Comprova Explica

Investigado por: 18/08/2026

Desinformação sobre a origem da covid-19 volta a circular após audiência de Anthony Fauci nos EUA

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Perfis publicaram vídeos questionando a eficácia das vacinas, o uso de máscaras e o que se sabe sobre a origem do vírus

Conteúdo analisado: O Comprova analisou vídeos que afirmam que o imunologista estadunidense Anthony Fauci, ex-conselheiro médico do governo Biden durante a pandemia, confessou, em registros feitos em seu diário pessoal, que o vírus Sars-Cov-2, causador da covid-19, teve origem num vazamento de laboratório. As publicações afirmam ainda que Fauci defendia o uso de hidroxicloroquina no tratamento da doença e que ele teria mentido sobre a eficácia de máscaras, do distanciamento social e das vacinas.

Comprova Explica: Informações distorcidas e falsas sobre a pandemia continuam a circular nas redes sociais. Quando divulgados e credibilizados, esses conteúdos questionam métodos comprovados cientificamente, como a vacinação, e colocam em risco a saúde de indivíduos.  

A seção Comprova Explica mostra por que conteúdos já desmentidos relacionados à covid-19 voltaram a circular, lista os discursos atuais que já foram desmentidos pelo Comprova e o que a ciência diz sobre a eficácia das vacinas e de medicamentos como a ivermectina.

Por que conteúdos já desmentidos voltaram a circular com força nos últimos dias?

O imunologista Anthony Fauci tornou-se o principal rosto do combate à pandemia nos Estados Unidos. Ele foi questionado sobre a origem da covid-19 em uma audiência em 29 de julho no Congresso americano. Rand Paul, senador republicano que convocou a audiência, acusou Fauci de tentar ocultar detalhes sobre o surgimento do coronavírus durante a sessão. Senadores buscaram responsabilizá-lo pelo fechamento de escolas, pelo uso obrigatório de máscaras e pela obrigatoriedade da vacinação, por exemplo.

O Congresso americano é controlado pelo Partido Republicano, o mesmo do presidente Donald Trump, que alimentou teorias da conspiração sobre o coronavírus.

No Brasil, postagens desinformativas sobre Fauci e a pandemia foram divulgadas por políticos alinhados ideologicamente a Trump, como Nikolas Ferreira e Mario Frias, ambos do PL. O Comprova tentou contato com os dois deputados, mas não houve resposta até a publicação deste texto, que segue aberto caso haja manifestação.

A cientista política Carolina Botelho, doutora em Ciência Política e pesquisadora do INCT/SANI/CNPq, disse à BBC Brasil que “[a circulação de desinformação] é a velha estratégia da extrema-direita para lidar com temas controversos e mobilizar sua base”, e que “o que eles precisam é do efeito do viés de confirmação”. 

Na mesma reportagem, Deisy Ventura, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), afirmou: “Não se trata apenas desse vídeo [de Nikolas Ferreira], mas de um ecossistema de desinformação sobre saúde pública”.

O fato de Fauci ter recorrido à Quinta Emenda significa que ele é culpado de algo?

Não. A Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos garante a qualquer pessoa o direito de não responder a perguntas que possam incriminá-la — o equivalente ao direito de permanecer calado previsto na Constituição brasileira. A Suprema Corte americana já decidiu que desse silêncio não se pode concluir culpa.

Ao não responder às questões, Fauci foi acusado de desacato. O desacato, entretanto, mesmo se confirmado, não torna verdade aquilo que foi perguntado. No Brasil, o Código de Processo Penal diz que o silêncio “não poderá ser interpretado em prejuízo da defesa”, e o STF já decidiu que a garantia vale inclusive para quem depõe em Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). 

Outros conteúdos já foram desmentidos pelo Comprova

Fauci tornou-se  alvo de uma rede de desinformação que distorceu suas ações, e-mails oficiais e declarações públicas para sustentar teorias conspiratórias. Algumas publicações envolvendo o ex-conselheiro médico já foram investigadas anteriormente.

Em 2024, o Comprova classificou como enganosa uma publicação no X que alegava que o infectologista teria confessado participação na criação da covid-19 e deletado documentos que revelavam a origem do coronavírus. No entanto, estudos científicos definitivos comprovaram que o vírus tem origem natural e não foi manipulado propositalmente.

Outra desinformação envolveu mensagens do início de 2020 nas quais o infectologista desaconselhava o uso de máscaras para pessoas saudáveis. Naquele momento inicial, as principais agências de saúde do mundo ainda não sabiam sobre a alta transmissão do vírus por pessoas sem sintomas e temiam o desabastecimento de máscaras para médicos na linha de frente; a recomendação foi atualizada assim que novos estudos comprovaram a eficácia do acessório. 

Campanhas de desinformação também tentaram descredibilizar as vacinas alegando que as autoridades de saúde teriam admitido que os imunizantes não funcionavam quando voltaram a recomendar o uso de máscaras em locais fechados. Na realidade, as vacinas sempre se mostraram eficazes em evitar casos graves e mortes, mas a máscara voltou a ser sugerida de forma preventiva porque novas variantes altamente contagiosas reinfectavam mesmo pessoas já vacinadas. 

Nos últimos anos, algo mudou em relação às vacinas ou à ivermectina? 

A associação da ivermectina ao tratamento da covid-19 ganhou força após um estudo australiano publicado em 2020 indicar redução da presença do vírus em testes realizados em laboratório. Segundo estudo do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), porém, os resultados foram obtidos em células de rins de macacos e com doses cerca de dez vezes superiores às aprovadas para uso em humanos pela Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos. Além disso, os resultados não foram reproduzidos em estudos clínicos, ou seja, em humanos.

Outras pesquisas também não comprovaram a eficácia do medicamento contra a covid-19. Por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a ivermectina do estudo internacional Solidarity Trial e concluiu que as evidências disponíveis eram insuficientes para recomendar o uso.

Alessandro Pasqualotto, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologistas (SBI), afirma que “durante a pandemia, vários medicamentos, como cloroquina, ivermectina, azitromicina e nitazoxanida, foram testados contra a covid-19, mas nenhum deles demonstrou benefício comprovado na prevenção ou no tratamento da doença”. 

Segundo ele, como muitos foram usados em casos leves ou assintomáticos, que provavelmente melhorariam mesmo sem tratamento, criou-se a impressão de que esses medicamentos haviam funcionado. “No entanto, quando avaliados em estudos clínicos controlados, essa eficácia não foi confirmada.” No caso da ivermectina, o infectologista afirma que o medicamento “não demonstrou benefícios confiáveis contra a covid-19 nos estudos científicos de melhor qualidade”.

Em relação às vacinas, Pasqualotto destaca que elas “demonstraram de forma consistente reduzir o risco de doença grave, hospitalização e morte”. A proteção contra a infecção e os sintomas, porém, “pode diminuir com o tempo e com o surgimento de novas variantes”, já que a imunidade enfraquece gradualmente e o vírus continua sofrendo mudanças.

O infectologista ressalta que a ciência mostra que as vacinas contra a covid-19 continuam sendo importantes. As doses de reforço e as vacinas atualizadas ajudam a renovar essa proteção, especialmente entre as pessoas com mais risco de complicações.

A longo prazo, as vacinas causam mal? 

Segundo Alessandro Pasqualotto, não há motivo para a população temer efeitos prejudiciais tardios da vacinação contra a covid-19. “Depois de vários anos de acompanhamento, não foi identificado nenhum sinal de que essas vacinas provocam câncer, alterações genéticas ou outras doenças tardias”.

Ainda conforme o coordenador científico, as vacinas podem causar “efeitos adversos” como qualquer outro medicamento, mas grande parte desses efeitos são leves e passageiros. “Reações graves, como inflamação do coração em alguns adolescentes e adultos jovens, são raras e geralmente surgem nos primeiros dias após a aplicação”, diz. “Assim, para as pessoas às quais a vacinação é recomendada, seus benefícios continuam superando os riscos conhecidos.”

Registros de problemas de saúde em diários de Fauci estabelecem relação de causalidade direta com a vacina?

Os registros do diário atribuídos a Fauci não estabelecem uma relação de causalidade entre seus problemas de saúde e as vacinas. 

O documento abrange o período de dezembro de 2019 a maio de 2020, meses antes de qualquer vacina contra a covid-19 ser aprovada e disponibilizada para o público. Não há qualquer menção no arquivo de que ele tenha recebido, antecipadamente, uma dose do imunizante.

Fauci recebeu sua primeira dose da vacina, da Moderna, em um evento transmitido ao vivo pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA em 22 de dezembro de 2020, e recebeu a segunda dose em 21 de janeiro de 2021. 

A NewsGuard checou e publicou em 31 de julho de 2026 que o infarto pulmonar de Fauci registrado no diário foi falsamente associado à vacina. Outros problemas de saúde relatados por ele foram diagnosticados e tratados antes da vacina. 

Por que as pessoas podem ter acreditado nos posts?

As publicações analisadas utilizam táticas comuns em casos de desinformação, como o apelo à emoção no caso do vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira, que usa vídeos de comerciantes sendo multados e chorando.

Há também casos de descontextualização e de falsa equivalência, como no contraste entre declarações de Fauci em 2021, quando afirmou que testemunharia “sem problemas”, e a sua decisão recente de recorrer ao direito ao silêncio. Os vídeos ignoram uma mudança de contexto jurídico e o direito constitucional de não se autoincriminar para sugerir implicitamente que Fauci é culpado. 

Fontes consultadas: A equipe analisou estudos e relatórios sobre a covid-19, buscou informações em outras verificações publicadas pelo Comprova e agências de checagem e analisou o conteúdo dos diários de Fauci. A checagem também ouviu Alessandro Pasqualotto, da SBI.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está gerando muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já verificou conteúdos que acusam Anthony Fauci de ser um dos criadores da covid-19, de não acreditar na eficácia das vacinas contra o vírus e de ter e-mails que revelam que o coronavírus foi criado em laboratório. Investigações recentes da Agência Lupa, do Estadão Verifica e do UOL Confere também analisaram publicações consideradas enganosas sobre a audiência no Senado da qual Fauci participou.