O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações suspeitas sobre políticas públicas, eleições presidenciais e a pandemia de covid-19 que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
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Eleições

Investigado por: 2022-07-22

Ministro Edson Fachin não foi advogado do MST, ao contrário do que afirma post

  • Falso
Falso
É falso o tuíte que usa trechos de uma entrevista concedida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Edson Fachin, para afirmar que ele já foi advogado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Conteúdo investigado: Post com vídeo de uma entrevista do ministro Edson Fachin acompanhado de legenda indicando que ele teria sido advogado do MST. No vídeo, Fachin é questionado sobre o período da ditadura militar no Paraná e, entre outras coisas, menciona seu interesse pela luta em prol da reforma agrária no Brasil.

Onde foi publicado: Twitter

Conclusão do Comprova: Não é verdade que o ministro do STF e atual presidente do TSE, Luiz Edson Fachin, já tenha sido advogado do MST. A alegação está em uma postagem do Twitter, que compartilha trechos em vídeo de uma entrevista concedida por Fachin em 2014, um ano antes de ser nomeado para o Supremo. Ainda que tivesse sido advogado do movimento social, isso não seria impeditivo para assumir uma cadeira na corte.

A entrevista foi concedida para o projeto “Depoimentos para a História”, da entidade civil Sociedade de Direitos Humanos para a Paz (DHPAZ), que fazia um retrospecto do período da ditadura militar. Apesar de, na conversa, falar que esteve envolvido com a luta pela reforma agrária no Brasil e de já ter ocupado o cargo de procurador-geral do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Fachin afirmou ao Comprova que nunca foi advogado do MST.

Em currículo entregue por Fachin ao Senado Federal em 2015, no âmbito de sua nomeação ao STF, também não existe qualquer menção a trabalhos realizados com o movimento social. Além disso, na sabatina realizada por parlamentares na ocasião, ele foi questionado sobre a entidade ligada aos sem-terra, como mostram reportagens do UOL e Valor. A resposta foi de que ele defende manifestações de movimentos sociais desde que estejam dentro da lei. Entretanto, não houve questões relacionadas à suposta atuação como advogado da organização.

O MST também confirmou à reportagem que Fachin em nenhum momento foi advogado da instituição. A organização garantiu que não existe relação entre o ministro e o movimento, e que ele nunca participou de nenhuma atividade dos trabalhadores sem-terra.

Para o Comprova, falso é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 22 de julho, o post que originou a apuração já tinha mais de 11,6 mil curtidas, 541 comentários e outros 4,8 mil retuítes. Pelo menos um dos compartilhamentos, publicado no dia 20, alcançou mais 16,1 mil curtidas e foi retuitado 4,4 mil vezes.

O que diz o autor da publicação: O Comprova tentou entrar em contato com o autor da publicação por meio do Twitter, mas a conta não permite o envio de mensagens diretas. Não foram encontrados outros contatos possíveis.

Como verificamos: O primeiro passo foi pesquisar no Google pelas palavras-chaves “Edson Fachin”, “MST”, “vídeo”. A consulta retornou um artigo da revista Veja, publicado em 2015, quando o ministro foi indicado ao STF e o mesmo vídeo com recortes de sua fala já circulava nas redes sociais. Também foi localizada a entrevista que originou a publicação, realizada em 2014 para o projeto “Depoimentos para a História”, da DHPAZ.

Com o vídeo original, a reportagem analisou as declarações do ministro e pôde compará-las ao trecho utilizado no post aqui investigado.

O Comprova ainda consultou o MST para se informar sobre a eventual relação com Fachin e entrou em contato com o STF e o TSE para solicitar um posicionamento das instituições e do ministro sobre as alegações do tuíte.

A origem do vídeo

O vídeo compartilhado na postagem é verdadeiro e não sofreu edições capazes de alterar o sentido das declarações do ministro. No entanto, o tuíte não traz o contexto da fala. Ali, Fachin mencionava sua atuação diante de um regime autoritário e não de um sistema democrático. Foram feitos apenas cortes no vídeo da entrevista completa, que tem pouco mais de 1 hora e 12 minutos.

A entrevista foi concedida por Edson Fachin ao projeto “Depoimentos para a História – a resistência à ditadura militar no Paraná”, organizado pela DHPAZ, entidade sem fins lucrativos de Curitiba, Paraná. Fachin foi um dos 172 entrevistados pela entidade para o projeto.

O vídeo da entrevista de Fachin foi publicado no dia 16 de abril de 2014 (portanto, antes de sua nomeação ao STF, em 2015), no canal do YouTube da DHPAZ. Em contato com a página do DHPAZ no Facebook, a entidade afirmou ao Comprova que a entrevista com Fachin ocorreu no dia 15 de janeiro de 2014.

Todas as entrevistas do projeto fazem parte do livro homônimo “Depoimentos para a História – a resistência à ditadura militar no Paraná”, lançado em junho de 2014. A obra é de autoria de Antônio Narciso Pires de Oliveira, Fábio Bacila Sahd e Silvia Calciolari.

De acordo com divulgação publicada pelo site do Sindicato dos Jornalistas do Paraná (Sindjor), o projeto foi coordenado pelo Grupo Tortura Nunca Mais do Paraná e realizado em parceria com o Projeto Marcas da Memória da Comissão Nacional da Anistia do Ministério da Justiça. O nome dessas entidades também aparece na abertura e encerramento de cada vídeo da série de entrevistas.

No depoimento, Fachin comenta passagens de sua biografia, como sua infância, seu ingresso no curso de Direito da Universidade Federal do Paraná e sua posterior atuação como advogado. Fachin também aborda o contexto da ditadura militar (1964-1985) no Paraná e sua participação nos movimentos pela redemocratização do país e nas discussões que buscavam influenciar a elaboração da Constituição de 1988.

Afirmações de Fachin na entrevista

Parte das afirmações de Fachin na entrevista é utilizada pelo autor da postagem para atacar o ministro e o sistema eleitoral. Na legenda do post, após insinuar que Fachin já teria sido advogado do MST, está escrito que “com essa ficha corrida percebemos a moral que o STF e o TSE têm”.

O vídeo inicia com a voz da pessoa que está entrevistando Fachin falando sobre o momento de maior enfrentamento à ditadura militar, fazendo referências a comícios e atos de rua. Fachin a interrompe, dizendo “algumas pichações também” e menciona que precisa ter cuidado para não expor alguns de seus “crimes” durante o período, embora a maioria deles “já estejam prescritos”.

Em seguida Fachin comenta algumas passagens de sua biografia, citando, entre outras coisas, que seu professor de Língua Portuguesa e Literatura, “um homem progressista, ligado ao Partido Comunista e aos movimentos de esquerda”, foi fundamental para a sua formação por “mostrar que o mundo não era só o mundo que a gente via”.

Ao falar sobre sua entrada na universidade e seu posterior trabalho como advogado, Fachin diz que acabou se “ligando à questão da terra e à luta pela reforma agrária”. Ele também diz que este foi o segmento do qual mais participou durante o movimento da Constituinte de 1988.

Por fim, no último trecho usado na postagem, Fachin fala que, em 1978, escreveu um trabalho sobre partidos políticos no qual sua conclusão foi que “o único partido que poderia ser chamado por esse nome era o Partido dos Trabalhadores, que tinha um programa de transformação do Brasil”.

Ministro assegura que não advogou para o MST

Apesar de, no vídeo, o ministro Edson Fachin mencionar que esteve ligado à luta pela reforma agrária, ele afirmou, após questionamento do Comprova ao TSE, que nunca foi advogado do MST.

Pela assessoria do TSE, Fachin também tratou da entrevista concedida ao projeto da DHPAZ, da qual trechos foram extraídos e compartilhados na postagem aqui investigada. “O vídeo retira frases do contexto e captura trechos de uma conversa praticamente informal em programa sobre a memória do movimento estudantil paranaense”, pontuou em mensagem por aplicativo.

O ministro observou que a entrevista era uma rememoração do movimento estudantil durante os ‘anos de chumbo’, nos quais, lembrou Fachin, era crime pensar e se manifestar pela liberdade, e também da vida universitária, então marcada pela censura e pela proibição de funcionamento de diretórios estudantis.

“Tanto como estudante quanto como professor e acadêmico, Luiz Edson Fachin nunca foi filiado ao partido político referido no trecho descontextualizado nem teve militância política, mas sim no movimento estudantil pela volta da democracia. Mesmo com as trucagens feitas no vídeo, o próprio teor real da fala, mesmo montada, demonstra, apesar da evidente má-fé na distorção, a história de quem, a seu tempo e a seu modo, mais de vinte anos antes de ingressar na magistratura, sempre defendeu a democracia.”

MST garante que ministro não tem nenhuma relação com o movimento

O Projeto Comprova procurou o MST. Após uma pesquisa nos históricos do movimento, o grupo garantiu que o ministro Edson Fachin nunca atuou como advogado da entidade; que não existe relação entre o ministro e o movimento, e que Fachin nunca participou de nenhuma atividade do MST.

Em relação a uma suposta preferência do MST pela escolha de Fachin como ministro do STF, conforme apontam informações da imprensa, a organização sustenta que “não procede a afirmação de que João Pedro Stédile (fundador do MST) ou o movimento tinha preferidos para assumir o STF. Ainda que alguns posicionamentos do ministro, antes de assumir a vaga no STF, podem ser considerados progressistas, jamais foi indicado como preferido pelo movimento ou qualquer um de seus militantes”.

Currículo e sabatina antes de ingressar no STF

Edson Fachin passou por sabatinas no Congresso Federal para ser aprovado como ministro do STF em 2015. Para isso, foi necessário submeter seu currículo profissional e estudantil. Consta no documento que Fachin foi procurador-geral do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 1985 e, posteriormente, foi presidente substituto do Instituto de Terras, Cartografia e Floresta do Paraná. Não existe menção ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Já na época de sua indicação ao Supremo, surgiram boatos sobre o suposto envolvimento do jurista com o movimento. Durante sua sabatina na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, do Senado Federal, Fachin foi questionado sobre o assunto. Matérias da imprensa (UOL, Valor) repercutiram as respostas.

Fachin disse que defende manifestações de movimentos sociais desde que estejam dentro da lei. “Algumas dessas ações, em determinados momentos, não obstante que carregue reivindicações legítimas, desbordam da lei. Mas aí, acabou a espacialidade da política e entra, evidentemente a espacialidade do limite (…) e a lei é, evidentemente, o limite desse tipo de manifestação. E é nisso que o estado democrático de direito convive”, afirmou.

Após ser questionado sobre casos de invasão de propriedade, o jurista comentou: “A orientação que o STF tem, e que, no meu sentimento, nessa perspectiva, deve ser mantida, é a da constitucionalidade da lei que integra a desapropriação de área invadida. É preciso pacificar essas equações no campo”.

Ataques ao sistema eleitoral

Na postagem, a frase “Com essa ficha corrida percebemos a moral que o STF e o TSE tem” também tenta lançar dúvidas sobre a credibilidade das instituições, alvos frequentes de ataques, sobretudo de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL), ele mesmo é um crítico contumaz do sistema eleitoral brasileiro.

Sobre as alegações, o TSE ressaltou que “a integridade e a moral das eleições brasileiras e da Justiça Eleitoral estão asseguradas por um corpo técnico atento e capacitado.”

Na resposta ao Comprova, o Tribunal destacou ainda que a equipe é formada por mais de 22 mil servidores e colaboradores, além de mais de 3 mil juízes e outros 3 mil promotores, distribuídos em 28 tribunais eleitorais, 2.625 zonas e 460 mil seções espalhadas em todo o país, além dos quase 600 mil eleitores no exterior.

“Temos ainda 2 milhões de mesários e mesárias que, ao lado de milhares de fiscais designados pelos partidos políticos, testemunham, continuamente e de perto, a inquestionável correção das eleições no Brasil”, completou.

Junto da resposta, o TSE reuniu uma lista com 65 entidades que, segundo a nota, “apoiam a Justiça Eleitoral contra o populismo autoritário, manifestado e reiterado em recente deplorável evento na Capital da República”, numa referência ao encontro de Bolsonaro com embaixadores, como reportado por diversos veículos (Folha de S.Paulo, IstoÉ Dinheiro, O Globo, Uol, G1, Carta Capital, Poder 360).

Na relação de apoiadores, estão, entre outros, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação de Magistrados Brasileiros (AMB), a Associação Nacional de Procuradores da República (ANPR) e o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE).

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A postagem aqui verificada tenta desacreditar o ministro Edson Fachin por uma suposta relação com o MST. Ele é o atual presidente do TSE, instituição responsável pela organização do pleito. Ao atacar o Fachin, o conteúdo sugere que o ministro não inspira confiança e que a Justiça não teria “moral”, uma narrativa que atinge todo o sistema eleitoral e pode causar dúvidas na população sobre o processo de votação. As pessoas, contudo, têm o direito de formar suas convicções a partir de informações verdadeiras, não de boatos.

Outras checagens sobre o tema: As eleições e o sistema eleitoral são frequentemente tema de conteúdos de desinformação nas redes sociais. Nos últimos dias, o Comprova demonstrou que Lula não disse querer implantar comunismo chinês no Brasil, que o ex-governador da Paraíba não humilhou Lula e elogiou Bolsonaro; e que montagem de 2018 voltou a circular para atacar sistema eletrônico de votação. Em relação às urnas particularmente, o Comprova já apontou que a contagem de votos é feita pelo TSE, não por terceirizada, que não há dispositivo nas urnas capaz de alterar votação e que elas também não foram hackeadas nos Estados Unidos.

Eleições

Investigado por: 2022-07-22

Post engana ao relacionar delegado que fará proteção de Lula à delação de Marcos Valério

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa publicação no Twitter que cita suposta relação entre a escolha do delegado Alexsander Castro Oliveira, da Polícia Federal (PF), para a segurança do pré-candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e a delação do empresário Marcos Valério, divulgada pela revista Veja, em julho de 2022. Nela, Valério traçou ligação entre o partido e a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Alexsander Castro Oliveira realmente investigou o PCC, mas não há registro que relacione isso à sua escolha para integrar a segurança de Lula. Além disso, a PF confirmou ao Comprova que Oliveira não participou das investigações relacionadas à delação premiada de Valério.

Conteúdo investigado: Postagem no Twitter que afirma: “Delegado que investigou PCC vai chefiar segurança de Lula”. O fato é associado com a delação do empresário Marcos Valério, que citou em 2017 supostas relações entre o PCC e o PT.

Onde foi publicado: Twitter

Conclusão do Comprova: Tuíte engana ao relacionar o delegado da Polícia Federal responsável pela proteção de Lula durante as eleições com a delação do empresário Marcos Valério, fechada em 2017, que aponta uma suposta relação entre o PT e o PCC.

Segundo matérias da imprensa (Folha de S.Paulo e Poder 360), Alexsander Castro Oliveira é o delegado responsável pela segurança do petista. A escolha foi feita a partir de um acordo entre o PT e a PF.

Registros de órgãos governamentais e notícias mostram que Oliveira atuou em duas operações contra o PCC. Ambas tinham como objetivo desarticular o núcleo financeiro e as práticas de lavagem de dinheiro da organização criminosa. Não há nenhum registro que associe o policial à delação de Valério, ou mesmo às afirmações feitas pelo empresário. Além disso, a colaboração premiada foi parcialmente homologada por Celso de Mello, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), porque parte das informações prestadas se referiam a ações penais que já tramitavam na Justiça. O teor das declarações do empresário está sob sigilo e não é possível ter acesso à íntegra do que foi dito.

Enganoso, para o Projeto Comprova, é qualquer conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: A publicação no Twitter alcançou 6.148 curtidas e 1.030 compartilhamentos até o dia 21 de julho.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com a autora da publicação através de mensagens no Facebook. Não houve retorno até a publicação desta checagem.

Como verificamos: Usando as palavras-chave “delegado da PF”, “Lula” e “segurança” encontramos notícias de veículos da imprensa que repercutiram o fato de o policial federal responsável pela proteção do petista nas eleições já ter investigado o PCC. Depois, procuramos informações relacionadas ao delegado, pesquisando por seu nome, e possíveis relações com informações prestadas por Marcos Valério em delação premiada.

Também buscamos informações no site da PF, do PT e do STF. Por fim, entramos em contato com a assessoria de imprensa de Lula, com a PF e com a autora da publicação.

Delação de Marcos Valério

A colaboração premiada entre Valério e a PF foi fechada em julho de 2017 na capital mineira. Na época, Oliveira atuava em Varginha, onde ficou até agosto de 2018, e não trabalhava em Belo Horizonte. Notícias (G1) vinculam Marcílio Zocrato, delegado Regional de Combate ao Crime Organizado de Minas Gerais na época, ao processo de colaboração do empresário.

No dia 1 de julho de 2022, a revista Veja divulgou trechos da delação premiada de Marcos Valério, que cita suposta relação do Partido dos Trabalhadores (PT) com o Primeiro Comando da Capital (PCC). O conteúdo vazado não menciona o delegado Alexsander Castro Oliveira.

Segundo Valério, nas gravações divulgadas, o empresário Ronan Maria Pinto chantageava Lula para não revelar informações sobre um esquema de arrecadação ilegal de recursos para financiar campanhas do partido. O dinheiro seria oriundo de empresas de ônibus, de transportes piratas e de bingos, e, neste último caso, os repasses do dinheiro ao PT seria uma forma de lavar recursos do PCC. Pinto era dono do jornal Diário do Grande ABC, em São Paulo, e teria recebido R$6 milhões em um esquema de corrupção envolvendo a Petrobras.

Em trecho divulgado pela revista, Marcos Valério diz que Silvio Pereira, então secretário-geral do PT, teria revelado isto a ele: “O Silvio Pereira falou pra mim: ‘O Ronan quer revelar que além dos ônibus, a gente recebia dinheiro de bingos, dos perueiros, e que dentro desse dinheiro de bingos (…) os bingos estariam lavando dinheiro do crime organizado e financiando campanhas de candidatos a vereadores e de deputados do PT em dinheiro vivo. E crime organizado leia-se PCC’.”

Ainda segundo Valério, o prefeito de Santo André (SP) assassinado em 2002, Celso Daniel, teria produzido um dossiê com informações de quem estava sendo financiado de forma ilegal dentro do partido. O caso chegou a ser investigado novamente pela Lava Jato em 2016.

A matéria da Veja diz que a delação foi homologada pelo então ministro do STF Celso de Mello, que se aposentou em outubro de 2020.

Em resposta à revista, o PT publicou uma nota em que afirma que a reportagem é baseada em “notícia velha, falsa e vazada ilegalmente”.

Marcos Valério chegou a ser convidado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) para falar em audiência da Comissão de Segurança Pública da Câmara sobre a suposta relação entre o PT e o PCC, mas recusou o convite. Em comunicado à Câmara, Valério disse que o material publicado pela revista foi vazado de forma ilícita.

Segurança de Lula

O chefe operacional da segurança de Lula será o delegado Alexsander Castro Oliveira, que atuou em pelo menos duas operações contra membros da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Rivaldo Venâncio será o chefe operacional substituto, e Andrei Augusto Passos Rodrigues, o coordenador da equipe. O assunto foi divulgado por veículos de imprensa.

Alexsander Castro de Oliveira é atualmente chefe da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO) de Belo Horizonte, da Polícia Federal. Antes, atuou como delegado no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), foi chefe do Núcleo Operacional da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro da Superintendência Regional da PF em São Paulo, e delegado da PF na cidade de Varginha, que atua em 137 municípios e é a segunda maior de Minas Gerais.

Em agosto de 2020, a Polícia Federal deflagrou a operação Caixa Forte 2 e cumpriu mais de 600 mandados contra o PCC em 18 estados e no Distrito Federal. Os inquéritos policiais apontaram a ocorrência dos crimes de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.

Na ação, a 2ª Vara de Tóxicos de Belo Horizonte, em Minas Gerais, expediu 422 mandados de prisão preventiva e 201 mandados de busca e apreensão, além de ordenar o bloqueio de R$ 252 milhões. A investigação foi liderada pela FICCO, chefiada por Alexsander Castro Oliveira.

Segundo processo do Superior Tribunal de Justiça (STJ), as investigações da PF mostram que membros do alto escalão do PCC que estavam presos recebiam uma quantia mensal através de contas de familiares ou de terceiros, que alugavam suas contas bancárias para a facção com esse intuito. Os chefes da organização eram pagos de acordo com as funções exercidas e as ações realizadas dentro do PCC.

A investigação é um desdobramento da operação Cravada, que foi deflagrada em 2019 numa ação conjunta com o Departamento Penitenciário Federal, Ministério Público do Paraná, Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo e Polícia Militar de São Paulo.

Com o objetivo de desarticular o núcleo financeiro do PCC, os policiais agiram contra a utilização de contas bancárias que garantiam a movimentação financeira da organização criminosa. Oliveira também atuou na operação Cravada em Minas Gerais.

Procurada, a assessoria do ex-presidente Lula não respondeu aos questionamentos do Comprova sobre a escolha dos chefes de segurança do candidato.

A Polícia Federal foi procurada pelo Comprova por diversas vezes para esclarecer questões sobre a atuação de Oliveira nas investigações do órgão. A PF confirmou que Alexsander Castro Oliveira não participou de nenhuma investigação relacionada ao empresário Marcos Valério. O órgão não respondeu quais foram os agentes responsáveis pela delação premiada firmada entre Marcos Valério e a Polícia Federal em 2017.

Desde 2017, quando ocorreu a delação premiada com a PF em Minas Gerais, os delegados responsáveis pela chefia da Superintendência de Minas Gerais foram: Robson Fuchs Brasilino (2016/2018); Rodrigo de Melo Teixeira (2018/2019); Cairo Costa Duarte (2019/2020) e Marcelo Sálvio Rezende Vieira (atual). Na Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado de Minas Gerais, os chefes foram: Marcílio Miranda Zocrato (2016/2018); Renato Madsen Arruda (2019/2020); Carlos Henrique Cotta D’angelo (2020/2021) e Rafael Machado Caldeira (atual).

Segundo a PF, os cargos ocupados por Alexsander Castro Oliveira no órgão foram: Chefe substituto do Núcleo de Operações da Delegacia de Repressão a Corrupção e Crimes Financeiros (DELECOR) de São Paulo (2008/2015); Chefe da Delegacia de Varginha (Jan/2016 a Jan/2018); Chefe da FICCO (Fev/2018 a Maio/2021); Chefe da Coordenação de Repressão a Crimes Violentos, Tráfico de Armas, Crimes contra o Patrimônio e Facções Criminosas – CRCV/CGPRE/DICOR/PF (cargo atual).

Não há qualquer registro que relacione a delação de Marcos Valério à escolha do delegado Alexsander Castro Oliveira como chefe operacional da segurança do pré-candidato do PT. O conteúdo, portanto, é enganoso.

Homologação do acordo de delação premiada

Em 2018, Celso de Mello validou parcialmente o acordo de delação premiada de Valério (G1, Folha de S.Paulo e Estadão). Com isso, as autoridades competentes podem passar a investigar parte dos fatos narrados pelo delator. Entretanto, o teor dos depoimentos está sob sigilo até que seja recebida a denúncia criminal sobre os supostos crimes narrados.

Parte dos fatos criminosos delatados não foi homologada porque, segundo Mello, referiam-se a ações penais que já tramitavam na Justiça. Como a delação foi negociada com a PF e a Polícia Civil, após negativas do Ministério Público, o ministro não homologou esses trechos, porque é o MP que atua nas ações penais já em andamento.

Em sua decisão, assinada no dia 24 de setembro, Celso de Mello também determinou que os autos do processo sejam encaminhados à Polícia Federal, para que investigue as acusações feitas pelo colaborador. O ministro destacou que Marcos Valério entregou às autoridades policiais 60 anexos, descrevendo “práticas criminosas perpetradas por organizações criminosas infiltradas nos cenários políticos brasileiros”.

O caso chegou ao tribunal em julho de 2017, mas demorou a ser analisado porque a delação foi questionada pela Procuradoria Geral da República, entendendo que a polícia não poderia fechar acordos do gênero. Em junho de 2018, o STF decidiu que as polícias podem fechar acordos de delação.

O processo de delação premiada foi normatizado através da Lei Nº 13.964, de 24 de dezembro de 2019, que aperfeiçoa a legislação penal e processual penal. Antes, já existiam definições da colaboração por meio da Lei Nº 12.850, de 2 de agosto de 2013.

O acordo de colaboração premiada é um dispositivo processual e se caracteriza como uma possibilidade para obtenção de provas. As declarações, por si só, não podem servir de fundamento para a decretação de medidas cautelares, recebimento de denúncia ou sentença condenatória.

Segundo as leis, o acordo de colaboração premiada e os depoimentos do colaborador devem ser mantidos em sigilo até o recebimento da denúncia ou da queixa-crime, sendo vedado ao magistrado decidir por sua publicidade em qualquer hipótese.

Como o empresário mencionou autoridades políticas, que possuem foro privilegiado, o julgamento do caso passou para o STF. O processo estava sob os cuidados do ex-ministro Celso de Mello mas, com sua aposentadoria, foi herdado por Kassio Nunes. Pelo processo correr em sigilo, não é possível ter acesso aos nomes de todas as pessoas citadas por Valério e se, de acordo com as falas do empresário, elas estariam supostamente ligadas ao PCC ou ao caso de Celso Daniel.

A proteção dos candidatos

Candidatos à presidência da República terão segurança pessoal realizada pela Polícia Federal a partir da homologação da candidatura, que deve ocorrer entre 20 de julho e 5 de agosto. O direito é garantido através do decreto Nº 6.381, de 27 de fevereiro de 2008. Caso o atual presidente tente a reeleição, a proteção é feita pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

Segundo a PF, para as eleições federais deste ano, a instituição vem se preparando com a formação de grupos especializados em proteção à pessoa, aquisições de equipamentos e viaturas e capacitação dos policiais que atuarão na operação policial de proteção aos candidatos.

Em nota, a Polícia Federal afirmou que, entre o ano passado e este ano, mais de 160 policiais federais foram formados na Academia Nacional de Polícia através do Curso Básico de Proteção à Pessoa, onde tiveram aulas específicas para sua atuação no corrente ano. “Serão mais de 300 policiais envolvidos entre aqueles que comporão as equipes dedicadas de proteção e aqueles das unidades especializadas que apoiarão as equipes dedicadas às visitas dos candidatos aos seus respectivos estados”, detalhou.

As regras sobre as medidas de proteção aos candidatos à Presidência foram definidas em Instrução Normativa de 16 de setembro de 2021. Segundo o documento, a proteção pessoal deve ser solicitada pelos candidatos após a homologação da candidatura em convenção partidária. Essas solicitações serão analisadas em até quinze dias, período em que será avaliada a necessidade, alcance e parâmetros da proteção.

Ainda de acordo com a instrução normativa, os candidatos devem fornecer os dados de suas agendas com antecedência de pelo menos 48h para que a coordenação da equipe possa avaliar o grau de risco e verificar a manutenção ou não dos compromissos devido a questões de segurança. O documento estabelece ainda que no caso em que seja verificado risco de ameaças concretas, “o candidato que se expuser espontaneamente aos riscos assumirá a responsabilidade dos fatos decorrentes”.

Os policiais federais que atuarão nas equipes serão selecionados levando-se em conta preferencialmente sua experiência na área de proteção à pessoa e operacional. A escolha dos agentes é feita através de um acordo entre o partido político e o órgão a partir de nomes apresentados pela PF.

“As equipes de cada candidato estão sendo formadas com fundamento em análise de risco feita por grupo de inteligência policial que atuará durante todo o período eleitoral. A referida metodologia de análise foi criada pela Polícia Federal especificamente para a atividade de proteção aos candidatos e é atualizada periodicamente, inclusive levando-se em conta fatores sócio-políticos, subsidiando as ações das equipes de proteção”, destacou a PF.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia de covid-19, eleições presidenciais e políticas públicas do governo federal que viralizaram nas redes sociais. Informações que induzem uma interpretação enganosa, fazendo associações sem comprovação, sobre candidatos à presidência da República podem atrapalhar a decisão de eleitores sobre determinado político.

Outras checagens sobre o tema: Recentemente, o Comprova mostrou que Lula e presidente eleito da Colômbia não queiram obrigar pessoas a dividir casa com outras famílias; que postagem usa foto de atos sem presença de Lula para tentar desacreditar pesquisas eleitorais e que é falsa a frase atribuída a Lula com ameaça ao STF.

Eleições

Investigado por: 2022-07-22

É falso que Lula tenha sido recebido aos gritos de ‘ladrão’ e vaias em Garanhuns, como afirma post

  • Falso
Falso
É falso o vídeo que circula no Facebook e que, supostamente, mostra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sendo recebido aos gritos de ‘ladrão’ em Garanhuns (PE). O áudio sobreposto dá a entender que a população local que foi receber o petista não o queria ali. O vídeo, na verdade, foi adulterado. O áudio original foi suprimido e foram acrescentadas inserções de texto nas imagens com os dizeres “chegada de Lula em Garanhuns-PE hoje 20/07/2022”, referente à visita que o presidenciável fez à cidade naquela data.

Conteúdo investigado: Vídeo retirado do TikTok e publicado no Facebook no qual o ex-presidente Lula, ao sair de uma van, é recebido aos gritos de “ladrão” em Garanhuns, cidade do agreste pernambucano.

Onde foi publicado: Facebook

Conclusão do Comprova: É falso vídeo que mostra o ex-presidente Lula sendo hostilizado aos gritos de “ladrão” em Garanhuns, em Pernambuco. As imagens, na verdade, são da chegada do petista ao aeroporto de Teresina, no Piauí, durante visita àquele estado no dia 17 de agosto de 2021. Além disso, o áudio original da peça foi adulterado, sendo sobreposto a gritos de “ladrão”, “genocida” e “sequestrador do Brasil”.

No vídeo original, Lula não foi alvo de xingamentos ao ser recebido por aliados. Apenas cumprimentou autoridades locais, ao descer de uma van, ainda na pista do aeroporto de Teresina. Entre elas o ex-governador do Piauí Wellington Dias (PT) e a governadora daquele estado, Regina Sousa (PT). Esses aliados não estiveram presentes em Garanhuns, como mostra matéria do Blog da Folha, do jornal Folha de Pernambuco, publicada no último dia 20 de julho.

Em imagens publicadas pelo portal Piauí Hoje, no dia 17 de agosto de 2021, outros ângulos do vídeo da chegada de Lula ao aeroporto de Teresina mostram que o petista foi recepcionado por aliados e fotógrafos na pista do terminal, sem hostilidade.

Já em Pernambuco, onde Lula esteve no último dia 20, não houve intercorrências na recepção ao petista, como informou, em nota, a administração do aeroporto de Garanhuns. Também de acordo com a administração, não foi permitido acesso de pessoas não autorizadas à pista do terminal.

“A recepção dentro da área de segurança operacional do Aeroporto ocorreu de forma tranquila e rápida”, informou o aeroporto.

Para o Comprova é falso qualquer conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 22 de julho, o vídeo teve 11 mil visualizações, mil compartilhamentos, 242 curtidas e 46 comentários.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com o responsável pela publicação por meio de mensagem no aplicativo do Facebook, mas não houve retorno.

Como verificamos: Para fazer a verificação, o Comprova baixou o vídeo pela ferramenta Savefromnet e separou frames por meio do InVid, para realização de uma busca reversa das imagens. Por meio da busca no Google pelos termos “Lula”, “visita” e “Piauí”, foi possível acessar matérias do dia 17 de agosto de 2021 que mostram as imagens da chegada de Lula a Teresina, com áudios originais, sem os gritos hostis.

Além disso, o próprio vídeo mostra a presença do ex-governador do Piauí Wellington Dias (PT), e da atual governadora do estado, Regina Sousa (PT), na comitiva que recepcionou o petista. Ambos não acompanharam a agenda do ex-presidente em Pernambuco.

O Comprova também procurou o autor do vídeo original, com o áudio sem xingamentos ao ex-presidente Lula, por meio de mensagem no Instagram e por e-mail, mas não obteve retorno.

Para atestar como foi a recepção na chegada do ex-presidente Lula em Garanhuns, o Comprova procurou a Secretaria de Infraestrutura de Pernambuco, responsável pelo terminal, que orientou contato com a administradora do aeroporto, a DIX Empreendimentos.

Lula em Teresina

Apesar de as imagens serem reais, elas não são da chegada de Lula a Garanhuns. Reportagem do Portal Piauí Hoje traz as mesmas imagens com áudio original, sem hostilização, de quando o petista desembarcou em Teresina, no dia 17 de julho de 2021. No vídeo e nas fotos, Lula está com uma camisa curta, a mesma que apresenta no vídeo investigado. 

Na ocasião, apenas apoiadores receberam o petista no terminal. O perfil no TikTok Leondidasjunior também publicou as imagens originais, sem áudios de xingamento contra o ex-presidente Lula. Foi este o vídeo utilizado como base no conteúdo investigado aqui.

Tanto no vídeo com áudio original quanto no vídeo com gritos contrários ao petista, Wellington Dias (PT) e Regina Sousa (PT ) aparecem recebendo o ex-presidente. Ambos não estiveram na agenda de Lula em Pernambuco, onde, de acordo com o jornal Folha de Pernambuco, Lula chegou acompanhado de sua esposa Janja e do deputado estadual João Paulo (PT).

Chegada em Garanhuns

Lula cumpriu agenda em Pernambuco entre os dias 20 e 21 de julho deste ano. O petista desembarcou em Recife no último dia 19 e seguiu para Garanhuns na manhã do dia 20, como mostra agenda publicada no Blog de Jamildo, do Jornal do Commercio.

A imagem abaixo, divulgada pela Folha de Pernambuco, mostra a chegada de Lula a Pernambuco. Ele veste uma camisa de mangas compridas.

 

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. O vídeo aqui verificado cita o ex-presidente e candidato à presidência pelo PT, Lula. Conteúdos falsos e enganosos são prejudiciais ao processo democrático porque atingem o direito do eleitor de fazer sua escolha baseada em fatos, não em boatos e desinformação.

Outras checagens sobre o tema: O conteúdo alvo dessa verificação foi desmentido pela Reuters, pelo Aos Fatos e também pelo Boatos.org. Outro vídeo semelhante circulou em 2021, no qual o ex-presidente Lula foi recebido aos gritos de ‘ladrão’ por multidão ao desembarcar em Pernambuco e foi classificado como falso pelo Fato ou Fake do portal G1 e pela Agência Lupa.

Em verificações anteriores envolvendo o pré-candidato ao Planalto, o Comprova mostrou que Lula não disse querer implantar o comunismo chinês no Brasil, que não é verdade que o ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho (PT) “envergonhou” o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao falar sobre a obra de transposição do rio São Francisco. Também foi verificado que post mente ao tentar associar Lula e Manuela D’Ávila a facada contra Bolsonaro.

Eleições

Investigado por: 2022-07-22

Postagem engana ao associar o PT e Lula a apreensão de drogas no MS

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a postagem que tenta ligar o Partido dos Trabalhadores (PT) e o candidato à presidência pelo partido, Luiz Inácio Lula da Silva, a uma apreensão de maconha no Mato Grosso do Sul (MS). O vídeo mostra fardos com a droga que trazem adesivos de identificação, um deles com a estrela vermelha, símbolo do partido, e a inscrição "Todo mundo merece uma xícara de café e Lula presidente". Há outros adesivos do tipo, um deles com o emblema do Clube de Regatas do Flamengo. A gravação omite trecho de entrevista com um agente do Departamento de Operações de Fronteira (DOF) no qual ele explica que as marcações são aleatórias e servem apenas como código para identificar o dono do material caso ele chegue ao seu destino, mas que não guardam relação entre os donos das marcas utilizadas (PT e Flamengo) e os traficantes de drogas. Tal ligação também foi descartada pela Polícia Civil do MS.

Conteúdo investigado: Postagem no Twitter mostra vídeo de uma operação policial no Mato Grosso do Sul. Um dos pacotes de drogas apreendidos tem um adesivo que diz: “Todo mundo merece uma xícara de café e Lula presidente”. Na legenda da postagem, o autor afirma: “Se vc tem família e acha que está certo votar nessa raça, BOA SORTE….”

Onde foi publicado: Twitter.

Conclusão do Comprova: Tuíte engana ao sugerir relação entre o Lula e traficantes de drogas em episódio de apreensão de uma carga com cerca de sete toneladas de maconha no Mato Grosso do Sul, em 14 de julho deste ano. A relação é traçada a partir da seguinte inscrição que aparece em alguns dos fardos com a droga: “Todo mundo merece uma xícara de café e Lula presidente”.

De fato a inscrição estava presente em alguns dos fardos, assim como havia outras que traziam, por exemplo, o emblema do Clube de Regatas Flamengo. Porém, tanto o DOF, órgão da PM local responsável pela apreensão, quanto a Polícia Civil do MS, responsável pelas investigações, descartaram indícios da relação entre o PT e Lula com os traficantes de drogas.

Conforme explicou o DOF, as inscrições são aleatórias, e servem apenas como código de identificação do proprietário da droga caso ela chegue ao seu destino final. A estratégia, segundo o DOF, configura o que a polícia chama de Consórcio do Tráfico, em que diferentes organizações criminosas se unem para dividir os custos com o transporte e reduzir prejuízos caso a droga seja apreendida.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: Até o dia 21 de julho, a publicação teve 33 mil visualizações, 2.106 retweets, 217 tweets com comentários e 4.068 curtidas.

O que diz o autor da publicação: O Comprova não conseguiu contato com @Emerson04974853, autor da publicação, pois, no Twitter, o perfil não aceita o envio de mensagens diretas.

Como verificamos: Para começar, o Comprova pesquisou sobre a apreensão de sete toneladas de maconha no Mato Grosso do Sul. A busca retornou notícias de jornais locais sobre a operação do DOF. Também foi procurada no Google a frase: “Todo mundo merece um café e Lula presidente”.

Em seguida, a equipe procurou pelo vídeo feito pela RIT TV sobre a operação. Por meio de uma busca reversa dos frames do vídeo, também foram procurados em que outros locais foram publicadas notícias sobre a operação.

Por fim, a equipe entrou em contato com o DOF, a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Civil do Mato Grosso do Sul, a Polícia Federal e a assessoria do PT.

Apreensão de drogas no Mato Grosso do Sul

A publicação aqui verificada mostra trecho de uma entrevista coletiva com o capitão Eduardo Garcia da Costa Marques, do Departamento de Operações de Fronteira (DOF), do Mato Grosso do Sul, que ocorreu em 14 de julho. Ele fala sobre a abordagem dos policiais que apreenderam 6,9 toneladas de maconha escondidas em um caminhão com carregamento de milho na rodovia MS-386, entre os municípios de Ponta Porã e Amambaí, na fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. O motorista do caminhão foi preso em flagrante. Ele disse que receberia R$ 50 mil para fazer o transporte, caso a carga chegasse ao destino final.

A apreensão da droga foi noticiada por veículos locais do Mato Grosso do Sul (1 e 2) e também foi confirmada ao Comprova pelo DOF. Além disso, pelo site do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul é possível conferir os autos da prisão em flagrante do motorista e que a prisão dele foi convertida em preventiva no dia 15 de julho.

No vídeo compartilhado, é possível ver um microfone da RIT TV, emissora de Dourados, que pertence à Fundação Internacional de Comunicação, braço midiático da Igreja Internacional da Graça de Deus. O repórter da emissora faz perguntas ao policial. Porém, há ainda outras pessoas no momento acompanhando a coletiva, inclusive quem grava o vídeo aqui verificado, cuja identidade não foi possível confirmar.

Apesar de aparecer o microfone da RIT TV na gravação, a reportagem da emissora, disponível no Facebook, foi gravada de um ângulo diferente e não faz nenhuma menção ao Lula ou ao PT. A entrevista completa do capitão Eduardo Garcia da Costa Marques também pode ser conferida em vídeo postado na página do jornalista policial Osvaldino Duarte.

O adesivo alusivo ao PT

Em certo momento, a pessoa que grava mostra os pacotes da droga e os adesivos afixados na embalagem. Um deles tem o escudo do Flamengo e outro tem a frase “Todo mundo merece uma xícara de café e Lula presidente” e o desenho de uma estrela, em alusão ao PT.

Conforme explicado pela própria fala do capitão Eduardo Garcia da Costa Marques no vídeo investigado e na reportagem da RIT TV, os adesivos servem para indicar de quem é cada pacote, já que a suspeita é que a carga pertença a diferentes donos, que se unem em um esquema chamado pela polícia de Consórcio do Tráfico.

Conforme explicações do DOF ao Comprova, “esses emblemas são muito comuns nas apreensões de entorpecentes e grandes cargas e servem meramente para indicar o proprietário da droga transportada em um sistema que chamamos de Consórcio do Tráfico”.

Ainda segundo o DOF, não há nenhum indicativo de que as instituições ligadas ao adesivo, como o PT e o Flamengo, tenham alguma relação com a droga apreendida. “Essas marcações de propriedades não possuem indicativos da participação do órgão oficial dono da marca afixada nos fardos. Os adesivos são apenas o meio utilizado para identificação da propriedade do entorpecente se caso esta chegasse ao seu destino final. A fala do policial do DOF foi retirada de contexto no vídeo publicado, já que o mesmo excluiu a parte inicial do vídeo onde o policial explica o sistema de Consórcio do Tráfico e que as marcações são exclusivamente para identificar seus proprietários caso o entorpecente chegasse ao destino final.”

A assessoria do DOF encaminhou ao Comprova o link da transmissão completa da entrevista que foi postada na página do jornalista policial Osvaldinho Duarte.

A Polícia Civil do Mato Grosso do Sul, responsável pela investigação do caso, afirmou que não há nenhum indício de envolvimento de alguém do partido no caso. “Informamos que não há qualquer relação da apreensão com o candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva, ou com o Partido dos Trabalhadores”, disse em nota.

A arte usada nos adesivos foi usada anteriormente no Twitter do vereador de São Paulo Chico Macena (PT) e em uma página do PT do Rio Grande do Sul, em maio. Questionada sobre o emblema, a página do PT apenas afirmou que fez a postagem para os apoiadores. Já a assessoria nacional do PT garantiu que a peça de publicidade não foi criada pela seção nacional do partido.

“Este slogan não foi criado pelos canais oficiais de comunicação do PT nacional, com certeza”, respondeu a assessoria.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam na internet e envolvem as eleições presidenciais deste ano, a realização de obras públicas federais e a pandemia da covid-19. No tuíte aqui verificado, é traçada relação enganosa entre Lula, o PT e traficantes de drogas, o que pode prejudicar o processo eleitoral a partir da disseminação de uma inverdade.

Outras checagens sobre o tema: Em checagens mais recentes que envolvem o processo eleitoral, o Comprova mostrou que vídeo falso fez uma montagem para afirmar que Lula havia declarado voto em Bolsonaro, que o atual presidente foi aplaudido por embaixadores e encontro do dia 18, ao contrário do que afirmava post, e que Lula não disse querer implantar o comunismo chinês no Brasil.

Eleições

Investigado por: 2022-07-21

Vídeo falso faz montagem de Lula declarando voto em Bolsonaro

  • Falso
Falso
Não é verdade que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha declarado voto no presidente Jair Bolsonaro (PL), como indica um vídeo falso que circula no TikTok. A peça de desinformação usa imagens de uma entrevista concedida por Lula a uma rádio de Salvador em 2018. No vídeo editado, o áudio original é substituído por outro, de origem desconhecida e incompatível com o discurso do ex-presidente. O mesmo conteúdo, que apresenta evidente falta de sincronia entre imagem (leitura labial) e áudio, já circulou na internet em 2018 e foi desmentido pelo PT. Ao Comprova, a assessoria do partido voltou a afirmar que se trata de uma montagem.

Conteúdo investigado: Vídeo mostra o ex-presidente Lula gesticulando, enquanto uma voz sobreposta às imagens pede votos a Jair Bolsonaro. O conteúdo é acompanhado da frase: “Lul4 diz votar em Bolsonaro e seus eleitores”. A publicação ainda insere sobre a camiseta usada pelo petista uma montagem com a letra B acompanhada do número 22, em alusão ao nome de Bolsonaro e ao número eleitoral de sua sigla, o Partido Liberal (PL).

Onde foi publicado: TikTok.

Conclusão do Comprova: Vídeo compartilhado no TikTok é uma montagem que combina imagens de uma entrevista concedida pelo ex-presidente Lula (PT) a uma rádio de Salvador (BA) com um áudio falso, de origem desconhecida, sugerindo que ele estaria declarando voto e pedindo apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL). Ao assistir ao vídeo, é possível perceber uma clara falta de sincronia entre som e imagem, o que denuncia a falsidade do material alvo desta verificação.

O trecho de 31 segundos usado para a montagem tem como base uma transmissão feita nas redes sociais de Lula no dia 6 de março de 2018, quando o político concedeu entrevista ao Jornal da Bahia, da Rádio Metrópole. Ao acessar o vídeo da entrevista na íntegra, com áudio original, é possível identificar o que o político realmente fala, que em nada se assemelha ao que sugere a montagem.

Na época da entrevista, ano eleitoral, as mesmas imagens foram usadas na produção de peças de desinformação, também com o intuito de sugerir apoio de Lula a Bolsonaro. Elas foram desmentidas pelo próprio PT e por agências de checagem (G1 e Boatos.org). Em setembro daquele ano, o petista inclusive divulgou uma carta corroborando apoio ao então candidato à Presidência da República pelo PT, Fernando Haddad.

A montagem com a mesma dublagem falsa voltou a circular em 2022, cenário em que Lula é pré-candidato à Presidência da República pelo PT em disputa contra Jair Bolsonaro, e um dos principais opositores ao atual presidente.

Ao Comprova, a assessoria de Lula reafirmou a posição divulgada em 2018, quando o vídeo começou a circular, de que trata-se de uma montagem e de que o petista jamais pediria votos a Jair Bolsonaro.

Em checagens recentes, o Comprova tem se deparado com conteúdos que chegam a usar artifícios como montagens grosseiras, emojis de riso e até mesmo falta de sincronia entre som e imagem – caso desta verificação – para que o vídeo possa ser interpretado como uma sátira. A descrição do perfil do autor do post no TikTok [frases e memes] também contribui para essa interpretação.

Nos comentários, porém, é possível verificar que apenas parte dos usuários entende o conteúdo como uma peça de humor, enquanto outros fazem elogios ao presidente Jair Bolsonaro e ao discurso falsamente atribuído a Lula. Ao apresentar uma declaração inesperada, a publicação ajuda a confundir e desinformar o público.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 21 de julho, a publicação havia sido reproduzida mais de 27 mil vezes, e somava mais de 300 curtidas e 40 comentários.

O que diz o autor da publicação: Não foi possível entrar em contato com o perfil do TikTok que fez a publicação, uma vez que a rede social não permite o envio de mensagens entre perfis que não se seguem mutuamente.

Como verificamos: O Comprova iniciou a busca pelas palavras-chave “Lula” e “voto em Bolsonaro” no Google e constatou que o mesmo conteúdo de desinformação apurado nesta checagem já foi analisado em 2018 pelo G1 e também pelo Boatos.org, ambos classificando a publicação como falsa.

As verificações citavam que as imagens eram originalmente de uma entrevista de Lula à Rádio Metrópole, da Bahia, realizada em março de 2018. A partir dessa pista, o Comprova fez nova pesquisa no Google por “Rádio Metrópole Lula março 2018”. Ao clicar na aba “Vídeos” da plataforma de busca, foi encontrada a mídia original, divulgada na página oficial de Lula no Facebook.

Para garantir tratar-se do mesmo vídeo, foi feita comparação de vestimenta e enquadramento e, pelos gestos do político, foi possível chegar ao trecho recortado e usado na montagem. A partir daí, foi feita a análise das declarações contidas na entrevista original e no trecho que voltou a viralizar nas redes sociais, em que Lula supostamente declara voto a Bolsonaro.

O Comprova também buscou um posicionamento da assessoria de imprensa do ex-presidente Lula e conversou com o perito forense, professor e especialista em materiais multimídia Mauricio de Cunto, da empresa Fonolab.

Montagem é de 2018

O mesmo conteúdo checado nesta verificação já circulou em 2018. A gravação original é de uma entrevista concedida por Lula ao radialista Mário Kertész, em março daquele ano, à Rádio Metrópole de Salvador.

A íntegra da entrevista, com 43 minutos e 12 segundos, pode ser encontrada no perfil do petista no Facebook, conforme postagem feita em 6 de março de 2018. Na ocasião, Lula fez uma transmissão ao vivo em sua rede social.

Logo no início da entrevista, o petista foi questionado sobre as reais possibilidades de conseguir registrar, à época, sua candidatura à presidência da República junto à Justiça Eleitoral. Em trechos da conversa, o político aponta que seus possíveis adversários na disputa tinham o temor de enfrentá-lo nas urnas, por entender que ele certamente levaria a eleição ao segundo turno, com grande chance de sair vitorioso.

“Eu quero ser candidato porque sou inocente. E espero que a Justiça prove a minha inocência até o dia de registrar minha candidatura”, disse Lula, na ocasião. O petista foi detido pela Polícia Federal um mês depois, em 7 de abril de 2018, para cumprir pena relativa ao caso do tríplex do Guarujá. Em janeiro de 2022, no entanto, a Justiça arquivou o processo.

Conforme análise feita pelo Comprova, é possível observar, a partir de leitura labial e gestos corporais, que o trecho usado no conteúdo aqui apurado compreende o período de 36:52 a 37:09 da entrevista. No vídeo original, Lula diz o seguinte: “[…] Que querem morar. Não é possível que as pessoas não se deem conta… E você sabe mais do que eu, eu não estou fazendo promessas. Estou dizendo para você que é plenamente possível a gente fazer esse país voltar a ser feliz, acreditar no Brasil, produzir mais, comer mais, ganhar mais e todo mundo viver feliz.”

Na montagem, de 31 segundos, o áudio sobreposto às imagens traz as seguintes afirmações: “Tocar nosso País para frente e, se caso der burrada, amanhã ou depois vai ter eleição novamente. Se Deus quiser, até lá, eu volto, concorro e mostro como é que se faz. Não vamos perder tempo votando em outros candidatos, o nosso candidato tem que ser o Bolsonaro. Jamais imaginava que um dia eu falaria isso, mas não tem outra solução, meus companheiros”.

O material foi encaminhado pelo Comprova ao perito forense, professor e especialista em materiais multimídia Mauricio de Cunto, da empresa Fonolab. Com décadas de experiência em análise de conteúdos semelhantes ao aqui verificado, o professor afirma que não há dúvidas sobre a montagem. Ele cita a frase adicionada ao fim do vídeo [Lul4 diz votar em Bolsonaro e seus eleitores] como um exemplo claro de edição e pontua que, quando há uma intervenção óbvia, como é o caso da frase acompanhada de ilustrações infantis, também pode haver inúmeras outras, ainda que mais discretas.

Outros elementos foram elencados pelo especialista como indícios de falsidade do conteúdo. Para ele, a falta de sincronia, a baixa qualidade do áudio, além do tempo curto do vídeo são características típicas de peças de desinformação que circulam na internet.

O vídeo verificado apresenta, ainda, a inserção de duas figuras com o número 22 ao centro, fazendo alusão ao número do Partido Liberal, do qual o presidente Jair Bolsonaro é filiado. As figuras não estão presentes na gravação original.

Quanto à voz usada na montagem, Cunto enumera três possibilidades. A mais provável, para ele: a voz seria de um imitador de Lula. Haveria ainda a possibilidade de a voz ser mesmo do ex-presidente, mas em discurso retirado de contexto ou a partir de uma junção de diversas palavras soltas até formar a frase pretendida. O professor explica que a confirmação da autoria dependeria de análise muito mais aprofundada e extensa, mas que a identificação torna-se dispensável, uma vez que, segundo ele, a montagem é clara e não há sentido algum afirmar que uma declaração como essa tenha partido de um opositor de Bolsonaro.

Em 2018, o PT divulgou uma nota esclarecendo que a peça se tratava de uma montagem feita quatro meses depois da transmissão da entrevista. O partido também afirmou que “os disseminadores da fake news, sabendo que a sincronização áudio/vídeo ficou ridícula, começaram a espalhar também apenas o áudio”.

Por fim, reiterou que “Lula jamais pediria voto a Bolsonaro”.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Desta vez, a peça desinformativa trata de um suposto apoio de Lula a Jair Bolsonaro – candidato e pré-candidato à presidência da República, respectivamente, na eleição de outubro deste ano. Conteúdos falsos e enganosos são prejudiciais ao processo democrático porque atingem o direito do eleitor de fazer sua escolha baseada em fatos, não em boatos e desinformação.

Outras checagens sobre o tema: O conteúdo alvo desta verificação já havia viralizado em 2018 e, à época, foi classificado como falso em uma apuração do Fato ou Fake do portal G1 e desmentido pelo Boatos.org.

Com a proximidade do processo eleitoral deste ano, cresce o número de conteúdos de desinformação que circulam nas redes sociais, sobretudo envolvendo pré-candidatos à Presidência, como é o caso de Lula. O Comprova já apurou que post mente ao tentar associar Lula e Manuela D’Ávila a facada contra Bolsonaro, que é falso que Lula e presidente eleito da Colômbia queiram obrigar pessoas a dividir casas com outras famílias e que é falso vídeo que tenta ligar filho de Lula a Petrobras e aumento dos combustíveis.

Eleições

Investigado por: 2022-07-21

Bolsonaro foi aplaudido por embaixadores, ao contrário do que dizem posts

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o post do pré-candidato a deputado federal pelo PSOL-SP Guilherme Boulos no Twitter informando que o presidente Jair Bolsonaro (PL) não foi aplaudido ao final de sua fala em reunião com embaixadores na última segunda-feira, 18. Boulos postou vídeo da transmissão da TV Brasil, que fechou o áudio do encontro após o fim da fala de Bolsonaro. Gravações realizadas por outros veículos e publicadas na internet mostram que, ao final da apresentação do presidente, boa parte dos presentes o aplaudiu de maneira protocolar. O tuíte, no entanto, foi excluído.

Conteúdo investigado: Tuíte de Guilherme Boulos classifica como “vexame internacional” o momento posterior à apresentação do presidente Bolsonaro a embaixadores em Brasília. Segundo ele, as autoridades ficaram em silêncio ao final da fala do mandatário.

Onde foi publicado: Twitter e Facebook.

Conclusão do Comprova: São enganosos posts segundo os quais o presidente Jair Bolsonaro (PL) não foi aplaudido ao final de uma reunião com embaixadores ocorrida no dia 18 de julho, no Palácio da Alvorada, em Brasília. No vídeo da TV Brasil, o presidente encerra o encontro e o áudio fica mudo logo em seguida, por isso não é possível ouvir os aplausos.

Em outras gravações, no mesmo local, é possível ver e ouvir os aplausos protocolares dos embaixadores logo após o encerramento da reunião. O objetivo do encontro, segundo Bolsonaro, foi mostrar a “realidade” das eleições no país de 2014 e 2018.

Na reunião, o presidente repetiu mentiras e teorias conspiratórias sobre as urnas eletrônicas a fim de deslegitimar o sistema eleitoral e atacou representantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O conteúdo investigado nesta verificação foi publicado no Twitter pelo pré-candidato a deputado federal pelo PSOL-SP e coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e da articulação Frente Povo Sem Medo, Guilherme Boulos. Apesar de ter sido excluído da plataforma, conteúdos com o mesmo teor afirmando que Bolsonaro “passou vergonha” por não ter sido aplaudido na reunião circulam também no Facebook.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; conteúdo que usa dados imprecisos ou induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 19 de julho, o tuíte teve 148,9 mil visualizações, 8,8 mil curtidas e 983 compartilhamentos. O conteúdo, no entanto, foi excluído da plataforma. No Facebook, ao menos duas postagens sobre o assunto somaram 10,7 mil interações até o dia 21 de julho.

O que diz o autor da publicação: A assessoria de Boulos foi contactada por meio de WhatsApp, mas não houve retorno até o fechamento desta checagem.

Como verificamos: A partir de notícias de veículos de comunicação, o Comprova reuniu informações a respeito da reunião de Bolsonaro com embaixadores (G1, Poder360, O Globo, Folha, CNN Brasil e The New York Times) e da repercussão do discurso do presidente.

Em seguida, fazendo uma busca pelas palavras-chave “Bolsonaro”, “aplausos” e “embaixadores” no Google, encontramos checagens da Reuters e Aos Fatos sobre o assunto.

O Comprova também procurou outros vídeos da reunião na internet (Poder360 e Metrópoles) e nas redes sociais de Bolsonaro (Facebook e Youtube) que pudessem ter registrado o áudio.

Por fim, entramos em contato com a assessoria de imprensa de Guilherme Boulos, autor do tuíte, mas sem obter retorno até o fechamento desta checagem.

Reunião

Jair Bolsonaro reuniu na tarde de segunda-feira (18/7) um grupo de embaixadores no Palácio da Alvorada, em Brasília. Segundo o presidente, o objetivo foi mostrar a “realidade” das eleições de 2014 e 2018. Porém, no encontro, Bolsonaro atacou novamente as urnas eletrônicas e afirmou, sem provas, que existe fraude no processo eleitoral do Brasil. Ele ressaltou querer que o vencedor da eleição de outubro próximo “seja aquele que realmente seja votado”. Durante o encontro, Bolsonaro mais uma vez não apresentou nenhuma prova sobre suas alegações.

Áudio da reunião

O pré-candidato a deputado federal pelo PSOL-SP Guilherme Boulos e páginas em mídias sociais que acompanhavam a transmissão pela TV Brasil divulgaram que o discurso de Bolsonaro não teve aplausos no encerramento. Pela transmissão do veículo estatal, no tempo 46:00, o áudio foi cortado assim que Bolsonaro declarou concluída a reunião.

Por meio de outras gravações realizadas no mesmo evento (Poder360 e Metrópoles), é possível ouvir e ver os aplausos dos embaixadores assim que o presidente se despede dos convidados. A ausência de áudio na transmissão da TV Brasil foi alvo de diversas publicações em redes sociais insinuando que a atitude dos presentes, de não aplaudir, seria uma vergonha internacional para o Brasil.

Na transmissão publicada na página de Bolsonaro no Facebook, também é possível constatar que os embaixadores aplaudiram o presidente após o término da fala, a partir do minuto 46:11. No vídeo publicado no canal do Youtube do chefe do Executivo, as palmas podem ser ouvidas aos 43 minutos e 42 segundos.

As gravações da reunião mostram que houve um momento de silêncio após o encerramento do pronunciamento. De acordo com reportagem do The New York Times, em seguida, integrantes da equipe de Bolsonaro puxaram os aplausos e foram seguidos pelos embaixadores presentes no encontro.

Ataques ao sistema eleitoral

No encontro, Bolsonaro voltou a fazer ataques infundados sobre a segurança das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro. Durante o pronunciamento, o presidente repetiu, sem provas, uma série de alegações que já foram desmentidas, como a de que as urnas completariam automaticamente votos, a de que os equipamentos não seriam auditáveis e a de que uma empresa terceirizada faria a contagem da votação.

Bolsonaro também tentou deslegitimar ministros do STF e do TSE, além de exaltar um suposto papel das Forças Armadas na avaliação do processo eleitoral.

As declarações do presidente foram rebatidas pelo TSE, que assegurou mais uma vez a segurança do processo eleitoral, pela Agência Lupa, Aos Fatos e Estadão Verifica. Além disso, um dia após a reunião, a Transparência Internacional Brasil enviou aos embaixadores uma lista com checagens para desmentir as declarações do mandatário.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Conteúdos falsos ou enganosos que envolvem o atual presidente e pré-candidato à reeleição podem influenciar na compreensão da realidade e na imagem construída pelos eleitores sobre o político. A escolha sobre o candidato deve ser tomada com base em informações verdadeiras e confiáveis.

Outras checagens sobre o tema: A Aos Fatos e a Reuters já verificaram que é falso que embaixadores não aplaudiram Bolsonaro após discurso desinformativo sobre o processo eleitoral brasileiro.

Em verificações anteriores que citam o presidente Bolsonaro, o Comprova mostrou que posts enganam ao sugerir ataque a Bolsonaro em suposta produção da Globo, que post mente ao tentar associar Lula e Manuela D’Ávila a facada contra Bolsonaro e que é montagem foto que mostra Bolsonaro passando de moto sob uma faixa “Vai trabalhar, preguiçoso!” em Salvador.

Em relação a conteúdos que atacam a segurança das urnas e do processo eleitoral, o Comprova já mostrou que não há dispositivo nas urnas eletrônicas capaz de alterar votação, que montagem de 2018 volta a circular para atacar sistema eletrônico de votação e que contagem de votos é feita pelo TSE e não por empresa terceirizada.

 

 

 

Eleições

Investigado por: 2022-07-20

Lula não disse querer implantar comunismo chinês no Brasil; entrevista de ex-presidente já foi deturpada antes

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso o vídeo que induz ao entendimento de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quer implementar o comunismo chinês no Brasil. A publicação faz a junção de trechos de dois vídeos, por meio de edição, para tirar de contexto falas do petista em elogio ao governo de Pequim, durante entrevista concedida a um jornal daquele país, em 2021. A peça de desinformação usa ainda imagens de uma agressão a funcionários de um banco chinês, publicadas em 2016, para sugerir que aquele é o tratamento normalmente dado aos trabalhadores na China.

Conteúdo investigado: Vídeo editado, publicado no Kwai, une imagens de agressões realizadas contra funcionários de um banco chinês durante um treinamento de coaching a falas do ex-presidente Lula, durante entrevista a um jornal da China. A edição dá a entender que o petista defende a implementação de um regime comunista no Brasil. Sobre as imagens das agressões, está escrito: “Lula diz que quer implementar o comunismo chinês no Brasil. Veja como o trabalhador é tratado na China”.

Onde foi publicado: Kwai.

Conclusão do Comprova: É enganoso o vídeo que sugere que o ex-presidente Lula quer implementar um regime comunista no Brasil, caso seja vença a eleição presidencial de outubro deste ano. Diferentemente do que alega o conteúdo aqui verificado, o petista não disse ter a pretensão de adotar um regime comunista a exemplo do que é praticado na China.

O vídeo junta trechos de dois conteúdos diferentes. Um deles mostra imagens de um episódio de agressões a funcionários de um banco chinês. Outro trecho traz falas elogiosas do petista ao governo daquele país. Um texto sobreposto às imagens sugere que as agressões são uma prática institucionalizada pelo regime comunista chinês e tenta associá-las aos elogios do ex-presidente.

“A China tem um partido que tem poder, tem um Estado forte, que toma decisões e que as pessoas cumprem. Coisa que nós não temos aqui no Brasil. Eu acho que a China é um exemplo para desenvolvimento para o mundo […]”, diz o petista em trecho destacado no vídeo. Outro corte no vídeo complementa a fala de Lula com o seguinte trecho: “Mas eu tenho muita fé, muita esperança que vamos conseguir fazer isso a partir de 2022”, levando a entender que o ex-presidente espera implementar as agressões exibidas.

Na verdade, quando Lula fez essa afirmação, ele se referia à necessidade de os países em desenvolvimento terem independência em relação à política cambial influenciada pelos Estados Unidos. E acrescenta: “Eu trabalhei muito com o Hu Jintao [ex-presidente da China] a necessidade de uma relação Sul-Sul. Não ficar dependendo do Norte como nós estamos dependendo. Lamentavelmente, a gente não conseguiu chegar lá, mas eu tenho muita fé, muita esperança que nós vamos conseguir fazer isso a partir de 2022.”

No vídeo completo da entrevista, publicado no dia 7 de julho de 2021, Lula elogia o governo chinês em relação ao desenvolvimento econômico, condução de medidas adotadas durante a pandemia da covid-19 e investimentos feitos em áreas estruturantes daquele país.

Ele não emite elogios à punição física dos funcionários do banco durante treinamento de coaching realizado pela própria empresa. O caso teve repercussão internacional em 2016, e dois executivos do banco foram suspensos.

Para o Comprova, é enganoso o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos de maior alcance nas redes sociais. Até o dia 20 de julho, o vídeo teve 136,6 mil visualizações, 1 mil comentários, 4,5 mil curtidas e 6,3 mil compartilhamentos.

O que diz o autor da publicação: O Comprova entrou em contato com o responsável pela publicação por meio de mensagem no aplicativo Kwai, mas não houve retorno. Não foram encontrados perfis do autor em outras redes sociais.

Como verificamos: Para fazer a verificação, o Comprova pesquisou no Google pelos termos “Lula”, “entrevista” e “jornal chinês”. Acessou no YouTube a transmissão da entrevista, realizada no dia 7 de julho de 2021, e procurou matérias de veículos de comunicação (Globo, People’s Daily China, BBC News e Reuters) sobre a punição a funcionários do banco chinês no mês de junho de 2016.

Também foram acessadas checagens anteriores envolvendo a entrevista do ex-presidente, feitas pelo próprio Comprova, pela AFP Checamos e pelo site Boatos.org.

Reportagem sobre abusos a trabalhadores na China

O vídeo enganoso tem início com a exibição de uma reportagem veiculada pela Globo em 21 de junho de 2016. As imagens mostram oito funcionários de um banco em Changzhi, cidade no norte da China, sendo agredidos por terem apresentado um desempenho ruim no trabalho. A gravação foi divulgada na internet, pela primeira vez, no Facebook do jornal People’s Daily, da China, um dia antes, em 20 de junho.

Na época, o caso repercutiu internacionalmente (O Globo, Globo News, BBC News, Reuters) e dois executivos do banco foram suspensos.

Segundo as reportagens, as agressões ocorreram em uma sessão de treinamento para mais de 200 funcionários no Changzhi Zhangze Rural Commercial Bank. O instrutor do curso Jiang Yang emitiu um pedido de desculpas, dizendo que o espancamento foi “um modelo de treinamento” que ele já aplicava durante anos, e não tinha sido instigado pelos líderes do banco.

Conforme reportou a BBC News, o governo local de Changzhi publicou uma declaração afirmando que o Sindicato das Cooperativas de Crédito Rural de Shanxi (ou Shanxi Rural Credit Cooperatives Union, em inglês), que regulamenta o banco, havia criado um grupo para investigar o incidente.

De acordo com o documento do governo de Changzhi, o presidente e o vice-governador do banco foram suspensos por “não terem verificado estritamente o conteúdo do curso”, e o banco deveria auxiliar os funcionários a buscarem uma compensação junto à empresa de treinamento.

Entrevista de Lula

No conteúdo investigado, após a reportagem da Globo sobre as agressões, o vídeo é cortado e passa a exibir trechos da entrevista do ex-presidente Lula ao jornal chinês Guancha, em julho de 2021. Na conversa, o petista elogia o governo da China em resposta ao questionamento de como o país conseguiu evoluir mais do que as outras nações integrantes do Brics. O bloco é formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Durante a entrevista, que durou pouco mais de 51 minutos, Lula abordou diversos temas, como o combate à pandemia do coronavírus, investimentos na educação e a evolução econômica do país. A conversa foi noticiada pela imprensa brasileira (Folha e Poder360) e também foi compartilhada no canal do YouTube do ex-presidente.

Em nenhum momento Lula fala sobre as agressões aos trabalhadores do banco chinês, assim como não diz que pretende implantar o comunismo no Brasil caso seja eleito em 2022.

Trechos da entrevista foram usados fora de contexto

Ao contrário do que sugere o conteúdo, que tem semelhanças com outra checagem feita pelo Comprova, não é verdade que o petista tenha dito que poderá implantar restrições autoritárias inspiradas na China.

A publicação checada edita o vídeo das agressões com a inserção de falas do ex-presidente Lula ao entrevistador Eric Li, do jornal chinês Guancha, quando o petista elogiou o governo chinês em temas como a economia, condução das ações contra o avanço da covid-19 e investimentos na educação. No entanto, ele não disse que pretendia adotar algum modelo utilizado pelo governo chinês, inclusive no que diz respeito ao tratamento aos trabalhadores, como sugere o vídeo checado.

Há uma distorção em trechos da fala do ex-presidente. Na primeira vez em que a peça de desinformação semelhante circulou acompanhada do trecho da entrevista de Lula, ela era relacionada a questões religiosas da China. Agora, o mesmo conteúdo voltou a ser divulgado em redes sociais sob a tônica de que o petista quer implantar o comunismo chinês no Brasil.

A fala destacada no vídeo aqui verificado para indicar que Lula pretende implantar o comunismo é, na verdade, uma resposta do petista à pergunta sobre o porquê de apenas a China, dentre os países do Brics, ter conseguido se desenvolver economicamente.

“A China tem o Estado forte, que toma decisões e que as pessoas cumprem”, conduta que, segundo ele, não ocorre no Brasil. Em seguida, o ex-presidente enaltece o país chinês pelo combate à pandemia de covid-19: “A China só conseguiu combater o coronavírus com a rapidez que combateu porque tem um partido forte, um Estado forte. Porque tem pulso, tem voz de comando, nós não temos isso aqui no Brasil.”

O outro segmento da fala do ex-presidente que está fora de contexto é a seguinte frase: “A China é um exemplo para o mundo. E eu espero que outros países aprendam a lição com a China. Tenho muita fé, muita esperança, que vamos conseguir fazer isso, a partir de 2022.”

Neste trecho final, na verdade, o ex-presidente elogia o desenvolvimento econômico da China nos últimos 20 anos. “Eu acho que a China é um exemplo de desenvolvimento para o mundo. E eu espero que outros países aprendam a lição com a China para que a gente possa ser mais rico, ser mais forte, ter mais distribuição de riqueza e ter um mundo mais humano.”

Por fim, quando afirma que tem “muita fé, muita esperança, que vamos conseguir fazer isso, a partir de 2022”, Lula se refere à independência dos países do sul global, que são nações em desenvolvimento, em relação à política cambial influenciada pelo dólar.

“Eu trabalhei muito com o Hu Jintao [ex-presidente da China] a necessidade de uma relação Sul-Sul. Não ficar dependendo do Norte como nós estamos dependendo. Lamentavelmente, a gente não conseguiu chegar lá, mas eu tenho muita fé, muita esperança que nós vamos conseguir fazer isso a partir de 2022.”

Esse trecho inteiro pode ser conferido entre os minutos 00:20:55 e 00:22:06 da entrevista original.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. O vídeo aqui verificado cita o ex-presidente e pré-candidato à presidência Lula. Informações falsas que envolvem atores políticos são prejudiciais ao processo democrático e atrapalham a decisão do eleitor, que deve ser tomada com base em informações verdadeiras.

Outras checagens sobre o tema: A entrevista do ex-presidente Lula ao Guancha já foi deturpada e utilizada em peças de desinformação semelhantes que foram alvo de checagens do Estadão Verifica, da AFP e do site Boatos.org.

Em verificações anteriores envolvendo o pré-candidato ao Planalto, o Comprova mostrou que post mente ao tentar associar Lula e Manuela D’Ávila a facada contra Bolsonaro, que é falso que Lula e presidente eleito da Colômbia queiram obrigar pessoas a dividir casa com outras famílias e que postagem usa foto de atos sem presença de Lula para tentar desacreditar pesquisas eleitorais.

Eleições

Investigado por: 2022-07-19

Com áudio falso, vídeo engana ao sugerir que ex-governador da Paraíba ‘humilhou’ Lula e elogiou Bolsonaro

  • Falso
Falso
Não é verdade que o ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho (PT) “envergonhou” o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao falar sobre a obra de transposição do rio São Francisco durante um evento, como sugere um vídeo postado no TikTok. O áudio original do vídeo foi substituído por outro, para sugerir que Coutinho criticou o trabalho do PT na obra e elogiou o do presidente Jair Bolsonaro (PL), o que não aconteceu. Na gravação original, feita antes de Bolsonaro chegar à presidência, Coutinho se dirige a Lula apenas em tom de agradecimento.

Conteúdo investigado: Vídeo no TikTok mostra o ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho se dirigindo a Lula durante um evento em um palco com diversos membros do Partido dos Trabalhadores (PT). No áudio desse vídeo, uma voz falsamente atribuída a Coutinho fala, em ritmo de poesia, que durante o período dos governos do PT e de Michel Temer (MDB) houve uma gestão “corrupta” da obra de transposição do rio São Francisco. A voz afirma que esse teria sido o motivo da obra não ter sido finalizada, mas que “para a sorte dos nordestinos, Bolsonaro chegou”.

Onde foi publicado: TikTok.

Conclusão do Comprova: Não é verdade que o ex-governador da Paraíba Ricardo Coutinho tenha “envergonhado” Lula ao falar da obra de transposição do rio São Francisco. Diversas versões do mesmo vídeo, em que Coutinho fala e gesticula em direção a Lula em um palco, circulam no TikTok, mas com o áudio adulterado. Como é possível ver em uma transmissão do evento, ocorrido em março de 2017, o então governador da Paraíba discursa em tom de agradecimento a Lula e ao PT.

O áudio inserido no vídeo foi gravado por um apoiador de Bolsonaro para exaltar o trabalho do atual presidente na obra da transposição, e postado no TikTok em abril de 2022. A partir de uma ferramenta disponível na própria rede social, é possível que um usuário compartilhe um vídeo removendo seu áudio original e o substituindo pelo áudio de outro conteúdo que já tenha sido postado na rede. Foi isso que aconteceu com o vídeo aqui analisado.

Nos comentários da postagem é possível verificar que parte dos usuários interpretou o conteúdo como sátira, enquanto outros fazem elogios ao presidente Jair Bolsonaro e à fala falsamente atribuída a Coutinho.

Embora o perfil que postou o vídeo se descreva como de “sátira e memes”, a maior parte dos conteúdos publicados é de apoio e propaganda do presidente Bolsonaro, e não apenas de humor. Assim, o post foi classificado como falso, que, para o Comprova, é o conteúdo que sofreu edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: A versão do vídeo aqui analisado somava, até o dia 19 de julho, mais de 5,5 milhões de visualizações, 148,5 mil curtidas, 95,3 mil compartilhamentos e 9.690 comentários no TikTok.

O que diz o autor da publicação: Não foi possível entrar em contato com o perfil do TikTok que fez a publicação, uma vez que a rede social não permite o envio de mensagens entre perfis que não se seguem mutuamente. O Comprova não conseguiu localizar perfis com o mesmo nome em outras redes sociais.

Como verificamos: Ao assistir ao vídeo, primeiro, selecionamos a opção “som original”, dentro do TikTok, para consultar qual a origem do áudio que estava sobreposto ao vídeo analisado.

Para verificar a origem do vídeo, pesquisamos no Google por “Lula evento transposição rio São Francisco”. Um dos resultados indica uma reportagem da GloboNews, de março de 2017, em que Lula aparece com a mesma roupa que ele está usando no vídeo aqui analisado. A busca no Google ainda levou a checagens produzidas pelo Estadão e pela AFP Brasil sobre o mesmo tema.

De acordo com a reportagem da GloboNews, o evento aconteceu na Paraíba, reuniu diversos políticos ligados ao PT e foi chamado pelo partido de “inauguração popular da transposição do rio São Francisco”. Ao buscar por “inauguração popular da transposição do rio São Francisco”, também no Google, foi possível encontrar uma publicação da transmissão ao vivo do evento.

Áudio foi sobreposto à gravação original

Na postagem é possível verificar que o áudio não faz parte do vídeo que está sendo exibido. O próprio TikTok mostra isso na ferramenta “som original”. Ao clicar nela, o aplicativo redireciona para o perfil de quem gravou a voz originalmente, e que foi sobreposta no vídeo. O áudio original foi postado pelo perfil @josafa833 no dia 9 de abril de 2022, com a legenda “A verdade sobre a transposição do rio São Francisco”. Ainda está escrito dentro do vídeo: “Poeta Baiano faz o Brasil chorar com a poesia da transposição das águas do rio São Francisco para o Nordeste”.

Neste vídeo, o usuário do TikTok declama uma poesia de pouco mais de dois minutos para exaltar o trabalho de Jair Bolsonaro na obra de transposição e criticar o das gestões anteriores do governo federal. O trecho que é sobreposto à voz do governador Ricardo Coutinho é: “No canal do São Francisco, na velha transposição, passava só a poeira, junto com a ilusão, durante 16 anos de uma corrupta gestão. O sonho do sertanejo era só decepção. Do canal todo quebrado, o dinheiro evaporou. Orçado em 4 bilhões e com 10 não terminou. Para a sorte dos nordestinos, o Bolsonaro chegou.”

Conforme mostrou checagem do Estadão sobre o tema, em julho de 2020 o senador Flávio Bolsonaro (PL) compartilhou um vídeo em que a mesma pessoa declama esse poema. O presidente Bolsonaro também compartilhou o áudio desse poema em um vídeo postado no seu perfil do Facebook, em agosto de 2020.

Contexto do vídeo

O evento “Inauguração popular da transposição do rio São Francisco” foi promovido pelo PT em 19 de março de 2017, na cidade de Monteiro, na Paraíba. Foi uma inauguração simbólica do Eixo Leste da obra de transposição, que havia sido inaugurado oficialmente pelo então presidente Michel Temer 10 dias antes.

Na transmissão ao vivo do canal TVT é possível ver que, além de Lula, o evento contou com a participação da ex-presidente Dilma Rousseff, da deputada federal Gleisi Hoffmann, do ex-senador Lindbergh Farias (todos do PT) e do então governador da Paraíba Ricardo Coutinho (na época no PSB).

Coutinho começa a falar com 34 minutos e 24 segundos da transmissão da TVT. Ele inicia sua fala criticando o andamento da Operação Lava Jato e o processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Em seguida, o ex-governador elogia o governo de Lula na presidência, exalta a importância da obra da transposição do rio São Francisco e agradece o papel de Lula e Dilma no empreendimento.

Conforme a checagem da AFP sobre o tema também indicou, a partir do movimento corporal do então governador Ricardo Coutinho é possível observar que o trecho da transmissão que foi usado na postagem tem início em 44 minutos e 21 segundos. Nele, Coutinho diz: “Este país e esta região, tão sofrida, ao longo de tantos anos, volta a trilhar o seu caminho de prosperidade. O que essas águas farão, como as águas do eixo Norte, Jeová, elas trarão uma coisa que é fundamental”. Na sequência, ele fala das oportunidades que a população da região passarão a ter com a chegada das águas do São Francisco e encerra sua fala, sem fazer qualquer crítica a Lula ou exaltação a Bolsonaro, que na época sequer era o presidente.

Obra de transposição do rio São Francisco

Dividida em dois eixos (Norte e Leste), a obra de transposição do rio São Francisco começou em 2007 e passou pelos governos de Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. Conforme mostrou checagem recente do Comprova, existem indicadores diferentes a respeito do quanto foi efetivamente feito por cada gestão ao longo desses anos, o que frequentemente gera disputa pela “paternidade” da obra.

Relatório de 2016 do, hoje extinto, Ministério da Integração Nacional apontou que naquele ano os eixos Norte e Leste apresentavam 84,4% e 87,7% de suas estruturas físicas concluídas. Em março de 2017, Temer inaugurou o eixo Leste da transposição e, em novembro daquele ano, o Ministério da Integração divulgou que as obras no eixo Norte estavam 92,5% concluídas.

A atual gestão do Ministério do Desenvolvimento Regional, que é a responsável pela obra hoje, contudo, contesta esses percentuais. Em resposta ao Comprova no último mês de maio, a pasta afirmou que trechos antes dados como concluídos tiveram que passar por reformas e que a base de cálculo das porcentagens concluídas pelas gestões anteriores é diferente da atual. Segundo o ministério, a extensão total da obra foi ampliada pelo governo Bolsonaro, aumentando de 477 para 699 km, com a adição dos Ramais Agreste, Apodi e Salgado, conforme previa o projeto original da transposição.

Versões parecidas do mesmo vídeo também circulam no TikTok

No mesmo perfil do TikTok estão postadas outras versões do mesmo vídeo, com áudios diferentes, mas sempre sugerindo a ideia de que Lula foi “humilhado”. Em uma delas, a fala do ex-governador da Paraíba é substituída por um outro trecho do poema gravado pelo perfil @josafa833, sempre com palavras de apoio ao presidente Bolsonaro e exaltando seu papel na obra da transposição.

Em outras versões do vídeo, a fala é substituída por um poema gravado pelo mesmo usuário em que ele exalta as recentes medidas de transferência de renda tomadas pelo governo federal,como o vale-gás de R$ 120 e o aumento do valor mínimo do auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600.

Há ainda uma outra versão, que também circula no TikTok, em que a voz do governador Ricardo Coutinho é substituída por um trecho do discurso de Geraldo Alckmin (PSB), durante evento da sua posse como presidente do PSDB (seu antigo partido), em 2017. Alckmin foi o candidato da sigla na disputa presidencial de 2018 e, durante essa fala, ele diz que Lula “quebrou o Brasil” e que sua tentativa de voltar à presidência significava que ele queria “voltar à cena do crime”. Hoje, Geraldo Alckmin é candidato a vice na chapa com Lula.

Por que investigamos:

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A transposição do rio São Francisco tem seu legado disputado por dois dos principais presidenciáveis na corrida eleitoral (Lula e Bolsonaro), e informações falsas ou enganosas sobre o empreendimento podem influenciar na escolha do eleitor. Além disso, informações falsas a respeito de ataques ou falas de políticos direcionadas a outras autoridades, como é o caso da falsa “humilhação” sofrida por Lula no vídeo aqui analisado, também podem influenciar a imagem construída pelos eleitores sobre os candidatos. A decisão sobre o candidato deve ser tomada com base em informações verdadeiras e confiáveis.

Outras checagens sobre o tema:

O Comprova já publicou diversos conteúdos a respeito da transposição do rio São Francisco, como a verificação de que Bolsonaro não concluiu 84% da obra, e que postagens inflaram a responsabilidade do atual governo federal no empreendimento. Também foi verificado que comparações enganosas com fotos de trechos da transposição tentaram exaltar Bolsonaro e que o Exército não refez trechos da obra entregues por Dilma e Temer.

 

 

Eleições

Investigado por: 2022-07-18

Montagem de 2018 volta a circular para atacar sistema eletrônico de votação

  • Falso
Falso
É falsa uma imagem de um suposto Boletim de Urna que seria uma evidência de fraude nas eleições presidenciais de 2018, ao mostrar 9.909 votos no então candidato Fernando Haddad (PT) enquanto registra 777 eleitores aptos e 452 votos nominais. A imagem é uma montagem e circula desde aquele ano, tendo sua veracidade desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à época e também agora, quando voltou a circular nas redes sociais. Na mesma imagem, Jair Bolsonaro (PL) aparece com 0 voto.

Conteúdo investigado: Postagem no Twitter chama atenção para a disparidade de números em um Boletim de Urna de 2018: 9.909 votos em Haddad, o que seria impossível, já que o documento mostra 777 eleitores aptos na seção e 452 votos nominais. Os dados, marcados na imagem, seriam prova de fraude, como afirma o texto: “FRAUDE 2018 VAI VENDO BRASIL”.

Onde foi publicado: Twitter e Kwai.

Conclusão do Comprova: É falsa a postagem que mostra imagem adulterada de um boletim real de votação na cidade de Nagóia, no Japão, após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2018. O conteúdo manipulado altera os números de votos para os então candidatos Fernando Haddad, Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin (PSDB) para afirmar, falsamente, que houve fraude na eleição.

O conteúdo, que foi desmentido em 2018 pelo próprio Comprova e diversos outros veículos, voltou a circular agora, sendo desmentido novamente, inclusive pelo TSE, que voltou a apontar manipulação de dados.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

Alcance da publicação: Até o dia 18 de julho, o tuíte tinha quatro mil interações. O conteúdo foi marcado como informação falsa pelo Twitter, que bloqueou as funções de curtir, compartilhar ou comentar. Já no Kwai, foram 516 visualizações.

O que diz o autor da publicação: O perfil no Twitter não permite o envio de mensagens. A conta posta conteúdo de apoio a Jair Bolsonaro e retuitou por várias vezes a postagem falsa aqui verificada, com o texto: “Derrubaram? POSTO DE NOVO”.

Como verificamos: O Comprova localizou checagens de 2018 (Comprova, G1, UOL, Tribunal Regional Eleitoral-MT, Folha de S.Paulo e Terra) e deste mês (AFP Checamos, Estadão Verifica e Boatos.org) sobre a mesma imagem: todas com a conclusão de que houve manipulação com o objetivo deliberado de atacar, a partir de informação falsa, o sistema eletrônico de votação.

Também foram consultadas informações no site do TSE, que, procurado novamente pelo Comprova, reafirmou que o conteúdo é uma fraude.

 

Números foram adulterados em boletim

A imagem compartilhada na postagem falsa, feita em 13 de julho, circula desde 2018, quando a disputa eleitoral para a Presidência da República foi marcada por ataques à lisura do sistema eletrônico de votação, o que também acontece agora. Na época, o Comprova mostrou que a imagem era falsa e tinha sofrido adulteração.

Os números referentes a Haddad foram alterados de 0009, como mostra foto do documento original obtido pelo Comprova, para 9909. Já os votos em Jair Bolsonaro, também candidato à época, tiveram o número manipulado de 0372 para 0000.

| Imagem do documento original fornecida pelo TSE

A fraude também foi mostrada, à época, pelo Fato ou Fake, do G1, e agora, pela AFP Checamos, quando volta a circular. À agência, o TSE reafirmou que o conteúdo se trata de fraude.

“Trata-se de reprodução adulterada de boletim oficial, que apresenta os mesmos códigos de verificação mostrados na imagem e que foi publicado pela Justiça Eleitoral”, disse o TSE à AFP.

À época em que o conteúdo falso circulou pela primeira vez, os códigos de verificação do boletim, que não foram adulterados, permitiram a localização do boletim real. Nele, é possível encontrar diversas outras correspondências com a imagem manipulada, como data, horário de fechamento, ordem dos candidatos na lista de votação, os números de eleitores aptos, total de votos nominais, brancos e nulos etc.

O boletim real se refere à votação na cidade de Nagóia, no Japão, e pode ser consultado no site do TSE. Os dados reais são: 0009 votos em Haddad e 0372 em Jair Bolsonaro. Na imagem adulterada, os votos em Geraldo Alckmin também foram modificados, de 0011 para 0000.

A inscrição 0000, como também aparece para Bolsonaro no conteúdo manipulado, é mais uma evidência de que a imagem foi alterada, já que, como informou o TSE ao Comprova, os boletins de urna não exibem nomes de candidatos que não receberam votos.

TSE reafirma ao Comprova que conteúdo sofreu montagem

Procurado novamente pelo Comprova, o TSE reafirmou que a imagem “trata-se de reprodução adulterada de boletim oficial, que apresenta os mesmos códigos de verificação mostrados na imagem e que foi publicado pela Justiça Eleitoral”.

No e-mail, o TSE ainda acrescenta outro indício de manipulação na imagem: “Os dígitos 9 estão desalinhados do resto dos números, o que sugere alteração digital da foto”.

Em anexo, encaminhou novamente o boletim real.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizam na internet e estão relacionados com as eleições presidenciais, a realização de obras públicas e a pandemia da covid-19. Depois de ter sido desmentido em 2018, o conteúdo aqui verificado volta a circular com o intuito de tumultuar o processo eleitoral em andamento, uma prática adotada pelo presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova, o G1, a AFP Checamos, o Estadão Verifica, o Boatos.org, o UOL, o Tribunal Regional Eleitoral-MT, a Folha de S.Paulo, e o portal Terra foram alguns dos sites que desmentiram a informação, em 2018 e agora.

Ainda sobre as eleições presidenciais, o Comprova mostrou, recentemente, que post mente ao tentar associar Lula e Manuela D’Ávila a facada contra Bolsonaro, que é falso que estatuto do PT prevê confisco de bens dos brasileiros e que é montagem foto que mostra Bolsonaro passando de moto sob uma faixa “Vai trabalhar, preguiçoso!” em Salvador.

Em relação às urnas eletrônicas, o Comprova já realizou diferentes checagens como a da contagem de votos feita pelo TSE e não por empresa terceirizada, como afirmava post. Também, recentemente, o Comprova verificou que não há dispositivo nas urnas eletrônicas capaz de alterar votação, ao contrário do que dizia conteúdo. No ano passado, outra checagem do Comprova apurou que urnas eletrônicas brasileiras não foram hackeadas nos EUA.

Eleições

Investigado por: 2022-07-18

Posts enganam ao sugerir ataque a Bolsonaro em suposta produção da Globo

  • Enganoso
Enganoso
Posts no Twitter e no Instagram enganam ao afirmar que cena do filme “A Fúria”, em que homem com faixa presidencial aparece baleado no chão, foi gravada no Projac, como era conhecido o complexo de estúdios da TV Globo. As alegações são de que seria um ataque da emissora ao presidente Jair Bolsonaro (PL). A Globo negou que as filmagens ocorreram no local ou em qualquer dependência da empresa. A obra, ainda em produção, tem apoio do Canal Brasil, do qual a emissora tem participação acionária, mas a empresa disse que não interfere na gestão ou no conteúdo do canal.

Conteúdo investigado: Posts nas redes sociais que associam a cena de um filme de ficção a uma encenação de atentado ao presidente Jair Bolsonaro e que teria sido feita nos estúdios da TV Globo.

Onde foi publicado: Twitter e Instagram.

Conclusão do Comprova: Postagens nas redes sociais afirmam, de forma enganosa, que uma filmagem da encenação do atentado a um homem com faixa presidencial foi gravada em estúdio da TV Globo. As imagens são, na verdade, do filme “A Fúria”, de Ruy Guerra. A Globo nega que a gravação tenha sido feita em qualquer dependência da emissora e diz não ter envolvimento direto com o conteúdo.

Sem contexto sobre o conteúdo do filme, os posts foram compartilhados como se fosse um ataque da emissora ao presidente Jair Bolsonaro, considerando a caracterização do ator e uma cena em que o personagem está numa moto, o que seria alusivo às motociatas presidenciais.

Comentários no tuíte sugerem que se trata de um ato de conspiração, ou uma dica de como matar o presidente e também que a cena alimenta o discurso de ódio.

A produção de “A Fúria” ressalta que as imagens foram vazadas sem autorização e que o longa-metragem ainda não foi concluído. Apontado como o último filme de uma trilogia iniciada na década de 1960, a previsão é que seja lançado no fim de 2023, portanto, sem relação com a disputa eleitoral deste ano.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: No Twitter, a postagem alcançou, até 18 de julho de 2022, 1,5 mil curtidas e 389 compartilhamentos. Já no Instagram, o vídeo tem 14,2 mil visualizações.

O que diz o autor da publicação: O Comprova procurou os autores das duas publicações verificadas e entrou em contato por e-mail e telefone disponível em suas redes sociais, mas não houve retorno até a publicação.

Como verificamos: Primeiramente, o Comprova buscou no Google pelas palavras-chaves “Bolsonaro”, “cena”, “atentado”, “Globo” e a consulta retornou reportagens de diversos veículos profissionais sobre o assunto (Gazeta do Povo, G1, Carta Capital, Poder 360, Metrópoles, O Antagonista).

A equipe também fez contato, por telefone, com a assessoria da TV Globo, o Canal Brasil e Rune Tavares, indicado como produtor do filme.

Além disso, por redes sociais, procurou um estúdio de gravações apontado como possível locação do filme e os autores das postagens aqui verificadas, mas não houve retorno para os questionamentos.

 

Vídeo é parte de filme

O trecho do vídeo que circula nas redes sociais mostra uma encenação de um personagem com uma faixa presidencial e uma camisa branca em uma moto. Em seguida, o personagem aparece no chão com manchas vermelhas no corpo, que representam sangue.

A gravação é uma cena do filme “A Fúria”, do diretor Ruy Guerra. Conforme explicado pela produção do longa-metragem, o filme será lançado no fim de 2023 e por isso “não há qualquer relação com o processo eleitoral e, muito menos, forjam fake news simulando um fato real.” Ainda segundo a produção da obra cinematográfica, as imagens foram gravadas e divulgadas sem autorização. Além disso, a produção afirmou que a cena foi retirada de contexto. As gravações do longa tiveram início em 5 de julho e vão até 6 de agosto.

A produção do filme não explicou em qual enredo a cena foi gravada. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo antes de a nota da produção ser divulgada, Guerra disse que não falaria sobre o filme até seu lançamento.

O longa-metragem, conforme reportagem da Revista de Cinema, é o fechamento de uma trilogia que começou em 1964 com o filme “Os Fuzis” e sequenciada, em 1978, com “A Queda”. Na história, Mário, o protagonista da saga, preso no fim dos anos 70, durante a ditadura militar, sai da cadeia para ajustar contas com sua história e com os dois homens que, a seu ver, traíram a ele e ao país: Salatiel, seu sogro, e hoje rico empreiteiro, e Ulisses, seu antigo companheiro de militância, hoje um poderoso político.

O filme é produzido pela Acere Produção Artística e Cultural, de São Paulo, e foi contemplado pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) da Agência Nacional do Cinema (Ancine) com R$ 2 milhões.

Após a divulgação das imagens, o ministro da Justiça, Anderson Torres, pediu que a Polícia Federal (PF) abra um inquérito para investigar a gravação. “Circulam nas redes fotos e vídeos de um suposto atentado contra a vida do presidente Bolsonaro. Produção artística? Estamos estudando o caso para avaliar medidas cabíveis e apurar eventuais responsabilidades. As imagens são chocantes e merecem ser apuradas com cuidado”, disse pelo Twitter. “Determinei encaminhamento do caso à PF para instauração de inquérito policial, e completa apuração dos fatos”, acrescentou.

Gravações não foram feitas nos Estúdios Globo

O boato que circula nas redes sociais é que a gravação do filme teria sido feita nos Estúdios Globo (novo complexo de produção do Grupo, anteriormente chamado Projac). No entanto, a empresa negou que a produção tenha sido feita nos estúdios da emissora.

Em nota, a emissora ainda esclareceu que o filme não é produzido pela Globo. O filme “A Fúria” é apoiado pelo Canal Brasil, do qual o Grupo Globo é sócio. Segundo a emissora, embora tenha participação acionária no Canal Brasil, a Globo não interfere na gestão e nos conteúdos do canal.

Além disso, o Canal Brasil só tem participação de 3,61% nos direitos patrimoniais da obra de ficção. Em nota, disse que não tem gestão sobre o conteúdo feito no filme. “Como é de praxe, o canal não interfere nas obras que apoia, nem tampouco teve conhecimento prévio dessa cena. Ainda não assistimos a nenhum trecho do longa-metragem, que não foi finalizado por seus realizadores.”

Quem é Ruy Guerra

O diretor responsável pelo filme é o cineasta luso-brasileiro Ruy Guerra. Expoente do Cinema Novo, ele começou a carreira ainda na década de 1960, com o filme Os Cafajestes (1962). Aos 90 anos, ele tem no currículo mais de 15 filmes como diretor, entre eles Os Fuzis (1964), ganhador do Urso de Prata no Festival de Berlim, e Os Deuses e os Mortos (1970), ganhador do Candango de Ouro de Melhor Filme no Festival de Brasília.

Os autores das postagens

A publicação no Twitter foi feita por Nathalia Oliveira, vocalista da Banda Sépia. Nas redes sociais, a cantora faz com frequência publicações com mensagens de apoio a Bolsonaro e críticas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Já o responsável pelo post no Instagram foi Rodrigo Zucco, conhecido como Delegado Zucco, que se apresenta no Twitter como pré-candidato a deputado estadual pelo Rio Grande do Sul. Nas redes, Zucco também faz postagens com apoio a Bolsonaro e ataques a adversários do presidente.

A reportagem entrou em contato com Nathalia e Zucco, mas não houve retorno.

Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia de covid-19, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A postagem faz referência a Jair Bolsonaro, pré-candidato à reeleição para a presidência da República, e ataca a Rede Globo, emissora que é alvo frequente de bolsonaristas devido a reportagens críticas ao presidente. O conteúdo enganoso é prejudicial ao processo democrático porque distorce a compreensão da realidade e pode influenciar no momento do eleitor votar. No entanto, as pessoas têm direito de fazer suas escolhas baseadas em fatos, não em boatos.

Outras checagens sobre o tema: A menos de três meses do primeiro turno, as eleições têm sido tema frequente de conteúdos enganosos e falsos. Recentemente, o Comprova demonstrou que post mentia ao tentar associar Lula e Manuela D’Ávila a facada contra Bolsonaro, que deputado exagerou em cinco vezes o lucro das estatais em 2021 e que post distorceu reportagem para dizer que estatuto de PT prevê confisco de bens dos brasileiros.