O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 41 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Eleições

Investigado por: 2022-08-19

Museu no Rio de Janeiro cobriu nome de Lula em placa, como mostra vídeo

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Comprovado
É verdade que o Museu Histórico Nacional (MHN) no Rio de Janeiro cobriu o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com uma tarja preta em uma placa na entrada da instituição, como mostra vídeo nas redes sociais. Em nota divulgada no dia 17 de agosto, o museu afirmou ter ocultado os nomes de dois candidatos ao Planalto para que não configurasse propaganda eleitoral, mas reconheceu que, por se tratar de "material informativo, de contexto histórico e de acervo museológico a serviço da sociedade", as etiquetas seriam retiradas.

Conteúdo investigado: Vídeo de 20 segundos mostra placa de modernização e restauração do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro, que fica na entrada do local. Há uma tarja preta cobrindo o nome do ex-presidente Lula, candidato à Presidência da República. O vídeo é acompanhado da narração de uma mulher que afirma ter questionado funcionários do museu, sendo informada que a ordem veio do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), “porque não podia ter propaganda política”.

Onde foi publicado: Twitter.

Conclusão do Comprova: É verdadeiro o conteúdo de um vídeo publicado no Twitter, no dia 15 de agosto, que mostra uma tarja cobrindo o nome do ex-presidente Lula em uma placa de modernização e restauração do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro, fixada em parede na entrada do prédio.

O conteúdo verificado exibe imagens do interior do museu e da placa, acompanhadas da seguinte narração: “Aqui, fica aqui na entrada do museu. Aí eu perguntei por que [o nome do ex-presidente Lula] estava tampado, e eles disseram que era ordem do Ibram [Instituto Brasileiro de Museus] e que não podia ter propaganda política. É mole? Estou assustada.”

O Comprova confirmou que o local que aparece no vídeo é mesmo o Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro. Em nota divulgada no dia 17 de agosto, o museu confirmou ter coberto, no dia 2 de julho, os nomes de dois candidatos à eleição presidencial, que constam em placas de obras já finalizadas, “para que não se caracterizasse nenhuma forma de promoção de um ou outro candidato”.

Embora não sejam citados nominalmente na nota, a instituição informou ao Comprova, por telefone, que o outro nome ocultado além do de Lula era o de Jair Bolsonaro (PL). O nome do presidente está presente em uma placa com a ficha técnica da nova exposição temporária do museu “Rio-1922”. O Comprova não encontrou, no entanto, conteúdos que tenham circulado com imagens de tal situação.

A decisão por ocultar os nomes, segundo o espaço cultural, foi tomada em atendimento à Lei nº 9.504, de setembro de 1997, que estabelece normas para as eleições, e à Instrução Normativa n° 01/2018, de abril de 2018, que disciplina a publicidade em ano eleitoral dos órgãos e entidades integrantes do Poder Executivo Federal. O Museu Histórico Nacional faz parte da rede do Ibram, ligado ao Ministério do Turismo.

A medida, porém, foi reavaliada pela instituição, que, na mesma nota, informou que as etiquetas seriam retiradas “visto que se trata de material informativo, de contexto histórico, e de acervo museológico a serviço da sociedade”.

Comprovado, para o Comprova, é todo fato verdadeiro; evento confirmado; localização comprovada; ou conteúdo original publicado sem edição.

Alcance da publicação: O Comprova investiga conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 19 de agosto, o vídeo teve 61,6 mil visualizações, 3,7 mil curtidas e 1,2 mil compartilhamentos no Twitter.

O que diz o autor da publicação: A autora do post foi procurada, por meio do Twitter, mas não houve resposta até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: Após assistir ao vídeo e identificar o Museu Histórico Nacional, a reportagem fez contato com a assessoria de imprensa do espaço para averiguar se o conteúdo descrito pela autora era verdadeiro.

O Comprova fez ainda pesquisas na internet usando palavras-chaves “museu” e “Lula”, e a consulta retornou reportagens da Folha, Brasil de Fato e Fórum tratando do assunto.

A equipe também procurou pelo Ibram, ao qual foi reportada a responsabilidade pela ocultação do nome do ex-presidente Lula da placa.

Para saber quando, onde e por quem o vídeo foi gravado, o Comprova entrou em contato pelo Twitter, no dia 17 de agosto, com a usuária @Sandroka13, que não retornou às mensagens até o fechamento desta verificação.

Tentando encontrar outras possíveis origens do vídeo, o Comprova analisou publicações de gravações que citassem o Museu Histórico Nacional no Twitter, no Facebook, no Instagram e no YouTube e encontrou algumas outras postagens originais, além de centenas de retuítes e compartilhamentos. A equipe fez contato com diversos perfis, mas não obteve retorno.

Para identificar o local do vídeo, também foram analisadas gravações de visitantes dentro do museu, como uma publicada em dezembro de 2021 pelo canal “Vamo nessa partiu”, do YouTube. Tanto essa gravação quanto o vídeo aqui verificado têm elementos em comum (como as estátuas e a escada rolante), indicando que a publicação que viralizou foi mesmo feita no Museu Histórico Nacional.

Legenda: Captura de tela do minuto 1:31 do vídeo publicado no canal “Vamo nessa partiu”, no YouTube

Legenda: Captura de tela do minuto 1:50 do vídeo publicado no canal “Vamo nessa partiu”, no Youtube. Nesta cena é possível observar a escada rolante que também aparece no vídeo investigado pelo Comprova e a placa sem a tarja preta

Legenda: Capturas de tela dos segundos iniciais do vídeo investigado pelo Comprova que mostram as estátuas, a escada rolante e, logo depois, a placa com a tarja preta no nome do ex-presidente Lula

O vídeo

O vídeo compartilhado nas redes sociais tem 20 segundos e mostra uma placa, que indica a modernização e restauração do Museu Histórico Nacional, datada de 9 de setembro de 2004. Sob a inscrição do cargo “presidente da República”, aparece uma tarja preta onde deveria estar o nome de Lula, pois naquele ano o político exercia seu primeiro mandato.

Nomes de outros integrantes do governo da época, como o do cantor, compositor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, aparecem listados, abaixo, normalmente.

A autora faz uma narração enquanto grava o vídeo, citando que a placa está situada na entrada do museu e que, ao questionar um funcionário sobre o fato de o nome do ex-presidente estar ocultado, foi informada que era ordem do Ibram porque no local não poderia ter propaganda política. Na sequência, ela comenta: “É mole? Estou assustada!”

Museu revisou decisão de encobrir nomes dos candidatos

A assessoria do Museu Histórico Nacional informou, em nota, que “desde o dia 2 de julho a marca do governo federal foi ocultada de todo o material de divulgação do museu, em atendimento à Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997, que estabelece normas para as eleições, e à Instrução Normativa n° 01/2018, de 11 de abril de 2018, que disciplina a publicidade em ano eleitoral dos órgãos e entidades integrantes do Poder Executivo Federal.”

Também informou que, em razão da legislação eleitoral, os nomes de dois candidatos à eleição presidencial, que constam em placas de obras já finalizadas, bem como em acervos de exposições de longa duração, também foram cobertos para que não se caracterize nenhuma forma de promoção de um ou outro candidato.

Em contato com o Comprova, por telefone, a assessoria da instituição afirmou que o outro nome ocultado foi o de Jair Bolsonaro (PL). O presidente está citado em uma ficha técnica da nova exposição temporária intitulada “Rio-1922“. Por ser uma instituição federal, é comum que em inaugurações de mostras o museu coloque placas contendo os cargos do governo em vigência, conforme informou a assessoria.

O vídeo verificado, entretanto, mostra apenas uma placa em que o nome do ex-presidente Lula foi encoberto. O Comprova não localizou registros de placas ou objetos dentro do museu que apresentassem o nome de Bolsonaro tarjado. Por telefone, a assessoria do Museu Histórico Nacional disse que enviaria um e-mail com uma foto da placa com o nome de Bolsonaro, mas não a enviou até o fechamento desta verificação.

Com a repercussão do caso, o Museu Histórico Nacional reconheceu, na mesma nota, que a ocultação dos nomes extrapola as vedações da legislação eleitoral, visto que se trata de material informativo, de contexto histórico, e de acervo museológico a serviço da sociedade. Assim, a partir do dia 17 de agosto, as etiquetas sobre os nomes dos dois candidatos seriam retiradas.

O Ibram também foi consultado, mas disse, em contato do Comprova por telefone, que o posicionamento é o mesmo do Museu Histórico Nacional.

Autoria da gravação é desconhecida

Quase todas as postagens originais do vídeo, ou seja, que não são retuítes e compartilhamentos, foram publicadas a partir do dia 15 de agosto, mesmo dia em que o perfil @Sandroka13 fez a publicação que viralizou.

Parte delas era de apoiadores de Lula nas eleições de 2022 e criticava o que consideraram censura do Museu Histórico Nacional. Em uma delas, no Twitter, a usuária Mari Lula Jurema (@Mari_Jurema) diz que o vídeo seria de “uma ex-colega [que] foi visitar o Museu Histórico Nacional”. O Comprova entrou em contato com ela, que disse ter recebido o vídeo no WhatsApp, mas não lembrava quem o repassou.

A publicação mais antiga do vídeo encontrada pelo Comprova é do usuário do Twitter José do Nascimento Jr. (@jrmuseus), que publicou o conteúdo no dia 14 de agosto, às 22h26. No tuíte, Nascimento indica que se trata de um vídeo do Museu Histórico Nacional e cita os perfis do jornal O Globo, da editoria de Política da Folha de S.Paulo e do colunista Ancelmo Gois, também de O Globo. O Comprova entrou em contato com Nascimento para saber a origem do vídeo, mas não obteve retorno até o fechamento desta verificação.

Outra publicação do vídeo foi feita após a de Nascimento no canal no YouTube do site Diário do Centro do Mundo. O Comprova usou um site para baixar o vídeo publicado pelo canal e constatou, analisando os metadados (informações como data, hora e local) do arquivo no computador, que a publicação foi feita no dia 14 de agosto, às 22h34, poucos minutos depois de o autor do tuíte encontrado pelo Comprova ter feito seu post.

Em contato por e-mail com Kiko Nogueira, diretor do Diário do Centro do Mundo, ele informou ao Comprova que o site havia recebido o vídeo de uma leitora. O nome dela e o contato, porém, não foram divulgados. Nogueira também enviou uma notícia publicada no dia 17 de agosto no portal NSC Total que afirma que o Museu Histórico Nacional havia confirmado a ocultação do nome de Lula e que iria retirar a tarja.

Apesar de o Comprova não ter chegado à origem do vídeo, o fato de o Museu Nacional confirmar, em nota, que havia ocultado o nome de candidatos sustenta que o conteúdo investigado é verdadeiro. A data em que o vídeo foi feito é incerta, embora seja provável que a gravação tenha ocorrido a partir do dia 2 de julho — data a partir da qual o espaço cultural passou a ocultar de suas placas e acervos os nomes de candidatos, sob a justificativa de atender à legislação eleitoral.

Obras no Museu Histórico Nacional

O Museu Histórico Nacional foi fundado em 1922 pelo então presidente do Brasil, Epitácio Pessoa, e é, atualmente, um dos maiores do país. A instituição, ligada ao Ibram, conta com um acervo de mais de 300 mil itens e mantém 9 mil m² de área aberta ao público, galerias de exposições, biblioteca especializada em História do Brasil, História da Arte, Museologia e Moda, Arquivo Histórico (com documentos manuscritos, aquarelas, ilustrações e fotografias), e ainda programas voltados para estudantes, professores, terceira idade e comunidades carentes.

De 2003 a 2006, durante a gestão do ex-presidente Lula, o Museu Histórico Nacional passou por um Projeto de Restauração e Modernização que tinha como objetivo recuperar e adequar o espaço da instituição para melhor receber o público e apresentar seu acervo.

O projeto foi dividido em três etapas e, segundo reportagem do Brasil de Fato, fez parte do Programa Nacional de Recuperação de Museus, quando o governo Lula investiu R$ 100 milhões em obras de diversas instituições, sendo R$ 40 milhões do Ministério da Cultura e R$ 60 milhões vindos de leis de incentivo.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre as eleições presidenciais de 2022, a pandemia e políticas públicas do governo federal. Neste caso, o vídeo faz referência a Lula, que disputa a eleição. É importante avaliar os conteúdos que circulam nas redes sociais para evitar a disseminação de desinformação e garantir que as pessoas possam fazer suas escolhas baseadas em informações verdadeiras.

Outras checagens sobre o tema: Recentemente, o site Boatos.org checou um conteúdo semelhante ao investigado pelo Comprova, que acusava o Museu Imperial do Rio de Janeiro de ocultar a logo do governo federal e prejudicar Jair Bolsonaro. A justificativa da instituição foi a mesma utilizada pelo Museu Histórico Nacional.

Em outras verificações envolvendo o ex-presidente petista, o Comprova mostrou que vídeo engana ao afirmar que banqueiros o apoiam por supostos prejuízos ao setor provocados por Bolsonaro, que ele não disse que vai implantar ditadura no Brasil em entrevista a canal chinês e que não há registro público de declaração do político nem do MST sobre eliminar agronegócio da Terra.

Eleições

Investigado por: 2022-08-17

Decreto para participação das Forças Armadas nas eleições é praxe no Brasil e não confere mais força ao atual presidente da República

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso vídeo que circula nas redes sociais sobre o decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) que autoriza o uso das Forças Armadas nas eleições deste ano. O autor do conteúdo interpreta o documento de forma equivocada ao sugerir que o decreto seria resultante de poder especial conferido ao presidente. Na verdade, essa é uma prática comum no processo eleitoral brasileiro e a possibilidade de requisição do auxílio dos militares pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que precisa ser autorizado pelo presidente em exercício, está prevista na legislação desde 1965.

Conteúdo investigado: Vídeo de três minutos no qual um homem fala sobre documento assinado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) que autoriza a participação das Forças Armadas no processo eleitoral deste ano. O conteúdo é acompanhado da legenda “Acabou a palhaçada do TSE, Bolsonaro assina decreto colocando os militares em definitivo na apuração e fiscalização das eleições desse ano” e tenta fazer o espectador crer que o presidente teria autoridade máxima para decidir sobre a atuação das Forças Armadas durante o período do pleito.

Onde foi publicado: TikTok, Facebook e WhatsApp.

Conclusão do Comprova: É enganoso o vídeo que cita o decreto presidencial que autoriza a participação das Forças Armadas no processo eleitoral de 2022. Apesar de um documento com esse teor ter sido de fato publicado no Diário Oficial da União em 12 de agosto, o tom empregado pelo advogado e candidato a deputado estadual por Santa Catarina Alexander Brasil (PL) retira a informação do contexto e induz a uma interpretação distante do sentido original. A publicação do decreto, ao contrário do que sugere o advogado, não confere ao presidente Bolsonaro mais força em relação a outras instituições que fazem parte do processo eleitoral, como o TSE.

Ao citar o decreto, o autor da publicação afirma: “Presidente acaba de uma vez por todas com esse impasse, de os militares terem de ficar pedindo penico e autorização para fazerem parte de uma comissão do qual o próprio TSE tinha aberto a possibilidade e convidado os militares para fazer parte. Agora não estão mais lá por conta de um convite, agora estão definitivamente através de um decreto presidencial“.

O decreto presidencial, neste caso, é um procedimento praxe nos processos eleitorais brasileiros, não sendo novidade nas eleições de 2022. Documento semelhante foi assinado, por exemplo, pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e pelo ex-presidente Michel Temer (MDB). A construção da narrativa escolhida se insere no contexto atual, fomentado pelo próprio presidente da República, e consequentemente por seus seguidores, com a intenção de desacreditar o processo eleitoral e a segurança das urnas eletrônicas.

O conteúdo classificado pelo Comprova como enganoso é aquele retirado do contexto original e usado de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 17 de agosto, o vídeo publicado no TikTok teve 103,2 mil visualizações, 11,4 mil curtidas, 1,3 mil comentários e 5,2 mil compartilhamentos. No Facebook, o conteúdo alcançou 124 mil visualizações, 15,3 mil curtidas, 2,8 mil comentários e 8,8 mil compartilhamentos até a mesma data. O vídeo também está circulando em grupos de WhatsApp.

O que diz o autor da publicação: Alexander Brasil foi procurado por e-mail, mas não retornou até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: O primeiro passo da verificação foi reunir informações a respeito do decreto assinado por Bolsonaro autorizando o uso das Forças Armadas nas eleições deste ano. Para isso, consultamos o documento no Diário Oficial da União, através do site do governo federal, reportagens da imprensa nacional (CNN Brasil, G1, Agência Brasil, Brasil de Fato e Metrópoles) e uma nota publicada pelo TSE.

A equipe também apurou o contexto do afastamento do coronel Ricardo Sant’Anna do grupo de fiscalização do código-fonte das urnas eletrônicas, por meio de notícias (CNN Brasil, Folha e Ministério da Defesa) e do ofício do TSE, e buscou informações sobre Alexander Brasil através de pesquisas no Google. Para confirmar dados do autor da postagem, a equipe consultou também a plataforma DivulgaCand2022 do TSE.

Por fim, entramos em contato com o TSE, o Ministério da Defesa e o autor da publicação.

O decreto de Bolsonaro

Publicado em 11 de agosto e assinado pelo presidente Jair Bolsonaro e pelos ministros da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, general Augusto Heleno, o decreto nº 11.172 “autoriza o emprego das Forças Armadas para a garantia da votação e da apuração das eleições de 2022”.

Isso significa que, caso seja necessário, o TSE pode solicitar o apoio das Forças Federais durante o processo eleitoral deste ano. Conforme o documento, caberá ao Tribunal determinar os locais de atuação e o período pelo qual os militares serão utilizados.

O decreto, porém, não dá às Forças Armadas nenhuma posição especial em relação a quaisquer outras instituições participantes do processo eleitoral. Trata-se de uma convocação comum e não uma novidade das Eleições 2022 ou ainda o resultado de poder especial conferido ao presidente Bolsonaro.

Ao Comprova, o Ministério da Defesa informou que “historicamente, o emprego da Marinha, do Exército e da Aeronáutica nas eleições tem contribuído para a segurança dos locais de votação, tendo em vista a possibilidade de insuficiência dos efetivos policiais para atender às requisições dessa natureza”. O órgão ainda ressaltou que a medida “é habitual e decorre de pedido do próprio TSE”.

Tradicionalmente, a atuação das Forças Armadas nas eleições também envolve o apoio logístico e o transporte de urnas eletrônicas, pessoas e materiais para locais de difícil acesso.

Procurado a respeito da determinação dos locais de atuação dos militares nas eleições deste ano, o TSE não retornou.

Autorizar participação das Forças Armadas nas eleições é comum

Ao contrário do que sugere o vídeo aqui investigado, a atuação das Forças Armadas na segurança do processo de votação e apuração dos votos é uma prática habitual no sistema brasileiro. A possibilidade de requisição do auxílio dos militares pelo TSE, inclusive, está prevista na legislação desde 1965. O Código Eleitoral (Lei 4.737/65) estabelece que cabe privativamente ao Tribunal “requisitar Força Federal necessária ao cumprimento da lei, de suas próprias decisões ou das decisões dos tribunais regionais que o solicitarem, e para garantir a votação e a apuração”.

Apesar de ser responsabilidade do TSE solicitar o uso das Forças Armadas, é preciso uma autorização específica por parte do presidente da República para que isso ocorra.

De acordo com matéria publicada pelo TSE, a primeira reunião para alinhar a atuação das Forças Federais nas eleições de 2022 ocorreu em abril e contou com a presença de autoridades, como o ex-presidente do TSE, ministro Edson Fachin; o subchefe de Operações do Estado Maior das Forças Armadas, general Rezende de Queiroz; e o diretor-geral da Corte Eleitoral, Rui Moreira.

Os pedidos de auxílio das Forças devem ser encaminhadas ao TSE pelos Tribunais Eleitorais Regionais (TREs), os quais devem também justificar a solicitação, apontando fatos que revelem eventuais riscos de perturbação das atividades eleitorais.

O decreto assinado por Bolsonaro autorizando o emprego das Forças Armadas no pleito deste ano, portanto, trata-se de uma convocação comum que, inclusive, já foi realizada anteriormente por outros presidentes.

Nas eleições gerais de 2018, por exemplo, o então presidente Michel Temer (MDB) também permitiu o uso das Forças Armadas por meio do decreto nº 9.379, assinado em 21 de maio. Naquele ano, militares atuaram em 598 localidades nos dois turnos – 513 municípios no primeiro e 357 no segundo.

Medida semelhante também foi adotada em 2014 pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Na época, as Forças Armadas empregaram 30 mil militares em 326 cidades, a fim de garantir a ordem e ajudar na logística das eleições.

O uso das Forças Federais também pode ser solicitado nos pleitos municipais. Em 2012, o TSE aprovou o envio de militares para três municípios do estado do Amazonas: Maués, Manicoré e Novo Airão.

O papel das Forças Armadas no processo eleitoral

As Forças Armadas, composta pela Marinha, Aeronáutica e Exército, atuam na segurança das eleições, seja por meio do transporte de urnas, fiscalizando o sistema eletrônico de votação, apoio logístico no transporte de pessoas e materiais e auxiliam a manter a ordem pública, dentro da operação de Garantia da Votação e Apuração (GVA). As Forças Armadas também integram a lista das entidades fiscalizadoras, legitimadas a participar das etapas do processo de fiscalização, e estão incluídas na Comissão de Transparência das Eleições (CTE), seguindo as normas e etapas definidas pelo TSE. Contudo, propõem que o Teste de Integridade das urnas eletrônicas, realizado atualmente pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), seja aperfeiçoado.

O Ministério da Defesa solicitou ao TSE, no dia 10 de agosto, a entrada de nove técnicos militares que atuarão junto à equipe militar que fiscaliza o sistema eletrônico de votação e realizarão uma inspeção do código-fonte até o dia 19 de agosto. A adição de outros técnicos militares na fiscalização ocorreu por conta do afastamento do coronel do exército Ricardo Sant’Anna da CTE pelo então presidente do TSE Edson Fachin após a publicação de notícias falsas em desfavor do sistema eleitoral em uma rede social, reveladas em reportagem do site Metrópoles, na última quarta-feira (10).

No vídeo investigado, o advogado menciona que “Não é mais uma simples autorização do TSE. Com o decreto presidencial, toda essa semana que aconteceu aí de embate, do TSE querendo expulsar o militar lá de dentro e agora os militares dizendo ‘não, ele vai continuar aí dentro e vamos mandar mais 8 ou 9’”. Questionado pelo Comprova se o coronel permaneceria no CTE, o TSE respondeu que Ricardo Sant’Anna foi descredenciado e permanece afastado da comissão.

A CTE, juntamente com o Observatório da Transparência das Eleições (OTE), foi instituída na Portaria nº 578 com o objetivo de “ampliar a transparência e a segurança de todas as etapas de preparação e realização das eleições”. 

O contexto da desinformação

A postagem em questão se insere em um contexto de disputa de narrativa fomentado enfaticamente pelo próprio presidente da República com a intenção de desacreditar o processo eleitoral e a inviolabilidade das urnas eletrônicas.

Em 2021, Bolsonaro intensificou o ataque às urnas eletrônicas sob a alegação – sem provas – de fraude nas eleições de 2018. O presidente chegou a sugerir que o voto registrado pelos eleitores nos equipamentos eletrônicos fossem impressos e depositados em uma urna física, que serviria como uma alternativa segura de consulta em eventuais alegações de fraudes após o pleito ou resultado da apuração neste 2022.

Em maio daquele mesmo ano, a Câmara dos Deputados criou uma comissão especial para avaliar a Proposta de Emenda Constitucional 135/2019, de autoria da deputada federal que concorre à reeleição, Bia Kicis (PL), aliada do presidente da República. A proposta da deputada se assemelhava ao ideal repetido à exaustão por Bolsonaro. O contexto, à época, abriu espaço para uma campanha, sobretudo nas redes sociais, entre apoiadores do presidente pelo voto impresso.

Em 10 de agosto de 2021, a Câmara dos Deputados rejeitou e arquivou a PEC 135/2019. Apesar da derrota, o presidente da República e seus apoiadores mantêm a retórica de fraude nas eleições 2018 e fragilidade no sistema em relação ao pleito de 2022.

Em 18 de julho deste ano, o presidente novamente reforçou o discurso de desconfiança em relação ao sistema eleitoral brasileiro, desta vez, durante um encontro com embaixadores de países com relações diplomáticas com o Brasil.

Quem é o autor da publicação investigada?

Alexander Alves Pereira, conhecido como Alexander Brasil, é advogado e, atualmente, disputa vaga de deputado Estadual em Santa Catarina, pelo Partido Liberal (PL), conforme registro no TSE.

Em 2020, Alexander Brasil foi candidato a prefeito de Florianópolis (SC), pelo PRTB. Ele teve 6.982 votos e não foi eleito.

Nas redes sociais, ele se define como “cristão, conservador, patriota e defensor incansável das liberdades individuais”. Alexander Brasil é apoiador do presidente Jair Bolsonaro e líder do movimento “Vem Pra Direita Floripa”.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre as eleições presidenciais de 2022, a pandemia de covid-19 e políticas públicas do governo federal. O vídeo aqui verificado tenta inflar um cenário de disputas entre o presidente Bolsonaro e as Forças Armadas, e o TSE, por meio de uma interpretação equivocada de um decreto. Peças de desinformação como esta podem atrapalhar o processo eleitoral, pois enganam e confundem a população, que deve fazer sua escolha a partir de dados contextualizados e verdadeiros.

Outras checagens sobre o tema: Peça de desinformação semelhante alegando que Bolsonaro teria determinado a participação das Forças Armadas nas eleições, independentemente da decisão do TSE, já foi verificada pelo Boatos.org.

Recentemente, o Comprova mostrou que é falso que TSE tem 32 mil urnas grampeadas com o objetivo de fraudar a eleição, que montagem de 2018 voltou a circular para atacar sistema eletrônico de votação e que não há registro no TSE de suposta pesquisa que impede entrevistado de votar em Bolsonaro. Além disso, o Comprova também produziu um material explicativo a respeito do funcionamento e da fiscalização dos códigos-fonte das urnas eletrônicas.

Eleições

Investigado por: 2022-08-17

Brasil não foi o único país a registrar deflação em julho, ao contrário do que afirma post

  • Falso
Falso
Não é verdade que o Brasil seja o único entre 194 países do mundo que tenha registrado deflação (fenômeno que indica queda generalizada no nível de preços de bens e serviços) , como afirma um post no Facebook. No mês de julho deste ano, o Brasil registrou uma deflação de 0,68% no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em relação a junho, contudo, o mesmo fenômeno aconteceu em pelo menos quatro outros países (Armênia, Espanha, Grécia e Luxemburgo). Além disso, mesmo com a queda, a inflação acumulada nos últimos 12 meses no Brasil é de 10,07%, o que faz o país ter a 4ª maior taxa de inflação entre as 20 maiores economias do mundo. Desse modo, observa-se que a deflação é algo pontual do mês de julho.

Conteúdo investigado: Um post publicado no Facebook afirma que, de 194 países, o Brasil é o único que registrou deflação, sem especificar a qual período se refere a estatística. A publicação ainda menciona que “nos momentos mais difíceis de crise, são revelados os grandes gestores”, associando o feito ao governo de Jair Bolsonaro (PL).

Onde foi publicado: Facebook.

Conclusão do Comprova: É falsa a afirmação de que o Brasil seria o único país entre 194 com deflação. Nos últimos 12 meses, o Brasil passa por um período de alta inflação, tendo ocorrido uma deflação pontual no mês de julho. Além disso, pelo menos quatro outros países registraram deflação em julho: Armênia, Espanha, Grécia e Luxemburgo.

Na variação mensal de junho para julho, o Brasil registrou uma deflação de 0,68% no IPCA, mas essa queda aconteceu após seguidos aumentos nos níveis de inflação. No acumulado dos últimos 12 meses, por exemplo, a inflação no Brasil é de 10,07%, mesmo com a queda registrada em julho. Nesse recorte, o Brasil apresenta a 4ª maior taxa de inflação entre os países do G20, grupo que reúne as maiores economias do mundo.

A queda do IPCA registrada em julho no Brasil também não significa que houve redução generalizada nos preços de todos os produtos e serviços comercializados no país. De acordo com especialistas, essa queda deve-se, em sua maior parte, à diminuição no preço de itens como os combustíveis e as tarifas de energia elétrica.

Para o Comprova, falso é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: A postagem aqui analisada foi feita em um grupo público de apoio ao presidente Jair Bolsonaro no Facebook no dia 11 de agosto. Até o dia 17 de agosto, a postagem contava com 1,6 mil curtidas, 734 compartilhamentos e 273 comentários.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com a autora do post por meio de mensagem no Facebook, porém não houve resposta até o fechamento desta verificação.

Como verificamos: O primeiro passo foi fazer uma busca no Google com os termos “Brasil” e “deflação”, que nos levou a notícias sobre o tema, como as publicadas pelo G1 e a DW Brasil. Em seguida, para confirmar os dados, o site do IBGE, responsável por divulgar o IPCA, foi consultado.

Para obter dados dos índices de inflação em outros países, foram consultados os sites de organizações como o Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Também foram feitas pesquisas no Google em português e em inglês com termos como “taxas de inflação em países do mundo” e “inflation rate by country”. Um dos resultados nos levou ao site The Global Economy, que reúne dados econômicos de diversos países do mundo com atualizações diárias. Após consulta aos dados publicados na plataforma, foram feitas pesquisas no Google com termos em outros idiomas para verificar, em fontes oficiais, os índices de inflação de países que apareciam com variação negativa no “The Global Economy”.

Por fim, para falar sobre a deflação no Brasil e contextualizar a apresentação desses dados, consultamos o professor Matheus Abrita, da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), e o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Henrique Castro.

Deflação pontual, em cenário geral de inflação

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou em 9 de agosto, um dia antes da publicação do conteúdo verificado, que o IPCA, indicador oficial da inflação no Brasil, registrou uma deflação de 0,68% em julho. Isso significa que o custo de vida médio de famílias com renda mensal de 1 a 40 salários mínimos (recorte definido pelo IBGE para o IPCA) baixou em 0,68% ao longo daquele mês.

Para calcular o IPCA, o IBGE analisa os preços de 377 bens e serviços — de nove categorias diferentes, de alimentação a comunicação — em 16 capitais, incluindo Brasília. O índice é definido por uma média ponderada desses preços, com base na categoria. Como noticiado pela Folha em março, a categoria de maior impacto no início deste ano era a de transportes, que inclui gastos com combustíveis.

Esta é a primeira vez que o IPCA registra deflação desde maio de 2020, quando o choque dos primeiros dois meses da pandemia, com o isolamento social, levou à queda na demanda por bens e serviços, em especial pelos considerados “não essenciais”. Logo, esses bens e serviços se desvalorizaram e, assim, o custo de vida baixou. Abril e maio daquele ano registraram deflação de 0,31% e 0,38%, respectivamente. O efeito foi temporário, visto que o IPCA voltou a registrar inflação em todos os meses desde então. No caso de julho deste ano, a deflação aconteceu em meio a uma taxa de inflação acumulada de 10,07% nos últimos 12 meses.

Como explicou ao Comprova o doutor em economia e professor da UEMS Mateus Boldrine Abrita, a deflação de julho não foi movida naturalmente pela lei da oferta e demanda, como ocorreu nos primeiros dois meses da pandemia. A queda de 0,68% nos preços no último mês foi ocasionada principalmente pelos cortes no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), decorrentes da Lei Complementar nº 194/22, sancionada em junho pelo presidente da República, que estabelece tetos para a cobrança do imposto em diversos bens e serviços, em especial combustíveis.

Por isso, segundo o especialista, a ideia de uma deflação no Brasil é uma “meia verdade”. “O mundo inteiro está num cenário de inflação e o Brasil também. E se você olhar, a inflação no ano está alta. Se você olhar o mês específico em que baixou o ICMS, ele ficou com deflação por causa dessa medida. Mas, nesse mesmo mês, subiu o preço dos alimentos, subiram vários outros itens”, explica.

O professor Henrique Castro, do curso de economia da FGV, ainda acrescenta que, a rigor, seria correto falar em deflação se fosse observada uma queda generalizada de preços em diferentes itens da cesta de consumo do brasileiro, o que não aconteceu. “O índice observado no último mês foi pontual e refletiu o desempenho do preço da gasolina e da energia elétrica, o que não representa um grande alívio no custo de vida do brasileiro, especialmente das famílias mais pobres, que têm nos alimentos a maior parte das suas despesas”, avalia.

O grupo de alimentos e bebidas foi o que registrou maior inflação no IPCA em julho: 1,30%. Logo, como apontado pelos especialistas, é incorreto afirmar que o Brasil passa por um momento de deflação, considerando que, no acumulado dos últimos meses, a inflação é de 10,07%, acima da meta estipulada pelo Banco Central para este ano, que é de 3,5%, com tolerância de 1,5 para mais ou para menos.

Segundo estudo conduzido pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a inflação acumulada dos alimentos em 2022 se aproxima dos 13%, enquanto a média geral é 5,5%. A Fipe, que calcula a inflação por classe social, aponta que, até o momento, a queda no preço dos combustíveis beneficiou principalmente as famílias que têm carro. Em julho, famílias com renda de R$ 9 mil mensais sentiram deflação de 0,11%, enquanto os mais pobres, com renda mensal de um a três salários mínimos, depararam-se, na verdade, com inflação de 0,44%.

Outros países também registraram deflação pontual em julho

A comparação da variação do nível de preços registrada entre todos os países do mundo depende da reunião dos índices de inflação de todos esses países referente a um mesmo período de tempo e agregados de acordo com os mesmos parâmetros. Ainda que o post aqui analisado não tenha especificado a qual período se referia, para fazer a comparação com outros países, o Comprova tomou como base a variação mensal de julho, período em que o Brasil registrou deflação.

Instituições e órgãos multilaterais de economia, como o Banco Mundial, o FMI e a OCDE congregam dados de índices de inflação, mas os números disponíveis nos sites dessas organizações são apresentados na perspectiva anual, e sem atualização recente, o que impede a comparação da variação mensal do nível de preços.

O site The Global Economy, que não é vinculado a qualquer órgão multilateral e diz se basear em fontes oficiais para apresentar “informações confiáveis para pesquisadores, empresários, acadêmicos e investidores”, reúne dados econômicos de diversos países do mundo, entre eles, os índices de inflação e suas variações mensais.

Entre todas as estatísticas apresentadas, o Comprova levou em consideração apenas os países cujos dados mais recentes referiam-se ao mês de julho de 2022 e cuja variação percentual apresentada era negativa, ou seja, indicando que houve redução no nível de preços em julho em relação ao mês anterior. A partir disso, o Comprova buscou confirmar os índices de inflação apontados pelo “The Global Economy” junto a órgãos oficiais ou de governo desses países. Além do Brasil, foi possível confirmar que pelo menos quatro outras nações apresentaram deflação em julho: Armênia, Espanha, Grécia e Luxemburgo.

Na Armênia, a variação negativa entre junho e julho foi de 1,4% no índice geral de preços do país, de acordo com documento publicado pelo Comitê Estatístico do país. Na Espanha, a deflação em julho foi de 0,3%, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística da Espanha e veículos de imprensa espanhóis (como os portais RTVE e Ámbito Financiero).

Na Grécia, os preços caíram 1,44% em julho, conforme divulgou a Autoridade Estatística Helênica, organização independente ligada ao parlamento grego em publicação do último dia 8 de agosto. Por fim, Luxemburgo também registrou deflação em julho, apresentando uma variação negativa de 1% no nível de preços, conforme divulgado pelo portal de estatísticas do governo de Luxemburgo.

Contudo, conforme explica o professor Matheus Abrita, cada país pode ter metodologias diferentes para apurar seus índices de inflação, o que por vezes pode invalidar algumas comparações. “O Brasil adota padrões internacionais na medição do nível de preços pelo IBGE, no entanto, outras nações, que não são democracias, por exemplo, podem não apresentar dados verdadeiros, ou com metodologias diferentes”, explica.

Já o professor Henrique Castro, da FGV, aponta que, além de eventuais diferenças nas metodologias adotadas para medir a variação de preços, como a seleção de diferentes cestas de consumo, países apresentam taxas de inflação diferentes de acordo com seus estágios de desenvolvimento e seus índices de crescimento econômico. “Por isso, comparar taxas entre países muito distintos pode ser de pouca utilidade. Idealmente, o correto seria comparar as taxas entre países de um mesmo bloco comercial e de mesmo estágio de desenvolvimento econômico”, disse.

Levando em consideração o G20, grupo das maiores economias do mundo, o Brasil tem a quarta maior taxa de inflação no acumulado dos últimos 12 meses. Com uma inflação de 10,07%, o Brasil está atrás apenas dos índices observados na Rússia (15,9%), Argentina (64%) e Turquia (79,6%), de acordo com levantamento da empresa de análise e tecnologia financeira Quantzed, divulgados pelo jornal Folha de São Paulo.

De acordo com o FMI, em relação aos países da América do Sul e levando em consideração apenas o ano de 2022, com dados referentes até o último mês de abril, a inflação no Brasil é de 8,2%, a 5ª maior entre os 12 países do continente com dados disponíveis, atrás do Paraguai (9,4%), Suriname (38,9%), Argentina (51,7%) e Venezuela (500%).

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A afirmação de que o Brasil seria o único país em deflação após meses de inflação em escala global, associada a uma gestão de sucesso do atual presidente, pareceu suspeita em época de corrida eleitoral.

Outras checagens sobre o tema: Recentemente, o Projeto Comprova realizou outras investigações sobre temas relacionados à agenda econômica. A exemplo, foi mostrado que existem outros países com cenário econômico positivo além do Brasil, diferentemente do que diz pastor. Em outra investigação, vimos que em um tuíte, foram distorcidos fatos sobre redução de preços de gasolina em ano eleitoral.

Comprova Explica

Investigado por: 2022-08-16

Saiba o que é comprovado e o que é falso sobre a facada em Bolsonaro em 2018

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Comprova Explica
O presidente Jair Bolsonaro (PL) foi esfaqueado em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 6 de setembro de 2018, durante ato público de campanha. Após o episódio, ele foi operado pelo médico-cirurgião Antônio Luiz de Vasconcellos Macedo. Bolsonaro desenvolveu quadro de obstrução intestinal após a facada, realizando seis cirurgias desde então, que levaram-no a uma série de atendimentos em hospitais. Dois desses procedimentos não tiveram relação com o episódio da facada. Desde o atentado, peças de desinformação sobre o caso circulam pela internet: que tenha levado apenas um soco no estômago, que não sofreu o atentado por não ter tido um sangramento externo no abdômen ou que tenha sido diagnosticado com câncer e, por isso, foi submetido aos tratamentos médicos já citados. O autor do crime, Adélio Bispo de Oliveira, foi absolvido impropriamente – quando o réu é considerado inimputável – pela Justiça Federal de Minas Gerais, em 2019. Ou seja, ele não é sentenciado a uma pena, mas passa a cumprir alguma medida de segurança. No caso de Adélio, a Justiça aplicou a medida devido a laudo que comprovou que ele sofria de transtornos mentais. Os dois inquéritos abertos pela Polícia Federal sobre o crime apontam que Adélio agiu sozinho e sem mandantes. Ele também não esteve na Câmara dos Deputados no dia do atentado, como afirmam postagens enganosas. Um terceiro inquérito está em andamento para apurar o financiamento de sua defesa no processo.

Conteúdo analisado: Postagens no Facebook e no Twitter apresentam versões diferentes a respeito do episódio envolvendo a facada contra o então candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral de 2018. À época, ele era filiado ao PSL, partido que, após uma fusão com o DEM, deu origem ao União Brasil. As peças questionam a veracidade do atentado contra Bolsonaro, a autoria do crime e a motivação do autor da facada, Adélio Bispo.

Comprova Explica: Postagens com alegações enganosas sobre o atentado sofrido pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2018, continuam a circular nas redes sociais mesmo quatro anos depois do ocorrido. Muitos conteúdos trazem informações que não foram confirmadas pela equipe médica que atende o presidente ou pela Justiça e pela Polícia Federal (PF), que investiga o caso. Apesar de ainda haver investigações em andamento, especificamente sobre o custeio da defesa do autor do atentado, nas conclusões apresentadas até agora não há qualquer sinalização de que a facada tenha sido falsa ou que o presidente tivesse sido diagnosticado com um câncer, para que fosse submetido aos procedimentos cirúrgicos que realizou.

Já sobre Adélio Bispo, a decisão da Justiça Federal, em 2018, foi de internação devido ao quadro mental que o autor da facada apresenta. Segundo pareceres médicos da defesa de Adélio e de peritos escolhidos pela acusação, ele sofre de transtorno delirante persistente, o que o torna inimputável. Isso também descarta qualquer hipótese, com base na investigação da PF, de que o crime tenha envolvido outras pessoas ou algum mandante. Adélio segue em reclusão no Presídio Federal de Campo Grande (MS) pelo menos até o ano de 2025 e todas as investigações realizadas até o momento apontam que ele agiu sozinho.

Com a proximidade de um novo pleito, no qual Jair Bolsonaro disputa a reeleição, o Comprova decidiu explicar quais as conclusões foram apresentadas até agora em relação ao caso, esclarecendo dúvidas desde o momento do crime até as decisões judiciais contra Adélio Bispo.

Como foi o episódio da facada em Bolsonaro?

Em 6 de setembro de 2018, o então candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro foi esfaqueado em Juiz de Fora, Minas Gerais. O ataque aconteceu enquanto Bolsonaro fazia corpo a corpo (caminhada entre populares durante um ato de campanha) no Calçadão da Rua Halfeld, no Centro da cidade.

A facada foi perpetrada por Adélio Bispo de Oliveira, à época com 40 anos. Adélio é natural de Montes Claros, cidade do norte de Minas Gerais. Após o ataque, ele tentou fugir, mas foi impedido por pessoas presentes no local e, posteriormente, detido e levado pela Polícia Federal (PF), que o autuou em flagrante pelo crime.

Havia outras pessoas envolvidas no crime presentes no local?

Na data do esfaqueamento, faltavam 31 dias para o primeiro turno das eleições presidenciais. O momento era de extrema polarização entre as candidaturas de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT). Com isso, nas primeiras horas após o ocorrido, começaram a surgir diversas peças de desinformação sobre o episódio nas redes sociais.

Um dos conteúdos disseminados era de um vídeo que supostamente mostrava um homem dando um soco no abdômen de Bolsonaro logo após a facada, enquanto ele era carregado. A postagem, inclusive, voltou a circular no mês de julho deste ano, no perfil do Instagram do cantor e candidato a deputado federal pela Bahia, Netinho (PL). O post foi checado pelo Estadão Verifica, que atestou o conteúdo como falso. Na época da facada, um dos filhos de Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), desmentiu a história em uma publicação no Twitter, onde escreveu que “o homem que supostamente deu um soco em Bolsonaro é um Policial Federal. Não foi um soco, sua mão estava mole, ele estava direcionando o corpo de JB para entrar no carro”.

Outra peça de desinformação que viralizou nos primeiros dias após o atentado sugeria que a faca usada no crime contra o candidato à presidência foi passada da mão de uma mulher para a mão de um homem antes de chegar ao autor do crime, Adélio Bispo. No entanto, ao analisar um dos vídeos que registrou o momento do atentado, é possível ver que a mulher em questão não passa nenhum objeto cortante para o homem de camiseta branca. Na sequência, é possível ver a mão do homem vazia após cruzar com a mulher. O Comprova fez uma análise deste vídeo em editores de imagens como o Watch Frame by Frame.

Bolsonaro não simulou o atentado para tratar câncer no estômago

Mesmo com o ataque registrado por diversos ângulos e repercutido por veículos de imprensa, a veracidade do ataque continua a ser questionada em postagens enganosas nas redes. Uma das alcunhas adotadas é chamar o ocorrido de “fakeada”, uma junção das palavras fake – falso, em inglês – e facada. Uma das hipóteses levantadas é a de que Bolsonaro teria um câncer no estômago e o ataque foi simulado para que ele pudesse passar pelas cirurgias necessárias sem que a doença fosse revelada. A peça de desinformação foi desmentida pela seção Fato ou Fake, do portal G1, ainda em novembro de 2018. O médico Antonio Luiz de Vasconcellos Macedo, que atendeu Bolsonaro na época, explicou ao G1 que o candidato não tem câncer. “Ele não tem câncer nenhum. Ele sofreu uma facada, uma tentativa de assassinato”, disse Macedo. “Ele nunca teve câncer. Quem escreveu isso é completamente ignorante”, complementou o médico ao G1.

As dúvidas em relação ao caso seguiram e frequentemente novas publicações sobre o tema surgem. Em 5 janeiro deste ano, uma publicação na página Militantes de Esquerda, no Facebook, fez questionamentos sobre uma foto onde o cirurgião Antonio Macedo aparece atendendo Bolsonaro no hospital sem equipamentos como jaleco ou luvas cirúrgicas, relacionando a imagem à facada. A publicação é uma captura de tela de um post no Twitter. O texto da postagem diz: “É sério isso? O Dr. Macedo examina o paciente, sem jaleco médico, sem luvas, sem higienização hospitalar. Seus trajes é do Revelion (sic) das Bahamas. É piada! Pode isso @Medicina_CFM (Conselho Federal de Medicina)?” Por meio de busca do texto no Google, o Comprova encontrou uma publicação idêntica feita no dia 4 de janeiro, às 10h51, no horário de Brasília, no Twitter. A publicação é de autoria do perfil Marco Santo, que constantemente publica críticas a Bolsonaro.

Por meio da ferramenta Google Lens, o Comprova encontrou a imagem usada na publicação em uma matéria do site Poder360, publicada também na manhã de 4 de janeiro de 2022, às 9h54. No texto, o Poder360 explica que a imagem foi capturada de uma postagem no perfil oficial de Bolsonaro no TikTok. A postagem foi feita na manhã de 4 de janeiro, quando Bolsonaro estava internado no hospital Vila Nova Star, em São Paulo. O registro não tem qualquer ligação com o atentado de 2018. O presidente foi à unidade depois de passar mal durante o período de férias, em Santa Catarina. O médico Antônio Luiz Macedo chegou ao local na mesma data da gravação do vídeo, depois de voltar das férias em Bahamas, onde estava com a mulher, para atender Bolsonaro. O presidente estava internado no local desde 2 de janeiro.

O Comprova procurou tanto o médico (por WhatsApp) quanto o Conselho Federal de Medicina (CFM) (por e-mail) para esclarecerem o contexto da imagem. Até o fechamento deste texto, ambos não haviam retornado.

Quem eram os advogados de Adélio?

A defesa de Adélio Bispo foi composta por quatro advogados. O autointitulado coordenador do grupo é o advogado Zanone Manuel de Oliveira Junior, com registro vigente na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a partir do município de Contagem, em Minas Gerais, mantendo a Zanone Manuel de Oliveira Junior Sociedade Individual de Advocacia. Além de Zanone, atuam no caso os advogados Pedro Augusto de Lima Felipe e Possa, Marcelo Manoel da Costa e Fernando Magalhães.

De acordo com o Cadastro Nacional de Advogados da OAB, Possa e Costa têm registro vigente no município de Barbacena, também em Minas Gerais. Os dois são sócios do escritório Costa, Garcia, Lopes, Marotta & Possa Sociedade de Advogados.

Já Magalhães tem registro da OAB no município de Betim, também em Minas Gerais, sendo sócio da Fernando Eulalio Sociedade Individual de Advocacia.

Quem pagou os advogados de Adélio?

De acordo com o advogado Possa, em entrevista ao UOL, em novembro de 2021, o escritório de Zanone acertou o recebimento de R$ 25 mil pela defesa de Adélio Bispo. O advogado, no entanto, diz que há um acordo de confidencialidade para não revelar quem financiou a defesa. Até novembro daquele ano, segundo o advogado Possa, teriam sido pagos apenas R$ 5 mil.

“É uma pessoa ligada a ele (Adélio) religiosamente. Eu não sei a identidade dela, só o doutor Zanone (Manuel, que está à frente da defesa do caso) que sabe, teve contato com ela. Mas não há mandante, um financiador, ninguém que tinha conhecimento prévio dessa ação perpetrada pelo Adélio. Somente ao saber da facada é que ele se dispôs a ajudá-lo por uma questão de amor ao próximo, vamos assim dizer”, disse o advogado ao ser entrevistado pelo UOL.

O Comprova entrou em contato por meio de mensagens no aplicativo WhatsApp com o advogado Zanone Manuel de Oliveira Junior, mas não houve resposta.

Sigilo do advogado de Adélio foi quebrado

No dia 3 de novembro de 2021, a Segunda Seção do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) autorizou a quebra de sigilo bancário do advogado Zanone Manuel de Oliveira Júnior. A medida veio após operação da Polícia Federal, em 2018, que apreendeu os materiais de Zanone em seu escritório. A medida foi autorizada com o objetivo de chegar a uma conclusão sobre como Adélio Bispo, que não teria condições de pagar por um advogado de renome, segundo o TRF-1, contratou Zanone.

Por ocasião da decisão, a Polícia Federal reabriu o inquérito que investiga o caso, para analisar os dados do advogado. O Comprova perguntou à PF se já havia prazo para apresentar novas conclusões e quais as diligências que estavam em andamento. A corporação respondeu apenas “não se manifestar sobre eventuais investigações em andamento”.

Conclusões da investigação sobre a facada

Em outros dois inquéritos, a Polícia Federal já havia concluído que Adélio agiu por motivação política, mas que ele sofre de distúrbio mental. Conforme pareceres médicos da defesa de Adélio e de peritos escolhidos pela acusação na decisão da Justiça, em 2018, conclui-se que ele sofre de transtorno delirante persistente. Nos inquéritos, a PF também não apontou evidência de algum mandante do atentado. O inquérito chegou à conclusão de que não houve participação de terceiros.

Adélio foi absolvido impropriamente – a absolvição imprópria permite que o réu seja considerado inimputável – pelo juiz federal Bruno Savino em 14 de junho de 2019. Neste caso, ele não é sentenciado a uma pena, mas passa a cumprir alguma medida de segurança. No caso de Adélio, a decisão foi pela conversão da prisão preventiva em internação.

No dia 14 de julho de 2022, o juiz Bruno Savino expediu ofício ao juiz corregedor da Penitenciária Federal de Campo Grande/MS, solicitando a renovação do prazo de permanência de Adélio Bispo dos Santos naquele estabelecimento até maio de 2025.

Como fora sentenciado em julho de 2019, Adélio tinha previsto o prazo de três anos para ser submetido a novos exames, com possibilidade de liberação, conforme decisão do juiz federal, devendo ser solicitadas novas informações à Diretoria do Sistema Penitenciário Federal em maio do ano de 2025, caso não sejam prestadas informações espontâneas até a data estipulada sobre a situação do custodiado.

No último dia 25 do mês de julho, Adélio foi submetido a uma nova perícia médica na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS). Os laudos dos exames, realizados por peritos da Justiça Federal, estão previstos para serem divulgados até o fim de agosto. A depender do diagnóstico, há possibilidade de Adélio ser colocado em liberdade. Em entrevista ao UOL, o advogado de Adélio afirmou que a perícia pode apontar uma melhora no quadro de saúde dele, devido aos tratamentos psicológicos pelos quais ele vem passando durante o cumprimento da pena. O advogado, contudo, acredita que Adélio deve ser mantido no presídio federal para continuar com seu tratamento.

Adélio, o autor da facada

Desde 2018, quando cometeu o atentado contra Bolsonaro, o nome de Adélio Bispo de Oliveira passou a estampar noticiários do Brasil e de outros países. A partir daí, uma série de especulações e histórias surgiram envolvendo o autor da facada.

Adélio nasceu na cidade de Montes Claros, Minas Gerais, em 6 de maio de 1978. Em setembro de 2018, uma reportagem de Mateus Parreiras, do Estado de Minas, reproduzida pelo Correio Braziliense, trouxe detalhes da vida de Adélio, o que inclui passagens por diferentes cidades brasileiras. Na maior parte dos casos, sem ficar muito tempo em cada um dos municípios ou ainda se mudando frequentemente de bairros numa mesma cidade.

Conforme a publicação, Adélio deixou sua cidade natal pela primeira vez quando ainda tinha 17 anos, no ano de 1995. De lá pra cá, passou por diversos bairros de Uberaba, no Triângulo Mineiro; morou também em Florianópolis, Santa Catarina.

Ao longo deste tempo, teve alguns trabalhos com carteira assinada ou sem registro formal, como quando atuou como servente de pedreiro. Essa foi a ocupação registrada por ele, em 2007, junto à Justiça Eleitoral. Na ocasião, Adélio filiou-se ao PSOL, tendo permanecido nos quadros da sigla até 2014, quando pediu para deixar o partido. As investigações também não revelaram qualquer indício de envolvimento de partidos políticos com o crime. Antes do atentado, em seu perfil no Facebook Adélio compartilhava conteúdos críticos a Bolsonaro, como mostrou uma reportagem da Folha, em 2018.

Passagem pelo Congresso

Assim como outros episódios já citados acima envolvendo Adélio, peças de desinformação também circularam nos últimos anos dando conta de uma possível ida dele à Câmara dos Deputados, no dia 6 de setembro de 2018, mesma data do crime. É o caso, por exemplo, de uma uma publicação feita no Twitter, em 5 de agosto de 2022. O post questiona: “Como o nome do esquerdista e homicida Adélio Bispo foi parar na Câmara dos Deputados e justamente no dia em que ele desferiu uma facada no abdômen do então candidato à presidência Jair Bolsonaro?”

Conteúdos desta natureza acabaram sendo reforçados por um equívoco cometido à época dos fatos. Ainda em setembro daquele ano, um ofício redigido por Paul Pierre Deeter, diretor da Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados, apontou a “existência de dois registros de entrada referentes à pessoa do Senhor Adélio, ambos datados do dia 6 de setembro de 2018, dia em que fora efetuada sua prisão no estado de Minas Gerais em decorrência do atentado ao deputado Bolsonaro”.

No dia 20 de setembro, foi concluída uma apuração por parte da Polícia Legislativa apontando que a “suposta visita” de Adélio à Casa foi um engano.

Segundo Paul Deeter, um funcionário da Câmara acessou o sistema para checar se havia alguma informação de que o autor da facada já teria estado no Congresso anteriormente. A atitude teria sido tomada em função da grande repercussão do caso. “O funcionário quis fazer essa busca, mas acabou registrando o nome de Adélio no sistema quatro horas depois do fato”, afirmou o diretor à imprensa.

Vale lembrar, inclusive, que Adélio foi preso pela PF instantes após o atentado, sendo impossível sua passagem pela Câmara no horário indicado no suposto registro.

Também não ficou caracterizada, segundo a investigação, nenhum tipo de má-fé por parte do funcionário da Casa. Após o arquivamento, a ocorrência foi encaminhada ao Ministério Público Federal (MPF). Tal procedimento, segundo a Câmara, é o padrão adotado em todos os casos de arquivamento de investigações ou inquéritos conduzidos pela Polícia Legislativa da Casa.

Anos antes do atentado, em agosto de 2013, há registros da entrada de Adélio na Câmara, mas não há detalhes dos locais, tampouco gabinetes visitados por ele.

Por que explicamos: O Comprova investiga conteúdos sobre pandemia, eleições e políticas públicas que atinjam alto grau de viralização nas redes sociais. Já o “Comprova Explica” serve como instrumento para que os leitores entendam um conteúdo que está viralizando e causando confusão, como é o caso do tema aqui analisado. Desde a campanha eleitoral de 2018, o episódio da facada no presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, passou a ser tema de diversas peças de desinformação e é objeto de buscas constantes no Google. Conteúdos falsos ou enganosos que envolvem atores políticos causam prejuízos ao processo democrático e atrapalham a decisão do eleitor, que deve ser tomada com base em informações verdadeiras.

Outras publicações sobre o tema: Prestes a completar quatro anos, o episódio da facada no presidente Jair Bolsonaro segue sendo alvo de boatos, especulações e desinformação. Desde então, diversos conteúdos relativos ao caso já foram analisados por agências de checagem, além de receber uma ampla cobertura da imprensa brasileira.

O Comprova, por exemplo, já verificou ser falso que Bolsonaro tem câncer e não levou facada e que médico de Bolsonaro disse “câncer de intestino” em vídeo de reportagem, mas como brincadeira. Constantemente, perfis nas redes sociais também tentam relacionar adversários do atual presidente ao crime ocorrido na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. Neste sentido, o Comprova já demonstrou que homem em foto com Gleisi Hoffmann não é agressor de Bolsonaro e que post mente ao tentar associar Lula e Manuela D’Ávila a facada contra Bolsonaro.

Eleições

Investigado por: 2022-08-15

Não há registro no TSE de suposta pesquisa que impede entrevistado de votar em Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
São enganosas postagens que procuram desacreditar as pesquisas eleitorais ao mostrar, em vídeo, uma suposta pesquisa sendo feita por telefone que não permite o voto em Jair Bolsonaro (PL). Apuração realizada pelo Comprova mostrou que não há registro deste levantamento no banco de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sendo assim, mesmo que a pesquisa seja real, ela não é oficial e nem pode ser divulgada ao público, sob pena de multa e prisão. Somente as pesquisas registradas no TSE, que, no caso das eleições deste ano, seguem normas definidas na Resolução Nº 23.600/2019, podem ser divulgadas publicamente.

Conteúdo investigado: É enganoso um vídeo que circula na internet no qual uma suposta pesquisa eleitoral, feita por chamada de telefone automática, não permite ao entrevistado declarar intenção de voto no presidente Jair Bolsonaro (PL) em eventual segundo turno contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A pessoa que divulgou o vídeo afirma que “assim fica fácil manipular”.

Onde foi publicado: Twitter e Facebook.

Conclusão do Comprova: O vídeo que mostra uma suposta pesquisa eleitoral fraudulenta sendo feita por telefone não pode ser utilizado para desacreditar as pesquisas eleitorais feitas no país, como insinuam, de maneira enganosa, postagens no Twitter e no Facebook. Para uma pesquisa eleitoral ser considerada oficial e, logo, poder ser divulgada à sociedade, ela precisa ser registrada no TSE. Isso implica em seguir normas que, no caso das eleições deste ano, estão definidas na Resolução Nº 23.600/2019, do próprio tribunal.

Nos registros do TSE das pesquisas para as eleições deste ano, não há nenhuma com as características daquela apresentada no vídeo verificado: ser conduzida por chamada de telefone com gravação automatizada e ter a pergunta “e se houver um segundo turno entre Bolsonaro e Lula, hoje, em quem você votaria?”.

Nenhuma das pesquisas registradas no TSE que utilizaram gravação automatizada de voz, por telefone, e responsiva a dígitos no teclado do aparelho, utiliza a mesma pergunta que aparece no vídeo verificado. Já o número de telefone que aparece no vídeo não pode ser identificado.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O tuíte verificado tem 9.440 curtidas e 621 comentários. Ele foi retuitado 4.612 vezes. O tuíte repercutiu também no Facebook, onde foi compartilhado 362 vezes a partir de 26 postagens feitas por cerca de 20 páginas diferentes, que somam mais de 2,3 milhões de seguidores. Os dados foram atualizados às 10h10 de domingo (14).

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com o empresário Paulo Filippus, autor do tuíte verificado. Nele, Filippus sugere que houve manipulação no levantamento. “Pesquisa por telefone não aceita o voto em Bolsonaro. Assim fica fácil manipular.” E continua: “É urgente que identifiquem a empresa que disparou essas ligações por telefone (64) 3055-7296 e os responsabilizem por essas manipulações. Isso não pode passar batido”.

Questionado sobre a origem da gravação, ele não respondeu, apenas informou que o intuito da postagem era “pedir para que as autoridades identifiquem a empresa responsável pela ligação e lhe questionem sobre o vídeo. Nada mais que isso”, disse.

Já o usuário do Twitter Osvaldo Lima Jr., que fez a publicação mais antiga identificada — em 27 de julho, às 6h34 —, foi procurado, mas não respondeu.

Como verificamos: O Comprova baixou o vídeo com auxílio da página Save from Net e o inseriu na ferramenta InVid, que separa frames e permite a busca reversa por imagens do vídeo na internet. A análise trouxe outras postagens do mesmo vídeo e uma checagem da Reuters sobre o material.

Com uso do identificador de chamadas TrueCaller, foi possível constatar que o número estava registrado na cidade de Rio Verde, Goiás. Foram acionados, então, órgãos e empresas com o intuito de identificar o responsável pelo telefone: a Junta Comercial de GO, o Procon-GO, a Anatel e a operadora Vivo. O TSE e o Ministério Público Eleitoral (MPE) também foram procurados, para saber se haviam recebido denúncias sobre a pesquisa ou se o telefone estava vinculado a alguma empresa de pesquisa cadastrada no tribunal.

O Comprova tentou localizar algum CNPJ vinculado ao telefone no motor de busca Aleph, do consórcio de jornalismo investigativo OCCRP, e em outros sites na internet. Telefonemas foram feitos para o número, mas a ligação nunca completou.

A equipe ainda buscou os autores da postagem e acessou o banco de dados do TSE com o intuito de analisar se havia registro de alguma pesquisa eleitoral com as características que aparecem no vídeo verificado: feita por gravação automatizada de voz, capaz de responder a dígitos no teclado do telefone, e com a pergunta “E se houver um segundo turno entre Bolsonaro e Lula, hoje, em quem você votaria?”.

Para tanto, foram analisadas, por buscas por palavras-chave, todas as planilhas em CSV com informações sobre as pesquisas registradas neste ano no TSE e todos os questionários aplicados por essas pesquisas.

As planilhas foram consultadas com utilização do programa RS Studio, para análise somente da coluna com informações sobre a metodologia empregada. Já os questionários, que estão em PDF e são 945 no total, foram baixados e inseridos no programa Pinpoint, que permite a busca por palavras-chave em arquivos no formato.

Pesquisa não foi registrada no TSE e não pode ser divulgada

As pesquisas eleitorais divulgadas à sociedade devem ser obrigatoriamente registradas no TSE, conforme a Resolução: 23.600/2019. O banco de dados com todos os registros feitos neste ano pode ser consultado no Portal Dados Abertos do TSE, em ‘Pesquisas Eleitorais – Atual’.

Em consulta ao site, não foi localizada nenhuma pesquisa com as duas características da que aparece no vídeo. Primeiro, ser feita por sistema URA, ou unidade de resposta audível (gravação automatizada capaz de identificar dígitos e voz), e, segundo, conter a pergunta “E se houver um segundo turno entre Bolsonaro e Lula, hoje, em quem você votaria?”.

Portanto, por lei, tendo sido fraudada ou não, a suposta pesquisa do vídeo não pode ser divulgada ao público. Caso seja, as penas aplicáveis são as descritas na própria Resolução: 23.600/2019:

  • Art. 17. A divulgação de pesquisa sem o prévio registro das informações constantes do art. 2º desta Resolução sujeita as pessoas responsáveis à multa no valor de R$ 53.205,00 a R$ 106.410,00.
  • Art. 18. A divulgação de pesquisa fraudulenta constitui crime, punível com detenção de seis meses a um ano e multa no valor de R$ 53.205,00 a R$ 106.410,00.

Análise das pesquisas no banco de dados

No Portal Dados Abertos do TSE, é possível baixar todos os questionários submetidos aos eleitores nas pesquisas registradas, ou seja, que estão autorizadas a serem divulgadas ao público. O teor dos questionários é uma das informações obrigatórias que a empresa ou instituto de pesquisa deve prestar no ato do registro.

O Comprova baixou todos os questionários, um total de 945 arquivos em PDF, e fez o upload deles no programa Pinpoint, do Google, que permite a busca por palavras-chave em PDFs. As buscas que apresentaram resultados foram feitas com os termos “URA” (6 resultados) e “ligação” (26).

Consultamos todos esses questionários, que foram submetidos a eleitores em pesquisas feitas pelo Instituto Goiás Pesquisas e pelo PoderData. É possível constatar que, nelas, foi utilizado sistema de gravação automatizada responsiva a dígitos no teclado do telefone, como na suposta pesquisa do vídeo investigado:

  • “A plataforma de pesquisa via Sistema URA identifica e registra no banco de respostas informações dos log’s de dados das pesquisas finalizadas e completas” (questionário do Instituto Goiás Pesquisas).
  • “Olá, esta é uma ligação do PoderData. Estamos conversando com pessoas de todo o país sobre assuntos da atualidade. Posso tomar poucos minutos do seu tempo para fazer algumas perguntas? Basta usar o teclado do telefone para escolher as respostas. Se quiser ouvir as opções novamente use sempre a tecla ZERO”. (questionário do PoderData).

No entanto, as perguntas que constam nos documentos diferem da feita na gravação mostrada no vídeo verificado (“E se houver um segundo turno entre Bolsonaro e Lula, hoje, em quem você votaria?”).

Outro conjunto de dados pesquisado foram as planilhas em arquivo CSV com informações das pesquisas realizadas neste ano, também disponíveis no Portal Dados Abertos. Usamos o RStudio, software de análise de dados a base da linguagem de programação R, para procurarmos por pesquisas que incluíssem na coluna de metodologia, chamada “DS_METODOLOGIA_PESQUISA”, a expressão “unidade de resposta audível” ou o radical “auto”.

Assim, identificamos outras empresas que utilizaram modelos automatizados para questionar eleitores: a Multi Mercado LTDA, a Percent Pesquisa de Mercado e Opinião LTDA, e a IBPAD – Consultoria e Pesquisa LTDA. Esta última, porém, realizou pesquisas pela internet, não por chamada de telefone, e apenas para divulgação interna.

Quanto à Multi Mercado LTDA e à Percent Pesquisa de Mercado e Opinião LTDA, os questionários também informam que as pesquisas foram feitas por gravações automatizadas de voz, por telefone:

  • “A técnica de coleta de dados será a de entrevistas telefônicas por meio de ligações automatizadas para telefones fixos e celulares utilizando sistema tecnológico de ligações em massa, com base em questionário estruturado” (Percent Pesquisa de Mercado e Opinião LTDA)
  • “Aplicação de questionário estruturado por meio de ligações automatizadas para telefones fixos e celulares” (Multi Mercado LTDA)

As perguntas dessas empresas sobre intenção de voto em eventual segundo turno também diferem da que é feita no vídeo verificado.

Contato com as empresas

O Comprova entrou em contato com os quatro institutos de pesquisa que realizaram, neste ano, pesquisa eleitoral por URA em chamadas telefônicas.

Segundo o professor Jorge Lima, do Instituto Goiás Pesquisas, a pesquisa que aparece no vídeo não foi feita por eles. Além disso, ele afirmou que ela não é feita pelo mesmo sistema URA que utilizam. “Nosso sistema de ligação é o sistema de URA reversa, ou seja, nós fazemos a ligação. Se uma questão ficou inválida, por exemplo, ele não passa para a próxima questão”, disse Lima.

Para ele, um ponto que pode mostrar a manipulação do vídeo é que “a pessoa é abordada e passa um tempo [para ela responder] e ela vai ainda gravar a situação. A nossa [pesquisa] se tiver 5 segundos sem resposta, a ligação cai automaticamente. Parece mais uma ligação e não um sistema de URA”.

Lima também questiona o fato da pessoa que gravou o vídeo não deixar “o questionário rodar até o final”, mostrar só a questão sobre o eventual segundo turno entre Bolsonaro e Lula, e não revelar o nome do instituto que teria feito a pesquisa.

Sócio-diretor e coordenador do PoderData, Rodolfo Costa Pinto negou “com toda certeza” que a suposta pesquisa do vídeo fosse conduzida pelo seu instituto. “Não é a gravação que a gente utiliza e também não é o texto que utilizamos”, explicou Pinto: “Nas gravações, utilizamos sempre o texto literal que está registrado no TSE, que utiliza a palavra ‘tecle’ depois de cada opção”, detalhou.

Ronye Steffan, diretor da Percent Pesquisa de Mercado, também afirmou ao Comprova que a pesquisa não foi realizada pela empresa, porque as suas entrevistas por telefone, apesar de envolverem sistema tecnológico de ligações em massa, são conduzidas por pessoas, e não URA. Steffan acrescentou que eles trabalham com o método Survey de pesquisa, tanto presencial quanto telefônico, ambos com os dados coletados por uma pessoa.

A Multi Mercado LTDA informou que a ligação não foi feita pelo instituto e que as frases registradas no vídeo não correspondem ao questionário registrado no TSE.

Número não localizado

Não foi possível localizar a quem pertence o número que aparece no vídeo: 06430557296. Foram feitas consultas na internet, em sites e programas, e procurados órgãos como a Junta Comercial de Goiás, o Procon-GO, a Anatel e a operadora Vivo. Devido à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), não foi possível obter a informação.

Ligações feitas para o número não completam. O aplicativo TrueCaller, um identificador de chamadas, aponta que o número é da cidade de Rio Verde, Goiás, e que ele é acusado de ser “Pesquisa Eleitoral Golpe” e tem “16 denúncias de spam”.

Ao clicar no botão ‘Ver”, o aplicativo mostra outra tela com mais dados, como a estimativa de que o número costuma ligar entre 11h e 14h:

Por que investigamos: Investigamos conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre as eleições presidenciais, a pandemia de covid-19 e políticas públicas do governo federal. No caso do material investigado, vimos que a publicação mostra uma suposta pesquisa eleitoral feita por telefone que, supostamente, beneficiaria um candidato, em detrimento de outro. Peças de desinformação como esta podem atrapalhar o processo eleitoral, pois enganam a população, que deve fazer sua escolha a partir de dados verdadeiros e confiáveis.

Outras checagens sobre o tema: Uma publicação semelhante ao conteúdo verificado, mas que inclui o mesmo vídeo, também foi desmentido pelo serviço de checagem de fatos da agência de notícias Reuters.

Em outras verificações sobre pesquisas eleitorais, o Comprova já mostrou que nenhuma pesquisa eleitoral aponta 70% de votos para Bolsonaro e que a postagem usa foto de atos sem presença de Lula para tentar desacreditar pesquisas eleitorais. Também já mostramos que áudio sobre fraudes em pesquisas é de comediante, não de ex-diretor do Datafolha e que post engana ao usar caso no RN para tirar credibilidade de pesquisas eleitorais.

Eleições

Investigado por: 2022-08-15

Reportagem cita outros países com cenário econômico positivo além do Brasil, diferentemente do que diz pastor

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso vídeo com o discurso de um pastor de Fortaleza afirmando que somente o Brasil terá um cenário econômico positivo em 2022, enquanto a perspectiva para a economia dos demais países é sombria e incerta. Ele cita um relatório divulgado em julho pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O texto realmente existe, no entanto, prevê dados positivos não só para o Brasil, mas também para outros países da América Latina e do Caribe e para a Arábia Saudita. Para o Brasil, a estimativa de crescimento econômico é de 1,7% em 2022. A projeção para o México, por exemplo, é maior, chegando a 2,4%.

Conteúdo investigado: Vídeo em que o pastor Jecer Goes afirma que o FMI anunciou em julho deste ano que as perspectivas são sombrias para toda a economia mundial, menos para o Brasil.

Onde foi publicado: Facebook, TikTok e YouTube.

Conclusão do Comprova: É enganoso vídeo em que um pastor afirma que somente o Brasil terá um cenário econômico positivo em 2022, enquanto a perspectiva para a economia dos demais países é sombria.

Na gravação, de 31 de julho de 2022, Jecer Goes, um dos fundadores do Ministério Canaã, de Fortaleza, cita um relatório recente do Fundo Monetário Internacional (FMI). O pastor diz que o órgão “trouxe uma notícia que abala o mundo” e segue: “A notícia é que as perspectivas para a economia mundial são sombrias. Agora, preste atenção ao restante da notícia. O FMI informa que somente o Brasil está fora dessa perspectiva negativa”.

No entanto, o documento, chamado “World Economic Outlook” e publicado em 26 de julho deste ano, prevê dados positivos não apenas para o Brasil, mas para outros países da América Latina e do Caribe, além da Arábia Saudita.

Para o Brasil, a estimativa de crescimento econômico é de 1,7% em 2022. Colômbia e Chile também foram citados no relatório (sem as respectivas projeções) como economias que tiveram recuperação robusta e impulsionaram uma revisão do Produto Interno Bruto (PIB) para cima. A projeção para o México é maior que a brasileira, de 2,4%, assim como a da Arábia Saudita (7,6%).

Procurada, a igreja respondeu que o pastor se baseou em “reportagem publicada por diversos portais de notícias do país”. No entanto, a matéria a que se referem diz que Brasil e México estão entre as exceções, o que difere do que foi declarado pelo pastor, que usou apenas a informação do título.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: Publicado em 2 de agosto de 2022, o vídeo viralizou poucos dias depois. No TikTok, em 12 de agosto, somava 389 mil visualizações. Na mesma data, a publicação no perfil do Facebook investigado contava com 4,7 mil compartilhamentos e 110 mil visualizações. O vídeo na íntegra foi publicado, no dia 31 de julho, no canal do YouTube do religioso, que tem 83,3 mil inscritos.

O que diz o autor da publicação: Procurado, o Ministério Canaã respondeu que Goes reproduziu reportagens publicadas em portais de notícias sobre o relatório. Questionada sobre o conteúdo da reportagem, a igreja respondeu que “o pastor leu apenas o título da matéria” e que, “caso exista mais algum país incluso nesse rol de exceção, a matéria jornalística deveria ter citado no título”. E completou, com ameaça: “qualquer dúvida, passaremos o assunto ao Jurídico sobre qualquer matéria indevida que envolva o nome do pastor”.

Como verificamos: No vídeo, o pastor Goes menciona que os dados citados por ele foram obtidos em documento do FMI. Assim, a reportagem buscou no site do Fundo o relatório mais recente sobre as perspectivas para a economia mundial. Foi feita, então, a leitura do documento para entender se o conteúdo do vídeo era verdadeiro. Também foi feita uma busca no YouTube pelo canal de Jecer Goes, onde consta o vídeo do culto na íntegra.

Por fim, a equipe tentou contato com Goes por telefone, e-mail e WhatsApp da igreja e por mensagem privada no perfil do pastor no Facebook, Instagram e no seu e-mail pessoal divulgado na página de Facebook.

O relatório

O relatório “World Economic Outlook” (Perspectiva Econômica Global, em tradução livre), publicado pelo FMI em 26 de julho deste ano, aponta, de fato, para um cenário “sombrio e mais incerto” da economia mundial no período entre 2022 e 2023. O texto é uma pesquisa do corpo técnico do FMI para avaliar o desenvolvimento da economia global a curto e médio prazo. O estudo é publicado duas vezes por ano.

De acordo com as previsões dos técnicos do FMI, o PIB global, após alta de 6,1% em 2021, vai desacelerar para 3,2% em 2022. “Isso reflete a estagnação nas três maiores economias do mundo — Estados Unidos, China e a zona do euro — com importantes consequências para as perspectivas mundiais”, afirma o texto.

Entretanto, para América Latina e Caribe, a análise foi positiva. A estimativa é crescimento de 3% para toda a região. Além disso, o FMI calcula recuperação mais robusta nas economias do Brasil, México, Colômbia e Chile.

Para o Brasil, a estimativa é de alta de 1,7%. O México, porém, deve ter um crescimento ainda maior, chegando a 2,4%. O relatório não detalha os dados da Colômbia e do Chile. O FMI justifica a melhoria no Brasil e no México em razão da elevação nos preços “dos combustíveis fósseis e dos metais” exportados por estes países.

Outro destaque do FMI é com relação à Arábia Saudita, na Ásia, cujo PIB deve registar alta de 7,6% este ano.

Culto religioso no Ceará

O discurso do pastor Jecer Goes foi proferido durante o culto do dia 31 de julho de 2022, na Assembleia de Deus Canaã, no Ceará. Na gravação, antes de iniciar uma oração, ele diz à plateia: “Hoje, o Fundo Monetário Internacional, conhecido pela sigla de FMI, trouxe uma notícia que abala o mundo. A notícia é que as perspectivas para a economia mundial são sombrias. Agora, preste atenção ao restante da notícia. O FMI informa que somente o Brasil está fora dessa perspectiva negativa”.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Ao trazer afirmações enganosas sobre a economia em um ano eleitoral no Brasil, o vídeo verificado faz com que pessoas possam escolher seu candidato com base em informações imprecisas, o que é danoso para a democracia brasileira.

Outras checagens sobre o tema: Recentemente, o Projeto Comprova mostrou que vídeo engana ao afirmar que banqueiros apoiam Lula por supostos prejuízos ao setor provocados por Bolsonaro.

Também foi produzido conteúdo atestando ser enganoso um tuíte do deputado federal Marco Feliciano (PL-SP) dizendo que as estatais brasileiras tiveram lucro de R$ 1 trilhão em 2021, na gestão do presidente Jair Bolsonaro (PL).

Outra análise mostra que post confunde ao destacar posição do Brasil em ranking de crescimento econômico.

 

Esta verificação foi feita por jornalistas de A Tribuna, Nexo, O Popular e Tribuna do Norte que participam do Programa de Residência no Comprova.

Comprova Explica

Investigado por: 2022-08-12

Entenda o que é a política de redução de danos a usuários de drogas criticada em vídeo por Damares Alves

  • Comprova Explica
Comprova Explica
A política de redução de danos reúne uma série de estratégias que visam cuidar das pessoas que usam drogas, conferindo a elas maior qualidade de vida. As intervenções buscam, ainda, reduzir os riscos de infecções sexualmente transmissíveis. As cartilhas que tratam do assunto não são voltadas para escolas, mas para profissionais de saúde que atuam com pessoas que fazem o uso eventual de drogas e dependentes químicos. A iniciativa, cujo histórico aponta para o ano de 1926 na Inglaterra, é adotada em diversos países com resultados positivos na assistência ao público que faz uso de drogas. Ao longo do texto, utilizamos o termo usuário para fazer referência a qualquer pessoa que utilize substâncias psicoativas.

Conteúdo analisado: Vídeo da candidata ao Senado Damares Alves (Republicanos), ex-ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos do governo de Jair Bolsonaro (PL), em que ela acusa a gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de “motivar” adolescentes e jovens a usar drogas. No vídeo, publicado no YouTube, Damares lê conteúdo de cartilha que trata sobre o uso de entorpecentes e, ao fundo, aparecem imagens de trechos destacados da publicação. Há também uma inserção de fotos de Lula, candidato à Presidência da República, com um fundo preto e as inscrições: “Governo Lula ensinava em cartilha como os jovens deveriam usar crack.” A ex-ministra diz que essa era a política de prevenção ao uso de álcool e drogas na administração petista.

Comprova Explica: O vídeo de Damares Alves colocou em debate a prevenção ao uso de álcool e outras drogas durante as administrações do PT. No vídeo, a ex-ministra afirma que, no governo Lula, adolescentes e jovens eram ensinados a utilizar entorpecentes. O discurso saiu do YouTube e ganhou as redes sociais, com discussões sobre a política adotada na gestão petista.

A cartilha apresentada pela ex-ministra de fato foi produzida pelo Ministério da Saúde, à época sob o comando do ministro José Gomes Temporão, no governo Lula, mas tinha como foco serviços de saúde que acolhem usuários de drogas e dependentes químicos. Seu objetivo era auxiliar os profissionais dedicados a lidar com pessoas que se recusam a abandonar o uso de entorpecentes, mas que desejam evitar outros problemas correlacionados, como doenças transmissíveis, por exemplo. Ações neste sentido constituem a chamada política de redução de danos.

Com a repercussão do caso, o Comprova decidiu explicar o que significa a política de redução de danos divulgada por Damares e que havia sido implementada nos governos do PT.

Cartilha apresentada por Damares Alves era distribuída entre profissionais de saúde

Os trechos da cartilha lidos por Damares Alves fazem parte do álbum seriado “Prevenção às IST, HIV/Aids e Hepatites entre pessoas que usam álcool e outras drogas”, segundo Maria Angélica de Castro Comis, psicóloga e integrante da organização Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos (Reduc).

A especialista informa ao Comprova que o material foi veiculado em 2008 e era destinado a profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS) que atuavam junto aos usuários e dependentes químicos.

Conforme informou o Ministério da Saúde em Nota Técnica de janeiro de 2009, ao responder a um requerimento do então deputado federal Miguel Martini, que era do PHS naquele período, foram produzidos 10 mil álbuns seriados ao custo de R$ 32.200 (R$ 3,22 cada) e, na época, 1.356 ainda estavam em estoque. A distribuição foi feita por mala direta aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), aos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTAs) e aos Serviços de Atenção Especializada em HIV/Aids (SAE).

Acompanhava o material uma orientação expressa para que fossem utilizados exclusivamente por profissionais de saúde e organizações da sociedade civil para o trabalho dirigido às pessoas que usam álcool e outras drogas, em serviços específicos e em campo. O Comprova teve acesso ao documento via Lei de Acesso à Informação, fornecido pela Câmara dos Deputados.

O álbum compunha um kit lançado em 10 de outubro de 2008 que incluía cartão para qualquer usuário de substâncias psicoativas, com espaço para anotação do endereço do serviço de referência, e cartaz com informações referentes à redução de danos.

O objetivo do material era servir de apoio ao trabalho dos profissionais de saúde e dos agentes que atuam com redução de danos na abordagem dos usuários de álcool e outras drogas. “O conjunto de materiais foi concebido para contribuir na melhoria do acolhimento das pessoas que usam álcool e outras drogas dentro do sistema de saúde e para combater o preconceito, o estigma e a discriminação”, informa a nota técnica.

Segundo o documento, o acolhimento de qualidade possibilita a promoção da saúde, estrutura vínculos de confiança, fortalece a auto-estima, estimula o usuário a cuidar de si. “Para quem usa álcool e outras drogas, isso pode significar redução de vulnerabilidade, prevenção de doenças, diminuição/interrupção do consumo de substâncias psicoativas”, conclui o texto.

Doutora em Saúde Coletiva e pesquisadora do Grupo de Estudos em Álcool e Outras Drogas da Universidade Federal de Pernambuco (GEAD/UFPE), Rossana Rameh acrescenta que a cartilha visava atingir usuários de drogas pesadas, inclusive injetáveis, e o segmento específico de profissionais que lidam com esse público. “Não é uma tela para ser distribuída na escolinha ou em qualquer serviço de saúde”, afirma. “Era criado e feito para usuários de drogas, pessoas que dizem ‘eu uso e não quero parar, não tenho condições de parar, quero usar sem me ferrar tanto, o que eu faço?’”, diz.

O que é a política de redução de danos

Rossana Rameh ressalta que a redução de danos é uma política feita diretamente com o usuário de drogas e considera que a sociedade nunca esteve e nunca estará livre das drogas. Assim, afirma, a perspectiva levada em conta é que as pessoas vão continuar usando drogas independentemente de o governo manter ou não uma política proibicionista.

A especialista diz, ainda, que a redução de danos é um conjunto de estratégias e intervenções que visam cuidar das pessoas que usam drogas, inclusive incentivando-as a parar de usá-las, se esse for o desejo delas. Essa política, continua Rossana, não nega abstinência, mas também considera que algumas pessoas não vão desejar parar ou não poderão parar de imediato. “Isso é uma coisa mais complexa, mas que a gente precisa dizer que algumas pessoas vão usar drogas na vida”.

Para Maria Angélica de Castro Comis, que atua na área, a redução de danos é uma política que busca melhorar a qualidade de vida das pessoas, principalmente aquelas que usam drogas, além de prevenir as infecções sexualmente transmissíveis. “A redução de danos tem como objetivo modificar o padrão de uso de drogas, reduzir os agravos de saúde e sociais das pessoas mais vulneráveis, como usuárias de drogas, profissionais do sexo, pessoas em situação de rua, entre outros”, diz.

A psicóloga reforça que a redução de danos não tem como principal objetivo levar o usuário à abstinência, mas sim incentivar o cuidado. “A redução de danos pode ser um caminho para a abstinência, mas por ser uma política com baixa exigência muitas vezes é arbitrariamente acusada de apologia ao uso de drogas”, afirma Maria Angélica.

Wander Wilson Júnior, doutor em Ciências Sociais e pesquisador de drogas, saúde mental e redução de danos, afirma o mesmo. Segundo ele, a redução de danos não se trata de incitar ou não o uso de entorpecentes, mas falar francamente sobre o que é o uso e lidar com uma realidade concreta que é a existência de usuários.

“Essa erradicação e esse mundo sem drogas é uma utopia que nunca se cumpre, nunca vai se cumprir, e inclusive isso tem um papel em manter o que se chama de guerras às drogas, esse fracasso que nunca se cumpre, se mantém sempre como promessa e a resposta para essa promessa é sempre mais encarceramento, sempre menos conversa franca”, argumenta.

O especialista explica que a redução de danos é uma política pública de saúde, bem como uma tentativa ética de cuidado com as pessoas que usam drogas. “Você vai ver o usuário como uma pessoa que usa drogas, e se ele tiver sofrimento relacionado ao uso de drogas e o uso for considerado problemático, seja ele diagnosticado como dependência ou não, você vai montar, junto com essa pessoa, possibilidades de cuidado para produzir uma vida que vale a pena ser vivida”, afirma.

Ele destaca, porém, que este processo é feito de forma conjunta. “Você não vai impor uma forma de cuidado e uma moral de cima para baixo para essa pessoa, mas vai construir junto com ela”, diz: “Algumas pessoas não vão querer parar de usar drogas, outras vão colocar isso como uma meta e irão demorar algum tempo, terão suas dificuldades, e você não vai colocar a abstinência de drogas como uma exigência de cuidado com essa pessoa”.

Histórico da estratégia de redução de danos

Wander Wilson Júnior resgata a história da estratégia de redução de danos retornando ao ano de 1926, quando um relatório inglês chamado Rolleston tentou formalizar a prática, a partir da experiência de soldados em guerra.

Muitos combatentes voltaram ao seu país dependentes de opioides (morfina) e alguns deles não conseguiam parar de utilizá-los, mesmo querendo, o que atrapalhava a vida que levavam.

“Se formalizou uma possibilidade clínico-terapêutica de se ter uma prescrição médica de opioides com doses manejáveis para que a pessoa continuasse consumindo opioides, mas mantendo a sua vida, a sua rotina corriqueira, de forma produtiva”.

No Brasil, aponta Wander Wilson Júnior, o ano de 1989 foi um marco importante quando a Prefeitura de Santos, no litoral de São Paulo, tentou implementar uma política de distribuição de seringas descartáveis na região portuária, considerando a alta incidência de infecção por HIV decorrente do consumo de cocaína injetável. “Mas essa política teve que retroceder baseada numa pressão moral que envolvia mídia, religião e a sociedade de modo geral”, afirma.

Em março de 1997, São Paulo aprovou a primeira Lei Estadual de Redução de Danos (9.758/97). Sete anos depois, em outubro de 2004, a Portaria 2.197 integra a Redução de Danos ao SUS e as ações são regulamentadas pelo Ministério da Saúde pela Portaria 1028, de julho de 2005. No mesmo ano, foi aprovada pelo Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas a Política Nacional Sobre Drogas, com um capítulo destinado à redução de danos. Já em 2006, foi sancionada a Lei 11.343, que excluiu a pena de prisão para usuários de substâncias ilícitas.

Após a publicação desta verificação, o Ministério da Saúde enviou resposta ao contato anterior da equipe do Comprova. Na nota, o órgão não informa se adota, atualmente, alguma política de redução de danos. Além disso, o ministério não deu um posicionamento acerca das afirmações feitas pela ex-ministra Damares. O Ministério informou apenas sobre medidas de atendimento psicossocial realizadas atualmente.

Política de redução de danos em outros países

A política de redução de danos não é uma exclusividade do Brasil. Vários países implementaram a estratégia, visando minimizar os impactos do uso de drogas. Maria Angélica afirma que a medida é amplamente adotada em países como Canadá, Alemanha, Suíça, Austrália, Estados Unidos, Holanda, Espanha, Portugal e França. Nesses locais, segundo ela, as políticas de redução de danos estão articuladas a outras políticas públicas de saúde, assistência social, habitacional, segurança pública e trabalho. “Muitos desses países têm espaços de uso seguro de drogas, que evitam mortes por overdose e são articulados com serviços para desintoxicação”, afirma.

Para Rossana Rameh, a utilização de salas seguras, como ocorre na Suíça e Espanha, por exemplo, está longe de ocorrer no Brasil. “Aqui é algo extremamente impensável nos dias atuais, no sentido do moralismo, do medo”, diz.

A pesquisadora observa que, no Brasil, fala-se muito em guerra às drogas, mas ela avalia que essa guerra é mais voltada aos usuários. “E tem um foco. Essa guerra tem cor e classe social. O Uruguai, com toda a sua política de regulação do uso da cannabis, traz uma regulamentação que facilita o controle dessa substância e do usuário. Há um mapeamento dessas pessoas de forma muito tranquila, sem julgamento e perseguição, mas com a possibilidade de essas pessoas não se colocarem mais em risco e em violência porque estão comprando uma substância numa boca de fumo, por exemplo.”

Wander Wilson pontua que as abordagens nos diversos países que adotam as estratégias podem ser diferentes, pensando no território e nas especificidades de cada lugar, mas estão frequentemente articuladas com outras políticas, estabelecendo uma rede de cuidado.

Por que explicamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia, eleições presidenciais e políticas públicas do governo federal que viralizaram nas redes sociais. A ferramenta Comprova Explica é utilizada para a divulgação de informações a partir de conteúdos que viralizam e causam confusão. A redução de danos é uma estratégia de saúde pública que busca controlar consequências adversas ao consumo de psicoativos – lícitos ou ilícitos — sem, necessariamente, interromper esse uso. A estratégia não deve ser confundida com apologia ao consumo.

Alcance da publicação: Até o dia 12 de agosto, o vídeo da Damares Alves alcançou mais de 10,7 mil visualizações no YouTube.

Outras publicações sobre o tema: O vídeo da ex-ministra repercutiu na imprensa profissional nesta semana (Veja, Correio Braziliense), mas este não é o único tema relacionado a Lula recentemente. O Comprova já demonstrou em outras verificações que o ex-presidente não disse que vai implantar a ditadura no Brasil, nem há registros de declarações de Lula para eliminar o agronegócio da Terra. Há dois anos, o G1 apontou que era fake a alegação de que governos do PT haviam criado “bolsa usuário” para viciados em drogas.

 

Esta reportagem foi atualizada em 15 de agosto para incorporar informações enviadas pelo Ministério da Saúde e recebidas após a publicação.

Comprova Explica

Investigado por: 2022-08-11

Entenda o que é e como funciona a fiscalização do código-fonte das urnas eletrônicas

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Comprova Explica
O código-fonte das urnas eletrônicas é a linguagem de computador em que os aparelhos são programados. Para garantir que não haja nenhuma falha de operação nas urnas, o código-fonte pode ser fiscalizado por entidades que fazem parte da Comissão de Transparência das Eleições (CTE), como as Forças Armadas. Para as eleições deste ano, as entidades foram avisadas, por meio de ofício em 2021, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dos prazos. Mesmo a inspeção estando aberta desde outubro do ano passado, as Forças Armadas só realizaram a solicitação em 1° de agosto deste ano. O pedido, classificado como “urgentíssimo” pelo Ministério da Defesa, foi interpretado por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro como uma forma de pressão sobre o TSE e ensejou debate sobre o processo de inspeção.

Conteúdo analisado: Post da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) em que ela comenta sobre o pedido do Ministério da Defesa ao TSE para inspeção do código-fonte das urnas eletrônicas em caráter “urgentíssimo”.

Comprova Explica: A dois meses das eleições presidenciais, a segurança das urnas eletrônicas é alvo frequente de críticas e questionamentos. Uma das formas de comprovar a lisura dos aparelhos é por meio da inspeção do código-fonte, que pode ser realizada por entidades da sociedade civil e partidos políticos meses antes do pleito. O tema vem sendo debatido nas redes sociais uma vez que o prazo para realizar a fiscalização, que começou em outubro de 2021, se encerra em setembro.

A inspeção do código-fonte, conjunto de símbolos que formam um programa de computador e dão as instruções para que aquele sistema opere, foi abordada por Carla Zambelli (PL-SP) em uma publicação no Facebook. No post, a deputada federal menciona o pedido “urgentíssimo” feito pelas Forças Armadas ao TSE para realizar a fiscalização, em uma tentativa de retratar a solicitação como uma exigência dos militares.

Diante da proximidade da votação e da repercussão da publicação, o Comprova decidiu explicar o que é o código-fonte das urnas, como funciona sua inspeção e qual a importância da fiscalização para a segurança do sistema eleitoral brasileiro.

O que é código-fonte das urnas?

O código-fonte é um conjunto de linhas de programação que contém todas as instruções necessárias para que um software funcione. De acordo com o TSE, ele é um conjunto de arquivos de texto contendo todas as instruções que devem ser executadas pelas urnas, expressas de forma ordenada numa linguagem de programação. Essas instruções determinam o que um programa de computador deve fazer – o que ele deve apresentar e como ele deve se comportar.

Uma linguagem de programação é o meio pelo qual os programadores expressam os comandos que devem ser executados por um computador. Em geral, uma linguagem de programação mistura elementos de uma linguagem natural (inglês) com elementos de notação matemática (operações aritméticas).

Na explicação dos professores Paulo Matias, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e Diego F. Aranha, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, o código-fonte é como se fosse uma receita para o funcionamento de um programa. Os dois trabalharam juntos no Teste Público de Segurança do TSE de 2018 e explicam que o código-fonte funciona como uma receita escrita pelos desenvolvedores para especificar o comportamento de um programa como uma sequência de comandos e instruções.

Por que abrir o código-fonte é importante

No caso das urnas, o TSE tem a obrigação, pela Resolução TSE n° 23.673/2021, de abrir o código-fonte antes das eleições para que entidades possam fiscalizar se há algum problema. Ou seja, ao avaliar o código-fonte, é possível saber se o software está programado para operar corretamente ou se tem alguma falha de programação.

De forma geral, segundo os dois especialistas consultados pelo Comprova, abrir o código-fonte para que outras instituições fiscalizem já foi uma prática não aceita para que ninguém encontrasse vulnerabilidades, porém, hoje, até mesmo grandes empresas, como as responsáveis pelo Linux (sistema usado pelas urnas), Firefox, Chrome e pelo sistema operacional Android para celulares, costumam divulgar códigos sensíveis para garantir que não haja nenhuma falha em seus softwares. Segundo os pesquisadores, muitas empresas avaliam que essa abordagem de esconder o código-fonte retarda eventuais melhorias, já que quanto mais olhos conseguem analisar um software, mais provável uma pessoa bem intencionada alertar sobre uma falha.

De acordo com o professor Jéferson Campos Nobre, do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que representou a instituição na verificação no TSE este ano, as entidades podem ter acesso a todos os programas da urna e conseguem se certificar de que tudo está funcionando. “É possível verificar todos os programas, sem nenhuma restrição, que são executados nas urnas”, explica.

Melhorias no sistema

No caso do TSE, os especialistas avaliam que seria necessário realizar melhorias nas possibilidades de inspeção. Segundo Matias e Aranha, as entidades fiscalizadoras têm acesso a uma versão do código-fonte que exige muitas horas de trabalho para que se consiga examiná-lo. O ideal seria que qualquer pessoa pudesse acessar de qualquer lugar. “É uma base bastante grande, da ordem de dezenas de milhões de linhas, o que exige um esforço descomunal de múltiplos inspetores qualificados para realizar a cobertura de uma fração razoável do código. Não há a possibilidade de compilar os programas ou carregar suas versões modificadas em urna eletrônica, o que dificulta muito o entendimento de certas partes”, afirmam Matias e Aranha, em resposta conjunta enviada ao Comprova.

Recentemente, afirmam os analistas, o TSE passou a permitir a utilização de ferramentas de análise para o exame dos códigos-fonte das urnas, o que melhora a capacidade de atuação dos analistas. Ainda assim, acreditam que a inspeção, nos moldes atuais, “não seria capaz de detectar muitos problemas de segurança”. A recomendação deles é de que o TSE amplie as possibilidades aos analistas, para além das dependências do TSE. “Pesquisadores trabalhando no conforto de suas casas ou escritórios, e podendo utilizar todas as ferramentas que tivessem ao seu alcance, fariam um trabalho muito mais efetivo.”

Apesar da ressalva, Jéferson Campos Nobre afirma que o sistema eletrônico de votação é confiável, e ressalta que a verificação do código-fonte é só uma das etapas que garantem a segurança das urnas. “Os mecanismos são usados em conjunto para assegurar a segurança das urnas. A verificação é uma dessas etapas. Tem vários mecanismos. Nós confiamos no sistema público de votação. Um trabalho de mais de duas décadas da Justiça Eleitoral. Um case de sucesso para o mundo.”

Ao Comprova, o TSE afirmou que o ambiente disponibilizado para a análise do código-fonte reúne “todas as condições para que os técnicos façam uma ampla avaliação dos sistemas, inclusive em busca de hipotéticos problemas de segurança”.

“A inspeção de código-fonte dos sistemas eleitorais se presta a uma ampla avaliação de todas as instruções e comandos que fazem o software funcionar. Essa análise inclui também a verificação de elementos relacionados à segurança da informação. O ambiente de inspeção também conta com ferramentas de análise estática de código e busca indexada, assim como a documentação dos sistemas.”

O pedido “urgentíssimo” da Defesa e o processo de inspeção para as eleições de 2022

Em 1º de agosto deste ano, o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, enviou para o TSE um pedido “urgentíssimo” para que as Forças Armadas pudessem fazer a inspeção do código-fonte das urnas entre os dias 2 e 12 de agosto.

O pedido foi aceito, mas o caráter de urgência adicionado a ele acabou tendo destaque nas redes sociais devido à pressão que o governo de Jair Bolsonaro vem realizando contra o TSE e o sistema eleitoral.

A urgência se deve, no entanto, apenas ao fato de que as Forças Armadas perceberam somente agora, a dois meses da eleição, a necessidade de acessar o código-fonte das urnas. Em nota, o Ministério da Defesa disse que chegou a essa conclusão depois que a instituição estudou o sistema eleitoral. “A partir de novos estudos e com o amadurecimento do conhecimento acerca do processo eleitoral como um todo, os técnicos militares entenderam ser necessário acessar as partes mais relevantes do sistema”, afirmou.

As Forças Armadas tinham a possibilidade de inspecionar o código-fonte que será utilizado em 2022 há quase um ano. Desde outubro de 2021, representantes técnicos dos partidos políticos, do Ministério Público, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), das Forças Armadas, da Polícia Federal e de universidades, entre outras instituições, podem inspecionar o código-fonte das urnas para as eleições deste ano.

De acordo com o TSE, um ofício foi enviado em 2021 para todas as entidades fiscalizadoras do processo eleitoral com o calendário da inspeção, incluindo as Forças Armadas.

Segundo reportagem do G1, um ofício direcionado ao então ministro Walter Braga Netto em 6 de outubro de 2021 comprova que o TSE convidou o Ministério da Defesa a inspecionar o código-fonte das urnas eletrônicas com antecedência.

No documento, assinado pelo então presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, havia o alerta de que as entidades poderiam fiscalizar os códigos-fonte “a qualquer tempo até a Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração dos Sistemas para as Eleições 2022″, que deve ocorrer até 2 de setembro.

A cerimônia de abertura dos códigos-fonte dos sistemas eleitorais foi realizada pelo TSE no dia 4 de outubro do ano passado. Tradicionalmente, a fiscalização dos códigos ocorria nos seis meses que antecedem as eleições. Em 2021, no entanto, o prazo foi ampliado para um ano.

Atualmente, a inspeção é feita dentro do TSE, mas existe um projeto-piloto para que as instituições possam fiscalizar os códigos-fonte dos sistemas eleitorais nas próprias dependências, dispensando o comparecimento ao Tribunal.

Segundo o TSE, a fiscalização pode ser realizada pelo uso de ferramentas de análise de código de mercado. Duas ferramentas são disponibilizadas pelo TSE: Understanding C e Source Navigator. Além disso, os representantes podem solicitar melhorias, tirar dúvidas, ou conversar com a equipe técnica. Segundo o tribunal, a cerimônia é documentada e utilizada para melhoria contínua do processo. De acordo com a Resolução TSE n° 23.673/2021, a corte eleitoral tem 10 dias para responder as dúvidas que possam surgir durante o processo.

As entidades fiscalizadoras têm até o fim de agosto para fazer a verificação. Para estas eleições, a urna já foi inspecionada pela Controladoria-Geral da União (CGU), Ministério Público Federal (MPF), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Senado Federal.

O Senado informou ao Comprova que, pela resolução do TSE, as avaliações decorrentes da inspeção estão cobertas por Termo de Sigilo e Confidencialidade. O MPF também informou que não divulga o relatório.

Já a UFRGS explicou ao Comprova que não detectou nenhum problema de segurança nas urnas. Porém, a intenção da vistoria foi colher informações sobre o sistema eleitoral para elaboração de um documento simplificado de como ele funciona. “A nossa percepção é de que não tem um problema de segurança específico, mas que seria muito importante que mais pessoas conhecessem. Então, seria necessário um documento que descrevesse de forma simplificada o sistema de votação. Nós gostaríamos de ter um documento que fosse mais fácil de ser lido. Nós queríamos ampliar os nossos conhecimentos para produzir esse documento”, afirmou o professor Jéferson Campos Nobre, que representou a instituição.

O Partido Verde e o Partido Liberal, ao qual o presidente Jair Bolsonaro é filiado, estiveram na Corte no ano passado, mas não fiscalizaram os códigos. O PTB fiscalizou entre os dias 2 e 5 de agosto, e a Polícia Federal tem previsão de visitar o tribunal entre os dias 22 e 26.

Em 3 de agosto, o Ministério da Defesa enviou nove militares ao TSE para começar a inspeção do código-fonte das urnas. A análise deve se encerrar no dia 12.

Até o momento, segundo o Tribunal, as instituições que realizaram a análise do código-fonte dos sistemas eleitorais não entregaram qualquer tipo de relatório sobre o trabalho realizado para o TSE. No entanto, o órgão destaca que não há a exigência da entrega desse tipo de documentação. O que existe é a demanda para que os técnicos reportem ao TSE de imediato qualquer vulnerabilidade ou defeito que venham a ser encontrados no código-fonte. O Comprova questionou as entidades fiscalizadoras. Nenhuma delas disse ter encontrado fragilidades no código-fonte das urnas.

Por que explicamos: Em seu escopo usual, o Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia, eleições presidenciais e políticas públicas do governo federal que viralizaram nas redes sociais. Já o Comprova Explica é uma ferramenta utilizada para que os leitores entendam um conteúdo que está viralizando e causando confusão. O código-fonte é a linguagem em que as urnas eletrônicas são programadas. É importante que a população compreenda que sua fiscalização é um procedimento habitual do processo eleitoral e serve para garantir que não haja risco de falhas nas urnas eletrônicas.

Outras publicações sobre o tema: No dia 5 de agosto, o UOL Confere publicou uma verificação afirmando que as Forças Armadas não tiveram “acesso dificultado” ao código-fonte das urnas.

Em outras verificações, o Comprova já mostrou que é falso que TSE tem 32 mil urnas grampeadas com o objetivo de fraudar a eleição, que pesquisas eleitorais seguem métodos científicos e que não é verdade que existe documento “secreto” revelando problemas na apuração das eleições de 2018.

 

 

Eleições

Investigado por: 2022-08-11

Vídeo engana ao afirmar que banqueiros apoiam Lula por supostos prejuízos ao setor provocados por Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
São enganosas as afirmações do vídeo em que a candidata a deputada federal e empresária Tati Mandelli (Republicanos-BA) atribui um jantar do candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com banqueiros e empresários a uma reação a políticas do governo Jair Bolsonaro (PL). O argumento dela, de que o governo atual teria promovido a inclusão bancária e aberto a concorrência, reduzindo o lucro dos bancos, não se sustenta: o Pix foi criado pelo Banco Central (BC), o Auxílio Emergencial, pelo Congresso, e o lucro dos bancos aumentou.

Conteúdo investigado: Vídeo em que a candidata afirma que banqueiros se reuniram em um jantar com Lula. Segundo Mandelli, o encontro seria uma reação à inclusão bancária gerada por Jair Bolsonaro com o Auxílio Emergencial e o Pix.

Onde foi publicado: Kwai, YouTube, Instagram e WhatsApp

Conclusão do Comprova: São enganosas as afirmações do vídeo em que Tati Mandelli cita um jantar de Lula com banqueiros e diz que a reunião foi motivada pela reação dos bancos frente à uma suposta inclusão bancária promovida por Bolsonaro, com o Auxílio Emergencial e o Pix.

O Pix começou a ser desenvolvido pelo Banco Central (BC) ainda no governo Michel Temer (MDB), em 2018. O Auxílio Emergencial de R$ 600, pago por causa da pandemia de covid-19 a partir de 2020, também não é obra de Bolsonaro. O projeto foi proposto e aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado, com vetos, pelo presidente.

Além disso, os ganhos de todos os bancos caíram em 2020 na comparação com 2019, inclusive os da Caixa e do BB. O Banco Central atribuiu a queda à pandemia, não à inclusão bancária. Em 2021, os ganhos voltaram a subir.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O vídeo, veiculado em 27 de junho de 2022, viralizou no fim de julho. No dia 8 de agosto de 2022, contava com 41,6 mil curtidas na rede social Kwai. Na mesma data, a publicação no Instagram acumulava 6 mil curtidas e, o vídeo no YouTube, 1,9 mil curtidas.

O que diz o autor da publicação: Procurada, a autora do vídeo não retornou o contato da reportagem.

Como verificamos: Para localizar a publicação original, procuramos o nome “Tati Mandelli” no Google e filtramos a busca por vídeos. Foi possível identificar que a empresária participa de um programa em uma rádio digital chamada Brado Rádio, autodenominada primeira rádio conservadora do Brasil.

No canal do Youtube do veículo há uma seção para o programa Brado Jornal, com o qual Mandelli colabora. A partir das notícias que eram exibidas no letreiro da versão editada do vídeo na rede social Kwai, foi possível determinar uma faixa temporal na qual o programa foi ao ar. Assistimos aos episódios e identificamos aquele em que o comentário viralizado foi veiculado. O comentário de Mandelli começa às 2h39 da edição do dia 27 de junho de 2022.

Procuramos a assessoria de Lula para confirmar que o jantar ocorreu. Consultamos arquivos do BC para verificar a criação do Pix. Os requisitos fundamentais para a criação de um sistema pagamentos instantâneos foi aprovado em dezembro de 2018. Também consultamos no Senado Federal o projeto de lei que criou o Auxílio Emergencial e reportagens já publicadas pelo Comprova.

Para verificar o impacto da inclusão bancária para os bancos privados, a reportagem entrevistou José Márcio Camargo, professor de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e economista-chefe da Genial Investimentos.

A reportagem obteve os dados sobre os lucros dos bancos ao consultar relatórios anuais de Itaú (2020 e 2021 , Bradesco (2020 e 2021) e Santander (2020 e 2021), disponíveis na internet. Também foram consultados relatórios sobre o lucro dos bancos do BC com dados de 2020 e de 2021.

Jantar de Lula com empresários

O jantar do qual Lula participou, citado no vídeo investigado, ocorreu em 20 de junho deste ano em São Paulo. A informação foi confirmada pela assessoria do candidato. O jornal Folha de S.Paulo e o site Poder360 noticiaram o encontro.

O contexto, ainda segundo as reportagens da Folha e do Poder360, foi de aproximação com empresários durante a pré-campanha e ampliação do diálogo com o setor produtivo. Bolsonaro, que disputa a reeleição, também se encontrou com banqueiros, no dia 8 de agosto, como informou o Valor Econômico.

Os comentários de Mandelli seguem o que tem falado Jair Bolsonaro. Em uma live nas redes sociais realizada no dia 28 de julho, o presidente disse que os banqueiros devem perder R$ 22 bilhões por causa da utilização do PIX, o que é falso. Segundo o presidente, como o Pix não cobra taxas por suas transferências, os banqueiros estariam perdendo dinheiro.

Inclusão bancária

No vídeo, Mandelli afirma “que os banqueiros odeiam o Bolsonaro porque ele abriu a concorrência” e Itaú, Bradesco e Santander tiveram “lucros menores”. Ela atribui a suposta redução do lucro à inclusão bancária ocorrida por conta do Auxílio Emergencial.

Neste contexto, Mandelli afirma que Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, “tiveram a ideia do Auxílio Emergencial”, o que não é verdade. O projeto que instituiu o Auxílio Emergencial de R$ 600, a ser pago por três meses, foi uma iniciativa do Congresso após debate na sociedade. O governo federal chegou a anunciar uma ajuda de R$ 200, mas diante da demora do Executivo em apresentar formalmente o texto, o Congresso agiu. Para verificar, consultamos arquivos do Congresso e reportagens da imprensa profissional.

A relação feita por Mandelli entre a inclusão bancária e a suposta redução dos lucros dos bancos também não se sustenta. A candidata afirma que “a gente viu o Itaú, o Bradesco, o Santander terem lucros menores e a Caixa e o Banco do Brasil [BB] estarem lotados de dinheiro”. Ela também atribui as quedas nos lucros à inclusão bancária.

Em primeiro lugar, porque não é verdade que os lucros dos bancos caíram. A primeira parcela do Auxílio Emergencial foi paga em abril de 2020 e o Pix passou a funcionar oficialmente em novembro do mesmo ano.

O lucro dos bancos realmente caiu em 2020, na comparação com 2019. No entanto, ao contrário do que diz a candidata, Caixa e BB também foram afetados. O BC atribui a redução à pandemia e não à inclusão bancária.

Consultamos análise do Dieese. que aponta que o lucro da Caixa sofreu a maior queda, de 37,5%. No Banco do Brasil, a redução ficou em 22,2%. O lucro do Bradesco caiu 24,8%, o do Itaú, 28,9% e o do Santander, 5%. Consultamos também o Relatório de Estabilidade Financeira do BC sobre o 2ª semestre de 2020. O relatório aponta que o lucro dos bancos caiu 26%. Ao explicar a queda, o documento afirma: “A pandemia inverteu a sequência de recuperação da rentabilidade que ocorria desde a recessão de 2015-2016. A expectativa para 2021 é de melhora”.

Em 2021, o lucro do Itaú subiu 45,8%, o do Santander, 7%, o do Bradesco, 34,7%, em relação ao ano anterior. Para obter os dados, consultamos os relatórios anuais de cada banco. No mesmo período, o lucro líquido do sistema bancário brasileiro aumentou 49%, conforme indicado no Relatório de Estabilidade Financeira mais recente do Banco Central, consultado pelo Comprova.

A inclusão bancária citada pela candidata é verdadeira. Ao consultar arquivos do BC, encontramos um relatório que informa que, com o Auxílio Emergencial, 14 milhões de pessoas abriram conta bancária. Mas é enganosa a relação feita por Mandelli entre a inclusão bancária e seus supostos efeitos negativos para os bancos. Com mais pessoas utilizando o sistema bancário, a demanda do setor aumenta, como afirma José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio. “Quanto mais gente demandar os bancos, melhor. O banco vende serviços financeiros. Quanto mais gente entrar no banco e comprar serviços do banco, melhor”, diz Camargo.

Ao comentar que “Bolsonaro abriu a concorrência”, Mandelli também cita o surgimento de bancos digitais. No entanto, é necessário esclarecer que as empresas financeiras que surgiram recentemente também são produto de política do Banco Central. Conhecidas como fintechs, são uma das iniciativas do Banco Central para promover a concorrência bancária. No Brasil, estão regulamentadas desde abril de 2018 pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) – Resoluções 4.656 e 4.657.

Autora é candidata e empresária

A autora do vídeo é Tati Mandelli, empresária, dona da rede de móveis Tidelli, na Bahia. Candidata a deputada federal da Bahia pelo partido Republicanos, Mandelli é declaradamente apoiadora do atual presidente da República. Seus perfis nas redes sociais são repletos de conteúdos favoráveis a Bolsonaro, seus ministros e aliados.

Na mesma medida, é possível constatar postagens críticas ao ex-presidente Lula, aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), entre outros. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), filho do presidente, tem várias interações com a candidata. Os dois já gravaram juntos um vídeo para o canal de Tati Mandelli no Youtube.

Por que investigamos: Investigamos conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre as eleições presidenciais, a pandemia e as políticas públicas do governo federal. As afirmações no conteúdo verificado seguem a linha do presidente Bolsonaro, candidato à reeleição, e, quando ligadas ao processo eleitoral, peças de desinformação, como esta, podem atrapalhar a escolha do eleitor, que deve ser feita a partir de dados verdadeiros.

Outras checagens sobre o tema: Recentemente, o Projeto Comprova mostrou que não é verdade que o portal G1 tenha noticiado que banqueiros teriam fechado um acordo com Lula para revogar o Pix ou que Bolsonaro criou o Pix, sistema de pagamento instantâneo desenvolvido, na verdade, por equipe técnica do Banco Central.

*Esta verificação foi feita por jornalistas dos veículos BAND TV, UOL Confere, O Dia e SBT Cuiabá, que participaram do Programa de Residência no Comprova.

Eleições

Investigado por: 2022-08-11

Ao contrário do que afirma vídeo, Lula não disse que vai implantar ditadura no Brasil em entrevista a canal chinês

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o vídeo publicado pelo candidato a deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) no qual ele afirma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou abertamente querer implementar uma ditadura no Brasil. No material investigado, o candidato baseia sua afirmação em um vídeo de uma entrevista de Lula em que não há nenhuma afirmação com esse teor por parte do petista, que estava apenas respondendo sobre o baixo desempenho de outros países em comparação com o desenvolvimento da China. Lula respondia aos questionamentos feitos pelo jornalista Eric Li, do canal chinês Guancha".

Conteúdo investigado: Vídeo em que o influenciador digital e candidato a deputado federal de Goiás Gustavo Gayer, do Partido Liberal (PL), afirma que Lula declarou abertamente querer implantar uma ditadura no Brasil. Gayer se baseia em trechos de entrevista do petista ao canal chinês Guancha.

Onde foi publicado: Facebook e YouTube.

Conclusão do Comprova: É enganoso o vídeo publicado por Gustavo Gayer no qual ele afirma que Lula declarou abertamente querer implementar uma ditadura no Brasil. No material, são apresentados trechos de entrevista feita em julho de 2021, pelo jornalista chinês Eric Li, em que não há nenhuma afirmação com este sentido. O trecho usado por Gayer para exemplificar o suposto desejo do ex-presidente de implantar uma ditadura no país é o seguinte: “A China tem um partido que tem poder, tem um Estado forte, que toma decisões e que as pessoas cumprem. Coisa que nós não temos aqui no Brasil. Nós tivemos um golpe na Dilma Rousseff, na nossa presidente, por conta de uma mentira”.

As falas de Lula foram retiradas de contexto e eram parte de uma resposta sobre a razão do baixo desempenho de outros países do bloco BRICS (formado por Brasil, Rússia, Índia e África do Sul) em comparação com o desenvolvimento da China.

Nem nos trechos recortados e utilizados no vídeo publicado por Gayer, nem no vídeo original, foi afirmado o desejo de implantar uma ditadura no país. Nos cerca de 51 minutos da entrevista, o petista não utiliza a palavra ditadura nem fala nada sobre o desejo de instaurar um regime autoritário no Brasil. Em resposta ao Comprova, a assessoria de imprensa de Lula também negou que ele tenha falado em implantar uma ditadura.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. No Facebook, a publicação original do pré-candidato Gustavo Gayer alcançou, até o dia 11 de agosto de 2022, 269 mil visualizações. Nela, houve 34 mil compartilhamentos, 3,3 mil comentários e 35 mil reações. Gayer também publicou o link do vídeo do YouTube em sua página no Facebook, conseguindo mais 354 compartilhamentos, 692 reações e 109 comentários. O vídeo no YouTube, até a mesma data, teve 180 mil visualizações e 2,7 mil comentários. Segundo dados captados pelo CrowdTangle, o vídeo foi postado em 17 diferentes páginas, com um total de seguidores chegando a 386 mil.

O que diz o autor da publicação: Procurado por e-mail pelo Comprova, Gustavo Gayer não respondeu.

Como verificamos: Durante o vídeo, Gayer menciona que as falas foram retiradas da gravação de uma entrevista para uma para um canal chinês. A verificação, então, teve início com a pesquisa em buscadores como o Google por palavras-chave como “Lula”, “entrevista canal chinês” e “ditadura”. A partir das buscas, a equipe chegou à íntegra da entrevista do ex-presidente da República ao jornal Guancha, publicada em julho de 2021.

Após transcrever tanto a entrevista de Lula ao canal chinês, quanto o vídeo publicado por Gustavo Gayer, o Comprova analisou todos os recortes de fala do petista usados no vídeo verificado. Também foram procurados os envolvidos e citados no vídeo por e-mail e WhatsApp. A assessoria de Lula também foi procurada.

Lula não fala abertamente sobre implantar ditadura, como afirmado no vídeo

Diferentemente do que foi alegado por Gustavo Gayer, Lula não declara, em nenhum momento, a intenção de implantar uma ditadura no Brasil. O termo “ditadura” não é mencionado nos trechos recortados e utilizados no vídeo de Gayer nem na entrevista original, transmitida ao vivo pelo Guancha e por veículos nacionais, como a Rede TVT em parceria com o jornal Brasil de Fato.

No vídeo de Gayer, são apresentados pedaços da resposta de Lula ao questionamento feito pelo jornalista chinês Eric Li sobre o baixo desenvolvimento econômico de outros países do BRICS frente ao desempenho da China nas últimas décadas. O ex-presidente responde: “Por que é que a China fez isso? Porque a China tem um partido, a China é resultado de uma revolução de 1949 do Mao Tse Tung. A China tem um partido que tem poder, tem um Estado forte, que toma decisões e que as pessoas cumprem. Coisa que nós não temos aqui no Brasil. Nós tivemos um golpe na Dilma Rousseff, na nossa presidente, por conta de uma mentira.”

Na mesma entrevista, em sua visão dos fatos, Lula fala que “muitas das políticas sociais que o povo precisa” foram feitas na China, por conta do “Estado forte”. Além disso, segundo o ex-presidente, o país asiático combateu o coronavírus com rapidez devido a uma política de Estado forte. Apesar do conteúdo elogioso ao governo chinês e sua avaliação pessoal diante da questão, Lula não disse que desejava implantar uma ditadura comunista no Brasil.

O petista afirma que “a China é um exemplo de desenvolvimento para o mundo” e diz esperar que outros países aprendam com o país , “para que sejam mais ricos, mais fortes, ter mais distribuição de riqueza e ter um mundo mais humano”.

Lula cita a China para destacá-la como um exemplo de “organização política”, característica que julga ter sido a base para que os chineses tenham conseguido evoluir nos últimos 20 anos “com muita competência, com muita cultura, com muito investimento e com muito conhecimento científico e tecnológico”.

Entrevista ao canal chinês ocorreu em 2021

Gayer enfatiza, de maneira enganosa, que a entrevista de Lula ao portal chinês teria sido realizada recentemente. No entanto, a conversa foi transmitida ao vivo no dia 7 de julho de 2021 no YouTube. O vídeo de Gayer foi publicado em 28 de julho de 2022, portanto um ano depois.

Ao jornal Guancha, o hoje candidato à Presidência da República menciona ainda que a China, para além das questões de partido, “evoluiu de forma extraordinária” porque também acreditava no “investimento em educação”. “Foram milhões de jovens chineses que viajaram pelo mundo afora para se formar, para aprender, e é por isso que a China deu um salto extraordinário de qualidade”, exemplificou o petista. Todos esses fatores, na avaliação de Lula, foram determinantes para que a China, hoje, se apresentasse com “uma economia consolidada” e menos vulnerável às outras superpotências.

Na entrevista, Lula defende ainda que, durante seu mandato, pensava muito na sua relação não apenas com a China, mas também com a Índia e com a África do Sul. Ele disse ter tentado articular para que países em desenvolvimento formassem uma “parceria estratégica” para que tais regiões, “sendo metade da humanidade”, não ficassem “dependendo da política do dólar” para, por exemplo, atuar no comércio exterior ou fazer parceria no desenvolvimento tecnológico.

Para além do comparativo e das associações sobre o modelo de desenvolvimento, o petista não diz que pretende implantar um modelo ditatorial no Brasil.

Gustavo Gayer

Gustavo Gayer já foi desmentido em verificações do Comprova que demonstraram que vídeo engana ao mostrar resultado parcial de enquete com intenção de voto para presidente, que um documento não prova fraude nas eleições 2018, e que uma pesquisa brasileira não usou doses letais para matar pacientes e desacreditar o uso da cloroquina. O empresário foi candidato a prefeito de Goiânia em 2020 pelo Democracia Cristã (DC) e ficou em 4º lugar, com 7,6% dos votos. Conforme informações divulgadas em seu canal no YouTube, que tem um milhão de inscritos, é pré-candidato a deputado federal.

Por que investigamos: O Comprova reforça a importância da investigação de conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais e investiga o vídeo por conta da relação direta com as eleições presidenciais. A publicação verificada cita o ex-presidente e candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva. Conteúdos enganosos e falsos que envolvem atores políticos são prejudiciais ao processo democrático e atrapalham a decisão do eleitor, que deve ser tomada com base em informações verdadeiras. No vídeo verificado, é afirmado que Lula “tinha que ser impossibilitado de concorrer à Presidência” por querer “implantar uma ditadura do Brasil” e incentiva a disseminação da informação falsa nas redes sociais.

Outras checagens sobre o tema: O mesmo trecho da entrevista de Lula foi verificado anteriormente pelo Comprova em duas oportunidades. Na primeira, o ex-presidente era acusado de querer aplicar restrições religiosas no Brasil e, no segundo, de defender a implantação do comunismo. Os dois conteúdos foram classificados como enganosos.

*Esta verificação foi feita por jornalistas dos veículos O Povo, Plural e SBT-RIO, que participaram do Programa de Residência no Comprova.