O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa, apartidária e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação para zelar pela integridade da informação que molda o debate público. O objetivo é oferecer à audiência uma compreensão clara e confiável dos acontecimentos e contribuir para a integridade do ambiente digital e para uma sociedade mais bem informada e resiliente à desinformação e a golpes e fraudes virtuais.
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Política

Investigado por: 04/07/2025

Vídeo usa IA para simular protesto contra Hugo Motta

Política
Imagens foram criadas pela ferramenta Veo, do Google, e mostram supostos atos políticos contra o Congresso.

Vídeos de manifestações contra o Congresso Nacional e o presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta (REPUBLICANOS-PB) foram produzidos por inteligência artificial. Postagens que circulam no TikTok mostram centenas de pessoas nas ruas em um aparente protesto. Elas exibem cartazes com frases como “Congresso inimigo do povo” e entoam gritos de “Hugo Motta, traidor”.

Nos vídeos, é possível ver marca d’água no canto inferior direito com o nome Veo, ferramenta de geração de vídeos com inteligência artificial do Google. Além do vídeo verificado, o perfil publicou outros recortes de protestos contra o legislativo, todos com a marca da ferramenta. “Nossa, me arrepiei toda, bem diz que a voz do povo é a voz de Deus”, diz um comentário. Outro usuário afirma: “O povo vendo a REALIDADE”.

Embora os vídeos apresentem a marca, não há avisos claros de que foram gerados por IA, o que levou alguns usuários a acreditarem se tratar de registros de manifestações que realmente ocorreram.

O Comprova inseriu os vídeos no SynthID Detector, ferramenta que reconhece conteúdos feitos por IA exclusivamente com produtos do Google. A ferramenta apontou uso de inteligência artificial com alto grau de probabilidade.

| Reprodução de tela com o resultado da análise de frame do vídeo investigado feita com o SynthID, ferramenta do Google para detectar imagens criadas por IA.

É importante salientar que ferramentas de inteligência artificial podem falhar e não devem ser utilizadas com única fonte na checagem. Além do teste, é possível notar alguns elementos ao olhar os vídeos com atenção. Os manifestantes apresentam pele com aspecto de cera e se movem de forma robótica. Outro elemento são cartazes que aparecem com símbolos e palavras desconexas ou em idioma não identificado.

Embora cidadãos tenham se manifestado nas redes sociais com menções a Motta e ao Congresso, não há registros de atos políticos nas ruas contra o deputado.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

Perfil no TikTok com a descrição “Notícias do Brasil e do mundo” acumula 13,4 mil seguidores. No momento da publicação da checagem, o vídeo investigado contava com 552 mil visualizações, 81,2 mil curtidas, 10,9 mil comentários e 7,7 mil salvamentos.

O conteúdo do canal é majoritariamente composto por vídeos feitos com inteligência artificial, além de vídeos em que um jovem, aparentemente o titular da conta, se grava fazendo comentários sobre algum tema. As publicações são de assuntos relacionados à política, com críticas ao Congresso Nacional. As publicações geralmente não apresentam descrição na legenda além das hashtags.

O Comprova entrou em contato com o autor, mas não obteve retorno até a última atualização.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A própria descrição do perfil — “Notícias do Brasil e do mundo” — sugere que os conteúdos do perfil são verdadeiros, o que pode levar os seguidores a acreditar nos conteúdos publicados. Outro elemento é a utilização do próprio rosto em alguns vídeos do perfil, o que pode dar certa credibilidade ao interlocutor.

Embora o vídeo tenha a marca d’água do Veo, não há outro indicativo de que tenha sido criado com IA na legenda do post, salvo a hashtag #veo3, que aparece em alguns deles. A escolha por um tema em voga, como as manifestações contra Hugo Motta, também pode tornar o conteúdo mais apelativo e até mesmo deixar os usuários confusos quanto à veracidade dos atos.

Fontes que consultamos: Notícias sobre manifestações políticas nas últimas semanas e as ferramentas para detecção de vídeos criados com IA SynthID e Hive Moderation.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já checou uma série de conteúdos feitos com inteligência artificial, como vídeo que simula Janja ostentando compras com dinheiro público e outro que manipula imagens para acusar o presidente Lula (PT) de embriaguez durante cúpula do G7. Outros vídeos usam formatos de telejornal para disseminar informações falsas, como novas regras para motoristas de aplicativo e declarações públicas de Lula sobre o Irã.

Política

Investigado por: 04/07/2025

Reforma tributária mantém a livre negociação de preços de imóveis

Política
Nova lei apenas autoriza a Receita a revisar valores declarados para fins de cálculo de impostos, sem tabelar o mercado.

A Reforma Tributária não faz com que o governo seja responsável por fixar o valor de compra e venda de imóveis a partir de 2026, diferentemente do que alega um vídeo no Instagram. Na realidade, a lei permite que o Fisco verifique de forma independente o valor declarado pelo contribuinte, para evitar sonegação de impostos.

Em 16 de janeiro deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a Lei Complementar 214/2025, que trata da reforma tributária. A nova legislação altera vários pontos do mercado imobiliário, mas não dá ao governo qualquer atribuição sobre a definição dos preços dos imóveis. Entre as principais alterações está o artigo 256, citado no vídeo em questão, que permite à Receita Federal realizar apurações próprias sobre os preços de compra e venda, em vez de somente aceitar a declaração do contribuinte. Os critérios, segundo a legislação, são:

  • análise de preços praticados no mercado imobiliário;
  • informações enviadas pelas administrações tributárias dos Municípios, do Distrito Federal, dos Estados e da União;
  • informações prestadas pelos serviços registrais e notariais; e
  • localização, tipologia, destinação e data, padrão e área de construção, entre outras características do bem imóvel.

A advogada Paula Beatriz Loureiro Pires, sócia especialista em direito tributário do Eichenberg, Lobato e Abreu Advogados, explicou que o governo vai definir um valor base para calcular os impostos devidos pelo contribuinte. Mas esse valor é apenas para fins fiscais, e pode ser contestado judicialmente.

“Essa informação (do vídeo) é falsa. Todo comprador e vendedor poderá livremente negociar os valores de compra e venda dos seus imóveis. O que vai haver, e isso sim como decorrência da reforma tributária, é a fixação do valor base de cálculo dos tributos incidentes nessa venda”, afirmou.

Segundo a autora do vídeo, que é advogada, “o governo utilizará uma tabela de referência, baseada no cruzamento de dados de cartórios, estados e municípios” para definir as cotações dos bens imobiliários, a partir de “um mecanismo específico para apurar o valor de referência dos imóveis, com o objetivo de estimar o valor de mercado”.

O advogado Kênio de Souza Pereira, diretor-regional de Minas Gerais da Associação Brasileira de Advogados do Mercado Imobiliário (Abami) e vice-presidente da Comissão Especial de Direito Condominial da OAB Nacional, ressalta os erros de interpretação por parte da autora do vídeo aqui investigado.

“Houve um enorme desconhecimento. O artigo 256 trata de regras para apuração do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) da reforma tributária, da mesma forma que ocorre hoje quando o município cobra o ITBI (Imposto Sobre Transmissão de Bens Imóveis). Obviamente, os proprietários têm total liberdade de pedir o valor que bem entenderem para vender ou locar seus imóveis, inexistindo qualquer legislação que limite tal direito”, afirma.

Ainda segundo o especialista da Abami, a definição do preço de um imóvel é regida pela lei da oferta e da procura, ou seja, pelo próprio mercado imobiliário. “O valor do bem decorre de vários fatores, como: custo, características do produto, oportunidade, necessidade do comprador ou do vendedor em fazer a transação, capacidade de pagamento do comprador”, diz.

O advogado Guilherme Manier, sócio da área tributária do Viseu Advogados, complementa que a reforma tem como foco estruturar a fiscalização, e não intervir no valor de venda. Segundo ele, o governo vai considerar um valor de referência que será disponibilizado no Sistema Nacional de Gestão de Informações Territoriais (Sinter). “Esse valor será atualizado anualmente e poderá ser impugnado pelo contribuinte interessado. A livre negociação entre as partes permanece garantida”, disse.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

A postagem foi criada pela advogada Danielle Alves Ferreira, filiada à seção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Minas Gerais desde julho de 2007. Nas redes sociais, ela se autointitula como “especialista há 18 anos em direito automotivo” e “consultora para revendas com experiência de 28 anos”. O registro dela no site da OAB traz, como área de atuação, o direito cível, tributário, empresarial e do trabalho.

Ela soma cerca de 20 mil seguidores no Instagram até a publicação desta verificação. A maioria dos seus posts trata de mudanças realizadas na legislação, que influenciam o mercado de veículos. Quando essa verificação foi publicada, o vídeo em questão contava com cerca de 11 mil visualizações e aproximadamente 1 mil comentários.

Procurada pelo Comprova, Danielle Alves Ferreira argumentou que o proprietário “perdeu a presunção de veracidade” com a reforma tributária. “Vai ser criado um cadastro de imóveis brasileiro. Os estados, municípios e cartórios vão ter o prazo de um ano para alimentar esse sistema, que estará interligado ao Sinter. Com a lei, a proprietário perdeu a presunção de veracidade na declaração dele. O que vai valer vai ser o cruzamento de dados entre informações cartorárias, Receita Federal, municípios e preços de mercado. Se o proprietário não concordar, ele vai ter que manejar uma ação para questionar o valor”, disse.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação usa, como tática de persuasão, uma legenda com fundo vermelho na parte inferior do vídeo, com os dizeres: “Urgente! Dono de imóvel ‘não poderá mais fixar o valor da venda do imóvel! Quem estabelecerá o preço será o governo!'”. Além da cor chamar atenção do usuário, as frases estão em caixa alta. O uso da pontuação também merece destaque, com várias exclamações. A autora também usa aspas, que induzem o usuário a pensar que a frase foi retirada diretamente da nova legislação tributária.

Fontes que consultamos: A íntegra da Lei Complementar 214/2025; o diretor-regional de Minas Gerais da Abami e vice-presidente da Comissão Especial de Direito Condominial da OAB Nacional, Kênio de Souza Pereira; o sócio da área tributária do Viseu Advogados, Guilherme Manier; e Paula Beatriz Loureiro Pires, sócia especialista em direito tributário do Eichenberg, Lobato e Abreu Advogados

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos ou duvidosos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova concluiu que a reforma tributária não obrigará todos os profissionais autônomos a pagar 26,5% do faturamento em impostos e que não prevê taxa de 25% em compra e venda de imóveis. Em outra verificação, o Comprova concluiu que não há proposta do governo de taxar imóveis em 25% e herança em 40%.

Política

Investigado por: 03/07/2025

Regras para motoristas de aplicativo e entregadores seguem inalteradas

Política
Publicação no TikTok engana ao alegar que governo pretende impor mudanças drásticas no modelo de trabalho de profissionais vinculados a aplicativos

É falso que o governo brasileiro tenha anunciado um projeto de lei para implementar, a partir de 1º de julho, mudanças drásticas nas regras de trabalho de motoristas de aplicativos como o Uber e de entregadores do iFood. Uma postagem no TikTok apresenta informações alarmistas sem citar fontes confiáveis, leis, decretos ou documentos públicos que sustentem as alegações.

O Comprova entrou em contato com a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que afirmou não reconhecer as informações veiculadas no vídeo compartilhado. “Desconhecemos qualquer projeto de lei aprovado recentemente ou em vias de aprovação no Congresso Nacional referente à tributação de prestadores de serviços de entregas e transporte de passageiros por aplicativos”, comunicou. O Comprova também buscou, mas não encontrou registros oficiais que confirmem a existência de tal projeto de lei.

O vídeo afirma que todas as plataformas seriam obrigadas a repassar cada centavo do rendimento dos trabalhadores e descontar automaticamente até 30% em tributos, e que motoristas que fizerem mais de três corridas por dia passariam a ser monitorados pelo governo. Também diz que o recebimento de gorjetas em dinheiro resultaria em multa e acusação de sonegação, e contas seriam bloqueadas para quem não aceitasse essas novas regras.

As informações apresentadas pelo vídeo são ditas por uma figura que parece ser um jornalista em uma bancada de telejornal. De acordo com a ferramenta Hive Moderation, o vídeo possui uma estimativa de 99% de chance de ter sido gerado por inteligência artificial.

Ferramentas de IA podem falhar na detecção de conteúdos, por isso devem ser usadas como apoio à análise humana. O Comprova identificou distorções típicas de vídeos produzidos com o uso de inteligência artificial. Um exemplo é a chamada do telejornal, que apresenta duas distorções na palavra “Notícias.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O conteúdo foi publicado por um perfil no TikTok que acumula 33 mil seguidores e divulga vídeos com aparência semelhante à de um telejornal. Nos vídeos publicados na página, aparecem diferentes apresentadores, que veiculam notícias políticas falsas.

As postagens nunca informam o nome dos jornalistas ou do canal onde o noticiário seria veiculado. A conta costuma utilizar as tags #news e #notícias, dando a entender que se trata de uma página jornalística. O vídeo verificado alcançou 150 mil visualizações, recebeu 4 mil curtidas, 500 comentários e foi salvo por 600 usuários até o momento desta verificação.

O uso recorrente de símbolos do jornalismo pode indicar intenção de explorar a autoridade de veículos de imprensa para aumentar o alcance e o impacto de conteúdos enganosos. Comentários da publicação indicam que pessoas acreditaram no que é dito no vídeo. Até o momento, o responsável pela publicação não respondeu ao contato feito pelo Comprova.

Esta não é a primeira investigação do Comprova sobre esse perfil. Em outra verificação, testes realizados com o Hive Moderation — tecnologia que analisa características de vídeos e identifica possíveis criações com inteligência artificial — apontaram 99,9% de chance de o vídeo em que o ‘jornalista’ aparece ter sido gerado por IA.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação utiliza diversas táticas de persuasão para provocar medo, indignação e senso de urgência entre motoristas de aplicativos e entregadores. O vídeo começa com a expressão “notícia urgente”, passando sensação de alarme e imediatismo. Em seguida, utiliza linguagem hiperbólica — como “acabar com a vida”, “destruir o trabalho” e “ataque covarde” — para reforçar a ideia de que o governo estaria promovendo uma ação radical e injusta contra trabalhadores.

O conteúdo também se vale de generalizações alarmantes (“todas as plataformas serão obrigadas…”, “vai entrar numa lista de monitoramento fiscal”) que dão a falsa impressão de que medidas extremas já estão definidas e terão aplicação imediata. Há ainda o uso de perguntas retóricas (“isso é justiça ou um ataque covarde?”), que reforçam a opinião do autor enquanto simulam abertura ao diálogo. Por fim, a publicação termina com uma chamada à ação — “curta”, “compartilhe”, “fiquem em alerta” — para estimular o engajamento e aumentar a disseminação da mensagem, fortalecendo a narrativa por meio da mobilização coletiva.

Fontes que consultamos: As empresas Uber e iFood, assim como a Amobitec.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já verificou que é falso que proposta do governo proíba Uber e iFood no Brasil. O UOL Confere e o Aos Fatos também verificaram que é falso que Lula quer acabar com trabalho por aplicativo, como Uber e Ifood. É falso que o g1 publicou reportagem afirmando que iFood pretende encerrar atividades no Brasil.

Política

Investigado por: 02/07/2025

Vídeo engana ao utilizar IA para simular Janja ostentando compras com dinheiro público

Política
O conteúdo satírico tem diversos indícios de ter sido gerado com ferramentas de inteligência artificial, mas ainda assim foi interpretado como real por parte do público

Um vídeo publicado no TikTok apresenta em forma de sátira uma figura criada por inteligência artificial que simula ser Janja da Silva, a primeira-dama do Brasil. Em tom debochado, a personagem narra supostos gastos excessivos e privilégios financiados por impostos da população. Não há qualquer evidência de que a primeira-dama tenha feito compras milionárias com dinheiro público durante viagem à França, diferentemente do que sugere a publicação.

Em março deste ano, entre os dias 26 e 30, Janja esteve na capital francesa em viagem designada pelo presidente Lula (PT) para participar da Cúpula Nutrição para o Crescimento N4G. De acordo com o Portal da Transparência, o valor total da viagem que contou com a primeira-dama e sua comitiva, composta por cinco assessores, foi de R$ 60. 210,58.

No vídeo investigado, a personagem afirma ter retornado de Paris com “sacolas cheias de artigos de luxo” comprados com o dinheiro dos cidadãos e menciona o uso irrestrito de aviões da “UberFab”, uma referência pejorativa à Força Aérea Brasileira (FAB) e ao Uber, aplicativo de transporte. Também declara ter se hospedado em um hotel que teria custado quase R$ 1 milhão e ameaça censurar os críticos por meio do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em determinado momento, o vídeo faz menção ao episódio em que Janja pegou carona em um avião da FAB para ir a uma consulta com um ginecologista em São Paulo, o que de fato aconteceu. A defesa apresentada foi que Janja viajou de carona com o ministro Alexandre de Moraes, a esposa dele, Viviane Barci, e o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, que foi quem requisitou a aeronave. Não tendo, então, custos adicionais para a União.

Todas as declarações do vídeo são apresentadas como se fossem falas da própria Janja. A postagem não apresenta fontes, documentos ou reportagens que sustentem as afirmações feitas pela personagem gerada por IA. Comentários na publicação indicam que pessoas acreditaram no vídeo. Um usuário afirmou que “parece brincadeira, mas pior que é verdade“.

De acordo com a Hiya.com, ferramenta de reconhecimento de IA, o áudio do vídeo possui 70% de chance de ser sido gerado por Inteligência Artificial. Segundo a ferramenta, se o resultado obtido for maior ou igual a 60%, é porque o áudio foi “muito provavelmente gerado por IA”.

O Hive Moderation, ferramenta que presta o mesmo serviço da Hiya, concluiu que o vídeo possui uma chance de 93% de ter sido gerado com IA. Vale lembrar que ferramentas de IA podem falhar na detecção de conteúdos, por isso devem ser usadas como apoio à análise humana. Outros indícios de que o conteúdo foi gerado por IA incluem bolsas da marca de luxo Chanel com o logotipo distorcido, dedos que se confundem com os cordões ao segurar os acessórios e a voz robótica da personagem ao longo do vídeo.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O conteúdo foi publicado por um perfil que soma cerca de 10 mil seguidores no TikTok. O vídeo investigado acumulou 160 mil visualizações, 10 mil curtidas, mil comentários e 600 salvamentos até a data da publicação desta verificação.

Na descrição da conta, o criador afirma: “Eu não sou de direita e muito menos de esquerda. Eu sou inteligente.” O Comprova entrou em contato com o perfil, mas obteve ofensas como resposta e o autor não mencionou o teor do post.

Apesar da alegação de neutralidade ideológica, o perfil costuma satirizar, com frequência, figuras associadas à esquerda, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ministro da Fazenda Fernando Haddad e o presidente da China, Xi Jinping. As postagens utilizam recursos visuais criados por inteligência artificial, reforçando estereótipos ou ridicularizando os personagens retratados.

A ausência de fontes confiáveis e a recorrência ao uso de imagens manipuladas indicam uma intenção humorística. A combinação entre estética de sátira política e o uso de IA contribui para a ambiguidade do conteúdo, que dificulta a distinção entre crítica bem-humorada e desinformação.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação utiliza diversas táticas de persuasão para tentar convencer o público de que a primeira-dama Janja leva uma vida de luxo sustentada com dinheiro público. Há também o apelo emocional, com frases que despertam indignação, como “comprei com o dinheiro de vocês” e “continuem pagando seus impostos para manter minha vida de luxo”.

O recurso visual reforça a narrativa ao mostrar uma figura gerada por inteligência artificial com características exageradas — como várias sacolas de grife e um avião ao fundo —, alimentando estereótipos sobre ostentação. Por fim, o texto utiliza o tom de deboche para provocar o público, buscando criar uma sensação de revolta no espectador.

Fontes que consultamos: Reportagens do Poder 360, Valor Econômico, o Antagonista e as ferramentas detectoras de IA Hiya e Hive Moderation, assim como o Portal da Transparência.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova concluiu que Janja não foi sozinha à Rússia e não há provas de que ela seja vigiada por autoridades norte-americanas e que post inventou que a primeira-dama teve um encontro noturno com Macron em Roma. O UOL Confere publicou uma matéria em que afirma ter desmentido a informação de que Janja teria viajado com 200 malas em um avião da FAB. O Fato ou Fake, do G1, fez outra checagem dizendo que era falso que ela foi barrada com malas de dinheiro na Rússia.

Comprova Explica

Investigado por: 02/07/2025

Como a desinformação sobre apoio do Brasil ao Irã se intensificou com início do conflito e viralizou na internet

Política
Publicações falsas exploram tensões políticas e emocionais para manipular a opinião pública nas redes.

Campanhas de desinformação surgiram e foram disseminadas nas redes sociais depois do início do conflito entre Irã e Israel. Perfis e até figuras públicas produziram e compartilharam conteúdos sobre um suposto apoio bélico do Brasil ao Irã descontextualizando falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e criando afirmações inexistentes. Os desinformadores aproveitaram ainda imagens antigas de Lula com o líder do Irã, Ali Khamenei, para dar credibilidade às publicações e sugerir proximidade entre os governantes.

As peças de desinformação começaram a circular logo no início do conflito, em 13 de junho. Um dos posts verificados pelo Comprova, por exemplo, foi publicado no X na mesma data.

O conteúdo inventava que o governo brasileiro teria fornecido urânio para o Irã e exportado o metal para fins bélicos, o que não é verdade. Diversos perfis compartilharam publicações com teor semelhante, ajudando a disseminar a mentira. O post verificado pelo Comprova, que continua disponível na plataforma, foi visualizado 37,3 mil vezes até 1º de julho, e há outros conteúdos, como uma postagem no Instagram com mais de 220 mil visualizações, que reproduzem a mesma falsidade.

O boato teve outros desdobramentos. Posts alegaram falsamente que Israel confirmou o envio do urânio brasileiro, descontextualizando uma fala do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em que ele afirmava que Lula deveria ter “vergonha”. A declaração, no entanto, aconteceu em 2024, após o petista comparar as ações de Israel em Gaza ao holocausto judeu na Segunda Guerra.

As publicações sobre urânio ganharam tração ao serem compartilhadas por figuras públicas, como o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Após agências de checagem desmentirem postagens sobre o fornecimento de urânio, o parlamentar passou a fazer alegações sobre o assunto com uma nova roupagem. Em vídeo, ele cita o desaparecimento de duas ampolas do metal em uma usina de Resende (RJ), detectado em julho de 2023, e o atracamento de barcos iranianos no Brasil, em fevereiro de 2023, dois casos que aparecem na verificação do Comprova e de cuja relação não há evidências.

Logo depois da mentira sobre o urânio, outros boatos se disseminaram. Três dias depois, em 16 de junho, desinformadores espalharam a mentira de que Lula poderia enviar militares brasileiros para lutar pelo Irã – o conteúdo também foi checado pelo Comprova.

As técnicas usadas pelos desinformadores variam. Alguns posts sobre urânio, por exemplo, utilizam capturas de tela de títulos de veículos como o G1. Já o post sobre Lula enviar militares é narrado por uma voz gerada por inteligência artificial, como mostrou o Comprova.

Em comum, ambos os posts usam linguagem emocional e alarmismo. Trechos como “Lula ladrão”, “traição silenciosa” e a insinuação de que “a esquerda vai fingir que não aconteceu” aparecem no conteúdo sobre urânio. O do envio de militares segue a mesma linha, usando trechos como “nossos jovens irão lutar”, “crise sem precedentes” e “o clima esquentou em Brasília”.

Outro ponto em comum de posts falando sobre urânio e sobre Lula apoiar o Irã é que são publicados por perfis bolsonaristas, que exaltam pautas da direita e que, em geral, defendem políticas dos Estados Unidos e apoiam Israel.

Sobre isso, André Pase, professor da Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), diz ser uma forma de a direita se fortalecer, fazendo com que apoiadores tenham raiva – ou mais raiva – de Lula. “É uma pequenina peça no tabuleiro eleitoral, jogada em um momento sem urnas.”

Para Beto Vasques, professor de Comunicação Política da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e diretor de Relações Institucionais do Instituto Democracia em Xeque, os posts inventando que Lula estaria dando apoio bélico ao Irã seguem o alinhamento da direita com Israel e o fato de que, “hoje em dia, tudo vira motivo de polarização”. “Acontecesse o que fosse, Bolsonaro apoiaria Israel. E Lula tem uma posição já muito firme contra o Netanyahu, que disse que ele é uma persona non grata. Então, há uma relação muito fácil para esse alinhamento”, afirma.

Além de serem perfis bolsonaristas e usarem linguagem de alarmismo, os perfis que disseminam desinformação usam técnicas semelhantes. Entre as principais, Pase cita estratégias visuais, como conteúdos tentando imitar veículos de imprensa e imagens montadas para chamar a atenção, quase como uma lógica de meme, acompanhadas de um texto mentiroso.

Ele menciona ainda a informação verdadeira tirada de contexto. “Essa foi uma das que apareceu muito agora, trazendo um discurso antigo do presidente e mostrando como se fosse atual. É complicado, porque deixa o público com o pensamento ‘se foi assim no passado, e agora?’”, afirma Pase.

Outra característica em comum dos perfis é que costumam publicar informações sem citar a fonte. “As pessoas não estão buscando mais a verdade. Numa dinâmica onde a política é levada para o campo dos afetos, do nós contra eles, o que as pessoas querem é a validação. As evidências de que houve ou não venda de urânio pouco importam”, diz Vasques.

Fontes que consultamos: André Pase, da PUCRS, e Beto Vasques, da FESPSP, e reportagens de veículos como Folha, Estadão, Globo, CNN e verificações sobre Irã e Lula.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Como afirmado acima, o Comprova já verificou que Lula não fez declarações públicas sobre apoiar o Irã na guerra e que o Brasil não forneceu urânio ao país asiático, nem exporta o metal para fins bélicos.

Eleições

Investigado por: 01/07/2025

Projeto no Senado prevê punição para desinformação eleitoral, não para críticas ao sistema de votação

Eleições
Proposta no Senado não prevê pena de sete anos por "duvidar das urnas", como afirmou o ex-presidente. O objetivo do texto é coibir a disseminação de notícias falsas durante campanhas.

Não tramita no Senado um projeto de lei que determina pena de sete anos de prisão para quem apenas questionar o processo eleitoral, diferentemente do que afirmou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A declaração distorce o conteúdo do artigo 869, incluído no substitutivo ao Projeto de Lei Complementar (PLP) n° 112/2021, que dispõe sobre as normas eleitorais e as normas processuais eleitorais brasileiras. O projeto é de autoria da deputada Soraya Santos (PL-RJ) e atualmente está sob relatoria do senador Marcelo Castro (MDB-PI).

O texto propõe pena de reclusão de 1 a 4 anos, além de multa, para quem divulgar, durante campanhas eleitorais, informações sabidamente falsas com potencial de comprometer a integridade do pleito. A pena pode ser aumentada em casos agravantes, mas não atinge sete anos, como afirmou o ex-presidente.

A declaração de Bolsonaro foi dada em entrevista ao vivo no dia 25 de junho em um canal no YouTube e repercutiu nas redes sociais, especialmente no X. Ele ainda declarou que “não é assim que se faz democracia” e que “ninguém pode ser preso por isso”. O objetivo do artigo 869 não é punir opiniões ou críticas legítimas ao sistema de votação, mas sim conter a disseminação de desinformação com capacidade de afetar a lisura do processo eleitoral. Para o Estadão Verifica, que checou o mesmo conteúdo, o promotor de Justiça aposentado e professor de Direito Eleitoral Edson de Resende Castro afirmou que “o projeto de Novo Código Eleitoral que está no Senado não prevê como crime o simples fato de ‘duvidar’ do sistema eleitoral”.

O crime é agravado quando a ofensa é feita por meio da imprensa, rádio, televisão, internet ou redes sociais, inclusive em transmissões ao vivo. Também se caracteriza quando há menosprezo ou discriminação contra a condição de mulher, ou em razão da cor, raça ou etnia da vítima.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

A página do X que publicou o vídeo com a fala de Jair Bolsonaro costuma divulgar cortes de entrevistas e trechos de vídeos extraídos de diferentes veículos de mídia, com foco principal em temas políticos. Também posta textos curtos com aparência de notícia, muitas vezes sem apresentar o devido contexto. Para atrair atenção, utiliza recursos visuais como o emoji de sirene e expressões como “URGENTE”.

O vídeo em questão foi extraído de uma entrevista concedida por Bolsonaro a um canal no YouTube que se apresenta como especializado em política, economia, geopolítica e atualidades. O canal se autointitula “a rádio mais patriota do Brasil” e afirma ter a maior audiência das manhãs no YouTube nacional. O canal onde o conteúdo foi veiculado tem viés bolsonarista e frequentemente favorece o ex-presidente e sua família.

Até 30 de junho, a postagem no X havia alcançado 164,5 mil visualizações, 12 mil curtidas e 3 mil compartilhamentos. No YouTube, o vídeo da entrevista somava 244.608 visualizações e 33 mil curtidas.

Procurada pelo Comprova, a página Space Liberdade, responsável pela publicação no X, não quis comentar o conteúdo divulgado. Limitou-se a afirmar: “divulgamos uma fala de Bolsonaro”. A reportagem também procurou o ex-presidente, mas não obteve resposta.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação feita pela página do X adota táticas recorrentes em ambientes digitais de forte apelo político, como o uso da palavra “AGORA” acompanhada de emojis de sirene. Esse tipo de chamada busca criar uma sensação de urgência, estimulando o consumo rápido e impulsivo do conteúdo.

O vídeo reforça a fala de ataque às instituições feita pelo ex-presidente, que apresenta o projeto de lei em discussão no Senado como uma ameaça à liberdade de expressão. Ao sugerir que a proposta prevê prisão apenas por duvidar do sistema eleitoral, Bolsonaro distorce o conteúdo do texto legislativo e apela para emoções como medo e indignação.

A fala do ex-presidente soa convincente para parte do público porque adota uma linguagem alarmista, simplifica um projeto complexo e omite informações cruciais — como o fato de que a proposta trata da disseminação intencional de desinformação, e não de críticas legítimas ao processo eleitoral. Ao se posicionar como figura de autoridade, ele amplia o potencial de impacto da desinformação, especialmente entre pessoas que já nutrem desconfiança em relação ao sistema eleitoral.

A combinação entre apelo emocional, distorção do conteúdo e uso de estratégias digitais que geram engajamento contribui para consolidar uma narrativa de perseguição política e censura, mesmo sem respaldo nos fatos.

Fontes que consultamos: A reportagem pesquisou no Google a frase “projeto prevê 7 anos de cadeia para quem duvidar do sistema eleitoral”, que retornou uma verificação do Estadão sobre o mesmo assunto, mas que aborda outro momento em que Bolsonaro emitiu o mesmo discurso. Uma busca reversa — técnica que consiste em enviar uma imagem para ferramentas como Google ou TinEye, a fim de localizar sua origem ou outras versões na internet — levou até o canal de YouTube onde a entrevista foi concedida. Também foi acessado o site do Senado Federal, que publica as atualizações do Projeto de Lei.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Estadão Verifica checou que projeto no Senado prevê penalizar quem divulgar fatos sabidamente inverídicos em campanha eleitoral. O Comprova também demonstrou que não há dispositivo nas urnas eletrônicas capaz de alterar votação, ao contrário do que diz postagem e é falso que TSE tem 32 mil urnas grampeadas com o objetivo de fraudar a eleição.

Notas da comunidade: Não foram incluídas notas da comunidade nesta publicação do X.

Política

Investigado por: 30/06/2025

Vídeo distorce informações sobre benefícios sociais recebidos por moradores de Niterói

Política
Homem afirma receber mais de R$ 2 mil sem trabalhar, mas dados oficiais desmentem os valores e as condições citadas no vídeo compartilhado por influenciadora no Instagram.

Um vídeo compartilhado por uma influenciadora no Instagram contém informações distorcidas sobre benefícios sociais. O homem que aparece nas imagens afirma receber R$ 2.100 mensais, resultado da soma entre benefícios federais e municipais de Niterói (RJ), sem trabalhar. Ele alega, ainda, ter recebido uma casa do Minha Casa Minha Vida. O Comprova identificou que as informações são imprecisas, os programas mencionados não correspondem aos montantes declarados e algumas das alegações sequer se aplicam ao contexto atual.

O vídeo utilizado pela influenciadora está recortado e mostra apenas o homem que narra os benefícios supostamente recebidos, mas há registros de outras páginas que divulgaram o mesmo conteúdo. A partir de uma busca reversa, o Comprova identificou como publicação mais antiga uma feita em setembro de 2020 por um delegado da Polícia Civil que concorreu a deputado estadual em 2018 e chegou a ser pré-candidato a prefeito de Niterói naquele ano pelo Mobilização Nacional (MOBILIZA), na época Partido Mobilização Nacional (PMN).

As imagens mostram outros moradores e servidores com o uniforme do projeto “Segurança Presente” utilizando máscaras, o que remete ao período da pandemia de covid-19. O Comprova fez contato com o dono da página, que informou apenas ter divulgado o vídeo após recebê-lo, sem informações sobre o autor ou sobre quem seria o homem que fez o relato nas imagens.

Os programas aos quais o homem do vídeo se refere estão no âmbito municipal e federal. O primeiro citado por ele é o Programa Aluguel Social, da prefeitura de Niterói. Segundo ele, o valor recebido é de R$ 1.002. O valor atual do auxílio é de R$ 400.

Outra iniciativa municipal é citada pelo homem quando ele diz que “todo mundo que é registrado aqui em Niterói ganha o cartão” no valor de R$ 500. A fala pode se referir ao cartão Moeda Arariboia, que tem valor fixado em R$ 460 em 2025. Para ter direito ao cartão, é necessário ser residente no município, estar cadastrado no CadÚnico e ter renda per capita inferior a R$ 218.

No vídeo, o rapaz afirma ainda que recebe R$ 600 “de auxílio”, mas não entra em detalhes nem explica o nome do benefício em questão. Por se referir ao período da pandemia, uma das hipóteses é que o homem se refira ao Auxílio Emergencial, que pagou R$ 600 durante cinco meses. Na época, o valor do Bolsa Família era de R$ 214,60. Os benefícios não eram cumulativos, o beneficiário que já estivesse cadastrado no Bolsa Família recebia o que fosse mais vantajoso dos dois.

Além dos valores, que somam R$ 2.100, o homem no vídeo alega que “ganhou” uma casa do Minha Casa, Minha Vida. O programa, no entanto, prevê o financiamento de moradias por pessoas de baixa renda, não o ganho de residências.

O Comprova questionou a Secretaria de Assistência Social de Niterói sobre a identificação do homem que aparece no vídeo e a veracidade das informações narradas. Em resposta, a pasta informou que, em razão da falta de identificação do autor do relato, divulgado há mais de três anos, não é possível apurar se o que está sendo narrado é verdadeiro.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

A criadora do post chama-se Maria Fernanda Schmidt Baccelli, possui 569 mil seguidores no Instagram, rede social em que publica seus conteúdos e diz que é graduanda do curso de Direito. Na descrição do perfil, a influenciadora diz que expõe “inconformidades” e reafirma “valores para conservar a moral”.

Em sua conta, Schmidt costuma abordar temas sociais, jurídicos e políticos. O perfil é crítico a políticos de esquerda e ao ministro Alexandre de Moraes. O post investigado alcançou 506 mil curtidas até o momento em que esta verificação foi publicada. O Comprova entrou em contato com a influenciadora, mas não obteve resposta até a publicação desta verificação.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação utiliza diversas táticas de persuasão para reforçar uma narrativa crítica ao Estado e à política de assistência social. A principal estratégia é o apelo emocional, com falas que despertam indignação ao sugerir que pessoas recebem benefícios injustamente e “sem fazer nada”.

Na descrição do vídeo, a influenciadora escreveu: “Homem ganha mais de R$ 2.000 em auxílios em Niterói. Você acha que isso é sustentável a médio/longo prazo?”, reforçando o tom alarmista e incentivando o público a questionar a viabilidade das políticas públicas.

Há também uso de generalizações, como “o governo apoia a vagabundagem”, que simplificam questões complexas e reforçam estigmas sociais. A criadora faz perguntas retóricas para induzir conclusões e fortalecer sua posição, além de utilizar comparações com pequenos empreendedores para criar um antagonismo entre quem “trabalha e paga impostos” e quem “vive de benefício”.

Essas táticas, combinadas, têm o objetivo de provocar revolta, legitimar um discurso ideológico e gerar engajamento nas redes.

Programas de Niterói

O Comprova buscou informações sobre os benefícios e comparou os valores reais dos programas com os citados pelo homem.

Desde 2007, há o Programa Aluguel Social criado pela Prefeitura de Niterói. Esse programa integra tanto a Política Municipal de Assistência Social quanto a Política Municipal de Habitação. De acordo com a legislação que o institui, ele “foi desenvolvido para oferecer suporte a intervenções urbanas emergenciais de relevante interesse público”. O valor do auxílio é de R$ 400, não de R$ 1.002, como é dito no vídeo. Além disso, há o Programa Aluguel Universitário, aprovado pela Câmara Municipal, que prevê auxílio financeiro de R$ 700 para estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) e de instituições privadas que residam no Centro de Niterói. O benefício é destinado a alunos com renda familiar de até três salários mínimos e tem duração inicial de um ano, com possibilidade de renovação até a conclusão do curso.

Por último, o homem cita que recebe um benefício de “cartão” de R$ 500, alegando que “todo mundo que é registrado aqui em Niterói ganha o cartão”. A Prefeitura de Niterói disponibiliza o cartão Moeda Arariboia para famílias que recebem o auxílio do Benefício de Prestação Continuada (BPC), do governo federal. Estão incluídos no benefício mães de crianças atípicas, pessoas com deficiência e idosos de baixa renda que estão inscritos no CadÚnico. O valor mensal médio de R$ 460,00, que pode chegar a R$ 868,00 para famílias compostas por seis integrantes.

Benefícios federais

No vídeo, o rapaz afirma ainda que recebe R$ 600 de auxílio, mas não entra em detalhes nem explica o nome do benefício. A publicação mais antiga do vídeo foi postada em setembro de 2020. Na época, era pago o Auxílio Emergencial, programa criado ainda no governo de Jair Bolsonaro (PL) voltado para pessoas em situação de vulnerabilidade durante a pandemia de covid-19. O auxílio começou em abril de 2020 e pagou cinco parcelas de R$ 600, além de adicional que foi pago em até quatro parcelas de R$ 300 até 31 de dezembro de 2020.

O Bolsa Família, que hoje tem piso de R$ 600, pagava R$ 214,60 em 2020. O valor atual foi instituído em 2023 e funciona como um patamar mínimo garantido por meio do Benefício Complementar, pago às famílias cuja soma dos valores do Benefício de Renda de Cidadania — de R$ 142,00 por integrante — e de outros benefícios elegíveis seja inferior a esse valor.

Por último, o homem do vídeo afirma que teria ganhado uma casa pelo Minha Casa, Minha Vida. O programa é coordenado pela Caixa Econômica Federal, no entanto, atua no financiamento de residências, não na entrega de moradias gratuitas, como sugere o vídeo.

Além disso, o programa não estava vigente na época em que o vídeo foi gravado. Em agosto de 2020, o governo Bolsonaro extinguiu o Minha Casa, Minha Vida e o substituiu pelo Casa Verde e Amarela. O programa criado por Lula em 2009 só entrou em vigor novamente em 2023.

Fontes que consultamos: O Comprova consultou os documentos dos programas Aluguel Social e Aluguel Universitário de Niterói, Bolsa Família, além de uma publicação da Prefeitura de Niterói sobre a entrega dos novos cartões da Moeda Arariboia. Também foi feito contato com a Prefeitura de Niterói para esclarecer as condições de acesso para recebimento dos benefícios mencionados no vídeo.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já produziu conteúdos explicativos sobre programas sociais do governo, como os efeitos da gratuidade do Farmácia Popular para cidadãos e comerciantes e a medida que cria linha de crédito consignado para trabalhadores CLT, além da proposta de tributação de dividendos, apresentada pelo Ministério da Fazenda como alternativa para viabilizar o aumento da isenção do Imposto de Renda para pessoas que ganham até R$ 5 mil.

Política

Investigado por: 26/06/2025

Comentários em redes sociais simulam censura e a atribuem enganosamente a Alexandre de Moraes

Política
Falsas notificações usam ironia para insinuar censura do ministro do Supremo Tribunal Federal

Diferentemente do que insinuam posts nas redes sociais, não há qualquer determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para a remoção de comentários opinativos nessas plataformas.

Uma série de postagens e comentários em posts usam, de forma mentirosa, o símbolo “ⓘ”, comumente associado a alertas oficiais de redes sociais, para sugerir que o comentário foi removido por ordem judicial. Há um comentário usando o símbolo, seguido da frase “Comentário removido por determinação do Ministro Alexandre de Moraes”, inclusive em um post do Comprova sobre a Lei Magnitsky – não é verdade que o comentário do usuário tenha sido removido ou tirado do ar.

A publicação investigada também ironiza o conteúdo publicado pelo Comprova, que detalha uma audiência ocorrida em 22 de maio de 2025, na Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Representantes dos Estados Unidos. Na ocasião, o deputado republicano Cory Mills apresentou ao secretário de Estado, Marco Rubio, críticas à atuação do ministro Alexandre de Moraes. Mills acusou o magistrado de promover uma “censura generalizada e perseguição política”, com supostos impactos não apenas sobre cidadãos brasileiros, mas também sobre pessoas que residem em território norte-americano. A frase “Comentário removido por determinação do Ministro Alexandre de Moraes” aparece em tom irônico, mas sem deixar claro que se trata de uma crítica satírica.

O Comprova apurou que essa mensagem é repetida em diferentes redes sociais ao menos desde 2024 e reaparece com frequência em momentos em que decisões judiciais relacionadas a plataformas digitais ganham repercussão. A frase reforça uma visão já difundida por setores políticos simpáticos ao bolsonarismo, que rotulam Moraes como “ditador”, após decisões que determinaram o bloqueio de contas envolvidas na disseminação de desinformação eleitoral. Apesar do tom de ironia, o comentário, por ser repetido com frequência, contribui para confundir o público sobre as ações de Moraes.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O comentário na publicação do Comprova foi feito por um perfil privado no Facebook, e o autor não pôde ser identificado. Também não foi possível localizar outras redes associadas à mesma conta. No entanto, o mesmo conteúdo circula em postagens antigas no X, inclusive em agosto de 2024, durante o impasse entre Alexandre de Moraes e Elon Musk, dono da plataforma.

À época, o ministro ordenou a suspensão do X no Brasil após Musk se recusar a nomear um representante legal da empresa no país.

A reportagem tentou contato com a conta responsável pelo comentário, mas não obteve resposta até a publicação desta checagem.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A repetição deste conteúdo com diferentes roupagens — seja como comentário irônico, legenda de imagem ou resposta sarcástica — ajuda a construir uma narrativa familiar e enganosa, especialmente entre os grupos mais críticos às decisões do STF. A ironia do texto e o uso de símbolos que imitam alertas oficiais de redes sociais tornam o conteúdo mais crível para parte do público, mesmo sem apresentar evidências de censura real. A escolha por uma fonte itálica serifada, diferente da utilizada pelo Instagram, reforça a ilusão de autenticidade, sugerindo que se trata de uma notificação oficial da plataforma.

O comentário enganoso ganha força diante das acusações de censura direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes. Parte dessas acusações se apoia em decisões anteriores do ministro, como a de 2022, quando ele determinou a remoção de 135 conteúdos considerados desinformativos e que, segundo o STF, colocavam em risco a integridade do processo eleitoral.

Desde então, Moraes passou a ser alvo de críticas mais duras por setores da população, especialmente entre simpatizantes do movimento bolsonarista, que o rotulam como “ditador” e apontam as medidas como forma de perseguição política, ainda que elas estejam fundamentadas em decisões judiciais contra a desinformação.

Fontes que consultamos: O Comprova buscou no Google a frase e o símbolo usados na publicação enganosa, resultando em inúmeras postagens de diferentes redes sociais que contêm a mesma mensagem. Também foi analisado o conteúdo da matéria explicativa, que motivou o comentário investigado e, na sequência, pesquisa de reportagens da imprensa profissional que noticiaram as acusações de censura contra o ministro.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já evidenciou que é enganoso post que afirma que Alexandre de Moraes planeja “corroer a democracia por dentro” e já explicou as implicações da Lei Magnitsky, citada por secretário de Estado dos EUA como possível ferramenta de sanção a Moraes.

Notas da comunidade: Até o momento, as publicações com o falso comentário não foram notificadas pelo X ou pelo Instagram, e os conteúdos seguem disponíveis para os usuários.

Política

Investigado por: 26/06/2025

Lula não fez declarações públicas sobre apoiar o Irã na guerra, como sugere vídeo feito com IA

Política
Post com vídeo narrado por inteligência artificial inventa declarações do presidente brasileiro.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não falou em enviar soldados para o Irã ou mencionou apoio bélico ao país na guerra contra Israel. Vídeo narrado por inteligência artificial afirma que o mandatário teria afirmado em “coletiva tensa” que o Brasil pode apoiar o Irã com envio de tropas, mas não há registro dessa fala nas coletivas e discursos de Lula sobre o conflito.  

Até o momento, o presidente não fez falas públicas sobre o confronto. Em Sessão Ampliada da Cúpula do G7, no Canadá, na última terça-feira (17/6), Lula citou os ataques à Faixa de Gaza e outros confrontos ao redor do mundo, mas não citou o nome de Israel ou do Irã. “Em Gaza, nada justifica a matança indiscriminada de milhares de mulheres e crianças e o uso da fome como arma de guerra”, declarou. 

Em 13 de junho, data do primeiro ataque ao Irã, que deu início ao confronto, o Itamaraty condenou a ofensiva israelense. O texto pede aos envolvidos o “exercício da máxima contenção e exorta ao fim imediato das hostilidades”.

No dia 22, o órgão afirmou que “o governo brasileiro expressa grave preocupação com a escalada militar no Oriente Médio e condena com veemência, nesse contexto, ataques militares de Israel e, mais recentemente, dos Estados Unidos, contra instalações nucleares, em violação da soberania do Irã e do direito internacional”. Na mesma publicação, disse que “o Brasil ressalta a urgente necessidade de solução diplomática que interrompa esse ciclo de violência e abra uma oportunidade para negociações de paz”.

Em contato com o Comprova, a Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) afirmou que o conteúdo é falso. “A Secom lamenta que, em vez de se pautarem pela verdade, determinados agentes escolham propagar conteúdos distorcidos para confundir e manipular a opinião pública”, disse o órgão.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova 

Conteúdo foi publicado por conta no TikTok que afirma compartilhar “notícias reais bombásticas”. O perfil apresenta vídeos narrados por inteligência artificial com histórias sobre Lula, Jair Bolsonaro, Donald Trump, Alexandre de Moraes e outros nomes da política. 

Vídeos têm tom alarmante sobre supostos discursos que “pegaram as pessoas de surpresa”. Os conteúdos não apresentam fontes e geralmente terminam com uma chamada para a segunda parte da história. 

O perfil conta com 62 mil seguidores. Até o momento em que esta verificação foi publicada, o vídeo analisado apresentava 220 mil visualizações. Procurado, o perfil não respondeu à tentativa de contato do Comprova. 

O uso da inteligência artificial na narração dos vídeos pode ser detectado pela voz robótica e, no caso do post verificado, o Comprova também fez análises com uso dos programas InVid-WeVerify e Hive Moderation. Ambas apontaram o uso de IA no áudio: segundo a primeira, há 99% de probabilidade de a voz ter sido criada digitalmente, e, a segunda apontou 83,8% de chance.

É importante alertar que plataformas de detecção como essas são passíveis de erro, mas em conjunto com outras evidências ajudam a identificar conteúdos manipulados.

I Legenda: Capturas de tela mostram resultados dos programas InVid-WeVerify e Hive Moderation I

Por que as pessoas podem ter acreditado

O vídeo investigado usa imagens reais do presidente para ancorar insinuações feitas na narração e nas legendas, mas não faz referência a nenhuma coletiva ou fonte oficial, o que configura uma tentativa de manipulação de evidências e imitação de uma notícia para parecer convincente.

Além disso, o vídeo utiliza linguagem emocional e alarmismo (“nossos jovens irão lutar”, “crise sem precedentes”, “o clima esquentou em Brasília”) para provocar medo e indignação, estimulando uma reação emocional em vez de racional. Há também uma clara exploração de viés cognitivo de confirmação, ao sugerir uma narrativa sensacionalista que pode reforçar crenças pré-existentes em setores críticos ao governo. O uso de perguntas retóricas e o formato em “capítulos” também remete a uma estratégia de inundação informacional e engajamento com o objetivo de manter a atenção do público e amplificar a disseminação do conteúdo.

Fontes que consultamos: Reportagens sobre a Cúpula do G7 e a guerra entre Irã e Israel, pronunciamentos oficiais do presidente, contato com a Secom e análise dos detectores de IA Hive Moderation e Invid-WeVerify.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O Comprova já desmentiu que o Brasil tenha enviado urânio para o Irã. A agência Aos Fatos também checou e mostrou que é falsa a informação de que Lula vai enviar tropas para atuar na guerra. Já o Boatos.org listou quatro peças de desinformação que têm circulado sobre a relação do Brasil com o conflito.  

Política

Investigado por: 23/06/2025

Vídeo usa IA para manipular imagens de Lula no G7 e simular embriaguez

Política
Publicação usa montagem com imagens alteradas e música irônica para espalhar desinformação sobre o comportamento do presidente durante a cúpula no Canadá

É manipulado com ferramentas de inteligência artificial o vídeo que sugere que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estava sob o efeito de álcool durante o encontro do G7, realizado no Canadá em junho de 2025. O conteúdo, publicado no Instagram com trilha sonora irônica e distorções visuais, foi criado para insinuar que o presidente cambaleava e se comportava de forma inadequada diante de outros líderes mundiais.

O Comprova verificou a utilização de IA no vídeo através da plataforma Hive Moderation, que concluiu que o vídeo possui 99,9% de chance de ter sido criado artificialmente. Essas ferramentas, porém, não são infalíveis: elas indicam probabilidades, não certezas, e devem ser usadas como apoio, junto a outras evidências de verificação.

No conteúdo em questão, há várias evidências que deixam clara a manipulação. A imagem apresenta distorções típicas de conteúdos gerados por IA. Um exemplo claro ocorre no momento em que Lula abraça o presidente ucraniano Volodimir Zelenski: os dedos de suas mãos aparecem fundidos. Além disso, os óculos do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, desaparecem e aparecem desfigurados em determinados trechos da gravação.

A postagem usa como única fonte o próprio vídeo manipulado, acompanhado da música “Marvada Pinga”, que reforça a falsa narrativa de embriaguez. Embora a legenda da postagem informe que se trata de um conteúdo gerado por inteligência artificial, muitos usuários comentaram como se o vídeo fosse real.

A cena faz parte de um momento de distração durante a tradicional foto oficial da cúpula. Lula conversava com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, tendo ao lado a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, enquanto os líderes se posicionavam para o registro. Ao ser alertado pelos demais participantes, Lula retomou sua posição para a fotografia, sem nenhum comportamento inusitado ou fora do protocolo diplomático.

Quem criou o conteúdo investigado pelo Comprova

O vídeo analisado foi publicado por um perfil do Instagram que conta com 161 mil seguidores. A página tem como prática comum o uso de inteligência artificial para ironizar e atacar figuras públicas associadas à esquerda, especialmente Lula. Em sua bio, o perfil divulga uma chave Pix para doações e utiliza uma seta com as cores da bandeira do Brasil como imagem de perfil.

A recorrência de conteúdos manipulados com o mesmo tema – geralmente associando Lula ao consumo de álcool ou a comportamentos constrangedores – indica uma estratégia sistemática de desinformação voltada para reforçar estigmas e alimentar a polarização política.

O perfil não utiliza fontes confiáveis para embasar as alegações apresentadas nos vídeos e não deixa claro que o conteúdo publicado tem caráter humorístico ou satírico. Apesar de criar imagens e cenas absurdas, o autor das postagens não admite de forma transparente que se trata de uma produção voltada ao entretenimento. Em vez disso, o conteúdo é divulgado sem contextualização, o que pode induzir parte do público a interpretá-lo como verdadeiro. Essa ambiguidade favorece a disseminação de desinformação, especialmente em temas politicamente sensíveis.

O Comprova entrou em contato com o perfil por meio do Instagram, mas não obteve retorno até a publicação desta verificação.

Por que as pessoas podem ter acreditado

A publicação utiliza uma combinação de elementos visuais, trilha sonora e contexto político para criar uma narrativa enganosa. O vídeo mostra o presidente Lula em interações constrangedoras com outros líderes mundiais durante o G7, enquanto a música “Marvada Pinga” toca ao fundo — o que reforça a insinuação de que ele estaria embriagado. Esse recurso sonoro funciona como uma sugestão indireta, mas poderosa, que molda a interpretação do público sem precisar de uma afirmação explícita.

Embora a descrição do vídeo indique que ele foi gerado por inteligência artificial, o aviso aparece de forma sutil e pode passar despercebido por usuários desatentos ou com menor familiaridade com esse tipo de tecnologia. A ausência de uma sinalização clara de que se trata de uma peça de humor ou ficção colabora para a ambiguidade da postagem.

Além disso, a publicação explora estereótipos e críticas recorrentes ao presidente, o que pode ativar crenças pré-existentes e gerar uma aceitação automática do conteúdo por parte de quem já tem posicionamento político contrário. A combinação de elementos visuais realistas e ausência de fontes verdadeiras cria uma aparência de verossimilhança que pode confundir o espectador e levá-lo a acreditar que os eventos retratados realmente aconteceram.

Fontes que consultamos: O Comprova utilizou a ferramenta Hive Moderation. Também foram consultados o portal jornalístico Poder360, e o vídeo original publicado pelo canal canadense Global News.

Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: Outras checagens sobre o tema: A investigação do vídeo viral também foi realizada pelo Aos Fatos, Reuters e Estadão Verifica. Além disso, o uso de IA tem sido cada vez mais recorrente nos conteúdos de desinformação. O Comprova verificou, recentemente, por exemplo, que vídeos virais de escultura de areia de Bolsonaro foram gerados com a ferramenta.