O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa e sem fins lucrativos liderada pela Abraji e que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros para descobrir, investigar e desmascarar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas, eleições, saúde e mudanças climáticas que foram compartilhados nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens.
Filtro:

Saúde

Investigado por: 2020-08-14

Posts distorcem dados de 2019 e 2020 para negar as mais de 100 mil mortes por covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Publicações omitem a informação de que os dados do Portal da Transparência do Registro Civil não têm atualização imediata e que medidas como o isolamento social podem ter reduzido o número de falecimentos por outras causas em 2020. No estado de São Paulo, por exemplo, o número de mortes no trânsito de janeiro a junho caiu 11%, em comparação a 2019
  • Conteúdo verificado: Posts que comparam número de mortos em 2019 e 2020 e, a partir dos resultados, insinuam que a pandemia é uma farsa ou histeria.

São enganosos os textos que, ao comparar números de óbitos em 2019 e 2020, colocam em dúvida as mais de 106 mil mortes por covid-19 no Brasil. As postagens, que viralizaram em redes sociais como Facebook, Twitter e WhatsApp, ignoram que os dados utilizados, do Portal da Transparência do Registro Civil, estão em constante atualização e incluem a informação – mesmo que não consolidada – sobre vítimas do novo coronavírus.

Nesta sexta-feira, 14 de agosto, a ferramenta contabilizava 96.844 mortes que tiveram como causa principal a covid-19 no país. O número total de óbitos de janeiro a julho é 798.352 — 66.741 mortes a mais do que no mesmo período do ano passado. Mais uma vez, é importante reforçar que estes dados estão em constante atualização.

Número de mortes mês a mês

Outro fato desconsiderado nas postagens é que medidas como o isolamento social podem ter reduzido o número de falecimentos por outras causas em 2020, já que há menos pessoas saindo de casa. No estado de São Paulo, por exemplo, o número de mortes no trânsito de janeiro a junho caiu 11%, na comparação com o mesmo período do ano passado. De acordo com o Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito de São Paulo (Infosiga), foi o menor número de óbitos desde o início da série histórica, em 2015.

Como verificamos?

O primeiro passo foi verificar os dados no Portal da Transparência do Registro Civil, plataforma virtual aberta à consulta pública. Em seguida, o Comprova entrou em contato com a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), que mantém o Portal e respondeu por e-mail alguns questionamentos sobre a atualização dos números.

Para compreender melhor os dados, a equipe entrevistou por telefone e WhatsApp Fatima Marinho, epidemiologista e consultora-sênior da organização global de saúde pública Vital Strategies, que, com pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), auxiliou a Arpen-Brasil no desenvolvimento do painel sobre causas respiratórias e total de mortes do Portal da Transparência. Também conversou por telefone com o epidemiologista Fernando Carvalho, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Para visualizar os dados, a equipe usou a ferramenta Flourish, de produção de gráficos. Por fim, o Comprova tentou contato com internautas que postaram o conteúdo e tiveram bastante viralização. Eliane Maris, que compartilhou um post no Facebook, conversou com a equipe por telefone. O responsável pela página @LuizCamargoVlog no Twitter, cujo post viralizou na rede social, foi contatado por e-mail, mas não respondeu até a publicação deste texto.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de agosto de 2020.

Verificação

Atualização constante

O Comprova analisou duas versões de postagens que comparavam o número de óbitos registrados em cartórios no país em 2019 e 2020. Uma das publicações colocava lado a lado apenas mortes ocorridas em julho de cada ano; outros posts comparavam também registros de abril, maio e junho. Os números são similares aos verificados na aba “Registros” do Portal da Transparência – nessa seção, é possível acessar o número de falecimentos por causas naturais e violentas.

No entanto, nenhuma das postagens enganosas analisadas continha a ressalva de que os números do Registro Civil estão em constante atualização. Em nota, a Arpen-Brasil afirmou que o site é alimentado de “hora em hora” em dias úteis. A entidade diz que a recomendação é de que em análises dos dados disponíveis sejam considerados os números anteriores a um intervalo de 15 dias — contados retroativamente a partir do dia presente.

O Portal da Transparência informa que “a atualização pelos registros de óbitos lavrados pelos Cartórios de Registro Civil obedece a prazos legais”. Esse prazo leva em conta que “a família tem até 24 horas após o falecimento para registrar o óbito em cartório que, por sua vez, tem até cinco dias para efetuar o registro de óbito”. Considera que o cartório tem ainda oito dias para enviar o registro à Central Nacional de Informações do Registro Civil, que atualiza o portal. No total, oficialmente, são 14 dias.

A Lei de Registros Públicos prevê exceções que podem aumentar esse prazo. Como destacou a Agência Lupa, se o local da morte ficar a mais de 30 quilômetros de um cartório, a família pode registrar o falecimento em até três meses.

O que acontece na prática, como o Comprova já verificou, é que mortes ocorridas há muito mais de duas semanas continuam sendo atualizadas no sistema do Portal. Há óbitos ocorridos em 2019 que ainda estão entrando na plataforma, conforme mostra o gráfico a seguir:

Em nota, a Arpen-Brasil disse que “regras excepcionais, adotadas pontualmente por estados e pelo Poder Judiciário, em razão da crise de saúde pública causada pelo novo coronavírus, podem estender o prazo previsto em lei para registro de óbito e, também, influenciar os dados encontrados no Portal da Transparência”.

Análises de dados publicadas pela Folha de S.Paulo, em maio deste ano, e pelo portal Núcleo, em julho, apontam outras inconsistências nos números divulgados na plataforma. Um exemplo foi o “sumiço”, em 14 de maio, de 500 mil registros de óbitos de 2016, 2017 e 2018. A Arpen informou ao Núcleo ter removido esses dados por não estarem padronizados. Em 27 de maio, novo “sumiço”: dessa vez, de 3 milhões de óbitos, que posteriormente foram adicionados novamente à plataforma.

A Folha mostrou haver diferenças significativas na contagem de mortes entre as 518 cidades presentes na plataforma. Na comparação entre o número de óbitos de 2019 e 2020, capitais como Belém, Manaus e Porto Velho apresentaram padrão errático de registros de janeiro a abril. Em Goiânia, Campo Grande, Brasília e Cuiabá, uma expressiva diminuição no número de falecimentos em abril indicava falta de atualização dos registros.

Segundo a epidemiologista Fatima Marinho, consultora-sênior da Vital Strategies, a subnotificação também ocorre porque, “muitas vezes, as famílias deixam de fazer a certidão de óbito, principalmente em regiões mais pobres”.

Ainda de acordo com a especialista, os dados de Minas Gerais estão muito defasados no Portal da Transparência – como verificado no gráfico abaixo. Segundo ela, quando esses números forem incluídos, haverá um salto no excesso de mortes (comparação entre o número de óbitos esperado a partir de uma série histórica e a quantidade observada em um determinado período).

No gráfico, é possível identificar como o registro de mortes varia em cada estado do país. Repare que, além dos de Minas, outros dados apresentam inconsistências, como os de Rondônia.

Falsa equalização

O epidemiologista da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Fernando Carvalho reforça que os dados do Registro Civil devem ser analisados com desconfiança. “São dados que ainda não estão consolidados e estão sendo usados de forma errada”, diz ele.

De acordo com o especialista, é mais indicado utilizar os números compilados pelas secretarias estaduais de Saúde ou pelo Ministério da Saúde. Carvalho explica que esses órgãos seguem protocolos para registrar os óbitos, que normalmente passam por uma investigação rigorosa sobre suas causas.

Além da demora na contabilização dos mortos no Registro Civil, ainda há outras possíveis explicações para a diferença entre o número de falecimentos entre 2019 e 2020. Segundo o epidemiologista, as medidas adotadas no combate ao novo coronavírus podem ter impacto sobre outras mortalidades. Por exemplo, mortes causadas por acidentes de trânsito e por violência podem ter diminuído em meio às iniciativas de isolamento social. Há ainda o fato de que, com a pandemia, o número de procedimentos cirúrgicos eletivos foi reduzido.

No estado de São Paulo, por exemplo, o número de mortes no trânsito de janeiro a junho caiu 11%, na comparação com o mesmo período do ano passado. De acordo com o Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito de São Paulo (Infosiga), foi o menor número de óbitos desde o início da série histórica, em 2015.

Por fim, Carvalho aponta que os registros de óbitos causados por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e por causas indeterminadas subiram – na data da publicação deste texto, o Portal registrava 11.425 casos de SRAG de 1º de janeiro a 14 de agosto de 2020 e 932 no mesmo período do ano passado . “Muitas pessoas não estão indo ao hospital”, afirma. “Pode ser que demore a ter um diagnóstico. Tem gente que morreu sem procurar serviço médico”, acrescenta.

De acordo com Fatima Marinho, há outro fator a ser considerado: todo ano há um aumento de mortes por causas naturais, devido ao envelhecimento da sociedade, mas a covid-19 já superou a mortalidade esperada para 2020. Para ilustrar, ela mostrou um gráfico produzido pelo Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass). “Normalmente, não temos esse excesso de óbitos no Brasil. Tivemos na época do H1N1, mas foi pequeno. É algo visto em países que têm desastres naturais, como terremotos e tsunamis”, afirma. “Então, estamos atribuindo esse excesso de mortes verificado no Brasil à covid-19.”

A epidemiologista explica: “o que podemos afirmar com certeza é que o número de mortes entre 15 de março e até 26 de junho subiu 23% acima do esperado para esse período”.

Postagem

A aposentada Eliane Marins, que mora em Caçador, em Santa Catarina, repostou um conteúdo com números do Portal da Transparência, afirmando: “Não existe a menor condição de ter morrido 100 mil pessoas no Brasil pela covid-19. A menos que tenham encontrado a cura para as demais doenças. Faça sua própria pesquisa e tire suas conclusões”. Contatada pelo Comprova, ela disse que “cada um que posta a opinião de cada um”.

Questionada se não é perigoso afirmar que as mortes pelo novo coronavírus não estão ocorrendo, respondeu: “Tão maléfico é fazer sensacionalismo em cima de uma doença; é tão maléfico quanto a própria doença”.

Recentemente, Eliane postou outros conteúdos enganosos, como o que afirma que o governador de São Paulo, João Doria, teria tomado a vacina contra a covid-19 – verificado pelo Comprova como falso –, e o que informa, erroneamente, que Bill Gates disse que a vacina contra a doença altera o DNA dos imunizados para sempre.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos a respeito do novo coronavírus desde março deste ano, quando foi decretada pandemia. Desde então, outros conteúdos que usam os dados do Registro Civil de forma enganosa foram desmentidos. Um deles, uma publicação que distorceu dados do Portal da Transparência para alegar falsamente que a pandemia estaria em declínio e que o Brasil teria zerado “o excesso de mortes em junho”. As informações utilizadas à época, assim como agora, desconsideravam a atualização constante dos números.

Em maio, uma corrente de WhatsApp atribuiu a registros de cartórios números falsos, que buscavam negar a pandemia no Brasil. Os números verdadeiros confirmavam a gravidade da disseminação da covid-19.

Outras agências de checagem também desbancaram postagens enganosas sobre dados do Registro Civil, como Estadão Verifica, AFP, Agência Lupa e Aos Fatos.

O uso de dados públicos de forma inadequada provoca avaliações descontextualizadas e alerta sobre o riscos gerados por essas análises incoerentes e irresponsáveis. Neste momento específico de crise sanitária é mais comprometedor ainda, pois evidencia o grau de negacionismo da gravidade pandemia, o que torna os impactos da desinformação ainda mais severos e distorce a real finalidade da transparência dos dados públicos.

Além da amplificar os malefícios da desinformação, insinuar que a pandemia – que já matou mais de 106 mil pessoas apenas no Brasil – é uma farsa ou tentar diminuir seu efeito por meio de cálculos e dados imprecisos, sob o argumento de que o número de mortes não é tão elevado, é reprovável também por ser uma atitude que acarreta prejuízos humanos e sociais à coletividade.

A gravidade destes fatores leva o Comprova a averiguar conteúdos que apresentam ampla viralização nas redes sociais, a exemplo das postagens em questão, que até o dia 14 de agosto somavam mais de 12 mil interações no Facebook e Twitter, de acordo com a medição da plataforma CrowdTangle.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado de forma a induzir a uma interpretação diferente.

Saúde

Investigado por: 2020-08-14

É enganosa postagem que questiona ética dos testes em humanos de vacinas para covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Post em uma página de Facebook ignora que as vacinas precisam necessariamente de testes prévios em seres humanos para serem liberadas para uso e usa uma imagem antiga do governador baiano, Rui Costa, para relacioná-lo aos chineses
  • Conteúdo verificado: Postagem no Facebook questiona ética da testagem de vacinas contra covid-19 em humanos. Para isso, usa a afirmação feita por um médico baiano que também defende uso de medicamentos sem comprovação científica no tratamento da doença.

É enganosa a postagem feita por uma página no Facebook que diz que não é ético e nem humano o uso da “vacina chinesa que Rui Costa (PT) quer testar na população baiana”. O texto diz também que é um absurdo que as pessoas sejam feitas cobaias de laboratório do governo comunista chinês. O post reproduz uma afirmação do urologista Modesto Jacobino, médico que defende uso de drogas sem comprovação científica no tratamento da covid-19. Especialistas consultados pelo Comprova refutaram a declaração feita pelo urologista.

O texto não menciona que, para serem aprovadas pelos órgãos regulatórios, todas as vacinas devem passar por uma fase de testes em humanos. No Brasil, os testes precisam passar pela aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

No meme que ilustra a postagem, o governador baiano Rui Costa (PT) aparece ao lado de Wang Dongfeng, prefeito da cidade chinesa Tianjin. A assessoria do governo da Bahia informou que a imagem é de 2017, quando Costa visitou o porto do município chinês.

O autor do post e o médico citado na publicação foram procurados pelo Comprova, mas não responderam ao nosso pedido de entrevista.

Como verificamos?

Fizemos buscas no Facebook, Instagram e LinkedIn para descobrir informações sobre o autor do post e sobre o médico Modesto Jacobino. Na página de Facebook do homem que fez a postagem, cujo nome é Leandro de Jesus, descobrimos um número de telefone e um email. Enviamos mensagem em suas redes sociais, mas não obtivemos retorno. No Google, encontramos o telefone de um escritório de advocacia com o nome do autor da postagem, mas ao ligar, uma gravação avisava que o número não está disponível.

Tentativas de contato com Dr. Modesto Jacobino também foram feitas via Facebook, em sua página pessoal e profissional, mas as mensagens não foram respondidas.

Também usamos o Google para encontrar reportagens sobre as vacinas chinesas que estão sendo testadas no Brasil e sobre o medicamento russo que ganhou destaque recentemente. A ferramenta de busca serviu também para descobrirmos que a foto original usada no boato estava fora de contexto. Confirmamos com a assessoria do governo baiano que a imagem é de setembro de 2017.

Por fim, ouvimos o professor de bioética da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Alcino Bonella, e o médico infectologista da Comissão de Covid-19 da Secretaria Municipal de Ibirité, Leandro Curi, em Minas Gerais. Os especialistas refutaram a afirmação feita por Modesto Jacobino.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 14 de agosto de 2020.

Verificação

A página de Facebook que critica a testagem da vacina chinesa em humanos reproduz uma afirmação do urologista Modesto Jacobino, da clínica Lithor Center, em Salvador. A declaração foi retirada de uma matéria do site Farol da Bahia. Jacobino diz que, como médico, tem “papel de conscientizar a população sobre os riscos de se submeter a testagem de vacinas contra a covid-19” e questiona: “Não é ético e nem humano. Ao tomar a vacina, o indivíduo vai receber o vírus para se verificar a imunidade. Como desenvolver uma doença nas pessoas que não tem nenhum medicamento e tratamento?”

Em julho o médico já havia defendido no mesmo portal o uso precoce de azitromicina, ivermectina e hidroxicloroquina para tratar covid-19, alegando que “não tem tempo a perder com Lancet [revista científica] e OMS”. A Organização Mundial da Saúde interrompeu as pesquisas com cloroquina e hidroxicloroquina após concluir que elas não têm eficácia no tratamento da doença.

A azitromicina é um antibiótico e não tem comprovação científica contra covid-19, apenas é prescrita de maneira experimental no tratamento do novo coronavírus. Sobre a ivermectina, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ressalta que “não existem estudos conclusivos que comprovem o uso desse medicamento para o tratamento da covid-19, bem como não existem estudos que refutem esse uso”.

Conforme a OMS, não há, até o momento, tratamento efetivo ou drogas comprovadas contra o novo coronavírus. Essa posição é ratificada por autoridades sanitárias como Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Quais são as vacinas testadas no Brasil?

Existem duas vacinas chinesas em teste ou com previsão de testagem no Brasil. No dia 21 de julho, iniciou em São Paulo a fase de testes da CoronaVac, criada pelo laboratório Sinovac Biotech. A estimativa do governo do estado é testá-la em um grupo de 9 mil voluntários. A vacina teve sucesso em estudos clínicos e avançou para a testagem em humanos. Conforme divulgou a OMS, o medicamento está na terceira etapa de testes.

O Instituto Butantan, órgão do governo de São Paulo, confirmou que há possibilidade de iniciar a vacinação contra o novo coronavírus em janeiro de 2021. Isso porque foi fechado um acordo com a farmacêutica chinesa para testar e produzir em larga escala a vacina. Outras cinco unidades da federação também participam desta fase da pesquisa: Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Distrito Federal.

O imunizante que pode ser testado na Bahia é do Grupo Farmacêutico Nacional da China (Sinopharm), que fechou parceria com o governo do Paraná. A expectativa é de que seja assinado um protocolo de cooperação entre o governo baiano e a empresa em breve. Contudo, para validar o acordo, é necessária a aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) da Anvisa. Se validada a parceria, testes devem começar em setembro.

Foram desenvolvidas duas versões do fármaco pela estatal chinesa usando material genético desativado do vírus. As versões já estão sendo testadas desde julho nos Emirados Árabes, em um estudo com 15 mil participantes. A razão dos experimentos fora da China é que o país tem atualmente poucos casos da doença. O Paquistão também deve receber doses.

Além do acordo com a China, houve também uma articulação com a embaixada da Rússia no dia 30 de julho. Em uma videoconferência com o chanceler russo, Sergey Akopov, e o secretário de Saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas, foi discutida uma possível parceria entre os centros científicos russos e as instituições de pesquisas baianas para a testagem da vacina. A possibilidade de incluir outros estados e municípios também foi discutida. A Sputnik V, segundo o presidente Vladimir Putin, seria primeira vacina contra covid-19. Conforme a agência de notícias russa Interfax, a dose passou nos testes necessários e a vacinação será “exclusivamente voluntária”. Porém, a comunidade científica alega que a substância não está dentro das especificações adequadas e a vê com ceticismo.

O que dizem os especialistas?

Ao contrário da declaração feita pelo urologista da Bahia, o infectologista da Comissão de covid-19 da Secretaria Municipal de Ibirité (MG), Leandro Curi, não enxerga a possibilidade da testagem de vacinas causar mal às pessoas.

Ele explica que há três tipos de vacina. Uma é feita com fragmentos do vírus morto. Outra é produzida a partir do vírus atenuado, com menor capacidade de infecção. É o caso das vacinas para febre amarela e o sarampo, por exemplo. O terceiro tipo usa recombinação genética, ou seja, tipos diferentes de vírus são combinados para produzir a vacina — é o caso da vacina contra o SARS-CoV-2 que está sendo desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca.

“O que é uma vacina? Nada mais, nada menos que um truque que a gente faz no nosso organismo. A gente injeta o antígeno, ou seja, o germe agressor — inteiro, fraco ou uma parte genética dele — e engana nosso sistema imunológico para ele criar os anticorpos, que seriam a defesa contra aquele agressor. (…) Ao entrar no corpo já vai ter a defesa armada”, explica o infectologista.

O médico também esclareceu sobre o processo que ocorre quando vacinas ou medicamentos estão em fase de teste. Segundo ele, são desenvolvidas fórmulas e moléculas até que se chegue à molécula efetiva, considerada o resultado final. O processo é feito durante meses ou anos em diferentes fases de teste, que acontecem primeiro in vitro, depois com animais e só então são feitos estudos com seres humanos, em que cada vez mais pessoas recebem a dosagem para garantir que a vacina é eficaz e segura.

O Comprova também entrou em contato com o professor de bioética da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Alcino Bonella, para comentar sobre como a medicina tem lidado com o fato de as vacinas serem testadas em humanos. O professor argumenta que não faz sentido apontar o procedimento adotado como antiético e desumano. “Vacinas não existiriam, e ainda não podem existir, sem testes em pessoas. Os testes podem ser, e em geral são, feitos de maneira ética e humana (respeitando o consentimento livre e esclarecido dos participantes e com ponderação do menor risco)”, explica.

Bonella acrescenta que antiético seria desincentivar testes sob o risco de não ter vacinas. “Só podem ser feitos com avaliação prévia dos dados e projetos e aprovação prévia pela Comissão Nacional de ética na pesquisa (Conep). Pelo que se sabe publicamente, todas essas [vacinas] em andamento no Brasil obtiveram ou estão obtendo tal aprovação antes de se começar os testes”, diz Bonella.

O autor e sua fonte

Na página do Facebook, Leandro de Jesus se descreve como “advogado que é da direita, conservador, também formado em gestão pública, inimigo declarado da esquerda e que fala verdades sem rodeios.” As postagens, basicamente, são de ataque a políticos — como o governador Rui Costa — e em defesa do presidente Jair Bolsonaro.

Em uma busca feita no Google aparece um escritório de advocacia com o nome do titular da pagina.

Leandro é pré-candidato a vereador e se define ainda gestor público.

No dia 13 de maio deste ano, em publicação no Facebook, lamenta que o Aliança Pelo Brasil, partido que o presidente tenta formar, não tenha ficado pronto antes do período eleitoral. Contudo, conseguiu filiação no partido do vice-presidente da República Hamilton Mourão, o PRTB. Além de uma página com quase 90 mil curtidas e mais de 120 mil seguidores no Facebook, o autor do post verificado pelo Comprova tem um blog em que divulga informações sobre a extrema direita.

Por que investigamos?

O Comprova, em 2020, está em sua terceira fase. Neste ciclo, a equipe verifica conteúdos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus. No caso da covid-19, mentiras e boatos que se espalham pelas redes sociais são ainda mais perigosos porque podem custar vidas.

A postagem de Leandro de Jesus, gera desconfiança e tem capacidade de fomentar movimentos que desestimulam voluntários a participar de testes importantes para que se encontre uma vacina capaz de frear o novo coronavírus. Além do mais, desinforma ao usar uma imagem fora do seu contexto e um argumento carente de validade científica e filosófica.

O post feito pelo pré-candidato a vereador no Facebook tinha 2,9 mil reações, 695 comentários e 2,6 mil compartilhamentos até o dia 14 de agosto. O mesmo conteúdo foi encontrado no Instagram com viralização menor.

Enganosos, para o Comprova, são os conteúdos retirados do contexto original e usados em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induzem a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdos que confundem, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2020-08-14

É falso que cloroquina teria salvado 100 mil vidas no Brasil, como diz Bolsonaro

  • Falso
Falso
Ao contrário do que afirma o presidente da República, não há comprovação científica de que a cloroquina e a hidroxicloroquina possam evitar a morte de pessoas com covid-19
  • Conteúdo verificado: Texto publicado pela página Pública Brasil repercute uma fala do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em que ele afirma que é a prova de que a cloroquina funciona contra a covid-19 e afirma que o medicamento teria evitado 100 mil mortes no Brasil.

É falso que o uso da cloroquina poderia ter salvado as mais de 100 mil vidas perdidas no Brasil durante a pandemia do novo coronavírus. A afirmação foi feita pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Não há, no entanto, comprovação científica da eficácia da droga no tratamento da doença.

O teste “Recovery”, feito pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, classificou como “inútil” a utilização da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. Os resultados não mostraram uma diferença considerável na taxa de mortalidade após 28 dias e no tempo em que os pacientes ficaram internados. De cada quatro pacientes que tomaram a medicação, um morreu.

A declaração de Bolsonaro foi feita durante um evento no Pará. Em sua fala, ele chegou a dizer que era “a prova viva que deu certo”. O presidente disse, no dia 7 de julho, que havia sido diagnosticado com covid-19. Em declarações posteriores, afirmou que havia se tratado com cloroquina e hidroxicloroquina.

Bolsonaro disse ter tido sintomas leves da doença. Pacientes com casos assim costumam levar entre uma e duas semanas para desenvolverem anticorpos e se curarem da doença, sem a necessidade de um remédio específico. A média da covid-19 no mundo é de que 80% das pessoas infectadas apresentam sintomas leves ou são assintomáticos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em torno de 14% têm quadros mais severos, que precisam de atendimento ambulatorial. Apenas 6% são casos críticos, de acordo com estudo feito com pacientes da China em fevereiro.

A cloroquina e a hidroxicloroquina são defendidas por Jair Bolsonaro desde o início da pandemia do novo coronavírus. A OMS, no entanto, interrompeu definitivamente seus estudos com a droga após atestar que elas não têm eficácia no tratamento da doença.

Como verificamos?

Com a viralização do texto publicado pela página Pública Brasil, procuramos via Google a declaração de Jair Bolsonaro para saber se era verdadeira e quando foi feita. Os primeiros resultados trouxeram as notícias da revista “Exame” e do portal “UOL”, que deram detalhes de que o discurso havia acontecido em um evento no Pará, no dia 13 de agosto.

Em outras verificações feitas pelo Comprova, encontramos as informações sobre a falta de eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19.

Na sequência, procuramos com a ferramenta CrowdTangle posts que pudessem ter viralizado nas redes sociais.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 13 de agosto de 2020.

Verificação

Jair Bolsonaro

O presidente da República é abertamente defensor do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, mesmo sem comprovação científica. Ele ordenou que o Laboratório do Exército produzisse os medicamentos e a pressão pela adoção das substâncias custou o cargo de dois ministros da Saúde: Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

Em maio, o Ministério da Saúde, já sob a gestão do interino Eduardo Pazuello, alterou o protocolo e ampliou a possibilidade do uso dos medicamentos para pacientes com sintomas leves da covid-19 – até então, elas eram previstas apenas em casos graves e com monitoramento em hospitais.

Na última semana, Bolsonaro participou de uma live ao lado de Pazuello, e voltou a defender o uso das drogas. “Quem não quer tomar cloroquina, não tente proibir, impedir quem queira tomar, afinal de contas, ainda não temos uma vacina e não temos um remédio comprovado cientificamente”, disse.

Cloroquina e hidroxicloroquina

Apesar da propaganda do presidente, não há comprovação científica da eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento ou prevenção da covid-19. A ideia de que as drogas — indicadas para o tratamento da malária e de doenças autoimunes, como lúpus — pudessem ser prescritas para pacientes infectados pelo novo coronavírus surgiu por causa de uma pesquisa de 2005, que indicava efeitos positivos contra outros tipos de coronavírus em laboratório. Mas os testes em humanos nunca aconteceram.

Em março de 2020, já com a pandemia se espalhando pelo planeta, o médico francês Didier Raoult publicou um estudo afirmando que o uso da cloroquina teria curado 75% dos pacientes com covid-19 em seis dias. A pesquisa foi alvo de críticas da revista Science, referência em estudos científicos, e seus resultados foram questionados e considerados incompletos.

Estudos realizados de acordo com o padrão ouro para pesquisa com medicamentos — que exige testes com grupos de controle e o uso de placebos — publicados no Journal of the American Medical Association (Jama) e no British Medical Journal (BMJ) – apontaram que pacientes tratados com cloroquina e hidroxicloroquina não tiveram melhores resultados que aqueles que não receberam os mesmos remédios. Uma pesquisa realizada em 55 hospitais brasileiros e publicada no New England Journal of Medicine (NEJM) chegou às mesmas conclusões.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o National Health Service, do Reino Unido, cancelaram estudos com cloroquina e hidroxicloroquina. E, em julho, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) publicou um informe em que afirma ser “urgente e necessário que a hidroxicloroquina seja abandonada no tratamento de qualquer fase da covid-19” diante das novas evidências científicas.

O Ministério da Saúde já distribuiu 5 milhões de comprimidos de cloroquina e ainda tem mais 4 milhões em estoque. Enquanto sobra cloroquina, faltam insumos para pacientes internados nas UTIs, como sedativos, anestésicos, analgésicos e bloqueadores neuromusculares. Esses medicamentos são fundamentais para os pacientes em estado grave que precisam ser intubados.

Por que investigamos?

Em 2020, o Comprova está na sua terceira fase. Nesta etapa, a equipe verifica conteúdos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus. No caso da covid-19, mentiras e boatos que se espalham pelas redes sociais são ainda mais perigosos porque podem custar vidas.

O Brasil é o segundo país mais atingido pela pandemia no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. De acordo com dados da Universidade Johns Hopkins, já foram confirmados 3.164.785 casos da doença e 104.201 pessoas morreram.

Mais que uma questão de saúde pública, a covid-19 virou tema de debates políticos no Brasil. Muitos governadores e prefeitos defendem medidas não farmacológicas recomendadas pela OMS, como o distanciamento social, o uso de máscaras e a higiene das mãos. Do outro lado, o presidente Jair Bolsonaro, que defende uma retomada imediata da economia e minimiza os efeitos da doença. Bolsonaro chegou a chamar a covid-19 de “gripezinha”.

O texto sobre a declaração no Pará foi publicado pela página Pública Brasil no dia 13 de agosto e teve 1,6 mil interações em menos de 24 horas. O site se descreve como “independente” e afirma que publica notícias e opiniões “com coragem para críticas isentas doa a quem doer” em seu perfil no Twitter. Mas boa parte do conteúdo repete o discurso de Bolsonaro e seus apoiadores. A Pública Brasil chegou a compartilhar o conteúdo no Twitter e no Facebook, com um alcance bem menor.

O texto da Pública Brasil credita parte das informações sobre o discurso de Bolsonaro ao Pleno News. O site também dá destaque à declaração sobre as 100 mil mortes que teriam sido evitadas com a cloroquina. No perfil do site no Facebook, o texto teve mais de 13,2 mil interações — 1,4 mil comentários, 1,8 mil compartilhamentos e 10 mil reações.

Já o Jornal da Cidade Online trouxe um vídeo com o discurso do do presidente, em que ele diz que é a “prova viva” da eficácia da droga. O conteúdo também viralizou no perfil do site no Facebook, com um total de 1,5 mil interações. Tanto o Jornal da Cidade Online quanto o Pleno News costumam publicar conteúdo favorável às políticas de Bolsonaro e já foram alvo de verificações do Comprova.

O Comprova já verificou diversos conteúdos que defendiam o uso da cloroquina, como estudos sem comprovação científica, textos falando do uso da droga em outros países e declarações polêmicas de médicos. Declarações de Bolsonaro e seus apoiadores sobre a pandemia também já foram checadas.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Saúde

Investigado por: 2020-08-13

Senador engana ao usar falas antigas de Drauzio Varella sobre pandemia

  • Enganoso
Enganoso
Trechos de vídeo gravado por Drauzio Varella antes do alastramento da pandemia de covid-19 na Europa e no Brasil foram tirados de contexto por Marcos do Val
  • Conteúdo verificado: Post do senador Marcos do Val (Podemos-ES) no Facebook utiliza trechos de um vídeo gravado no início da pandemia, e que já foi tirado do ar, pelo médico Drauzio Varella para tentar minimizar a gravidade da emergência sanitária.

Um vídeo postado na página de Facebook do senador Marcos do Val (Podemos-ES) engana ao reproduzir trechos de uma fala do médico Drauzio Varella no início da pandemia da covid-19. O vídeo destaca, em um tom irônico, que Varella minimizou a gravidade da emergência sanitária, mas omite que o médico já afirmou publicamente ter subestimado a doença e que, atualmente, se posiciona de maneira contrária.

A postagem do senador não informa que as declarações de Drauzio Varella são de janeiro, quando o epicentro da doença ainda era a China e o segundo país com mais casos tinha apenas 14 infectados. Elas já haviam viralizado em março após o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, publicá-las no Twitter. Naquela oportunidade, a rede social apagou as mensagens de Salles, alegando que as postagens do ministro poderiam colocar a saúde das pessoas em risco.

A publicação do senador Marcos do Val compara as falas com outro vídeo publicado por Varella em março, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia reconhecido a doença como uma pandemia e, no Brasil, o Ministério da Saúde anunciava transmissão comunitária do vírus — isto é, ele já circulava livremente em território nacional.

Como verificamos?

Para apurar a publicação do senador Marcos do Val fizemos, em primeiro lugar, uma busca reversa por imagens no Google. Por meio da pesquisa, localizamos um vídeo de autoria do site Programa Resumo do Dia, postado no YouTube em março — mesmo mês em que um pronunciamento de Drauzio Varella sobre a pandemia foi tirado de contexto e viralizou nas redes sociais.

Recuperamos verificações que outras agências fizeram naquele momento para checar se o vídeo postado pelo senador teria alguma relação com o conteúdo que viralizou em março. Além disso, contatamos as assessorias de Drauzio Varella e do senador Marcos do Val.

Procuramos, ainda, o site responsável pelo vídeo, que até o fechamento desta verificação não retornou o contato.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 13 de agosto de 2020.

Verificação

O primeiro vídeo

O vídeo compartilhado pelo senador Marcos do Val é, na verdade, uma edição com trechos pinçados de duas gravações antigas, postadas por Drauzio Varella em seu canal no YouTube. A mais antiga é a que aparece do lado direito na postagem do senador. Nela, Varella tenta tranquilizar as pessoas sobre o novo coronavírus com frases como “claro que vou (continuar andando na rua)”. As declarações, porém, foram dadas quando a doença estava em um estágio muito inicial.

O vídeo havia sido publicado em 30 de janeiro, praticamente um mês antes de o Brasil confirmar o primeiro caso da doença. Naquela data, a AFP informou existirem 7,7 mil pessoas contaminadas em todo o mundo e a China ainda era o epicentro da doença. O segundo país com mais casos até então era a Tailândia, com 14 pessoas infectadas.

Essas declarações do médico viralizaram pela primeira vez no dia 22 de março, quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o senador Flávio Bolsonaro compartilharam o conteúdo sem especificar a data em que ele foi gravado. A manifestação levou a equipe de Drauzio Varella a retirar o vídeo do ar. O Twitter apagou as mensagens de Salles e o ministro pediu desculpas publicamente, afirmando que não tinha o objetivo de desinformar, mas de “demonstrar que o tema é dinâmico, complexo e comporta discussões e opiniões distintas”.

O segundo vídeo

Um dia depois, em 23 de março, Drauzio publicou no YouTube o segundo vídeo usado na postagem de Do Val, o que aparece do lado esquerdo. Em trechos excluídos da publicação do senador, o médico afirma que não é hora de “politizar” a questão e afirma que é necessário seguir as orientações da ciência. Quando esse segundo vídeo foi gravado, o cenário da covid-19 se agravava no Brasil e no mundo.

Poucos dias antes, em 20 de março, o Ministério da Saúde havia anunciado a existência de transmissão comunitária do SARS-CoV-2 no Brasil. Ou seja, a partir daquele momento, o vírus estava circulando livremente no país e não era mais possível identificar a origem das infecções. O Brasil tinha, até então, 904 casos confirmados e 11 mortes pela covid-19. No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde havia declarado uma pandemia em função da “disseminação geográfica rápida” da doença em uma “escala de tempo muito curta” com “níveis alarmantes de contaminação” e “falta de ação dos governos”.

Até a data de publicação do segundo vídeo, 353 mil pessoas em todo o mundo haviam sido diagnosticadas com o novo coronavírus e 15 mil pessoas já haviam morrido de covid-19, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. Esse número é 43,5 vezes maior do que o registrado em 30 de janeiro, quando Drauzio publicou o primeiro vídeo.

O que Drauzio Varella diz

Em março, quando autoridades postaram o vídeo pela primeira vez, o portal Drauzio Varella publicou uma nota classificando as publicações como “desserviço”. “No início deste ano, a pandemia não havia chegado ao Brasil, portanto, produzimos conteúdo para acalmar a população que, à época, não tinha motivos para alterar o ritmo de vida diário”, explica o texto. Segundo a nota, a mudança de tom nos vídeos se deve à “mudança drástica” na situação da pandemia. “Orientações antigas não servem para este momento”, argumenta o texto.

Em abril, em entrevista ao UOL, o médico admitiu ter subestimado a gravidade da doença em âmbito mundial. “Não só eu, muitos [especialistas] subestimaram o que estava acontecendo. E o que aconteceu é que nenhum país se preparou no Ocidente. A Itália não se preparou, a Espanha não se preparou, os Estados Unidos não se prepararam”, afirmou Drauzio na ocasião.

A assessoria do médico destacou, em e-mail enviado ao Comprova, que — em se tratando de ciência — a mudança de posicionamento é natural. “É justamente assim que a ciência funciona. Fazendo deduções embasadas no conhecimento científico prévio, testando hipóteses, descobrindo que deduções anteriores estavam equivocadas, identificando onde está o equívoco e corrigindo”, afirma.

A nota ressaltou ainda que, na época, a opinião de Drauzio sobre a covid-19 era a mesma de outras autoridades médicas, como do infectologista americano Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos. “Em janeiro, a doença não havia chegado àquele país, e só nos últimos dias daquele mês chegaria à Itália. Foi a situação italiana que tornou mais evidente para o mundo o potencial da doença”, argumenta.

Em relação à postagem do senador Marcos do Val, a assessoria considera que os trechos dos vídeos do médico foram usados de maneira indevida, e reitera que tirá-los do contexto é um “desserviço” à saúde. A nota afirma ainda que “tal conduta mostra que o compartilhamento é feito por alguém que, nitidamente, tem pouco ou nenhum conhecimento sobre ciência, ou tem propósitos que desconhecemos”.

Quem é e o que diz Marcos do Val

Marcos do Val foi eleito senador pelo Espírito Santo em 2018, e cumpre atualmente seu primeiro mandato. Ex-militar, o parlamentar é vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional e titular de outras sete comissões no Senado.

Segundo informações do jornal Folha de S.Paulo, o senador destinou a municípios do Espírito Santo mais de R$ 10 milhões para a compra de medicamentos sem comprovação científica para a cura ou a prevenção do coronavírus — como a ivermectina, azitromicina e hidroxicloroquina (todos já foram objeto de verificações do Comprova). Os recursos advieram da portaria 1.666/20, por meio da qual o governo federal concedeu R$ 13,8 bilhões para ações de enfrentamento à pandemia.

Procurado pelo Comprova, o senador afirmou que, em ambos os vídeos, a fala comprovadamente é de Drauzio Varella. Segundo Do Val, ninguém falou pelo médico ou forjou o vídeo. “Se o médico, que é uma pessoa pública e sabe das suas responsabilidades perante a sociedade, fez mesmo assim os vídeos e depois achou conveniente ‘retirar’ do ar, não significa que não seja verdadeiro, portanto não compreendemos o seu questionamento”, afirmou o senador, por meio de nota.

Recentemente, o senador esteve envolvido em outro caso de promoção de desinformação nas redes sociais. No dia 6 de agosto, a Justiça do Rio de Janeiro ordenou, em decisão liminar, que Do Val excluísse publicações consideradas ofensivas e difamatórias contra o ex-deputado Jean Wyllys (PSOL). Nas postagens, o senador relacionou, sem apresentar qualquer prova, Wyllys a Adélio Bispo — que cometeu um atentado contra o presidente Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos sobre a pandemia de covid-19 que tenham viralizado nas redes sociais. É o caso desse vídeo, que teve mais de 53 mil interações na página do senador Marcos do Val no Facebook e 28.887 visualizações no Youtube. O conteúdo tem sido compartilhado em páginas de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nas redes sociais, segundo dados da ferramenta CrowdTangle.

Verificações como esta são importantes porque o compartilhamento de conteúdos enganosos ou fora de contexto sobre a pandemia de covid-19 pode levar as pessoas a avaliarem mal o risco de infecções, e fazer com que elas se exponham a contaminação. O fato de o médico Drauzio Varella ser conhecido nacionalmente é um agravante nesse contexto.

Desde o início da pandemia, mais de 20,7 milhões de pessoas em todo o mundo foram diagnosticadas com o novo coronavírus. Dessas, 751,4 mil faleceram em decorrência da covid-19, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. No Brasil, o Ministério da Saúde já registrou mais de 3,1 milhões de infectados e 104,2 mil óbitos pelo Sars-CoV-2.

Quando o vídeo com as falas do médico Drauzio Varella viralizou pela primeira vez, em março, a AFP, a Folha de S.Paulo, o Estadão Verifica e a Agência Lupa classificaram o conteúdo como enganoso ou fora de contexto.

Enganoso, para o Comprova, é todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado ou o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2020-08-13

É falso que João Doria tomou vacina chinesa contra a covid-19

  • Falso
Falso
Ao contrário do que escreveu no Twitter um pré-candidato a vereador, o governador de São Paulo, que está com coronavírus, não tomou a vacina da farmacêutica Sinovac Biotech, que ainda está em testes
  • Conteúdo verificado: Uma postagem feita no Twitter por Carmelo Neto, pré-candidato a vereador em Fortaleza (CE), insinua que João Doria tomou a vacina chinesa contra o novo coronavírus ao afirmar “João Doria pegou coronavírus. Não foi ele que tomou e defendeu a vacina chinesa?”.

É falso que João Doria (PSDB), governador de São Paulo, tenha tomado a vacina chinesa CoronaVac, da farmacêutica Sinovac Biotech. O boato foi publicado por Carmelo Neto (Republicanos), pré-candidato a vereador em Fortaleza (CE), no Twitter, no Facebook e no Instagram.

O post foi feito depois de Doria ter anunciado que foi diagnosticado com a covid-19. Ao insinuar que o governador já havia sido vacinado, Neto levantou dúvidas sobre a contaminação e sobre a eficácia da proteção.

Pelo Twitter, João Doria chamou de “fake news” as insinuações de que teria tomado a vacina. “Estou indignado com posturas extremistas e mentirosas, que em nada contribuem para o combate à pandemia. Lamentável que uma minoria tente politizar algo que pode salvar milhões de vidas. O Brasil precisa de união e compaixão”, escreveu.

O Comprova já verificou um vídeo falso que supostamente mostrava João Doria tomando a vacina chinesa contra a covid-19. A imagem, na verdade, era de uma reportagem da Globo, em março, quando o governador tomou a vacina anual da gripe.

Em contato por mensagem com o Comprova, Carmelo disse ter feito um questionamento. “O governo de São Paulo iniciou os testes com a vacina chinesa e algumas imagens do governador João Doria, como se estivesse em uma fila, circularam na internet. Fiz a postagem em tom de questionamento.”

A vacina da Sinovac ainda está em fase de testes. A farmacêutica chinesa está trabalhando em parceria com o governo paulista e o Instituto Butantan. A expectativa de Dimas Covas, diretor do órgão, é de que a vacinação no Brasil comece em janeiro do próximo ano, caso os testes comprovem a eficácia da imunização.

Como verificamos?

No primeiro passo de verificação, o Comprova procurou por notícias envolvendo a vacina chinesa. Os resultados mostraram uma entrevista de Dimas Covas para a revista “Veja” em que fala sobre as 15 milhões de doses que chegarão ao país até o fim do ano. Em outra entrevista, para a “Folha de S.Paulo”, o diretor do Butantan afirma esperar que os testes se encerrem em setembro.

Por meio de outras verificações feitas pelo Comprova, encontramos as explicações para as informações falsas que estavam no post, envolvendo uma suposta vacinação de João Doria.

Tentamos contato com Carmelo Neto por dois números de telefone, sendo um deles o divulgado pelo pré-candidato em seu Facebook. Realizamos uma entrevista por mensagem.

 

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 12 de agosto de 2020.

Verificação

Vacina chinesa

O Estado de São Paulo é parceiro nas pesquisas com a CoronaVac, da farmacêutica chinesa Sinovac Biotech. No fim de julho, o governador João Doria (PSDB) anunciou a chegada de 20 mil doses que seriam usadas no estudo experimental, comandado no país pelo Instituto Butantan.

O último teste que será realizado, o chamado “ensaio clínico”, envolverá 9 mil voluntários em 12 de centros de pesquisa de seis estados (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Distrito Federal). O Instituto Butantan espera até setembro vacinar todos os voluntários e ter a demonstração de eficácia entre outubro e novembro.

“Se a gente terminar a inclusão dos 9 mil até setembro, e esse é o plano, é grande a probabilidade de termos em outubro ou novembro a demonstração de eficácia. Paralelamente, existe uma manifestação da Anvisa de que haverá um processo acelerado de análise. Quando eu falo que podemos ter de fato uma vacinação inicial em janeiro, ela não é fora da análise crua do cenário”, disse Dimas Covas, diretor do Butantan.

Apesar da expectativa de Dimas Covas, a revista “Piauí” mostrou que o acompanhamento dos voluntários que participam dos testes só terminaria em outubro de 2021. A data é estimada pelo próprio Instituto Butantan, que afirmou que as declarações de Covas e Doria “traduzem a expectativa positiva dos pesquisadores”.

Covas disse que a previsão é de que as 15 milhões de doses iniciais da vacina cheguem a São Paulo até dezembro deste ano. Os lotes seriam enviados em grupos de 5 milhões por mês, a partir de outubro, já prontos para uso. A expectativa do governo paulista é de iniciar a vacinação em janeiro do ano que vem.

A vacina da Sinovac foi uma das que tiveram sucesso nos estudos clínicos e avançaram para a testagem em humanos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a vacina chinesa está na terceira etapa de testes.

Recentemente, o Comprova mostrou ser falsa a afirmação de que João Doria teria firmado uma parceria com a Sinovac no ano passado, antes do início da pandemia. A assinatura do contrato foi feita em 10 de junho de 2020.

Carmelo Neto

Filiado ao Republicanos, Carmelo tem 18 anos e é pré-candidato a vereador em Fortaleza. Ativista nas redes sociais desde a campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff, foi coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL) e hoje defende as políticas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). No Facebook, possui 264 mil seguidores; no Twitter, 120 mil; e no Instagram, 108 mil. Após ser procurado pela reportagem, Carmelo deletou as postagens no Facebook e no Instagram, mas manteve a do Twitter, até o fechamento deste texto.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos que apresentam informações suspeitas sobre a pandemia do novo coronavírus e alcançam um grande número de pessoas nas redes sociais. É o caso da postagem em questão. Até a data da publicação da verificação, menos de doze horas após as postagens no Twitter e no Facebook nas páginas de Carmelo, já superavam 5 mil compartilhamentos. A postagem ainda foi reproduzida no seu Instagram, com mais de 2 mil interações.

Falso para o Comprova é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Saúde

Investigado por: 2020-08-13

Texto leva a conclusão equivocada ao ignorar ineficiência de medidas defendidas por Bolsonaro na pandemia

  • Enganoso
Enganoso
Publicação diz que o presidente da República não pode ser responsabilizado pelas mortes por covid-19 porque medidas defendidas por ele não foram adotadas, mas não há comprovação científica de que essas ações tenham eficiência contra a pandemia
  • Conteúdo verificado: Publicação em um perfil no Facebook e replicada por site afirma que ações defendidas pelo presidente Bolsonaro no combate à pandemia não foram implementadas e, logo, não é possível culpar o mandatário pelas mortes e o avanço da doença, que soma mais de 103 mil óbitos.

Um perfil de Facebook que usa o nome Bituca Von Wittgenstein alega que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não pode ser responsabilizado pelas mortes decorrentes da pandemia porque medidas defendidas por ele, como isolamento vertical e tratamento precoce com cloroquina e azitromicina, não foram colocadas em prática. O texto leva a conclusões enganosas já que dois dos três pontos levantados pelo post não têm eficiência comprovada contra a covid-19.

Em conversa com o Comprova, o titular do perfil afirmou: “Que o presidente teve esse posicionamento que eu escrevi no texto, ele teve; se ele é bom ou ruim, são outros 500, não fiz esse juízo de valor. Então, não existe a possibilidade, na minha concepção, de se falar em qualquer tipo de fake news em relação ao posicionamento dele”.

O perfil fez a postagem às 8h45 do dia 10 de agosto. O site Jornal da Cidade Online publicou o material 25 minutos depois como artigo de opinião. O texto viralizou rapidamente.

Como verificamos?

A primeira ação do Comprova para verificar o conteúdo foi tentar descobrir quem era o autor das postagens. Para isso, foram enviadas mensagens ao perfil de Bituca Von Wittgenstein no Facebook. Por meio de informações coletadas na rede social e pesquisa no LinkedIn, foi possível encontrar o responsável..

O Jornal da Cidade Online também foi contatado – o Comprova conversou, com seu editor, José Tolentino, por e-mail.

Também buscamos contato com algum especialista que pudesse elucidar melhor as informações técnicas da postagem. Naomar de Almeida Filho, epidemiologista, professor titular de epidemiologia do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) trouxe esclarecimentos sobre o isolamento vertical.

Foi utilizado o buscador Google para encontrar reportagens publicadas na imprensa e documentos públicos sobre tratamentos para covid-19, ações do governo federal para barrar a contaminação, a relação do presidente Jair Bolsonaro com prefeitos e governadores em tempos de pandemia e a atuação do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que é citado num terceiro ponto do texto.

Acionamos, via WhatsApp, o jornalista Milton Cardoso, que na noite do dia 10 de agosto – mesma data da postagem de Bituca Von Wittgenstein, publicada de manhã – fez um comentário com informações similares às do post no programa Band Cidade RS. A fala do comunicador gaúcho, inclusive, foi compartilhada nas redes sociais do presidente Jair Bolsonaro.

Usamos as ferramentas TweetDeck e CrowdTangle para monitorar o desempenho da publicação de Bituca Von Wittgenstein nas redes sociais.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 12 de agosto de 2020.

Verificação

O autor do texto

A página de Bituca Von Wittgenstein no Facebook tem a foto de um cão com a legenda “Bolsonaro tem meu apoio” e o presidente na imagem de capa. É apresentada como “Um cachorro defensor da moral e dos bons costumes. Odeio banho e petista!”. Já o sobrenome é o mesmo de Ludwig Wittgenstein, um dos principais filósofos do século XX.

Bituca publica fotos do cachorro e posts sobre política. Só em agosto, minimizou a gravidade de pandemia, insultou uma jornalista e criticou bolsonaristas que postam conteúdos falsos.

No dia 4 de agosto, o perfil publicou um post sobre a criação de uma página no Facebook em parceria com dois amigos. Ao clicar no link deste outro perfil, há um post do mesmo dia dando boas-vindas. No final, três pessoas assinam a publicação: duas são as mesmas citadas como amigas de Bituca e, a terceira, é “Fernando Vaisman (Bituca)”. Fazendo uma busca pelo nome no Google, aparece uma página no LinkedIn com a foto do mesmo homem que está em posts do perfil de Bituca como o dono do cãozinho. Segundo o LinkedIn, ele é sócio-diretor da empresa e formado em direito.

Em uma busca no Google pelo nome da empresa informada no LinkedIn, foi possível encontrar um número de telefone, que o Comprova confirmou ser o de Vaisman ao falar com ele por WhatsApp.

Lockdown não é eficaz?

O post afirma: “O presidente era contra o lockdown. Defendia o isolamento vertical desde o início. A vontade do presidente foi ignorada por prefeitos, governadores e pelo STF e, assim, cada um faz o que acha melhor, mesmo que as decisões sejam completamente incoerentes e absurdas”.

Mas, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o lockdown é uma das poucas formas conhecidas de combate ao novo coronavírus. Em 1º de abril, Michael Ryan, diretor-executivo do Programa de Emergências da entidade, afirmou: “Além das medidas de lockdown, precisamos de estratégias abrangentes baseadas em vigilância, em intervenção de saúde pública, detecção de casos, testagem, isolamento, quarentena, e fortalecer nossos sistemas de saúde para absorver o golpe”.

Já em 20 de julho, um tuíte da organização assinado por seu diretor-geral, Tedros Adhanom, informou: “Como dissemos várias vezes, as chamadas medidas de lockdown podem ajudar a reduzir a transmissão da covid-19, mas não podem pará-la por completo” e cita o rastreamento de contatos como essencial para isolar os casos.

Em uma análise do isolamento vertical (que isola apenas os grupos de risco e é defendido por Bolsonaro) publicada no Nexo, em 25 de março, Eduardo Flores, virologista e professor do curso de medicina veterinária da Universidade Federal de Santa Maria, diz que o presidente “está na contramão de milhares de autoridades sanitárias e cientistas de todo mundo”.

O Reino Unido, assim como o Brasil, foi um dos países que minimizaram o perigo do vírus, com seu premiê recomendando, no início de março, que “a grande maioria” dos cidadãos continuassem tocando seus negócios “como sempre”. Mas, em 23 de março Boris Johnson decretou o lockdown. A situação do país estava tão grave que a rainha Elizabeth 2ª defendeu medidas de confinamento social em um pronunciamento. Até o fechamento deste texto, o país, de 66,65 milhões de habitantes, contabilizava 46.791 mortes, segundo a Johns Hopkins University.

A Suécia adotou o isolamento vertical e teve a mais alta taxa de letalidade entre os países nórdicos. Foram 5.774 mortes para 10,2 milhões de habitantes. Por outro lado, Dinamarca e Noruega, que instauraram o lockdown e têm, somados, 11,2 milhões de habitantes, tiveram menos de 900 óbitos.

Entre os países que adotaram o isolamento vertical e obtiveram bons resultados está a Coreia do Sul, que aliou a medida a outras estratégias, como testagens em massa e utilização de tecnologia para rastrear a movimentação dessas pessoas. Foram 305 óbitos em uma população de 51,6 milhões de pessoas.

Já a Nova Zelândia, que, entre outras ações, decretou o lockdown rapidamente após o primeiro caso de contágio, em 28 de fevereiro, é um dos países mais bem-sucedidos no combate à pandemia. Estava há 102 dias sem novos casos de transmissão local até que em 11 de agosto anunciou quatro infecções de origem desconhecida em Auckland. Com isso, a primeira-ministra do país, Jacinda Ardern, impôs um confinamento à cidade. No total, foram 1.579 casos de covid-19 confirmados e 22 mortes no país.

O Comprova questionou Vaisman sobre os bons resultados obtidos na Nova Zelândia com a adoção das políticas rígidas de isolamento. Ele acredita que há uma série de desinformações” sobre outros países e que “ninguém sabe efetivamente o que aconteceu em cada país”.

Recurso inválido

Segundo o epidemiologista Naomar de Almeida Filho, que publicou em maio um artigo sobre o isolamento vertical na página oficial da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a medida é um recurso cientificamente inválido. “Em mais de 40 anos como professor e pesquisador em epidemiologia, nunca soube da existência dessa proposta. Com outros epidemiologistas, fiz uma busca cuidadosa na literatura médica e científica e nada encontrei”, afirmou o médico em entrevista ao Comprova.

Almeida Filho complementou que o isolamento vertical não é um conceito no campo da saúde coletiva nem no campo da medicina: “Por isso, eu o chamei de fraude pseudocientífica. Nunca foi proposto seriamente e, portanto, nunca foi usado para controlar epidemias no passado. Foi uma invenção de um consultor de negócios. Influenciado por conselheiros, Donald Trump mencionou essa ideia e, quase imediatamente, Bolsonaro adotou o isolamento vertical como política de governo.”

E continua: “Essa ideia fomenta a livre circulação dos contaminantes, buscando uma criminosa imunidade de rebanho, o que facilita o contágio e impede o bloqueio do processo epidêmico. O próprio Bolsonaro, e muitos seguidores, encorajaram a quebra de medidas de distanciamento”.

De acordo com o epidemiologista, isso trouxe como resultado “uma pandemia fora de qualquer controle. (…) Esperavam um pico, mas temos um platô, com média de mil mortes por dia, sem expectativa de redução da transmissão.”

A relação com prefeitos e governadores

A relação entre os governos federal, estaduais e municipais tem sido conflituosa no combate à pandemia. Em abril, Jair Bolsonaro disse, ao não encontrar consenso com governantes sobre o isolamento vertical, que poderia resolver a situação com uma canetada.

No mesmo mês, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), definiu que governos estaduais e municipais teriam autonomia para determinar o isolamento social. Chegou a circular nas redes sociais a informação falsa de que o Supremo teria afastado Bolsonaro do controle da covid-19. A mensagem foi desmentida em verificações da Agência Lupa e do Estadão Verifica.

Em junho, Bolsonaro usou o Twitter para criticar a adesão ao distanciamento social, afirmando que as medidas de combate à pandemia são determinadas por governadores e prefeitos.

Contudo, em julho, o presidente reconheceu que medidas de governadores e prefeitos “sempre visaram retardar contágio” da covid-19.

Em 8 de agosto, já com a marca de 100 mil mortes por covid-19, Bolsonaro enviou a parlamentares um relatório em que listava governadores e prefeitos dos locais com o maior número de novos óbitos e novos casos da doença. Em uma tentativa de se eximir das críticas pela condução do enfrentamento à doença, o chefe do Planalto atribuiu a responsabilidade pelo crescimento da pandemia aos gestores estaduais e municipais.

A azitromicina e a cloroquina

No segundo item da postagem, o perfil de Bituca assinala que “o presidente defendia desde lá atrás o tratamento precoce com cloroquina e azitromicina. Até agora há gente discutindo isso e criando problemas para o tratamento”. O responsável pela conta, Fernando Vaisman, justifica a declaração argumentando que o uso desses fármacos deve ser decisão do médico e do paciente, e que há diferença de tratamentos na rede pública ou privada. “Tenho casos de familiares que acabaram contraindo e quando foram ao médico, foi receitado azitromicina e hidroxicloroquina. Na rede pública, isso demorou muito para conseguir ser receitado, em especial para o tratamento precoce”, afirmou ao Comprova.

Ele complementou: “Ninguém está falando que tem que tomar hidroxicloroquina a torto e a direito, mas, a partir do momento que você adota isso como protocolo da rede pública, você permite ao médico receitar esse medicamento”.

Em 20 de maio, o Ministério da Saúde, já tendo como ministro interino o general Eduardo Pazuello, passou a orientar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no “tratamento medicamentoso precoce” de pacientes com o novo coronavírus, mas ressaltou que “ainda não há meta-análises (…) que comprovem o benefício inequívoco dessas medicações para o tratamento da covid-19”.

A azitromicina é um medicamento eficaz para o combate a bactérias e não tem ação documentada contra vírus, como o SARS-CoV-2. A droga é prescrita, de forma experimental e associada à hidroxicloroquina, a pacientes infectados com o novo coronavírus. Além disso, de acordo com a OMS, não há, até o momento, tratamento efetivo ou drogas comprovadas contra o novo coronavírus. Essa posição é ratificada por autoridades sanitárias como Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Questionado sobre o uso dessas medicações, o epidemiologista Naomar de Almeida Filho afirmou: “No caso da cloroquina, inclusive, há efeitos colaterais fatais. Isso é irresponsabilidade.”

As orientações do Ministério da Saúde

No terceiro item, Vaisman afirma: “O ministro da Saúde original (Mandetta) pregava que só se deveria ir ao hospital quando o paciente estivesse com falta de ar, o que só (sic) mostrou extremamente equivocado, já que, nesse caso, já há comprometimento dos pulmões e a chance de cura cai drasticamente. O ministro atual prega o tratamento precoce”.

De fato, durante a gestão de Luiz Henrique Mandetta, que ficou no cargo até 16 de abril, a cartilha divulgada pelo Ministério da Saúde com orientações sobre o novo coronavírus recomendava que só fosse procurado “um hospital de referência se estiver com falta de ar”. No caso de pacientes com apenas sintomas de gripe, a orientação era ficar em casa por 14 dias e seguir os conselhos da pasta para o isolamento domiciliar.

A falta de ar é indicativo de um quadro mais grave, que necessita de cuidados médicos – mas essa não é a maioria dos casos. Segundo um estudo da OMS de fevereiro, cerca de 80% das pessoas com covid-19 manifestam sintomas leves e acabam se curando em casa. Em torno de 14% têm quadros mais severos, que precisam de atendimento ambulatorial. E apenas cerca de 6% têm casos críticos.

Nesse sentido, a justificativa da orientação do Ministério da Saúde era evitar que o sistema de saúde ficasse sobrecarregado. Isso vale especialmente para o sistema de saúde público, responsável por atender três quartos da população brasileira. Além disso, a orientação visava diminuir os riscos de contaminação pelo novo coronavírus dentro dos próprios hospitais e postos de saúde, que poderiam ter aglomerações em filas ou salas de espera.

Essa foi a recomendação da pasta desde o início da pandemia, decretada em março pela OMS. Em julho, já sob a gestão do ministro interino da Saúde Eduardo Pazuello, o governo federal mudou a orientação, sugerindo às pessoas buscar assistência já nos primeiros sinais, como febre e tosse. O principal argumento foi aliviar a ocupação de UTIs.

A mudança coincide com a ampliação do uso da cloroquina para casos leves de covid-19, seguindo a agenda do presidente Jair Bolsonaro. O atendimento preventivo proposto pelo Ministério da Saúde propõe o uso desse medicamento e de seu derivado, hidroxicloroquina. Porém, no início de julho, a OMS retirou a cloroquina de seus testes científicos definitivamente. A entidade afirmou que o medicamento não resultou em “nenhuma redução da mortalidade de pacientes internados com covid-19 quando comparados ao padrão de atendimento”. Essa posição é ratificada por autoridades sanitárias como Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A viralização

No dia 10 de agosto, à noite, no programa Band Cidade RS, principal telejornal da rede no Rio Grande do Sul, o comentarista Milton Cardoso fez um comentário com informações bastante similares às do post de Bituca Von Wittgenstein, que já tinham sido republicadas pelo Jornal da Cidade pela manhã.

“O presidente Bolsonaro sempre foi contra o famoso lockdown. Defendia o isolamento vertical desde o início. A vontade do presidente foi ignorada por decisão do STF, com apoio da ‘Rede Goebbels’, repassada para prefeitos, governadores, com decisões incoerentes e absurdas. (…) Veja você, telespectador, Jair Bolsonaro defendia desde o início o tratamento precoce com azitromicina, hidroxicloroquina. Com 100 mil mortos agora, grande número de prefeitos e governadores decidiram colocar a medicação à disposição da população. (…) Tem gente que reclama do ministro da Saúde, mas o ministro da Saúde, o marqueteiro Mandetta, lembram? Pregava que o paciente só procurasse o hospital quando estivesse com falta de ar, o que provocou com certeza o comprometimento de pacientes que poderiam ter evitado a hospitalização, UTIs e óbitos. A pergunta que não quer calar, meus amigos Lúcia e Sérgio [âncoras do jornal]: se o que o presidente pregava e prega nunca foi praticado, como é que ele pode ser responsabilizado pelas mortes?”, afirmou Cardoso.

Entramos em contato com Cardoso via WhatsApp para entender se ele havia utilizado como fonte o post de Bituca e ele respondeu: “Nunca tive qualquer contato. Não uso redes sociais. Não conheço Bituca”.

Também perguntamos a Vaisman, responsável pela conta do Facebook, se sabia do comentário no Band Cidade RS e se havia alguma relação com o texto original. “Sinceramente, nem sei quem é esse cidadão. Eu, basicamente, não leio mainstream, não vejo televisão”, afirmou.

No dia seguinte, 11 de agosto, o presidente Jair Bolsonaro compartilhou o vídeo do comentário de Cardoso em suas redes sociais (Twitter, Facebook e YouTube), aumentando ainda mais a viralização do conteúdo. Em 12 de agosto, o site Coletiva.net publicou o texto “Com desinformação, comentário do jornalista Milton Cardoso é compartilhado por Bolsonaro”.

Por que investigamos?

Nesta terceira fase, o Comprova verifica conteúdos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia. Informações desencontradas, sem embasamento ou fora de contexto podem levar a população a agir de forma inadequada no combate ao novo coronavírus. O post de Bituca tinha 676 reações, 96 comentários e 294 compartilhamentos no Facebook até 12 de agosto. O alcance foi ampliado pela republicação no Jornal da Cidade Online, que atingiu 131 mil interações, segundo a ferramenta CrowdTangle – só no perfil do site foram 39 mil likes, 7,5 mil comentários e 21 mil compartilhamentos.

Ao levar o leitor a acreditar que Bolsonaro não pode ser responsabilizado pelos mais de 100 mil óbitos no país porque medidas que ele defendeu não teriam sido implementadas, o texto verificado ignora que duas das três ações não têm eficácia comprovada contra o vírus e não têm o apoio de autoridades sanitárias. Verificações tentando minimizar o impacto da pandemia já foram publicadas pelo Comprova, como a do médico que usou dados enganosos para sugerir conspiração sobre a covid-19, da publicação que dizia que a pandemia estava em declínio e do vídeo que afirmava que vírus da covid-19 existe desde 2003.

Enganosos, para o Comprova, são os conteúdos retirados do contexto original e usados em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induzem a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdos que confundem, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Saúde

Investigado por: 2020-08-12

Postagem com cápsula vazia não prova “conspiração” de prefeitos contra cloroquina

  • Falso
Falso
Meme que viralizou nas redes sociais faz uma montagem com imagem de um caso que envolve outro medicamento. A montagem sugere que o conteúdo teria sido postado no perfil de Twitter de Roberto Jefferson. A assessoria do ex-deputado nega a publicação
  • Conteúdo verificado: Publicação no Facebook que mostra a captura de tela de uma postagem supostamente feita pelo presidente nacional do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Roberto Jefferson, afirmando que cápsulas de cloroquina foram esvaziadas para “provar” que este medicamento não funciona.

É falso o conteúdo de uma publicação feita no Facebook que afirma que cápsulas de cloroquina vazias foram distribuídas por prefeitos para “provar que o medicamento não tem eficácia contra a covid-19”. A informação foi compartilhada milhares de vezes nas redes sociais desde o último dia 7 de agosto junto com a imagem de uma cápsula de remédio aberta.

A imagem viralizada se trata, na verdade, do frame de um vídeo sobre um caso ocorrido no município de Pontes e Lacerda, no Mato Grosso. A gravação em questão foi feita por uma mulher que recebeu ivermectina – não cloroquina – no hospital privado Vale do Guaporé, na cidade mato-grossense.

Essas publicações são, por vezes, acompanhadas de uma captura de tela de celular em que se vê a identificação do perfil @blogdojefferson, sugerindo que a postagem seria de Roberto Jefferson, presidente nacional do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). A única conta encontrada pelo Comprova em redes sociais cujo usuário é “@blogdojefferson” é de um dos perfis de Jefferson no Twitter. Ele, no entanto, está impedido de fazer postagens com esse perfil desde o fim de julho por uma determinação da justiça relacionada ao inquérito das fake news. A assessoria do político afirmou que ele não fez esta publicação e que se trata de uma montagem.

O conteúdo investigado pelo Comprova culpa os prefeitos pela distribuição das cápsulas vazias. No caso da gravação de onde foi tirada a imagem, não há participação da prefeitura. O Hospital Vale do Guaporé fechou uma parceria com empresários locais para a distribuição da ivermectina como forma de profilaxia contra a covid-19, embora ela não tenha eficácia comprovada. Coordenadores da ação ouvidos pelo Comprova disseram que o projeto não recebeu dinheiro público e que não tem cunho político.

Como verificamos?

O Comprova iniciou a verificação fazendo uma busca no Google, que levou a uma matéria publicada em julho deste ano. Ela mencionava um vídeo no qual uma pessoa mostrava uma cápsula vazia de ivermectina entregue por um projeto realizado por empresários da cidade de Pontes e Lacerda, no Hospital Vale do Guaporé, e indicava que a coordenadora da ação, Eliana Matsuda, havia se manifestado.

Por meio de uma pesquisa nas redes sociais pelas palavras “ivermectina + cápsulas + vazias” foi possível, ainda, encontrar três vídeos, um deles publicado em 3 de agosto, nos quais se via o medicamento prescrito e se ouvia a voz de uma mulher que contava como descobriu que a cápsula de ivermectina estava vazia.

Entramos em contato com a Secretaria Municipal de Saúde, com a Prefeitura de Pontes e Lacerda, com o Conselho Municipal de Saúde e com o Hospital Vale do Guaporé.

O Comprova conversou com Eliana Matsuda, a respeito do projeto e do vídeo da cápsula esvaziada, e com a assessoria de imprensa de Roberto Jefferson, sobre a publicação supostamente feita por ele.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 12 de agosto de 2020.

Verificação

Ivermectina, não cloroquina

Uma pesquisa inicial no Google mostrou que uma história semelhante à da suposta cápsula de cloroquina vazia havia ocorrido em uma cidade do Mato Grosso, Pontes e Lacerda, mas com a ivermectina. A partir desta informação, o Comprova buscou por publicações que mencionassem a “ivermectina esvaziada”, chegando a três postagens.

Os vídeos, com uma qualidade superior às das fotos viralizadas nas redes sociais, possibilitaram a identificação do nome do medicamento: ivermectina de 6mg.

No vídeo, uma mulher diz: “Eu fui na Santa Casa pegar uma ivermectina para poder tomar mais a minha filha. […] E hoje era a data certa de tomar a segunda dose, com 15 dias. […] Ela tomou um comprimido e o outro, por curiosidade, eu acredito, ela foi e abriu. Olha o que tinha dentro da cápsula. Nada!”.

A imagem, compartilhada nas redes, de fato, corresponde a um fragmento do vídeo em que a mulher mostra a cápsula de ivermectina vazia.

A partir da informação do local onde isso teria ocorrido e o nome da coordenadora do projeto mencionado, Eliana Matsuda, a equipe do Comprova fez uma busca no Facebook e encontrou uma transmissão ao vivo realizada em 2 de julho de 2020 pela página Lacerda 24 horas com Matsuda em frente ao Hospital Vale do Guaporé (HVG).

Segundo a descrição do vídeo, tratava-se de um grupo de empresários que montou uma campanha para o “bloqueio” da covid-19 em Pontes e Lacerda e que distribuiria 10 mil doses de ivermectina gratuitamente.

Com início em 6 de julho, a campanha, segundo Eliana Matsuda, era uma parceria entre empresas, o Hospital Vale do Guaporé e médicos. O protocolo de medicação, por sua vez, foi feito pela doutora Jaqueline Margonato, do HVG.

A coordenadora do projeto e a doutora Jaqueline ressaltaram que, embora existam médicos que defendem o uso do medicamento, não há comprovação científica da sua eficácia na profilaxia da covid-19.

O Comprova conversou com Eliana Matsuda. Ela disse que a iniciativa foi firmada entre empresários e o hospital sem “cunho político nem dinheiro público”.

Também falamos por telefone com Claudenice Luiza Lima, administradora do hospital. Ela reiterou que a mulher que gravou o vídeo não entrou em contato com a instituição e que o laboratório onde os medicamentos foram comprados disse “não haver possibilidade de a cápsula ter ficado vazia porque o processo é automatizado”. Por fim, relatou que a equipe “abriu outras caixas de medicamento e não encontrou cápsulas com defeito”.

Por telefone, a prefeitura de Pontes e Lacerda afirmou que não tinha qualquer ingerência sobre o tema, assim como a Secretaria de Saúde do município, acrescentando que o Hospital Vale do Guaporé é privado.

A equipe do Comprova também falou com um responsável pelo Conselho Municipal de Saúde de Pontes e Lacerda por WhatsApp, que assinalou que soube do ocorrido pelas mídias sociais e, por se tratar de um caso isolado e sem notificação formal, não deliberou sobre o tema.

A ivermectina industrializada é produzida em forma de comprimido, mas é possível encontrar o medicamento em cápsulas em farmácias de manipulação. Em nota, o Hospital Vale do Guaporé informou que recorreu a um laboratório de manipulação local porque “não havia na indústria, nos distribuidores e no comércio a ivermectina industrializada”.

Roberto Jefferson

A postagem que gerou a verificação tem como base uma suposta publicação do ex-deputado Roberto Jefferson, atual presidente nacional do PTB. Nas redes sociais dele, porém, não há nenhum registro de tal post.

O ex-deputado e outros aliados do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) são alvos de um inquérito que investiga disseminação de notícias falsas e ataques a ministros da corte.

Na imagem em questão, é possível ver que o nome do usuário é “blogdojefferson”, o mesmo que Roberto Jefferson usava para publicar tuítes. Contudo, a conta dele na rede social está suspensa desde 24 de julho. A decisão foi de Alexandre de Moraes, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).

Desde que sua conta foi bloqueada, Roberto Jefferson passou a usar o Twitter pelo usuário “@bobjeffhd”, como se pode confirmar em sua página verificada no Facebook, e no qual não consta nenhuma publicação sobre cápsulas esvaziadas de cloroquina. Também não há registros nas contas dele no Facebook e no Instagram. Na rede social Parler, por sua vez, não encontramos um perfil de usuário @blogdojefferson.

Em mensagem ao Comprova, a assessoria de Roberto Jefferson negou que ele tenha feito a postagem.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos que tenham grande viralização e repercussão nas redes sociais. Um dos posts analisados teve mais de 4,9 mil interações no Facebook. Outro, na mesma rede social, atingiu 1,5 mil compartilhamentos. Este conteúdo também circulou amplamente no Instagram e no Twitter.

A cloroquina é um medicamento em evidência no Brasil, mesmo sem eficácia comprovada contra a covid-19. Ao compartilhar uma informação falsa de que cápsulas da droga estão sendo esvaziadas, o post gera uma preocupação em parte da população que tem buscado se informar sobre o remédio.

A cloroquina só pode ser vendida em receitas de duas vias. Em algumas cidades, Itagi (BA) e Porto Feliz (SP), foi incluída em um kit de prevenção contra a covid-19. A Organização Mundial da Saúde suspendeu seus estudos com a droga por não haver eficácia comprovada no combate ao novo coronavírus.

O Comprova tem publicado outros conteúdos falsos relacionados à pandemia, como da médica que disse que a Austrália controlou a covid-19 com ivermectina, o influenciador que negou a eficiência das máscaras e uma imagem falsa que dizia que a cloroquina estava sendo vendida em trem no Rio de Janeiro.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Saúde

Investigado por: 2020-08-07

Imagem que circula nas redes sociais não comprova venda de cloroquina em trem no Rio de Janeiro

  • Falso
Falso
Não há embalagem de medicamentos à base de cloroquina ou hidroxicloroquina na imagem que viralizou no Twitter, Reddit e Facebook
  • Conteúdo verificado: Em postagens no Facebook e no Twitter, perfis compartilham foto de duas pessoas em um vagão, uma delas coberta por dezenas de saquinhos com diversos remédios que parecem estar à venda. O texto que acompanha as postagens afirma que “O Rio não é pra qualquer um… Cloroquina 3 por 10 no no trem em Japeri – RJ”.

Os textos que acompanham uma foto que circula pelas redes sociais e que sugerem que pacotes de cloroquina e hidroxicloroquina estariam sendo vendidos em trens da malha urbana estadual do Rio de Janeiro são falsos.

Apesar de o Comprova não ter encontrado o autor da imagem, nem registro da circunstância e local onde ela foi feita, a partir análise detalhada da foto e de informações obtidas com o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), é possível afirmar que não há embalagem de medicamentos à base de cloroquina ou hidroxicloroquina na imagem que viralizou.

Como verificamos?

Inicialmente, o Comprova contatou a Supervia, companhia que opera o transporte ferroviário no Rio de Janeiro e é responsável pela linha que leva a Japeri, onde teria sido clicada a foto, segundo algumas das postagens. Também entrou em contato com a Polícia Militar, órgão acionado quando há alguma ocorrência nos trens e estações.

A equipe também fez uma busca reversa de imagem no Google, e na ferramenta TinEye, para tentar achar a fotografia original, No entanto, os primeiros posts encontrados, do dia 4 de agosto, já são repostagens. O Comprova questionou internautas que publicaram a foto se conheciam o autor da imagem, mas nenhum respondeu de maneira afirmativa até o fechamento deste texto. Essas pessoas sempre alegavam que receberam a foto já com o contexto falso.

Sem ter a confirmação, o Comprova utilizou a ferramenta InVid, que possibilita a ampliação de imagens, para observar detalhes da foto. Com o ampliação da imagem, a reportagem entrou em contato com o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos para checar quais laboratórios comercializam medicamentos à base de cloroquina e hidroxicloroquina e, assim, identificar se as embalagens desses remédios apareciam na foto verificada. A equipe também procurou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

Verificação

O que dizem a PM e a Supervia

A Supervia informou que não pode confirmar a veracidade da foto porque não “teve registro do fato citado”. A empresa afirmou ainda que investe em campanhas para alertar sobre o comércio ilegal de camelôs “e os riscos do consumo de produtos de procedência não conhecida e, por vezes, fora do prazo de validade” e que, quando sabe de algum tipo de ocorrência, aciona a Polícia Militar por meio do Grupamento de Policiamento Ferroviário (GPFer) – os agentes da companhia não têm poder de polícia.

A Polícia Militar do Rio de Janeiro afirmou não ter sido acionada para nenhuma ocorrência relacionada à venda de cloroquina nos vagões das linhas fluminenses. E completou que “é importante que as pessoas denunciem este tipo de conduta e não contribuam comprando produtos de origem desconhecida”.

Embalagens

Observando a imagem detalhadamente com a ferramenta InVID, é possível identificar alguns remédios, como o Dipimed, à base de dipirona, utilizado no tratamento da dor e febre, e o Narix, descongestionante nasal. Para descobrirmos se há embalagem de cloroquina ou hidroxicloroquina na foto, também pesquisamos os laboratórios que comercializam as drogas no Brasil. Contatado pelo Comprova, o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) informou que as empresas que vendem atualmente as duas drogas em farmácias do país, segundo dados da consultoria IQVIAsão: Apsen, E.M.S e Sanofi.

Um quarto laboratório, Cristália, produz cloroquina, mas vende apenas para o Sistema Único de Saúde (SUS) e hospitais particulares, em embalagens de 200 comprimidos, conforme informou ao Comprova. “O Quinacris (nome do remédio) não é comercializado em farmácias e drogarias e o foco do produto não é o paciente final”, afirmou a empresa.

Comparando as embalagens dos três produtos comercializados em drogarias brasileiras, é possível verificar que não há nenhum deles na imagem que viralizou nas redes sociais.

A foto verificada pelo Comprova não mostra, portanto, nenhum remédio à base de cloroquina ou hidroxicloroquina.

Nenhuma das duas substâncias tem eficiência comprovada contra o novo coronavírus e medicamentos à base delas devem ser prescritos “em receita especial de duas vias”, informa um comunicado publicado em março pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos que tenham grande viralização e repercussão nas redes sociais. É o caso do post em questão, que teve 3.825 interações no Twitter até 7 de agosto, segundo a ferramenta CrowdTangle.

No Facebook, foram ao menos 7.700 compartilhamentos e mais de 10 mil interações. A maioria das páginas com viralização tratam de notícias locais do Rio de Janeiro, mas o caso também foi divulgado por alguns sites, o mais expressivo da rádio Tupi FM.

Embora o comércio ilegal seja comum em muitas cidades brasileiras, o post chama a atenção por supostamente mostrar a venda de uma droga que está em evidência no país. Apesar de não ter eficácia comprovada contra a covid-19, o medicamento vem sendo apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) como uma possível cura para a doença – ele, inclusive, afirmou ter tomado ao ser infectado pelo novo coronavírus.

Muitos brasileiros acreditam que a substância seja realmente uma cura, e o post coloca a saúde da população em risco ao afirmar que a droga pode ser encontrada em trens do Rio de Janeiro. Como informado anteriormente, a droga só pode ser vendida em receita de duas vias.

O Comprova tem publicado outros conteúdos falsos relacionados à pandemia, como da médica que disse que a Austrália controlou a covid-19 com ivermectina e do influenciador que negou a eficiência das máscaras.

Falso, para o Comprova, é todo conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Saúde

Investigado por: 2020-08-07

Osmar Terra usa dados de um único hospital para dizer que covid-19 está reduzindo no RS

  • Enganoso
Enganoso
Deputado usa dados verdadeiros sobre uma queda no número de internações no Grupo Hospitalar Conceição — referência no tratamento da covid-19 em Porto Alegre. Mas os dados não podem ser extrapolados para as outras 298 instituições de saúde que também atendem pacientes com covid-19 em todo o estado
  • Conteúdo verificado: Publicação no Twitter do deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) em que ele usa dados de internações por covid-19 no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), na capital gaúcha, para afirmar que a epidemia está reduzindo no Rio Grande do Sul.

O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) erra ao afirmar em uma publicação no Twitter que “a epidemia começa a reduzir no RS”. Na postagem, Terra usa dados verdadeiros sobre uma queda no número de internações no Grupo Hospitalar Conceição — referência no tratamento da covid-19 em Porto Alegre — para anunciar uma melhora no quadro em todo o Rio Grande do Sul.

O post é do dia 4 de agosto, data em que o estado chegou a um recorde de mortes registradas em um único dia: 83. O novo coronavírus custou a vida de 2.231 gaúchos até o dia 6 de agosto, aponta o painel on-line do Governo do Rio Grande do Sul. O indicador mostra ainda que a capital gaúcha lidera o ranking de casos confirmados e de mortes no estado: 9.532 e 318, respectivamente. Porto Alegre também superou a própria marca máxima de internações em UTIs na quinta-feira (6), contabilizando 331 pacientes. Nos três dias que se seguiram desde o tuíte de Osmar Terra, foram 215 novos óbitos por Covid-19: 83 na terça-feira , 64 na quarta e 68 na quinta.

A equipe do Comprova tentou contato com o deputado Osmar Terra por telefone, WhatsApp e Instagram, mas não teve resposta até a data desta verificação.

Como verificamos?

O Comprova começou a verificação buscando os dados no site do Grupo Hospitalar Conceição (GHC), que atualiza as informações diariamente. Os gráficos publicados por Osmar Terra não estavam na página e procuramos a assessoria de imprensa do GHC, que nos colocou em contato com o diretor-técnico do hospital, Francisco Zancan Paz. O médico confirmou que os dados são do Conceição e disse que se tratam de estudos internos, mas que estariam disponíveis havendo solicitação. Os retornos sobre os registros foram por mensagens de WhatsApp e telefone.

Também solicitamos informações à Secretaria Estadual da Saúde (SES-RS), que respondeu por e-mail.

Usamos as ferramentas TweetDeck e CrowdTangle para monitorar o desempenho da publicação de Osmar Terra nas redes sociais e o buscador Google para encontrar reportagens publicadas na imprensa sobre a situação da pandemia no Rio Grande do Sul.

Por fim, tentamos falar com o deputado federal por telefone, mensagem de WhatsApp e de Instagram. Ele não atendeu a reportagem.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 7 de agosto de 2020.

Verificação

Em tuíte publicado na última terça-feira (4), o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) usa gráficos do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) para afirmar que a epidemia de covid-19 está diminuindo em todo o Rio Grande do Sul. E critica o sistema de bandeiras adotado pelo governo para estabelecer as regras de distanciamento em cada uma das regiões do estado. “Epidemia começa reduzir no RS. Nada a ver com bandeirinhas! Tendência de número de casos de internação em UTI e em enfermaria pela Covid 19, é de queda! Veja no maior hospital do Sul do país: GHC em Porto Alegre! Cai na semana 31, como acontece em todo inverno!”, escreveu o deputado.

É incorreto afirmar que a epidemia está reduzindo no Rio Grande do Sul. O estado registrou o primeiro caso da covid-19 em março e, de lá para cá, a situação piorou. Até 6 de agosto, 78.837 pessoas foram infectadas pelo novo coronavírus e 2.231 morreram vítimas da doença. As taxa de ocupação de leitos nas UTIs dos hospitais gaúchos é de 75%.

A região metropolitana de Porto Alegre é uma das mais atingidas. Na capital gaúcha, a ocupação de leitos de UTI chegou a 90% na segunda-feira (3) e a cidade atingiu um pico no número de casos e de óbitos em 4 de agosto.

Os gráficos que Osmar Terra divulgou na publicação são de um dos hospitais de referência para o tratamento da covid-19 na cidade, o Grupo Hospitalar Conceição (GHC). Embora seja um dos maiores hospitais da capital gaúcha, os índices servem apenas para analisar a situação no GHC, e não podem ser extrapolados para os outros 298 que também atendem pacientes com covid-19 em todo o estado. “São dados dos nossos hospitais. Não temos como avaliar os restantes”, disse o diretor-técnico do hospital, Francisco Zancan Paz.

Em entrevista ao Comprova, Zancan apresentou gráficos que mostram uma tendência à queda de casos de covid-19 nas emergências e enfermarias, mas não nas UTIs. “Na última semana, a demanda das nossas emergências, da nossa UPA e da nossa internação em enfermarias têm decrescido. Isso ainda não repercute na ocupação da UTI, que está sendo mantido em quase toda sua totalidade”, disse. E reforça que só é possível bater o martelo sobre uma diminuição — ou mesmo estabilização — no número de casos se essa tendência se mantiver ao longo de pelo menos 15 dias.

O GHC é composto pelos hospitais Conceição, Criança Conceição, Cristo Redentor e Fêmina, além da UPA Moacyr Scliar, de 12 postos de saúde do Serviço de Saúde Comunitária, de três Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e da Escola GHC. Porém, o hospital Conceição é a referência no tratamento da doença.

Questionamos a Secretaria Estadual da Saúde (SES-RS) para saber se os dados poderiam indicar uma tendência mais ampla no Rio Grande do Sul. Por e-mail, a assessoria de imprensa lembrou que a ocupação das UTIs do GHC segue alta, em torno de 95% até a data do contato, “a curva de óbitos e casos relacionados à covid-19 está em crescimento no Estado. (…) A SES-RS monitora a doença, toma as medidas que julgar necessárias, mas não faz previsões”.

As semanas

No tuíte, Osmar Terra fala em uma queda de internações na 31ª semana epidemiológica, “como acontece todo inverno”. As semanas epidemiológicas são divididas pelo Ministério da Saúde para facilitar o registro e controle de doenças. Contadas de domingo a sábado, a primeira semana é a que tem o maior número de dias de janeiro e a última é a que tem o maior número de dias de dezembro. Em 2020, a semana 31 foi de 26 de julho a 1º de agosto.

A Secretaria Estadual da Saúde não confirmou que tenha havido queda no número de internações na semana 31, mas disse que “nos últimos quatro anos, o pico das internações no Rio Grande do Sul tem ocorrido entre as semanas 18 e 27”.

O período coincide com os meses mais frios do ano no estado. “No inverno tem sido este comportamento. Ano passado foi muito similar”, confirmou o diretor-técnico do GHC. Em 2019, foram notificados 1.296 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) — condição provocada por doenças respiratórias, como a gripe e a covid-19 — e 75 óbitos no hospital. Em 2020, são 1.967 casos de SRAG e 344 óbitos. Destes, 157 óbitos foram por covid-19.

Insistência

No dia seguinte, 5 de agosto, Osmar Terra voltou ao assunto em sua rede social. Com novo gráfico do GHC, falou em queda na demanda de doentes naquele hospital e na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. “Como prevíamos vírus está fazendo seu ciclo natural e em poucas semanas termina o surto epidêmico no RS. Quarentena e lockdown inúteis”. No mesmo dia, Porto Alegre bateu recorde de pacientes com coronavírus nas UTIs: 324 pessoas com diagnóstico positivo para covid-19 necessitando cuidados intensivos.

Quem é Osmar Terra

Osmar Terra exerce o sexto mandato na Câmara dos Deputados, representando o Rio Grande do Sul. Em 2016, foi Ministro do Desenvolvimento Social no governo de Michel Temer (MDB) e ocupou a pasta da Cidadania já na gestão de Jair Bolsonaro, em 2019.

O deputado federal é formado em medicina e foi presidente do Grupo Hospitalar Conceição entre 1986 e 1989. Também ocupou o cargo de secretário da Saúde do Rio Grande do Sul de 2003 a 2010, nas gestões de Germano Rigotto (MDB) e Yeda Crusius (PSDB).

Terra é um apoiador de Jair Bolsonaro e, seguindo o discurso do presidente, já negou a gravidade da pandemia em diversas ocasiões — inclusive no post verificado aqui, em que usa o termo “epidemia” e não pandemia. Chegou a afirmar que o distanciamento social não tinha eficácia comprovada, que as mortes pelo novo coronavírus não Brasil não passariam o número de óbitos por H1N1 e declarou que a pandemia terminaria em junho.Já em agosto, compartilhou imagens antigas para criticar o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PHS).

Em março, o Comprova verificou um vídeo em que Terra defende o isolamento vertical, afirmando que apenas idosos e pessoas de grupos de risco deveriam ficar isoladas. As imagens circularam como se fossem do cardiologista Adib Jatene, falecido em 2014.

Por que investigamos?

Nesta terceira fase, o Comprova verifica conteúdos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia. Em um ano de eleitoral em que as disputas políticas estão acirradas, a covid-19 virou tema de debates em todos os campos ideológicos. A desinformação circula livremente em redes sociais e pode custar vidas. O post de Osmar Terra no Twitter teve mais de 4,1 mil interações — entre curtidas, comentários e compartilhamentos — e pode enganar os leitores, ao sugerir uma melhora que não se comprova na realidade.

O Comprova já checou outros conteúdos distorciam fatos para minimizar a pandemia: uma corrente que dizia que a etapa máxima das infecções aconteceria em abril, declarações de dois médicos que diziam que o novo coronavírus estava perdendo a força em junho e um texto que garantia que a pandemia já estaria em declínio em julho.

Enganoso, para o Comprova, é todo o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado. É o caso da publicação de Osmar Terra, que usa números reais para chegar a uma conclusão que não é verdadeira.

Saúde

Investigado por: 2020-08-07

Evidências atestam a eficiência das máscaras no controle da pandemia, ao contrário do que afirma site

  • Falso
Falso
As alegações de que o uso de máscaras pode causar intoxicação e aumentar o risco de contaminação pelo novo coronavírus e ou por outros vírus e bactérias não têm comprovação
  • Conteúdo verificado: Um texto no site do Instituto Rothbard traz informações falsas sobre o uso de máscaras e qualifica como “tirania” as medidas de controle da pandemia.

São falsas as alegações feitas em um texto, publicado pelo site do Instituto Rothbard, que chama o incentivo ao uso da máscara de “tirania”. O conteúdo ainda afirma que não existem evidências capazes de provar a eficiência da proteção facial e que seu uso pode causar intoxicação e aumentar o risco de contaminação pelo novo coronavírus e outros vírus e bactérias.

As afirmações vão na contramão do que dizem as autoridades sanitárias de diversos países e das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), cujo trabalho se baseia em evidências científicas. A conclusão dessas autoridades é a de que o uso correto das máscaras reduz a quantidade de partículas virais expelidas e, portanto, ajuda a conter o avanço da pandemia.

O Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC), por exemplo, indica em seu site 19 artigos publicados em diferentes revistas científicas que atestam a efetividade do uso de máscaras como parte da estratégia para controlar a pandemia. A OMS, por sua vez, conta com uma Divisão Científica que subsidia a elaboração das normas da organização e que produz inúmeras pesquisas na área da saúde pública.

Em resposta ao Comprova, a equipe do site do Instituto Rothbard afirmou que o texto não contraria as recomendações dos órgãos de saúde porque comunicados contrários ao uso de máscaras já foram emitidos pelas entidades. O site, no entanto, não leva em conta o contexto em que tais comunicados foram feitos e ignora as mudanças de posicionamento das autoridades.

No início da emergência sanitária causada pela pandemia do novo coronavírus, a OMS recomendou que pessoas sem sintomas da doença evitassem usar máscaras cirúrgicas para que não houvesse falta para os profissionais da linha de frente e para os pacientes sintomáticos. Naquele momento faltavam equipamentos de proteção em vários países do mundo. Em junho, com o avanço do números de casos e óbitos causados pela covid-19, a OMS passou a recomendar o uso de máscaras para o público geral, afirmando que a mudança em seu posicionamento fora baseada na conclusão de novos estudos científicos.

Segundo a equipe do instituto, as organizações e entidades sanitárias são “órgãos burocráticos que se contrariam a si próprios[sic], o tempo todo. E, de modo algum, eles são nossa referência e deviam ser a referência de qualquer pessoa”.

Como verificamos?

Para verificar o texto do Instituto Rothbard entrevistamos, por áudios no Whatsapp, as professoras Giliane Trindade e Viviane Alves do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que desenvolveram uma pesquisa experimental para avaliar a eficácia das máscaras na prevenção da covid-19. Falamos, ainda, com o médico pneumologista do Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, Leonardo Meira de Faria.

Além disso, consultamos os dados e indicações para frear a disseminação do vírus da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos órgãos sanitários do Brasil e dos Estados Unidos, já que encontramos conteúdos similares ao do Instituto Rothbard em sites norte-americanos.

Por fim, entramos em contato com a equipe do site do instituto por e-mail.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 07 de agosto de 2020.

Verificação

O que é o Instituto Rothbard?

Em seu site, o Instituto Rothbard define-se como “o epicentro de disseminação da Escola Austríaca de economia e do libertarianismo”. Segundo a página, a Escola Austríaca defende “a proliferação irrestrita de territórios livres e independentes, até que o alcance da jurisdição do estado se esvaeça”. No site, são encontrados diversos textos que criticam a atuação dos governos e de organizações supranacionais, como a OMS.

O portal reúne uma série de conteúdos sobre a pandemia que relativizam a gravidade da emergência sanitária e criticam as medidas adotadas para frear seu avanço. Em um dos textos, o portal destaca a manifestação convocada por grupos neonazistas contra o isolamento social, que ocorreu em Berlim no dia1º de agosto, para afirmar que os “europeus estão acordando para a tirania da covid”.

Em outro, o site defende o desembargador que humilhou guardas metropolitanos após levar uma multa por estar sem máscara na cidade de Santos, no litoral paulista. Segundo o portal, que define aqueles que usam máscaras como “paranoicos”, caberia unicamente ao desembargador a decisão de usar ou não a proteção facial.

Além disso, o portal traz inúmeras referências aos conteúdos produzidos pela “The Healthy American”, uma associação anti máscaras norte-americana. A associação também se refere às medidas para frear o espraiamento da pandemia como “ tirania” e mantém uma campanha para que lojas abram em horários distintos para atender aqueles clientes que não desejem usar máscaras.

O que dizem as autoridades e os especialistas?

A OMS e as autoridades sanitárias do Brasil, dos Estados Unidos e de diversos outros países recomendam o uso de máscaras como uma parte da estratégia para frear o espraiamento do novo coronavírus. As autoridades destacam que para que a prevenção da doença seja efetiva, além de usar máscaras, a população deve higienizar constantemente as mãos e manter uma distância de pelo menos um metro e meio entre as pessoas.

Ao contrário do que afirma o conteúdo verificado, existem evidências científicas consistentes indicando que o uso de máscaras reduz a quantidades de partículas virais que pessoas infectadas com a covid-19 expelem ao falar, espirrar ou tossir. O Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC), por exemplo, indica em seu site 19 artigos que foram publicados em diferentes revistas científicas e atestam a efetividade dasmáscaras como parte da estratégia para controlar a pandemia.

A OMS passou a recomendar o uso de máscaras pelo público geral em 5 de junho. Na entrevista coletiva em que foi feito o anúncio da mudança na recomendação, o órgão explicou que a decisão partiu da conclusão de novos estudos que apontavam a eficiência das máscaras como parte da estratégia para o controle do espraiamento da doença. Nessa data, a OMS publicou documento que reúne essas conclusões e indica como usar corretamente a proteção facial em diferentes ambientes e situações. O documento apresenta 80 referências, que abrangem pesquisas conduzidas pelo próprio órgão e por pesquisadores de centros de pesquisa de diversos países.

Em entrevista ao Comprova, a professora e pesquisadora Giliane Trindade Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explicou que o uso de máscaras impede que pessoas pré-sintomáticas ou assintomáticas liberem partículas virais ao falar, tossir ou espirrar. “A finalidade do uso da máscara é justamente evitar a pulverização dessas gotículas de saliva, evitando que elas atinjam a superfície do rosto de outras pessoas ou superfícies inanimadas, como por exemplo, corrimão, assento de ônibus, lugares em que as pessoas vão ter mais contato”, esclareceu a pesquisadora.

A explicação da professora e pesquisadora, que realizou uma pesquisa experimental para avaliar a eficácia das máscaras no combate a disseminação da covid-19, está de acordo com as recomendações do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos. O órgão produziu a ilustração abaixo para conscientizar as pessoas sobre a importância do uso de máscaras.

As tentativas de descredibilizar o uso de máscaras durante a proliferação de doenças virais não é uma novidade. Viviane Alves, que também é professora do Departamento de Microbiologia da UFMG e participou da pesquisa experimental realizada na universidade mineira, acredita que essa onda de desinformação se trata de um negacionismo. “No século XX durante a gripe espanhola também havia a existência da ‘liga anti máscara’ que pregava que elas não eram necessárias e faziam mal. A mesma coisa tem ocorrido agora, várias pessoas tentando prejudicar a saúde da população. Usar máscara, manter o distanciamento social e higienizar as mãos são medidas eficazes provadas cientificamente para prevenir a transmissão, diminuir o número de casos e também diminuir a sobrecarga do sistema de saúde”.

O Comprova já verificou outros conteúdos falsos e enganosos sobre o uso de máscaras desde o início da pandemia. Na verificação mais recente, listou o posicionamento das principais autoridades de saúde brasileiras sobre o tema.

Há possibilidade de intoxicação?

Ao contrário do que afirma o texto do Instituto Rothbard, para a microbiologista Giliane Trindade, a informação sobre intoxicação por dióxido de carbono não procede. O que pode acontecer – no caso de pessoas infectadas – é o vírus ficar contido dentro do material preventivo evitando que seja espalhado e atinja outras pessoas.

“Se a gente pressupõe que o indivíduo tem uma noção correta da forma de descartar a máscara ou de como higienizar, ela não vai funcionar como um vetor de transmissão de vírus. O indivíduo consciente, que está com medo de morrer por covid-19, segue todas as autoridades de saúde e presta atenção naquilo que está sendo divulgado pelas autoridades sanitárias”, concluiu a microbiologista.

O médico pneumologista Leonardo Meira de Faria também não considera que as máscaras causem baixos níveis de oxigênio e hipóxia. Segundo o médico, os poros das máscaras não impedem que a troca de gases que ocorre na respiração seja prejudicada. “Na verdade a máscara é um dispositivo seguro, então a reinalação do gás carbônico não acontece. Não se atinge níveis tóxicos a ponto de considerar que ela possui um risco individual nesse sentido, em hipótese nenhuma”.

Máscara baixa a imunidade?

No texto verificado, há três tipos de máscaras citados – cirúrgica, N95 e de pano – e são apontados como facilitadores da entrada de germes no organismo, supostamente reduzindo a imunidade. Especialistas consultados pelo Comprova alegam que não existem dados sobre as máscaras – fabricadas de forma correta – permitirem esse contato com germes.

“Germes presos nas máscaras não vão causar nenhum tipo de infecção, eles são microrganismos que já moram no corpo. Germes do ambiente que estiverem pelo lado de fora da máscara não vão conseguir penetrar o material. Obviamente, se o tecido estiver contaminado depois de um certo tempo de uso e você colocar a mão e logo em seguida colocar no olho, você também será infectado. Por isso é importante higienizar as mãos e evitar o toque direto nas máscaras e no rosto”.

Há de se destacar que as autoridades recomendam máscaras diferentes para situações diferentes, que variam conforme o ambiente o risco de exposição ao vírus que ele oferece. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) possui uma página que reúne informações sobre máscaras faciais de proteção e que indica qual o tipo mais adequado para os diferentes contextos. A agência, por exemplo, não recomenda o uso de uma máscara tipo N95 para uma ida ao supermercado — ao contrário do que sugere o texto do instituto.

O Comprova já mostrou ser falso um vídeo que dizia que as máscaras reduziam a imunidade e potencializavam a proliferação de bactérias.

O que diz o Instituto Rothbard?

Procurado pelo Comprova, o instituto disse, por e-mail, que nenhum dos textos e vídeos publicados em seu portal contrariam as orientações do CDC e da OMS, alegando que os órgãos “se contrariam a si próprios [sic], o tempo todo” e não servem como referência para os materiais produzidos pela equipe.

Além disso, afirmou ter compromisso com a defesa da liberdade. O instituto pontuou que “o próprio título do artigo [objeto desta verificação] já explica a importância de defender a liberdade diante desta tirania opressiva do governo” e que o texto concentra informações de todos os tipos.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova investiga conteúdos de grande viralização nas redes sociais e com potencial de causar desinformação sobre políticas públicas do governo federal, eleições municipais de 2020 e sobre a pandemia do novo coronavírus. Em se tratando de conteúdos sobre a pandemia, a verificação se torna ainda mais importante, pois a desinformação pode colocar a saúde das pessoas em risco. É o caso do texto do Instituto Rothbard, que pode induzir as pessoas a não usarem máscaras — estratégia recomendada pelas autoridades de saúde para diminuir a velocidade de propagação da doença.

Desde o início da pandemia, o Comprova identificou e desmentiu diversos boatos sobre o uso de máscaras, mostrando que elas são eficientes no combate ao novo coronavírus e que não reduzam a imunidade nem potencializam a proliferação de bactérias. Em outras verificações, também mostrou que um vídeo e um áudio enganavam ao acusar que máscaras importadas da Ásia estariam contaminadas.

Segundo dados da ferramenta CrowdTangle, até a data de fechamento deste texto, o conteúdo somava mais de 4,2 mil interações no Facebook. O Comprova também encontrou conteúdos similares ao verificado em sites dos Estados Unidos que possuem um grande número de interações nas redes sociais, como o “The Healthy American”.

Falso, para o Comprova, é um conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.