Golpes virtuais

Investigado por: 20/08/2026

Veja como identificar o golpe do boleto falso e evitar prejuízos

Golpes virtuais
A mensagem chega por e-mail ou WhatsApp com aparência de uma cobrança comum. O boleto tem o logo da empresa, o valor esperado e até dados pessoais do consumidor. Mas, na hora do pagamento, o dinheiro vai para a conta de um golpista. O Comprova explica como esse tipo de fraude funciona, quais são os sinais de alerta e o que fazer caso o pagamento já tenha sido realizado.

Golpe do boleto falso 

O golpe do boleto falso ocorre quando criminosos enviam boletos falsos de serviços (como água ou luz) por e-mail, WhatsApp ou outros canais. Ao pagar o documento, a vítima acredita estar pagando a empresa real, mas o dinheiro é desviado para uma conta-laranja controlada pelos golpistas. Como a prestadora do serviço nunca recebe o valor, a dívida continua ativa e o cliente sofre prejuízo financeiro. O sistema bancário não bloqueia o pagamento porque o boleto é válido, mas os dados do destinatário pertencem a um criminoso. 

Segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) com o Datafolha, de julho de 2024 a julho de 2025, a prevalência de golpes envolvendo Pix ou boletos falsos foi de 14,3%. Cerca de 24,1 milhões de pessoas foram vítimas. O prejuízo estimado chegou a R$28,8 bilhões, com perda média de R$1.198 por pessoa.

Como os golpistas abordam as pessoas?

Esse golpe costuma começar por canais já conhecidos das vítimas, como e-mail, WhatsApp e até correspondências físicas. Os criminosos enviam cobranças que imitam documentos oficiais de empresas legítimas, levando o consumidor a acreditar que está quitando uma dívida real. Como o pagamento é processado normalmente pelo sistema bancário, a transação aparenta ser legítima, embora o dinheiro seja direcionado para contas controladas pelos golpistas.

Segundo Raimundo Nonato, presidente da Associação Brasileira de Defesa dos Clientes e Consumidores de Operações Financeiras e Bancárias (ABRADEB), “os golpistas esperam que uma parcela das vítimas de fato possua aquele débito e realize o pagamento sem realizar as devidas verificações”.

Outra prática recorrente é a criação de canais de atendimento falsos que reproduzem a aparência de empresas conhecidas. Sites clonados e perfis fraudulentos em aplicativos de mensagens são utilizados para enganar consumidores que procuram emitir uma segunda via de boleto ou esclarecer dúvidas sobre cobranças. Nesses casos, o documento fornecido pelos criminosos substitui a cobrança verdadeira por uma versão adulterada.

Quais táticas eles usam para chamar a atenção?

Entre as principais estratégias utilizadas pelos criminosos estão a criação de um senso de urgência e o apelo emocional. Mensagens que alertam para o vencimento iminente de uma conta, ameaçam a interrupção de serviços ou oferecem condições especiais de pagamento buscam induzir decisões rápidas, reduzindo as chances de verificação das informações.

Um dos métodos mais sofisticados envolve o “uso de informações precisas oriundas de vazamentos de dados”, conforme o presidente da ABRADEB. Os criminosos conseguem identificar momentos específicos da vida financeira dos consumidores, como a contratação de serviços, o refinanciamento de dívidas ou a compra de veículos, alerta Nonato. Essas informações permitem que os falsos boletos sejam enviados justamente quando a vítima espera receber uma cobrança legítima.

Para tornar o golpe ainda mais convincente, os criminosos reproduzem a identidade visual das empresas que estão sendo imitadas. “Eles replicam com exatidão as logomarcas, as cores institucionais, as fontes e o layout completo das faturas reais de grandes concessionárias de serviços públicos, como água, energia e telefonia”, alerta Nonato. 

Embora o documento apresente o nome da empresa legítima, os dados vinculados ao código de barras ou à linha digitável direcionam o pagamento para contas pertencentes aos golpistas. Frequentemente, esses valores são recebidos por intermediários conhecidos como “laranjas” ou por empresas de fachada criadas para dificultar o rastreamento do dinheiro.

Qual é o objetivo do golpe?

Desviar o dinheiro pago pela vítima para uma conta bancária dos golpistas de forma técnica e operacionalmente legítima pelo banco. Os criminosos costumam substituir os dados do beneficiário original por uma conta sob seu controle, mantendo um boleto tecnicamente válido para os sistemas bancários.

Como se proteger?

Raimundo Nonato recomenda que os consumidores adotem uma “postura de vigilância constante” diante de cobranças recebidas. Um dos primeiros sinais de alerta é o remetente da mensagem. Antes de realizar qualquer pagamento, é importante verificar se o endereço eletrônico pertence ao domínio oficial da empresa. 

“O consumidor deve desconfiar imediatamente de domínios genéricos, como Gmail ou Hotmail, ou endereços que contenham erros sutis de digitação, criados propositalmente para enganar”, aponta Nonato. Também é recomendável conferir atentamente os dados pessoais presentes na cobrança. Erros no nome, CPF ou endereço podem indicar que o documento foi produzido a partir de informações incompletas obtidas pelos golpistas.

A principal recomendação, porém, é verificar os dados do beneficiário antes de concluir o pagamento. Caso o boleto indique uma empresa como destinatária, mas o aplicativo bancário apresente o nome de uma pessoa física ou de uma organização desconhecida, a transação deve ser interrompida.

O que fazer antes de pagar? Há sinais de alerta que indicam quando é golpe?

O advogado Márcio Stival, especialista em direito digital, explica que a principal forma de identificar a fraude é conferir os dados no momento do pagamento. O consumidor deve observar o nome do beneficiário. Se aparecer uma pessoa física ou uma empresa desconhecida, há forte indício de golpe. Em caso de dúvida, o consumidor deve emitir uma segunda via diretamente no site oficial da empresa.

Outro ponto de atenção, no caso de boletos bancários de cobrança, são os três primeiros números da linha digitável, que identificam o banco emissor e devem corresponder à instituição indicada no boleto. A cobrança também pode aparecer no Débito Direto Autorizado (DDA), serviço que reúne, no aplicativo bancário, boletos registrados no CPF ou CNPJ do consumidor. Apesar de que a ausência da cobrança esperada no sistema seja um motivo para desconfiança, não significa que caso não esteja no DDA, seja automaticamente golpe. 

Também merecem atenção remetentes com endereços semelhantes aos oficiais, mensagens que pressionam pelo pagamento imediato e avisos sobre supostos cortes de serviços. É preciso desconfiar ainda de boletos cujo código de barras não seja reconhecido e, principalmente, de mensagens informando uma suposta mudança de conta bancária. Erros de português podem ajudar a identificar uma fraude, mas a ausência deles não garante que o boleto seja verdadeiro. “Há fraudes bem elaboradas”, alerta Stival.

Qualquer mudança de conta também deve ser confirmada por um canal de contato já conhecido, e não pelo telefone ou endereço enviado junto à cobrança. Se o pagamento já tiver sido realizado, a recomendação é entrar em contato imediatamente com o banco. Em casos envolvendo Pix, também é possível solicitar o Mecanismo Especial de Devolução (MED) e registrar um boletim de ocorrência.

A quem denunciar?

O Ministério da Segurança Pública orienta que assim que a vítima recebe um boleto falso ou mesmo depois de pagá-lo, deve entrar em contato com seu banco através dos canais oficiais e sinalizar a fraude. Se houver um terceiro envolvido no processo de pagamento eles também devem ser comunicados.

A vítima deve guardar o boleto falso, mensagens, e-mails e imagens enviados pelo golpista e usar essas evidências para registrar um Boletim de Ocorrência. O BO deve ser compartilhado com o banco para dar suporte à investigação. 

Segundo Raimundo Nonato, da ABRADEB, procedimentos adicionais podem aumentar as chances de recuperação do dinheiro. “Se o pagamento foi realizado via Pix, deve-se acionar o Mecanismo Especial de Devolução, o MED, junto ao banco do pagador. Caso tenha sido por boleto, é necessário entrar em contato com o SAC ou Ouvidoria tanto do banco de onde saiu o dinheiro quanto do banco emissor do boleto, onde está a conta que recebeu o valor, solicitando o bloqueio cautelar por fraude”, diz. 

Raimundo Nonato recomenda acionar órgãos de defesa do consumidor, como o Procon e a plataforma Consumidor.gov.br, para formalizar reclamações e acompanhar os desdobramentos do caso.

Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já realizou outras verificações mostrando como o usuário pode proteger suas contas bancárias de golpes ou invasões por criminosos. Também orientou o que pode ser feito caso o indivíduo receba mensagens suspeitas ou ligações de números desconhecidos. Nessas apurações, o projeto explicou como os golpistas abordam as pessoas, como identificar as tentativas de golpe e quais canais de suporte o usuário prejudicado pode buscar para tentar recuperar o prejuízo financeiro. 

Além disso, o Comprova já alertou os usuários sobre outros golpes como o do Pix errado, do cupom falso, da CNH Social e demais golpes em sites fraudulentos na época de Black Friday

Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.