O Projeto Comprova reúne jornalistas de 33 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre políticas públicas, processo eleitoral e a pandemia de covid-19 compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. Em julho de 2021, os participantes decidiram também iniciar a verificação da desinformação envolvendo possíveis candidatos à presidência da República. Desde então, o projeto tem monitorado nomes que vem sendo incluídos em pesquisas dos principais institutos. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
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Pandemia

Investigado por:2020-08-19

Enfermeiro distorce dados para dizer que ivermectina evita mortes pela covid-19

  • Falso
Falso
Não há nenhuma pesquisa que tenha comprovado o sucesso da ivermectina para salvar vidas de pacientes com covid-19. Tampouco Etiópia e Austrália distribuíram o medicamento para a população, como mencionado em vídeo investigado pelo Comprova
  • Conteúdo verificado: Vídeo postado no Facebok em que enfermeiro afirma que a ivermectina está evitando mortes por covid-19 na Etiópia e na Austrália. Na legenda, ele escreve que a droga “salva sua vida, sim”.

São falsas as afirmações de um enfermeiro em um vídeo no Facebook sobre o uso da ivermectina no combate à covid-19. Ele diz que a droga salva vidas, que há estudos que provam sua eficácia e que a Etiópia e a Austrália têm poucos casos do novo coronavírus porque fazem o uso profilático do remédio.

Não há nenhuma pesquisa que tenha comprovado o sucesso da ivermectina para salvar vidas de pacientes com covid-19 – o estudo que o enfermeiro cita no vídeo ainda nem chegou à fase de teste em humanos, conforme a Universidade Monash, responsável pelo ensaio, informou ao Comprova. Tampouco Etiópia e Austrália distribuíram ivermectina para a população, como mencionado na gravação. Os governos dos dois países não indicam a droga no combate à doença e decretaram diversas medidas contra o vírus, como isolamento social e restrição de viagens.

Em contato com o Comprova, o enfermeiro Anthony Ferrari Penza, autor do vídeo, disse que “as evidências sobre a ivermectina estão nos estudos in vitro que deram resultados e também na pesquisa observacional em pacientes que pelo uso do medicamento contraíram a covid-19 e foram assintomáticos ou tiveram sintomas leves”. A equipe pediu que ele enviasse as pesquisas que concluem que a ivermectina é eficaz contra a covid-19, mas ele enviou apenas um documento, que não prova a eficácia da droga. O vídeo foi retirado da plataforma.

Como verificamos?

O primeiro passo foi buscar a verificação que o Comprova havia publicado sobre Penza anteriormente, para ver o que ele já havia falado sobre o novo novo coronavírus. A equipe também pesquisou em outras investigações e no Google informações sobre pesquisas feitas com a ivermectina e sobre o uso da droga nos países citados por ele, Etiópia e Austrália. As afirmações do enfermeiro sobre um estudo feito na Austrália levaram à conclusão de levaram à conclusão de que ele se refere à se refere à pesquisa da Universidade Monash. A partir daí, o Comprova procurou a instituição, por e-mail, para saber em que fase está o estudo e se ele chegou a chegou a alguma conclusão.

Também foram usados como fonte os sites dos governos dos países mencionados que reúnem informações sobre a covid-19 e da Universidade Johns Hopkins, referência em estatísticas mundiais da pandemia.

Por último, como a equipe já possuía o telefone de Penza, a entrevista foi feita por WhatsApp.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 19 de agosto de 2020.

Verificação

Etiópia e Austrália

No vídeo, Penza afirma que o governo etíope distribui ivermectina aos cidadãos desde 1997 e que “o resultado disso é que, em maio, havia seis mortes de covid-19 e, hoje, são menos de 80 casos de mortos”, o que não é verdade. Primeiramente, segundo o Ministério da Saúde do país africano, o total de mortes até o dia 19 de agosto chegava a 600.

Além de não haver um número tão baixo de óbitos, é falso que o país tenha controlado a pandemia com a ivermectina. Segundo verificação do Comprova publicada em 10 de julho, as autoridades sanitárias da Etiópia não indicam a ivermectina para a prevenção ou tratamento da covid-19 e tomaram diversas medidas não farmacológicas para controlar o contágio, como fechamento de escolas e restaurantes, proibição de aglomerações e decreto de quarentena obrigatória para todos que chegassem ao país. O governo também decretou estado de emergência.

O enfermeiro também afirma, falsamente, que “todos na Austrália tomaram ivermectina” e que, com isso, o país “reduziu a praticamente zero”. Ele pode estar falando de mortes ou do contágio – qualquer uma das informações está errada. Conforme o Comprova também já investigou, o único tratamento contra a doença aprovado no país foi o antiviral remdesivir, que só é prescrito para pacientes graves. Antes disso, a Austrália adotou medidas como distanciamento social, higienização das mãos, restrição de viagens e lockdown. De acordo com o governo australiano, o país registrou 23.993 infectados e 450 mortes até 19 de agosto.

Estudo australiano

Ele cita ainda que a Austrália fez “um estudo com células contaminadas com covid-19 in vitro“, ou seja, em laboratório, para testar a eficácia da ivermectina e que “em 48 horas, não existia mais vírus da covid-19”. Penza não cita qual é a pesquisa, tampouco a mencionou quando questionado, mas, em verificações anteriores, o Comprova já citou um estudo da Universidade Monash, em Melbourne, que mostrou que o medicamento erradicou em 48 horas todo o material genético do vírus em experimento em laboratório.

Entretanto, a universidade, que lidera a pesquisa sobre o uso da droga contra o novo coronavírus no país, afirma, em novo contato, que os testes ainda estão na fase pré-clínica e não foram iniciados em humanos. Ou seja, não há nenhuma comprovação de que a ivermectina seja eficaz contra a covid-19.

Outra afirmação falsa de Penza no vídeo é que, a partir do estudo (ainda não concluído), a Food and Drug Administration (FDA) aprovou o tratamento com o remédio para a população australiana. A FDA é um órgão sanitário norte-americano e não recomenda o uso de ivermectina.

A ivermectina

Pedimos a Penza comprovações científicas da eficácia da ivermectina no tratamento da covid-19. O único estudo científico enviado pelo enfermeiro ao Comprova foi o artigo “Remdesivir, nitazoxanida e ivermectina na covid-19”, publicado em julho na Unilakes Journal of Medicine, da Unilagos — União das Faculdades dos Grandes Lagos. Trata-se de um estudo revisional, que avalia os resultados obtidos por outros pesquisadores.

Na conclusão, os próprios autores afirmam que “outros compostos como nitazoxanida e ivermectina, apesar dos efeitos amplos antivirais, até o momento, mostraram atividade contra o SARS-CoV-2 apenas in vitro. Um único trabalho com ivermectina em pacientes encontra-se ainda em fase de avaliação, mostra a eficácia do medicamento na diminuição de mortalidade, nos casos severos da doença, porém a qualidade científica muito baixa compromete os resultados obtidos.” E o texto finaliza esclarecendo que “até o momento, não há nenhum fármaco eficaz para o tratamento da covid-19”.

Em uma busca sobre a ivermectina e sua eficácia contra o novo coronavírus no Google Scholar, plataforma que reúne artigos científicos disponíveis on-line, um dos principais resultados foi um artigo de junho, publicado no periódico “Antiviral Research”. O texto fala apenas de resultados observados in vitro.

Em julho, uma pesquisa da Universidade de São Paulo também encontrou os resultados positivos em observação no laboratório, mas concluiu que a ação do fármaco não seria suficiente para combater a infecção. Em entrevista ao Jornal da USP, o coordenador do laboratório onde o estudo foi realizado, Lucio Freitas Junior, disse que “nossos resultados sugerem que essas drogas [a ivermectina e a nitazoxanida] são pouco específicas e não atendem aos critérios necessários para testes in vitro com modelos animais”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda o uso da ivermectina nos casos de covid-19. Segundo o órgão, não existem medicamentos que possam prevenir ou tratar a infecção pelo novo coronavírus.

Em junho, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia publicou um posicionamento sobre a profilaxia e tratamento da covid-19, firmando que “não existem evidências científicas de que quaisquer das medicações disponíveis no Brasil, tais como ivermectina, cloroquina ou hidroxicloroquina, isoladas ou associadamente, sejam capazes de evitar a instalação da doença em indivíduos não infectados. Isso também é verdade para vitaminas, como, por exemplo, a C e D, e suplementos alimentares contendo zinco ou outros nutrientes.”

No Brasil, a ivermectina não faz parte do protocolo de tratamento precoce com medicamentos da covid-19. O texto fala, entre outros, do uso de derivados da cloroquina — droga que também não tem eficácia contra o novo coronavírus. Em 10 de julho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma nota afirmando que as indicações aprovadas para o uso da ivermectina são aquelas descritas na bula do medicamento, ou seja, “para o tratamento de várias condições causadas por vermes ou parasitas”.

No final de julho, a agência determinou que a ivermectina (assim como outras drogas que vinham sendo usadas de forma indiscriminada e sem comprovação científica de eficácia para prevenir a infecção pelo novo coronavírus) passasse a ser vendida apenas com apresentação de receita médica em duas vias,.

Quem é o enfermeiro?

Nascido no Rio de Janeiro, Anthony Ferarri Penza se formou em enfermagem em 2014, na Universidade Veiga de Almeida, e vive em Cabo Frio. Antes da graduação, Anthony foi dono de um jornal, o “Diário Cabofriense”, que declarou ter vendido “em 2012 ou 2013” em entrevista realizada em junho, quando apareceu em uma verificação do Comprova classificada como falsa. Ele acusava governos municipais e estaduais, dizendo que “corpos de vítimas da covid-19 são vendidos por milhões”.

Politicamente, o enfermeiro diz que não é nem de direita, nem de esquerda. Mas, nos vídeos, costuma chamar políticos de esquerda de “canalhas”. Na gravação verificada aqui, ao criticar o que estaria acontecendo no Brasil, chega a mencionar, sem terminar a frase: “Isso porque eles estão embutindo na cabeça do cidadão brasileiro, algumas pessoas de esquerda, gente…”. Em seguida, Penza diz que sua guerra “não é para manter Bolsonaro ou para tirar Bolsonaro ou para fazer a, b ou c”; segundo ele, é uma “guerra a favor da vida”.

No jaleco que usa em gravações, há a inscrição “Doutor Anthony Ferreira Enfermeiro”. Em comentários, alguns internautas questionam o uso do título “doutor”, mas a Resolução 256/2001 do Conselho Federal de Enfermagem autoriza tal utilização por enfermeiros.

No início da pandemia, Penza defendia o isolamento social, mas mudou de postura no decorrer dos meses. Ao ser questionado pelo Comprova, em junho, sobre a mudança, respondeu: “Ali era importante. Não sabemos como vai ser o vírus no Brasil e como o Brasil vai se comportar. Tanto que no Brasil como é que se comportaram estados e municípios? Apenas com corrupção”.

O Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro (Coren-RJ) instaurou, no início de julho, um processo contra Penza, após ter recebido “várias denúncias por e-mail” . Caso ele seja declarado culpado, as penalidades aplicadas pelo Coren-RJ podem ser advertência verbal, censura, multa e suspensão do exercício profissional.

Para o Comprova, Penza levantou vários outros pontos que já foram objeto de outras verificações, como a eficácia da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19, o questionamento das mortes registradas pela doença e a utilização das máscaras e das medidas de isolamento social.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos relacionados à pandemia que viralizaram nas redes sociais. Como ainda não há vacina ou cura, muitas das verificações têm sido sobre medicamentos que supostamente combatem a covid-19. O tema é de extrema importância porque a automedicação, sem orientação médica, pode colocar a saúde das pessoas em risco.

Nesse contexto, a ivermectina tem sido muito citada em conteúdos que sugerem seu uso preventivo, ainda que, como explicado anteriormente, não exista nenhuma comprovação científica da sua eficácia. Nos últimos meses, o Comprova já mostrou que não havia provas de que o medicamento funcionasse, que entrevistas sobre o remédio estavam sendo tiradas de contexto, e que as autoridades médicas não recomendam a automedicação.

Até 18 de agosto, o vídeo de Penza havia sido visualizado 3,1 milhões de vezes – um dia depois, a gravação foi tirada do ar. Contatamos o Facebook para saber o motivo, mas, até a publicação deste texto, não obtivemos resposta. O enfermeiro afirmou não ter sido o responsável pela retirada do conteúdo do ar, mas disse, em mensagem de áudio enviada ao Comprova, que é perseguido por veículos de imprensa e que “fica um monte de esquerdopatas denunciando o vídeo e a gente que luta pela vida não tem espaço na mídia”.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para modificar o seu significado original e divulgado de maneira deliberada para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por:2020-08-18

Estudo da USP analisa eficácia da colchicina contra a covid-19 e não da hidroxicloroquina

  • Falso
Falso
Ao contrário do que diz publicação compartilhada por procurador da República, pesquisa não comprova a eficácia da hidroxicloroquina contra a doença provocada pelo novo coronavírus
  • Conteúdo verificado: Publicação feita em site de notícias focado nos tratamentos sem validação científica e compartilhado por procurador da República afirma erroneamente que pesquisa da USP comprova eficácia da hidroxicloroquina no combate à covid-19.

É falsa a publicação intitulada “Estudo da USP confirma eficácia da hidroxicloroquina. Nome do medicamento é suprimido nas manchetes” que circula na internet. O texto, inicialmente publicado no blog Quinina, distorce dados de pesquisa da Universidade de São Paulo para defender medicamentos sem comprovação funcional no tratamento da covid-19. A publicação foi compartilhada pelo procurador da República Ailton Benedito, aumentando seu alcance.

O foco do estudo citado são os possíveis benefícios da colchicina para o tratamento da covid-19. Por isso, uma parte dos voluntários recebeu a droga e a outra, não. Isso serve para comparar os resultados obtidos por ambos os grupos. Ou seja, esse era o objeto do estudo.

A hidroxicloroquina junto com a azitromicina, medicamentos citados pelo blog, foram prescritas a todos os voluntários porque esse era o protocolo de tratamento padrão adotado no hospital onde e quando o estudo foi feito. Ao Comprova, os autores disseram que “é errôneo dizer que o presente estudo avaliou eficácia da hidroxicloroquina, da azitromicina ou da heparina”.

Tentamos contato com o editor do blog, J. A. Campetti Nieto, e com o procurador Ailton Benedito. O primeiro disse que o artigo não era de sua autoria e que repassou as perguntas do Comprova a quem escreveu. O segundo não retornou até a publicação desta checagem.

Como verificamos?

Para dar início à investigação, o Comprova entrou em contato com a Universidade de São Paulo (USP) para verificar a existência da pesquisa, entender do que se trata e conhecer suas conclusões. Dois dos autores nos responderam por e-mail.

Também procuramos o site Quinina, que lançou o artigo usando informações manipuladas. Conseguimos falar com o editor por meio de mensagens na página do Facebook. Embora seu nome apareça no alto da publicação, ele alegou não ser o autor do texto: “No caso de seu questionamento, acredito ser válido. Como é um texto de opinião, sobre a pesquisa de Ribeirão Preto, enviei seus questionamentos ao autor, solicitando os apontamentos necessários que você solicita.”

Entramos em contato com o procurador da República que compartilhou o conteúdo, mas não obtivemos resposta.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 18 de agosto de 2020.

Verificação

O estudo

O artigo veiculado pelo site Quinina usa erroneamente dados de um estudo da USP disponibilizado em 12 de agosto na plataforma Medrxiv — que hospeda versões de artigos sobre ciências da saúde que ainda precisam ser submetidas à revisão dos pares (outros pesquisadores que podem validar o estudo). O nome original da publicação é Beneficial effects of colchicine for moderate to severe COVID-19: an interim analysis of a randomized, double-blinded, placebo controlled clinical trial (em tradução livre: Efeitos benéficos da colchicina para COVID-19 moderada a grave: uma análise provisória de ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo).

Foram convocados 38 pacientes, dos quais 35 permaneceram no estudo até o final. Parte dos voluntários tomou a colchicina além do tratamento padrão, enquanto a outra parte tomou o tratamento padrão e um placebo, substância sem efeito. Isso é importante para se avaliar qual foi o impacto da medicação analisada no tratamento. Os integrantes de cada segmento foram escolhidos de forma aleatória, e inicialmente nem os pesquisadores nem os voluntários sabiam de qual grupo se tratava. Isso é utilizado na ciência para melhor identificar a relação entre as variáveis que influenciam o resultado de um estudo.

O texto publicado no blog Quinina engana já no título ao destacar que o “estudo da USP confirma eficácia da hidroxicloroquina” no tratamento da covid-19. De acordo com o médico e professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, Paulo Louzada Junior, um dos autores do artigo, é errado dizer que foi avaliada a eficácia da hidroxicloroquina, da azitromicina ou da heparina. Isso porque todos os participantes receberam a droga, uma vez que já faziam parte do então tratamento padrão no hospital.

Sem um grupo de controle, isto é, um grupo que recebeu o placebo em vez da droga, não é possível comparar a diferença e o impacto da hidroxicloroquina no tratamento. “O que pode ser dito, e de fato é dito no artigo, é que não houve evento adverso grave (arritmia, por exemplo) pelo uso combinado dessas medicações”, falou Louzada Junior ao Comprova.

Ele revelou que o estudo teve início em abril deste ano. Atualmente, a hidroxicloroquina não é mais empregada no protocolo da Instituição para o tratamento de pacientes internados com COVID-19. “Se este ensaio clínico tivesse iniciado hoje, não contaria a hidroxicloroquina no tratamento padrão institucional, que consiste de corticoides e heparina”, garantiu o médico.

Louzada reforçou que o resultado da pesquisa tem relação apenas com a colchicina: “A conclusão final do estudo foi que a adição da colchicina ao tratamento padrão da covid-19 levou à redução do tempo de uso de oxigênio suplementar, bem como redução do tempo de internação”.

O pesquisador complementou que não é possível compreender um ensaio clínico, com suas limitações e importância, somente pela leitura do resumo. E sugeriu “a leitura completa do texto, antes da divulgação inapropriada dos seus resultados”.

O que é colchicina?

A colchicina é um anti-inflamatório utilizado no tratamento da gota. Entre as motivações para o estudo está o fato de não haver remédio que combata a infecção causada pelo novo coronavírus, apenas cuidados médicos para evitar a reação do corpo que gera um quadro inflamatório.

“A dose empregada (na pesquisa) foi a que se utiliza para o tratamento das crises, pois já se tem bem estabelecido estudos de segurança para o seu emprego em pacientes”, ressaltou Louzada Junior. Ele complementou: “A colchicina é um inibidor do inflamassoma, que é uma plataforma de estruturas intracelulares que se organizam para produzir duas citocinas pró-inflamatórias. Como já existiam estudos prévios que indicavam que estas citocinas poderiam estar envolvidas no estado hiper inflamatório presente nos pacientes com covid-19, esta foi a justificativa que embasou o seu uso como possível tratamento para os pacientes internados com pneumonia secundária a infecção pelo SARS-CoV-2.”

Hidroxicloroquina e azitromicina

O Comprova já mostrou em outras checagens que nem a cloroquina, tampouco seu derivado, a hidroxicloroquina, têm eficácia atestada por autoridades no combate ao novo coronavírus. Duas das mais recentes verificações envolvendo esse fármacos são a que revela que estudo da revista científica The Lancet não fez com que Estados e municípios deixassem de receitar cloroquina e a que investigou a fala do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de que a cloroquina poderia ter evitado 100 mil mortes no país.

O médico francês Didier Raoult — mencionado pelo Quinina — publicou em março deste ano um estudo afirmando que o uso da cloroquina teria curado 75% dos pacientes com covid-19 em seis dias. A pesquisa foi alvo de críticas da revista Science, referência em estudos científicos, e seus resultados foram questionados e considerados incompletos.

Pesquisas em padrão ouro para avaliação de medicamentos — que exige testes com grupos de controle e o uso de placebos — publicadas no Journal of the American Medical Association (Jama) e no British Medical Journal (BMJ) – apontaram que pacientes tratados com cloroquina e hidroxicloroquina não tiveram melhores resultados que aqueles que não receberam os mesmos remédios. Uma pesquisa realizada em 55 hospitais brasileiros e publicada no New England Journal of Medicine (NEJM) chegou às mesmas conclusões.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o National Health Service, do Reino Unido, abandonaram estudos com cloroquina e hidroxicloroquina. A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) publicou um informe, em julho, no qual pontua ser “urgente e necessário que a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da covid-19” diante das novas evidências científicas.

O Ministério da Saúde já distribuiu 5 milhões de comprimidos de cloroquina e ainda tem mais 4 milhões em estoque. Enquanto sobra cloroquina, faltam insumos para pacientes internados nas UTIs, como sedativos, anestésicos, analgésicos e bloqueadores neuromusculares. Esses medicamentos são fundamentais para os pacientes em estado grave que precisam ser intubados.

A azitromicina, também citada pelo blog Quinina, é um antibiótico. Medicamentos desse tipo podem ser prescritos por médicos para tratar infecções oportunistas (que se aproveitam da fragilidade do corpo dos doentes) causadas por bactérias. Mas a covid-19 é uma doença causada por um vírus, o SARS-CoV-2, e não pode ser curada por um antibiótico.

Conforme a OMS, não há, até o momento, tratamento efetivo ou drogas comprovadas contra o novo coronavírus. Essa posição é ratificada por autoridades sanitárias como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a norte-americana Food and Drug Administration (FDA).

O site Quinina e seu editor

Na seção “sobre”, o site afirma que o editor é J. A. Campetti Nieto, descrito como “graduado em Gestão Ambiental, empresário da comunicação há 20 anos em Minas Gerais.”

Pelo Facebook, em resposta ao Comprova, o editor descreveu o Quinina da seguinte forma:

“Um site criado com objetivo inicial de reunir bibliografia científica e jornalística sobre os derivados da quinina, utilizados no combate ao covid-19. Com a evolução dos conhecimentos sobre o coronavírus, o Quinina passou a acompanhar a aplicação dos protocolos de tratamento precoce da doença.”

Em seu perfil no Twitter, Nieto descreve-se como “jornalista dissidente sem diploma, fotógrafo e catador de coquinhos”. Seus posts, geralmente, são favoráveis à cloroquina e em defesa das ações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Atualização

Após a publicação desta verificação, o autor do texto respondeu ao Comprova reafirmando o conteúdo do que publicou. Ele também acrescentou que, no registro do estudo, os pesquisadores nomearam o ensaio como “Estudo clínico sobre o tratamento da COVID-19 com Cloroquina e Colchicina” e que, ao publicar os resultados, teriam suprimido a palavra cloroquina do título. O Comprova, então, retomou o contato com os pesquisadores da USP responsáveis pelo estudo. Por email, Paulo Louzada Júnior destacou que a palavra cloroquina segue no título do ensaio clínico e explicou por qual motivo ela aparece lá. “Este ensaio clínico foi elaborado nos meses de fevereiro e março de 2020, época em que a cloroquina era considerada como uma (talvez a única) opção terapêutica para a covid-19. Assim, na elaboração do ensaio, não cabia, naquele momento, ter um grupo de estudo que não fosse tratado com a cloroquina”. Louzada Júnior reafirmou, ainda, que o estudo não verifica a eficácia da cloroquina, uma vez que todos os pacientes fizeram uso desta substância, sendo impossível, portanto, medir o efeito da cloroquina [atualização publicada em 20 de agosto de 2020].

Por que investigamos?

O Comprova, em sua terceira fase, verifica conteúdos relacionados a políticas públicas e à pandemia do novo coronavírus que viralizaram nas redes sociais. Este texto do site Quinina foi compartilhado 385 vezes no Facebook. Também foi postado no Twitter pelo procurador da República Ailton Benedito, ampliando o seu alcance.

No caso da covid-19, mentiras e boatos que se espalham pelas redes sociais são ainda mais perigosos porque podem custar vidas. A falsa noção de segurança causada pela ideia de um tratamento sem comprovação científica pode levar a população a não seguir as recomendações das autoridades médicas, como lavar as mãos, usar máscara e manter distanciamento social.

No caso das publicações do Quinina, o texto pode induzir ao uso de medicamentos sem comprovação validada cientificamente, colocando pacientes em risco. O Comprova já verificou diversos conteúdos com desinformação sobre o uso da cloroquina no tratamento da covid-19, como estudos sem comprovação científica, textos falando do uso da droga em outros países e declarações polêmicas de médicos. Comentários do presidente Bolsonaro e seus apoiadores sobre a pandemia também já foram checadas.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por:2020-08-18

Post de deputado apresenta dados enganosos sobre número de mortes por outras doenças na pandemia

  • Enganoso
Enganoso
Ministério da Saúde divulga informações consolidadas somente até 2018, o que torna impossível as comparações de óbitos de 2019 e 2020. Dados de cartórios apresentam limitações como atualização constante de registros. Comprova identificou recentemente alterações mesmo no número de óbitos ocorridos no ano passado
  • Conteúdo verificado: Post do Deputado Federal Daniel Silveira (PSL-RJ) no Facebook sugere que o número de mortes registradas por covid-19 no país está supervalorizado, incluindo óbitos por pneumonia, AVC e infarto.

Uma postagem do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) engana ao sugerir que óbitos por outras doenças, como pneumonia, infarto e AVC, estariam sendo contabilizados como covid-19 no Brasil. Ele sustenta a versão com uma suposta queda no número de mortes dessas três doenças entre 2019 e 2020, que chegaria a 30 mil no caso da pneumonia.

As mortes confirmadas pelo novo coronavírus só entram nas estatísticas após resultado positivo do teste, segundo o Ministério da Saúde. A pasta afirmou à reportagem os dados consolidados mais recentes sobre mortalidade no país são de 2018.

O Portal da Transparência do Registro Civil aponta, de fato, para a redução no número de mortes nas três causas: pneumonia (-20.569), AVC (-1.385) e infarto (4.361). O Comprova consultou a base de dados no dia 17 de agosto, considerando o período de 1º de janeiro a 31 de julho. A data final foi escolhida com base na recomendação da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) para que seja respeitado intervalo de, no mínimo, 15 dias, por causa dos prazos legais de registro.

Esses dados, no entanto, não comprovam fraude nas estatísticas da pandemia. Como demonstrou o Comprova em outra verificação recente, o Portal da Transparência do Registro Civil apresenta revisões até de informações relativas ao ano passado.

Além disso, a mesma pesquisa, em 17 de agosto, mostrou acréscimos em causas de morte como Síndrome Respiratória Aguda Grave (+10.330), entre outras. O número de vítimas de covid-19 informado na página era de 92.193, com excesso de mortes calculado em 82.073 pessoas.

Como verificamos?

O Comprova pediu dados atualizados sobre mortalidade de covid-19 e outras doenças ao Ministério da Saúde. A pasta respondeu por e-mail que as informações consolidadas mais recentes são de 2018 e não forneceu dados relativos a 2019 e 2020, sob a justificativa de que eram “muito preliminares e sujeitos a alterações”.

O Portal da Transparência do Registro Civil, que traz comparativo entre mortes por causas respiratórias e cardíacas no período, foi consultado a seguir. O resultado da pesquisa apresentou diferenças quanto à alegação do deputado Daniel Silveira.

A reportagem, então, procurou entender as limitações das informações dos cartórios. Foram utilizadas verificações anteriores do Comprova e matérias publicadas na imprensa. A equipe também pediu a opinião de dois especialistas sobre os dados e a confiabilidade das estatísticas de covid-19, o infectologista Alexandre Naime Barbosa, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e o coordenador do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), Domingos Alves.

Também entramos em contato com o deputado Daniel Silveira, por meio da assessoria de imprensa dele, para saber sobre a fonte das informações que constam na postagem.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 17 de agosto de 2020.

Verificação

As mortes por covid-19

Daniel Silveira publicou o post em sua conta no Facebook em 11 de agosto. A peça afirma que “o número de mortos por pneumonia em 2020 tem 30 mil ocorrências a menos em relação a 2019” e que “o mesmo ocorreu com AVC e infarto”, sem citar fontes. A conclusão do texto é que “apontamentos e estatísticas não são claros ou confiáveis, pois atendem unicamente ideias políticos [sic] cumprindo uma agenda específica”.

As estatísticas de mortes por covid-19 consideram apenas casos que tiveram resultado positivo em teste. Em checagem de junho, o Ministério da Saúde afirmou ao Comprova que os números divulgados diariamente de casos e óbitos por covid-19 são informados pelos estados por meio do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe). A confirmação é feita por meio de exames RT-PCR coletados nos pacientes e encaminhados a laboratório.

A orientação também consta em nota técnica publicada em 4 de maio. No documento, o Ministério da Saúde solicita aos médicos que registrem a covid-19 como causa da morte apenas quando o paciente tiver confirmação por exame laboratorial. Se o teste ainda não estiver pronto, o termo registrado deve ser “suspeita de covid-19”. Esse paciente é considerado como um caso em investigação e não entra na contagem até que se tenha conhecimento do resultado.

Até segunda-feira, 17 de agosto, o Brasil contabilizava 108.536 vítimas do novo coronavírus, de acordo com informações do Ministério da Saúde. Foram confirmados mais de 3,3 milhões de casos no país, sendo em torno de 19 mil apenas nas últimas 24 horas.

Dados de mortalidade por outras doenças

O Comprova pediu dados de mortalidade por pneumonia, AVC e infarto nos anos de 2019 e 2020 ao Ministério da Saúde. Por e-mail, a pasta esclareceu que “os dados consolidados de mortalidade mais recentes são de 2018, retirados do Sistema de Informação Sobre Mortalidade (SIM)”. A ausência de dados mais recentes é justificada pelo fato de estes serem “muito preliminares e sujeitos a alterações”, segundo a pasta.

A origem da alegação de Silveira é outra: um vídeo gravado pela jornalista Cristina Graeml, da Gazeta do Povo, em 2 de agosto. Dois dias antes, Silveira publicou trecho de vídeo do jornalista Guilherme Fiuza com uma legenda semelhante. Fiuza, por sua vez, menciona o levantamento da repórter para alegar a redução de 30% nos casos de pneumonia. A assessoria do deputado também confirmou ao Comprova, por e-mail, que a postagem se baseou nesse conteúdo.

Graeml compara informações do Portal da Transparência do Registro Civil e afirma que, de março a julho de 2019, houve 90.052 mortes por pneumonia, enquanto neste ano foram registrados 61.000 óbitos. Em outro momento, diz que “praticamente todas as causas mortis diminuíram nesse primeiro semestre”, incluindo infarto e AVC.

Esse levantamento, no entanto, desconsidera o atraso no registro de mortes dos cartórios. A recomendação da Arpen-Brasil, associação responsável pela página, é de se respeitar uma distância mínima de 15 dias entre a data final do intervalo de pesquisa e o dia da coleta. Isso porque os registros dos cartórios obedecem aos seguintes prazos legais: 24 horas para comunicação do falecimento em cartório pela família, cinco dias para o cartório efetuar o registro de óbito e oito dias para envio do ato à Central Nacional de Informações do Registro Civil (CRC Nacional).

Porém, não é raro que os registros demorem mais do que duas semanas. Em outra verificação publicada recentemente, o Comprova pesquisou informações, dentro de um mesmo intervalo, em três momentos diferentes. Os gráficos mostram que não apenas os dados de 2020 foram alterados, mas também os do ano passado.

A inconsistência foi demonstrada ainda em reportagens do jornal Folha de S.Paulo e do portal Núcleo. Além da velocidade de atualização desigual entre cidades do país, a plataforma ainda sofreu com “apagões” de dados em mais de uma ocasião, o que praticamente inviabiliza análises sobre o avanço da pandemia.

Em agosto, o pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Otavio Ranzani afirmou que os registros de Minas Gerais sumiram durante dois meses, distorcendo os dados. Os números só foram atualizados nesta segunda-feira, 17. O especialista aponta ainda que a interiorização da covid-19 favorece atrasos nos registros, porque os municípios menores apresentam maiores dificuldades na transmissão das informações.

Em consulta feita no dia 17 de agosto — considerando intervalo de 1º de janeiro a 31 de julho, portanto, respeitando a recomendação da Arpen-Brasil —, a plataforma apontava para redução do número de mortes por pneumonia, AVC e infarto. Por outro lado, essa mesma pesquisa indicava aumento no número de mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), causas cardiovasculares específicas e por motivo indeterminado.

Para especialistas, registros de cartórios não provam fraude

Ainda que as informações atuais do Portal de Transparência do Registro Civil fossem definitivas e o Brasil realmente apresentasse redução no número de casos de pneumonia, infarto e AVC, especialistas avaliam que a situação não provaria fraude alguma nas estatísticas de covid-19.

Em checagem recente do site Aos Fatos, o médico do Centro de Pesquisas Clínicas Epidemiológicas do Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo) Márcio Sommer Bittencourt destacou que a diminuição de mortes por outras causas pode estar relacionada a menor procura por atendimento médico. Na falta de diagnóstico preciso, aumentam os registros genéricos quando, em condições normais, a causa seria especificada.

Para o médico infectologista Alexandre Naime Barbosa, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), é possível que a covid-19 absorva mortes de pessoas suscetíveis que aconteceriam eventualmente por meio das outras causas mencionadas. Porém, entende que os dados dos cartórios não são capazes de confirmar essa relação, que também não diminui a gravidade da doença. “No final das contas, teremos um incremento absurdo [de mortes] por conta da pandemia”, afirma.

Barbosa acredita que o número de mortos por covid-19 no Brasil está subestimado, e não o contrário. “Vemos lugares em que pessoas com Síndrome Respiratória Aguda Grave acabam morrendo sem diagnóstico. É muito mais provável que esses números estejam subestimados — e que 100 mil óbitos esteja abaixo do que realmente aconteceu — do que superestimados”, argumenta.

O coordenador do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), Domingos Alves, também entende dessa forma. Ele lembra que, entre os resultados de testes laboratoriais de pacientes com SRAG para algum vírus respiratório, 96,9% são referentes ao Sars-CoV-2. Em relação aos óbitos, o número chega a 99,1%.

O Brasil teve 144.663 óbitos por SRAG neste ano, dos quais 98.195 (67,9%) foram confirmados para covid-19. Só que 41.998 (29%) não foram especificados e podem ter sido ignorados nas estatísticas da pandemia, enquanto 3.575 (2,5%) estavam com investigação em andamento.

Os dados aparecem em boletim semanal da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), de 11 de agosto, e em boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, do dia seguinte.

Quem é o deputado Daniel Silveira?

Daniel Silveira foi eleito como deputado federal pela primeira vez em 2018, pelo PSL do Rio de Janeiro. Segundo o portal da Câmara dos Deputados, Silveira é titular nas Comissões Especiais do Fundo de Desenvolvimento do Norte Fluminense e da Política da Mobilidade Urbana, além da Subcomissão de Energia Elétrica. Nas Comissões Especiais sobre competência legal para investigação policial, do Código de Trânsito Brasileiro, e no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, Silveira é membro suplente.

No perfil publicado no próprio site, Daniel Silveira afirma ser policial militar e que sua atuação no Congresso é em nome de “uma política de tolerância zero contra criminosos, aumentando penas para crimes hediondos e contra a administração pública, especialmente a corrupção. Na segurança pública, o deputado Daniel Silveira defende mais estrutura de trabalho para policiais e bombeiros”. O texto ainda diz que Silveira defende a família e é contra a “ideologia de gênero” e a “doutrinação nas escolas”.

Em 2018, na época da campanha eleitoral, Silveira ficou conhecido por um vídeo em que aparece ao lado do então candidato a deputado estadual no Rio, também pelo PSL, Rodrigo Martins, quebrando uma placa que homenageava a vereadora Marielle Franco, do PSOL, assassinada meses antes. Quem também aparece nas imagens é o atual governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC). Na época, ele fazia campanha eleitoral, e discursava no palco quando a homenagem foi destruída.

Em um perfil publicado na Revista piauí, em 2019, Silveira defendeu a própria atitude: “O recado era muito simples: não permitir que, em nome de uma ideologia, possam vandalizar e tomar um território público.” Segundo a mesma reportagem, o deputado deixou de ser policial militar do Rio de Janeiro em 2018, depois de sete anos de atuação.

Em 2020, o deputado assinou 34 propostas legislativas, como autor, e, até a publicação deste texto, não havia relatado nenhum projeto. De acordo com as informações oficiais da Câmara, o deputado conseguiu aprovar 8 emendas ao orçamento da União em 2020 – duas delas destinaram um total de R$ 9.740.454,00 aos serviços de assistência hospitalar e ambulatorial e de atenção à saúde básica do Estado do Rio de Janeiro. Em junho, em meio aos protestos realizados no país contra o governo Bolsonaro e liderados por grupos antifascistas, o parlamentar apresentou uma proposta de alteração na Lei Antiterrorista, para incluir os “antifas” e criminalizar o movimento.

Silveira é alvo de um inquérito aberto pelo Ministério Público Federal em julho, que apura suspeita de improbidade administrativa. Nesta semana, o site The Intercept Brasil publicou uma reportagem que afirma que o deputado teria sido preso administrativamente, quando era policial militar, e que teria usado licenças médicas indevidas para driblar um processo administrativo que poderia impedir a sua candidatura, por causa da Lei da Ficha Limpa. O deputado negou as acusações em uma live na internet.

Em junho, depois de dizer que o novo coronavírus “idiotiza as pessoas”, o deputado foi diagnosticado com a covid-19.

Em sua conta verificada no Twitter, o deputado já fez publicações sobre a pandemia em tom conspiratório, já minimizou os impactos da doença e criticou as medidas de isolamento, já atacou veículos de imprensa e agências e projetos de checagem, por causa de conteúdos a respeito do novo coronavírus, e já defendeu o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, como a ivermectina e a hidroxicloroquina. O vídeo publicado pelo deputado para defender a segunda droga, inclusive, já foi alvo de verificação pelo Comprova.

Silveira é um dos alvos dos inquéritos que apuram a organização e financiamento de atos antidemocráticos e o disparo de notícias falsas, ofensas e ameaças contra autoridades, ambos conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em entrevista ao Estadão, ele negou envolvimento na organização dos protestos e disse desconhecer a existência de uma centralização na “coordenação ou financiamento” de grupos bolsonaristas.

Por que investigamos?

O Comprova, nesta terceira fase, verifica conteúdos relacionados à pandemia da covid-19 que viralizaram nas redes sociais. A postagem de Daniel Silveira teve 16,8 mil interações no Facebook até o dia 17 de agosto.

Postagens como a do deputado têm sido comuns nos últimos dias, e outras publicações que distorciam dados para negar as mortes por coronavírus já foram checadas pelo Comprova.

No caso desta publicação, o deputado Daniel Silveira é uma figura pública, que já minimizou a pandemia e questionou dados oficiais e publicados por veículos de imprensa. Só na página dele no Facebook, a postagem soma mais de 16 mil interações, entre comentários, curtidas e compartilhamentos.

As informações que minimizam a pandemia — que já matou mais de 770 mil pessoas no mundo, segundo a Universidade Johns Hopkins — são perigosas porque podem levar as pessoas a descumprir determinações sanitárias de prevenção à doença, ou questionar o isolamento social.

Enganoso, para o Comprova, é conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2020-08-17

Estudo da Lancet não levou estados e municípios a deixarem de receitar cloroquina

  • Falso
Falso
Não há nenhuma comprovação de que governos estaduais ou prefeituras, no Brasil, tenham restringido o uso de cloroquina durante período em que esteve publicado um estudo na revista Lancet. Além disso, não existe comprovação científica de que a cloroquina tenha eficácia contra o novo coronavírus
  • Conteúdo verificado: Vídeo em que um médico diz que vários estados e prefeituras deixaram de prescrever a cloroquina por causa do estudo da Lancet, retratado em junho, o que teria causado a morte de pacientes com covid-19.

São falsas as afirmações feitas pelo médico Wagner Malheiros em um vídeo postado no Facebook e republicado no YouTube em que ele atrela um estudo publicado pela revista científica The Lancet a mortes por covid-19. No vídeo, Malheiros destaca a publicação do fim de maio que, 11 dias depois, foi removida, para defender o uso da cloroquina no tratamento da covid-19. O médico argumenta que governos deixaram de receitar a droga por causa desse texto e isso teria causado mortes. Não há nenhuma comprovação de que governos estaduais ou prefeituras, no Brasil, tenham restringido o uso de cloroquina durante esse período. Além disso, não existe comprovação científica de que a cloroquina tenha eficácia contra o novo coronavírus.

No vídeo, Malheiros também cita um estudo publicado no início de julho pela instituição norte-americana Henry Ford Health System para defender a cloroquina. A pesquisa, como o Comprova já mostrou, é insuficiente para provar a eficácia da droga.

Malheiros ainda acusa a Sociedade Brasileira de Infectologia de ter relações com o PT. A afirmação também não é verdadeira.

Como verificamos?

Em primeiro lugar, o Comprova usou a busca reversa de imagens para descobrir a origem no vídeo e quem era o homem que falava nele. Depois, buscamos os registros do médico no Conselho Federal de Medicina, pesquisamos matérias sobre ele no Google e procuramos seu perfil no Facebook. Enviamos mensagem para um amigo de Malheiros que havia postado um novo vídeo dele após o perfil do médico no Facebook ser bloqueado. Por meio deste amigo, conseguimos o número de WhatsApp do autor do vídeo para obter mais informações sobre as alegações feitas no vídeo.

Para checar o que o médico alega, procuramos a Prefeitura de Cuiabá e o governo do Mato Grosso. Também pesquisamos sobre o estudo da Lancet que foi mencionado e sobre a situação da pandemia na Suíça, citada por Malheiros em contato com o Comprova. Por fim, levantamos informações de verificações anteriores do Comprova sobre a eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina para prevenir mortes por covid-19 e sobre o estudo da Henry Ford Health System.

Ainda entramos em contato com a Sociedade Brasileira de Infectologia para checar a acusação feita por Malheiros, sobre uma relação do órgão com o Partido dos Trabalhadores.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 17 de agosto de 2020.

Verificação

Quem é o médico?

O médico que aparece no vídeo se chama Wagner Malheiros. Ele começou a atuar em 1996 no Rio de Janeiro. Desde fevereiro de 1999, seu registro foi transferido para o Conselho Regional de Medicina do Mato Grosso (CRMMT). Ele trabalha em Cuiabá e é especialista em pneumologia e clínica médica. No perfil do Facebook, ele se descreve como “aluno relapso do Olavo de Carvalho”, ideólogo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em junho, Olavo criticou o presidente publicamente. A imagem de capa do perfil de Malheiros no Facebook é uma foto de Bolsonaro.

O vídeo verificado foi postado originalmente no Facebook em 03 de agosto de 2020 e, atualmente, está com o selo de “informação falsa” dado pelo Facebook. As últimas postagens de Malheiros na rede social são desta data. Segundo o site Repórter MT, a conta dele na rede social foi suspensa por 30 dias por causa das afirmações sobre a cloroquina.

Estudo da Lancet

A Lancet é uma renomada revista científica. No dia 22 de maio, uma publicação feita nela dizia que um estudo com 96 mil pacientes apontou que a hidroxicloroquina e a cloroquina não apresentavam benefícios no tratamento do novo coronavírus. O texto ainda alertava para um risco maior de morte e piora cardíaca durante a hospitalização.

Onze dias depois da divulgação, a própria Lancet manifestou preocupações em relação ao estudo. A publicação informou que “importantes questões científicas foram levantadas sobre os dados relatados” e faria uma auditoria independente dos dados.

No dia seguinte, a Lancet publicou uma nota de retratação dos autores do estudo. Eles diziam não poder mais garantir a veracidade dos dados usados para fundamentar a pesquisa.

Na nota de retratação, os responsáveis pelos estudos afirmaram que nem todos os autores tiveram acesso aos dados brutos envolvidos na pesquisa. Por causa disso, não poderiam validar as principais fontes que compuseram o artigo.

Os dados analisados pertenciam à “Surgisphere”, empresa de um dos autores. Ela, porém, não liberou as informações completas para uma auditoria independente afirmando que violaria o acordo de confidencialidade feito com os clientes.

Ao contrário do que afirma o vídeo verificado, o pedido de desculpas não se trata de uma novidade. Todo o processo de retratação ocorreu no início de junho, há mais de dois meses, portanto.

O estudo publicado pela Lancet fez com que a Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendesse os estudos com as drogas, mas as pesquisas foram retomadas assim que a retratação da revista foi divulgada.

Em 17 de junho, a OMS anunciou que estava encerrando definitivamente os estudos com a cloroquina e a hidroxicloroquina. Desta vez, a decisão foi baseada nos resultados obtidos pelas pesquisas “Recovery”, do Reino Unido, e Solidariedade, que englobou 3,5 mil pacientes em 35 países.

No vídeo, Malheiros ainda cita um editorial feito pela Lancet com críticas a Jair Bolsonaro. O texto, publicado em 9 de maio, apontava o presidente como a maior ameaça à luta contra a covid-19 no Brasil. Na época, o país somava pouco mais de 9 mil mortes pela doença, e Bolsonaro foi criticado por responder um questionamento sobre o aumento de casos dizendo: “E daí? Lamento, quer que eu faça o quê?”.

Estudo da Henry Ford Health System

Durante o vídeo, Malheiros cita um estudo da Henry Ford Health System, uma organização de assistência médica sem fins lucrativos, dos Estados Unidos, para defender o uso da cloroquina no tratamento do novo coronavírus. Como o Comprova já mostrou, a pesquisa é insuficiente para provar a eficácia da droga.

Na conclusão do próprio artigo que, segundo Malheiros, comprovaria a eficácia da cloroquina, os médicos responsáveis pelo estudo ressaltam que os resultados precisam ser confirmados por meio de outros testes que permitam avaliar “rigorosamente” a eficácia do tratamento. A pesquisa chegou a receber críticas da comunidade científica, como mostrado em uma reportagem da CNN norte-americana.

Governos pararam de usar cloroquina por causa da Lancet?

No vídeo, Malheiros diz que vários estados e municípios deixaram de prescrever a cloroquina por causa do estudo da Lancet; o que teria provocado mortes. Não há, no entanto, comprovação científica do uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. Recentemente, o Comprova classificou como falso que o remédio teria evitado as 100 mil mortes causadas pelo novo coronavírus no Brasil.

Em áudio enviado ao Comprova pelo WhatsApp, o médico disse não lembrar a fonte dessa informação. Mas afirmou que a medida havia sido adotada em Cuiabá. Também disse que o número de casos voltou a crescer na Suíça depois que o país suspendeu o tratamento com cloroquina por causa do estudo da Lancet.

O Comprova procurou a Prefeitura de Cuiabá, que não respondeu até o fechamento dessa verificação. O governo do Mato Grosso afirmou que os médicos dos hospitais estaduais e do centro de triagem da covid-19 têm liberdade para prescrever a medicação que entenderem como mais eficaz para o quadro clínico do paciente. A Secretaria Estadual de Saúde afirmou que segue o protocolo do Ministério da Saúde, que autoriza o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em pessoas hospitalizadas ou com diagnóstico da covid-19, desde que recomendado pelo médico e autorizado pelo paciente ou responsável. Segundo a pasta, não houve mudança no protocolo de uso do medicamento por causa do estudo da Lancet.

A Suíça, citada por Malheiros em conversa com o Comprova, deu início em junho à reabertura, inclusive permitindo a entrada de estrangeiros para estimular o turismo, setor de peso importante na economia local. A partir do final daquele mês, porém, vários surtos da doença começaram a ser registrados no país. Essas novas infecções ainda estão sendo registradas e o país teme uma segunda onda da doença. Oficialmente, a Suíça considera que não há tratamento para o novo coronavírus, sendo possível, apenas, suavizar os sintomas até que o paciente se recupere.

Sociedade Brasileira de Infectologia

Malheiros acusa na publicação uma “sociedade de medicina” de ser ligada ao PT. Em outro vídeo publicado no Facebook, diz que “a Sociedade de Infectologia foi a que mais combateu o uso da cloroquina aqui no Brasil. E nós sabemos que a Sociedade de Infectologia é dominada, inteirinha, por ‘vermelhinhos’”.

Em contato por telefone, ele confirmou que, ao dizer “sociedade de medicina”, se referia à Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). Não encontramos, no entanto, nenhuma prova de uma possível relação da entidade com o PT.

O presidente da SBI, Clóvis Arns da Cunha, é primo do senador Flávio Arns, esse com passagem pelo PT e pelo PSDB – atualmente é filiado à Rede. Não há nenhum indício de que a relação familiar de Clóvis e Flávio represente uma ligação da SBI com o Partido dos Trabalhadores. Questionada por mensagem, a entidade disse que não se pronuncia “sobre esse tipo de vídeo”.

Por que investigamos?

A terceira fase do Comprova verifica conteúdos relacionados às políticas públicas e à pandemia do novo coronavírus. No caso da covid-19, mentiras e boatos que se espalham pelas redes sociais são ainda mais perigosos porque podem custar vidas.

O vídeo de Wagner Malheiros engana ao dizer que estados e municípios deixaram de utilizar a cloroquina no combate ao novo coronavírus após o estudo da Lancet. Não há nenhuma comprovação de que algo do tipo aconteceu.

Além disso, a decisão da Organização Mundial da Saúde de encerrar os testes com cloroquina e da posição da Sociedade Brasileira de Infectologia de pedir para que o uso da droga no tratamento da covid-19 fosse interrompido não tiveram como base o estudo da Lancet. Foram pesquisas posteriores que concluíram que a droga não tem eficácia.

A publicação feita por Malheiros no YouTube atingiu mais de 77 mil pessoas até o dia 17 de agosto. O mesmo vídeo teve mais de 14 mil compartilhamentos no Facebook.

A Agência Lupa verificou o mesmo vídeo e classificou as informações como exageradas ou falsas.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por:2020-08-14

Posts distorcem dados de 2019 e 2020 para negar as mais de 100 mil mortes por covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Publicações omitem a informação de que os dados do Portal da Transparência do Registro Civil não têm atualização imediata e que medidas como o isolamento social podem ter reduzido o número de falecimentos por outras causas em 2020. No estado de São Paulo, por exemplo, o número de mortes no trânsito de janeiro a junho caiu 11%, em comparação a 2019
  • Conteúdo verificado: Posts que comparam número de mortos em 2019 e 2020 e, a partir dos resultados, insinuam que a pandemia é uma farsa ou histeria.

São enganosos os textos que, ao comparar números de óbitos em 2019 e 2020, colocam em dúvida as mais de 106 mil mortes por covid-19 no Brasil. As postagens, que viralizaram em redes sociais como Facebook, Twitter e WhatsApp, ignoram que os dados utilizados, do Portal da Transparência do Registro Civil, estão em constante atualização e incluem a informação – mesmo que não consolidada – sobre vítimas do novo coronavírus.

Nesta sexta-feira, 14 de agosto, a ferramenta contabilizava 96.844 mortes que tiveram como causa principal a covid-19 no país. O número total de óbitos de janeiro a julho é 798.352 — 66.741 mortes a mais do que no mesmo período do ano passado. Mais uma vez, é importante reforçar que estes dados estão em constante atualização.

Número de mortes mês a mês

Outro fato desconsiderado nas postagens é que medidas como o isolamento social podem ter reduzido o número de falecimentos por outras causas em 2020, já que há menos pessoas saindo de casa. No estado de São Paulo, por exemplo, o número de mortes no trânsito de janeiro a junho caiu 11%, na comparação com o mesmo período do ano passado. De acordo com o Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito de São Paulo (Infosiga), foi o menor número de óbitos desde o início da série histórica, em 2015.

Como verificamos?

O primeiro passo foi verificar os dados no Portal da Transparência do Registro Civil, plataforma virtual aberta à consulta pública. Em seguida, o Comprova entrou em contato com a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), que mantém o Portal e respondeu por e-mail alguns questionamentos sobre a atualização dos números.

Para compreender melhor os dados, a equipe entrevistou por telefone e WhatsApp Fatima Marinho, epidemiologista e consultora-sênior da organização global de saúde pública Vital Strategies, que, com pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), auxiliou a Arpen-Brasil no desenvolvimento do painel sobre causas respiratórias e total de mortes do Portal da Transparência. Também conversou por telefone com o epidemiologista Fernando Carvalho, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Para visualizar os dados, a equipe usou a ferramenta Flourish, de produção de gráficos. Por fim, o Comprova tentou contato com internautas que postaram o conteúdo e tiveram bastante viralização. Eliane Maris, que compartilhou um post no Facebook, conversou com a equipe por telefone. O responsável pela página @LuizCamargoVlog no Twitter, cujo post viralizou na rede social, foi contatado por e-mail, mas não respondeu até a publicação deste texto.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de agosto de 2020.

Verificação

Atualização constante

O Comprova analisou duas versões de postagens que comparavam o número de óbitos registrados em cartórios no país em 2019 e 2020. Uma das publicações colocava lado a lado apenas mortes ocorridas em julho de cada ano; outros posts comparavam também registros de abril, maio e junho. Os números são similares aos verificados na aba “Registros” do Portal da Transparência – nessa seção, é possível acessar o número de falecimentos por causas naturais e violentas.

No entanto, nenhuma das postagens enganosas analisadas continha a ressalva de que os números do Registro Civil estão em constante atualização. Em nota, a Arpen-Brasil afirmou que o site é alimentado de “hora em hora” em dias úteis. A entidade diz que a recomendação é de que em análises dos dados disponíveis sejam considerados os números anteriores a um intervalo de 15 dias — contados retroativamente a partir do dia presente.

O Portal da Transparência informa que “a atualização pelos registros de óbitos lavrados pelos Cartórios de Registro Civil obedece a prazos legais”. Esse prazo leva em conta que “a família tem até 24 horas após o falecimento para registrar o óbito em cartório que, por sua vez, tem até cinco dias para efetuar o registro de óbito”. Considera que o cartório tem ainda oito dias para enviar o registro à Central Nacional de Informações do Registro Civil, que atualiza o portal. No total, oficialmente, são 14 dias.

A Lei de Registros Públicos prevê exceções que podem aumentar esse prazo. Como destacou a Agência Lupa, se o local da morte ficar a mais de 30 quilômetros de um cartório, a família pode registrar o falecimento em até três meses.

O que acontece na prática, como o Comprova já verificou, é que mortes ocorridas há muito mais de duas semanas continuam sendo atualizadas no sistema do Portal. Há óbitos ocorridos em 2019 que ainda estão entrando na plataforma, conforme mostra o gráfico a seguir:

Em nota, a Arpen-Brasil disse que “regras excepcionais, adotadas pontualmente por estados e pelo Poder Judiciário, em razão da crise de saúde pública causada pelo novo coronavírus, podem estender o prazo previsto em lei para registro de óbito e, também, influenciar os dados encontrados no Portal da Transparência”.

Análises de dados publicadas pela Folha de S.Paulo, em maio deste ano, e pelo portal Núcleo, em julho, apontam outras inconsistências nos números divulgados na plataforma. Um exemplo foi o “sumiço”, em 14 de maio, de 500 mil registros de óbitos de 2016, 2017 e 2018. A Arpen informou ao Núcleo ter removido esses dados por não estarem padronizados. Em 27 de maio, novo “sumiço”: dessa vez, de 3 milhões de óbitos, que posteriormente foram adicionados novamente à plataforma.

A Folha mostrou haver diferenças significativas na contagem de mortes entre as 518 cidades presentes na plataforma. Na comparação entre o número de óbitos de 2019 e 2020, capitais como Belém, Manaus e Porto Velho apresentaram padrão errático de registros de janeiro a abril. Em Goiânia, Campo Grande, Brasília e Cuiabá, uma expressiva diminuição no número de falecimentos em abril indicava falta de atualização dos registros.

Segundo a epidemiologista Fatima Marinho, consultora-sênior da Vital Strategies, a subnotificação também ocorre porque, “muitas vezes, as famílias deixam de fazer a certidão de óbito, principalmente em regiões mais pobres”.

Ainda de acordo com a especialista, os dados de Minas Gerais estão muito defasados no Portal da Transparência – como verificado no gráfico abaixo. Segundo ela, quando esses números forem incluídos, haverá um salto no excesso de mortes (comparação entre o número de óbitos esperado a partir de uma série histórica e a quantidade observada em um determinado período).

No gráfico, é possível identificar como o registro de mortes varia em cada estado do país. Repare que, além dos de Minas, outros dados apresentam inconsistências, como os de Rondônia.

Falsa equalização

O epidemiologista da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Fernando Carvalho reforça que os dados do Registro Civil devem ser analisados com desconfiança. “São dados que ainda não estão consolidados e estão sendo usados de forma errada”, diz ele.

De acordo com o especialista, é mais indicado utilizar os números compilados pelas secretarias estaduais de Saúde ou pelo Ministério da Saúde. Carvalho explica que esses órgãos seguem protocolos para registrar os óbitos, que normalmente passam por uma investigação rigorosa sobre suas causas.

Além da demora na contabilização dos mortos no Registro Civil, ainda há outras possíveis explicações para a diferença entre o número de falecimentos entre 2019 e 2020. Segundo o epidemiologista, as medidas adotadas no combate ao novo coronavírus podem ter impacto sobre outras mortalidades. Por exemplo, mortes causadas por acidentes de trânsito e por violência podem ter diminuído em meio às iniciativas de isolamento social. Há ainda o fato de que, com a pandemia, o número de procedimentos cirúrgicos eletivos foi reduzido.

No estado de São Paulo, por exemplo, o número de mortes no trânsito de janeiro a junho caiu 11%, na comparação com o mesmo período do ano passado. De acordo com o Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito de São Paulo (Infosiga), foi o menor número de óbitos desde o início da série histórica, em 2015.

Por fim, Carvalho aponta que os registros de óbitos causados por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e por causas indeterminadas subiram – na data da publicação deste texto, o Portal registrava 11.425 casos de SRAG de 1º de janeiro a 14 de agosto de 2020 e 932 no mesmo período do ano passado . “Muitas pessoas não estão indo ao hospital”, afirma. “Pode ser que demore a ter um diagnóstico. Tem gente que morreu sem procurar serviço médico”, acrescenta.

De acordo com Fatima Marinho, há outro fator a ser considerado: todo ano há um aumento de mortes por causas naturais, devido ao envelhecimento da sociedade, mas a covid-19 já superou a mortalidade esperada para 2020. Para ilustrar, ela mostrou um gráfico produzido pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass). “Normalmente, não temos esse excesso de óbitos no Brasil. Tivemos na época do H1N1, mas foi pequeno. É algo visto em países que têm desastres naturais, como terremotos e tsunamis”, afirma. “Então, estamos atribuindo esse excesso de mortes verificado no Brasil à covid-19.”

A epidemiologista explica: “o que podemos afirmar com certeza é que o número de mortes entre 15 de março e até 26 de junho subiu 23% acima do esperado para esse período”.

Postagem

A aposentada Eliane Marins, que mora em Caçador, em Santa Catarina, repostou um conteúdo com números do Portal da Transparência, afirmando: “Não existe a menor condição de ter morrido 100 mil pessoas no Brasil pela covid-19. A menos que tenham encontrado a cura para as demais doenças. Faça sua própria pesquisa e tire suas conclusões”. Contatada pelo Comprova, ela disse que “cada um que posta a opinião de cada um”.

Questionada se não é perigoso afirmar que as mortes pelo novo coronavírus não estão ocorrendo, respondeu: “Tão maléfico é fazer sensacionalismo em cima de uma doença; é tão maléfico quanto a própria doença”.

Recentemente, Eliane postou outros conteúdos enganosos, como o que afirma que o governador de São Paulo, João Doria, teria tomado a vacina contra a covid-19 – verificado pelo Comprova como falso –, e o que informa, erroneamente, que Bill Gates disse que a vacina contra a doença altera o DNA dos imunizados para sempre.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos a respeito do novo coronavírus desde março deste ano, quando foi decretada pandemia. Desde então, outros conteúdos que usam os dados do Registro Civil de forma enganosa foram desmentidos. Um deles, uma publicação que distorceu dados do Portal da Transparência para alegar falsamente que a pandemia estaria em declínio e que o Brasil teria zerado “o excesso de mortes em junho”. As informações utilizadas à época, assim como agora, desconsideravam a atualização constante dos números.

Em maio, uma corrente de WhatsApp atribuiu a registros de cartórios números falsos, que buscavam negar a pandemia no Brasil. Os números verdadeiros confirmavam a gravidade da disseminação da covid-19.

Outras agências de checagem também desbancaram postagens enganosas sobre dados do Registro Civil, como Estadão Verifica, AFP, Agência Lupa e Aos Fatos.

O uso de dados públicos de forma inadequada provoca avaliações descontextualizadas e alerta sobre o riscos gerados por essas análises incoerentes e irresponsáveis. Neste momento específico de crise sanitária é mais comprometedor ainda, pois evidencia o grau de negacionismo da gravidade pandemia, o que torna os impactos da desinformação ainda mais severos e distorce a real finalidade da transparência dos dados públicos.

Além da amplificar os malefícios da desinformação, insinuar que a pandemia – que já matou mais de 106 mil pessoas apenas no Brasil – é uma farsa ou tentar diminuir seu efeito por meio de cálculos e dados imprecisos, sob o argumento de que o número de mortes não é tão elevado, é reprovável também por ser uma atitude que acarreta prejuízos humanos e sociais à coletividade.

A gravidade destes fatores leva o Comprova a averiguar conteúdos que apresentam ampla viralização nas redes sociais, a exemplo das postagens em questão, que até o dia 14 de agosto somavam mais de 12 mil interações no Facebook e Twitter, de acordo com a medição da plataforma CrowdTangle.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado de forma a induzir a uma interpretação diferente.

Pandemia

Investigado por:2020-08-14

É enganosa postagem que questiona ética dos testes em humanos de vacinas para covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Post em uma página de Facebook ignora que as vacinas precisam necessariamente de testes prévios em seres humanos para serem liberadas para uso e usa uma imagem antiga do governador baiano, Rui Costa, para relacioná-lo aos chineses
  • Conteúdo verificado: Postagem no Facebook questiona ética da testagem de vacinas contra covid-19 em humanos. Para isso, usa a afirmação feita por um médico baiano que também defende uso de medicamentos sem comprovação científica no tratamento da doença.

É enganosa a postagem feita por uma página no Facebook que diz que não é ético e nem humano o uso da “vacina chinesa que Rui Costa (PT) quer testar na população baiana”. O texto diz também que é um absurdo que as pessoas sejam feitas cobaias de laboratório do governo comunista chinês. O post reproduz uma afirmação do urologista Modesto Jacobino, médico que defende uso de drogas sem comprovação científica no tratamento da covid-19. Especialistas consultados pelo Comprova refutaram a declaração feita pelo urologista.

O texto não menciona que, para serem aprovadas pelos órgãos regulatórios, todas as vacinas devem passar por uma fase de testes em humanos. No Brasil, os testes precisam passar pela aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

No meme que ilustra a postagem, o governador baiano Rui Costa (PT) aparece ao lado de Wang Dongfeng, prefeito da cidade chinesa Tianjin. A assessoria do governo da Bahia informou que a imagem é de 2017, quando Costa visitou o porto do município chinês.

O autor do post e o médico citado na publicação foram procurados pelo Comprova, mas não responderam ao nosso pedido de entrevista.

Como verificamos?

Fizemos buscas no Facebook, Instagram e LinkedIn para descobrir informações sobre o autor do post e sobre o médico Modesto Jacobino. Na página de Facebook do homem que fez a postagem, cujo nome é Leandro de Jesus, descobrimos um número de telefone e um email. Enviamos mensagem em suas redes sociais, mas não obtivemos retorno. No Google, encontramos o telefone de um escritório de advocacia com o nome do autor da postagem, mas ao ligar, uma gravação avisava que o número não está disponível.

Tentativas de contato com Dr. Modesto Jacobino também foram feitas via Facebook, em sua página pessoal e profissional, mas as mensagens não foram respondidas.

Também usamos o Google para encontrar reportagens sobre as vacinas chinesas que estão sendo testadas no Brasil e sobre o medicamento russo que ganhou destaque recentemente. A ferramenta de busca serviu também para descobrirmos que a foto original usada no boato estava fora de contexto. Confirmamos com a assessoria do governo baiano que a imagem é de setembro de 2017.

Por fim, ouvimos o professor de bioética da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Alcino Bonella, e o médico infectologista da Comissão de Covid-19 da Secretaria Municipal de Ibirité, Leandro Curi, em Minas Gerais. Os especialistas refutaram a afirmação feita por Modesto Jacobino.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de agosto de 2020.

Verificação

A página de Facebook que critica a testagem da vacina chinesa em humanos reproduz uma afirmação do urologista Modesto Jacobino, da clínica Lithor Center, em Salvador. A declaração foi retirada de uma matéria do site Farol da Bahia. Jacobino diz que, como médico, tem “papel de conscientizar a população sobre os riscos de se submeter a testagem de vacinas contra a covid-19” e questiona: “Não é ético e nem humano. Ao tomar a vacina, o indivíduo vai receber o vírus para se verificar a imunidade. Como desenvolver uma doença nas pessoas que não tem nenhum medicamento e tratamento?”

Em julho o médico já havia defendido no mesmo portal o uso precoce de azitromicina, ivermectina e hidroxicloroquina para tratar covid-19, alegando que “não tem tempo a perder com Lancet [revista científica] e OMS”. A Organização Mundial da Saúde interrompeu as pesquisas com cloroquina e hidroxicloroquina após concluir que elas não têm eficácia no tratamento da doença.

A azitromicina é um antibiótico e não tem comprovação científica contra covid-19, apenas é prescrita de maneira experimental no tratamento do novo coronavírus. Sobre a ivermectina, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ressalta que “não existem estudos conclusivos que comprovem o uso desse medicamento para o tratamento da covid-19, bem como não existem estudos que refutem esse uso”.

Conforme a OMS, não há, até o momento, tratamento efetivo ou drogas comprovadas contra o novo coronavírus. Essa posição é ratificada por autoridades sanitárias como Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Quais são as vacinas testadas no Brasil?

Existem duas vacinas chinesas em teste ou com previsão de testagem no Brasil. No dia 21 de julho, iniciou em São Paulo a fase de testes da CoronaVac, criada pelo laboratório Sinovac Biotech. A estimativa do governo do estado é testá-la em um grupo de 9 mil voluntários. A vacina teve sucesso em estudos clínicos e avançou para a testagem em humanos. Conforme divulgou a OMS, o medicamento está na terceira etapa de testes.

O Instituto Butantan, órgão do governo de São Paulo, confirmou que há possibilidade de iniciar a vacinação contra o novo coronavírus em janeiro de 2021. Isso porque foi fechado um acordo com a farmacêutica chinesa para testar e produzir em larga escala a vacina. Outras cinco unidades da federação também participam desta fase da pesquisa: Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Distrito Federal.

O imunizante que pode ser testado na Bahia é do Grupo Farmacêutico Nacional da China (Sinopharm), que fechou parceria com o governo do Paraná. A expectativa é de que seja assinado um protocolo de cooperação entre o governo baiano e a empresa em breve. Contudo, para validar o acordo, é necessária a aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) da Anvisa. Se validada a parceria, testes devem começar em setembro.

Foram desenvolvidas duas versões do fármaco pela estatal chinesa usando material genético desativado do vírus. As versões já estão sendo testadas desde julho nos Emirados Árabes, em um estudo com 15 mil participantes. A razão dos experimentos fora da China é que o país tem atualmente poucos casos da doença. O Paquistão também deve receber doses.

Além do acordo com a China, houve também uma articulação com a embaixada da Rússia no dia 30 de julho. Em uma videoconferência com o chanceler russo, Sergey Akopov, e o secretário de Saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas, foi discutida uma possível parceria entre os centros científicos russos e as instituições de pesquisas baianas para a testagem da vacina. A possibilidade de incluir outros estados e municípios também foi discutida. A Sputnik V, segundo o presidente Vladimir Putin, seria primeira vacina contra covid-19. Conforme a agência de notícias russa Interfax, a dose passou nos testes necessários e a vacinação será “exclusivamente voluntária”. Porém, a comunidade científica alega que a substância não está dentro das especificações adequadas e a vê com ceticismo.

O que dizem os especialistas?

Ao contrário da declaração feita pelo urologista da Bahia, o infectologista da Comissão de covid-19 da Secretaria Municipal de Ibirité (MG), Leandro Curi, não enxerga a possibilidade da testagem de vacinas causar mal às pessoas.

Ele explica que há três tipos de vacina. Uma é feita com fragmentos do vírus morto. Outra é produzida a partir do vírus atenuado, com menor capacidade de infecção. É o caso das vacinas para febre amarela e o sarampo, por exemplo. O terceiro tipo usa recombinação genética, ou seja, tipos diferentes de vírus são combinados para produzir a vacina — é o caso da vacina contra o SARS-CoV-2 que está sendo desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca.

“O que é uma vacina? Nada mais, nada menos que um truque que a gente faz no nosso organismo. A gente injeta o antígeno, ou seja, o germe agressor — inteiro, fraco ou uma parte genética dele — e engana nosso sistema imunológico para ele criar os anticorpos, que seriam a defesa contra aquele agressor. (…) Ao entrar no corpo já vai ter a defesa armada”, explica o infectologista.

O médico também esclareceu sobre o processo que ocorre quando vacinas ou medicamentos estão em fase de teste. Segundo ele, são desenvolvidas fórmulas e moléculas até que se chegue à molécula efetiva, considerada o resultado final. O processo é feito durante meses ou anos em diferentes fases de teste, que acontecem primeiro in vitro, depois com animais e só então são feitos estudos com seres humanos, em que cada vez mais pessoas recebem a dosagem para garantir que a vacina é eficaz e segura.

O Comprova também entrou em contato com o professor de bioética da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Alcino Bonella, para comentar sobre como a medicina tem lidado com o fato de as vacinas serem testadas em humanos. O professor argumenta que não faz sentido apontar o procedimento adotado como antiético e desumano. “Vacinas não existiriam, e ainda não podem existir, sem testes em pessoas. Os testes podem ser, e em geral são, feitos de maneira ética e humana (respeitando o consentimento livre e esclarecido dos participantes e com ponderação do menor risco)”, explica.

Bonella acrescenta que antiético seria desincentivar testes sob o risco de não ter vacinas. “Só podem ser feitos com avaliação prévia dos dados e projetos e aprovação prévia pela Comissão Nacional de ética na pesquisa (Conep). Pelo que se sabe publicamente, todas essas [vacinas] em andamento no Brasil obtiveram ou estão obtendo tal aprovação antes de se começar os testes”, diz Bonella.

O autor e sua fonte

Na página do Facebook, Leandro de Jesus se descreve como “advogado que é da direita, conservador, também formado em gestão pública, inimigo declarado da esquerda e que fala verdades sem rodeios.” As postagens, basicamente, são de ataque a políticos — como o governador Rui Costa — e em defesa do presidente Jair Bolsonaro.

Em uma busca feita no Google aparece um escritório de advocacia com o nome do titular da pagina.

Leandro é pré-candidato a vereador e se define ainda gestor público.

No dia 13 de maio deste ano, em publicação no Facebook, lamenta que o Aliança Pelo Brasil, partido que o presidente tenta formar, não tenha ficado pronto antes do período eleitoral. Contudo, conseguiu filiação no partido do vice-presidente da República Hamilton Mourão, o PRTB. Além de uma página com quase 90 mil curtidas e mais de 120 mil seguidores no Facebook, o autor do post verificado pelo Comprova tem um blog em que divulga informações sobre a extrema direita.

Por que investigamos?

O Comprova, em 2020, está em sua terceira fase. Neste ciclo, a equipe verifica conteúdos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus. No caso da covid-19, mentiras e boatos que se espalham pelas redes sociais são ainda mais perigosos porque podem custar vidas.

A postagem de Leandro de Jesus, gera desconfiança e tem capacidade de fomentar movimentos que desestimulam voluntários a participar de testes importantes para que se encontre uma vacina capaz de frear o novo coronavírus. Além do mais, desinforma ao usar uma imagem fora do seu contexto e um argumento carente de validade científica e filosófica.

O post feito pelo pré-candidato a vereador no Facebook tinha 2,9 mil reações, 695 comentários e 2,6 mil compartilhamentos até o dia 14 de agosto. O mesmo conteúdo foi encontrado no Instagram com viralização menor.

Enganosos, para o Comprova, são os conteúdos retirados do contexto original e usados em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induzem a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdos que confundem, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2020-08-14

É falso que cloroquina teria salvado 100 mil vidas no Brasil, como diz Bolsonaro

  • Falso
Falso
Ao contrário do que afirma o presidente da República, não há comprovação científica de que a cloroquina e a hidroxicloroquina possam evitar a morte de pessoas com covid-19
  • Conteúdo verificado: Texto publicado pela página Pública Brasil repercute uma fala do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em que ele afirma que é a prova de que a cloroquina funciona contra a covid-19 e afirma que o medicamento teria evitado 100 mil mortes no Brasil.

É falso que o uso da cloroquina poderia ter salvado as mais de 100 mil vidas perdidas no Brasil durante a pandemia do novo coronavírus. A afirmação foi feita pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Não há, no entanto, comprovação científica da eficácia da droga no tratamento da doença.

O teste “Recovery”, feito pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, classificou como “inútil” a utilização da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. Os resultados não mostraram uma diferença considerável na taxa de mortalidade após 28 dias e no tempo em que os pacientes ficaram internados. De cada quatro pacientes que tomaram a medicação, um morreu.

A declaração de Bolsonaro foi feita durante um evento no Pará. Em sua fala, ele chegou a dizer que era “a prova viva que deu certo”. O presidente disse, no dia 7 de julho, que havia sido diagnosticado com covid-19. Em declarações posteriores, afirmou que havia se tratado com cloroquina e hidroxicloroquina.

Bolsonaro disse ter tido sintomas leves da doença. Pacientes com casos assim costumam levar entre uma e duas semanas para desenvolverem anticorpos e se curarem da doença, sem a necessidade de um remédio específico. A média da covid-19 no mundo é de que 80% das pessoas infectadas apresentam sintomas leves ou são assintomáticos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em torno de 14% têm quadros mais severos, que precisam de atendimento ambulatorial. Apenas 6% são casos críticos, de acordo com estudo feito com pacientes da China em fevereiro.

A cloroquina e a hidroxicloroquina são defendidas por Jair Bolsonaro desde o início da pandemia do novo coronavírus. A OMS, no entanto, interrompeu definitivamente seus estudos com a droga após atestar que elas não têm eficácia no tratamento da doença.

Como verificamos?

Com a viralização do texto publicado pela página Pública Brasil, procuramos via Google a declaração de Jair Bolsonaro para saber se era verdadeira e quando foi feita. Os primeiros resultados trouxeram as notícias da revista “Exame” e do portal “UOL”, que deram detalhes de que o discurso havia acontecido em um evento no Pará, no dia 13 de agosto.

Em outras verificações feitas pelo Comprova, encontramos as informações sobre a falta de eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19.

Na sequência, procuramos com a ferramenta CrowdTangle posts que pudessem ter viralizado nas redes sociais.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 13 de agosto de 2020.

Verificação

Jair Bolsonaro

O presidente da República é abertamente defensor do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, mesmo sem comprovação científica. Ele ordenou que o Laboratório do Exército produzisse os medicamentos e a pressão pela adoção das substâncias custou o cargo de dois ministros da Saúde: Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

Em maio, o Ministério da Saúde, já sob a gestão do interino Eduardo Pazuello, alterou o protocolo e ampliou a possibilidade do uso dos medicamentos para pacientes com sintomas leves da covid-19 – até então, elas eram previstas apenas em casos graves e com monitoramento em hospitais.

Na última semana, Bolsonaro participou de uma live ao lado de Pazuello, e voltou a defender o uso das drogas. “Quem não quer tomar cloroquina, não tente proibir, impedir quem queira tomar, afinal de contas, ainda não temos uma vacina e não temos um remédio comprovado cientificamente”, disse.

Cloroquina e hidroxicloroquina

Apesar da propaganda do presidente, não há comprovação científica da eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento ou prevenção da covid-19. A ideia de que as drogas — indicadas para o tratamento da malária e de doenças autoimunes, como lúpus — pudessem ser prescritas para pacientes infectados pelo novo coronavírus surgiu por causa de uma pesquisa de 2005, que indicava efeitos positivos contra outros tipos de coronavírus em laboratório. Mas os testes em humanos nunca aconteceram.

Em março de 2020, já com a pandemia se espalhando pelo planeta, o médico francês Didier Raoult publicou um estudo afirmando que o uso da cloroquina teria curado 75% dos pacientes com covid-19 em seis dias. A pesquisa foi alvo de críticas da revista Science, referência em estudos científicos, e seus resultados foram questionados e considerados incompletos.

Estudos realizados de acordo com o padrão ouro para pesquisa com medicamentos — que exige testes com grupos de controle e o uso de placebos — publicados no Journal of the American Medical Association (Jama) e no British Medical Journal (BMJ) – apontaram que pacientes tratados com cloroquina e hidroxicloroquina não tiveram melhores resultados que aqueles que não receberam os mesmos remédios. Uma pesquisa realizada em 55 hospitais brasileiros e publicada no New England Journal of Medicine (NEJM) chegou às mesmas conclusões.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o National Health Service, do Reino Unido, cancelaram estudos com cloroquina e hidroxicloroquina. E, em julho, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) publicou um informe em que afirma ser “urgente e necessário que a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da covid-19” diante das novas evidências científicas.

O Ministério da Saúde já distribuiu 5 milhões de comprimidos de cloroquina e ainda tem mais 4 milhões em estoque. Enquanto sobra cloroquina, faltam insumos para pacientes internados nas UTIs, como sedativos, anestésicos, analgésicos e bloqueadores neuromusculares. Esses medicamentos são fundamentais para os pacientes em estado grave que precisam ser intubados.

Por que investigamos?

Em 2020, o Comprova está na sua terceira fase. Nesta etapa, a equipe verifica conteúdos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus. No caso da covid-19, mentiras e boatos que se espalham pelas redes sociais são ainda mais perigosos porque podem custar vidas.

O Brasil é o segundo país mais atingido pela pandemia no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. De acordo com dados da Universidade Johns Hopkins, já foram confirmados 3.164.785 casos da doença e 104.201 pessoas morreram.

Mais que uma questão de saúde pública, a covid-19 virou tema de debates políticos no Brasil. Muitos governadores e prefeitos defendem medidas não farmacológicas recomendadas pela OMS, como o distanciamento social, o uso de máscaras e a higiene das mãos. Do outro lado, o presidente Jair Bolsonaro, que defende uma retomada imediata da economia e minimiza os efeitos da doença. Bolsonaro chegou a chamar a covid-19 de “gripezinha”.

O texto sobre a declaração no Pará foi publicado pela página Pública Brasil no dia 13 de agosto e teve 1,6 mil interações em menos de 24 horas. O site se descreve como “independente” e afirma que publica notícias e opiniões “com coragem para críticas isentas doa a quem doer” em seu perfil no Twitter. Mas boa parte do conteúdo repete o discurso de Bolsonaro e seus apoiadores. A Pública Brasil chegou a compartilhar o conteúdo no Twitter e no Facebook, com um alcance bem menor.

O texto da Pública Brasil credita parte das informações sobre o discurso de Bolsonaro ao Pleno News. O site também dá destaque à declaração sobre as 100 mil mortes que teriam sido evitadas com a cloroquina. No perfil do site no Facebook, o texto teve mais de 13,2 mil interações — 1,4 mil comentários, 1,8 mil compartilhamentos e 10 mil reações.

Já o Jornal da Cidade Online trouxe um vídeo com o discurso do do presidente, em que ele diz que é a “prova viva” da eficácia da droga. O conteúdo também viralizou no perfil do site no Facebook, com um total de 1,5 mil interações. Tanto o Jornal da Cidade Online quanto o Pleno News costumam publicar conteúdo favorável às políticas de Bolsonaro e já foram alvo de verificações do Comprova.

O Comprova já verificou diversos conteúdos que defendiam o uso da cloroquina, como estudos sem comprovação científica, textos falando do uso da droga em outros países e declarações polêmicas de médicos. Declarações de Bolsonaro e seus apoiadores sobre a pandemia também já foram checadas.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por:2020-08-13

Senador engana ao usar falas antigas de Drauzio Varella sobre pandemia

  • Enganoso
Enganoso
Trechos de vídeo gravado por Drauzio Varella antes do alastramento da pandemia de covid-19 na Europa e no Brasil foram tirados de contexto por Marcos do Val
  • Conteúdo verificado: Post do senador Marcos do Val (Podemos-ES) no Facebook utiliza trechos de um vídeo gravado no início da pandemia, e que já foi tirado do ar, pelo médico Drauzio Varella para tentar minimizar a gravidade da emergência sanitária.

Um vídeo postado na página de Facebook do senador Marcos do Val (Podemos-ES) engana ao reproduzir trechos de uma fala do médico Drauzio Varella no início da pandemia da covid-19. O vídeo destaca, em um tom irônico, que Varella minimizou a gravidade da emergência sanitária, mas omite que o médico já afirmou publicamente ter subestimado a doença e que, atualmente, se posiciona de maneira contrária.

A postagem do senador não informa que as declarações de Drauzio Varella são de janeiro, quando o epicentro da doença ainda era a China e o segundo país com mais casos tinha apenas 14 infectados. Elas já haviam viralizado em março após o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, publicá-las no Twitter. Naquela oportunidade, a rede social apagou as mensagens de Salles, alegando que as postagens do ministro poderiam colocar a saúde das pessoas em risco.

A publicação do senador Marcos do Val compara as falas com outro vídeo publicado por Varella em março, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia reconhecido a doença como uma pandemia e, no Brasil, o Ministério da Saúde anunciava transmissão comunitária do vírus — isto é, ele já circulava livremente em território nacional.

Como verificamos?

Para apurar a publicação do senador Marcos do Val fizemos, em primeiro lugar, uma busca reversa por imagens no Google. Por meio da pesquisa, localizamos um vídeo de autoria do site Programa Resumo do Dia, postado no YouTube em março — mesmo mês em que um pronunciamento de Drauzio Varella sobre a pandemia foi tirado de contexto e viralizou nas redes sociais.

Recuperamos verificações que outras agências fizeram naquele momento para checar se o vídeo postado pelo senador teria alguma relação com o conteúdo que viralizou em março. Além disso, contatamos as assessorias de Drauzio Varella e do senador Marcos do Val.

Procuramos, ainda, o site responsável pelo vídeo, que até o fechamento desta verificação não retornou o contato.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 13 de agosto de 2020.

Verificação

O primeiro vídeo

O vídeo compartilhado pelo senador Marcos do Val é, na verdade, uma edição com trechos pinçados de duas gravações antigas, postadas por Drauzio Varella em seu canal no YouTube. A mais antiga é a que aparece do lado direito na postagem do senador. Nela, Varella tenta tranquilizar as pessoas sobre o novo coronavírus com frases como “claro que vou (continuar andando na rua)”. As declarações, porém, foram dadas quando a doença estava em um estágio muito inicial.

O vídeo havia sido publicado em 30 de janeiro, praticamente um mês antes de o Brasil confirmar o primeiro caso da doença. Naquela data, a AFP informou existirem 7,7 mil pessoas contaminadas em todo o mundo e a China ainda era o epicentro da doença. O segundo país com mais casos até então era a Tailândia, com 14 pessoas infectadas.

Essas declarações do médico viralizaram pela primeira vez no dia 22 de março, quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o senador Flávio Bolsonaro compartilharam o conteúdo sem especificar a data em que ele foi gravado. A manifestação levou a equipe de Drauzio Varella a retirar o vídeo do ar. O Twitter apagou as mensagens de Salles e o ministro pediu desculpas publicamente, afirmando que não tinha o objetivo de desinformar, mas de “demonstrar que o tema é dinâmico, complexo e comporta discussões e opiniões distintas”.

O segundo vídeo

Um dia depois, em 23 de março, Drauzio publicou no YouTube o segundo vídeo usado na postagem de Do Val, o que aparece do lado esquerdo. Em trechos excluídos da publicação do senador, o médico afirma que não é hora de “politizar” a questão e afirma que é necessário seguir as orientações da ciência. Quando esse segundo vídeo foi gravado, o cenário da covid-19 se agravava no Brasil e no mundo.

Poucos dias antes, em 20 de março, o Ministério da Saúde havia anunciado a existência de transmissão comunitária do SARS-CoV-2 no Brasil. Ou seja, a partir daquele momento, o vírus estava circulando livremente no país e não era mais possível identificar a origem das infecções. O Brasil tinha, até então, 904 casos confirmados e 11 mortes pela covid-19. No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde havia declarado uma pandemia em função da “disseminação geográfica rápida” da doença em uma “escala de tempo muito curta” com “níveis alarmantes de contaminação” e “falta de ação dos governos”.

Até a data de publicação do segundo vídeo, 353 mil pessoas em todo o mundo haviam sido diagnosticadas com o novo coronavírus e 15 mil pessoas já haviam morrido de covid-19, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. Esse número é 43,5 vezes maior do que o registrado em 30 de janeiro, quando Drauzio publicou o primeiro vídeo.

O que Drauzio Varella diz

Em março, quando autoridades postaram o vídeo pela primeira vez, o portal Drauzio Varella publicou uma nota classificando as publicações como “desserviço”. “No início deste ano, a pandemia não havia chegado ao Brasil, portanto, produzimos conteúdo para acalmar a população que, à época, não tinha motivos para alterar o ritmo de vida diário”, explica o texto. Segundo a nota, a mudança de tom nos vídeos se deve à “mudança drástica” na situação da pandemia. “Orientações antigas não servem para este momento”, argumenta o texto.

Em abril, em entrevista ao UOL, o médico admitiu ter subestimado a gravidade da doença em âmbito mundial. “Não só eu, muitos [especialistas] subestimaram o que estava acontecendo. E o que aconteceu é que nenhum país se preparou no Ocidente. A Itália não se preparou, a Espanha não se preparou, os Estados Unidos não se prepararam”, afirmou Drauzio na ocasião.

A assessoria do médico destacou, em e-mail enviado ao Comprova, que — em se tratando de ciência — a mudança de posicionamento é natural. “É justamente assim que a ciência funciona. Fazendo deduções embasadas no conhecimento científico prévio, testando hipóteses, descobrindo que deduções anteriores estavam equivocadas, identificando onde está o equívoco e corrigindo”, afirma.

A nota ressaltou ainda que, na época, a opinião de Drauzio sobre a covid-19 era a mesma de outras autoridades médicas, como do infectologista americano Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos. “Em janeiro, a doença não havia chegado àquele país, e só nos últimos dias daquele mês chegaria à Itália. Foi a situação italiana que tornou mais evidente para o mundo o potencial da doença”, argumenta.

Em relação à postagem do senador Marcos do Val, a assessoria considera que os trechos dos vídeos do médico foram usados de maneira indevida, e reitera que tirá-los do contexto é um “desserviço” à saúde. A nota afirma ainda que “tal conduta mostra que o compartilhamento é feito por alguém que, nitidamente, tem pouco ou nenhum conhecimento sobre ciência, ou tem propósitos que desconhecemos”.

Quem é e o que diz Marcos do Val

Marcos do Val foi eleito senador pelo Espírito Santo em 2018, e cumpre atualmente seu primeiro mandato. Ex-militar, o parlamentar é vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional e titular de outras sete comissões no Senado.

Segundo informações do jornal Folha de S.Paulo, o senador destinou a municípios do Espírito Santo mais de R$ 10 milhões para a compra de medicamentos sem comprovação científica para a cura ou a prevenção do coronavírus — como a ivermectina, azitromicina e hidroxicloroquina (todos já foram objeto de verificações do Comprova). Os recursos advieram da portaria 1.666/20, por meio da qual o governo federal concedeu R$ 13,8 bilhões para ações de enfrentamento à pandemia.

Procurado pelo Comprova, o senador afirmou que, em ambos os vídeos, a fala comprovadamente é de Drauzio Varella. Segundo Do Val, ninguém falou pelo médico ou forjou o vídeo. “Se o médico, que é uma pessoa pública e sabe das suas responsabilidades perante a sociedade, fez mesmo assim os vídeos e depois achou conveniente ‘retirar’ do ar, não significa que não seja verdadeiro, portanto não compreendemos o seu questionamento”, afirmou o senador, por meio de nota.

Recentemente, o senador esteve envolvido em outro caso de promoção de desinformação nas redes sociais. No dia 6 de agosto, a Justiça do Rio de Janeiro ordenou, em decisão liminar, que Do Val excluísse publicações consideradas ofensivas e difamatórias contra o ex-deputado Jean Wyllys (PSOL). Nas postagens, o senador relacionou, sem apresentar qualquer prova, Wyllys a Adélio Bispo — que cometeu um atentado contra o presidente Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos sobre a pandemia de covid-19 que tenham viralizado nas redes sociais. É o caso desse vídeo, que teve mais de 53 mil interações na página do senador Marcos do Val no Facebook e 28.887 visualizações no Youtube. O conteúdo tem sido compartilhado em páginas de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nas redes sociais, segundo dados da ferramenta CrowdTangle.

Verificações como esta são importantes porque o compartilhamento de conteúdos enganosos ou fora de contexto sobre a pandemia de covid-19 pode levar as pessoas a avaliarem mal o risco de infecções, e fazer com que elas se exponham a contaminação. O fato de o médico Drauzio Varella ser conhecido nacionalmente é um agravante nesse contexto.

Desde o início da pandemia, mais de 20,7 milhões de pessoas em todo o mundo foram diagnosticadas com o novo coronavírus. Dessas, 751,4 mil faleceram em decorrência da covid-19, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. No Brasil, o Ministério da Saúde já registrou mais de 3,1 milhões de infectados e 104,2 mil óbitos pelo Sars-CoV-2.

Quando o vídeo com as falas do médico Drauzio Varella viralizou pela primeira vez, em março, a AFP, a Folha de S.Paulo, o Estadão Verifica e a Agência Lupa classificaram o conteúdo como enganoso ou fora de contexto.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado ou o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Pandemia

Investigado por:2020-08-13

É falso que João Doria tomou vacina chinesa contra a covid-19

  • Falso
Falso
Ao contrário do que escreveu no Twitter um pré-candidato a vereador, o governador de São Paulo, que está com coronavírus, não tomou a vacina da farmacêutica Sinovac Biotech, que ainda está em testes
  • Conteúdo verificado: Uma postagem feita no Twitter por Carmelo Neto, pré-candidato a vereador em Fortaleza (CE), insinua que João Doria tomou a vacina chinesa contra o novo coronavírus ao afirmar “João Doria pegou coronavírus. Não foi ele que tomou e defendeu a vacina chinesa?”.

É falso que João Doria (PSDB), governador de São Paulo, tenha tomado a vacina chinesa CoronaVac, da farmacêutica Sinovac Biotech. O boato foi publicado por Carmelo Neto (Republicanos), pré-candidato a vereador em Fortaleza (CE), no Twitter, no Facebook e no Instagram.

O post foi feito depois de Doria ter anunciado que foi diagnosticado com a covid-19. Ao insinuar que o governador já havia sido vacinado, Neto levantou dúvidas sobre a contaminação e sobre a eficácia da proteção.

Pelo Twitter, João Doria chamou de “fake news” as insinuações de que teria tomado a vacina. “Estou indignado com posturas extremistas e mentirosas, que em nada contribuem para o combate à pandemia. Lamentável que uma minoria tente politizar algo que pode salvar milhões de vidas. O Brasil precisa de união e compaixão”, escreveu.

O Comprova já verificou um vídeo falso que supostamente mostrava João Doria tomando a vacina chinesa contra a covid-19. A imagem, na verdade, era de uma reportagem da Globo, em março, quando o governador tomou a vacina anual da gripe.

Em contato por mensagem com o Comprova, Carmelo disse ter feito um questionamento. “O governo de São Paulo iniciou os testes com a vacina chinesa e algumas imagens do governador João Doria, como se estivesse em uma fila, circularam na internet. Fiz a postagem em tom de questionamento.”

A vacina da Sinovac ainda está em fase de testes. A farmacêutica chinesa está trabalhando em parceria com o governo paulista e o Instituto Butantan. A expectativa de Dimas Covas, diretor do órgão, é de que a vacinação no Brasil comece em janeiro do próximo ano, caso os testes comprovem a eficácia da imunização.

Como verificamos?

No primeiro passo de verificação, o Comprova procurou por notícias envolvendo a vacina chinesa. Os resultados mostraram uma entrevista de Dimas Covas para a revista “Veja” em que fala sobre as 15 milhões de doses que chegarão ao país até o fim do ano. Em outra entrevista, para a “Folha de S.Paulo”, o diretor do Butantan afirma esperar que os testes se encerrem em setembro.

Por meio de outras verificações feitas pelo Comprova, encontramos as explicações para as informações falsas que estavam no post, envolvendo uma suposta vacinação de João Doria.

Tentamos contato com Carmelo Neto por dois números de telefone, sendo um deles o divulgado pelo pré-candidato em seu Facebook. Realizamos uma entrevista por mensagem.

 

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 12 de agosto de 2020.

Verificação

Vacina chinesa

O Estado de São Paulo é parceiro nas pesquisas com a CoronaVac, da farmacêutica chinesa Sinovac Biotech. No fim de julho, o governador João Doria (PSDB) anunciou a chegada de 20 mil doses que seriam usadas no estudo experimental, comandado no país pelo Instituto Butantan.

O último teste que será realizado, o chamado “ensaio clínico”, envolverá 9 mil voluntários em 12 de centros de pesquisa de seis estados (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Distrito Federal). O Instituto Butantan espera até setembro vacinar todos os voluntários e ter a demonstração de eficácia entre outubro e novembro.

“Se a gente terminar a inclusão dos 9 mil até setembro, e esse é o plano, é grande a probabilidade de termos em outubro ou novembro a demonstração de eficácia. Paralelamente, existe uma manifestação da Anvisa de que haverá um processo acelerado de análise. Quando eu falo que podemos ter de fato uma vacinação inicial em janeiro, ela não é fora da análise crua do cenário”, disse Dimas Covas, diretor do Butantan.

Apesar da expectativa de Dimas Covas, a revista “Piauí” mostrou que o acompanhamento dos voluntários que participam dos testes só terminaria em outubro de 2021. A data é estimada pelo próprio Instituto Butantan, que afirmou que as declarações de Covas e Doria “traduzem a expectativa positiva dos pesquisadores”.

Covas disse que a previsão é de que as 15 milhões de doses iniciais da vacina cheguem a São Paulo até dezembro deste ano. Os lotes seriam enviados em grupos de 5 milhões por mês, a partir de outubro, já prontos para uso. A expectativa do governo paulista é de iniciar a vacinação em janeiro do ano que vem.

A vacina da Sinovac foi uma das que tiveram sucesso nos estudos clínicos e avançaram para a testagem em humanos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a vacina chinesa está na terceira etapa de testes.

Recentemente, o Comprova mostrou ser falsa a afirmação de que João Doria teria firmado uma parceria com a Sinovac no ano passado, antes do início da pandemia. A assinatura do contrato foi feita em 10 de junho de 2020.

Carmelo Neto

Filiado ao Republicanos, Carmelo tem 18 anos e é pré-candidato a vereador em Fortaleza. Ativista nas redes sociais desde a campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff, foi coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL) e hoje defende as políticas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). No Facebook, possui 264 mil seguidores; no Twitter, 120 mil; e no Instagram, 108 mil. Após ser procurado pela reportagem, Carmelo deletou as postagens no Facebook e no Instagram, mas manteve a do Twitter, até o fechamento deste texto.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos que apresentam informações suspeitas sobre a pandemia do novo coronavírus e alcançam um grande número de pessoas nas redes sociais. É o caso da postagem em questão. Até a data da publicação da verificação, menos de doze horas após as postagens no Twitter e no Facebook nas páginas de Carmelo, já superavam 5 mil compartilhamentos. A postagem ainda foi reproduzida no seu Instagram, com mais de 2 mil interações.

Falso para o Comprova é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Pandemia

Investigado por:2020-08-13

Texto leva a conclusão equivocada ao ignorar ineficiência de medidas defendidas por Bolsonaro na pandemia

  • Enganoso
Enganoso
Publicação diz que o presidente da República não pode ser responsabilizado pelas mortes por covid-19 porque medidas defendidas por ele não foram adotadas, mas não há comprovação científica de que essas ações tenham eficiência contra a pandemia
  • Conteúdo verificado: Publicação em um perfil no Facebook e replicada por site afirma que ações defendidas pelo presidente Bolsonaro no combate à pandemia não foram implementadas e, logo, não é possível culpar o mandatário pelas mortes e o avanço da doença, que soma mais de 103 mil óbitos.

Um perfil de Facebook que usa o nome Bituca Von Wittgenstein alega que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não pode ser responsabilizado pelas mortes decorrentes da pandemia porque medidas defendidas por ele, como isolamento vertical e tratamento precoce com cloroquina e azitromicina, não foram colocadas em prática. O texto leva a conclusões enganosas já que dois dos três pontos levantados pelo post não têm eficiência comprovada contra a covid-19.

Em conversa com o Comprova, o titular do perfil afirmou: “Que o presidente teve esse posicionamento que eu escrevi no texto, ele teve; se ele é bom ou ruim, são outros 500, não fiz esse juízo de valor. Então, não existe a possibilidade, na minha concepção, de se falar em qualquer tipo de fake news em relação ao posicionamento dele”.

O perfil fez a postagem às 8h45 do dia 10 de agosto. O site Jornal da Cidade Online publicou o material 25 minutos depois como artigo de opinião. O texto viralizou rapidamente.

Como verificamos?

A primeira ação do Comprova para verificar o conteúdo foi tentar descobrir quem era o autor das postagens. Para isso, foram enviadas mensagens ao perfil de Bituca Von Wittgenstein no Facebook. Por meio de informações coletadas na rede social e pesquisa no LinkedIn, foi possível encontrar o responsável..

O Jornal da Cidade Online também foi contatado – o Comprova conversou, com seu editor, José Tolentino, por e-mail.

Também buscamos contato com algum especialista que pudesse elucidar melhor as informações técnicas da postagem. Naomar de Almeida Filho, epidemiologista, professor titular de epidemiologia do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) trouxe esclarecimentos sobre o isolamento vertical.

Foi utilizado o buscador Google para encontrar reportagens publicadas na imprensa e documentos públicos sobre tratamentos para covid-19, ações do governo federal para barrar a contaminação, a relação do presidente Jair Bolsonaro com prefeitos e governadores em tempos de pandemia e a atuação do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que é citado num terceiro ponto do texto.

Acionamos, via WhatsApp, o jornalista Milton Cardoso, que na noite do dia 10 de agosto – mesma data da postagem de Bituca Von Wittgenstein, publicada de manhã – fez um comentário com informações similares às do post no programa Band Cidade RS. A fala do comunicador gaúcho, inclusive, foi compartilhada nas redes sociais do presidente Jair Bolsonaro.

Usamos as ferramentas TweetDeck e CrowdTangle para monitorar o desempenho da publicação de Bituca Von Wittgenstein nas redes sociais.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 12 de agosto de 2020.

Verificação

O autor do texto

A página de Bituca Von Wittgenstein no Facebook tem a foto de um cão com a legenda “Bolsonaro tem meu apoio” e o presidente na imagem de capa. É apresentada como “Um cachorro defensor da moral e dos bons costumes. Odeio banho e petista!”. Já o sobrenome é o mesmo de Ludwig Wittgenstein, um dos principais filósofos do século XX.

Bituca publica fotos do cachorro e posts sobre política. Só em agosto, minimizou a gravidade de pandemia, insultou uma jornalista e criticou bolsonaristas que postam conteúdos falsos.

No dia 4 de agosto, o perfil publicou um post sobre a criação de uma página no Facebook em parceria com dois amigos. Ao clicar no link deste outro perfil, há um post do mesmo dia dando boas-vindas. No final, três pessoas assinam a publicação: duas são as mesmas citadas como amigas de Bituca e, a terceira, é “Fernando Vaisman (Bituca)”. Fazendo uma busca pelo nome no Google, aparece uma página no LinkedIn com a foto do mesmo homem que está em posts do perfil de Bituca como o dono do cãozinho. Segundo o LinkedIn, ele é sócio-diretor da empresa e formado em direito.

Em uma busca no Google pelo nome da empresa informada no LinkedIn, foi possível encontrar um número de telefone, que o Comprova confirmou ser o de Vaisman ao falar com ele por WhatsApp.

Lockdown não é eficaz?

O post afirma: “O presidente era contra o lockdown. Defendia o isolamento vertical desde o início. A vontade do presidente foi ignorada por prefeitos, governadores e pelo STF e, assim, cada um faz o que acha melhor, mesmo que as decisões sejam completamente incoerentes e absurdas”.

Mas, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o lockdown é uma das poucas formas conhecidas de combate ao novo coronavírus. Em 1º de abril, Michael Ryan, diretor-executivo do Programa de Emergências da entidade, afirmou: “Além das medidas de lockdown, precisamos de estratégias abrangentes baseadas em vigilância, em intervenção de saúde pública, detecção de casos, testagem, isolamento, quarentena, e fortalecer nossos sistemas de saúde para absorver o golpe”.

Já em 20 de julho, um tuíte da organização assinado por seu diretor-geral, Tedros Adhanom, informou: “Como dissemos várias vezes, as chamadas medidas de lockdown podem ajudar a reduzir a transmissão da covid-19, mas não podem pará-la por completo” e cita o rastreamento de contatos como essencial para isolar os casos.

Em uma análise do isolamento vertical (que isola apenas os grupos de risco e é defendido por Bolsonaro) publicada no Nexo, em 25 de março, Eduardo Flores, virologista e professor do curso de medicina veterinária da Universidade Federal de Santa Maria, diz que o presidente “está na contramão de milhares de autoridades sanitárias e cientistas de todo mundo”.

O Reino Unido, assim como o Brasil, foi um dos países que minimizaram o perigo do vírus, com seu premiê recomendando, no início de março, que “a grande maioria” dos cidadãos continuassem tocando seus negócios “como sempre”. Mas, em 23 de março Boris Johnson decretou o lockdown. A situação do país estava tão grave que a rainha Elizabeth 2ª defendeu medidas de confinamento social em um pronunciamento. Até o fechamento deste texto, o país, de 66,65 milhões de habitantes, contabilizava 46.791 mortes, segundo a Johns Hopkins University.

A Suécia adotou o isolamento vertical e teve a mais alta taxa de letalidade entre os países nórdicos. Foram 5.774 mortes para 10,2 milhões de habitantes. Por outro lado, Dinamarca e Noruega, que instauraram o lockdown e têm, somados, 11,2 milhões de habitantes, tiveram menos de 900 óbitos.

Entre os países que adotaram o isolamento vertical e obtiveram bons resultados está a Coreia do Sul, que aliou a medida a outras estratégias, como testagens em massa e utilização de tecnologia para rastrear a movimentação dessas pessoas. Foram 305 óbitos em uma população de 51,6 milhões de pessoas.

Já a Nova Zelândia, que, entre outras ações, decretou o lockdown rapidamente após o primeiro caso de contágio, em 28 de fevereiro, é um dos países mais bem-sucedidos no combate à pandemia. Estava há 102 dias sem novos casos de transmissão local até que em 11 de agosto anunciou quatro infecções de origem desconhecida em Auckland. Com isso, a primeira-ministra do país, Jacinda Ardern, impôs um confinamento à cidade. No total, foram 1.579 casos de covid-19 confirmados e 22 mortes no país.

O Comprova questionou Vaisman sobre os bons resultados obtidos na Nova Zelândia com a adoção das políticas rígidas de isolamento. Ele acredita que há uma série de desinformações” sobre outros países e que “ninguém sabe efetivamente o que aconteceu em cada país”.

Recurso inválido

Segundo o epidemiologista Naomar de Almeida Filho, que publicou em maio um artigo sobre o isolamento vertical na página oficial da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a medida é um recurso cientificamente inválido. “Em mais de 40 anos como professor e pesquisador em epidemiologia, nunca soube da existência dessa proposta. Com outros epidemiologistas, fiz uma busca cuidadosa na literatura médica e científica e nada encontrei”, afirmou o médico em entrevista ao Comprova.

Almeida Filho complementou que o isolamento vertical não é um conceito no campo da saúde coletiva nem no campo da medicina: “Por isso, eu o chamei de fraude pseudocientífica. Nunca foi proposto seriamente e, portanto, nunca foi usado para controlar epidemias no passado. Foi uma invenção de um consultor de negócios. Influenciado por conselheiros, Donald Trump mencionou essa ideia e, quase imediatamente, Bolsonaro adotou o isolamento vertical como política de governo.”

E continua: “Essa ideia fomenta a livre circulação dos contaminantes, buscando uma criminosa imunidade de rebanho, o que facilita o contágio e impede o bloqueio do processo epidêmico. O próprio Bolsonaro, e muitos seguidores, encorajaram a quebra de medidas de distanciamento”.

De acordo com o epidemiologista, isso trouxe como resultado “uma pandemia fora de qualquer controle. (…) Esperavam um pico, mas temos um platô, com média de mil mortes por dia, sem expectativa de redução da transmissão.”

A relação com prefeitos e governadores

A relação entre os governos federal, estaduais e municipais tem sido conflituosa no combate à pandemia. Em abril, Jair Bolsonaro disse, ao não encontrar consenso com governantes sobre o isolamento vertical, que poderia resolver a situação com uma canetada.

No mesmo mês, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), definiu que governos estaduais e municipais teriam autonomia para determinar o isolamento social. Chegou a circular nas redes sociais a informação falsa de que o Supremo teria afastado Bolsonaro do controle da covid-19. A mensagem foi desmentida em verificações da Agência Lupa e do Estadão Verifica.

Em junho, Bolsonaro usou o Twitter para criticar a adesão ao distanciamento social, afirmando que as medidas de combate à pandemia são determinadas por governadores e prefeitos.

Contudo, em julho, o presidente reconheceu que medidas de governadores e prefeitos “sempre visaram retardar contágio” da covid-19.

Em 8 de agosto, já com a marca de 100 mil mortes por covid-19, Bolsonaro enviou a parlamentares um relatório em que listava governadores e prefeitos dos locais com o maior número de novos óbitos e novos casos da doença. Em uma tentativa de se eximir das críticas pela condução do enfrentamento à doença, o chefe do Planalto atribuiu a responsabilidade pelo crescimento da pandemia aos gestores estaduais e municipais.

A azitromicina e a cloroquina

No segundo item da postagem, o perfil de Bituca assinala que “o presidente defendia desde lá atrás o tratamento precoce com cloroquina e azitromicina. Até agora há gente discutindo isso e criando problemas para o tratamento”. O responsável pela conta, Fernando Vaisman, justifica a declaração argumentando que o uso desses fármacos deve ser decisão do médico e do paciente, e que há diferença de tratamentos na rede pública ou privada. “Tenho casos de familiares que acabaram contraindo e quando foram ao médico, foi receitado azitromicina e hidroxicloroquina. Na rede pública, isso demorou muito para conseguir ser receitado, em especial para o tratamento precoce”, afirmou ao Comprova.

Ele complementou: “Ninguém está falando que tem que tomar hidroxicloroquina a torto e a direito, mas, a partir do momento que você adota isso como protocolo da rede pública, você permite ao médico receitar esse medicamento”.

Em 20 de maio, o Ministério da Saúde, já tendo como ministro interino o general Eduardo Pazuello, passou a orientar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no “tratamento medicamentoso precoce” de pacientes com o novo coronavírus, mas ressaltou que “ainda não há meta-análises (…) que comprovem o benefício inequívoco dessas medicações para o tratamento da covid-19”.

A azitromicina é um medicamento eficaz para o combate a bactérias e não tem ação documentada contra vírus, como o SARS-CoV-2. A droga é prescrita, de forma experimental e associada à hidroxicloroquina, a pacientes infectados com o novo coronavírus. Além disso, de acordo com a OMS, não há, até o momento, tratamento efetivo ou drogas comprovadas contra o novo coronavírus. Essa posição é ratificada por autoridades sanitárias como Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Questionado sobre o uso dessas medicações, o epidemiologista Naomar de Almeida Filho afirmou: “No caso da cloroquina, inclusive, há efeitos colaterais fatais. Isso é irresponsabilidade.”

As orientações do Ministério da Saúde

No terceiro item, Vaisman afirma: “O ministro da Saúde original (Mandetta) pregava que só se deveria ir ao hospital quando o paciente estivesse com falta de ar, o que só (sic) mostrou extremamente equivocado, já que, nesse caso, já há comprometimento dos pulmões e a chance de cura cai drasticamente. O ministro atual prega o tratamento precoce”.

De fato, durante a gestão de Luiz Henrique Mandetta, que ficou no cargo até 16 de abril, a cartilha divulgada pelo Ministério da Saúde com orientações sobre o novo coronavírus recomendava que só fosse procurado “um hospital de referência se estiver com falta de ar”. No caso de pacientes com apenas sintomas de gripe, a orientação era ficar em casa por 14 dias e seguir os conselhos da pasta para o isolamento domiciliar.

A falta de ar é indicativo de um quadro mais grave, que necessita de cuidados médicos – mas essa não é a maioria dos casos. Segundo um estudo da OMS de fevereiro, cerca de 80% das pessoas com covid-19 manifestam sintomas leves e acabam se curando em casa. Em torno de 14% têm quadros mais severos, que precisam de atendimento ambulatorial. E apenas cerca de 6% têm casos críticos.

Nesse sentido, a justificativa da orientação do Ministério da Saúde era evitar que o sistema de saúde ficasse sobrecarregado. Isso vale especialmente para o sistema de saúde público, responsável por atender três quartos da população brasileira. Além disso, a orientação visava diminuir os riscos de contaminação pelo novo coronavírus dentro dos próprios hospitais e postos de saúde, que poderiam ter aglomerações em filas ou salas de espera.

Essa foi a recomendação da pasta desde o início da pandemia, decretada em março pela OMS. Em julho, já sob a gestão do ministro interino da Saúde Eduardo Pazuello, o governo federal mudou a orientação, sugerindo às pessoas buscar assistência já nos primeiros sinais, como febre e tosse. O principal argumento foi aliviar a ocupação de UTIs.

A mudança coincide com a ampliação do uso da cloroquina para casos leves de covid-19, seguindo a agenda do presidente Jair Bolsonaro. O atendimento preventivo proposto pelo Ministério da Saúde propõe o uso desse medicamento e de seu derivado, hidroxicloroquina. Porém, no início de julho, a OMS retirou a cloroquina de seus testes científicos definitivamente. A entidade afirmou que o medicamento não resultou em “nenhuma redução da mortalidade de pacientes internados com covid-19 quando comparados ao padrão de atendimento”. Essa posição é ratificada por autoridades sanitárias como Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A viralização

No dia 10 de agosto, à noite, no programa Band Cidade RS, principal telejornal da rede no Rio Grande do Sul, o comentarista Milton Cardoso fez um comentário com informações bastante similares às do post de Bituca Von Wittgenstein, que já tinham sido republicadas pelo Jornal da Cidade pela manhã.

“O presidente Bolsonaro sempre foi contra o famoso lockdown. Defendia o isolamento vertical desde o início. A vontade do presidente foi ignorada por decisão do STF, com apoio da ‘Rede Goebbels’, repassada para prefeitos, governadores, com decisões incoerentes e absurdas. (…) Veja você, telespectador, Jair Bolsonaro defendia desde o início o tratamento precoce com azitromicina, hidroxicloroquina. Com 100 mil mortos agora, grande número de prefeitos e governadores decidiram colocar a medicação à disposição da população. (…) Tem gente que reclama do ministro da Saúde, mas o ministro da Saúde, o marqueteiro Mandetta, lembram? Pregava que o paciente só procurasse o hospital quando estivesse com falta de ar, o que provocou com certeza o comprometimento de pacientes que poderiam ter evitado a hospitalização, UTIs e óbitos. A pergunta que não quer calar, meus amigos Lúcia e Sérgio [âncoras do jornal]: se o que o presidente pregava e prega nunca foi praticado, como é que ele pode ser responsabilizado pelas mortes?”, afirmou Cardoso.

Entramos em contato com Cardoso via WhatsApp para entender se ele havia utilizado como fonte o post de Bituca e ele respondeu: “Nunca tive qualquer contato. Não uso redes sociais. Não conheço Bituca”.

Também perguntamos a Vaisman, responsável pela conta do Facebook, se sabia do comentário no Band Cidade RS e se havia alguma relação com o texto original. “Sinceramente, nem sei quem é esse cidadão. Eu, basicamente, não leio mainstream, não vejo televisão”, afirmou.

No dia seguinte, 11 de agosto, o presidente Jair Bolsonaro compartilhou o vídeo do comentário de Cardoso em suas redes sociais (Twitter, Facebook e YouTube), aumentando ainda mais a viralização do conteúdo. Em 12 de agosto, o site Coletiva.net publicou o texto “Com desinformação, comentário do jornalista Milton Cardoso é compartilhado por Bolsonaro”.

Por que investigamos?

Nesta terceira fase, o Comprova verifica conteúdos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia. Informações desencontradas, sem embasamento ou fora de contexto podem levar a população a agir de forma inadequada no combate ao novo coronavírus. O post de Bituca tinha 676 reações, 96 comentários e 294 compartilhamentos no Facebook até 12 de agosto. O alcance foi ampliado pela republicação no Jornal da Cidade Online, que atingiu 131 mil interações, segundo a ferramenta CrowdTangle – só no perfil do site foram 39 mil likes, 7,5 mil comentários e 21 mil compartilhamentos.

Ao levar o leitor a acreditar que Bolsonaro não pode ser responsabilizado pelos mais de 100 mil óbitos no país porque medidas que ele defendeu não teriam sido implementadas, o texto verificado ignora que duas das três ações não têm eficácia comprovada contra o vírus e não têm o apoio de autoridades sanitárias. Verificações tentando minimizar o impacto da pandemia já foram publicadas pelo Comprova, como a do médico que usou dados enganosos para sugerir conspiração sobre a covid-19, da publicação que dizia que a pandemia estava em declínio e do vídeo que afirmava que vírus da covid-19 existe desde 2003.

Enganosos, para o Comprova, são os conteúdos retirados do contexto original e usados em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induzem a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdos que confundem, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.