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Investigado por:2020-09-05

É falso que testes são manipulados e pandemia é uma farsa

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Vídeo publicado no YouTube e no Instagram divulga alegações falsas sobre a pandemia, sobre validade de testes e sobre notificações erradas nos EUA
  • Conteúdo verificado: Vídeo publicado no Instagram e no YouTube e que trata a pandemia como farsa e fala de manipulação de testagens e fraudes em notificações nos EUA

O Comprova investigou o conteúdo de um vídeo postado por uma mulher em seus perfis no Instagram e no YouTube nos quais ela denuncia uma suposta “farsa” na pandemia de covid-19 e uma alegada manipulação de dados. Essas afirmações não são verdadeiras. A pandemia existe e já matou mais de 870 mil pessoas no mundo – só de pessoas infectadas foram mais de 26,4 milhões, segundo a universidade Johns Hopkins. Apenas no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, foram mais de 124 mil óbitos e cerca de 4 milhões de infectados até a publicação deste texto.

A mulher, que se apresenta como sendo Karina Michelin, diz no vídeo que a farsa acontece por causa da manipulação dos testes. Ela engana ao questionar a validade dos exames e dizer que há “muita controvérsia e resultados falsos”. Por ser uma doença nova e a pandemia, uma situação sem precedentes na história recente, há discussões em curso sobre a melhor forma de utilizar e divulgar os testes, mas “não há manipulação”, como diz Luiz Fernando Barcelos, presidente da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (Sbac).

“No início da pandemia, os testes não tinham a eficácia que gostaríamos, mas melhoraram muito e estão atendendo perfeitamente bem”, afirma ele. Barcelos alerta para outros fatores que vão na contramão do que Karina afirma e que confirmariam números da covid-19 no Brasil ainda maiores: “Além de testarmos pouco, grande parte dos assintomáticos não entra no bolo dos quase 4 milhões de infectados no país [por não fazerem o exame]”.

A mulher também erra ao afirmar que os Estados Unidos contam, entre os casos positivos, pessoas que não foram testadas para a covid-19. O artigo que ela mostra na gravação, do Center for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, é claro ao informar que o caso só será confirmado positivo se “atender a evidências laboratoriais”.

Outra desinformação que o vídeo traz é sobre “essa mania de contar mortes de acidentes de trânsito como covid-19”, que, segundo a autora, “parece que virou moda e está se espalhando pelo mundo”. Ela conta sobre uma pessoa que morreu em um acidente de moto na Flórida e entrou para as estatísticas do novo coronavírus e ilustra com uma reportagem do site Fox 35 sobre o assunto. Mas Karina omite uma informação importante, que está no início do texto: dois dias depois da publicação da matéria da Fox 35, em 18 de julho, o óbito foi retirado da lista de vítimas da pandemia.

O Comprova tentou contato com Karina Michelin, mas não recebeu retorno até a publicação deste texto.

Como verificamos?

O primeiro passo foi transcrever o vídeo e buscar os links das reportagens que ela mostra na gravação. Também entramos em contato com a autora do vídeo por meio de mensagem no Instagram – foram três tentativas, sem resposta.

Para checar a veracidade das afirmações, buscamos no Google artigos publicados nos órgãos oficiais citados por ela e, também por meio de pesquisas no Google, encontramos publicações importantes e reportagens sobre testes mundo afora.

Por último, por telefone, entrevistamos Luiz Fernando Barcelos, presidente da Sbac, para que ele comentasse o argumento de Karina sobre a “manipulação dos testes”.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 4 de setembro de 2020.

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Os testes usados no Brasil

No Brasil, atualmente, há dois tipos de testes utilizados: os moleculares, também conhecidos como PCR ou RT-PCR, e os sorológicos ou rápidos.

O PCR é considerado o teste mais preciso. Ele diagnostica a presença do material genético do vírus no organismo a partir de amostras de secreções do nariz ou da garganta coletadas por um instrumento chamado “swab”, um tipo de cotonete. Esse teste é realizado entre o terceiro e o décimo dia do aparecimento de sintomas no paciente e pode levar dias para apresentar o resultado.

Já os testes rápidos mostram, a partir de uma amostra de sangue, se a pessoa já teve contato com o vírus no passado. Eles detectam os anticorpos produzidos no organismo em resposta à infecção. Essa proteção natural do organismo leva cerca de 15 dias para se formar, o que faz com que o teste sorológico seja indicado a partir do décimo dia após o início dos sintomas. Em vez de identificar quem está com a doença ativamente, esse tipo de teste é mais útil para descobrir quem já teve a covid-19. E há um certo nível de imprecisão nesses testes, podendo dar positivo para outros tipos de coronavírus que já circulavam.

Especialistas afirmam que desenvolver um teste sorológico com 99% de especificidade para a covid-19 demoraria anos. Esses testes apresentam falsos resultados negativos em 15% dos casos e falsos resultados positivos entre 1% e 5% das vezes em que é usado (leia mais em “Sem manipulação”).

Segundo o Ministério da Saúde, até abril, os dados oficiais de casos de covid-19 no país eram baseados nos testes PCR. Desde então, a contagem passou a incluir testes rápidos, que se tornaram maioria a partir de maio. Até o final de agosto, 8 milhões de testes rápidos foram distribuídos, dentre os 14,4 milhões no total, contando os do tipo PCR. O governo federal havia prometido entregar 46,2 milhões de exames de vários tipos, mas alcançou apenas 28% da meta até o fim de julho. Desses, 24,2 milhões são do tipo PCR.

Idealmente, o PCR deveria ser utilizado em massa – assim, seria possível identificar com mais precisão os doentes ativos para a elaboração de políticas públicas de combate à pandemia. Porém, como Luiz Fernando Barcelos, presidente da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas, afirma, “não há dinheiro nem recurso tecnológico para isso, então, faz-se o que é mais adequado”. A mistura dos dois testes nos dados oficiais dificulta o monitoramento correto da evolução da doença e, isso, para a microbiologista Natália Pasternak, causa um “caos epidemiológico”, conforme ela escreveu em um texto em parceria com o jornalista Carlos Orsi no site do Instituto Questão de Ciência.

Nos Estados Unidos, epidemiologistas também criticam a mistura de testes nos dados oficiais, questionando o CDC e a impossibilidade de interpretar dados sem essas especificações. Em entrevista ao jornal The Atlantic, Ashish Jha, professor de Saúde Global e diretor do Instituto de Saúde Global de Harvard, afirmou que, ao misturar testes sorológicos e PCR, vão “levar para baixo a taxa de positivos de maneira bastante dramática”.

Apesar das discussões sobre os testes, diferentemente do que Karina afirma, os cientistas e pesquisadores declaram que não há manipulação – ou mesmo tentativa disso – nos testes e seus dados. “A doença é muito nova. É quase nada para a história de uma doença”, diz Barcelos.

Testes nos Estados Unidos

Karina diz que o CDC introduziu em abril uma nova definição para a covid-19 e que essa mudança “produziu os primeiros resultados em junho até a atual explosão de casos nos Estados Unidos”. No momento em que ela fala sobre isso, o vídeo mostra um texto da página do CDC, e ela continua: “Se analisarmos bem o documento, (…) de acordo com a nova definição do CDC, para que um caso seja definido como covid-19 não é necessário nem mesmo testar positivo, basta que seja provável”. Isso não é verdade. O artigo que ela traz na gravação é bem claro ao informar que o caso só será confirmado positivo se “atender a evidências laboratoriais”.

Em julho, os Estados Unidos já haviam testado 44 milhões de habitantes – como comparação, no Brasil, onde a primeira morte ocorreu mais tarde, haviam sido 4,5 milhões.

Recentemente, em 24 de agosto, um dia antes do vídeo de Karina, o órgão publicou uma mudança. Até então, a recomendação era fazer teste em caso de contato próximo com pessoas infectadas, mas passou a ser outra: “Se você teve contato (de pelo menos 1,8 metro) com uma pessoa infectada por covid-19 durante pelo menos 15 minutos, mas não apresenta sintomas, não necessariamente precisa de um teste, a menos que seja uma pessoa vulnerável ou que seu médico, seu estado ou seus profissionais de saúde pública locais o recomendem”. De qualquer forma, isso também não confirma as declarações de Karina.

Sem manipulação

A Sociedade Brasileira de Análises Clínicas é um dos órgãos que, com com outras entidades, realiza a avaliação de kits de diagnóstico para o SARS-CoV-2, nome científico do novo coronavírus, disponíveis no mercado brasileiro. Em contato com o Comprova, o presidente da associação, Luiz Fernando Barcelos, explicou que não se pode falar em manipulação. Os testes passam por um processo de controle da Anvisa e atendem “perfeitamente bem” ao que se propõem: avaliar a presença ou a ausência do novo coronavírus no organismo.

Ele atribuiu os “falsos negativos” à situação em que a pessoa está infectada, mas seu exame não acusa a presença do vírus pois ela foi testada antes de ter uma quantidade detectável de anticorpos. Segundo Barcelos, “há uma confusão” sobre isso, já que a janela imunológica leva de 10 a 14 dias e deve ser respeitada. “Isso acontece com muita frequência, porque as pessoas, de forma geral, ficam muito estressadas e atropelam esses prazos. Então, não devemos chamar de falsos negativos, pois foram feitos na hora em que a pessoa não apresentava a doença.”

Já os “falsos positivos”, sobre os quais Karina comenta, não são comuns. Segundo Barcelos, o Brasil testa muito pouco e, como muitas pessoas são infectadas, mas permanecem assintomáticas, o número de casos é muito maior do que o informado. Para ele, é um erro falar que a pandemia é uma farsa, como diz Karina em seu post.

Sobre esse tema, Karina Michelin faz referência a um artigo de março de 2020 em chinês: “se é verdade que um dos primeiros artigos científicos que testou os primeiros testes concluiu que o mesmo produziu 80,3% de falsos positivos, esse teste já nasceu falso”, diz a apresentadora. Depois, afirma: “O que causa aí uma certa estranheza é que a revista chinesa que publicou o artigo decidiu retirá-lo logo em seguida, né?”

De fato, um artigo foi publicado em março com o título “Potential false-positive rate among the ‘asymptomatic infected individuals’ in close contacts of COVID-19 patients” (em tradução livre, “Taxa de falsos positivos potencial entre indivíduos infectados assintomáticos em contato próximo com pacientes com covid-19”). Esse estudo não está mais disponível e o motivo dessa alteração está claro na página da publicação.

A justificativa do editor responsável é que o texto foi amplamente discutido após sua pré-publicação. “Leitores criticaram principalmente os resultados do artigo e as conclusões, que dependiam de deduções teóricas, mas não em dados epidemiológicos de campo, e que outras pesquisas seriam necessárias para provar essa teoria”, afirmou o editor. Assim, o conselho editorial responsável pelas listas de pré-publicações decidiu deixar o artigo offline. Ou seja, diferentemente do que Karina Michelin dá a entender, o artigo foi retirado do ar por sua metodologia ter sido criticada pela comunidade científica, o que põe em dúvida, consequentemente, seus resultados.

A autora do vídeo

Em seu Instagram, Karina Michelin se define como “jornalista curiosa, cheia de dúvidas; atriz e apresentadora; poeta; em constante evolução”. Segundo seu perfil no LinkedIn, ela é produtora e apresentadora do programa de TV Miami Lifestyle. Em 2006, Karina venceu a edição do Miss Italia nel Mondo, que elege a descendente de italianos mais bonita.

No Facebook, onde mantém um perfil aberto, já publicou vídeos e textos questionando atitudes adotadas em meio à pandemia e recomendações feitas pela Organização Mundial da Saúde. Em julho, o Comprova classificou como enganoso um vídeo em que ela comparava, erroneamente, pesquisadores que estudam a covid-19. Ela também compartilhou um texto segundo o qual a OMS teria declarado que a transmissão da doença a partir de assintomáticos é “muito rara”, afirmação que, como o Estadão investigou, foi distorcida.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova investiga conteúdos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia. Conteúdos que trazem desinformação relacionada à covid-19, como o verificado aqui, são ainda mais perigosos pois podem custar vidas.

Karina – que, como informado anteriormente, já apareceu em uma verificação do Comprova –, coloca a saúde das pessoas em risco ao dizer que a pandemia é uma farsa. O post investigado agora tinha quase 18 mil visualizações no Instagram e 549 no YouTube até 4 de setembro.

Outras verificações que tentam desacreditar as estatísticas e as ações dos governos e das autoridades sanitárias já foram publicadas pelo Comprova, como a do médico que usou dados enganosos ao sugerir uma conspiração sobre a covid-19, a do assessor de Bolsonaro que utilizou informação desatualizada para insinuar fraude no registro de óbitos e a dos posts que distorciam dados para negar as mortes.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original.