O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a golpes e fraudes virtuais.
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Política

Investigado por: 28/11/2025

Escritório da mulher de Moraes foi contratado pelo Banco Master, mas não há indícios de envolvimento em fraude financeira

Política
Post viral também desinforma ao dizer que ministro teria tirado do ar publicações mencionando Viviane Barci de Moraes.

Não é verdade que Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, tenha envolvimento no escândalo do Banco Master, ou que o magistrado tenha mandado derrubar posts associando o nome da esposa ao da instituição financeira, como alega um perfil no Instagram.

O escritório de advocacia Barci de Moraes, onde atuam Viviane e dois filhos do casal, como publicou O Globo em abril deste ano, foi contratado pelo banco para representá-lo judicialmente. “De acordo com fontes ligadas ao banco, Viviane representa o Master em algumas poucas ações”, diz a reportagem.

O fato de ela ser advogada da instituição não significa que tenha envolvimento no escândalo envolvendo o Master, liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro, após a Polícia Federal deflagrar a Operação Compliance Zero, com o objetivo de “combater a emissão de títulos de crédito falsos por instituições financeiras que integram o Sistema Financeiro Nacional”.

O dono e presidente do Master, Daniel Vorcaro, foi preso em 17 de novembro, e o caso deve ser a maior operação de resgate da história do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), com indenizações aos clientes do Master que chegam a R$ 41 bilhões.

Além de o post desinformar ao afirmar que Viviane teria relação com o escândalo, ele também mente ao dizer que Moraes mandou tirar do ar publicações mencionando sua mulher e o banco. Uma busca simples no Google, que pode ser feita por qualquer pessoa, pelo nome de Viviane e do Master, traz como resultado diversas publicações nas principais plataformas sociais e YouTube – muitas com a mesma desinformação do post verificado aqui, de que ela teria envolvimento na fraude.

O Comprova pesquisou no site do STF e encontrou 31 processos em que Viviane consta como uma das advogadas, mas em nenhum deles foi identificada uma ligação direta com o Master.

A reportagem consultou o STF, que afirmou “não ter informação, até o momento” sobre qualquer pedido de Moraes para tirar posts relacionados ao caso de circulação.

A Polícia Federal e o Banco Central também foram contatados, mas não responderam até a publicação deste texto.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O post verificado aqui foi publicado por um perfil no Instagram com 263 mil seguidores, alinhado à direita. A página publica conteúdos contrários a figuras como Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin, além de, como já afirmado acima, repreender Moraes.

Muitos posts são favoráveis a Bolsonaro e seus filhos e alguns trazem vídeos do guru do bolsonarismo Olavo de Carvalho, morto em 2022.

O Comprova tentou contato com o perfil, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação verificada se aproveita do viés de confirmação, quando torna-se mais fácil a pessoa não duvidar de algo em que ela já acredita. Pessoas que são contra as medidas de Alexandre de Moraes têm mais facilidade para não questionar o conteúdo que o mostra supostamente adotando uma medida judicial em favor da sua família.

O viés de confirmação também é reforçado na legenda do post, em que o autor escreve “Entenda a razão pela qual prenderam Bolsonaro!”, sugerindo que a ação de Moraes seria para encobrir a suposta ligação de Viviane com o Master. É possível ver isso a partir de comentários falando em “cortina de fumaça” e “O povo já sabe da roubalheira da esposa dele, não adianta esconder“.

A afirmação de que Bolsonaro teria sido preso para desviar o foco do suposto envolvimento de Viviane no caso do Master viralizou em post do aliado do ex-presidente e pastor Silas Malafaia de 23 de novembro, antes da publicação verificada aqui.

Além disso, a postagem imita a identidade visual de um veículo de informações para conferir credibilidade ao boato, mas não cita a fonte ou a origem das informações.

Fontes que consultamos: Site do governo federal, do Banco Central e do STF, diferentes redes sociais como Instagram, Facebook e TikTok e reportagens sobre o tema.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais, e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Neste ano mesmo, o Comprova verificou outro post dizendo enganosamente que Moraes teria censurado posts nas redes sociais. O ministro é alvo frequente dos desinformadores, que já inventaram que ele teria sido condenado pela Justiça dos Estados Unidos e que ele teria ordenado a troca de urnas na cidade de São Paulo para favorecer candidato da esquerda.

Comprova Explica

Investigado por: 27/11/2025

Novo mecanismo do Pix reforça combate a golpes e não afeta sigilo ou rotina dos usuários

Comprova Explica
MED 2.0 rastreia apenas transações suspeitas após a contestação da vítima e não tem relação com a Receita Federal, o monitoramento fiscal ou a criação de impostos.

Conteúdo analisado: O Comprova analisou publicações no X que alegam que “toda e qualquer transação” realizada via Pix passará a ser rastreada pelo Banco Central. Uma dessas postagens é um vídeo da GloboNews, editado por um perfil de notícias, de direita, com 430 mil seguidores, no qual a comentarista Rosana Cerqueira afirma, de fato, que “toda e qualquer transferência via Pix será monitorada”. No telejornal, porém, a frase aparece em uma explicação sobre golpes e o funcionamento do Mecanismo Especial de Devolução (MED 2.0), que prevê o acompanhamento do caminho do dinheiro apenas após uma contestação formal da vítima.

O recorte viral, porém, retira o trecho do contexto original, que era exclusivamente sobre fraudes já em andamento e sobre o rastreamento limitado ao caso denunciado, e o apresenta como se o Banco Central fosse monitorar todas as operações do Pix de maneira permanente. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL) compartilhou o material editado e escreveu que “um tal de Nikolas aí então tinha razão”, sugerindo que as mudanças anunciadas agora confirmam o que ele afirmou em um vídeo gravado em janeiro de 2025, quando a Receita Federal publicou a Instrução Normativa nº 2.219/2024.

Comprova Explica: Publicações voltaram a associar o Pix à ideia de vigilância fiscal e de cobrança de impostos, repetindo argumentos já desmentidos no início do ano. Por isso, este Comprova Explica se concentra em responder quatro perguntas centrais: o que foi a norma da Receita que gerou polêmica em janeiro; o que Nikolas disse na época; o que está mudando agora com o Banco Central; e se é correto afirmar que o anúncio atual confirma as previsões do deputado.

O que foi a Instrução Normativa e o que ela mudava em relação ao Pix?

A Instrução Normativa nº 2.219/2024 foi publicada pela Receita Federal em setembro de 2024 e entrou em vigor em 1º de janeiro de 2025. O texto tinha como objetivo atualizar a chamada e-Financeira, sistema pelo qual instituições financeiras e de pagamento enviam, desde os anos 2000, informações consolidadas sobre operações de seus clientes para fins de prevenção a crimes financeiros, como lavagem de dinheiro.

Na prática, a norma ampliava o grupo de instituições obrigadas a prestar essas informações, incluindo bancos digitais, operadoras de cartão, carteiras eletrônicas e empresas que processam pagamentos, além de ajustar os valores mínimos que passariam a ser comunicados. Para pessoas físicas, seriam enviados à Receita apenas os valores totais movimentados no mês quando o montante superasse cinco mil reais; para pessoas jurídicas, a comunicação ocorreria a partir de quinze mil reais mensais.

Esses dados seriam sempre agregados, informados em forma de valores globais por cliente, sem identificação de cada transferência. O texto mantinha a proibição de incluir qualquer informação que indicasse a origem ou o destino dos recursos, como nomes, CPFs ou detalhes de transações específicas. Em entrevistas à época, a Receita Federal e especialistas ouvidos por veículos como o Estadão reafirmaram que a instrução não criava imposto, não taxava o Pix, não alterava o funcionamento do sistema de pagamento e não rompia o sigilo bancário.

Mesmo assim, o conteúdo da norma foi interpretado nas redes como uma tentativa de monitorar diariamente as movimentações dos usuários do Pix e de pavimentar uma suposta taxação sobre transferências. Diante da repercussão, o governo revogou a instrução em 15 de janeiro de 2025. Com isso, voltaram a valer as regras anteriores, mais restritas, que já previam o envio de informações consolidadas apenas por bancos tradicionais, com limites mais baixos, mas sem qualquer acesso individualizado a extratos ou a detalhes de Pix.

Em agosto, a Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal em parceria com o Ministério Público de São Paulo, revelou como o crime organizado utilizou brechas na fiscalização para lavar dinheiro ilícito por meio de fundos de investimento em fintechs. Com isso, a Receita voltou a ampliar o dever de informar transferências. A medida está em vigor atualmente.

O que Nikolas Ferreira afirmou em janeiro de 2025?

No vídeo publicado em suas redes no início de janeiro, Nikolas Ferreira afirmou que o “governo Lula vai monitorar seus gastos com cartão de crédito e Pix” e que qualquer pessoa que movimentasse mais de R$ 5 mil por mês passaria a “entrar na mira da Receita”. Ele citou exemplos de trabalhadores informais, como ambulantes, motoristas de aplicativo e entregadores, e disse que essas pessoas seriam tratadas como “grandes sonegadores”.

O deputado também sugeriu que a medida abriria caminho para a taxação do Pix, que haveria quebra de sigilo bancário e que microempreendedores individuais poderiam ser obrigados a pagar alíquotas de até 27,5% de Imposto de Renda, o que tornaria “impossível sobreviver”. Em outro trecho, afirmou que o objetivo das mudanças seria “arrecadar mais impostos” e que, diante da fiscalização, muitos brasileiros voltariam a usar apenas dinheiro vivo para não serem vigiados pelo governo.

À época, o Estadão Verifica classificou o vídeo como enganoso. A checagem destacou que a instrução da Receita não criava nenhum tributo, não permitia identificar remetentes e destinatários de Pix, não eliminava o sigilo bancário e não determinava, por si só, mudanças na forma como a Receita analisa obrigações de Imposto de Renda de pessoas físicas ou de microempreendedores. A confusão entre envio de dados agregados para fins de monitoramento de crimes financeiros e vigilância individual de usuários contribuiu para a polêmica que acabou levando à revogação da norma. Contatado por e-mail, o deputado não respondeu ao Comprova até a publicação deste Explica.

O que está mudando agora no Banco Central e o que é o MED 2.0?

O vídeo da comentarista Rosana Cerqueira, utilizado na postagem do deputado, não se referia à medida da Receita. Rosana falava da resolução BCB nº 493 e de um anúncio do Banco Central, divulgado em agosto de 2025, sobre o aprimoramento do Mecanismo Especial de Devolução do Pix, o MED. Criado para permitir a devolução de valores em casos de fraude ou falha operacional, o mecanismo ganhou uma nova versão, chamada MED 2.0, detalhada em nota à imprensa e em documentos técnicos do BC.

Pelo MED atual, os bancos já podem bloquear a conta que recebeu o Pix fraudulento, mas enfrentam dificuldade quando o dinheiro é rapidamente transferido para outras contas — estratégia comum entre golpistas, que usam várias camadas de “contas de passagem” para dificultar o retorno do valor original. O MED 2.0 cria um circuito obrigatório de rastreamento entre todas as instituições participantes do Pix, permitindo que, após a vítima registrar a contestação no aplicativo do banco, seja possível reconstruir o caminho do dinheiro, identificar contas usadas no golpe e tentar bloquear saldos remanescentes. Esse rastreamento só ocorre após a vítima acionar formalmente o mecanismo. O Banco Central não passa a monitorar transações rotineiras nem tem acesso à movimentação de usuários fora desses casos de fraude.

Em resposta por e-mail ao Comprova, o BC afirmou que o MED 2.0 “não altera o sigilo bancário”, “não modifica o funcionamento cotidiano do Pix” e “não tem qualquer relação com fiscalização tributária, Receita Federal ou cobrança de impostos”. O órgão esclareceu que o sistema serve exclusivamente para combater golpes, aumentar as chances de recuperação de valores e desestimular a atuação de criminosos que se aproveitam da velocidade do Pix. A implementação começa de forma facultativa em novembro de 2025 e se torna obrigatória para todas as instituições do Pix em fevereiro de 2026.

Como o vídeo da GloboNews foi usado para sustentar a ideia de que “toda transação será monitorada”, o Comprova transcreve abaixo o trecho completo da fala exibida no telejornal, para que o leitor possa verificar o contexto original:

“Por exemplo, neste caso, a pessoa faz uma compra nas redes sociais, na internet, paga pelo Pix, mas não recebe o produto e nunca mais consegue falar com a empresa. Neste caso, o dinheiro do Pix fica muito pouco tempo na conta bancária que recebe o Pix. Aí vem o golpe. Quando a pessoa pede a devolução no aplicativo do banco, o dinheiro já foi transferido para outra conta.”

No telejornal, Rosana descrevia exclusivamente o funcionamento do MED após um golpe ser reportado, e não o monitoramento permanente do Pix. O recorte que viralizou omite essa explicação e apresenta a frase como se se referisse ao uso comum do Pix, distorcendo o sentido da reportagem e dando a entender que todas as operações passariam a ser rastreadas, o que não corresponde ao texto da resolução, à nota oficial do BC ou ao funcionamento real do MED 2.0.

Há relação jurídica ou operacional entre a instrução da Receita e o mecanismo antifraude do Banco Central?

Para esclarecer as diferenças entre as duas medidas, o Comprova entrevistou Bruno Barbosa Miragem, professor de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Núcleo de Estudos em Direito e Sistema Financeiro. O especialista afirmou que a instrução da Receita e a resolução do Banco Central tratam de problemas distintos e não têm conexão jurídica ou operacional.

Segundo Miragem, a instrução normativa, revogada e posteriormente reinstaurada, estabelece um dever de reportar ao governo, por meio da e-Financeira, informações agregadas sobre operações financeiras realizadas pelos clientes de instituições como bancos, seguradoras, operadoras de planos de previdência, fintechs e empresas de pagamento. A finalidade é permitir que o Estado acompanhe movimentações globais e identifique possíveis crimes financeiros cometidos pelos próprios usuários do sistema.

Já a nova resolução do Banco Central impõe às instituições financeiras e de pagamento um conjunto de deveres internos de monitoramento e de bloqueio de operações atípicas no âmbito do sistema de pagamento instantâneo, em especial o Pix. O objetivo é proteger os usuários de golpes e fraudes, evitando que sejam vítimas, exigindo que os bancos identifiquem padrões suspeitos, emitam alertas aos clientes e, em determinados casos, impeçam a conclusão de transferências arriscadas. Esse monitoramento é realizado nas instituições financeiras e não implica o envio de novas informações a órgãos de fiscalização.

“Isso (as declarações de Nikolas Ferreira) é absolutamente incorreto. São medidas com finalidades diferentes e procedimentos completamente distintos. Em síntese, a instrução normativa da Receita Federal, revogada, buscava prevenir e investigar crimes que podem ser cometidos pelos usuários do sistema financeiro, por seu intermédio, daí pretendendo dar conhecimento aos órgãos de Estado sobre as operações financeiras realizadas. A resolução do Banco Central visa proteger esses mesmos usuários de golpes e fraudes em expansão, impondo às instituições financeiras e de pagamento deveres de monitorar e prevenir essas operações internamente, sem necessidade de reportar novas informações a órgãos de fiscalização”, disse o professor.

As mudanças atuais significam que todas as transações via Pix serão rastreadas?

De acordo com o Banco Central, não. O órgão enfatizou, em resposta ao Comprova, que o MED 2.0 parte sempre de uma contestação feita pela vítima e que o rastreamento ocorre apenas nas transações suspeitas relacionadas a esse episódio. Não há monitoramento preventivo de todas as operações, nem acesso automático às informações sobre quem paga e quem recebe em cada Pix.

Isso significa que o usuário que utiliza o Pix no dia a dia, para pagar contas, transferir dinheiro a familiares ou receber o salário, não passa a ter suas transações acompanhadas pelo Banco Central devido ao novo mecanismo. O que muda é a chance de recuperar valores quando a pessoa cai em um golpe e aciona o sistema pelas vias oficiais.

As mudanças criam imposto ou abrem caminho para a tributação do Pix?

A Constituição Federal veda a cobrança de tributos sobre movimentações financeiras, e qualquer alteração nesse sentido exigiria uma emenda constitucional. Em janeiro, a própria Receita Federal chegou a divulgar uma nota afirmando que “não cobra e jamais vai cobrar impostos sobre transações feitas via Pix”. Agora, o Banco Central esclareceu que o MED 2.0 não tem nenhuma relação com a tributação, com a Receita ou com o monitoramento fiscal de pessoas físicas e jurídicas.

Ao associar o anúncio do mecanismo antifraude a um suposto plano de taxar o Pix ou de vigiar todas as transações, as publicações misturam informações de momentos distintos e atribuem à medida um alcance que ela não tem, segundo as respostas oficiais e a análise dos especialistas consultados.

Por que as pessoas podem ter acreditado?

A publicação analisada utiliza uma tática comum em casos de desinformação política: tirar eventos de contexto, isto é, usar fatos novos para dar a impressão de que previsões já refutadas teriam se concretizado. No caso, o deputado relaciona o anúncio do mecanismo antifraude do Pix (MED 2.0), feito pelo Banco Central, a uma instrução normativa da Receita Federal que já havia sido revogada, sugerindo que a previsão de “monitoramento e taxação do Pix” teria se confirmado. Isso constitui uma falsa equivalência: as medidas são de órgãos diferentes, têm propósitos distintos (um voltado à segurança contra fraudes, outro à fiscalização tributária) e não há relação operacional entre si.

Além disso, há manipulação emocional ao insinuar que o governo está ampliando a vigilância sobre o cidadão comum, apelando ao medo de perda de privacidade e ao receio de ser taxado injustamente. Tal narrativa, reforçada por cortes de vídeo e legendas sensacionalistas produzidas por perfis desinformativos, explora o viés de confirmação em públicos já desconfiados do governo ou críticos às políticas fiscais. A tática busca consolidar uma imagem de coerência e de “antevisão dos fatos” por parte do político, mesmo que os dados oficiais e os especialistas refutem essa interpretação.

Fontes consultadas: O Comprova consultou documentos oficiais, entrevistas com especialistas e checagens já publicadas por outros veículos. Entre as fontes, estão a Instrução Normativa nº 2.219/2024 e a nota da Receita Federal sobre sua revogação; a resolução BCB Nº 493, a nota do Banco Central “BC aprimora o Mecanismo Especial de Devolução do Pix”, de 28 de agosto de 2025, e os documentos técnicos do MED 2.0 disponibilizados no site da instituição (1, 2 e 3); entrevista com Bruno Barbosa Miragem, professor da UFRGS e integrante do Núcleo de Estudos em Direito e Sistema Financeiro e a checagem do Estadão Verifica sobre o vídeo de Nikolas Ferreira publicado em janeiro.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está gerando muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já verificou outros conteúdos que exploravam desinformação sobre o Pix. Em setembro de 2025, o projeto explicou que uma norma direcionada a fintechs não criava imposto e apenas igualava obrigações já existentes para bancos tradicionais. Em julho, analisou rumores de que Donald Trump pretendia “taxar o Pix”. O Estadão Verifica também já checou o vídeo publicado por Nikolas Ferreira em janeiro e concluiu que as alegações de monitoramento individual, taxação do Pix e quebra de sigilo bancário eram enganosas.

Golpes virtuais

Investigado por: 27/11/2025

Como se proteger de golpes em sites fraudulentos

Golpes virtuais
Golpes virtuais dispararam com o uso de inteligência artificial, deepfakes e sites falsos altamente sofisticados. Com a chegada da Black Friday, eles tendem a se intensificar.

GOLPES VIRTUAIS

As fraudes em compras online atingiram um nível crítico em 2025. Dados da Serasa Experian mostram que as tentativas de golpe cresceram 22,9% no primeiro trimestre do ano em comparação com o mesmo período de 2024, o que reflete uma escalada preocupante. Segundo Thiago Guedes Pereira, CEO e fundador da DeServ Academy e da DeServ Segurança da Informação, esse avanço tem sido impulsionado pelo uso de inteligência artificial para criar sites falsos, deepfakes e campanhas enganosas em larga escala.

Como os golpistas abordam as pessoas

Golpistas que atuam em golpes de compras online costumam iniciar o contato por meio de técnicas de engenharia social. A estratégia consiste em criar situações que pressionam o usuário a agir rapidamente sem verificar a legitimidade da oferta. Links maliciosos frequentemente aparecem em anúncios patrocinados em redes sociais como Instagram, Facebook, em buscadores como o Google, além de mensagens enviadas por WhatsApp, SMS ou e-mail que imitam grandes varejistas, bancos e transportadoras. Outra tática crescente é o uso de deepfakes, vídeos e áudios criados com inteligência artificial para conferir credibilidade a promoções falsas que usam a imagem ou a voz de pessoas famosas.

| Exemplo de páginas e anúncios falsos usados por golpistas para enganar consumidores (Reprodução)

 

Que táticas eles usam para chamar a atenção

Os golpes online têm se tornado cada vez mais sofisticados ao explorar a pressa, a emoção e a distração do consumidor. Uma das estratégias mais comuns é o uso de ofertas com descontos muito acima do normal, como 70% ou 80%, com o objetivo de induzir compras impulsivas. Para reforçar essa sensação de urgência, os golpistas utilizam contadores regressivos, alertas de “últimas unidades” e mensagens que pressionam o usuário a agir rapidamente, reduzindo sua capacidade de análise.

Outra tática recorrente é a clonagem de sites. Criminosos criam páginas quase idênticas às de lojas confiáveis, alterando pequenos detalhes do endereço (URL), como a troca de letras, erros sutis de digitação ou o uso de domínios incomuns, como .shop, .live e .app. Essas alterações passam despercebidas para muitos consumidores. Além disso, essas páginas fraudulentas geralmente limitam as opções de pagamento a Pix ou boleto, pois esses métodos não permitem contestação após a transferência, o que facilita o golpe.

Alguns fraudadores também recorrem a tecnologias avançadas, como deepfakes e clonagem de voz, para simular familiares, amigos ou influenciadores recomendando ofertas inexistentes ou solicitando pagamentos urgentes.

Para se proteger, é fundamental observar sinais de alerta críticos. O primeiro é a URL suspeita: verificar letra por letra, buscando erros de digitação, letras trocadas ou duplicadas e domínios estranhos que fogem do padrão das lojas oficiais. Outro ponto essencial é a segurança do site: páginas legítimas utilizam “https://” e exibem o cadeado na barra de endereços; se esses elementos estiverem ausentes, há risco elevado de fraude.

Preços irrealisticamente baixos também devem levantar suspeita, sobretudo quando ultrapassam 70% ou 80% de desconto, ou estão muito abaixo do valor praticado no mercado. Comparar com outras lojas confiáveis é uma maneira simples de validar a oferta. Além disso, sites sérios sempre exibem informações obrigatórias no rodapé, como CNPJ ou CPF (em caso de MEI), razão social, endereço físico, telefone de atendimento e canais reais de contato. A ausência desses dados costuma indicar falta de credibilidade.

Qual é o objetivo do golpe

Golpes que prometem dinheiro rápido ou recompensas via Pix geralmente capturam dados das vítimas por meio de cadastros ou formulários falsos. Os golpistas criam páginas que imitam sites oficiais e pedem informações como nome, CPF, endereço, telefone e até dados bancários. Ao preencher esses formulários, a vítima fornece dados suficientes para que os criminosos abram contas digitais fraudulentas, solicitem empréstimos, realizem compras indevidas ou até vendam essas informações na dark web.

Além dos formulários, alguns sites maliciosos capturam automaticamente o que a pessoa digita. Mesmo antes de concluir um cadastro, o sistema pode registrar dados de pagamento, informações do navegador, localização aproximada e características do aparelho utilizado. Em golpes mais sofisticados, tudo digitado no site pode ser registrado sem que a vítima perceba.

Em golpes relacionados ao Pix, muitas vezes não é necessário que a pessoa forneça dados bancários completos. Os criminosos criam chaves ou QR Codes falsos e induzem a vítima a fazer um pagamento com a promessa de liberar um valor maior depois, o que nunca acontece. Esses sites costumam ficar no ar apenas por poucos dias, justamente para evitar rastreamento e denúncias

Como se proteger

Para evitar golpes digitais, além de tudo o que já foi dito, a pessoa pode adotar alguns cuidados práticos. Um deles é sempre desconfiar de qualquer oferta com preços muito abaixo do valor de mercado, pois esse tipo de apelo emocional é uma das ferramentas mais usadas por golpistas. Também é importante nunca clicar em links recebidos de desconhecidos e ter muito cuidado quando o link vem de alguém conhecido, já que contas invadidas podem enviar mensagens suspeitas. Ativar a verificação em duas etapas nas principais contas (como WhatsApp, Instagram, e-mail e serviços bancários) ajuda bastante, porque mesmo que alguém descubra a senha, não consegue entrar sem o segundo código.

Outro ponto importante é evitar pesquisar o nome de lojas no Google ou em outros buscadores, já que golpistas compram anúncios com nomes semelhantes aos de empresas reais. É mais seguro digitar o endereço diretamente ou usar o aplicativo oficial. Também vale observar se o site está usando HTTPS, o que aparece como um cadeado ao lado do endereço. Ter HTTPS não garante que um site seja confiável, mas a ausência dele é um sinal claro de que nele não é seguro.

Sobre deepfakes e propagandas falsas com celebridades, a melhor forma de verificar se um famoso realmente fez uma divulgação é ir diretamente às redes oficiais dele. Celebridades normalmente publicam parcerias em seus perfis verificados; se não houver nada lá, a probabilidade de ser falso é muito alta. Também é útil verificar se outras páginas confiáveis de notícias ou de entretenimento mencionam a parceria. Quando apenas um anúncio aleatório aparece nas redes sociais, sem nenhuma confirmação oficial, é quase certo que foi criado sem autorização. Detalhes estranhos em vídeos, como a boca se movendo fora de sincronia, sombras que não combinam ou uma voz com som “plástico”, também são sinais de deepfake. Outra forma de conferir é abrir o perfil do anunciante: golpistas costumam usar páginas recém-criadas, com poucos seguidores e sem histórico.

Quanto ao CNPJ, para pesquisá-lo, a pessoa pode acessar o site da Receita Federal e consultar gratuitamente. Lá é possível verificar se o CNPJ existe, se está ativo e quais são os dados reais da empresa, como o nome oficial e o endereço. Se algo estiver diferente do que aparece no site da loja, é um alerta de golpe. Também é possível procurar o nome da empresa em plataformas como Reclame Aqui e consumidor.gov.br para ver experiências de outras pessoas.

Por fim, o domínio é o “nome” de um site na internet, aquilo que aparece antes do “.com”, “.com.br”, “.org” e assim por diante. Em “www.lojaexemplo.com.br”, o domínio é “lojaexemplo.com.br”. Funciona como o endereço de uma casa: se você digita o endereço errado, vai parar em outro lugar, e é justamente isso que muitos golpistas tentam explorar criando endereços muito parecidos com os verdadeiros. Por isso, é essencial prestar atenção às letras trocadas, números em lugar de letras ou extensões diferentes, porque uma loja legítima poderia usar “.com.br” e o golpista poderia criar “.shop” ou “.store”, por exemplo, para imitar.

A quem denunciar

Vítimas de golpes devem registrar um boletim de ocorrência na Delegacia Virtual do estado, que possui validade legal. Em casos envolvendo compras ou relações de consumo, o Procon pode ser acionado, assim como a plataforma consumidor.gov.br, que permite registrar reclamações diretamente junto às empresas participantes. A Polícia Federal, por meio do Comunica PF, recebe denúncias de golpes de alcance interestadual ou de crimes cibernéticos. Em fraudes financeiras, é importante comunicar imediatamente a instituição bancária e registrar a reclamação no Banco Central, por meio do serviço de demandas do órgão, acessível com login gov.br. Sites suspeitos também podem ser denunciados ao Google Safe Browsing, para serem rapidamente bloqueados, e publicações em plataformas como o Reclame Aqui ajudam a alertar outros consumidores.

Para fazer esses registros, a vítima deve reunir o máximo possível de informações. Dados pessoais, como nome completo, CPF, RG, endereço, telefone e e-mail, são necessários para formalizar o boletim de ocorrência, assim como os dados da conta bancária de origem, quando houver transferência. Também é importante descrever detalhadamente como o golpe ocorreu, informando a data, o horário, o canal utilizado (WhatsApp, ligação, site, redes sociais), o tipo de golpe e como o criminoso se apresentou. Comprovantes e registros são fundamentais para a investigação: prints de conversas, anúncios, perfis, sites, e-mails, áudios, vídeos, links suspeitos, números de telefone e comprovantes de pagamento (PIX, TED, boleto, cartão). Esses elementos ajudam a identificar os criminosos, especialmente números de telefone, chaves PIX, dados bancários do recebedor e URLs utilizadas no golpe.

Também devem ser informados dados financeiros, como o valor perdido, o meio de pagamento, as instituições bancárias envolvidas, os dados ou a chave do recebedor e o identificador da transação, como o E2E ID do PIX, que é especialmente útil para rastrear o fluxo do dinheiro e solicitar o bloqueio cautelar. Qualquer informação sobre o suspeito — nome informado, CNPJ usado, foto de perfil, endereço, placas de veículo ou áudios — também pode auxiliar, mesmo que parte desses dados seja falsa. Em golpes pela internet, informações técnicas, como cabeçalhos completos de e-mails, IPs, domínios e dados de hospedagem, podem ajudar a Polícia Federal em investigações de crimes cibernéticos. Quanto mais dados forem reunidos, maiores serão as chances de identificar os responsáveis e de tentar reaver o valor perdido.

Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais:

O Comprova já explicou diferentes modalidades de golpes digitais, como phishing, engenharia social, clonagem de sites e uso de deepfakes para enganar vítimas. O projeto mostrou como criminosos exploram emoções, senso de urgência e dados pessoais para induzir ações impulsivas, especialmente em situações envolvendo pagamentos por Pix ou ofertas aparentemente vantajosas

O Comprova também revelou como golpistas utilizam vídeos manipulados, biometria falsificada e táticas de engenharia social para burlar sistemas de reconhecimento facial e acessar contas bancárias ou serviços digitais. As verificações apontaram sinais que ajudam a identificar pedidos suspeitos de “validação facial” e destacaram a importância de múltiplas camadas de segurança para evitar esse tipo de fraude.

 

Política

Investigado por: 26/11/2025

Ponte que liga Pará e Tocantins começou a ser construída no governo Bolsonaro

Política
Vídeo nas redes sociais desinforma ao afirmar que Bolsonaro “não conseguiu fazer nada” da construção.

Diferentemente do que alega uma postagem no TikTok, a Ponte de Xambioá, que liga as cidades de Xambioá, no Tocantins, e São Geraldo do Araguaia, no Pará, começou a ser construída em 2020, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — ou seja, a obra não foi completamente realizada no governo Lula (PT). As obras foram concluídas em 2025, e a inauguração da ponte aconteceu em 18 de novembro.

A autorização para início das obras foi assinada ainda em setembro de 2017, no mandato do ex-presidente Michel Temer (MDB). Com a ponte, a expectativa era de grande melhoria na logística da BR-153, principal rota para o escoamento da produção local, caracterizada principalmente pelas atividades da agropecuária, de mineração e serrarias, conforme comunicado do Governo na época.

No entanto, uma das empresas que disputava a licitação conseguiu uma liminar no Supremo Tribunal Federal (STF) que embargou as obras, que só começaram três anos depois, após o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) obter decisão favorável para iniciar a construção.

Então, o governo federal anunciou, em abril de 2020, que assinou novamente a ordem de serviço para começar a construção. Meses depois, em agosto de 2020, o então ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, publicou um vídeo no Facebook mostrando as primeiras estacas da ponte sobre o Rio Araguaia. Já em agosto de 2022, dois anos após o início das construções, como o Comprova publicou em verificação anterior, o DNIT informou que a obra estava 70% executada.

O Comprova também consultou registros do navegador Copernicus, plataforma da União Europeia que monitora o planeta por meio de imagens de satélite e sensores. Elas evidenciam que em setembro de 2019, não havia nenhuma estrutura no Rio Araguaia. Já em dezembro de 2022, último mês do governo de Bolsonaro, a ponte estava em estágio avançado de obras.

 

Além disso, a imagem abaixo da Ponte de Xambioá, registrada em julho de 2022 pelo Google Street View, também indica que a construção estava em andamento.

Outros comunicados do governo federal demonstram o progresso da obra durante o mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em julho de 2023, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência publicou nota afirmando que as construções estavam 87% concluídas. Já em agosto de 2024, segundo o DNIT, a ponte estava 99% pronta. A inauguração aconteceu no último dia 18 de novembro.

O Comprova tentou contato com o governo federal buscando mais informações sobre a construção da ponte, mas não teve retorno.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O perfil em que o conteúdo foi publicado tem 57 mil seguidores e costuma trazer posts favoráveis a Lula e contrários a Bolsonaro e outras figuras da direita brasileira. O autor diz ser nordestino e evangélico e, na descrição de sua página, ele escreve “Eu amo a política mais (sic) odeio a corrupção”.

Em um post com foto de Bolsonaro e os filhos Carlos, Eduardo, Flávio e Renan, ele diz que “eles não trabalham, eles não fazem nada”. Em outro, fala que “a oposição não trabalha” e fica apenas “criticando o governo federal”.

Sobre o post verificado aqui, ele tenta insuflar os seguidores contra Bolsonaro, dizendo que ele não fez nada em seu governo, e a favor de Lula. Na legenda, o autor escreveu “Esse cara é diferenciado, 2026 tmjs (sigla para estamos juntos)”, referindo-se ao presidente e falando em reelegê-lo nas eleições do ano que vem.

Até 25 de novembro, a publicação havia sido compartilhada mais de 22,5 mil vezes e recebido mais de 73,3 mil curtidas. O Comprova tentou entrar em contato com ele, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O post recorre ao viés de confirmação, quando torna-se mais fácil a pessoa não duvidar de algo em que ela já acredita. Pessoas que gostam de Lula e não gostam de Bolsonaro, ao se deparar com um conteúdo que chama o ex-presidente de “imbrochável” e “parasita” e o atual de “presidente de verdade”, têm mais facilidade de não questionar se há desinformação ali. Elas automaticamente aceitam o conteúdo como verdadeiro.

Fontes que consultamos: Comunicados do governo federal [1][2][3][4][5][6][7], publicação do Tarcísio de Freitas no Facebook, registros de satélite da plataforma Copernicus e o Google Maps.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais, e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Como informado acima, o Comprova já verificou outro conteúdo sobre a mesma ponte. Post que viralizou sem julho deste ano dizia o contrário do investigado agora: que Jair Bolsonaro teria construído quase que a ponte inteira e Lula não teria feito nada para finalizar a obra. Em 2023, outros conteúdos semelhantes foram checados e o Comprova concluiu ser falso tanto que a obra teria sido embargada pelo governo Lula quanto que estaria paralisada.

Política

Investigado por: 24/11/2025

Barqueata em Belém foi protesto pacífico por causas climáticas

Política
Manifestantes enviaram recados para Lula, mas, diferentemente do que diz post, ato não representou início de tensão para o presidente.

Diferentemente do que afirma post viral, a barqueata realizada nas águas da Baía do Guajará, em Belém, em 12 de novembro, transcorreu de forma pacífica. O evento, que contou com a participação de mais de 150 embarcações, era programado e marcou a abertura da Cúpula dos Povos, evento paralelo à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30).

O post usa um vídeo verdadeiro do evento, mas exagera ao anunciar uma “treta” envolvendo o presidente Lula (PT). Em um texto de apresentação da barqueata, a Cúpula dos Povos afirmou que seu objetivo era “denunciar falsas soluções climáticas e anunciar que a resposta para um mundo sustentável é o povo das águas, das florestas e das periferias que resiste com suas práticas coletivas, agroecológicas e ancestrais”.

Ao Comprova, a Cúpula dos Povos afirmou que o post é uma “fake news” e que a barqueata, “planejada há mais de um ano”, ocorreu “sem nenhuma intercorrência”. ”A manifestação sobre as águas dos rios amazônicos levou para o mundo mensagens por justiça climática”, disse a organização.

A assessoria da Aliança Chega de Soja, grupo com cerca de 40 organizações unidas contra a expansão da soja na Amazônia e a favor da agroecologia que participou da barqueata, confirmou por telefone não ter havido nenhum episódio de incitação à violência contra Lula ou ao governo federal. “O que existiu foi a manifestação popular chamando a atenção para as demandas dos povos, em um ato totalmente pacífico”, afirmou ao Comprova Daleth Oliveira, assessora da aliança. A embarcação em que ela estava era uma das maiores, com cerca de 500 pessoas a bordo.

Segundo veículos de imprensa, houve protestos dirigidos a Lula, mas em forma de recados. A Folha de S.Paulo noticiou que participantes diziam “Lula, pare com essa insanidade de procurar petróleo na Amazônia” e “Demarcação já”. O UOL publicou que um manifestante afirmou em microfone “Lula, pare com essa insanidade de querer explorar petróleo”.

Em entrevista coletiva de imprensa realizada em um dos barcos que participaram do evento, o cacique Raoni Metuktire criticou obras de infraestrutura na Amazônia realizadas pela União e disse ter pedido a Lula que não aceitasse a exploração de petróleo na região. “Eu vou marcar um encontro com ele, e se precisar, vou puxar a orelha dele pra ele me ouvir”, disse a liderança indígena.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O post foi publicado por um perfil com 35,3 mil seguidores que se apresenta como “patriota e cristã”. Na descrição do perfil há emojis das bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos e a autora diz bloquear pessoas de esquerda.

Dos dez posts mais recentes no X em 16 de novembro, um era favorável a Jair Bolsonaro (PL) e sete eram contrários a Lula e ao PT ou Alexandre de Moraes e o Supremo Tribunal Federal (STF).

O conteúdo verificado aqui aproveita o momento da COP30 para espalhar que Lula enfrentaria problemas graves no evento, que centenas de barcos invadiriam Belém, o que, como afirmado acima, não é verdade. Ao fazer isso, o perfil tenta acirrar a divisão política, como mostram comentários como “Tem todo meu apoio, pra cima desse desgoverno” e “Isso, mostre ao mundo a verdade”.

O post foi visualizado mais de 232,2 mil vezes e recebeu 11 mil curtidas até a publicação deste texto. O Comprova tentou entrar em contato com a autora, mas não houve resposta.

Por que as pessoas podem ter acreditado

Muitos conteúdos de desinformação usam o apelo emocional para prender os internautas e fazer com que eles acreditem naquilo. Ao apelar para as emoções, o desinformador sabe que o público tem menos chance de refletir sobre o assunto ou mesmo de buscar fontes de informação.

Como afirmado acima, o post foi feito por um perfil de direita. Ao publicar um conteúdo contrário a Lula, principal figura da esquerda no Brasil, a autora usa a tática do viés de confirmação: é mais fácil acreditarmos em algo que confirme o que pensamos. Neste caso, quem já não gosta de Lula tem mais chance de achar que o post é verdadeiro.

Fontes que consultamos: Reportagens sobre a barqueata e contato com a Cúpula dos Povos e Aliança Chega de Soja.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais, e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: A Lupa verificou conteúdo semelhante, também classificando-o como desinformação. Recentemente o Comprova investigou outro post mencionando Lula e a COP30, um que mentia ao dizer que o brasileiro teria desmarcado compromisso no evento para impedir suposta delação de Nicolás Maduro.

Notas da comunidade: Não havia notas nas postagens no X até a publicação deste texto.

Política

Investigado por: 19/11/2025

Vídeo de estudante atacando Lula e Alexandre de Moraes usa imagens geradas por IA

Política
Distorções típicas do uso da tecnologia podem ser percebidas a olho nu.

Foi criado com inteligência artificial (IA) um vídeo de um estudante afirmando, em uma entrevista em frente a uma escola, que, para 2026, deseja as prisões do “Nove Dedos” e do “Xandão”, referências ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, respectivamente.

O vídeo apresenta sinais típicos de geração por IA. A imagem mostra diversas distorções, como pessoas ao fundo deslizando ao entrar na suposta escola e letras que se movem na fachada do colégio. Em certo momento, a mão do jovem entrevistado aparece no vídeo com seis dedos distorcidos.

Mesmo concluindo se tratar de um conteúdo criado por IA, o Comprova consultou o programador Pedro Burgos, que confirmou a adulteração. “Os personagens falam rápido para caber todo o roteiro, e o lábio está ligeiramente dessincronizado. O áudio tem uma assinatura sintética, de baixa qualidade, sem sons de fundo ou de vento”, disse.

Após a suposta entrevista, a imagem é cortada para uma apresentadora que aparenta surpresa e, em seguida, pede para cortar os comerciais.

O especialista ressalta que, quando o vídeo mostra a apresentadora, o texto da legenda aparece duplicado, o que reforça a tese de que se trata de um telejornal que não existe. O Comprova localizou um programa chamado “Repórter São Paulo”, da TV Brasil, mas o logotipo não é o mesmo que o do vídeo verificado.

A ferramenta de detecção de IA Hive constatou que a chance de o vídeo ser criado por IA era de 49%. Outras ferramentas, como o InVid, o SynthID e o Deepware, não detectaram o uso de IA.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

A postagem foi feita no X por um perfil com mais de 72 mil seguidores. Ele faz publicações críticas a Lula e outras figuras da esquerda. A publicação verificada atingiu mais de 8 mil curtidas e 2 mil compartilhamentos. O Comprova tentou contato com o autor da postagem, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação utiliza conteúdo criado por IA que se assemelha com uma entrevista verdadeira. Ela também imita fontes confiáveis, já que as manchetes na parte de baixo tentam simular um telejornal de verdade, o que aumenta a chance das pessoas acreditarem.

A fala do jovem, de ataques a Lula e Alexandre de Moraes, pode ter incentivado pessoas críticas ao governo a compartilharem a publicação, assim como a reação da apresentadora, que ao demonstrar surpresa com o ocorrido, pediu para chamar os comerciais, como se uma representante da imprensa não quisesse que uma fala crítica ao presidente e ao ministro do STF fosse ao ar.

Fontes que consultamos: O especialista Pedro Burgos

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais, e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já fez outras checagens de vídeos feitos com IA. Um deles afirmava falsamente que Ivete Sangalo teria elogiado Lula; outro, que Preta Gil teria escrito carta a Jair Bolsonaro (PL), o que não ocorreu; e também um que mostrava um artista fazendo uma escultura do ex-presidente, o que tampouco era verdadeiro.

Notas da comunidade: Uma nota da comunidade foi incluída na postagem do X, com o aviso: “O vídeo foi feito com IA. Isso pode ser percebido pelas distorções das pessoas ao fundo”. 

Política

Investigado por: 14/11/2025

Redução de pena proposta pela União no PL Antifacção já é prevista em lei, e penas devem aumentar

Política
Posts desinformam ao dizer que texto do Poder Executivo beneficiaria membros de organizações criminosas.

Não é verdade que o PL (projeto de lei) Antifacção elaborado pelo governo federal reduza as penas para membros de facções criminosas. Posts nas redes sociais, como X, Instagram e TikTok, desinformam ao afirmar que o texto reduziria a pena de 3 anos para 1 ano e 8 meses. As publicações viralizam no momento em que se discute o texto do relator, o deputado federal Guilherme Derrite (PP), que propôs penas maiores do que as sugeridas pelo Poder Executivo e chamou a redução de “contradição flagrante” e “contrassenso”.

O projeto, que visa combater as organizações e está em discussão na Câmara dos Deputados, cria o tipo penal da facção criminosa e, ao contrário do que afirmam as publicações, endurece as penas.

O texto altera a Lei de Organização Criminosa, aumentando as penas de 3 a 8 anos para 5 a 10 anos. Ainda há previsão de pena de 8 a 15 anos “se a atuação da organização criminosa qualificada, doravante denominada facção criminosa, visar ao controle de territórios ou de atividades econômicas, mediante o uso de violência, coação, ameaça ou outro meio intimidatório”.

Ao mencionar redução de pena, os posts se referem ao trecho do PL que prevê que penas poderão ser reduzidas de um sexto a dois terços em casos de réu primário com bons antecedentes, “que não se dedique à liderança, à promoção ou ao financiamento da organização criminosa em quaisquer de suas modalidades”.

Os 3 anos citados nos posts correspondem à pena mínima atual, mas o que as publicações não contam é que, atualmente, também existe a possibilidade de redução de pena.

“Ainda não existe lei que tipifique penas para integrantes de facções criminosas, e atualmente são aplicadas as penas da Lei de Organização Criminosa, que prevê a redução de penas na hipótese de colaboração premiada”, disse ao Comprova a advogada criminalista Fernanda de Almeida Carneiro, do escritório Castelo Branco Advogados Associados.

O texto da lei mencionada por ela diz que o juiz poderá “reduzir em até dois terços a pena privativa de liberdade ou substituí-la por restritiva de direitos daquele que tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação e com o processo criminal” de forma que traga resultados como identificação de criminosos.

Ou seja, com a legislação atual, uma pessoa condenada a 3 anos pode contar com a redução e ficar presa por apenas 1 ano, tempo menor do que o 1 ano e 8 meses mencionado nas publicações enganosas.

Se a pena mínima é de 3 anos, como é hoje, e for reduzida em:

  • 2/3: ela será de 1 ano

Se a pena mínima passar a ser de 5 anos, como prevê o governo, e for reduzida em:

  • 2/3: ela será de 1 ano e 8 meses
  • 1/6: ela será de 4 anos e 2 meses

Ou seja, a pena mínima proposta pelo governo ainda é maior do que a regra vigente. “É necessário enfatizar que o combate às facções não é brando na legislação atual e o projeto de lei torna ainda mais rigoroso esse combate com um foco não só no endurecimento das penas”, afirmou ao Comprova Rodrigo Costa, professor de Direito Penal do Departamento de Direito Público da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Segundo o especialista, a redução proposta no texto da PL 5582/2025 “pode ser vista como uma reprodução por analogia do dispositivo previsto no artigo 33 da Lei n.º 11.343/06 (conhecida como Lei de Drogas) que igualmente reduz a pena prevista para o tráfico de drogas de um sexto até dois terços se o agente for primário, de bons antecedentes, não se dedicar às atividades criminosas nem integrar organização criminosa”.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

Um dos perfis que publicou o post e teve alto engajamento foi o do vereador Gilson Machado Filho (PL), do Recife. Em sua página, que tem 41 mil seguidores, o post alcançou, desde 5 de novembro, 348,5 mil visualizações e 17 mil curtidas.

Desde outubro, o perfil tem publicado conteúdos críticos ao governo federal e favoráveis às forças de segurança, abordando temas ligados à segurança pública e à criminalidade.

Contatado pelo Comprova, o vereador afirmou apenas ter compartilhado o conteúdo. A publicação, segundo o vereador, ocorreu “de forma espontânea, a partir de sua circulação pública em redes sociais, com o intuito de suscitar reflexão sobre tema de interesse coletivo, sem qualquer pretensão de autoria ou produção própria”.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação analisada utiliza técnicas comuns entre os desinformadores, como o apelo emocional e a aparência de credibilidade, para convencer o público de que é verdadeira. Em primeiro lugar, o post apresenta o logotipo de um site que afirma ser um portal de notícias, o que faz parecer que o conteúdo é resultado de apuração.

No caso do post de Gilson Machado Filho, ele traz linguagem provocativa ao usar a legenda “Brasil, o país onde o poste mija no cachorro”, que cria uma sensação de indignação perante uma suposta injustiça. O uso de expressões coloquiais e de forte carga emocional tem o objetivo de ativar reações rápidas e intuitivas, em vez de promover uma leitura crítica do tema.

Além disso, a desinformação se apoia em um trecho verdadeiro do PL Antifacção sobre a redução de penas. É frequente que desinformadores tirem de contexto informações verdadeiras, o que aumenta a chance de as pessoas acreditarem no conteúdo.

Por último, o post usa uma foto de Lula durante o evento de assinatura do projeto de lei, sugerindo uma ligação entre o presidente e facções criminosas, tática também comum no universo da desinformação.

Fontes que consultamos: Projeto de lei do governo federal, site da Câmara dos Deputados, reportagens sobre o PL, advogada criminalista Fernanda de Almeida Carneiro e Rodrigo Costa, professor da UFF.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais, e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou diversos conteúdos que ligam erroneamente Lula a grupos criminosos. Alguns exemplos: Sinal de ‘L’ feito por traficantes não é referência ao presidente e, sim, saudação de facção que atua no Rio, Sigla CPX em boné usado por Lula significa complexo e não tem relação com facção e TSE não admitiu ligação entre PT e PCC, diferentemente do que sugere vídeo.

Notas da comunidade: Não havia notas nas postagens no X até a publicação deste texto.

Política

Investigado por: 14/11/2025

Lula não desmarcou compromissos da COP30 para impedir suposta delação de Maduro

Política
Em cúpula da CELAC, presidente brasileiro ressaltou que “democracias não combatem o crime violando o direito internacional”, em meio à crise entre Venezuela e Estados Unidos.

Ao contrário do que afirma um vídeo do YouTube, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), não cancelou compromissos na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém, para impedir uma suposta delação do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. O homem que fez a publicação mistura uma entrevista do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, com comentários da jornalista Daniela Lima e opiniões pessoais para fazer alegações sem provas.

Além disso, diferentemente do que o vídeo verificado afirma, Lula não cancelou compromissos na COP30 para ir à 4ª Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e da União Europeia, em Santa Marta, na Colômbia, informação também destacada no comunicado da Secom. De acordo com matéria da Band, a agenda do presidente não previa presença na cúpula, mas ela foi alterada uma semana antes do encontro, conforme noticiado pela CBN e pela Folha de Pernambuco. Ele participaria, na programação original, de um evento ambiental em Fernando de Noronha, nos dias 8 e 9 de novembro. No mesmo dia da CELAC, Lula retornou a Belém, conforme a agenda presidencial.

O vídeo menciona a viagem de Lula em 9 de novembro, durante a COP30, para participar da CELAC. A Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) afirmou, em nota, que a presença do presidente no evento teve como objetivo “reafirmar a prioridade da integração regional na política externa brasileira” e “fortalecer o diálogo na busca por soluções conjuntas globais”.

A pasta também repudiou a “divulgação de boatos falsos, com objetivos políticos, que visam única e exclusivamente desinformar a população, enfraquecer instituições e manipular a opinião pública”.

Dias antes do evento, Mauro Vieira afirmou, em coletiva de imprensa, que Lula iria destacar “apoio” e “solidariedade regional” à Venezuela em seu discurso na CELAC, em meio à presença militar dos Estados Unidos nos mares do Caribe nos últimos meses. “O presidente repetidamente já disse, e é a posição da nossa política externa, que a América Latina e, sobretudo, a América do Sul, onde nós estamos, é uma região de paz e cooperação”, afirmou o ministro.

No discurso, Lula não mencionou diretamente o conflito entre a Venezuela e os Estados Unidos, mas disse que “democracias não combatem o crime violando o direito internacional”. “A ameaça de uso da força militar voltou a fazer parte do cotidiano da América Latina e do Caribe. Velhas manobras retóricas são recicladas para justificar intervenções ilegais”, ressaltou.

Já Maduro não participou da cúpula, mas mandou uma carta aos presidentes da região, pedindo que os países instalem mecanismos de defesa coletiva do Caribe, conforme publicou a CNN. Não há evidências de que ele tenha feito uma delação.

Vídeo de jornalista não comprova delação

O vídeo também exibe um comentário da jornalista Daniela Lima, no programa “UOL News”, transmitido no YouTube em 5 de novembro. Ela contestou a decisão de Lula de prestar solidariedade à Venezuela, após o discurso do governo de “manter uma distância regulamentar” da crise entre Maduro e Trump, e afirmou que o posicionamento causou desconforto entre integrantes da comitiva à COP30. No entanto, Daniela não menciona nenhuma delação de Maduro contra Lula.

Entenda o que é a CELAC

A CELAC é um grupo de diálogo composto por 33 países da América Latina e do Caribe. Ele foi criado em 2011 e tem como objetivo promover a cooperação para o desenvolvimento. A organização promove reuniões ministeriais sobre temas de interesse dos países da região, como educação, cultura, transportes, infraestrutura, energia, segurança alimentar e nutricional, agricultura familiar, ciência, tecnologia, entre outros.

Cronologia do conflito entre Estados Unidos e Venezuela

A escalada da tensão entre Estados Unidos e Venezuela se iniciou em 2 de setembro, quando as forças militares norte-americanas atiraram contra uma embarcação venezuelana no Caribe que, segundo Donald Trump, transportava drogas e era comandada pela gangue Tren de Aragua. Desde então, foram registrados pelo menos 18 ataques a barcos na região, que provocaram a morte de 75 pessoas.

Em 11 de novembro, o maior navio de guerra do mundo, o USS Gerald Ford, dos Estados Unidos, chegou às águas da América Latina. Ele se juntou a outros navios de guerra, a um submarino nuclear e a caças F-35 que estão operando na região nas últimas semanas.

Além dos ataques, em 16 de outubro, Trump autorizou operações da Central Intelligence Agency (CIA), a agência de inteligência norte-americana, na Venezuela, segundo a Reuters. Em agosto, o governo dos Estados Unidos ofereceu uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à prisão ou condenação de Maduro por tráfico de drogas.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O vídeo verificado, que acumula cerca de 534 mil visualizações até a publicação deste texto, foi criado por um youtuber cujo canal tem mais de 1,3 milhão de inscritos, além de quase 230 mil seguidores no Instagram. Ele faz publicações em seu canal sobre acontecimentos políticos, com viés de direita e abordagem crítica a figuras como Lula e Alexandre de Moraes.

O Comprova tentou contato com ele, mas não recebeu retorno.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O título do vídeo verificado é enganoso e induz o espectador a acreditar que Lula saiu da COP30 para impedir uma delação de Maduro, uma insinuação sem evidências. Ele também utiliza a palavra “Urgente”, criando uma sensação de alarmismo, e, em suas falas, mistura opiniões e informações falsas com vídeos de entrevistas e comentários de jornalistas, o que pode conferir credibilidade ao conteúdo.

A recompensa oferecida pelo governo dos Estados Unidos por informações que levem à prisão de Maduro levou desinformadores a criarem teorias da conspiração associando-o a Lula e indicando que o petista teria relação com possíveis crimes cometidos pelo presidente venezuelano, já que ambos se identificam com a esquerda.

O boato de que a Venezuela financia partidos de esquerda de forma ilegal na América do Sul e na Europa foi impulsionado pela delação do ex-general de inteligência venezuelano Hugo Carvajal, feita na Espanha em 2021. As acusações, no entanto, nunca foram comprovadas e o processo acabou arquivado, conforme demonstrado pelo Estadão Verifica.

Fontes que consultamos: Secretaria de Comunicação da Presidência, Governo Federal [1][2], Departamento de Estado dos Estados Unidos, G1, Band, CNN Brasil e Reuters.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já realizou outras checagens sobre a Venezuela, desmentindo um vídeo criado por inteligência artificial em que o assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidência da República, Celso Amorim, abraça Maduro e explicando um exercício militar de soldados venezuelanos na fronteira com o Brasil.

Eleições

Investigado por: 07/11/2025

Urnas eletrônicas brasileiras não foram fraudadas em evento em Las Vegas

Eleições
Na ocasião, hackers testaram máquinas antigas usadas nos EUA, sem qualquer ligação com o sistema eleitoral do Brasil.

Diferentemente do que sugere um vídeo que circula pelas redes sociais, não há comprovação de que urnas eletrônicas brasileiras tenham sido invadidas ou comprometidas durante a convenção Defcon, em Las Vegas, nos Estados Unidos, em 2017. No evento em questão, os procedimentos foram realizados em um ambiente experimental de testes, voltado à demonstração de vulnerabilidades em máquinas usadas nos Estados Unidos, sem qualquer vínculo com o sistema eleitoral brasileiro.

O post verificado traz trechos de um vídeo com declarações do engenheiro Amílcar Brunazo Filho, que afirma que “todas as urnas eletrônicas testadas foram hackeadas em menos de duas horas”. Ele defende que apenas o voto impresso permitiria uma auditoria independente. O vídeo circula em redes sociais como o X e o trecho foi extraído do documentário The Fake Judge (2025), produzido pelo Canal Sérgio Tavares, no YouTube.

Sérgio Tavares é um influenciador português que faz comentários sobre a política brasileira. Em abril de 2024, o Comprova mostrou que eram enganosos os seus comentários sobre este mesmo evento realizado em Las Vegas. Na ocasião, Tavares afirmou que a TV Globo divulgou que as urnas eletrônicas brasileiras são “hackeáveis”, após terem o sistema invadido em uma convenção de hackers nos Estados Unidos. Ocorre que os equipamentos hackeados não eram os usados no Brasil.

Em contato com o Comprova, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) enviou esclarecimento sobre o mesmo tema publicado em 2021, além de checagens do Comprova e do UOL Confere. O evento realizado em Las Vegas envolveu equipamentos antigos, alguns com conexão à internet, ao contrário do que ocorre com os do Brasil, e nenhum deles correspondia às urnas eletrônicas brasileiras, que são sistemas fechados, criptografados e auditáveis.

Segundo o jurista Vinícius Rodrigues Alves, mestre em Segurança Pública pela Universidade de Salamanca (USAL) e especialista pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, “a Defcon foi um ambiente de experimentação pública, sem protocolos eleitorais e sem qualquer participação institucional do Brasil”. Ele ressalta que “os relatos popularizados em redes sociais confundem demonstrações experimentais de vulnerabilidade com ataques reais a urnas certificadas”, e que “do ponto de vista técnico e jurídico, não há registro de violação do sistema eleitoral brasileiro em qualquer eleição oficial”.

A peça audiovisual foi compartilhada por perfis voltados a pautas políticas e críticas ao sistema eletrônico de votação, ampliando sua difusão entre grupos de apoio ao voto impresso. Para Alves, esse tipo de conteúdo “mistura fatos técnicos com interpretações ideológicas, o que enfraquece o debate público e confunde o cidadão sobre o funcionamento real das urnas”.

Ainda conforme o especialista, “o sistema brasileiro é auditável, supervisionado por entidades independentes e passa por inspeção de código-fonte e Testes Públicos de Segurança (TPS), em que qualquer tentativa de invasão é documentada e analisada de forma transparente”. Ele conclui que “a narrativa de que o Brasil utiliza uma ‘caixa-preta eleitoral’ não se sustenta diante dos mecanismos legais e técnicos de fiscalização previstos pela Constituição e regulamentados pelo TSE”.

A autora do post foi procurada pelo Comprova, mas por uma questão de configuração do perfil, não é possível mandar mensagem.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O vídeo foi compartilhado por um perfil que se descreve como “brasileira de coração, viajante por paixão. Casada, mãe, avó. Escritora, palpiteira de política, geopolítica e humor. Meu livro expõe os bastidores”. A conta costuma publicar comentários políticos e conteúdos de tom opinativo. Foi a partir de uma postagem desse perfil que o vídeo começou a circular, levando à verificação do material.

O conteúdo investigado consiste em um vídeo que afirma que, em 2017, em Las Vegas, todas as urnas eletrônicas teriam sido hackeadas em menos de duas horas, e que apenas o voto impresso permitiria “somar do lado de fora” sem depender do software da máquina. O vídeo também alega que apenas Brasil, Butão e Bangladesh utilizam urnas eletrônicas sem impressão de comprovante, insinuando que isso representaria uma vulnerabilidade grave. O Projeto Comprova já verificou publicações semelhantes que circularam em redes sociais.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O post e o vídeo compartilhado utilizam uma combinação de táticas de desinformação, com o objetivo de desacreditar o sistema eleitoral brasileiro ao associá-lo, de forma enganosa, a falhas genéricas em modelos de urnas eletrônicas testadas em eventos não oficiais.

A principal tática identificada é a descontextualização. O vídeo menciona testes realizados na Defcon, na qual modelos variados de urnas eletrônicas não usados no Brasil foram expostos a testes em ambiente controlado, com acesso físico e pleno às máquinas, uma situação radicalmente diferente da realidade das eleições oficiais, que seguem protocolos rigorosos de segurança física, lógica e auditoria. O conteúdo ainda sugere, sem provas, que o “mesmo produtor das urnas brasileiras” foi responsável por modelos hackeados, uma conexão enganosa que explora a similaridade técnica para transferir vulnerabilidades hipotéticas de sistemas distintos.

Além disso, há apelo à emoção e ao alarmismo ao afirmar que “todas as urnas foram hackeadas em menos de duas horas”, o que não constitui uma análise técnica séria nem considera os diferentes graus de dificuldade e as limitações dos experimentos. A menção ao documentário com forte carga acusatória, sem comprovação, reforça a narrativa de vulnerabilidade absoluta, configurando também viés de seleção, ao ignorar as defesas, auditorias e histórico do uso seguro das urnas brasileiras. Essas distorções comprometem o debate público e fomentam a desconfiança infundada no processo democrático.

Fontes que consultamos: Comprova, Tribunal Superior Eleitoral, Vinicius Rodrigues Alves (especialista em Direito Eleitoral).

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais, e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Em março, o Comprova mostrou que voltou a circular a mentira segundo a qual as urnas foram fraudadas por Moraes em 2022.

Notas da comunidade: Não havia notas nas postagens no X até o fechamento desta matéria.

Política

Investigado por: 07/11/2025

G1 não publicou matéria afirmando que o governo indenizará famílias de vítimas da megaoperação no Rio

Política
O texto falso tem erros de gramática e imita design do portal de notícias para enganar os leitores.

Diferentemente do que alega uma imagem que circula nas redes sociais, o portal g1 não publicou uma reportagem dizendo que o governo Lula (PT) garantiu indenização às famílias dos mortos na megaoperação da capital fluminense para “compensar o dano causado pela polícia”.

Após a repercussão da imagem, o g1 publicou uma checagem destacando que “jamais publicou uma reportagem com esse título e conteúdo”. “Comuns em mensagens falsas, erros de padrão denunciam que se trata de uma fraude”, destacou no texto.

O texto falso tem erros de gramática, mas usa design e letras semelhantes aos do veículo, induzindo leitores a acreditarem que se trata de uma reportagem.

É provável que essa peça de desinformação tenha sido inspirada por uma nota publicada em uma coluna do portal Metrópoles., Em 4 de novembro, o portal publicou texto sob o título “Governo Lula discute assistência a familiares de mortos no RJ”. O texto, assinado pelo colunista Paulo Cappelli, afirmava, com base em fontes que preferiram não se identificar do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), que o governo analisava se prestará auxílio às famílias dos 117 suspeitos mortos na megaoperação policial realizada pela administração de Cláudio Castro (PL) no Rio de Janeiro.

O conteúdo também mencionava que a ministra Macaé Evaristo defendia prestar apoio formal da União às famílias, mas que o Palácio do Planalto via a medida “com cautela”, por temer associação com o tráfico e o crime organizado. Logo em seguida, o texto registra uma resposta da própria pasta, negando ter cogitado prestar qualquer tipo de assistência financeira.

“O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania esclarece que não procede a informação. A visita da ministra Macaé Evaristo ao estado teve como principal objetivo a articulação para retomada imediata dos serviços públicos de educação, saúde e assistência social nas áreas impactadas. Informamos ainda que o MDHC abriu um canal específico no Disque 100 para receber relatos das comunidades impactadas pelas operações”, disse a pasta na nota, reproduzida pelo próprio Metrópoles.

Após a repercussão da notícia, internautas e parlamentares de direita atacaram o governo por causa da informação apurada pela coluna do Capelli. O deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ) e o deputado estadual Guto Zacarias (União Brasil-SP) publicaram vídeos em suas redes sociais criticando a suposta medida, negada pelo MDHC.

Por que as pessoas podem ter acreditado

O fato de a captura de tela emular as fontes e o design do portal g1 pode ter sido um fator para o conteúdo circular.

Além disso, muitos leitores não estão familiarizados com certas dinâmicas envolvendo o jornalismo e a política. Nas redações jornalísticas, “off” é o termo usado para designar informações fornecidas por fontes que pedem para não ser identificadas. Esse tipo de dado pode ser útil para revelar bastidores e geralmente é confirmado com outras fontes. Deve, além disso, ser apresentado com transparência ao leitor. Não é incomum que, nesses casos, autoridades desistam de determinadas ideias ou políticas públicas após a repercussão.

No caso do texto do Metrópoles, a matéria baseava-se em relatos de servidores ligados ao Ministério dos Direitos Humanos, sem identificação nominal. O posterior desmentido da pasta mostra como esse tipo de informação pode ser interpretado de maneira incorreta quando retirada do contexto original.

No comunicado em que negou a suposta assistência financeira, o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania também detalhou os motivos para ter enviado uma equipe aos complexos do Alemão e Penha dias após a megaoperação.

Segundo o MDHC, a visita ao local da ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Macaé Evaristo, teve como principal objetivo o acolhimento às comunidades afetadas e a discussão sobre a retomada imediata dos serviços públicos de educação, saúde e assistência social nas áreas impactadas.

De acordo com a nota, as principais ações realizadas pela MDHC foram a articulação com órgãos públicos para garantia do funcionamento de escolas, hospitais e equipamentos essenciais, e o mapeamento das necessidades locais e coordenação de apoio técnico e institucional, com base em protocolos humanitários internacionais.

Fontes consultadas: g1, Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, Metrópoles

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está gerando muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já desmentiu montagens que simulavam o site do g1, sobre desarmamento e as eleições de 2022. Além disso, também foram feitas verificações sobre a megaoperação, concluindo que o pedido de apoio feito pelo governo do Rio foi anterior à ação e se dirigiu à Defesa, não à Justiça, e que a polícia apreendeu fuzis de diversos países nos complexos da Penha e Alemão, mas nenhum de Cuba.

Notas da comunidade: Uma resposta do Grok, serviço de inteligência artificial do X, a um usuário que perguntou sobre a veracidade da imagem afirmou que a captura de tela é verdadeira. No entanto, o Grok aparentemente se referia a uma declaração de Lula citada em um post anterior. Em sua fala, Lula classificou a megaoperação como “desastrosa” e chamou a ação de “matança”. O Grok não respondeu diretamente à questão do usuário sobre uma suposta indenização do governo.