O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 41 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Saúde

Investigado por: 2020-05-04

Foto de caixão vazio não é atual nem foi tirada no Amazonas

  • Enganoso
Enganoso
Imagem que circula nas redes sociais é de 2017, foi tirada em São Paulo e publicada em uma reportagem que denunciava um golpe para resgate de seguro de vida

Uma publicação que contém a foto de um caixão aberto com um travesseiro dentro tem sido compartilhada nas redes sociais denunciando que caixões vazios estão sendo enterrados no estado do Amazonas. A imagem, contudo, não foi feita no Amazonas e nem mesmo no contexto da pandemia do coronavírus. A foto foi tirada em 2017 pelo repórter fotográfico Milton Rogério, do portal São Carlos Agora, e publicada em uma reportagem sobre golpe de seguro de vida.

Além da foto do caixão aberto, a publicação também mostra a imagem de um cemitério em Manaus, com uma fileira de caixões em uma vala, e afirma que a denúncia foi divulgada pelo Jornal da Band. A Prefeitura de Manaus garantiu que caixões não estão sendo enterrados vazios no município e que foi necessário abrir trincheiras em um dos cemitérios da cidade devido ao alto número de óbitos. A TV Band negou que tenha veiculado qualquer reportagem com o conteúdo da mensagem.

Por que investigamos isso?

O Comprova recebeu o conteúdo para investigação via WhatsApp e alguns motivos foram considerados para abrir uma verificação:

  1. Mensagens que tentam minimizar os efeitos da pandemia e questionam informações fornecidas por órgãos oficiais têm se tornado frequentes no Brasil.
  2. A mensagem viralizou em diferentes redes sociais, inclusive com versões adaptadas. Um post no Facebook publicado em um perfil pessoal no dia 23 de abril foi compartilhado por 12 mil pessoas. No instagram, a mensagem compartilhada pelo perfil “foracorruptosoficial”, que tem 107 mil seguidores, tinha 2.223 curtidas até esta sexta-feira (01).
  3. O Amazonas tem a maior taxa de mortalidade pelo coronavírus no país. Na capital, Manaus, a prefeitura precisou abrir uma vala para conseguir realizar os sepultamentos. Na última semana, mais de 100 pessoas foram sepultadas em um único dia. Diante desta situação crítica, a acusação de que caixões estariam sendo sepultados vazios é grave.
  4. A publicação contém uma foto curiosa, de um caixão com um travesseiro, o que levaria muitas pessoas a acreditar no conteúdo da mensagem. Além disso, o texto afirma que a informação foi divulgada por uma emissora de TV.

Enganoso para o Comprova é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado.

Como verificamos?

Para verificar a origem das fotos, o Comprova usou o Google Imagens para fazer uma pesquisa reversa e descobriu que a foto que mostra o travesseiro dentro de um caixão foi publicada em 2017, em uma reportagem do portal São Carlos Agora que denunciava um golpe de seguro de vida.

A matéria contava a fraude orquestrada por uma família de São Carlos, interior de São Paulo, que teria enterrado um caixão com apenas um saco de serragem dentro, para forjar uma morte e obter indenizações de seguradoras.

Com a viralização da mensagem, o portal São Carlos Agora publicou uma nota explicando a origem da foto e afirmou que ela está sendo usada para espalhar informações falsas.

O Comprova também entrou em contato com a rede Bandeirantes e com a Prefeitura de Manaus, que administra o cemitério onde a segunda foto foi tirada.

Por mensagem, a Band Amazonas disse que “tem produzido matérias diariamente para o Jornal da Band falando da situação da saúde no estado do Amazonas, mas em nenhuma das reportagens relatou que caixões estavam sendo enterrados vazios”.

Já a prefeitura de Manaus afirmou, por e-mail, que “não estão sendo enterrados caixões vazios nos cemitérios públicos da cidade”. Segundo a prefeitura, o sistema de valas foi adotado em um dos cemitérios do município devido ao aumento do número de sepultamentos na capital. “O número de sepultamos mais que triplicou nas últimas semanas, saindo de uma média diária de 30 sepultamentos antes da pandemia de covid-19 e já ultrapassando os 100 enterros por dia”, informou a prefeitura.

A covid-19 no Amazonas

Com alto pico de casos de coronavírus e unidades de tratamento intenso apenas em Manaus, o Amazonas foi o primeiro estado brasileiro a ver o sistema de saúde entrar em colapso. Atualmente o Amazonas contabiliza 6.683 casos da covid-19, de acordo com o Ministério da Saúde.

Em números absolutos, o Estado ocupa o quinto lugar no ranking de mortes causadas pela Covid-19 no Brasil – eram 548 até a manhã desta segunda-feira (04). O Estado tem a maior taxa de mortalidade da doença, de 132 por 1 milhão de habitantes. Muitos pacientes têm morrido em casa, a espera de leito.

Só em Manaus foram registradas 396 mortes, segundo o boletim divulgado pelo governo do Estado. O alto número de mortes na capital levou a Prefeitura de Manaus a abrir valas em um cemitério da cidade para sepultar os caixões. Em abril, o município registrou 2.435 sepultamentos, um aumento de 179,5% em relação ao mesmo período do ano passado.

A situação crítica do Amazonas tem preocupado o Ministério da Saúde, que enviou médicos, respiradores e equipamentos para o Estado, além de abrir vagas para contratação temporária de profissionais de saúde. Neste domingo (03), o ministro da Saúde, Nelson Teich, desembarcou em Manaus com um reforço de profissionais para ajudar no combate do coronavírus.

Alcance

Até esta segunda-feira (04), a publicação no Facebook tinha sido compartilhada por 12 mil pessoas, mas já havia sido sinalizada como falsa pelo Facebook em parceria com a Agência Lupa, que realizou a checagem do conteúdo. No instagram, uma versão adaptada da mensagem tinha sido curtido por 2.223 seguidores do perfil ForaCorruptosOficial.

Esta verificação também foi feita por Aos Fatos, Boatos.org, O Globo, e Agência Lupa.

Saúde

Investigado por: 2020-05-01

Vídeo usa informações falsas para dizer que lockdown foi inútil e pico de covid-19 ficou para trás

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Enganoso
Teoria é baseada em estudo publicado por pesquisador israelense no Facebook, sem passar por revisão, mas instituições como OMS, Imperial College London e Universidade Johns Hopkins apontam o contrário. Brasil registrou recorde de novos casos nesta quinta-feira (30)

Vídeo publicado no YouTube engana ao afirmar que “dados confirmam” que o pico da covid-19 no mundo já passou e o lockdown adotado por alguns países foi inútil. A afirmação é baseada em estudo de um professor israelense da Universidade de Tel Aviv, publicado em sua conta pessoal no Facebook, sem passar pela revisão de outros especialistas.

O vídeo, inclusive, diz que o Brasil já atingiu o pico da doença e que o número de casos está em queda. A afirmação é falsa. O país registrou recorde de novos casos nesta quinta-feira (30), com 7.218 novas confirmações da doença e 435 novas mortes registradas.

Em todo o mundo, de acordo com a Universidade Johns Hopkins, o número de casos confirmados apresentou uma estabilização, mas ainda não apresenta sinais de queda.

Relatório publicado na terça-feira (28) pelo Imperial College London afirma que apenas quatro países devem ter queda no número de casos na próxima semana, enquanto nove (incluindo o Brasil) devem ter aumento expressivo.

Quanto ao lockdown e outros tipos de regras de isolamento social, a Organização Mundial da Saúde defende ser uma medida necessária para controlar a disseminação do novo coronavírus e evitar o colapso dos sistemas de saúde. Estudo do Imperial College London afirma que as medidas restritivas evitaram até 120 mil mortes na Europa.

O autor faz outras afirmações falsas ao longo do vídeo, como a de que o governo de Israel não teria adotado o lockdown, que o Brasil apresentaria o menor número de casos por milhão no mundo e que a Coreia do Sul teria zerado a epidemia.

O Comprova entrou em contato com o autor do vídeo, que preferiu não conversar com a reportagem.

Por que investigamos esse conteúdo?

O Comprova recebeu pedidos de leitores para verificação do conteúdo. A decisão levou em conta três aspectos.

  1. Boatos que diminuem a gravidade da pandemia de covid-19 e se mostram contrários a medidas de isolamento social podem ser prejudiciais à saúde das pessoas. Elas podem acreditar em informações falsas e tomar menos precauções.
  2. Chamou a atenção ainda o fato de que estudos e pesquisas têm sido distorcidas com frequência durante a pandemia do novo coronavírus, na tentativa de conferir “peso científico” a argumentos pessoais. Recentemente, o Comprova verificou conteúdos que distorciam conclusões de pesquisa de Harvard e inventavam que estudo brasileiro teria encontrado a “cura oficial” para a covid-19, por exemplo.
  3. O Comprova verifica somente conteúdos suspeitos sobre a covid-19 e o novo coronavírus que tenham obtido grande alcance nas redes sociais. O vídeo investigado obteve quase 300 mil visualizações no YouTube até esta quinta-feira (30).

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

O Comprova fez uma lista das afirmações feitas no vídeo e verificou cada uma delas, buscando fontes originais e acessando estudos de universidades reconhecidas, conteúdo jornalísticos e dados oficiais da epidemia do novo coronavírus no mundo.

Por meio de pesquisas no Google, a reportagem encontrou o perfil do professor Isaac Ben-Israel no site da Universidade de Tel Aviv e o estudo em inglês, publicado pelo The Times of Israel. Também confirmou que ele havia divulgado o texto antes, em hebraico, em sua conta pessoal do Facebook. O Comprova então fez a leitura do conteúdo e comparou com as afirmações do vídeo.

A reportagem acessou informações públicas oficiais, sites de universidades e notícias para verificar as medidas de prevenção adotadas e o cenário da pandemia nos seguintes países citados no vídeo: Israel, Reino Unido, Coreia do Sul, Japão, Estados Unidos e Brasil. Foram consultados artigos da Organização Mundial da Saúde, da Universidade Johns Hopkins e do Imperial College London, entre outros.

O Comprova também pesquisou arquivos da BBC News Brasil e da revista Veja para verificar a teoria do autor de que a mídia estaria “mudando o discurso” com as supostas descobertas recentes.

O que diz o estudo de Isaac Ben-Israel?

O estudo mencionado no vídeo de fato existe e foi publicado por Isaac Ben-Israel em seu perfil no Facebook, no dia 12 de abril. O artigo não apresenta referências bibliográficas, nem cita a origem dos dados utilizados para a elaboração dos gráficos. Também não foram encontrados indícios de que tenha sido submetido à revisão por pares, termo que se refere ao processo de validação científica dos métodos e conclusões por outros especialistas da área.

Ben-Israel argumenta que as estatísticas dos casos de infecção pelo novo coronavírus apresentam um padrão comum entre os países, independentemente se eles tomaram medidas severas, como o lockdown, ou moderadas. O padrão seria de que, após o primeiro registro, a infecção alcança um pico de novos casos em cerca de 6 semanas para então iniciar o declínio, chegando a zero em cerca de 10 semanas. A conclusão do autor é de que o lockdown pode ser interrompido “dentro de poucos dias” e substituído por uma política moderada de distanciamento social a partir de então.

É enganoso afirmar, porém, que os dados contidos no estudo “confirmam” que o pico da covid-19 teria passado e o lockdown foi inútil. Fontes de referência na área, como o Imperial College London, têm relatórios que apontam o contrário, assim como estatísticas oficiais de países como o Brasil.

Lockdown foi inútil?

Apesar de as medidas de restrição de circulação de pessoas e o isolamento social dividirem a população e governantes de vários países, a estratégia é vista pela OMS como uma das mais eficazes para a contenção do vírus e diminuir, ou retardar, o pico de contágio da doença — possibilitando que os sistemas de saúde dos países possam se preparar de forma adequada.

“Além das medidas de lockdown, precisamos de estratégias abrangentes baseadas em vigilância, em intervenção de saúde pública, testes, quarentena, e fortalecer os sistemas de saúde para absorver o golpe”, disse Michael Ryan, diretor executivo de emergências sanitárias da OMS em 1 de abril.

Os países que mais tiveram sucesso para conter o número de casos adotaram algum tipo de medida de restrição de circulação e incentivo ao distanciamento social. Prova disso é Hong Kong, que apesar de não ter determinado lockdown, fechou escolas, universidade e proibiu viagens.

Por outro lado, Itália e Espanha são considerados países exemplos de terem tomado medidas de restrição de forma tardia, o que acelerou o contágio, as mortes e colapsou o sistema de saúde. Apenas depois de semanas de lockdown as coisas começaram a melhorar.

Um estudo do Imperial College London publicado em 30 de março ainda mostra que as medidas de isolamento social impostas na Europa evitaram até 120 mil mortes no continente. Esse relatório também refuta o argumento no vídeo de que não existiria “nenhuma confirmação” de que o lockdown tenha influenciado no número de casos.

Pico de casos não ficou para trás

O vídeo ainda aponta que o pico de casos no mundo ficou para trás, o que não é verdade, segundo o relatório publicado nesta terça-feira (29) pelo Imperial College London, sobre previsões de curto-prazo para a transmissão do novo coronavírus. O estudo aponta que quatro países devem ter queda de casos na próxima semana (República Dominicana, França, Itália e Espanha).

Contudo, outros nove países (Brasil, Canadá, Índia, Irlanda, México, Paquistão, Peru, Polônia, Rússia) devem ter aumento expressivo.

A inclusão do Brasil nessa lista do relatório ainda faz cair outra afirmação da publicação no Youtube: a de que o país já alcançou o pico da doença.

O Ministério da Saúde afirma que não é possível determinar uma data para quando o Brasil alcançará o pico e chegará ao fim. Além disso, os números diários de casos e mortes causadas pelo novo coronavírus no Brasil mostram que o país ainda não chegou ao pico de contágio.

Em 29 de abril o Brasil superou a China em número de mortes, chegando a 5.513. No dia seguinte, um recorde de novos casos confirmados: 7.218 em 24 horas. Em 30 de abril, o país soma 85.380.

Segundo o Imperial College London, no Brasil, são esperadas cerca de 5,6 mil mortes para a próxima semana. Para os Estados Unidos, o prognóstico é de mais de 13 mil novas mortes no mesmo período. Em 23 países, é esperado que haja estabilização do número de casos.

Segundo a plataforma de casos de Covid-19 no mundo da Universidade Johns Hopkins, ainda que o número de casos confirmados diariamente tenha apresentado uma estabilização, ainda não há sinal de queda.

Israel adotou o lockdown

Ao contrário do que afirma o vídeo, Israel adotou medidas rígidas de controle da doença, como proibição de aglomerações e fechamento de comércio. O próprio artigo de Isaac Ben-Israel defende o fim da política de lockdown do país. O Comprova consultou o site oficial do governo do país, disponível em inglês, para verificar as normas vigentes.

Em 30 de abril, de acordo com artigo de referência contendo as diretrizes da polícia local (que é atualizado a cada alteração), estava proibida a visita a parques e praias e a operação de estabelecimentos como shoppings, bares, boates, academias, piscinas, zoológicos, cinemas, teatros, livrarias, museus e outras instituições de cultura e espaços de turismo. Restaurantes e cafés eram permitidos somente caso vendessem para consumo fora do estabelecimento, com pedidos pelo telefone ou pela internet.

Segundo notícia do The Times of Israel, o governo local estabelece medidas de restrição à circulação desde 19 de março. Além disso, algumas escolas foram fechadas em 12 de março e só retornarão às atividades no próximo domingo.

Coreia do Sul impôs isolamento e monitoramento da população

É falso o trecho do vídeo que afirma que a Coreia do Sul não impôs nenhum tipo de distanciamento social. O país é considerado exemplo de contenção do vírus justamente por ter adotado tais medidas de forma precoce, quando os primeiros casos começaram a ser confirmados. Exemplo disso é o alerta à cidade sul-coreana de Daegu, onde surgiram os primeiros doentes.

A maior parte dos casos iniciais foram de pessoas ligadas a uma igreja messiânica local. Após a confirmação, o prefeito da cidade pediu que todos ficassem em casa em um isolamento voluntário e recomendou o uso de máscaras para quem precisasse sair. O pedido foi atendido pela população, fato determinante para a contenção do vírus.

Em todo o país também foram adotadas medidas como fechamento de escolas, aplicação massiva de testes, monitoramento da localização de pessoas contaminadas e multas para quem furava quarentena (contaminados ou que tivessem contato com contaminados).

O país chegou a produzir 100 mil testes por dia. Com as pessoas sendo testadas com frequência, foi possível tratar aquelas com sintomas leves e reduzir a taxa de mortalidade. Isso aconteceu logo no início da pandemia. Uma semana depois do primeiro caso confirmado, ainda no final de fevereiro, milhares já eram testados.

Em 29 de abril, o país registrou nove casos e duas mortes pela doença. Apesar do número baixo de novas confirmações de Covid-19, o sinal de alerta ainda está ligado e as restrições seguem valendo por medo de um segundo surto de contaminação. Viajantes que chegam à Coreia do Sul são obrigados a cumprir quarentena.

Japão adotou medidas de distanciamento social após surto

Apesar dos baixos números de casos e mortes confirmadas a partir de fevereiro, quando as primeiras confirmações da doença em território japonês foram feitas, o país sofreu um grande aumento de infectados entre março e abril. Sem medidas para restringir o isolamento social, o país viu uma nova onda de casos de coronavírus.

A pressão da imprensa, de especialistas e de outros políticos fez com que o primeiro-ministro Shinzō Abe decretasse o estado de emergência em províncias do país em 7 de abril, e a medida foi estendida para todo o território japonês em 16 de abril. Dia 5 de abril, foram confirmados mais de 500 novos casos no país. Em 11 de abril, mais de 700.

O estado de emergência não chega a ser um lockdown, mas permite que autoridades proponham fechamento de colégios, bares, lojas e parques. O governo também pediu para que a população evite viagens e saídas de casa desnecessárias, mas não há multa para quem descumprir as recomendações.

O Japão também tem meta alta de índice de isolamento social. O governo quer atingir 80%, principalmente no feriado prolongado de 29 de abril a 6 de maio.

Estados Unidos e Reino Unido: demora para impor medidas e recorde de casos

Dois exemplos de países que praticaram medidas de restrição mais tardias são os Estados Unidos e o Reino Unido, que atualmente apresenta o maior número de óbitos por dia na Europa.

Os dois países têm em comum ainda que seus líderes minimizaram inicialmente a gravidade da doença. De um lado, Donald Trump dizia que “tudo estava sob controle” e por outro, o primeiro-ministro Boris Johnson evitava determinar o lockdown.

Os Estados Unidos são os primeiros da lista de número de casos do novo coronavírus, ultrapassando a marca de 1 milhão no país. As altas taxas de infecção e de letalidade se dão por vários fatores, como a demora do governo para agir contra a doença, falta de um sistema de saúde público acessível à população mais pobre e a diferença na situação de cada estado do território americano.

Enquanto Nova York é considerada epicentro no país, estados como a Califórnia vivem situação menos alarmante até o momento. Foram registrados 50.740 casos na Califórnia contra 309.696 em Nova York até dia 1º de maio.

A imprensa norte-americana coloca o presidente Donald Trump como um dos maiores responsáveis pelas altas taxas no país. Trump demorou a aceitar a gravidade da doença e agir, segundo especialistas. A rede americana CNN chegou a publicar um texto culpando o presidente. “Trump falhou na preparação para a pandemia mesmo depois dos alarmes. Ele ignorou os sinais dizendo repetidamente que tudo estava sob controle”.

O sistema de saúde dos Estados Unidos também é diferente. Não há tratamento de graça e milhões de pessoas não têm um plano de saúde, o que faz com que elas evitem ir aos hospitais quando estão doentes

Depois de falhas, o país passou a submeter grande quantidade de pessoas ao teste para covid-19, o que fez o número de casos saltar. Hoje o país é o que mais aplica testes no mundo, com mais de 6 milhões. A proporção de exames para cada milhão de habitantes, no entanto, ainda é baixa e fica na faixa de 18 mil, atrás de países como Alemanha, Espanha, Itália e Rússia.

Enquanto isso, o Reino Unido decretou lockdown em 23 de março. Em 16 de abril, as restrições foram estendidas por pelo menos mais três semanas, segundo pronunciamento do ministro das Relações Exteriores, Dominic Raab, que substituiu o primeiro-ministro Boris Johnson, afastado por ter contraído covid-19.

De volta ao trabalho no dia 27 de abril, Johnson afirmou que ainda não é o momento para abrir mão das medidas de restrição.

Entre as restrições, estão a proibição de aglomerações (mais de duas pessoas), ordem de sair apenas quando necessário, para compras de alimentos ou remédios, e ir ao trabalho apenas se for “absolutamente necessário”. Todo comércio considerado não-essencial foi fechado, assim como teatros e outros locais de aglomeração. O Primeiro Ministro autorizou que as medidas fossem fiscalizadas pela polícia, que pode multar em caso de descumprimento.

Brasil não é o país com menos casos por milhão

O autor do vídeo afirma falsamente que o Brasil é o país com menos casos de covid-19 por milhão. A China, por exemplo, apresenta cerca de um sétimo do número de casos por milhão registrado no Brasil — enquanto no país asiático são 59,9 casos confirmados a cada um milhão de habitantes, no Brasil são 401,7 casos.

O Comprova calculou os valores com base na estimativa de população de China e Brasil em 2020 pelo Banco Mundial e no número de casos de covid-19 registrados nos dois países até 30 de abril, segundo a Universidade Johns Hopkins. Neste momento, os dois países apresentam número parecido de casos, mas a população da China é de 1,4 trilhão, contra 212 milhões do Brasil.

A própria fonte utilizada pelo autor do vídeo (o Google Notícias, abastecido pela Wikipedia) mostra que ele está errado. Além da China, apresentam menos casos por milhão países como Índia, México, Paquistão, Japão, Polônia, Coreia do Sul, Ucrânia e Indonésia, todos com mais de 10 mil casos da doença em 30 de abril.

A mídia mudou o discurso?

O autor do vídeo no YouTube sugere que a mídia estaria “mudando o discurso” em razão de supostas descobertas recentes. Os artigos que ele usa de exemplo, porém, não afirmam em nenhum momento que o pico da covid-19 tenha passado ou que as medidas de restrição não tenham sido eficientes em algum local do mundo. Além disso, por meio de busca avançada no Google, o Comprova não encontrou menções anteriores a Isaac Ben-Israel e sua pesquisa publicada no Facebook.

A reportagem da BBC News Brasil mencionada no vídeo, de 17 de abril, afirma que alguns países estavam adotando ou discutindo regras diferentes de flexibilização do isolamento social naquela época, entre eles Dinamarca, Coreia do Sul, Espanha, Itália, Alemanha, Áustria, República Tcheca e a cidade de Wuhan, na China. Porém, o texto também cita países que não tinham perspectiva de aliviar as medidas até o mês de maio — como Reino Unido, França e Estados Unidos — e recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para reduzir os riscos de “reaparição mortal” do novo coronavírus caso as nações optem por relaxar a quarentena.

A matéria da revista Veja, publicada no dia 20 de abril e também citada, informa a existência de um estudo de pesquisadores norte-americanos que aponta alto índice de subnotificação de casos nos Estados Unidos entre 8 e 28 de março. Os autores sustentam que, com a entrada desses registros nas estatísticas oficiais, a taxa de mortalidade poderia diminuir, indicando a possibilidade de ela “não ser tão grave”.

Por meio de ferramentas de busca avançada no Google, o Projeto Comprova pesquisou menções a Isaac Ben-Israel nos sites da BBC News Brasil e da Veja. Quanto ao primeiro, não há registro do nome em qualquer data. A Veja o publicou uma única vez, no dia 23 de abril de 2020 (data posterior à matéria mencionada), em nota sobre a participação do israelense em evento na internet. A ausência de referências anteriores ao professor e sua pesquisa torna improvável a teoria de que os veículos teriam “mudado o discurso” após a publicação do estudo, como sugere o vídeo.

Quem é o autor do vídeo?

O vídeo foi postado originalmente no canal do Youtube de Anderson Von Almeida. Antes da pandemia, a página tratava principalmente de assuntos ligados às criptomoedas. No entanto, nos últimos meses, há diversas postagens sobre coronavírus e política em geral.

O Comprova entrou em contato com Anderson via e-mail, mas ele se recusou a comentar sobre o vídeo. “Meu trabalho vem sendo justamente o de combater a histeria criada por vocês. E ao que parece, modéstia parte, é algo que venho conseguindo e graça a nova mídia: a internet”, escreveu.

Contexto

As medidas de isolamento defendidas por autoridades sanitárias como única maneira de frear o avanço do novo coronavírus têm sido fortemente criticadas por parte da população e alguns governantes que as consideram autoritárias.

O presidente Jair Bolsonaro já se declarou reiteradamente contra ações de controle de circulação de pessoas, como fechamento do comércio, afirmando que são catastróficas para a economia do país e do mundo. “Vai quebrar tudo”, disse, no dia 3 de abril.

Essa narrativa tem reverberado entre seus seguidores e se traduzido em carreatas e protestos pela volta das atividades econômicas por todo o país.

Contudo, como ainda não há vacina e nem remédio para o novo coronavírus, especialistas insistem que apenas o isolamento social é eficaz para atrasar as transmissões e dar tempo para que governos ampliem a capacidade de atendimento do sistema de saúde.

Alcance

Até 30 de abril, o vídeo publicado do Youtube de Anderson Von Almeida tinha 297 mil visualizações.

Saúde

Investigado por: 2020-05-01

É falso que São Paulo e Rio de Janeiro tenham taxas de letalidade 10 vezes maiores que Minas Gerais

  • Falso
Falso
Minas Gerais tem uma taxa de letalidade menor da doença provocada pelo novo coronavírus, mas as diferenças são muito menores do que as apontadas por um texto publicado nas redes sociais. O Comprova verificou ainda que há outros erros no texto que viralizou

É falso que a taxa de letalidade da covid-19 em Minas Gerais seja “mais de 11 vezes menor que em São Paulo, 10 vezes menor que no Ceará e mais de 31 vezes menor que no Rio de Janeiro”, ao contrário do que afirma um texto compartilhado no Facebook. De fato, Minas Gerais tem uma taxa de letalidade menor da doença provocada pelo novo coronavírus, mas as diferenças são muito menores do que as apontadas pelo texto.

A conta feita na postagem do Facebook tem vários erros. Em primeiro lugar, calcula a letalidade de acordo com a população de cada Estado, e não levando em conta o número de casos confirmados da covid-19. Além disso, a comparação é feita entre locais que estão em diferentes estágios de contágio — São Paulo, por exemplo, registrou infecções pelo novo coronavírus muito antes do que as outras unidades da federação citadas.

Por último, a ideia de “onze vezes menor” é matematicamente incorreta: qualquer quantidade “uma vez menor” já é zero.

Por que investigamos esse conteúdo?

O Comprova encontrou o conteúdo desta investigação no monitoramento que faz sobre postagens que tratam de coronavírus e covid-19 e considerou três pontos para abrir a investigação:

  1. Muitos boatos têm circulado nas redes sociais e em aplicativos de mensagens favoráveis ou contrários a políticas de contenção da transmissão do novo coronavírus adotadas por governadores, o que leva o Comprova a prestar atenção em conteúdos associados a este tema.
  2. O Comprova verifica somente conteúdos suspeitos sobre a covid-19 e o novo coronavírus que tenham obtido grande alcance nas redes sociais. O post que é alvo dessa verificação havia sido compartilhado 1,3 mil vezes quando foi encontrado pelo nosso monitoramento.
  3. O conteúdo investigado é a reprodução de um outro post feito em um perfil pessoal no Facebook. Ao buscar por esse post, o Comprova não o encontrou no perfil indicado.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

Para fazer esta verificação, o Comprova analisou os dados de casos registrados oficialmente da covid-19, bem como de óbitos provocados pela doença. Além disso, consultamos o epidemiologista Fernando Carvalho, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Qual é a melhor forma de comparar a evolução da covid-19 em MG e nos outros estados?

A taxa de letalidade de uma doença é calculada com um conta simples, a divisão do número de óbitos pelo número de casos registrados, e não pelo número de pessoas que vive numa determinada região geográfica, como fez o autor do texto verificado.

De acordo com o epidemiologista Fernando Carvalho, dividir o número de mortes pela população resulta na taxa de mortalidade — são dois conceitos distintos da epidemiologia. Desde 29 de abril, o Ministério da Saúde passou a usar a mortalidade, e não mais a letalidade, para comparação entre diferentes Estados em seu painel de monitoramento.

Segundo o especialista, um dos desafios de comparar a evolução da covid-19 nos diferentes Estados brasileiros está na diferença do nível de testagem da população. Um levantamento recente feito pelo portal R7 apontou que Minas Gerais era uma das unidades da federação que menos fez testes para diagnosticar pacientes com coronavírus. “A dificuldade de medir a letalidade da covid-19 é que o diagnóstico é limitado pelos testes, que são feitos em número pequeno e tem qualidade questionável”, explica Carvalho.

Dessa forma, o epidemiologista sugere comparar o volume total de óbitos em cada Estado. “Eu prefiro comparar o número total de mortos, nem mortalidade nem letalidade”, diz Carvalho. “Se possível, incluir (na comparação) as mortes por síndrome respiratória aguda grave, pois provavelmente esses casos foram covid-19 não testados. O número de mortos dá uma ideia do impacto total sobre o sistema de saúde”.

O epidemiologista também ressalta que é preciso levar em conta o estágio de disseminação do novo coronavírus em cada Estado. São Paulo foi o primeiro a registrar um caso de infecção, no dia 26 de fevereiro. Entre as unidades da federação citadas, Ceará foi o último a contabilizar pacientes da covid-19 — os cinco primeiros foram no dia 17 de março.

Seguimos as recomendações de Carvalho para comparar o número de óbitos em cada Estado. Veja o resultado abaixo:

Qual a taxa de letalidade da covid-19 em MG, SP, CE e RJ?

Comparando-se as taxas de letalidade, verificamos que a de Minas Gerais é, de fato, menor, que as de Ceará, Rio de Janeiro e São Paulo, mas não tanto quanto o texto afirma. Até 30 de abril, Minas tinha 82 mortes provocadas pelo novo coronavírus e 1.827 casos, uma taxa de letalidade de 4,5%.

Dos três estados comparados no texto verificado, o que tem uma taxa de letalidade menor é o Ceará. São, também até 30 de abril, 482 mortes em 7606 caso, com uma taxa de letalidade de 6,3%, ou cerca de um terço maior (35% mais alta) que a de Minas Gerais e não “10 vezes maior” (1000% mais alta), como afirmava o texto verificado.

Rio de Janeiro e São Paulo, por sua vez, têm taxas de letalidade duas vezes maior (100% mais alta) e quatro quintos maior (82% mais alta) que as de Minas Gerais.

País/Estado*

Número de casos

Número de óbitos

Taxa de letalidade

Brasil

85.380

5.901

6,9%

Minas Gerais

1.827

82

4,5%

Ceará

7.606

482

6,3%

Rio de Janeiro

9.453

854

9%

São Paulo

28.698

2.375

8,2%

* Tabela elaborada com os dados oficiais do Ministério da Saúde

Como Minas Gerais tem lidado com a pandemia de covid-19?

Em um encontro na Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 29 de março, especialistas apontaram para um problema no enfrentamento à covid-19 no Estado: o baixo número de testes realizados. “Com um número de testes tão baixo, a amostragem pode ficar comprometida”, disse a professora Cristina Alvim, presidente do Comitê Permanente de Acompanhamento das Ações de Prevenção e Enfrentamento do Novo Coronavírus, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

De acordo com o boletim mais recente do governo mineiro, o Estado tinha 1.827 casos confirmados, além de 84.994 casos suspeitos de covid-19. Minas havia registrado 82 óbitos pela doença provocada pelo novo coronavírus e 81 mortes ainda estavam em investigação, ou seja, aguardando exames laboratoriais.

Assim como a maior parte dos estados, Minas Gerais adotou, a partir de março, uma série de medidas de isolamento social para combater a propagação do novo coronavírus. Em sua conta oficial no Twitter, o próprio governador, Romeu Zema, anunciou em 21 de março medidas de restrição, como o fechamento do comércio. Ainda segundo ele, a Polícia Militar seria responsável por “fazer cumprir as regras”.

Em 13 de abril, o secretário de Saúde de Minas Gerais, Carlos Eduardo Amaral, anunciou que as medidas seriam mantidas pelo menos até junho. “Não dá para pensarmos em voltar a uma vida normal antes de junho”, afirmou ele.

Dez dias depois, no entanto, o governo de Minas Gerais lançou o programa “Minas Consciente”, que reúne protocolos para a retomada das atividades econômicas no estado e tem o objetivo de servir como uma forma de auxiliar prefeituras sem capacidade técnica para lidar com a situação.

Romeu Zema pretende que o governo estadual preste esse auxílio às prefeituras, mas transferiu aos prefeitos a responsabilidade de reduzir ou não os protocolos de isolamento social. Segundo ele, não se trata de uma abertura completa da economia do estado. “ Vale lembrar que não é liberdade total”, disse. “Nós teremos aqui um protocolo que vai fazer com que a reativação da economia seja gradual, segura, criteriosa, colocando a preservação da vida acima de tudo”, disse.

Desde então, o estado passou a ter situações diferentes conforme a cidade. Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, flexibilizou a abertura do comércio da cidade em 27 de abril. No mesmo dia, a cidade teve movimentação normal, com ônibus cheios, por exemplo, e pessoas circulando sem máscaras de proteção.

Em contrapartida, em Belo Horizonte, o prefeito Alexandre Kalil afirmou, em um pronunciamento pelo Twitter em 28 de abril, que não há previsão para a sua administração reabrir o comércio na cidade. E criticou outros prefeitos. “Tem cidade que fez abertura irresponsável aqui perto que não tem um respirador”, afirmou ele.

Contexto

O post com os dados falsos circula em um momento de crescente tensão entre o presidente Jair Bolsonaro e os governos estaduais. Desde o início da pandemia, Bolsonaro, repetidas vezes, se manifestou contra as medidas de isolamento social e tentou impedir sua continuidade.

Muitos governadores, por sua vez, decidiram enfrentar Bolsonaro. Este embate teve um pico em 19 de abril, quando o presidente da República participou de uma manifestação de apoiadores que defendiam a realização de um golpe de Estado no Brasil, o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF) e faziam críticas ao isolamento social. Em resposta a Bolsonaro, 20 governadores divulgaram uma carta a Bolsonaro de apoio ao Congresso. Zema não assinou o documento e afirmou que há “pessoas que estão adotando um totalitarismo contra o presidente“.

Alcance

Até a publicação desta verificação, o post de Facebook que compartilhou o conteúdo teve 1,4 mil compartilhamentos. A Agência Lupa também desmentiu esse texto.

Saúde

Investigado por: 2020-05-01

Não é verdade que máscaras contaminadas serão distribuídas para a população de São Paulo

  • Falso
Falso
O Comprova verificou que não há previsão de distribuição de máscaras para a população por parte dos órgãos de saúde do estado e o próprio autor do vídeo se retratou nas redes sociais de uma afirmação que fez sobre a chegada ao porto de Santos de máscaras contaminadas por covid-19 vindas da China

Não é verdade que máscaras de proteção contaminadas estariam sendo distribuídas pelo sistema de saúde em cidades da Baixada Santista, em São Paulo. A informação foi divulgada por um homem que se identifica como “Pastor Róbson” em suas redes sociais e que, posteriormente, publicou um vídeo se retratando da declaração.

O Comprova confirmou também com órgãos de saúde do estado que não há previsão de distribuição de máscaras para a população.

Procurado pelo Comprova, o pastor se pronunciou por meio de sua assessoria de imprensa e disse que teria se “confundido” e produzido o vídeo inicial por estar “assustado” e “alarmado” com a informação que recebeu por meio de áudios e vídeos em um grupo no Whatsapp.

Por que investigamos esse conteúdo?

O Comprova recebeu o link para o vídeo por sugestão de leitores e também encontrou a publicação no monitoramento que faz das redes sociais. A decisão por investigar considerou dois pontos:

  1. Esta não é a primeira vez que circulam informações sobre a suposta contaminação de máscaras, e o Comprova já checou outros vídeos e áudios sobre o tema.
  2. O Comprova verifica somente conteúdos suspeitos sobre a covid-19 e o novo coronavírus que tenham obtido grande alcance nas redes sociais. O post que é alvo dessa verificação obteve mais de 500 mil visualizações.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e que divulgue uma mentira.

Como verificamos?

Para fazer esta verificação, localizamos, por meio de buscas no Google, Facebook e Instagram, o pastor que aparece nas imagens. Na perfil dele no Instagram, há um número de telefone e entramos em contato por Whatsapp. A assessoria de imprensa do pastor Róbson nos respondeu e informou que ele já havia se retratado pelo vídeo publicado.

Além disso, entramos em contato, por email, com o Ministério da Saúde, a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo e as Secretarias de Saúde do Guarujá e de Itanhaém, cidades mencionadas no vídeo, para checar se havia alguma previsão de distribuição de máscaras.

Pastor se retratou das declarações

Em um vídeo publicado no Facebook, o pastor Róbson Pentecoste diz que recebeu informações sobre um carregamento contaminado de máscaras de proteção que teriam chegado ao Brasil pelo Porto de Santos (SP). Segundo ele, os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) seriam distribuídos por agentes de saúde e nos postos.

Ele alega que o mesmo tipo de material de proteção individual teria sido entregue nos Estados Unidos, e provocado vários casos da doença no país – o FBI teria recolhido parte do material.

O Comprova entrou em contato com o pastor, e a assessoria de imprensa dele nos enviou uma série de links com notícias sobre problemas com máscaras produzidas na China. A seleção mistura informações de vários portais – alguns mais e outros menos conhecidos -, mas nenhuma fala efetivamente sobre contaminação de nenhum tipo. Questionamos, especificamente, sobre as alegações do vídeo divulgado, e fomos então informados de que o autor do vídeo já se retratou sobre o conteúdo no próprio Facebook. Esta correção foi feita em um stories no dia seguinte ao do primeiro vídeo e já não está mais disponível. Nele, o pastor disse que foi alertado por várias pessoas de que a suposta contaminação das máscaras não era verdade.

“Ele não costuma se pronunciar a respeito desse tipo de coisa”, afirmou a assessora de imprensa. Segundo ela, o pastor “se confundiu” se baseou em informações que recebeu em um grupo no Facebook, do qual participa.

Apesar da alegação, há outros vídeos e posts do pastor, em seu Facebook, a respeito do novo coronavírus.

Entrega de máscaras para a população

Mesmo com a retratação publicada pelo autor do vídeo, o Comprova decidiu checar algumas das informações divulgadas por ele, que se repetem em outros conteúdos que circulam pela internet.

A respeito da chegada de máscaras pelo Porto de Santos (SP), a assessoria do porto respondeu que não possui a informação.

Procuramos a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, que nos informou, por telefone, que não há previsão de entrega de máscaras para a população do estado. Segundo a pasta, o equipamento de proteção individual adquirido pelo governo é destinado aos profissionais da saúde e de outros serviços essenciais da administração.

As Secretarias de Saúde de Guarujá e Itanhaém, cidades citadas no vídeo e que ficam na Região Metropolitana da Baixada Santista, também foram contatadas pelo Comprova. Os órgãos nos informaram, por e-mail, que não há previsão de distribuição de máscaras para os moradores.

Máscaras novas podem estar contaminadas?

O Ministério da Saúde já desmentiu informações sobre máscaras chinesas contaminadas, e afirma que, em função do tempo gasto para a chegada do material ao Brasil, mesmo que as máscaras saíssem contaminadas da China, o vírus não sobreviveria ao longo trajeto. “O vírus só é transmitido entre humanos e não sobrevive mais de 24 horas fora do organismo humano ou de algum animal”, diz a publicação no site do Ministério.

FBI não apreendeu máscaras

O Pastor disse que havia publicado o conteúdo após ver um vídeo que mostra o FBI recolhendo máscaras contaminadas nos Estados Unidos. Este material já foi checado pelo Estadão e pela Agência Lupa, e classificado como falso.

Contexto

O rumor sobre as supostas máscaras contaminadas circula em um momento de elevada tensão nas relações entre os Estados Unidos e a China a respeito de responsabilidades sobre a pandemia de covid-19.

Agências de inteligência norte-americanas estão, atualmente, analisando a possibilidade de o vírus causador da doença ter começado a circular a partir de um laboratório da cidade de Wuhan que pesquisa diversos tipos de coronavírus.

Alcance

O vídeo original foi removido das redes sociais do pastor, mas a versão encontrada pelo Comprova, publicada no último dia 23 de abril, supera as 500 mil visualizações.

Saúde

Investigado por: 2020-05-01

Governador da Bahia não pediu a prefeitos para inventarem casos de covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Vídeo publicado no YouTube e Facebook foi tirado de contexto. Nas imagens, o governador da Bahia, Rui Costa, discute com prefeitos sobre o crescimento de casos de covid-19 na região do extremo sul do estado. Em nenhum momento, ao longo da conversa, ele pede para que casos da doença sejam “inventados em Porto Seguro”.

Não é verdade que o governador da Bahia, Rui Costa (PT), tenha pedido para a prefeita de Porto Seguro, Cláudia Oliveira (PSD-BA), “inventar” 200 casos de covid-19. O vídeo que circula nas redes sociais, acompanhado do texto “governador Rui Costa pede para a prefeita de Porto Seguro inventar 200 doentes para receber verba de Bolsonaro”, foi retirado de contexto.

As imagens foram extraídas de uma videoconferência, realizada no dia 23 de abril, na qual o governador discute com prefeitos de 10 cidades sobre o crescimento de casos de covid-19 na região do extremo sul do estado. Em nenhum momento, ao longo da conversa, Rui Costa pede para que casos da doença sejam “inventados em Porto Seguro”. A postagem original pode ser encontrada na página do Facebook da prefeita Cláudia Oliveira. O governador desmentiu o boato em vídeo publicado no Facebook e no Instagram.

Por que checamos isto?

O Comprova recebeu o link para o conteúdo desta investigação por WhatsApp e considerou dois pontos para abrir uma investigação.

  1. Muitos boatos têm circulado nas redes sociais e em aplicativos de mensagens tendo como alvo as políticas de contenção da transmissão do novo coronavírus adotadas por governadores. Redes contrárias a essas políticas têm compartilhado informações falsas ou enganosas para desestabilizar as ações dos estados, o que leva o Comprova a prestar atenção em conteúdos com esse tema.
  2. O Comprova verifica somente conteúdos suspeitos sobre a covid-19 e o novo coronavírus que tenham obtido grande alcance nas redes sociais. O vídeo verificado foi publicado na página do Movimento do Povo Brasileiro no Facebook e estava com 78 mil visualizações somente oito horas depois de publicado.

Enganoso para o Comprova é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado.

Como verificamos?

Para verificar o vídeo, entramos em contato com a assessoria de comunicação do Governo da Bahia. A equipe informou que “a questão foi completamente retirada de contexto da fala do governador durante a reunião virtual com prefeitos aqui da região do extremo sul da Bahia. Em momento nenhum o governador fala em aumentar números de infectados ou menos ainda em distorcer os dados (sic)”. Em seguida, entramos nas páginas oficiais do governador da Bahia e da Prefeitura de Porto Seguro.

No Facebook, Rui Costa publicou no dia 29 de abril um vídeo em que nega ter solicitado invenção de 200 casos do novo coronavírus em Porto Seguro. O conteúdo foi enviado para a equipe do Comprova pelo assessor do governo e postado no Instagram. Na página oficial da prefeita de Porto Seguro, Cláudia Oliveira (PSD-BA) encontramos o vídeo original, postado no dia 23 de abril, às 19h06.

Também entramos em contato com a Prefeitura de Porto Seguro. Em nota, a assessoria de comunicação afirmou que está “juntando forças para investigar e encaminhar para punição os responsáveis” pelo compartilhamento do vídeo fora de contexto.

Videoconferência discutiu avanço de coronavírus no Sul da Bahia

O vídeo foi gravado durante uma reunião do governador Rui Costa (PT) com 10 prefeitos da região do extremo sul da Bahia, realizada no dia 23 de abril. Conforme publicação da página do governo da Bahia no dia da reunião, o objetivo era “abordar as ações de combate à pandemia do novo coronavírus implementadas pelo governo do estado, além de ouvir as demandas dos representantes municipais”. Participaram os líderes do executivo municipal das cidades de Belmonte, Eunápolis, Itabela, Itapebi, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Itamaraju, Medeiros Neto, Prado e Teixeira de Freitas.

A conversa foi para atualizar a quantidade de casos de covid-19 nessas cidades, dimensionar a necessidade ou não de abertura de novos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e outras medidas. No vídeo original, gravado dentro do gabinete da prefeita de Porto Seguro, são repassados por ela ao governador os dados atualizados até então da quantidade de casos positivos, curados e em isolamento na cidade. “Dezessete deram positivo, 11 curados e seis em isolamento”, contabiliza Cláudia Oliveira.

De acordo com o governador, os 10 leitos de UTI existentes na cidade somente estariam ocupados se houvesse, simultaneamente, 200 pessoas com a doença ativa na cidade. Em nenhum momento ele pede para que sejam inventados 200 registros da doença em Porto Seguro, como diz texto que acompanha a publicação dos vídeos tirados de contexto.

“Se você tem 11 curados e seis ativos, então normalmente você precisa de 5% da estatística para leitos de UTI”, diz. “Então para ocupar os leitos de UTI aí precisavam ter 200 pessoas simultaneamente ativas com a doença. Para ocupar os 10 leitos de UTI, a conta é essa que estamos fazendo”.

A estatística citada por Rui Costa faz referência a um estudo do Chinese Center for Disease Control and Prevention. Publicado no dia 24 de fevereiro no periódico médico Jama Network, o relatório analisou 44.415 casos confirmados da covid-19 na China e concluiu que 5% deles atingiram um estágio grave, com insuficiência respiratória, choque ou falência múltipla de órgãos. O mesmo dado está disponível nas diretrizes publicadas pela Associação Médica Brasileira (AMB).

A preocupação de Cláudia Oliveira em relação à necessidade de abertura de novos leitos de UTI fica evidente em outro trecho da conversa, também publicado em sua página no Facebook. A gravação é de um momento anterior ao vídeo descontextualizado nas redes sociais e foi postada às 18h49 do dia 23 de abril. Nas imagens, a prefeita pergunta se haverá ampliação de leitos na UTI do Hospital Regional Deputado Luís Eduardo Magalhães, em Porto Seguro. A unidade funciona com cinco leitos, de acordo com o Governo da Bahia.

“A ideia é, sim, acrescentar mais cinco leitos, numa área reservada, e disponibilizar 10 leitos para a região”, respondeu o governador. “Você hoje tem 10 leitos. Se a gente abrir mais cinco, você fica com 10 para covid e cinco para atender a região.” Na página do Facebook de Cláudia, também é possível encontrar um resumo da reunião, em um vídeo publicado no dia 23, às 21h17.

Contexto

A Bahia tem 2.867 casos confirmados de covid-19, 7.929 casos descartados e 14.497 notificações, conforme boletim epidemiológico divulgado no dia 30 de abril. No estado, 106 morreram vítimas de coronavírus. O sul do estado tem sido motivo de preocupação das autoridades, por causa da rápida disseminação do coronavírus. A região somava até o dia 28 de abril 20% das mortes por covid-19 no estado. De acordo com os atuais dados, é responsável por 18% das mortes no estado. Entre os dias 20 e 27 de abril, foi registrado em Itabuna – maior município da região – um crescimento de 260% na quantidade de infectados pelo novo coronavírus. Em Ilhéus, os casos cresceram 130% no mesmo período.

Ilhéus é um dos municípios na lista das cinco cidades com maior coeficiente de incidência de covid-19 da Bahia, superando a capital, com 124,44 casos a cada 100 mil de habitantes. Outras cidades do sul – como Uruçuca (107,21 casos por 100 mil hab), Coaraci (76,50 casos por 100 mil hab) e Gongogi (56,11 casos por 100 mil hab) – aparecem no topo do ranking. Salvador tem 62,10 casos por 100 mil habitantes.

O primeiro caso do novo coronavírus na Bahia foi de uma moradora da cidade de Feira de Santana, a 100 quilômetros de Salvador, que havia viajado para a Itália. A análise do teste feito na paciente confirmou o diagnóstico no dia 6 de março. A região sul, entretanto, ganhou destaque antes mesmo da primeira notificação de covid-19 na Bahia, quando convidados de um casamento realizado em um resort na cidade de Itacaré começaram a apresentar sintomas da doença. Porto Seguro tem 21 casos confirmados e outros 32 aguardando o resultado dos exames. Duas pessoas estão internadas.

A situação da região sul e extremo sul da Bahia levou o governador Rui Costa a considerar o lockdown — bloqueio total dos fluxos de deslocamento — em Itabuna e Ilhéus. Uma das preocupações é a limitação da rede de saúde das regiões, o que motivou o governador a realizar uma série de videoconferências com os prefeitos. Na quarta-feira (22), a conversa foi com 12 prefeitos das regiões do Médio Rio de Contas, Vale do Jiquiriçá e Baixo Sul. Na terça-feira (21), com 11 prefeitos da região Sul. A conversa registrada com a prefeita de Porto Seguro, Cláudia Oliveira, fez parte desse ciclo de discussões sobre a realidade local.

Alcance

O vídeo foi publicado no YouTube pela conta Movimento do Povo Brasileiro e não está mais disponível na plataforma. As mesmas imagens foram postadas na página do Movimento do Povo Brasileiro no Facebook e estavam com 78k visualizações oito horas depois de publicadas, mas também foram deletadas. Na página Aliança Pelo Brasil Santo André-SP, a publicação tinha 13 mil visualizações até o dia 29. Na página Marcos Mendes Santo André São Paulo, chegou a 33 mil visualizações.

A agência Aos Fatos e os sites Boatos.org e Bahia Notícias também checaram este conteúdo.

Saúde

Investigado por: 2020-04-29

Nobel de Medicina Tasuku Honjo não disse que o coronavírus é artificial

  • Falso
Falso
O próprio pesquisador Tasuku Honjo desmentiu as alegações atribuídas a ele em mensagens no WhatsApp e em publicações em redes sociais. Além disso, pesquisas científicas confirmaram que o vírus causador da covid-19 não foi desenvolvido em laboratório. O Comprova verificou que o boato circula há alguns dias em diversos idiomas

São falsos os textos que circulam pelo WhatsApp e os posts em redes sociais segundo os quais o prêmio Nobel de Medicina Tasuku Honjo teria afirmado que o novo coronavírus não é natural. O próprio Honjo desmentiu as alegações atribuídas a ele e, além disso, pesquisas científicas confirmaram que o vírus causador da covid-19 não foi desenvolvido em laboratório.

Por que checamos esse conteúdo?

A verificação deste texto foi solicitada por leitores que enviaram os pedidos via WhatsApp. O monitoramento das redes sociais realizado pelo Comprova detectou que este conteúdo vem circulando há alguns dias em diversos idiomas, em uma aparente tentativa organizada de criar desinformação a respeito da pandemia de covid-19.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos

Para verificar este conteúdo, o Comprova buscou estudos científicos a respeito da origem do novo coronavírus e também a posição oficial do pesquisador Tasuku Honjo e da Universidade de Kyoto, onde ele trabalha.

O coronavírus que causa a covid-19 é artificial?

Especulações a respeito da origem do novo coronavírus acompanham a pandemia desde o seu início e se tornaram campo fértil para desinformação.

No texto que circula com afirmações falsas atribuídas a Tasuku Honjo, a argumentação é de que o novo coronavírus teria sido criado em um laboratório de Wuhan, cidade na província chinesa de Hubei que foi a primeira com infecções provocadas por este vírus. O texto afirma, ainda, que Honjo trabalharia há quatro anos no “laboratório Wuhan na China.”

Uma visita à biografia de Honjo no site da Universidade de Kyoto mostra que em toda sua carreira ele trabalhou apenas nos Estados Unidos e no Japão, onde atua seguidamente desde 1974. Honjo trabalha na mesma universidade desde 1984 e, desde 2018, é o vice diretor-geral do Instituto de Estudo Avançado da instituição. Em 2018, ele foi um dos vencedores do Nobel de Medicina ou Fisiologia pela descoberta ligada ao combate do câncer por meio da imunoterapia, estratégia que busca aumentar a função do sistema imunológico.

Em 27 de abril, a Universidade de Kyoto emitiu uma nota oficial em nome de Honjo, na qual ele lamenta que seu nome tenha sido usado “para espalhar falsas acusações e desinformação”. O médico destaca que, no momento atual, “quando todas as nossas energias são necessárias para tratar os doentes, impedir a propagação do sofrimento e planejar um novo começo, a transmissão de alegações infundadas sobre as origens da doença é perigosamente perturbadora”.

Mais importante, não há nenhum indício de que o novo coronavírus seja artificial ou tenha sido fabricado.

Um estudo publicado em 17 de março pelo conceituado periódico médico Nature Medicine analisou o genoma do vírus SARS-CoV-2, que provoca a covid-19, e concluiu “claramente que o SARS-CoV-2 não é uma construção de laboratório ou um vírus propositadamente manipulado.”

Segundo os pesquisadores, as características genéticas do vírus, o sétimo coronavírus a infectar seres humanos, indicam que ele é fruto de seleção natural, ocorrida em um animal ou em uma pessoa.

O texto compartilhado nas redes sociais afirma ainda que o fato de o SARS-CoV-2 ter sido transmitido para países de climas diferentes é um indício da artificialidade do vírus. O Comprova não encontrou referências ou estudos que embasassem essa hipótese.

Uma análise inicial de cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), do final de março, apontou que a maioria das transmissões do novo coronavírus se deu em temperaturas mais baixas, entre 3°C e 17°C. Isso não quer dizer, no entanto, que a contaminação não ocorra em países de clima mais quente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que o vírus pode ser transmitido em todas as áreas.

Contexto

O texto com conteúdo falso atribuído ao médico japonês circula em um momento de elevada tensão nas relações entre os Estados Unidos e a China a respeito de responsabilidades sobre a pandemia de covid-19.

Agências de inteligência norte-americanas estão, atualmente, analisando a possibilidade de o vírus não ter começado a circular em um mercado de alimentos em Wuhan, mas sim em um laboratório da cidade que pesquisa diversos tipos de coronavírus.

A suspeita tem como base observações feitas por diplomatas dos Estados Unidos em 2018. De acordo com a coluna do jornalista Josh Rogin, do jornal The Washington Post, há dois anos diplomatas alertaram sobre a precariedade dos níveis de segurança de pesquisas com coronavírus de morcego realizadas no Instituto de Virologia de Wuhan.

O instituto busca ativamente novos tipos de coronavírus na natureza, especialmente em cavernas de morcegos nas províncias ao sul da China, desde que a Ásia foi afetada pela epidemia de SARS, também provocada por um coronavírus, em 2003. O objetivo é que a pesquisa ajude o país a se antecipar a novas infecções.

À revista Scientific American, a diretora do Instituto de Virologia de Wuhan, Shi Zhengli, negou que o novo coronavírus tenha relação com os estudos dirigidos por ela. Segundo a pesquisadora, seu laboratório verificou as sequências genéticas dos vírus circulando na China e nenhuma delas coincidia com a dos vírus que sua equipe havia obtido das amostras coletadas em morcegos. “Isso realmente tirou um peso da minha mente”, disse ela. “Eu não dormi nada por dias”, afirmou.

Alcance

No Facebook, o Comprova encontrou 76 posts com o texto falso sobre Tasuku Honjo, que somaram 5.091 interações (curtidas, comentários e likes) desde o dia 26 de abril. A medição foi feita por meio da ferramenta CrowdTangle. A reportagem falou com a autora da publicação mais antiga em português. Ela disse ter recebido o texto de um amigo e, depois de ter sido avisada que o conteúdo era falso, apagou o post.

O tweet em português que mais circulou e foi encontrado pelo Comprova teve mais de 700 interações entre sua publicação, em 27 de abril, e a publicação desta verificação.

As agências AFP e Aos Fatos, o jornal Observador (Portugal) e o site Factly (Índia) também checaram este conteúdo.

Saúde

Investigado por: 2020-04-27

Vídeo que alerta sobre a importação de máscaras contaminadas é montagem

  • Falso
Falso
A OMS não fez alertas sobre máscaras importadas da China e da Índia como afirma um vídeo publicado no YouTube. O vídeo verificado pelo Comprova sobrepõe um áudio à gravação original e usa logotipos de GloboNews e G1, mas ele não foi veiculado nesses dois canais

É falso o vídeo que diz que a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou sobre máscaras importadas da China e da Índia que estariam infectadas com o novo coronavírus. Na publicação, uma narração em off sobrepõe o áudio original do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, com informações completamente diferentes do conteúdo original. A edição usa os logotipos do canal GloboNews e do site G1, mas o vídeo não foi exibido por nenhum dos dois veículos.

Ao Comprova, a OMS informou, em nota, que não emitiu nenhum alerta sobre importação de máscaras. O Escritório da OMS para as Américas também desmentiu a necessidade de esterilização do equipamento de proteção. “Se a máscara cirúrgica descartável estiver lacrada antes do uso, não é necessário fazer nada”, comunicou. “Se a máscara tiver sido contaminada, não se deve tentar esterilizá-la e sim descartá-la imediatamente.”

O Ministério da Saúde, por sua vez, afirmou que não há nenhuma evidência de que produtos enviados da China estejam contaminados: “Os vírus geralmente não sobrevivem muito tempo fora do corpo de outros seres vivos, e o tempo de tráfego destes produtos costuma ser de muitos dias”.

A pasta explicou ainda que importou máscaras apenas da China, assim como fizeram “diversos outros países”.

Por que checamos este vídeo?

A verificação deste vídeo foi pedida por leitores do Comprova. Nossa decisão por verificar considerou três motivos.

O primeiro deles, o tema. Postagens que denunciam a importação de máscaras contaminadas têm sido comuns durante a pandemia do novo coronavírus. O Projeto Comprova já verificou conteúdo semelhante recentemente.

Outro motivo foi a viralização. O Comprova só verifica conteúdos suspeitos sobre a covid-19 que tenham grande viralização. O vídeo verificado foi postado no dia 23 de abril no canal Xadrez Brasil12 no YouTube e, até o dia 27, foi assistido mais de 500 mil vezes.

Finalmente, chamou a atenção do Comprova o fato de o vídeo estar publicado no YouTube como “não listado”. Quando um vídeo é caracterizado desse modo, ele não aparece nos mecanismos de busca e só pode ser assistido por quem tem o link para a publicação. Mesmo com essa restrição, o vídeo obteve grande alcance.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

Buscamos os poucos trechos com o áudio original que aparecem na publicação para localizar o vídeo original, sem adulteração no áudio. Depois fizemos a busca por esse vídeo no G1 e no site da GloboNews para conferir se as imagens foram exibidas e se houve edição.

Em seguida, procuramos publicações com as imagens das máscaras sendo produzidas em condições precárias para identificar o país em que elas foram feitas.

Também entramos em contato com o Ministério da Saúde para saber de que países os equipamentos de proteção individual (EPIs) como máscaras estão sendo importados. Por fim, consultamos a OMS e a OPAS para esclarecer se há algum tipo de restrição às máscaras produzidas na China e na Índia.

Qual a declaração original do diretor-geral da OMS?

As imagens foram tiradas de uma entrevista coletiva que os dirigentes da OMS concederam no dia 20 de abril quando, aos 54 minutos e 54 segundos, Tedros Adhanon critica o uso político da pandemia do novo coronavírus. “Nós avisamos que esse vírus ia surpreender até mesmo os países desenvolvidos”, lembrou.

O trecho exato usado na edição foi publicado no mesmo dia 20 pelo canal no YouTube da agência de notícias Bloomberg, com o discurso verdadeiro. Conseguimos identificá-lo porque a edição deixou duas frases no inglês original. A primeira, “vamos evitar essa tragédia”, e a última: “enough is enough”, ou seja, “já chega”. Todo o resto da fala foi coberto por uma narração em off em que uma voz masculina diz que a OMS “alerta que as máscaras vindas da Índia e da China estão apresentando um alto grau de contaminação por coronavírus”.

Para reforçar, a edição alterna a imagem de Adhanon com um vídeo de máscaras sendo produzidas em condições precárias. O registro mais antigo dessas imagens no YouTube é do dia 25 de março, em uma publicação que descreve uma oficina clandestina na Índia. Outros usuários também apontam a Índia com o local onde as imagens teriam sido captadas. De acordo com uma reportagem veiculada pelo telejornal India Today no dia 26 de março, essas oficinas piratas são um problema para as autoridades indianas.

O Comprova não encontrou registros de que o Ministério da Saúde tenha importado máscaras indianas. Em nota, a pasta informou apenas que comprou equipamentos de proteção chineses.

Apesar de usar vinhetas e logomarca do canal GloboNews e do site G1, nenhum dos dois veículos exibiu as imagens editadas da forma como elas aparecem no vídeo que viralizou. Uma reportagem exibida no dia 20 de abril no Jornal Nacional, da Rede Globo, usou trechos da entrevista de Adhanon. Esta sim foi a matéria reproduzida tanto pelo G1 quanto pela GloboNews.

OMS não divulgou alerta sobre máscaras

Por e-mail, a assessoria de imprensa da OMS informou que a organização não divulgou nenhum alerta sobre compra de máscaras. Atualmente, a entidade recomenda expressamente o uso de máscaras médicas por profissionais da saúde, pessoas cuidando de pacientes com a covid-19 e todos aqueles que apresentarem sintomas da doença, como tosse e dor de garganta.

O Ministério da Saúde, por sua vez, indica a utilização de máscaras de pano por toda a população. Para garantir a proteção, é necessário que a máscara seja de uso individual, tenha ao menos duas camadas de pano e cubra o nariz e a boca completamente.

Contexto

Desde que o uso de máscaras virou uma orientação do Ministério da Saúde, a desinformação sobre a importação dos equipamentos de proteção tem se espalhados pelas redes sociais. A acusação mais comum é a de contaminação pelo novo coronavírus. Alguns usuários chegam a afirmar que a China produziu o vírus em laboratório justamente para vender os EPIs. O Projeto Comprova já verificou denúncia semelhante no dia 14 de abril.

Outros veículos já verificaram denúncias de máscaras contaminadas, como o Boatos.org, a agência Aos Fatos e o Fato ou Fake, do G1.

Alcance

O canal Xadrez Brasil12 tem 1,72 mil inscritos no YouTube, mas há apenas um vídeo público, com 962 visualizações. Mesmo sem ter ligação com a Rede Globo, o canal usa o logotipo da emissora. O conteúdo que viralizou está cadastrado como “não listado” e não aparece nos mecanismos de busca. Entre 23 e 27 de abril ele foi visualizado mais de 500 mil vezes.

Saúde

Investigado por: 2020-04-24

É falso que enfermeira tenha sido demitida após filmar leitos vazios em hospital na Bahia

  • Falso
Falso
Vídeo foi gravado em março e imagens mostram a ampliação de leitos na unidade para o tratamento de covid-19 do Instituto Couto Maia (ICOM), hospital de referência para o tratamento da doença na Bahia. A Secretaria da Saúde nega a demissão da funcionária

É falsa a informação divulgada em redes sociais de que uma enfermeira do Instituto Couto Maia (ICOM), hospital de referência para o tratamento de covid-19 na Bahia, tenha sido demitida esta semana por filmar a UTI com apenas dois pacientes infectados pelo novo coronavírus. Os posts usam um vídeo feito por uma funcionária do hospital mostrando os leitos vazios, alegando que as imagens são do dia 21 de abril de 2020. Mas a gravação foi feita em março e circula desde então.

A legenda do vídeo afirma que a enfermeira se chama Sandra M. Guerra e que foi demitida depois da divulgação das imagens. A Secretaria da Saúde da Bahia confirmou que as imagens foram gravadas por uma enfermeira do ICOM em março, mas nega que ela tenha sido desligada do emprego.

A diretora do ICOM, Ceuci Nunes, também desmentiu a publicação pelo Facebook. Segundo ela, as imagens foram registradas em 21 de março e mostram a ampliação de leitos na unidade para o tratamento de covid-19. Ela também afirmou que o nome informado na legenda não é o da enfermeira que integra o quadro de funcionários da instituição.

Por que checamos isto?

Imagens enganosas de hospitais vazios têm sido comuns em postagens nas redes sociais que tentam minimizar os efeitos da pandemia de covid-19 no Brasil. O Comprova já verificou conteúdos similares há alguns dias. No caso desse vídeo, cuja verificação foi sugerida por leitores, ainda havia um outro elemento comum em conteúdos verificados recentemente, a figura de um governador. Governadores que se opõem a políticas de isolamento mais flexíveis têm sido alvo de grupos alinhados ao governo federal.

O vídeo verificado pelo Comprova circula desde o começo desta semana. Ele seria uma “prova” de que a pandemia do novo coronavírus está sendo superdimensionada pela imprensa e pelos governos estaduais. As imagens captadas pela enfermeira compõem uma montagem que inclui também a foto do governador da Bahia, Rui Costa (PT), em vídeo compartilhado pelo canal Jornavideo News, no YouTube. O canal costuma publicar conteúdo crítico ao trabalho da imprensa e às medidas de isolamento adotadas por governos e prefeituras para o combate à pandemia do novo coronavírus.

Falso para o Comprova é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

Usamos a ferramenta de checagem de vídeo InVID para encontrar mais informações sobre as imagens divulgadas, tentando localizar a autoria da gravação original. Nos comentários da publicação do Jornavideo News, usuários acusam o canal de disseminar desinformação, com links que mostram que as imagens circulam desde março.

Entramos em contato com a assessoria de imprensa da Secretaria da Saúde da Bahia, responsável pela administração do Instituto Couto Maia, para esclarecer se houve demissão. Também consultamos o posicionamento da diretora do ICOM, Ceuci Nunes, pelo Facebook e conversamos com Washington Vinagre, autor da postagem mais antiga do vídeo que conseguimos localizar no Facebook, em 23 de março.

O Comprova ainda está tentando falar com a autora do vídeo.

Imagens foram feitas em março e a profissional não foi demitida

Por telefone e e-mail, a Secretaria da Saúde da Bahia confirmou que as imagens foram feitas no ICOM, em Salvador, em março de 2020. O hospital é uma referência para o tratamento de doenças infecto-contagiosas no Estado e, na época em que as imagens foram feitas, passava por um processo de adaptação para receber somentes casos de covid-19. Por isso, poucos leitos estavam ocupados. O ICOM tem 50 vagas na UTI. Segundo a secretaria, entre 60 e 70% estavam ocupadas na data da apuração, dia 23 de abril.

A secretaria confirmou que a mulher que aparece nas imagens é funcionária do hospital e negou que ela tenha sido demitida por causa do vídeo. Em um post no Facebook publicado no dia 22 de abril, a diretora do ICOM, Ceusi Nunes, disse que a enfermeira não se chama Sandra M. Guerra e negou a demissão.

A diretora do ICOM também confirmou que as imagens foram gravadas no hospital em 21 de março, durante ampliação da UTI: “Hoje os leitos estão todos cheios. Fake absurda”, afirmou. E pede aos seguidores: “Se recebeu desminta por favor (sic)”.

Postagens no Youtube e no Facebook em 23 de março confirmam que o vídeo já circula há pelo menos um mês. O autor de uma delas, Washington Vinagre, diz que recebeu as imagens de amigos e não conhece a enfermeira. Ele apagou o post depois de conversar com a equipe do Comprova.

Contexto

A Bahia já registrou 1.845 casos confirmados de covid-19 e 62 mortes. De acordo com balanço divulgado no dia 23 de abril, 231 pessoas estão internadas, 67 delas em UTIs. No dia em que o vídeo foi feito, 21 de março, o Estado tinha 41 casos de covid-19 e nenhuma morte. Naquele momento, a orientação para os doentes era permanecer em isolamento domiciliar.

Os governadores são o principal alvo do presidente Jair Bolsonaro, que critica o isolamento social determinado pelos Estados. Rui Costa, do PT, é presidente do Consórcio Nordeste, que reúne nove chefes governadores da região, e faz críticas à postura de Bolsonaro no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus. “Ele parece que anda com a garrafa de gasolina na mão e o isqueiro na outra, tocando fogo onde ele passa”, reclamou em entrevista.

O atrito mais recente foi no último domingo. Rui Costa foi um dos governadores que criticou a participação do presidente em manifestações contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

Alcance

O vídeo com a legenda falsa circulou amplamente pelas principais redes sociais. Até o dia 23 de abril, os posts que mais se destacaram haviam tido 2,4 mil visualizações no Instagram e mais de 43 mil no Twitter. O vídeo com a foto do governador Rui Costa, publicado no canal Jornavideo News, foi assistido 10 mil vezes.

O post de Washington Vinagre, feito em março, chegou a ter 3 mil visualizações. Mas, depois de conversar com a equipe do Comprova, ele apagou a publicação. A postagem da diretora do ICOM, Ceusi Nunes, esclarecendo a autoria do vídeo foi compartilhada 174 vezes.

O site Boatos.org também verificou o conteúdo desse vídeo.

Saúde

Investigado por: 2020-04-24

Sem apresentar evidências, texto sugere que governadores e prefeitos usam a pandemia para driblar a lei

  • Enganoso
Enganoso
Publicação feita em blog e compartilhada nas redes sociais mistura dados verídicos e enganosos para sugerir uma atuação não fiscalizada do poder público e desvios de dinheiro. Sem apresentar evidências, texto diz que governadores e prefeitos estariam driblando a lei em contratos firmados sem licitação

É enganoso o texto publicado em 18 de abril por um blog e republicado pelo site Hoje Notícias, que acusa governadores e prefeitos de se beneficiarem de ações governamentais relacionadas à covid-19 – doença causada pelo novo coronavírus – para cometer irregularidades.

A publicação afirma que os políticos se aproveitaram da pandemia para dar um “drible” na lei em contratos firmados sem licitação. Segundo o autor, Junior Takamoto, o cenário de pandemia se tornou “uma oportunidade de ouro para meter os dois pés na jaca, dando o drible da vaca nas leis de controle fiscal”.

O texto não apresenta nenhuma evidência de roubo ou desvio de verba pública na construção de hospitais de campanha e em outras ações emergenciais feitas pelo governo.

Ao falar sobre ações promovidas pelos governadores do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), e do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e pelo prefeito de Fortaleza (Ceará), Roberto Cláudio (PDT), a publicação mistura dados verídicos e enganosos para sugerir uma atuação não fiscalizada do poder público e desvios de dinheiro.

Por que checamos isto?

O Comprova monitora conteúdos duvidosos compartilhados nas redes sociais sobre coronavírus e políticas públicas de combate à covid-19 e que tenham muita viralização. Muitos desses conteúdos afloram nas redes a partir de notícias e fatos reais.

No último domingo, 19 de abril, 20 governadores divulgaram uma carta em repúdio ao discurso do presidente Jair Bolsonaro em um ato de apoio a uma intervenção militar. Desde então, ganhou tração nas redes um texto publicado no dia 18 de abril no blog Junior Takamoto e republicado no dia 19 pelo site Hoje Notícias. A publicação acusa prefeitos e governadores de se aproveitarem da pandemia para cometer irregularidades. Este segundo post alcançou mais de 720 mil interações no Facebook e esse alcance fez com que o Comprova decidisse pela investigação da veracidade do conteúdo publicado.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Para verificar o conteúdo publicado pelo site Hoje Notícias, o Comprova utilizou dados públicos sobre os contratos realizados pelo Rio de Janeiro, disponíveis no Portal de Compras do Estado. Checou informações e notas oficiais disponibilizadas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro e pelo Tribunal de Contas do Estado.

O projeto entrou em contato com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal e acessou publicações do Diário Oficial do DF. A equipe tentou falar pelo Facebook com Júnior Takamoto, autor da postagem, mas até a publicação desta verificação não recebeu resposta. Também foram consultadas reportagens sobre o temas citados por Takamoto.

Você pode refazer o caminho da verificação do Comprova usando os links para consultar as fontes originais.

As ações dos governos em Brasília, Rio de Janeiro e Fortaleza

Cada parte do texto “Pandemia vira roubalheira de governadores e prefeitos”, do site Hoje Notícias, foi verificada. Para ficar mais fácil a compreensão de como foi feita a investigação, o Comprova dividiu em 3 blocos: Brasília, Rio de Janeiro e Fortaleza.

Também há abaixo uma breve contextualização das divergências entre os governadores e o presidente Jair Bolsonaro sobre o isolamento social para explicar referências que o texto faz a uma suposta negligência do STF (Supremo Tribunal Federal) com o Executivo.

Brasília

O texto afirma que o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), fez 50 leitos no autódromo de Brasília para abrigar “sem tetos” em uma obra que teria custado R$ 2,4 milhões – o equivalente a R$ 48 mil reais por leito.

Esta informação é enganosa. De acordo com reportagem da TV Globo, que foi ao ar em 8 de abril, um termo de cooperação emergencial realmente foi firmado entre o Governo do Distrito Federal e o instituto Tocar, ONG que vai gerir o espaço. O valor do contrato foi R$ 2.394.837,70 conforme publicado no DOU de 4 de abril.

Mas, ao contrário do que afirma o texto, as tendas têm capacidade para receber até 200 pessoas e contam com 50 dormitórios, lavanderia, refeitório e pelo menos 30 banheiros – e não apenas 50 leitos. O objetivo é abrigar pessoas em situação de rua durante a pandemia.

A publicação do site Hoje Notícias também diz que o governo construiu um albergue em Planaltina (GO) – a 35 km do autódromo – que está “pronto para receber milhares de sem teto, mas que o governo quer construir um novo”.

O prédio a que o texto se refere realmente foi planejado pelo governo e receberia 500 moradores em situação de rua. Apesar de ter começado a ser construído em 2013 e ter ficado pronto em 2014, o albergue nunca foi entregue a população e está abandonado. De acordo com reportagem da TV Globo que foi ao ar em 21 de janeiro de 2019, o prédio virou alvo de vandalismo e está depredado.

A pandemia pressiona o sistema de saúde público e privado. Uma das maiores preocupações dos especialistas da área é a quantidade de leitos nos hospitais para os doentes. O texto do Hoje Notícias denuncia que em Águas Claras, região administrativa do Distrito Federal, existem dois hospitais com mais de 300 leitos prontos, mas que não podem funcionar. Por isso o governo teria feito um hospital de campanha no estádio Mané Garrincha. A publicação não fala no entanto o nome dos hospitais ou se eles são públicos ou privados.

Ao fazer uma busca no Google, o Comprova encontrou uma publicação do jornal Metrópoles, de 23 de março, que anuncia a inauguração de um hospital em Águas Claras. A unidade conta com 267 leitos disponíveis para internação. Além desse, não foi encontrado nenhum hospital com 300 leitos que estivesse fechado.

O Comprova entrou em contato com a Secretaria de Saúde do DF para saber se existe alguma obra de hospital público para ser entregue. De acordo com o órgão, Águas Claras não tem nenhum hospital público. “A população desta região administrativa deve buscar atendimento no Hospital Regional de Taguatinga [cidade ao lado] quando necessário”, diz o e-mail.

O governo do DF de fato construiu, sem licitação, um hospital de campanha no Mané Garrincha. Assim como afirma o texto de Takamoto, foram construídos 200 leitos por meio de um contrato no valor de R$ 5.092.313,27. A autorização foi publicada no Diário Oficial do Distrito Federal em 9 de abril. A empresa responsável pela obra foi a Contarpp Engenharia.

Rio de Janeiro

O texto de Takamoto diz que governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), já comprometeu, sem licitação, mais de R$ 1,9 bilhões com despesas relacionadas à pandemia do coronavírus.

Os contratos realizados pelo Estado para as ações de combate à pandemia de covid-19 foram realmente realizados sem licitação sob as determinações da Lei Federal 13.979, de 6 de fevereiro de 2020.O texto é de iniciativa do governo federal, e foi sancionado antes da confirmação do primeiro caso da covid-19 no Brasil. Desde então, todos os entes federativos – municípios, estados e União – estão autorizados a adquirir bens ou serviços – inclusive de engenharia – sem a necessidade de realizar todo o processo de licitação normal, previsto na Lei n. 8.666/93, desde que sejam necessários para o combate ao coronavírus. A lei de fevereiro permite esse tipo de contratação enquanto durar a emergência sanitária internacional.

Porém, diferentemente do que o texto checado diz, os 70 contratos relacionados no Portal de Compras no governo do Rio de Janeiro somam R$1,5 bilhão, e não R$1,9 bilhão. Para chegar a esse montante, o Comprova somou os valores de todos os contratos em 23 de abril. Segundo o Portal de Compras, a maior parte dos acordos ainda não foi executada.

Uma nota técnica publicada pelo Tribunal de Contas do RJ orienta o Estado e os municípios fluminenses sobre a realização dos procedimentos com base na Lei publicada para o período da pandemia do coronavírus. Segundo o texto, mesmo os contratos firmados sem licitação devem obedecer a uma série de critérios objetivos e ser devidamente fiscalizados, geridos e publicizados.

O Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro criou uma força tarefa de atuação integrada para a fiscalização das ações estaduais e municipais de enfrentamento à covid-19. Entre os objetivos da iniciativa, está o acompanhamento preventivo da atuação do poder executivo, inclusive no exame de contratos, licitações e outras formas de convênio realizadas para o combate ao novo coronavírus. A força-tarefa vai atuar em cooperação com o Tribunal de Contas do Estado, na avaliação das ações realizadas pelo governo estadual e pelas prefeituras.

Desde que foi criada a força tarefa, o MP-RJ já instituiu um inquérito civil para analisar o contrato de compra de respiradores realizado pelo governo do estado.

Ainda sobre o Rio de Janeiro, o texto diz que existe uma forte pressão dos deputados bolsonaristas para que seja instalada uma “Comissão Parlamentar de Inquérito do Coronavírus” na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio). O objetivo seria investigar as contratações emergenciais, sem licitação, feitas pelo governo Witzel.

A criação de uma CPI para avaliar os gastos emergenciais durante a pandemia chegou a ser cogitada e as assinaturas necessárias foram angariadas entre os deputados, mas a CPI acabou arquivada na ALERJ em 21 de abril. Segundo uma reportagem d’O Globo, parte dos apoiadores da investigação recuou após a nomeação, pelo governador, de um novo presidente para o Detran, ligado ao MDB. A justificativa oficial da Mesa-Diretora da Casa, porém, foi a existência da investigação, já em curso, do Ministério Público Estadual e do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro.

Fortaleza

O texto verificado fala ainda sobre a contratação da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina para gerir o Hospital de Campanha construído no Estádio Presidente Vargas, em Fortaleza (Ceará), pelo valor de R$ 96 milhões. Isso de fato ocorreu.

O contrato chegou a ser suspenso, na última semana, por uma decisão judicial, mas a liminar – decisão provisória – concedida pela primeira instância foi derrubada no Tribunal de Justiça do Ceará.

O Hospital de Campanha tem, atualmente, 102 leitos em funcionamento, e outros dois blocos devem ser entregues até 26 de abril. A estrutura temporária já recebe pacientes, a maioria de média e baixa complexidade. Segundo a prefeitura da cidade, também será possível atender a casos graves.

O isolamento social e as divergências entre governadores e Bolsonaro

A pandemia de covid-19 acirrou o atrito entre os governos estadual e federal. Um dos principais motivos é o decreto de isolamento social defendido pelos governadores e rechaçado pelo presidente Jair Bolsonaro. A medida visa frear o contágio da doença causada pelo novo coronavírus.

Vários líderes estaduais defendem que as pessoas devem ficar em casa e os comércios permanecer fechados pelo menos durante o pico das infecções da covid-19 para que o sistema de saúde não seja sobrecarregado. Em abril, estados como o Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará já enfrentam crise nos hospitais por falta de leitos de UTIs e pronto-socorro.

Já o presidente Bolsonaro teme que o fechamento das lojas resulte em uma grande recessão econômica, afirma que a cura não pode ser pior que a doença e defende que apenas idosos e grupos de risco devem ficar de quarentena. Para Bolsonaro, caso os serviços considerados não-essenciais – como bares e restaurantes – voltem a funcionar, a economia volta a reaquecer. O presidente já afirmou que o decreto para mandar os comércios abrir está na gaveta.

O atrito entre os Executivos federal e estaduais ficou ainda mais latente quando Bolsonaro fez um pronunciamento em rede nacional na TV e no rádio, criticou o fechamento de escolas e pediu o fim do “confinamento em massa”. Também subiu o tom contra os governadores e disse que algumas poucas autoridades estaduais e municipais deveriam abandonar o conceito “de terra arrasada” e reabrir o comércio.

No dia seguinte, governadores rebateram as afirmações de Bolsonaro e, por meio de suas contas no Twitter, disseram que o posicionamento do presidente era “inaceitável e lamentável” e que Bolsonaro “atrapalha” o trabalho estadual.

O texto de Takamoto faz referência às divergências das autoridades brasileiras e cita também o “apoio” de quase todos os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) a posição dos governadores. “O colegiado [STF] virou as costas para a roubalheira que promete ser intensa durante a pandemia e retirou quase todos os poderes do governo federal na gestão da crise para transferi-los para Estados e municípios”, afirma o texto.

O STF proibiu o Planalto de suspender isolamento social nos Estados. O ministro Alexandre de Moraes atendeu parcialmente um pedido da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), segundo o qual o presidente Bolsonaro estava atuando como “agente agravador da crise“.

O isolamento é recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pelo Ministério da Saúde para evitar a propagação do vírus.

O posicionamento de Bolsonaro também causou imbróglio com o ex-ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, que foi demitido da pasta em 16 de abril depois de discordar publicamente de Bolsonaro. O próprio presidente admitiu que os dois andavam “se bicando”. O substituto é o oncologista Nelson Teich. No discurso de posse, Teich se disse alinhado com o Executivo Federal “na saúde e na economia”.

Viralização

Até 24 de abril, a publicação “Pandemia vira roubalheira de governadores e prefeitos”, do site Hoje Notícias, havia sido compartilhada mais de 20 mil vezes depois de ser postada em grupos do Facebook que apoiam o presidente Jair Bolsonaro alcançando mais de 750 mil interações. O post no blog de Takamoto obteve 49 mil interações no Facebook até 24 de abril.

Saúde

Investigado por: 2020-04-24

Pesquisa brasileira não usou doses letais para matar pacientes e atacar cloroquina

  • Enganoso
Enganoso
Publicações nas redes sociais usam dados de uma pesquisa brasileira para acusar pesquisadores de tramarem contra o uso de cloroquina no tratamento de pacientes com a covid-19. Algumas postagens acusam pesquisador de ser ligado ao PT

É falso que um grupo de pesquisadores brasileiros tenha aplicado uma dosagem letal de cloroquina em pacientes com covid-19 para causar má-impressão sobre o medicamento no tratamento contra a doença causada pelo novo coronavírus.

Tal alegação foi feita pelo empresário americano Mike Coudrey em sua página no Twitter, em 14 de abril, e reproduzida um dia depois pelo canal Papo Conservador com Gustavo Gayer, no Youtube. O vídeo tinha mais de 55 mil visualizações até a publicação deste texto e seu conteúdo foi amplamente compartilhado nas redes sociais.

O empresário norte-americano Mike Coudrey é dono da empresa de comunicação digital Yuko Social, que ele define como “um time de milennials especialistas em redes sociais prontos a te ajudar com suas necessidades”.

Postagens acusam diretamente o médico Marcus Vinícius Guimarães Lacerda, da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, de Manaus, e especialista em Saúde Pública da Fiocruz-Amazonas, de ter matado intencionalmente pacientes com covid-19 com doses altas de cloroquina.

Algumas postagens também afirmavam que o pesquisador é militante petista e traziam uma imagem dele com apoio à candidatura de Fernando Haddad à presidência em 2018. Outras ainda traziam sua foto com uma indicação de apoio ao candidato derrotado Ciro Gomes. As publicações relacionavam sua suposta militância com a tentativa de tirar o mérito da cloroquina.

Marcus Lacerda confirmou que ambas as fotos são verídicas e que refletem seu posicionamento nas urnas em 2018. Ressaltou, porém, que não é militante petista e que não votou em Haddad no primeiro turno. O Comprova confirmou que ele não é filiado a nenhum partido político.

Por que checamos isto?

Embora não existam ainda evidências conclusivas sobre a eficácia da cloroquina na cura da covid-19, alguns trabalhos indicam que o medicamento pode aliviar quadros graves da doença. A partir do momento que esses estudos começaram a vir a público – com destaque para estudo do francês Didier Raoult, que chamou a atenção de lideranças globais, como o presidente norte-americano Donald Trump – a cloroquina passou a ser usada em debates polarizados.

O microbiologista francês Didier Raoul publicou um estudo segundo o qual a cloroquina teria curado 75% dos pacientes em 6 dias. No entanto, Raoul excluiu dos resultados finais 6 dos 26 pacientes testados porque não completaram o tratamento. Desses, um morreu, 3 foram parar na UTI, outro desistiu por sentir náuseas e o último decidiu deixar o hospital. O estudo de Didier também é alvo de críticas por ter avaliado um número pequeno de pessoas.

No Brasil, a discussão se intensificou no início de março, depois que o presidente Jair Bolsonaro começou a defender o uso da cloroquina para o tratamento da doença. Porém, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, apresentou resistência na recomendação do medicamento uma vez que a OMS (Organização Mundial da Saúde) informa que ainda não há cura ou remédio para a covid-19.

O mal estar gerado pela divergência entre Bolsonaro e Mandetta culminou na demissão do ministro e serviu para aflorar debates na internet sobre a cloroquina. Esses debates ganharam mais tração nas redes sociais quando a pesquisa brasileira foi divulgada pela imprensa e, sobretudo, quando começaram a circular imagens de um dos pesquisadores relacionando-o à candidatura de Fernando Haddad, adversário de Jair Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial de 2018.

O Comprova entendeu que pela gravidade das acusações e pelo alcance das postagens deveria investigar esses conteúdos.

Enganoso para o Comprova é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado.

Como verificamos?

O Comprova recebeu pelo site a sugestão de verificação sobre o vídeo do canal Papo Conservador publicado no YouTube. O vídeo reproduz alguns comentários de Twitter do perfil @pauloeneas que, por sua vez, citam o norte-americano Mike Coudrey como fonte.

Ao procurar o nome de Coudrey na rede social, identificamos o seu perfil de usuário. Ele tomou conhecimento da pesquisa de Manaus por meio de uma reportagem do jornal The New York Times que comentava a suspensão da pesquisa. Coudrey, então, teceu críticas ao estudo que, por sua vez, foram reproduzidas por perfis brasileiros nas redes sociais.

Fazendo uma busca por essas publicações, identificamos o nome da pesquisa e também o seu pesquisador principal, Marcus Vinícius Guimarães Lacerda. Ele era alvo de muitos ataques das publicações.

Ao buscar o título do artigo foi possível conferir que o estudo estava de fato publicado na plataforma MedRxiv. Com o estudo em mãos, pudemos analisar o seu conteúdo e a forma como a pesquisa foi conduzida. Procuramos a presença de aspectos formais de legitimação do estudo, como número de aprovação pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

No estudo encontramos os contatos de Marcus Lacerda e mandamos mensagem por e-mail. Fizemos contato em duas ocasiões e tivemos resposta por e-mail. Marcus Lacerda explicou algumas decisões que sua equipe fez para conduzir o estudo e também negou militância política. Checamos suas informações na plataforma cruza.dados.org.

Por fim, entrevistamos dois médicos infectologistas que comentaram os aspectos técnicos da pesquisa. Também procuramos as notas técnicas do Ministério da Saúde sobre a aplicação de cloroquina no tratamento da covid-19.

Você pode refazer o caminho da verificação acessando os links para sites e documentos.

Que resultados a pesquisa pretendia encontrar?

A pesquisa “Cloroquina em Duas Dosagens Diferentes como Terapia Adjuvante de Hospitalizados com Síndrome Respiratória Grave no Contexto de Coronavírus” foi aprovada no dia 20 de março pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e começou no dia 23. O órgão é ligado ao governo federal e responsável pela regulamentação ética de protocolos de pesquisas envolvendo seres humanos no país.

A pesquisa foi estruturada como um estudo de fase II. Isso quer dizer que o foco são diferentes dosagens e a segurança dos pacientes. De 81 pacientes infectados, 11 morreram enquanto eram monitorados pela equipe de Lacerda. Sete deles foram submetidos às dosagens mais altas de cloroquina.

Além de a metodologia do estudo ter passado pelo crivo do Conep, a Fundação de Medicina Tropical conduziu as pesquisas. Ela é um centro de referência mundial para o tratamento de enfermidades tropicais, explica Jaime Rocha, médico responsável pela Unimed Laboratório, diretor de Prevenção e Promoção à Saúde da Unimed Curitiba e vice-presidente da Sociedade Paranaense de Infectologia.

“Eles sabem usar cloroquina em função da malária, doença comum na região amazônica. Por essa experiência, ninguém melhor do que eles para tentar responder se a cloroquina é eficiente no caso da covid-19”, disse. No Brasil, o medicamento tem autorização da Anvisa para ser usado no tratamento da malária e de lúpus.

Inicialmente, o estudo previa a inclusão de 440 pacientes hospitalizados já em estado grave, no Hospital Delphina Aziz, referência para covid-19 no estado do Amazonas. O Governo do Estado do Amazonas, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) são os patrocinadores oficiais do estudo.

Rocha explica ainda que para colocar em prática um estudo como esse, o comitê de ética avalia se a pesquisa traz uma resposta cientificamente válida para a sociedade e se deve prosseguir. “Essa decisão é tomada em conjunto por cientistas familiarizados com o tema e também por pessoas que não são especialistas, para ‘verem com outros olhos’, e enxergar se há questões religiosas, raciais ou outro tipo de interesse escuso”, disse.

Como foi realizado o estudo

O levantamento reuniu 70 profissionais, entre pesquisadores, estudantes de pós-graduação e colaboradores de instituições com tradição em pesquisa, como Fiocruz, Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, Universidade do Estado do Amazonas e Universidade de São Paulo.

No Twitter, o empresário Mike Coudrey ainda havia acusado a pesquisa de usar o difosfato de cloroquina, medicamento supostamente menos seguro que a hidroxicloroquina. Mas Lacerda rebate esse argumento: “No curto prazo, não há qualquer diferença de toxicidade entre as duas apresentações da medicação (hidroxicloroquina e difosfato de cloroquina). A toxicidade da forma difosfato de cloroquina só é maior por períodos prolongados de uso, como em lúpus e artrite reumatoide.”

O Ministério da Saúde considera seguro o uso tanto do difosfato de cloroquina quanto de hidroxicloroquina, desde que sejam respeitadas regras restritas e uma janela terapêutica.

Fonte: Comissão Nacional de Ética em Pesquisa

1º grupo de pacientes – 40 pessoas

Receberam 450 mg diárias ao longo de cinco dias, sendo que no primeiro dia a medicação foi administrada duas vezes, totalizando 2,7 g. Esta é a dose que o Ministério da Saúde, junto à Secretaria de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCETIE), indicou para o tratamento de pacientes com quadro clínico grave. A cloroquina deve ser aplicada como terapia paralela ao tratamento e não deve ter outras terapias preteridas a seu favor.

2º grupo de pacientes – 41 pessoas

Foram medicados com a maior dose de cloroquina. Eles receberam 600 mg do medicamento duas vezes ao dia durante dez dias (num total de 12g ao longo de todo o tratamento).

Sobre a escolha da maior dosagem, os pesquisadores informaram os seguintes motivos:

  1. Doses mais altas têm maior atividade antiviral in vitro, ou seja, em laboratório, realmente mais altas do que a dose usada para malária, por exemplo;
  2. É a mesma dose, por peso dos pacientes, usada na China, e que consta atualmente no Consenso Chinês de Tratamento de covid-19;
  3. Uso em pacientes com choque, ou seja, com baixa perfusão intestinal, e que, portanto, absorvem menos a medicação, que só tem apresentação em comprimidos;
  4. Em uma doença que se revelou, no mundo ocidental, muito letal, o risco de benefício da eficácia x de efeitos colaterais, de diferentes doses, precisava ser avaliado e conhecido dentro de parâmetros científicos;
  5. Boa segurança dessa mesma dose alta em pacientes com câncer, em vários estudos publicados, que usaram por períodos ainda mais longos, de 28 dias.

O Consenso Chinês de Tratamento a que se refere Lacerda foi publicado em estudo por especialistas chineses do Departamento de Ciência e Tecnologia e da Comissão de Saúde da Província de Guangdong. Eles recomendaram a aplicação de 500 mg de cloroquina duas vezes ao dia, por 10 dias, em casos leves, moderados e graves de covid-19.

A equipe liderada por Lacerda aplicou 200 mg a mais por dia do que o indicado pelo Consenso Chinês de Tratamento. Ao Comprova, Lacerda justificou: “A nossa [dosagem] foi ainda maior, porque tínhamos pacientes mais obesos e sabemos que a droga só mata o vírus em doses muito altas.”

Os dados da mortalidade no grupo da maior dosagem foram analisados no 6º dia. Após identificar um risco maior para a saúde dos participantes, esse braço da pesquisa foi cancelado. Todos os participantes passaram a utilizar a menor dosagem. “A primeira conclusão do estudo, portanto, foi que pacientes graves com covid-19 não deveriam mais usar a dose recomendada no Consenso Chinês de Tratamento, fato que até o momento não se tinha qualquer evidência, uma vez que nenhum estudo realizou adequadamente a avaliação de segurança”, esclareceu Lacerda.

“A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) foi comunicada oficialmente do acontecido [da interrupção da aplicação da maior dosagem por conta da toxicidade] no dia 11 de abril, por meio da Plataforma Brasil, e os dados, para maior transparência e visibilidade internacional, foram divulgados no site MedRxiv.

A intenção foi advertir demais pesquisadores do mundo sobre a toxicidade de uma dose alta, que apesar de teoricamente parecer mais eficaz, estava causando mais danos do que benefícios, disse Lacerda.

Sobre o site estrangeiro medRxiv, o médico Jaime Rocha, responsável pela Unimed Laboratório, lembra que é uma plataforma dedicada a divulgar trabalhos incompletos ou que ainda aguardam revisões. “A plataforma destaca em sua página inicial, inclusive, que não recomenda o uso dos estudos ali, pois são análises preliminares”, explica o infectologista.

Vale ressaltar que, para serem publicados nessa plataforma, todos os manuscritos passam por um processo de triagem de conteúdo ofensivo e/ou não científico e de material que possa representar um risco à saúde. Os textos também são verificados quanto ao plágio.

O estudo de Lacerda não permite concluir se a cloroquina em doses baixas funciona ou não para o tratamento da covid-19, pois não tem o grupo de controle, isto é, o grupo que não recebeu o medicamento e serviria como parâmetro para comparar os resultados no grupo submetido à droga.

Eficácia da cloroquina

Normalmente usada no tratamento de doenças como malária, artrite e lúpus, a cloroquina passou a ganhar evidência após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dizer em 19 de março que o medicamento era um “agente de mudança de jogo”.

Dois dias depois, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, anunciou o aumento da produção da droga no país. Esse posicionamento acabou virando um dos pontos de desentendimento entre Bolsonaro e o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, não recomendava o uso indiscriminado do medicamento.

O Ministério da Saúde passou a oferecer, em 27 de março, cloroquina a médicos da rede pública que queiram usar no tratamento de casos graves de covid-19 como terapia auxiliar.

No documento, o ministério destaca que não existem terapias farmacológicas e imunobiológicas específicas para a covid-19, mas considera publicações científicas que apontam possível capacidade de inibição da reprodução viral do novo coronavírus. A pasta ainda lembra que há dezenas de outros estudos clínicos nacionais e internacionais em andamento, avaliando a eficácia e a segurança dos medicamentos. “Portanto, essa medida poderá ser modificada a qualquer momento, a depender de novas evidências científicas”, afirma a Nota Informativa.

Enquanto isso, a cloroquina segue sendo objeto de estudos pelo mundo, mas nenhum deles provou até agora a sua eficácia no tratamento da covid-19.

Viralização

Desde a sua publicação, em 15 de abril, até o dia 23, o vídeo de Gustavo Gayer no canal Papo Conservador já teve 55.951visualizações. As acusações contra o médico Marcus Lacerda tiveram maior divulgação, sendo que uma delas, compartilhada pelo site Gazeta Brasil, teve 760,9 mil visualizações em menos de 24 horas.