Comprova Explica

Investigado por: 14/08/2026

Entenda a segurança das urnas e por que o TSE abriu um aparelho ao vivo

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Onda de desinformação voltou a circular com força com posts virais descredibilizando erroneamente o sistema eletrônico após órgão fazer demonstração em rede nacional

Conteúdo analisado: Postagens de usuários, incluindo de programadores, nas plataformas X e TikTok, questionam a desmontagem de uma urna ao vivo, em rede nacional, feita pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 3 de agosto. Esses perfis afirmam que abrir uma urna e mostrar os itens essenciais para a segurança da urna e do pleito, como a placa-mãe, as mídias onde são carregados os programas oficiais de votação e o componente onde os votos são gravados de forma criptografada não provam a segurança e a inviolabilidade das urnas.

Comprova Explica: Em ano eleitoral, desinformações e teorias conspiratórias que questionam a segurança das urnas eletrônicas voltam a circular com mais frequência, principalmente nas redes sociais.

Em uma transmissão inédita, o TSE abriu uma urna eletrônica em rede nacional ao vivo, em 3 de agosto, dando início à 1ª Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação. O evento foi transmitido em conjunto por TVs públicas e nos canais no YouTube dos tribunais regionais eleitorais (TREs) de todas as regiões do país. Também houve transmissão em TVs por assinatura em parceria com as instituições.

O ato destinado a dar mais transparência e a mostrar os mecanismos de segurança da urna, no entanto, gerou grande repercussão nas redes sociais, e acabou sendo alvo de desinformação que questiona a segurança das urnas e a validade da ação para comprovar sua confiabilidade. Diante disso, a seção Comprova Explica apresenta detalhes da demonstração e mostra os mecanismos de segurança eleitoral em vigor.

Por que o TSE desmontou uma urna eletrônica?

A iniciativa visou alcançar o maior número de pessoas, permitindo que compreendessem de forma didática os componentes do equipamento e o seu funcionamento. Na ocasião, o coordenador de Tecnologia Eleitoral da Corte, Rafael Azevedo, exibiu os componentes essenciais para a segurança da urna e do pleito, como a placa-mãe, as mídias em que são carregados os programas de votação e o módulo em que os votos são gravados de forma criptografada. No total, 563 mil urnas serão utilizadas nas eleições de 2026.

A desmontagem, contudo, não foi uma auditoria nem um teste, como têm sugerido alguns conteúdos virais. “O objetivo é fornecer informação de qualidade para evitar desinformação. Não é um teste nem auditoria, embora sirva para comunicar melhor os elementos de modo a promover a auditoria por parte das entidades fiscalizadoras”, disse o TSE, em nota. Auditorias existem, mas ocorrem em outros momentos. Entre eles estão o Teste Público de Segurança (TPS), realizado no ano anterior ao pleito, e o Teste de Integridade, realizado no dia da votação.

Abrir a urna é útil para demonstrar uma fraude?

Um dos vídeos investigados diz que uma fraude não apareceria onde as câmeras estavam apontando durante a abertura da urna. Outros posts virais ironizam a desmontagem dizendo que abrir uma única urna não prova nada, já que há milhares de outros equipamentos e o problema está em quem conta os votos. Há publicações alegando que, se as urnas são invioláveis, elas não deveriam ser abertas. De acordo com o professor Marcos Simplício, coordenador da Comissão Especial de Cibersegurança da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e do projeto de colaboração entre USP e TSE para evolução do sistema de votação, esta não é a primeira vez que o TSE abre uma urna, embora esta tenha sido a primeira transmissão em rede nacional. O objetivo, segundo ele, não é provar que não há fraude, mas a demonstração poderia ser útil para demonstrar a presença de um objeto estranho no equipamento, por exemplo

“Se tem um hardware ali desviando votos entre o teclado e a placa-mãe, abrir a urna ajuda a identificar esse objeto”, diz. Mas Simplício deixa claro que esse tipo de ataque não seria efetivo porque a comunicação entre o teclado e a placa-mãe é protegida por criptografia justamente para prevenir um hardware fraudador. Simplício também explica que não há previsão para abertura de urnas pós-eleição que verifique esse tipo de suspeita, mas isso poderia ser feito caso uma auditoria fosse solicitada.

Para o tribunal, “a urna foi feita para ser segura mesmo se aberta, tanto por suas próprias barreiras de segurança quanto pelas diversas informações geradas no processo que permitem a plena auditoria”. Por conta dessas barreiras, para o órgão, “fraudar uma eleição eletrônica é inviável”. Além disso, as urnas funcionam de forma isolada e não são conectadas a nenhum dispositivo com acesso à internet.

Como são os testes de segurança e como eles ajudam a evitar uma fraude?

As principais formas de verificar a segurança da urna são o Teste Público de Segurança e o Teste de Integridade. O teste de segurança, ou Teste Público da Urna, ocorre no ano anterior à eleição e serve para que especialistas identifiquem falhas ou vulnerabilidades a serem corrigidas. A última fase é o teste de confirmação, para verificar se os problemas encontrados foram corrigidos.

Já o Teste de Integridade ocorre nos TREs no dia da eleição, e é acompanhado por empresa de auditoria externa. Segundo o TSE, o processo tem por objetivo verificar se o voto depositado é o mesmo que será contabilizado pelo equipamento.

O teste simula uma votação normal e considera as circunstâncias que podem ocorrer durante o pleito. Sendo assim, segue o mesmo rito de uma seção eleitoral comum, como emissão da zerésima (documento que comprova não haver nenhum voto na urna antes da votação) e impressão do Boletim de Urna (BU), relatório impresso que contém a apuração dos votos armazenados no equipamento.

“No geral, a auditoria mais possível para ver que não tem nada espúrio é o Teste de Integridade. Não é perfeito, não existe nenhum mecanismo perfeito de segurança, mas ele traz algum grau de confiança de que a urna está se comportando do jeito esperado”, afirma Marcos Simplício. Além disso, a urna faz um autoteste de inicialização e se algo não estiver de acordo com o esperado, ela trava.

É verdade que os votos não são rastreáveis?

Em outro trecho de um vídeo viral, o autor critica uma suposta falta de rastreabilidade da urna e diz que um Pix deixa mais rastros verificáveis do que o voto, o que não é verdade. Em nota, o TSE disse que as duas situações sequer podem ser comparadas: “O voto é secreto no Brasil para proteger a vontade do eleitor contra ameaças e compra de votos. Após registrado o voto, não deve ser possível saber quem votou em quem. O Pix, em contrapartida, tem por definição ser rastreável, pois é uma atividade bancária em que o requisito é esse”.

Simplício explica que o principal ponto de rastreabilidade do Pix é o log, que registra por onde o dinheiro passou, e isso a urna também faz, mas sem ligar o eleitor ao voto.

“Cada ação relevante é guardada no log da urna e você consegue ver quantas pessoas votaram, se o voto foi autenticado, se ele foi liberado pelo mesário”, diz.

Esses logs da urna, que registram todas as atividades, o funcionamento e possíveis falhas no equipamento, também podem ser baixados por qualquer cidadão no portal de Dados Abertos do TSE. Além disso, o resultado pode ser checado pelos boletins de urna, que também ficam disponíveis para download e são obrigatoriamente impressos e fixados nas portas de cada seção eleitoral após o final da votação.

Apenas o TSE organiza, questiona e julga o que acontece na eleição?

Não. O TSE é a instituição que organiza as eleições, mas não é o único a fazer questionamentos sobre o processo. Toda a eleição é fiscalizada e auditada por uma série de instituições, como entidades de classe, órgãos públicos, partidos políticos, especialistas e universidades, antes, durante e depois do pleito. Desde 2002, o código-fonte das urnas é aberto para que essas entidades possam inspecioná-lo, fazer sugestões, indicar se o software faz o que manda a lei, se ele funciona corretamente e se é seguro.

A Lei das Eleições brasileira permite que todos os partidos e coligações constituam um sistema próprio de totalização dos votos, contratando empresas de auditoria, que terão acesso aos mesmos programas e dados usados pela Justiça Eleitoral.

Além disso, os próprios eleitores podem acompanhar a apuração em tempo real e baixar os boletins de cada uma das urnas usadas na eleição. Edson Araújo, advogado especialista em Direito Eleitoral, mestre em Ciência Política pela UFPI e membro Fundador da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (ABRADEP), afirma que qualquer cidadão que se deparar com alguma irregularidade pode fazer uma denúncia ao Ministério Público Eleitoral.

O especialista esclarece que cabe à Justiça Eleitoral organizar e julgar o que acontece nas eleições. E explica que o processo eleitoral é estruturado em três níveis: no âmbito nacional, o TSE atua como órgão máximo e uniformiza as regras por meio de resoluções e julga eleições presidenciais e recursos; no campo estadual, os TREs administram os pleitos e julgam causas relativas aos cargos de governador, senador e deputados federais e estaduais; e, na competência municipal, os juízes eleitorais atuam na base das zonas eleitorais, organizando o pleito e julgando as demandas de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores.

Por que posts sobre as urnas voltaram a circular?

Em ano eleitoral, narrativas desinformativas e teorias conspiratórias sobre a transparência do pleito viralizam e se espalham de forma descontrolada.

Apesar da “onda desinformativa” na internet, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) reforça constantemente por meio de notas, ações e matérias, que as urnas são auditáveis e invioláveis.

“[Essa onda de desinformação] Continua porque os atores que a propagam sabem como isso é eficaz em influenciar o debate público e tentam tirar vantagem na implantação da dúvida generalizada sobre o processo eleitoral”, argumenta o pesquisador Matheus Soares, mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), coordenador de conteúdo do Aláfia Lab, do site *desinformante e do Observatório IA nas Eleições.

Fontes consultadas: Consultamos o site do TSE; a lista de entidades fiscalizadas; a Lei das Eleições, além de dados do Netlab UFRJ. Foram ouvidos: Marcos Simplício, da SBC, o pesquisador Matheus Soares e o advogado Edson Araújo. O autor de um dos posts foi procurado, mas não respondeu até a publicação deste texto. Os outros três não permitem o envio de mensagens pelo X.

Por que o Comprova explicou este assunto: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas e eleições. Quando detecta nesse monitoramento um tema que está gerando muitas dúvidas e desinformação, o Comprova Explica. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Para se aprofundar mais: O Comprova já verificou diversos posts com desinformação sobre o processo eleitoral. Confira algumas publicações da iniciativa:

Outros sites de checagem também verificaram o tema. Recentemente, por exemplo, o Estadão Verifica publicou ser falso que urnas do Senado tenham sido auditadas após rejeição de indicação de Messias ao STF e que o código-fonte das urnas é aberto desde 2002, diferentemente do que diz postagem.