O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
Filtro:

Saúde

Investigado por: 2022-02-01

Estudo não permite concluir que proteção após infecção é melhor que vacinação, ao contrário do que diz deputada

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a publicação da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) que usa os títulos de duas reportagens para dizer que a contaminação pela covid-19 é mais eficaz que a vacina. O estudo citado por uma das matérias não permite essa conclusão e aponta que a vacinação é a forma mais segura de combater a doença.
  • Conteúdo verificado: Uma publicação da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) que traz recorte de dois títulos de notícias que lidos em sequência sugerem que o presidente Jair Bolsonaro (PL) acertou ao afirmar, em junho de 2021, que a infecção pelo coronavírus é “mais eficaz” na prevenção do vírus do que a vacinação. Ela usa uma reportagem sobre uma pesquisa nos Estados Unidos para justificar a afirmação. Na legenda, a deputada coloca “Jair Messias Bolsonaro acerta novamente!”.

São enganosas as publicações feitas no Instagram, Facebook e Twitter pela deputada federal Carla Zambelli que trazem uma montagem com o título de duas notícias para sugerir que a infecção prévia pelo vírus da covid-19 traria maior proteção do que a vacina.

Uma das matérias citadas pela deputada menciona um estudo publicado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, em janeiro deste ano. A pesquisa, feita entre maio e novembro de 2021, compara a taxa de casos de covid entre vacinados e não vacinados.

A partir da análise de casos positivos nos estados da Califórnia e de Nova York, o estudo de fato mostra que durante um curto período as pessoas reinfectadas tiveram mais proteção que as vacinadas, mas isso não significa que a imunidade natural seja mais eficaz do que a vacinação nem que essa é uma boa estratégia.

Os responsáveis pelo estudo deixam claro que esses dados fazem parte de uma literatura científica que tenta encontrar mais informações a respeito do comportamento do vírus – que segue circulando e, portanto, se modificando. Na discussão do estudo, os pesquisadores relatam que seus dados não mostraram redução da imunidade obtida via infecção, mas mencionam que outros estudos chegaram a conclusões diferentes. Assim, afirmam que “mais estudos são necessários para estabelecer a duração da proteção contra infecção anterior por tipo de variante, gravidade e sintomatologia, inclusive para a variante Ômicron”.

Além disso, os cientistas explicam que a infecção em pessoas não vacinadas “aumenta o risco de doença grave, hospitalização, sequelas de longo prazo e morte” e concluem, ao contrário de Jair Bolsonaro, que “a vacinação é a estratégia primária e mais segura para prevenir infecções pelo SARS-CoV-2, complicações associadas e transmissões”.

Na montagem, a deputada usa o título da matéria publicada pela Istoé para dizer que Bolsonaro tinha razão sobre a tese da imunização natural. A deputada Carla Zambelli foi procurada pelo Comprova e por meio de sua assessoria reafirmou a posição de que o título da matéria resume a pesquisa.

A imunidade natural, defendida na postagem, não é recomendada por especialistas. A infectologista Ana Helena Germoglio define essa estratégia como uma “grande loteria”, porque pode trazer várias complicações para a saúde e até a morte, e diz que a vacinação é o método que produz anticorpos programados, capazes de combater uma infecção pelo coronavírus.

Para o Comprova, o conteúdo é enganoso por tirar informações do contexto original para induzir o leitor a uma interpretação diferente daquela concluída no estudo.

Como verificamos?

Para a verificação, o Comprova primeiro procurou as duas matérias citadas (Istoé) e (Poder360) nas publicações da deputada federal. A equipe também buscou pelo vídeo do presidente Jair Bolsonaro que baseia a reportagem do Poder360. No caso da Istoé, a reportagem procurou pelo conteúdo original, que é da AFP.

O segundo passo foi encontrar o estudo citado pela reportagem da AFP. A equipe consultou o site do Centers for Disease Control and Prevention (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, CDC) e localizou a pesquisa.

A reportagem também conversou com a infectologista Ana Helena Germoglio sobre a tese levantada pela publicação de que a infecção pela covid é mais eficaz que a vacinação.

Por fim, a deputada Carla Zambelli foi procurada e questionada sobre a publicação.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 31 de janeiro de 2022.

Verificação

Publicação da deputada e matérias citadas

A publicação da deputada federal Carla Zambelli é uma montagem com os títulos de duas matérias. A primeira delas é um conteúdo do Poder360 publicado no dia 17 de junho de 2021 com título “Bolsonaro diz que contaminação é ‘até mais eficaz’ que a vacina contra covid”.

A fala ocorreu durante uma live semanal do presidente no dia 17 de junho de 2021. Na ocasião, ele comentava um parecer solicitado ao Ministério da Saúde para desobrigar o uso de máscaras por pessoas que já tinham sido infectadas pelo vírus da covid-19 ou vacinadas.

Em seguida, Bolsonaro afirma estar “vacinado” por ter se contaminado anteriormente. “Eu estou vacinado, entre as aspas. Todos que contraíram o vírus estão vacinados. Até de forma mais eficaz que a própria vacina, porque pegou o vírus para valer”, disse.

O presidente comparou a proteção derivada da infecção com a eficácia das vacinas e deu o exemplo da CoronaVac, que apresenta taxa de 50% de proteção. Segundo o chefe do Executivo, o primeiro grupo estaria mais protegido que os vacinados.

Apesar da fala de Bolsonaro questionando a eficácia da Coronavac, o imunizante tem uso aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e é usado também na imunização de crianças contra covid-19 no Brasil. Um estudo do Instituto Butantan na cidade de Serrana, em São Paulo, mostrou que após a imunização de 75% da população adulta com essa vacina, houve queda nos casos, internações e hospitalizações pela doença.

A matéria do Poder360, citada na publicação da deputada, ouviu especialistas que rebateram a fala de Bolsonaro, tanto em relação à dispensa do uso de máscaras, quanto à tese de que a infecção é mais eficaz que a vacinação.

Os profissionais entrevistados reforçaram a necessidade da imunização combinada com medidas de prevenção, como o uso de máscaras, para conter a transmissão da covid-19 no país.

O segundo conteúdo citado na publicação de Zambelli é uma matéria da AFP, republicada pelo site Istoé Dinheiro no dia 19 de janeiro deste ano e atualizada no dia seguinte. O título é “Imunidade natural foi mais potente que vacina durante onda da variante delta nos EUA, diz estudo”. Sem citar o nome da pesquisa ou seus responsáveis, a matéria diz que a análise tem respaldo do CDC.

O texto original da agência de notícias francesa foi publicado no dia 18 e passou por duas alterações. A versão mais atualizada é do dia 20 e incluiu no conteúdo uma limitação a respeito dos resultados do estudo e menção a outras pesquisas sobre a imunidade natural. Essa mudança não foi publicada pelo site da Istoé e não aparece na publicação de Zambelli.

O estudo

O estudo foi publicado no Relatório Semanal de Morbidade e Mortalidade (MMWR) do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. A pesquisa foi disponibilizada online no dia 19 de janeiro. O título é “COVID-19 Cases and Hospitalizations by COVID-19 Vaccination Status and Previous COVID-19 Diagnosis” — California and New York, May–November 2021(Casos e hospitalizações de COVID-19 por status de vacinação COVID-19 e diagnóstico anterior de COVID-19 — Califórnia e Nova York, maio a novembro de 2021, em livre tradução).

O estudo foi elaborado com dados sobre a covid coletados entre 30 de maio e 30 de novembro de 2021 na Califórnia e em Nova York. Os dois estados foram escolhidos por concentrarem percentuais elevados de mortes pela doença. A pesquisa analisou casos apenas em maiores de 18 anos e dividiu as pessoas em quatro grupos:

1) Não foram vacinados e não tiveram covid-19

2) Vacinados e que nunca pegaram covid-19

3) Não vacinados e que tiveram covid-19

4) Vacinados e que tiveram covid-19

Os pesquisadores afirmam que, durante o período do estudo, a incidência de covid-19 em ambos os estados foi maior entre pessoas não vacinadas e sem diagnóstico prévio (grupo 1) em comparação aos outros três grupos.

Na primeira semana de maio, a taxa de casos de covid foi 19,9 vezes menor na Califórnia e 18,4 vezes, também inferior, em Nova York entre o grupo 2 (vacinados que nunca pegaram covid) em comparação ao grupo 1 (não se vacinaram e não tiveram a doença).

Esse cenário também foi verificado na comparação do grupo 1 com o 3 e o 4 na taxa de casos e também nas hospitalizações. Essa situação se manteve até a variante delta se tornar a predominante no país no final de junho e início de julho do ano passado.

Em outubro, em comparação com pessoas do grupo 1, as taxas de casos de covid entre pessoas vacinadas e sem diagnóstico (grupo 2) anterior foram 6,2 vezes (Califórnia) e 4,5 vezes (Nova York) menores.

As taxas também foram substancialmente mais baixas entre os dois grupos com diagnósticos anteriores de covid-19 em relação ao grupo 1, incluindo 29,0 vezes (Califórnia) e 14,7 vezes menores (Nova York).

Durante o mesmo período, em comparação com as taxas de hospitalização entre pessoas não vacinadas sem diagnóstico prévio, as taxas de hospitalização na Califórnia seguiram um padrão semelhante.

Para os pesquisadores, esses resultados demonstram que a vacinação protege contra a infecção e hospitalizações e que contrair o vírus também diminui a chance de reinfecção.

Limitações do estudo

Os pesquisadores fazem ressalvas importantes sobre os dados apresentados no estudo. A primeira é de que a análise foi feita antes do surgimento da ômicron, por isso os resultados não podem ser aplicados à situação atual.

Além disso, a pesquisa foi concluída antes da aplicação das doses de reforço na maior parte das pessoas, então não reflete o benefício imunológico dessas doses.

Outro apontamento é que a análise não levou em conta o tempo de aplicação da vacina, mas apenas o período do diagnóstico anterior.

Há ainda falta de clareza sobre a não infecção de pessoas que não tiveram diagnóstico para covid. Isso porque os dados coletados da Califórnia e de Nova York não levam em conta todos os tipos de testagens — os número de teste de antígeno foram apenas levantados de Nova York e não há informações sobre os positivados que fizeram somente o autoteste.

Outro ponto de destaque é que o estudo exclui do cálculo pessoas que morreram e que, em sua maioria, segundo os pesquisadores, era de não vacinados.

Imunidade e vacinação

De acordo com o estudo, os dados sugerem que a vacinação protege contra a covid-19 e a hospitalização decorrente da doença, e que sobreviver a uma infecção anterior protege contra uma reinfecção.

Os pesquisadores ressaltam que a proteção derivada da infecção passou a ser maior depois que a variante delta tornou-se predominante, o que coincidiu com o declínio precoce da imunidade induzida pela vacina em muitas pessoas.

Reforçam ainda que a vacinação continua sendo a estratégia mais segura para prevenir infecções e transmissão do vírus, assim como as complicações associadas.

“A vacinação primária contra covid-19, doses adicionais e doses de reforço são recomendadas pelo Comitê Consultivo de Práticas de Imunização do CDC para garantir que todas as pessoas elegíveis estejam em dia com a vacinação covid-19, que fornece a proteção mais robusta contra infecção inicial, doença grave, hospitalização, sequelas a longo prazo e morte.”

A infectologista Ana Helena Germoglio explica que a imunidade natural nunca foi uma recomendação defendida pelos especialistas.

“Na verdade, se deixar ser infectado por um vírus que pode ter vários desfechos, se você não estiver completamente imunizado, é uma grande loteria”, diz.

Germoglio esclarece que, ao contrário da tese defendida pela postagem, a imunização natural não garante proteção maior que a vacina. Os imunizantes, explica, estimulam a produção do que ela classifica como anticorpos neutralizantes, que são diferentes do que a infecção pela doença vai ser capaz de gerar.

“[Os anticorpos neutralizantes] são aqueles que realmente defendem a pessoa contra a doença. Por isso que é importante a vacina, mas essa estratégia de imunização natural, não”, comenta.

O que diz a deputada

Procurada pela equipe do Comprova, a deputada Carla Zambelli, por meio de sua assessoria, reafirmou o que foi dito na postagem. “Para nós, portanto, os cientistas que fizeram o estudo e afirmaram exatamente o que está no título da matéria da Istoé, também acertaram”, escreveram.

A equipe disse ter lido o estudo e que as ressalvas feitas pelos pesquisadores não foram publicadas “porque não se trata de uma matéria jornalística ou científica, mas de lembrar uma opinião que julgamos acertada”.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham relação com a pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. O foco são publicações virais que têm grande alcance nas redes sociais e podem causar desinformação.

No caso da postagem da deputada Zambelli, o conteúdo recebeu 19 mil curtidas e 4 mil compartilhamentos no Facebook e Twitter. A informação de um estudo foi usada de forma enganosa para endossar uma fala do presidente Jair Bolsonaro que disse que a imunidade adquirida pela contaminação pelo coronavírus é mais eficaz que a vacinação. Além da pesquisa não chegar a essa conclusão, as vacinas contra a covid são consideradas efetivas por autoridades sanitárias no controle do vírus.

O Comprova já mostrou em verificações anteriores que as vacinas contra a covid-19 são seguras e desmentiu outra publicação da deputada Zambeli que enganou ao associar a morte por miocardite de um jogador à vacinação contra a covid.

Enganoso, para o Comprova é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Comprova Explica

Investigado por: 2022-01-31

Entenda por que eventos adversos graves pós-vacinação contra a covid-19 são raros e benefícios superam os riscos

  • Comprova Explica
Comprova Explica
Os benefícios da vacina contra a covid-19 superam em muito o risco de eventos adversos graves. O Ministério da Saúde aponta que 92% das reações registradas desde o início da vacinação foram classificadas como não graves. Já a queda da mortalidade de pacientes com covid-19 no SUS foi de 37% no país. O risco de óbito pela doença é 56 vezes maior do que o risco de ocorrência de um evento adverso relacionado à vacinação. Apesar dos avanços, a campanha infantil tem esbarrado em leis conflitantes sobre a obrigatoriedade da imunização.
  • Conteúdo analisado: Diversas publicações feitas em redes sociais têm questionado efeitos adversos graves e até mortes ocorridas após a vacinação por imunizantes disponíveis. Essas dúvidas têm sido manifestadas nas redes por pessoas que temem a vacinação, mas também são usadas por grupos antivacinas para criar pânico e rejeição à imunização.

Desde o início da vacinação contra a covid-19 no Brasil, quase a totalidade (92%) dos eventos adversos relacionados aos imunizantes foi classificada como não grave, segundo o Ministério da Saúde. Os relatos mais comuns são de cansaço, tosse, calafrios, dor no local da aplicação, coceira, hematoma, febre, dor no corpo, diarreia, náusea, dores musculares e nas articulações e dor de cabeça.

Em pouco mais de um ano de campanha, os benefícios podem ser vistos de forma prática. A queda da mortalidade de pacientes hospitalizados com covid-19 no SUS, por exemplo, foi de 37% em todo o país. Um estudo do governo federal mostra que o risco de óbito pela doença é 56 vezes maior do que o risco de ocorrência de um evento adverso relacionado à vacinação.

O mesmo documento apontou que os efeitos de menor gravidade pelos imunizantes estão concentrados na faixa etária de 25 a 44 anos. Já a população idosa apresentou a maior taxa de reações consideradas graves, em especial aqueles com mais de 75 anos de idade.

As vacinas AstraZeneca/Fiocruz e Coronavac respondem pela maior parte das notificações, seguidas das doses da Janssen e Pfizer, respectivamente. A maioria das reações leves teve início no período de 48 horas após a vacinação. Nos casos graves, esse intervalo foi maior, de 17 dias.

Os dados da pesquisa foram coletados entre 18 de janeiro e 25 de outubro de 2021. O texto pondera que as comparações devem levar em conta a proporção da cobertura vacinal de cada imunizante. Os três primeiros meses da campanha nacional não contaram com doses da Pfizer, por exemplo. Nem os seis primeiros meses tiveram Iotes da Janssen disponíveis, o que poderia explicar, em parte, a grande diferença das taxas de reações.

Do início da vacinação até novembro de 2021, o Ministério da Saúde informava 11 óbitos relacionados à vacinação em um universo de 194.278.194 doses aplicadas no mesmo período. O órgão não incluiu, nesta análise, as doses aplicadas em São Paulo. O total de doses administradas em todo o país, incluindo o estado, era de aproximadamente 295 milhões até o dia 22 de novembro de 2021.

[O parágrafo acima foi atualizado em 1º de fevereiro para corrigir o número de doses aplicadas no período, dado que estava incorreto na primeira versão deste texto]

O Comprova solicitou ao Ministério da Saúde e à Anvisa os dados atualizados sobre eventos já comprovados que tenham relação com as vacinas contra a covid-19, mas não obteve retorno. No dia 25 de janeiro a reportagem também fez o pedido via Lei de Acesso à Informação (LAI) e o governo tem 20 dias para responder, o que ainda não ocorreu.

Entre as crianças, a vacina pode reduzir em seis vezes a chance de complicação por covid-19, de acordo com dados levantados nos Estados Unidos, país onde há o maior número de jovens imunizados. Os casos reportados de miocardite são raros: a incidência é de 9 a cada 100 mil doses aplicadas (0,009%).

Todas as vacinas ofertadas pelo Programa Nacional de Imunizações que têm autorização de uso pela Anvisa passam por um rígido processo de avaliação de qualidade pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) da Fiocruz. O PNI existe desde 1973 e é considerado referência mundial em campanhas de vacinação pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) nas Américas.

Quais os benefícios e riscos das vacinas?

Como qualquer medicamento, vacinas podem causar reações. A coordenadora do Núcleo Técnico de Produtos Biológicos do INCQS, Maria Aparecida Affonso Boller, explica, em entrevista ao site do órgão, que antes de as doses serem enviadas ao PNI, as amostras são separadas para um controle da qualidade que garante a segurança e eficácia dos lotes. Nesta fase, são realizados testes de potência, estabilidade, esterilidade, pH, volume, entre tantos outros.

Na vida real, a vacina contra a covid-19 tem sido comprovadamente eficaz no combate à doença. Um levantamento da Secretaria de Saúde de São Paulo feito no Instituto de Infectologia Emílio Ribas mostrou que a probabilidade de óbito foi 14 vezes maior em pessoas sem a vacinação, em comparação com quem estava com o esquema completo. A chance de hospitalização também foi maior entre os não vacinados: nove em cada dez pacientes internados não tinham tomado nenhuma dose nos meses em que o estudo foi feito.

Ao Comprova, o médico pediatra Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), observa que um número muito grande de pessoas já recebeu as vacinas ao redor do mundo – mais de 10 bilhões de doses foram aplicadas – e os eventos adversos na imensa maioria são leves a moderados. “Não significa que eventos adversos graves não possam acontecer com qualquer dessas vacinas. Podem acontecer, mas são raros”.

O Ministério da Saúde cita como possíveis complicações tromboses venosas, miocardite e pericardite, síndromes neurológicas como a síndrome de Guillain-Barré, encefalite, hemorragias cerebrais, arritmia, infarto agudo do miocárdio, embolia pulmonar, entre outros. Ainda assim, estes eventos são muito raros, ocorrendo, em média, 1 caso a cada 100 mil doses aplicadas, com risco significativamente inferior à chance de complicações pela própria covid-19.

O boletim epidemiológico com o dado mais recente de óbitos relacionados à vacina é de novembro de 2021 e traz informações preliminares. O documento cita 11 mortes, 0,3% das reações graves notificadas ao Ministério da Saúde até aquele momento. Os casos estão relacionados à síndrome de trombose com trombocitopenia. Do total de vítimas, oito foram vacinadas com doses da AstraZeneca e três com Janssen.

Os especialistas lembram que as vacinas também são uma ferramenta de combate às mutações do vírus. Hoje, são cinco as variantes de preocupação, segundo a OMS: Alpha, Beta, Gamma, Delta e Ômicron. As taxas de eficácia das vacinas para essas mutações variam de 68% a 98%, dependendo da fabricante.

Casos especiais: miocardite, pericardite, trombose com trombocitopenia e Guillain-Barré

Miocardite e Pericardite

Em julho de 2021, a Anvisa informou que os Estados Unidos relataram a ocorrência de casos de miocardite (inflamação do músculo cardíaco) e de pericardite (inflamação do tecido que envolve o coração) após a vacinação contra covid-19 com imunizantes de plataforma de RNA mensageiro (RNAm), que inclui o produto da Pfizer utilizado no Brasil.

Sobre os riscos destas complicações, a farmacêutica explicou que os diagnósticos são raros e ocorrem dentro de 14 dias após a vacinação, mais frequentemente depois da segunda dose, e em homens mais jovens.

No Brasil, foram 90 notificações de eventos adversos com alguma menção a miocardite ou pericardite em 11 meses de campanha. Pouco mais da metade (53%) ocorreu após a aplicação da vacina da Pfizer; outros 31% com AstraZeneca, e 15%, Coronavac. Desse total, 7 evoluíram a óbito, mas todos tiveram a pericardite descartada como causa da morte pelo Ministério da Saúde.

Trombose com trombocitopenia

A incidência aproximada de casos de trombose com trombocitopenia é de 1 caso a cada 100 mil doses aplicadas, ou seja, 0,001% dos indivíduos vacinados. Devido à raridade das ocorrências, ainda não foi possível identificar fatores de risco associados à síndrome.

A maioria dos países na Europa relata casos da doença em pessoas que receberam a vacina de vetor viral não replicante, como é o caso da AstraZeneca, e mais recentemente nos Estados Unidos com a vacina da Janssen.

No Brasil, até 4 de outubro de 2021, o Ministério da Saúde identificou 77 notificações individuais de eventos adversos com menção a quadros compatíveis com trombose e trombocitopenia.

Desse total, 18 foram considerados como associação causal consistente (incluindo 11 óbitos), 17 como indeterminado (6 óbitos), 7 como inconsistente ou coincidente (1 óbito), 11 como inclassificáveis (4 óbitos) e 24 ainda estavam em investigação na época.

Um dos casos registrados que resultou em óbito é do advogado Bruno Graf, de 28 anos, que faleceu em Santa Catarina em agosto de 2021 e cujo caso ganhou alcance nas redes sociais. Segundo boletim epidemiológico, Bruno sentiu calafrios, sensação febril e cefaleia no dia 23 de agosto, e morreu três dias depois. O documento afirma que o quadro foi desencadeado por uma trombose de sistema nervoso central com plaquetopenia associada.

O mesmo boletim aponta outra morte, de uma mulher de 27 anos, como tendo relação causal com as vacinas para covid-19. Ela apresentou febre, dor abdominal e dor nas costas em 10 de setembro e faleceu em 23 de setembro, também por trombose com trombocitopenia. Ambos os óbitos foram associados à vacina Astrazeneca.

Guillain-Barré

Em julho de 2021, a Anvisa emitiu alerta sobre casos raros de Síndrome de Guillain-Barré pós-vacinação. Os eventos adversos foram relacionados às vacinas AstraZeneca, Janssen e Coronavac.

Até aquele momento, haviam sido feitas 27 notificações de suspeitas de relação da doença com a vacina da Astrazeneca, além de três casos com a vacina da Janssen e outros quatro com a Coronavac, totalizando 34 registros. Segundo a Anvisa, a doença também está relacionada a doses aplicadas contra Influenza.

Trata-se de um distúrbio neurológico autoimune raro, no qual o sistema imunológico danifica as células nervosas. A maioria das pessoas se recupera totalmente. O principal risco é quando ocorre o acometimento dos músculos respiratórios e, nesse caso, a síndrome pode levar à morte.

Quais reações outras vacinas podem causar?

O Programa Nacional de Imunização inclui 45 vacinas para todas as faixas etárias da população brasileira. O Comprova pesquisou como se comportam algumas delas em relação aos efeitos adversos graves: a da gripe, a tríplice viral e a da febre amarela.

Anualmente, cerca de 80 milhões de brasileiros são vacinados contra a Influenza, dose produzida pelo Instituto Butantan. As reações mais comuns são dor de cabeça, mialgia, mal-estar, fraqueza, calafrios e febre.

O presidente da SBIm diz que reações de maior gravidade são raras, mas há, por exemplo, a chance de uma anafilaxia, uma alergia grave. “Há possibilidade de cinco casos de anafilaxia a cada milhão de doses aplicadas [contra a gripe]; são números muito parecidos entre as vacinas que a gente já utiliza e a vacina da covid”.

Já a bula da tríplice viral, que combina sarampo, rubéola e caxumba, descreve a possibilidade incomum – entre 0,1% e 1% dos imunizados – de inflamação no ouvido, gânglios linfáticos inchados, especialmente no pescoço, nas axilas e na virilha, perda de apetite, nervosismo, choro anormal, insônia, conjuntivite, bronquite, tosse, inchaço das glândulas que produzem a saliva, diarreia e vômito.

No caso da vacina contra a febre amarela, a dose tem um perfil particular por ser atenuada. “Ela pode ter como efeito grave uma doença semelhante à doença que a vacina protege, diferente da vacina da covid. E podem ser quadros graves. Mas é importante salientar que a imensa maioria dos eventos adversos são leves a moderados, como febre, dor no local, mal-estar, cansaço, o que pode acontecer com qualquer uma das vacinas que a gente usa, inclusive a da covid”, segundo Juarez Cunha.

Durante os estudos também foi identificada a possibilidade rara – entre 0,01% e 0,1% dos vacinados – de reações alérgicas e convulsões associadas à febre. Relatos pós-comercialização apresentaram outras reações raras como meningite; síndrome similar ao sarampo, síndrome similar à caxumba; epididimite e parotidite; síndrome de Guillain Barré, entre outras.

Vacinas pediátricas são seguras?

A cada dois dias uma criança morreu por complicações da covid-19 no Brasil em 21 meses de pandemia, até 6 de dezembro de 2021. Em números absolutos, foram 301 vítimas na faixa etária de 5 a 11 anos. O número de casos da doença neste público ultrapassa a marca de seis mil.

Para além das complicações diretas da infecção, o Ministério da Saúde também alerta para os registros de Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica associada à covid-19 em crianças e adolescentes de zero a 19 anos. Até janeiro de 2022, foram confirmados 1.466 casos, com 88 óbitos. A maioria tinha nove anos de idade e 25% delas apresentava doenças prévias, como obesidade e cardiopatias.

Apesar dos números, o Brasil ficou atrás de países da Europa e dos Estados Unidos para dar início à vacinação infantil. As primeiras doses pediátricas da Pfizer começaram a ser aplicadas no início de janeiro de 2022, e a Coronavac foi incorporada à campanha quase um mês depois. Ambas receberam autorização da Anvisa.

O infectologista Juarez Cunha, que é médico pediatra, explica que nos estudos conduzidos pela Pfizer não foram demonstrados eventos adversos graves relacionados ao público infantil. Destaca, contudo, que os estudos utilizam de 2 mil a 5 mil participantes, e que o cenário pode mudar quando milhões de doses passam a ser aplicadas.

De acordo com o The New York Times, desde novembro de 2021, os Estados Unidos vacinaram totalmente mais de 5 milhões de crianças na faixa etária de 5 a 11 anos. O médico destaca que a farmacovigilância do país é muito rigorosa e, como esperado, identificou apenas eventos adversos leves a moderados. “Nenhum relato de morte causada pela vacina”, afirma.

A campanha americana também mostrou que crianças imunizadas contra a covid-19 têm seis vezes menos chances de contrair a doença com gravidade. Cunha acrescenta: “Vacinar a criança protege não apenas ela, mas tem grande possibilidade de, assim, evitar a transmissão para outras pessoas, colegas de escola ou mesmo família”.

O que diz a legislação sobre vacinação infantil?

Com o início da vacinação infantil no Brasil, pais, responsáveis e autoridades têm debatido se a campanha contra a covid-19 nesse público deveria se tornar obrigatória. De acordo com o primeiro parágrafo do artigo 14 do Estatuto da Criança e Adolescente, a imunização em menores de 18 anos é exigida caso haja recomendação feita pelas entidades sanitárias, como é o caso da Anvisa.

Uma decisão no Supremo Tribunal Federal de janeiro deste ano orientou os Ministérios Públicos que acompanhem casos de pais que se recusam a vacinar os filhos contra a covid-19. O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Mário Sarrubbo, disse ao Comprova que uma das punições possíveis é a perda temporária da guarda. Na avaliação da promotoria, deve prevalecer o direito à saúde, como previsto no ECA.

Ao mesmo tempo, o STF entende que a vacinação não deve ser forçada, permitindo a recusa do usuário, mas também possibilitando a restrição de atividades previstas em lei.

Pessoas contrárias à campanha infantil contestam a exigência alegando que a Lei n°6259 de 30 de outubro de 1975 torna obrigatórias apenas as vacinas que estão no Programa Nacional de Imunização, que é de responsabilidade do Ministério da Saúde.

Em janeiro deste ano, porém, o governo anunciou a inclusão da dose pediátrica no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 (PNO), e não no PNI. A própria pasta diz que a imunização da faixa etária de 5 a 11 anos não é obrigatória.

Nestes casos, explica o procurador-geral de Justiça de São Paulo, é usada a Lei de Introdução ao Código Civil, que aborda regras conflitantes. O texto determina que “uma lei posterior revoga uma lei anterior”. Assim, entende o jurista, o ECA, que é de 1990, tem a preferência. Outro ponto disposto na Lei de Introdução ao Código Civil é que uma lei genérica pode ser revogada por uma lei específica, como é o caso do estatuto.

Por que investigamos?

O Comprova faz a verificação de conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições.

Desde o início da vacinação contra a covid-19, as redes sociais foram tomadas por dúvidas sobre eficácia das vacinas e também sobre os possíveis riscos de eventos adversos. Este Comprova Explica tem o objetivo de informar sobre esses tópicos.

As vacinas têm a eficácia e a segurança testadas e comprovadas por diversos órgãos e entidades, como a Anvisa, FDA, dos Estados Unidos, e EMA, da Europa.

Desde o início de 2021, o Comprova checou diversas peças de desinformação sobre os imunizantes empregados no Brasil contra a covid-19.

Alguns exemplos de verificação são a que demonstra ser falsa a declaração de um médico afirmando que as vacinas são “lixo”, a que informa que o Ministério da Saúde descartou a relação entre a morte de um adolescente e a vacina e ser falsa uma postagem que dizia que as vacinas causavam dano ao sistema imunológico, entre outras que podem ser conferidas aqui, aqui, aqui e aqui.

Esta reportagem considerou os dados sobre vacinas e a covid-19 disponíveis até 31 de janeiro de 2022.

Saúde

Investigado por: 2022-01-31

Não há registro de mortes de crianças causadas por vacinas contra a covid-19 no Brasil

  • Falso
Falso
É falso que uma menina tenha morrido na Bahia após se vacinar contra a covid-19 como afirmam vídeos compartilhados em redes sociais. Segundo o Ministério da Saúde, nenhuma criança ou adolescente com menos de 18 anos veio a óbito no Brasil em consequência de evento adverso pós-vacinação. A Secretaria Estadual de Saúde da Bahia também afirma não haver registro de morte de criança em decorrência da aplicação da vacina, ou mesmo casos em investigação que se enquadrem no perfil das meninas mostradas nos vídeos.
  • Conteúdo verificado: Vídeos, áudio e fotos que circulam no Facebook, no Instagram e no WhatsApp dizem que uma menina morreu após receber o imunizante contra a covid-19. Em outro vídeo, que circula por WhatsApp, é feita uma edição que une trechos de dois desses vídeos com os dizeres: “Mais uma criança veio a óbito” e a imagem de uma seringa.

É falso que uma menina tenha morrido após ser vacinada contra a covid-19 no Brasil. Em nota enviada ao Comprova no dia 27, o Ministério da Saúde disse que ninguém com menos de 18 anos faleceu após receber o imunizante no país.

Os vídeos que circulam na internet mostram crianças passando mal em dois momentos: vomitando em um balde e se queixando de dores em um leito hospitalar. As características físicas são aparentemente distintas. Esses vídeos foram compartilhados separadamente, com a atribuição de nomes diferentes às crianças.

Porém, há uma versão editada, que circula por WhatsApp, que une os dois trechos, dando a entender que seriam imagens de uma mesma menina e que ela teria morrido como consequência da aplicação da vacina contra a covid-19.

Nos diferentes conteúdos que circulam, as meninas são chamadas por vários nomes e há informações desencontradas sobre as cidades de origem. Mas em um dos vídeos é possível ver, ao lado de uma delas, um menino que usa o uniforme escolar da rede municipal de Salvador, na Bahia.

A Secretaria Estadual de Saúde da Bahia informou ao Comprova que o estado não registrou nenhuma morte decorrente de evento adverso pós-vacinação. O Estado também disse que não há nenhum caso em investigação que se enquadre no perfil de uma pessoa do sexo feminino com menos de 18 anos.

O painel da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que registra os eventos suspeitos de farmacovigilância, diz que o único caso suspeito registrado na Bahia para a vacina da Pfizer foi de um homem adulto.

Outras mensagens sugeriam que uma das meninas teria sido atendida em Manaus. A Secretaria de Saúde do município foi procurada, e informou ao Comprova que não há registro de evento adverso grave pós-vacinação em menores de 18 anos na cidade. O painel da Anvisa aponta que, até o momento, não há nenhum caso de reação adversa suspeito para o imunizante da Pfizer em todo o estado do Amazonas.

O Comprova ouviu a mulher cujo número de WhatsApp aparece em algumas postagens compartilhando o áudio que seria da mãe da criança. Ela disse desconhecer a família e afirmou que recebeu o conteúdo de outros grupos e apenas o compartilhou porque estava em busca de informações sobre o episódio.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado.

Como verificamos?

Primeiro, procuramos por informações nos conteúdos suspeitos que pudessem nos indicar de onde eram as meninas que aparecem no vídeo e nas fotos e seus nomes. Além do uniforme da rede municipal de Salvador, algumas mensagens indicavam que ela poderia ter sido atendida no Hospital Estadual Costa do Cacau, que fica na cidade de Ilhéus, na Bahia, ou no Hospital Santa Izabel, uma Santa Casa em Salvador. Dois comentários no Instagram sugeriam que as imagens de ao menos uma das meninas seriam de Manaus, no Amazonas.

O Comprova procurou o Ministério da Saúde, a Anvisa, o Conselho Estadual de Saúde baiano e as secretarias de saúde da Bahia, de Salvador e de Manaus, em busca de informações sobre eventos adversos graves associados à vacinação em pessoas do sexo feminino que tivessem menos de 18 anos.

Também procuramos por e-mail o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento da Administração Hospitalar (IBDAH), que administra o Hospital Estadual Costa do Cacau, e o Hospital Santa Izabel pelo número de WhatsApp disponível no site.

O Comprova ainda procurou o Ministério Público do Estado da Bahia a respeito do compartilhamento dos vídeos.

Entramos em contato por WhatsApp com o número da mulher que, segundo alguns dos conteúdos, teria compartilhado o áudio associado à mãe de uma das crianças.

Por fim, buscamos os perfis que compartilharam as imagens das crianças e um outro que postou um vídeo que, supostamente, seria o relato da tia de uma das meninas negando a relação da morte com a vacina contra a covid-19.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 31 de janeiro de 2021.

Verificação

Nenhuma criança morreu após a vacinação

Embora os conteúdos investigados afirmem que a menina teria morrido após a vacinação, o Ministério da Saúde enviou uma nota ao Comprova afirmando que “não há registros de óbitos por causalidade com as vacinas covid-19 em menores de 18 anos” no Brasil.

A Secretaria Estadual de Saúde disse, também por meio de nota, que a Bahia não teve nenhum óbito decorrente de eventos adversos pós-vacinação até 27 de janeiro de 2022. Afirmou, ainda, que nenhuma menor de 18 anos do sexo feminino foi atendida no Hospital Regional Costa do Cacau, que pertence à rede estadual, com caso grave de reação adversa pós-vacinação.

Em um segundo contato, o Comprova insistiu para saber se havia algum caso de menor de 18 anos do sexo feminino em investigação. A pasta disse que não há nenhum caso com essas características em análise.

O Conselho Estadual de Saúde da Bahia afirmou não ter recebido informações sobre um caso suspeito de uma menina que tenha morrido após evento adverso relacionado à vacinação.

Já a assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde de Salvador disse não haver registro de atendimento na rede municipal do caso mostrado no vídeo em que aparece, ao lado da criança, um menino com uniforme escolar da cidade.

Em resposta ao Comprova por e-mail, o Ministério Público da Bahia disse não ter tomado conhecimento sobre o compartilhamento dos vídeos. O órgão pediu que o material fosse encaminhado para o Centro de Apoio de Defesa da Criança e do Adolescente (Caoca), “para que o Ministério Público da Bahia possa apurar os fatos e tomar as devidas providências”.

A Anvisa e o instituto que administra o Hospital Costa do Cacau não responderam. Ao site Ilhéus 24 horas, a unidade de saúde disse que a morte da menina era falsa. O WhatsApp do Hospital Santa Izabel afirmou que o contato da assessoria de imprensa só poderia ser passado ligando para o número fixo da instituição, que não atendeu.

Como os conteúdos suspeitos já circulavam na Internet no dia 20 de janeiro, as meninas em questão só poderiam ter recebido a vacina Comirnaty, da farmacêutica Pfizer, uma vez que a autorização para aplicação da CoronaVac em menores de 18 anos só foi concedida pela Anvisa no dia 20.

Um painel no site da Anvisa registra as notificações de casos suspeitos por farmacovigilância em todo o país para vacinas e medicamentos. Na Bahia, a única reação adversa após aplicação da Comirnaty foi de um homem adulto, na faixa etária entre 18 e 44 anos, cuja notificação ocorreu em novembro de 2021.

No Amazonas, nenhum caso suspeito de eventos adversos relacionados à Comirnaty foi reportado à Anvisa.

As meninas

Nenhum dos conteúdos suspeitos diz qual o sobrenome das meninas. E cada um cita um nome diferente para a criança. No vídeo que foi compartilhado por uma página como sendo da tia de uma delas, a suposta parente também não cita o nome da menina. Sem essas informações, não foi possível identificar as crianças e confirmar com exatidão se as imagens mostram indivíduos distintos ou a mesma criança.

Procurado, o perfil que compartilhou o vídeo da suposta tia disse que retirou o conteúdo de um grupo do Telegram, mas não soube informar qual. E acrescentou não ter informações sobre a família e o local em que a postagem original do vídeo foi feita pela suposta tia, que, no vídeo, nega relação da morte com a vacina e pede para que parem de compartilhar a imagem que seria de sua sobrinha num leito hospitalar.

O Comprova tentou buscas reversas pelo conteúdo a partir dos prints retirados do vídeo, mas não encontrou outras postagens do material.

Por WhatsApp, o Comprova conversou com a mulher que compartilhou um áudio que seria da mãe da menina. Mas ela disse não conhecer a família, apenas compartilhou conteúdos que recebeu em outro grupo porque estaria em busca de mais informações sobre o caso.

Informações semelhantes também foram ditas em postagens de outros perfis que compartilharam o material nas redes sociais.

Também não foi possível localizar a criança por meio dos comentários deixados nas postagens, já que cada um trazia informações diferentes em relação aos nomes e locais em que as imagens teriam sido gravadas.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a pandemia, políticas públicas e eleições que tenham viralizado nas redes sociais. Juntos, os conteúdos investigados aqui tiveram mais de 3 mil interações só no Facebook.

Quando o conteúdo trata da pandemia, a verificação é ainda mais necessária, porque a desinformação pode levar as pessoas a deixarem de se proteger e se exporem a riscos de infecção. Isso fica ainda mais evidente pelo fato de os vídeos, imagens e áudio circularem no momento em a vacinação chega a crianças de 5 a 11 anos.

O site Boatos.org publicou uma checagem sobre os vídeos, negando a veracidade. Recentemente, o Comprova mostrou que o Ministério da Saúde descartou a relação entre a vacina e a morte de um adolescente em João Pessoa; que o vídeo de um pai desesperado é antigo, foi filmado no Amazonas e não tem relação com a vacina; e que uma publicação enganosa distorce dado de estudo alemão para criticar a vacinação infantil.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Saúde

Investigado por: 2022-01-28

Deputada engana com montagem que associa miocardite de jogador à vacina contra covid

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a montagem publicada pela deputada federal Carla Zambelli (PSL) no Facebook com títulos de reportagens dando a entender que o jogador canadense Alphonso Davies, do Bayern de Munique (Alemanha), teve miocardite por conta da vacina contra covid-19. Na realidade, o jogador teve miocardite como consequência da doença, como atesta publicamente o próprio clube.
  • Conteúdo verificado: Em uma montagem publicada no Facebook, a deputada Carla Zambelli destaca títulos de três reportagens que, lidos em sequência, sugerem que um jogador do Bayern de Munique desenvolveu miocardite após tomar vacina contra a covid-19. Na legenda, ela faz o comentário: “Notícias que falam por si só! Tirem suas conclusões!”.

É enganoso o post publicado pela deputada federal Carla Zambelli no Facebook, no qual ela faz uma montagem com títulos de reportagens dando a entender que o jogador canadense Alphonso Davies, do Bayern de Munique (Alemanha), teve miocardite por conta da vacina contra a covid-19. O jogador teve este problema após contrair a doença, como mostra a íntegra de uma das notícias destacadas pela parlamentar. A conclusão sobre o diagnóstico do jogador foi divulgada oficialmente pelo Bayern de Munique.

No post publicado no Facebook, a deputada enfatiza o conteúdo com o comentário “Notícias que falam por si só! Tirem suas conclusões!”. Em contato com o Comprova, a assessoria de Carla Zambelli negou que ela tivesse relacionado este caso de miocardite à vacinação, mas foi esse o entendimento de diversos seguidores que comentaram o post da deputada.

O Comprova classificou o conteúdo como enganoso, porque tira de contexto as informações sobre a miocardite e o diagnóstico feito no jogador do Bayern de Munique, induzindo a conclusões equivocadas.

Como verificamos?

Para realizar a verificação, procuramos as reportagens utilizadas por Carla Zambelli na montagem enganosa para entender o contexto em que foram publicadas e também o que os textos na íntegra diziam.

Na sequência, buscamos dados oficiais de órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Ministério da Saúde, o Food and Drug Administration (FDA) — equivalente à Anvisa nos Estados Unidos — e o Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares da Direcção-Geral da Saúde, órgão de saúde do governo de Portugal.

Também foram procurados especialistas, informações no site oficial do Bayern de Munique e a deputada que publicou a montagem.

Verificação

Títulos tirados de contexto levam a falso entendimento

A montagem publicada pela deputada traz as imagens dos títulos de três textos diferentes. O primeiro é uma reportagem da agência alemã Deutsche Welle, de 22 de novembro de 2021, com a manchete “Bayern de Munique pune jogadores não vacinados”, que discute a possibilidade de o clube multar atletas que escolham não tomar a vacina e percam dias de trabalho caso tenham covid-19. Essa é uma situação prevista na legislação local e envolve corte de salário de funcionários não imunizados que faltarem ao trabalho por causa de infecção pela covid-19.

O segundo texto é um alerta da Anvisa publicado em seu próprio site no dia 9 de julho de 2021, com o título “Anvisa alerta sobre risco de miocardite e pericardite pós-vacinação”. Ali, a agência informou que o norte-americano FDA relatou a ocorrência de casos raros de miocardite (inflamação do músculo cardíaco) e de pericardite (inflamação do tecido que envolve o coração) após a vacinação contra covid-19 com imunizantes de plataforma RNA mensageiro (RNAm), como as vacinas da Pfizer e da Moderna. O texto destaca que esses problemas podem ser efeitos adversos das vacinas, mas mantém a recomendação da imunização, uma vez que os “benefícios superam os riscos” e que os dados sugerem a maior incidência em jovens e de forma leve.

O terceiro texto é uma reportagem do site Globo Esporte, de 14 de janeiro de 2022, com o título “Alphonso Davies é diagnosticado com miocardite e precisa ser afastado no Bayern de Munique”. O texto é claro ao informar que o lateral-esquerdo teve a inflamação no coração como desdobramento da infecção pela covid-19, e não por conta da vacinação. No mesmo dia, o Bayern de Munique confirmou o afastamento de Alphonso Davies dos treinamentos por conta de miocardite. O técnico do Bayern, Julian Nagelsmann, falou oficialmente sobre o caso. “No exame de acompanhamento que fazemos com todos os jogadores infectados, encontramos sinais de miocardite leve em Alphonso. Ele está sem treinar. O ultrassom revelou que não é tão dramático o caso, mas ele vai precisar ficar fora pelas próximas semanas porque isso leva um tempo para recuperar”, explicou o treinador.

Ao jornal canadense The Star, o empresário do jogador, Nick Househ, afirmou no mesmo dia que Davies estava completamente vacinado, tendo tomado a dose de reforço em dezembro.

A notícia de que o atleta do Bayern de Munique teve covid-19 também era conhecida desde 5 de janeiro, quando o clube alemão anunciou que Davies testou positivo.

Esses dois fatos públicos – que Davies teve covid-19 e que a miocardite teve como origem a doença – não aparecem na montagem publicada por Zambelli em 15 de janeiro de 2022. A deputada é integrante da bancada de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PL) e, assim como ele, tem uma atuação marcada pela divulgação de conteúdos contrários à vacinação contra covid-19. Em dezembro de 2021, por exemplo, a Agência Lupa mostrou que a parlamentar usou conteúdo falso para atacar a vacinação de crianças contra a doença.

Procurada pelo Comprova, a assessoria da deputada negou que ela tenha afirmado que o problema de miocardite enfrentado por Alphonso Davies tivesse relação com a vacina. Segundo a assessoria, a parlamentar postou uma informação que é um alerta da própria Anvisa sobre o risco de miocardite e pericardite. “Não houve qualquer afirmação dela de que foi devido à vacina”, comunicou.

Os títulos das matérias publicados de forma isolada, sem o conteúdo completo e de maneira consecutiva, levaram, no entanto, ao falso entendimento de que o jogador canadense desenvolveu uma doença cardíaca após se vacinar.

O comentário com mais interações no post de Zambelli no Facebook é de uma usuária que diz não ter tomado a vacina e que afirma estar observando “vários casos de mortes e reações da vacina”, que a “mídia não mostra”, deixando “o povo” sem saber “o que fazer”. Uma outra usuária diz: “Se não toma, não pode jogar. Se toma e fica com problema, não pode jogar. Tá osso!”

Ambos comentários foram respondidos por Zambelli. No primeiro caso, ela disse: “Devemos sempre defender a nossa liberdade! Sem ela não podemos fazer nada.” No segundo caso, afirmou: “Bem complicado não é mesmo? Por isso sigo defendendo a nossa liberdade!”

| Captura de tela da troca de mensagens de Carla Zambelli com uma usuária do Facebook feita em 28 de janeiro de 2022.

Em nenhum momento, a parlamentar esclareceu à leitora que o problema do jogador canadense fora detectado após ele ter contraído covid-19, e não depois de ter se vacinado. A deputada também não informa seus seguidores que a miocardite eventualmente relacionada à vacinação tende a ter uma recuperação rápida e que o risco de uma pessoa ter miocardite após contrair covid-19 supera em muitas vezes o risco de isso ocorrer como efeito adverso da vacinação.

Miocardite e covid-19

Diversos especialistas apontam, utilizando estudos variados, que o risco de se desenvolver miocardite após a vacinação é bem inferior ao risco de ter esse problema após contrair a covid-19.

Em setembro de 2021, por exemplo, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, ligado ao FDA norte-americano, publicou um estudo segundo o qual a incidência da miocardite em vacinados é de 9 casos a cada 100 mil enquanto em pessoas que tiveram a doença e não se vacinaram são de 150 casos para cada 100 mil.

Segundo o infectologista André Ricardo Araújo da Silva, médico do Grupo Prontobaby e professor da Universidade Federal Fluminense, a miocardite é uma inflamação do músculo do coração, o miocárdio. “Os sintomas geralmente são dor no peito, sensação de palpitação. A pessoa pode sentir falta de ar como alguma coisa apertando”, afirmou ao Comprova.

Em 4 de janeiro de 2022, durante uma audiência pública sobre a vacinação contra a covid-19 de crianças e adolescentes, realizada pelo Ministério da Saúde, o representante da Sociedade Brasileira de Pediatria, Marco Aurélio Sáfadi, comentou essa questão. “Um evento adverso que foi observado é a ocorrência da miocardite entre os vacinados. Mas é importante que se compreenda se esse risco é diferente pela própria covid-19. Mesmo nos grupos com mais casos de miocardite com a vacinação, os números são dezenas de vezes inferiores ao risco de miocardite atribuído à própria covid-19”, explicou o médico.

No último dia 25, um documento do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares, da Direcção-Geral da Saúde, um órgão do governo de Portugal, concluiu que a “miocardite após vacinação é muito rara e geralmente ligeira, com rápida recuperação, parece não ter sequelas e atinge particularmente rapazes na adolescência e jovens adultos”, segundo o jornal Público.

Em julho do ano passado, o subcomitê para covid-19 do Comitê Consultivo Global da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre Segurança de Vacinas (GACVS) emitiu uma declaração sobre notificações de miocardite e pericardite após vacinas de mRNA contra covid-19.

O subcomitê também revisou dados da Austrália, Canadá, Israel e EUA e observou que alguns, mas não todos os dados, sugeriram maior incidência de miocardite após uma segunda dose da vacina da Moderna (Spikevax) do que a vacina da Pfizer (Comirnaty) em homens jovens, embora o risco geral seja pequeno. Observou ainda que a miocardite pode ocorrer após a infecção pelo vírus da covid-19 e que as vacinas de mRNA têm um benefício claro na prevenção de hospitalização e morte pela doença.

Os dados disponíveis sugerem que o curso imediato da miocardite e pericardite após a vacinação com ambos os imunizantes é geralmente leve e responde ao tratamento. O acompanhamento dos casos continua em andamento pelos órgãos locais e também entidades independentes para determinar os resultados a longo prazo. Os indivíduos vacinados devem ser instruídos a procurar atendimento médico imediato se desenvolverem sintomas indicativos de miocardite ou pericardite, como dor torácica persistente, falta de ar ou palpitações após a vacinação.

De acordo com o professor da Universidade Federal Fluminense, em alguns casos de covid, a inflamação é uma das complicações. “A covid-19 é uma doença respiratória que provoca sintomas de gripe em 85% dos casos, que evoluem de forma satisfatória. De 10% a 15% dos pacientes têm efeitos leves e moderados e, dentro deste grupo, a gente tem como uma das complicações as alterações cardiovasculares, incluindo a miocardite e fenômenos embólicos, como a trombose. A incidência exata ainda não é conhecida, tem diversos estudos que mostram um percentual pequeno”, disse o médico.

Ainda segundo o especialista, estudos apuram se a miocardite pode também ter relação causal com a vacina. “Já tem relatos na literatura casos que aconteceram em diferentes lugares do mundo, de pessoas que apresentaram inflamação após serem imunizadas. Só que essa relação causa e efeito é meio complicada, é preciso tirar todas as outras causas possíveis, tirar coincidências temporais, nem sempre isso é possível”, diz André Ricardo.

Israel realizou um estudo com cerca de 5 milhões de pessoas que aponta uma incidência duas vezes maior em desenvolver a miocardite em pessoas que receberam as vacinas da Pfizer e da Moderna, desenvolvidas com a tecnologia do RNA mensageiro. Foram identificados 136 casos de miocardite entre os 5 milhões de pacientes.

Por que investigamos?

O Comprova tem o compromisso de investigar conteúdos suspeitos que tenham relação com a pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. A equipe tem como foco as publicações virais, que tiveram grande alcance nas redes sociais e podem causar desinformação.

A postagem da deputada ultrapassou as 30 mil interações até o dia 28 de janeiro e foi editada de forma que induz o leitor a questionar a eficácia da vacina e ainda alerta para um perigo de forma equivocada.

O Comprova já havia demonstrado anteriormente que as vacinas da Pfizer trazem menor risco de miocardite do que a covid-19 e que a segurança das mesmas foi assegurada por diversas agências reguladoras pelo mundo.

Enganoso: Conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2022-01-27

Mesmo sem biometria, eleitor poderá votar em 2022

  • Falso
Falso
É falsa a afirmação de que será exigido cadastro de biometria para votar nas eleições gerais de 2022. Publicações com variações dessa mesma mensagem têm sido divulgadas por perfis pró-Bolsonaro no Facebook, Twitter e WhatsApp, alertando para um suposto prazo para realizar o cadastramento, que se encerraria em 4 de maio. A data, na verdade, refere-se ao prazo para regularizar o título de eleitor. Um texto no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esclarece que o cadastro biométrico está suspenso desde 2020 devido à pandemia de covid-19, e que “nenhuma eleitora ou eleitor que não realizou o cadastramento será proibido de votar”.
  • Conteúdo verificado: Postagem no Facebook afirma que o prazo para registrar biometria para as eleições de 2022 se encerra em 4 de maio. O texto sugere que o cadastro é obrigatório para poder votar, e afirma que a informação não tem sido divulgada para barrar apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL). O autor pede que a publicação seja compartilhada “para alcançar o maior número possível de eleitores da direita”.

É falsa a afirmação de que será exigido cadastro de biometria para votar nas eleições gerais de 2022. Publicações com variações dessa mesma mensagem têm sido divulgadas por perfis pró-Bolsonaro no Twitter, no Facebook e também por WhatsApp, sugerindo a existência de um “complô” do TSE com a mídia tradicional para ocultar essa informação dos apoiadores do atual presidente, impedindo que votem por sua reeleição.

As postagens alertam que em 4 de maio se encerraria o suposto prazo para registrar a biometria. A data, na verdade, refere-se ao prazo para regularizar o título de eleitor.

Um texto sobre o boato no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informa que o cadastro biométrico está suspenso desde 2020 devido à pandemia de covid-19, e que “nenhuma eleitora ou eleitor que não realizou o cadastramento será proibido de votar”.

O Comprova procurou o autor de uma postagem com mais de 4 mil interações no Twitter por e-mail, WhatsApp e perfis no Facebook, mas não obteve resposta até a publicação desta verificação.

O conteúdo foi classificado como falso porque apresenta uma mentira, sem fundamento na realidade, para gerar confusão sobre o processo eleitoral.

Como verificamos?

O Comprova iniciou esta checagem buscando as informações em canais oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) de diferentes estados brasileiros a respeito do processo de cadastramento biométrico. O sistema foi um mecanismo criado pela Justiça Eleitoral para tornar o processo eleitoral brasileiro ainda mais seguro.

Conforme o TSE, a adoção da biometria — usada pela primeira vez na eleição de 2008, em três cidades brasileiras — reduziu significativamente a intervenção humana no processo de votação. A urna só é liberada para votação quando o leitor biométrico identifica as impressões digitais do eleitor, as quais são verificadas eletronicamente a partir do banco de dados unificado da Justiça Eleitoral.

Por causa da pandemia da covid-19, o processo de cadastramento biométrico no país precisou ser suspenso. A medida foi determinada pelo TSE, por meio da Resolução nº 23.615/2020, para prevenir a infecção pelo vírus.

O Comprova verificou também os prazos estipulados no calendário eleitoral de 2022 e as datas que devem ser observadas pelos partidos, candidatos e eleitores. A data mencionada na publicação alvo desta checagem [4 de maio] diz respeito ao prazo limite para que eleitores realizem operações de transferência do local de votação e revisão de qualquer informação constante do Cadastro Eleitoral.

Nessa segunda-feira (24 de janeiro), pela viralização de conteúdos com mesmo teor do post checado nesta verificação, o TSE e outros TREs de todo o país divulgaram informações em seus canais oficiais (site e redes sociais como o Facebook), classificando como falsas as alegações de que o eleitor que não realizar o cadastramento biométrico até 4 de maio estará impedido de votar na eleição, seja em primeiro (2 de outubro) ou segundo turno (30 de outubro).

O projeto de checagens também conversou com a advogada atuante em direito público e defesa de mulheres Maíra Recchia.

Verificação

Biometria suspensa

O texto verificado pelo Comprova, compartilhado por um perfil pessoal no Facebook, e propagado no WhatsApp e outras redes sociais, afirma que o cadastro eleitoral encerra em 4 de maio de 2022 e, de forma equivocada, aponta que quem não tiver registrado a biometria até esta data não poderá votar.

No entanto, o próprio TSE, em um release publicado na tarde de segunda-feira (24), informou que o eleitor sem biometria não será impedido de votar em 2022. Reiterou, ainda, que o cadastro biométrico continua suspenso em todo o país.

Além disso, todas as informações relativas à biometria, assim como a suspensão do cadastramento em função da pandemia da covid-19 foram divulgadas pelo TSE em seus canais oficiais (site e redes sociais). As mesmas informações também foram publicadas por Tribunais Regionais Eleitorais de diferentes partes do país.

Impressão digital

A advogada atuante em direito público e defesa de mulheres Maíra Recchia explicou ao Comprova que a biometria é uma forma de identificar o eleitorado pela impressão digital. “[A biometria] veio para conferir maior agilidade no processo de identificação daquele(a) que irá votar. Nesse formato, a urna só é liberada para votação quando o leitor biométrico identifica as impressões digitais da eleitora ou do eleitor, após o competente cadastramento biométrico na Justiça Eleitoral”, esclareceu.

Recchia enfatiza, assim como os órgãos eleitorais, que em virtude da pandemia da covid-19 o cadastramento biométrico foi suspenso, mas que aqueles que não se cadastraram continuam aptos a votar conforme a resolução do TSE número 23.669/2021.

“Essa resolução trata dos atos gerais do processo eleitoral, e dispõe que a carteira de identidade, identidade social, passaporte ou outro documento de valor legal equivalente, inclusive carteira de categoria profissional reconhecida por lei, certificado de reservista; carteira de trabalho e carteira nacional de habilitação são documentos suficientes para comprovar a identidade do(a) eleitor(a) e permitir o exercício do voto. Ou seja, quem ainda não se cadastrou biometricamente basta (portar um desses documentos)”, disse.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições. O projeto observa os dados de viralização e o impacto desses conteúdos para decidir pela verificação. Nos últimos anos, tem se tornado comum a circulação de mensagens e informações falsas com o intuito de descredibilizar e tumultuar o processo eleitoral no país.

A mesma publicação analisada nesta checagem do Comprova teve variações divulgadas por perfis pró-Bolsonaro no Facebook, Twitter e WhatsApp. Todas sugerem a existência de um “complô” entre o TSE e a mídia tradicional para ocultar uma suposta obrigatoriedade de realização de cadastramento biométrico para participação no processo eleitoral deste ano.

O suposto “complô” teria o objetivo de afastar das urnas apoiadores do presidente Bolsonaro, impedindo uma possível reeleição. Uma das postagens teve mais de 4.000 interações.

A segurança no sistema eleitoral é um dos principais alvos de desinformação hoje nas redes sociais. O conteúdo aqui verificado também foi investigado pelo Boatos.org, G1, Agência Lupa e desmentido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Para o Comprova, falso é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Saúde

Investigado por: 2022-01-26

Médico mente ao afirmar que vírus da covid é parcialmente desconhecido e vacinas são “lixo”

  • Falso
Falso
São falsas as afirmações de um médico em vídeo que circula nas redes sociais no qual ele fala que nada está sendo feito no Brasil a respeito do acompanhamento de efeitos adversos da vacinação, que as vacinas são “um lixo” e que ainda não foi possível conhecer o sequenciamento genético do novo coronavírus.
  • Conteúdo verificado: Vídeo mostra médico falando que nada está sendo feito com os dados de efeitos colaterais das vacinas contra a covid-19 e que as vacinas são “um lixo”. Ele também diz que não se sabe qual a origem do novo coronavírus e que o sequenciamento genético do Sars-CoV-2 ainda não é totalmente conhecido.

São falsas as afirmações de um médico em vídeo que circula pelas redes sociais e no qual ele fala, entre outras coisas, que nada está sendo feito para acompanhar eventuais efeitos adversos das vacinas contra a covid-19, que os imunizantes são “um lixo” e que ainda não foi possível descobrir qual o sequenciamento genético completo do novo coronavírus. A declaração foi recortada de um vídeo de uma audiência pública realizada na Câmara Municipal de Sorocaba.

O Ministério da Saúde, em conjunto com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e as secretarias estaduais e municipais de saúde, monitora a ocorrência de efeitos adversos pós-vacinação. Também são divulgados boletins periódicos com apresentação e análise desses dados. O último deles, com números contabilizados até novembro de 2021, aponta que, em um universo de 295 milhões de doses aplicadas em 155 milhões de pessoas, foram registrados 428 eventos adversos graves (EAGs) após a vacinação. Eventos adversos graves ou que levam a óbito são estudados semanalmente pelo Comitê Interinstitucional de Farmacovigilância (GFARM).

Em relação à efetividade das vacinas, especialistas consultados pelo Comprova e o próprio Ministério da Saúde afirmam que os imunizantes têm se demonstrado eficazes, especialmente para conter os casos graves da doença, ainda que as infecções tenham atingido patamar elevado nas últimas semanas. Também não é verdade que o sequenciamento genético do novo coronavírus ainda seja parcialmente desconhecido, uma vez que já existiam diversos vírus semelhantes, da família dos coronavírus, sequenciados e relatados na literatura científica, o que também já vem ocorrendo com o Sars-CoV-2, que causa a covid-19.

O Comprova tentou contato tanto com o autor da postagem aqui viralizada quanto com o médico Alessandro Loiola, que aparece no vídeo, mas não obteve retorno. Para o Comprova, a postagem é falsa porque apresenta conteúdo inventado.

Como verificamos?

Para acessar o conteúdo original, foi feita uma pesquisa no Youtube pelo canal oficial da Câmara Municipal de Sorocaba. Em relação às afirmações do médico sobre a própria carreira, consultamos o nome de Alessandro Loiola no site do Conselho Federal de Medicina, na aba “busca por médicos”. Os resultados apontaram para três registros, todos no nome de Alessandro Lemos Passos Loiola, um deles com a foto do médico. Além disso, também procuramos suas páginas oficiais nas redes sociais e o site em que ele assina textos.

A equipe tentou contato telefônico por meio do número que o site Doctoralia apresenta como o da clínica de Alessandro Loiola. O próprio médico também foi procurado por meio dos canais de comunicação divulgados em suas redes. A equipe ainda fez contato com os Conselhos Regionais de Medicina de São Paulo e de Minas Gerais, estados onde o médico mantém registro ativo nos respectivos conselhos, para obtenção de informações sobre a atuação profissional do médico. O Sindicato dos Médicos de São Paulo também foi procurado na tentativa de obter informações a respeito da carreira do profissional, mas não houve retorno.

A reportagem tentou, sem sucesso, contato com o perfil responsável pela publicação do vídeo que viralizou.

Para verificar as informações técnicas mencionadas no vídeo, a equipe do Comprova conversou com a microbiologista e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Giliane Trindade, com o epidemiologista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Eduardo Martins Netto, e com a bióloga e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) Mariana Telles. Além deles, foram consultados formalmente por e-mail a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Saúde.

Também foram analisados os boletins de acompanhamento de Efeitos Adversos Pós-Vacinação divulgados periodicamente pelo Ministério da Saúde.

Por fim, a plataforma Our World in Data, mantida pela Universidade de Oxford, foi consultada para o levantamento dos números de casos e de óbitos registrados no Brasil ao longo da pandemia.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 26 de janeiro de 2022.

Verificação

O vídeo

O vídeo compartilhado trata-se de um trecho de uma audiência pública realizada pela Câmara Municipal de Sorocaba (SP), no dia 10 de novembro de 2021, para discutir a implementação do chamado passaporte vacinal na cidade. A audiência teve mais de quatro horas de duração e a transmissão na íntegra está disponível na página da Câmara de Sorocaba no Facebook. Loiola foi um dos convidados da audiência.

O trecho do evento que foi recortado e utilizado no vídeo viral também está disponível no canal oficial da Câmara no YouTube, nomeado como “parte 2” da audiência, e tem pouco mais de 1 hora e 54 minutos de duração. De acordo com divulgação da Câmara de Sorocaba, o evento foi uma iniciativa do vereador Vinícius Aith (PRTB).

Origem do vírus

Ao ser questionado durante a audiência sobre qual a origem do novo coronavírus, o médico respondeu apenas que “ninguém sabe”. No entanto, de acordo com a microbiologista e professora da UFMG Giliane Trindade, estudos científicos sobre o tema têm sido feitos, e há grande probabilidade do coronavírus ter origem natural, mais precisamente a partir de espécies de morcegos.

Segundo a pesquisadora, essa relação foi descoberta a partir do sequenciamento do genoma do novo coronavírus, e da sua comparação com vírus semelhantes que já eram estudados. “A origem é dada como ‘provável’ porque, até hoje, de fato, não foi encontrado nenhum animal com o vírus 100% idêntico ao que infecta os seres humanos, mas há essa enorme semelhança”, afirma a pesquisadora.

“Em resumo, podemos dizer que provavelmente o vírus já circulava em alguma espécie de animal, que ainda não foi possível identificar, mas que os estudos genéticos indicam que sejam os morcegos. Em algum momento esse vírus pode ter saltado diretamente de um morcego para um ser humano, ou de um morcego para alguma outra espécie animal, e dessa espécie animal para um ser humano”, acrescenta.

A origem natural do novo coronavírus também é mencionada como a mais provável nos sites da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto Butantan.”Pesquisadores chineses identificaram que o novo vírus é originário de morcegos, assim como a maioria dos outros coronavírus. Sabe-se atualmente que houve o fenômeno de ‘transbordamento zoonótico’, quando um coronavírus que acomete animais sofre mutação e passa a infectar humanos. As pesquisas nos permitem concluir que essa mutação foi um processo natural e não induzido pelo homem em laboratório”, afirma a Fiocruz.

O Instituto Butantan também aponta a origem natural e correlação com vírus encontrados em morcegos e o Sars-CoV-2, que causa a covid-19: “No final de março de 2021, a OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou um relatório de 120 páginas, desenvolvido por cientistas da China e de outras partes do mundo, que reforçou a origem natural da epidemia. A tese mais aceita diz que o vírus passou do morcego para um mamífero intermediário, e dele para o ser humano. A transmissão de um morcego diretamente para um humano também foi apontada como uma hipótese possível e provável”.

Composição do vírus e sequenciamento genético

Quando perguntado sobre como o vírus é composto e “qual o seu sequenciamento”, Loiola responde “parcialmente desconhecido”.

A microbiologista Giliane Trindade explica que a afirmação é falsa. “Já existem centenas de genomas depositados em bancos de dados. O estudo dos coronavírus foi muito incrementado depois das emergências anteriores [provocadas por vírus desse tipo], como a da Síndrome Respiratória Aguda (Sars) e Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers). O genoma é totalmente conhecido”, diz.

Os coronavírus são uma extensa família de vírus semelhantes, e que incluem o Sars-CoV, responsável pela Síndrome Respiratória Aguda (Sars); o Mers-Cov, responsável pela Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers) e o Sars-CoV-2, que causa a covid-19.

De acordo com o virologista e professor da UFBA Eduardo Martins Netto, todo o genoma do Sars-CoV-2 tem sido repetidamente sequenciado e relatado na literatura científica. “O sequenciamento de RNA do novo coronavírus já é totalmente conhecido, o que ainda não é 100% conhecido é a implicação que cada trecho pode causar quando infecta o ser humano”, diz.

A bióloga e professora da UFG Mariana Telles também afirma que cientistas de todo o mundo têm amplo trabalho de sequenciamento do vírus que provoca a covid-19, realizado por meio da análise de amostras fornecidas por pacientes que tiveram a doença.

Telles coordena o trabalho de sequenciamento em Goiás e explica que realizar o estudo é importante para entender as diferentes mutações pelas quais o vírus passa, que podem apontar se há maior facilidade de disseminação ou aumento de virulência (capacidade de produzir efeitos graves), por exemplo. “O sequenciamento é a única metodologia que permite a gente entrar neste nível de detalhe. Os testes de diagnóstico não permitem isso, eles vão dizer se a pessoa tem ou não tem o vírus”, afirma.

O que o vírus causa no organismo do ser humano

No vídeo, Loiola afirma que o novo coronavírus causa “inflamação dos vasos sanguíneos, com aumento do risco de trombose e falência de múltiplos órgãos”. Para o virologista Martins Netto, essa resposta está incompleta. “O ataque do vírus aos vasos sanguíneos é a principal causa de infecções graves da doença, mas cerca de 95% dos casos de covid-19 têm relação apenas com sintomas leves, como febre ou calafrios; tosse; falta de ar ou dificuldade para respirar; fadiga; dores musculares ou no corpo; dor de cabeça; perda de paladar ou olfato; dor de garganta; congestão nasal; náusea ou vômito e diarreia”, explica o especialista.

As consequências relacionadas ao risco de trombose e falência múltipla dos órgãos também estão citadas na página do Ministério da Saúde que lista os sintomas da doença. No entanto, essas consequências são apresentadas como complicações relacionadas aos casos mais graves de covid-19, o que, segundo a mesma página do Ministério, corresponde a cerca de 5% de todos os casos da doença.

Dados e efeitos adversos da vacina

Em nota enviada à equipe do Comprova, o Ministério da Saúde afirmou que a ocorrência de eventos adversos pós-vacinação (EAPV) é monitorada dentro do Programa Nacional de Imunização (PNI), juntamente à Anvisa e em parceria com as secretarias de saúde municipais e estaduais.

A pasta ressaltou ainda que eventos adversos pós-vacinação muito raros, graves ou que levem a óbito são discutidos semanalmente pelo Comitê Interinstitucional de Farmacovigilância de Vacinas e outros Imunobiológicos (Cifavi), formado pelo PNI, Gerência de Farmacovigilância (GFARM) da Anvisa, o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), além de especialistas com expertise em vacinologia e farmacovigilância de vacinas, em imunologia, infectologia, neurologia, cardiologia, reumatologia e pediatria. “Neste comitê são avaliados se o EAPV tem ou não relação causal com a vacina”, diz o Ministério.

De acordo com último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde de acompanhamento EAPVs, com dados entre 17 de janeiro e 20 de novembro de 2021, o Brasil havia aplicado 295 milhões de doses em 155 milhões de pessoas, e registrado 9.896 eventos adversos graves (EAGs) após a imunização.

Desses 9.896 casos, 3.537 foram classificados como tendo relação inconsistente com os efeitos da vacina após análise. Ou seja, foram eventos causados por condições preexistentes decorrentes de outros fatores, que não as vacinas. Até o momento, apenas 428 casos de EAGs tiveram relação comprovada com a vacina, enquanto outros 5.148 ainda estão sob análise, ou são casos com informações incompletas.

A Anvisa também foi contatada para esclarecimentos a respeito do acompanhamento de casos de efeitos adversos da vacinação, mas não respondeu até o fechamento desta verificação.

Eficácia das vacinas e aumento de casos

No vídeo, Loiola também é questionado por uma pessoa que participou da audiência sobre o que autoridades consideraram diante do aumento de casos de covid-19 mesmo após o início da vacinação, em uma insinuação sobre ineficácia dos imunizantes. Crítico das vacinas, Loiola responde: “negando a realidade da maneira mais indecente e criminosa possível”.

Houve aumento de casos de coronavírus no Brasil nas últimas semanas, mas não é verdade que a vacina não seja importante. A bióloga Mariana Telles afirma que as mutações que a variante ômicron apresenta explicam a facilidade que o vírus tem de entrar nas células. Ela explica que também já foi verificado que o vírus se aloja mais nas partes altas das vias aéreas, o que facilita a disseminação. Para a professora, esses pontos ajudam a explicar o aumento de casos de covid-19 no País.

Telles ressalta que o número de óbitos e internações não acompanhou, na mesma proporção, o aumento de casos positivos de covid-19 – ao contrário do que ocorreu antes de os brasileiros começarem a ser vacinados. “A gente está vendo explosão de casos, mas não vemos explosão de internação e óbito porque a vacina está segurando”, explica.

De acordo com números da plataforma Our World in Data, no dia 1º de abril de 2021 o Brasil registrou a maior média móvel de novas mortes diárias por covid-19 durante todo o período da pandemia: 3.107. Nesse mesmo dia, a média móvel de novos casos de covid-19 registrados no país era de 73.508 por dia. Ou seja, a relação nesse dia foi de 23,6 casos de covid-19 para cada morte registrada.

Já no último dia 25 de janeiro, o Brasil atingiu o maior patamar na média móvel de novos casos registrados em um único dia: 158.924,43. No mesmo dia, a média móvel de mortes diárias por covid-19 no país era de 332,29, também de acordo com levantamento da Our World in Data. A relação era de aproximadamente 478,27 casos para cada óbito registrado.

A não proporcionalidade entre aumento do número de casos e do número de óbitos por covid-19 registrados atualmente no país também pode ser observada nos dados referentes ao mês de janeiro de 2022. Entre o dia 1º e o dia 25 deste mês, a média móvel de novos casos diários confirmados da doença saltou de 8.189,14 para 158.824,43 (um aumento de 1.840,6%). No mesmo período, a média móvel de óbitos diários foi de 97,29 para 332,29, um aumento de 241,5%. Os números também são da plataforma Our World In Data.

Estes são os números mais atuais relacionados à pandemia no Brasil, pois o vídeo aqui verificado viralizou nas últimas duas semanas, o que pode levar a população a entender que os questionamentos são recentes. No entanto, a audiência pública foi realizada em 10 de novembro de 2021, quando o número de casos de covid-19 estava em queda.

Em nota, o Ministério da Saúde destacou que a variante ômicron, que tem se mostrado a cepa do coronavírus de maior circulação neste momento, “apresenta certa capacidade de evasão à resposta imune às vacinas, além de transmissibilidade aumentada”. No entanto, segundo o Ministério, ainda assim, as vacinas mantiveram elevada efetividade para prevenção de formas graves da doença. “De tal forma que o aumento no número de casos trouxe uma elevação menos significativa das hospitalizações e óbitos, até o presente momento, em relação ao que foi observado nas ondas prévias de covid-19”.

Sobre o médico

Nascido em Vitória (ES), Alessandro Lemos Passos Loiola tem 50 anos e é formado pela Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (Emescam), no Espírito Santo. Na busca pelo nome do médico no Conselho Federal de Medicina (CFM) são encontrados três registros: em Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo.

O registro mais antigo é o do Espírito Santo, de 1996. Atualmente esse registro aparece como “transferido”, enquanto o de Minas Gerais (inscrição feita em 2002) e São Paulo (inscrição em 2010) estão ativos. Nos conselhos regionais de Minas Gerais e Espírito Santo, constam como áreas de atuação médica a cirurgia geral e a proctologia ou coloproctologia. Em São Paulo não há indicação de especialidades.

Em outra verificação do Comprova, também sobre conteúdo falso divulgado a partir de falas do médico, a equipe mostrou que, em novembro de 2019, Loiola foi escalado pelo então secretário especial da Cultura do governo federal, Roberto Alvim, para o cargo de coordenador-geral de Empreendedorismo e Inovação, do Departamento de Empreendedorismo Cultural, da Secretaria da Economia Criativa.

Na época, a nomeação foi assinada pelo então ministro do Turismo, Marcelo Henrique Teixeira Dias, e publicada no Diário Oficial da União de 27 de novembro de 2019. Cerca de dois meses depois, Loiola e outros dois funcionários da Secretaria Especial da Cultura foram exonerados dos cargos também pelo ministro Dias. As exonerações foram publicadas no Diário Oficial da União no dia 24 de janeiro de 2020. Alvim foi demitido dez dias antes, após fazer um pronunciamento oficial com referências nazistas, como mostra esta reportagem publicada por O Globo.

O Comprova também já verificou outros conteúdos enganosos que envolvem Loiola, como quando o médico tirou de contexto dados sobre um estudo para sugerir que o uso de máscara é ineficiente para diminuir a disseminação da covid-19 e outro caso em que medidas protetivas foram desqualificadas.

A equipe tentou contato direto com Loiola por meio de telefone disponível no site Doctoralia, mas o número pertence a uma igreja presbiteriana da cidade de São José dos Campos (SP). O médico também foi procurado por meio dos canais de comunicação divulgados em suas redes (WhatsApp e e-mail). O Comprova encaminhou mensagem questionando Loiola sobre a fonte de suas afirmações no vídeo, o local onde atendia pacientes na época do vídeo e atualmente, além de posicionamento diante da produção da reportagem.

Em resposta por meio do aplicativo de mensagens (usado para agendamento de consultas com Loiola e venda de seus livros), uma mulher, que se identificou como assessora pessoal e esposa do médico, informou que as respostas aos questionamentos estão nos livros publicados por ele sobre a pandemia. Também foi encaminhada uma foto que mostra a capa das duas obras. Não houve resposta por e-mail.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições. Para selecionar os alvos das verificações, o projeto observa dados como o alcance de determinada postagem. Neste caso, o vídeo com conteúdo falso tem 679 mil visualizações e 7,5 mil comentários no Facebook.

Publicações como estas prejudicam o avanço da campanha de imunização contra a covid-19, fazendo com que a população tenha dúvidas sobre a eficácia e segurança das vacinas. Instituições públicas e especialistas afirmam que os benefícios de receber as doses são maiores do que os efeitos adversos que os produtos podem provocar.

Recentemente, o Comprova também verificou que o Ministério da Saúde descartou relação entre a vacina e a morte de um adolescente em João Pessoa e o caso do vídeo de um pai desesperado, que é antigo, foi filmado no Amazonas e não tem relação com o imunizante.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Saúde

Investigado por: 2022-01-24

Ministério da Saúde descartou relação entre vacina e morte de adolescente em João Pessoa

  • Enganoso
Enganoso
São enganosas as publicações em site e nas redes sociais que procuram vincular a morte de um adolescente de 15 anos, na Paraíba, à aplicação da vacina da Pfizer contra a covid-19. As postagens compartilham reportagem antiga de um programa de TV da Paraíba, em que a família do jovem relata a morte dias após a primeira dose do imunizante. Autoridades de saúde investigaram o caso e constataram que o menino tinha uma doença cardiológica congênita. A relação de causalidade entre a vacina e a morte foi descartada.
  • Conteúdo verificado: Vídeo em que uma mãe faz um relato sobre a morte do filho, de 15 anos, em João Pessoa, na Paraíba, dias após ser vacinado com o imunizante da Pfizer.

Autoridades de saúde descartaram a relação entre a morte de um adolescente de 15 anos, em João Pessoa (PB), com a vacina da Pfizer contra a covid-19. Posts nas redes sociais estão espalhando um trecho de uma reportagem antiga da TV Arapuan, afiliada da RedeTV! na Paraíba, para questionar a segurança do imunizante. Na época em que a matéria foi ao ar, há três meses, o caso ainda estava sob investigação.

Em 29 de outubro, o canal entrevistou a mãe do menino e informou que o caso ainda estava sob investigação. Ele havia tomado a primeira dose da vacina em 8 de outubro e morreu no Hospital Infantil Arlinda Marques, no dia 26. A família relatou dores de cabeça, tonturas e enjoo nos primeiros dias após a vacinação, seguidos de convulsões e paradas cardíacas quando o quadro de saúde se agravou.

Procurada pelo Comprova, a Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba disse que o Ministério da Saúde apurou o caso e descartou qualquer relação da vacina com a morte. Segundo a pasta, o adolescente tinha uma doença cardiológica congênita, e a família recebeu todas as informações sobre a conclusão do ocorrido em janeiro de 2022. Em nota, o governo federal confirmou a informação: “O Ministério da Saúde informa que a investigação sobre esse caso foi encerrada com a conclusão de que o óbito não teve causalidade relacionada com as vacinas covid-19”.

Em janeiro, quase três meses depois de o caso ser noticiado pela TV Arapuan, políticos e usuários anônimos do Facebook passaram a expor novamente a história do menino para atacar os imunizantes contra a covid-19. O vereador de Garanhuns Thiago Paes (DEM-PE) e a deputada federal Alê Silva (PSL-MG) amplificaram a desinformação em suas redes, assim como um suposto economista em um blog na internet.

O Comprova tentou contato com eles, mas não obteve retorno. Os posts foram considerados enganosos nesta checagem porque retiram um conteúdo de seu contexto original e confundem a população com dados desatualizados e omissão de informações.

Como verificamos?

O Comprova iniciou esta checagem procurando pelo vídeo original da TV Arapuan, que foi encontrado em seu canal no YouTube, com data de upload em 29 de outubro de 2021. Uma diretora da rede também prestou informações por telefone e mensagens de texto.

Em seguida, para atualizar o andamento do caso, os jornalistas procuraram, por e-mail e telefone, a Secretaria Municipal de Saúde de João Pessoa, a Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Por meio de buscas avançadas no Google, o Comprova chegou a um documento do governo do Estado da Paraíba sobre o caso do menino e a perfis de familiares no Facebook que ajudaram a identificar o seu nome. A verificação tentou contatar a mãe do adolescente, mas não conseguiu entrevistá-la até a publicação desta checagem.

Por fim, a verificação analisou as postagens com o nome do adolescente, neste mês, no Facebook, e constatou que elas ganharam alcance por meio de posts de políticos e em meio a um caso de aplicação irregular de vacinas na Paraíba. O Comprova buscou o contraponto dos principais agentes de desinformação por meio de contatos públicos, como números de telefone dos gabinetes e e-mails, mas não houve resposta.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 24 de janeiro de 2022.

Verificação

O caso do menino

De acordo com relato da família para a TV Arapuan, o adolescente recebeu a primeira dose da vacina da Pfizer em 8 de outubro de 2021. A partir do dia seguinte, teria passado a sentir sintomas como dores de cabeça, tonturas e enjoo. Segundo informado na entrevista, o menino foi levado três vezes ao Hospital Infantil Municipal Valentina e uma vez a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), antes de dar entrada no Hospital Infantil Arlinda Marques, onde ficou em observação e depois foi internado. Ele teria tido convulsões e paradas cardíacas antes de morrer, mas a exata causa da morte não é informada.

A nota informativa nº 46 da Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba, divulgada em 27 de outubro, aponta que o caso foi notificado como uma possível reação adversa da vacina pelo Hospital Arlinda Marques. Apesar de o documento não citar o nome do paciente, os dados conferem com o relato da família para a TV Arapuan: era um adolescente, sexo masculino, 15 anos, residente de João Pessoa, que havia recebido a vacina da Pfizer, no dia 8, e morreu na instituição, em 26 de outubro.

“O caso está sendo investigado desde o dia da notificação, através da coleta de informações domiciliares e hospitalares de forma conjunta pelo Estado e município, dado o caminho percorrido pelo referido paciente na rede assistencial”, informa o documento: “Para a investigação, é solicitada documentação complementar (prontuários médicos, laudos de exames laboratoriais e de imagem, relatórios de evolução de todos os serviços em que o paciente deu entrada para atendimento). O caso grave e pareceres estão sendo discutidos com corpo técnico do PNI/MS, visando a elucidação do caso.”

Com base nessas informações, o Comprova entrou em contato com as autoridades de saúde para atualizar o andamento da investigação. A Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba respondeu por e-mail, em 20 de janeiro: “O caso em questão foi investigado pelo Ministério da Saúde, que afastou a relação com a vacina. O menor tinha uma doença cardiológica congênita. A família recebeu da equipe de infectologistas do Ministério todas as informações em janeiro”, declarou a pasta.

Procurado no mesmo dia, o governo federal confirmou a informação. “O Ministério da Saúde informa que a investigação sobre esse caso foi encerrada com a conclusão de que óbito não teve causalidade relacionada com as vacinas covid-19”, respondeu, por e-mail.

De acordo com a pasta, os eventos adversos pós-vacinação são raros, e todos os casos graves suspeitos são discutidos semanalmente em um comitê formado pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), pela Gerência de Farmacovigilância da Anvisa, pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz) e outros especialistas de diversas áreas da medicina, em conjunto com as secretarias estaduais.

O Comprova pediu mais detalhes ao Ministério da Saúde e à Anvisa, incluindo a causa exata da morte do adolescente e os fatores que levaram os técnicos a descartarem a relação entre o óbito e a vacina da Pfizer. A Anvisa respondeu que não é possível abordar o assunto publicamente em observância à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). O Ministério da Saúde não retornou esse segundo contato até a publicação desta checagem.

Reportagem antiga

O vídeo que deu origem à checagem do Comprova foi divulgado pelo vereador da cidade pernambucana de Garanhuns Thiago Paes (DEM), em 18 de janeiro. Ele usa trechos do relato da família para a TV Arapuan, em outubro do ano passado, sem informar a data da reportagem. Junto com a gravação, escreve a seguinte legenda: “Criança morre após tomar vacina contra a covid-19, afirma mãe!”. O conteúdo teve mais de 186 mil visualizações no Facebook.

Comparando o vídeo da reportagem completa no canal da TV Arapuan, no YouTube, com a peça compartilhada pelo vereador, o Comprova constatou que foi suprimido o trecho inicial da reportagem, em que o apresentador do telejornal e o repórter citam o nome do jovem e a sua idade, 15 anos.

Ao omitir esses dados básicos, o político dificulta a busca por mais informações sobre o caso e pode causar confusão quanto à aplicação de vacinas pediátricas em crianças de 5 a 11 anos — faixa etária que foi incluída recentemente na campanha de imunização contra a covid-19. É possível notar o engano em comentários no post, onde usuários suspeitam que o menino tenha sido vacinado com doses destinadas a adultos, o que não faz sentido, já que o imunizante da Pfizer para adultos foi liberado para todas as pessoas com mais de 12 anos.

O post do vereador também omite o trecho final da entrevista da TV Arapuan com a secretária executiva da Saúde da Paraíba, Renata Nóbrega, em que ela fala sobre a necessidade de coleta de mais informações e da conclusão de exames para confirmar se a morte realmente teve alguma relação com a vacina.

A reportagem original foi veiculada no programa “Rota da Notícia”, em 29 de outubro de 2021. O Comprova chegou ao vídeo ao pesquisar palavras-chave no campo de busca do YouTube. Em contato com os verificadores, a gerente de jornalismo da TV Arapuan, Dayana Lucas, reforçou que o conteúdo não é atual e que a Secretaria da Saúde já se manifestou sobre o resultado do laudo, descartando a hipótese de que o adolescente tenha morrido em decorrência da vacina.

Mais desinformação

O nome da vítima já vinha sendo exposto em outras publicações ao menos três dias antes da postagem do vereador pernambucano. Algumas delas vinham acompanhadas de críticas sobre um erro na aplicação de imunizantes em crianças na cidade de Lucena (PB), noticiado na semana passada — que não tem relação alguma com o caso.

De acordo com relatório da Secretaria Estadual da Saúde obtido pelo G1, vacinas vencidas e destinadas a adultos foram aplicadas em 36 crianças da cidade, enquanto outras 13 receberam a dosagem errada do imunizante, mas dentro do prazo de validade. O caso está sendo investigado pelo Ministério Público Federal (MPF).

Um dos perfis que aproveitou os acontecimentos recentes para espalhar desinformação foi o da deputada federal bolsonarista Alê Silva (PSL-MG), em 16 de janeiro. “Também na Paraíba (há 2 meses), lamentavelmente, morreu […], 15 anos, depois de sentir fortes dores de cabeça, tontura e vômito no dia seguinte à v@c*n@”, escreveu a deputada, trocando letras por caracteres na palavra “vacina”. Essa é uma tática comumente adotada para fugir do monitoramento de conteúdo das plataformas.

O post de Alê Silva é o mais antigo entre aqueles publicados em janeiro no Facebook contendo o nome do menino, segundo levantamento do Comprova, realizado por meio da ferramenta CrowdTangle. Depois, o mesmo texto foi repostado pelo deputado federal Éder Mauro (PSD-PA), e prints da mensagem circularam em páginas e grupos de apoio ao governo Jair Bolsonaro (PL) e entre apoiadores anônimos.

Antes mesmo de o caso da aplicação irregular de vacinas em Lucena ser conhecido, um blog na internet divulgou um link de um texto, escrito em 15 de janeiro, contendo a mesma gravação antiga da TV Arapuan, com os mesmos cortes que aparecem no post do vereador de Garanhuns. Assim como os demais, o site não citou o desfecho das investigações dos órgãos de saúde, que descartaram a relação entre a morte e a vacina da Pfizer.

Diante da viralização de conteúdos similares, o UOL Confere publicou uma notícia esclarecendo que a morte do adolescente em João Pessoa não teve relação com a vacina da Pfizer. A reportagem informou sobre o parecer do Ministério da Saúde no dia 19 de janeiro.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre pandemia, políticas públicas e eleições. O projeto observa os dados de viralização e o impacto desses conteúdos para decidir pela verificação. O vídeo do vereador de Garanhuns acumulou mais de 180 mil visualizações no Facebook, e a mesma desinformação ainda circulou em outros formatos em janeiro.

Perfis de viés antivacina costumam espalhar supostos casos de eventos adversos das vacinas nas redes sociais para questionar a segurança dos imunizantes — omitindo posicionamentos do Ministério da Saúde, da Anvisa e de entidades médicas, além de órgãos de saúde internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Relatos enganosos sobre esse tema podem desestimular a vacinação de crianças e adolescentes.

Não é a primeira vez que o Comprova desmente a relação entre uma morte e os imunizantes contra a covid-19. O projeto mostrou recentemente, por exemplo, que um adolescente brasileiro de Vale do Anari (RO), de 13 anos, teve o nome exposto em um protesto anti-vacina nos Estados Unidos, mas não morreu por causa da vacina.

Da mesma forma, um vídeo que mostra um pai desesperado em um hospital foi filmado depois que uma mulher e o filho morreram durante um parto prematuro em Manaus, em 2019, antes da pandemia da covid-19. Posts nas redes sociais resgataram o conteúdo agora para dizer que o homem estaria revoltado com a morte de uma criança por causa da vacina, o que é falso.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2022-01-21

Vídeo de pai desesperado é antigo, foi filmado no Amazonas e não tem relação com vacina

  • Falso
Falso
É falso um vídeo que circula no WhatsApp dizendo que “vacinação mata criança na Paraíba” e que as imagens mostram um “pai desesperado ao ver seu filho morto”. A gravação foi feita em fevereiro de 2019 em uma maternidade em Manaus, informou a Secretaria de Saúde do Amazonas – ou seja, mais de um ano antes do início da pandemia de covid-19. A Secretaria de Saúde da Paraíba informou que “nenhum efeito adverso grave” decorrente da vacina contra a covid foi registrado no estado.
  • Conteúdo verificado: Vídeo mostra um homem gritando e sendo contido por seguranças em uma sala de espera de hospital. O vídeo contém uma legenda no topo que diz “vacinação mata criança na Paraíba”. Na parte de baixo, há a frase “pai desesperado ao ver seu filho morto”.

É falso o vídeo que alega mostrar um “pai desesperado ao ver seu filho morto” por causa da vacinação contra a covid-19 na Paraíba. As imagens foram feitas em 2019 em uma maternidade no Amazonas. Além disso, nenhuma criança morreu após ter sido vacinada na Paraíba, segundo o governo local.

A maternidade Balbina Mestrinho, em Manaus, confirmou ao Projeto Comprova que o vídeo é de fevereiro de 2019. A Secretaria de Saúde da Paraíba divulgou nota à imprensa dizendo não ser verdadeiro que as imagens tenham sido feitas no estado, “tampouco que tenha sido um efeito da vacina contra covid-19”. O órgão também informou que “nenhum efeito adverso grave em decorrência da vacina foi registrado no estado.”

Para o Comprova, o vídeo é falso porque sofreu edições para mudar o seu significado original e foi divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

O Comprova recebeu o vídeo por meio do WhatsApp. A equipe começou uma busca para localizar o conteúdo em outras redes sociais e encontrou uma publicação de 2019 no Facebook, citando o caso de uma mulher que teria morrido em uma maternidade em Manaus. Com essa informação, a equipe pesquisou a respeito dessa morte em sites jornalísticos locais e encontrou matérias que contavam a história com imagens do vídeo em questão (1, 2 e 3).

Depois, a equipe entrou em contato com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas, que confirmou que o vídeo foi gravado dentro de uma maternidade de Manaus, em que uma mãe e uma criança morreram após procedimento obstétrico.

A Secretaria Estadual de Saúde da Paraíba também informou à equipe que o caso não ocorreu no estado e que nenhuma morte após a vacinação contra a covid-19 foi registrada no local.

Verificação

O vídeo

O vídeo recebido pelo Comprova via WhatsApp tem pouco mais de dois minutos de duração e mostra um homem gritando e sendo contido por seguranças em uma sala de espera de um hospital. Apenas pelas imagens, não é possível entender o que motivou a reação do homem, mas as legendas colocadas na gravação (“vacinação mata criança na Paraíba” e “pai desesperado ao ver seu filho morto”) induzem o espectador a acreditar que o caso tem relação com a vacinação contra a covid-19.

Uma busca pelo termo “pai desesperado” na plataforma de monitoramento Crowdtangle trouxe como resultado o mesmo vídeo, mas sem a legenda enganosa e em um post feito por um perfil pessoal em 17 de fevereiro de 2019. A autora do post diz que o vídeo mostra um “acontecimento de ontem na maternidade Balbina Mestrinho. (…) Aqui está um pai, marido desesperado, pois perdeu a sua esposa e o bebê por tamanha negligência médica”.

Notícias de veículos locais

Uma busca no Google mostrou que a maternidade Balbina Mestrinho fica em Manaus e pertence à rede estadual de saúde do Amazonas. Outra busca usando trechos do texto do post do Facebook levou a diversas notícias publicadas pela imprensa local em fevereiro de 2019 que falavam de um caso idêntico ao relatado no post encontrado pela reportagem na rede social. Mais que isso, algumas dessas reportagens continham o vídeo do pai desesperado na sala de espera do hospital (1, 2 e 3).

As notícias também traziam uma resposta dada na época pela Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas que citava a reação do pai após receber a notícia de que a mulher e o bebê haviam morrido.

“No momento em que recebeu a notícia das perdas da mãe e do bebê, o pai da criança ficou transtornado e tentou quebrar a máquina de lanche e outros objetos da recepção da maternidade. Os seguranças foram chamados para conter o pai. O serviço social prestou assistência à família, incluindo locomoção para a resolutividade dos trâmites póstumos”, diz a resposta da secretaria que foi publicada no noticiário local.

O que diz o governo do Amazonas

A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) confirmou ao Comprova que o vídeo foi gravado na maternidade Balbina Mestrinho, em Manaus, em fevereiro de 2019. À época, uma mulher grávida de 34 semanas deu entrada no hospital, com risco de parto prematuro. A morte da criança, que gerou a revolta do pai, ocorreu após um deslocamento prematuro de placenta. Posteriormente, a mãe foi internada em uma Unidade de Terapia Intensiva e também morreu.

Sobre o caso, a SES alega que a maternidade “passou por melhorias estruturais para oferecer o melhor acolhimento a grávidas, puérperas e recém-nascidos, assim como também houve investimento na capacitação de todos os profissionais que compõem a equipe multidisciplinar da unidade e dos equipamentos para exames”.

A morte da criança e da mãe não teve qualquer relação com a vacina da covid-19, de acordo com a confirmação da SES.

O que diz o governo da Paraíba

Em comunicado, a Secretaria de Estado da Saúde informou que o caso não ocorreu no estado. O órgão afirmou ainda que não foram registrados episódios de efeitos adversos à vacinação contra a covid-19.

“Não é verdadeira a informação de que tenha ocorrido na Paraíba, tampouco que tenha sido um efeito da vacina contra covid-19. Nenhum efeito adverso grave em decorrência da vacina foi registrado no estado”, diz a nota.

Atualmente, o estado aplica a vacina pediátrica da Pfizer em crianças de 5 a 11 anos, de acordo com recomendação do Ministério da Saúde.

Por que investigamos?

O Comprova tem o compromisso de investigar conteúdos suspeitos que tenham relação com a pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições. O vídeo foi enviado por um leitor e traz informações enganosas sobre a vacinação destinada ao público infantil.

Publicações como essa podem prejudicar o andamento da campanha de vacinação em curso no país. Todas as vacinas aplicadas atualmente no Brasil têm eficácia e segurança comprovada por órgãos de saúde nacionais e internacionais.

O tema tem sido alvo de constantes ataques por grupos contrários à vacinação. O Comprova já verificou uma publicação enganosa que distorce dado de estudo alemão para criticar a vacinação infantil e mostrou que a morte de um adolescente brasileiro mostrado em vídeo de protesto nos EUA não teve relação com a vacina.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Saúde

Investigado por: 2022-01-21

Médica usa parecer desatualizado para dizer que faltam evidências sobre vacina da Pfizer

  • Enganoso
Enganoso
É enganosa a fala de uma médica que se opôs à exigência de um passaporte de vacinação em plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal do dia 8 de dezembro de 2021. Em vídeo de um trecho da fala que circula no Facebook, TikTok e WhatsApp, a médica cita um parecer divulgado em agosto de 2021 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para afirmar que não existem “as principais evidências” quanto à segurança e eficácia do imunizante da Pfizer contra a covid-19. O próprio documento traz dados da eficácia e segurança robustas da vacina, os quais a médica não menciona. Ela também usa um parecer desatualizado e impertinente para levantar dúvidas sobre a vacinação de crianças e adolescentes, que foi autorizada em outro momento, com base em estudos específicos com essa faixa etária.
  • Conteúdo verificado: Em um vídeo de uma audiência pública da Câmara Legislativa do Distrito Federal, de 8 de dezembro de 2021, uma médica se opõe à aplicação da vacina da Pfizer contra a covid-19. Ela cita um parecer da Anvisa de agosto de 2021 para afirmar que as “principais evidências” sobre a segurança e eficácia do imunizante não existem. Diz ainda que o imunizante está em “fase experimental” até 2023 e que “se vacinarem as crianças e continuarem vacinando os adolescentes”, o Brasil vai “acabar”.

É enganosa a fala de uma médica que se opôs à exigência de um passaporte de vacinação em plenário da Câmara Legislativa do Distrito Federal, no dia 8 de dezembro de 2021. Em vídeo de um trecho da fala que circula no Facebook, TikTok e WhatsApp, a médica cita um parecer publicado em 2 de agosto de 2021 pela Anvisa para afirmar que não existem “as principais evidências” quanto à segurança e eficácia da vacina Comirnaty, imunizante da Pfizer contra a covid-19.

Ela chama atenção ao item de “Incertezas” do documento, que afirma que ainda não havia evidências para determinar a eficácia do imunizante “em população pediátrica, gestantes e indivíduos imunossuprimidos”, na prevenção da transmissão do vírus, e na prevenção de quadros graves da covid-19. Procurada pelo Comprova, a Anvisa esclareceu que o parecer se refere a dados disponíveis no momento do registro inicial da vacina no Brasil, em 23 de fevereiro de 2021, que autorizou a aplicação do imunizante em pessoas com mais de 16 anos de idade.

Segundo a Anvisa, realmente não foi possível determinar naquele momento o grau de eficácia da vacina na prevenção de quadros graves da covid-19. Isso porque “não houve significância estatística dos resultados, em razão do pequeno número de casos graves observados após a [aplicação da segunda dose]” da Pfizer, conforme explica a Anvisa. Portanto, é enganoso dizer que não havia “nenhuma evidência de que a vacina reduza a gravidade da doença”, como faz a médica no vídeo. Ela omite informações presentes no mesmo parecer, que conclui que “a vacina Comirnaty induz respostas imunes robustas e confere proteção contra a covid-19 em indivíduos ≥16 anos de idade, com eficácia demonstrada de 95% a partir de 7 dias após a dose 2” e que “um perfil de segurança aceitável para a vacina pôde ser estabelecido”.

Mais adiante, a médica afirma que a vacina da Pfizer está “em fase experimental até 2023”. Isso é falso e já foi desmentido em verificação do Comprova sobre outro vídeo da mesma médica, e também em verificações do Observador, Estadão Verifica e do Polígrafo sobre outros conteúdos. Todas as vacinas que tiveram uso autorizado pela Anvisa passaram pelas fases 1, 2 e 3 de ensaios clínicos, que atestam a segurança e eficácia do produto.

A médica também usa um parecer desatualizado, referente a dados disponíveis em fevereiro, para afirmar que não foram realizados testes da vacina da Pfizer com crianças e adolescentes. Isso não é verdade. A Pfizer divulgou os resultados dos estudos com pessoas de 12 a 15 anos em 31 de março de 2021, mostrando que o imunizante é seguro e registrou 100% de eficácia em adolescentes. A Anvisa autorizou a imunização dessa faixa etária em 11 de junho de 2021. Os resultados dos estudos com crianças de 5 a 11 anos foram divulgados em 22 de outubro de 2021, mostrando que o imunizante é seguro e registrou 90,7% de eficácia nessa faixa etária. Todas essas informações já estavam disponíveis em 8 de dezembro de 2021, quando a médica fez sua fala na audiência pública da Câmara Legislativa do Distrito Federal.

A médica diz ainda que o Brasil vai “acabar” caso “vacinem as crianças e continuem vacinando os adolescentes”, insinuando que ocorrerão muitas mortes decorrentes de eventos adversos causados pela vacina. Com 325,71 milhões de vacinas aplicadas no país, o Ministério da Saúde registrou 13 mortes por reações aos imunizantes, em qualquer faixa etária, de acordo com uma reportagem da Folha de S.Paulo de 17 de janeiro de 2022.

Até janeiro de 2022, 324 mortes por covid-19 foram registradas desde o início da pandemia entre crianças de 5 a 11 anos, segundo dados da Associação de Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil).

Procurados pelo Comprova, a médica e o perfil que compartilhou o vídeo de sua fala no Facebook não responderam até a publicação desta verificação. No TikTok, o vídeo foi removido.

O Comprova classificou o conteúdo como enganoso, porque retira de contexto trechos de um parecer desatualizado e omite informações para induzir a conclusões diferentes daquelas delineadas pela Anvisa no próprio documento.

Como verificamos?

No trecho do vídeo publicado no Facebook e no TikTok, há uma legenda que diz: “A obrigatoriedade do passaporte sanitário no DF: Audiência pública / Plenário CLDF / 08/12/2021”. Buscando por esses termos no Google, encontramos a agenda e um texto sobre o evento no site da Câmara Legislativa do Distrito Federal. A pesquisa também retornou uma notícia do G1, dizendo que o vídeo oficial da audiência foi derrubado pelo YouTube por “violar as diretrizes da comunidade”. Encontramos também uma cópia da transmissão na íntegra, com quatro horas de duração, republicada por um canal não oficial.

A Anvisa foi procurada por e-mail, no dia 14 de janeiro, para esclarecer dúvidas sobre o parecer público mencionado pela médica. Foram solicitadas informações sobre a data de publicação, a que dados se refere o documento e o que representam as “Incertezas” listadas na página 53.

Também enviamos e-mail à assessoria da Pfizer, que respondeu no dia 14 de janeiro com informações sobre as vacinas, as fases dos estudos clínicos e as datas em que os imunizantes tiveram uso autorizado pela Anvisa para cada faixa etária.

Para verificar a afirmação de que a vacina da Pfizer está “em fase experimental até 2023”, foi feita uma busca no Google pelos termos “vacina fase experimental 2023”. A pesquisa retornou as verificações feitas pelo Comprova, Observador, Estadão Verifica e o Polígrafo, além de matérias do Estado de Minas e da Agência Brasil, que mostram que a falsa ideia de que as vacinas são “experimentais” tem sido usada em vários conteúdos de desinformação.

Encontramos dados sobre as mortes de crianças por covid-19 e as mortes por reações adversas à vacina pesquisando no Google por termos como “mortes crianças covid-19” e “mortes causadas por vacina”, o que levantou resultados de vários portais de notícias. Procuramos pelas informações mais atualizadas e chegamos a um texto do UOL de 10 de janeiro de 2022 e uma reportagem da Folha de S.Paulo de 17 de janeiro de 2022.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 21 de janeiro de 2022.

Verificação

O parecer da Anvisa

No vídeo aqui verificado, a médica faz referência ao parecer público de avaliação da vacina contra a covid-19 Comirnaty (da fabricante Pfizer), publicado pela Anvisa em 2 de agosto de 2021. Contatada por e-mail, a Anvisa informou que esse parecer “refere-se à avaliação do registro inicial do produto, publicado em 23/02/2021”, e aos dados disponíveis naquele momento.

O documento pode ser encontrado por meio de consulta no site do órgão, sob um aviso que diz: “Os pareceres disponíveis não sofrem atualizações após o deferimento do registro. Porém, as informações atualizadas relativas à apresentação, embalagem, local de fabricação, prazo de validade e cuidados de conservação, assim como os textos de bula, podem ser consultadas na Consulta de Medicamentos”.

A bula atualizada da vacina, disponível no site da Anvisa, aponta que “análises secundárias de eficácia sugeriram o benefício da vacina de mRNA contra covid-19 na prevenção de covid-19 grave”. Em e-mail ao Comprova, a Anvisa destaca também que o objetivo principal dos estudos clínicos de fase 2/3 com a vacina não era determinar a eficácia na prevenção de casos graves ou da transmissão do vírus, e sim determinar a eficácia na prevenção da covid-19 sintomática.

Testes com crianças e adolescentes

Citando o mesmo parecer referente a fevereiro (portanto, desatualizado), a médica mente ao afirmar que ainda não foram realizados testes da vacina da Pfizer com crianças e adolescentes, e questiona como a Anvisa teria aprovado a imunização de adolescentes.

Para a população de 12 a 15 anos, “os ensaios de fase 3 foram realizados em 2.260 adolescentes, nos Estados Unidos, e apresentaram respostas robustas na produção de anticorpos até mesmo maiores do que as observadas na população entre 16 e 25 anos”, afirmou a Pfizer ao Comprova. Os resultados desses estudos foram divulgados em 31 de março de 2021, mostrando que o imunizante é seguro e registrou 100% de eficácia em adolescentes na fase de pesquisa. A Anvisa autorizou a imunização dessa faixa etária em 11 de junho de 2021.

Para a população de 5 a 11 anos, “os estudos de fase 2/3 foram realizados em 2.268 crianças, nos Estados Unidos, Finlândia, Polônia e Espanha, e apresentaram respostas robustas na produção de anticorpos além de perfil de segurança favorável”, disse a farmacêutica. Os resultados desses estudos foram divulgados em 22 de outubro de 2021, mostrando que o imunizante é seguro e registrou 90,7% de eficácia em crianças.

Todas essas informações já estavam disponíveis em 8 de dezembro de 2021, quando a médica fez sua fala na audiência pública da Câmara Legislativa do Distrito Federal. A Anvisa autorizou a imunização de crianças em 16 de dezembro de 2021.

Vacina não é ‘experimental’

Mais adiante, a médica afirma que a vacina da Pfizer está “em fase experimental até 2023”. Isso é falso e já foi desmentido em verificação do Comprova sobre outro vídeo da mesma médica, e também em verificações do Observador, Estadão Verifica e do Polígrafo sobre outros conteúdos. Todas as vacinas que tiveram uso autorizado pela Anvisa passaram pelas fases 1, 2 e 3 de ensaios clínicos, que atestam a segurança e eficácia do produto.

Conforme mostra o Estadão Verifica, a falsa ideia de que a vacina da Pfizer é “experimental” vem do fato de que a data de conclusão dos estudos sobre o imunizante está prevista para 2023. “Essas datas se referem ao término do prazo para acompanhamento dos voluntários, que pode durar até dois anos. Não é necessário aguardar todo esse tempo para obter os dados de segurança e eficácia”, diz a verificação.

Em nota, a Pfizer afirmou ao Comprova que “os estudos de fase 3, chamados de pivotais, são os que possibilitam a aprovação do estudo e comercialização do produto”. Essa fase foi iniciada em julho de 2020 em pessoas acima de 16 anos e interrompeu a inclusão de participantes em janeiro de 2021. ”Por protocolo, os participantes continuarão sendo monitorados quanto à proteção e segurança em longo prazo por mais dois anos após a aplicação da segunda dose”, disse a farmacêutica.

A audiência

O vídeo que circula com a fala da médica vem de uma audiência pública da Câmara Legislativa do Distrito Federal, realizada em 8 de dezembro de 2021. O evento, mediado pela deputada distrital Júlia Lucy (Novo), tinha como pauta a obrigatoriedade do passaporte sanitário no Distrito Federal e foi transmitido ao vivo pela TV Câmara Distrital e no YouTube.

Além da médica e da deputada, outros participantes da audiência fizeram declarações contrárias à exigência de um comprovante de vacinação contra a covid-19. Entre eles, a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), aliada do presidente Jair Bolsonaro (PL), conhecida por posições antivacina e que já teve conteúdos enganosos sobre a covid-19 verificados pelo Comprova; e o médico Roberto Zeballos, que também foi alvo de checagens do Comprova na pandemia.

A transmissão da audiência publicada no canal da TV Câmara Distrital no YouTube foi removida da plataforma no dia seguinte ao evento, por violar as diretrizes da comunidade. Procurada pelo G1, a rede social de vídeos não divulgou uma posição oficial sobre o caso. Rafael Prudente (MDB), presidente da Câmara, informou ao site que a Procuradoria da Casa está avaliando o que houve e qual medida pode ser tomada.

A médica

A médica do vídeo é Maria Emilia Gadelha Serra, uma otorrinolaringologista com registro nº 63.451 no Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp). Em seu perfil no Instagram, ela se apresenta como presidente da Sociedade Brasileira de Ozonioterapia Médica. A prática é contestada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), que, em Resolução de 2018, a definiu como “procedimento de caráter experimental, cuja aplicação clínica não está liberada, devendo ocorrer apenas no ambiente de estudos científicos”.

Serra é conhecida por disseminar desinformação sobre as vacinas contra a covid-19, e já teve outros conteúdos verificados pelo Comprova, pela Agência Lupa e pelo Aos Fatos. Antes da pandemia, já compartilhava conteúdos falsos sobre a vacina contra o HPV. Em seu Instagram, ela tira de contexto dados sobre efeitos adversos de vacinas e faz postagens contrárias à exigência de um passaporte vacinal e à imunização infantil. Também compartilha teoria da conspiração contra órgãos sanitários regulatórios dos Estados Unidos e contra a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A médica se reuniu com o presidente Jair Bolsonaro (PL), em 22 de julho de 2021, para entregar um documento de 15 páginas que aponta supostos riscos das vacinas contra a covid-19, as quais ela classificou enganosamente como “produtos experimentais injetáveis”.

À Anvisa, Serra encaminhou outro documento com o título “Questionamentos sobre vacinação de crianças brasileiras – 45 médicos”, no dia 17 de dezembro de 2021. O texto sustenta que o imunizante infantil tem “caráter experimental”. Em resposta, a Anvisa emitiu uma nota de 22 páginas, detalhando as etapas regulatórias pelas quais o produto teve de passar antes da aprovação. “Reiteramos que a vacinação também é importante para aumentar a proteção daqueles com maior risco de desenvolver a doença na forma grave, reduzindo a necessidade de hospitalização, a disseminação do vírus e prevenindo o surgimento de novas cepas de maior preocupação”, diz o órgão.

Procurada pelo Comprova por e-mail em 14 de janeiro, a médica não respondeu até a publicação desta verificação.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que tenham viralizado nas redes sociais sobre pandemia, políticas públicas e eleições. O vídeo aqui verificado reuniu mais de 96 mil visualizações em uma postagem no Facebook, 293 mil visualizações em uma publicação no TikTok, e tem sido compartilhado no WhatsApp.

Informações falsas sobre a vacinação contra covid-19 podem fazer com que as pessoas não se imunizem ou que escolham um determinado fabricante.

O Comprova já mostrou em verificações anteriores que é falso que a vacina da Pfizer tenha causado muitas mortes e que a segurança do imunizante da Pfizer para crianças foi atestada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Eleições

Investigado por: 2022-01-21

Vídeo engana ao dizer que Facebook restringiu compartilhamento de conteúdo pró-Bolsonaro

  • Enganoso
Enganoso
É enganoso vídeo em que um homem alega que o Facebook não permite o compartilhamento de uma gravação que mostra o presidente Jair Bolsonaro (PL) no Pará. A visita ocorreu em agosto de 2020 e a imagem mostra o presidente sendo recebido por um grupo de apoiadores. O autor do vídeo, que circula no TikTok e no próprio Facebook, acusa a empresa americana de boicote. No entanto, a publicação tem a visualização limitada para os usuários que são amigos do responsável por postar as imagens do presidente no Facebook. Isso inviabiliza o compartilhamento e não há o suposto boicote.
  • Conteúdo verificado: Um vídeo no qual um homem alega que o Facebook não permite o compartilhamento de uma gravação mostrando o presidente Jair Bolsonaro (PL) em uma visita a Belém do Pará. No vídeo, o homem filma a tela de um celular e mostra uma publicação na linha do tempo do Facebook sem o botão de compartilhamento. O conteúdo circula no TikTok.

É enganosa a afirmação feita em vídeo que viralizou no TikTok, em que o autor diz que o Facebook censurou o compartilhamento de imagens que mostram o presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), cumprimentando apoiadores durante uma visita a Belém do Pará no dia 13 de agosto de 2020. O vídeo segue circulando nas redes sociais até hoje.

O autor grava a tela de um celular e mostra um vídeo publicado na linha do tempo do Facebook, destacando que não há botão de compartilhamento. Então, ele copia o link da publicação, afirmando que esta é uma outra forma de divulgar a postagem. Neste ponto, é possível perceber – por causa dos ícones que aparecem abaixo do nome dos donos dos perfis – que o vídeo que o autor tenta compartilhar foi publicado de forma restrita a amigos (por isso, a ausência da opção direta de compartilhamento).

Em seguida, ainda gravando a tela do celular, ele mostra ter compartilhado a postagem (de forma pública, modalidade que confere acesso a todos os usuários do Facebook) usando o link para o conteúdo. Então, o autor grava a tela de outro celular, que estaria, supostamente, logado no perfil do Facebook de sua esposa, e diz que não consegue abrir o mesmo conteúdo neste aparelho.

Vale lembrar que o vídeo compartilhado estava disponível apenas para amigos do responsável pela primeira publicação. Ou seja, não estará disponível caso pessoas que não estejam nesta lista tentem clicar.

No vídeo, é possível ver apenas a mão do autor e ouvir sua voz. Além disso, a imagem não permite confirmar que o link do vídeo compartilhado em seu celular é o mesmo que ele tenta abrir no aparelho da suposta esposa.

Pela imagem, não é possível ter certeza sobre quais perfis são responsáveis pelas postagens. A equipe entrou em contato com páginas semelhantes (nome e foto) às que aparecem no vídeo, mas os donos não responderam ou afirmaram não conhecer o conteúdo. Em nota, o Facebook informou que o vídeo da visita de Bolsonaro ao Pará está disponível na rede social e pode ser compartilhado.

Para o Comprova, enganoso é todo conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Inicialmente, a equipe do Comprova tentou localizar a publicação citada pelo autor do vídeo no Facebook. Isso foi feito por meio de busca na própria rede social e também escrevendo a URL que aparece na filmagem. No entanto, por causa da falta de qualidade da imagem, a URL não está completamente legível.

No vídeo é possível ver o nome de três pessoas — autor do vídeo, sua esposa e a pessoa que fez a publicação original. O Comprova tentou localizar as três.

Na sequência, a equipe analisou o vídeo e conferiu o que diz a Política de Conteúdo da rede social para verificar quando uma publicação pode ter o compartilhamento limitado.

Outra ação foi compartilhar uma publicação no Facebook para verificar se algo semelhante ao mostrado no vídeo acontece.

A equipe também questionou o Facebook sobre a publicação citada no vídeo. Em paralelo, confirmou com base na agenda oficial e em imagens publicadas por veículos de imprensa (aqui) que o presidente Jair Bolsonaro de fato esteve no Pará na data citada.

Verificação

O vídeo

Na gravação aqui verificada, é possível identificar no Facebook algumas informações da publicação original do vídeo em que Bolsonaro aparece. A postagem contém, por exemplo, a legenda “Chupa Petralhas e Globolixo… O Mito em Belém”. O Comprova tentou localizar o conteúdo por meio da busca pela palavra “Globolixo” no perfil identificado pela equipe como possível responsável pela publicação e também escrevendo o que parece ser a URL que aparece na filmagem, mas não encontrou nenhum resultado. A URL, inclusive, não está completamente legível.

Seleção de público

A postagem inicial que divulga a filmagem do presidente está com o marcador “seus amigos”, identificado pelo ícone de duas figuras humanas em preto (veja abaixo). Isso significa que a publicação só está disponível para ser compartilhada por pessoas que estão adicionadas na rede do perfil responsável pelo post.

Depois de mostrar a publicação sem a opção do botão compartilhar, o autor do vídeo aqui verificado exibe a postagem anterior feita pelo perfil que divulgou a gravação de Bolsonaro no Pará. Esta, ao contrário da filmagem do presidente, mostra a opção de compartilhamento porque está com o marcador “público”, identificado pelo ícone de um globo terrestre, significando estar disponível para qualquer pessoa dentro ou fora do Facebook.

| A publicação original do vídeo tem visualização restrita aos amigos do usuário. Já o compartilhamento, feito pelo autor do vídeo, tem permissão de visualização para todos.

Publicações diferentes

Sem a opção de compartilhar o vídeo de Bolsonaro diretamente, o autor opta por copiar o link da publicação original e postar em sua timeline. Ao fazer isso, o homem mostra o post com o link e o marcador “público”. O Comprova tentou encontrar a postagem pela URL, mas ela não estava completamente legível por causa da qualidade do vídeo.

Em seguida, o autor desbloqueia o segundo celular — também com sistema operacional Android — e abre a conta do Facebook da suposta esposa. O homem então expõe uma publicação diferente daquela mostrada no primeiro aparelho.

Essa segunda postagem é uma publicação feita pelo autor do vídeo na timeline da esposa, e não um compartilhamento de vídeo em seu próprio perfil. É possível ver que o marcador desta segunda publicação é o de “seus amigos”, limitando assim quem pode ter acesso ao conteúdo.

Além disso, essas duas postagens, que o homem cita como sendo a mesma, têm horários de publicação diferentes. A primeira é mostrada como compartilhada há quatro minutos. Já a segunda, na timeline da esposa, foi publicada 12 minutos antes da gravação dele.

| As publicações têm horários diferentes. Na imagem da esquerda, o conteúdo aparece como publicado há 4 minutos. Já a da direita, aparece como publicada há 12 minutos.

Sendo assim, não é possível afirmar que o conteúdo que o homem mostra no celular da esposa é de fato o vídeo de Bolsonaro no Pará.

O Comprova também fez um teste de compartilhamento público no Facebook de um outro vídeo da visita de Bolsonaro ao Pará na mesma data e não encontrou obstáculos para finalizar o processo ou visualizar a postagem.

Os perfis

No vídeo são reconhecidos nomes de três pessoas: o autor do vídeo aqui verificado, sua suposta esposa e a pessoa que fez a publicação original. Fazendo uma busca na rede social, o Comprova localizou perfis de pessoas com os mesmos nomes e fotos semelhantes às que aparecem no vídeo, mas não é possível confirmar que são as mesmas páginas que aparecem no conteúdo aqui verificado.

A equipe entrou em contato com os perfis encontrados, mas os donos das páginas não responderam ou afirmaram não conhecer o conteúdo.

O que diz o Facebook

Procurado pelo Comprova, o Facebook afirmou que um vídeo do presidente Bolsonaro em Belém do Pará está disponível e pode ser compartilhado na rede.

A postagem a que a rede se refere é de outro perfil, este não mencionado no vídeo do TikTok. A data de publicação é do dia 13 de agosto de 2020.

Questionado sobre a publicação citada no vídeo do TikTok, a empresa americana afirmou que, por questões de privacidade, não poderia comentar ou dar detalhes. Ou seja, não é possível dizer se a postagem original do vídeo em que Bolsonaro aparece foi deletada pelo perfil responsável, se está restrita a amigos ou se o Facebook a removeu por alguma razão.

Bolsonaro no Pará

O presidente Bolsonaro de fato esteve em Belém do Pará no dia 13 de agosto de 2020. Ele participou da inauguração do Parque Urbano Belém Porto Futuro e aparece discursando em um vídeo publicado no canal do Poder 360 no YouTube. A visita também consta na agenda oficial do presidente e reportagem publicada pelo portal G1 Pará registrou a passagem do presidente pelo estado.

Limitação de conteúdo no Facebook

O Facebook tem uma série de regras a respeito da limitação de conteúdos que circulam na rede social. De acordo com os “Padrões da Comunidade”, as publicações que podem sofrer limitação devem se enquadrar em uma das seguintes categorias: conteúdos que não são permitidos; que requerem mais informação ou contexto para a tomada de providências (que passam a conter um aviso); ou que são permitidos, mas apenas maiores de 18 anos de idade podem vê-los.

Segundo a política do Facebook, conteúdos podem violar as normas da rede social se inseridos em cinco principais temas: violência e comportamento criminoso; segurança; conteúdo questionável; integridade e autenticidade, e respeito à propriedade intelectual.

Caso o conteúdo publicado na rede se enquadre em uma dessas violações, o Facebook toma providências, que, a depender do caso, podem ser: remoção do conteúdo; contabilização de advertências; restrição da conta; restrição da conta de uma figura pública durante agitações civis; desativação da conta e remoção de página e/ou grupo.

Nas regras da rede, no entanto, não há menção à uma restrição somente do compartilhamento de conteúdo.

Por que investigamos?

O Comprova tem o compromisso de investigar conteúdos suspeitos que tenham viralizado na internet sobre pandemia, políticas públicas e eleições. Neste caso, o post teve mais de 10,1 mil interações no TikTok, entre curtidas e comentários. Além disso, o conteúdo foi compartilhado 3,2 mil vezes para outras redes sociais e aplicativos de mensagens como Twitter, Facebook e WhatsApp.

Jair Bolsonaro é pré-candidato à reeleição. Publicações enganosas relacionadas a política prejudicam a democracia. Os eleitores não devem tomar decisões sobre em quem votar com base em conteúdo de desinformação.

O Comprova também verificou outras postagens relacionadas à eleição, como sobre uma enquete popular que não oficializou Bolsonaro como Personalidade do Ano da Time e outra sobre o caso de músicos que não ofenderam Lula ao recebê-lo em uma instituição francesa.

Para o Comprova, enganoso é conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.