O Projeto Comprova reúne jornalistas de 24 diferentes veículos de comunicação brasileiros para descobrir e investigar informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas sobre coronavírus compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. O Comprova é uma iniciativa sem fins lucrativos
Filtro:

Verificação

Investigado por:2020-05-29

Vídeo distorce informações sobre o uso da cloroquina para a covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Em vídeo compartilhado nas redes sociais, um homem sem formação na área de saúde exagera a eficácia da cloroquina e minimiza seus efeitos colaterais e diz que as notícias sobre esses efeitos fazem parte de uma luta contra o presidente da República

É enganoso um vídeo que circula nas redes sociais e atribui notícias sobre os efeitos colaterais da cloroquina e da hidroxicloroquina a uma “luta contra o presidente Jair Bolsonaro”. Na realidade, os alertas sobre a utilização dessas substâncias contra a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, têm como base o fato de não existirem provas da eficácia da substância para tratar a doença. Como a cloroquina e a hidroxicloroquina podem gerar efeitos colaterais graves, autoridades sanitárias têm enfatizado os riscos de utilizá-las.

No vídeo, um homem apresenta uma lista de efeitos colaterais de um remédio e, em seguida, diz ao espectador não se tratar de algo retirado da bula da hidroxicloroquina, mas sim da Novalgina, um dos nomes comerciais da dipirona sódica, medicamento destinado ao tratamento de dores e à redução da febre.

O homem no vídeo acerta ao dizer que a cloroquina é usada contra a malária há 70 anos, mas engana ao insuflar sua eficácia e ao minimizar seus efeitos colaterais, o que pode causar danos à saúde de quem acreditar no que é dito no vídeo.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos que tenham muita viralização e repercussão nas redes sociais sobre a pandemia. O vídeo em questão se insere no contexto da disputa iniciada pelo presidente Jair Bolsonaro acerca do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina como tratamento para a covid-19.

Assim como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Bolsonaro insiste na adoção dessas substâncias apesar da ausência de dados técnicos ou científicos que comprovem a afirmação. Além disso, os efeitos colaterais dessas substâncias podem ser graves, o que torna sua utilização arriscada em se tratando de uma doença para a qual elas não têm eficácia atestada.

Para o Comprova, o conteúdo enganoso é aquele que foi retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; ou é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Foram realizadas pesquisas no Google, nas redes sociais Facebook e Instagram, resgatando informações sobre os envolvidos no vídeo, e buscas de artigos científicos no Brasil e pelo mundo, além de reportagens nacionais e internacionais. O Comprova também levantou documentos, recomendações e orientações das principais associações, instituições profissionais e científicas que discutem técnica e cientificamente o assunto.

Os envolvidos na produção do vídeo foram entrevistados por e-mail, telefone e aplicativo de mensagens WhatsApp.

Verificação

Um dos responsáveis pelo vídeo, que aparece em frente à câmera, é identificado como José Renato Castro. Com uma simples busca no Google, o Comprova identificou essa pessoa. Ele é um ator, produtor cultural e musical que fez sucesso nos anos 1990, como integrante da dupla musical e humorística “Rosa e Rosinha”. Castro atua como o cantor “Rosa” desde 1993.

José Renato diz que sentiu necessidade de se “afirmar politicamente” no vídeo devido à baixa qualidade das informações na internet. Ele afirmou querer alertar as pessoas que o uso de qualquer medicamento tem contraindicações e pode ser perigoso. A ideia “era falar sobre coisas verdadeiras” e, por isso, fez a parceria com seu amigo, o escritor Leo Reis, porque gosta dos textos produzidos por ele.

Leo Reis é o corresponsável pelo vídeo. Eles foram parceiros musicais na dupla musical Rosa e Rosinha. Reis também foi médico da família de José Renato Castro. Ele afirma ser escritor, músico e compositor e explica que é formado em medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ao longo da carreira, foi dono de hospital, cirurgião, clínico geral e atuou na Amazônia tratando pacientes com malária usando a cloroquina. Há 20 anos trabalha como médico de diagnósticos por imagem.

Tanto José Renato quanto Leo Reis acreditam que a hidroxicloroquina e a cloroquina têm efeito contra o novo coronavírus quando combinada com outros tratamentos, como a azitromicina, zinco ou a aplicação de plasma sanguíneo. José Renato admite, no entanto, que as substâncias não são a cura para a covid-19, mas diz acreditar que são um “fio de esperança”.

Ambos ressaltaram ao Comprova a defesa do uso da medicação alegando ter amigos e colegas que fizeram uso das drogas com resultados positivos. Como o Comprova informou em outras verificações, experiências pessoais compartilhadas como verdade absoluta, sem pesquisa adequada e comprovação científica, podem causar danos.

Leo Reis acrescenta ainda que o remédio só deve ser receitado na “primeira fase” da covid-19, “antes que os pulmões sejam atingidos”. Depois disso, o medicamento não teria mais efeito. Como também o Comprova já mostrou, não há evidência científica sobre a capacidade de nenhuma medicação impedir a evolução para a fase inflamatória da doença.

Cloroquina e covid-19

Ao incentivar o uso da hidroxicloroquina, o vídeo engana os espectadores e pode levá-los a ter problemas de saúde para além da covid-19.

Em 22 de maio, a revista de medicina The Lancet publicou o maior estudo sobre o uso da hidroxicloroquina em pacientes com covid-19, com dados de 96.032 pacientes internados em 671 hospitais, nos seis continentes. A pesquisa desqualificou a hidroxicloroquina como tratamento eficaz para a doença provocada pelo novo coronavírus e concluiu que a substância pode estar relacionada a um aumento no risco de morte por problemas cardíacos.

Desses pacientes analisados pelo estudo, 14.888 fizeram o tratamento com macrolídeos (grupo de antibióticos, como a azitromicina): 1.868 pessoas foram tratadas com hidroxicloroquina e 3.016 com cloroquina; 6.221 pacientes tomaram hidroxicloroquina com antibiótico e outros 3.783 usaram cloroquina com antibiótico, enquanto o restante, 81.144 pacientes, não tiveram o tratamento.

A pesquisa apontou a ineficácia da hidroxicloroquina e da cloroquina para o tratamento por covid-19, tanto no uso sozinho ou combinado com os macrolídeos. Os pacientes que tiveram o tratamento específico apresentaram o aumento no risco de morte por problemas cardíacos.

Os protocolos do Ministério da Saúde

No Brasil, o uso da hidroxicloroquina para tratar a covid-19 é regulado pelo Ministério da Saúde.

Em uma nota técnica de 27 de março, a pasta sugeriu, em seu primeiro protocolo sobre o tema, o uso da cloroquina para covid-19. É necessário que o paciente declare ciência dos efeitos colaterais do remédio. Na ocasião, o documento determinava que a substância deveria ser utilizada pelos médicos no tratamento apenas de pacientes graves e hospitalizados diagnosticados com a doença provocada pelo novo coronavírus. O protocolo reforçava que tanto a cloroquina quanto a hidroxicloroquina não eram indicadas para prevenir a doença nem tratar casos leves.

Dois meses depois, em 20 de maio, o ministério publicou novas recomendações para ampliar o acesso ao medicamento por pacientes com covid-19. Desde então, o uso pode ser feito também por pacientes com sintomas leves, desde que no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). O tratamento pode variar conforme os sintomas e a saúde do paciente e o acesso ao medicamento só pode ser feito por prescrição médica, com a concordância por escrito do paciente para o uso da medicação.

O uso da cloroquina

O vídeo acerta apenas ao afirmar que a cloroquina é usada contra a malária na região amazônica há 70 anos. Ocorre que, neste caso, há estudos que comprovam a eficácia da substância, ao contrário do que se pode constatar no caso da covid-19.

A cloroquina foi descoberta em 1934, mas de início foi avaliada como uma droga muito tóxica e acabou rejeitada. Novos estudos realizados nos Estados Unidos e na Austrália mostraram que variações do medicamento eram possíveis para o tratamento de doenças, desde que a dose fosse ajustada. Em 1945, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou a cloroquina para o tratamento da malária. O medicamento foi distribuído em massa na região amazônica e outras regiões do mundo com alta predominância de casos.

Farmacêuticos e a cloroquina

O vídeo engana, também, ao destacar que a cloroquina ou a hidroxicloroquina podem ser indicadas por farmacêuticos. No caso da covid-19, entidades que reúnem farmacêuticos têm feito alertas importantes a respeito disso.

O Conselho Federal de Farmácia (CFF) publicou um texto em seu portal, no dia 31 de março, explicando que o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina “não evita que pessoas fiquem doentes por coronavírus e, por isso, não devem ser usados para prevenir a covid-19”. No mesmo texto, o CFF ressalta que ainda não há um estudo definitivo e que o “uso se justifica apenas com prescrição e supervisão médica, com acompanhamento de profissionais de saúde, dentro de hospitais, como parte de um protocolo de pesquisa”.

O Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP), por sua vez, publicou em 18 de maio uma nota técnica com diversos alertas à classe. O documento ressalta que, diante das orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS); da Lei 13.021/2014 sobre o uso racional de medicamentos; do código de ética do Conselho Federal de Farmácia (CFF); e de uma resolução do CFF de 2001, o farmacêutico só deve liberar a “cloroquina e outros medicamentos utilizados para a covid-19” diante da apresentação da “prescrição médica, ainda que não seja medicamento sob regime especial de controle”.

Contexto

Desde março, o presidente da República, Jair Bolsonaro, tornou-se um dos principais defensores do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19, mesmo sem confirmações científicas e após o apoio e recuo de líderes estrangeiros, como Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Por várias vezes, Bolsonaro defendeu o uso do medicamento em coletivas de imprensa, vídeos e textos publicados nas redes sociais e até mesmo em pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão.

A insistência no medicamento já provocou a saída de dois ministros da Saúde durante a pandemia do coronavírus – Henrique Mandetta e Nelson Teich. Ambos discordavam da indicação do presidente da República. O segundo protocolo do Ministério da Saúde, citado acima, só foi publicado após o general Eduardo Pazuello assumir interinamente a pasta.

Com a defesa do presidente ao medicamento, muitos apoiadores, entre eles seus filhos, como o vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, atacaram adversários, como o governador de São Paulo, João Doria, para apoiar o uso da cloroquina.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), a Sociedade Brasileira de Virologia (SBV), a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), a Associação de Medicina Intensiva Brasileria (AMIB), a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e a Associação Médica Brasileira (AMB) são algumas das organizações científicas e profissionais que publicaram orientações e recomendações reforçando que ainda não há evidências que comprovem a eficácia do medicamento, e que sua eventual aplicação seja feita conforme a situação ou protocolo determinado.

Alcance

O Comprova verificou que vídeo original foi publicado na página do Facebook de José Renato Castro no dia 19 de maio. Até 25 de maio, já foi visualizado mais de 90 mil vezes, com 74 comentários, 745 reações e mais de 5 mil compartilhamentos. No Instagram, o vídeo também já foi visualizado mais de 2 mil vezes.

 

Verificação

Investigado por:2020-05-29

Boato usa frase de Doria para levantar dúvidas sobre a extensão da pandemia

  • Enganoso
Enganoso
Tuíte usa o a lista de membros da ONU, 193, para sugerir que o governador de São Paulo exagera os números de países afetados pela pandemia. Dória afirmou que 213 países enfrentam a pandemia de covid-19 em entrevista à Band TV. São, na realidade, 214 países e territórios afetados, segundo a OMS

Publicação com grande circulação no Twitter sugere que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), inventou o número de países afetados pela pandemia do novo coronavírus em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, da Rede Bandeirantes. O boato afirma que o político teria citado 215, quando o número de países no mundo é de 193. A informação, no entanto, é enganosa.

De fato, Doria erra ao falar sobre o cenário da pandemia no programa Brasil Urgente, em 11 de maio — mas o número não aparenta ser invenção. Na verdade, está bastante próximo à quantidade de áreas com casos confirmados de covid-19 até aquele momento, com base em dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A entrevista está no Canal do Datena no YouTube e foi transmitida ao vivo na Band TV. O trecho citado pelas publicações no Twitter pode ser visto a partir de 8 minutos e 20 segundos de vídeo. Doria fala, primeiro, em 212 países enfrentando a pandemia, depois corrige o número para 213.

“A pandemia é mundial, ela afeta o mundo: 213 países, neste momento, Datena, estão enfrentando a pandemia, estão perdendo vidas”, afirma o governador de São Paulo.

A informação é imprecisa porque Doria relata casos do novo coronavírus em 213 países, quando a referência só é possível de ser feita quando somam-se tanto os países de reconhecimento pleno quanto outros tipos de território no mundo.

Ainda assim, o número atualizado em 11 de maio, segundo a base da dados da OMS, era de 214 áreas com casos confirmados de covid-19. Desses, 180 eram países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) e 34 eram territórios dependentes e países de reconhecimento limitado, entre outros.

Quanto ao número real de países, a principal referência para o dado é a lista de membros da ONU, com 193. A quantidade de nações permanece inalterada desde 2011. Esse também é o número que consta nas postagens do Twitter.

Porém, mesmo essa informação é questionável em razão de disputas políticas em andamento. Taiwan e Kosovo, por exemplo, são considerados países de reconhecimento parcial, o que significa dizer que algumas nações as entendem como estados soberanos e outras, não. A ONU também conta com dois “estados observadores” em suas reuniões, Vaticano e Palestina. Esses quatro já aumentariam as nações para 197.

O post mais antigo no Twitter com a descrição foi publicado no dia 26 de maio pelo perfil @Thacloroquina, de acordo com a plataforma de monitoramento CrowdTangle. A autora se descreve como “católica, conservadora, anti-esquerda e robô do Bolsonaro com CPF”. A mensagem também aumenta o número dito por Doria na entrevista para 215, o que é incorreto.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos suspeitos que circulam nas redes sociais e alcançam grande audiência.

Além disso, conteúdos que questionam a gravidade da pandemia são potencialmente prejudiciais à população. Ao acreditar em informações enganosas que desacreditam a crise mundial de saúde, as pessoas podem decidir tomar menos precauções, ficando assim expostas mais facilmente a uma doença que ainda não tem cura conhecida.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Com base no texto do tuíte, o Comprova pesquisou sobre entrevistas recentes do governador João Doria ao jornalista José Luiz Datena. A reportagem encontrou trecho semelhante à descrição no vídeo “Lockdown não está descartado em SP, diz Doria em entrevista a Datena”, publicado no Canal do Datena no YouTube, referente à transmissão do programa Brasil Urgente, na Band TV, em 11 de maio.

A seguir, o Comprova consultou a base de dados aberta da Organização Mundial da Saúde (OMS) para descobrir a quantidade de países e territórios com casos de covid-19 registrados até a data da entrevista. Por meio de um editor de planilhas, a reportagem filtrou os casos acumulados até o dia 11 de maio e elaborou uma lista por localidade informada.

Finalmente, a reportagem procurou em notícias, artigos e outras fontes confiáveis a quantidade real de países no mundo. Entre os conteúdos, estava a lista de países membros da ONU informando o número alegado pela publicação, 193. As informações, então, foram comparadas com a planilha de casos registrados pela OMS. As localidades que não constavam na lista das Nações Unidas foram pesquisadas individualmente.

Verificação

O governador de São Paulo, João Doria, realmente fez uma declaração semelhante à apontada pelo boato em entrevista ao jornalista José Luiz Datena em 11 de maio, durante o programa Brasil Urgente, da Band TV.

Doria respondia se estava perto ou não de tomar a decisão pelo lockdown em São Paulo e qual deveria ser a prioridade do governo durante a crise de saúde. O trecho sobre a situação da covid-19 no mundo aparece logo depois de o governador afirmar que não colocaria a economia “à frente da vida” e que o adversário não era a quarentena, mas a pandemia. Ele cita outros países do mundo para argumentar que as dificuldades econômicas não eram exclusividade de São Paulo.

Doria falou, primeiro, em 212 países enfrentando a pandemia e depois alterou a informação. “A pandemia é mundial, ela afeta o mundo: 213 países, neste momento, Datena, estão enfrentando a pandemia, estão perdendo vidas”, disse o político. “Não é um tema local, não é um tema regional, não é um tema nacional — é um tema mundial”. A entrevista também contém diversas críticas ao presidente Jair Bolsonaro.

Quantos países existem no mundo?

A principal referência para o dado é a lista de países-membros das Nações Unidas, organização internacional fundada em 1945. Atualmente, a lista conta com 193 países, entre eles o Brasil. Ela permanece inalterada desde 2011, com a entrada do Sudão do Sul. Entretanto, essa informação não é absoluta, em razão dos conflitos e disputas políticas que ocorrem hoje.

Em entrevista à BBC, publicada pelo portal G1, o especialista em geografia história e política da Universidade de Leeds, na Inglaterra, Martin Purvis, disse que a existência de um país depende do contexto político. Purvis explica que, para ser considerada um país, uma região precisa ter um território definido; ser habitada com algum grau de permanência; ter instituições políticas e governo próprios; ter a independência reconhecida por outros estados soberanos; e interagir diplomaticamente. Dessa forma, existem diversos territórios que ficam no meio termo: é o caso daqueles que declararam independência e funcionam, em grande parte, como países, mas não tiveram a soberania reconhecida pela comunidade internacional.

O que diz a base de dados da OMS?

De acordo com os dados abertos da Organização Mundial da Saúde (OMS), 214 países, territórios e áreas tinham registros de casos confirmados do novo coronavírus em 11 de maio de 2020, quando o número de infectados era de 4 milhões de pessoas no planeta. Desses, 180 eram países membros da ONU e 34 eram territórios dependentes e países de reconhecimento parcial, entre outros.

A OMS faz a contagem, separadamente, de uma série de arquipélagos e ilhas que pertencem a países como Reino Unido, Países Baixos, França, Dinamarca e Estados Unidos, por exemplo. Apenas o Caribe, região localizada na costa do continente americano, concentra 16 delas, todas com casos de covid-19: Anguilla, Aruba, Bermudas, Ilhas Cayman, Curaçao, Guadalupe, Martinica, Montserrat, Países Baixos Caribenhos, Porto Rico, São Bartolomeu, São Martinho Francês, São Martinho Neerlandês, Ilhas Turcas e Caicos, Ilhas Virgens Britânicas e Ilhas Virgens Americanas.

Os dois estados observadores da ONU — a Palestina, estado que reivindica a soberania sobre territórios no Oriente Médio, e o Vaticano, cidade-estado cercada por Roma, na Itália, e sede da Igreja Católica — também apresentam informações próprias. O mesmo acontece com Kosovo, país de reconhecimento limitado localizado na região dos Bálcãs, na Europa. Por outro lado, Taiwan — considerada província pelo governo chinês, mas que chegou a fazer parte da ONU até a década de 1970 —, é integrada à China pela OMS. Outras bases de dados, como a da Universidade Johns Hopkins, contabilizam Taiwan de forma separada.

Os demais territórios na base de dados da OMS são Ilhas Falkland (Malvinas), Ilhas Faroé, Guiana Francesa, Polinésia Francesa, Gibraltar, Groenlândia, Guam, Guernsey, Ilha de Man, Jersey, Mayotte, Nova Caledônia, Ilhas Marianas do Norte, Ilha da Reunião e Saint-Pierre e Miquelon. A contagem também informa os casos acumulados em transporte internacional no navio de cruzeiro Diamond Princess, registrados entre fevereiro e março, no total de 712.

Atualmente, o número de países afetados é de 181, com o primeiro caso em Lesoto confirmado em 14 de maio. Ao todo, foram confirmados 5,5 milhões de casos de covid-19 no mundo até quarta-feira, 27, segundo dados da OMS. Apenas 12 países da ONU não haviam divulgado casos da doença até esse dia: Coréia do Norte, Ilhas Marshall, Ilhas Salomão, Kiribati, Micronésia, Nauru, Palau, Samoa, Tonga, Turcomenistão, Tuvalu e Vanuatu. De acordo com informações da Reuters, outros 20 territórios também passam ilesos pela pandemia.

Em seus boletins diários, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reúne as localidades em uma coluna denominada “países, territórios e áreas”. Abaixo das informações, a instituição esclarece que “as designações empregadas e a apresentação desses materiais não implicam a expressão de qualquer opinião da OMS sobre o status legal de qualquer país, território ou área ou de suas autoridades, ou ainda sobre a delimitação de suas fronteiras e limites.”

Contexto

São Paulo é o epicentro do novo coronavírus no Brasil, com o maior número de casos confirmados e de mortes por covid-19 — eram 6.712 óbitos e 89.483 pessoas infectadas até quarta-feira, 27. Outro dado preocupante é a taxa de ocupação dos leitos de terapia intensiva na região metropolitana da capital, que está em 91%, de acordo com estatísticas oficiais do estado.

Diante do cenário, o governador João Doria adotou uma série de medidas para conter a disseminação do vírus, como o fechamento de estabelecimentos não essenciais ainda em março, como forma de reduzir a pressão sobre o sistema de saúde. Doria também vinha afirmando que não descarta estabelecer o lockdown, medida mais dura de controle sobre a circulação de pessoas e a operação de estabelecimentos comerciais, em algumas localidades, mas acabou anunciando um plano de flexibilização, incluindo abertura de shoppings e lojas na capital paulista, nesta semana.

Esse discurso é contrário ao que defende o presidente da República, Jair Bolsonaro, com quem Doria rompeu politicamente meses depois da aliança “Bolsodoria” no segundo turno das eleições de 2018. Durante a crise do novo coronavírus, a rivalidade ganhou maiores proporções. O governador de São Paulo chegou a afirmar que o presidente “despreza vidas” e deveria começar “a ser um líder, se for capaz”.

Bolsonaro, por outro lado, acusa Doria de usar a crise como palanque para as eleições de 2022. O presidente chamou o governador de São Paulo de “bosta” em reunião ministerial tornada pública por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e que foi analisada em meio ao inquérito que apura interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal.

Alcance

A mensagem circula no Twitter e no Facebook desde 26 de maio e teve mais de 8,6 mil curtidas e 1,6 mil compartilhamentos até a tarde desta quinta-feira, 28, de acordo com a plataforma de monitoramento de redes sociais CrowdTangle.

Verificação

Investigado por:2020-05-26

Vídeo “Plandemic” faz afirmações falsas sobre a COVID-19

  • Falso
Falso
“Plandemic” consiste em uma entrevista com a controversa pesquisadora Judy Mikovits, que reproduz informações erradas sobre a covid-19 e faz acusações sem provas de uma conspiração em torno da pandemia

Apesar de ter sido retirado de sites como YouTube, Facebook e Vimeo por oferecer conselhos de saúde infundados, um vídeo de mais de 25 minutos repleto de alegações falsas sobre o novo coronavírus continua a circular online em plataformas de vídeo menos conhecidas. O vídeo “Plandemic” consiste em uma entrevista com a controversa pesquisadora Judy Mikovits, que reproduz informações erradas sobre a covid-19 e faz acusações sem provas de uma conspiração em torno da pandemia.

Uma versão do vídeo com legendas em português acumulou mais de 901 mil visualizações ao longo de 18 dias. O filme foi produzido pela produtora californiana Elevate, dirigida pelo ex-modelo Mikki Willis, que também aparece no vídeo como entrevistador. Ele tem mais de 30 mil inscritos em seu canal de YouTube, onde publica conteúdo conspiratório. Em um vídeo, divulga a teoria sem provas de que o novo coronavírus teria sido vazado de um laboratório.

A doutora Mikovits teve seu trabalho desacreditado em 2011, depois que a revista científica Science teve de publicar uma retratação sobre um estudo a respeito da síndrome da fadiga crônica. A pesquisa havia sido publicada em 2009, e ao longo dos dois anos seguintes os resultados foram questionados por outros pesquisadores, que não conseguiram replicar a experiência descrita por Mikovits e outros coautores.

Por que investigamos?

O Comprova verifica conteúdos suspeitos que circulam nas plataformas de redes sociais e em aplicativos de mensagens e que alcançam uma grande audiência e muitas interações.

O vídeo “Plandemic” foi colocado em suspeição, teve parte de seu conteúdo desmentido por diversas organizações internacionais de checagem e banido de plataformas como YouTube, Facebook e Vimeo. O Comprova optou por publicar também uma verificação ao encontrar em uma plataforma de vídeo uma versão legendada em português e com cerca de 900 mil visualizações.

Além disso, o vídeo propaga ideias de uma pesquisadora controversa e que questiona temas sensíveis para a saúde como a eficácia das vacinas, a natureza do vírus, o uso de medidas protetivas e recomendação de uso de medicamentos cuja eficiência é questionada pelas autoridades de saúde.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

O Comprova usou nesta verificação conteúdos investigados previamente pela AFP, que faz parte do projeto, consultou artigos já publicados pela imprensa sobre o caso Plandemic e conteúdos de outras verificações feitas pelo projeto. Os links de referência estão disponíveis no texto abaixo.

A AFP entrevistou o pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet, na sigla em espanhol) Juan Manuel Carballeda, especializado em Virologia Molecular e a médica Kathleen Montgomery, patologista da Universidade de Vanderbilt.

Verificação

Quem é Judy Mikovits?

De acordo com a revista Science, Mikovits começou a carreira como técnica de laboratório no Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI, na sigla em inglês) em 1988. Sua formação acadêmica inclui um PhD em bioquímica e biologia molecular pela Universidade George Washington. Sua tese para conclusão do PhD de fato foi sobre HIV, como afirma o vídeo “Plandemic” — no entanto, a publicação não teve qualquer impacto sobre o tratamento da Aids.

A Science também mostrou que não há evidências de que Mikovits tenha participado da equipe do NCI que isolou o vírus HIV em 1984. Em “Plandemic”, a cientista acusa o doutor Anthony Fauci, atual diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID, na sigla em inglês), de ter adiado a publicação de pesquisas sobre a Aids. Judy não fornece qualquer prova para a acusação e não existe qualquer indício de que seja verdade.

Em 2009, ano em que publicou o desacreditado estudo sobre síndrome de fadiga crônica, Mikovits era diretora de pesquisa no Instituto Whittemore Peterson (WPI, na sigla em inglês). Ao contrário do que alega o vídeo “Plandemic”, o estudo publicado na Science não mostrava que uso de tecidos fetais causava doenças crônicas. Na realidade, a pesquisa sugeria que um vírus derivado de ratos, chamado XMRV, era a causa da síndrome de fadiga crônica.

Posteriormente, outros pesquisadores mostraram que o vírus tinha sido criado acidentalmente em laboratório e que provavelmente nunca tinha infectado humanos. A própria Mikovits tentou replicar o achado científico em um estudo com amostras de sangue de 300 pessoas, metade delas pacientes da síndrome de fadiga crônica. O XMRV não foi encontrado em nenhum dos materiais analisados. A cientista se recusou a assinar a retratação na Science.

Mikovits foi presa em 2011, depois de ter sido demitida do Instituto Whittemore Peterson (WPI), como ela própria admite no vídeo “Plandemic”. Ao contrário do que a pesquisadora afirma, porém, não é verdade que ela tenha sido presa sem acusações. De acordo com o Washington Post, Judy foi acusada pela procuradoria do condado de Washoe, no Estado de Nevada, de roubar dados de computadores e outros materiais do WPI. A acusação criminal foi retirada em junho de 2012.

O New York Times reportou na época que, antes que a acusação fosse retirada, um funcionário do WPI disse em depoimento que ajudou Mikovits a retirar materiais do laboratório. Judy estaria se escondendo em um barco para evitar ser intimada pelo WPI.

Em “Plandemic”, Mikovits acusa o doutor Fauci de ter subornado investigadores no caso da WPI. Novamente, ela não oferece qualquer prova disso. O site de fact-checking americano Snopes consultou vários documentos dos processos cível e criminal contra Mikovits que desmentem a acusação da doutora de conspiração promovida por Fauci.

Procurado pelo Politifact, o NIAID, agência governamental dirigida por Fauci, informou que está “focado em pesquisas com o objetivo de pôr fim à pandemia da covid-19 e a prevenir novas mortes” e que não comentaria “táticas de pessoas que procuram impedir nossos esforços”.

Como mostrou a AFP, a base de dados da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos aponta que Mikovits não publicou nem participou da produção de artigos científicos desde 2012.

Vacinas já mataram milhões no mundo?

No vídeo, Judy diz que vacinas mataram milhões de pessoas no mundo e que não há imunização para vírus RNA. São duas afirmações falsas. À AFP, o pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet, na sigla em espanhol) Juan Manuel Carballeda, especializado em Virologia Molecular, disse que a declaração feita pela doutora Mikovits era uma das “mais insanas que já ouvi até hoje”.

“Milhões de vidas humanas são salvas devido às vacinas para vírus de RNA”, indicou o pesquisador. “Penso na pólio, por exemplo, pronta para ser erradicada da face da Terra graças às vacinas Salk e Sabin. Outra vacina de sucesso, e a que mais se aplica no mundo, é a vacina da influenza, outro vírus de RNA”.

RNA é uma sigla que significa ácido ribonucleico. De acordo com Carballeda, o fato de o vírus ser de RNA é relacionado à forma com que o genoma, código genético do vírus, é guardado. “A diferença principal é que o RNA, por ser uma molécula bem mais instável que o DNA (ácido desoxirribonucleico), tende a mudar mais. Ou seja, os vírus cujo genoma é RNA tendem a ter uma taxa de mutação mais alta que os vírus de DNA”, explicou o pesquisador à AFP.

Em “Plandemic”, Mikovits afirma ainda que as vacinas contra gripe aumentaram em 36% as chances de infecção pelo novo coronavírus. No entanto, ela cita como referência um estudo sobre a temporada de influenza de 2017 a 2018. Os primeiros casos de covid-19 só foram identificados em 2019. A pesquisa, na verdade, faz referência aos quatro coronavírus que causam o resfriado comum.

De acordo com a OMS, vacinas são seguras e seus efeitos colaterais geralmente são temporários, como dor local no braço ou febre branda. Efeitos colaterais mais graves são possíveis, mas extremamente raros, informa a entidade. Todas as vacinas licenciadas passam por múltiplas fases de testes antes de serem liberadas para o público. A segurança das imunizações é constantemente monitorada para evitar riscos à saúde.

Como reforça a OMS: é muito mais provável que você fique doente por uma enfermidade que pode ser evitada por uma vacina do que pela imunização em si.

Vírus foi criado em laboratório?

No filme, Willis pergunta à doutora Mikovits se ela acredita que o novo coronavírus foi criado em laboratório, e a virologista responde que “é muito claro que o vírus foi manipulado”. Não é o que apontam estudos publicados até o momento sobre o assunto. Em 17 de março, a revista Nature divulgou pesquisa que analisou o genoma do SARS-CoV-2, vírus que causa a covid-19. “Nossas análises mostram claramente que o SARS-CoV-2 não é uma construção de laboratório ou um vírus manipulado propositadamente”, afirmaram os autores.

Autoridades como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, têm ventilado a teoria de que o vírus teria sido liberado do Instituto de Virologia de Wuhan, cidade chinesa onde foram registrados os primeiros casos da covid-19. Recentemente, a diretora da instituição, Wang Yanyi, negou os rumores, classificando-os como “pura fabricação”.

Em março, a agência de inteligência do Departamento de Defesa dos Estados Unidos atualizou um relatório sobre o novo coronavírus para incluir a possibilidade de que ele tenha vazado acidentalmente de um laboratório. No entanto, essa chance é remota, de acordo com a comunidade científica. O The Washington Post mostrou que não há evidências de que um vazamento tenha ocorrido — porém, como o governo da China não forneceu informações suficientes para esclarecer os boatos, agências de inteligência ainda exploram a questão.

Mikovits afirma ainda que o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID) financiou experimentos com o novo coronavírus em Wuhan e, por isso, seria responsável pela atual pandemia. À AFP, a médica Kathleen Montgomery, patologista da Universidade de Vanderbilt, disse que de fato os Estados Unidos estavam estudando a família de vírus dos coronavírus — que inclui organismos que podem causar resfriados até doenças mais graves, como a síndrome respiratória aguda severa (SARS).

“[Mikovits] diz que os Estados Unidos estavam trabalhando com Wuhan para estudar os coronavírus há anos, como se isso fosse uma grande revelação. Sim, é claro que estávamos fazendo isso: a China é um foco de coronavírus e faz sentido estudar essa família de vírus onde ela surge naturalmente”, disse Montgomery por e-mail.

Boatos que afirmam que o novo coronavírus é produto de manipulação humana são frequentes e o Projeto Comprova já desmentiu alguns exemplos (aqui, aqui e aqui).

Usar máscaras e luvas diminui a imunidade?

A alegação de que máscaras e luvas protetivas podem comprometer o sistema imunológico, divulgada em “Plandemic”, já foi desmentida pelo Projeto Comprova nesta checagem. Os três especialistas consultados pela reportagem confirmaram que o uso de equipamentos de proteção não diminui a imunidade. “A máscara vai evitar que você esteja exposto aos agentes infecciosos”, explicou o infectologista Jean Gorinchteyn, do Hospital Emílio Ribas, de São Paulo.

Atualmente, o Ministério da Saúde recomenda o uso de máscaras de pano por toda a população, mesmo entre aqueles que não apresentem sintomas da covid-19. Essa medida deve ser aliada a outras precauções, como a lavagem correta das mãos e o distanciamento social. As máscaras devem ser higienizadas frequentemente.

Hidroxicloroquina é tratamento mais efetivo contra covid-19?

A hidroxicloroquina, medicamento que aparece em vários boatos sobre a covid-19, também é citada em “Plandemic”. O vídeo afirma que o fármaco tem funcionado “muito bem” no combate à doença causada pelo novo coronavírus, mas estudos recentes apontaram a ineficácia e o risco do tratamento com cloroquina.

Uma pesquisa publicada na sexta-feira (22) na revista científica The Lancet mostrou que o remédio não apresentou benefícios no tratamento da covid-19, além de ter aumentado o risco de morte e de problemas cardíacos. O estudo foi realizado em 96 mil pacientes.

A Sociedade Brasileira de Infectologia divulgou nota contra a recomendação médica da cloroquina para pacientes infectados pelo novo coronavírus. A OMS recomendou a suspensão de testes.

O vídeo “Plandemic” também cita uma pesquisa feita com 6,2 mil médicos de 30 países. De uma lista com 15 medicamentos, 37% dos profissionais de saúde consultados apontaram a hidroxicloroquina como a mais eficaz contra o novo coronavírus.

Como mostrou o site de fact-checking Aos Fatos, a enquete foi realizada por um fórum online chamado Sermo e não tem validade estatística. Além disso, o levantamento apenas reflete a percepção pessoal dos médicos entrevistados, o que não é suficiente para atestar a eficácia do medicamento.

Outras checagens

O vídeo “Plandemic” foi compartilhado ao redor do mundo, o que motivou desmentidos de diversas agências de checagem. Veja algumas das verificações produzidas:

Alcance

A publicação do vídeo analisada pelo Comprova obteve 901 mil visualizações ao longo de 18 dias. “Plandemic” foi republicado na plataforma de vídeos Brighteon, cujos termos de serviço asseguram que qualquer conteúdo postado está protegido pela liberdade de expressão.

 

Verificação

Investigado por:2020-05-26

Vídeo engana ao atribuir protesto na Bélgica a profissionais de saúde de São Paulo

  • Falso
Falso
Vídeo foi gravado na Bélgica e compartilhado nas redes sociais como se fosse um protesto de médicos e enfermeiros contra o prefeito de São Paulo, Bruno Covas

O vídeo de um protesto de profissionais de Saúde em Bruxelas, na Bélgica, foi tirado de contexto para atacar o prefeito da cidade de São Paulo, Bruno Covas (PSDB). As imagens gravadas mostram funcionários em uniforme hospitalar dando as costas para uma comitiva de carros que chega a um hospital. O conteúdo é acompanhado de um texto que diz: “O prefeito de SP Bruno Covas é recebido assim por enfermeiros e médicos: de costas no hospital. Parabéns a esses guerreiros”.

O protesto na verdade aconteceu em Bruxelas, na Bélgica, no último dia 16 de maio. As pessoas que aparecem no vídeo eram funcionários do Hospital Saint-Pierre, como reportado por veículos internacionais, e fizeram o protesto silencioso durante visita oficial da primeira-ministra Sophie Wilmès.

A Bélgica é o país da União Europeia com a maior taxa de mortes por grupo de um milhão de habitantes, 804, de acordo com o site worldometers. O governo belga tem sido alvo de duras críticas pela maneira como enfrenta a pandemia e a primeira-ministra Wilmès chegou a dizer que talvez estejam sendo apresentados números de casos maiores do que a realidade.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos suspeitos sobre a covid-19 que sejam muito compartilhados e tenham repercussão significativa nas redes sociais. Este vídeo, com informações falsas, foi publicado em um momento de grande disputa política a respeito de como lidar com a pandemia do novo coronavírus.

Enquanto o governo federal, comandado por Jair Bolsonaro, insiste na retomada completa de todas as atividades econômicas, governadores e prefeitos têm mantido orientações de distanciamento social, como a proibição de aglomerações e a obrigatoriedade de máscaras em lugares públicos.

João Doria, governador de São Paulo, o estado mais atingido pela pandemia, contestou Bolsonaro diversas vezes e ambos trocaram farpas em público. Bruno Covas, prefeito da capital paulista e alvo do vídeo falso verificado aqui, é um aliado político de Doria.

Na semana passada, com a divulgação do vídeo de uma reunião ministerial realizada em abril, foi possível confirmar a hostilidade de Bolsonaro em relação aos governadores. Diante de seus ministros, o presidente da República chamou Doria de “bosta” e Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro, de “estrume”.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Como verificamos?

O Comprova utilizou o mecanismo de busca reversa do Google para localizar a origem do protesto. A pesquisa das imagens levou a diversas reportagens escritas por veículos de comunicação estrangeiros como a rede BBC e o jornal The Telegraph sobre o protesto belga.

Também analisamos detalhes do vídeo, como aspectos das ambulâncias e placas dos carros. Em outra gravação, foi possível identificar detalhes escritos na roupa dos funcionários de saúde para comparar com o usado por esses profissionais na Bélgica.

Verificação

O jornal belga Le Soir publicou reportagem sobre o caso no sábado, 16 de maio. O texto diz que centenas de funcionários do hospital — entre enfermeiros, médicos, pessoal da limpeza e da área administrativa — protestaram contra dois decretos que permitiam a convocação dos profissionais em caso de uma emergência. Para os profissionais, eles já se dedicam suficientemente ao combate da pandemia e não seria preciso uma convocação.

Ao procurar pelo hospital no Google Street View, foi possível encontrar edificações semelhantes às que aparecem no vídeo.

Em certo momento, o vídeo foca em um dos carros da comitiva da primeira-ministra e é possível ver com clareza sua placa. O modelo, diferente do padrão brasileiro (composto de três letras e quatro números), é o mesmo adotado na Bélgica segundo o guia de regulamentos rodoviários belga (número, três letras e três números).

Outro detalhe que chama a atenção é a cor das ambulâncias. Os veículos que aparecem no vídeo são amarelos e vermelhos, mesmo padrão dos veículos utilizados na Bélgica, além de possuir a inscrição do número “112”. Esse é o telefone de emergência no país europeu. Já em São Paulo, as ambulâncias são brancas e vermelhas com a inscrição do número para serviço de atendimento pré-hospitalar de urgência e emergência da Prefeitura de São Paulo, 192.

Em outra gravação do mesmo episódio é possível ver que o uniforme de um dos profissionais contém as palavras “infirmier” e “verpleegkundige”, correspondentes em francês e holandês, respectivamente, para “enfermeiro”. Portanto, o vídeo não poderia ter sido gravado no Brasil. As duas línguas são faladas na Bélgica.

Em seu Twitter, a primeira-ministra afirmou, sobre a visita ao hospital: “Foi um momento de encontros e de diálogo importante para os profissionais de saúde e para mim”.

Contexto

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), e o governador João Doria (PSDB) adotaram medidas como ampliação do rodízio de veículos na capital e antecipação de feriados no Estado para tentar aumentar a taxa de isolamento social. Ambos defendem que a medida é necessária para evitar um colapso no sistema de saúde pública. São Paulo lidera o ranking de mortes no Brasil, com 6.220 óbitos e 83.625 casos confirmados até segunda-feira, 25. A taxa de ocupação dos leitos em UTIs na região metropolitana da capital era de 91%.

O governador e o prefeito tentam evitar o decreto de um “lockdown” — bloqueio total que obrigaria as pessoas a ficarem em casa. Enquanto especialistas afirmam que a medida será inevitável caso não haja redução na proporção de contágios e internações, os líderes do Executivo são alvos de protestos de caminhoneiros e outros setores que pedem pelo afrouxamento das medidas de distanciamento e pela reabertura do comércio.

Alcance

Um dos vídeos foi compartilhado em 20 de maio e já foi visto quase 100 mil vezes. Outra postagem se destacou com 20 mil compartilhamentos. O mesmo vídeo com a afirmação enganosa recebeu versões no Instagram, Twitter e YouTube.

Este boato foi também checado pelo Fato ou Fake e pela AFP.

Comunicados

Lista de sites de notícias falsas não foi criada pelo Comprova

  • Falso
Falso
O Comprova jamais produziu qualquer lista ou ranking que dê destaque a publicadores de informações falsas ou enganosas

Uma lista com 27 endereços de sites de internet está sendo compartilhada nas redes sociais e em grupos de aplicativos de mensagens como sendo de “alguns dos principais sites de notícias falsas no país reunidos pelo Projeto Comprova em diferentes publicações”. Essa lista é falsa.

O Comprova jamais produziu qualquer lista ou ranking que dê destaque a publicadores de informações falsas ou enganosas. Pelo contrário, o projeto sempre procura fazer poucas referências a quem publicou o conteúdo investigado e, por regra, nunca dá link para esses perfis e páginas.

O Comprova, também por regra, procura identificar as fontes primárias de qualquer conteúdo suspeito e tenta entrevistar essas fontes para entender contextos e motivações, e traçar a trajetória completa do conteúdo investigado.

O Comprova é um projeto colaborativo e independente que monitora todas as fontes que publicam conteúdos sobre o novo coronavírus ou relacionadas a políticas públicas no âmbito do governo federal, desde sites até perfis, grupos e páginas de plataformas sociais.

A decisão de investigar algum conteúdo passa necessariamente por duas condições:

  • O conteúdo deve ser duvidoso – textos, fotos, áudios ou vídeos cuja veracidade seja posta em dúvida pelos editores ou pela audiência.
  • O conteúdo deve ser viral – conteúdos sob suspeição que tenham obtido grande alcance ou interação ou, ainda, que tenham potencial de viralização medido por software de monitoramento.

O Comprova não verifica a veracidade de comunicados oficiais ou afirmações públicas de políticos ou outras autoridades nem conteúdos cuja fonte seja um veículo de comunicação reconhecido.

Falso para o Comprova é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original.

Verificação

Investigado por:2020-05-22

Médico confunde ao indicar cloroquina e criticar isolamento social e o uso de respiradores

  • Enganoso
Enganoso
Homem que aparece em vídeo faz afirmações sobre como lidar com a pandemia de coronavírus que não têm comprovação científica e são questionadas por diversas autoridades de saúde

É enganoso o vídeo no qual um homem, que se identifica como médico, diz que os hospitais públicos estão intubando pacientes para “mostrar trabalho” e justificar a compra de ventiladores e respiradores artificiais. Ele é contra o procedimento e defende o uso de medicamentos, como a cloroquina, como alternativa ao tratamento da covid-19.

O autor do vídeo também afirma que o vírus não mata pessoas fora do grupo de risco e que o uso de alguns medicamentos, na fase inicial da contaminação, pode levar à cura de pacientes em até quatro dias. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), até o momento não existe remédio ou cura comprovados para a doença causada pelo novo coronavírus. Além disso, no Brasil, 25% das pessoas que morreram por covid-19 não tinham comorbidades.

O homem que aparece no gravação é João Carlos Luiz Vaz Marques Leziria, que de fato é médico, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele mistura diferentes tipos de informações, a maioria delas falsas, para confundir e enganar as pessoas. As afirmações que ele faz no vídeo não têm comprovação científica e são questionadas por diversas autoridades de saúde.

De acordo com o médico, o vídeo foi originalmente compartilhado com um grupo de amigos, mas viralizou após ser publicado nas redes sociais. Uma das primeiras publicações foi feita no dia 7 de maio, por um perfil pessoal no Facebook.

Por que investigamos isso?

O Comprova verifica conteúdos de grande repercussão e que atinjam um alto número de interações nas redes sociais. No caso do vídeo em questão, ele foi compartilhado por diversos perfis, atingindo em um deles mais de 49 mil compartilhamentos.

O fato de o autor do vídeo se identificar como médico e fornecer o telefone pessoal para “prestar atendimento” também chama atenção. Ele faz afirmações sobre assuntos amplamente questionados e debatidos por autoridades de saúde, como a eficácia de medicamentos como a cloroquina, além de incentivar a população a voltar a trabalhar. A ideia é contra as orientações do Ministério de Saúde e decretos estaduais.

O autor também fala sobre um tema sensível, que é a aquisição de equipamentos para tratar a covid-19. Com a urgência no tratamento e contenção dos danos da doença, o governo permitiu a compra de respiradores por contratos com dispensa de licitação, e liberou verba para a compra de material necessário. Essa permissão de expandir os gastos públicos deve ser observada para evitar o desvio de verba ou o mau uso do dinheiro público.

Nas últimas semanas, o Comprova verificou diversos conteúdos nessa linha. Um deles foi um vídeo contendo informações enganosas em que uma pessoa, sem formação na área de saúde, sugeria que o uso de determinados medicamentos curariam pacientes com coronavírus sem necessidade de internação. Um outro texto dizia que as mortes na Itália não teriam como causa o coronavírus, mas problemas de trombose, recomendando o uso de coagulantes para cura da doença.

Enganoso para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Apesar de o autor do vídeo não se identificar, alguns perfis que compartilharam a gravação atribuíam ao médico o nome Dr. João Vaz. O Comprova então buscou, no cadastro do Conselho Federal de Medicina, médicos que possuíam os dois nomes. Entre os listados estava João Carlos Luiz Vaz Marques Leziria. Ao verificar o nome completo em sites de pesquisa e redes sociais, foi possível encontrar fotos do médico que aparece no vídeo, confirmando que se tratava da mesma pessoa.

Além disso, o Comprova entrou em contato com o número de telefone disponibilizado no vídeo. O médico não atendeu as ligações, mas respondeu aos questionamentos da equipe com um vídeo, no qual mostrava seu número de inscrição no CRM e fornecia informações pessoais e profissionais.

Nesta investigação foram usadas reportagens sobre o remédio cloroquina e o apoio do presidente Jair Bolsonaro à medicação. A equipe também consultou o site da OMS para entender se o fármaco é recomendado pela instituição.

Quem é o médico?

João Vaz é um médico com número de inscrição regular no Conselho Regional de Medicina. Em vídeo encaminhado ao Comprova, Vaz diz que se formou em dezembro de 1971 na UFRJ e que possui quase 50 anos de profissão. Ele afirma que trabalhou por um período na Alemanha e que está acostumado a lidar com vírus. Ele não menciona sua área de especialidade, e esta também não é informada pelo CRM, mas Vaz diz que isso não faz diferença na Medicina.

No vídeo divulgado nas redes sociais, João Vaz se posiciona contra a intubação de pacientes com a covid-19 e diz que o procedimento é “sinônimo de morte”. Segundo ele, os hospitais públicos no Brasil têm intubado pacientes para justificar os gastos com aparelhos.

Como alternativa à intubação, o médico defende o uso de remédios como a cloroquina associada à azitromicina e também a manipulação de heparina, um anticoagulante. Ele se oferece para tirar as dúvidas das pessoas e se coloca à disposição de quem tem interesse em fazer uso dos remédios.

O médico ainda critica o isolamento horizontal, incentiva as pessoas a voltarem ao trabalho e afirma que apenas pessoas com comorbidades morrem de covid-19.

Como funciona a intubação e quando o paciente deve ser intubado?

A intubação é um procedimento realizado em pacientes em estado de saúde grave para ventilar mecanicamente os pulmões por meio de aparelhos. A dificuldade de respirar é determinante para que os médicos decidam se irão intubar o paciente e usar os respiradores. Eles são um dos últimos recursos para pacientes com insuficiência respiratória grave após infecção pelo novo coronavírus.

Estima-se que aproximadamente 5% dos pacientes com covid-19 sofram a chamada síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) e precisem de respiradores mecânicos. O tratamento utiliza uma reserva de ar e oxigênio que é levada até os pulmões do paciente por meio de um tubo inserido pela boca, nariz ou pela traqueia, através de um corte na garganta.

Estudos recentes, contudo, têm mostrado que a letalidade do novo coronavírus é alta mesmo com uso de respiradores e feito pesquisadores questionarem a eficácia da intubação. Ainda assim, as autoridades de saúde orientam para o uso de ventilação mecânica em casos de insuficiência respiratória.

O que as autoridades dizem sobre os medicamentos indicados?

O uso da cloroquina por pacientes infectados com o novo coronavírus segue sendo estudado por vários países. Nesta sexta-feira (22), uma pesquisa científica publicada pela revista “The Lancet” apontou que o uso da substância não apresenta benefícios no tratamento da covid-19. O estudo foi feito com 96 mil pacientes e os resultados mostram que não há melhora na recuperação de infectados que usaram cloroquina, e que existe risco maior de morte e piora cardíaca durante a hospitalização.

A OMS recomendou que o medicamento não seja usado como tratamento, apenas em testes de ensaios clínicos, e alertou para os efeitos colaterais da cloroquina, que podem levar a disfunções graves dos órgãos e prolongar internações.

O uso da cloroquina foi autorizado para casos leves em novo protocolo assinado pelo Ministério da Saúde na última quarta-feira (20). Para isso, os pacientes ou familiares devem assinar um termo de consentimento, estando cientes dos efeitos colaterais possíveis, como arritmia.

A medida segue parecer do CFM (Conselho Federal de Medicina), que emitiu autorização no fim de abril para que médicos prescrevessem o medicamento para pacientes com sintomas leves e para uso domiciliar, mediante consentimento.

A Sociedade Brasileira de Infectologia se manifestou contra a recomendação médica da cloroquina. A instituição afirmou que não há comprovação da eficácia do medicamento no tratamento do coronavírus, assim como de outras substâncias, como a azitromicina, indicada por Vaz em vídeos nas redes sociais.

Recentemente, um estudo realizado pelo plano de saúde Prevent Senior verificou que o uso da hidroxicloroquina associada a azitromicina foi capaz de reduzir em mais de duas vezes o número de internações, comparado com pacientes que não tomaram os remédios.

A pesquisa, contudo, tem uma série de limitações, como não saber se os pacientes que receberam o tratamento estavam infectados com o novo coronavírus nem ter sido aceita ainda em um periódico científico. Este estudo foi suspenso posteriormente porque os testes com pacientes foram iniciados antes de a empresa receber o aval para realização da pesquisa, o que é contra normas do país.

Apesar de existirem resultados promissores em pesquisas com anticoagulantes como a heparina, mencionada pelo autor do vídeo, no tratamento da covid-19, pesquisadores acreditam que para comprovar a eficácia do medicamento ainda há necessidade de ensaios clínicos. Assim como a cloroquina e a azitromicina, a substância só deve ser ministrada com auxílio e orientação médica, pois pode colocar em risco a vida do paciente.

A OMS e o Ministério da Saúde afirmam que nenhuma cura ou vacina foi encontrada até o momento contra a covid-19, que já matou mais de 330 mil pessoas no mundo.

Isolamento social

Medidas de isolamento social são apontadas pela OMS como a melhor alternativa contra o coronavírus. Um estudo recente feito no Brasil mostra que há uma tendência de diminuição do número de mortes pela covid-19 após a adoção de medidas restritivas à circulação de pessoas.

A maioria dos médicos defende a adoção do isolamento horizontal nos municípios, que reduz ao máximo possível de circulação de pessoas. Isso, segundo cientistas, seria fundamental para achatar a curva de transmissão do coronavírus e diminuir o número de pessoas infectadas que necessitariam de um leito hospitalar. Atualmente, a quantidade de leitos disponíveis para a população tem preocupado os Estados.

Para forçar o isolamento da população, diversos Estados decretaram o fechamento de comércios e suspenderam o funcionamento de atividades não essenciais. A ideia é que o máximo de pessoas fique em casa, saindo apenas para realizar atividades essenciais, reduzindo a propagação do vírus.

A suspensão das atividades, apesar de necessária e recomendada pela OMS, provoca uma recessão na economia e por isso é criticada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Na contramão da maioria dos líderes de outros países, Bolsonaro chegou a sugerir que o Brasil adotasse o método de isolamento vertical, em que apenas idosos e pessoas do grupo de risco ficam isoladas.

A Suécia, citada por Bolsonaro como exemplo, adotou um modelo de isolamento mais relaxado. No país, escolas, restaurantes e bares ficaram abertos, por exemplo. O número de casos de infectados e mortos, no entanto, foi maior do que os registrados nos outros países nórdicos, que estabeleceram medidas mais severas, com confinamento obrigatório e paralisação de atividades econômicas. Esta semana a Suécia tornou-se o país com maior taxa de mortalidade pelo novo coronavírus no mundo.

Contexto

A prescrição livre da cloroquina para qualquer pessoa que esteja com os sintomas da covid-19 é feita por Vaz no momento em que o governo libera um protocolo que autoriza o uso do medicamento em pacientes com sintomas leves da doença. O documento não tem respaldo da OMS e é criticado pela Sociedade Brasileira de Infectologia. Pelo protocolo, o Sistema Único de Saúde (SUS) fica liberado para prescrever o remédio em qualquer fase do tratamento, com os sintomas em qualquer nível – embora ainda precisando da autorização do paciente. Antes, era apenas para casos graves.

As declarações do médico a respeito da letalidade da doença se chocam com os dados divulgados pelo Ministério da Saúde, que mostram que um quarto das pessoas que morreram vítimas do novo coronavírus não possuíam comorbidades. A orientação de Vaz para que as pessoas saiam às ruas, sem medo de se contaminar, é feita em um momento crítico da pandemia na América Latina, considerada pela a OMS como epicentro da doença e tendo o Brasil como caso mais preocupante.

Até a manhã desta sexta-feira (22), a covid-19 já havia contaminado cerca de 315 mil pessoas e sido responsável por mais de 20 mil mortes no país. Nesta semana o Brasil registrou, pela primeira vez, mais de mil mortes em menos de 24 horas.

Alcance

Até esta quinta-feira (21), o vídeo publicado pelo perfil de Paula Silvestre Craveiro, no Facebook, tinha sido compartilhado por mais de 49 mil pessoas.

Verificação

Investigado por:2020-05-21

Vídeo engana ao sugerir tratamento “sem internação e sem sofrimento” para covid-19

  • Enganoso
Enganoso
Em vídeo, pessoa sem formação na área de saúde mistura dados falsos e verdadeiros sobre os remédios atualmente indicados para o tratamento da doença provocada pelo novo coronavírus e divulga informações sem comprovação científica

Um vídeo publicado no YouTube confunde ao dizer que há medicamentos que curam a covid-19 e impedem a evolução da doença para fases mais graves caso sejam receitados no início dos sintomas. O material mistura dados falsos e verdadeiros sobre os remédios atualmente indicados para tratamento e contém informações sem comprovação científica. Há também ataques contra as medidas de isolamento social utilizadas para reduzir a velocidade de contágio da doença.

O conteúdo foi postado por Silvana Conte em seu canal no YouTube e já teve mais de 270 mil visualizações. No vídeo, ela diz fazer um relato pessoal citando uma lista de medicamentos que o marido teria tomado antes mesmo de ter o diagnóstico positivo para covid-19, como antibióticos receitados logo no início dos sintomas. Ela também fala sobre o uso autorizado da hidroxicloroquina por médicos na Itália e ainda afirma que “o isolamento não salva vidas”. Até o momento, não há medicamento que cure a doença. Alguns estão sob testes clínicos, mas ainda não apresentaram eficácia contra o vírus em concentração que não seja prejudicial à saúde.

Além disso, especialistas ressaltam que entre 80% e 85% dos pacientes infectados pela covid-19 serão assintomáticos ou terão sintomas leves —- semelhantes aos de uma gripe —, portanto não precisarão ser submetidos a medicações que podem causar efeitos colaterais. O acompanhamento médico é essencial principalmente para o grupo de risco, aquelas pessoas que podem evoluir para uma forma mais grave da doença e terão de ser submetidas a tratamentos de suporte como o uso de oxigênio.

Silvana diz que mora em Bergamo, na Itália, e que o marido ficou doente após uma viagem ao Rio de Janeiro. Ela, que admite não ser médica, acusa profissionais de saúde e hospitais de serem negligentes “ao orientar a procura de médicos apenas quando a pessoa sentir falta de ar”. Os protocolos de Brasil e Itália para o atendimento de pacientes infectados pelo novo coronavírus recomendam o acompanhamento médico desde os primeiros sintomas, o que não quer dizer que todos precisarão de variados tipos de medicação para superar a doença.

Por que checamos isto?

O Comprova realiza verificações de conteúdos que viralizam nas redes sociais, como é o caso em questão. Esta verificação foi realizada pois o vídeo é um entre vários que apresentam pessoas sem qualificação profissional na área da saúde fazendo recomendações sanitárias para lidar com o novo coronavírus e a covid-19, doença provocada por ele. Tais recomendações são danosas pois poluem o debate público e, no limite, podem ser prejudiciais à saúde das pessoas.

Recentemente, o Comprova verificou, por exemplo, um vídeo no qual uma pessoa argumentava que o uso de máscaras reduziria a imunidade e potencializaria a infecção. Isso não é verdade. Pesquisadores e autoridades sanitárias confirmam que a máscara pode, de fato, proteger as pessoas. Do mesmo modo, o Comprova também verificou conteúdos que afirmavam que medidas de isolamento social seriam inúteis ou prejudiciais.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos

O Comprova entrou em contato com dois especialistas para checar a veracidade das informações técnicas sobre a covid-19 presentes no vídeo. Consultamos o Protocolo de Manejo Clínico do Coronavírus na Atenção Primária à Saúde e questionamos o Ministério da Saúde italiano sobre as práticas e recomendações adotadas no país. O órgão compartilhou um link com dúvidas e respostas mais comuns para a doença na Itália.

Após a publicação desta verificação, Silvana entrou em contato com o Comprova. Suas alegações e nossos comentários estão na seção Atualização (abaixo).

O Comprova ainda acessou os protocolos brasileiro e italiano de prescrição da hidroxicloroquina.

Verificação

Silvana afirma que o vídeo é opinativo e que não é médica. Segundo ela, trata-se da experiência vivenciada pelo marido ao viajar de Bergamo, na Itália, onde moram, para o Rio de Janeiro. Silvana conta que o marido apresentou sintomas de pneumonia e foi atendido por um médico que receitou o antibiótico levofloxacina. Como o marido não melhorou, a família foi submetida a testes de covid-19, e o resultado dele deu positivo. Ele ainda teria tomado, por prescrição médica, o anti-alérgico Allegra e os medicamentos Fluimucil, Deocil e paracetamol.

Silvana compartilhou o tratamento com amigos de Bergamo e teria identificado a capacidade de “cura” desse tratamento aliado a outros medicamentos, como os antibióticos azitromicina e amoxicilina. Ela apresenta um protocolo que diz ter recebido de um médico da Lombardia chamado Marcelo Contini que recomenda o tratamento com os medicamentos usados pelo marido, e ainda sugere a medicação da hidroxicloroquina. Silvana insiste na importância do uso de “medicação forte para bloquear a inflamação” nos primeiros dias de sintomas para impedir a evolução do quadro baseada em fato pessoal.

[Atualizado em 27 de maio de 2020 – O parágrafo acima foi atualizado para corrigir uma informação sobre o protocolo que Silvana Conte disse ter recebido no vídeo. Na verdade, ela se referiu ao médico Marcelo Cotini e não a Stefano Manera, como estava escrito na primeira versão da verificação]

O Comprova ouviu médicos sobre a “necessidade de tratar pacientes leves com medicação para impedir que os sintomas se agravem”. Guilherme Spaziani, médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, explica que as complicações decorrem de uma inflamação exacerbada cujas causas ainda são investigadas. Esse quadro de evolução da doença é observado principalmente nas pessoas do grupo de risco, como idosos, cardiopatas e obesos.

“Cerca de 55% dos infectados pela covid-19 apresentam a forma leve da doença, com sintomas gripais. Outros 30% sequer apresentam sintoma algum. Isto quer dizer que apenas 15% dos doentes evoluem para a forma grave e, destes, um em cada três precisam do tratamento intensivo”, diz Guilherme Spaziani.

“Não há evidência científica sobre a capacidade de nenhuma medicação que possa ser prescrita nos primeiros dias de sintomas para impedir a evolução para a fase inflamatória”, afirma o infectologista.

Gerson Salvador, médico infectologista do Hospital Universitário da USP e associado da Sociedade Paulista de Infectologia, ressalta o perigo de pessoas usarem uma grande quantidade de medicamentos.

“Quando a pessoa usa um número grande de medicamentos de maneira desorganizada, aumentam as chances de efeitos adversos, que podem ser graves dependendo da condição de saúde da pessoa. O que recomendamos é o tratamento sintomático para casos leves e tratamento de suporte para casos graves.”

Protocolo do Ministério da Saúde abrange orientação de atendimento de sintomas mais leves a graves

O Comprova pediu ao Ministério da Saúde explicações mais claras sobre o protocolo de manejo clínico de pacientes com a covid-19 ou de casos suspeitos, que está no site da entidade, mas não teve retorno. Foi questionado quando alguém deve procurar uma Unidade Básica de Saúde, quais medicamentos são indicados e a orientação para o tratamento em casa.

A versão atualizada do documento, disponível no site do Ministério, tem 41 páginas e detalha como deve ser a ação médica e como as Unidades Básicas de Saúde devem trabalhar, dos casos com sintomas leves aos graves.

Diferentemente do que sugere o vídeo de Simone Conte, o Ministério da Saúde não fala em “esperar pela falta de ar” para tratamento. Pelo contrário, ressalta a importância do acompanhamento de quem apresenta os sintomas leves, principalmente pessoas com mais de 60 anos ou com outros fatores de risco. A entidade orienta para o seguimento do tratamento domiciliar com monitoramento médico por telefone a cada 24 ou 48 horas, inclusive para casos não confirmados.

O arquivo traz na página 17 a sugestão de prescrição de dipirona e paracetamol, medicamentos analgésicos que aliviam sintomas como dores no corpo, mal-estar e febre. Eles não têm propriedades de cura. Há ainda o remédio oseltamivir, um antiviral usado para combater o vírus da gripe. Seu uso, porém, é encerrado quando o teste de gripe dá negativo ou quando o da covid-19 dá positivo, já que ele não tem ação comprovada contra o novo coronavírus. São determinadas ainda medidas de suporte e conforto, isolamento domiciliar e monitoramento até a alta médica.

O protocolo de uso da hidroxicloroquina foi acrescentado na quarta, 20, entre os documentos do site do Ministério da Saúde que orientam uso de medicamentos contra a covid-19 no sistema público de saúde. O comunicado está entre as “orientações gerais” de tratamentos da doença e recomenda o remédio inclusive em casos leves.

O documento sobre o uso da hidroxicloroquina diz que, até o momento, não há dados científicos que apontem um determinado tratamento farmacológico e que o uso ou não do remédio está condicionado à decisão do médico e à autorização por escrito do paciente. O protocolo também fala de contra indicação em pacientes com doenças cardíacas, como a comunidade científica vem ressaltando há tempos.

Em 18 de maio, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, divulgaram o documento “Diretrizes para o Tratamento Farmacológico da Covid-19”, contra o uso da hidroxicloroquina. O texto foi produzido por 27 especialistas e ressalta, principalmente, a falta de provas científicas de que o medicamento é eficaz e o perigo dos seus efeitos colaterais.

Depois do novo protocolo divulgado pelo Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Infectologia voltou a se manifestar sobre os riscos associados à utilização de um medicamento que não tem eficácia científica comprovada e pela recomendação de uso apenas para pesquisa clínica.

No mesmo dia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou que a cloroquina e a hidroxicloroquina sejam usadas nos hospitais apenas em estudos clínicos. O diretor-executivo Michael Ryan ressaltou a falta de evidências científicas sobre a eficácia dos remédios e lembrou os efeitos colaterais da droga.

Recomendação na Itália é tratamento de sintomas e cuidado com hidroxicloroquina

O vídeo sugere que médicos italianos que usaram hidroxicloroquina em pacientes no início dos sintomas tiveram sucesso com a redução de internações na Itália.

De fato, o medicamento está entre aqueles com uso autorizado no país, inclusive para pacientes com sintomas leves e em tratamento domiciliar. No entanto, a Agência Italiana de Fármacos alerta para a importância de que a hidroxicloroquina seja receitada por um médico e com autorização do paciente, por se tratar de medicamento sem eficácia científica comprovada. A entidade também alerta para seus efeitos colaterais cardíacos e os perigos de sua utilização em altas doses em cardiopatas.

A principal orientação do Ministério da Saúde italiano sobre o tratamento de covid-19, atualizada em 11 de maio, é similar à feita no Brasil: cuidar dos sintomas apresentados pelos pacientes com terapias de suporte, como uso de oxigênio; descansar; continuar isolado em casa; comer bem e beber bastante água.

Isolamento não salva vidas?

“Isolamento não salva a vida de ninguém. Pode até diminuir o contágio, porém não vai salvar a vida das pessoas”, fala Silvana. Ela acredita que o foco de governos no combate à pandemia de covid-19 não deveria estar no isolamento social, mas sim na prescrição de medicamentos para pacientes ainda na fase inicial da doença.

O infectologista Guilherme Spaziani diz que caso não seja encontrada uma vacina, o mesmo número de pessoas será infectado com ou sem a adoção do isolamento social. No entanto, a medida de distanciamento evita que as pessoas sejam contagiadas em um curto espaço de tempo e, com isso, sejam esgotados os recursos hospitalares, médicos e de insumos necessários a um suporte adequado. Isto é, o isolamento social permite o serviço hospitalar para cada paciente, inclusive aqueles que estiverem em estado grave.

Medicamentos citados não combatem o coronavírus

Especialistas ressaltam não haver um remédio que cure a covid-19. Por isso, é importante o cuidado na divulgação de um determinado tratamento. O vídeo cita diversos remédios que vão de antibióticos (contra bactérias) a remédios usados para tratamentos antiparasitários (contra vermes). A covid-19 é uma doença causada por um vírus.

Gerson Salvador, infectologista do Hospital Universitário da USP, ressalta que o passo a passo de orientação médica depende de cada paciente.

“Antibióticos agem contra bactéria e não têm atividade antiviral. Ivermectina e nitazoxanida são antiparasitários e não têm atividades contra vírus. Os dois últimos apresentaram efeito antiviral in vitro no laboratório, mas isso nunca se reproduziu num organismo vivo. Portanto, seu uso não está liberado. Eles estão sob estudos, mas a possibilidade de funcionar não é elevada”, diz o médico.

Salvador completa: é importante que o médico fique atento principalmente a doentes com fatores de risco. “No caso do coronavírus depende mais da resposta imunológica [de cada um] do que do vírus. Nas pessoas que têm doenças crônicas, quando apresentarem sonolência, desconforto ou incapacidade de realizar suas atividades usuais, é necessário fazer avaliação e tratamento de suporte, oferecendo oxigênio no tempo certo. Também é preciso controlar doenças como diabetes, asma ou doenças cardíacas que podem estar em crise. Por isso é importante fazer esse tipo de suporte médico.”

Atualização

Após a publicação da verificação, o Comprova foi contactado por Silvana Conte, que fez algumas argumentações a respeito do texto. Abaixo, seguem os pontos de contestação levantados por ela que ainda não tinham sido abordados no texto e, na sequência, os comentários do Comprova.

Silvana respondeu ao Comprova no último dia 21 de maio. Desde então, questiona a reportagem sobre a classificação de seu vídeo no site do projeto. O Comprova manteve a etiqueta “Enganoso”, que é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

A partir de agora, o Comprova abre espaço para os pontos questionados por Silvana Conte e os responde.

Silvana: “Meu marido e mais de 30 pacientes do médico Erverton Andrade e mais 28 da médica Alessandra Almeida foram curados sem hospitalização e sem sofrimento”.

Comprova: Ainda não há um tratamento específico para a doença, ou seja, algo que funcione para todas as pessoas infectadas. Assim, não é possível, por enquanto, falar em “cura” de covid-19. Como o Comprova ressaltou através de especialistas ouvidos, apenas 15% dos infectados desenvolvem casos mais graves da doença e precisarão da hospitalização e medicações fortes. Desses 85% que passam tranquilamente pela doença, nem todos vão desenvolver sintomas ou precisar de qualquer tipo de medicação.

É importante ressaltar que todos os remédios usados, quando necessários, são para tratamento de sintomas e infecções paralelas que a pessoa possa vir a ter. Remédios para febre e antibióticos, por exemplo. Alguns pacientes infectados podem desenvolver pneumonia bacteriana e é por isso que é preciso a utilização de antibióticos.

O painel de covid-19 do Ministério da Saúde não utiliza o termo ‘curados’, mas sim recuperados, para informar sobre as pessoas que sobreviveram à doença.

Silvana: “Os protocolos estão sim, em uso na Lombardia e na Toscana e na Itália de forma geral.”

Comprova: Silvana enviou ao Comprova o documento “Indicações terapêuticas para PCS com pneumonia COVID GERIDO EM CASA”. O documento é assinado pelo médico Roberto Moretti. Este documento informa em seu primeiro parágrafo que se trata de “sugestões derivadas da prática hospitalar” uma vez que “não existem LGs validados no tratamento farmacológico e não farmacológico de pacientes com ‘pneumonia’ covid-19”.

Silvana também enviou o documento “Indicazioni per i medici di medicina generale sulle terapie dei pazienti affetti da COVID-19” (“Indicações para clínicos gerais sobre as terapias de pacientes com COVID-19”). Assinado por dez médicos, é datado de 20 de abril de 2020 e, segundo Silvana, seria da Lombardia. Não há no documento, no entanto, nada que confirme essa informação. O documento também não fala que é importante dar os medicamentos na “primeira fase da doença”, apenas fornece um guia de medicamentos para tratar os sintomas da covid-19.

Silvana: “O Dr. Stefano Manera declara a divisão das fases e a Itália recomenda o tratamento na fase viral, que é a primeira.”

Comprova: Os dois médicos especialistas consultados pela reportagem preferem não propor uma divisão de fases, uma vez que uma pequena parcela dos infectados passará por um agravamento dos sintomas. Os outros sequer terão sintomas.

Silvana: “Fui absolutamente surpreendida de vocês, sem falar comigo, retirarem meu vídeo do ar, me declararem enganosa sem ao menos checar as fontes que eu dei”

Comprova: O Projeto Comprova entrou em contato com Silvana Conte pelo Facebook na terça-feira, 19. Como ela é ativa no Facebook e não tínhamos outra forma de contato, achamos que seria a melhor forma de chegar até ela. Silvana respondeu às mensagens da reportagem na quinta-feira, 21, após a publicação da verificação.

O Projeto Comprova ressalta que não tem poder para retirar conteúdos do ar.

Silvana: “Escrevendo um texto com várias informações erradas citando o vídeo, que , pelo jeito, vocês não viram.”

Comprova: O Comprova assistiu ao vídeo várias vezes após receber um pedido de checagem por meio de seus leitores. As afirmações contidas no material foram anotadas e compartilhadas com dois infectologistas. Além disso, os protocolos utilizados no Brasil e na Itália foram consultados.

Silvana: “Essa doença é brutal, mas segundo o meu médico que inclusive pegou covid e usou azitromicina + axetilcefuroxima + ivermectina + zinco e está bem … curado sem sofrimento e sem hospitalização. Temos de 3 a 4 dias para bloquear a infecção. Entre a ciência e a experiência, fico com a experiência”.

Comprova: Nossa reportagem reforça que é preciso apontar quando um determinado tratamento não possui comprovação científica. A azitromicina e a ivermectina são drogas que apresentaram bom resultado em laboratório, isto é, nos testes in vitro, mas ainda não possuem eficácia comprovada em seres humanos. A experiência pessoal de uma pessoa compartilhada como verdade absoluta e sem comprovação científica pode causar danos como a automedicação.

Contexto

Remédios como hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina e remdezivir passam por testes clínicos para averiguar sua eficácia e segurança no combate à covid-19. Embora eles apresentem bons resultados em testes de laboratório — os chamados testes in vitro — o mesmo não ocorreu em seres humanos. Além disso, pesquisas apontam para os riscos à vida de alguns pacientes por causa dos efeitos colaterais, como é o caso já citado da hidroxicloroquina.

Embora faltem pesquisas e estudos científicos que comprovem a eficácia de medicamentos como a hidroxicloroquina e a azitromicina no tratamento de pacientes com a covid-19, prefeituras e empresas já se mobilizam para fornecer os medicamentos. Em Belém, a operadora de planos de saúde Unimed distribuiu gratuitamente um kit com azitromicina, cloroquina e ivermectina aos beneficiários que apresentaram um receituário médico.

No interior de São Paulo, o prefeito de Guaratinguetá, Marcus Soliva (PSB), anunciou que pacientes com sintomas leves da covid-19 serão atendidos em casa com o tratamento de hidroxicloroquina aliada à azitromicina. “Evitamos a ida aos hospitais, já que o tratamento pode ser feito em casa por um profissional da rede de saúde pública”, anunciou o político em seu Facebook.

Mesmo com a falta de eficácia comprovada, a cloroquina se tornou o ponto central da disputa ideológica em torno da pandemia de covid-19. O remédio foi motivo de desgastes que levaram à demissão dos ex-ministros da Saúde Henrique Mandetta e Nelson Teich. Eles se negaram a editar um protocolo de prescrição da cloroquina para pacientes na fase leve da doença, o que acabou ocorrendo sob a gestão do chefe interino da pasta, General Eduardo Pazuello.

Alcance

O vídeo publicado inicialmente no canal do YouTube de Silvana Conte no dia 23 de abril já foi visto mais de 278 mil vezes até 21 de maio. Ele foi compartilhado no Facebook pela página “TV Médica” e foi visto mais de 1,3 milhão de vezes.

Verificação

Investigado por:2020-05-20

Polícia dos EUA não vê relação entre morte de cientista chinês e pesquisa sobre mecanismo de infecção pelo novo coronavírus

  • Enganoso
Enganoso
Segundo autoridades americanas, a morte do homem está provavelmente relacionada a uma briga pessoal, envolvendo um caso amoroso. Post investigado pelo Comprova também exagera ao dizer que o cientista “estava prestes a fazer descobertas” sobre o novo coronavírus

Texto do site Conexão Política, publicado no dia 18 de maio, confunde o leitor ao relacionar o assassinato de um cientista sino-americano ao seu trabalho de pesquisa com o novo coronavírus. Segundo autoridades americanas, a morte do homem está provavelmente relacionada a uma briga pessoal, envolvendo um parceiro(a) íntimo(a).

Bing Liu, de 37 anos, foi morto a tiros dentro de casa na cidade de Ross Township, no estado americano da Pensilvânia. Ele era pesquisador do Departamento de Biologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh, tinha pós-doutorado em Ciências da Computação e sua pesquisa se concentrava em sistemas computacionais aplicados à Biologia. O trabalho consistia em desenvolver modelos de simulação e análises técnicas para estudar a dinâmica de processos biológicos. De acordo com um comunicado divulgado pelo Departamento de Biologia da universidade, Liu estava concentrado em entender como o SARS-CoV-2, o novo coronavírus, age para infectar as células e as complicações que causa no organismo.

Liu foi encontrado pela esposa na tarde de 2 de maio, baleado na cabeça, pescoço e tórax. As portas da casa estavam abertas e nada foi levado. Perto dali, o corpo de um engenheiro de software de origem chinesa naturalizado americano, Hao Gu, de 46 anos, foi encontrado dentro de um carro.

As autoridades policiais de Ross Township concluíram que Gu matou Liu e se suicidou em seguida. “Nossa investigação aponta que os acontecimentos de 2 de maio envolvendo as mortes de Bing Liu e Hao Gu são resultado de uma longa disputa entre os dois homens envolvendo um parceiro (a) íntimo (a)”, informa uma declaração publicada na página de Facebook do Departamento de Polícia de Ross Township no dia 6. “Encontramos ‘zero’ evidências de que esse evento trágico tenha alguma relação com o trabalho (de Bing Liu) na Universidade de Pittsburgh, com qualquer pesquisa sendo conduzida na Universidade de Pittsburgh e com a crise sanitária que, no momento, afeta os Estados Unidos e o mundo”, completa o comunicado.

O conteúdo verificado também relembra as mortes de outros profissionais que não têm qualquer ligação com Bing Liu, como o suicídio de uma médica que trabalhava no combate à covid-19 em um hospital de Nova Iorque e acidentes envolvendo três médicos russos.

Por que investigamos isso?

O Comprova verifica conteúdos que tenham grande viralização, caso do texto em questão, que registrou dezenas de milhares de interações desde a sua publicação. Esse conteúdo se insere em uma lista com diversas teorias conspiratórias envolvendo o novo coronavírus, que têm como destaque a China, país onde as primeiras infecções ocorreram.

Desde o início da pandemia, o Comprova verificou postagens que alegavam, falsamente, que as maiores cidades da China não tiveram infecções pelo coronavírus, que o vírus causador da covid-19 seria artificial, que a China teria contaminado máscaras e que essas seriam distribuídas em São Paulo.

O Comprova também verificou uma teoria conspiratória segundo a qual a vacina para o novo coronavírus teria um microchip para rastrear a população. Todos esses conteúdos eram falsos.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

Buscamos informações na imprensa local e no Departamento de Polícia de Ross Township para saber se a morte de Bing Liu tinha realmente ocorrido, e em quais circunstâncias. Também entramos em contato, por e-mail, com o detetive que investiga o caso, o Sargento Brian Kohlhepp.

Em seguida, procuramos informações no site da Universidade de Pittsburgh sobre o currículo do cientista e seu trabalho com Ciência da Computação aplicada à Biologia. Também tentamos conversar com a supervisora de Liu na Universidade de Pittsburgh, Ivet Bahar. Até o momento da publicação, nem Bahar e nem o Sargento Kolhepp tinham respondido.

Por último, fomos atrás de detalhes sobre as outras mortes citadas no texto. Encontramos relatos publicados na imprensa americana e entrevista com a família de uma das vítimas, a médica Lorna Breen.

Verificação

O texto publicado pelo site Conexão Política reúne informações coletadas em veículos de imprensa americanos, como a emissora de televisão WTAE, afiliada da ABC para a região de Pittsburgh. Mas traz alguns erros de informação, como a profissão da vítima: ele era formado e tinha doutorado em Ciências da Computação, não em Biologia. O conteúdo ainda confunde o nome da rua em que Liu morava, Elm Court, com a cidade, Ross Township, município residencial perto de Pittsburgh, Pensilvânia. Por fim, o carro com o corpo de Hao Gu não foi encontrado em frente à casa de Liu.

O trecho sobre a pesquisa de Liu veio do comunicado oficial da universidade, mas exagera ao dizer que ele “estava prestes a fazer descobertas” sobre o novo coronavírus.

Quem é Bing Liu?

Pesquisador e professor-assistente do Departamento de Biologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh, Bing Liu era natural da China. Formado em Ciências da Computação e com doutorado (PhD) pela Universidade Nacional de Singapura, fez pós-doutorado no Departamento de Ciência da Computação da Carnegie Mellon University, nos Estados Unidos. Desde 2016, trabalhava na Universidade de Pittsburgh, sob a supervisão de Ivet Bahar.

Liu foi co-autor de mais de 30 artigos, quatro deles só em 2020. Sua pesquisa se concentrava em sistemas computacionais aplicados à Biologia. O trabalho consistia em desenvolver modelos de simulação e análises técnicas para estudar a dinâmica de processos biológicos.

De acordo com Bahar, Liu estava começando a trabalhar em um modelo de computador para entender o comportamento do SARS-CoV-2 no organismo. “Ele começava a ter resultados interessantes, tentando entender o mecanismo da infecção. Vamos continuar o que estava fazendo”, disse em entrevista ao jornal Pittsburgh Post-Gazette.

O que diz a polícia?

A polícia foi chamada pela mulher de Bing Liu, que encontrou o corpo do marido ao voltar para casa na tarde do sábado, 2 de maio. Ele estava sozinho na residência do casal. Fazia um dia ameno de primavera e, por isso, as portas da casa estavam abertas, o que facilitou o acesso do assassino. Não havia sinal de luta e nenhum objeto foi roubado. A autópsia concluiu que Liu havia sido baleado na cabeça, no pescoço e no tórax.

Já o corpo de Hao Gu estava dentro do carro dele, a cerca de 900 metros da casa de Liu. A perícia determinou que Gu havia cometido suicídio. Autoridades policiais concluíram que os dois homens se conheciam e apontam como causa do crime uma disputa amorosa. As autoridades locais informaram o FBI e o consulado chinês sobre o caso por envolver um cidadão estrangeiro.

A polícia de Ross Township é categórica ao afirmar que a morte não tem relação com o trabalho de pesquisa de Bing Liu com o novo coronavírus, tanto na declaração oficial quanto em entrevistas à imprensa local do policial responsável pelo caso, o sargento Brian Kohlhepp. Esta posição aparece, inclusive, na reportagem para a WTAE-ABC citada pelo Conexão Política, mas o texto não informa isso ao leitor em nenhum momento.

Houve outras mortes?

Outras mortes de profissionais da saúde também são citadas no artigo como sendo “misteriosas”.

Uma delas é a da doutora Lorna Breen, 49 anos, médica chefe do pronto-socorro do NewYork-Presbyterian Allen Hospital, em Manhattan, e que tratava de pacientes com o novo coronavírus.

Ela foi encontrada morta na casa onde estava com a família após ter contraído e se recuperado da covid-19. Apesar de trágica, a morte da médica não é misteriosa. Tanto o pai dela quanto a polícia afirmam que ela se suicidou. A família enfatiza, contudo, que foi o estresse relacionado ao trabalho da médica durante a pandemia que a levou a se matar.

Já na Rússia, há dúvida sobre a morte de três profissionais da saúde que “caíram” de janelas desde o início da pandemia. Dois deles morreram e um foi internado em estado grave.

Não há muitas informações sobre a circunstância de cada queda por conta da pouca transparência do governo russo. Por isso, há especulações de que essas pessoas podem ter sido assassinadas por criticar ou discordar da maneira como o governo tem lidado com o novo coronavírus.

Especialistas ouvidos pela CNN e pela Vox ressaltaram que aquelas pessoas estavam sob grande pressão por conta do trabalho durante a pandemia. Todas elas haviam sido diagnosticadas com covid-19 na ocasião do incidente. Por isso, há também a possibilidade de terem se suicidado.

Contexto

O assassinato do pesquisador ocorre em um momento de significativa tensão nas relações entre os Estados Unidos e a China a respeito de responsabilidades sobre a pandemia do novo coronavírus.

A animosidade teve um desdobramento importante na terça-feira, 19 de maio, quando o governo de Donald Trump ameaçou cortar o financiamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) em virtude da acusação de que a entidade teria favorecido a China e ignorado alertas a respeito do início da pandemia do novo coronavírus.

Páginas e contas em redes sociais que apoiam Trump têm divulgado teorias conspiratórias sobre o novo coronavírus, o que, como destacado acima, tem fomentado uma série de boatos a respeito da pandemia.

Mesmo com as declarações das autoridades policiais norte-americanas, grande parte dos mais de 113 comentários feitos no post publicado na página do Departamento de Polícia de Ross desconfia da morte de um pesquisador envolvido com estudos sobre o novo coronavírus.

As dúvidas se repetem nos comentários de publicações aqui no Brasil, no momento em que a pandemia alimenta um debate político sobre a necessidades de políticas de distanciamento social e o uso de medicamentos, como a cloroquina.

Soma-se à discussão o racismo que envolve muito do que é dito a respeito do novo coronavírus. O Comprova já desmentiu boatos de que o vírus teria sido fabricado por laboratórios na China em mais de uma ocasião. Como no caso de Liu vítima e assassino são de origem chinesa, as especulações sobre a “morte misteriosa” aumentam. Ao se referir ao SARS-CoV-2 como “coronavírus chinês”, o texto publicado pelo site Conexão Política reforça esse viés preconceituoso.

Alcance

O texto foi publicado pelo Conexão Política e divulgado pelas redes sociais do site de direita. Até o dia 20 de maio, data de publicação desta verificação, o conteúdo teve 2,7 mil interações. No Twitter, foram 6,1 mil curtidas. Um dos editores da página, Davy Albuquerque, também divulgou o link para o texto em seu perfil pessoal no Twitter, com 5,6 mil curtidas.

O maior engajamento aconteceu no Instagram, com mais de 21,3 mil curtidas. O perfil Direita Oficial também compartilhou uma imagem com o título do texto no Instagram e teve 1,7 mil curtidas.

Verificação

Investigado por:2020-05-20

Texto engana ao afirmar que autópsias na Itália teriam indicado que ‘problema principal não era o coronavírus’

  • Enganoso
Enganoso
Estudos em hospitais de Bérgamo e Milão sugerem terapia adicional com anticoagulantes para evitar trombose, mas não há comprovação de que esta seja a única causa de morte e nem que tratamento possa ser feito em casa

Texto em circulação nas redes sociais engana ao afirmar que autópsias realizadas em Bérgamo, na Itália, teriam indicado que “o problema principal não era o coronavírus”, em referência à causa da morte dos pacientes por covid-19. A publicação diz também que “a cura já foi encontrada”. O conteúdo mistura informações verdadeiras com outras falsas ou sem sustentação científica para sugerir aos leitores que os óbitos estariam relacionados apenas com um distúrbio na circulação sanguínea, a ser tratado em casa.

O conteúdo foi publicado pelo site Oriundi.net e é a tradução de um texto em italiano assinado por Cesare Sacchetti em blog pessoal. O autor afirma que “a comunidade médico-científica” chegou a essas conclusões após serem realizadas 50 autópsias no Hospital Papa Giovanni XXIII, em Bérgamo, e 20 no Hospital Luigi Sacco, em Milão.

Com base em declarações de um médico chamado Giampaolo Palma em post no Facebook, o texto expõe a teoria de que a covid-19 mata em razão da “microtrombose venosa” no organismo — obstrução de veias por pequenos coágulos que se formam em resposta à infecção — e que só depois o vírus agrediria os pulmões. Por esse ponto de vista, tanto o diagnóstico quanto o tratamento da doença estariam errados. Esse não é o entendimento dos órgãos de saúde até o momento.

Apesar de existirem resultados promissores em pesquisas com anticoagulantes no tratamento de pacientes com covid-19, ainda não é possível dizer que essa é a “cura”, como aponta o texto, nem que os pacientes podem ser tratados em casa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde afirmam que ainda não há medicamento com eficácia comprovada para tratamento ou prevenção da doença. Pacientes com sintomas graves devem receber suporte médico em hospitais.

O próprio diretor do departamento de anatomia patológica do Papa Giovanni XXIII, Andrea Gianatti, responsável pelas autópsias no hospital de Bérgamo, afirma que esse tipo de terapia “parece absolutamente útil” como complemento a outras, mas é cauteloso ao analisar os resultados. “Estamos ainda na fase de definição, isto é, ainda não existem certezas”, comentou em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, publicada em 7 de maio.

Gianatti também contrapõe o argumento presente no texto de que “o coronavírus não ataca os pulmões primeiro, mas afeta principalmente os vasos sanguíneos, impedindo o fluxo regular de sangue” e de que bastaria resolver o problema para prevenir a letalidade. Ao Corriere della Sera, o patologista relatou que a trombose nos pacientes analisados “geralmente ocorreu após a fase mais aguda da pneumonia, isto é, depois dos sintomas mais típicos causados pelo coronavírus”. Ou seja, mesmo quando a anomalia está presente, os pacientes ainda precisam de outros cuidados, considerando que a trombose não é a única complicação possível da doença.

O Comprova pediu a opinião de outros dois especialistas sobre o assunto. Para a pneumologista do Hospital Sírio-Libanês e livre docente da Universidade de São Paulo (USP) Elnara Marcia Negri, a formação descontrolada de coágulos que podem obstruir as veias e levar à morte está associada a uma “tempestade inflamatória” no organismo, causada após a entrada do vírus pelo sistema respiratório e a sua agressão a estruturas dos pulmões. A médica afirma que, em alguns casos, a causa da morte realmente é a insuficiência respiratória em razão da trombose, mas esta não é a única causa, nem a principal.

Pedro Silvio Farsky, cardiologista do Hospital Albert Einstein e do Instituto Dante Pazzanese, relata o mesmo mecanismo de ação, mas faz a ressalva: “Tudo isso é objeto de grande pesquisa, e os mecanismos exatos ainda estão por ser elucidados”. Quanto à hipótese de que a incidência de trombose nos pacientes seria anterior a complicações como a pneumonia — e que resolvê-la “curaria” os pacientes — o médico considera a teoria ainda “pouco provável”. “Não me parece lógico, especialmente porque vemos alterações radiológicas acometendo o pulmão sem que tenha aumento no dímero D (resultado da degradação de fibrina, um marcador de trombose)”.

O Comprova também entrou em contato, por e-mail, com Andrea Gianatti, do Papa Giovanni XXIII. Gianatti respondeu que eram “apenas boatos” e que as informações corretas constam em relatório preliminar (preprint) que está sendo revisado para publicação na revista Lancet.

O texto do Oriundi.net ainda traz uma série de afirmações duvidosas, como a de que os ventiladores mecânicos “pioraram as coisas”, e insinuações de que a pandemia seria uma “operação de terrorismo psicológico” motivada por interesses políticos. Em outro trecho, o boato alega que a imunização contra o novo coronavírus “seria completamente desnecessária e potencialmente prejudicial”, ao distorcer resultados de estudo científico anterior à pandemia de covid-19.

Por que checamos isto?

O Comprova faz verificações que atinjam grande número de compartilhamentos nas rede sociais, caso deste conteúdo, que registrou mais de 33 mil interações no Facebook. Esta verificação foi realizada pelo Comprova pois ela se insere na disputa política que se instalou no Brasil diante da pandemia. Sites e pessoas apoiadores do presidente da República, Jair Bolsonaro, têm utilizado diferentes artifícios para tentar minimizar os problemas provocados pelo novo coronavírus, bem como para propagar a ideia de que uma cura para a doença é iminente.

Nas últimas semanas, o Comprova verificou diversos conteúdos nessa linha, como o boato de que caixões vazios estavam sendo enterrados em Manaus e outro segundo o qual os números de óbitos registrados em cartório colocariam em dúvida o número de mortes divulgadas. Também circulou a mensagem de que a rotina de enterros em um cemitério de São Paulo estava normal, o que não é verdade.

O Comprova também mostrou que uma descoberta de pesquisadores israelenses não significa, ao menos por enquanto, a cura para a covid-19 e que informações sobre um protocolo de tratamento no Piauí foram deturpadas para insuflar a ideia de que curar a doença é simples.

A distribuição desse tipo de conteúdo é um desdobramento da disputa a respeito das medidas de isolamento social. Bolsonaro é contrário a essas medidas, enquanto os governadores, que seguem as recomendações das autoridades sanitárias e da Organização Mundial da Saúde, continuam impondo tais ações.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Como verificamos?

O Comprova realizou essa checagem por meio de pesquisas a artigos científicos e outras fontes confiáveis da área médica, leitura de reportagens jornalísticas e entrevistas com especialistas.

A primeira ação foi identificar a origem do boato. O texto no site Oriundi.net tinha a indicação de autoria de “Cesare Sacchetti” com o nome do blog “La cruna dell’ago” (“O olho da agulha”, em tradução livre) no rodapé da página. Ao encontrar o texto na internet, observamos que o artigo em português era apenas uma tradução do conteúdo e que o boato já circulava na Itália antes de chegar a sites brasileiros.

Feita a leitura do texto, o Comprova elencou uma série de informações duvidosas presentes e pesquisou sobre cada uma delas, incluindo as supostas declarações dos médicos Giampaolo Palma e Cameron Kyle-Sidell. A reportagem encontrou post no Facebook de Giampaolo Palma, publicado em 9 de abril, e vídeo no YouTube de Cameron Kyle-Sidell, de 31 de março, sobre o assunto.

Ao buscar informações sobre autópsias de pacientes de covid-19 na Itália, o Comprova chegou a artigo da Nature que apontava o médico Andrea Gianatti como uma das lideranças da área no Hospital Papa Giovanni XXIII. A reportagem encontrou o e-mail do médico em um artigo divulgado na plataforma medRxiv e entrou em contato pedindo esclarecimentos.

Em meio a pesquisa pelo nome, também foi analisada reportagem do jornal Corriere della Sera com declarações de Gianatti, que informava sobre preprint em análise pela Lancet. O Comprova encontrou o relatório preliminar e verificou os resultados obtidos.

Por fim, o Comprova pediu a opinião de dois médicos brasileiros que já haviam comentado sobre o aumento de coágulos em pacientes com covid-19 em reportagem e verificação recentes. A conversa ocorreu por mensagens e telefone.

Qual a relação da covid-19 com a trombose?

Uma série de estudos científicos vêm alertando para o risco de pacientes de covid-19 desenvolverem trombose, problema que consiste na formação de coágulos que obstruem os vasos sanguíneos. A situação motivou médicos do mundo inteiro a introduzirem terapia com anticoagulantes, além de estudos clínicos e in vitro com medicamentos como a heparina.

Uma das pesquisas, feita no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, foi abordada em artigo recente da Science. Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) descobriram, em outra experiência, que a heparina reduziu em 70% a infecção de células provenientes do rim do macaco-verde africano em laboratório.

No entanto, a relação entre a covid-19 e a trombose ainda não está clara para os cientistas. Uma das possibilidades levantadas é de que, para entrar no corpo humano, o novo coronavírus utiliza receptores chamados de ACE2, que geralmente são encontrados no endotélio, espécie de tecido que reveste vasos sanguíneos e a parte interna do coração que influencia o controle da coagulação no sangue.

Outra teoria afirma que o aumento da coagulação pode ser resultado de uma resposta inflamatória excessiva do organismo à infecção. Ela ocorreria a partir de uma “tempestade de citocinas”, proteínas conhecidas por enviarem mensagens às células e modularem o ataque organizado pelo sistema imunológico ao vírus.

Autópsias de Bérgamo

O texto enganoso de Cesare Sacchetti afirma, por outro lado, que autópsias realizadas na Itália apontam para a “cura” da doença e que a periculosidade do novo coronavírus “basicamente desapareceu” com a descoberta, o que não é verdade, segundo instituições de referência como a OMS. O autor também sugere que a principal causa de morte dos pacientes “não é o coronavírus” — o que é impreciso, no mínimo, diante do fato de que é a infecção viral que gera as complicações nos pacientes.

Apoiado na opinião do médico cardiologista italiano Giampaolo Palma em post no Facebook, o autor afirma que os pacientes devem ser tratados em casa, com remédios, dispensando suporte hospitalar. Porém, a tromboembolia não é a única complicação presente nos casos graves de covid-19 que necessita de tratamento. “Essa doença pode atacar quase tudo no corpo com consequências devastadoras”, disse o cardiologista da Universidade de Yale Harlan Krumholz à revista científica americana Science.

O Comprova encontrou dois artigos científicos com resultados de autópsias nos hospitais Papa Giovanni XXIII, de Bérgamo, e Luigi Sacco, de Milão. O primeiro foi publicado em 22 de abril na plataforma medRxiv (sem revisão por pares) e apresenta relatório de 38 casos. O segundo é de 6 de maio e foi baseado na análise de 35 pessoas que morreram no Papa Giovanni XXIII — é este que está com revisão pendente para publicação na Lancet.

A primeira pesquisa mostra que 33 vítimas (86%) nesses dois hospitais apresentaram coágulos em pequenos vasos sanguíneos nos pulmões, o que poderia explicar a falta de oxigênio no sangue dos pacientes. “Nossos dados apoiam fortemente a hipótese proposta por estudos clínicos recentes de que a covid-19 é complicada ou está, de alguma forma, estritamente relacionada com coagulopatia (distúrbios na coagulação) e trombose”, escrevem os pesquisadores. “Por essas razões, o uso de anticoagulantes foi recentemente sugerido como potencialmente benéfico para pacientes em quadros graves, ainda que a eficácia e segurança ainda não esteja demonstrada.”

Já o segundo artigo aponta que foram feitas 75 autópsias em pacientes com covid-19 no Papa Giovanni XXIII entre 19 de março e 9 de abril. Foram considerados 35 análises para o estudo. Destes, 10 (29%) foram diagnosticados com eventos tromboembólicos ainda no hospital durante o tratamento. Na autópsia, todos apresentavam tromboses em três ou mais órgãos, principalmente pulmões, coração, rins e fígado.

O preprint destaca que esse problema pode ser ocasionado por diferentes processos patológicos, como a coagulação intravascular disseminada (CID), mas todas as hipóteses propostas foram descartadas com base no histórico hospitalar ou em testes posteriores. Os autores concluem que é difícil categorizar esses eventos trombóticos em doenças convencionais, mas que a condição pode estar sendo subestimada nos hospitais.

No entanto, em nenhum momento, nos dois artigos, os pesquisadores afirmam que encontraram a “cura” da covid-19 ou que os resultados mostram que o perigo da doença não está mais presente. Tampouco apontam que os pacientes poderiam ser tratados em casa, sem a necessidade de internações, como defende o boato.

Respiradores são inúteis?

Em outro trecho, o texto argumenta que o uso de respiradores artificiais é inútil e prejudicaria os pacientes, citando declarações do médico Cameron Kyle-Sidell, do Maimonides Medical Center, de Nova York. No entanto, apesar de realmente estar ocorrendo uma discussão sobre a eficácia do equipamento, não é possível afirmar que os itens são dispensáveis. Em muitos casos, são a única maneira de manter vivo um paciente com perda da função respiratória.

De fato, Kyle-Sidell afirmou, em vídeo no YouTube, que os ventiladores mecânicos poderiam “estar causando mais danos do que ajudando os pacientes de covid-19” e que acreditava estar “tratando a doença errada” nas unidades de tratamento intensivo. O texto omite, porém, que o médico declarou a seguir que não é possível abrir mão dos respiradores no suporte aos pacientes em estado crítico. “Nós, com certeza, precisamos de ventiladores. Eles são a única maneira, até o momento, de dar um pouco mais de oxigênio para aqueles pacientes que precisam”, afirma.

De acordo com reportagem da revista Time, existe um “debate acalorado” sobre a utilização de respiradores artificiais na comunidade médica, que está ligado a dados de eficiência do método. Enquanto para outras síndromes respiratórias graves a taxa de recuperação após esse tipo de suporte invasivo está em torno de 50%, estudos na China, em Nova York e no Reino Unido apontam que a covid-19 leva a óbito de 66% a 80% dos pacientes que passam pelo procedimento.

Por outro lado, alguns especialistas acreditam que esses percentuais podem estar sendo afetados por outros fatores, como a pressão sobre as unidades hospitalares. A ventilação mecânica pode estar sendo utilizada muito cedo, quando outros métodos menos invasivos poderiam funcionar, ou os hospitais podem estar destinando profissionais menos treinados para a função diante do cenário caótico, por exemplo. Outro apontamento diz respeito aos grupos de risco da doença, como idosos, que tendem a reagir pior a esse tipo de procedimento.

Vacinas aumentam o risco de infecção?

No final do texto, Sacchetti afirma que um “estudo científico do Pentágono relatou que as vacinas aumentam o risco de infecção por coronavírus em 36%” para dizer que não há mais necessidade de vacina contra o Sars-Cov-2 e que esta seria “potencialmente prejudicial”. Esse boato foi desmentido recentemente pelo FactCheck.org, projeto do Centro de Políticas Públicas Annenberg da Universidade da Pensilvânia.

De acordo com a verificação, o boato começou a circular após uma postagem da organização Children’s Health Defense, fundada por Robert F. Kennedy Jr., conhecido pelo ceticismo sobre vacinas. O estudo citado foi realizado pelo setor de vigilância das Forças Armadas dos Estados Unidos e traz dados de 2017 e 2018, portanto, antes do surgimento do novo coronavírus.

A tese é que a vacinação contra a influenza pode aumentar o risco de infecção por outros vírus respiratórios, em um processo chamado de “interferência viral”. Porém, não há consenso entre o meio científico, pois outras pesquisas indicaram que essa relação não existe. De qualquer forma, não é correto estender as conclusões para o Sars-Cov-2 — a pesquisa envolveu outros tipos de coronavírus.

Em resposta ao FactCheck.org, o Sistema de Saúde Militar dos Estados Unidos declarou que estudo utiliza informações coletadas dois anos antes do surgimento da covid-19 e que a pesquisa “não mostra ou sugere que a vacinação contra a influenza predispõe, de qualquer maneira, o potencial para infecções por formas mais severas de coronavírus, como a covid-19”. Para a instituição, “continua sendo essencial que as pessoas obtenham a vacina sazonal contra a gripe a cada ano, assim que ela se torna disponível”.

Origem do boato

O texto original foi publicado, em italiano, no blog “La cruna dell’ago” (“O olho da agulha”, em tradução livre), no dia 25 de abril. O autor é Cesare Sacchetti, que se descreve no Twitter como um “jornalista politicamente incorreto”. O blog tem como proposta publicar “notícias e opiniões” que desviem “da linha de mídia dominante em favor da ideologia globalista e imigratória”. O conteúdo enganoso passou a circular no Brasil após ser traduzido e divulgado pelo site Oriundi.net, lançado em 2003. O site se apresenta como uma “revista digital sobre a Itália e a cultura italiana”.

Contexto

Conteúdos que tentam minimizar os efeitos da pandemia de covid-19 têm sido compartilhados à exaustão por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Esses textos, fotos e imagens são parte da disputa política entre Bolsonaro e os governadores estaduais a respeito de como lidar com o novo coronavírus. O grande ponto de contenção são as medidas de isolamento social, aplicadas pelos governos, mas criticadas por Bolsonaro. Assim como os conteúdos que minimizam a pandemia, têm circulado diversos materiais que apontam para uma suposta ineficácia de medidas de distanciamento.

Recentemente, o Comprova verificou, por exemplo, um texto que afirmava, enganosamente, que dados de Nova York apontariam para riscos maiores de infecção caso as pessoas cumprissem as medidas. Também foram verificados um artigo que exagerava as falas de um médico alemão e um vídeo que inventava uma crítica do médico David Uip às políticas de isolamento social aplicadas em São Paulo.

Alcance

O link do site verificado pelo Comprova teve, até 20 de maio, mais de 36 mil interações no Facebook de acordo com a ferramenta de monitoramento de redes sociais CrowdTangle. O link foi postado pela página Aliança pelo Brasil e em um grupo que homenageia Alexandre Garcia.

Verificação

Investigado por:2020-05-18

Site exagera falas de médico alemão sobre medidas rígidas contra o novo coronavírus

  • Enganoso
Enganoso
Frase atribuída a médico alemão em site brasileiro não foi dita de forma literal pelo pesquisador. Ele fala, na verdade, sobre como as medidas mais rígidas de contenção à doença afetam outros setores da vida da sociedade, mas também não diz ser contra a quarentena

O título de um artigo publicado no site Conexão Política com a tradução de uma entrevista do médico alemão Gérard Krause tem confundido as pessoas ao atribuir a frase “Medidas de bloqueio matam mais que o próprio coronavírus” ao especialista sem considerar o contexto em que ela foi dita. O conteúdo viralizou no Facebook na última semana.

O texto publicado no dia 13 de maio é baseado em entrevista dada por Gérard Krause em 29 de março ao canal de televisão alemão ZDF. No conteúdo original, o médico falou sobre o combate à covid-19 na Alemanha, dizendo que as medidas prolongadas de isolamento rígido podem causar outras doenças, como as mentais, e mortes na população.

“Temos que manter essas medidas sociais sérias o mais curtas e menores possível, porque elas podem causar mais doenças e mortes do que o próprio coronavírus”, disse Krause, ressaltando que é preciso considerar o impacto da covid-19 em outras áreas da sociedade e não apenas nas vítimas do novo coronavírus.

Na entrevista original, Krause defende que as medidas de isolamento sejam empregadas pelo menor tempo possível, considerando atenção especial ao grupo de risco e a outras áreas da sociedade, como a área econômica. No entanto, não se diz contra a quarentena. O médico alemão propõe uma organização “para que aconteça um afrouxamento cedo e com cautela ao mesmo tempo”.

O Comprova tentou contato com Gérard Krause por e-mail, mas o médico não retornou até a publicação do texto.

Por que investigamos isso?

O Comprova fez esta verificação porque ela diz respeito a um dos temas que tem gerado mais comoção durante a pandemia: a aplicação e a extensão das medidas de isolamento social como forma de mitigar os efeitos do novo coronavírus.

No Brasil, este debate tem sido protagonizado pelo presidente Jair Bolsonaro, que defende firmemente a retomada de diversas atividades econômicas. Essa proposta é rechaçada por autoridades sanitárias, uma vez que poderia ampliar a contaminação pelo vírus e levar ao colapso dos sistemas de saúde. Assim, governos estaduais estão adotando o isolamento social como uma medida central nas políticas públicas contra a pandemia.

O conteúdo sobre as falas do médico alemão se junta a diversos outros que têm sido espalhados para reforçar o posicionamento de Bolsonaro. São, muitas vezes, textos que trazem frases ou fatos fora de contexto ou deturpados para criticar as políticas de isolamento social.

Foi o caso, por exemplo, de um texto que, enganosamente, tentou fazer o público crer que a Organização Mundial da Saúde (OMS) era contrária ao isolamento, o que não é verdade. Foi, também, o caso de um vídeo com declarações do governador de Nova Iorque , nos Estados Unidos, que tentava indicar que o distanciamento social seria prejudicial por, supostamente, facilitar infecções – isso também não é verdade.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor.

Como verificamos?

Acessamos a entrevista original, concedida por Krause ao canal ZDF, para comparar com a versão em português publicada pelo site Conexão Política.

Em seguida, buscamos notas técnicas e estudos divulgados pelos pesquisadores do Centro de Pesquisas de Infecções Helmholtz, onde Krause trabalha, e pela Organização Mundial da Saúde.

Matérias jornalísticas publicadas desde o início da pandemia também serviram de base para a apuração do Comprova.

Verificação

O médico Gérard Krause concedeu entrevista ao canal alemão ZDF, em 29 de março, sobre as medidas de combate ao novo coronavírus no país, e se mostrou a favor de que as medidas rígidas de isolamento social, adotadas para diminuir a taxa de transmissão da doença e não sobrecarregar hospitais, sejam coordenadas para que possam durar o menor tempo possível, de modo que áreas como a economia não sejam tão afetadas.

A Alemanha adotou o lockdown em 22 de março e começou, nas últimas semanas, uma reabertura cautelosa do isolamento obrigatório. O país tem um dos números de mortes mais baixos entre os locais com mais casos confirmados de covid-19, 7.988 até o dia 18 de maio. Inclusive menor que o do Brasil, com 16.196 em 18 de maio.

A entrevista foi parcialmente traduzida para o português pelo site Conexão Política e publicada com um título mais incisivo do que o tom adotado pelo médico alemão. A frase “medidas de bloqueio matam mais que o próprio coronavírus” não foi dita de forma literal pelo médico, que fala, na verdade, sobre como as medidas mais rígidas de contenção à doença afetam outros setores da vida da sociedade.

Krause não se mostra a favor de medidas rígidas de isolamento, mas também não diz ser contra a quarentena. Ele defende um “afrouxamento precoce”, porque acredita que essas restrições por um período muito longo podem gerar impactos que vão além dos causados pela própria doença.

Ao longo da entrevista original, Krause ressaltou que é necessário ter cautela ao mesmo tempo em que as medidas são afrouxadas e admite que, mesmo protegendo grupos de risco, “ainda haverá doenças e mortes entre os jovens”. Também afirmou que é preciso continuar estudando a doença paralelamente às medidas de isolamento porque “isso ajudará a reduzir essas medidas muito gerais e a fortalecer e manter as medidas focadas e direcionadas”.

Segundo ele, a preocupação vai além da área da saúde. Para o médico, entre as outras consequências preocupantes, está a crise econômica e doenças mentais que podem ser causadas pelo isolamento prolongado.

“Sabemos que o desemprego, por exemplo, causa doenças e até aumento da mortalidade. Também pode levar as pessoas ao suicídio. Restringir a liberdade de circulação provavelmente terá um impacto negativo adicional para a saúde pública. Não é tão fácil calcular essas consequências diretamente, mas elas ainda acontecem e podem ser mais graves do que as consequências das próprias infecções”, falou na entrevista.

Quem é Gérard Krause

O médico Gérard Krause ocupa, há 20 anos, o cargo de chefe do Departamento de Epidemiologia do Centro de Pesquisas de Infecções Helmholtz, uma das maiores instituições acadêmicas direcionadas exclusivamente a pesquisas de infecções da Alemanha. De acordo com o currículo de Krause apresentado na ResearchGate, uma rede social de pesquisadores e profissionais da área da ciência, sua pesquisa é focada no desenvolvimento da cibermedicina e estudos de eficácia para intervenções de saúde pública na área de doenças infecciosas.

Para Krause, as medidas de isolamento social adotadas por países atingidos pela pandemia devem ser eficazes e impostas com menor duração possível para que os impactos em outras áreas, como a econômica, sejam minimizados. Ele ressalta, no entanto, que é preciso preparar o sistema de saúde e ficar atento aos grupos de risco. Sua visão é totalmente focada no caso da Alemanha.

O Helmholtz, no entanto, publicou um pronunciamento em 13 de abril, no qual afirma que as medidas rígidas de distanciamento social adotadas na Alemanha desde março foram determinantes para a diminuição das taxas de transmissão do novo coronavírus no país e que é preciso cautela no processo de reabertura.

O Comprova escreveu e-mails para Krause e para a assessoria de imprensa do Helmholtz, mas não teve retorno.

Gérard Krause coordena três projetos de combate à pandemia. O primeiro, e o mais conhecido, trata de testes de anticorpos para detectar quem já foi infectado e possui defesa contra a covid-19 e, por isso, pode voltar a exercer suas atividades normalmente. A ideia do projeto é que as pessoas, principalmente os profissionais essenciais como médicos e enfermeiros, retornem o mais rápido possível à linha de frente de combate após terem adquirido a doença, com uma espécie de “passaporte de imunidade”. Ele propõe uma testagem em massa para detectar quem já tem anticorpos, para que essas pessoas sejam liberadas das medidas restritivas. Atualmente, a Alemanha registra mais de 150 mil recuperados de covid-19.

O segundo projeto é a utilização de um aplicativo criado em 2014, chamado de SORMAS, para controle de doenças e avaliação de riscos. No caso da pandemia, o aplicativo permite a detecção precoce de casos e monitoramento das pessoas infectadas e daquelas que tiveram contato com elas. O aplicativo gera dados em tempo real para que sejam avaliados os riscos nas regiões onde está sendo usado.

Por fim, o médico faz parte do projeto de cooperação europeu para aumentar a comunicação entre países no que se refere a informações clínicas, epidemiológicas e imunológicas sobre a pandemia. A iniciativa também tem pesquisadores da Holanda, Suíça e países de fora da Europa como a China. O foco é colher dados para que sejam avaliadas as medidas tomadas contra o novo coronavírus e sua disseminação.

O “passaporte de imunidade” e o que pensa o centro de pesquisas do qual ele faz parte

A ideia de um “passaporte de imunidade”, concedido às pessoas que já se infectaram pelo novo coronavírus e possuem, depois de curadas, anticorpos contra a doença, começou a ser discutida no mundo no final de março. Na época, foi lançado na Alemanha, pelo instituto Helmholtz, um estudo sobre a abrangência da imunização ao novo coronavírus. O Dr. Gérard Krause estava entre os participantes da pesquisa.

Em 23 de abril, o Instituto publicou uma atualização das ações que estavam sendo realizadas naquele momento pelos pesquisadores, e a imunidade de quem já teve covid-19 é um dos objetos de estudo. Segundo a publicação, uma das ideias seria identificar indivíduos para quem as restrições a viagens e atividades poderiam ser suspensas — basicamente o que propõe o chamado “passaporte de imunidade”.

A Organização Mundial da Saúde publicou, em 24 de abril, um comunicado sobre os tais passaportes. Para a OMS, não existem evidências suficientes para garantir que as pessoas que se recuperaram da infecção pelo novo coronavírus e possuem anticorpos estão imunes a uma segunda contaminação.

“Muitos países estão agora testando para os anticorpos da SARS-CoV-2 em toda a população ou grupos específicos, como profissionais da saúde […]. A OMS apoia esses estudos, que são cruciais para o entendimento da extensão — e os fatores de risco associados — da infecção. Esses estudos vão fornecer dados sobre porcentagem de pessoas com anticorpos detectáveis da covid-19, mas a maioria não foi criada para determinar se essas pessoas são imunes a infecções secundárias”, diz o comunicado, em tradução livre.

Em meio ao anúncio de gradual reabertura da Alemanha nas últimas semanas, o Centro de Pesquisas Helmholtz, do qual Gérard Krause é pesquisador, soltou um posicionamento em 13 de maio juntamente com o Ifo Institute, que gerencia pesquisas na área econômica, defendendo a abertura limitada do país após o sucesso das medidas de isolamento. Ou seja, oficialmente, a entidade é cautelosa sobre o relaxamento das medidas restritivas em favor da economia e alerta que uma abertura rápida no curto prazo pode aumentar custos gerais e prolongar a fase de restrições.

É do interesse comum de nossa saúde e da economia ser cautelosos em relaxar as restrições e monitorar de perto como as taxas de infecção se desenvolvem”, diz um trecho do comunicado, se referindo ao número R, que determina o potencial de propagação do novo coronavírus. Se o número foi superior a um, significa que cada contaminado é capaz de transmitir a doença para pelo menos mais uma pessoa.

“Se as restrições em vigor até 20 de abril de 2020 forem mantidas, o número previsto de mortes adicionais será de 5 mil. Esse número diminui apenas um pouco em um número baixo de reprodução, mas aumenta acentuadamente a uma taxa de 0,9 ou mais, atingindo mais de 20.000 mortes adicionais a 1,0”, ressalta o texto.

Contexto

O texto sobre o médico alemão circula em meio à crescente tensão entre Jair Bolsonaro e os governadores a respeito do isolamento social. O presidente da República tem defendido de maneira enfática o fim das medidas e a abertura da economia. Na quinta-feira 14, Bolsonaro reafirmou sua posição em um encontro com empresários. “O governo federal, se depender de nós, estava tudo aberto com isolamento vertical e ponto final”, afirmou Bolsonaro.

O “isolamento vertical” citado por Bolsonaro consiste na estratégia de resguardar apenas as pessoas mais suscetíveis ao coronavírus, liberando todas as outras para o trabalho: países como Holanda e o Reino Unido chegaram a implantar essas medidas, mas desistiram diante de estudos que indicam a possibilidade de essa medida ter efeitos catastróficos.

Na mesma reunião com empresários, Bolsonaro afirmou que a disputa a respeito do isolamento social “é guerra” e que o setor empresarial precisa “jogar pesado” com os governadores para reabrir todas as atividades econômicas.

Alcance

Publicado no dia 13 de maio, o texto enganoso a respeito das declarações do médico alemão teve mais de 87 mil interações no Facebook de acordo com a ferramenta de análise de dados CrowdTangle.