Livro sobre documentos da Pfizer não comprova que vacina de covid tenha causado centenas de mortes
- Enganoso
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- Posts que mencionam o livro “Pfizer Papers” enganam ao afirmar que a vacina da Pfizer contra a covid-19 causou 1.223 mortes e possui 1.291 efeitos colaterais. Os dados são distorcidos, uma vez que, como informado nos documentos usados como fonte para a elaboração do livro, não há relação de causa e efeito comprovada com o imunizante.
Conteúdo investigado: Post em que a médica Raissa Soares fala sobre o livro “Pfizer Papers”, dizendo que ele comprova que a vacina da farmacêutica contra a covid-19 matou 1.223 pessoas. Em um vídeo, ela aparece ao lado de um homem que também comenta o livro e apresenta um segundo homem, que seria o responsável por organizar parte do trabalho mostrado na obra.
Onde foi publicado: Instagram e X.
Conclusão do Comprova: Posts virais enganam ao afirmar que o livro “Pfizer Papers” teria comprovado 1.291 efeitos colaterais e 1.223 óbitos causados pela vacina da farmacêutica contra a covid-19.
A obra apresenta um compilado de conclusões que já foram classificadas como desinformação desde o começo da pandemia. O livro se baseia em um pedido de licença biológica da Pfizer enviado à agência sanitária dos Estados Unidos (FDA). O relatório contido neste pedido começou a ser divulgado no início de 2022 pela FDA a pedido de um grupo de médicos, após determinação da Justiça norte-americana.
O documento analisa mais de 40 mil relatos pós-imunização nos Estados Unidos, mas diz não haver relação de causa e efeito dos efeitos colaterais relatados com os imunizantes.
Ou seja, ele não é uma pesquisa científica, mas sim um apanhado que envolve relatos espontâneos, utilizado pela farmacêutica para identificar eventuais efeitos adversos graves. Não há comprovação, deste modo, que as vacinas tenham relação com essas mortes.
Em uma das publicações verificadas pelo Comprova, a médica Raissa Soares – que já teve conteúdos checados pelo Comprova ao menos três vezes (1, 2 e 3) – e John Kage – que disputou, sem sucesso, uma vaga de deputado estadual em São Paulo em 2022 e também já teve post verificado por agências de checagem – estão ao lado de Chris Flowers, a quem se referem como “líder dos médicos dessa grande investigação” que seria o livro “The Pfizer Papers: Pfizer’s Crimes Against Humanity” (“Os papeis da Pfizer: Os crimes da Pfizer contra a humanidade”, em tradução literal).
No post, ela afirma, citando o livro, que “mais de 1.233” pessoas morreram por causa da vacina no primeiro trimestre de uso, mas, como informado acima, não há relação comprovada de causa e efeito com o produto.
Como o Comprova já mostrou, os documentos da Pfizer “afirmam, sim, que 1.223 pessoas que se vacinaram morreram entre a autorização do uso emergencial da vacina pela FDA ,o que ocorreu em 10 de dezembro de 2020, e 28 de fevereiro de 2021, mas não relacionam esses óbitos à vacina”. Ou seja, os dados podem incluir, por exemplo, pessoas que morreram de uma condição médica que já existia antes de se imunizarem.
O Estadão Verifica publicou, em junho de 2023, que, segundo o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, não havia nenhuma morte relacionada à vacina da Pfizer. Além disso, a segurança dos imunizantes continua sendo monitorada por órgãos regulatórios e os produtos seguem sendo recomendados.
Outra afirmação infundada do livro é que o imunizante prejudica o sistema reprodutor, causando abortos. Novamente, como o Comprova já publicou, os dados usados para se chegar à tal conclusão não permitem afirmar que houve uma relação de causa e efeito entre a vacina e as mortes. Mulheres ficam mais suscetíveis a infecções respiratórias na gravidez, por isso a vacinação é importante. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que gestantes recebam três doses da vacina, além de uma dose de reforço dentro de seis meses após a última dose.
O post engana também ao afirmar que Naomi Wolf, autora do livro, é jornalista do The New York Times. A referência que ela mesma coloca em seu perfil no X sobre o veículo norte-americano é ter tido oito livros na lista dos mais vendidos da publicação. Entre suas obras mais famosas está “O Mito da Beleza”, de 1990. Na pandemia, se tornou uma ativista antivacina. Em 2021, chegou a ser banida do então Twitter (hoje X) por propagar desinformação acerca dos imunizantes.
Contatada pelo Comprova, a Pfizer reforçou que sua vacina é segura e eficaz dizendo que ela foi aprovada por órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o FDA e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) após “avaliações robustas e independentes, a partir de dados científicos sobre qualidade, segurança e eficácia, incluindo nosso estudo clínico de fase 3”. Afirmou ainda que “dados de estudos de mundo real complementam as informações dos estudos clínicos e proporcionam evidência adicional de que a vacina fornece proteção eficaz contra formas graves da doença”.
Por fim, a farmacêutica afirmou que, “até o momento, já distribuiu mais de 4,8 bilhões de doses da vacina ComiRNAty, em mais de 183 países, e não há qualquer alerta de segurança, de modo que o benefício da vacinação permanece se sobrepondo a qualquer risco”.
Também procurado pela reportagem, John Kage repetiu as afirmações enganosas feitas no post. “Foram encontrados nos documentos da Pfizer 1.291 tipos de efeitos colaterais e 1.223 (pessoas) vieram a óbito”, disse. Raissa não respondeu o contato do Comprova até a publicação deste texto.
Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.
Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até 25 de fevereiro, o post no Instagram havia sido visualizado mais de 448 mil vezes. Publicação com conteúdo semelhante no X teve 161,5 mil visualizações até a data.
Fontes que consultamos: Sites da Anvisa e da Pfizer, reportagens, o livro citado no post e a farmacêutica Pfizer.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Outras checagens sobre o tema: O Estadão Verifica publicou que não é verdade que a vacina da Pfizer tenha causado 1,2 mil mortes nos Estados Unidos. O Comprova já checou diversos conteúdos relacionados à vacina contra a covid, como ser falso que ela cause danos irreversíveis ao DNA, enganoso post que afirma que ela provoca infarto e morte súbita em crianças. Recentemente, o projeto concluiu ser enganosa publicação que cita artigo pedindo a retirada do produto do mercado.
Notas da comunidade: Até a publicação desta verificação, não havia notas da comunidade publicadas junto ao post no X.