Perfis criam vínculos afetivos para manipular ou obter vantagens financeiras
- Golpes virtuais
- Nas redes sociais, páginas com conteúdos reais e também criados com inteligência artificial estabelecem vínculos emocionais com as vítimas, principalmente pessoas mais velhas.
Golpe da cantada, golpe do amor ou “romance scam”
A seção Golpes Virtuais do Comprova já abordou o golpe do relacionamento ou catfishing, quando criminosos se passam por pessoas atraentes para fisgar vítimas em aplicativos de relacionamento e pedir pagamentos. Recentemente, surgiu outra modalidade do golpe, que pode se chamar também golpe da cantada, golpe do amor ou “romance scam”. Ele acontece quando perfis reais ou feitos por inteligência artificial (IA) são criados para conquistar a confiança das vítimas — geralmente idosos — através de declarações afetivas e promessas de relacionamentos. Após estabelecer um vínculo emocional, os criminosos podem pedir dinheiro, presentes ou incentivam a pessoa a fazer investimentos em plataformas fraudulentas. A prática pode causar prejuízos financeiros, além de danos emocionais, como ansiedade, culpa e dificuldade de confiar em novas relações.
Como os golpistas abordam as pessoas: Os criminosos atuam nas redes sociais criando perfis reais ou feitos a partir da inteligência artificial, com posts com mensagens envolventes para pedir dinheiro, engajamento – para monetizar suas páginas – ou investimentos em plataformas fraudulentas.
Qual é o objetivo do golpe: Conquistar a confiança da vítima e desenvolver um vínculo emocional para que, assim, a pessoa se torne mais suscetível a atender pedidos de ajuda financeira, engajamento ou, na variante do golpe chamada “pit butchering”, aceitar investir em plataformas fraudulentas ou criptomoedas.
Como os golpistas abordam as pessoas: Nas redes sociais, o Comprova analisou diversos perfis que publicam vídeos com o objetivo de conquistar a atenção dos seguidores, principalmente para viralizar e monetizar conteúdos. Em um dos conteúdos, o autor fala diretamente com o público, usando elogios e declarações amorosas: “Oh, coroa bonita, viu? Eu tenho olhado seu perfil, sorriso hipnotizante, muito linda, charmosa, a idade e o tempo estão te fazendo ficar cada vez mais maravilhosa […]. Eu gosto tanto de você, vamos se conhecer […]. Eu quero uma coroa dessa pra fazer parte da minha vida”.
O perfil analisado tem cerca de 1 milhão de seguidores, e a maioria dos vídeos segue esse formato. Nos comentários, há mulheres que demonstram acreditar que as declarações são direcionadas a elas. “Boa tarde, obrigado, isso é comigo?”, escreveu uma seguidora. “Tô aqui, gatinho”, comentou outra.
No modelo em que os criminosos pedem engajamento, os posts costumam conter mensagens pedindo que a pessoa curta e comente os posts. Dessa forma, conseguem monetizar suas páginas. Nesse caso, não há extorsão financeira, mas a vítima acredita estar se relacionando com alguém, o que não ocorre.
Segundo o psicólogo Laércio Oliveira, as pessoas idosas são mais propensas a cair neste golpe por geralmente lidarem com o abandono da família e amigos. “Isso gera uma carência enorme”, diz o especialista. Por isso, tendem a sentir necessidade de encontrar um parceiro ou parceira, ainda que virtualmente.
Um exemplo disso foi o caso de uma idosa de 70 anos que foi encontrada no aeroporto de Santarém, no oeste do Pará, após sair de casa com a intenção de encontrar uma pessoa com quem conversava pela internet. Segundo a Polícia Civil, a mulher estava sendo enganada por meio de conteúdos produzidos com inteligência artificial, que prometiam emprego, vantagens financeiras e um relacionamento amoroso, conforme reportagem do G1.
No caso de contas que usam IA, fica mais difícil identificar quem está por trás do conteúdo. Um dos perfis analisados, com cerca de 28 mil seguidores, não apresentava identificação de que o material era produzido artificialmente e utilizava a mesma estratégia de vídeos com elogios e declarações afetivas como se estivesse falando diretamente com a pessoa.
Em números: Um estudo lançado em 2025 pela iniciativa “Era Golpe, Não Amor” revelou que quatro em cada dez mulheres já foram vítimas de estelionato sentimental, também conhecido como “Golpe do Amor”. O estudo entrevistou cerca de 1.200 mulheres, sendo que 22% afirmaram conhecer alguém que passou por esse tipo de abordagem em aplicativos de relacionamento, 9% relataram terem sido abordadas diretamente, mas conseguiram identificar a tentativa de golpe na hora, e 7% só perceberam que estavam sendo enganadas após algum tempo de interação.
O levantamento aponta que 53% das vítimas relataram que o golpista pediu dinheiro emprestado, enquanto 25% afirmaram que houve solicitação de ajuda para pagar alguma conta.
Um caso de 2025, registrado em Feira de Santana (BA), é o de um homem que foi preso por aplicar o golpe do amor na internet e ter feito pelo menos 13 vítimas em quatro estados. Os prejuízos ultrapassam R$ 200 mil, de acordo com reportagem da CBN.
Quais táticas eles usam para chamar a atenção: Os golpistas abordam a vítima através de um contato aparentemente inofensivo, por meio de redes sociais. Normalmente usando uma identidade falsa, os criminosos iniciam uma conversa envolvente, estabelecendo uma relação emocional com a vítima.
Uma vez que a confiança entre a vítima e o criminoso seja estabelecida, o golpista passa a incentivá-la a investir em plataformas fraudulentas ou realizar pagamentos diretos para a conta do golpista. Para isso, o criminoso pode criar histórias convincentes que demandem uma solução rápida: “uma emergência médica, um projeto de trabalho que exige investimento imediato, a necessidade de enviar um presente ou resolver uma burocracia temporária”, conforme o governo federal.
Após semanas ou meses nessa relação, depois que a vítima já depositou valores em outra conta bancária, o criminoso bloqueia seu contato ou o site da plataforma falsa fica fora do ar. Ao perceber que foi enganada, a vítima do golpe lida com “consequências emocionais significativas”, conforme o psicólogo Laércio Oliveira. Entre elas estão a “ansiedade, tristeza, culpa, vergonha, baixa autoestima e dificuldade de confiar em novos relacionamentos.”
Como se proteger: A prevenção ao golpe da cantada passa por educação financeira, educação socioemocional, ceticismo saudável e fortalecimento da autoestima. Veja alguns cuidados práticos que ajudam a se proteger desse tipo de golpe:
- Nunca envie dinheiro a alguém que conheceu apenas pela internet;
- Desconfie de histórias com apelo emocional intenso e urgência financeira;
- Verifique imagens e perfis usando ferramentas de busca reversa;
- Solicite chamadas de vídeo sempre que possível;
- Compartilhe sua experiência com pessoas de confiança. Uma perspectiva externa pode perceber incoerências que a emoção não permite ver;
- Em caso de suspeita, denuncie o perfil nas redes sociais e procure orientação jurídica e psicológica.
Além disso, é importante identificar e compreender seus gatilhos emocionais e que carência, medo da solidão e desejo de reconhecimento podem ser explorados pelos golpistas.
“Necessidades de afeto, pertencimento e validação emocional podem, em determinadas situações, aumentar a vulnerabilidade à manipulação. Também podemos observar vieses cognitivos, como o viés de confirmação, quando a pessoa tende a valorizar aquilo que confirma suas expectativas sobre o relacionamento e acaba desconsiderando sinais de alerta”, explica o psicólogo Laércio Oliveira.
A quem denunciar: Ao perceber o golpe, é fundamental buscar ajuda imediatamente, além de registrar uma denúncia nos seguintes canais:
- À própria plataforma onde o golpe/tentativa foi aplicado: denuncie o perfil ou a publicação suspeita pelos canais oficiais da rede social. Guarde capturas de tela, links e mensagens antes de bloquear a conta.
- À Polícia Civil: se houver suspeita de fraude, extorsão, ameaça ou prejuízo financeiro, registre um boletim de ocorrência, presencialmente ou pela delegacia eletrônica do seu estado.
- Aos órgãos de defesa do consumidor: se houver problemas relacionados à venda de produtos ou serviços, é possível procurar o Procon ou registrar uma reclamação no Consumidor.gov.br, caso a empresa esteja cadastrada na plataforma.
Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar. O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais, e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Para se aprofundar mais: Como afirmado acima, o Comprova já explicou como identificar e se proteger do golpe do relacionamento (catfishing). O G1 também produziu uma reportagem alertando sobre os “sedutores de idosos” no TikTok.
Este texto foi produzido por jornalistas que participam do programa de Residência no Comprova e conta com o apoio do TikTok.