Verificação

Investigado por:2020-05-26

Vídeo engana ao atribuir protesto na Bélgica a profissionais de saúde de São Paulo

  • Falso
Falso
Vídeo foi gravado na Bélgica e compartilhado nas redes sociais como se fosse um protesto de médicos e enfermeiros contra o prefeito de São Paulo, Bruno Covas

O vídeo de um protesto de profissionais de Saúde em Bruxelas, na Bélgica, foi tirado de contexto para atacar o prefeito da cidade de São Paulo, Bruno Covas (PSDB). As imagens gravadas mostram funcionários em uniforme hospitalar dando as costas para uma comitiva de carros que chega a um hospital. O conteúdo é acompanhado de um texto que diz: “O prefeito de SP Bruno Covas é recebido assim por enfermeiros e médicos: de costas no hospital. Parabéns a esses guerreiros”.

O protesto na verdade aconteceu em Bruxelas, na Bélgica, no último dia 16 de maio. As pessoas que aparecem no vídeo eram funcionários do Hospital Saint-Pierre, como reportado por veículos internacionais, e fizeram o protesto silencioso durante visita oficial da primeira-ministra Sophie Wilmès.

A Bélgica é o país da União Europeia com a maior taxa de mortes por grupo de um milhão de habitantes, 804, de acordo com o site worldometers. O governo belga tem sido alvo de duras críticas pela maneira como enfrenta a pandemia e a primeira-ministra Wilmès chegou a dizer que talvez estejam sendo apresentados números de casos maiores do que a realidade.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a covid-19 que sejam muito compartilhados e tenham repercussão significativa nas redes sociais. Este vídeo, com informações falsas, foi publicado em um momento de grande disputa política a respeito de como lidar com a pandemia do novo coronavírus.

Enquanto o governo federal, comandado por Jair Bolsonaro, insiste na retomada completa de todas as atividades econômicas, governadores e prefeitos têm mantido orientações de distanciamento social, como a proibição de aglomerações e a obrigatoriedade de máscaras em lugares públicos.

João Doria, governador de São Paulo, o estado mais atingido pela pandemia, contestou Bolsonaro diversas vezes e ambos trocaram farpas em público. Bruno Covas, prefeito da capital paulista e alvo do vídeo falso verificado aqui, é um aliado político de Doria.

Na semana passada, com a divulgação do vídeo de uma reunião ministerial realizada em abril, foi possível confirmar a hostilidade de Bolsonaro em relação aos governadores. Diante de seus ministros, o presidente da República chamou Doria de “bosta” e Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro, de “estrume”.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

O Comprova utilizou o mecanismo de busca reversa do Google para localizar a origem do protesto. A pesquisa das imagens levou a diversas reportagens escritas por veículos de comunicação estrangeiros como a rede BBC e o jornal The Telegraph sobre o protesto belga.

Também analisamos detalhes do vídeo, como aspectos das ambulâncias e placas dos carros. Em outra gravação, foi possível identificar detalhes escritos na roupa dos funcionários de saúde para comparar com o usado por esses profissionais na Bélgica.

Verificação

O jornal belga Le Soir publicou reportagem sobre o caso no sábado, 16 de maio. O texto diz que centenas de funcionários do hospital — entre enfermeiros, médicos, pessoal da limpeza e da área administrativa — protestaram contra dois decretos que permitiam a convocação dos profissionais em caso de uma emergência. Para os profissionais, eles já se dedicam suficientemente ao combate da pandemia e não seria preciso uma convocação.

Ao procurar pelo hospital no Google Street View, foi possível encontrar edificações semelhantes às que aparecem no vídeo.

Em certo momento, o vídeo foca em um dos carros da comitiva da primeira-ministra e é possível ver com clareza sua placa. O modelo, diferente do padrão brasileiro (composto de três letras e quatro números), é o mesmo adotado na Bélgica segundo o guia de regulamentos rodoviários belga (número, três letras e três números).

Outro detalhe que chama a atenção é a cor das ambulâncias. Os veículos que aparecem no vídeo são amarelos e vermelhos, mesmo padrão dos veículos utilizados na Bélgica, além de possuir a inscrição do número “112”. Esse é o telefone de emergência no país europeu. Já em São Paulo, as ambulâncias são brancas e vermelhas com a inscrição do número para serviço de atendimento pré-hospitalar de urgência e emergência da Prefeitura de São Paulo, 192.

Em outra gravação do mesmo episódio é possível ver que o uniforme de um dos profissionais contém as palavras “infirmier” e “verpleegkundige”, correspondentes em francês e holandês, respectivamente, para “enfermeiro”. Portanto, o vídeo não poderia ter sido gravado no Brasil. As duas línguas são faladas na Bélgica.

Em seu Twitter, a primeira-ministra afirmou, sobre a visita ao hospital: “Foi um momento de encontros e de diálogo importante para os profissionais de saúde e para mim”.

Contexto

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), e o governador João Doria (PSDB) adotaram medidas como ampliação do rodízio de veículos na capital e antecipação de feriados no Estado para tentar aumentar a taxa de isolamento social. Ambos defendem que a medida é necessária para evitar um colapso no sistema de saúde pública. São Paulo lidera o ranking de mortes no Brasil, com 6.220 óbitos e 83.625 casos confirmados até segunda-feira, 25. A taxa de ocupação dos leitos em UTIs na região metropolitana da capital era de 91%.

O governador e o prefeito tentam evitar o decreto de um “lockdown” — bloqueio total que obrigaria as pessoas a ficarem em casa. Enquanto especialistas afirmam que a medida será inevitável caso não haja redução na proporção de contágios e internações, os líderes do Executivo são alvos de protestos de caminhoneiros e outros setores que pedem pelo afrouxamento das medidas de distanciamento e pela reabertura do comércio.

Alcance

Um dos vídeos foi compartilhado em 20 de maio e já foi visto quase 100 mil vezes. Outra postagem se destacou com 20 mil compartilhamentos. O mesmo vídeo com a afirmação enganosa recebeu versões no Instagram, Twitter e YouTube.

Este boato foi também checado pelo Fato ou Fake e pela AFP.