook afirmando que uma médica “desmascarou governadores e prefeitos” e que o “presidente sempre esteve certo com relação à cloroquina”. A legenda é acompanhada de um vídeo gravado pela médica Raissa Soares, que trabalha no Hospital Navegantes e na Prefeitura de Porto Seguro, na Bahia, e defende o uso do medicamento para o tratamento do novo coronavírus com base em experiências pessoais.

Na filmagem, a médica explica o protocolo adotado pela Prefeitura de Porto Seguro para o tratamento de casos de covid-19. As medidas recomendam a utilização de ivermectina e nitazoxanida associadas ao antibiótico azitromicina logo no começo da infecção e, em caso de piora dos sintomas, o uso da hidroxicloroquina. Em nenhum momento a médica “desmascara” políticos ou faz referência ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Além disso, o protocolo municipal é baseado nas diretrizes do Ministério da Saúde e do governo estadual da Bahia. Os dois documentos atestam que não existem evidências científicas robustas para nenhum medicamento no tratamento da covid-19, mas mesmo assim indicam o uso da hidroxicloroquina em alguns casos. Essa também é a opinião da médica, que defende que os profissionais deveriam fazer a prescrição mesmo sem evidências científicas de que os medicamentos funcionem contra a covid-19 e que o risco aos pacientes é baixo. “Não busque evidência nesse momento, nós estamos em guerra”, declara.

Essa postura, no entanto, não é aconselhada por entidades médicas como a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e a equivalente norte-americana, a Infectious Diseases Society of America (IDSA), que defendem esse tipo de medicação apenas em ambientes de pesquisa. “Todas as estratégias, seja a hidroxicloroquina ou qualquer outra (azitromicina, ivermectina e nitazoxanida), estão em estudo, e não se justifica o uso por experiência pessoal porque isso não é ciência, isso é empirismo”, afirmou ao Comprova o infectologista Alexandre Naime Barbosa, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e consultor da SBI.

Relatos de experiências clínicas da médica com seus pacientes também não são suficientes para atestar a eficácia. Barbosa ressalta que a doença não evolui para quadros graves em 81% dos casos, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde. Portanto, casos isolados não confirmam a alegação de melhora, já que não é possível apontar se foi efeito do medicamento ou simplesmente a evolução esperada do paciente a partir da resposta do organismo. Até 4 de junho, a taxa de letalidade no Brasil era de 5,5%, de acordo com o Ministério da Saúde.

Essa relação só pode ser confirmada por meio de pesquisas randomizadas — quando, aleatoriamente, metade dos pacientes toma o remédio e a outra metade, placebo — e com os chamados testes duplo-cego — ou seja, aqueles em que nem médico, nem paciente sabem qual dos dois produtos foi administrado. Depois, é feita a comparação entre os grupos para verificar quais tiveram melhores resultados. Nenhum dos quatro medicamentos citados apresenta evidência de que funcionem nesse tipo de estudo até o momento.

Em entrevista ao Comprova, a médica Raissa Soares afirmou que o vídeo é “descontextualizado da questão política” e que a intenção era apenas sugerir a aplicação de protocolo na cidade e na região. Em relação à legenda que foi adicionada ao vídeo por outras pessoas, afirmando que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) estaria certo sobre a hidroxicloroquina, ela afirma que “não é verdade absoluta, porque a hidroxicloroquina é uma prescrição médica”.

A médica disse que defende o uso da hidroxicloroquina porque observa que é “resolutiva quando dada na fase viral, na fase inicial da doença”. Sobre a decisão ter como base experiências pessoais, e não evidências clínicas mais robustas, a médica afirma que a experiência “não é totalmente empírica” porque, de acordo com ela, existem algumas publicações que concluíram que o remédio funciona. “A nossa experiência não é grande, mas é suficiente para mim, enquanto médica, e para os meus colegas. (…) O que a gente tem percebido é que estamos tendo resultados excelentes”, afirma.

Por fim, ela disse respeitar pareceres de entidades médicas contrários ao uso fora de protocolos de pesquisa, mas que o Conselho Federal de Medicina (CFM) autoriza a decisão do ponto de vista legal. Na publicação, a autarquia afirma que “reforçou seu entendimento de que não há evidências sólidas de que essas drogas tenham efeito confirmado na prevenção e tratamento dessa doença”, mas que “diante da excepcionalidade da situação e durante o período declarado de pandemia, (…) o CFM entende ser possível a prescrição desses medicamentos”.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos de grande alcance nas redes sociais sobre a pandemia do novo coronavírus. O projeto também prioriza conteúdos que apresentem informações potencialmente danosas à saúde da população. É o caso de materiais que abordam formas de tratamento da covid-19.

Diante do avanço da doença no país, as pessoas podem se basear em conteúdos compartilhados nas redes sociais para fazer automedicação ou recomendar tratamento a amigos e familiares. O problema é que nenhum remédio ou “solução caseira” é comprovadamente eficaz, até o momento, na prevenção ou no tratamento do novo coronavírus — e estes também pode ser bastante prejudiciais, principalmente sem o devido suporte médico.

Além disso, boatos sobre curas e tratamentos são comuns durante a pandemia. Apenas no mês passado, o Comprova verificou quatro conteúdos enganosos sobre a cloroquina: um texto sobre o esvaziamento de UTI em hospital do Piauí, um vídeo defendendo tratamento “sem internação e sofrimento”, um vídeo de um homem indicando o remédio e criticando isolamento social e o uso de respiradores e um vídeo que minimiza os efeitos colaterais do medicamento ao comparar com a bula da Novalgina.

Para o Comprova, o conteúdo enganoso é aquele retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

No vídeo analisado, a mulher que aparece na filmagem se identifica como Raissa Soares, médica formada na Universidade Federal de Minas Gerais. O Comprova encontrou o perfil da médica no Instagram. O vídeo consta na página, e foi confirmado que era o mesmo que está circulando nas redes, sem qualquer tipo de edição.

A reportagem procurou informações no site do Conselho Federal de Medicina (CFM) para descobrir se ela realmente era médica registrada. De acordo com o CFM, a médica Raissa Oliveira Azevedo de Melo Soares tem o registro ativo e está inscrita de maneira regular.

O terceiro passo foi buscar informações sobre os hospitais citados no vídeo, como o Hospital Navegantes Porto Seguro. Uma das últimas publicações na página oficial do hospital no Facebook era um compartilhamento do vídeo de Raissa Soares — e o texto que acompanhava a publicação também confirmou que a médica atende na unidade.

Também entramos em contato com a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Seguro. O órgão municipal confirmou que Raissa Soares é médica na rede pública de Porto Seguro e atende na Unidade de Saúde da Família Arlindo Almeida, no Hospital Regional Deputado Luís Eduardo Magalhães, além de ser a diretora técnica da Unidade de Pronto Atendimento Frei Calixto.

No vídeo, a médica afirma que as condutas dela estão baseadas em protocolos da Prefeitura de Porto Seguro e do governo estadual da Bahia. Pedimos os documentos à secretaria de Saúde e confirmamos a publicação no Diário Oficial do município.

A reportagem entrou em contato com a autora do vídeo por meio de um número de telefone cedido pela Secretaria Municipal de Saúde. O Comprova também ouviu um especialista da Sociedade Brasileira de Infectologia sobre o assunto.

Procurado pela reportagem, o ex-senador Magno Malta, que foi o primeiro a compartilhar o vídeo com a legenda enganosa, não respondeu às mensagens deixadas nas páginas oficiais do Facebook e do Instagram. Quando procurado pelo WhatsApp, bloqueou dois jornalistas e não atendeu nenhuma ligação.

Verificação

No vídeo, Raissa Soares afirma que o hospital de referência para o atendimento de covid-19 na cidade de Porto Seguro, na Bahia, está “lotado” e, dessa forma, propõe a outros médicos que prescrevam quatro medicamentos aos pacientes, ainda que não haja evidência de que funcionem e testes estejam em andamento. Ela alega que obteve redução de sintomas ao tratar mais de 30 pacientes com base em protocolo da Secretaria Municipal de Saúde.

O relato, porém, não é capaz de atestar a eficácia desse tipo de tratamento, como destaca o professor da Unesp e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia Alexandre Naime Barbosa. Procurada pelo Comprova, Raissa Soares afirmou, por telefone, que a experiência “não é totalmente empírica” e que, para ela e os colegas do Comitê de Operações de Emergência do município, é “suficiente” para a decisão de administrar a medicação diante de um cenário difícil de atendimento na rede de saúde.

Protocolo de tratamento da covid-19 em Porto Seguro

De fato, os protocolos de tratamento alegados pela médica Raíssa Soares existem e foram publicados no Diário Oficial de Porto Seguro, na Bahia, em 22 de maio. Eles são assinados pelo secretário municipal de saúde, Kerrys Ruas.

O documento recomenda o início precoce de terapias para pacientes com síndrome gripal e com sintomas sugestivos de infecção leve pelo novo coronavírus, com a prescrição de azitromicina em associação com nitazoxanida nesses casos. O protocolo traz como opção a administração de ivermectina no lugar de nitazoxanida, a partir de avaliação de “risco e benefício”, destacando a contraindicação do segundo remédio para pessoas com doenças de fígado, rins e diabéticos.

Caso os pacientes apresentem piora do quadro clínico e do padrão respiratório, especialmente a partir do quinto dia de sintomas, a secretaria de saúde afirma que o médico deve “considerar o uso da hidroxicloroquina sob vigilância médica no Hospital Luís Eduardo Magalhães”. Por fim, há sugestão de uso de vitamina C, zinco e vitamina D para “auxiliar na resposta clínica do indivíduo” durante o período de internação.

É necessário que os pacientes assinem termo de consentimento, declarando ciência dos possíveis efeitos colaterais dos remédios, para a prescrição médica.

Remédios não têm eficácia comprovada contra a doença

Nenhum dos medicamentos apontados é comprovadamente eficaz no tratamento da covid-19 até o momento. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há vacina nem medicamento antiviral específico para prevenir ou tratar a covid-19. O que existem, de fato, são pesquisas com essas e outras drogas para descobrir se elas podem ajudar no combate da covid-19 em alguma maneira. Porém, ainda não há resultados conclusivos.

Utilizada contra a malária e doenças autoimunes, a hidroxicloroquina foi combinada com o antibiótico azitromicina em algumas pesquisas e obteve resultados iniciais promissores, passando a ser defendida publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro. No final de março, o Ministério da Saúde autorizou o uso do medicamento para pacientes em estado grave, a critério do médico. Desde maio, a orientação vale também para casos leves e moderados.

Seguindo as diretrizes, o Comitê Operacional de Emergência da Bahia divulgou nota orientando sobre o uso da hidroxicloroquina no estado. São esses documentos que embasam a recomendação da substância pela Secretaria de Saúde de Porto Seguro.

Estudos recentes, porém, colocaram em dúvida a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a covid-19. Em maio, duas das mais importantes revistas médicas do mundo – o Journal of the American Medical Association (Jama) e o British Medical Journal (BMJ) – publicaram estudos que concluíram que os pacientes tratados com cloroquina e hidroxicloroquina, associadas ou não ao antibiótico, não tiveram melhores resultados que aqueles que não receberam os medicamentos. Os trabalhos foram conduzidos na China, na França e nos Estados Unidos e submetidos à revisão por outros pesquisadores.

Em 3 de junho, o New England Journal of Medicine (NEJM) publicou um estudo “padrão ouro” — ou seja, com pacientes randomizados, grupo controle e testes duplo-cego — com 821 voluntários que tiveram contato com infectados pelo novo coronavírus nos Estados Unidos e no Canadá, mas ainda não apresentavam sintomas de covid-19. O objetivo era descobrir se a droga se mostrava eficiente como forma de prevenir o aparecimento da doença. Os pesquisadores concluíram que a incidência “não diferiu significativamente entre os pacientes que receberam hidroxicloroquina e os que receberam placebo” e que “os efeitos colaterais foram mais comuns com a hidroxicloroquina do que com o placebo, mas nenhuma reação adversa grave foi relatada”.

A ivermectina, recomendada para o tratamento de condições causadas por vermes e parasitas, se tornou popular no debate público após a publicação de estudo feito por pesquisadores da Monash University e do Hospital Royal Melbourne, na Austrália, que demonstrou que o medicamento é capaz de matar o novo coronavírus in vitro em 48 horas. No entanto, os próprios cientistas pediram cautela sobre a descoberta e afirmaram que são necessários testes clínicos para avaliar a eficácia do remédio fora do laboratório.

Além dos testes in vitro, a Secretaria de Saúde de Porto Seguro argumenta que “estudos iniciais comprovam redução da gravidade em pacientes hospitalizados”, citando estudo divulgado pelo engenheiro biomédico Amit Patel, da Universidade de Utah, em 19 de abril. Pacientes tratados com ivermectina teriam tido taxas de letalidade menores tanto no geral (1,4% contra 8,5%) quanto entre os que precisaram de ventilação mecânica (7,3% contra 21,3%), em uma análise com 1.408 pessoas hospitalizadas em razão do novo coronavírus.

Na conclusão, os cientistas que assinam o estudo americano sobre a ivermectina ressaltam que “embora relatamos um forte sinal de potencial benefício na covid-19, os dados não podem ser considerados conclusivos, pois fatores de confusão desconhecidos não podem ser sempre contabilizados” e complementam afirmando que “estes achados precisam de confirmação em estudos controlados e randomizados”. Além disso, os dados utilizados neste estudo sobre a ivermectina foram fornecidos pela empresa Surgisphere — a mesma que está no centro da polêmica de dois estudos sobre hidroxicloroquina publicados revistas The Lancet e NEJM (não relacionado com o outro citado acima) que foram retratados após a empresa negar acesso às informações por auditorias independentes.

A nitazoxanida é um vermífugo. Ela ficou conhecida depois que o ministro Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, divulgou que o ministério teria encontrado um remédio com 94% de eficácia em células contaminadas. Na época, o ministro não divulgou o nome do medicamento para evitar que as pessoas procurassem o remédio nas farmácias, como aconteceu com a hidroxicloroquina. Um dia depois, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma resolução que restringia a venda do medicamento.

O Boletim Ética em Pesquisa, da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), passou a listar dois ensaios clínicos com a nitazoxanida a partir do dia 17 de abril. De acordo com o último boletim, do dia 2 de junho, existem três testes clínicos sendo realizados com a substância: um com 50 participantes no Hospital Vera Cruz, de São Paulo; um com 500 participantes na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e outro com 392 participantes também na UFRJ.

A Secretaria da Saúde de Porto Seguro cita dois estudos relacionados à nitazoxanida na nota técnica que estabelece o protocolo contra a covid-19 no município da Bahia. Um deles é uma revisão de 1.315 artigos publicada no Jama, em 13 de abril. Os pesquisadores escrevem que o medicamento “possui ampla atividade antiviral e um perfil de segurança relativamente favorável” e que testes in vitro demonstraram eficácia contra o SARS-CoV-2. Dessa forma, defendem a continuidade de estudos com a droga para encontrar mais evidências, mas que estas ainda estavam “pendentes”.

O outro é um preprint assinado por médicos do St. Joseph Medical Center, em Tacoma, nos Estados Unidos, que “resume evidências convincentes para avaliar o NTZ (nitazoxanida) em ensaios clínicos” como tratamento da covid-19. A pesquisa apresenta os mecanismos de atividade antiviral do remédio, entre outros aspectos, e conclui que “são necessários ensaios urgentes para testar a eficácia” da nitazoxanida, de modo a expandir as possibilidades de combate à doença. Foi publicada em 24 de abril.

Contexto

A opinião da médica ganhou repercussão nas redes sociais, em grande medida, porque defende o tratamento da covid-19 com o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, especialmente a hidroxicloroquina. Raissa Soares argumenta no vídeo que o Brasil vive “uma guerra” contra o novo coronavírus e que não é possível esperar por estudos conclusivos para introduzir tratamentos alternativos nos hospitais.

Essa declaração é semelhante à justificativa dada pelo presidente Jair Bolsonaro quando o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, aprovou protocolo que recomenda o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em casos leves e moderados da doença, em 20 de maio. Pelo Twitter, Bolsonaro escreveu: “Ainda não existe comprovação científica. Mas sendo monitorada e usada no Brasil e no mundo. Contudo, estamos em guerra: ‘Pior do que ser derrotado é a vergonha de não ter lutado’”.

Desde março, Bolsonaro é um dos principais defensores do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento precoce da covid-19. Ele também costuma minimizar a gravidade da doença e discorda das medidas de quarentena adotadas por governadores e prefeitos no país. A insistência nessas posições já provocou a saída de dois ministros da Saúde durante a pandemia, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

Diversas entidades médicas alertam para os possíveis efeitos colaterais graves desses e outros medicamentos, sem comprovação de que realmente ajudam no combate à doença por estudos mais robustos. É o caso da Sociedade Brasileira de Infectologia, que destacou em nota que “os estudos clínicos atuais com cloroquina ou hidroxicloroquina, associada ou não à azitromicina, permitem concluir que tais medicamentos, até o presente momento, não mostraram eficácia no tratamento farmacológico de covid-19” e que, por outro lado, “alguns estudos mostraram seu potencial malefício, podendo causar alteração cardiológica (…) que está associada a uma maior chance de arritmias ventriculares, potencialmente fatais”.

Nos últimos meses, Bolsonaro entrou em conflito com governadores e prefeitos a respeito da quarentena. Em pronunciamento em rede nacional, chegou a afirmar que a covid-19 era uma “gripezinha” e que as lideranças regionais deveriam “abandonar o conceito de terra arrasada”. O presidente também defendeu um “isolamento vertical”, ou seja, destinado apenas aos grupos de risco. Esses posicionamentos foram ignorados por diversas autoridades do país que optaram por decretar medidas restritivas mais amplas após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que garantiu essa autonomia.

O Brasil registrou 614.941 casos confirmados e 34.021 mortes por covid-19 até a noite de 4 de junho, de acordo com informações do Ministério da Saúde. O país é o terceiro com mais mortes no mundo e bateu o recorde de número de óbitos em 24h no mesmo dia, com 1.473. Até a data, 254.963 pessoas estavam recuperadas e 325.957 em acompanhamento.

Alcance

O vídeo original, publicado no perfil da médica Raissa Soares no Instagram, teve 7,4 mil visualizações até 5 de junho. Republicado na página do ex-senador Magno Malta, pelo deputado estadual Jânio Natal (Podemos-BA) e por perfis e grupos bolsonaristas no Facebook, alcançou mais 83,6 mil interações, de acordo com a plataforma de monitoramento CrowdTangle.

Pandemia

Investigado por:2020-06-05

Não há prova de que ivermectina cure covid-19, ao contrário do que diz médica

  • Enganoso
Enganoso
A ivermectina está registrada como medicamento contra infecções causadas por parasitas e todos os estudos sobre seu uso para tratamento da covid-19 estão ainda em estágio inicial. A Anvisa não reconhece o medicamento para o tratamento da doença

É enganoso o conteúdo de um vídeo que afirma que a covid-19 pode ser curada com a ivermectina, remédio usado para tratar parasitas. Em uma publicação no YouTube, no dia 20 de maio, a médica Lucy Kerr diz ter tratado 20 pacientes com ivermectina e afirma que o novo coronavírus “tem cura”. Todos os estudos sobre a ivermectina, porém, estão ainda em estágio inicial. A autoridade sanitária dos Estados Unidos, FDA, emitiu um alerta em relação ao uso de ivermectina por pessoas com covid-19. E, no Brasil, a Anvisa não reconhece o medicamento para o tratamento da doença.

Consultada, Lucy Kerr afirmou que a maioria dos pacientes que ela “curou” não fizeram teste de covid-19 nem o teste que verifica se o vírus não está mais no organismo. Disse que a comprovação da eficácia do remédio é observacional. Depois, por e-mail, afirmou que, embora os dados sejam observacionais, ela e médicos com quem conversa em um grupo de WhatsApp estão tendo “resultados de cura em tempo muito mais curto – 48 horas em média – do que seria a recuperação natural de covid-19”.

Catorze dias após a publicação do vídeo, o YouTube retirou-o do ar. A plataforma não comenta casos específicos, mas afirmou que “o YouTube tem políticas claras sobre o tipo de conteúdo que pode estar na plataforma e não permite vídeos que promovam desinformação sobre a covid-19”.

Após a retirada do vídeo do ar, a médica entrou em contato com o Comprova, reforçando “o potencial de cura da covid-19 [pela ivermectina]” e dizendo que os resultados “serão maravilhosos”.

Por que investigamos?

Vídeos e textos falando sobre curas milagrosas contra o novo coronavírus viralizam rapidamente nas redes sociais e colocam a população em perigo ao fazê-la acreditar em milagres. Neste vídeo, a médica diz que a “covid tem cura, nós podemos liquidar com essa moléstia em pouquíssimo tempo” – ou seja, está criando uma falsa sensação de esperança. No dia 1º de junho, a publicação, feita em 20 de maio, já tinha mais de 360 mil visualizações e cerca de 2 mil comentários. Muitos internautas estavam apoiando a médica. Um deles parabenizou Lucy Kerr “pela coragem de contradizer as mais ‘poderosas pessoas da ciência’, que tentam esconder remédios baratos que estão salvando vidas”.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Buscamos cadastros da médica nos sistemas do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), do Conselho Federal (CFM) e em sites como o do Currículo Lattes para confirmar sua identidade profissional. O Comprova ligou nos telefones informados no Portal Lucy Kerr, mas ninguém atendeu. Depois, telefonou para a Sociedade Brasileira de Ultrassonografia e conseguiu, com uma funcionária, o telefone da casa da médica. À tarde, o Comprova ligou para Lucy e conversou com ela por uma hora.

Paralelamente, o Comprova verificou a existência dos estudos sobre os quais a médica comenta no vídeo em sites de publicação científica e tentou localizar seus autores através de e-mails e de perfis em redes, como o LinkedIn e o Facebook.

Também procuramos a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para saber se há algum protocolo ou orientação em relação ao uso da ivermectina para tratar pacientes com covid-19. Também buscamos o posicionamento da US Food and Drug Administration (FDA), a agência federal de vigilância sanitária dos Estados Unidos.

Por fim, ouvimos a opinião de dois infectologistas sobre o uso do medicamento e consultamos o Conselho Federal de Medicina.

Verificação

O medicamento

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a ivermectina está registrada como “medicamento contra infecções causadas por parasitas”.

A Food and Drug Administration (FDA), órgão de vigilância sanitária dos Estados Unidos, descreve a ivermectina como liberada para humanos no tratamento de vermes intestinais e, também, de parasitas tópicos como piolho e rosácea. Ela também é usada para o tratamento de vermes em diversas espécies de animais.

Segundo a FDA, possíveis efeitos colaterais incluem vômito, diarreia, dor estomacal, erupções cutâneas, eventos neurológicos (tais como convulsões, tontura e confusão), queda repentina da pressão arterial e danos ao fígado.

Lucy Kerr

Na entrevista feita por telefone, a médica disse que a maioria dos pacientes que “curou” não fez teste de covid-19, nem o teste que comprova que o novo coronavírus não está mais no organismo. Disse que a comprovação da eficácia do remédio é observacional. Depois, em e-mail, afirmou: “Embora todos os nossos dados pessoais e dos 570 médicos que eu administro em grupo de Whatsapp e Telegram sejam observacionais, estamos tendo resultados de cura em tempo muito mais curto — 48 horas em média, do que seria a recuperação natural do covid-19 .”

Após a retirada do vídeo do YouTube do ar, ela entrou em contato com o Comprova e mandou o texto que enviou à plataforma: “É vídeo educativo para médicos e pacientes sobre essa droga e seu potencial de cura da covid-19 e dou referências científicas no texto anexo ao vídeo. Não visa o lucro, presta serviço social, apresentando a possibilidade real de cura, inclusive para vocês, funcionários do youtube e seus parentes”.

No dia seguinte 4 de junho, mandou novo Whatsapp ao Comprova citando um estudo e dizendo: “Vamos aguardar os resultados — mas antecipo que serão maravilhosos por todos os casos de pacientes que eu tratei e relataram melhoras quase imediata após a ingestão da medicação. Estou agora guardando todos relatos dos pacientes que estão mencionando melhora rápida e efetiva dos sintomas covid-19”.

Efeito in vitro

O primeiro estudo sobre o uso do medicamento foi publicado no dia 03 de abril pela Universidade de Monash, que fica no sul da Austrália (print abaixo). Os pesquisadores conseguiram eliminar o vírus responsável pela covid-19, o SARS-CoV-2, em uma cultura de células in vitro 48 horas após aplicar a ivermectina. O próprio estudo ressalta, porém, que esse resultado inicial “não prova” o uso da droga para o tratamento da doença, ressaltando a necessidade de se realizarem estudos clínicos.

O artigo afirma claramente que “embora tenha mostrado efetividade no laboratório, a ivermectina não pode ser usada em humanos para tratar a covid-19 até que novos testes consigam estabelecer com exatidão a efetividade da droga e a dosagem segura para humanos”. Você pode conferir a íntegra do estudo aqui.

O Comprova procurou a Universidade de Monash para saber sobre novas fases da pesquisa. Por e-mail, o Departamento de Medicina, Enfermagem e Ciências da Saúde da instituição explicou que o estudo apenas mostrou que a ivermectina tem efeito em eliminar o vírus em laboratório. E foi taxativo: “a ivermectina não pode ser usada em pacientes com covid-19 até que outros testes e ensaios clínicos tenham sido conclusivos em estabelecer a eficácia do medicamento em níveis seguros para dosagem em humanos”.

Eles também informam que, recentemente, conseguiram financiamento para ensaios pré-clínicos em laboratório.

República Dominicana

No vídeo, a médica cita que a ivermectina passou a ser adotada por médicos em outros países após a publicação do estudo australiano. Ela cita José Natalio Redondo, que trabalharia no Centro Médico Doutor Bournigal, na República Dominicana, e Gustavo Aguirre Chang, que teria escrito um artigo sobre o uso do medicamento no Peru.

No Google Maps, nós conseguimos encontrar um registro do Centro Médico Doutor Bournigal. O mapa aponta para um endereço em Porto Prata, na República Dominicana.

Fizemos, então, uma busca online pelo médico José Natalio Redondo. A primeira coisa que achamos foi uma entrevista concedida à Acento TV, onde ele afirma ter tratado 500 pessoas com covid-19 usando a ivermectina. A Acento TV tem um site com domínio .do, que é o usado na República Dominicana. O site do canal diz que ele integra o pacote da Claro TV no país. Então, conseguimos confirmar a existência do canal no site da Claro TV na República Dominicana.

A partir daí, conseguimos encontrar um perfil com o nome do doutor José Natalio Redondo no Facebook. O perfil tem o mesmo nome, afirma trabalhar no mesmo centro médico e a foto é igual a do homem que deu entrevista para a Acento TV. Contatamos o perfil nos dias 2 e 3 de junho, mas não tivemos retorno até o publicação desta checagem.

Procurando pelo uso da ivermectina na República Dominicana, descobrimos que, no dia 13 de maio, a Sociedade Dominicana de Infectologia divulgou um comunicado expressando preocupação com a possibilidade de que a ivermectina seja adotada como medicação contra a covid-19 no país sem a devida comprovação de que a droga pode ser usada para tratar a doença. O comunicado pode ser encontrado na página deles no Facebook.

Embora o mesmo texto não apareça no site da entidade, a página aponta para o mesmo perfil do Facebook em que o comunicado foi postado. Além disso, a divulgação do texto foi notícia nos portais El Día e El Caribe, ambos com domínio da República Dominicana. No dia 19 de maio, a médica Rita Rojas, presidente da Sociedade Dominicana de Infectologia, deu uma entrevista para a Acento TV em que falou sobre o comunicado e sobre as preocupações com o uso da ivermectina para tratar dos pacientes com coronavírus no país.

Peru

No caso do Peru, o artigo citado por Lucy Kerr e escrito pelo médico Gustavo Aguirre Chang é, na verdade, uma revisão acadêmica sobre outros estudos que analisaram o uso da ivermectina no combate à covid-19; principalmente a pesquisa australiana e outra de que trataremos abaixo. O texto foi publicado no dia 2 de maio no site de uma empresa chamada Megalabs e a íntegra do artigo pode ser conferida aqui.

A Megalabs se apresenta em seu site como uma multinacional farmacêutica que atua em toda a América Latina, inclusive no Brasil. Ela comercializa um medicamento à base de ivermectina, o Securo.

No LinkedIn, achamos um perfil de um médico com o mesmo nome do autor do artigo. Na plataforma, ele se apresenta como gerente encarregado da Unidade de Saúde Ocupacional e Exames do Complejo Hospitalario San Pablo, em Lima, no Peru. Também conseguimos encontrar uma referência a essa unidade de saúde no Google Maps.

Em troca de mensagens pelo LinkedIn, o médico confirmou ser o autor do artigo publicado no site da Megalabs. Ele enviou ao Comprova informações sobre dosagem e sobre a evolução no número de óbitos da covid-19 no Peru após a adoção do medicamento. Não foi possível localizar esses dados em outros estudos já publicados.

Apesar de não conseguirmos comprovar se o Gustavo Chang conduziu um estudo clínico sobre o uso da ivermectina, nós sabemos que o Peru tem administrado o medicamento na pandemia. No dia 8 de maio, o Ministério da Saúde do país editou uma resolução autorizando o uso de ivermectina, hidroxicloroquina e azitromicina no tratamento de pacientes com covid-19. Pela resolução, a ivermectina pode ser aplicada tanto em casos leves quanto em casos graves da doença. Porém, o médico precisa avaliar a situação individual do paciente, obter o consentimento dele e fazer um monitoramento de possíveis efeitos colaterais.

Nos dias 26 e 29 de maio, o governo peruano enviou doses de ivermectina, junto de outros insumos, para locais que estão à frente do tratamento da covid-19. Em outra matéria, essa do dia 1º de junho, o ministro da Saúde do Peru, Víctor Zamora, afirma que o paracetamol e a hidroxicloroquina farão parte do tratamento padrão contra a covid-19 no país, e que a ivermectina será administrada em pacientes sintomáticos e vulneráveis.

Estudo clínico

O Comprova constatou a existência de ao menos um estudo clínico que testou a aplicação da ivermectina em pacientes com o novo coronavírus. A referência é citada no artigo de Gustavo Chang. O estudo é assinado por quatro pesquisadores baseados nos Estados Unidos e o autor principal é o médico Amit Patel, vinculado ao Departamento de Bioengenharia da Universidade de Utah. Esse estudo administrou a ivermectina em 704 pacientes com covid-19 (outros 704 pacientes foram selecionados como grupo de controle) em 169 hospitais na América do Norte, Europa e Ásia.

Os resultados mostram que, entre os pacientes que precisavam de ventilação mecânica, apenas 7,3% dos que tomaram ivermectina morreram (contra 21,3% no grupo de controle). Entre todos os pacientes, a taxa de óbito foi de 1,4% para os que tomaram ivermectina (contra 8,5% no grupo de controle).

A conclusão do estudo, ressalta, porém: “Embora relatemos um forte sinal potencial de benefício na covid-19, esses dados não devem ser considerados conclusivos, pois fatores de confusão desconhecidos nem sempre podem ser contabilizados de maneira confiável, mesmo quando técnicas de correspondência de propensão são empregadas no desenvolvimento de grupos de controle. Não há substituto para um ensaio clínico randomizado adequadamente conduzido.”

E complementa: “Estes achados requerem confirmação em ensaios clínicos randomizados.”

Por e-mail, Lucy Kerr enviou uma lista com 14 links de referências sobre a ivermectina. A maioria das referências apontam para o mesmo estudo da Austrália de que tratamos acima ou para matérias de sites que abordam os resultados dele. O único artigo com o qual ainda não havíamos nos deparado é o de um trio de pesquisadores que tentaram identificar qual seria a dose ideal para a administrar a ivermectina em humanos. Mas eles também não conduziram estudos clínicos sobre a droga.

O que dizem as autoridades?

Procurada, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que a ivermectina “não está registrada contra essa doença, portanto não é reconhecida pela agência como eficaz contra ela” (print abaixo).

Além disso, no dia 10 de abril, a Food and Drug Administration (FDA), autoridade sanitária dos Estados Unidos, divulgou uma carta aberta em que alerta as pessoas a não usar remédios à base de ivermectina destinados a animais como tratamento contra a covid-19 (print abaixo). Segundo a FDA, as pessoas não devem tomar ivermectina para prevenir ou tratar a covid-19. Também não há nenhuma autorização da FDA para o uso emergencial da droga nos Estados Unidos em função da pandemia.

O site do National Center for Biotechnology Information, vinculado à US National Library of Medicine, afirma que a nota da FDA foi publicada porque o estudo da Austrália vinha sendo “difundido com grande interesse em sites voltados para médicos e veterinários”. O texto é assinado por Mike Bray, editor da Antiviral Research.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) não comenta casos específicos, mas afirmou ao Comprova que “não existem evidências robustas de alta qualidade que possibilitem a indicação de uma terapia farmacológica específica para a covid-19” e que “muitos medicamentos têm sido promissores em testes através de observação clínica, mas nenhum ainda foi aprovado em ensaios clínicos com desenho cientificamente adequado, não podendo, portanto, serem recomendados com segurança”. Acrescenta ainda que os médicos “devem observar o Código de Ética Médica”, segundo o qual devem evitar o sensacionalismo, entendido como “utilização da mídia, pelo médico, para divulgar métodos e meios que não tenham reconhecimento científico”.

Busca de consenso

Para o médico Demetrius Montenegro, chefe do Serviço de Infectologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, referência para o tratamento de Covid-19 em Pernambuco, é errado tratar um medicamento que ainda está em fase de testes como a cura do vírus.

“Tem que se levar em conta que quando se tem a publicação de um trabalho mostrando um determinado efeito de uma droga sobre pacientes, ele pode não ser conclusivo. Fazer um teste clínico com 50 pessoas é uma coisa. Fazer um teste clínico com 7 mil ou 12 mil pessoas é outra bem diferente. E, às vezes, não dá para extrapolar um achado para a grande maioria dos pacientes. Por isso, inclusive, muitos desses artigos terminam citando a necessidade de mais testes. Então, dependendo do grau de complicação de um paciente, não se deve tomar condutas baseadas em uma publicação só. É preciso levar em consideração se há um consenso da comunidade médica”, explicou ao Comprova.

Ele lembra ainda que não há “remédio milagroso” para tratar a covid-19. E que é importante que os pacientes não tomem nada sem ouvir a orientação de um médico antes. “O paciente não deve nunca pensar que tomando essa medicação ele vai estar livre de contrair o vírus e de ter complicações. Nem que ele não precisa se prevenir”, alerta.

Retirada do vídeo do ar

No dia 2 de junho, o YouTube retirou o vídeo de Lucy Kerr do ar. Procurado, informou, por e-mail, que não comenta casos específicos e enviou a seguinte nota:

“O YouTube tem políticas claras sobre o tipo de conteúdo que pode estar na plataforma e não permite vídeos que promovam desinformação sobre o Covid-19. Desde o início de fevereiro, analisamos e removemos manualmente milhares de vídeos relacionados a afirmações perigosas ou enganosas sobre o vírus. É nossa prioridade fornecer informações aos usuários de maneira responsável, por isso continuaremos com a remoção rápida de vídeos que violem nossas políticas. Além disso, qualquer usuário que acredite ter encontrado um conteúdo no YouTube em desacordo com as diretrizes da nossa comunidade pode fazer uma denúncia e nossa equipe fará a análise do material.”

O Youtube também nos enviou um página com detalhes sobre a política de informações médicas incorretas relacionadas à covid-19, que lista os conteúdos que não são aceitos na plataforma.

Contexto

No momento em que cientistas do mundo inteiro se debruçam sobre possibilidades de cura da covid-19, algumas pessoas tentam se destacar usando informações enganosas sobre curas milagrosas, que atrapalham o processo.

O primeiro vídeo de Lucy, registrado na página “Lucy Kerr” no YouTube, há nove anos, tem 278 visualizações. O primeiro a ter mais de 1.000 visualizações é de seis anos atrás, um curso on-line de Elastografia (exame de fígado). Os vídeos mais assistidos são sobre câncer, mas, até janeiro de 2020, os números variavam de 149 a 19 mil views – a exceção foi um 15 de setembro de 2014, sobre “Inutilidade e malefícios da mamografia”, que teve 117 mil visualizações.

Neste ano, um vídeo de 10 de janeiro teve 464 visualizações até 2 de junho. O segundo de 2020, foi o que investigamos, “Ivermectina contra a Covid-19”. Postado em 20 de maio, teve quase 370 mil views. Sobre a covid-19, em 24 de maio, outro material foi postado, e visto por quase 108 mil pessoas. O título é “O que funciona e o que não funciona para tratar covid-19.” Este vídeo ainda está disponível na plataforma.

Alcance

A postagem original havia sido visualizada 369.126 vezes quando foi feito o último acompanhamento pelo Comprova, antes do vídeo ser apagado, na noite de 2 de junho. Havia 2.207 comentários, 21 mil curtidas e 342 “não curti”.

Através da busca de imagem reversa do Google, foi possível encontrar o vídeo replicado em outros três canais: aaanjr, Jornal Cidade e Chicote Neles. Juntos, eles registravam 19.589 visualizações até o dia 4 de junho.